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Frank B. Holbrook, Editor

Estudos sobre
Apocalipse
temas introdutórios
1

6
Série

Santuário e profecias
apocalípticas
Frank B. Holbrook, Editor

Centro Universitário Adventista de São Paulo


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Estudos sobre
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Apocalipse
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temas introdutórios
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6
Série
Imprensa Universitária Adventista
Editor: Renato Groger
Santuário e profecias
Editor Associado: Rodrigo Follis apocalípticas
Conselho Editorial:
José Paulo Martini, Afonso Cardoso, Elizeu de Sousa, Francisca Costa, Adolfo Suárez, Emilson dos
Reis, Renato Groger, Ozeas C. Moura, Betania Lopes, Martin Kuhn
1ª edição — 2012
A Unaspress está sediada no Unasp, campus Engenheiro Coelho, SP.

Imprensa Universitária Adventista


Estudos sobre apocalipse: temas introdutórios

Imprensa Universitária Adventista 1ª edição – 2013


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Capa: Flávio Luís, Marcio Trindade tado segundo o Acordo Ortográfico da Língua
Revisão: Matheus Cardoso Portuguesa, assinado em 1990, em vigor desde
Normatização: Felipe Carmo, Giulia Pradela janeiro de 2009.

sumário
Dados Internacionais da Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
7 Princípios fundamentais de interpretação
43 As oito
61 Cenas da “Introdução Vitoriosa”
85 Interpretando o simbolismo do Apocalipse
117 Tipologia do santuário
157 Relações entre Daniel e Apocalipse
173 O uso de Daniel e Apocalipse por Ellen G. White
193 O intérprete e o uso dos escritos de Ellen G. White
207 Debates contemporâneos sobre o Apocalipse
217 Selos e trombetas: algumas discussões atuais
235 Os sete selos
Índices para catálogo sistemático:
285 Os santos selados e a grande tribulação
321 O anjo forte e sua mensagem
369 Profecias de tempo de Daniel 12 e Apocalipse 12-13
Princípios fundamentais
1
de interpretação
Kenneth A. Strand

Esboço do capítulo
1. Abordagens interpretativas ao Apocalipse
2. Exegese, teologia e hermenêutica
3. Regras gerais de interpretação
4. Regras especiais para a interpretação apocalíptica
5. Propósito e tema do Apocalipse
6. Estrutura literária do Apocalipse

Sinopse editorial. Os cristãos


conservadores creem que a men-
sagem da Bíblia transcende seu tem-
po e cultura. Consequentemente, en-
quanto os anos passam e a distância
dos séculos se amplia entre o mundo
antigo e o moderno, torna-se cada vez
mais importante que os estudantes
das Escrituras se comprometam com
sólidos princípios de interpretação
para que não interpretem erronea-
mente a Palavra de Deus. Isto é espe-
cialmente verdade quanto à descober-
ta das verdades expressas nos livros
apocalípticos de Daniel e Apocalipse.
Neste importante capítulo, o
autor explica em detalhes as carac-
terísticas da profecia apocalíptica,
Estudos selecionados em interpretação profética Princípios fundamentais de interpretação

destaca o propósito e o tema do livro de Apocalipse, explora a natureza do Historicismo. O método histórico pode seguir uma ou outra das duas
seu simbolismo e aponta o caminho para determinar o seu significado. abordagens básicas: (1) a abordagem “linear” vê o Apocalipse retratando uma
Todos os sistemas de interpretação do Apocalipse devem começar local- sequência de acontecimentos que se inicia na Era Apostólica e continua passo
izando seus diversos segmentos nas estruturas de tempo presente, passada e a passo até o grandioso ponto culminante escatológico;2 (2) a abordagem da
futura. Depois de anos de estudo, é a profunda convicção do presente autor que “recapitulação” interpreta as várias visões do Apocalipse como percorrendo o
uma clara compreensão do arranjo literário do Apocalipse provê o fundamento mesmo terreno desde os dias do profeta até o fim dos tempos. Este último tipo
necessário sobre o qual se pode erigir uma sólida interpretação de suas visões. de interpretação tem sido modelo para os adventistas do sétimo dia.3 Em um
O próprio livro profético proporciona a chave para explicar sua estrutura. ou outro caso as profecias são compreendidas como tendo seu cumprimento no
Os dados indicam que o Apocalipse é composto de oito visões internamente li- tempo histórico entre os dias de João e o estabelecimento do reino eterno.
gadas para formar quatro pares. A profecia se divide naturalmente em duas seções: Preterismo. Por outro lado, o preterismo tem se inclinado a interpretar ou todo
capítulos 1 a 14 e capítulos 15 a 22. Quatro visões precedem esta linha divisória natu- o livro de Apocalipse ou virtualmente todo ele como história antiga. A maioria dos
ral (fim do capítulo 14), e quatro visões concluem o livro. As quatro primeiras visões eruditos preteristas considera as profecias do Apocalipse como refletindo eventos e
(série histórica) encontram cumprimento na Era Cristã, preparando o caminho para condições relacionadas à Igreja Cristã e ao Império Romano no próprio tempo de
o Segundo Advento. As últimas quatro visões (escatológicas — série de julgamentos) João, possivelmente alcançando também um breve período além daquele tempo para
cobrem acontecimentos após o encerramento do tempo da graça. Sendo que uma abranger acontecimentos antecipados por João. Há, porém, algumas exposições pre-
compreensão correta da organização do Apocalipse é vital para a interpretação de suas teristas que admitiriam que as profecias do Apocalipse chegassem até Constantino, o
visões, os dois próximos capítulos também tratarão deste assunto com alguns detalhes. Grande, no início do quarto século, com a seção de 19:11 em diante possivelmente
O livro de Apocalipse tem sido mal compreendido e mal usado mais do que pertencendo a um período posterior que é ainda futuro em nossos dias.4
qualquer outro livro da Bíblia. Mesmo um olhar de relance para o grande número
8 de comentários sobre o Apocalipse revela um amplo cortejo de equívocos, inter- 9
2
  Vários intérpretes bem-conhecidos de uma geração anterior foram partidários deste ponto de
pretações errôneas e conclusões que não são apenas contraditórias, mas também vista, tais como Albert Barnes, Adam Clarke, E. B. Elliott e Alexander Keith. Barnes, por exemplo,
com frequência altamente especulativas. Em assinalado contraste com a profusão trata os sete selos como pertencendo a uma sequência de eventos da Era pós-Apostólica, as sete
de material expositivo sobre o Apocalipse, está a virtual ausência de abordagem trombetas como se iniciando com o saque de Roma pelos visigodos em 410 d.C., o livrinho ab-
à magnífica teologia do livro. Até o momento, não existe nenhuma abordagem erto de Apocalipse 10 como a Bíblia aberta no tempo da Reforma do século 16, e as sete últimas
pragas como refletiva da Revolução Francesa do final do século 18.
completa e abrangente à teologia do livro de Apocalipse, e mesmo discussões de 3
  O exemplo que ainda é talvez o mais bem conhecido é Thoughts on Daniel and Revelation
limitados assuntos ou temas teológicos específicos do Apocalipse são relativa- de Uriah Smith (múltiplas edições e impressões, inclusive a atualmente disponível “edição
mente raras e frequentemente superficiais e indignas de confiança.1 revisada” primeiramente publicada em 1944 pela Southern Publishing Association, em Nash-
ville, Tennessee). Outros escritores adventistas do sétimo dia, inclusive S. N. Haskell e R. A.
Abordagens interpretativas ao Apocalipse Anderson, têm usado a mesma abordagem. O mais recente e completo comentário exibindo-
a é a excelente publicação de C. Mervyn Maxwell (1985, v. 2) God Cares. Entre os escritores
Os comentários sobre o Apocalipse geralmente são classificados nestas não adventistas, não tenho encontrado nenhum que use a abordagem da maneira como a
usam os adventistas, mas repetições de sequências parciais ou incompletas são apresentadas,
grandes categorias: historicismo, preterismo e futurismo. por exemplo, por S. L. Morris (1928) e William Hendriksen (1940).
4
  A origem da opinião preterista é geralmente atribuída a Luis de Alcazar (falecido em 1613),
jesuíta espanhol, em sua monumental Investigation of the Hidden Sense of the Apocalypse [Inves-
1
  Artigos “tópicos” frequentemente representam exegese de uma passagem mais do que uma tigação do Sentido Oculto do Apocalipse] (publicada postumamente em 1614). Juntamente com
teologia do Apocalipse como um todo ou mesmo a teologia da própria passagem. Pode haver al- ele e alguns outros antigos expositores católicos, vários comentaristas protestantes de séculos pos-
gumas exceções em algumas áreas, tais como, por exemplo, cristologia, pneumatologia e eclesio- teriores (por ex., I. T. Beckwith, Moses Stuart e H. B. Swete) têm tido a tendência de admitir um
logia. Também a ser notado é o capítulo sobre “Doutrina” em H. B. Swete (1908, p. clix-clxxiii). cumprimento de partes do Apocalipse atingindo os primeiros séculos cristãos pós-apostólicos.
Este trata os assuntos de monoteísmo, a doutrina de Deus, cristologia, pneumatologia, eclesiolo- Os comentaristas preteristas de “tradição liberal”, quer sejam eles católicos ou protestantes, inter-
gia, soteriologia e angelologia, mas basicamente apenas faz um levantamento dos dados. pretam o livro como refletivo do próprio tempo de João.
Estudos selecionados em interpretação profética Princípios fundamentais de interpretação

Futurismo. O sistema futurista de interpretação vê o cumprimento da maioria Leon Morris) ou reinterpretar o historicismo em um estilo futurista (particu-
do Apocalipse restrito a um breve período de tempo ainda futuro em nossos dias. larmente notável em exposições de alguns adventistas do sétimo dia que atual-
Uma classe secundária de futurismo — em que muitos futuristas e mesmo mui- mente estão publicando suas opiniões particulares).
tos evangélicos se encontram — é o pré-tribulacionismo/dispensacionalismo.5 Esta Não é o meu propósito neste capítulo ilustrar ainda mais ou avaliar as várias
abordagem específica normalmente interpreta Apocalipse 4:1–19:10 como ocorren- abordagens. Isto eu tenho feito brevemente em outros estudos com referência
do em um período de sete anos ainda futuro para nós — período que se inicia com às três tradicionais, algo que também tem sido feito por vários outros escritores
um “arrebatamento” secreto e assinalado em seu final pelo glorioso e visível apareci- recentes (ver STRAND, 1979, p. 11–16; TENNEY, 1957, p. 135–146). No devido
mento de Cristo. Os pré-tribulacionistas/dispensacionalistas consideram esse período tempo, serão discutidos certos princípios básicos que irão auxiliar o leitor na
de sete anos como a setuagésima semana de anos da profecia de Daniel 9:24–27, em- separação de métodos interpretativos infundados daquilo que é são e válido.
bora a sexagésima-nona semana tenha terminado no início da Era Cristã.6 Por enquanto, será suficiente apenas salientar que qualquer abordagem baseada
Outras abordagens. Além das três grandes escolas de interpretação e em critérios e opiniões externas (em vez de emergir do Apocalipse em si) deve ser
sua subdivisões, há hoje uma variedade de outras abordagens interpretativas considerada altamente suspeita. De fato, as confusões tão desenfreadas em muitos
ao Apocalipse. Algumas destas se sobrepõem ou abraçam em parte uma ou comentaristas, qualquer que seja o seu ponto de vista interpretativo, encontram sua
mais das abordagens tradicionais, mas todas tendem a colocar sua principal causa básica na eisegese — isto é, ler no texto algo que não está ali — em vez de pro-
ênfase em alguma outra direção. Há, por exemplo, várias interpretações não ceder com base na sã exegese — extraindo do texto o que está ali.
históricas. Estas veem o Apocalipse como retratando um drama mitológico, Esta armadilha eisegética revela-se de várias maneiras. Estas frequente-
maravilhosos ideais, filosofia de valores ou algo semelhante, sem tocar ab- mente parecem plausíveis porque aparentemente se utilizam do válido princí-
solutamente na história real e/ou genuína escatologia.7 pio interpretativo de comparar passagem com passagem. O leitor deve ter em
Finalmente, deve ser notado que em anos recentes tem havido uma tendên- mente, porém, que não é a soma de passagens citadas, aludidas ou justapostas o
10 cia em torno da amalgamação de abordagens. Talvez o mais notável ao longo que realmente importa. O que tem valor é a eficiência do procedimento que está 11
desta linha sejam as tentativas de misturar preterismo em futurismo, sendo o sendo usado. De acordo com 2 Pedro 3:16, havia na era do Novo Testamento
primeiro um pano de fundo para o último (por exemplo, George Eldon Ladd e aqueles que deturpavam as Escrituras para a “própria destruição deles”. Esta
prática, infelizmente, ainda prevalece muitíssimo em nossos dias, e a interpre-
tação do Apocalipse parece especialmente inclinada a isto.
5
  Entre um bom número de exemplos, estão os comentários de John Wolvoord (1966) e Hal
Lindsay (1973). O primeiro é um tipo de produção erudita, e o último é uma obra de estilo Exegese, teologia e hermenêutica
popular.
6
  Literatura prolífica tem sido produzida pelos expoentes do ponto de vista, começando com A título de introdução, observamos que há diferenças e semelhanças entre
o seu originador J. N. Darby, da Irlanda, que reuniu a essência do pré-tribulacionismo/dispen- as abordagens teológica e exegética ao livro de Apocalipse. A exegese lida com
sacionalismo durante o final de 1820 e a década de 1830. Darby era muito conhecido por sua um texto ou passagem específica e procura extrair a mensagem pretendida pelo
atividade na Inglaterra (ele é geralmente considerado como sendo o fundador do movimento autor nesse texto ou passagem específica. Isto envolve todas as preocupações
dos “Irmãos de Plymouth”), mas pessoalmente promulgou suas opiniões também no Continente
Europeu e na América do Norte, para a qual fez seis viagens. Na América, a Bíblia de Referên-
que um exegeta normalmente tem em lidar com qualquer trecho literário (sig-
cia de Scofield (publicada no Brasil como Bíblia Anotada) tem tido considerável influência em nificado de palavras, relações sintáticas etc.), contextos históricos e literários
popularizar a opinião, realçada em anos recentes por publicações de Hal Lindsay. As “teologias gerais, e qualquer outra informação que possa esclarecer o significado da pas-
sistemáticas” de Alva McClain e L. S. Chafer também defendem este ponto de vista. Entre uma sagem, inclusive declarações relevantes que o autor faz em outro lugar.
série de boas pesquisas e avaliações do pré-tribulacionismo/dispensacionalismo, deve ser tomada
O estudo teológico utiliza as mesmas ferramentas e princípios her-
em consideração a crítica justa e muito legível dada por George Eldon Ladd (1956).
7
  Entre os expositores que têm escrito na Inglaterra, os seguintes provavelmente podem ser in- menêuticos. Mas enquanto o estudo exegético normalmente significa o são
cluídos (embora talvez com alguma sorte de preterista ou outro tipo de ajuste “histórico” envolvi-
do): E. W. Benson, Raymond Calkins, William Milligan, Paul S. Minear, S. L. Morris e D. T. Niles.
Estudos selecionados em interpretação profética Princípios fundamentais de interpretação

e cuidadoso exame de um texto ou passagem específica, o estudo teológico As passagens bíblicas, porém, não devem ser reunidas de uma forma indevida.
geralmente abrange os seguintes: Uma sólida abordagem leva em consideração os seguintes fatos: (1) As Escrituras
Primeiro, utiliza os resultados exegéticos de vários textos ou passagens não são apenas verdade em um sentido global, mas também contém muitas ver-
relacionadas. Segundo, procura colocá-los na devida relação uns com os dades individuais. (2) Portanto, ao se lidar com qualquer passagem das Escrituras, é
outros. Finalmente, empenha-se em relacionar esta síntese a evidências e importante verificar precisamente o que trata essa passagem específica e qual é a sua
exposições bíblicas mais amplas dos mesmos assuntos, temas, ou perspecti- própria mensagem específica em seu próprio contexto específico. (3) Enquanto a re-
vas teológicas (do Antigo e do Novo Testamento). união de duas ou mais passagens bíblicas que têm relevância para o mesmo assunto
Assim, a exegese no Apocalipse faz a pergunta básica fundamental: O que iluminará nossa compreensão da verdade divina que está envolvida, a combinação
nos diz esta passagem específica do Apocalipse? O estudo teológico, por outro enganosa de dois ou mais itens que são absolutamente verdadeiros em si mesmos
lado, faz a pergunta mais ampla: Que temas ou assuntos teológicos são ilumi- pode muito bem levar a uma síntese que é totalmente infundada e errônea.
nados e elucidados por esta passagem, e como a apresentação destes temas e O último ponto precisa de ênfase especial. Por exemplo, se tentarmos fundir
assuntos por este livro se encaixa no contexto mais amplo da teologia do Novo uma biografia totalmente correta de César Augusto com uma biografia totalmente
Testamento e da teologia bíblica como um todo? correta de George Washington (cada um desses indivíduos foi chamado “pai do seu
Por causa das espécies de interpretações errôneas do Apocalipse que têm país”), obviamente teríamos um relato combinado cheio de erros. Assim seria tam-
surgido em anos recentes, não somente de escritores não adventistas, mas tam- bém o caso se intrometêssemos um relato factual da carreira militar de Napoleão
bém dentro de certos círculos adventistas, em primeiro lugar reiteramos breve- Bonaparte em um relato factual da Segunda Guerra Mundial.
mente os bem-conhecidos e geralmente aceitos princípios de interpretação Jogar solto deste modo com peças individualmente verdadeiras e comple-
bíblica. Então daremos atenção mais detalhada a certos assuntos vitalmente tamente exatas de informação histórica parece ridículo, e certamente é assim.
importantes concernentes ao Apocalipse que são muitas vezes desconhecidos No entanto, este mesmo tipo de metodologia é similar hoje em determinados
12 ou negligenciados por expositores atuais. O presente capítulo não se sobreporá esquemas interpretativos aplicados ao livro de Apocalipse.8 Quer o campo seja 13
indevidamente ao que é apresentado em outro lugar na série Santuário e Profe- historiografia geral ou teologia bíblica (ou, a propósito, qualquer outro campo),
cias Apocalípticas sobre este tema, mas o assunto de uma sã hermenêutica é tão o resultado final não é verdade, mas confusão e erro.
essencial que alguma reformulação pode até mesmo ser proveitosa (JOHNS- Usar todas as ferramentas disponíveis
SON, 2010, p. 259–287; ver HASEL, 2010, p. 288–322). Os bereanos são mencionados como sendo “mais nobres” do que os de Tessalôni-
ca, porque eles prontamente recebiam a palavra dos apóstolos e então estudavam as
Regras gerais de interpretação Escrituras para verificar se a mensagem dos apóstolos era verdadeira (At 17:11). A
procura pela verdade divina deve ser cuidadosa, diligente e equilibrada.
As regras gerais para a interpretação de qualquer livro da Bíblia obviamente Tal estudo envolve uma comparação adequada de passagem com passagem,
devem também se aplicar ao livro de Apocalipse. Donde alguns comentários tendo cuidado de que o máximo conhecimento possível seja obtido de cada pas-
sobre estas seguem imediatamente abaixo. sagem bíblica utilizada. Isto sugere um uso sério e apropriado das ferramentas
As Escrituras como seu próprio intérprete que estão disponíveis: comentários bíblicos, dicionários bíblicos, manuais bíblicos,
Os adventistas do sétimo dia creem firmemente que as Escrituras não são
de particular interpretação, mas que homens santos de Deus falaram ao serem
movidos pelo Espírito Santo (2Pe 1:20–21). Este fato da divina inspiração as-
segura que as Sagradas Escrituras são verdade totalmente confiável. Leva à con-
8
  Os adventistas do sétimo dia tendem a ficar surpresos de que os evangélicos dispensacion-
alistas possam mudar a setuagésima semana da profecia de Daniel 9:24–27 da era do Novo Tes-
clusão de que as Escrituras são o seu próprio e melhor intérprete, um princípio
tamento para um tempo ainda futuro em nossos dias, e que eles tornam Apocalipse 4:1 a 19:10
interpretativo já mencionado acima. virtualmente uma exposição da chamada “setuagésima semana” de Daniel. Todavia, certos escri-
tores adventistas recentes de inclinação futurista revelam esse mesmo tipo de método em suas
exposições privadas do Apocalipse.
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obras de referência sobre história e arqueologia bíblicas, mapas e tratados da geo- Disposição de fazer a vontade de Deus
grafia das terras bíblicas, léxicos e outros auxílios com referência às línguas bíblicas. Outra regra geral de interpretação se relaciona com a atitude do leitor no que
Se possível, o texto bíblico deve ser lido em suas línguas originais. tange à verdade. Conforme declarado por Cristo, “se alguém quiser fazer a vontade
Conquanto devamos ser cautelosos com o que é simplesmente tradição hu- dele [de Deus], conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus” (Jo 7:17).
mana — algo que muito frequentemente inclui o erro —, devemos reconhecer O próprio livro de Apocalipse é muito incisivo em enfatizar que nada deve
que a utilização adequada e criteriosa de relevantes materiais de pesquisa de ser acrescentado e nada deve ser tirado do que está escrito nele. Realmente,
fundo histórico e arqueológico, léxicos, e ajudas similares podem ser muito pronuncia uma bênção sobre aqueles que ouvem a mensagem do livro, e uma
úteis e esclarecedores na busca e descoberta da verdade bíblica. maldição sobre aqueles que a distorcem (veja Ap 1:3; 22:7b, 18–19).
Os indivíduos que não são especialistas em relação às várias disciplinas
mencionadas acima não devem desesperar. Informação confiável está pron- Estudo com oração
tamente disponível para qualquer um que esteja disposto a estudar. Quer O estudo das Escrituras com oração é um princípio da máxima importân-
tais estudantes da Bíblia percebam isto ou não, sua própria leitura das Es- cia. O mesmo Espírito Santo que inspirou os escritores da Bíblia para registrar
crituras em português ou em outra língua moderna implica em reconheci- a verdade divina deve também estar presente a fim de iluminar nossa mente
mento para com eruditos instruídos nas línguas bíblicas e em conhecimen- para essa verdade. Este princípio específico poderia ter sido declarado primeiro
tos históricos e outros conhecimentos relevantes para a Bíblia. Felizmente, entre nossos princípios gerais por causa de sua extrema importância. Em vez
também estão disponíveis várias traduções da Bíblia (ao menos em portu- disto, preferi colocá-lo na conclusão, porque abrange todos os outros quando é
guês) que podem ser comparadas entre si. experimentado conscienciosamente.
É bom notar que os estudantes da Bíblia que estão realmente buscando a Estudo com oração significa estudo que usa um método idôneo em comparar
verdade não farão simplesmente selecionar traduções ou fórmulas tradicion- passagem com passagem, que se aproveita de todas as ferramentas disponíveis em
14 ais para satisfazer sua própria fantasia sobre pontos controvertidos. Preferiv- efetuar estudo diligente, e é caracterizado por uma disposição de fazer a vontade de 15
elmente, eles buscarão a preponderância da evidência quanto ao que é correto. Deus e seguir os resultados do estudo aonde quer que eles possam conduzir.
As traduções da Bíblia diferem na escolha das palavras e na maneira de ex-
pressão, embora a verdade divina seja geralmente apresentada em quase todas Regras especiais para a interpretação apocalíptica
as traduções tão acurada e adequadamente que ninguém precisa se desviar —
ao menos em assuntos vitais para a salvação. Impacto da forma literária
É verdade, porém, que algumas traduções são em geral mais confiáveis do que A verdade bíblica é multifacetada, e os escritores da Bíblia utilizavam uma
outras. Como regra, em estudos mais aprofundados, uma tradução do tipo mais grande variedade de tipos literários a fim de transmitir a mensagem divina. É
“literal” deve ser preferida ao tipo “livre” ou “paráfrase”.9 Com frequência as pessoas fundamental reconhecer que a verdade expressa através de uma forma literária
falarão do último tipo de tradução como a que elas preferem, porque tal tradução específica manifesta as características dessa forma e é compreendida somente
“é muito clara”. A real questão, porém, deve ser esta: Nessas traduções livres, o que é quando é dada a devida consideração àquelas características. Narrativas históricas,
tão claro — a palavra de Deus ou a opinião do tradutor? prescrições legais, palavras de sabedoria, cartas, reflexões e aclamações poéticas
estão entre os numerosos e variados tipos de literatura incluídos na Bíblia. Tam-
bém às vezes aparecem em combinação uns com os outros.
9
  Exemplos de traduções “literais” ou “formais” são: King James, New King James, Revised Stand- Para a maioria dos leitores, a diferença entre prosa e poesia é talvez a mais
ard Version, New American Standard Bible etc. [Em português: Almeida Revista e Atualizada e fácil de reconhecer. Por exemplo, no relato em prosa do Êxodo nos é dito que
Bíblia de Jerusalém. — Nota do tradutor.] Exemplos de traduções “livres” ou método dinâmico Deus enviou “um forte vento oriental” para afastar as águas do mar (Êx 14:21).
de tradução: New English Bible, Today’s English Version, Philips Translation, Living Bible etc. [Em
português: Nova Tradução na Linguagem de Hoje, Nova Bíblia Viva e A Mensagem. — Nota do
No relato poético é feita a declaração de que “com o resfolgar das tuas [de Deus]
tradutor.] narinas, amontoaram-se as águas” (Êx 15:8).
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A qualidade figurativa da expressão poética é imediatamente evidente. A para retratar o final grande Dia do Senhor. A apocalíptica tem, em vez
maioria dos leitores não visualizaria Deus como realmente agachado nas mãos disto, como sua própria urdidura e trama, o elemento de alcance cósmico
e joelhos e resfolegando pelas narinas nas águas do mar! E, contudo, esta de- ou escopo universal. A profecia apocalíptica aborda o grande conflito en-
scrição pitoresca adiciona legítima ênfase e eficiência ao expor uma verdade tre o bem e o mal, não dentro de uma estrutura histórica local e contem-
divina quando é lida adequadamente como a linguagem figurativa que ela é. porânea (como é descrita nas mensagens dos profetas maiores e menores),
O livro de Apocalipse representa um tipo de literatura e estilo singu- mas do ponto de observação que descerra a cortina, por assim dizer, em
lar entre os livros do Novo Testamento. Seu paralelo bíblico mais próximo todo o mundo e por toda a extensão da história humana.
é o livro de Daniel, no Antigo Testamento. Estes dois livros da Bíblia são Por exemplo, Daniel 2 e 7 tratam dos impérios mundiais em sucessão
geralmente classificados como “profecia apocalíptica”, em contraste com a pelo restante da história terrestre desde o tempo de Daniel até a consumação
“profecia clássica” (às vezes chamada “profecia geral”), sendo a última repre- final e o estabelecimento do eterno reino de Deus. O Apocalipse, semel-
sentada por tais livros como os profetas maiores e menores. hantemente, explora grandes desenvolvimentos históricos desde os dias de
Ambas as espécies de literatura profética ensinam a verdade divina, João até e inclusive uma descrição do grandioso final escatológico.
como fazem todos os outros tipos de literatura da Bíblia. Mas precisa- Ênfase escatológica. Às vezes os profetas gerais ampliam o escopo dos oráculos
mente como no caso de outros tipos literários, as características peculiares de condenação ou “juízos do Dia do Senhor” — quer seja dirigidos contra Israel,
a este tipo de literatura devem ser levadas em consideração pelo estudante. Judá, Nínive, Babilônia, Moabe, Edom, ou qualquer entidade que poderia ser —
Infelizmente, a distinção entre profecia clássica e profecia apocalíptica é para retratar brevemente um julgamento final no fim da história terrestre. Contudo,
frequentemente obscurecida por expositores da Bíblia. o principal objetivo de seus escritos é para a situação de seus próprios dias.
Nos parágrafos abaixo, primeiro comentaremos brevemente algumas das Por outro lado, a profecia apocalíptica, embora trate a história através do
características da apocalíptica mais geralmente reconhecidas. Em seguida, tra- fluxo do tempo, tem um enfoque especial nos acontecimentos do fim dos tempos.
16 taremos com mais detalhes de algumas características dessa literatura às quais A apocalíptica descreve uma luta contínua entre o bem e o mal na história, uma 17
geralmente não é dada a devida consideração. história que tende a degenerar-se ao prosseguir no tempo. Mas é uma história que
está realmente se movendo em direção de um fim em cujo tempo o próprio Deus
Características da literatura apocalíptica intervirá diretamente para destruir o mal e estabelecer a justiça.
Vários autores têm salientado características comuns ao gênero de literatura Em um sentido, podemos afirmar que os profetas gerais consideravam
conhecido como apocalíptica. A lista seguinte, baseada em grande parte em a história do ponto de vista de sua própria posição no tempo, ao passo que
meu livro Interpreting the Book of Revelation [Interpretando o Livro de Apoc- os profetas apocalípticos visualizam uma extensão da história com um
alipse], pode ser considerada representativa (ver STRAND, 1979, p. 18–20). enfoque especial no ápice final da história.
Assinalados contrastes. A profecia apocalíptica faz uma clara e invariável linha Origem em tempos de angústia e perplexidade. Em seu ambiente histórico,
de demarcação entre o bem e o mal, entre as forças de Deus e as forças de Satanás, a apocalíptica bíblica, como Daniel e Apocalipse, surgiu em tempos de angústia,
entre os justos e os ímpios, entre salvação para os filhos de Deus e perdição para perplexidade e perseguição. Assim, parece que a profecia apocalíptica surge quando
os seus inimigos. Entre os numerosos e notáveis contrastes no livro de Apocalipse, horrendas circunstâncias para o povo de Deus poderiam muito bem levá-los a ques-
estão o selo de Deus e a marca da besta, a testemunha fiel e verdadeira e a serpente tionar se Deus está ainda ativo e no controle. E ensina clara e convincentemente que
que engana o mundo, a virgem de Apocalipse 12 e a prostituta de Apocalipse 17, os Deus ainda é, de fato, o Senhor da história, que Ele está com o seu povo, e que os
exércitos do Céu e os exércitos da Terra, o fruto da árvore da vida e o vinho do furor vindicará plenamente em um magnífico e glorioso ponto culminante escatológico.
da ira de Deus, a Nova Jerusalém em glorioso esplendor e Babilônia em flamejante A profecia apocalíptica é uma espécie de literatura especialmente apropriada para
destruição, e o mar de vidro e o lago de fogo. proporcionar conforto e esperança aos oprimidos e humilhados servos de Deus em
Alcance cósmico. A profecia clássica lida com a situação local e con- seu tempo de necessidade crítica de precisamente tal conforto e esperança.
temporânea como seu enfoque primário, com certo grau de ampliação
Estudos selecionados em interpretação profética Princípios fundamentais de interpretação

