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TEORIA DA HISTÓRIA

HISTÓRIA DO BRASIL 2
III
Janaína de Paula
Amanda
do Espírito
CieslakSanto
Kapp
Marco Aurélio
MarionMonteiro
Regina Stremel
Pereira
Rodrigo
Niltonci
Carneiro
Batista
dosChaves
Santos
Amanda Cieslak Kapp
Marion Regina Stremel
Niltonci Batista Chaves

História
Licenciatura em

HISTÓRIA DO BRASIL iIi

UEPG/NUTEAD
pONTA gROSSA / pARANÁ
2019
CRÉDITOS
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Kapp, Amanda Cieslak


K17h História do Brasil III/ Amanda Cieslak Kapp, Marion Regina
Stremel, Niltonci Batista Chaves. 2ª. reimpr. Ponta Grossa :
UEPG/NUTEAD, 2018.
89p. ; il..

Curso de Licenciatura em História. Universidade Estadual de


Ponta Grossa.
ISBN: 978.85.8024-160-0

1. República - Brasil. 2. Movimentos sociais. 3.Mudanças


políticas 4. Era Vargas - Brasil. I. Stremel, Marion Regina. II.
Chaves, Niltonci Batista. III. T.

CDD : 981.03

Ficha catalográfica elaborada por Maria Luzia F. Bertholino dos Santos– CRB9/986

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A Universidade Estadual de Ponta Grossa é uma instituição de ensino


superior estadual, democrática, pública e gratuita, que tem por missão
responder aos desafios contemporâneos, articulando o global com o local,
a qualidade científica e tecnológica com a qualidade social e cumprindo,
assim, o seu compromisso com a produção e difusão do conhecimento,
com a educação dos cidadãos e com o progresso da coletividade.
No contexto do ensino superior brasileiro, a UEPG se destaca tanto
nas atividades de ensino, como na pesquisa e na extensão Seus cursos
de graduação presenciais primam pela qualidade, como comprovam os
resultados do ENADE, exame nacional que avalia o desempenho dos
acadêmicos e a situa entre as melhores instituições do país.
A trajetória de sucesso, iniciada há mais de 40 anos, permitiu que
a UEPG se aventurasse também na educação a distância, modalidade
implantada na instituição no ano de 2000 e que, crescendo rapidamente,
vem conquistando uma posição de destaque no cenário nacional.
Atualmente, a UEPG é parceira do MEC/CAPES/FNED na execução
do programas Pró-Licenciatura e do Sistema Universidade Aberta do
Brasil e atua em 38 polos de apoio presencial, ofertando, diversos cursos
de graduação, extensão e pós-graduação a distância nos estados do
Paraná, Santa Cantarina e São Paulo.
Desse modo, a UEPG se coloca numa posição de vanguarda,
assumindo uma proposta educacional democratizante e qualitativamente
diferenciada e se afirmando definitivamente no domínio e disseminação
das tecnologias da informação e da comunicação.
Os nossos cursos e programas a distância apresentam a mesma
carga horária e o mesmo currículo dos cursos presenciais, mas se utilizam
de metodologias, mídias e materiais próprios da EaD que, além de serem
mais flexíveis e facilitarem o aprendizado, permitem constante interação
entre alunos, tutores, professores e coordenação.
Esperamos que você aproveite todos os recursos que oferecemos
para promover a sua aprendizagem e que tenha muito sucesso no curso
que está realizando.

A Coordenação
SUMÁRIO
■■ PALAVRAS Dos PROFESSORes7
■■ OBJETIVOS e ementa9

N o fim dos Oitocentos:


e a República chega ao Brasil 11
■■ SEÇÃO 1 - Introdução12
■■ SEÇÃO 2 - Os difíceis primeiros anos15
■■ SEÇÃO 3 - O povo – regeneração e saneamento18
■■ SEÇÃO 4 - Modernidade e civilidade a qualquer custo21

O s frementes anos 20: movimentos sociais e


mudanças políticas no Brasil  27
■■ SEÇÃO 1 - Introdução28
■■ SEÇÃO 2 - Os anos 20 como um divisor de águas29
■■ SEÇÃO 3 - A crise na República Velha32
■■ SEÇÃO 4 - A década de 30 como revolução – um debate historiográfico35

A Era Vargas (1930-1945) 


■■ SEÇÃO 1 - Introdução 42
41
■■ SEÇÃO 2 - O fortalecimento do Estado e do nacionalismo43
■■ SEÇÃO 3 - As três fases do “primeiro governo Vargas” 45
■■ SEÇÃO 4 - O modelo educacional – educar, sanear, reprimir52
■■ SEÇÃO 5 - Desenvolvimento industrial, urbano e social56

Vargas deixa o poder: o suicídio 


■■ SEÇÃO 1 - Introdução62
61
■■ SEÇÃO 2 - Dias contados para a ditadura de Vargas63
■■ SEÇÃO 3 - Eurico Gaspar Dutra – um intervalo para Vargas?68
■■ SEÇÃO 4 - O retorno70
■■ SEÇÃO 5 - O fim da vida e a entrada para a história73

■■ PALAVRAS FINAIS 79
■■ SUGESTÕES COMPLEMENTARES 81
■■ REFERÊNCIAS  83
■■ NOTA SOBRE OS AUTORES 89
PALAVRAS Dos PROFESSORes
Olá! Este é o livro da disciplina de História do Brasil III e nós o escrevemos para
que ele sirva como um roteiro básico para as discussões de nossa disciplina. Para que
você nos conheça, somos historiadores formados pela Universidade Estadual de Ponta
Grossa e a História do Brasil é a disciplina com que trabalhamos em nossas atividades
de docência e pesquisa.
O período republicano possui uma importância destacada na história brasileira
contemporânea e, por conta disso, tem sido investigado por inúmeros historiadores
(e outros cientistas sociais) – brasileiros ou estrangeiros – o que nos permite ampliar
nossas leituras, recortes e temas inseridos nessa fase.
Entre os trabalhos recentes destacamos os textos escritos por pesquisadores
brasileiros e estrangeiros como: Ângela Castro Gomes, Boris Fausto, Maria Helena
Capelatto, Claudio Bataglia, Robert Levine, Mônica Veloso, Maria Izilda Mattos, Jerry
D´Ávila, Sidney Chalhoub, Paulo Pinheiro Machado, Marco Antonio Villa, Frank
McCann, Lilia Schwarcz, Elias Saliba, José Murilo de Carvalho, Nicolau Sevcenko,
entre outros.
Imaginamos que você tenha a noção de que este livro é apenas o ponto de partida
para o estudo da história republicana brasileira e que, se você quiser efetivamente
saber mais a respeito dela, terá que se esforçar bastante para acompanhar as discussões
teórico-metodológicas e historiográficas presentes no universo acadêmico.
Nesse sentido, o que propomos é que você aproveite as informações aqui contidas,
busque conhecer e explorar ao máximo a historiografia atual, dialogue bastante com os
professores do curso, recorra aos textos disponíveis na internet e troque ideias com os
seus colegas pela plataforma do curso. Temos certeza de que, assim, você conhecerá
bem mais da história recente do nosso país, ou seja, da sua própria história.
Este livro se divide em quatro unidades que dão conta de discussões que vão dos
fins do século XIX – momento da proclamação da República – até meados do século
XX – quando ocorre o suicídio de Getúlio Vargas – e estão cronologicamente dispostas
para facilitar a sua compreensão dos acontecimentos.
Não esqueça de que tudo o que está contido neste exemplar deve servir como
o ponto de partida para que você aprofunde seus conhecimentos. Ao final, fizemos
questão de relacionar uma série de filmes e sites que podem contribuir com seus
estudos. Aproveite-os!
Então, a partir de agora é ler, refletir, discutir e ampliar seus conhecimentos!
Bom curso!
OBJETIVOS e ementa

Objetivo Geral
■■ Perceber que, ao longo de sua existência, a República brasileira possui fases
distintas.

Objetivos Específicos
■■ Compreender que os períodos republicanos, mais do que delimitações
temporais, possuem características políticas, econômicas e sociais próprias.
■■ Distinguir os períodos vivenciados pela República entre a sua formação e os
meados do século XX.
■■ Conhecer as diferentes abordagens historiográficas que discutem a
República brasileira.
■■ Notar permanências e rupturas existentes entre a República brasileira e os
períodos que a antecederam (Colônia e Império).

Ementa
■■ Análise historiográfica do processo histórico do Brasil republicano

Plano de Estudo
■■ Unidade I
No fim dos Oitocentos: e a República chega ao Brasil – 25%

■■ Unidade II
Os frementes anos 20: movimentos sociais e mudanças políticas no Brasil – 25%

■■ Unidade III
A Era Vargas (1930-1945) – 25%

■■ Unidade IV
Vargas deixa o poder: o suicídio – 25%
UNIDADE I
No fim dos oitocentos:
e a república chega ao Brasil

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
■■ Analisar o processo que levou ao final da Monarquia e à criação da República
no Brasil.
■■ Perceber que durante a primeira fase da República vários conceitos e
concepções a respeito do povo brasileiro foram debatidos publicamente.

Desafio da Unidade
■■ A partir das informações desta unidade, e com base em uma bibliografia de
apoio, produza um texto a respeito do nascimento da República brasileira.

ROTEIRO DE ESTUDO
■■ SEÇÃO 1 - Introdução

■■ SEÇÃO 2 - Os difíceis primeiros anos

■■ SEÇÃO 3 - O povo – regeneração e saneamento

■■ SEÇÃO 4 - Modernidade e civilidade a qualquer custo


Universidade Aberta do Brasil

PARA INÍCIO DE CONVERSA

Nesta unidade, você terá a oportunidade de refletir sobre o


processo de formação da República no Brasil, analisar os desafios
enfrentados por esse regime nos seus primórdios, perceber as
concepções de povo que circulavam no país naqueles tempos e também
o esforço republicano na busca pela modernidade.

seção 1
Introdução

Com o advento da Segunda Revolução Industrial, ocorrida a partir


de meados do século XIX, observou-se, nas sociedades ocidentais,
extraordinários avanços científicos e tecnológicos, que marcaram e
transformaram sobremaneira o modo de produção das indústrias e, por
consequência, a vida das pessoas.
Para o historiador Nicolau Sevcenko, a Segunda Revolução
Industrial, também denominada de Revolução Científico-Tecnológica,
cujo apogeu se deu em 1870, não representou apenas um desdobramento
ou continuação da Primeira, mas:

[...] de fato um salto enorme, tanto em termos qualitativos quanto quantitativos, em


relação à primeira manifestação da economia mecanizada. Resultando da aplicação
das mais recentes descobertas científicas aos processos produtivos, ela possibilitou o
desenvolvimento de novos potenciais energéticos, como a eletricidade e os derivados
do petróleo, dando assim origem a novos campos de exploração industrial, como os
altos-fornos, as indústrias químicas, novos ramos metalúrgicos, como os do alumínio,
do níquel, do cobre e dos aços especiais, além de desenvolvimentos nas áreas da
microbiologia, bacteriologia e da bioquímica, com efeitos dramáticos sobre a produção
e conservação de alimentos, ou na farmacologia, medicina, higiene e profilaxia, com
um impacto decisivo sobre o controle das moléstias, a natalidade e o prolongamento
da vida.1

____________________________________________________________________________________________
1 SEVCENKO, Nicolau (org.). História da Vida Privada no Brasil. República: da Belle Époque à Era
do Rádio. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 8,9.

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unidade II
História do Brasil III
Para entender a importância e o impacto de tais transformações,
basta que você pense no simples hábito diário de chegar em casa e
acender a luz. Nos nossos dias, tal ação é tão natural que dificilmente
paramos para pensar que nem sempre foi assim e que a luz elétrica e seus
derivados não são tão antigos. Na verdade, são produtos das complexas e
grandiosas mudanças que alteraram profundamente os modos de vida e
de significar o mundo.
É necessário que você perceba que tais transformações tecnológicas
e científicas foram acompanhadas pela consolidação e extensão do sistema
capitalista ao redor do mundo. A partir desse momento, as grandes nações
industrializadas se esforçaram em dominar as outras regiões do planeta
(África, Ásia e América do Sul). Entre seus principais objetivos estavam
a aplicação do seu capital excedente, a busca por matérias primas e o
desenvolvimento de um mercado consumidor para seus produtos.
A essa conjuntura de fortalecimento do capitalismo, de criação de
uma economia global única e de expansão política e econômica de uma
nação frente a outras, o historiador Eric Hobsbawn deu o nome de “Era
dos Impérios”2.
Nesse mesmo momento, o Brasil passava por várias modificações
internas, as quais, aliadas a esse cenário mundial, trariam grandes
mudanças, em todos os aspectos da sociedade.
Você já deve saber alguma coisa a respeito do longo governo de
mais de quatro décadas de D. Pedro II. Pois então, aproximadamente na
década de 1870, esse regime monárquico começou a dar sinais de sua
ruína.
Muitos acontecimentos marcaram o momento de crise da monarquia
e o desejo de implementação de um sistema republicano de governo
em nosso país. O lento e gradual processo de abolição da escravidão,
consolidado em 1889, representou o fim do apoio da elite proprietária de
escravos ao imperador.
O desejo dos ricos fazendeiros produtores de café do sudoeste de
tomar parte nas decisões políticas e econômicas, que seriam possíveis
com a implantação de um sistema federalista, deu forças ao movimento
republicano que vinha se formando.
Outro golpe contra a monarquia foi a participação do Brasil na
____________________________________________________________________________________________
2 HOBSBAWN, Eric. A Era dos Impérios (1875-1914). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003.

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unidade I
Universidade Aberta do Brasil

Guerra do Paraguai (1865-1870). Apesar da vitória, o endividamento do


Império foi estrondoso. E mais: o exército, que até então não tinha voz
e participação no governo, saiu fortalecido da guerra e convencido da
possibilidade e realidade da República.
Tais transformações, aliadas a expansão do sistema capitalista,
que definitivamente não poderia funcionar no sistema que vigorou
durante o Brasil Império, e a necessidade de desenvolvimento urgente
da ciência e da tecnologia em busca da industrialização e de ideais de
civilidade, em uma tentativa de mimetização da Europa, corroboraram
para um fortalecimento ainda maior do ideário republicano, representado
principalmente pela formação do Partido Republicano em 1870.
É claro que, como acontece atualmente, não houve coesão total entre
os adeptos do partido republicano. Cada grupo, entre os quais estavam os
militares, os cafeicultores e os intelectuais, defendeu os seus interesses, e
lutou pela República com teor e intensidade distintos.
Uma dessas dissonâncias no interior do partido pode se notada
neste trecho do discurso de Silva Jardim, que contrariamente a alguns
companheiros como Quintino Bocaiúva, propôs a implantação da
República através de uma revolução popular:

Penso que o Partido Republicano, sob pena de covardia, deve ao menos não recuar
da atual fase de agitação política, (...) já é tempo de dar-lhe uma melhor direção
política, mais científica e mais patriótica quanto à doutrinação e processos; (...) por
falta de estudo conveniente o Sr. Benjamin Constant concebe a República de modo
vago, estéril, anárquico, atrasado e utópico, (...) e pois perigoso na sua aplicação ao
nosso país, (...) organização de um partido republicano construtor, preliminarmente
revolucionário e que realmente se deseja para toda a Pátria uma presidência poderosa,
instituída pela vontade popular, (...) e pois Governo, na combinação feliz dos dois
elementos que esta palavra resume: Poder e Povo.3

Além das discordâncias típicas de partidos políticos, é possível notar


nesse fragmento da fala de Jardim as noções centrais que motivaram a
mobilização em torno da consolidação da República.
Já falamos bastante nelas, e agora você já pode identificar os ideais de
ciência, patriotismo e superação do atraso como essenciais para a deposição
do imperador D. Pedro II e a posse do Governo Provisório, representado

____________________________________________________________________________________________
3 SILVA, Jardim. Fragmentos de discurso pronunciado no Congresso Republicano de São Paulo, em
24 de maio de 1888. In: BASTOS, Pedro Ivo de Assis; SILVA, Francisco de Assis. História do Brasil.
Colônia, Império e República. São Paulo: Editora Moderna, 1986, p.191.

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unidade II
História do Brasil III
pelo Marechal Deodoro da Fonseca, em 15 de novembro de 1889.
Mas e o “povo” de quem Jardim falou em seu discurso? Quem era ele?
Por que pessoas e classes sociais era constituído? Todas as pessoas, incluindo
ex-escravos, mulatos, pobres e “iletrados”, faziam parte desse “povo” capaz
de governar o país e levá-lo rumo ao tão almejado pregresso?
Essas são as questões que iremos analisar e responder nas próximas
seções desta unidade.

seção 2
Os difíceis primeiros anos

Certamente você já leu, ou ao menos ouviu falar, da obra literária


Triste Fim de Policarpo Quaresma, escrita por Lima Barreto, no ano de
1911. Nesse livro, Barreto, através do personagem principal, Policarpo,
um idealista nacionalista e visionário, realizou uma dura crítica ao sistema
oligárquico excludente implantado nos primeiros anos da República e,
também, à desvalorização das tradições brasileiras face à importação dos
valores e costumes da “civilizada” Europa.
A decepção de Policarpo – que havia participado do exército como
voluntário, a fim de controlar revoltosos em nome do bem da República –
é perceptível no seguinte fragmento da obra:

A pátria que quisera ter era um mito, era um fantasma criado por ele no silêncio do
seu gabinete. Nem a física, nem a moral, nem a intelectual, nem a política que julgava
existir, havia. A que existia de fato, era a do Tenente Antonino, a do Dr. Campos, a
do homem do Itamarati. E, bem pensando, mesmo na sua pureza, o que vinha a ser
a Pátria? Não teria levado toda a sua vida norteado por uma ilusão, por uma idéia a
menos, sem base, sem apoio, por um Deus ou uma Deusa cujo império se esvaía?
Não sabia que essa idéia nascera da amplificação da crendice dos povos grego-
romanos de que os ancestrais mortos continuariam a viver como sombras e era preciso
alimentá-las para que eles não perseguissem os descendentes? Lembrou-se do seu
Fustel de Coulanges... Lembrou-se de que essa noção nada é para os Menenanã,
para tantas pessoas... Pareceu-lhe que essa idéia como que fora explorada pelos
conquistadores por instantes sabedores das nossas subserviências psicológicas, no
intuito de servir às suas próprias ambições (... ).4

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4 LIMA, Barreto. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Editora Scipione, 1994, p. 207.

