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possível um ser vivo levitar? Ao landa, em 1997 1-3. Nestes experi-


Humberto de Andrade Carmona
Universidade Estadual do Ceará, cidadão comum, a resposta a mentos levitou-se praticamente tudo
Campus do Itaperi essa pergunta está apenas nos que se tinha em mãos, de criaturas
Av. Paranjana, 1700 - Fortaleza, CE livros de ficção científica. No entanto, vivas como um sapo, gafanhoto, pe-
e-mail: carmona@uece.br a ciência e a tecnologia têm encontrado queno peixe, plantas até pequenos
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formas de fazer seres vivos levitarem. pedaços de pizza e água. Em 1991,
Alguns dispositivos utilizando Eric Beaugno e Robert Tournier, uti-
feixes de ar podem levar ao fenômeno. lizando o mesmo processo, levitaram
Por exemplo, um helicóptero, não que água e algumas substâncias orgâni-
ele seja um ser vivo, mas pode conter cas4. Chamaremos o processo de levi-
um. Outros dispositivos utilizam cam- tação utilizado nesses experimentos
pos magnéticos e materiais supercon- de levitação magnética.
dutores. Já há algum tempo, cientistas A Figura 1 mostra uma seqüên-
pensam no uso do magnetismo para cia fotográfica de um pequeno sapo
levitar veículos, seja utilizando ímãs levitando no centro de um solenóide.
permanentes ou supercondutores. Para obter levitação magnética é
Um supercondutor resfriado necessário um campo magnético com
com nitrogênio líquido, flutuando so- características especiais e com inten-
bre um ímã é uma imagem um tanto sidade relativamente alta. O objeto,
comum para a comunidade científica nesse caso o sapo, é colocado no centro
hoje em dia, e não surpreenderia um de um magneto do tipo Bitter, com
físico. Supercondutores são materiais diâmetro interno de 32 mm, como
diamagnéticos perfeitos e a expulsão mostra a Figura 2. Uma corrente
do campo magnético de seu interior elétrica de até 20 kA na bobina do
causa sua levitação. Já um pequeno magneto produz campos magnéticos
sapo, ou mesmo um morango, à tem- de até 20 Tesla. O conjunto de bobinas
peratura ambiente, levitando no do magneto é projetado de forma que
centro de um magneto, é uma ima- o campo magnético seja máximo e
gem menos comum. homogêneo no centro da bobina in-
Apesar de menos comum e sur- terna (região indicada pela letra A na
preendente, mostra-
remos neste artigo que
é possível levitar um
ser vivo. Cientistas,
entre eles o autor
deste artigo e o russo
Andrei Geim, realiza-
ram experimentos de
levitação de vários
Neste trabalho descreve-se um experimento materiais, no Labora-
mostrando que um ser vivo pode levitar. Longe
de precisar de ‘poderes extra-sensoriais’, a
tório de Altos Campos
levitação pode ser alcançada por meio de cam- Magnéticos (HFML)
pos eletromagnéticos. Vejamos como conseguir da Universidade Cató- Figura 1. Seqüência fotográfica de um pequeno sapo levitando
uma levitação magnética. lica de Nijmegen, Ho- no centro de um magneto de 20 Tesla.