Base em visões e sonhos. Uma comparação da profecia apocalíptica com a Continuidade vertical. A antiga mentalidade semita via o Céu e a Terra em
profecia clássica e outra literatura bíblica indica que a apocalíptica é caracteri- íntimo contato um com o outro. Infelizmente, esta é uma perspectiva que nós, em
zada por referência mais frequente a visões e sonhos do que é verdade quanto nossa moderna civilização de orientação científica, temos perdido em grande parte.
a qualquer outro tipo de literatura encontrada na Bíblia. Além disso, o apareci- A mente moderna tende a separar o Céu e a Terra, não simplesmente no sentido
mento de anjos para interpretar tais visões e sonhos não é incomum. físico ou espacial, mas também espiritualmente. Mesmo como cristãos, nos encon-
Extenso uso de simbolismo. Embora a profecia clássica use simbolis- tramos frequentemente fora de sintonia com os referenciais e conceitualizações car-
mo em certa medida, a apocalíptica pode ser distinguida por isto. O livro acterísticas dos escritores da Bíblia e seus ouvintes originais.
de Apocalipse está permeado de símbolos de várias espécies; seu rep- Deus comunica, é claro, através da linguagem da humanidade. Isto, obviamente,
ertório de imagens é particularmente rico. significa mais do que vocabulário, sintaxe, e coisa semelhante. Envolve toda a estrutu-
Uso de simbolismo complexo. Além disso, seja qual for o simbolismo ra conceitual das pessoas com quem a comunicação está sendo estabelecida.
que os profetas clássicos usem, ele tende a seguir padrões fiéis à realidade, Nós, modernos, cremos que nossos referenciais científicos do século 20
ao passo que a apocalíptica frequentemente se afasta das formas convencio- são muito melhores do que as conceitualizações dos antigos, e indubitavel-
nais. Retrata, por exemplo, animais inexistentes na natureza, tais como o mente em alguns sentidos os nossos são mais “atualizados” e exatos. Todavia,
dragão de sete cabeças e a besta do mar de Apocalipse, o leão alado e o ani- quer a cosmovisão seja antiga ou moderna, ela fica muito abaixo das reali-
mal de quatro cabeças de Daniel etc. O simbolismo complexo era comum, é dades supremas do Universo de Deus. Sua condescendência em comunicar-
claro, na arte e na literatura do antigo Oriente Próximo. se conosco em nossa linguagem — através de nossa estrutura conceitual — é
Resumo. Embora a classificação baseada em tais critérios tenha sido questionada tão grande que qualquer diferença humana criada por dois ou três milênios
(ver HANSON, 1975, p. 6–7), muitos eruditos ainda dão peso a estes elementos como não faz virtualmente nenhuma diferença.
sendo características básicas da profecia apocalíptica. Em todo caso, o simples fato Foi para nós, porém, que a Bíblia foi escrita nos tempos antigos. Por-
18 é que há um conjunto de antiga literatura que manifesta em maior ou menor grau tanto, aqueles referenciais relativos aos escritores e ouvintes antigos de- 19
muitos destes elementos; portanto, para fins descritivos e práticos uma classificação vem ser tidos em mente por nós ao procurarmos compreender hoje a men-
baseada neles parece útil e justificada. Conhecer e compreender tais características sagem de Deus através de sua Palavra escrita. 10
especiais da apocalíptica é, sem dúvida, um primeiro passo na interpretação correta. Conquanto as modernas conceitualizações científicas da realidade tenham
Também deve ser notado que todas as características apresentadas acima provido alguns importantes ganhos ou corretivos, em outras ocasiões elas têm le-
não são, necessariamente, completamente exclusivas da literatura apocalíptica. vado a sério prejuízo. A comprovação científica empírica é simplesmente impossível
A extensão em que elas aparecem e a maneira como são usadas na apocalíptica para todas as esferas da realidade (de fato, pode estar limitada a uma parte um tanto
é, porém, muito distinta e serve para prover um significativo contraste com a pequena da realidade total, como os próprios cientistas estão vindo mais e mais a
dinâmica evidenciada na profecia clássica. perceber). Sugiro que uma das maiores perdas da antiga conceitualização semítica
da realidade é este assunto que estamos considerando: a “continuidade vertical” que
Continuidade vertical e horizontal vê o Céu e a Terra em íntimo contato um com o outro.
Por mais útil que seja a lista anterior de características, ela não nos leva comple- Esta “continuidade vertical” é básica e axiomática para todo o acervo bíblico,
tamente ao “coração” da profecia apocalíptica. Talvez não sejamos capazes de com- tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Em nenhuma parte, porém, ela é
preender e apreciá-la suficientemente a menos que possamos pôr de lado nossas mais notavelmente exposta do que na apocalíptica. Não é sem motivo, por exemplo,
“lentes do século 20” e colocar-nos honestamente dentro da perspectiva bíblica. que o livro de Apocalipse repetidamente apresente cenários celestiais em conexão
Aqui voltamos nossa atenção especificamente para dois elementos abso-
lutamente vitais a compreender se quisermos captar a verdadeira dinâmica
da apocalíptica. Neste estudo, serão denominadas dimensões de “continui-
dade vertical” e “continuidade horizontal”. 10
  Uma excelente discussão da natureza da inspiração é dada por Ellen G. White (2005) em sua
“Introdução” ao Grande Conflito.
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com sua descrição de atividades que ocorrem na Terra. Realmente, a profecia apoc- e como tinta em uns alternadamente 12 períodos claros e escuros, chegando
alíptica ilustra e dramatiza este elemento vital da perspectiva bíblica. finalmente à consumação escatológica. E também há vários outros exemplos,
A essência e importância deste conceito de “continuidade vertical” con- inclusive uma visão da águia de muitas asas em 4 Esdras, capítulos 11 e 12, e o
forme aplicável às mensagens do livro de Apocalipse tem sido apropriadamente sonho-visão de touros e ovelhas (mais uma tropa de outros animais) no Enoque
expressa nas palavras seguintes escritas por Ellen G. White (2000, p. 114): “Uma Etiópico, capítulos 85 a 90.
coisa compreender-se-á certamente do estudo do Apocalipse — que a ligação Desenvolvimentos ou processos históricos sequenciais são também
entre Deus e seu povo é íntima e decidida.” evidentes no Apocalipse de João. Certamente podemos pensar nos impres-
Se quisermos compreender a verdadeira beleza e receber a eficácia das sionantes exemplos dentro das sequências dos sete selos e das sete trombe-
mensagens de Deus para nós em Sua Palavra, devemos retornar a esse con- tas, os selos sendo abertos em sucessão e as trombetas sendo tocadas em
ceito da realidade que põe o Céu em íntimo contato espiritual com a Terra. sucessão. Igualmente, a descrição da animosidade do dragão do capítulo
Esta verdade é decisiva para nossa compreensão das mensagens dos livros 12 abrange uma sequência, porque ele primeiro ataca o filho varão, depois a
apocalípticos de Daniel e Apocalipse. mulher, e finalmente o remanescente da descendência da mulher. Também
Continuidade horizontal. A segunda característica central da apocalíp- indicativa deste tipo de perspectiva sequencial é a referência em 17:10 às
tica, a dimensão da “continuidade horizontal”, também precisa de cuidadosa sete cabeças da besta como sendo sete reis, dos quais “caíram cinco”, “um
consideração. Da mesma forma que a profecia apocalíptica ilustra e drama- existe [no tempo de João]”, e “o outro ainda não chegou”.
tiza uma continuidade vertical de atividade entre o Céu e a Terra, assim ela Temos propositalmente enfatizado esta dimensão de “continuidade hori-
também ilustra e dramatiza uma continuidade horizontal em sua perspec- zontal” da apocalíptica por duas razões: (1) ela é absolutamente fundamental
tiva para a frente. A história é um contínuo sob o controle de Deus, que se para a descrição apocalíptica dahHistória como uma sucessão de eventos; e (2)
aproxima cada vez mais da gloriosa consumação quando o próprio reino em escritos recentes por certos notáveis eruditos evangélicos (como G. E. Ladd
20 divino de justiça será estabelecido para a eternidade. e Leon Morris), a visão apocalíptica da história tem sido confundida com a 21
Este tipo específico de previsão profética que delineia incrementos dentro de um abordagem da profecia clássica de “duplo cumprimento” ou “dois focos”.
contínuo histórico é uma característica que está em assinalado contraste com a pro- Por exemplo, Ladd (1972, p. 13; 1960, p. 53) apresenta a ideia de que o livro
fecia clássica. Como já mencionado, a última focaliza o próprio tempo do profeta, de Apocalipse visualiza a besta do mar semelhante ao leopardo do capítulo 13
e então pode oferecer uma expansão para um cumprimento ulterior e mais amplo como um símbolo tanto do antigo Império Romano dos dias de João (preter-
de alcance cósmico no final do tempo. É apropriado, portanto, falar em um sentido ismo) como de um Anticristo ainda por vir (futurismo). Mas esta espécie de
cósmico de dois pontos focais ou “dois focos” da profecia clássica. procedimento interpretativo de dois pontos focais transpõe erroneamente as
Em contraste, a profecia apocalíptica não procede absolutamente nessa base. características de um tipo de descrição profética para outro tipo, onde ele sim-
Antes, a profecia apocalíptica vê um continuum, uma progressão ou sequência plesmente não se ajusta. De fato, quando o modelo de dois focos é imposto aos
na história. Não olha apenas em dois pontos focais — o tempo do profeta e o livros apocalípticos de Daniel e Apocalipse, ele traz distorção para as próprias
final do tempo — com um intervalo entre eles. O estilo apocalíptico é clara- mensagens que Deus pretende transmitir nessas profecias.
mente ilustrado, por exemplo, nas sequências da cena da estátua de Daniel 2 e A profecia clássica, com sua ênfase nos próprios dias do profeta e uma per-
os quatro animais e seus chifres de Daniel 7. spectiva ocasional de “dois focos”, nunca descreve detalhadamente os eventos
Mas esta espécie de abordagem apocalíptica não é exclusiva de Daniel. Os que conduzem ao final e grande “dia do Senhor”. Não há, por exemplo, nenhuma
apocalipses não canônicos têm indicações da mesma. Por exemplo, o breve referência na profecia clássica a um vindouro poder do Anticristo do fim dos
“Apocalipse das semanas” do Enoque Etiópico (capítulos 9:12–17 e 93:1–10) tempos. Ladd chega a este tipo de Anticristo, como temos notado, impondo
divide a história em 10 períodos sucessivos, o último dos quais abrangendo erroneamente a modalidade de profecia clássica de dois focos ao livro de Apoc-
o juízo final e introduzindo a era eterna. Outra ilustração é a parábola de Ba- alipse, onde o Anticristo realmente é encontrado. Mas em Apocalipse (bem
ruque nos capítulos 53 a 74, de uma nuvem de trovoada que chove águas claras como em Daniel), o Anticristo aparece dentro de uma estrutura conceitual
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totalmente diferente, a saber, dentro de um continuum histórico, como um seg- sobre o antigo período ou o ponto culminante escatológico ou ambos. Os comentar-
mento da continuidade horizontal em processo contínuo no Apocalipse. istas que desejam combinar preterismo e futurismo como a melhor abordagem ao
Resumindo, a própria natureza da profecia apocalíptica descarta preterismo, fu- Apocalipse desvalorizam a própria natureza do livro em si como um apocalipse. 12 É
turismo e qualquer combinação deles, em favor da abordagem historicista. Este fato é vital que sejamos fiéis à real perspectiva histórica do Apocalipse se quisermos extrair
vital e tem importantes implicações teológicas para nosso estudo do Apocalipse. conclusões corretas acerca das importantes mensagens desse livro.
Mais um ponto precisa ser aqui esclarecido. Por que este conceito de con-
tinuum histórico surge na apocalíptica em distinção do conceito de “dois fo- Debates contemporâneos
cos” da profecia clássica? Sugiro que um fundo específico da própria literatura Nesta conjuntura, surgem duas perguntas especiais, principalmente
bíblica serve como o modelo para esta característica da apocalíptica, a saber, as em vista do que foi dito acima a respeito da “continuidade horizontal” da
narrativas históricas do Antigo Testamento. A profecia apocalíptica projeta no apocalíptica: (1) Na profecia apocalíptica existe tal coisa como cumprimen-
futuro uma continuação do relato histórico da Bíblia. tos repetidos?; (2) A descrição histórica da apocalíptica visualiza uma in-
A soberania de Deus e o constante cuidado por seu povo estão sempre definição ou condicionalidade, de sorte que se as condições devessem mu-
na vanguarda da descrição bíblica do continuum histórico, quer seja ele de- dar, os cumprimentos históricos mudariam igualmente?
scrito em acontecimentos passados (livros históricos) ou em eventos futuros Cumprimentos repetidos? Em discussões anteriores sobre a apocalíptica,
(profecia apocalíptica). Daniel e Apocalipse revelam uma divina soberania tenho observado que há certa perspectiva de “filosofia da história” nesta espécie
e domínio no que concerne ao movimento progressivo da história além do de profecia (STRAND, 1979, p. 14–16; 1975, p. 29–32). Por “filosofia da história”,
próprio tempo do profeta — uma história futura que culminará quando o porém, eu não quero dizer a abordagem da “filosofia de valores” que apresenta
Deus do Céu estabelecer o reino eterno que encherá toda a Terra e durará fatores ou “ideais” filosóficos sem tocar na realidade histórica. Deve ser en-
para sempre (Dn 2:35, 44–45; ver Ap 21, 22.). fatizado que a profecia apocalíptica lida com fatos e desenvolvimentos reais no
22 Em resumo, a mais notável das características geralmente reconhecidas da continuum histórico desde o tempo do profeta até o fim dos tempos. Qualquer 23
apocalíptica é o seu uso de simbolismo. Há, obviamente, uma elevada ênfase sobre abordagem que separe o cumprimento das previsões apocalípticas da história
esta característica, e muitos dos símbolos são de natureza complexa. Além disso, os real é contrária à própria essência da descrição histórica apocalíptica.
simbolismos refletem os assinalados contrastes tão evidentes na apocalíptica, e eles A espécie de “filosofia da história” para a qual eu chamo a atenção tem certo tipo
frequentemente proveem evidência de amplo alcance ou alcance cósmico. de aplicação recorrente. Primeiro, procuraremos evidências e/ou ilustrações do fenô-
Determinar a fonte dos símbolos empregados, averiguar sua extensão de meno; e segundo, anotaremos o tipo de material ao qual o fenômeno é aplicável.
significado e seu enfoque específico no contexto imediato do Apocalipse são Embora a evidência não seja tão nítida, esta espécie de literatura contém
fatores vitais para o intérprete. O assunto é discutido em outra parte deste vol- algumas indicações do conceito de que “a história se repete”.
ume.11 Indubitavelmente, a mais mal compreendida e impropriamente usada Nos apocalipses não canônicos, por exemplo, a parábola de Baruque sobre a
faceta da apocalíptica se relaciona com sua continuidade horizontal. Muitas das nuvem de trovoada divide seu continuum histórico em períodos alternadamente
características geralmente reconhecidas da apocalíptica às vezes aparecem em “claros” e “escuros”. Há, de fato, um modelo quase “monótono” de repetição histórica.
outras literaturas proféticas da Bíblia. Mas a continuidade horizontal da pro- No livro canônico de Daniel, o surgimento e queda dos reinos transmite o mesmo
fecia apocalíptica é uma característica que está em assinalado contraste com a pensamento com respeito à repetitividade da história, especialmente em vista da
abordagem à história dada na profecia clássica. declaração fortalecedora de que Deus “remove reis e estabelece reis” (Dn 2:21).
A interpretação teológica do Apocalipse, a fim de ser eficiente, deve ser compatív-
el com essa perspectiva histórica. O Apocalipse abrange, como faz o livro de Dan-
iel, uma progressão passo a passo através da história, não um enfoque polarizado ou
  Expositores que aceitam um cumprimento historicista de certas visões de Daniel e Apoc-
12

alipse no passado, mas que então optam por um segundo e primário cumprimento das mesmas
  Veja o capítulo 4 deste volume, “Interpretando o simbolismo do Apocalipse”.
11
no fim dos tempos, também estão incluídos.
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O conceito é expressivo do formulário das “bênçãos e maldições” de Deu- Quando são feitas afirmações de que Ellen G. White apoia cumprimentos repeti-
teronômio (27–28) e encontra vívida ilustração na própria história de Israel. dos nos livros de Daniel e Apocalipse,13 o contexto do que ela diz deve ser observado
Isto é bem ilustrado, por exemplo, no livro de Juízes. Sempre que Israel fal- cuidadosamente e que tipo de “repetição da história” está envolvido. Não há um só
hava em seu compromisso com a aliança, resultava em opressão por nações exemplo em que ela indique duplos ou múltiplos cumprimentos do chifre pequeno
estrangeiras. Vinha o livramento sempre que Israel se voltava para o Senhor ou de qualquer dos animais de Daniel ou Apocalipse e seus períodos de tempo.
em sincero arrependimento. Embora cada exemplo fosse um episódio diferente, Essas entidades vêm à existência uma vez, e somente uma vez. Contudo,
com um diferente juiz dirigindo o livramento, o tipo de fenômeno histórico em sua espécie de serviço como veículos do ataque de Satanás contra Deus e os
cada caso era o mesmo. Assim, pode ser dito que “a história” israelita “se repetia” santos de Deus pode prontamente, porém, levar a uma repetição dos proces-
em princípio, embora não em detalhes específicos. sos gerais usados, quer estes sejam enganos ou perseguições (veja João 8:44).
No livro de Apocalipse, encontramos sugestões similares de modelos repeti- Mas nenhuma profecia apocalíptica é compreendida como incorporando
tivos, como na quádrupla-tríplice divisão dentro de vários septetos. Alguém pode duplos ou múltiplos cumprimentos em si.
pensar, por exemplo, nas impressionantes similaridades encontradas nas cartas a Condicionalidade na apocalíptica? Em recentes escritos privados entre al-
Éfeso e Sardes e outra vez naquelas a Esmirna e Filadélfia (a primeira e quinta igre- guns adventistas do sétimo dia, é feita a afirmação de que há condicionalidade
jas e a segunda e sexta igrejas, respectivamente, em Apocalipse 2–3). nas previsões históricas de livros apocalípticos como Apocalipse. O argumento
Além disso, a própria maneira em que o simbolismo é usado em Apoc- é que tais cumprimentos foram apenas parciais — se foram cumprimentos —,
alipse implica às vezes uma repetida (e possivelmente uma contínua) apli- porque certas condições não foram satisfeitas. Portanto, podemos aguardar um
cação. Particularmente impressionante é a expressão de Apocalipse 11:8: “A cumprimento ainda futuro. Itens que têm sido colocados nesta categoria são o
grande cidade que, espiritualmente, se chama Sodoma e Egito, onde também grande terremoto, o Dia Escuro e a queda das estrelas (Ap 6:12–17), o final da
o seu [das duas testemunhas] Senhor foi crucificado.” Aqui encontramos três profecia dos 2.300 dias de Daniel em 1844, outros períodos de tempo em Daniel
24 lugares (Sodoma, Egito e Jerusalém) reunidos e identificados de tal maneira a e Apocalipse, e a descrição apocalíptica da história ainda mais geralmente. 25
levar nossa mente de volta ao passado distante e em tempo muito mais próxi- O que deve ser dito em resposta a esta abordagem é que os princípios enuncia-
mo. Esses eventos estavam também separados geograficamente. dos acima concernentes à descrição histórica da profecia apocalíptica são verda-
O que este texto nos diz não é que haverá um segundo ou mesmo um deiros para esta questão, bem como para aquela de “cumprimento repetido”. Esses
terceiro cumprimento de Sodoma ou múltiplos cumprimentos do antigo princípios não permitem nenhum espaço para qualquer falha no cumprimento ou
Egito que oprimiu a Israel. Antes, a mensagem é que estas três entidades adiamento da previsão apocalíptica por causa de condicionalidade.
distintas podem ser identificadas em uma espécie de “junção” quanto ao seu Resumindo, a profecia apocalíptica apresenta uma progressão histórica que
caráter essencial de impiedade e opressão. Donde, elas podem adequada- não oferece espaço para variabilidade, quando Deus prevê o que “deve breve-
mente servir de uma maneira simbólica para a “grande cidade” que person- mente acontecer” (Ap 1:1, KJV). Não há, por exemplo, nenhuma dúvida se os
ifica e repete um caráter similar de impiedade e opressão. quatro cavaleiros de Apocalipse 6 estão indo cavalgar; eles realmente irão sair
Também Ellen G. White (2006, p. 588), comentando sobre a visão de João, na progressão indicada. O mesmo é verdade quanto às advertências das trom-
faz algumas declarações indicativas deste tipo de repetição histórica. Podemos betas, as pragas da condenação, a destruição de Babilônia etc. São estas todas
notar, por exemplo, esta declaração: “Olhando através dos longos séculos de as coisas que foram mostradas a João e lhe foi dito que aconteceriam. Simples-
trevas e superstições, o exilado encanecido viu multidões sofrendo o martírio mente não está envolvido nenhum elemento de condicionalidade!
por causa de seu amor pela verdade. Mas viu também que Aquele que sustinha
suas primeiras testemunhas não abandonaria seus fiéis seguidores durante os
séculos de perseguição por que deviam passar antes do fim dos tempos.”
  Para uma discussão deste quiasmo, veja o panfleto “Ellen G. White and the Interpretation
13

of Daniel and Revelation” (Instituto de Pesquisa Bíblica, Associação Geral dos Adventistas do
Sétimo Dia).
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Alguém pode argumentar, porém, que há um elemento de condicion- confrontados pela profecia apocalíptica, devemos reconhecer nesse tipo de lit-
alidade nas cartas às sete igrejas. Isto é de fato assim. Todo o conceito des- eratura uma preponderância de uso simbólico. Assim, nossa abordagem tem de
sas cartas tem a condicionalidade como um referencial inerente. Mas esta ser invertida a fim de que possamos encontrar razões para uma interpretação
condicionalidade específica não se relaciona com a descrição histórica da literal de muitas passagens.
situação das igrejas, mas como as igrejas e os indivíduos que nelas estão Em qualquer caso, existem considerações específicas que devemos ter em
responderão ao apelo de Cristo, como eles decidirão estar no futuro no que mente quando indagamos: Por que há tanto simbolismo na profecia apocalíp-
concerne à sua relação de aliança com o Senhor. tica, e, quais são algumas diretrizes para determinar quando esperar o uso sim-
A natureza exortatória da literatura epistolar apresenta-se aqui. O fato bólico? Com exceção do fato de que o simbolismo é uma característica básica
de que o livro de Apocalipse é uma carta bem como uma profecia apoc- desse tipo de literatura, vêm à mente as seguintes razões:
alíptica confere-lhe certo sabor de exortação. Mas essa exortação, deve-se 1. Descrição eficaz. O símbolo é com frequência a mais conveniente ou vigoro-
enfatizar, está limitada a apelos (onde quer que se encontrem no livro, veja sa maneira de descrever uma mensagem. “Um quadro pode substituir mil palavras”,
16:15, para um exemplo) e não se aplica ao tipo específico de previsão e frequentemente o faz, mais exata e eficazmente do que uma prolongada descrição
profética que é parte e parcela da natureza da literatura apocalíptica. Tam- verbal. Mapas rodoviários, fórmulas químicas, esboços do artista, projetos do ar-
bém o livro de Daniel tem elementos de condicionalidade em suas seções quiteto, retratos e esculturas são exemplos de “uso simbólico” que expressam o que
históricas e em quaisquer apelos que são feitos. as próprias palavras nunca poderiam retratar adequadamente.
Contudo, nem no livro de Daniel nem em Apocalipse está a previsão profética No caso da literatura apocalíptica, que retrata a grande luta entre o bem e o
em si sujeita a condicionalidade. Os eventos são fixados e os períodos de tempo mal, deve-se esperar o uso de símbolos e imagens. Assuntos de alcance cósmico
prescritos são definidos e invariáveis. Esses elementos se ajustam aos padrões do não poderiam ser apresentados eficientemente pela expressão literal. Aqui está
que disse Daniel ao rei Nabucodonosor: “Deus fez saber ao rei o que há de ser fu- o caso em que a incapacidade humana de compreender as complexidades do
26 turamente. Certo é o sonho, e fiel, a sua interpretação” (Dn 2:45). conflito moral dá motivo para o uso de símbolos. 27
2. Descrição do futuro. A história futura em si seria um fenômeno difícil de
Simbolismo em Apocalipse descrever literalmente de qualquer maneira inteligível para os leitores e ouvintes
Como foi notado antes, entre as características gerais da profecia apocalíp- da profecia. A revelação alega, é clara, desvendar o futuro, e surge então a pergunta:
tica está o seu extenso uso de simbolismo, principalmente simbolismo com- Como poderia o futuro ser mais bem retratado do que em termos simbólicos?
plexo. O livro de Apocalipse está cheio de simbolismo e imagens, um fato que 3. Símbolos do reservatório comum. Outra explicação para o uso de sim-
causa muita consternação e confusão aos intérpretes. Parte do problema é que bolismo é o fato de que certas expressões simbólicas eram uma parte do vocabu-
os expositores modernos frequentemente inserem seus próprios significados lário de Israel, um reservatório do uso simbólico comum. Assim, por exemplo,
nos símbolos em vez de determinar a extensão bíblica do significado. as expressões Egito e Babilônia seriam prontamente compreendidas em seu sig-
Ao estudar alguém o Apocalipse, torna-se evidente que a vasta maioria de suas nificado simbólico no livro de Apocalipse.
alusões em simbolismo e imagens é do Antigo Testamento.14 Este assunto é tratado Fluidez do simbolismo. Por sua natureza, os símbolos são fluidos. Eles são
em detalhes em outro capítulo deste volume. A esta altura simplesmente adicion- figuras de linguagem. Alguns elementos dessa fluidez podem ser notados:
aremos alguns comentários sobre algumas outras considerações. 1. O mesmo símbolo pode significar coisas diferentes em diferentes contex-
Função literária do simbolismo. Uma regra válida de interpretação das Es- tos. Por exemplo, o leão pode ser usado para se referir a Cristo (Leão da tribo de
crituras é que uma determinada passagem deve ser interpretada literalmente a Judá em Ap 5:5), ao diabo (“leão que ruge” em 1Pe 5:8), a Judá (“leãozinho” em
menos que esteja presente evidência de linguagem simbólica ou figurativa. Este Gn 49:9), e à Assíria e Babilônia (“leões”em Jr 50:17).
princípio funciona bem para a maior parte da literatura bíblica. Mas quando 2. Símbolos diferentes podem representar a mesma coisa. Por exemplo, o
leão e o cordeiro representam Cristo em Apocalipse 5.
  Veja o capítulo 4, “Interpretando o simbolismo do Apocalipse”.
14
Estudos selecionados em interpretação profética Princípios fundamentais de interpretação

3. Pode haver uma variação de símbolos retratando a mesma coisa dentro 1. Os símbolos das “duas testemunhas” (Ap 11) têm antecedentes de Zac-
do mesmo contexto. Por exemplo, Cristo é descrito como sendo tanto o pastor arias 4 e de Moisés, Elias, Jeremias e outros profetas.
quanto a porta do aprisco em João 10; as sete cabeças da besta de Apocalipse 17 2. Na porção central do livro de Apocalipse (8:2–18:24) acha-se uma dupla
são declaradas ser tanto sete montes quanto sete reis. descrição do que poderia ser chamado o tema “Êxodo-do-Egito”/Queda-de-
4. Os detalhes podem variar no que são evidentemente os mesmos símbolos. Babilônia”. As primeiras cinco trombetas têm como sua fonte antecedente as
Por exemplo, os quatro seres viventes de Ezequiel 1 formam o fundo para a cena pragas no antigo Egito, enquanto com a sexta trombeta a cena muda de an-
do trono de Apocalipse 4. Na primeira passagem cada criatura tem quatro ros- tecedente para o rio Eufrates, o rio de Babilônia (9:14). Semelhantemente, as
tos, ao passo que na última passagem cada criatura tem apenas um rosto. Mas primeiras cinco pragas são outra vez baseadas nas pragas do Egito; ao passo que
as descrições dos rostos são a mesma em ambos os exemplos. Outros exemplos com a sexta praga a cena muda novamente para o rio Eufrates (16:12).
seriam os cavalos de Zacarias 1:8 (compare também com 6:2–3) e Apocalipse 6, 3. O que poderia ser denominado um tema “Queda-de-Babilônia/”Elias-no-
e as oliveiras em relação aos candelabros conforme apresentados em Zacarias Monte-Carmelo ocorre na sexta praga (16:12–16) (ver SHEA, 1980, p. 157–163).
4 e Apocalipse 11. O leitor ocidental moderno é inclinado a desejar a exatidão Aqui os antecedentes do Antigo Testamento proveem uma realidade
matemática com respeito ao uso simbólico, mas tal coisa é contrária à própria para a comunidade cristã que sobrepuja os significados originais. Nota-
natureza do simbolismo. Quando a natureza fluida do símbolo é compreendida, mos dois aspectos de interesse:
conforme ilustrada acima, as variações e variabilidade não devem nos inco- 1. O constante cuidado de Deus por seu povo nos tempos anteriores con-
modar. De fato, esta natureza fluida deve ela mesma ser para nós um impedi- tinua com a comunidade cristã, para quem Jesus Cristo é “o mesmo ontem e
mento contra o excesso de literalismo na interpretação. hoje e para sempre” (Hb 13:8). O conceito está inerente na afirmação de Cristo
É importante, contudo, que permaneçamos dentro dos limites do uso con- de ser o Alfa e o Ômega (1:8; 22:13). De fato, a nova comunidade cristã, inclu-
vencional de símbolos. Ao interpretarmos qualquer símbolo específico do livro sive aquele segmento representado pelas congregações da Ásia que constituíam
28 de Apocalipse, por exemplo, devemos pensar em termos da extensão dos sig- a paróquia de João, era uma continuação na linhagem das pessoas a quem Deus 29
nificados convencionais. Então fazemos nossa interpretação sobre a base de um tinha escolhido e sustido em face da adversidade e dos ardis do diabo.
significado que se harmoniza com o contexto específico do Apocalipse. 2. A igreja cristã representa uma intensificação de tudo o que Deus tem feito
Realidade interna do simbolismo. Um motivo por que os símbolos são por seu povo no passado. Não somente essa comunidade está na linhagem da
fluidos é que eles retratam uma realidade interior que funciona além do fé, mas representa uma culminação dos propósitos e planos de Deus para o seu
significado do item ou itens específicos que servem como sua fonte. Minear povo. Donde, todas as significativas experiências na história do trato de Deus
explica esta função como segue: com o seu povo escolhido no Antigo Testamento podem ilustrar, ao menos em
um ponto, a experiência que pode ser esperada pelos cristãos. E a experiência
Este é um modo abrangente em vez de disjuntivo de ver e pensar. Apreende cristã, como já foi notado, transcenderá aquelas experiências ou eventos origi-
eventos em termos de sua estrutura interna como respostas à ação divina. A ação nais nos quais se baseiam as representações simbólicas.
divina em cada época levava a um reconhecível modelo de reações, e o profeta Partindo da discussão anterior, vemos que os antecedentes simbólicos estão fre-
procurava discernir esse modelo por causa de seus leitores. “Egito” permaneceu quentemente fundidos ou misturados. Essa mistura de simbolismo para as imagens do
um nome distintivo, mas transmitia uma riqueza simbólica de significado não
Apocalipse é, realmente, característica do livro. Portanto, enfatizamos novamente que
limitada pelo contexto original nem desprezadora dele. Por trás desse modo de
ver estava uma postura ontológica distintiva, à qual devemos dar mais atenção em cada caso os significados originais dos materiais antecedentes não foram destruí-
do que geralmente fazemos (MINEAR, 1965–1966, p. 95–96). dos. Nem há uma negação ou minimização dos eventos ou situações históricas alu-
didas nas imagens. Antes, esta mistura de antecedentes simbólicos retrata uma nova
Exemplos dessa dinâmica podem ser facilmente supridos no livro de Apocalipse.
De fato, não seria incorreto declarar que isto representa a maneira básica em que
o simbolismo funciona dentro do Apocalipse. Por exemplo:
Estudos selecionados em interpretação profética Princípios fundamentais de interpretação

realidade que transcende qualquer antecedente individual, ou mesmo a combinação deveria ser a aplicação da mensagem; antes, deixe que a própria mensagem seja
de antecedentes, de sorte que o todo excede a soma das partes.15 o guia para o cumprimento histórico.
Sugestões para a interpretação do simbolismo do Apocalipse. Como uma 9. Não procure achar uma aplicação para cada detalhe de um extenso sim-
questão de conveniência, provemos a seguinte lista de sugestões para a interpretação bolismo; em vez disto, obtenha a imagem ou lição principal. Partes de apresen-
dos símbolos do Apocalipse. Esta lista não é abrangente; além disso, o intérprete não tações simbólicas muitas vezes simplesmente completam o quadro.
deve usá-la desajeitadamente, mas deve considerá-la um guia sugestivo para o leitor 10. Reconheça que a extensão de uma apresentação simbólica pode variar
confrontado pelo vasto e enigmático uso de linguagem simbólica no Apocalipse.16 de uma simples metáfora para uma extensa alegoria e que o significado de um
1. Compreenda o símbolo pelo que ele é: uma figura ou sinal que é fluido e símbolo específico pode variar em diferentes contextos.
de natureza representativa.
2. Reconheça as razões para o uso de símbolos na passagem e contexto es- Propósito e tema do Apocalipse
pecífico em estudo.
3. Descubra tanto quanto possível a fonte ou fontes do simbolismo, obser- Determinar o propósito e tema de determinado livro da Bíblia é um dos pro-
vando o significado original e quaisquer significados derivados para a comuni- cedimentos básicos da eficiente interpretação bíblica. Isto é verdade para o Apoc-
dade que agora o está usando. alipse, bem como para qualquer outro escrito da Bíblia. Como regra, os comentaris-
4. Considere o símbolo do ponto de vista do tipo de literatura onde ele tas são cuidadosos em anotar pistas indicando o propósito do escritor e o tema. Mas
ocorre (apocalíptico para o livro de Apocalipse, uma literatura que é caracteri- também tem havido com muita frequência cuidado insuficiente a este respeito com
zada por uma cósmica ênfase escatológica, assinalados contrastes etc.). o livro de Apocalipse. Vejamos o que nos diz o próprio Apocalipse.
5. Note a relação do símbolo com o principal tema que está sendo tratado.
Propósito do Apocalipse
Por exemplo, a mensagem de qualquer uma das sete trombetas deve ser com-
30 O propósito do livro de Apocalipse é apresentado claramente em seu preâm- 31
patível com o tema mais amplo de toda a visão das sete trombetas.
bulo: “Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos
6. Considere o símbolo dentro do seu contexto literário imediato ou a con-
as coisas que em breve devem acontecer” (1:1).
figuração textual. Também deve haver compatibilidade neste nível.
Em vista desta declaração explícita, é notável que alguns comentaristas
7. Interprete o símbolo em relação com o seu uso convencional. Seu signifi-
afirmem que o Apocalipse não tem nada a dizer acerca de eventos futuros para
cado preciso (dentro do âmbito de sua utilização convencional) deve ser deter-
o tempo de João. Sugerem que o Apocalipse é simplesmente um belo retrato de
minado pelo tema que está sendo tratado e em harmonia com a configuração
Cristo e dos ideais que surgem desse retrato. Um belo retrato de Cristo é real-
textual imediata — os princípios enunciados nos números 5 e 6 acima.
mente apresentado ao longo do Apocalipse, mas negar o propósito declarado do
8. Quando estiver procurando a aplicação histórica, tome cuidado para não
livro em desvendar eventos futuros contradiz sua própria asserção.
tomar a história sob medida a fim de se ajustar a ideias preconcebidas do que
Duplo tema do Apocalipse
O duplo tema do Apocalipse explica mais detalhadamente o propósito da
profecia. Conforme declarado no prólogo e no epílogo, o tema é o seguinte:
15
  Em todo este processo tem ocorrido algo que, usando a terminologia de Austin Farrer, po-
deria ser chamado “um renascimento de imagens”. (Este, de fato, é o título do seu comentário;
Eis que [Cristo] vem com as nuvens, e todo o olho o verá […]. Eu sou o Alfa
ver FARRER, 1970) Contudo, há mais do que renascimento. Conquanto renascimento pudesse
referir-se simplesmente a imagens individuais e também possivelmente a combinações, a fusão e o Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que há de vir, o Todo-
ou mistura para a qual tem sido chamada a atenção envolve uma dinâmica na qual amplas rep- -poderoso (1:7–8).
resentações gráficas levam-nos ao centro das grandes realidades ontológicas e soteriológicas da
teologia do Novo Testamento que são vitais e de interesse para a vida contínua e serviço da Igreja
Cristã.
16
  Esta listagem é quase textual de Strand (1979, p. 29).
Estudos selecionados em interpretação profética Princípios fundamentais de interpretação