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unidade I
Universidade Aberta do Brasil

As queixas e desilusões expostas por Quaresma, quanto falou do


Tenente Antonino, do Dr. Campos e do homem do Itamarati, representaram
a nova ordem estabelecida pela República a partir daquele momento.
O novo regime republicano se consolidou através de uma República
de Oligarquias, ou seja, pela dominação de grandes famílias latifundiárias
e sob o controle dos cafeicultores paulistas.
No governo do paulista Campos Sales (1892-1902) se estabeleceu a
chamada “Política dos Governadores”. Segundo Boris Fausto, tal sistema
foi caracterizado por:

(...) reduzir ao máximo as disputas políticas no âmbito de cada Estado, prestigiando


os grupos mais fortes; chegar a um acordo básico entre a União e os Estados; pôr
fim à hostilidade existente entre Executivo e Judiciário, domesticando a escolha dos
deputados. O governo central sustentaria assim os grupos dominantes nos Estados,
enquanto estes, em troca, apoiariam a política do presidente da República.5

Essa forma de política, baseada no domínio dos latifundiários (os


chamados coronéis) sobre a política, através de eleições fraudulentas, da
violência e do autoritarismo, marcou o cenário brasileiro até o final da
República Velha.
A esta altura, você deve estar se perguntando: onde está o povo em
todo esse processo de consolidação da República? O povo, como um todo,
realmente participou dele? Como vimos acima, na explicação de Boris
Fausto, a imensa maioria da população, além de não ter participado do
processo de formação da República, foi excluída posteriormente de seus
processos políticos.
Tal questão explica a dificuldade de consolidação e aceitação da
República em seus primeiros anos. Não existia uma unidade popular em
torno do ideário republicano. Dessa forma, além da violenta repressão, foi
necessária a criação de símbolos, de heróis que transmitissem o ideário
republicano para a população.
José Murilo de Carvalho, em seu livro A formação das Almas,
observou que:

A luta em torno do mito de origem da República mostrou a dificuldade de construir


um herói para o novo regime. Heróis são símbolos poderosos, encarnações de idéias
e aspirações, pontos de referência, fulcros de identificação coletiva. São, por isso,

____________________________________________________________________________________________
5 FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2010, p. 259.

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História do Brasil III
instrumentos eficazes para atingir a cabeça e o coração dos cidadãos a serviço da
legitimação de regimes políticos. Não há regime que não promova o culto de seus
heróis e não possua seu panteão cívico. Em alguns, os heróis surgiram quase
espontaneamente das lutas que precederam a nova ordem das coisas. Em outros, de
menor profundidade, foi necessário maior esforço na escolha e na promoção da figura
do herói. É exatamente nesses últimos casos que o herói é mais importante. A falta de
envolvimento real do povo na implantação do regime leva à tentativa de compensação,
por meio da mobilização simbólica. Mas, como a criação de símbolos não é arbitrária,
não se faz no vazio social, e é aí também que se colocam as maiores dificuldades
na construção do panteão cívico. Herói que se preze tem de ter, de algum modo, a
cara da nação. Tem de responder a alguma necessidade ou aspiração coletiva, refletir
algum tipo de personalidade ou de comportamento que corresponda a um modelo
coletivamente valorizado.6

Vários personagens da época tentaram ser popularizados, entre eles


militares e intelectuais como Deodoro da Fonseca, Benjamin Constant,
Floriano Peixoto e até mesmo os soldados do Paraguai. Entretanto,
nenhum deles demonstrou ser capaz de unir a população em torno da
causa da República.
Como você deve saber, apelou-se para a figura de Tiradentes. A
justificativa era perfeita: ele havia sido morto por lutar pela “República”
durante o período colonial. Sua trajetória era exemplar para a configuração
de herói e mártir republicano.
Agora, observe a imagem a seguir:

Figura 1 - Tiradentes (Décio Vilares, 1928)

____________________________________________________________________________________________
6 CARVALHO, José Murilo de. A formação das Almas. O imaginário da República no Brasil. São
Paulo: Companhia das Letras, 1990, p.55.

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unidade I
Universidade Aberta do Brasil

Esse quadro, datado de 1928, demonstra muito bem qual foi a


representação construída de Tiradentes nos primeiros anos da República.
Sua semelhança com Cristo é inegável, concorda? E isso não aconteceu
por acaso.
Lembre-se de que, apesar de a primeira Constituição republicana
ter instituído o Estado Laico, ou seja, a separação entre a Igreja e o
Estado, propiciando a liberdade de culto para todas as crenças religiosas
e o casamento civil, o Brasil se constituía como um país de grande apego
à religiosidade. Dessa forma, o apelo à tradição cristã da população
foi essencial na transmissão da imagem de um “Cristo cívico”, como
denominou José Murilo de Carvalho.7
Apesar dessa tentativa de inserção do ideário republicano à
população, através da criação de um mito republicano composto por
heróis, como Tiradentes, o povo continuou excluído de seus processos
decisórios, como já foi dito anteriormente.
Além disso, grande parte da população também não se enquadrou no
que os republicanos e intelectuais da época consideravam como o “povo
ideal” para constituir a nova República, como você poderá constatar na
próxima seção.

seção 3
O povo – regeneração e saneamento

Você deve se lembrar de que na primeira seção desta unidade


falamos sobre os ideais de ciência e tecnologia que se formaram em
meados do século XIX e adentraram o XX.
Tais teses científicas vieram acompanhadas de uma ideologia de
progresso e redenção. Esse contexto foi povoado de cientistas, médicos,
engenheiros, arquitetos, urbanistas, administradores e técnicos chamados
por Sevcenko de “nova burocracia científico-tecnológica”, que passou a
criar teses e a decidir sobre o destino do mundo e das pessoas.8

____________________________________________________________________________________________
7 CARVALHO. Op. Cit, p. 67
8 SEVCENKO. Op. Cit, p.17.

18
unidade II
História do Brasil III
No Brasil, essas correntes tiveram eco e mostraram-se presentes nas
obras de intelectuais e nas decisões do governo. Segundo Éder Silveira:

Desde as últimas décadas do Império Brasileiro, podia-se perceber que a


intelectualidade nacional se movia em busca de novas bases para narrar à nação
brasileira. A narrativa identitária nacional se erigiu sobre as bases da ciência européia,
nomeadamente com os últimos avanços na Biologia, na Antropologia e na Sociologia,
sendo os conceitos destas ciências objeto de tradução pela intelectualidade brasileira
na formação da “identidade nacional” como projeto. A entrada de um “bando de ideais
novas” – termo imortalizado na passagem em que Silvio Romero faz um balanço da
“geração de 1870”, assim generalizando as manifestações intelectuais que surgiram
no país tendo como vetor a Escola do Recife – mostrou o afã de jovens pensadores
que se voltavam aos ’problemas brasileiros’ com o intuito de responder a questões
relativas à identidade nacional como comparações com a civilização européia.9

As bases científicas e civilizadoras europeias que serviram de guia


para os pensadores brasileiros em sua tentativa de inserir o Brasil nos
rumos do progresso pautaram-se na noção de eugenia10, muito em voga
na Europa naquele momento.

Nancy Stepan ressaltou que as técnicas mais notórias de


“aprimoramento da raça” introduzidas pelos eugenistas envolviam
intervenção direta na reprodução humana. Quando pensamos em
eugenia, vêm-nos logo à mente esterilização humana, segregação
sexual compulsória e, até, eutanásia.
Em diversos países, os eugenistas justificavam tais medidas como meios
eficazes de eliminar as más características hereditárias das populações
humanas para assegurar o contínuo progresso da sociedade dos homens.
Entretanto, principalmente na América Latina e no Brasil vigorou
uma outra forma de eugenia, através da proibição de casamentos
entre “anormais e degenerados”, ou através também da disseminação
e introdução de práticas “higiênicas” na tentativa de tornar o povo
brasileiro mais branco, ao menos no que diz respeito ao comportamento,
e civilizado.
Em nosso país as idéias eugênicas vigoraram desde o início do século
XX, e entre seus nomes de destaque estavam: Belissario Pena, Artur
Neiva, Monteiro Lobato e Renato Kehl.

SILVEIRA, Éder. Sanear para integrar: a cruzada higienista de


Monteiro Lobato. In: ArtCultura. Uberlândia-MG, nº 9, jul-dez de
2004.

____________________________________________________________________________________________
9 SILVEIRA, Éder. Sanear para integrar: a cruzada higienista de Monteiro Lobato. In: ArtCultura.
Uberlândia-MG, nº 9, jul-dez de 2004, p 129.
10 xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

19
unidade I
Universidade Aberta do Brasil

Entretanto, essa civilização branca, moldada conforme os princípios


eugênicos, civilizada e urbanizada, não era o retrato do que se encontrava
no Brasil. Imagine que apenas um ano antes da proclamação da República,
em 1889, a escravidão havia sido abolida. Havíamos convivido com quatro
séculos de miscigenação entre negros e brancos.
Um dado que demonstra muito bem tal realidade é que, conforme
um censo realizado em 1890, no Rio de Janeiro, de cada dez habitantes
da cidade, nove eram negros ou pardos. Definitivamente, nossa extensa
mestiçagem, considerada degeneradora pelas teses científicas, não nos
permitia um enquadramento aos padrões eugênicos vigentes na Europa.
Qual seria então a solução adotada para nossa nação “sem povo”?
Desistir dos ideais de progresso, modernidade e civilização? De maneira
alguma. Apelou-se, na impossibilidade de uma nação de brancos puros, para
o branqueamento cultural; ou seja, para a extinção e regeneração de tudo que
ameaçasse ou não representasse o novo projeto oficial sonhado para o país.
Era preciso sanear, educar essa população iletrada, doente, para
que, em poucas gerações, pudéssemos entrar nos eixos do progresso.
Para Liane Maria Bertucci-Martins:

[...] a partir de meados dos anos 1910, ganhou destaque a tese de que, através do
cuidado com a saúde e a educação, o brasileiro nato (entendido como o homem
que há séculos habitava o interior do país) poderia ser salvo do triste destino que
aparentemente lhe estava reservado devido a primitiva mistura racial e ao clima
tropical do país, só a miscigenação com brancos estrangeiros não seria a solução
para a boa constituição da população nacional. Descendentes das uniões dos
primeiros europeus que aportaram na América portuguesa com índios e negros, esse
habitante do Brasil jazia abandonado, ignorante e doente, e precisava ser resgatado:
os conhecimentos da moderna ciência experimental tornavam tal feito possível (como
escreveria Monteiro Lobato, ao promover a revisão do Jeca Tatu em 1918: “O Jeca
não é assim: está assim). Chamado sertanejo, caboclo ou caipira, esse habitante
do país vivia disperso de norte a sul do Brasil; afinal o interior ou o sertão, espaço
geográfico pouco definido, poderiam começar logo ali, onde acabavam as grandes
avenidas dos principais centros urbanos do país.11

Essa busca sedenta por civilização e regeneração não se deu,


de maneira alguma, de forma amistosa e pacífica. A promoção dessa
modernidade a qualquer custo se valeu do uso da violência, tanto física
como simbólica, pelo Estado.
O avanço destruidor sobre costumes populares, práticas curativas,
ritos religiosos, etc., foi intenso. Talvez Canudos seja um dos exemplos
____________________________________________________________________________________________
11 MARTINS, Maria Liane Bertucci. A tese da construção do “povo brasileiro” nos anos 1910, p.1.

20
unidade II
História do Brasil III
mais visíveis da deterioração dessas sociedades tradicionais, que se
encontravam presentes em todo o território nacional.
A Revolta de Canudos (1893-1897), ocorrida no sertão da Bahia
e liderada por Antonio Conselheiro, foi até pouco tempo apresentada
apenas como um movimento messiânico. Muita dessa concepção deve-se
ao livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, “fonte oficial de Canudos”.
À época, os revoltosos eram representados nos jornais como
fanáticos, baderneiros e bandidos que conspiravam contra a República e
deveriam ser exterminados para o bem e segurança da nação.
Marco Antonio Villa revisou recentemente tal concepção. Não negou
a vertente messiânica e o catolicismo popular presentes na Revolta, mas
a explicou como um movimento social de sertanejos despossuídos em
busca de melhores condições de vida.12
Após o avanço de quatro expedições militares, Canudos foi rendida.
Entretanto resistiu até o fim. Na próxima seção veremos outros casos
da implantação da modernidade e civilização a qualquer custo – e as
diversas formas de resistência empregadas pela população.

seção 4
Modernidade e civilidade a qualquer custo

No início do século XX, o Rio de Janeiro era – além de capital da


República – a maior cidade do país. Era o centro das atenções em todo
o território nacional e também no exterior. Justamente por esses motivos
deveria ser um “cartão-postal” que indicasse modernidade e civilidade.
A intenção foi a de transformar o centro da cidade em uma Paris
dos trópicos. Entretanto, não havia até então nenhuma estrutura para
isto. Antes da reforma urbana, o centro do Rio de Janeiro era formado por
enormes casarões, ainda do período imperial. Nessas residências, cujos
donos haviam se mudado para habitações mais modernas, moravam ex-
escravos, seus descendentes e proletários, que recebiam muito pouco por
seu trabalho nas fábricas.
____________________________________________________________________________________________
12 VILLA, Marco Antonio. Canudos. O povo da terra. São Paulo: Ática,1996.

21
unidade I
Universidade Aberta do Brasil

Sobre essas chamadas “casas de cômodo”, June Hahner afirmou que:

(...) as velhas mansões de vários andares, cujos donos haviam se mudado do centro
da cidade para as zonas residenciais mais novas, foram transformadas em habitações
superpovoadas de quartos e cubículos alugados. Os esforços dos locadores para “criar o
maior número de espaços possível habitável” resultavam em quartos de qualquer formato,
alguns chegando a medir 0,91 centímetros de largura por 9,40 metros de comprimento,
entalhados em “vãos de escadas, depósitos, corredores, cozinhas e mesmo banheiros,
tudo para fazer áreas para dormir. Tais quartos recebiam “ventilação e luz só indiretamente”,
e os do subsolo não recebiam nada. Cada latrina comunitária geralmente era utilizada por
dúzias de pessoas, e as áreas de banho eram até mais escassas. Famílias ou grupos
de indivíduos de ambos os sexos dormiam, cozinhavam seu alimento em diminutos
fogões a gás ou querosene e lavavam suas roupas, tudo no mesmo quarto, que eles
algumas vezes dividiam com cães, gatos, papagaios, coelhos ou galinhas. Nestes quartos
superpovoados, separados por finas divisões de madeira ou mesmo cortinas de estopa,
a privacidade virtualmente não existia, durante o dia ou à noite.13

Durante a execução do projeto de reforma do centro da cidade, os


moradores dos casarões, apesar de já viverem em condições terríveis,
tiveram suas casas destruídas, e foram expulsos, de forma violenta, sem
nenhum tipo de indenização ou garantia de outro local onde pudessem
fixar residência.
Desse despejo forçado formaram-se as favelas ou outros locais de
ajuntamento populacional desorganizado, com condições muito piores
do que as citadas acima. Enquanto isso, no centro da cidade, construía-
se a imponente Avenida Central.
Para que você perceba quão drástica foi a reforma do centro da cidade
do Rio de Janeiro no início do século XX, observe as duas fotografias a
seguir. A primeira data de 1904, época da reforma. A segunda de 1910,
ano em que a reforma já havia sido concluída.

Figura 2
____________________________________________________________________________________________
13 HAHNER, June. Pobreza e política. Os pobres urbanos no Brasil 1870-1920. Brasília: Edunb,
1993, p. 176.

22
unidade II
História do Brasil III
Figura 3

A Avenida Central (atual Avenida Rio Branco) havia se transformado


em uma vitrine, com o intuito de demonstrar que também poderíamos ser
europeus. A população que havia sido expulsa dos casarões nem passar
podia pela nova rua. Não tinham roupas adequadas, como camisa, casaco
e chapéu.
Angela Marques da Costa e Lilia Moritz Schwarcz, ao escrevem
sobre a busca de modernidade no início do século, observaram que:

Ícone dos novos tempos foi também a “nova avenida Central”, marco do novo projeto
urbanístico da cidade do Rio de Janeiro, que se transformava em um verdadeiro cartão-
postal, com suas fachadas art nouveau, feitas de mármore e cristal, seus modernos
lampiões a luz elétrica, lojas de produtos importados e transeuntes à francesa. Marco
paralelo é a expulsão da população pobre que habitava os casarões da região central: era
a ditadura do “bota-abaixo”, que demolia residências e disseminava as favelas, cortiços e
hotéis baratos – os “zunga” – onde famílias inteiras deitavam-se no chão. Isso para não
falar da repressão às festas populares e procissões que passavam, igualmente, por esse
“processo civilizatório”: saia o entrudo, entrava o limpo Carnaval de Veneza. Estávamos
nos tempos do presidente Rodrigues Alves (1902-6), que montou uma equipe a quem
concedeu poderes ilimitados. Com o intuito de fazer da cidade uma vitrine para captação
de interesses estrangeiros, concebeu-se um plano um três direções: a modernização do
porto ficaria a cargo do engenheiro Lauro Muller, o saneamento da cidade – acometida por
doenças e epidemias infecciosas – seria responsabilidade do médico sanitarista Oswaldo
Cruz, e a reforma urbana restaria para o engenheiro Pereira Passos, que havia conhecido
de perto a obra de Paris, empreendida pelo barão de Haussmann.14

Mas não pense você que o povo respondeu a todos esses tipos de
violência e exclusão de forma pacífica e imune. Apesar da grande ação
repressora do exército e da polícia, diferentes e variados grupos sociais
se manifestaram em busca de melhorias em suas condições de vida e por
direitos mais igualitários.

