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Discente: Camila Gaido Grizzo

Atividade 04
Disciplina: Educação e Luta de Classes no Brasil

Selecione um fragmento do texto e analise qual a finalidade das competências


socioemocionais na formação da subjetividade das classes exploradas brasileiras.

“[...] A escola emocional, [...] é aquela que:

[...] é uma organização emocional. Uma organização emocional é aquela na qual se


valoriza o mundo emocional das pessoas que ali trabalham. É uma organização em
que se reconhece que o mundo emocional é o motor no qual ocorrem as interações
que conduzem à finalidade da organização. É um lugar onde as pessoas têm
competências emocionais, onde os problemas são formulados emocionalmente, ou
seja, onde se procura a raiz emocional do problema e onde a resposta a ele é
conscientemente emocional. A organização emocional é onde se reconhece as
necessidades das pessoas que ali interagem. (CASASSUS, 2009, p. 203, grifo nosso)

Para mudar o sistema educacional, então, o que se propõe é a elaboração e a


aplicação generalizada de instrumentos de avaliação capazes de medir as competências não
cognitivas necessárias para que as pessoas tenham sucesso nos seus empreendimentos ao
longo da vida. [...] Segundo estudos apresentados por Tough (2012), as competências não
cognitivas se desenvolvem como formas de enfrentamento às situações adversas da vida
cotidiana, dependentes do funcionamento do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal (eixo HPA),
responsável pela regulação do estresse. O estresse é decorrente de alterações fisiológicas que
preparam o organismo para reagir em situações de perigo. [...] a vida em sociedade faz com
que algumas pessoas se percebam constantemente ameaçadas, o que por sua vez mantém as
alterações fisiológicas que caracterizam o estresse por períodos prolongados, causando
diversos efeitos no organismo, dentre os quais redução ou perda de capacidades cognitivas.”

O trecho acima exibe a elaboração do autor Juan Casassus (2009) sobre a proposta de
uma educação emocional. Através do argumento aparentemente crítico à escola tradicional
que se pauta no método positivista - submetendo o aluno a uma lógica concorrencial -, o autor
propõe uma pedagogia baseada no desenvolvimento das competências não cognitivas, ou seja,
nas competências socioemocionais. Isto porque o modelo de escola criticado não possibilitava
preparar o estudante para as adversidades da vida em sociedade e as angustias que dela
derivam - lembra a crítica da escola nova à escola tradicional, sendo aquela ainda tão
insuficiente ainda para propor alguma saída real para os problemas escolares.
Segundo Tough (2012), a vida em sociedade suscita ameaças constantes às pessoas, e
aos estudantes, acarretando em níveis de stress prolongados. Essa elaboração é demasiado
simplista e visualiza apenas os estudantes empiricamente, não se atentando às mediações que
envolvem os estudantes concretos. É possível perceber instabilidade emocional nos jovens,
uma agonia em relação ao futuro e a preocupação que os envolvem por ter que saber qual o
caminho que irão tomar na vida depois dos anos escolares. Porém, essa instabilidade não se
resume a uma incompetência destes sobre não saber administrar sua condição
socioemocional, tampouco, se resume a uma ameaça em abstrato da sociedade sobre estes.
Mas sim, por aspectos muito mais amplos em que estão inseridos e que determinam
fortemente a realidade em que vivem – ainda que exista uma janela de possibilidade de
transformação através da ação prática -, são fatores econômicos, políticos, sociais e culturais
que submetem os estudantes, sobretudo aqueles que se encontram nas redes públicas de
educação, em que o investimento e assistência social são sempre precarizados.

Repensar a escola que visa apenas a preparação do estudante para o vestibular -


repensar o próprio vestibular para atingir uma real democratização da educação superior -, e
toda pressão decorrente disto é imprescindível, assim como reivindicar a presença de um
corpo sólido de profissionais voltados ao acompanhamento psicológico dos estudantes.
Entretanto, submeter a escola, que tem a função de socializar o conteúdo historicamente
acumulado, para se tornar uma instituição de preparação de competências não cognitivas é
limitar tanto a potencialidade escolar quanto a estudantil de se apropriar de objetivações
elaboradas anteriormente a eles e de desenvolver novas.

Pautar o desenvolvimento de condições socioemocionais para que os estudantes


aprendam a lidar com seus fracassos, angustias e conquistas, coloca em evidência o indivíduo
isolado da sociedade. Isto é, internaliza em sua subjetividade e responsabiliza apenas o ser em
si pela sua condição que, na verdade, é determinada por uma estrutura muito maior e mais
ampla que ele. É propor saída individual para problema que é coletivo. Na lógica apresentada
pelas pedagogias das competências, se o estudante fracassa, ele aprende a “florescer” e se
tornar um indivíduo melhor. Porém, continuará fracassando miseravelmente a cada nova
tentativa se o ambiente social ao seu redor continuar a exercer determinações que o levará à
falência, sem haver janelas de possibilidades de ação prática efetivas deste, para de fato
atingir alguma mudança.
Neste sentido, a pedagogia das competências é um grande trunfo que as politicas
neoliberais na educação se utilizam para responsabilizar as classes exploradas de sua condição
enquanto explorados. Se não conseguem um emprego é porque não se esforçaram o suficiente
para tal. Se não completaram seus anos escolares, é porque não estudaram e não se dedicaram
suficientemente. Se continuarem na miséria é porque não foram capazes ou competentes a
ponto de se colocar em uma condição de vida melhor. Esta pedagogia é o ponto ótimo para os
argumentos neoliberais de individualização de uma classe toda, inclusive de desestabilização
e desarticulação no processo de lutas e reivindicações por melhores condições de vida.