Eis que venho sem demora, e comigo está o galardão, que tenho para retribuir Um quiasma literário
a cada um segundo as suas obras. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Últi- Devemos permitir que o próprio livro nos dê as indicações para o seu esboço.
mo, o Princípio e o Fim (22:12–13). Quando é seguido este procedimento, um belo e amplo modelo literário para todo
o livro realmente surge do texto. Toma a forma de um quiasma, isto é, um modelo
Segundo Advento. Um importante foco do livro de Apocalipse é o segundo ad- de paralelismo inverso. Os dados de suporte para o esboço não podem ser dados em
vento de Cristo. Nosso Senhor virá para pôr fim ao reino do pecado e tristeza, dor e detalhes aqui, mas algumas observações exigem menção.18
sofrimento, enfermidade e morte. E quando Ele vier, seu galardão estará com Ele — Existe uma importante divisão estrutural entre os capítulos 14 e 15. Um
um justo galardão para recompensar todas as pessoas segundo as suas obras. prólogo e quatro importantes visões precedem essa linha divisória, e qua-
Seu retorno trará a erradicação final do pecado e suas horríveis consequên- tro importantes visões e um epílogo a seguem. O prólogo e o epílogo são
cias de miséria e aflição, destruirá os destruidores da Terra (11:18), e garantirá paralelos um ao outro. Há um paralelismo similar (em ordem inversa) das
uma herança eterna àqueles que têm seguido lealmente em Seus passos. visões da primeira divisão do livro com as visões da última divisão. Veja o
Sempre presente. Mas Cristo também é retratado no Apocalipse como estando diagrama do capítulo 2 deste volume.
sempre presente com seus fiéis seguidores durante toda a sua tribulação no presente. Vemos que as visões antes da pausa no final do capítulo 14 tratam principal-
Ele é o Alfa e o Ômega, Aquele que foi morto, está agora vivo, vive para sempre, e mente da Era Cristã. As visões depois da pausa estão focalizadas na era do juízo
tem as chaves da morte e do Hades (veja 1:17–18). Sua vitória é também nossa escatológico. As visões da primeira parte do livro revelam que a igreja é defeituosa.
vitória, mesmo em face da morte (ver Ap 12:11). Ou como é dito tão formosamente Os santos de Deus são perseguidos, e as forças do mal estão tendo um período de
no livro de Hebreus, Jesus é o “autor e consumador de nossa fé” (Hb 12:2). grande sucesso. Contrastando, as visões que se iniciam com o capítulo 15 revelam
uma mudança radical, de sorte que há gloriosa vitória para os santos de Deus e
Estrutura literária do Apocalipse ruína para os poderes que outrora dominavam sobre eles.
32 Os expositores da Bíblia geralmente tentam determinar não somente o As visões até o capítulo 14 podem ser caracterizadas como a “era histórica”, e 33
propósito e tema de um determinado escritor, mas também o seu procedi- aquelas depois disso como a “era do juízo escatológico”. Na primeira, sai o clamor
mento em desenvolver esse tema. Assim, os comentaristas frequentemente das almas debaixo do altar: “Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro,
incluem um esboço do livro em estudo. não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?” (6:9–10). Na
Os comentários do Apocalipse geralmente incluem esboços. Mas quando os última encontramos uma contrapartida na aclamação: “pois [Deus] julgou a grande
comparamos, descobrimos que a maioria é incoerente uns com os outros e fre- meretriz […] e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos” (Ap 19:2).
quentemente incompatíveis com o próprio texto do Apocalipse. Alguns esboços Nas cenas da primeira grande parte de Apocalipse, as visões 2, 3 e 4 revelam
que diferem entre si são, não obstante, mutuamente compatíveis, como tenho sa- uma sucessão de eventos ou desenvolvimentos que alcançam e incluem o segundo
lientado em outra parte, enquanto outros esboços (a maioria deles) simplesmente advento de Cristo. Assim, o último item de cada série nos leva ao ponto culmi-
não se ajustam em um modelo coerente (ver STRAND, 1979, p. 33–41).17 nante escatológico final. Contudo, os eventos antes desse ponto culminante lidam
Não é o nosso propósito chamar a atenção para a variedade de esboços especificamente com a era histórica. Por causa dessa ênfase primária eles podem ser
disponíveis nos comentários de hoje. Antes, desejamos focalizar um esboço corretamente designados como visões da “era histórica”.
específico que surge diretamente do próprio texto do Apocalipse. Subsequente- Na segunda metade do livro as próprias visões manifestam coerentemente a
mente, verificaremos outros padrões literários com uma importante referência perspectiva do juízo escatológico. Todavia, elas incluem duas espécies de mate-
sobre como o Apocalipse deve ser interpretado. rial que pertencem à era histórica: (1) explicações, que necessariamente devem

18
  Para um estudo mais extenso do arranjo literário do Apocalipse e seu impacto sobre a inter-
  Uma variedade de esboços chama a atenção do leitor. Veja também os ensaios do Apêndice
17
pretação, veja os dois próximos capítulos do mesmo autor, “As oito visões básicas”; e “Cenas da
(p. 65, 75–79). ‘Introdução vitoriosa’” (ver STRAND, 1979, p. 43–52; 1983, p. 22–23).
Estudos selecionados em interpretação profética Princípios fundamentais de interpretação

ser do próprio ponto do profeta no tempo a fim de serem compreendidas por Seções paralelas. Embora o leitor seja remetido a outro lugar para os dados
ele e seus leitores; e (2) apelos, que obviamente devem ser aplicados no período que apoiam o esboço que temos apresentado (ver STRAND, 1979, p. 45–47),
antes do encerramento da graça humana para que sejam ouvidos. Estes não algumas observações devem ser feitas aqui.
são “encruzilhadas” nas próprias visões, porque o cenário das visões do juízo Primeira, a fim de serem correlativos genuinamente paralelos, as visões de-
escatológico é invariável, começando com as sete últimas pragas e continuando vem apresentar evidência de marcante semelhança em itens mencionados, em
através dos eventos subsequentes até que seja atingido o glorioso ponto culmi- amplos contextos básicos ou configurações. Semelhanças isoladas não são im-
nante na descrição da Nova Jerusalém e da nova Terra. portantes neste aspecto. Mas quando há grupos de semelhanças, então levamos
Quando consideramos esta estrutura quiástica do Apocalipse, imediatamente a sério a possibilidade de correlativos quiásticos.
vemos que ela bem se alinha com o duplo tema declarado no prólogo e no epílogo. Por exemplo, vários expositores têm notado tais grupos entre o prólogo e o
A primeira grande parte do livro (caps. 1–14) lida com a era em que o Alfa e o epílogo. Em cada uma dessas breves seções encontramos menção da mensagem
Ômega é o protetor e mantenedor do Seu povo a despeito das provas e perseguições do livro como sendo enviada por um anjo e referindo-se às coisas que em breve
que podem vir em seu caminho. A segunda grande parte do livro, começando com devem acontecer (1:1; 22:6), referência a João como o receptor da visão (1:9;
o capítulo 15, lida com os juízos escatológicos que se agrupam em torno e se cen- 22:8), menção das “igrejas” (1:4–6; 22:16), e pronúncia de uma bênção sobre
tralizam na consumação da era: o segundo advento de Cristo. aqueles que ouvem as mensagens (1:3; 22:7), bem como a declaração do duplo
tema observado anteriormente (1:7–8; 22:12–13).
Determinando o arranjo literário do Apocalipse Muitos expositores reconhecem que a descrição da Nova Jerusalém-nova
A ampla estrutura quiástica que abrange todo o livro de Apocalipse é vital em Terra nos capítulos finais de Apocalipse evoca (como cumprimento) as promes-
suas implicações teológicas Em primeiro lugar, enfatiza o duplo tema da profecia reg- sas feitas aos vencedores nas mensagens às sete igrejas nos capítulos iniciais.
istrado acima. Ainda mais importante, o esquema habilita o intérprete a reconhecer a Semelhanças entre as visões “parelhas” (o que temos chamado de tema “Êxodo-
34 localização adequada e a ênfase a ser dada aos temas específicos ou principais ideias do-Egito/Queda-de-Babilônia”) frequentemente têm sido notadas tais como alvos 35
teológicas do livro. Consequentemente, podemos examinar mais de perto os procedi- similares para as trombetas e pragas (terra, mar, rios, e fontes etc.), e tema e paralelis-
mentos pelos quais essa estrutura quiástica foi determinada, um procedimento que mos verbais entre os capítulos 12 a 14 e 17 a 18 (uma mulher em cada um; animais
deve guiar na descoberta de todos os padrões literários bíblicos. de sete cabeças e dez chifres; pronunciamentos da queda de Babilônia etc.). Apesar
Derivado do texto. O ponto de fundamental importância, que não pode ser do reconhecimento de tais semelhanças, os estudiosos do Apocalipse geralmente não
enfatizado demais, é que o próprio texto deve ser a fonte e o guia para determi- têm discernido como elas são paralelas umas às outras de uma maneira quiástica.
nar a estrutura literária. No desenvolvimento do modelo esboçado acima, nen- Menos frequentemente observado pelos comentaristas é o paralelismo quiás-
huma outra consideração estava envolvida, porque a hermenêutica adequada tico entre Apocalipse 4:1 a 8:1 e 19:1 a 21:4. Mas estas duas seções também têm gru-
requer que retiremos do texto o seu modelo. Mesmo a existência do principal pos de similaridades. Ambas têm um cenário em que Deus está assentado sobre um
quiasma tinha de ser vista no próprio texto do Apocalipse. trono, circundado por quatro seres viventes e vinte e quatro anciãos. Nesse cenário
Muitos estudiosos não tinham considerado a possibilidade de uma estrutura ambas têm aclamações e antífonas semelhantes de louvor a Deus e ao Cordeiro.
quiástica em Apocalipse até minha própria descoberta ao longo de um período Na última visão vem a resposta ao clamor dos mártires da primeira visão,
de vários anos durante a década de 1950. Hoje, vários pesquisadores estão agora relacionando-se a Deus como “julgando” e “vingando-os”. Um cavaleiro em um
alerta a isto, inclusive C. M. Maxwell, que tem utilizado meu esboço com ligeiras cavalo branco é retratado em ambas as visões. Desgraça vem aos “reis da terra”
adaptações como a estrutura básica do Apocalipse no volume 2 da sua obra (ver n. e a outros grupos especificados. É feita referência às bênçãos da habitação de
3). No processo da descoberta, certos paralelismos no próprio texto continuaram Deus com o Seu povo e ”enxugando todas as lágrimas de seus olhos” etc.
me confrontando; estes finalmente levaram ao esboço descrito acima. Certamente tal abundância de semelhanças significativas entre duas visões
indica que elas são correlativas. Quando colocadas em posição com outros
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pares de visões que têm relações semelhantes (conforme indicadas no próprio capítulo 14. Este modelo quádruplo (ou série de modelos) pode ser ilustrado
texto bíblico), aparece a estrutura quiástica geral do Apocalipse. como no gráfico da página 34.
Nas primeiras três visões da série da era do “juízo escatológico” (Ap 15–
Outros quiasmas em Apocalipse 21:4), existe um tipo semelhante de modelo quádruplo, adaptado, é claro, ao
O Apocalipse, além disso, contém outros modelos quiásticos literários além que é apropriado para essa era específica. Embora esteja além do nosso escopo
dos principais que temos discutido. Estes podem abranger capítulos múltiplos, esquematizar essas visões, notamos que a segunda seção delas pode ser denom-
cobrir um capítulo (Ap 18, por exemplo), ou ocorrer em seções ainda mais inada “A progressão julgadora”, e a terceira seção provê “Apelos”.19
breves. Aqui apresentamos um destes como exemplo. Abrange certos itens e Resumindo, concluímos que o Apocalipse tem um notável equilíbrio em
uma dinâmica específica nos capítulos 12 a 20. seus padrões literários. Como nota final, devemos observar que as cenas
Muitos expositores creem que uma linha divisória básica no Apocalipse introdutórias às oito visões são colocadas em um contexto do templo ou
ocorre entre os capítulos 11 e 12. Um motivo é que os capítulos 12 e 13 intro- abrangem imagens do templo. Basta salientar que este “cenário do templo”
duzem o que parece ser um novo elemento, a saber, a trindade antidivina do para as cenas da “Introdução vitoriosa” provê um dos meios pelos quais é
dragão, a besta do mar e a besta da terra. Portanto, deve o livro ser dividido retratada a forte “continuidade vertical” do Apocalipse.
neste ponto em vez de entre os capítulos 14 e 15?
Está claro do texto bíblico que as visões até o capítulo 14 são de fato da Estrutura literária e interpretação
“era histórica” (com três delas culminando no segundo advento de Cristo), en- Embora outros fatores além da estrutura literária do Apocalipse exerçam
quanto as visões subsequentes são colocadas em um cenário depois do término impacto sobre sua interpretação, um eficiente procedimento de estudo não
da graça humana. Contudo, a própria descrição da trindade antidivina mais deve excluir a sua entrada. De fato, a estrutura básica e outros padrões que te-
“Babilônia” e os adoradores da besta revela um quiasma. mos indicado acima proveem importantes diretrizes para a interpretação.
36 Nesta série as entidades descritas entram em cena durante a era histórica Primeira, a estrutura literária indica que qualquer interpretação que faz 37
na ordem de: as mensagens do Apocalipse ou inteiramente históricas ou inteiramente es-
1. O dragão (cap. 12). catológicas é incorreta, porque o livro está dividido em grandes partes que
2. A besta do mar e a besta da terra ou “falso profeta” (cap. 13). são históricas e escatológicas, respectivamente.
3. Babilônia (14:8). Segunda, absolutamente nenhum método linear de interpretação expondo uma
4. Os adoradores da besta (14:9–11). cadeia de eventos ou desenvolvimentos completamente sequencial é válida, quer
Eles encontram sua condenação durante a era do juízo escatológico na exa- isto seja do ponto de vista preterista, contínuo histórico (historicista), ou futurista.
ta ordem inversa de: Porque se o livro deve ser realmente dividido no final do capítulo 14 em divisões
4. Os adoradores da besta (16:2). históricas e escatológicas, esse arranjo literário quiástico torna suspeita qualquer
3. Babilônia (16:19–18:24). interpretação que cruza a linha divisória com uma contínua sequência de eventos
2. A besta do mar e o falso profeta (19:20). em “fileira cerrada”. Isto é verdade quer a sequência seja considerada como tendo
1. O dragão (20:1–10). cumprimento no mundo antigo, em uma contínua corrente de eventos ao longo da
O ponto significativo a notar aqui é que a linha divisória entre a era quando Era Cristã, ou em uma série de eventos ainda futura.
eles têm soberania e quando eles encontram sua condenação vem precisamente Terceira, as evidências para recapitulação em Apocalipse (compare as estruturas
quando ocorre a pausa quiástica para todo o livro no final do capítulo 14. literárias em paralelo mencionadas acima) tornam razoável admitir que dentro de
cada parte principal do Apocalipse o mesmo terreno geral é coberto em sequências
Padrões que revelam sequência repetidas (ao menos de alguma maneira recapitulacionista ou sobreposta). Assim,
Na seção da era histórica do livro de Apocalipse há um padrão literário
repetido no mínimo três vezes. Inicia-se com o capítulo 4 e termina com o
  Veja os caps. 2 e 3 deste volume com seus diagramas anexos.
19
Estudos selecionados em interpretação profética Princípios fundamentais de interpretação

a mesma era ou cenário histórico é visto de diferentes perspectivas ou em aspectos _____________. Apocalyptic, Apocalypse. In: HARRISON, E. F. (Ed.). Baker’s dictio-
divergentes nas quatro visões que formam a primeira divisão do livro. nary of theology. Grand Rapids: Baker Book House, 1960.
Quarta, devemos interpretar uma dada seção de materiais segundo sua
localização na principal estrutura quiástica do livro. Por exemplo, o chamado
_____________. The blessed hope: a biblical study of the second advent and the rapture.
ponto de vista “amilenarista”, que equipara o período de mil anos de Apocalipse
Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1956.
20 com a Era Cristã, é refutado pelo fato de que João o coloca diretamente den-
tro da série de visões do “juízo escatológico”.
Finalmente, não deve ser ignorado que a divisão do livro em duas grandes LINDSAY, H. There’s a New World Coming. Santa Ana: Random House, 1973.
partes com subseções análogas pode guiar-nos em torno de uma adequada in-
terpretação de passagens específicas. Além disso, sempre que uma passagem em
uma das divisões do Apocalipse é compreendida, ela pode fornecer pistas com MAXWELL, C. M. God cares: the message of Revelation to you and your family. Boise:
respeito ao significado da passagem correlativa na outra divisão do livro. Pacific Press Publishing Association, 1985. v. 2.

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_____________. Testemunhos para ministros e obreiros evangélicos. Tatuí: Casa Pu-


blicadora Brasileira, 2000.

O livro de Apocalipse é uma


40 peça literária notavelmente bem
construída, contendo uma multi-
plicidade de padrões perfeitamente
entrelaçados. Tais padrões são
mais do que simplesmente demon-
strações de gosto estético e ha-
bilidade de composição, e também
transcendem o propósito útil de
servir como artifícios mnemônicos.

1
  Reimpresso com permissão da Andrews
University Seminary Studies (v. 25 de 1987),
sob o título “The Eight Basic Visions in
the Book of Revelation.”
Estudos selecionados em interpretação profética As oito

Diagrama 1. A estrutura Quiastica do livro de Apocalipse

III IV V VI
II 8:2 - 11:18 11:19 - 14:20 15:1 - 16:17 16:18 - 18:24
VII
Anúncio das Poder do mal “Taças da Poderes do
I 4:1 - 8:1 19:1 - 21:4 VIII
trombetas se opondo a ira de Deus” mal julgados
O trabalho Deus e os seus por Deus Julgamento
Prólogo 1:10b - 3:22 21:5 - 22:5 Epílogo
contínuo santos final de Deus
“Igreja (As últimas 7 “A Igreja
1:1 - 10a de Deus na (7 Trombetas) 22:6-21
Militante” pragas) triunfante”
Salvaçao (2º advento de
“Êxodo” | “Queda de Babilônia” “Êxodo” | “Queda de Babilônia” Cristo, o milênio, (“Novo céu e
(Igreja na (7 selos) o julgamento do Nova Terra”;
terra: as 7 trono branco) Cidade santa e
igrejas) nova Jeusalém)

Realmente, de maneira direta e eficaz, enfatizam vários aspectos da mensagem sete, como têm defendido vários intérpretes. 3 Concernente ao segundo
42 teológica do livro. item, várias ressalvas devem ser notadas: da segunda à quarta visões, cada
43
Em escopo mais amplo, todo o Apocalipse está estruturado em um modelo sequência histórica conclui com uma seção que retrata o tempo do juízo
quiástico geral em que prólogo e epílogo são correlativos e em que as grandes escatológico; e nas visões subsequentes, que em sua essência provê uma
sequências ou visões proféticas intervenientes são também emparelhadas em ampliação sobre a era do juízo escatológico, há dois tipos de material que
uma ordem quiástica ou inversa. Esta ampla estrutura quiástica e seu signifi- pertencem à era histórica — explicações (que obviamente devem ser fei-
cado eu tenho tratado em várias ocasiões anteriores (ver STRAND, 1969, p. 43- tas em termos da própria perspectiva do profeta na história) e exortações
51; 1979; 1983, p. 22-23),2 e elas não precisam de detalhes para nossos propósi- ou apelos (que têm valor somente antes do juízo escatológico e que, é
tos aqui, exceto a menção de duas características específicas: (1) Com exceção claro, seriam sem sentido no próprio tempo do juízo final escatológico).
do prólogo e do epílogo, há oito grandes sequências proféticas — quatro que Estas ressalvas concernentes às “exceções” ao principal objetivo ou alcance
precedem e quatro que seguem uma linha traçada entre os capítulos 14 e 15. (2) das visões em cada lado da linha divisória quiástica não devem, porém,
As visões que precedem a linha divisória quiástica têm basicamente uma per-
spectiva histórica (isto é, elas se relacionam com a Era Cristã), e as visões que
seguem a linha divisória quiástica retratam a era do juízo escatológico. 3
  Tais intérpretes têm evidentemente chegado à conclusão de que sendo que “sete” é um núme-
ro-símbolo significativo no Apocalipse — ocorrendo, por exemplo, em quatro septetos explícitos
Com respeito ao primeiro item acima, deve ser enfatizado que exis-
(as igrejas, selos, trombetas e taças) — também supostamente existe um total de sete visões bási-
tem realmente oito grandes sequências proféticas no Apocalipse, e não cas. Para exemplos da abordagem das sete visões, veja Ernst Lohmeyer (1926), John Wick Bow-
man (1955; 1981, v. 4) e Thomas S. Kepler (1957). Lohmeyer e Bowman também acham septetos
dentro de todas as suas sete principais visões, embora não haja acordo entre eles mesmo quanto
2
  Veja especialmente a discussão o diagrama em 52 no Livro Interpreting the Book of Revelation. a essas sete visões. Kepler, por outro lado, acha apenas um total de dez subseções (chamadas
As divisões exatas entre blocos de texto no Apocalipse em vários exemplos têm sido ligeiramente “cenas”) dentro de suas sete grandes visões (grandes visões cujos limites textuais variam apenas
modificadas no presente artigo da maneira como elas têm sido dadas em publicações anteriores. ligeiramente das sete grandes visões esboçadas por Bowman).
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Diagrama 2. Estruturas paralelas nas 8 maiores visões de Apocalipse


I II III IV V VI VII VIII
Victorious- Victorious- Victorious- Victorious- Victorious- Victorious- Victorious- Victorious-
introduction introduction introduction introduction introduction introduction introduction introduction
A scene scene scene scene scene scene scene scene A

Basic Prophetic Basic Prophetic Basic Prophetic Basic Prophetic Basic Prophetic Basic Prophetic Basic Prophetic Basic Prophetic
Description Description Description Description Description Description Description Description
B B

Interlude Interlude Interlude Interlude Interlude Interlude

D
C

Eschatological Eschatological Eschatological Eschatological Eschatological Eschatological


44 Culmination Culmination Culmination Culmination Culmination Culmination 45
E D

ser consideradas como materiais de “cruzamento”. Esses dados são partes ensaio analisa brevemente alguns modelos paralelos nas oito grandes visões
importantes de suas próprias sequências, estão na devida posição e falam do livro de Apocalipse. Então um estudo acompanhante4 focalizará um pou-
significativamente aos contextos em que são encontrados. Além disso, co mais intensamente os específicos blocos de texto que introduzem essas
são unidades distintas e significativas quanto à natureza, colocação e/ou oito visões e que podem ser designados como “cenas da introdução vito-
propósito, dentro de suas próprias visões específicas. riosa”, na medida em que provêem para cada visão um ambiente que retrata
Por razões práticas, a estrutura quiástica abrangente de Apocalipse em de forma dramática o presente cuidado de Deus por seu povo e dá certeza
prólogo, epílogo e oito visões é apresentada em forma de esboço no dia- da vitória final para os “santos” ou “leais” de Cristo. Para fins de identi-
grama 1, que inclui também minhas sugestões quanto aos limites textuais ficação no presente artigo, os algarismos romanos (I, II etc.) continuarão
e assuntos gerais das várias visões. Neste diagrama e ao longo do restante sendo usados, como no diagrama 1, para designar as oito visões. Cada visão,
da discussão neste artigo, o termo “visões” se referirá a estas oito sequên- porém, tem ou duas ou quatro principais seções ou blocos de texto, e letras
cias proféticas completas, não a experiências visionárias individuais de maiúsculas (A, B etc.) servirão como identificadores para estes.
menor extensão. Outrossim, os algarismos romanos serão usados para
identificar as visões em sequência.
O presente estudo tem duas grandes finalidades, e os dados pertencentes
a cada uma destas serão apresentados em artigos separados. Primeira, o   Isto aparece como capítulo 3 neste volume.
4
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1. Análise dos padrões dentro das oito visões As visões históricas