23
unidade I
Universidade Aberta do Brasil

Assim como no interior do país ocorreram revoltas populares como


a de Canudos (1893-1897) e a de Contestado (1912-1916), a população
urbana também se revoltou contra os desmandos e excessos das
autoridades públicas.
Como já foi citado, uma das vertentes da reforma encontrava-se nas
medidas sanitárias, já que a essa época o Rio de Janeiro padecia com
doenças como a varíola, a febre amarela, a tuberculose, a malária e a
sífilis.
No ano de 1904, o sanitarista Oswaldo Cruz promoveu uma
campanha em nome da erradicação da varíola, através da vacinação.
Foram criados grupos de agentes sanitários encarregados de vacinar as
pessoas, vistoriar (ou melhor, invadir) suas casas, demoli-las e interditá-
las caso houvesse alguma irregularidade, o que sempre acontecia, visto
as péssimas condições em que vivia a população.
Diante de tantas invasões e medidas repressivas, a população
reagiu. Não por ignorância e medo da vacina, viés explicativo da revolta
alimentado pelas autoridades. Mas sim por estar cansada de viver sob
tais condições.
Grupos enormes da população participaram da Revolta, que só
conseguiu ser reprimida com a ação da Guarda Nacional, dos bombeiros,
de tropas do exército e da marinha, e com as tropas auxiliares dos estados
de São Paulo e Minas Gerais. Após o fim da insurreição, a repressão
adquiriu um caráter ainda mais violento.
O crescimento das cidades e sua industrialização possibilitaram,
também, a formação de movimentos de trabalhadores, muito influenciados
pelas ideias anarquistas trazidas pelos imigrantes europeus. Segundo
Boris Fausto:

Desde o início da Primeira República, surgiram expressões da organização e mobilização


dos trabalhadores: partidos intitulados de operários (...); sindicatos, greves. Os anarquistas
tentaram mesmo organizar a classe operária em nível nacional, com a Confederação
Operária Brasileira em 1906.15

Tais movimentos, apesar de em um primeiro momento serem


esparsos e apresentarem dificuldades de organização, tentaram de várias
maneiras chamar a atenção das elites e do governo em nome de melhores
____________________________________________________________________________________________
15 HAHNER, June. Pobreza e política. Os pobres urbanos no Brasil 1870-1920. Brasília: Edunb,
1993, p. 176.

24
unidade II
História do Brasil III
condições de trabalho. A luta continuou e, em 1917, houve a primeira
greve geral do país.
Apesar da intensa repressão e violência que marcaram esse
período, os referidos movimentos adentraram a década de 20 em busca
de mudanças.

Nesta unidade você pôde entender o contexto no qual a República emergiu no


Brasil. Ao mesmo tempo, você deve ter notado que foram precisos ajustes sociais e políticos
para que a ordem republicana se estabilizasse. Deve ter observado, também, que a noção
de povo, ao menos para o discurso oficial, era bastante limitada.
Assim, você pode afirmar que, em sua primeira fase, a República brasileira foi
excludente tanto do ponto de vista social quanto em sua perspectiva cultural.
A questão da superação de um modelo tradicional de sociedade e a busca pela inserção do
Brasil na modernidade capitalista também faz parte desse contexto histórico.

1) Releia a Unidade I e produza um texto interpretativo a respeito do processo histórico que


levou ao fim da Monarquia e à implantação da República no Brasil.

2) Com base nas informações contidas nesta Unidade e na bibliografia nela indicada, elabore
um quadro sistematizando as principais características políticas, econômicas, sociais e culturais
próprias da República Velha.

3) Conhecendo as características históricas de formação da sociedade brasileira e da


multiplicidade étnica e cultural de nosso povo, vá até o endereço <http://www.bioeticaefecrista.med.
br/textos/eugenia%20no%20brasil_ciencia%20e%20pensamento%20social.pdf>, leia o artigo “A
eugenia no Brasil: Ciência e pensamento social no movimento eugenista brasileiro do entre-guerras”,
de Vanderlei Sebastião de Souza, e produza um texto analisando a pertinência (ou não) da aplicação
das ideias eugenistas no Brasil do começo da República.

25
unidade I
26
Universidade Aberta do Brasil

unidade II
UNIDADE II
História do Brasil III
Os frementes anos 20:
movimentos sociais e
mudanças políticas no Brasil

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
■■ Identificar a década de 1920 como um momento de crise no Brasil e
compreender a existência de manifestações sociais e políticas como resultado
de tal realidade.
■■ Perceber que há uma relação entre a crise da década de 1920 e a ascensão
política de Getúlio Vargas.

Desafio da Unidade
■■ Procure, na internet, imagens que destaquem a relação de Vargas com as
massas e a constituição da ideia do grande líder que conduz a sociedade.

ROTEIRO DE ESTUDO
■■ SEÇÃO 1 - Introdução

■■ SEÇÃO 2 - Os anos 20 como um divisor de águas

■■ SEÇÃO 3 - A crise na República Velha

■■ SEÇÃO 4 - A década de 30 como revolução – um debate historiográfico

27
unidade I
Universidade Aberta do Brasil

PARA INÍCIO DE CONVERSA


Nesta unidade você percorrerá o fremente Brasil da década de
1920, com as diversas manifestações políticas, sociais e intelectuais
daquele período, e saberá que foi em meio a essa agitação que emergiu
a figura de Getúlio Vargas como um catalisador das aspirações
nacionais.

seção 1
Introdução

Getúlio não poupou tempo


No palácio do Catete
A lei era exercida
Sem precisar do cacete
Respondia qualquer carta
Atendia até bilhete
Governou este país
Com saber de Salomão
Foi quando viu o Brasil
Maior civilização
Atos de patriotismo
Respeito à religião!
Foram criados sindicatos
Ministério dói Trabalho
Foi onde a classe operária
Teve melhor agasalho
Decretando 8 horas
Pra gente bater o malho (...)16

____________________________________________________________________________________________
16 SANTOS, Antonio Theodoro dos. Trecho de folhetim acessado em: http://educacao.uol.com.br/historia-
brasil/literatura-de-cordel-getulio-vargas-e-presenca-constante-nos-folhetos.jhtm

28
unidade II
História do Brasil III
Possivelmente, após ler esse folhetim de cordel, escrito na década de
1950, por Antonio Theodoro dos Santos, conhecido por Poeta Garimpeiro,
você pode ter ficado surpreso com tantos elogios e realizações atribuídas
ao presidente Getúlio Vargas.
Ao longo dos vários anos do governo de Vargas, constituiu-se
entre grande parte da população um imaginário de admiração em
torno da figura deste líder de Estado. A ele foram atribuídas as glórias
pelas melhores condições de trabalho aos trabalhadores e pelo início
da industrialização do país.
Nas próximas unidades iremos estudar a constituição do mito em
torno da figura de Vargas e as principais características de seu governo.

seção 2
Os anos 20 como um divisor de águas

Conforme você pôde analisar na primeira unidade deste livro, as


três décadas do período de nossa história denominado como República
Velha foram marcadas pela dominação das oligarquias agrárias.
Tal política foi representativa do distanciamento do Estado para
com a sociedade como um todo e para com as políticas sociais, e da
institucionalização de práticas violentas e excludentes.
Já no início dos Novecentos, ocorreram manifestações e revoltas
que, apesar de terem apresentado algumas dissonâncias, lutavam contra
um inimigo em comum: o modelo de estado oligárquico.
Mas foi a década de 20 que representou um divisor de águas
no cenário brasileiro. Importantes mudanças ocorreram tanto no que
representaria um novo momento político na década seguinte, quanto
no que concerne a novas tendências culturais que buscaram criar outra
concepção para o “ser brasileiro”, que não aquela totalmente influenciada
e determinada pelo modelo eurocêntrico.
Sobre esse descontentamento em relação ao modelo político vigente
e ascensão de novos valores na construção da identidade brasileira, Elza
Dely Veloso Macedo considerou que:

29
unidade II
Universidade Aberta do Brasil

Na última década da República Velha o desencanto pelo que ela não chegou a ser era
evidente. O modelo constitucional de 1891, a descentralização política e a autonomia
dos governos locais eram duramente criticados. Assim, o ambiente intelectual dos 20
apresentava-se rico em manifestações que sugeriam a necessidade de transformações
na vida brasileira. O ano de 1922 é um marco simbólico desse período por concentrar o
centenário da Independência, a fundação do Partido Comunista, a realização da Semana
de Arte Moderna, a primeira rebelião tenentista, a Fundação do Centro Dom Vital, a
institucionalização do movimento de mulheres, manifestações que expressam diferentes
vertentes desse estado de inquietação que predispunha a mudanças.17

O movimento modernista, que teve seu ápice durante a Semana


de Arte Moderna, ocorrida entre os dias 13 e 18 de fevereiro de 1922, no
Teatro Municipal de São Paulo, além de revisar e desconstruir as bases que
pautavam a literatura, a pintura, o teatro e outros movimentos artísticos,
buscou uma nova orientação para a constituição da identidade do povo
brasileiro. O intuito era, apesar de não rejeitar totalmente os modelos das
vanguardas europeias, pensá-las, a partir de agora, em consonância com
a realidade brasileira e seu povo, fruto da mestiçagem.
O princípio que perpassou todas as tendências que tiveram eco no
interior do movimento modernista foi o de nacionalidade. O modernismo
não foi, em seu conjunto, um movimento uniforme. Algumas variações
quanto a opiniões e posicionamentos intelectuais, estéticos e ideológicos
se fizeram sentir entre os modernistas, o que os levou a uma clara divisão
entre os grupos pau-brasil e verde-amarelo.
Enquanto o primeiro grupo (no qual figuravam Oswald e Mario de
Andrade, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, entre outros) possuía uma
visão mais aberta no que diz respeito ao diálogo com outras matrizes
culturais, o segundo (que contava com Plínio Salgado e Menotti del
Picchia) adotou uma postura bem mais conservadora, negando a
possibilidade de absorver e resignificar elementos culturais que não
fossem genuinamente nacionais.
As teses e princípios defendidos por ambos foram expressas em
dois importantes manifestos publicados na década de 1920: o manifesto
antropofágico (1924), do grupo pau-brasil, e o manifesto anta (1928), dos
verde-amarelos.
Com o intuito de que você possa adquirir maior contato com
as propostas do movimento modernista, segue um fragmento do
____________________________________________________________________________________________
17 MACEDO, Elza Dely Veloso. Uma luta justa e elegante: feminismos conflitantes na década de 20.
Disponível em: <www.rj.anpuh.org/.../rj/.../Elza%20Dely%20Veloso%20Macedo.doc>. Acesso em:
14/06/2011.

30
unidade II
História do Brasil III
Manifesto Antropofágico publicado por Oswald de Andrade na revista de
Antropofagia, em maio de 1928:

Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Philosophicamente. Unica lei


do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os collectivismo.
De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Tupy or not tupy that is the question.
Contra todas as cathecheses. E contra a mãe dos Gracchos. Só me interesse o que não é
meu. Lei do homem. Lei do antropófago. Estamos fatigados de todos os maridos catholicos
suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o inigma mulher e com os outros sustos
da psychologia impressa. O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeavel entre o
mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano
informará. Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a
sua hypocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No paiz da
cobra grande. Foi porque nunca tivemos grammaticas, nem colecções de velhos vegetais.
E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos
no mappa mundi do Brasil. Contra todos os importadores de consciencia enlatada. A
existencia palpavel da vida. E a mentalidade prelogica para o Sr. Levy Bruhl estudar.
Queremos a revolução Carahiba. Maior que a revolução Francesa. A unificação de todas
as revoltas eíficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria siquer a sua pobre
declaração dos direitos do homem. A edade do ouro anunciada pelaAmerica. A edade
do ouro. E todas as girls. Filiação. O contacto com o Brasil Carahiba. Oú Villeganhon print
terre. Montaigne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo,
à Revolução Bolchevista, à Revolução surrealista e ao barbaro technizado de Keyserling.
Caminhamos. Nunca fomos cathechisados. Vivemos atraves de um sonambulo. Fizemos
Christo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará. Mas nunca admitimos o nascimento da
logica entre nós. Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro emprestimo, para ganhar
comissão. O rei analphabeto dissera-lhe: ponha isto no papel mas sem muita labia. Fez-se
o emprestimo. Gravou-se o assucar brasileiro. Veira deixou o dinheiro em Portugal e nos
trouxe a labia. O espirito recusa-se a conceber o espirito sem corpo. O antropomorfismo.
Necessidade da vaccina antropofagica (...). .18

Apesar da densidade do texto de Oswald e das muitas referências


aos mais variados pensadores e momentos da história, o importante é que
você perceba, através da leitura e análise desse fragmento, a proposta
geral dos idealizadores do movimento modernista.
O desejo desses idealizadores era, a partir de uma revisão crítica
de nossa história e da extração de contribuições que se julgavam ricas e
necessárias, oriundas de diversas culturas – a chamada antropofagia –,
construir as bases de uma nova identidade para o povo brasileiro e para
as produções artísticas e intelectuais.
Essas bases deveriam ser construídas não mais através da simples
absorção de ideais ditos “civilizados”, nem da busca de características
genuinamente brasileiras, mas do entrelaçamento de todas essas
____________________________________________________________________________________________
18 OSWALD, Andrade. Manifesto Antropofágico. In: Revista de Antropofagia. Anno 1 – número
1, maio 1928, p.3. Acesso em: http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/060013-01#page/4/
mode/1up.

31
unidade II
Universidade Aberta do Brasil

referências, a fim de constituir um pensamento brasileiro autônomo, que


influenciasse tanto os campos cultural e social como o campo político.
O movimento modernista e inúmeras outras expressões de
descontentamento e desejo de renovação deram o tom dos anos 20, e
acabaram levando a outras mudanças na década de 30. É sobre esse
assunto que trataremos na próxima seção.

seção 3
A crise da República Velha

Conforme você pôde observar na seção anterior desta unidade,


a década de 20 foi marcada pela crise do modelo da República Velha
e pela emergência de novas formas culturais, sociais e políticas de se
pensar o Brasil.
Sobre essa conjuntura e o processo de declínio da República Velha,
Sevcenko observou:

De 1920 a 1930 o regime começa a periclitar, arrastando-se em estertores até o golpe fatal,
com a deposição do último presidente paulista e a ascensão de Getúlio Vargas. Os preços
do café, o principal produto da pauta de exportações, não se sustentam mais no mercado
internacional, e as práticas especulativas dos cafeicultores causam a acumulação de
estoques que só restaria queimar sob o impacto da crise mundial de 1929.19

Provavelmente você já ouviu sobre a maior crise econômica que atingiu


o mundo na contemporaneidade. Pois então, no ano de 1929, o que parecia
ser uma onda incontrolável de desenvolvimento industrial e crescimento
econômico nos Estados Unidos, sofreu uma forte e abaladora derrocada.
Para os historiadores Adhemar Marques, Flávio Berutti e Ricardo
Faria,
A década de 20 foi marcada por um clima de euforia, especialmente nos Estados Unidos.
A produção total norte-americana aumentou em mais de 50% e a prosperidade podia ser
medida pelo enorme movimento das bolsas de valores. A busca do rendimento a curto
prazo e em grandes proporções provocou uma onda de especulação em larga escala,
em torno das sociedades por ações. Milhões de norte-americanos foram atraídos para o
____________________________________________________________________________________________
19 SEVCENKO. Op. Cit. p. 37.

32
unidade II
História do Brasil III
mercado de capitais, que era movido pelo clima de confiança e pelo mito da eternidade
do american way of life.
Com a economia europeia desorganizada e com este clima de prosperidade, o
capitalismo norte-americano rumou em direção à superprodução. A agricultura
cresceu em ritmo alucinante, enquanto novas fábricas eram abertas e as já
existentes ampliavam a sua capacidade de produção. Isto era possível em virtude
das necessidades do mercado europeu e da facilidade de crédito, que compensava a
desigual distribuição de renda.20

Tal cenário de prosperidade viu sua ruína com a estabilização dos


países europeus, após a Primeira Guerra Mundial. A exportação a esses
países diminuiu drasticamente e os EUA sofreram com a superprodução.
Havia muito mais produtos no mercado do que consumidores para eles.
Esse fato levou à queda acelerada das ações da Bolsa de Valores de Nova
York e, consequentemente, a sua quebra, arrastando junto todo o sistema
bancário norte-americano.
E os outros países, como ficaram diante de tal desastre econômico?
Já falamos na primeira unidade que vivíamos em um sistema capitalista
que integrava praticamente todas as economias do globo.
Sendo assim, o Brasil, como um exportador de produtos primários,
essencialmente o café, viu-se em um beco sem saída com a explosão
dessa crise econômica mundial. Seus principais compradores – os Estados
Unidos e os países europeus – fecharam suas portas, e todos os setores da
economia brasileira se viram desestabilizados com a crise.
Setores de nossa sociedade – como a burguesia industrial em
formação, as classes médias urbanas e o operariado –, que já se mostravam
descontentes há tempos com a política de dominação econômica e a
política das oligarquias produtoras de café do eixo São Paulo - Minas
Gerais, encontraram na crise de 29, que atingiu brutalmente o Brasil, mais
um motivo para reivindicar maior participação nas decisões do Estado.
Conforme Francisco de Assis Silva e Pedro Ivo de Assis Bastos,

Estes grupos passaram a contestar, com mais vigor, o sistema vigente e a pressionar
o governo, exigindo mudanças, pois se sentiam prejudicados pelo modelo econômico
gerador de exclusivos privilégios aos cafeicultores e pelo modelo político caracterizado
pela fraude, pelo controle das máquinas eleitorais e pela manipulação dos votos.
A burguesia industrial, prejudicada pela política econômica de exclusivo apoio ao setor
cafeeiro, pressionava o governo reivindicando uma política de proteção e apoio financeiro
à indústria. Como suas reivindicações não eram atendidas, ela continuava pressionando.
A classe média urbana contestava a Política dos Governadores e o coronelismo, que lhe
roubavam as possibilidades de chegar ao poder, via eleições. Por isso, ela reivindicava
reformas eleitorais, moralização nas eleições e voto secreto (...).21
____________________________________________________________________________________________
20 BERUTTI, Flávio; FARIA, Ricardo; Marques, Adhemar. Textos e Documentos 5. História
Contemporânea através de textos. São Paulo: Contexto, 2011, p.155.
21 BASTOS, SILVA. Op. Cit. p.239.

