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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MOÇAMBIQUE

FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS

Celcio Bone Remisse

PRINCÍPIO DA LIBERDADE CONTRATUAL

Quelimane, 2020
UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MOÇAMBIQUE

FACULDADE DE CIÊNCIAS SÓCIAS E POLÍTICAS

LICENCIATURA EM DIREITO

PRINCÍPIO DA LIBERDADE CONTRATUAL

Trabalho de Caracter avaliativo a ser entregue à


Faculdade de Ciências Sociais e Políticas –
Universidade Católica de Moçambique, no na
Cadeira de Teoria de Direito Civil, recomendado
pelo docente.

Quelimane, 2020
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Índice
1.Introdução................................................................................................................................4

2.O PRINCÍPIO DA LIBERDADE CONTRATUAL................................................................5

2.1.Abordagem Conceitual de Liberdade...................................................................................5

2.2.O princípio da Liberdade Contratual....................................................................................6

2.2.1.Conceito de princípio da Liberdade Contratual.................................................................6

2.3.Princípio de Igualdade..........................................................................................................7

2.4.Princípio da Boa Fé...............................................................................................................8

2.5.Princípio da Autonomia da Vontade Privada........................................................................9

2.6.Princípio da Vinculação das Partes.......................................................................................9

2.7.Princípio da Supremacia da Ordem Pública.......................................................................10

2.8.A liberdade Contratual e o princípio da Autonomia da Vontade........................................10

2.9.Limitações à Liberdade de Contratar..................................................................................11

3.Conclusão...............................................................................................................................13

4.Bibliografia............................................................................................................................14

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1.Introdução

Partir da trabalho realizado versou sobre conceito de liberdade, com apoio também em
algumas obras chegou-se a um conceito do signo liberdade como sendo a capacidade do ser
humano pensar e agir da forma que melhor lhe aprouver, consoante suas convicções, sem
determinismos externos directos ou indirectos.

No tocante à liberdade contratual, pôde-se verificar que esta foi conquistada ao longo da
história, com significativa influência dos princípios da Revolução Francesa de 1789, quando a
classe burguesa conseguiu romper as amarras com o Estado Absoluto, que impedia a livre
associação e engessava a produção. Assim, com base nessas premissas, foi possível construir
o modelo de Estado hoje predominante no mundo, o qual está fundado na liberdade do
indivíduo, liberdade esta que a partir do século XIX começou a ser atribuída também às
pessoas jurídicas, possibilitando o exercício das actividades empresariais.

A liberdade almejada pelos filósofos iluministas que elaboraram os fundamentos da


Revolução Francesa parece não ter sido alcançada em sua plenitude, eis que, posta em favor
das classes dominantes, acabou por criar injustiças sociais. A igualdade nunca passou de seu
aspecto formal, transformando, muitas vezes, a ideia de liberdade em mero ardil para a
manutenção da ordem social existente.

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2.O PRINCÍPIO DA LIBERDADE CONTRATUAL

2.1.Abordagem Conceitual de Liberdade

O Estado é a expressão da vontade geral de todos os cidadãos, que, através de seus


representantes, controlam as forças armadas, as finanças e a administração. Assim, a busca
pela liberdade foi construída por meio de lutas constantes, mas a humanidade limitou-se nessa
evolução histórica a racionalizar os institutos jurídicos, pautada na observância da lei. Como
Voltaire  disse:

Ser livre é não depender senão das leis, e Ramon Aron completa que não há uma
totalidade que possa ser chamada a liberdade dos indivíduos ou a liberdade dos povos,
pois ser livre para fazer alguma coisa e ser capaz de fazer qualquer coisa são duas
noções radicalmente diversas. A incapacidade apenas se torna não liberdade nas
circunstâncias em que é devida a intervenção de outros.
Em outras palavras, Sartre conceitua liberdade como uma condição ontológica em que o
homem é, antes de tudo, livre. O homem é nada antes de definir-se como algo, e é
absolutamente livre para definir-se, engajar-se, encerrar-se, esgotar a si mesmo.

Para Hobbes, liberdade significa impedimentos externos, tirando em parte o poder. Assim, ele
se expressa:

Por liberdade entende-se, conforme a significação própria da palavra, a ausência de


impedimentos externos, impedimentos que muitas vezes tiram parte do poder que cada
um tem de fazer o que quer, mas não podem obstar a que use o poder que lhe resta,
conforme o que seu julgamento e razão lhe ditarem.
Por outro lado, Marx assevera que “a liberdade é, em resumo, a espécie essencial de toda
existência intelectual, o que é bom para o humano só pode ser uma realização da liberdade”.