A primeira e a visão final (I e VIII) do Apocalipse são compostas de uma “Cena
da introdução vitoriosa” (A), mais outro grande bloco de texto (B) que pode ser Visão I, 1:10b–3:22
chamado a “descrição profética básica”. As outras seis visões (II-VII) têm estes mes- Bloco A, cena da introdução vitoriosa, 1:10b-20. Cristo aparece a João em
mos dois blocos, mas com a adição de dois outros blocos (C e D). Patmos como o que vive para sempre e Todo-poderoso, que caminha entre os
Neste ensaio, os terceiros blocos de texto da segunda até a sétima visões sete candeeiros de ouro que representam as sete igrejas.
são fornecidas as legendas básicas do “Interlúdio” — um termo muito reg- Bloco B, descrição profética básica, capítulos 2 e 3. Cristo dá mensagens
ularmente aplicado pelos exegetas para estas seções específicas nas visões de aprovação, reprovação, advertência e exortação a igrejas individuais como
II, III e IV, mas igualmente aplicáveis às correspondentes (porém muito necessitam suas variadas condições.
mais breves) seções nas visões V, VI e VII. Deve ser notado, porém, que
embora o termo “interlúdio” frequentemente sugira uma interrupção ou Visão II, 4:1–8:1
hiato dentro do fluxo do pensamento, o que fazem estes terceiros blocos Bloco A, cena da introdução vitoriosa, capítulos 4 e 5. João vê um trono
de material nas visões IV-VII do Apocalipse é realçar ou intensificar o armado no Céu, com um mar de vidro e sete lâmpadas de fogo diante do trono,
objetivo do material que precede imediatamente. 5 O quarto bloco pode ser e com quatro seres viventes e vinte e quatro anciãos ao redor do trono. Em
designado como a “culminação escatológica”; e em certo sentido, ele e o uma cena dramática e repleta de suspense é feita a declaração de que somente
“interlúdio” precedente são realmente uma extensão da “descrição profé- o Cordeiro morto é digno de tomar da mão dAquele que estava assentado no
tica básica” iniciada no segundo bloco. trono um livro selado com sete selos e abrir o livro e desatar os selos. Então o
Embora seja necessário posteriormente neste artigo adicionar certos Cordeiro toma o livro, e antífonas de louvor ascendem dos quatro seres viventes,
46 refinamentos para a análise básica precedente, a esta altura devemos re- dos vinte e quatro anciãos e de todo o Universo. 47
sumir em forma de diagrama os resultados alcançados até aqui. Tal re- Bloco B, descrição profética básica, capítulo 6. Os primeiros seis selos
sumo é provido no diagrama 2. do livro são abertos, com o resultado de que saem os quatro cavaleiros, almas
debaixo do altar pronunciam um clamor de “Até quando” até que há julgamento
e vindicação para elas, e são dados sinais na Terra e no céu do juízo iminente.
2. Resumo dos conteúdos das visões
Bloco C, interlúdio, capítulo 7. A sequência é “interrompida” para fo-
Nesta conjuntura é útil ter uma visão geral do conteúdo de cada uma calizar o selamento dos 144.000 durante o fim dos tempos.
das oito visões. Os resumos aqui apresentados seguem as linhas gerais Bloco D, culminação escatológica, 8:1. O sétimo selo é aberto, ante o qual
há “silêncio no céu” pela duração de meia hora.
da estrutura indicada acima. Deve ser enfatizado que estes são realmente
sumários, e o leitor pode preencher os detalhes consultando os textos in- Visão III, 8:2–11:18
dicados para cada uma das visões. Bloco A, cena da introdução vitoriosa, 8:2-6. Aparecem sete anjos com
trombetas, e outro anjo se dirige ao altar de ouro e ali oferece incenso cuja
fumaça, misturada com as orações dos santos, ascende a Deus. Em seguida, o
anjo enche um incensário com brasas vivas do altar e o lança sobre a Terra, re-
sultando nos símbolos de juízo de vozes, trovões, relâmpagos e terremoto.
Bloco B, descrição profética básica, 8:7–9:21. As primeiras seis trombetas
são tocadas e liberam forças devastadoras que abrangem os simbolismos de
5
  Paul S. Minear (1968, p. 150) tem falado acerbamente sobre este assunto em conexão com o
uma tempestade de saraiva sobre a Terra, uma grande montanha que ardia em
“interlúdio” que ocorre em 16:15.
chamas foi atirada no mar, etc. As primeiras cinco dessas trombetas evocam
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imagens das pragas sobre o antigo Egito, mas a sexta trombeta muda o cenário Bloco D, Culminação Escatológica, 14:14-20. É ceifada a dupla seara
para Babilônia pela menção do “grande rio Eufrates” em 9:14.6 da terra — (1) a colheita do trigo, e (2) as uvas que são lançadas no grande
Bloco C, interlúdio, 10:1–11:13. Um anjo segurando um livrinho aberto lagar da ira de Deus.
anuncia (10:6) que “já não haverá demora.”7 João recebe a ordem de comer o
livro e assim o faz, achando-o doce na boca e amargo no estômago; o profeta As visões do juízo escatológico
é então instruído a medir o templo, o altar e o povo (uma alusão direta, como
tenho mostrado em outro lugar, ao ritual do Dia da Expia- ção do final de ano
Visão V, 15:1–16:17
na antiga religião judaica (STRAND, 1984, p. 317-325); e são descritos o teste-
Bloco A, cena da introdução vitoriosa, 15:1–16:1. Os santos vitoriosos estão
munho e o ministério das duas testemunhas.
sobre o mar de vidro e cantam o Cântico de Moisés e do Cordeiro, e quando o “san-
Bloco D, culminação escatológica, 11:14-18. É tocada a sétima trombeta,
tuário do tabernáculo do testemunho” é aberto no Céu, sete anjos saem e recebem
resultando no anúncio de que “o reino do mundo se tornou de nosso Senhor e
sete taças “cheias da ira de Deus”, a fumaça enche o templo de sorte que ninguém
do seu Cristo”, então se ergue uma antífona de louvor, enfatizando, entre outras
pode entrar até que as sete pragas dos sete anjos fossem cumpridas, e finalmente é
coisas, que chegou o tempo para o julgamento dos mortos, para o galardão dos
dada instrução aos anjos para que saíssem e derramassem as sete taças.
santos, e para destruir “os que destroem a terra.”
Bloco B, descrição profética básica, 16:2-14. São derramadas as primeiras seis
Visão IV, 11:19–14:20 taças da ira, com efeitos devastadores sobre a terra, mar, rios e fontes etc. (Nova-
Bloco A, cena da introdução vitoriosa, 11:19. “O templo de Deus foi aber- mente, como no septeto das trombetas, as imagens para as cinco primeiras taças são
to no céu”, tornando visível “a arca da sua Aliança”; então ocorrem “relâmpagos, modeladas segundo as pragas do antigo Egito, com a cena mudando para Babilônia
vozes, trovões, terremoto e grande saraivada.” ao se referir a sexta taça ao “grande rio Eufrates em 16:12.)
48 Bloco B, descrição profética básica, capítulos 12 e 13. O dragão, a Bloco C, interlúdio, 16:15. Na descrição da sexta taça — a secagem do rio Eu- 49
besta do mar semelhante ao leopardo e a besta da terra de dois chifres frates e a presença de espíritos demoníacos que enganam os reis da Terra e os con-
perseguem o povo de Deus. duzem à “batalha do grande dia do Deus Todo-poderoso” (16:12-14) — é inserido
Bloco C, interlúdio, 14:1-13. João vê (1) o Cordeiro e os 144.000 santos um impressionante macarismo no verso 15: “Eis que venho como vem o ladrão.
vitoriosos em pé sobre o monte Sião, e (2) três anjos voando no céu e procla- Bem-aventurado aquele que vigia.” Então segue-se um comentário acrescentado no
mando mensagens de advertência. sentido de que o local da batalha é chamado “Armagedom” (v. 16).
Sendo que mudamos para a seção do Apocalipse que provê visões do juízo
escatológico, em vez de pertencer à era histórica, é óbvio que um novo tipo de
“interlúdio” pode ser esperado, como é realmente o caso aqui. Os interlúdios an-
teriores foram descrições de eventos ou condições um tanto detalhadas durante
uma porção final da era histórica. Os interlúdios que ocorrem nas visões V-VII
6
  O fenômeno aqui encontrado pode ser denominado o tema “Êxodo-do-Egito”/”Queda-de- são antes de uma natureza incisiva, exortatória.
Babilônia”. Ocorre duas vezes, em cada exemplo abrangendo duas visões completas. A primeira Pode surgir a pergunta: Por que tais interlúdios aqui? Para este especial de
ocorrência é Ap 8:2–14:20 inclusive, e a segunda é Ap 15:1–18:24 inclusive (ver STRAND, 1981,
p. 128-29). Apocalipse 16:15, Paul S. Minear tem salientado apropriadamente: “A afirmação
7
  A diferença na tradução não é realmente tão significativa como a princípio poderia parecer. A revela o terrível perigo em que está o cristão desavisado. Se alguém pergunta com
passagem é uma óbvia alusão ao livro de Daniel que deveria permanecer selado até “o tempo do R. H. Charles: ‘Como poderia alguém dormir durante os terremotos cósmicos que
fim” (Dn 12:4; cf. Ap 10:2) e a interrogação feita por Daniel, “Até quando...?” (Dn 12:6). Qualquer estavam acontecendo?’ pode-se responder: ‘Isto é apenas o ponto.’ Havia cristãos
tradução desta declaração específica em Ap 10:6 bem se ajusta como uma resposta à pergunta
dormindo, assim João acreditava, muito imperturbáveis por barulho ou destru-
feita por Daniel, e realmente é uma proclamação enfática da chegada do período do fim do tempo
projetado — “um tempo, dois tempos, e metade de um tempo” (Dn 12:7). O grego desta última ição, inconscientes do que estava acontecendo que poderia ameaçar o seu tesouro
cláusula de Ap 10:6 diz, hoti kronos ouketi estai. (Cf. o “até quando” de Dn 8:13.) ou deixá-los expostos e nus. Estar dormindo era estar inconsciente da urgente
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necessidade do momento. (Compare com os discípulos em Getsêmani — Mc Babilônia pelo fogo; e a seção final do capítulo (v. 21-24) enfatiza a condenação de
14:26-42.) A beatitude era designada para sentinelas que haviam se esquecido de Babilônia e sua condição inteiramente desolada após o juízo divino sobre ela.
que uma guerra estava sendo travada” (MINEAR, 1968, p. 150).
Bloco D, Culminação Escatológica, 16:17. É derramada a sétima taça da Visão VII, 19:1–21:4
ira, e sai do trono no templo do céu a declaração: “Está feito!” Bloco A, Cena da Introdução Vitoriosa, 19:1-10. N cenário celestial que
é paralelo ao cenário dado no capítulo 4, antífonas sobem em louvor a Deus
Visão VI, 16:18–18:24 por ter Ele julgado a grande prostituta Babilônia e vindicado o povo de Deus;
Bloco A, Cena da Introdução Vitoriosa, 16:18–17:3a. Ocorrem os sinais então é feita referência à esposa do Cordeiro estando pronta para as bodas, e
tradicionais de juízo (vozes, trovões, relâmpagos, terremoto e saraivada) e a uma bênção é pronunciada sobre aqueles que são “convidados para a ceia das
“grande Babilônia” entra em “lembrança julgadora” diante de Deus. João é então bodas do Cordeiro.” (Deve ser notado que embora o cenário do templo celestial
levado ao deserto para ver esse julgamento contra Babilônia. dos capítulos 4 a 5 e do capítulo 19 seja o mesmo, há diferença com respeito à
Bloco B, Básica Descrição Profética, 17:3b–18;3. A descrição de Babilônia atividade e perspectiva — um fato também deixado claro pelo conteúdo das
como uma prostituta e também da besta cor de escarlate com sete cabeças e dez antífonas nas duas visões. A primeira visão pertence claramente à era histórica,
chifres sobre a qual ela se assenta é introduzida nos primeiros versos do capítulo e esta se refere da mesma forma claramente à era do juízo escatológico.
17 (v. 3b-8). Esta cena descritiva é seguida por considerável detalhe explicativo Bloco B, Básica Descrição Profética, 19:11–20:5. O segundo advento de
(v. 9-18) que culmina em uma referência à devastação da prostituta pelos dez Cristo é dramaticamente retratado, e são dadas as consequências dele. Ente os
chifres da besta (v. 16-17) e a identificação dessa meretriz como a grande cidade resultados negativos enumerados estão o banquete das aves consistindo dos in-
que reina sobre os reis da terra (v. 18). Nos primeiros três versos do capítulo 18, imigos de Deus (19:17-18), a sorte do lago de fogo para a besta e o falso profeta
uma narração de vários aspectos da corrupção de Babilônia prepara o terreno (19:19-20), e o aprisionamento de Satanás no “abismo” por mil anos (20:1-3).
50 para o apelo do interlúdio e a descrição da destruição que segue. Do lado positivo está a primeira ressurreição, em que ressurgem os santos mar- 51
Bloco C, Interlúdio, 18:4-8, 20. Antes da descrição real da devastação de tirizados. Eles então vivem e reinam com Cristo durante mil anos (20:4-5).
Babilônia pelo fogo, é feito um apelo ao povo de Deus para “sair” de Babilônia, Bloco C, Interlúdio, 20:6. “Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte
para que não se tornem participantes de seus pecados e receptores de suas pra- na primeira ressurreição; sobre esses a segunda morte não tem autoridade...”
gas. Nesta conexão há também uma reiteração, de forma detalhada, do decreto Bloco D, Culminação Escatológica, 20:7–21-14. São apresentados os
divino de juízo contra Babilônia.Visto que na estrutura quiástica do material do eventos culminantes do final dos mil anos. Do lado negativo estão a soltura de
capítulo 18, verso 20 há um correlativo quiástico dos versos 4-8 (SHEA, 1982, Satanás, o ressurgimento de sua obra enganadora, o vão esforço de sua confed-
p. 249-256; STRAND, 1982, p. 53-60), ambos estes “interlúdios” dentro deste eração maligna para se apoderar do “acampamento dos santos”, e a destruição
quiasmo específico devem provavelmente ser considerados como o “interlúdio” final dessa confederação no fogo. Do lado positivo está a visão de João de “novo
total para a maior sequência de 17:3b–18:24. O verso 20 faz um chamado ao re- céu e nova terra”, com a cidade santa, a Nova Jerusalém descendo do Céu para
gozijo pelo fato de que Deus tem proclamado o juízo contra a própria Babilônia a Terra, e o próprio Deus habitando com o Seu povo.
que havia se imposto sobre o povo de Deus (ver STRAND, 1981, p. 55-59).8
Bloco D, Culminação Escatológica, 18:9-19, 21-24. A seção central do capítulo Visão VIII, 21:5–22:5
18 (v. 9-19) retrata, através de uma tríplice lamentação, a desolação completa de Bloco A, Cena da Introdução Vitoriosa, 21:5-11a. É feita a proclamação
de que os vitoriosos de Cristo herdarão todas as coisas, e João vê a cidade santa,
a Nova Jerusalém, descendo do Céu para a Terra. (Como um pano de fundo, a
seção final da visão precedente já retratou a condição da Terra depois da desci-
8
  Para uma tradução atualizada e mais literal de Apocalipse 18:20b, veja Strand (1986, p. 43-45). da da Nova Jerusalém (21:1-4).
No contexto de Apocalipse 18:4-8 e o v. 20 está a lei do testemunho malicioso (ver Dt 19:16-19;
veja também Et 7:9-10).
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Bloco B, Básica Descrição Profética, 21:11b–22:5. A santa cidade, Nova Quanto aos terceiros blocos de texto (C), nas visões II-IV a designação
Jerusalém, é descrita em detalhes. básica de “Interlúdio” pode igualmente ser complementada com uma frase
adicional — “Projetando os Últimos Eventos” (significando antes do segundo
3. OUTRA ANÁLISE DOS BLOCOS DE TEXTO A, B, advento de Cristo), visto que o “Interlúdio” em cada exemplo se estende sobre
CeD o período de tempo pouco antes da culminação escatológica. Para as visões V-
VII a frase adicional “Exortação ou Apelo’ é apropriada, porque os terrores das
Com o fundo anterior, podemos agora proceder a algumas outras gen- cenas do juízo final são “interrompidos” a fim de prover breves blocos de texto
eralizações sobre a natureza das respectivas seções (A, B, etc.) dentro das apresentando incentivo à fidelidade e/ou apelos ao arrependimento. (Em dois
oito visões. Além disso, podemos sugerir anotações adicionais para as desses exemplos de exortação ou apelo, o interlúdio é lançado, como já temos
legendas para estes blocos de texto, além do que já tem sido indicado nas visto, basicamente na forma de um macarismo — 16:15 e 20:4.)
seções anteriores deste artigo e no diagrama 2. As seções sobre “Culminação Escatológica” (os blocos D), todas pertencem à
Ao considerarmos a “Cena da Introdução Vitoriosa” para cada uma das consumação escatológica final, como foi observado antes, mas aquelas seções con-
oito visões, descobrimos que há sempre um cenário básico do templo e/ou clusivas para as visões II-IV provêem uma conclusão climática para as séries que se
algum tipo de imagem de fundo do templo.9 Portanto, nossas legendas de relacionam com a era histórica, enquanto que aquelas para as visões V-VII tratam
“Cena da Introdução Vitoriosa” (bloco A) pode agora ser complementada especificamente da porção final ou terminal da série juízo escatológico já em de-
com a frase “Com o Cenário do Templo”. senvolvimento nas seções anteriores daquelas visões. Os blocos D para as visões
Quanto ao segundo até o quarto blocos de texto (blocos B, C e D), II-IV podem, portanto, ser designados como “Culminação Escatológica: Clímax na
a diferença em perspectiva deve ser notada entre as visões que precedem a História; e os blocos D para as visões V-VII podem ser denominados “Culminação
linha divisória quiástica (visões I-IV) e a visão que a segue (visões V-VII). Escatológica: O Juízo Final”. O diagrama 3 (da página seguinte) incorpora os refi-
52 Com respeito às primeiras, a “Básica Descrição Profética” está dentro da namentos acima mencionados para os dados fornecidos no diagrama 2, e também 53
arena histórica; no tocante às últimas, o material da visão básica dos blocos inclui minhas sugestões quanto aos limites textuais para os blocos de material con-
B pertence ao juízo final ou escatológico. Portanto, para as visões I-IV a forme apresentados na segunda seção do presente artigo.
“Básica Descrição Profética” necessita a qualificação adicional “na História”;
e para as visões V-VIII esta qualificação seria “no Juízo Final”. 4. CONCLUSÃO
Neste artigo, temos observado que há uma muito coerente e equilibrada es-
trutura literária no livro de Apocalipse. Essa estrutura não tem somente valores
9
  Em alguns casos o templo celestial é mencionado explicitamente, como nas cenas introdu-
tórias às visões IV e V; e em outros casos, a alusão ao mobiliário do templo fornece evidência de ou qualidades estéticas e mnemônicas, mas também apela significativamente
um cenário do templo, embora a palavra “templo” não ocorra, como nas cenas para as visões I, para a mensagem teológica do livro. Vários aspectos da teologia serão trata-
II e III. As únicas cenas introdutórias que não têm um indício tão óbvio às imagens do templo dos em um artigo subsequente que explorará com mais detalhes as “cenas da
são aquelas para as visões VI e VIII. No caso da primeira, existe, porém, no verso precedente introdução vitoriosa” para as oito visões, mas um significativo foco teológico
(16:17, a taça da praga final, mas também um “um elemento oscilante” ao que segue) a menção
de uma voz “do templo do céu, do trono.” Com respeito à visão VIII, há referência Àquele que
pode ser aqui mencionado. A ampla estrutura quiástica em si enfatiza um du-
“se assentava sobre o trono” — identificado anteriormente como Deus em Seu templo (cf., ex., plo tema que inclui e apóia as várias mensagens do livro — (1) que Cristo é o
4:2-11; 19:1-5); e além disso, o bloco de texto imediatamente precedente (novamente um tipo Alfa e o Ômega, e (2) que Ele retornará no final da era para recompensar todas
de “elemento oscilante”) se refere a Deus como “habitando” na “Nova Terra”/”Nova Jerusalém” as pessoas segundo as suas obras (Ap 1:7-8 e 22:12-13). Em outras palavras,
com Seu povo (21:3). Adicionalmente deve ser notado que o bloco de texto seguinte, ou “Básica
Descrição Profética” para a visão VIII, declara que o templo na cidade santa Nova Jerusalém “é o
Senhor Deus Todo-poderoso e o Cordeiro” (21:22). Meu segundo artigo desta série explicará com
mais detalhes a natureza e o significado teológico das imagens do templo que aparece nas cenas
introdutórias às oito grandes visões do Apocalipse.
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Diagrama 3. Visão geral da estrutura e conteúdo do Apocalipse

Historical-Era Visions Eschatological-Judgment-Era Visions

I II III IV V VI VII VIII


Cena da introdução Cena da introdução Cena da introdução Cena da introdução Cena da introdução Cena da introdução Cena da introdução Cena da introdução
vitoriosa com vitoriosa com vitoriosa com vitoriosa com vitoriosa com vitoriosa com vitoriosa com vitoriosa com
A cenário do templo cenário do templo cenário do templo cenário do templo cenário do templo cenário do templo cenário do templo cenário do templo A

(1:10b-20) (caps. 4 e 5) (8:2-6) (11:19) (15:1 - 16:1) (16:18 - 17:3a) (19:1-10) (21:5-11a)
Básica descrição Básica descrição Básica descrição Básica descrição Básica descrição Básica descrição Básica descrição Básica descrição
profética na profética na profética na profética na profética no profética no profética no profética no
B história história história história julgamento final julgamento final julgamento final julgamento final B

(caps. 2 e 3) (cap. 6) (8:7-9:21) (caps. 12 e 13) (16:2-14,16) (17:3b - 18:3) (19:11 - 20:5) (21:11b - 22:5)
Interludio Interludio Interludio Interludio Interludio Interludio
Enfoque nos Enfoque nos Enfoque nos Exortação Exortação Exortação
D enventos finais enventos finais enventos finais ou apelo ou apelo ou apelo C
54 (cap. 7) (10:1 - 11:13) (14:1-13) (16:15) (18:4-8, 20) (20:6) 55
Culminação Culminação Culminação Culminação Culminação Culminação
escatológica: escatológica: escatológica: escatológica: escatológica: escatológica:
E Clímax para a história Clímax para a história Clímax para a história Final julgador Final julgador Final julgador D

(8:1) (11:14-18) (14:14-20) (16:17) (18:9-19, 21-24) (20:7 - 21:4)

Ele é um auxílio e apoio coerente, fidedigno e sempre presente para Seus fiéis proféticas que precedem a linha divisória quiástica tratam principalmente do
durante esta era de adversidade para eles (cf. Ap 1:17-18; Mt 28:20b; Jo 16:33; primeiro aspecto, e as quatro grandes visões subsequentes a essa linha divisória
Hb 12:2a; 13:8); e Ele retornará pessoalmente para anunciar a série de even- são dedicadas principalmente ao segundo aspecto.
tos que destruirá os “destruidores da terra” e que proverá para Seus seguidores No encerramento, um item adicional pode também ser brevemente in-
leais a herança da “nova terra” e o cumprimento de todas as boas promessas troduzido aqui: Vale ressaltar que nas cenas introdutórias das oito visões, as
feitas a eles (veja Ap 11:15-18; 21:1-4, 7, 22-27; 22:1-5).10 As quatro sequências imagens do templo revelam um padrão primeiro de um local terreno na visão
I (castiçais que representam igrejas na Terra) seguido por um local celestial nas
  É digno de nota que os itens da promessa feita aos “vencedores” nas sete igrejas (2:7b, 11b,
10

17b, 26-28; e 3:5, 12, 21) são na maior parte mencionados outra vez especificamente em 21:5–22:5
como cumpridos (ex., 21:27; 22:2, 4), bem como sendo mencionados de um modo geral na de- claração de que os vencedores herdarão “estas cousas” (21:7).
Estudos selecionados em interpretação profética As oito

visões II-VII (ou [a] uma menção do “templo no céu” ou o seu mobiliário e/ _____________. Interpreting the Book of Revelation: hermeneutical guidelines. 2. ed.
ou [b] um fundo que indica este cenário celestial),11 e seguido finalmente por Naples: Worthington, 1979.
um retorno outra vez a um local terrestre na visão VIII (Deus habitando na
“Nova Terra”/Nova Jerusalém” [cf. 21:3, 22]). Este é um impressionante fenô-
_____________. Open Gates of Heaven. Washington: Ann Arbor, 1969.
meno, cujo significado teológico e cuja correlação com ênfase na teologia geral
do Novo Testamento será apresentado no artigo subsequente desta série.
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  No que concerne à evidente exceção no caso da visão VI, veja o n. 12, acima.
11
3
Estudos selecionados em interpretação profética

Cenas da “Introdução
Vitoriosa”*
Kenneth A. Strand

58
Este capítulo é uma continu-
ação do meu capítulo anterior so-
bre a estrutura literária básica das
oito visões do livro de Apocalipse
(STRAND, 1987, p. 107-121). Por
conveniência, o diagrama 3 do meu
artigo anterior é aqui reproduzido
(nas páginas seguintes) como dia-
grama 1 para o presente artigo.
Os blocos de texto nos quais
concentramos nossa atenção neste
estudo são designados como “A”
neste diagrama; a saber, aqueles que
levam o título “Cena da introdução
vitoriosa com ambiente do templo”.
Primeiro, vamos dar uma visão ger-
al do conteúdo dessas cenas para as
Estudos selecionados em interpretação profética Cenas da “Introdução Vitoriosa”

Diagrama 1. Visão geral da estrutura e conteúdo do Apocalipse

Historical-Era Visions Eschatological-Judgment-Era Visions

I II III IV V VI VII VIII


Cena da introdução Cena da introdução Cena da introdução Cena da introdução Cena da introdução Cena da introdução Cena da introdução Cena da introdução
vitoriosa com vitoriosa com vitoriosa com vitoriosa com vitoriosa com vitoriosa com vitoriosa com vitoriosa com
A cenário do templo cenário do templo cenário do templo cenário do templo cenário do templo cenário do templo cenário do templo cenário do templo A

(1:10b-20) (caps. 4 e 5) (8:2-6) (11:19) (15:1 - 16:1) (16:18 - 17:3a) (19:1-10) (21:5-11a)
Básica descrição Básica descrição Básica descrição Básica descrição Básica descrição Básica descrição Básica descrição Básica descrição
profética na profética na profética na profética na profética no profética no profética no profética no
B história história história história julgamento final julgamento final julgamento final julgamento final B

(caps. 2 e 3) (cap. 6) (8:7-9:21) (caps. 12 e 13) (16:2-14,16) (17:3b - 18:3) (19:11 - 20:5) (21:11b - 22:5)
Interludio Interludio Interludio Interludio Interludio Interludio
Enfoque nos Enfoque nos Enfoque nos Exortação Exortação Exortação
D enventos finais enventos finais enventos finais ou apelo ou apelo ou apelo C
(cap. 7) (10:1 - 11:13) (14:1-13) (16:15) (18:4-8, 20) (20:6)
60 61
Culminação Culminação Culminação Culminação Culminação Culminação
escatológica: escatológica: escatológica: escatológica: escatológica: escatológica:
E Clímax para a história Clímax para a história Clímax para a história Final julgador Final julgador Final julgador D

(8:1) (11:14-18) (14:14-20) (16:17) (18:9-19, 21-24) (20:7 - 21:4)

visões de I a VIII, e então considerar alguns dos fenômenos específicos e suas contudo, precedendo os próprios resumos, são apresentadas as referências
implicações teológicas. bíblicas apropriadas (como também apresentadas no diagrama 1), e o leitor
pode ir ao próprio texto bíblico para um quadro mais completo.
1. Resumo das “cenas da introdução vitoriosa”
Introdução à visão I
Provendo a seguinte visão geral do conteúdo das oito cenas da in- Texto: Apocalipse 1:10b-20
trodução vitoriosa, forneço aqui um resumo do próprio material textual e Resumo: Na Ilha de Patmos (1:9), o Cristo ressuscitado, celestial, aparece a João
alguns comentários preliminares concernentes a esse material. Deve ser no- em gloriosa visão, revelando-se como Aquele que foi morto, agora vive, está vivo
tado nesses resumos que nem todos os detalhes das cenas estão incluídos;1 para sempre, e tem as chaves do Hades e da morte. João vê Cristo segurando

*  Reimpresso com permissão, AUSS 25 (1987), 267-88, sob o título “As Cenas da Introdução geralmente muito breves, resumos providos na obra de Strand (1987, p. 112-117) The eight basic
Vitoriosa no livro de Apocalipse”. visions in the Book of Revelation (ver também os resumos dos conteúdos dos blocos B, C e D das
1
  Aqui os resumos estão, contudo, em vários exemplos mais extensos do que os análogos, mas várias visões).
Estudos selecionados em interpretação profética Cenas da “Introdução Vitoriosa”

sete estrelas em sua mão direita e caminhando entre os sete candeeiros de ouro. As entre os quais Cristo manifesta sua presença são igrejas na Terra. O fato de que
sete estrelas são definidas como “os anjos das sete igrejas” (v. 20), e os sete a próxima visão indica uma transição para o Céu, como veremos em nossa at-
candeeiros são definidos como “as sete igrejas” (1:11) — a saber, Éfeso, Esmirna, enção a essa visão, pode ser considerada uma terceira evidência apontando na
Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia (v.11). direção do local terrestre desta primeira cena introdutória.
Comentário: O fato de que os candeeiros são imagens do templo é geral- Outro detalhe digno de nota é que esta cena da introdução vitoriosa funcio-
mente reconhecido pelos exegetas, embora tenha havido diferença de opinião na para prover conforto e segurança aos fiéis seguidores de Cristo: sua presença
quanto ao antecedente exato. A interrogação geralmente feita é se esse ante- está entre eles ao enfrentarem as poderosas forças do engano e perseguição.4
cedente é aquele do candelabro do “lugar santo” (primeiro compartimento) do Um aspecto positivo desta espécie é realmente característico de todas as oito
antigo tabernáculo do deserto (Êx 26:35; no templo de Herodes também havia cenas introdutórias para as principais visões do Apocalipse.
um candelabro) ou os dez castiçais do primeiro compartimento do Templo de
Salomão (1 Reis 7:49). Uma terceira alternativa, geralmente omitida pelos co- Introdução à visão II
mentaristas, é o simbolismo do candelabro de Zacarias 4, que desempenha um Texto: 4:1–5:14
papel muito óbvio como antecedente para uma visão posterior do Apocalipse — Resumo: João vê uma porta aberta “no Céu” e ouve uma voz chamando-o
Apocalipse 11, “o templo e as duas testemunhas”.2 Ou talvez tenha havido múlti- a “subir para aqui”. Ele então “acha-se em espírito” e vê “um trono” “no Céu”,
plos antecedentes intencionais.3 O principal detalhe para nós aqui, em qualquer estando um assentado sobre o trono (a saber, Deus, como o próprio contexto e
caso, é que o cenário desta visão e sua imagem do templo está na Terra, não no também outras visões do Apocalipse deixam claro; cf. 4:9-11; 7:10; 19:1-5). Ao
Céu. Este fato está claro a partir de duas principais considerações: que o Cris- redor do trono estavam vinte e quatro anciãos assentados em tronos; diante
to celestial se encontra com João na Terra (em Patmos), e que os “candeeiros” do trono estavam “sete lâmpadas de fogo” e um “mar de vidro” semelhante ao
cristal; e “no meio” e “à volta” do trono estavam quatro seres viventes. Depois
62 de uma antífona de louvor a Deus por sua condição de Criador, a cena volta-se 63
2
  Há implicações teológicas que favorecem considerar o “candelabro” de Zacarias como no mínimo para um livro em sua mão selado com sete selos — um livro que “ninguém” no
uma fonte provável para a imagem (ver STRAND, 1981, p. 127-35 e 131-34; 1982, p. 257-61). Não
somente devem ser notadas certas afinidades teológicas, mas também deve ser dada consideração a
Céu, na terra, ou debaixo da terra era capaz de abrir. Todavia, na progressão
outros antecedentes (além de Zacarias 4) para as imagens das oliveiras/candeeiros de Ap 11:4 — a sab- do drama, um Ser foi achado digno de abrir aquele livro — a saber, o Cordeiro
er, as colunas do templo Jaquim-e-Boaz (cf. 1Rs 7:21; também 2Rs 11:12-14 e 23:1-2), e além delas a “como tendo sido morto”. Ao tomar o Cordeiro o livro da mão direita do que
“coluna de nuvem” em que o Senhor apareceu a Moisés e Josué na “entrada” do tabernáculo do deserto estava assentado sobre o trono, seguiu-se uma série de antífonas de louvor.
(Dt 31:14-15). Se o antecedente para os sete candeeiros na visão I de Apocalipse está nesta direção, é
Comentário: A primeira característica impressionante com que nos de-
o pátio, em vez de um ou outro dos dois compartimentos do próprio tabernáculo/templo, que estaria
em foco aqui (uma possibilidade que é realçada por uma consideração das implicações teológicas de frontamos nesta cena é a dupla referência a um novo local — Céu, em contraste
Ap 11:2 concernente ao “átrio exterior” do templo). Todavia, não devemos negligenciar a possibilidade com o ambiente terrestre da cena introdutória da visão I. Esse ambiente celestial
de que há múltiplos antecedentes para este simbolismo dos sete candeeiros, bem como para as outras é, de fato, realçado pela dupla referência ao “Céu” — a porta aberta “no Céu”
imagens do livro de Apocalipse. Cf. nota 4, abaixo.
3
  Paul S. Minear (1965/1966, p. 96) tem chamado a atenção para este tipo de fenômeno de anteced-
ente múltiplo em que ele faz alusão como um “modelo trans-histórico” e “um inclusivo em vez de
disjuntivo modo de ver e pensar.” Tanto neste artigo quanto em seu I Saw a New Earth, Minear (1968, 4
  Engano e perseguição são as duas armas básicas manifestadas pelas forças adversárias ao longo
p. 102) faz referência a Ap 11:8, onde há uma aglutinação de várias entidades —Sodoma, Egito, e Je- do livro de Apocalipse, precisamente como no Evangelho de João estas duas más características
rusalém — em uma imagem, a “grande cidade”. Minear sugere que essa “única cidade tinha se tornado resumem a atitude do diabo e seus seguidores (ex., em João 8:44 o diabo é chamado de “homi-
em termos proféticos todas as cidades — Sodoma, Egito, Babilônia, Nínive, Roma”. cida desde o princípio” e “pai da mentira”). Encontramos preeminente ilustração em Apocalipse
Em vários documentos e ensaios eu tenho me aprofundado no fenômeno, referindo-me a ele como a nas mensagens às sete igrejas, onde há advertência contra o engano (quer seja externo ou que se
“mistura” ou “fusão” de imagens. Veja, por exemplo, An Overlooked Old Testament Background to Rev- auto-impôs) nas cartas a Pérgamo, Tiatira, Sardes e Laodiceia; e onde o perigo da perseguição é
elation 11:1 (STRAND, 1984, p. 318-19), onde eu não somente faço alusão às perceptivas observações particularmente destacado nas cartas a Esmirna e Filadélfia. As atividades da trindade antidivina
de Minear (esp. N. 6 na p. 319), mas também forneço alguns exemplos adicionais (ver também a em Apocalipse 12–13 exemplificam ainda mais vigorosamente essas armas demoníacas (note, por
discussão de Strand [1981, p. 130-131] Two Witnesses, onde ainda outra ilustração tem sido provida). exemplo, os “sinais” enganadores e as atividades de morte e embargo mencionadas em 13:13-17).
Estudos selecionados em interpretação profética Cenas da “Introdução Vitoriosa”

e o trono “no Céu”. As “sete lâmpadas de fogo” localizariam o ambiente mais Introdução à visão III
especificamente como o “lugar santo” ou compartimento exterior do templo Texto: 8:2-6
celestial (o termo “templo no Céu” é usado especificamente em 11:19 e alguns Resumo: São vistos por João sete anjos com sete trombetas; mas antes
outros textos).5 Se o “mar de vidro” é imagem baseada no “lavador” ou bacia de que eles procedam do templo (no Céu) para soar suas trombetas, outro anjo
bronze do tabernáculo do deserto (Êx 30:18; 38:8) ou o “mar de fundição” e/ou aparece com um incensário diante do altar de ouro de incenso. Misturado com
dez lavadores ou pias de bronze do Templo de Salomão (1Rs 7:23-39), como as orações dos santos está o incenso subindo diante de Deus no trono. Então o
sugerem vários comentaristas, nos parece ter imagens do “pátio exterior” em incensário é atirado à Terra, seguido pelos símbolos típicos da presença e juízo
vez de imagens do “primeiro compartimento”. Isto em si não apresentaria um divinos: “trovões, vozes, relâmpagos, e um terremoto.”
problema com respeito ao mar sendo designado como estando “diante do trono”, Comentário: O cenário desta visão é mais uma vez aquele do templo no
porque todas as facetas da construção do templo poderiam ser consideradas a Céu, e também é ainda dentro do compartimento exterior ou “lugar santo”. Mas
partir dessa perspectiva. Mais provavelmente, porém, a base simbólica para esse a atividade agora se mudou para mais perto do santuário exterior, porque o
“mar de vidro” é o firmamento sobre a cabeça dos seres viventes e sob o trono de áureo altar de incenso é onde ocorre a ação.8 Esta cena, como aquelas das visões
Deus em Ezequiel 1:22-28 e 10:1.6 I e II, contém o elemento típico da segurança, da certeza — neste caso, a de-
Esta cena celestial de Apocalipse 4–5 obviamente tem uma ênfase positiva. scrição das orações dos santos misturadas com incenso ascendendo à presença
Os temas duplos de criação (4:11) e redenção (cap. 5) concedem esperança e de Deus. Contudo, agora além do aspecto positivo, também há pela primeira
certeza aos seguidores de Cristo, especialmente ao reconhecerem que o Cord- vez um negativo. O uso dos símbolos julgadores de vozes, trovões, relâmpagos e
eiro é julgado digno de desatar os selos e abrir o livro — um livro que tem sido terremoto, ao ser o incensário com brasas vivas atirado à Terra.
apropriadamente chamado “livro do destino”.7
Introdução à visão IV
64 Texto: 11:19 65
5
  A imagem do mobiliário do templo fornece pistas quanto à localidade e ao movimento que foram Resumo: João vê aberto o “templo de Deus no Céu”, com a arca do
abordados nos resumos do meu capítulo anterior, mas que se tornarão mais evidentes ao continuar-
mos aqui para prosseguir através das cenas da introdução vitoriosa. Embora os dois compartimen-
testamento ou aliança de Deus em vista. Então há “relâmpagos, vozes, tro-
tos não sejam especificamente mencionados em combinação com esse “templo no céu” arquétipo vões, um terremoto e grande saraivada”.
do antigo tabernáculo e templo israelitas, o “mobiliário” que é mencionado se relaciona com os dois
“compartimentos” — conforme são conhecidos não somente do Antigo Testamento e de tradicionais
fontes judaicas, mas também da descrição no livro de Hebreus no Novo Testamento (veja Hb 9:1-5; pleno relato do que Deus em sua soberana vontade tem determinado como o destino do mundo”.
cf. Êx 25:8; 26:30-35). Talvez pareça que a presença do trono no contexto da imagem do “comparti- Todavia, permanece uma questão fundamental: O que significa o termo “destino”? É a futura
mento exterior” em Apocalipse 4 reduz o templo celestial a apenas um compartimento “arquitetural- história da Terra a partir da perspectiva de João? Por outro lado, são as recompensas escatológi-
mente” (embora não funcionalmente), mas tal não é necessariamente o caso (ou em todo caso, não é cas distribuídas na terminação da história terrestre? Ou é possivelmente uma combinação de
de importância fundamental). Veja mais na nota 11, abaixo. Para uma discussão muito proveitosa da ambas? William Hendriksen (1940, p. 109), parece ter optado pela terceira possibilidade. O rolo,
imagem do “templo celestial” no livro de Hebreus (discussão que tem um elevado grau de relevância se deixado não aberto, sugeriria para ele “nenhuma proteção para os filhos de Deus nas horas de
também para o Apocalipse), veja Richard M. Davidson (1981, p. 336-367), Typology in Scripture: A amarga provação; nos juízos sobre um mundo perseguidor; nenhum triunfo final para os crentes;
Study of Hermeneutical ΤYIIΟΣ Structures. nenhum novo céu e nova terra; nenhuma herança futura!” Mounce (1977, p. 141), tem optado
6
  Robert H. Mounce (1977, p. 136-137), tem apropriadamente notado isto, e também tem chamado pela primeira alternativa. Juntamente com Thiele (1959, p. 97-98), eu adoto a alternativa do meio.
a atenção para 2 Enoque 3:3 e Salmo 104:3, embora não esteja claro se o próprio Mounce realmente Minha base para isto é a distinta probabilidade (em minha opinião) que o antecedente para o
considera a imagem dessas passagens como fundo ou antecedente para o “mar de vidro” de Apocalipse. livro selado com sete selos deve ser encontrado em uma das formas de uma antiga vontade ou
Para uma recente, detalhada e abrangente análise das imagens de Ap 4–5, veja R. Dean Davis (1986). testamento romano e também no título de propriedade de Jeremias (Jr 32). Thiele (1959, p. 95-
7
  “Rolo do destino” e “livro do destino” são termos aplicados por vários exegetas e comentaristas 96), tem chamado a atenção para a documentação para o conceito do antecedente do testamento
a esse documento selado com sete selos. Muitos que não usam esta exata terminologia indicam romano; e, além disso, podemos acrescentar aqui uma referência específica a tal testamento que
o mesmo conceito em suas discussões do rolo. Edwin R. Thiele (1959, p. 97), utiliza especifica- foi traduzido para o inglês por Naphtali Lewis and Meyer Reinhold (1955, v. 2, p. 279-80).
mente o termo “livro do destino”. Charles M. Laymon (1960, p. 77), refere-se à cena de Apocalipse 8
  Para um estudo da perspectiva do Novo Testamento da relação do altar de ouro com o comparti-
5 como a “preparação para o destino”; e Mounce (1977, p. 142), fala do rolo como contendo “o mento mais interior (Lugar Santíssimo), veja, ex., a discussão de Harold S. Camacho (1986, p. 5-12).
Estudos selecionados em interpretação profética Cenas da “Introdução Vitoriosa”