33
unidade II
Universidade Aberta do Brasil

Nesse tempo, era presidente do país Washington Luis, representante


das oligarquias cafeeiras. Seu desejo era o de lançar a candidatura de Júlio
Prestes, candidato de origem paulista. Entretanto, conforme ditava a política
do café com leite, seria a vez de um mineiro suceder Washington Luis.
Grupos de outros estados, principalmente de Minas Gerais e Rio
Grande do Sul, sentindo-se excluídos do processo político e unidos às
oposições de outras localidades, uniram-se e formaram a Aliança Liberal.22

O programa da Aliança Liberal refletia as aspirações das classes


dominantes regionais não associadas ao núcleo cafeeiro e tinha por
objetivo sensibilizar a classe média. Defendia a necessidade de se
incentivar a produção nacional em geral e não apenas o café; combatia
os esquemas de valorização do produto em nome da ortodoxia financeira
e por isso mesmo não discordava nesse ponto da política de Washington
Luís. Propunha algumas medidas de proteção aos trabalhadores, como a
extensão do direito à aposentadoria a setores ainda não beneficiados por
ela, a regulamentação do trabalho do menor e das mulheres e aplicação
da lei de férias. Em evidente resposta ao presidente Washington Luís,
que afirmava ser a questão social no Brasil “uma questão de polícia”, a
plataforma da oposição dizia não se poder negar sua existência, “como
um dos problemas que teriam de ser encarados com seriedade pelos
poderes públicos”. Sua insistência maior concentrava-se na defesa das
liberdades individuais, da anistia (com o que se acenava para os tenentes)
e da reforma política, para assegurar a chamada verdade eleitoral.
Apesar das reticências de Getúlio, que, por algum tempo, procurou um
acordo com Washington Luís, a campanha ganhou ímpeto. As caravanas
liberais, formadas pelos elementos mais jovens, percorreram as principais
cidades do Nordeste. Getúlio foi recebido com entusiasmo nos comícios
realizados no Rio e em São Paulo. Anos mais tarde, um membro do PD –
Paulo Nogueira Filho – relembraria um fato significativo com relação ao
comício de São Paulo: a presença da massa proletária. Em suas palavras,
ela viera do bairro do Brás e se fundira com a burguesia, invadindo como
sua casa o centro da cidade para aplaudir Getúlio.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade


de São Paulo, 2010, pp. 319-320.

Após agitadas campanhas eleitorais, em março de 1930, Julio Prestes,


o candidato das oligarquias cafeeiras, venceu. Entretanto, os partidários
da Aliança Liberal, que haviam sido representados pelo gaúcho Getúlio
Vargas para presidente e pelo pernambucano João Pessoa para a vice-
____________________________________________________________________________________________
22 FAUSTO. Op. Cit. p.320.

34
unidade II
História do Brasil III
presidência, não se conformaram com a derrota.
A indignação causada pela vitória de Júlio Prestes e pela
possibilidade de continuidade do velho regime político arrefeceu os
ânimos da oposição, que enxergou na tomada de poder pelas armas a
única saída para impedir o governo de Prestes.
Apesar de a Aliança Liberal ser formada por vários e diferenciados
setores da sociedade, era preciso ainda que grande parte da população
aderisse ao plano de deposição do presidente eleito.
A solução para tal impasse ocorreu alguns meses depois. Já falamos
que o candidato à vice-presidência de Vargas foi João Pessoa, que já tinha
conhecida carreira política em Pernambuco. Devido a motivos pessoais
e políticos, meses após a ascensão de Prestes ao poder e o retorno de
Pessoa ao seu estado natal, este foi assassinado.
Em outra ocasião, talvez tal acontecimento não passasse de um
escândalo regional. Mas devido ao cenário que se vivia, a morte do
político e sua transformação em herói foi o estopim que faltava para a
chamada Revolução de 1930 e ascensão de Getúlio Vargas ao poder.

seção 4
A década de 30 como revolução -
um debate historiográfico

Conforme vimos na seção anterior desta unidade, o assassinato de


João Pessoa representou uma ótima oportunidade de tomada de poder
para setores da Aliança Liberal, principalmente os mais radicais, já que
agora havia uma justificativa palpável, perante a população, para o
levante armado.
Alguns dias após a morte do candidato a vice-presidência, por todas
as regiões do país aconteceram levantes a favor da não tomada de poder de
Prestes. Logo nos primeiros dias de outubro, a revolta eclodiu no Rio Grande
do Sul, sendo que, poucas horas depois, o levante teve início no Nordeste.
A resistência ao movimento (chamada de legalista) teve como
centro São Paulo, estado de Washington Luís e Júlio Prestes e grande

35
unidade II
Universidade Aberta do Brasil

representante da oligarquia cafeeira. Durante a Batalha de Itararé,


depois de dias de instabilidade e conflito, as tropas legalistas renderam-
se; ato contínuo, no dia 3 de novembro, Vargas e as tropas revolucionárias
marcharam rumo ao Rio de Janeiro a fim de assumir o poder.
No discurso pronunciado ao assumir a presidência da República, o
novo líder máximo do Estado disse:

O Rio Grande do Sul, ao transpor as suas fronteiras, rumo ao Itararé, já trazia consigo
mais da metade do nosso glorioso Exército. Por toda parte, como mais tarde na capital
da República, a alma popular confraterniza com os representantes das classes armadas,
numa admirável unidade de sentimentos e aspirações.23

Apesar do teor de seu discurso, era claro que Vargas, antes de


tudo, representava as oligarquias e enxergava as ideias revolucionárias
inseridas no interior da Aliança Liberal, principalmente as mais radicais,
com bastante cautela e moderação. Entretanto, assumiu a liderança da
Revolução como representante de todos os interesses e classes sociais.
Mas teria sido o movimento de tomada de poder de 1930 uma
Revolução? Para alguns historiadores, a Revolução de 1930 é considerada
uma efetiva mudança social, política e econômica brasileira. A partir
dela, o país teria finalmente abandonado sua caracterização totalmente
agrária, e iniciado o caminho rumo à industrialização e a modernização.
Para outra vertente historiográfica, o movimento teria sido
uma contrarrevolução. Vargas, ao assumir o poder, teria sufocado o
movimento operário verdadeiramente revolucionário em nome de uma
falsa revolução, que representou a classe burguesa, em ascensão a partir
daquele momento.
Boris Fausto, um dos principais nomes no que tange aos estudos
historiográficos sobre o Brasil contemporâneo, foi o principal representante
da primeira vertente desse debate em torno da Revolução de 30. Para ele
e muito historiadores, sobre os quais exerceu grande influência,

Um novo tipo de Estado nasceu após 1930, distinguindo-se do Estado oligárquico não
apenas pela centralização e pelo maior grau de autonomia como também por outros
elementos. Devemos acentuar pelo menos três dentre eles: 1. a atuação econômica,
voltada gradativamente para os objetivos de promover a industrialização; 2. a atuação
social, tendente a dar algum tipo de proteção aos trabalhadores urbanos, incorporando-
os, a seguir, a uma aliança de classes promovida pelo poder estatal; 3. o papel central
____________________________________________________________________________________________
23 VARGAS, Getúlio. Discurso pronunciado ao assumir a Presidência da República. In: BASTOS,
SILVA. Op. Cit. p. 256

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unidade II
História do Brasil III
atribuído às Forças Armadas – em especial o Exército – como suporte da criação de uma
indústria de base e sobretudo como fator de garantia da ordem interna.
Tentando juntar estes elementos em uma síntese, poderíamos dizer que o Estado
getulista promoveu o capitalismo nacional, tendo dois suportes: no aparelho de Estado,
as Forças Armadas; na sociedade, uma aliança entre a burguesia industrial e setores da
classe trabalhadora urbana. Foi desse modo, e não porque tivesse atuado na Revolução
de 1930, que a burguesia industrial foi promovida, passando a ter vez e força no interior
do governo.24

Partindo desse fragmento, é possível perceber que Fausto classificou


o movimento de 1930 como uma Revolução, que congregou os interesses
de diversos grupos sociais nas medidas e provisões do Estado.
Além disso, segundo o historiador, a Revolução representou o
momento de ruína das velhas instituições oligárquicas da República Velha,
possibilitando assim o desenvolvimento gradual de um Brasil moderno e
industrializado, capaz de adentrar ao capitalismo internacional.
Você lembra que, nesta mesma unidade, falamos sobre a formação
de diversos movimentos durante a década de 20, em prol de mudanças
no sistema político? Dentro desse grupo estava, por exemplo, o Partido
Comunista, que no fim da década havia proposto medidas revolucionárias
bem organizadas e planejadas.
A segunda vertente do debate sobre o qual estamos tratando,
representada principalmente pelo historiador Edgar de Decca e seu livro
O silêncio dos vencidos25, parte do pressuposto de que o movimento de
1930 foi, na realidade, uma contrarrevolução encampada por Vargas,
pelos setores mais conservadores da Aliança Liberal e pela burguesia
proprietária das indústrias, a fim de conter e disciplinar, através do aparelho
de Estado, os setores da sociedade (como o proletariado revolucionário)
que propunham e estavam dispostos a lutar por outra forma de governo
que representasse diretamente as camadas menos favorecidas e menos
influentes do país.
Seja como for, a “Revolução” de 1930 inaugurou uma nova fase
política no Brasil, e Getúlio Vargas permaneceu por muitos anos no
poder. É sobre esse assunto que iremos tratar nas próximas unidades
deste livro.

____________________________________________________________________________________________
24 FAUSTO. Op. Cit. p.327.
25 DE DECCA, Edgar. O silêncio dos vencidos. Memória, História e Revolução. São Paulo:
Brasiliense, 2004.

37
unidade II
Universidade Aberta do Brasil

Nesta unidade você pôde perceber que a principal marca da década de 1920 no Brasil foi
a agitação social. Diversos movimentos – de militares, passando por operários e chegando
aos intelectuais – questionaram a República Velha e suas bases assentadas no controle
político das oligarquias agrárias e na manutenção de um modelo econômico agrário exportador.
Você descobriu que o conjunto dos descontentamentos com relação à República Velha se
reuniu – no final daquele período – em torno da Aliança Liberal, movimento capitaneado por Getúlio
Vargas, um líder vinculado à elite agrária gaúcha que, posteriormente, converteu-se no primeiro
fenômeno de massas da política brasileira.

1) Produza uma síntese destacando os princípios elementos fundamentais contidos no


movimento modernista da década de 1920.

2) Monte um quadro enfatizando os principais movimentos de contestação à República Velha


ocorridos no Brasil da década de 1920, a origem social deles e as suas principais reivindicações.

3) Recorra à internet e busque um conjunto de imagens sobre o Brasil da década de 1920,


destacando, principalmente, os acontecimentos sociais, políticos e culturais daquele período.

38
unidade II
História do Brasil III

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unidade II
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Universidade Aberta do Brasil

unidade II
UNIDADE III
A Era Vargas (1930-1945)

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
■■ Perceber que ao longo dos quinze anos da Era Vargas o país viveu momentos
políticos distintos, entre os quais um período de autoritarismo entre 1937 e 1945.
■■ Compreender que o Estado nacional assumiu um papel fundamental no
processo de desenvolvimento nacional ao longo de todo esse período.

Desafio da Unidade
■■ Procure, pela internet, os discursos (áudios, vídeos, textos) proferidos
por Getúlio Vargas ao longo dos anos em que esteve no poder e analise as
estratégias utilizadas por ele para se aproximar das massas.

ROTEIRO DE ESTUDO
■■ SEÇÃO 1 - Introdução

■■ SEÇÃO 2 - O fortalecimento do Estado e do nacionalismo

■■ SEÇÃO 3 - As três fases do “primeiro governo Vargas”

■■ SEÇÃO 4 - O modelo educacional – educar, sanear e reprimir

■■ SEÇÃO 5 - Desenvolvimento industrial, urbano e social


Universidade Aberta do Brasil

PARA INÍCIO DE CONVERSA

Nesta unidade você percorrerá os quinze anos em que o Brasil


foi governado por Getúlio Vargas. O desenvolvimento nacional, o
fortalecimento do Estado, o estabelecimento de políticas públicas em
diversos setores e a ditadura do Estado Novo serão aqui analisados.

seção 1
Introdução

É possível que, ao ouvir falar sobre Getúlio Vargas, diferentes


imagens venham a sua cabeça e você não consiga definir essa
importante personalidade de nossa história e seu governo em
características centrais e únicas.
Tal fato se deve às diferentes fases que marcaram o governo de
quinze anos do presidente Vargas e lhe legaram estereótipos como
“pai dos pobres”, “ditador autoritário e violento”, “líder democrático”,
“concessor de direitos”, “herói da nação”, entre outros.
Durante seu período de governo importantes transformações
estruturais aconteceram no país. Passamos a ser um país mais
urbanizado e industrializado, criou-se uma legislação trabalhista, o
ensino foi reformado, as mulheres passaram a votar. Ao mesmo tempo,
opositores do governo foram presos, partidos políticos dissolvidos e a
imprensa foi censurada.
Nas próximas seções desta unidade estudaremos tais
acontecimentos, a fim de que você perceba e acompanhe todo esse
processo de importantes modificações econômicas, sociais e culturais
de nosso país.

42
unidade III
História do Brasil III
seção 2
O fortalecimento do Estado e do nacionalismo

Você deve se recordar da abordagem que fizemos, neste livro, sobre a


quebra da bolsa de Nova York e a recorrente crise econômica que percorreu
a maioria dos países do globo integrados ao sistema capitalista.
Nesse momento, vigorava nos Estados Unidos o sistema econômico
denominado de liberalismo. Resumidamente, pode-se dizer que tal
sistema abolia qualquer intervenção e controle do Estado sobre os fluxos
financeiros e cambiais.
Em uma tentativa de reverter o grave e assustador quadro que a crise
havia iniciado, Franklin Roosevelt, presidente dos EUA à época, propôs
novas medidas econômicas, através de um plano que ficou conhecido
como New Deal. Tal medida funcionava a partir da intervenção direta,
por parte do Estado, em obras de infraestrutura, na economia e em outras
áreas da sociedade.
Outras formas de fortalecimento e centralização do Estado surgiram
também na Europa em decorrência da crise. O fascismo italiano e o
nazismo alemão foram exemplos centrais da constituição de regimes
autoritários e militarizados, na busca do controle da crise e manutenção
das classes privilegiadas no poder.
Tal cenário também se fez presente no Brasil. Ao chegar ao poder,
Getúlio percebeu a necessidade de um Estado forte e centralizado,
pautado em um sentimento de nacionalismo exacerbado, que deveria
perpassar toda a população.
Para Antonio Augusto Faria e Edgar Luiz de Barros:

A partir da Revolução de 30, as concepções nacionalistas e autoritárias foram difundidas


com maior intensidade. É nesse momento que se assinala a presença de alguns setores
mais radicais do movimento tenentista, como aqueles organizados no Clube de 3 de
outubro, que se caracterizavam, basicamente, pela preocupação com o engrandecimento
do Brasil numa postura nacionalista.26

Sobre essa transição de um Estado oligárquico para um Estado


constituído pelas “massas” e para uma estrutura de poder central, e não
mais local, Fausto considerou que:
____________________________________________________________________________________________
26 CARONE, Edgard. O tenentismo. São Paulo: Difel, 1975, p.428

43
unidade III
Universidade Aberta do Brasil

As medidas centralizadoras do governo provisório surgiram desde cedo. Em novembro


de 1930, ele (Vargas) assumiu não só o Poder Executivo como o Legislativo, ao dissolver
o Congresso Nacional, os legislativos estaduais e municipais. Todos os governadores,
como exceção do novo governador eleito de Minas Gerais, foram demitidos e, em seu
lugar, nomeados interventores federais. Em agosto de 1931, o chamado Código dos
Interventores estabeleceu as normas de subordinação destes ao poder central. Limitava
também a área de ação dos Estados, que ficaram proibidos de contrair empréstimos
externos sem a autorização do governo federal; gastar mais de 10% da despesa ordinária
com os serviços da polícia militar; dotar as polícias estaduais de artilharia e aviação ou
armá-las em proporção superior ao exército.27

Após sofrer grande derrocada econômica com a crise de 1929,


devido aos fortes laços de dependência com os países desenvolvidos e a
adoção do modelo liberal, Vargas centrou sua ação em uma estratégia de
desenvolvimento nacionalista. Segundo Octávio Ianni:

A história da política econômica governamental brasileira, desde 1930, indica


que esta oscilou entre duas tendências principais. Uma dessas tendências, que
pode ser denominada estratégia de desenvolvimento nacionalista, predominou
nos anos 1930-45, 1951-54 e 1961-64. Ela continha, como pressuposto implícito
e explícito, o projeto de um capitalismo nacional, como uma única alternativa para
o progresso econômico e social. Note-se que o projeto de capitalismo nacional
deveria implicar na crescente nacionalização dos centros de decisão sobre
assuntos econômicos; e continha o pressuposto de uma hegemonia possível,
principalmente nas relações com os países da América Latina e da África.28

Conjuntamente às ações de nacionalização e centralização do


Estado, era preciso, em alguma medida, aproximar as decisões do Estado
com as necessidades da maior parte da população, excluída até então de
todo e qualquer processo governamental.
Getúlio sabia que precisaria do apoio das massas. Por isso, ao longo
de seu governo, concedeu direitos aos trabalhadores, criando assim
mecanismos de controle muito eficazes.
No livro Getúlio Vargas e sua época29, Antonio Augusto de Faria
e Edgar Luiz de Barros afirmam que Vargas não perdeu em nenhum
momento o objetivo de produzir mudanças estruturais no país, entretanto
tomou muito cuidado para que forças contrárias não chegassem a formar
um movimento expressivo. Dessa forma, os autores acreditam que não
____________________________________________________________________________________________
27 FAUSTO. Op.Cit, p.333.
28 IANNI, Octávio. Estado e Planejamento Econômico no Brasil (1930-1970). São Paulo:
Civilização Brasileira, 1971, p.307. In: FENELON, Dea Ribeiro. 50 textos de História do Brasil.
São Paulo: Hucitec, 1974, p.175.
29 FARIA, Antonio Augosto, BARROS, Edgard Luiz. Getúlio Vargas e sua época. São Paulo: Editora
Global, 1983.

