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2019 por Daiane Lima dos Santos O PATRIMÔNIO HISTÓRICO-CULTURAL DE LADÁRIO-MS:


OLHARES SOBRE AS MANIFESTAÇÕES POPULARES E OS
BENS A SEREM PRESERVADOS

Coordenação editorial: Rômulo Justen

Diagramação:
Bruno Eustáquio Bento Revisão:
Marcela Passos e Carolina Lacerda Capa:
Angel Cabeza

Índice para catálogo sistemático: 1. Ladário: Mato Grosso do Sul 2. História: patrimônio 3. Memória: festas populares e religiosas

4. Pantanal
São Paulo
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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

1 - O CONTEXTO HISTÓRICO DE LADÁRIO


Uma cidade turística

2 - A MEMÓRIA E OS LUGARES DE MEMÓRIA


2.1 Igreja de Nossa Senhora dos Remédios
2.2 O Colégio Franciscano São Miguel
2.3 A Marinha do Brasil - 6o Distrito Naval
2.4 O Centro Espírita Vicente de Paula
2.5 A Loja Maçônica Pharol do Norte
2.6 Antigo cinema de Ladário
2.7 O Casarão ou Sobradinho
2.8 A Lealdade: Casa comercial e bancária
2.9 O Ladário Atlético Clube
2.10 A Locomotiva 01: A Maria Fumaça

3 - AS FESTAS POPULARES E RELIGIOSAS


3.1 O carnaval e a influência carioca
3.1.1 As primeiras escolas de samba
3.1.2 O Carnaval nos dias atuais
3.2 O São João
3.2.1 Simbologia do São João
3.2.2 Promessa feita é promessa cumprida!
3.2.3 O São João antigo x atual

CONSIDERAÇÕES FINAIS

REFERÊNCIAS
INTRODUÇÃO

Ao trazer os relatos dos moradores de Ladário, é possível observar uma variedade


de falas que contribuem para pensar como foram criadas as manifestações populares
no município. As festividades do carnaval e São João narradas aqui evidenciam um
saudosismo de um tempo em que havia parcos recursos, mas em que era possível
criar formas de lazer e divertimento.
O leitor perceberá que as diferentes formas de discurso dos entrevistados
adquirem uma diversidade de significados com distanciamentos e proximidades.
Desse modo, a história oral, metodologia de pesquisa interdisciplinar, foi
considerada como fonte histórica assim como os documentos “oficiais” o são, visto
que também é um material passível de análise e pesquisa.
Neste livro, a ideia central é apresentar uma breve análise do patrimônio
histórico-cultural de Ladário e das manifestações populares do carnaval e o São João
de Ladário nas suas origens, apontando as mudanças de elementos considerados
importantes para cada festividade e ressaltando a importância da preservação do
patrimônio local.
O CONTEXTO HISTÓRICO DE LADÁRIO

Ladário é um município sul-mato-grossense conhecido como “Pérola do


Pantanal”, localizado à margem direita do rio Paraguai, fronteira oeste com a
Bolívia, sendo sua população estimada de pouco mais de 20 mil habitantes,
conforme dados IBGE. 1

Considerado um município pantaneiro (por fazer parte do bioma Pantanal),


Ladário possui uma história que contabiliza 240 anos, uma vez que foi fundado,
como povoação, em 2 de setembro de 1778 pela coroa portuguesa com o intuito de
efetivar as conquistas no período de expansão territorial.
Apesar disso, a população do Ladário conseguiu a autonomia – emancipação
político-administrativa –, com o respectivo desmembramento do município de
Corumbá, 175 anos após ser fundado como pequeno povoado, isto é, quando a Lei
Estadual no 679, de 11 de dezembro de 1953 , foi sancionada.
2

Porém, cumpre ressaltar que, três anos antes da fundação do povoado de Ladário,
a coroa portuguesa, como forma de legitimar as suas conquistas territoriais e garantir
a proteção/defesa da fronteira oeste do Brasil, fundou, em 1775, um aparato militar
e estratégico denominado Forte Coimbra.
Nesse sentido, Ladário foi fundado como povoado no contexto de expansão da
coroa portuguesa no dia 02 de setembro de 1778, assim como Corumbá, 19 dias
após, sem, contudo, alcançar a categoria de vila, porque, segundo Victor Nunes
Leal, “somente nas localidades que tivessem pelo menos a categoria de vila,
concedida por ato régio, podem instalar-se as câmaras municipais, cuja estrutura foi
transplantada de Portugal, a princípio na conformidade das Ordenações Manuelinas
e, mais tarde, das Filipinas” .3

Assim, cabe ressaltar que na Capitania de Mato Grosso, no século XVIII,


existiram duas vilas. De acordo com Jesus (2011, p. 50), “todas as vilas e cidades
possuíam uma câmara municipal, portanto, existiram na Capitania de Mato Grosso
duas câmaras: uma localizada em Vila Real do Cuiabá e outra em Vila Bela”.
Face ao exposto, as duas únicas vilas criadas no século XVIII na Capitania de
Mato Grosso e que cumpriram com os critérios estabelecidos pela coroa portuguesa
foram Vila Real do Bom Jesus do Cuiabá e Vila Bela da Santíssima Trindade.
Mas, independentemente de Ladário ter ou não sido uma vila naquele contexto,
qual foi o papel de João Leme do Prado, o “herói fundador” do Ladário no ano de
1778?
De acordo com os livros memorialísticos regionais divulgados localmente, o
referido sertanista foi o fundador do pequeno povoado, como afirmou o escritor
memorialista Lécio Gomes de Souza:
[...] acossado por súbito vendaval, logo após ter deixado o sertanista e seus companheiros,
viu-se compelido a abrigar-se em uma enseada, a 6 km a jusante. Explorando as cercanias,
constatou-se a existência de “huns matos muito excelentes de bacurizais capazes de dar toda
qualidade de mantimentos”. Do que se viu e achou deu a ciência a Leme do Prado,
sugerindo-lhe a instalação provisória naquele local, em condições de lhe proporcionar fartas
messes. Aceitando as ponderações, o capitão-mor transferiu-se a 02 de setembro para o local
indicado, por ele denominado Ladário, em lembrança ao nome da vila de nascimento de
Luís de Albuquerque no distrito de Vizeu, Província de Beira Alta. Leme do Prado, em
Ladário, ali permaneceu derrubando matos e plantando roças. [...]. Ao que se deduz,
diariamente, pela manhã, subia a Albuquerque em canoas com a turma designada para a
limpeza, ele mesmo dirigindo os trabalhos, regressando à tarde. A outra cuidava do solo, da
semeadura e colheita. Não obstante haver assumido oficialmente o comando do presídio das
mãos de Camponês, Leme do Prado continuou em Ladário, ocupado nas lides agrícolas.
Somente a 04 de novembro de 1779, transferiu-se em definitivo para Albuquerque,
consoante comunica o governador em 19 daquele mês.4

O trecho foi divulgado entre os livros de alguns memorialistas que retrataram a


região pantaneira e Ladário, como Raul Silveira de Melo e Renato Báez. Além disso,
o trecho apresenta que o local Ladário foi fundado como um aparato de apoio para
a fundação de Albuquerque realizada 19 dias depois.
Torna-se perceptível que João Leme do Prado acabou ali se estabelecendo a
mando do governador da província, Luís de Albuquerque de Mello Pereira e
Cáceres, para cumprir a tarefa de fundar a povoação de Albuquerque e, mesmo
depois de cumpri-la, continuou morando na localidade do Ladário.
Dessa forma, a importância a ele atribuída na comemoração do aniversário da
cidade, 02 de setembro, acabou deixando de lado a memória do dia 11 de dezembro
de 1953, data de criação do município de Ladário (envolto à polêmica na
Assembleia Legislativa Estadual e na Câmara Municipal de Corumbá) e do 17 de 5

março de 1954, data em que o município foi instalado.


É importante ressaltar que a localidade do Ladário ganhou destaque e
reconhecimento no ano de 1873 com a transferência do Arsenal de Marinha que
estava em Cuiabá (capital da Província de Mato Grosso na época), como forma de
proteger a fronteira suscetível a ataques indígenas e estrangeiros.
Além de ganhar destaque no cenário regional por sediar o Arsenal de Marinha
representado pelo Sexto Distrito Naval, abrigou a sede/oficina da Comissão Mista
Ferroviária Brasil-Bolívia (C.M.F.B.B.), o que ocasionou a diversificação da
população em razão da chegada de migrantes de várias regiões do país em busca de
trabalho na ferrovia.
• UMA CIDADE TURÍSTICA
Com relação ao turismo, atividade presente em todas as sociedades, desde as
antigas até as contemporâneas, é possível afirmar que é uma atividade bastante
intensificada no pantanal sul-mato-grossense e proporciona, além da extensão de
laços de uma mesma comunidade, a criação, consolidação e estreitamento de laços
efêmeros ou duradouros com outras culturas.
O cenário turístico possibilita o compartilhamento de crenças, modos, costumes e
tradições, impulsionando o compartilhamento de conhecimentos da cultura de
determinada sociedade.
Nessa linha interpretativa, Ladário é um município turístico por possuir riquezas
tanto de caráter natural quanto de caráter material e imaterial, de acordo com os
critérios estabelecidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico e Nacional
(IPHAN) e, concomitante a isso, o poder público passou a interessar-se pelos
atrativos culturais em que a localidade, através de seus moradores, poderia fornecer e
movimentar a economia.
Com base nessa assertiva, os eventos culturais são também conhecidos como
eventos políticos, uma vez que estão imbuídos de intenções políticas, de modo que
as festividades são vistas como campo de possibilidades para o desenvolvimento do
comércio local, mesmo que temporariamente.
1
Baseado no censo demográfico de 2010.
2
Sancionada devido ao projeto de Lei no 155 de 07/10/1953 de autoria do deputado estadual Manoel
Wenceslau de Barros Botelho Neto para a criação do município de Ladário no estado de Mato Grosso.
3
LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. 3. ed. Rio
de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1997. p. 81.
4
SOUZA, L. G., História de Corumbá, [S.n.], [S.d.]. p. 26.
5
Para saber mais sobre a criação do município, ver dissertação de mestrado da autora Apologia à
inconstitucionalidade: os desdobramentos em torno à criação e formação da municipalidade do Ladário (1948-
1955).
A MEMÓRIA E OS LUGARES DE MEMÓRIA