Comentário: Esta cena da introdução vitoriosa leva-nos a um novo com fogo” aqueles que haviam obtido a vitória sobre a besta, sobre sua imagem,
cenário dentro do “templo do Céu”: a saber, dentro do santuário ou “Lugar e sobre o número do seu nome. Esse grupo entoa “o cântico de Moisés [...] e
Santíssimo”.9 Ali o enfoque de João está sobre a arca do testamento ou alian- o cântico do Cordeiro”. Na segunda seção desta cena, João observa “o templo
ça de Deus. Com base na analogia do tabernáculo terrestre, os dois aspectos do tabernáculo do testemunho no Céu” aberto, e sete anjos com as taças da ira
mais significativos relacionados a essa arca seriam a lei dos Dez Mandamen- saindo dali. O templo se torna cheio “da fumaça procedente da glória de Deus
tos e o propiciatório (cf. Êx 40:20). É, portanto, interessante notar que na e do seu poder”, de sorte que “ninguém podia entrar no templo” até que fossem
“descrição profética” seguinte a luta significativa que o “remanescente” trava cumpridas as sete pragas. Então uma voz do templo ordenou aos sete anjos que
contra o dragão é sobre o que é representado por estas duas características saíssem e derramassem sobre a Terra as sete taças da ira de Deus.
da arca: os “mandamentos de Deus” e o “testemunho de Jesus” (Ap 12:17). Comentário: Mais uma vez o cenário para a visão é o do Céu — ou mais es-
pecificamente, o templo do Céu. Daquele templo emergem os sete anjos com as
Introdução à visão V taças da ira. É em combinação com esse templo que um “mar de vidro” tinha sido
Texto: 15:1–16:1 visto anteriormente (Ap 4). E é esse templo que agora está cheio de fumaça. Há uma
Resumo: João vê sete anjos tendo as sete últimas pragas da “ira de Deus”. ênfase positiva no fato de que os santos sobre o mar de vidro entoam o cântico de
Na primeira seção desta cena ele observa sobre “um mar de vidro misturado Moisés e do Cordeiro, precisamente como os israelitas haviam cantado o cântico de
Moisés depois do livramento do antigo cativeiro egípcio (Êx 14 e 15). E há um duplo
aspecto negativo na cena: primeiro, em que os anjos saem do templo com as taças
9
  Concernente à possível “arquitetura” do “templo do céu”, podem ser feitas as seguintes ob- da ira a fim de derramá-las sobre a Terra; e segundo, em que o templo está cheio de
servações (cf. também n. 6, acima): (1) É uma noção típica entre os exegetas que o trono de fumaça durante o tempo das pragas, de sorte que “ninguém podia entrar no tem-
Deus está confinado ao Lugar Santíssimo do templo, de sorte que a imagem do compartimento plo” — uma sugestão, indubitavelmente, de que nenhum ministério de misericórdia
66 exterior em Apocalipse 4 evidenciaria que no arquétipo celestial do antigo tabernáculo/templo procederia do templo naquela ocasião.10 67
israelita a estrutura de dois compartimentos do último está aglutinada em um compartimento.
Um exemplo desta linha geral de pensamento é o excelente estudo de Mario Veloso (1981, p.
3924-419), The Doctrine of the Sanctuary and the Atonement as Reflected in the Book of Revelation.
Introdução à visão VI
(2) Sobre a base de uma possível analogia com o pensamento expresso concernente ao “véu” ou Texto: 16:18–17:3a (com 16:17 como fundo)
“cortina” em Hb 10:20 (com seu muito frequentemente negligenciado pano de fundo histórico Resumo: Após o sétimo anjo ter derramado sua taça de ira pelo ar, uma grande
do “véu rasgado de alto a baixo em MT 27:51), poderia estar em Apocalipse um conceito subja- voz “do templo, do trono” declara: “Está feito” (16:17). (Isto pode ser considerado
cente de um compartimento no templo celestial, mas o significado funcional do modelo de dois
como uma espécie de elemento transicional ou “oscilante” que conclui a sétima pra-
compartimentos está, contudo, presente em Apocalipse na dinâmica que é evidente de cena para
cena. (3) Uma alternativa sugerida por C. Mervyn Maxwell (1985, v. 2, p. 171), merece atenção: ga e apresenta esta nova cena da introdução vitoriosa.)11 Então seguem imediata-
“A suposição de que o trono celestial de Deus está localizado somente no lugar santíssimo celestial
omite o fato de que nos tempos do Antigo Testamento a presença divina não estava sempre con-
finada ao lugar santíssimo, mas era às vezes patenteada no lugar santo.” Maxwell cita Êx 33:9 e Ez 10
  Esta conclusão é fortalecida também pelos fatos de que (1) as próprias sete pragas são descri-
9:3, e também se refere ao pão da Presença no compartimento exterior. (Em outro lugar no pre- tas em 15:1 como as “últimas” e como consumando a “ira de Deus”, (2) a descrição no capítulo
sente ensaio eu chamo a atenção para Êx 40:34 e Dt 31:14-15, que amplia ainda mais a localização 16 do derramamento dessa ira divina nas próprias taças não revela nenhum efeito salvífico, mas
da presença divina.) (4) Deve ser reconhecido que localizar o símbolo do “trono” no Apocalipse antes o oposto (cf. ex., 16:6, 9, 10, 14), e (3) o julgamento de Babilônia é descrito em 16:19 como
peca contra o fato de que o próprio uso do símbolo no livro como um tipo de símbolo difuso sendo uma “lembrança” de Deus que a faz “esvaziar o cálice do furor da sua ira”.
(ex., a utilização revelada em Ap 6:16 e 22:3 conforme comparada e/ou contrastada com a que é 11
  A mais nítida divisão entre sequências na primeira grande parte de Apocalipse (visões I-IV)
apresentada em Ap 4–5). (5) O detalhe de fundamental importância é que o tema do “trono de abre caminho na segunda grande parte do livro (visões V-VIII) para a presença dos elementos
Deus” em Apocalipse significa a divina presença e autoridade, e não é basicamente um indicador “oscilantes”. Isto, curiosamente, parece corresponder ao fato de que a natureza recapitulacionista
de uma localidade específica (e certamente não é confinamento geográfico!). O conceito não é das próprias sequências em ambas as grandes partes também difere de certa forma em que as
que o “trono” fixa a localização de Deus, mas antes o inverso: Onde Deus está, ali está o trono! (6) estruturas “cronológicas” ou “sucessão” são menos distintas na segunda grande parte. Note, por
Finalmente, o antecedente dos capítulos 1 e 10 de Ezequiel, com um trono de Deus que se move, exemplo, as implicações que fluem das breves visões gerais dadas em Kenneth A. Strand (1979, p.
não deve ser desconsiderado quando se interpreta a cena de Ap 4–5. 48-49) em Interpreting the Book of Revelation: Hermeneutical Guidelines, With Brief Introduction
Estudos selecionados em interpretação profética Cenas da “Introdução Vitoriosa”

mente os sinais do juízo divino: “E sobrevieram relâmpagos, vozes e trovões, e ocor- (v. 8) é reminiscente, é claro, das imagens similares na visão II com respeito aos
reu grande terremoto, como nunca houve igual desde que há gente sobre a terra; mártires do quinto selo e da grande multidão da seção “refletor” (6:9-11 e 7:9-
tal foi o terremoto, forte e grande.” A cidade de Babilônia é dividida, as cidades das 17, respectivamente). Também deve ser notado que a sequência na visão VII
nações desmoronam, e grande saraivada do céu, “com pedras que pesavam cerca conclui, muito interessantemente, com outra referência à “esposa” — a saber, a
de um talento”. Depois disso, um dos sete anjos tendo as sete taças da ira falou com visão joanina da Cidade Santa, Nova Jerusalém, descendo do céu, da parte de
João, levando-o para ver o julgamento da grande meretriz (Babilônia, como deixa Deus “como noiva adornada para o seu esposo” (Ap 21:2).
claro a descrição profética que vem a seguir).
Comentário: À primeira vista, pareceria que somente um aspecto negativo é Introdução à visão VIII
enfatizado nesta cena da introdução vitoriosa, porque utiliza imediatamente os sim- Texto: 21:5-11a (e referência aos versos 1-4 como fundo)
bolismos julgadores — neste exemplo outra vez salientado, com uma ênfase sobre a Resumo: No contexto do “novo Céu” e “nova Terra”, com “a santa cidade, Nova
excessivamente furiosa natureza do terremoto e da saraivada. Embora haja somente Jerusalém”, tendo descido do Céu da parte de Deus, João agora contempla Aquele
juízo negativo na devastação a vir sobre Babilônia por causa do “cálice do vinho do que está assentado sobre o trono. Esse Ser divino — o próprio Deus em visões ante-
furor da sua [de Deus] ira” (16:19; veja também 17:1-2), contudo há implicitamente riores — declara: “Eis que faço novas todas as coisas.” Então Ele fala a João, dizendo:
uma certeza positiva para os santos de Deus nessa cena — em que a abominável “Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras”, e além disso declara a João:
atividade de Babilônia agora terminou, sofrendo ela mesma o juízo divino por suas “Está feito! Eu sou o Alfa e o Ômega.” Um duplo decreto é declarado: herança de
más ações. (Cf. 18:20 para um chamado ao “regozijo”.) todas as coisas para o vencedor; mas destruição no lago de fogo, “que é a segunda
morte”, para aqueles que não são vencedores. Então um dos anjos com as sete taças
Introdução à visão VII da ira leva João a uma alta montanha, mostrando-lhe a grande cidade, a santa Je-
Texto: 19:1-10 rusalém, descendo do Céu da parte de Deus e tendo a glória de Deus.
68 Resumo: No ambiente do trono, os vinte e quatro anciãos e os quatro seres Comentário: Em contraste com as cenas introdutórias para as visões II-VII, 69
viventes (cf. cap. 4), João ouve a voz de “uma grande multidão no Céu” louvando a onde o cenário estava em cada exemplo claramente ainda no Céu, agora há um
Deus por ter julgado a grande meretriz e ter vingado dela o sangue de seus servos. pano de fundo que tem um cenário terrestre — uma analogia à situação com
São entoadas outras antífonas de louvor, e é feito o anúncio de que chegaram as bo- respeito à visão I. Na visão VIII, esta cena introdutória lida realmente com um
das do Cordeiro,“cuja esposa a si mesma já se ataviou”. É pronunciada uma bênção cenário de tabernáculo ou templo, mas se a cena em si conforme dada em 21:5-
sobre aqueles que são convidados “à ceia das bodas do Cordeiro”. 11a objetiva ser basicamente a partir da perspectiva terrestre ou ser uma transi-
Comentário: A cena aqui é uma que é obviamente paralela àquela de Apoc- cional do Céu para a Terra não está absolutamente claro (nem é de importância
alipse 4:5 — com o trono, quatro seres viventes, vinte e quatro anciãos, e antí- essencial para o nosso estudo). Em 21:3 é feita a declaração, é claro, de que o
fonas de louvor sendo básicas para ambas (para um estudo sobre as antífonas tabernáculo de Deus está na Terra depois da descida da Cidade Santa (v. 2), e
em ambas as passagens, ver SHEA, 1984, p. 249-257). Contudo, enquanto em esta porção final da visão VII pareceria prover o cenário para nossa cena de
Apocalipse 4:5 há um “livro do destino” ainda a ser aberto, e também enquanto abertura da visão VIII (que em si, contudo, também reproduz uma descrição da
durante a real abertura dos selos daquele livro no capítulo 6 havia um brado de descida da Nova Jerusalém; 21:10). Em qualquer caso, o principal detalhe é que
“Até quando?” até que viesse a vindicação dos mártires de Deus (veja 6:9-11), há o foco desta cena introdutória mudou do templo celestial de tal modo a pôr ên-
no capítulo 19 uma impressionante reversão: há aqui louvor e aclamação a Deus fase mais uma vez sobre um local terrestre. A imagem real do templo utilizada
por ter Ele agora ocasionado essa vindicação. será tratada mais plenamente ainda neste artigo.
Na introdução da visão VII, há, além disso, uma ênfase sobre a “ceia das bo-
das do Cordeiro” (v. 9) e reverência à “esposa” do Cordeiro (v. 7). A veste branca 2. Algumas implicações bíblicas
Os resumos providos na seção precedente deste capítulo têm trazido
to Literary Analysis. à atenção vários elementos concernentes às cenas introdutórias das oito
Estudos selecionados em interpretação profética Cenas da “Introdução Vitoriosa”

visões principais do Apocalipse. Preeminentes entre aquelas características muito diretamente esta cena do capítulo 7 com a abertura dos selos.12 Os
estão as seguintes: a difusão da imagem do templo nos ambientes dessas ce- 144 mil selados de Deus são protegidos das devastações dos cavaleiros dos
nas, (2) ênfases positivas e negativas dentro das cenas, (3) certa dinâmica ou primeiros quatro selos,13 e mesmo na espécie de martírio descrita no quinto
movimento tanto em imagens através do templo quanto no simbolismo de selo eles podem repousar na plena certeza do cuidado divino (para um es-
juízo negativo que aparece nas visões III-VI, e (4) uma similaridade especial tudo abrangente do quinto selo, ver MUSVOSVI, 1986). Esta ênfase sobre
estruturalmente e de conteúdo entre a primeira e oitava visões. Agora va- o cuidado de Deus é realçada ainda mais na descrição das seções b e c do
mos dar um pouco mais de atenção a esses elementos, mas como uma etapa capítulo 7 (v. 9-17) da grande multidão que vem da grande tribulação (estes,
preliminar vamos primeiro observar brevemente o tipo de relação que as como os mártires do quinto selo, têm vestiduras brancas!).
cenas introdutórias mantêm com suas próprias sequências proféticas. O precedente ilustra a maneira em que há estreita correlação entre as ce-
nas da introdução vitoriosa e o restante das respectivas visões que essas cenas
Cenas introdutórias e sequências proféticas introduzem, e não será necessário entrar em detalhes aqui além dessas duas
Em qualquer análise das cenas introdutórias para as oito grandes visões do amostras. De fato, uma rápida revisão do principal conteúdo de cada visão
livro de Apocalipse, a primeira consideração lógica e básica é o fato de que há pode ser obtida consultando-se a seção 2 do capítulo 2 deste volume. A única
uma estreita relação entre essas cenas e o restante das sequências proféticas observação adicional que deve ser feita aqui é que embora todas as cenas da
que elas introduzem. Assim, para a visão I a descrição de Cristo caminhando introdução vitoriosa tenham uma nota positiva de segurança para os fiéis de
entre os sete candeeiros/igrejas precede adequadamente seus conselhos àque- Cristo, algumas — especialmente aquelas para as visões III-VI (a dupla série
las igrejas, e para a visão II a cena em que o Cordeiro é proclamado digno de com o tema “Êxodo-do-Egito”/”Queda-de-Babilônia”) — também retratam as-
abrir o livro selado com sete selos e então realmente tomando esse livro da mão pectos negativos. Este assunto receberá mais atenção abaixo.
dAquele que está assentado sobre o trono provê um pano de fundo apropriado
70 para a real abertura dos selos pelo Cordeiro. A imagem do templo e seu significado 71
Essas cenas introdutórias proveem neste sentido um cenário positiva- Como já temos observado, a imagem do templo é difusa nas cenas introdutóri-
mente orientado — uma mensagem de confiança, por assim dizer — que as às oito principais sequências proféticas do Apocalipse. Para as visões II-VII, os
se relaciona com a sequência que segue. No primeiro exemplo, Cristo as- cenários estão no “templo do Céu”, e o “mobiliário” daquele templo torna-se visível.
segura ao seu povo a certeza de sua presença com eles em suas lutas contra Na visão I, porém, a imagem do templo é aquela dos candeeiros que representam
o engano e a perseguição — lutas que precisam dele palavras de conselho e “as sete igrejas” na Terra. E na visão VIII há outra vez um local terrestre — mas
encorajamento, e frequentemente repreende (caps. 2 e 3). desta vez no contexto da Santa Cidade, a Nova Jerusalém e a “nova terra”, estando o
Igualmente, na segunda visão há certeza de que as forças liberadas pela
abertura dos selos estão dentro da estrutura redentora da obra que o Cord-
eiro morto efetua no Céu que finalmente resultará na abertura do livro do 12
  Os léxicos e dicionários teológicos (tais como Theolofical Dictionary of New Testament) e
destino eterno para os fiéis do Cordeiro (ver nota 8). Os selos são abertos obras de referência similares (verbete σøραγις ou sphragis) têm elucidado amplamente o sig-
nificado do processo ou prática do “selo” e do “selamento” no mundo antigo. Para uma referência
sucessivamente nos capítulos 6 e 8:1, intensificando em cada passo a pro- sucinta a seis possíveis significados, veja J. Massyngberde Ford (1975, p. 116-17; também a detal-
gressão, até que ocorre um silêncio dramático quando o livro em si deve ser hada abordagem de FORD, 1981, v. 4, p. 254-59).
finalmente aberto. O interlúdio no capítulo 7 é muito visivelmente um ap- 13
  Os comentaristas geralmente omitem esta ligação por causa de uma falha em ser suficiente-
ropriado “enfoque nos últimos eventos” para esta sequência específica. Por mente atenciosos em anotar o antecedente de Zc 6, onde cavalos de várias cores saem para “per-
correrem a terra” (v. 7) e onde, em resposta à indagação profética quanto à identidade dos quatro
seu destaque do selamento dos servos de Deus, há nesse “interlúdio” uma
grupos de cavalos, um anjo define-os como os quatro ruhôt (ventos) do céu que saem da presença
espécie de trocadilho sobre a terminologia do “selo”. Mas todo o conceito de do Senhor de toda a terra (v. 4-5). Comentaristas que têm feito a conexão incluem G. R. Beasley-
propriedade e preservação inerente no simbolismo do “selo” também liga Murray (1974, p. 142) e Leon Morris (1969, p. 113). Infelizmente, a RSV neste exemplo distorce
o significado do hebraico por seu fraseado, “Estes [os grupos de cavalos] estão saindo para os
quatro ventos do céu”, quando em realidade são os ventos ( = cavalos ) que estão saindo.
Estudos selecionados em interpretação profética Cenas da “Introdução Vitoriosa”

próprio Deus “habitando” diretamente com o Seu povo (21:3-4) e “Deus e o Cord- fundamental — da presença divina — que igualmente penetra as cenas in-
eiro” são descritos como o “templo” da Nova Jerusalém (21:22). trodutórias às oito visões do Apocalipse. O Cristo divino e sempre vivo é,
É imediatamente evidente que todas as três principais aplicações do Novo no primeiro exemplo, descrito como presente com o seu povo na Terra, sus-
Testamento à imagem do templo entram em jogo nessas cenas introdutórias. tendo-os e provendo-lhes mensagens através do Espírito Santo (visão I),15
Na primeira visão vemos o conceito neotestamentário da Igreja Cristã como o então a cena muda para o santuário celestial, onde Cristo está ativamente
“novo templo”. Os textos clássicos para o conceito são indubitavelmente 1 Co- ministrando em favor do seu povo (visões II-VII); e finalmente, quando
ríntios 3:16-17 e 2 Coríntios 6:16-17, mas certamente há reflexão disto também Deus e o Cordeiro habitam com os seres humanos redimidos na “nova terra”
em 1 Pedro 2:5, e também na proclamação de Tiago no concílio de Jerusalém e na “Nova Jerusalém” é trazia para a Terra a própria causa fundamental na
mencionada em Atos 15:13-18. Na última referência mencionada, Tiago faz intimidade e tangibilidade da presença divina (visão VIII).
aplicação da profecia de Amós 9:11-12 fazendo alusão ao retorno de Deus para
reedificar o “tabernáculo de Davi” que havia caído, como sendo diretamente Elementos positivos e negativos nas cenas introdutórias
aplicável à afluência dos gentios à igreja apostólica. Como foi notado anteriormente, as cenas da introdução vitoriosa para as
A mais próxima analogia do Novo Testamento ao uso refletido nas cenas in- visões I e II contêm apenas uma ênfase positiva, mas a terceira cena introdu-
trodutórias para as visões II-VII no livro de Apocalipse é aquilo que é encontrado tória adiciona também um elemento negativo. Nessa terceira cena a ênfase
no livro de Hebreus. Ali se fala de Cristo como “sumo sacerdote, que se assentou à positiva é encontrada na fumaça do incenso misturada com as orações dos
destra do trono da Majestade nos céus, como ministro do santuário e do verdadeiro santos subindo a Deus, e o aspecto negativo é descrito em termos do anjo
tabernáculo que o Senhor erigiu, não o homem” (Hb 8:1-2; veja também o v. 5).14 atirando à Terra um incensário de brasas vivas, com os resultantes sinais de
Finalmente, o que é sem dúvida a mais básica e central aplicação da ima- juízo de vozes, trovões, relâmpagos e um terremoto.
gem neotestamentária do templo é aquela ilustrada na cena introdutória e na No artigo anterior desta série eu ressaltei que as visões de III a VI con-
72 descrição profética da visão VIII do Apocalipse: isto é, uma referência à di- sistem de um tema duas vezes repetido que pode adequadamente ser desig- 73
reta presença divina. No prólogo ao Evangelho de João é declarado que Cristo nado como o tema “Êxodo-do-Egito”/Queda-de-Babilônia”. (Veja diagrama
“habitou entre nós” (compare com a situação na Nova Terra depois da descida 2 na página seguinte para ilustração do tema.) É interessante que é pre-
da Jerusalém celestial, em que é declarado que Deus agora habita com a hu- cisamente em combinação com estas quatro visões que ocorre a mais forte
manidade [21:3]). Talvez uma referência ainda mais vigorosa seja aquela em referência ao juízo negativo. Há também uma progressão de intensidade no
que Jesus declarou: “Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei.” Os simbolismo do juízo, como observaremos em breve.
judeus compreenderam isto como se referindo ao templo de Herodes, mas o As cenas introdutórias para as visões VII e VIII retrocedem parcialmente
Evangelista deu a explicação de que “Ele [Cristo] se referia ao santuário do seu para a ênfase positiva das seções comparáveis das visões I e II. Contudo, há
corpo” e que quando, pois, Jesus ressuscitou dentre os mortos, “lembraram-se no mínimo uma referência oblíqua (entretanto, vigorosa) ao juízo negativo em
os seus discípulos de que Ele dissera isto” (Jo 2:19-22). cada uma dessas duas visões finais, embora sua ênfase primária seja positiva.
A presença divina era o foco central da antiga economia do templo/tab- Para a visão VII, há aclamação a Deus por ter julgado a meretriz e ter vindicado
ernáculo de Israel (RODRIGUEZ, 1986, p. 127-145). Foram dadas a Moisés os santos. Todavia, a bem-aventurança da salvação é a nota tônica das antífonas
instruções para que construísse “um santuário, para que Eu [Deus] possa de louvor; e especialmente nas referências à noiva do Cordeiro e à ceia das bo-
habitar no meio deles [de Israel]” (Êx 25:8). E quando estava concluída das do Cordeiro há o máximo de alegria. Para a visão VIII, há inserido dentro
a construção do tabernáculo, “a nuvem cobriu a tenda da congregação, e
a glória do Senhor encheu o tabernáculo” (Êx 40:36). É este pensamento
15
  É interessante observar que cada uma das sete mensagens é introduzida por Cristo e então é
resumida em cada exemplo como “o que o Espírito diz às igrejas” — sendo análoga às declarações
  Veja outra vez a excelente dissertação em Davidson (1981, v. 2, 336-367); também “Excursus”
14
do Quarto Evangelho no sentido de que o Paracleto apresentaria as palavras de Cristo (veja, por
de Davidson (1981, v. 2, 367-388) sobre estruturas de tupos em Êx 25:40. exemplo, João 14:25-26; 15:26; 16:12-15).
Estudos selecionados em interpretação profética Cenas da “Introdução Vitoriosa”

de um quadro geralmente ditoso (21:5-11a), um verso que descreve aqueles final e a glorificação aguardam os santos de Cristo, mas onde também há os
que enfrentarão a condenação no “lago de fogo” (v. 8) — uma declaração obvia- “não salvos” cuja condenação agora foi plenamente selada. Esses “não salvos”
mente apresentada de maneira a contrastar com o galardão dos conquistadores não podem ser ignorados na apresentação de um quadro completo, porque
ou vencedores mencionados anteriormente (v. 7).16 como tem salientado G. E. Mendenhall (1973, p. 83) em um contexto diferente,
a vindicação dos santos de Deus tem dos lados “da moeda”: o anverso que rep-
Diagram 2. The “Exodus-from-Egypt”/ “Fall-of-Babylon” Motif in revelation resenta salvação para os santos tem um lado reverso que significa condenação
para aqueles que têm sido os opressores dos santos.17

“Movimento” na descrição da imagem


Além de uma impressionante dimensão vertical manifesta nas visões do Apoc-
alipse, há certo tipo de movimento horizontal evidente na utilização simbólica den-
tro da sequência das oito cenas da “introdução vitoriosa”. Já temos observado, de
outra perspectiva, o movimento no cenário do templo de um local terrestre para
um local celestial e outra vez de volta para um novo local terrestre (isto é, “nova Ter-
ra”). Mas as próprias cenas do templo celestial (nas visões II-VII) mostram uma in-
teressante progressão no simbolismo que ocorre. Consideraremos isto brevemente,
seguido por observação sucinta também de uma progressão que ocorre na imagem
do juízo negativo utilizada nas visões III-VI.
Imagem do templo celestial. Na visão II, as sete lâmpadas ou tochas de
74 (This diagram is an enlargement of the one in Kenneth A. Strand, “The Two fogo sugerem um primeiro compartimento ou ambiente do lugar santo. Em 75
Witnesses of Revelation 11:3-12,” AUSS 19 [1981]: 129. The discussion of this seguida, a visão III nos leva ao altar de ouro de incenso, diante do trono, e então
motif on p. 128 of that article should also be noted.) a visão IV expõe à vista a arca da aliança de Deus no santuário interior ou Lugar
Santíssimo (ver nota 11). Isto parece correlacionar-se com uma crescente ênfase
sobre o tempo do fim nas respectivas “descrições proféticas básicas” e interlú-
Concernente a esta ênfase positiva e negativa da abertura e fechamento das dios, apesar de todas essas sequências abrangerem a era a partir do tempo do
cenas da introdução vitoriosa, parece que as ênfases totalmente positivas das profeta até o fim. (Este fenômeno tem sido tratado suficientemente no capítulo
cenas nas visões I e II não são mantidas plenamente paralelas ou equilibradas anterior e, portanto, não precisa de mais detalhes aqui.)
em seus correlativos quiásticos nas visões VII e VIII, e isto é por boa razão: a Depois da linha divisória quiástica, a imagem do templo não mais
primeira se refere especificamente aos processos salvíficos em andamento, uma abrange o mobiliário do templo, porque as funções representadas por tal
grande preocupação teológica durante a era histórica; mas a última, a título de mobiliário — ou as atividades salvíficas indicadas por meio disso — não
contraste, pertence a um tempo na era do juízo escatológico quando a salvação existem mais. Ao contrário, a fumaça enche o templo de sorte que nen-
hum ministério de misericórdia continua (15:8); ocorrem os sinais da proc-
lamação e/ou juízo, com apenas referência geral à sua fonte no templo, do
trono, e/ou no céu (cf. 16:17ss.; 19:1-5; 21:5).
16
  Não deve ser despercebido que da mesma forma que 21:7 declara amplamente a recompensa
final para os vencedores nas sete igrejas dos capítulos 2 e 3, 21:8 reflete inclusivamente a conde-
nação dos “não vencedores” daquelas sete igrejas. Os termos “covardes”, “incrédulos”, “impuros”,
“feiticeiros”, “mentirosos” etc., em 21:8, são rememorativos das descrições e conselhos nas sete
mensagens concernentes à fidelidade até à morte (Esmirna), ao perigo dos ardis de Balaão e Jeza-   Isto está no contexto de um excelente estudo de NQM (o tema da “vingança”/”vindicação”)
17

bel (Pérgamo e Tiatira), e ao falso testemunho contra os fiéis discípulos de Cristo (Filadélfia) etc. na literatura bíblica e outra literatura do antigo Oriente Próximo.
Estudos selecionados em interpretação profética Cenas da “Introdução Vitoriosa”