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diz-se que os ticas não são assim tão fracas. Foi
átomos estão mag- possível observar a levitação de ma-
netizados pelo cam- teriais diamagnéticos com campos
po magnético exter- magnéticos de cerca de 10 T, relativa-
no. Como isso acon- mente comuns em laboratórios hoje
tece com todo em dia, apesar de não existirem na
átomo do material, época de Kelvin. Para mostrar que
esse, como um to- com esse valor de campo magnético é
do, passa a funcio- possível observar o fenômeno, preci-
nar como um ímã, samos de uma explicação um pouco
cujo campo mag- mais elaborada do que a dada ante-
nético aponta na di- riormente.
reção contrária* ao A quantidade que mede o tama-
Figura 2. Diagrama esquemático de um magneto Bitter. Uma campo externo. nho do campo magnético induzido em
corrente elétrica de até 20 kA atravessa uma bobina elétrica Quando se um material é a suscetibilidade mag-
de cobre, produzindo campos magnéticos de até 20 T. Um
tenta aproximar os nética χ, definida de forma que o cam-
sistema de resfriamento com água em alta pressão é usado
para que o cobre não se aqueça até a fusão. pólos iguais de dois po magnético induzido = (χ/µ0)V ,
ímãs, estes se repe- onde é o campo magnético externo,
Figura 2). Nas proximidades do topo lem. No caso do sapo, o pólo positivo V é o volume do material e µ0 é a sus-
da bobina interna (região indicada pela da campo externo também repele os cetibilidade magnética do vácuo. Para
letra B na Figura 2), o campo magné- pólos positivos de cada átomo mag- um material diamagnético, a susceti-
tico apresenta gradientes nas direções netizado do nosso material, uma vez bilidade magnética é menor que zero
axial e radial. Veremos mais tarde que que os campos são contrários. Quan- (χ < 0), indicando um campo indu-
esses gradientes são importantes para do essa força de repulsão é maior que zido com direção contrária ao campo
a observação do fenômeno de levitação. o peso do material, esse pode levitar. externo, enquanto para outros tipos de
Apesar de surpreendente, mes- Ora, se a explicação parece tão materiais magnéticos, como ferromag-
mo para alguns físicos, a levitação simples, por que surpreenderia mui- néticos e paramagnéticos, a susce-
estável de materiais comuns em nosso tos físicos? Acontece que o efeito do tibilidade magnética é maior que zero
dia-a-dia possui uma explicação sim- diamagnetismo dos materiais, ou seja, (χ > 0). Tomando a direção do eixo z
ples e se baseia em uma propriedade o tamanho do campo magnético como o eixo do magneto, a energia
intrínseca de muitos materiais cha- induzido é, em geral, muito pequeno. potencial desse material será:
mada diamagnetismo, que se refere ao O campo induzido em um material dia-
fato de que esses materiais têm a habi- magnético, como um sapo, por exem-
(1)
lidade de expelir um campo magnético plo, é cerca de um bilhão de vezes me-
externo. O diamagnetismo pode ser nor que o campo magnético de um ímã onde g é a aceleração da gravidade, ρ
entendido superficialmente da seguin- comum. Acredita-se, portanto, que seja é a densidade do material e z é a altura
te forma: como se sabe, toda matéria preciso um campo magnético externo do corpo. Para que o material flutue
no universo consiste de átomos, e ca- enorme para produzir um efeito como de forma estável a uma altura z em
da átomo possui elétrons em movi- a levitação. William Thomson, o Lord alguma posição é necessário que U
mento em torno de seu núcleo. Ao Kelvin, se referindo à levitação de tenha um ponto de mínimo6. A con-
colocar um átomo em um campo materiais diamagnéticos disse: “Será dição de equilíbrio é que a força,
magnético, os elétrons em movi- provavelmente impossível observar esse
mento em torno de seu fenômeno devi- (2)
Apesar de surpreendente, a
núcleo alteram seus do à impos-
levitação estável de
movimentos de forma a sibilidade de se seja nula. Na direção z, para que a for-
materiais comuns possui
se oporem a essa in- obter um ímã ça gravitacional seja compensada pela
uma explicação simples, e
fluência externa, ou suficientemente magnética, a equação 2 conduz a
se baseia em uma
seja, esses elétrons forte e uma
propriedade intrínseca de
criam seu próprio campo substância (3)
muitos materiais chamada
magnético de forma que diamagnética
diamagnetismo
cada átomo funciona suficiente- Vê-se, portanto, que para haver
como um pequeno ímã que aponta na mente leve, pois as forças (magnéticas) equilíbrio não basta um campo mag-
direção contrária ao campo são excessivamente fracas”5. nético com alta intensidade (χ para a
magnético aplicado. Nesta situação, Acontece que as forças magné- maioria dos materiais diamagnéticos

*Em alguns materiais, como o ferro, os átomos já se comportam naturalmente como ímãs, sendo essa propriedade predominante.
Esses materiais (chamados ferromagnéticos e paramagnéticos) ao invés de repelirem o campo externo, na verdade intensificam o
mesmo, sendo, então, atraídos por um imã.