A memória é a forma de trazer à vida os elementos relacionados ao esquecimento


e, para trabalhá-la, é imprescindível aproximar-se da realidade obtendo cuidado e
atenção evitando cometer anacronismo, isto é, o erro de cronologia. Logo, perceber
a memória como sujeita a falhas e contradições fará apontar na investigação do
historiador elementos até então impensados e irrefletidos anteriormente.
Há que se considerar que a formação da memória coletiva é construída por todos
à medida que se torna possível explorar e refletir sobre lugares e acontecimentos,
que, embora possam ter sido impraticáveis no sentido da vivência no passado,
acabam por fazer parte da memória dos receptores.
Diante disso, conforme Pollak (1992, p. 5), “vale dizer que memória e identidade
podem perfeitamente ser negociadas, e não são fenômenos que devam ser
compreendidos como essências de uma pessoa ou de um grupo”.
Dessa maneira, a memória possibilita o conhecimento e a disseminação cultural
por meio da ideia de formação da identidade que envolve dois elementos
interligados: seleção e escolha. Certamente, por esse motivo que, a todo momento, a
memória sofre modificações estando em constante devir no tempo e no espaço. A
construção da identidade, nesse sentido, é simbólica, social e peculiar a cada
localidade em processo contínuo de construção.
Trata-se da legitimação da memória como apreensão da história definida como
um objeto com o qual historiador lida e analisa constantemente, como é possível
notar em Le Goff (1990):
Ainda sobre este assunto, devemos distinguir: o objeto da história da história, é bem este
sentido difuso do passado, que reconhece nas produções do imaginário uma das principais
expressões da realidade histórica e nomeadamente da sua maneira de reagir perante o seu
passado. Mas esta história indireta não é a história dos historiadores, a única que tem
vocação científica. O mesmo acontece com a memória. Tal como o passado, não é a história,
mas o seu objeto, também a memória não é a história, mas um dos seus objetos e
simultaneamente um nível elementar de elaboração histórica. (LE GOFF, 1990, p. 50)

Conforme a afirmação de Le Goff, a memória como objeto de compreensão da


história alcança cientificidade quando o historiador interfere por meio da seleção,
análise e escrita. Também a memória como um elemento de seleção e construção
social está susceptível a flutuações, pois nem tudo fica gravado ou registrado.
Nessa linha de análise, no que diz respeito às festas nas cidades ou nas áreas mais
afastadas, é possível afirmar que surgem como forma de criar uma unidade e manter
laços para além de legitimar as relações hegemônicas. São, antes de tudo, momento
para se quebrar com o que lhe é habitual, como forma de diversão e de comemorar
em torno de um dado acontecimento que é eleito como importante para
determinado grupo.
Partindo desse pressuposto foi que Ladário ganhou um público, mas um público
que possuía ânsia por diversão e lazer em uma época que havia quase que escassas
formas de entretenimentos. Por isso, a memória é uma forma de apresentar a
história do carnaval ladarense, e registrá-la é um dos trabalhos do historiador.
Elementarmente, as festas propiciam o estabelecimento e legitimação de posições
econômicas e sociais dos indivíduos e ao mesmo tempo determinam e elucidam
conflitos ideológicos. Nesse aspecto, a participação do indivíduo nas festas públicas
faz afirmar o seu lugar na sociedade como sujeito histórico.
Nesse panorama, os lugares de memória fazem parte da história de um povo que
emana representações do passado. Em Ladário, os monumentos contêm vários
estilos e fazem referências a períodos distintos e, diante disso, remetemos aos
monumentos de Ladário como forma de historicizá-los e, sobretudo, compreender a
sua simbologia.
• 2.1 IGREJA DE NOSSA SENHORA DOS REMÉDIOS
A história da construção da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios está
intrinsicamente ligada à memória do arsenal de Marinha porque, num momento em
que a igreja inexistia, as missas eram realizadas em sua capela. Além disso, em 1893,
houve a chegada da imagem de Nossa Senhora dos Remédios, trazida pelo
comandante da época, Tenente Cel. Raimundo de Souza Lobo, segundo consta nos
textos memorialísticos de Renato Báez . 6

Conforme os documentos memorialísticos , a pedra fundamental da Igreja foi


7

lançada em 02 de setembro de 1878, isto é, cem anos após a fundação da povoação


de Ladário que ocorreu em 1778. A construção da Igreja, porém, foi iniciada em
1892, e, antes desse período, as missas eram realizadas na capela do arsenal. O coro
da igreja era do tempo de sua fundação, de madeira, mas anos depois foi
concretado. A torre possuía 4 sinos, fabricados em Sorocaba, no ano de 1947,
encomendado pelo frei Liberato, responsável pela igreja na época.
A descrição apresentada torna-se clara a partir do trecho escrito por Renato Baéz,
um dos memorialistas corumbaenses:
No Arsenal da Marinha, existia a capela velha do arsenal e do povo de Ladário. A 8 de
janeiro de 1893, o Pe. Constantino Tarzio (SDB), vigário, abriu o livro de “Fábrica, da
igreja nova de Ladário”. A pedra fundamental da igreja foi lançada no dia 02 de setembro de
1878, no entanto, só em 1892 teve início a sua construção. A igreja, trabalho do construtor
italiano Germano dos Santos Mauro, foi inaugurada em 1896. (BAÉZ, 1965).

Nessa linha interpretativa, o ano de 1896 representou a primeira fase de


construção da igreja, e o ano de 1898, sua fase final. É possível afirmar, desse modo,
que a Igreja Nossa Senhora dos Remédios, desde o lançamento da pedra
fundamental, possui 141 anos, mas a imagem da padroeira chegou anos depois e
ambas são consideradas patrimônio Histórico-Cultural de Ladário.
Cumpre destacar que a Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios foi criada no
ano de 1939 pelo bispo da diocese de Santa Cruz, na época, Dom Vicente B. M.
Priante, e ficou sob às ordens e atenção dos padres franciscanos do comissariado do
Mato Grosso.
A Missão Franciscana permaneceu em Ladário e teve atuação no Colégio
Franciscano São Miguel. Logo, é possível afirmar que a história da fundação da
paróquia de Nossa Senhora dos Remédios está intimamente ligada à fundação do
Colégio Franciscano São Miguel tendo em vista que a Missão Franciscana foi a
responsável por presidir a nova Paróquia.
Pode-se notar isso no trecho de Knob (1988, p. 296) “Em fins de fevereiro de
1939, chegaram a Ladário as irmãs Maria Gertrudes Lang, Maria Segisberta
Weidelener e Maria Amata Deninger. Logo começaram as matrículas que somaram
140 alunos”.
O Colégio, nesse sentido, foi fundado como uma escola paroquial onde eram
ministradas aulas de bordado e pintura para moças:
Quando os franciscanos assumiram a paróquia de Ladário, já havia a igreja de Nossa Senhora
dos Remédios. Ela era grande, construída de pedras naturais. As paredes de fora estavam sem
reboque. Ao lado, na frente, existia uma escada encimada por um telhado, como de um
baldaquino, para abrigar os sinos. O forro e o telhado da igreja estavam furados, as paredes
de cima mostravam aberturas, pelas quais muitos morcegos entravam na igreja. Estes males
foram sanados por um novo telhado e pelos consertos que foram feitos em 1943. Segundo o
Pe. Frei Mateus Hoepers, visitador geral em 1943: “Aqui em Ladário, vocês pelo menos têm
uma igreja que merece este nome” (Crônica, f. 3v). Em 1945, foi realizada uma reforma
total da igreja, sob os cuidados do irmão Frei Valfrido Stahle (KNOB, 1988, p. 293).

O autor descreve a situação da Igreja quando os padres franciscanos a assumiram.


Todavia, em 1942, a planta para a construção da torre foi assinada e a parte
existente da torre e parte da fachada foram derrubadas para construir a nova. Parece
que, com ajuda da população e do comando naval, foi possível finalizar a obra e
inaugurar os novos sinos no alto da torre em 1946.
Ainda de acordo com o mesmo autor, no ano seguinte, em 1947, o Frei Quirino
Franz abriu duas escolas na Igreja: uma diurna, para meninos, como continuação do
colégio São Miguel, e uma noturna de alfabetização. Houve a tentativa de implantar
uma biblioteca paroquial, que funcionou por um curto período.
Há que se evidenciar ainda que, no dia 20 de fevereiro de 1953, aconteceu a
explosão de inflamáveis da Comissão Mista Ferroviária Brasil-Bolívia, que danificou
a estrutura da igreja conforme afirma Knob “[...] quase 22 toneladas de inflamáveis
e inclusive 7. 500 quilos de dinamite foram pelos ares às oito e quinze da noite”. Por
conseguinte, a Comissão Mista restaurou a parte da Igreja que ficou destruída.
A Igreja, em tempos atuais, funciona com horários de missa, e a festa em louvor a
padroeira é comemorada no dia 24 de outubro.
Figura 1: Igreja Nossa Senhora dos Remédios.
Fonte: Arquivo pessoal da autora.

Fonte: Arquivo pessoal da autora

• 2.2 O COLÉGIO FRANCISCANO SÃO MIGUEL


A Missão Franciscana, assim que se instalou em Ladário, ficou encarregada de
fundar o Colégio São Miguel, conforme destaca Knob: “Em fins de fevereiro de
1939, chegaram em Ladário as irmãs Maria Gertrudes Lang, Maria Segisberta
Weidelener e Maria Amata Deninger. Logo começaram as matrículas que somaram
140 alunos” (KNOB, 1988, p. 296).
Figura 2: Colégio São Miguel recém-construído.