Imagem do juízo negativo. As quatro visões centrais do Apocalipse — isto presença desse mesmo Jesus com sua igreja na Terra. Sua própria vitória
é, III a VI — têm introduções que apresentam forte simbolismo de juízo negativo. durante a encarnação tem assegurado a existência de sua própria comuni-
Uma característica interessante é a intensificação da ênfase negativa. Os sinais dade da aliança, e sua própria presença divina permanece verdadeiramente
na visão III são trovões, vozes, relâmpagos, e um terremoto (8:5); a estes, a visão com o seu povo ao longo da era histórica (por meio do Espírito Santo) (ver
IV adiciona “grande saraivada” (11:19); e finalmente, a visão VI apresenta esses nota 21). No quarto Evangelho, o prólogo se refere a Cristo “habitando entre
mesmos arautos do juízo mas intensifica consideravelmente o terremoto (“como nós” (Jo 1:14), mas o Discurso Sobre o Paracleto indica que mesmo depois
nunca houve igual desde que há gente sobre a terra”, 16:18) e a saraivada (com pe- da partida de Jesus para o Céu, Ele e seu Pai viriam fazer “habitação” com os
dras “que pesavam cerca de um talento”, 16:21). A visão V omite esta série especí- fiéis discípulos de Jesus (veja João 14:15-21, 23).
fica de símbolos do juízo, possivelmente porque ao iniciar sua descrição do juízo O correlativo dessa divina presença no “aqui e agora” é a plenitude da experiên-
escatológico, sua principal ênfase já transmite um pesado fardo de condenação: a cia da divina presença dependente do segundo advento de Jesus para trazer rec-
plenitude da ira de Deus sendo exposta à vista a partir do templo nas sete taças e ompensas a todas as pessoas segundo as suas obras (Ap 22:12). Nos estágios finais
do próprio templo cheio de fumaça e desocupado (15:5-8). dessas recompensas — isto é, na experiência do “novo Céu”/”nova Terra”/Nova Je-
Em todo caso, o primeiro par de visões com o tema “Êxodo-do-Egito”/”Queda- rusalém —, Deus e o Cordeiro outra vez ”habitam” com o seu povo, mas agora essa
de-Babilônia” (visões III e IV) se inicia com cenas introdutórias que já mostram habitação é uma presença direta e imediata (veja 21:3, 22; e 21:1-4).
uma progressão de intensidade de juízo. Esta intensidade é então ainda mais re- Assim, nas cenas da introdução vitoriosa iniciais e finais encontramos, em
alçada pelas descrições simbólicas do segundo par (visões V e VI). O significado certo sentido, um aprimoramento do duplo tema do Apocalipse (chamado à
teológico aqui parece ser o conceito de que o aumento das calamidades é com- atenção em meu artigo anterior): a presença de Cristo com o seu povo na era
patível com um padrão de contínua e mais flagrante rejeição da oferta de salvação presente como o ”Alfa e o Ômega”, e o seu retorno no final da era histórica para
de Cristo. Como tal, seria uma espécie de comentário ampliado sobre o princípio introduzir aqueles eventos que culminarão em sua presença com o seu povo
76 enunciado por Jesus ao declarar que a condenação do juízo sobre Betsaida, Cora- através da eternidade (cf. Ap 1:7-8 e 22:12-13). 77
zim, Cafarnaum, e outros rejeitadores de Sua misericórdia excederia a de Sodoma Mas, para que função, pois, servem as cenas introdutórias para as visões inter-
e Gomorra (cf., por exemplo, Mt 10:14-15 e 11:20-24). venientes? Enquanto imanência é a ênfase das visões I e VIII, inclusive suas cenas
da introdução vitoriosa, transcendência é a ênfase das outras visões. Essas seis visões
Relação das introduções para as visões I e VIII destacam atividade no Céu, enquanto o povo de Deus está na Terra. Mas essa tran-
Já temos analisado o significado teológico da imagem do templo nas oito cenas scendência não é de forma alguma indiferença, nem qualquer falta de preocupação
introdutórias do Apocalipse. Permanece aqui chamar atenção mais específica para e contato entre o Céu e a Terra. Ao contrário, todas essas visões (através de suas ce-
uma característica especial — a saber, a estrutura envolvente em que a introdução nas da introdução vitoriosa, e também de suas subsequentes sequências descritivas)
à visão I e à visão VIII encerram, por assim dizer, as seis introduções intervenientes. revelam uma muito resoluta continuidade vertical. O que é feito no templo do Céu é
A característica primária do esquema de inclusão é aquela do local — terrestre para feito para o benefício do povo de Deus na Terra e, portanto, a atividade celestial de-
as visões I e VIII, e celestial para as visões II-VII. Assim, a ênfase tanto no início scrita nas cenas da introdução vitoriosa acham um correlativo imediato nas forças
quanto no final do livro está sobre uma imanência da presença divina. liberadas sobre a Terra a fim de realizar o propósito de Deus para o seu povo.
Há aqui uma sugestão, talvez, dos dois adventos de Cristo e de seus re-
sultados finais? Na primeira cena introdutória, João vê o Cristo que tinha Amplas “estruturas envolventes”
vindo como Deus encarnado em seu primeiro advento — que foi morto e Breve menção deve ser feita ao fato de que na análise e discussões precedentes
então ressuscitou, e que ascendeu ao Céu depois de 40 dias. Agora essa mes- temos encontrado duas amplas “estruturas envolventes”.18 Uma destas já temos dis-
ma Pessoa divina aparece a João como aquele que foi morto, mas vive para
sempre (Ap 1:17-18) e está presente, caminhando entre Suas igrejas/candee-
iros. Esta cena da introdução vitoriosa assim evidencia a contínua e próxima 18
  “Estruturas envolventes” ou “inclusões” são comuns nos padrões literários do Apocalipse.
(ver, por exemplo, SHEA, 1985, p. 33-54, 44-45); para duas evidentes ilustrações deste fenômeno.
Estudos selecionados em interpretação profética Cenas da “Introdução Vitoriosa”

Local terrestre O capítulo anterior e o presente têm esboçado certas estruturas literárias do
Apocalipse e dado atenção em particular às cenas da introdução vitoriosa para as
oito principais visões do livro de Apocalipse. É óbvio, em primeiro lugar, que o
Local celestial Apocalipse é uma peça literária muito nitidamente organizada. Contudo, os pa-
I VIII
II - IV V - VII drões literários representam mais do que gosto estético e interesse mnemônico; eles
destacam, de maneira muito real, certos grandes temas e idéias teológicas. Esses são
1.Locais Terrestres e Celestiais temas e ideias que se assemelham e aperfeiçoam aspectos da teologia geral do Novo
Testamento, e que são especialmente valiosos ao falarem de esperança e certeza aos
leais seguidores de Cristo em sua luta contra as forças do engano e perseguição.
Ênfase Ênfase de
inteiramente predominância
positiva positiva
Referências
Ênfases tanto positivas como negativas
I & II BEASLEY-MURRAY, G. R. The Book of Revelation: based on the Revised Standard
VII & VIII
III & IV V & VI Version. London: Wipf & Stock Publisher, 1974.

2. Ênfases positivas e negativas do juízo CAMACHO, H. S. The Altar of Incense in Hebrews 9:3-4. Andrews University Semi-
nary Studies, v. 24, p. 5-12, 1986.
cutido ao tratar do local da imagem do templo para as visões I e VIII, um local
78 terrestre (presente histórico e nova terra, respectivamente); e para as visões II-VII,
79
DAVIDSON, R. M. Typology in Scripture: a study of hermeneutical ΤYIIΟΣ Structu-
um cenário no ”templo do Céu”. A outra estrutura envolvente se relaciona com a
res. Berrien Springs: [S.n.], 1981. (Andrews University Doctoral Dissertation Series, 2).
“imagem do juízo negativo” e inclui as severas ênfases do juízo negativo das cenas in-
trodutórias para as visões III a VI dentro da única ênfase positiva das cenas análogas
para as visões I e II, por um lado, e a ênfase predominantemente positiva das cenas DAVIS, D. The heavenly court scene of Revelation 4–5. Tese. (Doutorado em Teolo-
para as visões VII e VIII, por outro lado.19 (Estas duas amplas estruturas envolventes gia). Andrews University, Berrien Springs, 1986.
são apresentadas em forma de esboço no diagrama 3.)
Os dois exemplos de inclusio são de interesse do ponto de vista da arte literária,
é claro. Mas sempre devemos ter em mente que essa arte não era utilizada como um FORD, J. M. Seals and Scarabs. In: BUTTRICK, G. A.; CRIM, K. R. (Eds.). Interpreter’s
fim em si mesmo; antes, era incorporada por causa de, e em relação com sua fun- Dictionary Bible. [S.l.]: Abingdon Press, 1981. v. 4.
cionalidade para transmitir vigorosamente a perspectiva e temas teológicos que são
fundamentais no Apocalipse e que constituem o interesse primário do livro.
_____________. Revelation. Garden City: Random House Incorporated, 1975. (The
Ancor Bible, 38).
3. Resumo e Considerações finais
HENDRIKSEN, W. More than conquerors: an interpretation of the book of Revelation.
19
  Com respeito ao assunto dos aspectos positivo e negativo, nossa referência é, sem dúvida, a Grand Rapids: Baker Book House, 1940.
unicamente as cenas da introdução vitoriosa — os blocos designados por “A” no diagrama 1. Nos
outros blocos de material nas visões I, II e VII, há realmente muitos elementos negativos, mas este
fato não afeta o padrão distintivo que temos notado nas cenas introdutórias.
Estudos selecionados em interpretação profética Cenas da “Introdução Vitoriosa”

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4
Estudos selecionados em interpretação profética

Interpretando o
simbolismo do Apocalipse
Jon Paulien

Esboço do capítulo
1. O Livro de Apocalipse: Sua Natureza
2. Interpretando o Apocalipse
3. Considerações Finais

82
Sinopse editorial. Embora o
apóstolo João nunca cite direta-
mente o Antigo Testamento em sua
profecia, é evidente que ele se uti-
liza consideravelmente de suas ima-
gens. Estas alusões, formando um
verdadeiro mosaico da fraseologia
do Antigo Testamento, podem ser
classificadas sob dois formatos: (1)
ecos e (2) alusões diretas.
Através dos séculos, muitos
conceitos do Antigo Testamen-
to se separaram de suas raízes
bíblicas para formar um acervo
de ideias simbólicas comumente
usadas e compreendidas por to-
dos. A utilização desses símbo-
los comuns por João pode ser
Estudos selecionados em interpretação profética Interpretando o

denominada “ecos” (do Antigo Testamento); eles transmitem seu próprio Deus falou a cada um dentro da sua linguagem e ambiente cultural a fim de comu-
significado, além de sua matriz original do Antigo Testamento. nicar uma mensagem acerca de Seus planos para o futuro.
Por outro lado, João às vezes modela determinada porção de sua profe- As palavras que as pessoas usam e os significados que essas palavras
cia por uma seleção do Antigo Testamento que ele pretende que seus leitores transmitem são o produto da experiência passada de uma pessoa. A lin-
notem. Designadas como “alusões diretas”, essas passagens do Antigo Tes- guagem está limitada em expressão ao que é familiar às pessoas em um de-
tamento podem esclarecer o significado daquela porção do Apocalipse em terminado tempo e lugar. Mesmo o futuro só pode ser descrito na linguagem
que João usa as imagens emprestadas. da experiência passada e presente de uma pessoa.
Neste capítulo, o presente autor classifica as “alusões diretas” segundo sua Quando o Êxodo de Israel do Egito é descrito no Antigo Testamento, por ex-
utilidade na interpretação do Apocalipse e sugere os critérios pelos quais elas emplo, a linguagem usada faz lembrar ao leitor a fraseologia pela qual a poderosa
podem ser identificadas como “alusões diretas”. atividade divina na Criação e no Dilúvio é descrita no livro de Gênesis. Por exemplo,
tanto Noé como Moisés foram livrados por uma “arca” calafetada com betume (Êx
Que ninguém pense que por não poder explicar o significado de cada símbo- 2:3; cf. Gn 6:14). No Êxodo, como na Criação, a presença divina trouxe luz para as
lo do Apocalipse, é-lhe inútil pesquisar este livro numa tentativa de conhecer trevas e um divisor das águas (Êx 13:21; cf. Gn 1:3-5; Êx 14-21; cf. Gn 1:6-8). Co-
o significado da verdade que ele contém. Aquele que revelou estes mistérios a mum a todas as três descrições é o uso de “terra seca” (Js 4:18; Êx 14:21, 29; cf. Gn
João dará ao diligente pesquisador da verdade um antegozo das coisas celestiais.
8:11, 13; 1:9, 10) e “sede frutíferos e multiplicai-vos” (Êx 1:7; cf. Gn 9:7; 1:28).
Aqueles cujo coração está aberto à recepção da verdade serão capacitados a com-
preender seus ensinos, e ser-lhes-á garantida a bênção prometida àqueles que
Precisamente como a descrição do Êxodo se utiliza das descrições de ações
“ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas” divinas anteriores, assim o exílio para Babilônia e a restauração de Babilônia são
(WHITE, 2007, p. 584-585). descritos nos profetas pela linguagem da Criação e do Êxodo. A Criação, por
exemplo, é o modelo para Isaías 65:17-19. O Êxodo provê o modelo para vários
84 dos profetas (Os 2:8-15; Mc 7:15-20; Is 4:2-6; 11:15-16; 43:16-19). 85
Embora não devamos esquecer o conselho acima, os guias de estudo
sugeridos neste capítulo habilitarão o sério estudante da Bíblia a explorar Da mesma maneira, as profecias concernentes ao Messias foram proclamadas em
com maior precisão os veios da verdade espiritual por baixo da superfície termos de um profeta como Moisés, um filho de Davi e um sacerdote segundo a or-
desta superior profecia das Escrituras. dem de Melquisedeque. Deus, em cada caso, usou a linguagem do passado como uma
ferramenta para comunicar Sua vontade presente e/ou Seu plano para o futuro.
O livro de Apocalipse: sua natureza Portanto, não deve ser nenhuma surpresa descobrir que as visões do Apocalipse
não estão cheiras de helicópteros, espaçonaves, computadores e bombas nucleares.
Deus tem considerado apropriado em cada estágio da produção das Escrituras Em vez disto, elas estão expressas nas imagens do passado da igreja do Novo Testa-
oferecer Sua revelação em linguagem apropriada ao tempo, local e circunstâncias mento. Embora se originando no trono de Deus, o Apocalipse foi comunicado em
do escritor original. Deus não ignora a cultura, formação, estilo literário ou ma- linguagem apropriada ao tempo, lugar e circunstâncias do autor humano, João.
neiras de pensar dos indivíduos a quem Ele se revela. Em vez disto, Ele procura “A Bíblia não nos é dada em elevada linguagem sobre-humana. A fim de chegar
diligentemente encontrá-los onde eles estão a fim de que possam compreender, o aos homens onde eles se encontram, Jesus revestiu-Se da humanidade. A Bíblia pre-
máximo possível, Suas revelações a eles e por intermédio deles (cf. 1Co 9:19-23). cisa ser dada na linguagem dos homens” (WHITE, 2008, v. 1, p. 20). Embora uma pro-
Por exemplo, Deus apresentou a mesma mensagem básica a Nabucodonosor fecia de eventos futuros a partir da perspectiva do autor, a linguagem da experiência
em Daniel 2 como Ele fez ao profeta em Daniel 7. Mas para o rei pagão as nações anterior da igreja proveu a linguagem com a qual descrever esse futuro.
foram retratadas na forma de um ídolo. Isto é natural, sendo que ele compreendia as Conquanto a Bíblia possa frequentemente descrever nosso futuro, é
nações como gloriosas e brilhantes representações dos deuses a quem elas serviam. importante ter em mente que a linguagem por meio da qual tais profecias
Para o profeta hebreu, por outro lado, as nações foram retratadas como ele as via: foram comunicadas era a linguagem de outro tempo e lugar que não os nos-
animais devoradores e ferozes que estavam escravizando e destruindo o seu povo. sos. É muito fácil impor ao texto significados mais apropriados ao nosso
Estudos selecionados em interpretação profética Interpretando o

tempo e lugar do que à situação em que Deus originalmente falou. Desco- temas, vocabulário e teologia do Novo Testamento.3 Embora o livro tenha um
brir o significado original da linguagem do^texto nos guarda contra nossa diferente estilo, vocabulário e assunto, não devemos esperar, portanto, que sua
tendência natural de recriar o texto bíblico à nossa própria imagem.1 teologia seja radicalmente diferente do que encontramos em outros textos do
Quando falamos de “significado original”, é claro, não devemos supor que o au- Novo Testamento (HALVER, 1969, v. 32, p. 58).
tor original ou a audiência original compreendia plenamente o propósito divino na
revelação a eles comunicada. O que estamos afirmando é que o propósito divino foi Uma revelação divina
plena e adequadamente representado na frágil e localizada expressão de um falível Segundo o prefácio (1:1-3), o autor compreende sua obra como sendo a de trans-
escritor humano.2 Portanto, o significado original da linguagem do texto é decisivo mitir à igreja uma mensagem visionária de Deus. Ele repetidamente aponta para uma
para uma correta compreensão das Escrituras. Aplicar à linguagem do texto signifi- origem sobrenatural as cenas descritas em seu livro (Ap 1:10-20; 2:7, 11, etc. ; 4:1-2;
cados mais apropriados ao nosso tempo e lugar é lançar-nos em uma jornada para 10:11; 17:1-3; 19:9-10; 22:6-10). Ele se considera um profeta e sua obra uma profecia.
todos os tipos de destinos fantásticos que, embora possam parecer bíblicos, são de Sua autoridade é igual à dos apóstolos e dos profetas do Antigo Testamento. As “pala-
fato contrários à intenção divina para essa passagem. vras da profecia” devem ser obedecidas (1:3). Sua autoridade é tão inquestionável que
Portanto, nosso estudo do método se iniciará com um cuidadoso exame da nenhuma palavra deve ser adicionada ou subtraída (22:18-19).
linguagem do Apocalipse a fim de determinar que procedimentos são mais ap- Por outro lado, há considerável evidência (esboçada abaixo) de que uma multi-
ropriados para o estudo do livro. Somente se formos pacientes o suficiente para dão de alusões à literatura anterior com a qual João estava familiarizado são bor-
estudar o Apocalipse em seus próprios termos compreenderemos corretamente rifadas através das visões. Até que ponto o livro é visionário e até que ponto é ele
as visões concedidas ao seu autor (FIORENZA, 1976, p. 13). pesquisado, desenvolvido e escrito pelo autor humano? Felizmente, não precisamos
fazer tão difícil distinção. Quer as alusões venham de Deus quer sejam o resultado da
Um livro cristão meditação de João sobre as visões, isso não faz nenhuma diferença para o resultado.
86 É evidente pela primeira frase (“revelação de Jesus Cristo”) que o Apocalipse Se, como ressaltamos acima, Deus sempre fala no tempo, lugar e circunstâncias do 87
é um livro cristão (1:1). Jesus Cristo está presente em toda parte, tanto explicita- escritor original, o produto final (o texto) fala adequadamente em nome de ambos!
mente (Ap 1:1, 2, 5, 9; 11:15; 12:10, 17; 14:12; 17:6; 19:10; 20:4, 6; 22:16, 20, 21) Por amor à conveniência e facilidade de expressão, porém, neste capítulo falaremos
quanto em símbolos (Ap 1:12-16; 5:5-7; 7:17; 12:5, 11; 14:1-3). Há referências a geralmente em termos de “a intenção do autor” ou “intenção de João” sem, através
igrejas (Ap 1–3; 22:16) e à cruz (Ap 1:18; 5:6, 9, 12; 11:8; 12:11). O leitor atento disso, pretender insinuar que o livro é meramente um produto humano.
também se torna consciente de dezenas, se não centenas, de ecos recordando Para os adventistas do sétimo dia, talvez seja instrutivo relembrar a ex-
periência de Ellen G. White, que teve visões das coisas celestiais semelhantes
àquelas de João. Recentes estudos têm indicado, porém, que ela pesquisou lon-
1
Embora um conhecimento do grego e do hebraico não seja imprescindível para a compreensão da ga e arduamente para encontrar a melhor maneira de expressar o que ela havia
Bíblia (veja a conclusão deste capítulo), a leitura do texto na língua original nos ajuda a fugir das as- recebido na linguagem que seria apropriada aos leitores em seu tempo e lugar.
sociações familiares que as palavras em nosso idioma têm com nosso ambiente moderno. Na tradução Visões e pesquisa podem trabalhar juntas dentro de um simples ser humano
é mais fácil importar inconscientemente significados contemporâneos para nossa leitura do texto.
2
”A Bíblia foi escrita por homens inspirados, mas não é a maneira de pensar e exprimir-se de
para produzir um livro que transmita comunicações da mente de Deus.
Deus. Esta é da humanidade. Deus, como escritor, não se acha representado. Os homens dirão A presença do elemento divino no Apocalipse indica que o significado
muitas vezes que tal expressão não é própria de Deus. Ele, porém, não se pôs à prova na Bíblia final do livro frequentemente vai além do que o autor humano poderia ter
em palavras, em lógica, em retórica. Os escritores da Bíblia foram os instrumentos de Deus, não compreendido. Isto, porém, não autoriza intérpretes a procurar indiscrimi-
sua pena. Olhai os diversos escritores. Não são as palavras da Bíblia que são inspiradas, mas os
nadamente no livro todos os tipos de ampliados significados. Precisamente
homens é que o foram. A inspiração não atua nas palavras do homem ou em suas expressões,
mas no próprio homem que, sob a influência do Espírito Santo, é possuído de pensamentos. As
palavras, porém, recebem o cunho da mente individual. A mente divina é difusa. A mente divina,
bem como sua vontade, é combinada com a mente e a vontade humanas; assim as declarações do 3
  Para listas de paralelos à linguagem e temas do Novo Testamento, veja Rudolf Halver (1964, v.
homem são a Palavra de Deus” (WHITE, 2008, v.1, p. 21). 32, p. 58-70), William Milligan (1892, p. 42-70) e Henry B. Swete (1906, p. cli-cliii).
Estudos selecionados em interpretação profética Interpretando o

como Deus limitou-se a si mesmo quando assumiu a natureza humana na se às vezes o livro usa símbolos e conceitos que ocorrem na literatura não bíblica
encarnação, assim também se limitou quando escolheu expressar-se na Es- e na mitologia. O autor não pesquisou, necessariamente, esses símbolos; eles lhe
crituras através da linguagem de autores humanos.4 vieram como expressões vivas que seriam familiares a qualquer um que vivesse
Conquanto a intenção de Deus possa transcender a compreensão do autor na época na Ásia Menor (MORANT, 1969, p. 19).
humano, sua intenção é expressa por meio da linguagem escolhida pelo autor Conquanto em princípio possamos estar um tanto desconfortáveis com
humano. Portanto, qualquer que seja a intenção divina percebida na passagem, a ideia de que um escritor bíblico possa ter empregado em seu livro algumas
ela deve ser uma extensão natural da própria linguagem e propósito do autor.5 figuras mitológicas (por exemplo, animais de sete cabeças), devemos lembrar
a natureza profética do Apocalipse. Os profetas usavam a linguagem comum
Um livro profético da época para comunicar eficazmente. Assim, os estudiosos que têm encon-
Relacionada com a questão da intenção divina é a reivindicação do livro de trado antigas analogias para várias partes do Apocalipse podem nos ajudar a
prover informação verdadeira em relação ao futuro. O Apocalipse diz respeito compreender melhor a intenção das imagens do livro (ver BETZ, 1969, p. 155;
às coisas que “em breve devem acontecer” (1:1); coisas que “hão de acontecer HEDRIK, 1971, p. 94-95; SWEET, 1979, p. 41).7
depois destas” (1:19). Fala do regresso de Cristo e dAquele que “há de vir” (1:7-
8; 4:8). Promete recompensas ao vencedor (2:7, 11 etc.). Linguagem apocalíptica
O Apocalipse aponta para um futuro tempo de selamento (7:1-3); para É imediatamente evidente que o livro de Apocalipse não está escrito em pro-
uma futura “hora da provação” (3:10; 7:14); para uma futura multidão sa comum. Logo no início o livro é declarado ser “revelado em símbolos” (1:1,
redimida (7:9-11; 19:1-3); para uma grande proclamação final do evan- tradução literal). Uma águia fala, gafanhotos ignoram a vegetação, um grande
gelho (10:8-11; 14:6-12); para um juízo final (11:18; 20:11-15); e para uma dragão vermelho persegue uma mulher através do céu, um leão é transformado
grande batalha final (12–20) culminando na vinda de Cristo (14:14-20; em um cordeiro que vence tudo. Esta não é a linguagem típica do Novo Testa-
88 19:11-13.), introduzindo o final e universal domínio de Deus (11:15-17; mento (HALVER, 1964, v. 32, p.156). O Apocalipse é tão simbólico que o leitor 89
21–22:5). Assim, o Apocalipse está preocupado principalmente com even- precisa evitar ser demasiado literal na interpretação (MAURO, 1925, p. 23).8
tos que são futuros a partir da perspectiva do autor. Contudo, tal simbolismo cósmico era uma forma um tanto comum de
procedimento literário naqueles dias. Livros como Enoque Etiópico, 4 Esdras
Ambiente da Ásia Menor e 2 Baruque expressam sentimentos e teologia no que tem sido denominada
O texto do Apocalipse esclarece que o livro foi dirigido a sete igrejas da ”linguagem apocalíptica” (ver CHARLESWORTH, 1983-1984, v. 1). Assim, em-
província romana da Ásia (1:4; cf. 22:16).6 Portanto, não nos deve surpreender bora a linguagem do Apocalipse seja frequentemente estranha e simbólica, sua
mensagem está fundamentada firmemente na realidade. Muito provavelmente
o leitor cristão do primeiro século tinha relativamente pouca dificuldade em
4
  “A Escritura Sagrada, com suas divinas verdades, expressas em linguagem de homens, apresenta compreender os principais símbolos do livro (BARR, 1984, p. 40-41).9
uma união do divino com o humano. União semelhante existiu na natureza de Cristo, que era o Filho
de Deus e Filho do homem. Assim, é verdade com relação à Escritura, como o foi em relação a Cristo,
que ‘o Verbo [ou Palavra] se fez carne e habitou entre nós’ (Jo 1:14)” (WHITE, 2005, p. vi).
5
  Os escritores inspirados nem sempre compreendiam o conteúdo da revelação divina (veja
Daniel e 1Pe 1:10-13). Mas eles retinham o controle do texto (veja nota 8). No caso do Apocalipse, mente para outras congregações cristãs (cf. Cl 4:16).
o texto objetivava fazer sentido para seus leitores originais (Ap 1:3-4, 9-11; 22:16) bem posteriores. 7
  De especial auxílio é o comentário sobre Apocalipse de David Aune da série Word Biblical
  Nota editorial: A opinião de que o Apocalipse “fazia sentido” para seus leitores originais não Commentary. Aune é um especialista tanto no Apocalipse como no antigo mundo romano.
significa que os últimos viam ou esperavam cumprimentos imediatos da profecia total em seus 8
  Não há dúvida de que muitos assuntos em Apocalipse se destinam a ser tomadas literalmente (as
dias (opinião preterista). Muitos aspectos da visão estavam no futuro distante. As profecias sete igrejas, Cristo, João, guerra, e morte etc.), mas a declaração clara no início (1:1) combinada com os
messiânicas também “faziam sentido” para os profetas do Antigo Testamento, mas eles sabiam fenômenos do livro indica que simbolismo é a ferramenta principal do idioma usado no livro.
que seu cumprimento seria futuro para os seus tempos (1Pe 1:10-12). 9
  A construção grega em Ap 1:3 (αкоυō no acusativo) indica que os leitores e ouvintes deveriam
6
  Como com qualquer comunicação apostólica inspirada, a profecia teria tido significado igual- ter suficiente compreensão do livro para obedecê-lo.
Estudos selecionados em interpretação profética Interpretando o

Portanto, o intérprete do Apocalipse dos dias modernos precisará levar em À medida que o leitor obtém maior familiaridade com o Apocalipse, torna-
consideração a literatura apocalíptica dos tempos, que o ajudará a compreender se claro que a estrutura do livro está estritamente relacionada com o seu sig-
como a linguagem apocalíptica era entendida no primeiro século d.C. nificado. Há sete igrejas, sete selos, sete trombetas e sete cálices ou taças. Mui-
tos temas e símbolos que reaparecem em intervalos regulares (BARR, 1984, p.
Importância do Antigo Testamento 43). Quase cada passagem tem analogias em outro lugar do livro. O Apocalipse
Embora possam aparecer algumas alusões a fontes não bíblicas, é certo que o contém tal complexidade de entrelaçadas analogias que determinada passagem
Apocalipse não pode ser compreendido sem contínua referência ao Antigo Testa- pode estar mais estreitamente relacionada com material da outra extremidade
mento (BULLINGER, 1970, p. 17; FEUILLET, 1959, p. 55; SCROGGIIE, p. 22). Ele do livro do que com passagens vizinhas (THOMPSON, 1985, p. 16-17). Assim,
é “um perfeito mosaico de passagens do Antigo Testamento” (MILLIGAN, 1892, p. o intérprete precisa ter um bom conhecimento da estrutura e conteúdo de todo
72). A total infiltração do Antigo Testamento no Apocalipse indica que ele é a princi- o livro e estar ciente do impacto do todo sobre a passagem em estudo.12
pal chave para desvendar o significado dos símbolos do livro. Os ouvidos da audiên-
cia de João estavam muito melhor sintonizados para assimilar as alusões ao Antigo Um ambiente de adoração
Testamento do que é o caso hoje com muitas congregações cristãs (LINDARS, 1976, Uma das mais impressionantes características do Apocalipse é a sua repeti-
p. 65). O Antigo Testamento fornecia um meio de “descodificar” a mensagem do da descrição de cenas de adoração no Céu, geralmente no contexto de ima-
Apocalipse que não estava disponível ao observador externo (HOYT, 1953, p. 7).10 gens relacionadas com o santuário do Antigo Testamento (Ap 4; 5; 7:9-12; 8:2-
Nosso estudo do Apocalipse deve, portanto, incluir uma completa com- 6; 11:15-19; 15:5-8; 19:1-8). Não somente há um grande número de hinos no
preensão da história, poesia, linguagem e temas do Antigo Testamento. Sem tal livro (Ap 4:11; 5:9, 10, 12, 13; 7:10, 12; 11:15, 17), mas as próprias bênçãos e
compreensão, o significado do livro permanece oculto em grande parte. maldições sobre aqueles que lêem e ouvem o Apocalipse indicam uma leitura
pública do livro em um ambiente de adoração (1:3; 22:18-19).
90 Problema de alusões Estes fatos sugerem que precisa ser dada atenção às práticas cristãs de 91
Afirmar que o Apocalipse está saturado de conceitos do Antigo Testamento por adoração do primeiro século, às imagens do santuário do Antigo Testamento,
si só não aborda a questão de como eles são usados no livro. O leitor totalmente aos serviços religiosos da sinagoga judaica e aos targuns aramaicos que se de-
familiarizado com o Antigo Testamento percebe rapidamente que o Apocalipse senvolveram nas sinagogas judaicas.
jamais cita o Antigo Testamento.11 Antes, alude a ele com uma palavra aqui, um
conceito ali, uma frase em outro lugar (HASEL, 1982, v. 1, p. 105; SWEET, 1979, p. Conclusão
39). Conquanto esteja claro que o Antigo Testamento é básico para qualquer com- As características do livro de Apocalipse já examinadas chamam a at-
preensão do Apocalipse, nem sempre está claro a que parte do Antigo Testamento enção para o método. O método adequado para o estudo do Apocalipse re-
está se fazendo alusão em um dado verso (VOS, 1965, p. 18). fletirá estas características e as utilizará para esclarecer a intenção do autor.
Um método exegético que desvendará os símbolos do Apocalipse deve Volvemo-nos agora para um método proposto a fim de “decifrar o código”
incluir diretrizes para determinar quando e de que maneira o autor está deste fascinante livro, com ênfase especial sobre como descobrir e validar
aludindo ao Antigo Testamento. alusões feitas por João a fontes do Antigo Testamento.