44
unidade III
História do Brasil III
houve mudanças nas formas sociais de dependência, o que mudou foram
apenas as estratégias de manutenção do poder.
Nas próximas seções você irá conhecer as diferentes fases e faces
do governo de Vargas.

seção 3
As três fases do “primeiro governo de Vargas”

Embora Getúlio Vargas tenha governado por quinze anos


ininterruptamente, seu governo contém três periodizações clássicas.
Tais divisões não funcionam apenas como marcadores didáticos, mas
representam períodos distintos e com características específicas.
A “primeira fase” de seu governo, que durou de 1930 a 1934, ficou
conhecida como governo provisório. Conforme você já estudou na seção
anterior, esse período foi caracterizado pela centralização do poder nas
mãos do Estado e por um governo que não se preocupou mais apenas
com “as questões da elite cafeeira”.
A fim de atender aos interesses dos diversos grupos que compunham
a Aliança Liberal e o haviam auxiliado chegar ao poder, Vargas instituiu
várias medidas e criou diversos órgãos, como o Conselho Nacional do Café
(CNC), substituído pelo Departamento Nacional do Café (DNC), agora sob
comando direto do Estado, e não dos Estados produtores como antes.
Com o objetivo de apaziguar os trabalhadores e as revoltas, criou-se
o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, que promulgou algumas
leis de proteção e benefícios ao trabalhador, como a concessão de férias, a
fixação da jornada diária de trabalho para oito horas, e a regulamentação
do trabalho dos menores e das mulheres. Até então, e já estávamos
em 1930, nenhuma dessas condições básicas de trabalho haviam sido
colocadas em prática.
Entretanto, angariando atender também aos interesses dos
proprietários e patrões, instituiram-se as Juntas de Conciliação e
Julgamento, que funcionavam para mediar os conflitos e interesses entre
empregadores e empregados.

45
unidade III
Universidade Aberta do Brasil

Praticamente todos os principais produtos produzidos passaram a


ter o controle de órgãos e conselhos do Estado. Com um decreto datado de
11 de novembro de 1930, Getúlio passou a exercer os poderes Executivo
e Legislativo, até a promulgação de uma nova constituição para o país. O
Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas estaduais e as Câmaras
Municipais foram fechadas. Os governadores foram demitidos e os
estados passaram a ser governados por interventores federais.
As medidas citadas acima – principalmente a nomeação dos
interventores federais, a exclusão dos poderes locais estaduais e a
indefinição acerca da constituição de um verdadeiro processo democrático
– desagradaram e muito alguns estados, principalmente São Paulo,
acostumado até então a participar ativamente dos processos políticos e
econômicos decisórios do país.
Apesar de, após as reivindicações dos paulistas, Vargas ter nomeado
um interventor civil (ao contrário dos outros, que eram tenentes) e paulista,
e ter prometido a eleição de uma Assembleia Constituinte para 1933, o
clima de tensão e desconfiança deu origem à Revolução Constitucionalista
Paulista, deflagrada em 9 de julho de 1932.

A FORMAÇÃO DA FRENTE ÚNICA PAULISTA

Acompanhe a seguir trechos do discurso do Partido Democrático


Paulista sobre o seu rompimento com Getúlio Vargas, publicado no dia 13
de janeiro de 1932, no jornal O Estado de São Paulo:

O partido Democrático de São Paulo sente-se no dever de chamar a


atenção dos paulistas e dos brasileiros em geral para a necessidade de se
congregarem todos em combate indefeso aos perigos que ameaçam os
destinos e segurança do Estado e da Nação (...).
São Paulo que pela cultura e gênio de seus filhos, pela opulência de
sua riqueza, pelo número de sua população, pela feracidade de seu solo,
pela grandeza do seu comércio, indústria e lavoura, pelo brilho de sua
letras, pelo progresso vertiginoso de suas campinas e povoados, pelo
prestígio de sua inferência preponderante e contínua na formação de nossa
nacionalidade; São Paulo que podia reivindicar, não um primado em que
não pensa, mas uma paridade de tratamento no seio da Federação, não
tem sequer uma voz ou representante no conclave da Ditadura e, além
disso, vê os seus filhos afastados das posições oficiais, os cargos de sua
jurisdição cometidos a beneficiários de fora e o seu Governo entregue ao
capricho de forasteiros (...).

46
unidade III
História do Brasil III
Não é, porém, apenas o caso de São Paulo que nos inquieta. O Brasil
inteiro envolve-se nas mesmas trevas.
O problema constitucional alvorota as paixões e turba a inteligência
daqueles que se deviam conservar serenos na contemplação do
panorama político.
O tema, entretanto, não comporta transigências nem procrastinações;
cumpre entregá-lo ao único poder competente para dirimi-lo, a saber, a
soberania da Nação, expressa na voz de seus legítimos representantes.
Enganam-se os que pretendem protrair o advento do regime
constitucional, de modo a predispor a reorganização do país segundo
a mentalidade da nova era e a assegurar na Constituinte o predomínio
das idéias dos que s proclamam mentores da Revolução (...).
A revolução não se fez para assumir a tutela da Nação senão para
entregar à Nação o governo de si mesma. Se a Nação entender, pelo
voto de seus genuínos representantes, organizar-se antes de um modo
do que de outro, devemos nos inclinar diante de sua soberania. Podemos
e devemos instruir o povo, convertendo-o às idéias que nos parecem
mais acertadas; mas não nos é lícito impor-lhe o nosso pensamento e
vontade. Seria o despotismo.
O Partido Democrático não pode desviar-se desta linha. No
frontispício de seu programa, como a doirar a cúpula dos compromissos
assumidos, figura a bela tricotomia americana do governo do povo, pelo
povo e para o povo.

Depois de declarada, a Revolução e os combates duraram


aproximadamente três meses. As tropas federais venceram, devido à
sua absoluta superioridade bélica e numérica. Mas os esforços não
foram em vão.
Finalmente, em 1934, foi publicada a Constituição, inaugurando a
fase conhecida como Governo Constitucional, que durou até 1937. Entre
suas principais orientações estavam a proibição da reeleição, a manutenção
do federalismo e um capítulo especial, inspirado pela Constituição alemã
de Weimar, que garantia direitos aos trabalhadores, como: a limitação da
jornada de trabalho, férias anuais, repouso semanal remunerado, direito
de mais de um sindicato por setor, indenização por demissões sem justa
causa, entre outros.
Nessa mesma época, Vargas criou o programa Hora do Brasil.
Estávamos em plena era do rádio e, sem dúvidas, esse seria um meio
muito eficaz de “conversar” com a população do país e fortalecer a

47
unidade III
Universidade Aberta do Brasil

imagem do presidente no imaginário popular.


Segundo Sevcenko:

Nos anos 1930 e 1940, vividos predominantemente sob a tutela varguista (1930-45), a
orientação autoritária do governo pretendeu compor doses complementares de repressão
e doutrinação a fim de construir sua base inicial de sustentação política. Haurindo
ensinamentos dos regimes repressivos que se multiplicam na Europa nesse período, as
autoridades federais procurariam tirar o máximo proveito das técnicas de propaganda e
dos meios de comunicação social, muito especialmente do rádio. Os dois rituais básicos
da nova ordem eram o discurso presidencial de 1º de maio no Estádio de São Januário e
o noticiário diário da Voz do Brasil, ambos assentados sobre esse mesmo nexo simbólico,
a voz dramatizante de Vargas, irradiada, recebida e incorporada como a expressão do
animus profundo da nação. Ademais, o envolvimento da imagem do presidente com o
cinema, o teatro, o disco, o humor gráfico, o Carnaval e a gravura popular revelava que
a prática inédita de produzir o consenso por meio de apelos sensoriais e conotações
afetivas se mostrava muito mais eficiente que a racionalidade dos discursos. Ao amestrar
os potenciais desestabilizadores das novas tecnologias, o regime expunha a inclinação
conformista de suas formas de consumo e sua particular adequação como recursos de
gestão social. Interferindo na dinâmica dos instintos e dos afetos mais íntimos de cada
um, o regime consolidava a ordem política coletiva.30

Apesar dos discursos em tons populares e da cordialidade perante


grande parte da população, ainda durante a fase constitucional deu-
se a criação da Lei de Segurança Nacional, direcionada para os crimes
considerados políticos.
Tal medida perseguiu e reprimiu, de forma violenta, os movimentos
contestatórios e considerados “subversivos”. O principal alvo do Estado era
a ANL (Aliança Nacional Libertadora). Dela participavam vários grupos,
entre os quais estavam comunistas, tenentistas, democratas e socialistas.
Além de tentar conter a influência e o crescimento da AIB (Ação
Integralista Brasileira), movimento liderado por Plínio Salgado e que,
apesar de possuir motivações nacionais, se aproximava – em seus cacoetes,
rituais e princípios – do fascismo.
O programa da ANL continha cinco itens principais: a suspensão
definitiva do pagamento da dívida externa; a nacionalização das empresas
estrangeiras; a reforma agrária; a garantia das liberdades populares; e a
constituição de um governo popular, do qual qualquer pessoa poderia
participar.
Seu líder, Luís Carlos Prestes, já em 1930 expressou seu descontenta-
mento em relação ao rumo que o país seguiu após a “Revolução” de 30:

____________________________________________________________________________________________
30 SEVCENKO. Op. Cit. p.37,38.

48
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História do Brasil III
A Revolução brasileira não pode ser feita com programa anódino da Aliança Liberal.
Uma simples mudança de homens, o voto secreto, promessas de liberdade eleitoral,
de honestidade administrativa, de respeito à Constituição, de moeda estável e outras
panaceias nada resolvem, nem podem de maneira alguma interessar à grande maioria
da nossa população, sem o apoio da qual qualquer revolução que se faça terá o caráter
de uma simples luta entre as oligarquias dominantes.
Não nos enganemos. Somos governados por uma minoria que, proprietárias das
fazendas e dos latifúndios e senhora dos meios de produção e apoiada nos imperialismos
estrangeiros que nos exploram e nos dividem, só será dominada pela verdadeira
insurreição generalizada, pelo levantamento consciente das mais vastas massas das
nossas populações dos sertões e das cidades. (...).
Lutemos pela completa libertação de todos os trabalhadores agrícolas, de todas as formas
de exploração feudais e coloniais; pela confiscação, nacionalização e divisão das terras;
pela entrega da terra gratuitamente aos que a trabalham. Pela libertação do Brasil do
jugo do imperialismo; pela confiscação e nacionalização das empresas estrangeiras, dos
latifúndios, concessões, vias de comunicações, serviços públicos, minas, bancos; anulação
das dívidas externas. Pela instituição de um governo realmente surgido dos trabalhadores
da cidade e das fazendas, em entendimento com os movimentos revolucionários anti-
imperialistas dos países latino-americanos e capaz de esmagar os privilégios dos atuais
dominadores e sustentar as reivindicações revolucionárias.31

Pelo teor do manifesto de Prestes, você pode perceber as


características que teve, após o fechamento da ANL pela Lei de Segurança
Nacional, a Intentona Comunista de 1935. Iniciada em Natal, eclodiu
também em Recife e no Rio de Janeiro. O movimento foi rapidamente
contido pelo exército e pela polícia, seus líderes foram presos, torturados
e mortos, e a revolta foi desmoralizada pela imprensa, que caracterizou
os participantes como antinacionais e terroristas.

Militância e romance
Luiz CARLOS Prestes e Olga Benário

Na década de 1930, a alemã de origem judaica Olga Benário (1908-


1942) chegou ao Brasil, a serviço da Internacional Comunista, para atuar
como guarda-costas do então membro do Partido Comunista Luís Carlos
Prestes, considerado a figura central para levar adiante uma revolução
comunista no país.
Ambos foram líderes da tentativa de tomada de poder dos comunistas em
1935. A convivência deu origem ao romance que resultou no nascimento
da hoje historiadora Anita Leocádia Prestes.
Após o fracasso da revolta de 1935, Prestes foi preso e Olga foi
entregue pelo governo getulista à Alemanha, onde foi morta no campo de
concentração de Benburg. O escritor Fernando Moraes publicou em 1985
uma biografia sobre sua vida intitulada “Olga”. Em 2004, o diretor Jayme
Monjardim dirigiu o longa “Olga”, inspirado na obra de Moraes.

____________________________________________________________________________________________
31 PRESTES, Luís Carlos. Manifesto de Luís Carlos Prestes – Buenos Aires, maio de 1930. In:
FENELON. Op. Cit. p.142, 144.

49
unidade III
Universidade Aberta do Brasil

Vargas saiu fortalecido desse episódio. Aproveitou-se do imaginário


anticomunista que havia sido instaurado entre a população e, justificando
sua ação através do Plano Cohen (um suposto plano comunista de tomada
de poder), fechou novamente o Congresso. Instituiu-se no país uma caça
aos comunistas, considerados contrários à família, à moral e à religião.
Teve início o Estado Novo, a ditadura de Vargas que durou até
1945 e foi marcada pelo fim da democracia. Os partidos políticos (até
a AIB) foram extintos; os interventores voltaram a atuar nos estados;
órgãos de censura e repressão, como o DIP (Departamento de Imprensa
e Propaganda), foram criados com o intuito de controlar a imprensa,
determinar o que podia ser publicado.
Além disso, uma das missões do Estado Novo era a de exaltar a
figura de Getúlio Vargas, transformá-lo em um mito, em um herói, para
que a maioria da população continuasse enxergando-o como o bondoso
“pai dos pobres”.
Perceba que muitas das características que marcaram o Estado Novo
tiveram muita influência e consonância com os regimes fascistas que
ocorreram na Europa ao mesmo tempo. A nova Constituição de 1934, de
cunho extremamente autoritário, claramente inspirada na Carta da Polônia,
que também vivia um regime autoritário, é um exemplo dessa aproximação.
Muitos outros exemplos também são passíveis de ser enumerados,
como: a nomeação de Felinto Muller, mestre em práticas de repressão
e tortura, como chefe da Polícia Política; e a Consolidação das Leis do
Trabalho, conhecida como CLT, inspirada na Carta Del Lavoro italiana.
Apesar de esta ser a legislação que mais “concedeu” benefícios aos
trabalhadores até então, proibia as greves, e os sindicatos passaram a ser
controlados pelo governo – os chamados sindicatos pelegos.

OPRESSÃO E CENSURA DURANTE


O ESTADO NOVO (1937-1945)

Até então, o Brasil vivenciara uma trama de interesses conflituosos


manobrados pela oligarquia rural e pelas burguesias rural e mercantil que
tentavam, a todo custo, sufocar as demais forças sociais emergentes que
careciam de porta-vozes partidários, possíveis tradutores dos seus projetos
em nível nacional. E foi justamente a ausência de partidos nacionais
fortes que facilitou o golpe que instaurou o Estado Novo em 1937. Ao
perceber que o Partido Comunista do Brasil e outras organizações de

50
unidade III
História do Brasil III
esquerda poderiam reorganizar as forças sindicais sujeitas às pressões das
oligarquias e convocar o movimento operário à luta, formulando-lhes um
programa político adequado aos seus ideais, Vargas apelou para a força
e para a violência. Ao analisarmos as práticas autoritárias do governo
Vargas, verificamos que um dos seus principais objetivos era transformar
as classes em massa, o individual em coletivo. E cabe ressaltar que em
ambos os lados (Estado e povo) o medo emergia como princípio de ação,
ou seja, como já assinalou Hannah Arendt (1978:572-3) em seu clássico
estudo sobre o regime totalitário: “o medo que o povo tem do governante e
o medo que o governante tem do povo”.
O medo de que um projeto socialista vingasse no Brasil levou o governo a
prender milhares de cidadãos que, rotulados de “perigosos propagandistas
do credo vermelho”, foram punidos como hereges políticos. Listas e
mais listas de presos políticos, intercalando nomes de estrangeiros aos
brasileiros “subversivos”, encontram-se anexadas aos prontuários do Dops,
testemunhando as arbitrariedades governamentais acobertadas pelo lema
ordem e progresso.
Sob o signo da opressão e da censura, o governo Vargas (1930-45)
procurou eliminar todos os canais possíveis de contestação. O Estado
Novo, portanto, nada mais foi do que uma fase abertamente ditatorial, cujos
antecedentes nos comprovam que Vargas, além de expressar o perfil de um
autêntico estadista, era, por formação, um homem de índole autoritária e
que, entre 1930 e 1937, procurou concentrar, cada vez mais, o máximo de
poder nas mãos do Executivo. Uma série de registros nos comprova que a
intenção de Vargas era calar as resistências e continuar no poder, apesar de
a Constituição de 1934 proibir a reeleição à presidência da República nas
eleições de janeiro de 1938. A aprovação da Lei de Segurança Nacional
pelo Congresso, a decretação de sucessivos estados de sítio após a tentativa
de putch comunista, a redação prévia de uma nova carta constitucional
inspirada nas matrizes dos regimes totalitários europeus, a liquidação
dos integralistas (até então aliados e cúmplices de Vargas) que haviam
tentado um golpe em maio de 1937 não devem ser vistos como fatos
isolados.

CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. O Estado Novo, o Dops e a ideologia da


segurança nacional. In: PANDOLFI, Dulce (Org.). Repensando o Estado
Novo. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getúlio Vargas, 1999, p. 328, 329.

Dessa forma, pode-se classificar o período denominado de Estado


Novo como uma época marcada pelo autoritarismo e pela diminuição
das liberdades políticas e individuais, através da intensa propaganda
da figura de seu líder, Getúlio Vargas, e de práticas extremamente
violentas e repressivas.

51
unidade III
Universidade Aberta do Brasil

seção 4
O modelo educacional:
educar, sanear e reprimir

Você deve se recordar de que no início deste livro falamos sobre os


ideais de saneamento e regeneração do povo brasileiro que perpassaram o
período de transição da Monarquia e a constituição da Nova República.
Tais concepções não foram esquecidas, e a formação de um povo
brasileiro saudável – nos aspectos moral, físico, intelectual e social –
continuou na ordem do dia durante toda a Era Vargas. Prova disso foi
a criação, em novembro de 1930, do Ministério da Educação e Saúde,
como um mesmo órgão.
Ao mesmo tempo em que era preciso sanear fisicamente a população,
livrá-la de suas práticas consideradas ineficazes e atrasadas, era necessário
formá-la também moralmente, socialmente e “intelectualmente”, a
fim de que ficasse apta para o trabalho. Apenas pessoas capacitadas
e “adestradas” poderiam integrar o novo momento de expansão da
economia capitalista no Brasil.
Para a pesquisadora Azilda L. Andreotti:

A recente modernização capitalista no Brasil, nos anos de 1930, trouxe a expansão


de novas camadas sociais e abriu possibilidades de mobilidade social na estrutura de
classes de classes da sociedade brasileira, com a ampliação do mercado de trabalho e
do mercado consumidor.
Nesse contexto de expansão das forças produtivas, a educação escolar foi considerada
um instrumento fundamental de inserção social, tanto por educadores, quanto para uma
ampla parcela da população que almeja uma colocação nesse processo. Às aspirações
republicanas sobre a educação como propulsora do progresso, soma-se a sua função de
instrumento para a reconstrução nacional e a promoção social.32

Tais concepções em torno da educação enquanto possibilitadora de


ascensão social e formadora do que se concebia ser um trabalhador digno,
que ajudasse a levar o país rumo ao tão almejado progresso, perpassaram
os projetos educacionais da Era Vargas.
A busca por um ensino profissionalizante, que preparasse o
trabalhador para atuar junto às novas indústrias, expressou-se através da
criação do SENAI e do SENAC.
____________________________________________________________________________________________
32 ANDREOTTI, Azilda L. O governo Vargas e o equilíbrio entre a Pedagogia Tradicional e a
Pedagogia nova. In: http://www.histedbr.fae.unicamp.br/navegando/periodo_era_vargas_intro.html.

52
unidade III
História do Brasil III
Em seus discursos do dia 1º de maio, Vargas procurou valorizar
o trabalhador, além de exaltar a importância do trabalho como fator
essencial para a formação da dignidade humana.
Acompanhe, a seguir, alguns trechos de um desses discursos:

Operários do Brasil: No momento em que se festeja o ”Dia do Trabalho”, não desejei


que esta comemoração se limitasse a palavras, mas que fosse traduzida em fatos e atos
que constituíssem marcos imperecíveis, assinalando pontos luminosos na marcha e na
evolução das leis sociais no Brasil (...).
No momento em que se providencia para que todos os trabalhadores brasileiros tenham
casa barata, isentos dos impostos de transmissão, torna-se necessário, ao mesmo tempo,
que, pelo trabalho, se lhes garanta a casa, a subsistência, o vestuário, a educação dos
filhos.
O trabalho é o maior fator de elevação da dignidade humana,
Ninguém pode viver sem trabalhar; e o operário não pode viver ganhando apenas
o indispensável para não morrer de fome! O trabalho justamente remunerado eleva-o
na dignidade social. Além dessas condições, é forçoso observar que num país como o
nosso, onde em alguns casos há excesso de produção, desde que o operário seja melhor
remunerado, poderá, elevando o seu padrão de vida, aumentar o consumo, adquirir mais
dos produtos e, portanto, melhorar as condições do mercado interno.
É preciso, portanto, para a realização desse ideal supremo, que todos marchem unidos,
em ascensão prodigiosa, heróica e vibrante, no sentido da colaboração comum e do
esforço homogêneo pela prosperidade e pela grandeza do Brasil.33

Fica claro nesse discurso e em vários outros que apresentaram o


mesmo tom, assim como nos meios de comunicação (rádios, jornais e
revistas), o esforço do Estado para disseminar padrões culturais e de
comportamento que “educassem” para o trabalho e para a morigeração.
No que diz respeito ao ensino nas escolas e à criação das
universidades, é preciso admitir que se observou um grande avanço
quanto à situação em que a educação se encontrava na República Velha,
durante os anos de governo do presidente Vargas.
A partir da nomeação de Gustavo Capanema, em 1943, para a
função de Ministro da Educação, muitos avanços no sistema educacional
puderam ser observados. Realizaram-se reformas nos atualmente
denominados ensino fundamental e médio, e a exigência do diploma de
nível secundário, hoje médio, para a entrada no nível superior.
Criaram-se também universidades (até aquele momento elas eram
apenas junção de escolas superiores), como a de São Paulo, em 1934, e a
do Distrito Federal, no ano de 1935.
____________________________________________________________________________________________
33 AVARGAS, Getúlio. Discurso pronunciado por ocasião da assinatura de decretos-leis referentes
às classes trabalhadoras do país – Palácio da Guanabara a 1 de maio de 1938. In: FENELON. Op.
Cit. p. 162-164.

53
unidade III
Universidade Aberta do Brasil

Desde a década de 20, vários projetos propondo reformas e diretrizes


para a educação brasileira marcaram presença no cenário nacional. De
forma geral, podemos dividi-los em dois grupos antagônicos.
O primeiro deles, representado principalmente pela Igreja Católica
e por alas mais conservadoras da sociedade, exaltava a necessidade do
ensino religioso não apenas nas escolas privadas, como também nas
públicas. Nesse tipo de ensino os alunos seriam separados conforme o
sexo, já que em sua fase adulta passariam a exercer funções distintas,
geralmente, conforme o padrão da sociedade de classe média burguesa
da época: o homem trabalhando fora de casa e a mulher cuidando do lar,
do esposo e dos filhos.
Já o segundo grupo era formado pelos chamados educadores
liberais, os quais enfatizavam o papel essencial do ensino público gratuito,
sem ensino religioso (este deveria se restringir às escolas privadas),
e sem distinção de sexo. Tal proposta educacional foi defendida pelos
educadores da Escola Nova.

MANIFESTO DOS PIONEIROS DA ESCOLA NOVA


E O GOVERNO VARGAS

O ponto de vista dos reformadores liberais foi expresso no Manifesto


dos Pioneiros da Escola Nova, ou simplesmente, Manifesto da Escola
Nova, lançado em março de 1933. Seu principal redator foi Fernando de
Azevedo, destacando-se também os nomes de Anísio Teixeira e Lourenço
Filhos, entre outros. O manifesto constatava a inexistência no Brasil de uma
“cultura própria” ou mesmo de uma “cultura geral”. Marcava a distância
entre os métodos atrasados de educação no país e as transformações
profundas realizadas no aparelho educacional de outros países latino-
americanos, como o México, o Uruguai, a Argentina e o Chile. A partir de
uma análise das finalidades da educação, propunha a adoção do princípio
de “escola única”, concretizado, em uma primeira fase, em uma escola
pública e gratuita, aberta a meninos e meninas de sete a quinze anos, onde
todos teriam uma educação igual e comum.
Os “pioneiros” defendiam a ampla autonomia técnica, administrativa
e econômica do sistema escolar para livrá-lo das pressões de interesses
transitórios. Sustentando o princípio da unidade do ensino, distinguiam
entre a unidade e o centrismo “estéril e odioso”, gerador da uniformidade.
Lembravam que as condições geográficas do país e a necessidade de
adaptação das escolas às características regionais impunham a realização
de um plano educativo que não fosse uniforme para todo o país, embora a
partir de um currículo mínimo comum.

54
unidade III
História do Brasil III
O governo Vargas não assumiu por inteiro e explicitamente as posições
de uma das correntes apontadas (religiosa e liberal), mas mostrou
inclinação pela corrente católica, sobretudo na medida em que o sistema
político se fechava. O maior inspirador de Capanema no Ministério da
Educação, além de Francisco Campos, foi o então intelectual conservador
católico Alceu de Amoroso Lima, conhecido pelo pseudônimo de Tristão de
Ataíde. Dentre os reformadores liberais, apenas Lourenço Filho manteve
postos de mando, enquanto os demais foram marginalizados ou até mesmo
perseguidos, com foi o caso de Anísio Teixeira.

FAUSTO, Boris. Op. Cit. p. 339, 340.

Apesar de o governo ter adotado um modelo de ensino conservador,


de inspiração religiosa e, em alguns casos, demasiadamente tecnicista,
pode-se observar, ao menos em relação à estrutura política anterior, certos
avanços que precisam ser considerados a fim de que se compreenda o
processo educacional brasileiro.
Importantes nomes de nossa intelectualidade e classe artística
produziram e criaram no período da Era Vargas. Dentre eles, podem ser
citados João Cabral de Melo Neto, Cecília Meirelles, Guimarães Rosa,
Cândido Portinari, Oscar Niemeyer, Ataulfo Alves, Ari Barroso, Villa-
Lobos, Lamartine Babo e muitos outros.
Mesmo considerando a infinita produção de todos os nomes citados,
é preciso que se considere que, assim como para todas as outras camadas
da sociedade, suas obras e criatividade foram limitadas e coagidas, tanto
pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) como pelo Dops
(Departamento de Ordem Política e Social), que funcionaram durante todo
o Estado Novo como órgãos reguladores e formadores da sociedade.

55
unidade III
Universidade Aberta do Brasil

seção 5
Desenvolvimento industrial, urbano e social

Você deve lembrar-se de que, ainda na Unidade I deste livro, falamos


que a estrutura econômica brasileira era baseada na produção agrícola,
dominada pelas elites cafeeiras, que exportavam o café, principal produto
da época, para países da Europa e para os Estados Unidos.
Tal estrutura agrária, baseada na exportação de gêneros primários, e
a própria extensão territorial de nosso país contribuíram para que grande
parte da população vivesse espalhada por enormes áreas rurais, distante
das cidades e dos processos decisórios no que tange à vida política. Pode-
se afirmar, através dos censos da época, que aproximadamente 70% dos
brasileiros viviam no campo e dependiam de algum tipo de produção
agrícola para sua sobrevivência ou, ao menos, subsistência.
Principalmente a partir da década de 1930 essa realidade começou
a passar por transformações, que tiveram como resultado a urbanização
do país e o aumento do número de pessoas vivendo nas cidades.
A grande crise mundial de 1929 e a ocorrência de duas grandes
guerras mundiais favoreceram o início do processo de industrialização
nacional. A consequente criação de fábricas e indústrias estimulou o
processo de migração interna. Afinal, eram necessários operários para
trabalhar nas fábricas e na construção civil, devido ao acelerado (para os
padrões da época) processo de urbanização.
Se até o final dos anos 20 o crescimento anual da produção agrícola
ainda era maior do que o da indústria, a partir da década de 30 esse dado
já tinha sido alterado. Antes mesmo da segunda metade do século XX, a
maior renda do Estado estava centrada na produção das indústrias, e não
mais na agricultura.
Essas mudanças não alteraram apenas o perfil econômico do
país, mas a própria vida das pessoas que participaram de tal processo.
A mudança para as cidades trouxe consigo o abandono, ao menos em
parte, de crenças e hábitos tradicionais. O tempo passou a ser controlado
pelo relógio e pelo apito das fábricas. Devido a inúmeros novos estímulos
sensoriais, a população foi inserida no interior de um grande processo de
cultura de massas.

56
unidade III
História do Brasil III
Segundo esclareceu a historiadora Maria Cristina Cortez Wissenbach
sobre o processo de urbanização no início do século, que se estendeu
também para as décadas seguintes,

Um dos traços característicos dos finais do século XIX e inícios do século XX foi o intenso
crescimento dos contingentes urbanos da população brasileira. Confluindo à série de
transformações pelas quais passava o país, essa tendência demográfica, início de um
processo que inverteu a distribuição socioterritorial da população brasileira, correspondeu,
de imediato, ao afluxo de levas de imigrantes nacionais e estrangeiros que foram sendo
atraídos para as cidades, sobretudo a partir do último quartel do século XIX. Aspecto
menos conhecido do que a imigração estrangeira, é necessário sublinhar aqui o peso
das migrações internas, significativas em cidades como o Rio de Janeiro e Recife, e
em São Paulo, sobretudo a partir dos anos de 1920, indicando as inferências que fatos
socioeconômicos e políticos provocavam na dispersão das populações nacionais.
Nessa época, o adensamento de populações nas grandes cidades ocorreu sem que
houvesse uma correspondência na expansão da infraestrutura citadina e nas ofertas de
empregos e moradias, transformando menos num desenvolvimento e mais num inchaço,
o que acentuou o contraste entre as desigualdades sociais que aí se fizeram presentes.
(...) Mais do que isso, as transformações se deram no contexto de uma urbanização
abrupta que se cimentava em formas improvisadas, levando o viver nas cidades a
ser marcado pelas contingências de um provisório que muitas vezes se convertia em
estruturas perenes.34

A falta de emprego para todos nos setores industriais, e uma


urbanização acanhada e sem planejamento, especialmente nas áreas
mais periféricas e distantes das cidades, acabaram dando origem a
vários problemas sociais, entre eles a formação de morros e favelas, o
desemprego e a violência.
Mais uma vez, a “solução” que o Estado encontrou para os
problemas e perigos que essa população representava foi o controle, o
enquadramento normatizador e a disciplinarização.
Por incrível que pareça, Getúlio Vargas não apresentou muitas
dificuldades de colocar em prática as medidas citadas junto à população.
Ao longo de todo seu governo formulou estratégias de adesão e controle
popular.
Entretanto, há que se reconhecer que, nos quinze anos em
que governou, desde o processo revolucionário de 1930, mudanças
importantes ocorreram. Entre elas podemos citar a tentativa de reforma
do sistema escolar, aberto agora para grande parte da população; e a

____________________________________________________________________________________________
34 WISSENBACH, Maria Cristina Cortez. Da escravidão à liberdade: dimensões de uma privacidade
possível. In: SEVCENKO, Nicolau. História da Vida Privada no Brasil. República: da Belle Époque à
Era do Rádio. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p.91,92.

57
unidade III
Universidade Aberta do Brasil

possibilidade de qualificação profissional, através dos cursos técnicos


oferecidos pelo SENAI e pelo SENAC, como, por exemplo, a ampliação
dos direitos trabalhistas e políticos para as mulheres, e a implantação de
uma legislação trabalhista, representada pela CLT.
Vargas soube ser hábil. As mudanças foram, mais do que
benevolência e “caridade” do presidente, conquistas da população e de
setores da sociedade, que há muito tempo lutavam por elas.
Mas Getúlio, ao encarnar a imagem de “pai dos pobres” e “herói
da nação”, através de táticas muito hábeis das quais já falamos – como
a propaganda via rádio e as comemorações do Dia do Trabalho, por
exemplo –, figurou como concessor de direitos sociais e melhorias de vida
e trabalho, imagem que permanece consolidada no imaginário de grande
parte da população.

AS ORIGENS E O MITO DO
TRABALHISMO DE GETÚLIO VARGAS

Quando, em 24 de agosto de 1954, uma bala de revólver atravessou o


peito de Getúlio Vargas, em pleno Palácio do Catete, no Rio de Janeiro,
ele, segundo sua famosa carta-testamento, deixava a vida para entrar na
história. O gesto trágico do suicídio forneceu munição para alimentar o
mito que se construiu em torno desse líder político, uma esfinge a desafiar
permanentemente o esforço de decifração dos que tentam aproximar-se
dela. A figura mítica de Vargas não brotou do nada. No que diz respeito,
particularmente, à ressonância que alcançou junto às massas trabalhadoras
do Brasil, seu ponto de apoio se acha na legislação trabalhista, cuja
implantação foi acelerada ao longo dos anos 30 e 40 do século passado.
Ao redor dela montou-se todo um aparato ideológico que, no campo
simbólico, buscava lançar uma ponte entre o presidente da República
(de fato, um ditador, na maior parte do período 1930-1945) e as classes
trabalhadoras, como peça da política de conciliação de classes em favor do
desenvolvimento capitalista do país.