Fonte: Biblioteca do Colégio São Miguel.

Apesar da chegada das referidas irmãs, o Colégio foi fundado no ano de 1940 e
ficou sob a direção das irmãs franciscanas de Bonlanden de Barra do Piraí e, desse
modo, funcionou como uma escola paroquial, onde havia também aulas de bordado
e pintura para moças.
Figura 3: Colégio São Miguel em dias atuais.

Fonte: Arquivo pessoal da autora

Atualmente, o Colégio tem 78 anos de história e continua sob a direção das irmãs
franciscanas de Bonlanden.
• 2.3 A MARINHA DO BRASIL - 6O DISTRITO NAVAL
Ao criar a capitania de Mato Grosso, em 1748, a coroa portuguesa buscava
efetivar as suas conquistas territoriais e deter o avanço das missões jesuíticas
espanholas. Anos mais tarde, há a decisão de transferência do Arsenal de Marinha
para Ladário, o que se efetivou em 1873.
Nessa perspectiva, a história do Ladário está intrinsicamente ligada à memória do
Arsenal de Marinha tendo em vista que a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870)
mostrou as fragilidades de Mato Grosso, que indispunha de um aparato bélico na
porta de entrada da Província, o que facilitou o ataque paraguaio.
Devido às fragilidades do Arsenal de Marinha de Cuiabá, foram feitos estudos
visando a sua transferência, e Ladário, por ser uma região estratégica, foi o lugar
escolhido para a instalação do Arsenal de Marinha. A transferência do Arsenal de
Marinha de Cuiabá-MT para Ladário foi feita em 1873, tendo início a sua
construção no dia 14 de março do referido ano. “A Freguesia de Ladário, após
receber as instalações navais, a partir de 1873, passou a sobreviver quase que
exclusivamente em função do arsenal. Ao aproveitar centenas de trabalhadores civis
e militares, o Arsenal tornou-se o maior empregador da região” (MELLO, 2009, p.
246).
No ano de 1945, o Arsenal passou a denominar-se Base Fluvial de Ladário e, em
novembro do mesmo ano, o Comando Naval passou a denominar-se Sexto Distrito
Naval, no entanto, o Sexto Distrito Naval foi transferido para São Paulo em 1966 e
retornou para Ladário em 1975.
O Pórtico da Marinha foi e é um dos cartões postais de Ladário, sendo a sua
construção uma réplica do Arco do Triunfo que se tornou referência da Avenida
Champs Elyséess, em Paris, França. Em frente ao Pórtico, é realizado, diariamente,
o ritual militar da Troca de Guarda da Fortaleza Naval de Ladário.
Diante dessa análise é possível inferir que o arsenal de Marinha, tanto no passado,
com suas contribuições, quanto no presente é de grande relevância para Ladário no
que concerne à assistência e no trabalho conjunto com a prefeitura.
Figura 4: Pórtico do arsenal de Marinha.
Fonte: Arquivo pessoal da autora.

• 2.4 O CENTRO ESPÍRITA VICENTE DE PAULA


O Centro Espírita Vicente de Paula, idealizado pelo senhor Abdo Urt, natural de
Jerusalém, “foi fundado como grupo em 26 de junho de 1914 e elevado a centro no
dia 06 de agosto de 1921” (MARQUES, 2011, p.420). Organizado “para fins de
união e propaganda da doutrina espírita”, tem sua sede na Rua 14 de março.
Segundo Marques (2011), no ano de 1926, estando o Centro sob a presidência
do senhor Estanisláo Gomes do Santos, começaram as obras para a construção de
um muro, o que deu início aos trabalhos de levantamento do gradil de ferro para
que as obras ficassem prontas conforme a planta.
De acordo com o jornal Ladário em foco:
Na sessão do dia 6 de maio de 1930, a diretoria resolveu mandar pintar a óleo as portas e
janela, gradil de ferro e portão, para conservação, bem assim limpeza na frente e pátio do
edifício, mandando também fotografar o prédio, não obstante estar incompleto. Na sessão
de 11 de agosto de 1930, foi decidida a realização de uma quermesse, “por não haver outro
meio de se conseguir verbas para terminar as obras”. Em abril de 1936, ficou registrado que
se venderam 350 tijolos e 154 telhas a sócios, por estarem sem uso.
Em 26 de julho de 1930, houve a inauguração da luz elétrica (fornecida pelo arsenal de
Marinha), pelo inspetor do arsenal, capitão de fragata João Francisco de Arruda Milanez. Na
mesma ocasião, foi apresentada a planta definitiva do centro e a gazeta que transcreveu o
estatuto, passando o centro a partir daquele momento a ser pessoa jurídica, para todos os
efeitos (Jornal Ladário em foco, 1978, p.16).

Nota-se como foi o processo de construção do centro, mas, apesar disso, é


importante assinalar que atualmente o Centro Espírita funciona com a mesma
finalidade, promovendo suas atividades. Abaixo a imagem do referido centro:
Figura 5: Centro Espírita Vicente de Paula.

Fonte: Arquivo da autora.

• 2.5 A LOJA MAÇÔNICA PHAROL DO NORTE


A loja Maçônica, de acordo com Macedo (1997, p. 5), foi transferida de Cerritos.
“Em 28 de março de 1874, efetuou-se a construção da Loja Maçônica “Pharol do
Norte.”
A mesma guarnição que fundou o Arsenal da Marinha de Ladário erigiu a loja com o nome
de Pharol do Norte. Foi inaugurada em 19 de fevereiro de 1881 na antiga rua do portão
atual avenida 14 de março. Uma mesma loja instalada no mesmo local em 29 de maio de
1875 e regularizada em 01 de março de 1979 (MARQUES, 2011, p. 416).
Figura 6: Loja Maçônica Pharol do Norte.

Fonte: GOBMT, 2019.

É perceptível em Marques a data de fundação da loja, entretanto, a fonte


memorialista consultada impossibilita uma abordagem mais densa.
• 2.6 ANTIGO CINEMA DE LADÁRIO
Considerando os relatos, o antigo cinema Ladário foi fundado em 1o de maio
1936 pelo senhor Agemor Radiche e com localização na antiga Rua do Portão; ficou
por muito tempo sob a coordenação do senhor Jarbas Pirato Manso.
No ano de 1962, a Marinha passou a ser proprietária do cinema, que teve seu
nome mudado para Cine Marinha, porém, fechou em 1972, por motivos incertos
ou desconhecidos.
No relato do colaborador Viana (2014), é possível perceber como era a
participação no antigo cinema:
Naquela época as lojas de Corumbá faziam propaganda aqui e quem fazia a propaganda era
um anãozinho. Eles vinham distribuir folhetozinho das lojas de Corumbá, como das
Pernambucanas na época, Buri, Riachuelo. No Cine Ladário o ingresso também era verde e
amarelo, pequenininho. O que a turma fazia? Os comportados cortavam a propaganda no
tamanho do ingresso (risos) e o porteiro era seu João, o pai do dono do cinema, do Radiche.
Ele não enxergava direito e metade dos ingressos, trinta por cento era propaganda. Depois
que eles percebiam por que o cinema estava cheio e como renda não batia foram conferir
(risos): trinta por cento eram propaganda das lojas de Corumbá (VIANA, 2014).

A recordação diz respeito à formatação de bilhete, mas que evidencia uma


situação inusitada. Com relação aos dias atuais, é importante destacar que no prédio
funciona a Casa de Cultura.
Figura 7: Cine Ladário.

Fonte: Pérola News, 2014.

• 2.7 O CASARÃO OU SOBRADINHO


De acordo com Marques (2011, p. 422), o Casarão ou Sobradinho foi edificado
em 1911 sob as ordens de José de Aguiar Lisbôa para uso comercial e residencial na
Rua Tamandaré. A parte superior do sobrado era a residência e na parte inferior
funcionava o comércio a varejo.
O casarão, conforme relatos, foi o edifício onde nasceu o neto do senhor José
Aguiar, o poeta e escritor ladarense João Lisbôa de Macedo, que escreveu o livro
Sopa Paraguaia e outras obras. João Lisbôa de Macedo, em seu livro Sopa Paraguaia,
fez uma homenagem ao seu avô:
Nossa homenagem ao nosso avô, que foi marinheiro, comerciante, pecuarista e delegado de
polícia, e ao seu SOBRADINHO, onde, na sacada, aos domingos e feriados era colocado um
gramofone, com sua campânula para a rua, tocando belos dobrados e valsas da Casa Edson
do Rio de Janeiro, e na porta do andar térreo, içada a Bandeira Brasileira. Como era patriota
o nosso avô, romântico, pioneiro, amante, amante do progresso! (MACEDO, 1983, p. 93-
4).

O poeta recorda com saudosismo as lembranças que teve do avô e do


Sobradinho. É pertinente destacar que, atualmente, devido a um temporal, a parte
superior onde funcionava a residência veio a cair e o prédio encontra-se em estado
de abandono.
• 2.8 A LEALDADE: CASA COMERCIAL E BANCÁRIA
De acordo com Báez, a Lealdade foi erigida no início dos anos 30 do século XX,
sob as ordens do coronel Nicola Scaffa para uso comercial do armazém de secos e
molhados. “A Lealdade” era localizada na rua Tamandaré. Posteriormente pertenceu
à família Amorim e à Cooperativa de Consumo de Servidores Públicos Civis de
Ladário.
Segundo os relatos de alguns moradores, A Lealdade era o melhor armazém da
cidade na época, pois era possível encontrar diversos produtos.
Para quem os vê e não os viu, é difícil acreditar que ali, nos bons tempos, se desenvolveu
uma vida exuberantemente comercial. Sim, ali já houve comércio e comércio do bom.
Atividade imensa da Casa Bancária Nicola Scaffa, com escritório muito bem montado e que
tinha mesmo contadores diplomados, guarda-livros, caixas, etc.[...]. ali funcionou “A
Lealdade” vendendo a crédito e à vista, a varejo e por atacado, fazendas, armarinhos, sapatos,
cereais de toda espécie, medicamentos, louças, material elétrico a 90% dos ladarenses. Era o
poder comercial do Sr. Nicola Scaffa (MACEDO, 1983, p. 90- 91).