Seguindo o curso da histórica, o conceito de liberdade foi também especialmente retratado na


Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, aprovada pela França em 1789, que em seu
art. 4º expressa a liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique o próximo:
assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem não tem por limites senão aqueles que
asseguram aos outros membros da sociedade o gozo dos mesmos direitos. Estes limites
apenas podem ser determinados pela lei.

Na filosofia moderna de Carrasco, pode-se verificar um conceito sobre liberdade que, muito
embora para o senso comum a liberdade possa parecer o acúmulo de poder, ela é muito mais

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do que isto, pois se reveste de qualidade humana e absoluta, onde não há nada que reduza o
homem à matéria e ao corpo se não a morte. À parte disto, deve-se ser absolutamente livre.

Correlatara a liberdade como a capacidade de emancipação, de ter a possibilidade de escolha,


de decisão de julgar por si mesmo ou por si mesma, sem ser constrangido ou obrigado a algo
pela determinação natural ou social. Então, para fins de se delimitar um conceito operacional
para a categoria liberdade, pode-se dizer que ela é um estado ou condição em que o indivíduo
se encontra sempre submisso à lei para exercer sua própria escolha, levando em consideração
a vontade do indivíduo e sua liberdade em se definir baseada em sua força e capacidade.

2.2.O princípio da Liberdade Contratual

2.2.1.Conceito de princípio da Liberdade Contratual

Para VARELA, Antunes (2000, p.230)1 O princípio da liberdade contratual consiste na


“possibilidade conferida pela ordem jurídica a cada uma das partes de auto-regular, através de
um acordo mútuo, as suas relações para com a outra, por ela livremente escolhida, em termos
vinculativo para ambas”.

Segundo CORDEIRO, Menezes (2012, p.151)2 Define o princípio da liberdade contratual


como o “poder reconhecido aos particulares de auto-regulamentação dos seus interesses, de
autogoverno da sua esfera jurídica”

Para MARQUES, Cláudia Lima (2002) 3 o principio da liberdade contratual significa o poder
livre de gerir os próprios interesses, de elaborar e discutir as cláusulas do contrato, de concluir
um contrato atípico, livre das amarras estatais, que possibilita-se o desenvolvimento de um
mercado e consequentemente da livre concorrência.

A liberdade contratual consiste na faculdade que as partes tem, dentro dos limites da lei, de
fixar de acordo com a sua vontade, o conteúdo dos contractos que realizarem, celebrar
conteúdos diferentes prescritos e incluir cláusulas que lhes prover dentro do art 405 do C.C. A
liberdade contratual é um corolário da autonomia privada, concebida como o poder que os
particulares tem de fixar, por si próprio, a disciplina juridicamente vinculativas dos seus

1
VARELA, Antunes, Das Obrigações em Geral, Volume I, 10 ª, ed, Coimbra, Almedina, 2000. Disponível em:
WWW.https//repositorio.ucp.ptTecnicaseInstr em:30-09-2019 as 18:35.
2
CORDEIRO, Minezes , Tratado de Direito Civil, Volume I , 4.ª edição, Coimbra, Almedina, 2012. Disponível
em: WWW.https//repositório.ucp.ptTecnicaseInstr em:30-09-2019 as 18:38.
3
MARQUES, Cláudia Lima, Contratos no Código do Consumidor, 4 ed, São Paulo: ed Revistas dos Tribunas
2002. Disponível em:WWW.teses.usp.br>publico em: 20-10-2019.
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interesses. A autonomia privada não se confunde com o dogma da vontade, é mas amplas do
que a liberdade contratual, que se limita ao pode da auto-regulamentação dos interesses
concretos e contraposto das partes, mediante acordos vinculativos.

Parindo da ideia de varela podemos dizer que diferença entre autonomia privada e a liberdade
contratual, é que a autonomia privada é mas extensa e inclui a liberdade contratual, abrange
também os contractos assim como negócios unilaterais, a liberdade contratual fica nos
contractos.

A liberdade de fixação do conteúdo do contrato esta explicitamente consagrado no artigo 405


do C.C, que consiste na faculdade reconhecida as pessoas de criarem entre si, regulada pela
sua própria razão, acordos destinados os seus interesses recíprocos. E ao lado da liberdade de
contratar cabe ainda no campo da liberdade de escolha do outro contratante.