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é pequeno), mas é preciso que este seja utilizando essa técnica, o que não
também não homogêneo (para mate- significa que podemos fazer tal expe-
riais diamagnéticos o campo deve rimento. O problema é conseguir um
diminuir de amplitude com a altura). campo magnético alto, em um volu-
A partir da equação 3 pode-se estimar me grande suficiente, para acomodar
o valor da amplitude do campo um ser humano. Além disso, o valor
necessário para levitar um material. de campo externo para conseguir B∂B/
Para isso, tome-se como exemplo a ∂z suficientemente grande para levitar
água como material diamagnético: um ser humano aumenta com o vol-
para a água 7 χ = -8,8 x 10 -6, e ume da região. De acordo com
tomando ρ = 1000 kg/m3, tem-se desenhistas de magnetos do National
B∂B/∂z = -1400,9 T2 m-1. A Figura 3 High Magnetic Field Laboratory3 em
Tallahassee, Flórida, com a tecnologia
mostra o perfil da magnitude do cam-
atual pode-se acomodar objetos de até
po magnético com a altura z para o
15 cm.
magneto esquematizado na Figura 1.
Figura 4. Levitação de uma porção de água Apesar de não poder levitar mag-
Da Figura 3 tem-se, na posição
pura. A forma arredondada da gota neticamente seres humanos, o fato de
z = 78 mm onde B = 0.63Bo, que a de- d’água é devido à ausência de uma força as forças magnética e gravitacional se
rivada do campo é ∂B/∂z = -8,15B0 m-1, resultante. cancelarem na escala atômica torna
do que é necessário um campo mag- possível que experimentos que neces-
nético central B0 = 16,5 T para obser- magnéticos. Isso significa que se tentar sitam de condições de microgravidade
var levitação. Esse valor está de acor- levitar um pequeno pedaço de ferro (devemos manter em mente que, como
do com o valor necessário para levitar usando ímãs, você poderá conseguir os objetos são finitos e as condições de
uma pequena quantidade de água com que este seja repelido, mas não B e ∂B/∂z variam espacialmente, em
mostrada na Figura 4. conseguirá fazê-lo flutuar estavel- algumas partes dos objetos as forças
Uma questão importante envol- mente, qualquer que seja o desenho ou magnética e gravitacional não se can-
ve a estabilidade do equilíbrio6. Para configuração dos ímãs que utilizar. celam exatamente) possam ser realiza-
que o equilíbrio seja estável a força A levitação estável de materiais dos aqui mesmo na Terra, mesmo com
dada pela equação (2) deve ser uma diamagnéticos pode parecer ainda organismos vivos complexos.
força restauradora, o que pode ser ex- mais surpreendente para os físicos, Quanto aos efeitos de altos cam-
presso matematicamente por pois aparentemente viola a restrição pos magnéticos em seres vivos, se al-
4
. Da equação (2) segue que, imposta pelo teorema de Earnshaw8 guém lendo esse artigo ficou preo-
que diz “não é possível atingir levitação cupado com efeitos adversos, sapos
estável de um objeto feito de cargas, são provavelmente muito pequenos.
(4)
magnetos e massas com uma configu- Em aplicações médicas, como em
Mas como não existem mono- ração fixa, com uma combinação qual- ressonância magnética nuclear, expe-
quer de forças magnetostáticas, ele- rimentos com voluntários mostram
polos magnéticos ( ) e como não
trostáticas e gravitacional’’. A prova que não há perigo na exposição a
existem correntes na região do centro campos magnéticos de até 4 Tesla9.
desse teorema é dada pela própria
do magneto ( ), pode-se mos-
equação (4), a energia potencial de
trar6 que ∇2B2 ≥ 0. Portanto, a equação uma amostra magnética (χ > 0), na
(4) implica que uma condição neces- presença de forças magnetostáticas, Referências Bibliográficas
sária para levitação estável é χ ser me- não pode apresentar um mínimo 1. Veja seção “Physics in Action” na Physics
nor que zero. Ou seja, levitação estável requerido para estabilidade. World, v. 10, n. 4, de abril de 1997, p. 28.
só pode ocorrer para materiais dia- 2. Veja seção “This Week” na New Scientist
Como vimos, apenas materiais 154 (2077) de 12 abril de 1997, p. 13.
diamagnéticos podem se livrar das 3. Geim, A.K. Physics Today, setembro
imposições representadas no teorema (1998).
4. Beaugnon, E.; Tournier, R. Nature 349,
de Earnshaw. A razão é que o diamag- 470 (1991).
netismo emerge do movimento dos 5. Thomson, W. (Lord Kelvin), Reprints
elétrons em torno do núcleo e, por- of Papers on Electrostatics and Magnetism,
tanto, o sistema não pode ser conside- MacMillan London, (1872).
6. Berry, M.V.; Geim, A.K. Eur. J. Phys.
rado como “cargas, magnetos e massas 18, 307 (1997).
com uma configuração fixa”. 7. Kaye, W.G.; Laby, T.H. Tables of
Uma vez que se crie a condição Physical and Chemical Constants, Longman,
London, (1973).
adequada de campo magnético, com
8. Earnshaw, S. Trans. Camb. Phil. Soc.
Figura 3. Amplitude do campo magnético intensidade e geometria apropriadas, 7, 97 (1842); W. T. Sott, Am. J. Phys. 27,
no eixo do magneto esquematizado na um ser vivo, portanto, pode levitar. Isso 418 (1959).
Figura 1. B0 é o valor da amplitude do significa que em princípio mesmo um 9. Schenck, J.F. Annals NY Acad. Sci 649,
285 (1992).
campo magnético no centro do magneto. ser humano poderia ser suspenso no ar

20 Levitação Magnética Física na Escola, v. 1, n. 1, 2000

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