Para além do que Macedo destacou no trecho acima, é pertinente ressaltar ainda
o que Mello, em seu trabalho Ladário e o Trem Naval de Mato Grosso: história e
memória, aponta a respeito da casa comercial e Bancária “A Lealdade”. Conforme
Mello (2007, p. 23) “A ‘Lealdade’ fornecia gêneros a crédito aos funcionários civis e
militares do Arsenal de Marinha, no sistema de caderneta. Uma ficava com o cliente
e outra com o Coronel, na pessoa do seu Guarda Livros”. O autor continua e
aponta a importância da figura do Coronel Nicola Scaffa: “A Casa Bancária Nicola
Scaffa não representava apenas um próspero comércio de secos e molhados, mas
também servia como base política. No dia de eleições, Nicola Scaffa tinha direito a
uma escolta de Fuzileiros Navais para protegê-lo” (MELLO, 2007, p. 25).
Hoje o prédio abriga uma academia e se encontra em bom estado de conservação.
• 2.9 O LADÁRIO ATLÉTICO CLUBE
Consoante os documentos da imprensa, o Ladário Atlético Clube foi fundado no
dia 14 de março de 1926 na antiga Rua do Portão, hoje Avenida 14 de março, pelo
inspetor do Arsenal de Marinha, o capitão de mar e guerra Jerônimo Francisco
Gonçalves.
O mencionado clube possuiu um valioso patrimônio de conquistas e realizações,
já que gozou de uma era de entusiasmos e dedicação dos antigos ladarenses.
Em Macedo (1983), é possível perceber a localização do supracitado clube:
Era instalado desde a sua fundação no prédio (hoje em demolição) situado na 14 de março
n. 8, tendo sido transferido, recentemente, por ato de permuta com o 6o distrito naval, para
o antigo Centro Recreativo da Marinha, situado à mesma rua, esquina com a travessa
Riachuelo. Chegou a possuir um estádio muito bem construído, com arquibancadas em
madeira e partes cobertas, onde eram vividas grandes tardes esportivas (MACEDO, 1983, p.
95).

Como afirmou o autor, o Ladário Atlético Clube teve uma primeira sede com
uma boa estrutura localizada na mesma rua. Atualmente o prédio funciona como
casa noturna nos finais de semana e conta com outros eventos promovidos.
• 2.10 A LOCOMOTIVA 01: A MARIA FUMAÇA
Como resquícios de um tempo em que o distrito do Ladário serviu como ponto
de desembarque e apoio na construção da estrada de ferro que ligou o Brasil à
Bolívia, existe uma locomotiva que atuou carregando passageiros durante os
trabalhos da Comissão Mista Ferroviária Brasil-Bolívia – Comista. A Locomotiva 01
conhecida como Maria Fumaça, que hoje se encontra na atual Praça Nossa Senhora
dos Remédios, serviu para transporte de passageiros operários da Comista e dos
funcionários da Marinha do Brasil que faziam a linha Ladário-Corumbá e vice-
versa.
Quando as obras da Comissão Mista foram encerradas, a referida locomotiva foi
entregue à Marinha e, anos depois, foi feita a doação para o município.
Hoje é um atrativo local, compondo a memória e a história local.
Figura 8: Pérola do Pantanal – Locomotiva 01.
Fonte: Jornal Pérola News, 2016.

6
Nascido em 26/01/1920 na cidade Porto Murtinho/MS. Residiu em Corumbá desde 1938-1966. Foi
advogado, professor, jornalista e escritor de aproximadamente 28 livros. Ver em: Pioneiros e registros, 1983, p.
164.
7
Ver: Renato Báez em Pioneiros e Registros.
AS FESTAS POPULARES E RELIGIOSAS

As festas surgem como acontecimentos memoráveis e é nesse cenário que o poder


público passou a se interessar pela cultura pensando no desenvolvimento do setor,
como forma de movimentar a economia. É deste modo que as manifestações
populares e as festas religiosas passam a ser organizadas como eventos turísticos.
Trata-se da criação de lugares de turismo onde o espaço recebe um recorte.
Nessa linha de raciocínio, as festas são tomadas pelo poder público como forma
de legitimá-las, o que ocasiona mudanças e leva a uma nova concepção da festa. Por
um lado, isso tem sido uma das formas estratégicas das elites políticas locais para
“vender” a cidade e, por outro, é a forma encontrada para justificar a permanência
no poder, ou seja, garantir a sua reacomodação.
A comunidade local vive intensamente as festividades de São João e a de Nossa
Senhora dos Remédios. Na primeira festa, o poder público, além de intervir no que
diz respeito ao marketing e divulgação, interfere na sua organização, que vai desde a
decoração até o fornecimento do quadro de funcionários para realização. Já na
segunda festa, em comemoração e homenagem à Nossa Senhora dos Remédios, o
poder público intervém de uma forma diferenciada. Por isso, é importante lançar
um novo olhar para o patrimônio:
Assim, refazer a trajetória de Mário de Andrade na constituição do Inventário dos Sentidos
(Nogueira, 2005) é buscar as origens da formulação de uma noção de patrimônio e de uma
concepção de preservação que coloque o inventário no centro da prática preservacionista
(principalmente quando se trata de patrimônio não tangível), legitimando-o como
instrumento de preservação em si e não apenas como ferramenta de gestão para bens já
tombados (NOGUEIRA, 2007, p. 259).

O que Nogueira propõe é o lançamento de um novo olhar com relação ao que se


entende por patrimônio que vai muito além da ideia de eternizar ou idolatrar um
monumento. A questão do inventário é o primeiro passo a ser dado, todavia, no
caso específico de Ladário, foi feito somente um levantamento dos bens móveis que
o município possui.
A conservação do patrimônio passa pelos interesses econômico-financeiros e
certamente de identidade de uma população. A proposta é a de pensar ações para
que esses bens sejam protegidos em nível municipal, uma vez que são considerados
pontos turísticos e atrativos locais. “De muitos modos, conhecer é reconhecer. O
reconhecimento também pode apoiar-se num suporte material, numa apresentação
figurada, retrato, foto, pois a apresentação induz a identificação com a coisa
retratada em sua ausência [...]” (RICOEUR, 2007, p. 437- 8).
O conhecimento do patrimônio cultural local por meio da educação patrimonial
dá a possibilidade de enxergar e manter viva a memória que, por sua vez, é
socialmente construída. A importância do reconhecimento permite à memória
coletiva a comemoração, a celebração através de um monumento ou de elemento
intangível. Por meio desse reconhecimento, é possível salvar, preservar e dar
continuidade, entretanto, antes é crucial haver uma mobilização para que esses bens
sejam ao menos tombados em nível municipal.
• 3.1 O CARNAVAL E A INFLUÊNCIA CARIOCA
O carnaval é uma manifestação popular que atrai turistas e movimenta de certa
forma a economia do município de Ladário. Segundo relatos de alguns moradores
antigos, o carnaval teve seu início com o bloco da Marinha “Aí vem a marinha”; foi
a partir daí que foi criada a escola de samba “Viva a Marinha”.
Primeiro havia os grandiosos bailes nos salões, mais precisamente nos clubes
militares, e, posteriormente, houve a disseminação do carnaval para as ruas de
Ladário. Foi dessa forma, segundo relatos dos moradores ladarenses entrevistados,
que começaram a surgir os famosos blocos de sujos organizados pelos marinheiros
fuzileiros navais, que trouxeram a festividade para a região pantaneira.
O Arsenal de Marinha, como mecanismo de circularidade de trabalhadores, em
especial dos militares cariocas, possibilitou, nesse sentido, a inserção do carnaval na
região pantaneira que se propalou e ganhou uma proporção considerável.
No que tange à contribuição carioca com o carnaval ladarense, é possível observar
no relato do colaborador Eury: “Aqui em Ladário surgiram as escolas de samba, e a
primeira escola de samba nasceu na década de 30 por aí. A sede funcionava nesse
sobradinho do meu avô, já caído. Na parte superior é que eles ensaiavam, os
marinheiros que trouxeram o carnaval para Ladário” (MACEDO, 2015).
Conforme os relatos, os blocos de carnaval em Ladário eram bem organizados
pelos militares da Marinha, que garantiam a diversão da população, sobretudo com
a criatividade na nomenclatura dos blocos.
Com relação às escolas de samba, particularmente às fantasias, podem-se notar as
características a partir da descrição:
[...] a fantasia era coisa simples: era só uma calça branca e a camisa cor azul marinho de
Jersey e usavam na cabeça umas cartolazinhas durinhas e armadas. Era: camisa azul marinho
bem escuro, calça branca, essa cartolinha e tinha um estandarte. Tinha os camaradas que em
certo momento tirava lá as cartolinhas e batia. A cartolinha era durinha, parecia uma
palhinha, mas era dura, parecia uma tabuinha. Esse era o requinte da moda nessa época.
Então eles batiam “taque, taque, taque”. O nome dessa escola de samba, eu não me lembro.
Depois teve uma outra escola de samba, chamava-se Hora ó (MACEDO, 2015).