O tema se insere num dos mais importantes princípios do direito contratual: a autonomia da
vontade, também conhecida como autonomia privada.
O princípio da liberdade contratual encontra-se confinado pelas limitações estabelecidas pela
ordem jurídica, decorrentes da aplicação de outros princípios como, por exemplo, a ordem
pública ou a boa-fé. No essencial, é possível reconhecer três espécies de limitações:
I. A imposição de contratar;
II. A proibição de contratar;
III. A necessidade de obtenção de consentimento de terceiros.

A admissão, pela ordem jurídica, das chamadas cláusulas contratuais gerais modelos
contratuais pré-estabelecidos a que as pessoas se limitam a aderir sem a possibilidade de
introduzir modificações não constitui uma limitação jurídica à liberdade contratual embora se
deva reconhecer que constitui uma importante limitação fática dada a dificuldade de satisfazer
determinada necessidade sem a aquisição do bem ou serviço em causa. (RIZZARDO, 2009)

2.3.Princípio de Igualdade

O princípio de igualdade é constitucional, senão universal da pessoa humana. Todas as


pessoas porque são pessoas, diferentes de outros animais, são iguais perante a lei,
independentemente da sua origem, etnia, religião, côr entre outras diferenças naturais. Este
princípio no direito de trabalho traduz-se em o empregador não deve diferenciar o tratamento
dos seus trabalhadores, baseando-se em critérios pouco dignos, tais como, origem, a tribo,

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etnia, raça, o deficiência, ou qualquer outro critério que não seja de competência e
qualificação académica ou profissional.
O n° 1 do art. 54 da Lei do Trabalho estabelece que “Ao trabalhador é assegurada a igualdade
de direitos no trabalho, independentemente da sua origem étnica, linguá, raça, sexo, estado
civil, idade, nos limites fixados por lei”
O princípio de igualdade é também avaliado em função das pessoas a que deve ser aplicado.
Por exemplo, não se pode exigir tratamento igual, a pessoa de condição física diferente. Daí
que o princípio de igualdade deve ser aplicado caso a caso, por outras palavras, o princípio de
igualdade só deve ser aplicado em pessoas com condição física igual, circunstâncias iguais,
ambiente igual, entre outros. A lei do trabalho prevê situações em que o tratamento igual pode
ser desigual.
Isto não é uma ilegalidade, nem violação da lei. Resulta de uma necessidade de o Estado ao
olhar ao universo dos seus cidadãos, aperceber-se que alguns, por várias razões naturais ou
acidentais, não têm as mesmas oportunidades.

O contrato de trabalho rege-se pelo princípio de liberdade. É pressuposto deste princípio que
as partes, o trabalhador e entidade empregadora, são livres de fixar, alterar, modificar as
cláusulas que regem o contrato, desde que não violem os princípios e regras estabelecidas na
Lei do Trabalho. ( Decreto lei 23/2007)

2.4.Princípio da Boa Fé

O empregador ou a sua associação ou o organismo sindical obriga-se a respeitar, no processo


de negociação de instrumentos de regulamentação colectiva de trabalho, o princípio da boa fé,
nomeadamente, fornecendo à contraparte a informação necessária, credível e adequada ao
bom andamento das negociações, e não pondo em causa as matérias já acordadas.
Os empregadores e os organismos sindicais estão sujeitos ao dever de sigilo relativamente às
informações recebidas sob reserva de confidencialidade. Sem prejuízo do disposto no número
anterior, é reservado aos organismos sindicais o direito de prestar informações sobre o
andamento das negociações aos seus associados e aos órgãos sindicais de nível superior.
(ROSENVALD, 2005)

As normas estabelecidas nos instrumentos de regulamentação colectiva de trabalho não


podem ser afastadas pelos contractos individuais de trabalho, salvo quando estes prevejam
condições de trabalho mais favoráveis aos trabalhadores.

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2.5.Princípio da Autonomia da Vontade Privada

Primeiramente, acerca da autonomia da vontade privada, basicamente, revela-se como o


direito de o contratante particular reger seu próprio destino, possuindo livre iniciativa dentro
dos limites legais e capacidade de contratar perante terceiro (s) de modo a gerir e garantir suas
actividades e negócios. Revela-se como princípio basilar de toda estrutura organizacional do
direito contratual.

Nas sábias palavras do ALEXY:

Inicialmente, percebe-se no mundo negocial plena liberdade para a celebração dos


pactos e avenças com determinadas pessoas, sendo o direito à contratação inerente à
própria concepção da pessoa humana, um direito existencial da personalidade advindo
do princípio da liberdade. Essa é a liberdade de contratar. Em um primeiro momento, a
liberdade de contratar está relacionada com a escolha da pessoa ou das pessoas com
quem o negócio será celebrado, sendo uma liberdade plena, em regra. (ALEXY, 2008)
A autonomia da vontade privada demonstra-se como a liberdade de contratar do sujeito,
regulando seus negócios e agindo conforme seus interesses, sendo, apesar disso, uma
liberdade limitada pelos preceitos legais e normas de ordem pública.