Fiel escudeiro de Vargas, um dos ministros do Trabalho da ditadura


do Estado Novo (1937-1945), Marcondes Filho, desempenhou papel
decisivo nesse processo. Durante suas palestras semanais no programa
oficial “Hora do Brasil” - transmitido em cadeia obrigatória de emissoras
de rádio -, ele não economizava elogios ao “estadista insigne”, “excelso
presidente”, “chefe incomparável”, dono “de uma vontade de aço, a
serviço de um coração de veludo”. Ao difundir aos quatro cantos do Brasil
a pregação trabalhista, Marcondes Filho estabelecia um corte histórico,
algo muito comum não somente entre os ideólogos do regime estado-

58
unidade III
História do Brasil III
novista como também a um grande número de historiadores e cientistas
sociais. Para ele, 1930 despontava como um divisor de águas. A seu ver, os
trabalhadores deveriam dividir a história do Brasil em dois capítulos: antes
e depois da “revolução de 30”, antes e depois de Getúlio Vargas. Daí para
a frente, tudo aqui teria sido diferente. As temíveis lutas de classe teriam
encontrado na legislação social patrocinada pelo governo Vargas um dique
que impediria seu transbordamento para a sociedade brasileira. Para
tanto se procurava mostrar a todos os brasileiros que as leis trabalhistas
“outorgadas” por Getúlio Vargas foram um marco sem igual na nossa
história, ao criarem condições propícias à convivência pacífica das classes
sociais, por mais que, sobretudo na época do Estado Novo, a paz social que
se buscava implantar, a ferro e fogo, em terras brasileiras, significasse a paz
dos cemitérios para os que ousavam contestar o regime.

PARANHOS, Adalberto. Antídoto para a luta de classes. Revista História


Viva. São Paulo: Dueto, Agosto, 2005.

Nesta unidade você se deteve na análise da Era Vargas, um importante momento de


mudanças generalizadas pelas quais o país passou entre 1930 e 1945.
O fortalecimento do Estado, o desenvolvimento de um intenso sentimento nacionalista,
a adoção de políticas públicas no campo educacional/sanitário e a aposta em um
desenvolvimento econômico nacional autônomo a partir da industrialização brasileira foram
os temas presentes ao longo desta unidade. Além disso, a percepção da projeção da figura de Vargas
como elemento central para a nação esteve subjacente a todas as discussões.

1) Busque na internet a letra da música “Aquarela do Brasil”, escrita por Ary Barroso em 1939.
Em seguida, responda: qual a mensagem contida na música e em que medida ela se enquadra na
lógica implementada por Vargas no país?

2) Faça uma pesquisa a respeito dos nacionalismos da década de 1930, comparando-os com
o modelo nacionalista adotado por Vargas no Brasil.

3) Elabore um esquema apontando as características que, no seu entendimento, marcaram


cada um dos períodos distintos da chamada Era Vargas.

59
unidade III
60
Universidade Aberta do Brasil

unidade III
UNIDADE IV
História do Brasil III
Vargas deixa o poder:
o suicídio

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
■■ Perceber que a influência política de Vargas se manteve praticamente intacta
em todo o país depois do final do Estado Novo.
■■ Compreender as mudanças políticas, econômicas e sociais ocorridas no Brasil
entre o fim do Estado Novo e o suicídio de Vargas.

Desafio da Unidade
■■ Leia a carta testamento de Vargas (disponível em http://cpdoc.fgv.br) e
elabore um texto falando da importância desse documento para a história política
brasileira

ROTEIRO DE ESTUDO
■■ SEÇÃO 1 - Introdução

■■ SEÇÃO 2 - Dias contados para a ditadura de Vargas

■■ SEÇÃO 3 - Eurico Gaspar Dutra – um intervalo para Vargas?

■■ SEÇÃO 4 - O retorno

■■ SEÇÃO 5 - O fim da vida e a entrada para a história

61
unidade III
Universidade Aberta do Brasil

PARA INÍCIO DE CONVERSA

Nesta unidade você abordará o período 1945 – 1954 e perceberá que


ocorreram mudanças estruturais significativas no Brasil, as quais foram
decisivas para a morte de Getúlio Vargas e prenunciaram a aproximação
dos militares do poder.

seção 1
Introdução

Você já ouviu falar em Victor Mateus Teixeira? Não? Tem certeza?


Mas é provável que você saiba quem é o cantor Teixeirinha, autor e
intérprete de “Coração de Luto” – música que vendeu mais discos que
Thriller, de Michael Jackson – , certo? Pois bem, veja agora uma música
composta e gravada por Teixeirinha no começo da década de 1960:

24 de agosto

Vinte e quatro de agosto


A terra estremeceu
Os rádios anunciaram
O fato que aconteceu,
As nuvens cobriram o céu
O povo em geral sofreu
O Brasil se vestiu de luto
Getúlio Vargas morreu!
Seu nome ficou na história
Pra nossa recordação
Seu sorriso era a vitória
Da nossa imensa nação
Com saúde ele venceu
Guerra e revolução

62
unidade IV
História do Brasil III
Depois foi morrer a bala
Pela sua própria mão.
O Doutor Getulho Vargas
nos deixou grande saudade
Deus lá no céu é tão bom
dele tenha piedade
Os corações brasileiros
Pede a Deus por caridade
ampare ele nos seus braços
lhe de paz na eternidade. 35

Você deve estar se perguntando por que o início desta unidade se


deu através de uma música. O intuito é que você a perceba e análise
como uma fonte histórica, portadora de ricas informações sobre o período
que estamos estudando.
Escrita por Teixeirinha, importante representante da música popular
brasileira, a música “24 de agosto” exprime muito da admiração e do
culto popular ao presidente Getúlio Vargas, principalmente após o seu
suicídio, no ano de 1954.
O objetivo desta unidade é contemplar um novo momento de nossa
história: o fim da Era Vargas e a ascensão de um regime democrático,
marcado por várias características específicas das quais vamos falar a
partir de agora.

seção 2
Dias contados para a ditadura de Vargas

Durante a década de 1940, acontecia na Europa um dos episódios


mais trágicos e sangrentos de nossa história: a Segunda Grande Guerra
Mundial. E o Brasil não ficou de fora. Após várias negociações com
ambos os lados envolvidos no conflito, Vargas optou por apoiar os Aliados,
declarando guerra aos países formadores do Eixo.
____________________________________________________________________________________________
35 TEIXEIRA, Victor Mateus (Teixeirinha). 24 de agosto. Disco: Saudades de Passo Fundo. Gravadora
Chantecler, 1962.

63
unidade IV
Universidade Aberta do Brasil

Uma campanha pela adesão do ideário da guerra foi feita no país


e, no ano de 1944, foram enviadas tropas da FEB (Força Expedicionária
Brasileira) e da FAB (Força Aérea Brasileira) para combater o exército
nazista, na Itália.
Abaixo, observe um dos muitos cartazes – este datado de 10 de
novembro de 1943 – que circulavam pelo país convencendo a população
da necessidade da guerra e convencendo os homens a lutar:

Figura 4
http://www.oab.org.br/hist_oab/links_internos/foto_cartaz_2guerra.html

Ao final da guerra, várias questões passaram a ser problematizadas


e discutidas. A violência cometida pelos nazistas, seus campos de
concentração, as experiências médicas utilizando cobaias humanas, a
intolerância e tentativa de extermínio de toda e qualquer diversidade
humana que não correspondesse à pureza ariana chocaram o mundo.

64
unidade IV
História do Brasil III
A vitória dos Aliados – em tese, países defensores da democracia –
criou a possibilidade de as pessoas questionarem todos os regimes que
possuíssem características autoritárias. Enfim, era chegada a hora do fim
de tais governos totalitários.
Se você bem se lembra, as características que marcaram o
governo de Getúlio Vargas, especialmente durante o Estado Novo,
foram as seguintes: a dissolução dos partidos políticos, a nomeação
de interventores federais para o comando dos estados, o controle e a
censura da imprensa, além da perseguição (acompanhada de prisão,
violência e morte) dos opositores políticos.
Com todas essas características, o regime varguista se aproximava, e
muito, dos modelos autoritários adotados na Europa. Entretanto, Vargas
chamou a população a combater e a lutar justamente contra os países
onde esses governos vigoravam. Tal contradição abriu uma brecha
para protestos e movimentos que procuraram repensar a ditadura em
que o Brasil vivia. Já estava na hora de vivermos novamente sob ares
democráticos.
Veja o que o historiador Leôncio Basbaum considerou sobre esse
cenário:

Com a vitória das Nações Unidas, que era, ao mesmo tempo, a derrota do nazi-
fascismo, e a campanha que se desenvolvia no Brasil pela reconquista das liberdades
democráticas, criara-se um clima impróprio para o regime ditatorial que se vinha
mantendo no País (...). Não se podia admitir que permanecêssemos tolerando aqui o
mesmo regime que havíamos ajudado a destruir na Europa.
Os próprios membros do governo, a começar pelos militares, começaram a
compreender que era necessário mudar, que o Estado Novo já havia cumprido o seu
papel histórico e era necessário substituí-lo, preferivelmente de modo pacifico e, se
possível, enquanto era tempo, pelo próprio governo.36

Como você pode perceber através dessa citação de Basbaum, com


a queda e a crítica generalizada aos regimes totalitários, a situação de
Vargas e a manutenção do modelo de regime político adotado pelo Estado
Novo estavam com os dias contados.
Durante o início da década de 1940, multiplicaram-se pelo país
manifestações e movimentos que buscavam a volta da normalidade
política, ou seja, a democracia e um de seus requisitos essenciais – a
liberdade de expressão.
____________________________________________________________________________________________
36 BASBAUM, Leôncio. História sincera da República. São Paulo: Alfa Omega, 1997, p. 132-133.

65
unidade IV
Universidade Aberta do Brasil

AS OPOSIÇÕES AO ESTADO NOVO

A partir de 1943 a oposição passou a se movimentar com maior


desenvoltura, a despeito da ação da censura e de outros órgãos repressivos.
Durante todo o ano sucederam-se passeatas de estudantes, promovidas
pela UNE, contra o nazifascismo. Em outubro, importantes lideranças
civis e liberais de Minas Gerais lançaram um documento contestando o
regime ditatorial conhecido como o Manifesto dos Mineiros. O governo
reagiu punindo vários dos signatários, acusados de insuflar “nosso pior
inimigo: as divergências internas”. Vargas prometeu a normalização da
vida política do país para logo após o fim da guerra, em “ambiente próprio
de paz e ordem”.
A tensão política manteve-se no ano seguinte. Tornou-se muito difícil
para o governo conservar unida a sua base de sustentação no momento em
que se abria a possibilidade de retorno ao regime da competição política.
As dissensões internas tornaram-se inevitáveis. Um exemplo foi a renúncia
do ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha, após o fechamento
pelo governo de um organismo de apoio aos Aliados - a Sociedade Amigos
da América. Apesar de tudo, o governo continuou apostando na estratégia
da candidatura única de Vargas nas futuras eleições presidenciais.
Durante todo o ano, Marcondes Filho tratou de intensificar sua campanha
de enaltecimento da figura de Vargas no rádio.
As oposições, por seu lado, partiram para uma atuação mais agressiva
e começaram a costurar alianças com um ator que ganhava cada vez mais
prestígio naqueles anos de guerra: os militares. Em outubro de 1944, a
candidatura presidencial do brigadeiro Eduardo Gomes, herói dos 18 do
forte, começou a ser articulada nos meios militares e civis. Em janeiro
de 1945, no I Congresso Brasileiro de Escritores, intelectuais de renome
defenderam a imediata redemocratização do país. Em fevereiro, a imprensa
resolveu desconhecer a censura oficial e publicou uma entrevista com José
Américo de Almeida defendendo eleições livres e apresentando Eduardo
Gomes como candidato das oposições.

http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos37-45/QuedadeVargas

Vargas, atentando para a gravidade da situação em que se encontrava,


tomou algumas medidas a fim de refrear a ação dos seus opositores. No ano
de 1945, o pluripartidarismo voltou a existir. Foram criados a UDN (União
Democrática Nacional), o PSB (Partido Social Progressista), o PTB (Partido
Trabalhista Brasileiro) e o PSD (Partido Social Democrático). O PCB (Partido
Comunista Brasileiro), que havia sido criado em 1922 e funcionava na
ilegalidade até então, obteve o direito de voltar a exercer suas ações.

66
unidade IV
História do Brasil III
Promulgou-se um Ato Institucional a partir do qual as eleições foram
asseguradas. Finalmente os representantes do povo brasileiro voltariam a
ser escolhidos através do voto.
Nesse momento, você já deve ter percebido quão bom estrategista
Getúlio Vargas se mostrou ser. Consciente do fim próximo de sua estada
no poder, procurou logo alguma maneira de permanecer em cena.
Mais do que nunca, Vargas se aproximou das massas trabalhadoras
e do povo em geral. As propagandas de seu nome e feitos, os programas
no rádio e os comícios se multiplicaram.
Sua propaganda foi sempre tão bem feita que, antes de sua renúncia,
um grande movimento popular, denominado de queremismo, clamava
pela continuidade de Getúlio como presidente.
Observe a seguir uma imagem dos “queremistas” em uma de suas
passeatas pró-Vargas:

Figura 5 - http://www.infoescola.com/historia/queremismo

Apesar dos apelos populares e da manifesta pretensão de Vargas


em continuar exercendo diretamente o poder, devido à pressão de
grupos políticos e do Exército brasileiro, no dia 29 de outubro de 1945,
ele renunciou. Assumiu, temporariamente, o cargo da presidência da
República, o presidente do Supremo Tribunal Federal. Em janeiro de 1946,
um novo líder chegaria ao governo. É sobre esse assunto que trataremos
na próxima seção.-

67
unidade IV
Universidade Aberta do Brasil

seção 3
Eurico Gaspar Dutra – um intervalo para Vargas?

A esta altura você deve estar se perguntando: como se deu a transição


para um novo governo democrático? A existência de plenos direitos para
os cidadãos seria posta em prática? E Getúlio Vargas sairia, realmente,
de cena?
Com a volta do pluripartidarismo e eleições marcadas para dezembro
de 1945, iniciaram-se os movimentos da campanha eleitoral. O brigadeiro
Eduardo Gomes candidatou-se pela UDN, Yedo Fiúza saiu como candidato
do PCB e Eurico Gaspar Dutra foi apresentado pela coligação PTB-PSD
(partidos estes fortemente ligados a figura de Getúlio Vargas).
Dutra, apesar de ser um personagem pouquíssimo conhecido e
de ínfimo apelo popular, surpreendentemente venceu as eleições. A
emergência de tal situação não é difícil de ser explicada.
Getúlio Vargas esteve, a todo o momento, participando da campanha
e da eleição de Eurico. Este soube associar-se a Vargas e a sua popularidade
para angariar a vitória, e Vargas aproveitou-se do novo presidente para,
de alguma forma, continuar atuando nas decisões políticas do país.
Sobre as eleições de 1945, Boris Fausto observou que:

Dutra não entusiasmava ninguém e chegou-se mesmo a pensar em substituir a sua


candidatura por outro nome que tivesse maior apelo eleitoral. Mas, quase às vésperas
da eleição, a 28 de novembro, Getúlio acabou por fazer uma declaração pública de
apoio à candidatura Dutra, embora ressalvando que ficaria ao lado do povo contra o
presidente, se ele não cumprisse as promessas de candidato. (...)
Em uma época em que não existiam pesquisas eleitorais, a oposição foi surpreendida
pela nítida vitória de Dutra. Tomando-se como base de cálculo os votos dados aos
candidatos, com exclusão dos nulos e brancos, o general venceu com 55% dos votos
contra 35% atribuídos ao brigadeiro. O resultado mostrava a força da máquina eleitoral
montada pelo PSD a partir dos interventores e o prestígio de Getúlio Vargas entre
os trabalhadores. Mostrava também o repúdio da grande massa ao antigetulismo,
associado ao interesse dos ricos. Não por acaso, o brigadeiro recebeu o apelido de
“candidato pó-de-arroz”. (...)
Pessoalmente, Getúlio Vargas foi um dos grandes vencedores das eleições de 1945
e isso não apenas pelo seu papel na vitória de Dutra. Beneficiando-se da lei eleitoral,
concorreu ao mesmo tempo ao Senado em cinco Estados e a deputado federal em
nove. Elegeu-se senador pelo Rio Grande do Sul e por São Paulo e deputado em sete
Estados, engrossando a legenda do PSD e do PTB. Acabou por escolher a investidura
de senador pelo PSD do Rio Grande do Sul.37

____________________________________________________________________________________________
37 FAUSTO. Op. Cit. p. 398, 399.

68
unidade IV
História do Brasil III
O retorno à democracia precisava ser instituído por uma nova
Constituição, que entrou em vigor em setembro de 1946. Apesar de estar
voltada para a representação popular e para as liberdades individuais e
coletivas, essa carta ainda apresentava sinais de exclusão e restrição ao
direito dos trabalhadores.
Provas dessas características foram a manutenção da exclusão da
participação dos analfabetos nos processos eleitorais (estes só passaram
a adquirir o direito de voto na década de 1980) e o fato de o direito de
greve ser reconhecido apenas na teoria (sua concessão continha tantas
restrições que acabou tornando-se inoperável).
À época do mandato de Dutra, o mundo vivia sob o contexto
bipolarizado da Guerra Fria. Fazia-se necessário escolher uma posição e
seguir um dos lados. Como você deve saber, o Brasil alinhou-se com os
Estados Unidos.
Por conta do rompimento com a então União Soviética e devido ao
grande número de políticos comunistas que haviam ascendido ao poder,
entre eles Luís Carlos Prestes, o PCB mais uma vez foi posto na ilegalidade
e o mandato de todos os seus representantes foi cassado.
No plano econômico, Dutra distanciou-se um pouco da linha
adotada durante os governos de Vargas. Ao Estado não cabia mais
interferir diretamente na economia, como antes. Desenvolveu-se uma
política econômica liberal, com o interesse de favorecer os investimentos
tanto das empresas brasileiras como das internacionais.
Octávio Ianni dividiu a história da política econômica governamental
brasileira em duas tendências principais. Uma delas foi marcada pela
estratégia de desenvolvimento nacionalista e predominou nos anos de
1930-1945, 1951 e 1961-1964. A segunda delas,

... que pode ser chamada estratégia de desenvolvimento dependente, predominou nos
anos 1946-1950, 1955-1960 e 1964-1970. Ela continha, como pressuposto implícito
e explícito, o projeto de um capitalismo dependente, como única alternativa para o
progresso econômico e social. Note-se que o projeto de capitalismo dependente
implicava no reconhecimento das conveniências e exigências da interdependência
das nações capitalistas, sob a hegemonia dos Estados Unidos.38

____________________________________________________________________________________________
38 Ianni. Op. Cit. p.175, 176.