Observa-se no relato do colaborador qual era o tipo de traje utilizado para o


carnaval. Descreve claramente uma das escolas de samba que marcou época, porque
foi a primeira da região, que estava sob a organização dos militares da Marinha. Seu
relato entra em consonância com os demais relatos, levando a crer que a escola de
samba ao qual fez menção se tratava da “Viva a Marinha!”.
Na mesma linha de pensamento, João Lisbôa de Macedo, escritor e poeta
ladarense, descreve em seu livro Sopa Paraguaia:
O atual carnaval corumbaense nasceu de certa projeção, nasceu na então vila de Ladário.
Nossos antepassados nos relatavam sempre: grandes e animados cordões, blocos de
mascarados, carros alegóricos e, depois, escolas de samba, tiveram o seu nascedouro na
sociedade ladarense. Foram várias as entidades, cujos nomes recordamos – “Amantes da
Lira” (de Marinheiros); “Marcílio Dias”; “H. Romeu”; “Os lenhadores”; “O Pancada de
cego”; “Os amadores do pancada”, as escolas de samba “Viva a marinha” (a primeira da
região, constituída exclusivamente de marinheiros, instalada no Sobradinho); a “Hora Ó”,
“Lá vai madeira!” (de fuzileiros navais); o bloco infantil “As matutinhas”, criação de Jiló e
Jaú. (MACEDO, 1983, p. 97).

É perceptível a contribuição da Marinha nesse sentido, uma vez que foi instalada
no ano de 1873, transferida de Cuiabá para a proteção da fronteira oeste. Parece
que, naquele momento, Ladário ganhou reconhecimento e destaque, porque a
Marinha foi responsável pela urbanização da cidade e outras conquistas
significativas.
O Sexto Distrito Naval se tornou o mediador do lazer local, por meio dos
militares cariocas que levaram o carnaval para região pantaneira. Desse modo, o
tradicional carnaval de rua tomou conta e passou a fazer parte da vida dos
ladarenses.
• 3.1.1 AS PRIMEIRAS ESCOLAS DE SAMBA
A respeito do surgimento das escolas de samba no Ladário, Macedo aponta que:
Em Ladário teve a escola de samba chamada “Deixa Falar” em quarenta e nove. Caso até que
veio uns operários do Rio para montar um navio, um rebocador aqui chamado Antônio
João. Esses operários eram esse pessoal do Rio de Janeiro. Sabe que o fraco deles era carnaval,
né? Aí veio também cantando, eu lembro até que eles saíram aqui e foram pra Corumbá e
dizia assim:
Boa noite como vai, como passou?
Estou chegando de Ladário para vos cumprimentar
Nós somos da escola Deixa Falar!
Pedimos licença para chegar...
Nessa época eu estava trabalhando até na Siderurgia. Depois em Corumbá pegaram a fazer
também as escolas de samba, mas foi tudo enraizado daqui. Tudo surgiu daqui porque vinha
esses marinheiros servir aqui e aqui não é Rio de Janeiro e resolveram fazer o carnaval deles
aqui. (MACEDO, 2015).

Assim, evidenciou a ativa contribuição militaresca na formação do carnaval


ladarense relembrando o enredo da Escola de Samba “Deixa Falar”.
Em decorrência da criação da segunda escola de samba, composta exclusivamente
de marinheiros, começaram a surgir escolas de samba, blocos e cordões como forma
de manter a diversão.
Nesse aspecto, por meio do relato do colaborador Arruda, um dos ícones do
carnaval de Ladário que também fundou um dos blocos conhecido como “Não me
interessa!”, percebe-se que a paixão pelo carnaval foi herdada de seu pai, Eugênio
Alves de Arruda, o qual fundou, no ano de 1949, a escola de samba conhecida como
Escola de Samba Ladarense “Deixa Falar!”, que marcou a história do carnaval
Ladário.
Segundo o colaborador Arruda (2015), o marco cronológico da origem das três
escolas de samba das quais tem recordação que marcaram o carnaval ladarense
consta no quadro 1 abaixo:
Quadro 1: Marco cronológico das escolas de samba em Ladário
Fonte: Nilson Arruda, 2015. (Quadro elaborado pela autora)

É importante salientar que Arruda (2015) relatou que desconhece a primeira


escola de samba “Viva a Marinha” por chegar em Ladário num momento posterior.
Por outro lado, a colaboradora Santos, que é artesã, carnavalesca e festeira de São
João, afirma:
Eu cheguei aqui em 1953 e assim começou esse roteiro porque aqui não tinha nada para
gente se divertir. Quando chegou o mês de fevereiro, eu não sabia o que ia fazer e falei assim:
“Eu tenho que fazer qualquer coisa para o carnaval daqui”. Coloquei um bloco que se
chamava “Aí vem os Foliões de Ladário”, esse já foi em 1962. Depois foi o bloco dos
Palhaços. Saía um bando de mulherada no nosso primeiro bloco, mas um bando de gente e
nós não tínhamos músico para tocar e começamos a procurar músico. Esse Eury, que é
irmão do finado João Macedo, catou uns músicos e começou a tocar pra nós. Depois eu
fundei os “Brotinhos ladarenses” (O. SANTOS, 2015).

A colaboradora é integrante do processo carnavalesco e envolvida com outras


festividades tradicionais da localidade como, por exemplo, a festa junina. Desta
forma, contribuiu substantivamente para a região e afirma que as escolas de samba
em Ladário inspiraram os nomes para a cidade vizinha:
Depois veio “Império do Morro” que nasceu em Ladário ali onde é o moto táxi na avenida
quatorze de março em frente de Hildo. Ali era “Império do Morro” e o responsável era
finado Edi de marinha. Depois veio aquele “Império Serrano” de Zé Pichibeque, que nasceu
aqui em Ladário também. Aí a Marinha resolveu ajudar a gente, colocou um bloco muito
bonito “Aí vem a Marinha”. Daí foi nascendo um, foi nascendo outro. Aí veio o bloco
“Meninas direitinhas” de Mirtes e depois veio o pessoal de Manu de Pedrinho que
colocaram o nome de “Maior Abandonado”. Depois veio “Os desligados”, que foi desse
pessoal de Assis (SANTOS, 2015).
Além das escolas de samba acima citadas, reunindo todos os relatos dos
entrevistados, é possível averiguar que o ladarense pôde contar, do período da
década de 1930 até meados dos anos 1990, com um total de 08 (oito) escolas de
samba que marcaram o carnaval.
Dentre as escolas de Samba mencionadas pelos colaboradores, é possível destacar
as seguintes:
Viva s Marinha;
Hora Ó;
Lá vai madeira!;
Império do Morro;
Império Serrano;
Grêmio Recreativo Escola de Samba Cruzada;
Deixa Falar!;
Verde e Rosa.
No tocante aos blocos carnavalescos, segue abaixo a descrição feita sobre o
carnaval ladarense pelo colaborador Viana, que foi o fundador de dois blocos de
sujos, “Os desligados” e “As piranhas”:
O carnaval era bem natural, bem espontâneo aqui. Não tinha nada de interesse financeiro,
era coisa bem natural mesmo. Existia o verdadeiro folião que saía na época até antes da
gente, bem antes da gente mesmo. A gente era criança, a gente observava que principalmente
os blocos de sujo saíam daqui. Geralmente músico da marinha acompanhava os blocos. Saía
tanto bloco de homem como bloco das mulheres. Era uma coisa bonita mesmo e no
domingo de carnaval saíam vários blocos de sujos. Na segunda-feira de carnaval vinham
todas as entidades de Corumbá desfilar aqui. Vinham praticamente todas mesmo. Segunda-
feira de carnaval a gente, com as crianças todas e a família, já subia para a avenida 14 de
março, cada uma com sua cadeirinha para botar ali na praça e assistir ao desfile. Essa
quatorze de março lotava e muita gente de Corumbá vinha para assistir. Começava na sexta,
quatro dias de carnaval e era realmente um encontro de família (VIANA, 2015).

Destacou as características dos antigos carnavais nos quais os desfiles eram


realizados na principal avenida, a 14 de março, assim como as batalhas de confetes.
Além disso, descreveu o carnaval como um evento de família que atraía tanto o
público ladarense como o corumbaense, uma vez que as escolas de samba de
Corumbá seguiam para Ladário a fim de desfilarem e divertir o público, momento
em que havia o estreitamento de laços entre ambas as cidades como forma de
contribuição e aproximação cultural.
Os blocos carnavalescos eram constituídos por blocos infantis, o de adultos,
incluindo os culturais e os de sujos, mas também os cordões carnavalescos.
Diante disso, a partir das contribuições de cada um dos entrevistados, foi possível
somar um total de 30 blocos que compuseram a alegria da sociedade ladarense no
período que compreende a formação da primeira escola de samba, Viva a Marinha,
até o final da década de 1980:
1. Meninas Direitinhas, 2. Pancada de Cego, 3. Amadores do Pancada, 4. As colegiais, 5.
Amantes da Lira, 6. Os lenhadores, 7. H. Romeu, 8. Marcílio Dias, 9. Não me interessa, 10.
Não posso me amofinar, 11. As piranhas, 12. A jacú no pau, 13. As matutinhas, 14. Aí vem
a marinha!, 15. Sapolândia, 16. Catumbí, 17. Vassourinhas, 18. Hawaí 5 Zero, 19. Cordão
das borboletas, 20. Cordão Estrela Azul, 21. Cordão Chuva de Prata, 22. Os desligados, 23.
Aí vem os foliões de Ladário, 24. Bloco dos palhaços, 25. Maior abandonado, 26. Os
brotinhos, 27. Pau rolou, 28. Bloco do saco, 29. Bloco do Ganguili, 30. Democratas do
samba (SANTOS, 2018).

Observa-se nas falas dos entrevistados que a origem do carnaval na região


pantaneira teria acontecido em decorrência dos marinheiros no Ladário:
Eu mesmo também na minha época, quando eu tava com meus vinte anos, participei da
bateria do bloco Ganguili, dos Desligados, do Verde e Rosa, do Cruzado. O carnaval de
Corumbá hoje em dia é famoso, mas o primeiro carnaval foi em Ladário, trazido pelos
famosos marinheiros fuzileiros navais. Corumbá não existia carnaval. Em Corumbá existia
comércio devido àquela praia grande (J. A., 2015).