Estrutura repetitiva

10
  Embora a autora sem dúvida tivesse experiências visionárias, o que ela escreveu é também
claramente o produto de interpretação e reflexão teológica.
11
  Das dezenas de estudiosos que fazem esta asserção, alguns importantes personagens serão suficientes,   Algumas das melhores estruturas de Apocalipse incluem as apresentada pelos seguintes
12

como: Kurt Aland (1975, p. 903), Adela Yarbro Collins (1984, p. 42), Elizabeth Schüssler Fiorenza (1980, autores: John Wick Bowman (1955, p. 440-43), Elisabeth Schüssler Fiorenza (1977, p. 358-66),
p. 108), Halver (1964, v. 32, p. 11-12), Pierre Prigent (1981, p. 368) e H. Barclay Swete (1902, p. 392). Leroy C. Spinks (1978, p. 211-22) e K. A. Strand (1972, p. 48).
Estudos selecionados em interpretação profética Interpretando o

Interpretando o Apocalipse resumo em favor de alguma “chave” externa limitaria, em vez de realçar, a com-
preensão de sua intenção.
As realidades previamente observadas no texto de Apocalipse sugerem que O Apocalipse é singular por sua estrutura incrivelmente entrelaçada. Isto
o intérprete deve seguir quatro passos fundamentais em seu estudo: (1) Fazer é tanto assim que a chave para o material em uma extremidade do livro pode
uma exegese básica (ou exposição) da passagem que está sendo estudada. (2) frequentemente ser encontrada na extremidade oposta. O contexto imediato de
Examinar analogias relevantes em outras partes do Apocalipse. (3) Encontrar as qualquer passagem pode ser tão vasto como todo o livro. Exemplos de óbvias
fontes das imagens do Antigo Testamento. (4) Descobrir se o Novo Testamento estruturas paralelas em Apocalipse incluem as trombetas e as taças, e o cava-
expande o significado desses símbolos à luz do evento-Cristo. leiro do cavalo branco nos capítulos 6 e 19.
O exame de tais estruturas paralelas habilita o estudante a aplicar às pas-
Exegese básica sagens difíceis ideias obtidas das mais claras. Por exemplo, muitos exegetas con-
O primeiro passo em torno da compreensão da mensagem do Apocalipse cordam que as sete taças ou pragas (cap. 16) são juízos de Deus sobre aqueles
é determinar o que o autor estava dizendo aos seus leitores originais em seu que o rejeitaram. Pareceria razoável, portanto, esperar um tema similar nas sete
tempo, lugar e circunstâncias. O termo “exegese” é uma palavra derivada do trombetas, um segmento em que há pouca concordância.
grego que significa “extrair”. Assim isto veio designar o processo de permitir
que o texto bíblico fale por si mesmo, em vez de impor à passagem um signifi- A fonte do Antigo Testamento
cado que se origina com o leitor. Consequentemente, a exegese básica dá aten- O próximo passo importante é determinar a que texto(s) do Antigo Testa-
ção ao significado das palavras (pelo uso de léxicos e dicionários teológicos), à mento João está aludindo.
sintaxe (como as palavras se relacionam umas com as outras em uma sentença), Enquanto nos movemos para esta seção decisiva, o leitor é lembrado
à estrutura da passagem e seu contexto imediato e à relação que a passagem tem da discussão anterior sobre a autoria divino-humana do Apocalipse. A im-
92 com sua situação contemporânea. pressão deixada pelo livro é de visões celestiais escritas por alguém que 93
A situação contemporânea é esclarecida aprendendo-se o que pode ser con- pesquisou cuidadosamente suas expressões nas Escrituras do Antigo Tes-
hecido acerca dos primeiros ouvintes e seu ambiente social, as preocupações tamento. Sendo que João em Patmos talvez não tenha tido acesso ao An-
que estimularam o autor a escrever e a literatura paralela da época, se disponível. tigo Testamento, é possível que ele possa ter “pesquisado” sua memória ou
Prestimosas introduções ao Apocalipse podem ser encontradas em muitos co- tivesse as alusões trazidas à sua mente diretamente por Deus.
mentários e em “introduções ao Novo Testamento”. Para o Apocalipse, um ex- Todavia, quer as alusões surgissem na mente de Deus quer na de João,
ame de outros escritos apocalípticos é especialmente proveitoso. elas refletem a mente de Deus e a mente de João à qual Deus se revelou.
Tais métodos de exegese, cuidadosamente efetuados, produzem uma compreen- Como salientamos anteriormente, expressões tais como “o autor”, “o intento
são razoavelmente clara da maioria dos livros do Novo Testamento. Mas no Apoc- de João” ou “o autor cita” não devem ser compreendidas como significan-
alipse eles produzem um resultado insatisfatório. É possível em Apocalipse conhecer do que o livro de Apocalipse é meramente um produto humano. Tais ex-
plenamente bem o que João está dizendo e ainda não ter absolutamente nenhuma pressões são apenas uma maneira conveniente de se referir à complexidade
ideia do que ele tem em vista (HALVER, 1964, v. 32, p. 7). Assim, é necessário um da autoria divino-humana do livro em sua totalidade.
método mais amplo, mais teológico de exegese para fazer justiça ao Apocalipse. Torna-se cada vez mais evidente para aqueles que estudam em profundidade
o Apocalipse que as expressões do livro estão inteiramente saturadas da linguagem,
Paralelos dentro do Apocalipse história e ideias do Antigo Testamento. Assim, é impossível compreender correta-
O próximo passo é examinar como os símbolos e estruturas de uma dada mente o Apocalipse se o seu antecedente veterotestamental não for levado a sério.
passagem são usados em outros lugares no Apocalipse. Quando o autor tem “Podemos dizer de uma forma geral, que até que tenhamos sucesso em expor
claramente definido sua intenção no contexto, é sem propósito procurar inter- a fonte do Antigo Testamento para uma profecia apocalíptica, não temos inter-
pretações criativas fora do livro. Por exemplo, em 3:21 e 11:18 o autor fornece pretado essa passagem” (KRAFT, 1974, v. 16a, p. 16).
um resumo interpretativo em adiantamento do material a seguir. Ignorar esse
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Somente quando é compreendida a base ou antecedente do Antigo Testa- uma lista de analogias do Antigo Testamento ao Apocalipse deve ser digna de
mento se pode esperar que o Apocalipse revele segredos que podem ter sido alguma coisa (BLACK, 1976, p. 135). É interessante observar que dez impor-
perfeitamente claros para o leitor do primeiro século (CORSINI, 1983, v. 5, p. 33; tantes comentaristas sobre o livro de Apocalipse apresentam listas amplamente
HOYT, 1953, p. 1-2, 7; MOUBCE, 1977, v. 17, p. 39; TENNEY, 1957, p. 112). O divergentes de alusões ao Antigo Testamento no Apocalipse (ver PAULIEN,
problema é como saber que texto(s) do Antigo Testamento João tinha em mente 1988, v. 11, p. 121-154). Isto demonstra que a tarefa não é fácil.
quando ele escreveu (GUNDRY, 1967, p. 4-5; TENNEY, 1957, p. 101; TRUDIN- Duas espécies de alusões. Antes de esboçar um método para determinar a pre-
GEN, 1963, p. 40; VOS, 1965, p. 18-19, 112). Contudo, o profeta jamais cita o An- sença de uma alusão ao Antigo Testamento, devemos distinguir entre duas espécies
tigo Testamento; meramente alude a ele.13 O problema de identificar uma alusão de alusões. Uma espécie assume a intenção do autor em apontar para o leitor uma
torna-se mais complicado quando descobrimos que em muitas ocasiões João obra anterior como um meio de expandir os horizontes do leitor. A porção do texto
parece ter citado imprecisamente de memória (JOHNSON, 1896, p. 29; SMITH em estudo só pode ser compreendida à luz da alusão em seu contexto original.15
JR., 1972, p. 61; TOY, 1884, p. xx), ou adaptado à linguagem do Antigo Testa- Uma alusão intencional como esta é chamada “alusão direta”.
mento para se ajustar à sua necessidade (COLLINS, 1984, p. 42; CORSINI, 1983, O outro tipo de alusão, que chamaremos de “eco”, não depende da atenta con-
v. 5, p. 32; FEED, 1965, p. 129; PERMAN, 1941, p. 53; PRESTON; HANSON, sciência de um uso literário anterior (HOLLANDER, 1981, p. 95). Muitas das figu-
1949, p. 35; STAGG, 1975, p. 333-334; STENDAHL, 1954, p. 159; VANHOYE, ras literárias do Apocalipse eram incertas no ambiente em que João vivia (ALTICK,
1962, p. 461-472; VOS, 1965, p. 23-32). É também muito possível que ele tenha 1975, p. 94). Embora ele utilize um “símbolo vivo” mencionado em dezenas de lu-
usado uma tradição textual diferente da que temos à nossa disposição (NICOLE, gares do Antigo Testamento, ele não está necessariamente ciente de sua história.
1940, p. 9-11; TENNEY, 1957; TRUDINGER, 1963, p. 17). Antes, ele extrai de um fundo comum de linguagem prontamente compreendido
Para complicar as coisas ainda mais, o Antigo Testamento é escrito em uma por seus leitores (HEDRIK, 1971, p. 17; EZELL, 1977, p. 21).
língua diferente da do Novo Testamento. Assim, expressões do Antigo Testamento Um eco está assim divorciado de seu contexto original. Enumerar passa-
94 em hebraico são encontradas na “tradução grega” do Novo Testamento (NICOLE, gens do Antigo Testamento em que um eco é encontrado não é proveitoso. O 95
1940, p. 11-12). Simplificaria grandemente as coisas se o autor do Apocalipse sem- que importa é o significado básico do eco. Um bom exemplo de eco é a figura
pre tivesse citado da tradução grega do Antigo Testamento como a Septuaginta. de vegetação como um símbolo para o povo de Deus. Usado com tal regulari-
Mas estudos recentes têm mostrado que o Apocalipse diverge amplamente da Sep- dade parece ter atingido um significado fixo nos tempos do Antigo Testamento
tuaginta. É muito possível que João fizesse sua tradução (CHARLES, 1920, v. 1, p. (compare Sl 1:3; Is 5:1-7; Jr 2:21 com Ap 8:7; 9:4). Isto de modo algum exclui,
lxvi) e às vezes se utilizasse de tradições textuais que nos são relativamente descon- porém, a possibilidade de que um eco de significado bastante fixo pudesse ser
hecidas, tais como os targuns aramaicos e a tradição textual hebraica representada aplicado diferentemente em diferentes contextos.16
em Qumran (TRUDINGER, 1966a, p. 82-88). Resumindo, referências alusivas ao Antigo Testamento podem entrar no
Assim, a busca de alusões não pode ser considerada cientificamente com- Apocalipse de duas maneiras. João pode usar uma fonte do Antigo Testa-
pleta sem um exame muito mais amplo das fontes do Antigo Testamento do que mento direta e conscientemente tendo em mente o seu contexto original. Tal
tem sido possível no passado.14 Felizmente, não é necessário identificar cada alusão é “vontade de ser” (BAKER, 1984, p. 7-8). João está plenamente con-
alusão à Bíblia Hebraica a fim de responder ao Apocalipse (COLLINS, 1984, sciente da fonte bem como sua relevância para sua composição. Ele admite
p. 44, 48). No entanto, controles cuidadosos devem ser postos em prática se

15
  Note as palavras de John Hollander (1981, p. 95) em seu The figure of Echo: A Mode of Allusion
13
  Contraste Apocalipse com o Evangelho de Mateus, que geralmente identifica a fonte de suas in Milton and After: “O texto ao qual se faz referência não está totalmente ausente, mas é parte da
citações do Antigo Testamento (Mt 2:17, 19; 33:3 etc) (VANHOYE, 1962, p. 436). biblioteca portátil partilhada pelo autor e sua audiência ideal. A intenção de aludir reconhecida-
14
  Além da Sptuaginta, traduções gregas tais como Áquila, Símaco e Teodocião; Targuns Ar- mente é esencial para o conceito.”
amaicos tais como Neofiti I e Pseudo-Jônatas sobre o Pentateuco, e as traduções massoréticas, 16
  Contraste Apocalipse 7:1-3 e 9:4, onde os vegetais são protegidos dos juízos divinos por uma
Qumran e Samaritana do hebraico deveriam ser consultadas. marca, com Ap 8:7, onde a vegetação é destruída pelos juízos divinos.
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o conhecimento do leitor tanto da fonte quanto da intenção do autor em conjunções menores são normalmente excluídos) são paralelas entre uma pas-
recorrer àquela fonte (HOLLANDER, 1981, p. 106). sagem do Apocalipse e uma passagem da Septuaginta ou de outra versão do
Por outro lado, o profeta pode “ecoar” ideias do Antigo Testamento, cuja primeiro século d.C.17 Estas duas importantes palavras podem ser acopladas em
origem não o preocupa. Em um eco ele não aponta ao leitor uma fonte de fun- uma frase, ou podem até mesmo ser separadas — desde que estejam em clara
do específico; meramente utiliza um “símbolo vivo” que geralmente será com- relação entre si em ambas as passagens do paralelo sugerido.
preendido por seus leitores contemporâneos. Os paralelos verbais são descobertos colocando-se o texto de Apocalipse lado a
A distinção entre alusões diretas e ecos é muito significativa para o estudo lado com o texto-fonte em potencial. O fraseado que é exato ou semelhante é enfati-
do Apocalipse. Deixando de fazer esta distinção, os comentaristas às vezes têm zado, e a relação em potencial entre as passagens é avaliada em uma base preliminar.
interpretado ecos como se o autor tivesse a intenção de que seu leitor incorpo- Um bom exemplo de paralelo verbal é encontrado em Apocalipse 9:2: “E a fu-
rasse o contexto de uma fonte em sua compreensão do Apocalipse. A distinção maça do poço subiu como a fumaça de uma grande fornalha” (tradução do autor).
entre alusões e ecos realmente exigem duas diferentes abordagens à interpre- Isto tem uma notável semelhança com o fraseado de Êxodo 19:18 na Septuaginta.18
tação, dependendo da natureza da relação do autor com uma fonte específica Um exemplo de um paralelo verbal onde duas palavras-chave não estão ligadas
em uma determinada passagem (ALTICK, 1975, p. 95-96). gramaticalmente pode ser visto comparando-se Apocalipse 9:2 com Gênesis 1:2.19
Alusões diretas. A presença de uma alusão direta requer que o intérprete as- Quanto mais palavras importantes que são encontradas em comum, maior a proba-
socie o material à sua fonte (HOLLANDER, 1981, p. 106). João assume que a fonte bilidade de que uma alusão direta esteja presente. Uma alusão direta não deve ser
de literatura é conhecida e que o leitor pode extrair ideias do contexto da fonte que assumida com todo paralelo verbal; a observação de fraseado comum é apenas
melhorem sua compreensão da profecia do Apocalipse. Mas a fim de lidar adequ- parte do processo de acumular evidência para uma alusão direta.
adamente com alusões diretas é necessário identificar corretamente suas fontes. 2. Paralelos temáticos. Muitas vezes o profeta claramente tem em mente
O procedimento para a identificação de alusões diretas opera por um pro- uma passagem do Antigo Testamento, mas usa uma diferente palavra grega da
96 cesso de eliminação. Analogias sugeridas podem ser recolhidas de comentários, Septuaginta, ou usa apenas uma simples palavra para fazer a conexão. Isto não 97
referências marginais e listas de alusões ao Antigo Testamento. Estas são en- deve surpreender. As alusões por sua própria natureza não são obrigadas a
tão examinadas para ver se satisfazem um ou mais dos três critérios para uma reproduzir o fraseado preciso do original (VOS, 1965, p. 112). Podem envolver
alusão direta (veja abaixo). Quanto mais critérios uma referência satisfaz, mais ideias bem como fraseado, e incluir semelhança de tema e deliberado contraste
provável é que João tinha em mente essa passagem específica do Antigo Testa- (BAKER, 1984, p. 10; TENNEY, 1957, p. 101). Tais paralelos de uma só palavra
mento quando escreveu essa porção do Apocalipse. são distinguidos dos “ecos” em que há uma evidente relação temática entre os
Os três critérios são os seguintes: contextos em que as palavras paralelas são encontradas.
1. Paralelos verbais. O termo “citação” não está claramente definido na litera- Os paralelos temáticos podem ser encontrados não somente pela com-
tura (TRUDINGER, 1963, p. 12-15; 1966b). Todavia, uma boa definição é dada por paração com a Septuaginta, mas também comparando-se o intento do gre-
Trudinger (1966a, p. 82): “Alguém pode dizer que está citando quando usa combi- go do Apocalipse com o hebraico e o aramaico do Antigo Testamento (ver
nações de palavras de uma forma em que não poderia usá-las se não fosse por um
conhecimento de sua ocorrência nesta forma específica em outra fonte.”
Por esta definição é evidente que o termo “citação” só pode raramente, se algu- 17
  As versões existents na Héxapla de Origenes (FIELD, 1964) provavelmente reflete ao menos
ma vez, ser aplicado ao uso do Antigo Testamento pelo profeta. Apenas ocasional- algumas versões correntes quando o Apocalipse foi escrito. Os paralelos verbais não operam na
tradução a menos que a transliteração esteja envolvida. Exemplo: “Messias” é claramente um
mente João usa mais de três ou quatro palavras na mesma sequência em que elas são
paralelo verbal do hebraico meshiach.
encontradas no Antigo Testamento (TENNEY, 1957, p. 101). Assim, os paralelos 18
  Ap 9:2, kai anebē kapnos ek tou phreatos ōs kapnos kaminou megalēs; Êx 19:18 na LXX, kai
verbais podem ser compreendidos em um sentido mais amplo do que as citações. anebainen ho kapnos, hōsei kapnos kaminou.
Um paralelo verbal, portanto, é definido como ocorrendo sempre que pelo 19
  As conexões principais são os termos “trevas” (substantivo, skotos; verbo, skotoō) e “abismo”
menos duas palavras de mais do que menor significado (artigos, preposições e (abussos). Gn 1:2, LXX, kai skotos, epanō tēs abussou [...] Ap 9:2, kai ēnoixen to phrear tēs abussou
[...] kai eskotōthē ho hēlios kai ho aēr.
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MCNAMARA, 1978, v. 27a; TRUDINGER, 1966a). Tais equivalentes greco- Os paralelos estruturais não estão limitados às passagens paralelas. Às vezes
semíticos são colocados em uma categoria separada por causa do maior eles ocorrem em relação com estruturas históricas ou teológicas mais amplas
nível de incerteza quanto à intenção do autor. que vão além de passagens específicas do Antigo Testamento. Por exemplo, as
Um exemplo de paralelo temático é dado por Tenney (1957, p. 102). Ele sete trombetas bem como as sete últimas pragas de Apocalipse são inquestiona-
nota que embora o termo “todo-poderoso” ocorra muitas vezes no Antigo velmente paralelas às pragas de Êxodo descritas explicitamente em Êxodo 7–12
Testamento, somente em Amós 4:13 (LXX) ele é usado em um contexto que e outras porções do Antigo Testamento (Sl 78, 105, 135, 136) e implicitamente
é paralelo a Apocalipse 1:8. O conceito de contextos paralelos provê uma em uma multidão de referências nos profetas. Os relatos veterotestamentais da
salvaguarda conta a seleção indiscriminada. Criação, da queda de Babilônia e da conquista de Jericó são vistos como estando
Outro paralelo temático pode ser encontrado comparando-se Apocalipse na base do material das sete trombetas.
9:4 e Ezequiel 9:4. Em ambos os casos é colocado um sinal na testa com a finali- O que está acima pode parecer semelhante aos paralelos temáticos, mas ali
dade de proteção contra os juízos divinos. As duas passagens são claramente pa- há uma sutil e importante diferença. Um paralelo temático está limitado a uma
ralelas, embora seja usada uma palavra grega diferente para “marca”.20 Contudo, ideia específica em Apocalipse que tem um antecessor em potencial em uma
não se deve supor automaticamente apenas deste paralelo que o revelador está passagem específica do Antigo Testamento. Juntamente com os paralelos ver-
apontando para Ezequiel 9:4. Mas a observação deste tema semelhante é parte bais, os paralelos temáticos constituem os básicos blocos de construção pelos
do processo de acumular evidência para determinar a intenção de João. quais podem ser tomadas decisões concernentes à influência.
3. Paralelos estruturais. Às vezes o profeta de Apocalipse usa o Antigo Testa- Contrastando, os paralelos estruturais ocorrem se uma seção de Apocalipse
mento construindo sobre a estrutura literária ou teológica de seções inteiras sem baseia-se ou em um antecessor literário (como Joel 2:1-11 para Apocalipse 9:1-
necessariamente seguir o fraseado exato (BEALE, 1984, p. 307; HEDRIK, 1971, p. 11) ou em uma grande estrutura teológica como o tema de Êxodo. Tais paralelos
17; VANHOYE, 1962, p. 440-441).21 Ocorre um paralelo estrutural quando João estruturais normalmente compreendem vários paralelos verbais e/ou temáticos.
98 modela uma determinada passagem em um texto do Antigo Testamento, utilizando Resumo de critérios. A fim de se qualificar como uma alusão direta ao An- 99
sua linguagem e temas em aproximadamente a mesma ordem. tigo Testamento, uma palavra ou frase de Apocalipse deve satisfazer no mínimo
Um bom exemplo de tal paralelo estrutural pode ser visto comparando-se um dos critérios acima. Muitos satisfarão mais do que um.
Apocalipse 9:1-11 com Joel 2:1-11. Note que ambas as passagens começam com um Dos três, os paralelos verbais são frequentemente o critério mais fraco. Seu
toque de trombeta, mencionam trevas, um exército de gafanhotos, uma descrição valor como evidência aumenta, porém, quando as várias palavras paralelas au-
daquele exército e finalmente uma referência ao líder daquele exército. Outros pa- mentam e ao ponto em que as palavras paralelas são ordenadas de um modo
ralelos entre as duas passagens incluem a ansiedade daqueles que são afligidos pelo semelhante em ambas as passagens. Sendo que os paralelos estruturais consis-
exército de gafanhotos, o escurecimento do sol e um ruído de carros.22 tem de vários paralelos verbais e temáticos integrados, eles normalmente con-
stituem a mais forte evidência para uma alusão direta.
Quanto mais critérios uma alusão direta específica se ajusta, mais certo é que o
autor conscientemente moldou sua passagem tendo em mente o contexto do An-
20
  Ez 9:4, LXX, semeiōn; Ap 9:4, sphragida. tigo Testamento (DODD, 1952, p. 126). A certeza é também afetada pelas várias
21
  Este critério inclui o que Morton Smith (p. 78, 115) chama “paralelos de forma literária” e “pa- passagens da literatura anterior em que palavras, conceitos e estruturas específicas
ralelos em tipos de associação”. Lars Hartman (1966, p. 126, 95, 118, 137) parece estar sugerindo algo são encontrados. Quando determinado paralelo é singular em literatura anterior, a
semelhante ao meu conceito de “paralelo estrutural” em seu uso da frase “padrões de pensamento”. Ele
probabilidade de que João está dirigindo nossa atenção àquela passagem específica
também observa que Zc 12:2-4 provê a “estrutura” para 1 Enoque 56:5-8 (HARTMAN, 1966, p. 89).
22
  Outros exemplos de paralelos na estrutura literária podem ser vistos comparando-se Apoc- é correspondentemente aumentada (HARTMAN, 1966, p. 85, 115).
alipse 1:12-18 com Daniel 7:9-13, e Daniel 10; Apocalipse 13 com Daniel 3 e 7; Apocalipse 18 com
Ezequiel 26-28; e Apocalipse 19:11-16 com Isaías 63:1-6. Alguns até mesmo sugerem que todo
o livro de Apocalipse está estruturado para se assemelhar ao livro de Ezequiel (ver GOULDER,
1981, p. 343-50; VANHOYE, 1962, p. 436-76).
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Classificação de alusões diretas Em Isaías 30:30, fogo e saraiva são derramados como juízos sobre os as-
Nossa lista de alusões diretas ao Antigo Testamento em Apocalipse são ap- sírios. Contudo, embora a primeira trombeta contenha um paralelo verbal e
enas probabilidades. Aquele que cria a lista de alusões deve, portanto, indicar o um paralelo temático a Isaías 30:30, não se pode falar em nenhum paralelo
nível de incerteza envolvido e, onde possível, as razões para essa incerteza. estrutural, e os outros paralelos são relativamente fracos. Assim, é possível que
As alusões em potencial podem ser classificadas em cinco categorias de João tivesse em mente essa passagem do Antigo Testamento quando escreveu a
probabilidade: alusões certas, alusões prováveis, alusões possíveis, alusões in- primeira trombeta, mas não há suficiente evidência para uma certeza razoável.
certas, e não alusões. Tal paralelo pode ser instrutivo para o intérprete, mas nunca deve ser usado
Alusões certas. Estas existem quando a evidência para dependência é tão deci- como a única evidência para uma interpretação.
siva que o intérprete está certo ou praticamente certo de que João estava apontando Alusões incertas. Estas parecem ter algumas ideias paralelas, mas as alusões
para um texto antecedente. Um exemplo de alusão certa é a referência à sétima são muito fracas. Entretanto, o intérprete não pode conclusivamente negar que
praga do Egito na primeira trombeta (cf. Êx 9:23-26; Ap 8:7). As pragas do Êxodo elas são alusões diretas.
são um paralelo estrutural subjacente às sete trombetas como um todo. Na margem da vigésima-sexta edição do Novo Testamento Grego de
Assim, esperaríamos que João refletisse pragas específicas em vários pon- Nestle-Aland, Ezequiel 5:12 está enumerado como paralelo para a primeira
tos da narrativa. A ação tanto da primeira trombeta quanto da sétima praga trombeta. A ausência de paralelos verbais e temáticos indica que é incerto
se origina no Céu, envolve uma mistura de saraiva e fogo caindo sobre a Terra, que João aqui tivesse especificamente em mente Ezequiel 5:12, embora a
e resulta em destruição para a vegetação da Terra. Há também um paralelo expressão “terça parte” esteja presente em ambas as passagens. Mas se o con-
temático: ambos os lances são juízos divinos sobre aqueles que se opõem a Deus ceito de uma “terça” foi extraído do Antigo Testamento, foi provavelmente
e ao seu povo. Esta afluência de evidência leva esta alusão direta a um alto nível baseado em Ezequiel 5:1-4 ou Zacarias 13:8-9 em vez de nessa passagem.23
de certeza que é raro em Apocalipse. O contexto de uma alusão incerta não deve ser usado na interpretação do
100 Alusões prováveis. Essa classificação é atribuída a uma passagem quando Apocalipse, mas pode ser uma fonte para definir um ou mais “ecos”. 101
a evidência de sua relação é considerável, mas fica aquém da certeza absoluta. Não alusões. A categoria de “não alusão” é relevante somente quando se
Um exemplo de alusão provável é a relação entre a primeira trombeta e Ezequiel avalia as listas de alusões sugeridas. Depois de examinar, o intérprete conclui
38:22. Os paralelos verbais e temáticos são virtualmente tão extensos como é o que não há nenhuma evidência de que o autor tinha em vista um paralelo en-
caso com Êxodo 9:23-26. Não somente isso, mas a combinação de saraiva, fogo tre os dois textos. Eugen Hühn, por exemplo, achava que a primeira trombeta
e sangue que está sendo usada em juízo é exclusiva para Ezequiel 38. fazia referência a Isaías 2:13, em que árvores são usadas como um símbolo do
Todavia, as sete trombetas são uma porção do Apocalipse que tem soberbo e altivo a quem Deus humilhará (HÜHN, 1900, p. 247). A ausência de
apenas referências mínimas a Ezequiel, de sorte que o paralelo estrutural está um paralelo verbal no grego, e de quaisquer paralelos temáticos ou estruturais,
ausente. Assim, existe incerteza suficiente no tocante a essa alusão direta para nega a esse paralelo sugerido a condição de uma alusão direta. A definição de
levá-la a ser classificada como “provável” em vez de “certa”. Contudo, sendo árvores por Isaías, porém, pode ser “ecoada” por João na primeira trombeta.
que as alusões tanto certas quanto prováveis são consideradas suscetíveis de ter A conclusão de tal estudo deve, é claro, permanecer um tanto experimental. Mas
estado na mente do revelador quando ele escreveu, o intérprete deve levar em não é necessário traçar cada paralelo ao Antigo Testamento a fim de compreender
consideração o contexto original do texto de origem na interpretação da pas- a mensagem básica do livro (COLLINS, 1984, 44, 48). Conquanto o intérprete deva
sagem de Apocalipse que contém a alusão. ser receptivo a nova evidência que possa levar paralelos específicos a serem reavali-
Alusões possíveis. Em uma alusão possível, há evidência suficiente para in- ados de vez em quando, o procedimento acima coloca em uma base mais objetiva a
dicar que João pode ter estado fazendo uma alusão direta à passagem do Antigo interpretação de alusões diretas ao Antigo Testamento em Apocalipse.
Testamento, mas não suficiente para ser razoavelmente certa. Um exemplo de
uma alusão possível é a relação entre a primeira trombeta e Isaías 30:30.
23
  Ezequiel 5:12 poderia concebivelmente ser relacionado com 5:1-4, que é uma provável alusão,
mas isto não acrescentaria nada à nossa compreensão da primeira trombeta.
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O Novo Testamento Jesus Cristo é um novo Moisés (Jo 5:45-47), que é ameaçado em seu nas-
Já temos notado que o livro de Apocalipse é um livro cristão e está repleto de cimento por um rei hostil (Mt 2), passa 40 dias jejuando no deserto, impera
uma multidão de paralelos a outros livros do Novo Testamento. O que temos no sobre 12 e ordena 70, dá a lei de um alto monte (Mt 5:1-2), alimenta seu
Apocalipse é uma declaração de Jesus em “muitas, muitas telas” (SCHMIDT, 1947, p. povo com o pão do céu (Jo 6:28-35) e ascende ao Céu depois da ressurreição.
177). Como um verdadeiro resumo da mensagem do Novo Testamento, ele é com Ele é o novo Israel, que sai do Egito (Mt 2), passa pelas águas (Mt 3:13-17),
razão colocado no final do cânon neotestamentário (HALVER, 1964, v. 32, p. 58). é levado pelo Espírito ao deserto, passa pelas águas uma segunda vez (Lc
Traçar paralelos de ambos os Testamentos sugere que o livro de Apocalipse é 12:50 — batismo na cruz) e entra na Canaã celestial.
praticamente uma declaração sumária dos temas de toda a Bíblia (MOLATT, 1984, Tais exemplos poderiam ser multiplicados. No Novo Testamento, Jesus é o novo
p. 30). Um estudioso chama o Apocalipse de “o final da sinfonia bíblica” (MOLATT, Isaque, o novo Davi, o novo Salomão, o novo Eliseu, o novo Josué e o novo Ciro. Os
1984, p. 30). Outro declara: “Neste livro todos os outros livros da Bíblia terminam e escritores do Novo Testamento veem a vida, morte e ressurreição de Jesus como
se encontram” (JAMIESON; FAUSSET; BROWN, 1961, p. 1526).24 cumprindo toda a experiência do povo de Deus desde Adão até João Batista.
Portanto, o autor do Apocalipse não usa a linguagem e ideias do Antigo Testa- Como deveria o cristão se relacionar com esta história? Cumprindo todo
mento de um modo insipidamente literal (VOS, 1965, p. 36-40). O significado sug- o Antigo Testamento em Sua própria experiência, Jesus estava atualizando essa
erido pelas alusões ao Antigo Testamento para os símbolos do Apocalipse deve ser experiência para todos os que estão “nEle”. NEle o crente se torna um verdadei-
visto à luz do evento Cristo (EZELL, 1977, p. 23; FORD, 1982, p. 98; KRAFT, 1974, v. ro israelita (Gl 3:29; At 13:32-33; 2Co 1:20) quando confessa que Jesus é o Mes-
16a, p. 85; LESTRINGANT, 1942, 152). A vitória de Jesus Cristo é o novo princípio sias (Jo 1:47-50), Aquele que deveria realizar as esperanças de Israel. Assim todo
organizador da história no Apocalipse (SCHLIER, 1964, p. 361). o Antigo Testamento torna-se relevante para a experiência do cristão. Quem
É claro que sua experiência com Jesus e a inspiração do Espírito Santo (1:10) crê em Cristo é parte de um novo Israel (LARONDELLE, 1983, p. 121). “Não
levou João a cristianizar os materiais do Antigo Testamento com os quais ele es- há nenhuma mudança na fraseologia empregada no Novo Testamento, mas há
102 tava trabalhando (BARR, 1984, p. 42). Assim, nós também devemos interpretar positivamente uma mudança concernente ao povo a quem essas profecias e des- 103
esses conceitos através do prisma do evento-Cristo (EZELL, 1977, p. 23; FORD, ignações agora se aplicam. No Novo Testamento, fala-se da igreja na linguagem
1982, p. 98). A melhor maneira de fazer isto é procurar paralelos do Novo Tes- empregada no Antigo Testamento concernente a Israel” (WERE, 1977, p. 30).
tamento para as expressões do Antigo Testamento no livro de Apocalipse. Este A transferêndcia do Novo Testamento do termo “Israel” da nação judaica
processo pode ocorrer por meio do mesmo método usado para determinar para a igreja tem um profundo impacto sobre a maneira como a história e a pro-
alusões ao Antigo Testamento no Apocalipse. fecia do Antigo Testamento é colocada a serviço da igreja. O Novo Testamento
Os escritores do Novo Testamento compreendiam a Cristo como cumpri- universaliza as promessas da aliança (PAULIEN, 1984, p. 375). Israel não deve
mento do intento básico do Antigo Testamento.25 Isto é verdade não apenas de ser mais visto em termos étnicos ou geográficos (1Pe 2:4-10; Tg 1:1). O Shekiná
escolhidas profecias messiânicas, mas de todo o espectro da história do Antigo é visto na reunião daqueles que creem em Jesus (Mt 18:20). O verdadeiro temp-
Testamento. Jesus é a nova criação (2Co 5:17), nascido por meio do Espírito que lo na Terra é espiritual e mundial, modelado segundo o verdadeiro tabernáculo
envolve Maria (cf. Lc 1:35 com Gn 1:2). Ele é o novo Adão (Rm 5 e 1Co 15); dos lugares celestiais (2Co 6:14-18; Gl 4:26; Hb 8:1-2). Babilônia e Egito são
feito à imagem de Deus (2Co 4:4; Cl 1:15), casado com uma nova Eva (Ef 5:32- também espiritualizados e representam os inimigos da igreja.
33 — a igreja), e em pleno domínio sobre a Terra (Jo 6:16-21), sobre os peixes Assim, as imagens do Antigo Testamento não devem ser insipidamente apli-
do mar (Lc 5:1-11; Jo 21), e sobre todos os seres vivos (Mc 11:2). cadas ao livro de Apocalipse. Como os autores do Novo Testamento, João está
plenamente cônscio do impacto do evento Cristo sobre as realidades espirituais.
A menos que o significado de Jesus Cristo e a cruz sejam deixados a permear os
24
  Note a aprovação de Ellen G. White (2007, p. 585) a esta declaração em Atos dos Apóstolos
(paralelo verbal e temático!).
25
  João 5:39-40; Lucas 24:25-27, 44-47. Um escelente estudo partindo de uma perspectiva ad-
ventista é Hans K. LaRondelle (1983).
Estudos selecionados em interpretação profética Interpretando o