2.6.Princípio da Vinculação das Partes

A origem princípio da vinculação das partes remete à antiga Roma e os primórdios da


sociedade organizada e regida por leis como conhecemos hoje em dia. Na época, a previsão
era a do pacta sunt servanda, isto é, o que fora pactuado em determinado contrato deveria ser
obrigatoriamente cumprido, sob pena de ver fulminada a segurança jurídica.

Em contrapartida a autonomia da vontade privada, que refere-se a formação dos contractos, o


princípio da vinculação das partes busca garantir o cumprimento dos acordos. Confere
eficácia ao que foi contratado, garantindo a intervenção do estado no sentido de forçar o
cumprimento ou eventuais perdas e danos não havendo mais esta possibilidade. (ALEXY,
2008)

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Obrigam-se a cumprir a declaração externada nos seus exactos termos, mesmo que, no
momento da execução, o contrato não mais lhes interesse como havia interessado na
contratação.

2.7.Princípio da Supremacia da Ordem Pública

Conforme já defendido o interesse individual na formação dos contractos não é absoluto e


requer o respeito a diversos princípios. Isto é, o interesse da sociedade deve prevalecer
quando colide com o interesse do particular. Com o avanço da industrialização e alterações
drásticas nos valores sociais e colectivos, bem como mudanças na concepção e estruturas de
desenvolvimento humano, o Estado vislumbrou a necessidade de editar leis capazes de conter
ou estancar, os abusos de direito e situações que ferem a ordem pública. Foram sendo criadas
leis, destarte, visando garantir a ordem pública, moral e bons costumes de forma a primar por
uma sociedade justa. (RIZZARDO, 2009)

2.8.A liberdade Contratual e o princípio da Autonomia da Vontade

Desde os primórdios do Direito Romano, os indivíduos são livres para contratar como quiser,
quando quiser e com quem desejar. O poder dos contratantes de estabelecer os termos do
pacto a ser realizado, disciplinando o conteúdo do contrato de acordo com os interesses das
partes, consiste na liberdade contratual, uma das formas de exercício das liberdades, conforme
já esclarecido.

No âmbito do exercício do direito à tal liberdade, encontram-se princípios fundamentais e


norteadores do Direito Civil contratual. O princípio da autonomia da vontade, que estabelece
a possibilidade e a faculdade de os indivíduos pactuarem sem a interferência do Estado, é o
alicerce da liberdade de contratação. (AMARAL, 2003).

Para a doutrina francesa, o princípio da autonomia da vontade é fundamento do direito à


liberdade contratual, sendo a liberdade de fazer qualquer ato legal e nós deve, em princípio,
ter em mente a amplitude da área a ser explorada. Pode-se afirmar o seguinte:

O indivíduo é livre de contratar ou não, de escolher seu parceiro contratante, de


determinar o conteúdo e a duração do contrato. Consentimento é o elemento essencial,
para que o formalismo permaneça excepcional e que a lei seja permanecer, em
princípio, suplicante da vontade, ou interpretativa, a regra imperativa apenas para
intervir se provar essencial. (AMARAL, 2003).

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Deve-se esclarecer que a liberdade contratual e o princípio da autonomia da vontade não são
plenos, absolutos. Não se pode permitir, por exemplo, que estes justifiquem arbitrariedades e
ofensas aos direitos e à dignidade alheia ou que estes prevaleçam sobre os interesses da
colectividade. Fala-se, assim, na relativização ou na limitação desses valores, a fim de garantir
uma ordem jurídica justa, em atendimento à isonomia e aos direitos constitucionais
fundamentais.

2.9.Limitações à Liberdade de Contratar

A liberdade de contratar, baseada na autonomia da vontade e do princípio do pacta sunt


servanda, é base fundamental de qualquer estado capitalista moderno, sem o qual não seria
possível a manutenção da paz social neste sistema.

Todavia, ao longo dos anos, vem se percebendo que a liberdade de contratar pode ser utilizada
de forma inversa àquela para a qual foi criada, sempre que algum contrato é produzido de má-
fé, ou quando a igualdade das partes não existe em sua formação, momento em que se
produzem cláusulas socialmente inaceitáveis, e se faz com que a justiça seja deixada de lado
em prol do direito, em nome do cumprimento do princípio clássico de que os contractos foram
feitos para serem cumpridos.