69
unidade IV
Universidade Aberta do Brasil

Ao Estado coube apenas a função de intervir em outros setores do


desenvolvimento do país, como na saúde, na alimentação, no transporte
e na energia. Criou-se então o plano SALTE, que, apesar de ter realizado
algumas obras e investimentos, fracassou e foi abandonado com o fim do
governo de Dutra.
Enquanto o presidente governava, Getúlio Vargas continuou
exercendo sua política de aproximação dos trabalhadores e consolidação
da imagem de homem democrático e cordial. No ano de 1950, com a
aproximação das campanhas eleitorais e da sucessão, não é difícil concluir
que Vargas era o nome em questão para voltar a ocupar o poder.

seção 4
O retorno

Observe com atenção as fotografias apresentadas a seguir, de uma


visita de Getúlio Vargas a Porto Velho (RO), durante a década de 1940:

Figura 6 - http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Get%C3%BAlio_Vargas_em_Porto_Velho_-1940.jpg

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unidade IV
História do Brasil III
Figura 7 - http://rondoniacc.blogspot.com/2011/07/getulio-vargas-em-porto-velho-1940.html

A análise de uma imagem é sempre subjetiva e propicia múltiplas


compreensões. Mas entre as possibilidades de interpretações que estas
imagens expressam está uma que aponta para a tentativa de Getúlio
de consolidar-se como um político democrático, líder das massas e
preocupado com o bem estar de toda a população, inclusive com as
crianças e as mulheres, quase sempre excluídas.
O “marketing” pessoal e político de Vargas teve resultados promissores.
Durante todo o governo Dutra, Getúlio continuou a ser a principal e mais
influente figura política do país. Quando iniciaram as preparações para
novas eleições, sem dúvidas, o nome de Vargas despontou.
Até um jingle (mensagem publicitária em forma de música, com
refrão simples e de curta duração) emplacou nas rádios e na boca do povo
por ocasião das eleições. O sucesso da música e da campanha eleitoral
a favor de Vargas foram provas da popularidade e prestígio dele junto à
população. Acompanhe agora a letra da música:

Bota o retrato do velho outra vez


Bota no mesmo lugar
O sorriso do velhinho,
Faz a gente se animar!
Eu já botei o meu
E tu não vais botar?
Já enfeitei o meu
E tu vais enfeitar?
O sorriso do velhinho
Faz a gente trabalhar!39
____________________________________________________________________________________________
39 Retrato do Velho. Haroldo Lobo e Marino Pinto, 1951.

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unidade IV
Universidade Aberta do Brasil

Em 1950, apoiado pelo PTB e pelo PSP, Getúlio Vargas foi eleito com
48,7% dos votos, derrotando novamente o Brigadeiro Eduardo Gomes e
Cristiano Machado. Apesar de sua vitória e do imenso apoio que recebia
de vários setores da população, Getúlio enfrentaria dessa vez grandes
oposições, principalmente por parte da UDN.
Tais querelas políticas ficaram visíveis antes mesmo da posse do
novo presidente. Alegando que Vargas não tinha recebido a maioria
absoluta dos votos (metade mais um dos votos), a UDN tentou impugnar
sua eleição e impedir o acesso ao cargo.
Ao contrário de hoje, esse argumento não era válido naquela época,
pois ainda não constava na legislação. Ao perceber que enfrentaria graves
e contínuas tentativas de enfraquecimento e críticas de seus opositores
políticos, Vargas procurou, cada vez mais, aproximar-se dos trabalhadores
e das massas. No campo da economia, o presidente assumiu um discurso
nacionalista e procurou formar novamente um Estado intervencionista e
protecionista.
Em busca de promover o desenvolvimento econômico brasileiro,
fundou-se o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, o BNDE.
Em 1954 foi criada a Eletrobrás, que dispensou investimentos estrangeiros
no setor elétrico.
Getúlio aplicou uma forma mais intensa de nacionalismo
econômico, em comparação com o que já se tinha visto até então. Criou
hidrelétricas, estradas, ferrovias, não mais concedendo sua construção e
administração ao capital estrangeiro. Em 1953, iniciou uma campanha pela
nacionalização do petróleo e pela criação da Petrobras, o que significaria
a monopolização da exploração do produto e o descontentamento total e
geral dos grupos internacionais que possuíam investimentos no país.
Tais medidas provocaram uma divisão da sociedade e inúmeros
protestos contras as ações nacionalistas do Estado. Os grupos denominados
desenvolvimentistas, formados pelo PSD, pelo PTB e pelo PCB (com
maior intensidade), defendiam o nacionalismo desenvolvimentista de
Vargas. Seus principais representantes foram os movimentos estudantis,
os sindicatos de trabalhadores e os setores progressistas da burguesia
nacional.
Já os setores mais conservadores da sociedade e os partidários
da UDN defendiam a penetração do capital estrangeiro no país e a

72
unidade IV
História do Brasil III
internacionalização da economia. Você já deve ter concluído que o
conjunto de ações descontentou tais grupos, que passaram a conspirar
aberta e publicamente a favor da renúncia do presidente.
A situação ficou ainda mais grave quando, depois de várias greves,
o então ministro do trabalho João Goulart concedeu um aumento de
100% no salário mínimo. É claro que essa decisão teve uma repercussão
extremamente negativa entre as elites do país.
Getúlio encontrava-se em um beco sem saída. Era muito difícil
tomar decisões que agradassem ao mesmo tempo aos trabalhadores –
considerados seus principais apoiadores – e aos grupos de elite do país.
O episódio do aumento do salário mínimo, que Getúlio havia
decidido cancelar, mas depois voltou atrás e o concedeu novamente,
representou o início do fim de seu governo democrático.

seção 5
O fim da vida e a entrada para a história

Você já ouviu falar em Carlos Lacerda? Se ainda não, é bom


que passe a conhecê-lo, pois a atuação desse político foi central para
os rumos da nossa história e para a derrocada de Getúlio Vargas do
poder – e também da vida.
Lacerda participou ativamente dos meios políticos do país desde
sua juventude. Quando ainda era estudante de Direito participou da
Juventude Comunista e foi membro da Aliança Libertadora, da qual
já falamos neste livro. Entretanto, por razões que não são totalmente
claras, durante a década de 1940 Lacerda assumiu novos princípios
e posições políticas. Enveredou para o conservadorismo, opôs-se aos
movimentos populares e sindicais e foi o principal opositor de Getúlio
Vargas.
Principalmente através das colunas ácidas e de forte tom
acusatório publicadas no Jornal Tribuna da Imprensa, Lacerda
promoveu intensa campanha contra o presidente, acusando-o de
compartilhar dos ideais comunistas. Em uma época marcada tanto

73
unidade IV
Universidade Aberta do Brasil

pela bipolarização entre as ideologias capitalista e socialista, quanto


pelo consequente medo e horror que a simples menção à palavra
comunista causava no imaginário popular, as denúncias de Lacerda
surtiram efeito.
Em razão do episódio do reajuste de 100% do salário mínimo,
assunto sobre o qual tratamos na seção anterior, e da intensidade e
profundidade das críticas dirigidas a Getúlio, a situação encontrava-
se insustentável. Era preciso fazer calar a voz da oposição ou em
pouco tempo Vargas estaria fora do poder.
Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Vargas, conhecido
como anjo-negro, sem o conhecimento de Getúlio, resolveu tentar acalmar
a situação da maneira que lhe pareceu mais conveniente. Tramou o
assassinato do “corvo”, codinome pelo qual era conhecido Carlos Lacerda.
A tentativa foi frustrada. O alvo principal sobreviveu, e Rubens Vaz, major
da Aeronáutica que acompanhava Lacerda, foi morto.
Como você deve estar imaginando, o tiro saiu pela culatra.
Lacerda saiu ainda mais fortalecido do atentado, utilizando-o como
um motivo a mais para atacar e denegrir o presidente. Sobre o
episodio, declarou na Tribuna da Imprensa: “Perante Deus, acuso só
um homem como responsável por este crime. Este homem chama-se
Getúlio Vargas.”40
A situação de Vargas piorava a cada dia. Encontrava-se isolado
e sem nenhum apoio efetivo que pudesse auxiliá-lo a sustentar uma
tentativa de retomada de confiança e poder junto à população.
Pressionado por oficiais do Exército, principalmente pelos da
Aeronáutica, que há tempos desejavam tomar o poder, Vargas, sem
ter outra escolha, aceitou resignado que o seu tempo no governo
tinha chegado ao fim. Entretanto, havia afirmado que não deixaria o
Catete vivo. E foi exatamente isso que fez. Ao amanhecer do dia 24
de agosto de 1954, com um tiro no coração, “saiu da vida para entrar
na história”.
A morte de Vargas causou grande comoção popular e,
imediatamente, de acusado e vilão, ele tornou-se vítima e herói.
A seguir, observe a notícia da morte de Getúlio no jornal Última

____________________________________________________________________________________________
40 Disponível em: http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas2/artigos/CrisePolitica/Suicidio.
Acesso em: 14/07/2011

74
unidade IV
História do Brasil III
Hora e a quantidade surpreendente de pessoas que acompanhou seu
cortejo fúnebre, no Rio de Janeiro:

Figura 8 - http://www.idadecerta.com.br/blog/?tag=getulio-vargas

Figura 9
http://www.marcillio.
com/rio/hirepdct.html

75
unidade IV
Universidade Aberta do Brasil

Para Fausto,

O suicídio de Getúlio exprimia desespero pessoal, mas também tinha um profundo


significado político. O ato em si continha uma carga dramática capaz de eletrizar a
grande massa. Além disso, o presidente havia deixava como legado uma mensagem
aos brasileiros – a chamada carta-testamento – onde se apresentava como vítima e
ao mesmo tempo acusador de inimigos impopulares. Apontava como responsáveis
pelo impasse a que chegara os grupos internacionais aliados aos inimigos internos.
Afirmava que eles se opunham às garantias sociais aos trabalhadores, às propostas
para limitar os lucros excessivos, à defesa das fontes fundamentais de energia,
corporificadas na Petrobrás e na Eletrobrás. Afirmava ainda a carta que, enquanto
o lucro das empresas estrangeiras alcançava 500% ao ano, o Brasil era obrigado a
recuar, sob violenta pressão, em medidas tomadas para sustentar o preço internacional
do café. Getúlio encerrava a mensagem com um parágrafo dramático: Lutei contra a
espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto.
O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida.
Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no
caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.41

Após a intensa comoção popular pela morte de seu líder, o Exército


– que já se encontrava preparado para tomar o poder por via indireta,
através de uma espécie de golpe – recuou. Extremamente abalada e
revoltada contra os principais opositores de Vargas, a população não
apoiaria tal ação. Sendo assim, assumiu a Presidência o vice de Getúlio,
Café Filho, garantindo as eleições de 1955. Mas essa já é outra história
sobre a qual você se debruçará na sequência desta disciplina.

____________________________________________________________________________________________
41 FAUSTO. Op. Cit. p. 417, 418.

76
unidade IV
História do Brasil III
Nesta unidade final abordamos o Brasil de meados do século XX, mais especificamente
no contexto entre o final do Estado Novo, a volta de Vargas ao poder e o seu suicídio, em
1954.
As mudanças conjunturais do pós-guerra e a exigência da democratização no Ocidente,
a queda de Getúlio, a eleição do general Dutra, o retorno de Vargas, o seu enfrentamento
com as forças de oposição, as denúncias de corrupção no governo e, por fim, o tiro no coração no dia
24 de agosto de 1954 se constituíram nas questões centrais aqui abordadas.
Esperamos que você tenha compreendido que o suicídio de Getúlio Vargas não deve ser
considerado como um ato pessoal, e sim como um ato político que teve como principal efeito deter um
golpe militar que estava pronto para ocorrer em 1954.

1) Com base no texto base da unidade e também de outras bibliografias que tratam dos
temas aqui estudados, responda: por que é possível afirmar que o suicídio de Vargas pode ser
considerado como um acontecimento político?

2) É plausível afirmar que o Vargas do Estado Novo é bastante diferente daquele Vargas
que retornou democraticamente ao poder em 1951, por meio do voto direto. Com base no que
você estudou até aqui, como é possível interpretar tal mudança no comportamento político de
Getúlio?

77
unidade IV
78
Universidade Aberta do Brasil

unidade IV
História do Brasil III
PALAVRAS FINAIS

Que bom que chegamos ao final de mais esta disciplina! Esperamos,


sinceramente, que você tenha aprofundado os conhecimentos que já
possuía e também descoberto coisas novas a respeito da história recente
do nosso país.
O que tentamos fazer ao longo deste livro foi ordenar os
acontecimentos que consideramos mais relevantes, ocorridos nas duas
primeiras fases da República brasileira – a chamada República Velha e a
Era Vargas –, estendendo o olhar para a fase da volta de Getúlio Vargas
ao poder, no começo da década de 1950.
Para percorrer esses períodos nos valemos de vários historiadores,
literatos, sociólogos, músicos, etc., os quais, por meio de textos, canções,
análises ou poemas, produziram informações preciosas para todos nós
que queremos conhecer um pouco mais do nosso país, da nossa gente e,
consequentemente, da nossa própria história.
Reforçamos a ideia de que tudo o que você viu até aqui deve ser
compreendido, apenas, como um ponto de partida. Para uma melhor
compreensão de tudo o que foi debatido é necessário mais uma boa dose
de esforço pessoal, pois temas e objetos históricos não se extinguem
ou se reduzem a uma única versão! Aproveite as sugestões disponíveis
neste livro, ouça as orientações dos seus professores e amplie seus
conhecimentos!

Até o próximo volume!

Os autores

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PALAVRAS FINAIS
80
Universidade Aberta do Brasil

SUGESTÕES
História do Brasil III
Sugestões Complementares

81
SUGESTÕES
Universidade Aberta do Brasil

Sites e Revistas Virtuais

Acervos e arquivos históricos do Brasil República


www.polivocidade.wordpress.com

Revista Eletrônica de História do Brasil – UFRJ


www.rehb.ufjr.br

Revista de História e Estudos Culturais


www.revistafenix.pro.br

Revista História Hoje


www.anpuh.uepg.br/historia-hoje/

Revista História Viva


www.uol.com.br/historiaviva

Revista Klepsidra
www.klepsidra.net/novaklepsidra.html

Temas brasileiros
www.dc.mre.gov.br

Acervo de imagens sobre a República


www.brasil.gov.br/.../acervos-e-arquivos-historicos

Museu da MPB
http://www.philarmoniabrasileira.com.br/telas/museu-da-mpb.php

Filmes Nacionais
www.acervonacional.blogspot.com
www.cinemabrasil.org.br
www.cinemateca.gov.br

Livros sobre História do Brasil


http://www.esnips.com/web/ViciadosHistoria/

Textos/temas sobre História do Brasil


www.culturabrasil.pro.br/historiabras

Era Vargas/Brasil Contemporâneo – CPDOC-FGV


www.cpdoc.fgv.br

História do Brasil
www.brasilescola.com/historiab/

História do Brasil – Centro de Informações Multirio


www.multirio.rj.gov/historia/

82
SUGESTÕES
História do Brasil III
Referências

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pedagógico de construção da nação brasileira no início do século XX”,
apresentado no Xº Jornadas Interescuelas/Departamento de História,
Rosário (Argentina), setembro de 2005. Disponível em: <http://www.
educacao.ufpr.br/publicacoes/xxsepe/2005/ trabalhos/ tmesa_ lmbertucci-
martins.pdf>. Acesso em: 03 out. 2009.

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88
REFERÊNCIAS
História do Brasil III
NOTA SOBRE OS AUTORES

Amanda Cieslak Kapp


Graduada em História pela Universidade Estadual de Ponta
Grossa, é mestranda em História pela Universidade Federal do Paraná,
vinculada à linha de pesquisa Espaço e Sociabilidades. Foi responsável
temporária pela coluna Fragmentos, semanalmente publicada pelo Jornal
da Manhã, de Ponta Grossa, no ano de 2010. Estagiou na Incubadora de
Empreendimentos Solidários e também no projeto Literatura e Cinema
na Formação Humana, ambos da UEPG/Universidade Sem Fronteiras.

Marion Regina Stremel


Graduada em História pela Universidade Estadual de Ponta Grossa,
é Mestre em História pela Universidade Estadual do Centro-Oeste –
Campus de Guarapuava. É professora do Departamento de História da
UNIOESTE desde 2001, onde trabalha com questões relacionadas à
religiosidade, à cultura popular e ao ensino de História.

Niltonci Batista Chaves


Graduado em História e Especialista em Políticas Sociais pela
Universidade Estadual de Ponta Grossa, é Mestre em História e
Sociedade pela Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita
filho – Campus de Assis – e Doutor em Educação – Linha História e
Historiografia – pela Universidade Federal do Paraná. É professor do
Departamento de História da UEPG desde 1988, onde trabalha com
disciplinas relacionadas à História do Brasil, em especial sobre o período
Republicano. Foi Coordenador de Curso e Chefe de Departamento e
atualmente coordena o Curso de Pós-Graduação em História, Arte e
Cultura, Modalidade a distância UAB/UEPG. É autor de diversos livros
sobre Ponta Grossa e Campos Gerais do Paraná, e organizador das séries
“Visões de Ponta Grossa”, “Medicina em Ponta Grossa” e “Imigrantes:
História da Imigração Holandesa na Região dos Campos Gerais”.

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AUTORes

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