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O pai de botas e a santa mãe: a construção da identidade de

adolescentes em conflito com a lei.

“O fato sombrio é que somos a espécie mais cruel e implacável que


jamais pisou sobre a Terra e que, embora possamos ficar
horrorizados quando lemos, no jornal ou nos livros, histórias sobre
atrocidades cometidas pelo homem contra o homem, sabemos,
intimamente, que cada um de nós abriga dentro de si os mesmos
impulsos selvagens que levam ao assassínio, à tortura e à guerra."
(Anthony Storr)

Conforme trazem os autores Penso, Ramos & Gusmão (2009), no


capítulo O pai de botas e a santa mãe: a construção da identidade de
adolescentes em conflito com a Lei, contido no livro Violência doméstica:
vulnerabilidades e desafios na intervenção criminal e multidisciplinar. ( LIMA, F.
R., SANTOS, C), a adolescência faz parte de um ciclo vital e marcada por
várias mudanças (dentre elas: biológicas, emocionais, sócias, cognitivas, etc.)
nos jovens, fator que resulta em transformações não só nestes indivíduos, mas
também em suas famílias.
Tal acontecimento é caracterizado por uma “revolução biopsicossocial”
(p. 214), visto que são apresentas mudanças significativas de alguns aspectos
como por exemplo, o biológico, em que observamos mudanças de
comportamentos, expressividade e particularidades psicológicas que estão
sujeitos à cultura e à sociedade em que estão inseridos e se desenvolvem.
Dessa maneira, podemos citar que a adolescência é caracterizada por
uma “crise de identidade” (grifo dos autores), uma vez que idade tem sua
própria identidade. Contudo, esses “picos” neste período de transição, são
aferidos de várias maneiras e consideradas várias possibilidades, estes,
decorridos de situações ocorridas anteriormente, que, por conseguinte podem
interferir nos fatos posteriores. Presume-se diante dessas circunstancias que
os fatos ocorridos na infância desse jovem irão interferir de maneira direta ou
indireta na vida do indivíduo, ou seja, suas ações dependerão da maneira
como esse foi integrado o seu sistema de “construção de identidade” no
período da infância. Esses adolescentes, por sua vez, podem apresentar um
comportamento saudável, entretanto, essas condições citadas podem por
muitas vezes, contribuir para o surgimento de desempenhos negativos e atos
infracionais nesse período.
Quando relatamos fatores ligados à adolescência, automaticamente
nos remetemos ao conjunto familiar, conforme citado, e, consequentemente,
remetemo-nos à figura paterna e materna. Segundo o texto, ao que se refere à
paternidade, temos a representação de uma construção social, pautada no fato
daquele homem só “se sentir” pai de fato, no momento em que a criança é
concebida, construindo laços com os filhos de maneira subjetiva. Em
contraponto, a maternidade está envolvida ao caráter biológico, de maneira que
a mulher já tem aquele compromisso a partir da gravidez.
Nesse âmbito, ainda podemos explorar a questão de gêneros, feminino
e masculino, delineando assim, os papéis desempenhados e sócias de cada
indivíduo. Podemos abordar a vulnerabilidade histórica do papel da mulher
neste trecho:
A máxima “[...] não se nasce mulher, torna-se mulher” (BEAUVOIR,
1990, p. 9), de Simone de Beauvoir, difundida em 1949, representa,
em poucas palavras, todo o conteúdo da palavra gênero ao enfatizar
a construção cultural impressa no sexo (homem/masculino,
mulher/feminino). Heleieth Saffioti explica a extensão de seu
significado, afirmando que “[...] é preciso aprender a ser mulher, uma
vez que o feminino não é dado pela biologia, ou, mais simplesmente
pela anatomia, e sim construído pela sociedade. ” (OLIVEIRA, 2012)