Nesse contexto, surgem problemas jurídicos para os quais se busca responde se é possível e
como pode o Estado intervir no âmbito do direito privado. Os pensadores liberais que relutam
em aceitar intervenções estatais inclusive no âmbito do direito público, ficam ainda mais
contrariados só de imaginar a possibilidade de verem a redoma de sua vida privada invadida
pelo Estado. (BITTAR, 1994)

Porém, Bobbio, (1992) manifesta sua opinião, no sentido de que com o surgimento do Estado
de Direito o indivíduo passou a ter não somente direitos privados, mas também as ser titular
na aquisição de direitos públicos, na medida em que:

É com o nascimento do Estado de direito que ocorre a passagem final do ponto de vista do
príncipe para o ponto de vista dos cidadãos. No Estado despótico, os indivíduos singulares só
possuem deveres e não direitos. No Estado absoluto, os indivíduos possuem, em relação ao
soberano, direitos privados.

No Estado de direito, o indivíduo tem, em face do Estado, não só direitos privados, mas
também direitos públicos. Estado de direito é o Estado dos cidadãos. E é nesse sentido que o
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direito começa a evoluir, já que o Estado não pode formar e sustentar regras com o único
intuito de garantir a manutenção de situações que beneficiem pequena parte da sociedade, em
detrimento da ampla maioria da colectividade. A respeito disso, Camposa firma que:

As modificações sociais decorrentes das inovações do século passado também


acarretaram inevitável transformação do pensamento moderno, rompendo com
dogmas e paradigmas tradicionais, os quais embasaram por grande período de tempo o
comportamento humano, e, por conseguinte, a actividade legiferante. (BITTAR, 1994)
Isto porque o que se percebe em qualquer democracia liberal é que a liberdade, quando
utilizada de forma absoluta e sem admitir qualquer controle social, tende a servir ao aumento
das desigualdades, na medida em que a liberdade será, em geral, exercida na proporção do
poderio económico de cada cidadão, numa equação de quanto mais poder tem um cidadão,
mais livre ele se torna.

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3.Conclusão

Chegando ao fim do trabalho dizer que, muito embora a liberdade contratual continue
presente no direito privado, e, mais do que isso, seja um importante fundamento de sua
construção e para o desenvolvimento empresarial no país, principalmente no que tange às
microempresas e empresas de pequeno porte, esta não pode mais ser entendida de forma
absoluta, de maneira que interesses individuais não podem ser protegidos pelo Estado em
detrimento de interesses difusos de toda colectividade.

Em conclusão, interpreta-se que o Estado pode e deve intervir nas relações de direito privado
sempre que os interesses privados das partes contratantes venham a causar danos a interesses
difusos, como no caso do direito do consumidor, ambiental, do trabalho e outros,
estabelecendo assim um verdadeiro mecanismo judicial de controlo do Estado sobre a vontade
privada, com o intuito de alcançar a sustentabilidade económica e o bem comum dos
indivíduos que integram a sociedade.

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4.Bibliografia

ALEXY, Robert. (2008) Teoria dos direitos fundamentais. São Paulo: Malheiros.
AMARAL, Francisco. (2003). Direito civil: introdução. 5. ed. rev. atual. E AUM. Rio de
Janeiro: Renovar.
BITTAR, Carlos Alberto. (1994) Curso de Direito Civil. Rio de Janeiro: Forense
Universitária.
BOBBIO, Norberto. (1992) A era dos direitos. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. 11. ed.
Rio de Janeiro: Campus.
CORDEIRO, Minezes , (2012) Tratado de Direito Civil, Volume I , 4.ª edição, Coimbra,
Almedina,. Disponível em: WWW.https//repositório.ucp.ptTecnicaseInstr em: 23-04-2020 as
18:35.
GUERRA FILHO, Willis Santiago. (2003) Processo Constitucional e Direitos Fundamentais.
São Paulo: Celso Bastos Editor.
MARQUES, Cláudia Lima, (2002) Contractos no Código do Consumidor, 4 ed, São Paulo:
ed Revistas dos Tribunas. Disponível em:WWW.teses.usp.br>publico em: 23-04-2020 as
18:35
RIZZARDO, Arnaldo. (2009) Contractos. 9 ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Forense.
ROSENVALD, Nelson. (2005) Dignidade humana e boa-fé no código civil. São Paulo:
Saraiva.
VARELA, Antunes, (2000). Das Obrigações em Geral, Volume I, 10 ª, ed, Coimbra, Almedina, Disponível em:

WWW.https//repositorio.ucp.ptTecnicaseInstr em:23-04-2020 as 18:35.

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