Parece que há linearidade na fala dos entrevistados quanto à origem do carnaval


pantaneiro sob a influência dos cariocas, tendo em vista a rotatividade de militares
da Marinha, em especial daqueles vindos do Rio de Janeiro para prestação do
serviço militar.
Nessa perspectiva, vale destacar que um dos cordões que fizeram sucesso na
sociedade ladarense foi o “Pancada de cego” fundado pelo senhor João Lemos de
Barcellos, artista plástico muito importante e reconhecido localmente, que exerceu a
profissão de artífice e marcenaria de primeira linha no Arsenal de Marinha.
O colaborador Macedo, ao se referir ao artista, ressaltou:
Ele morou aqui embaixo, eu o conhecia, ele fazia as máscaras. Era ele quem fornecia as
máscaras para o bloco que ele tinha antigamente que chamava assim “Pancada do cego”.
Existiam muitos blocos em Ladário e então ele fazia o molde com cara de coruja, de
papagaio, de gente, ele fazia aquele negócio e fazia aquelas máscaras. Ele era um especialista!
(MACEDO, 2015).

Suas lembranças revelam saudosismo e uma atitude favorável aos antigos


carnavais de rua ao destacar a importância do bloco Pancada de cego. Para além
disso, é de se notar que as máscaras naquele momento eram o principal adereço do
carnaval, de modo que, além de garantir a diversão, o legitimava.
De acordo com o relato acima e de outros entrevistados, foi o senhor João Lemos
que abrilhantou o carnaval ladarense montando carros alegóricos e fabricando
máscaras para o cordão carnavalesco “Pancada de cego”.
A utilização das máscaras era a principal característica do cordão, no qual homens
saiam fantasiados com cabeça de bicho, retratando a fauna pantaneira, perfazendo
um total aproximado de cem homens. O cordão, integrado por operários civis do
arsenal de Marinha, era representado pela utilização de máscaras de variados
formatos e cores que representavam figuras humanas com as mais horríveis
deformações físicas e autênticas cópias de animais, conforme os relatos.
Havia a dedicação das pessoas naquele momento no que concerne ao carnaval
com o objetivo de garantir que a festividade acontecesse: dedicação e zelo que ia
desde a fabricação de máscaras e adereços até a confecção das fantasias.
Segundo os relatos dos entrevistados, o carnaval era animado e diversificado,
envolvendo um trabalho conjunto de modo que era possível observar a confecção da
fantasia com o tecido mais requintado – a seda e, ao mesmo tempo, aproveitando os
poucos recursos para produzir fantasias com tecido de chita.
• 3.1.2 O CARNAVAL NOS DIAS ATUAIS
O carnaval de Ladário, estreitado na influência dos cariocas que se estabeleceram
na região, possuiu como mascote o sapo ladarense, consagrado pela administração
pública local. Assim, sua vestimenta é um traje militar, associado aos marinheiros,
carregando nas mãos um pandeiro. Nesse sentido, o sapo como símbolo do carnaval
ganhou espaço, tendo em vista que, em determinados espaços do município,
existem lagoas que são formadas em razão de chuvas, o que faz surgir um número
significativo dessas espécies de anfíbios a entoar os seus cantos.
Pelo que os dados indicam, é possível inferir que o carnaval ladarense é um
evento considerado relevante para o público familiar e, apesar das mudanças ao
longo do tempo, é um carnaval com a característica que tinha outrora: a de ser
promovido para a família.
Por conseguinte, a fama que se atribui ao carnaval de Ladário é a de um carnaval
tranquilo e saudável, assim como as demais festividades como, por exemplo, o São
João realizado no mês de junho. Logo, a visita do turista a Ladário acaba sendo
motivada pelos atrativos naturais e culturais, como o carnaval, o São João e a festa
de Nossa Senhora dos Remédios realizada no mês de outubro.
• 3.2 O SÃO JOÃO
É possível notar que as festividades começaram em Ladário como forma de
divertimento e distração para a população que dispunha de poucos elementos que
fizessem parte do lazer, uma vez que a cidade era pequena e sua área urbana
reduzida.
A respeito da criação desses espaços de entretenimento, é perceptível, por meio do
relato do colaborador Conceição, que
Em Ladário tinha muitas festas, como festas juninas, a principal que nós começamos com
relação à festa junina foi em Ladário, assim como foi o carnaval. Em Corumbá não tinha São
João e nem carnaval. Isso partiu de Ladário, onde a gente fazia aqui as quadrilhas. Era a
quadrilha da Esperança, a quadrilha da Sucata, a quadrilha do Bené, a quadrilha da Coab de
Ladário (CONCEIÇÃO, 2015).

De acordo com os relatos dos moradores de Ladário, o São João tivera origem nas
casas das famílias ladarenses e nas fazendas da região pantaneira que faziam
promessas em prol de uma causa e, assim, as pequenas festas em homenagem ao
referido santo – devido às graças alcançadas – se expandiram e se consolidaram por
toda a região pantaneira.
Conforme afirma o colaborador Conceição, cantador e organizador da dança em
quadrilha,
Acho que foi na década de 1990 que foi implantando o banho de São João em Corumbá.
Mas o banho de São João mesmo era só aqui em Ladário, onde a gente soltava os balões,
fazia as fogueiras e a gente ia dá banho no santo aqui no porto de Ladário. Então surgiu aqui
também o banho de São João, foi em Ladário também. Inclusive tinha aquelas pessoas que
tocavam violão, que tocavam bombo, essas coisas. A festa era puxada da sanfona, violão e o
bombo (CONCEIÇÃO, 2014, apud SANTOS, 2018).

Em seu relato, que apresenta outra versão da produção e organização da


festividade que era realizada nas fazendas, Dorotéia Santos apontou como começou
a organizar a festividade:
Já faz mais de 30 anos que eu faço a reza de São João. Eu já tô com 80 anos. Nós não
fazíamos a festa, mas, daí o pai do meu filho caiu na fogueira de São João e queimou tudo.
Ele estava para morrer, daí o pai dele pediu em promessa, se ele sarasse, ele ia fazer a reza de
São João todo ano até completar sete anos. No ano que ele morreu entregou o santo pro
meu filho que continuou fazendo, continuou fazendo até agora. Mas meu filho morreu com
50 anos. Agora eu continuo até o final da minha vida, quando eu não tiver mais coisa de
fazer eu vou parar. Enquanto eu puder fazer, eu faço (SANTOS, 2014).

É possível observar a descrição da forma como a festa era realizada na qual havia
alguns símbolos importantes que no cenário atual foram extintos, como o mastro e
o pau de sebo, por exemplo. Apesar disso, outros elementos continuaram fazendo
parte da festa, como a fogueira e o tradicional jantar:
A festa tem tudo, só o mastro que não tem, porque aqui não dá pra gente pôr mastro. O
santo vai n’água, de lá vem. A sanfona vai tocando, vai e volta. Vamos no porto de Ladário,
damos banho no santo, aí chega aqui e faz a reza. Agora só tem mesmo a fogueira e o jantar.
O pau de sebo não tem mais. De primeiro, quando nós morávamos lá pro mato tinha tudo
isso, né, a fogueira, o mastro suspendia São João lá em cima. Mas agora aqui não dá porque é
muito apertado. Não dá certo. Além dos familiares, aqui fica cheio, vem os vizinhos, os
conhecidos. Vão festá por aí, mas depois da reza, ou seja, depois da meia noite vem tudo pra
cá. Lá no mato era três dias de festa, aqui que é só um dia mesmo. É os filhos que casaram,
tem suas famílias, mas ajuda, todo mundo participa. (SANTOS, 2014 apud SANTOS,
2018, p. 5).

Observa-se no relato de Santos (2014) como foram criados os arraiais,


especificamente, as danças de quadrilha no município de Ladário, que surgiram com
o objetivo de proporcionar distração/lazer para a população ladarense:
Eu fundei há 49 anos o Arraial da Nhá Esperança. Faço com reza, danças típicas da época,
convido quadrilha para dançar e coloco barracas de comidas típicas. Tudo isso tem. E tenho
ajuda da comunidade do bairro e conforme foi se destacando através dos anos, foi
modernizando, foi aumentando. Até hoje consigo tocar esse arraial que se chama Nhá
Esperança. Não fiz por promessa, foi uma necessidade de ter uma distração dentro do bairro,
porque não existia nada dentro desse bairro, nem luz a gente tinha. No começo a gente
tocava esse arraial com música através de pilhas que a gente colocava no rádio. Aquele
gravador que a gente tinha e púnhamos luz de vela e luz de lampião de carboreto que tinha
na época. Cortávamos um pouco de mato que tinha aqui que era tudo antigo. Não tinha
caminho, não tinha rua. Nós praticamente desbravamos isso aqui (O. SANTOS, 2014 apud
SANTOS, 2018, p. 6).

Concomitante ao arraial criado por Santos, existiram outros idealizadores dos


arraiais, como é o caso da colaboradora Nascimento, que fundou o Arraiá da Boa
Vizinhança em frente à sua residência, espaço onde conseguia reunir e ensaiar as
quadrilhas e realizar a tradicional festança com comidas típicas, muita música e
danças.
Começaram a me chamar para ensinar as danças com as crianças da escola São Miguel e eu
sempre ia voluntariamente porque sempre fui festeira. Depois eu tive a ideia de criar o arraiá
aqui em frente da minha casa, o arraiá de rua, colocando as barraquinhas e convidando os
vizinhos. Tanto que eu dei o nome do Arraiá da Boa Vizinhança, isso foi registrado. E fomos
felizes em todos os anos que nós participamos e colocamos barraquinhas e danças regionais.
Eu convidava as quadrilhas para virem apresentar e organizava a parte para as crianças, por
exemplo, a rainha do Arraiá, o rei do Arraiá, a rainha da pipoca. Eu preparava faixas, coroas,
fazia elas desfilarem, colocava as faixas, pedia pros meus amigos colocar as faixas. Fazia
brincadeiras com as crianças como corrida de saco, corrida com ovo na colher, quem comia
mais pipoca, os dois pratos de pipoca pra quem comeria, aquele que comesse rápido ganhava
e assim quem abocanhasse a maçã primeiro. Eu ensaiava as quadrilhas e ensinava a marcar a
quadrilha, marquei muita quadrilha. Quer dizer, eu marcava do jeito que eu via
antigamente, do jeito que era (NASCIMENTO, 2014, apud SANTOS, 2018, p. 7).