Atualmente, ainda há predominância tradicional de que o pai é o


provedor e a mãe é a cuidadora dos filhos e da casa, apesar da grande
mudança conquistada com o passar dos anos dessa representatividade, mas
ainda não em sistema de igualdade com o gênero masculino.
Conforme os autores Penso, Ramos & Gusmão (2009), “a imagem da
mãe é uma mistura de santa e vítima” (p. 217), visto que é ela quem protege o
adolescente e quem sofre, luta, deixa se agredir, envolve-se em conflitos só
para defender o filho dos acontecimentos efetivos em seu próprio lar.
Uma das justificativas para esse comportamento de “pai de botas”
trazida pelos autores são essas confusões “transgeracionais”, isto é,
ocasionalmente pais contiveram uma história de sofrimento, e também tiveram
um pai ausente na infância e adolescência, e que os leva a externalizar isso
nas relações em que deveriam tomar a figura de pai. Nesse entremeio, o
adolescente se vê frustrado, com um pai rígido, duro, agressivo; e se depara
com uam mãe santa, que o defende, intocável, que muitas vezes, sofre abusos
do marido, trabalha para o sustento do lar e se deprime pela situação dos
filhos. Este é o resultado da acentuação dessa crise de identidade supracitada,
as relações se tornam confusas e sem direcionamento. Uma vez que esses
papeis parentais não são assumidos corretamente, permite-se a condição dos
filhos de “se auto-educar” (p. 217).
A mãe nesse contexto é “percebida com alguém a quem precisam
proteger, cuidar, ouvir e ajudar” (p. 219), no sentido de que só diante dela é
que o filho pode expressar suas emoções mais internas, sem correr o risco de
ser mal interpretado pelo pai.
Diante da constituição dessa relação parental, deparamo-nos com uma
instituição frágil, de conflitos, e por que não, inexistente. Uma vez que nem
entre os próprios pais esses papeis estão claramente estabelecidos e afinados:
“Se este casal não se constituiu antes ou logo após o nascimento dos filhos
temos aqui um elemento a mais para dificultar a relação que estes pais e mães
estabelecem com seus filhos” (p. 221).
Observando tais relações pelo prisma de gênero como resultado das
relações sociais foi possível assinalar uma justificativa para a existência do
conflito entre homens e mulheres. Pelas raízes da desigualdade entre os
sexos, tornou-se possível observar o tamanho e a gravidade deste problema
claramente cultural. Permite-se afirmar que certos papeis já estão
internalizados nos sujeitos, estes quando reportados, inconscientemente ou
não, os indivíduos continuam agindo para a conservação do padrão patriarcal e
dessas hipotéticas regras de conduta.
Conforme o texto, os adolescentes apelidam o pai como um “pai de
botas”, que representa um “pai” que se encontra em qualquer esquina para
bater e espancar. Perante um fato social confuso e ambíguo, e “Talvez porque
não reconheçam a instituição como um lugar de educação, apoio e segurança,
e não se vejam como merecedores de um tratamento que os promovem, mas
ao contrário, os discrimina como inadaptados ou perigosos. ” (p. 223), temos o
resultado de adolescentes se sentindo desprotegidos até mesmo dentro das
instituições e das medidas socioeducativas,
Assim, objetiva-se debater a função da justiça e das instituições que
aplicam medidas socioeducativas, que poderiam promover o resgate dessas
relações familiares, fundando-se em relações que respeitem a subjetividade e
individualização dos adolescentes.
A adolescência deve ser idealizada não como um período natural do
ciclo, mas como uma representação, enquanto fato social e psicológico, anexa
à composição sócio histórica do psiquismo humano. Neste viés, é preciso
avaliar que essa condição é resultado de vários fatores, históricos e sociais,
tais que devem ser explicitados para que se estabeleçam conexões
representativas sobre esse fato. P comportamento e a função social de cada
membro da sociedade deve ser avaliado para que se analise esse
desenvolvimento responsável, de forma que se precise se tais comportamentos
sociais estão servindo para que se torne possível essa legitimação de realidade
e relações idealizadas para os casos isolados e posteriormente, o coletivo.
Referências

PENSO, M. A.; RAMOS, M. E. C. R. & GUSMÃO, M. M. O pai de botas e a


santa mãe: a construção da identidade de adolescentes em conflito com a Lei.
in.: LIMA, F. R., SANTOS, C. Violência doméstica: vulnerabilidades e desafios
na intervenção criminal e multidisciplinar. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009

OLIVEIRA, Elisa Rezende. VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A


MULHER: UM CENÁRIO DE SUBJUGAÇÃO DO GÊNERO FEMININO.
Revista do Laboratório de Estudos da Violência da UNESP/Marília Ano 2012 –
Edição 9 – Maio/2012 ISSN 1983-2192

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