No que tange à fundação de grupos de danças denominados quadrilhas, nota-se


que tinham por objetivo garantir a animação da festa através das danças e do traje
típico. Dessa forma, no relato de Conceição (2014), é possível perceber que o nome
dado à quadrilha criada por ele foi uma inspiração baseada em uma novela da época:
Eu comecei no ano de 1989 com o São João e o nome da minha quadrilha era Sassá
Mutema na época do Sassá Mutema. Dessa época para cá, surgiu a Rainha da Sucata que era
o nome da novela. Dessa novela, que era só Sucata, sobra que sobrava, então a gente resolveu
fundar a quadrilha Rainha da Sucata. E de lá para cá a gente veio trabalhando em cima disso.
Fomos várias vezes campeão em Ladário, várias vezes campeão em Corumbá e em várias
outras sessões que a gente participou

Diante do trecho, percebe-se que o tradicional arraiá era realizado no mês de


junho e acontecia em frente às casas, nas ruas de terra de calcário da tórrida Ladário.
Com isso, havia decoração, comidas típicas, músicas e apresentação de danças.
• 3.2.1 SIMBOLOGIA DO SÃO JOÃO
Partindo do pressuposto de que a festividade de São João numa determinada
residência acontecia geralmente por causa de alguma promessa feita, é importante
descrever quais são esses elementos simbólicos.
Aquelas famílias que realizam promessa e o milagre concedido deveriam realizar a
festividade por 7 (sete) anos seguidos, no entanto, alguns alegaram que, embora
tenham passado os sete anos, resolveram continuar a festança como forma de rezar e
reunir a família, amigos e os vizinhos.
Com relação à reza, é importante ressaltar que a organização varia de acordo com
cada família, isto é, com cada festeiro, podendo ser feita antes ou depois do
tradicional jantar, sempre antes de banhar o santo na água.
No que diz respeito ao altar, a montagem varia de acordo com o critério que cada
festeiro adota para decoração e, além disso, faz a escolha da imagem que pode ser a
representação do São João menino ou adulto.
A título de decoração, são confeccionadas bandeirinhas para enfeitar o local,
porém a fogueira e os balões a querosene que eram considerados elementos
essenciais da festança fazem parte do passado.
Em se tratando da fogueira, esse era um elemento considerado de suma relevância
no contexto das primeiras festividades, pois, além de servir para assar milho e batata
doce, tinha por finalidade manter as pessoas aquecidas naquelas noites frias de
inverno.
Para além disso, nas fazendas, a fogueira era símbolo de fé e, por isso, era
realizado um ritual que até hoje é conhecido: os participantes da festa tinham de
demonstrar fé, o que significava pular a fogueira em chamas. Quem pulasse a
fogueira, pisasse no braseiro e saísse sem queimaduras tinha fé.
Da mesma forma que a fogueira, o balão também foi alvo de críticas e acabou
sendo banido, visto que atentava contra a segurança e por haver casos de incêndios
na rede elétrica de iluminação assim que foi instalada:
Minha tia fazia o balão e meu pai fazia aonde colocava a tocha e a gente soltava o balão.
Soltávamos na rua do Couto. Aquela época podia soltar balão, depois foi proibido. Meu pai
era baloeiro, o balão era colorido de papel de seda, várias cores, e eram enormes os balões,
um metro de balão. Quem fazia era a irmã dele e o que ele fazia era a armação debaixo para
colocar a tocha e soltar. Fazia toda a armação, colocava estopa com querosene, acendia e ele
ia dando aquele ar dentro e de repente o balão subia. O balão era solto à noite porque não
enxerga de dia (FIGUEIREDO, 2014).

Diante do panorama atual, vale estabelecer uma breve comparação entre os


símbolos do São João mais antigos com os mais recentes para que se entendam as
permanências e as mudanças à medida que alguns elementos são incorporados e
outros eliminados, ainda que a essência seja mantida.
Com relação ao São João antigo, consistia numa festividade que abrangia as
tradicionais rodas de cururu, conforme afirma o colaborador Brandão:
Quando o cururueiro chega, o dono da casa pede para começar a reza. No começo ele canta
e chama o rei, o capitão do mastro, a rainha, a juíza, o alferes da bandeira e vai chamando e
cantando. Eles veem e ficam presentes dizendo que tá na hora de rezar o terço para sair com
a imagem dali. Depois que termina o terço, os cururueiros voltam em torno do santo
novamente e o capitão do mastro vem pegar o santo e pede para tirar todas as imagens dali:
primeiro o São João principal. Dali ele pede para tirar até na porta da casa e pede para sair
para fora com o santo na direção onde vai ser enterrado o mastro. Aí chama o capitão do
mastro para trazer o mastro, aí chama os alferes da bandeira para colocar as bandeiras no
mastro, aí rainha e a juíza para colocar a coroa na ponta do mastro, aí vai cantar mais um
pouco. Quando chegar na pessoa que tinha que subir o mastro, canta louvando o santo
festeiro. Primeiro ele sai e vai tomar o banho, passa pela fogueira, tem muitos que pisam na
brasa e vai dar o banho e volta para o mastro. O correto é passar pela fogueira e ir lá dá o
banho. A fogueira, o braseiro, muitos fazem compadestos (compadre de passar em cima da
fogueira), tira o sapato do pé, a calça fica até no joelho, a brasa quebra no pé, mas não
queima. Tem que ter muita fé. Nós saíamos acompanhando a bandeira, nós passávamos com
o santo em cima da fogueira. Nunca meu pé queimou. Já vi pessoas que não conseguiu nem
encostar o pé. Já vi muita gente passar. Eu já passei e meu pé está aqui até hoje
(BRANDÃO, 2014).

Os cururueiros, conforme descrito, eram aqueles homens que cantavam, tocavam


e dançavam na roda de cururu, cuja principal função era a de garantir a animação.
Nesse sentido, uma das práticas descritas é a performance de passar por cima da
fogueira e o levantamento do mastro acompanhado da roda de cururu, que era
elemento importante da festividade.
É perceptível que a figura dos cururueiros era essencial, de maneira que, com a
sanfona e viola de cocho, garantiam a alegria da festa. Dançavam e arrodeavam a
fogueira em ritmo de roda e depois de efetuarem três voltas ao redor da casa eram os
responsáveis por acompanhar e animar a descida do santo para ser banhado nas
águas do rio Paraguai.
No que diz respeito aos símbolos do São João tradicional é possível citar: o andor
confeccionado com a imagem do São João adulto ou menino; o mastro decorado; o
balão que era solto somente durante o período noturno – como existiam poucos
postes de iluminação, o risco de incêndio era praticamente nulo –; a fogueira, que
era feita de madeira e servia para assar a batata doce e o milho; e o pau de sebo,
considerado um instrumento de diversão para toda a garotada.
Nesse cenário, a pessoa responsável pela festa recebe a denominação de festeiro,
como hoje ainda o é. Os festeiros de São João, contudo, são pessoas que trabalham
conjuntamente, realizam um trabalho coletivo que demanda dois meses,
aproximadamente. Caracteriza-se como trabalho feito em família/comunidade, que
se reúne e faz com que os laços fiquem mais fortes.
Partindo dessa premissa, a dinâmica de organização da festa de antigamente e de
hoje é respaldada no trabalho coletivo. Mas convém assinalar que, segundo os
relatos de alguns, antigamente a organização da festividade funcionava como uma
espécie de irmandade, como se todos os colaboradores fossem membros de um
palácio e cada um fazia a sua contribuição de acordo com o título de nobreza que
possuía.
É possível afirmar, com base nos relatos, que essa contribuição era ativa e, apesar
dos títulos de nobreza criados para a realização da festa, havia uma relação de
fraternidade entre os membros estabelecida a partir da ideia de doação.
Nesse sentido, Brandão (2014) afirma que os membros do referido palácio no
São João de antigamente eram os seguintes.
A rainha do altar era a responsável por organizar a mesa e fazia doação de café (em forma de
grão) ou mesmo um açúcar. O rei da festa geralmente doava o boi. O juiz contribuía com o
doce, fazia licor e confeccionava novas violas para o São João do ano. A juíza sempre entrava
com as coisas miúdas, como, por exemplo, a galinha. O capitão do mastro ou alferes de
bandeira, por sua vez, erguia o mastro da bandeira do castelo, é um festeiro dos pesados que
contribui com porco, cabrito, peru e outros.

Nota-se que havia um enredo de colaboração para que a festa pudesse ser
realizada. Significa dizer que era realizada através de doações, o que pode ser
confirmado no relato do colaborador Brandão: “Lá a gente fazia assim, tinha
galinha, porco, fazia farinha e vendia para comprar as coisas que eram poucas. O
dono da casa não tinha preocupação”.
Em se tratando do andor de São João, quando o assunto é a confecção, torna-se
essencial entender a diversidade de técnicas e procedimentos que variava de acordo
com o critério criado por cada festeiro.
Dessa forma, a colaboradora O. Santos (2014) explica como a confecção do
andor é feita a partir da utilização de técnicas artesanais, como é possível verificar na
afirmação abaixo:
Eu faço o andor todo forrado com as cores que eu acho que tem que ser e coloco muitas
flores. Atualmente ele está com flores, mas vai ser modificado, todo ano eu modifico ele. Eu
coloco umas fitas porque tem uns adoradores de São João que vem de fora, são de roça
mesmo, e eles costumam amarrar dinheiro na fita. Outros acostumam trazer um pacote de
vela, outros acostumam trazer uma garrafa de água que no momento da reza eles acham que
São João com Deus vem ali abençoar aquela água, outros trazem pãozinho pra ser abençoado
para dar no café da manhã para as crianças. A tradição é grande, sabe, a tradição de São João
é grande. O andor de São João, eu que vou confeccionar, esse daí eu não posso deixar na
mão de ninguém porque desde o começo eu tenho que tocar até o fim. Eu só espero que
quando eu me for alguém dê continuidade nisso (O. SANTOS, 2014).
Tratam-se de técnicas específicas de uma tradição amparada em valores e
simbologias passadas de geração para geração. Por isso, existe a preocupação de
quem está à frente de levar até o final de sua vida a confecção do andor de São João.
Cumpre destacar que alguns festeiros atuais fazem por promessa ou para dar
continuidade e levar diversão e alegria para a família e a comunidade local. Diante
disso, percebe-se a continuidade da prática, uma vez que a festividade consiste em
reunir a família com a finalidade de preservar a memória.
• 3.2.2 PROMESSA FEITA É PROMESSA CUMPRIDA!
Com relação ao andor, a colaboradora Figueiredo apresenta o seguinte discurso,
que é comum entre os festeiros: embora a promessa fosse cumprida, de fazer a reza
de São João por 7 (sete) anos, muitos deram continuidade após o cumprimento da
promessa.
É notável, ainda, nos relatos um certo receio no que tange ao possível
descumprimento da promessa tendo em vista que a autocobrança era algo constante,
o que remete a um respeito e a importância atribuída à questão religiosa: “promessa
feita, é promessa cumprida”.
Ademais, isso é perceptível em seu relato quando descreve a forma como a
transição de geração para geração acontecia:
Minha mãe nunca quis descer com o santo n’água, porque quem fazia era meu pai com ela.
Ela nunca quis. Sabe por que ela nunca quis? Ela tinha medo. Porque falava assim: “Aí tem
que fazer sete anos, descer sete anos, se você não descer sete anos, acontece isso e aquilo”.
Então ela tinha medo. Então nunca deixou levar. Nunca.
Minha vó fazia São Pedro, então o meu pai e minha tia eram os baloeiros, que na época
tinha balão que soltava balão, tinha fogueira, ela chamava Petrona. Então era aniversário dela
dia 29 de junho e a família toda se reunia no São Pedro. Eles faleceram e meu pai passou a
fazer o São João. Então há 57 anos mais ou menos que meus pais faziam, eles faleceram e eu
dei continuidade a isso aí. Tem quatro anos que a gente começou fazer andor, mas a festa de
São João era só na família, não levava São João n’água. Fazia a fogueira, enfeita aqui com
bandeirinha e faz a reza de São João. Na verdade, foi há quatro anos, com padre Amauri que
a gente começou por uma brincadeira, a fazer o andor. Esse andor foi até engraçado que
vieram aqui: “Ah, faz o andor, cês têm São João, faz o andor para levar na igreja”. Até então
era só para levar na igreja. Na igreja: “Ah, não, vocês têm que levar São João n’água”. Daí
começou, entendeu? Aí não tinha nada para fazer o andor, pegamos uma tábua de bolo de
mamãe, cabo de vassoura e fizemos o andor. Enfeitamos esse andor rápido para concorrer na
igreja. Então já tem mais ou menos quatro anos que levamos o São João n’água, só que a reza
a gente não faz mais no dia 23 por causa da festa na praça, fazemos no dia 25
(FIGUEIREDO, 2014).
• 3.2.3 O SÃO JOÃO ANTIGO E ATUAL
Com o passar do tempo o São João foi sendo adaptado e acabou tomando novas
características e, desse modo, um dos elementos desse processo foi o pau de sebo,
símbolo praticamente inexistente nas festividades. Há que se considerar que o pau
de sebo foi um dos símbolos que atraía a garotada, como é perceptível no relato da
colaboradora Santos:
O pau de sebo era uma das coisas que trazia muita alegria para as criançadas. Depois que o
asfalto chegou nós já não podíamos fazer o pau de sebo, por esse motivo que eu parei de
fazer o pau de sebo. Era para pegar assim um prêmio, assim a gente angariava, podia ser
qualquer uma, uma camisa, uma chuteira. As crianças gostavam muito, bola, chuteira,
camisa do time, então isso aí eles disputavam tanto. Era alegria, era festa das crianças e nossa,
porque a gente torcia para um ganhar. Era muita alegria mesmo (SANTOS, 2014 apud
SANTOS, 2018).

Nesse sentido, os festeiros apontam as mudanças e ao mesmo tempo criticam o


São João “moderno”. No relato do colaborador Brandão (2014), percebe-se a crítica
que tece ao afirmar que o mastro deixou de ser produzido com a mesma qualidade:
São João nem tradicional e nem moderno, mais para moderno. O mastro está diferente.
Papai e Agripino iam na mata para cortar o mastro. Lembro que nos últimos anos meu pai
foi cortar o eucalipto. Agora no São João que participei era uma taquara que nem chega a 5
metros e o tradicional tem que ter 5 metros (BRANDÃO, 2014).

A respeito das festividades atualmente, nota-se a organização para que haja


harmonia em relação aos horários das festas:
Não existe duas festas, pois quando tem festa do Nhô Ladário ninguém faz festa em Ladário,
ninguém. Só reza porque sabe que tem a festa do Nhô Ladário. Agora tem outras festas não,
pode dividir, por exemplo, se eu vou fazer aí o Carazinho vai fazer, então eu tenho que fazer
assim: adiar a minha festa pra que eu possa participar da festa deles ou então adiar a festa
deles para que possa ajudar a colaborar com a minha festa. Isso daí é a colaboração. E, não é
só eu sozinha não, são vários (SANTOS, 2014).

Diante o relato, percebe-se uma preocupação em realizar a festa de São João em


dia diferente da festa do São João Pantaneiro, a fim de que todos participem,
evitando divisão de público, o que implica positivamente no aumento do lucro
obtido através das vendas de comidas típicas e bebidas.
O São João é atualmente organizado pela prefeitura que, em 3 dias de festa,
agrada o público ladarense e turistas. Do dia 23 para o 24, acontece o tradicional
banho do santo às margens do Rio Paraguai e a festança continua até amanhecer.
Para o festeiro tradicional de São João, que organiza a festa anualmente em sua
própria casa, existe um ritual de organização que vai desde a confecção do andor, até
a tão almejada descida ao porto. É possível apreciar as comidas típicas, assistir às
apresentações de dança de quadrilha e descer em procissão para o porto.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

As reflexões a respeito das continuidades e permanências históricas abordadas


neste livro surgiram a partir da busca da compreensão da relação entre festa e
identidade ladarense baseada na memória e cultura local.
É de suma relevância interpretar a carga de historicidade que o patrimônio
material e imaterial de Ladário possui para que haja o aprofundamento dos estudos
com relação a eles. Identificar os atores envolvidos histórica e culturalmente é
observar como se dá a relação da população com o patrimônio – imprescindível
relacionar os indivíduos – e, sobretudo, a apreensão dos sentidos atribuídos à
determinada identidade, pois é a partir da compreensão da identidade histórica e da
memória local que se desperta a ideia de pertencimento.
No caso do carnaval que (des)apareceu da história científica, mas está na memória
da população, é pouco possível afirmar, diante das raras fontes históricas, que houve
o desaparecimento da referência daquilo que um dia foi modelo ideal e real. Para
que se torne historicamente pensável, é pertinente considerar a criação de modelos
de análise e reflexão proporcionando a abordagem do passado com o presente e vice-
versa.
Compreender a origem do carnaval, São João, Festa de Nossa Senhora dos
Remédios e realizar a leitura do patrimônio material, dos lugares de memória cuja
simbologia remete para uma história mais profunda, direciona a (re)afirmação da
identidade ladarense como elemento de negociação ao longo do tempo e no espaço.
O cosmopolitismo é expresso durante as festividades do carnaval, São João e
outros caracterizados como eventos culturais, apoiados pelo poder público,
sustentados por contribuições de clubes recreativos, comércio local e sob a
perspectiva do planejamento.
Portanto, o que ocorre hoje com os eventos turísticos, a exemplo do São João e
do carnaval de Ladário, é resultado de uma condição capitalista e de uma sociedade
com valores arraigados na tecnologia, que a cada dia ganha mais espaço.
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SOUZA, Lécio Gomes de. História de Corumbá, [S.n.], [S.d.].
VIANA, Assis da Cruz. Entrevista concedida a Daiane Lima dos Santos, em 23 de
julho de 2014, Ladário-MS, 2014.
Table of Contents
1. Introdução
2. O contexto histórico de Ladário
1. • Uma cidade turística
3. A memória e os lugares de memória
1. • 2.1 Igreja de Nossa Senhora dos Remédios
2. • 2.2 O Colégio Franciscano São Miguel
3. • 2.3 A Marinha do Brasil - 6o Distrito Naval
4. • 2.4 O Centro Espírita Vicente de Paula
5. • 2.5 A Loja Maçônica Pharol do Norte
6. • 2.7 O Casarão ou Sobradinho
7. • 2.8 A Lealdade: Casa comercial e bancária
8. • 2.9 O Ladário Atlético Clube
9. • 2.10 A Locomotiva 01: A Maria Fumaça
4. As festas populares e religiosas
1. • 3.1 O carnaval e a influência carioca
1. • 3.1.1 As primeiras escolas de samba
2. • 3.1.2 O Carnaval nos dias atuais
2. • 3.2 O São João
1. • 3.2.1 Simbologia do São João
2. • 3.2.2 Promessa feita é promessa cumprida!
3. • 3.2.3 O São João antigo e atual
5. Considerações Finais
6. Referências

Landmarks
1. Table of Contents

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