símbolos do Apocalipse, a interpretação resultante não será cristã, não importa imagens apocalípticas são certamente estranhas, mas para aqueles que estão famil-
quão frequentemente Cristo possa ser nomeado em sua explicação.26 iarizados com o Antigo Testamento, o livro perde bastante de sua estranheza.
Deve-se admitir, é claro, que as habilidades acadêmicas e o preparo do especial-
Considerações finais ista podem salvaguardá-lo de opiniões falhas baseadas em informação inadequada.
Todavia, indivíduos não familiarizados com as línguas originais ou com antigos
Por causa das limitações de espaço, este capítulo é demasiado breve para materiais básicos podem contribuir grandemente para o contínuo crescimento da
mostrar todas as implicações de um método exegético para o estudo do Apoc- igreja nesta área pela aplicação de outras salvaguardas como as seguintes:
alipse. Assim, os aspectos do método que poderiam ser pertinentes para o espe- 1. Em todas as oportunidades para o estudo, o estudante do Apocalipse deve
cialista foram deixados de lado. Aqueles que gostariam de explorar em profun- orar fervorosamente por uma atitude de aprendizagem e uma abertura à di-
didade os problemas envolvidos na aplicação do método para as complexidades reção do Espírito Santo. Sem oração e a iluminação do Espírito Santo, a obra até
das línguas originais seriam aconselhados a examinar o meu livro mais técnico mesmo do mais excelente erudito pode sutilmente se desviar. A intenção divina
sobre o assunto (ver PAULIEN, 1988, v. 11). não é controlada por mentes seculares. O testemunho unido das Escrituras é
O método não pode ser aprendido pela mera leitura deste capítulo. Deve que os “pensamentos [de Deus] não são os vossos pensamentos” (Is 55:8) e as
ser descoberto em experiência interativa com o texto. Quanto mais tempo se coisas espirituais “se discernem espiritualmente” (1Co 2:14).
gasta examinando os paralelos verbais, temáticos e estruturais, mais se tem a 2. O uso de várias traduções pode proteger o estudo da Bíblia da aberração
sensação da dinâmica envolvida no uso da linguagem pelo autor. ocasional introduzida por tradução defeituosa ou por erros na transmissão
Para examinar onde o autor está fazendo uma alusão direta, temos de manuscrita. Estas podem ser complementadas pelo uso de uma concordância
lidar com probabilidades. Onde não temos certeza se João está fazendo uma analítica, como a de Strong ou de Young, que levará o estudante de volta ao fra-
alusão direta, seria melhor deixar o contexto do Antigo Testamento fora da seado original sem a necessidade de aprender um alfabeto desconhecido.
104 discussão deste texto específico do Apocalipse. 3. A maior parte de um período de estudo da Bíblia deve ser gasta nas seções 105
Embora não seja irrazoável, não é^historicamente certo^que^o^autor^do das Escrituras que são razoavelmente claras. É através de passagens claras das Es-
Apocalipse tivesse acesso a qualquer dos documentos do Novo Testamento. Seu con- crituras que as passagens obscuras, tais como os selos e as trombetas do Apocalipse,
hecimento do ensino do Novo Testamento pode ter vindo através de experiência di- podem ser compreendidas mais exatamente. A fascinação excessiva por textos e as-
reta com Cristo, com a tradição oral e/ou documentos agora perdidos para a história. suntos problemáticos pode resultar em distorção gradual da compreensão, levando
Assim, é geralmente mais seguro admitir que João se baseia em uma tradição comu- a opiniões estreitas e frequentemente fanáticas que dividirão a igreja.
mente compreendida do que em documentos específicos do Novo Testamento. 4. Os resultados do estudo detalhado, como pesquisas de concordância e análise
Sem dúvida, o não especialista que ler este capítulo se sentirá desanimado acerca de alusões, devem ser comparados com muita leitura geral das Escrituras para que a
das possibilidades de usar tal método. Com pouca experiência na prática da exegese, obsessão com detalhes não desvie ninguém da ênfase central da passagem que está
pouca ou nenhuma experiência da apocalíptica judaica ou do ambiente cultural da sendo estudada. É possível provar quase tudo com uma concordância. Este perigo é
Ásia Menor do primeiro século, nenhum conhecimento do grego, hebraico, ou ara- minimizado, porém, quando cada passagem é compreendida à luz de muita leitura
maico, muitos leitores serão tentados a levantar as mãos em desespero. geral das Escrituras no contexto, preferivelmente em uma tradução clara e atual-
Felizmente, embora esse conhecimento e habilidades sejam extremamente izada onde o contexto mais amplo pode ser visto a surgir.
proveitosos, eles são raramente decisivos para a interpretação do livro de Apoc- 5. Os métodos eficientes devem ser aplicados às contribuições que Ellen
alipse. Por exemplo, a vasta maioria de alusões ao Antigo Testamento no livro de White oferece para a compreensão de textos difíceis.27 Muito dano pode ser feito
Apocalipse é claramente evidente até mesmo nas traduções em nosso idioma. As quando sua autoridade na igreja é usada de uma maneira irregular, resultando

26
  Uma excelente aplicação deste princípio pode ser encontrada em Hans K. LaRondelle (1987, 27
  Veja neste volume, capítulo 7, “Uso de Daniel e Apocalipse por Ellen G. White”, e capítulo 8,
p. 108-145). “O uso dos escritos de Ellen G. White pelo intérprete”.
Estudos selecionados em interpretação profética Interpretando o

em uma distorção da intenção do escritor das Escrituras. Corretamente com- BLACK, M. Some Greek Words With ‘Hebrew’ Meanings in the Epistles and Apocalypse. In:
preendida, a inspiração se harmoniza consigo mesma. Os princípios 3 e 4 acima MCKAY, J. R.; MILLER, J. F. (Eds.). Biblical Studies: Essays in Honour of William Barcaly.
se aplicam também aos escritos do Espírito de Profecia. Londres: Collins, 1976.
6. É prudente que os intérpretes individuais estejam abertos às críticas
BOWMAN, J. W. The Revelation to John: Its Dramatic Structure and Message. Interpretation, v.
construtivas de seus colegas, principalmente daqueles que discordam deles.
9, n. 4, p. 453-456, 1955.
Aqueles que discordam de nós frequentemente podem apontar para reali-
dades no texto que temos omitido por causa de nossas estreitas perspectivas. BULLINGER, E. W. The Apocalypse. Londres: Attic Press, 1935.
Tal crítica é particularmente valiosa quando vem de indivíduos que são do-
tados de capacidade invulgar e/ou com recursos, como o conhecimento das CHARLES, R. H. The Revelation of St. John. Edimburgo: [s. n.], 1920. v. 1.
línguas originais, que pode ajudar na exegese.
Concluindo, a tarefa delineada neste capítulo não é fácil, mas é emocion- CHARLESWORTH, J. H. (Ed.). The Old Testament Pseudepigrapha. Garden City:
ante. Por meio de uma cuidadosa aplicação do método, os estudantes da Bíblia Doubleday, 1983. v. 1.
podem obter uma compreensão mais profunda da mensagem do Apocalipse.
COLLINS, A. Y. Crisis and Catharsis: the power of the Apocalypse. Philadelphia: Westminster
Ao serem tais percepções partilhadas dentro do corpo da igreja, correção mútua
Press, 1984.
pode ocorrer. Juntos, podemos crescer em nossa compreensão do Apocalipse e
caminhar em direção daquele grande reavivamento prometido.28 CORSINI, E. The Apocalypse: the perennial revelation of Jesus Christ. Wilmington: Veritas
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  Ellen G. White (2002, p. 113) alega que: “Quando nós, como um povo, compreendermos o
28

que este livro [Apocalipse] para nós significa, será visto entre nós grande reavivamento.”
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5
Estudos selecionados em interpretação profética

Tipologia do santuário
Richard M. Davidson

Esboço do capítulo
1. Tipologia Bíblica
2. Compreendendo a tipologia do Santuário
em Apocalipse
3. Tipologia do Santuário no arranjo literário
4. Considerações finais
5. Gráficos 1-4

112
Sinopse editorial. Até mesmo
uma leitura casual das Escrituras
revela que Deus fala ao seu povo
em uma variedade de maneiras.
Tipologia é um dos métodos pelos
quais o Espírito Santo explicou de
uma maneira concreta ou gráfica as
várias facetas da verdade espiritual.
A mente apreende a representação
simbólica mais prontamente do
que o faz com o raciocínio abstrato.
Neste capítulo, o escritor define a
tipologia bíblica como “prefigu-
rações divinamente designadas (na
forma de pessoas/eventos/institu-
ições) que apontam para o seu cum-
primento antitípico em Cristo e nas
realidades do evangelho produzidas
Estudos selecionados em interpretação profética Tipologia do santuário

por Cristo”. Uma porção significativa das Escrituras repousa sobre esta sube- Tipologia bíblica
strutura tipológica do Antigo Testamento e o cumprimento neotestamentário.
O culto israelita centralizava-se nos ritos e festividades do sistema do templo-san-
Introdução
tuário. Mais do que ritual, porém, o sistema em si compunha uma integrada tipologia
Em anos recentes, vários estudiosos têm ressaltado a importância da
que prefigurava o evento Cristo e a completa realização do plano da salvação.
tipologia para os escritores do Novo Testamento. O gráfico 1 exemplifica
O Novo Testamento reconhece um triplo cumprimento de todos os tipos
algumas dessas modernas avaliações e resumos comparando as duas prin-
do Antigo Testamento — inclusive o da instituição do santuário. Assim, a
cipais opiniões de tipologia bíblica que têm disputado a atenção no mundo
tipologia do santuário encontra no Novo Testamento (1) um cumprimento
erudito: a tradicional e a “pós-crítica”.1
cristológico — em que Cristo é percebido como o verdadeiro templo (Jo 1:14;
Em minha tese publicada, procurei determinar a verdadeira natureza da tipo-
2:21); (2) um cumprimento eclesiológico — em que a igreja é compreendida
logia bíblica. Suas características básicas surgiram de uma análise de passagens es-
como o templo de Deus (1Co 3:16, 17; 2Co 6:16); e (3) um cumprimento
criturísticas representativas. Estas eram claramente tipológicas porque os escritores
apocalíptico — em que Cristo ministra os méritos do Seu sacrifício por nós
da Bíblia empregaram os termos hermenêuticos tupos (tipo) ou antitupos (antítipo)
no antitípico santuário celestial, na presença de Deus, um ministério que
(DAVIDSON, 1981, v. 2). Os seguintes elementos básicos têm consistentemente
conclui com o julgamento final (Hb 8:1, 2; 9:24; Ap 3:5).
surgido desse estudo (ver DAVIDSON, 1981, v. 2; 1984, p. 16-19, 30).
Não é de surpreender, portanto, descobrir que as visões de João das re-
alidades celestiais centralizam-se no templo-santuário celestial. O enfoque Elementos básicos
nesse santuário como o local de toda a atividade divina redentora é parte Elemento histórico. O elemento histórico salienta o fato de que a tipologia
integrante do arranjo literário do Apocalipse. Cada uma das suas grandes está arraigada na história. Três aspectos decisivos estão envolvidos. (1) O tipo
sequências visionárias (quer seja sete ou oito, os eruditos diferem quanto ao e o antítipo são realidades históricas cuja historicidade é assumida e é essencial
114 número) se inicia com um cenário do templo-santuário celestial que afeta a 115
para o argumento tipológico. Por exemplo, personagens históricas (Adão e out-
interpretação da profecia subsequente. ros), eventos (Êxodo, Dilúvio) ou instituições (santuário) são usados como pre-
O Apocalipse apresenta progressões lineares e recapitulação. Embora as sequên- figurações. (2) Seus antítipos no Novo Testamento são igualmente realidades
cias individuais — tais como igrejas, selos e trombetas — sigam um movimento de históricas. Há uma correspondência histórica entre tipo e antítipo que vai além
recapitulação (como as quatro visões de Daniel), as cenas introdutórias do templo- de situações paralelas gerais para detalhes específicos correspondentes. (3) Há
santuário parecem aludir aos importantes temas do santuário de uma maneira linear. uma escalada ou intensificação do tipo para o antítipo.
Duas progressões têm sido identificadas: (1) temas ligados ao ciclo anual de festivi- Elemento profético. O aspecto profético da tipologia bíblica envolve três pon-
dades são mencionados em sua sequência normal do calendário: Páscoa/Festa dos tos essenciais: (1) O tipo do Antigo Testamento é uma apresentação antecipada ou
Pães Asmos, Pentecostes, Trombetas, Dia da Expiação e Festa dos Tabernáculos; e (2) prefiguração do correspondente antítipo do Novo Testamento. (2) O tipo é divina-
temas ligados ao serviço sacerdotal são também mencionados em sua sucessão natu- mente designado para prefigurar o antítipo do Novo Testamento. (3) Há uma quali-
ral do ministério diário (tamîd) e do ministério anual (Dia da Expiação) do juízo final. dade de dever-necessidade acerca do tipo do Antigo Testamento, dando-lhe a força
Estas descrições da tipologia do santuário elucidam o duplo e antitípico ministério de um prenúncio preditivo do cumprimento no Novo Testamento. Por exemplo,
sumo sacerdotal de Cristo no templo-santuário celestial. Adão é visto como um tipo dAquele “que havia de vir” (Rm 5:14).
Assim, a tipologia do santuário no livro de Apocalipse oferece uma Elemento escatológico (do fim dos tempos). Este elemento da tipologia
importante chave para a interpretação integral de suas mensagens para a esclarece ainda mais a natureza da correspondência e intensificação profética
igreja, e especialmente no fim dos tempos.

1
  Para discussão mais detalhada do material deste gráfico (com referências bibliográficas para
citações), veja Richard M. Davidson (2009, p. 125-128).
Estudos selecionados em interpretação profética Tipologia do santuário

entre tipo e antítipo. As realidades do Antigo Testamento não estão apenas li- Apocalipse. Em toda a tipologia bíblica, tanto horizontal quanto vertical, a realidade
gadas a quaisquer realidades semelhantes, mas a um cumprimento do fim dos histórica do tipo e do antítipo são indispensáveis para o argumento tipológico.
tempos. Três possíveis espécies de cumprimento escatológico podem ser vistas A veracidade da continuidade histórica entre tipo e antítipo é dupla-
sob este tópico: (1) inaugurado, ligado ao primeiro advento de Cristo; (2) apro- mente enfatizada na tipologia do santuário. O santuário celestial não é so-
priado, focalizando a igreja enquanto ela vive em tensão entre o “já” e o “ainda mente o cumprimento antitípico neotestamentário do santuário terrestre
não”; e (3) consumado, vinculado à apocalíptica segunda vinda de Cristo. do Antigo Testamento, mas é também o protótipo original e preexistente, se-
Elemento cristológico-soteriológico (centralizado em Cristo e na salvação). gundo o qual é modelado o santuário terrestre.
Este aspecto da tipologia salienta seu foco e ênfase essenciais. Os tipos do Antigo Nas primeiras instruções concernentes à construção do santuário terrestre
Testamento não são meramente realidades “nuas”, mas realidades de salvação. Eles está implícito que a realidade do terrestre é derivada da realidade do celestial.
encontram seu cumprimento na pessoa e obra de Cristo e/ou nas realidades do Êxodo 25:40 (cf. Hb 5:8) é a passagem fundamental afirmando a continuidade
evangelho trazidas por Cristo, o qual é, portanto, o ponto de orientação final dos básica entre os santuários terrestre e celestial.3 O que está implícito em Êxodo
tipos do Antigo Testamento e suas realizações no Novo Testamento. 25 torna-se explícito através do restante do Antigo Testamento.
Elemento eclesiológico (relacionado com a igreja). Esta característica da Passagens dos gêneros cultual, narrativo, poético/sapiencial, profético e
tipologia bíblica aponta para três possíveis aspectos da igreja que podem estar apocalíptico concorrem para designar a realidade espaço-temporal do san-
envolvidos no cumprimento tipológico: os adoradores individuais, a comuni- tuário celestial (ver DAVIDSON, 1976; 1981, v. 2, p. 382-383; SHEA, 2007, p.
dade corporativa e/ou as ordenanças (batismo e Ceia do Senhor). 5-8; ANDREASEN, 1981, p. 67-86). Cenas da assembleia divina, da liturgia ce-
Reunindo tudo isto, podemos definir tipologia bíblica como um estudo leste, da corte celestial em sessão4 convergem em atribuir realidade literal a um
neotestamentário das realidades históricas da salvação do Antigo Testamento, lugar no Céu conhecido como santuário ou templo celestial. Fortalecendo estas
ou tipos (pessoas, eventos, instituições), que Deus designou para corresponder surpreendentemente numerosas referências ao santuário celestial está a con-
116 e prefigurar profeticamente seus intensificados aspectos de cumprimento an- sistente cosmovisão bíblica que se recusa a dicotomizar a realidade em literal/ 117
titípico (inaugurado, apropriado, consumado) na história da salvação do Novo terrestre por um lado e não literal/celestial por outro.
Testamento. Em resumo, o ponto de vista tradicional de tipologia, não a posição Por todo o Novo Testamento é mantida esta mesma cosmovisão bíblica.
pós-crítica, é confirmado pelos dados das Escrituras (veja gráfico 1). A despeito de algumas afirmações contrárias, a evidência é persuasiva de
Estes cinco elementos básicos da tipologia reforçam toda a extensão de que o autor de Hebreus rejeita a alegorização dualista e filônica do mundo
referências e alusões ao santuário no livro de Apocalipse, indicando assim a celestial a favor de um santuário celestial e liturgia reais. Como o expressa
natureza tipológica deste material.2 Um olhar mais atento para as implicações William Johnsson, “sua preocupação [do autor de Hebreus] em todo o ser-
extraídas dos elementos característicos da tipologia bíblica ajuda a esclarecer a mão é estabelecer a confiança cristã em fatos objetivos[...]. Divindade real,
natureza da tipologia do santuário no Apocalipse. humanidade real, sacerdócio real — e podemos acrescentar, um ministério
real em um santuário real” (JOHNSSON, 1979, p. 91, grifo nosso).
Compreendendo a tipologia do santuário no Apocalipse É nesta mesma trajetória bíblica que devemos colocar o livro de Apocalipse.
Não se pode desmistificar a realidade do santuário celestial, descartando-o
como imagem dentro de um mundo simbólico da literatura apocalíptica. As
Implicações do elemento histórico
O elemento histórico da tipologia bíblica é decisivo, porque enfatiza a reali-
dade literal e espaço-temporal do santuário celestial conforme descrito no livro de
3
  Veja minha exegese de Êxodo 25:40 para prova deste detalhe (DAVIDSON, 1981, v. 2, p. 336-388).
4
  Sobre o concílio ou assembleia divina, veja E. C. Kingsbury (1964, p. 279-86), Whybray (1971) e
Andreasen (1981, p. 77-78). Sobre a correspondência entre a liturgia do templo terrestre e celestial, veja
esp. J. C. Matthews (1902, p. 65-80), Richard Preuss (1958, p. 181-84) e Hans Strauss (1970, p. 91-102).
  Isto se tornará evidente ao prosseguirmos examinando o material do santuário no Apocalipse.
2
Sobre o tribunal celestial em sessão, veja Arthur Ferch (1989, p. 157-76) e William Shea (2011).
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passagens de controle do Antigo Testamento, que claramente formam o pano terrestre. De novo, “abriu-se no Céu o templo de Deus” (Ap 11:19), e ele olhou
de fundo para as descrições do santuário em Apocalipse, em todo o seu múlti- para dentro do véu interior, ao lugar santíssimo. Ali viu “a arca do seu concerto”,
plo testemunho de diferentes escritores usando gêneros diferentes (inclusive o representada pelo receptáculo sagrado, construído por Moisés, para guardar a
apocalíptico), harmoniosamente confirmam a realidade objetiva do santuário lei de Deus (WHITE, 2005, p. 414-415).
celestial. O elemento histórico e a dimensão vertical da tipologia não admitem
uma conclusão diferente no que concerne ao Apocalipse. Em uma varredura rápida através do testemunho bíblico, ela resume o consist-
Devemos nos apressar em acrescentar, no entanto, que o santuário celestial ente quadro bíblico: “Moisés fez o santuário terrestre segundo o modelo que lhe foi
não é exatamente como o santuário terrestre. O Antigo Testamento já aponta mostrado. Paulo ensina que aquele modelo era o verdadeiro santuário que está no
para uma intensificação vertical entre terrestre e celestial bem como uma in- Céu. E João dá testemunho de que o viu no Céu” (WHITE, 2005, p. 415).
tensificação horizontal entre a sombra do Antigo Testamento e a substância do A tese do teólogo sistemático Fernando Canale5 mostra como os grandes
Novo Testamento. Como o expressa Ellen G. White: sistemas teológicos do pensamento cristão tradicional (protestante, católico e
ecumênico pós-moderno) têm construído sobre o paradigma platônico da “in-
O esplendor sem-par do tabernáculo terrestre refletia à vista huma na as glórias temporalidade” de Deus. Todavia, a doutrina escriturística do santuário revela
do templo celestial em que Cristo, nosso Precursor, ministra por nós perante que este paradigma fundamental é uma distorção da realidade bíblica.
o trono de Deus. A morada do Rei dos reis, em que milhares de milhares o Segundo as Escrituras, Deus não é essencialmente incompatível com
servem, e milhões de milhões estão em pé diante dEle (Dan. 7:10), sim, aquele espaço e tempo; Ele é o próprio Deus que tem habitado “desde o princípio”
templo, repleto da glória do trono eterno, onde serafins, seus resplandecentes (Jr 17:12) em um palácio ou templo celestial; que realmente habitava no
guardas, velam a face em adoração — não poderia encontrar na estrutura mais santuário do deserto e no Templo de Jerusalém; que, na contínua obra de
magnificente que hajam erigido as mãos humanas, senão pálido reflexo de sua
redenção, está agora empenhado em uma atividade real, histórico-temporal
118 imensidade e glória (WHITE, 2005, p. 414). 119
em um santuário celestial real e espaço-temporal.
Assim, o santuário integra e constitui todo o fluxo da história da redenção. Ele
Mas a diferença entre o santuário terrestre e o celestial não é que o celestial é o único fundamento para a teodiceia — a vindicação de Deus. E com a redenção
seja menos literal, menos real, como nossa overdose ocidental de dualismo grego concluída o santuário atingirá o seu objetivo quando Deus literalmente — em es-
poderia levar-nos insuspeitamente a supor. Talvez C. S. Lewis aponte o caminho em paço e tempo — “habitar” conosco para sempre (Ap 21:3). As implicações da apli-
torno de um antídoto para esta equação de celestial com não literal. Em seu livro cação consistente de Canale do paradigma bíblico conforme revelado na realidade
The Great Divorce, ele eficientemente comunica a mensagem de que as realidades espaço-temporal do santuário são realmente profundas.
celestiais não são menos, porém mais reais (LEWIS, 2010). Outra parte do problema em lidar com a natureza do santuário celestial deriva
Segundo o testemunho de João, o santuário celestial não é uma metáfora para de uma incursão adicional do dualismo grego em nosso pensamento. O dualismo
o Céu, mas um lugar no Céu (Ap 11:19; 14:17; 15:5). Ellen G. White, também aqui, grego promove uma dicotomia entre literal e simbólico. Segundo o ponto de vista
parece estar correta e em harmonia com o testemunho cumulativo das Escrituras bíblico, porém, muitas realidades concretas são ao mesmo tempo literais e simbóli-
quando toma muito literalmente a visão joanina do santuário celestial: cas. Podemos ilustrar este detalhe com a tipologia do Dilúvio e o batismo em 1
Pedro 3 e a tipologia Êxodo/sacramental de 1 Coríntios 10. Tanto o tipo quanto o
Sendo, em visão, concedido ao apóstolo João vislumbrar o templo de Deus nos
antítipo destes exemplos são realidades históricas. Mas notemos o fato de que o ba-
Céus, contemplou ele, ali, “sete lâmpadas de fogo” que “diante do trono ardiam”
(Ap 4:5). Vi um anjo, “tendo um incensário de ouro; e foi-lhe dado muito in- tismo e a Ceia do Senhor (antítipos) são entidades literais, muito reais. Contudo, ao
censo para o pôr com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro, que
está diante do trono” (Ap 8:3). Foi permitido ao profeta contemplar o primeiro
compartimento do santuário celestial; e viu ali as “sete lâmpadas de fogo”, e o “al- 5
  Para sua crítica fundamental dos grandes sistemas teológicos vistos à luz dos dados bíblicos,
tar de ouro”, representados pelo castiçal de ouro e altar de incenso, do santuário veja Fernando Canale (1983). A explicação de Canale do básico paradigma bíblico centralizado
na realidade espaço-temporal do santuário é o assunto do seu vindouro livro.
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mesmo tempo eles simbolizam ou apontam para importantes verdades espirituais cumprimento básico das expectativas escatológicas do Antigo Testamento cen-
além de si mesmos. Do mesmo modo as Escrituras confirmam a realidade literal tralizando-se na vida terrestre e obra de Jesus Cristo em Seu primeiro advento;
do santuário celestial e sua liturgia, e ao mesmo tempo essas mesmas realidades (2) o derivado cumprimento espiritual pela igreja, o corpo de Cristo no tempo
apontam além de si mesmas para supremas verdades espirituais (por exemplo, as de tensão entre o “já” e o “ainda não”; e (3) a consumação apocalíptica e a in-
lâmpadas representando o Espírito Santo, Ap 4:5). trodução final da era vindoura no segundo advento de Cristo e além.
Dois perigos devem ser evitados. Podemos concentrar-nos exclusivamente Esses três aspectos de cumprimento podem ser denominados respectiva-
na “geografia celestial” e perder as mensagens espirituais que são comunicadas. mente escatologia inaugurada, apropriada e consumada. Ou, por conveniência,
Mas podemos também espiritualizar a realidade espaço-temporal e por meio eles podem ser designados como cristológico, eclesiológico e apocalíptico.6
disso perder a substância literal e a verdade espiritual. Deve ser enfatizado (conforme ilustrado no gráfico 3) que a subestrutu-
ra escatológica descrita acima é sobrepujada por uma dimensão vertical-
Implicações do elemento profético celeste. Durante toda a história do Antigo Testamento, durante toda a “hab-
O elemento profético da tipologia bíblica é importante ao ressaltar a natureza itação” de Cristo na Terra e durante toda a existência da Igreja Cristã como
prospectiva/preditiva da tipologia do santuário. João não “reinterpretou” o san- o corpo de Cristo, devemos reconhecer a realidade cósmica do governo de
tuário do Antigo Testamento em um tipo de santuário celestial. Em vez disso, o Deus. Há uma continuidade vertical durante toda a história da salvação; a
Antigo Testamento prefigurou os aspectos redentores do último. ligação entre o Céu e a Terra é próxima e decidida.
Visto que os tipos bíblicos são divinamente designados para servir como pre- Ao mesmo tempo, até o ponto culminante final, há uma tensão vertical. O
figurações prospectivas/preditivas, alguma indicação da existência e qualidade homem experimenta as coisas celestiais pela fé, espiritualmente; mas ele ainda
preditiva dos vários tipos do Antigo Testamento deve ocorrer antes do seu cum- está na Terra. Não antes da consumação apocalíptica — quando os santos forem
primento antitípico. Este aspecto da tipologia não tem sido amplamente recon- para o Céu no Segundo Advento, e depois do milênio quando o trono de Deus
120 hecido, mas tal é o modelo coerente que surge ao longo das Escrituras: os tipos for transportado para a Terra, e “o tabernáculo de Deus estiver com os homens” 121
do Antigo Testamento mencionados pelos escritores do Novo Testamento já — a tensão entre o terrestre e o celestial encontrará completa solução.
foram identificados como tipológicos antes do cumprimento antitípico. Uma importante implicação para a tipologia do santuário logicamente
O gráfico 2 ilustra este modelo. A coluna do meio salienta os indicadores se segue a partir da perspectiva escatológica que temos resumido. Esper-
verbais da tipologia do Antigo Testamento. Com respeito à tipologia do san- aríamos que o cumprimento antitípico da tipologia do santuário do An-
tuário, note o item 2 (espaço em negrito no gráfico). As realidades do santuário tigo Testamento correspondesse a uma ou mais das três manifestações es-
terrestre já estão indicadas como tipológicas em numerosas passagens do Anti- catológicas neotestamentárias do reino de Deus — inaugurada, apropriada,
go Testamento e estão em relação com as realidades celestiais. João está, portan- ou consumada. Visto que estas “manifestações do reino” são apenas difer-
to, simplesmente anunciando o cumprimento dos tipos e sombras do santuário entes aspectos de um reino escatológico, não seria surpreendente se o cum-
do Antigo Testamento que apontavam para a substância do santuário celestial e primento antitípico da tipologia do santuário do Antigo Testamento devesse
a morte expiatória e sacerdócio de Cristo. regularmente abranger todos os três aspectos.
O exemplo na parte inferior do gráfico 3 mostra ser este o caso. Cristo é
Implicações do elemento escatológico visto como o templo antitípico (Jo 1:14; 2:21; Mt 12:6). A igreja é designada
O elemento escatológico (fim dos tempos) da tipologia bíblica é uma chave para
compreender como a tipologia do santuário é cumprida através do livro de Apoc-
alipse. O gráfico 3 resume a subestrutura escatológica da tipologia do Novo Testa- 6
  Conforme notado em Typology in Scripture (DAVIDSON, 1981, v. 2, p. 394): “Usamos estes
mento (ver DAVIDSON, 1981, v. 2, p. 390-394; LADD, 1974; LARONDELLE, 1983).
três termos com cautela, porque todos os três termos poderiam ser interpretados como se apli-
Resumindo, podemos dizer que as profecias e tipos do reino do An- cando a todos os três aspectos. Mas tendo em vista seu óbvio ponto de ênfase, acreditamos que es-
tigo Testamento têm um cumprimento escatológico com três aspectos: (1) o sas distinções ‘abreviadas’ dos aspectos no cumprimento histórico-escatológico da salvação será
útil para uma discussão mais aprofundada”.
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como o templo do Espírito Santo (1Co 3:16, 17; 2Co 6:16). O templo celestial Uma chave importante para a interpretação
sobrepuja todo o cumprimento do fim dos tempos e adquire destaque especial Esses critérios hermenêuticos para os diferentes modos de cumprimento
no momento da consumação apocalíptica (Ap 3:12; 7:15; 11:19; 21:3, 22). na tipologia do santuário nos ajudam a conciliar adequadamente nossa con-
clusão anterior a respeito de um real e literal santuário celeste com várias
Implicações dos elementos Cristo/salvação/igreja alusões aparentemente figurativas/espirituais ao santuário. Observe o seguinte:
Uma vez tenhamos reconhecido a existência da subestrutura escatológi- os sete castiçais que representam as sete igrejas (Ap 1:12, 20), as almas debaixo
ca dos cumprimentos antitípicos do Novo Testamento, é importante per- do altar do holocausto clamando por vingança (Ap 6:10-11) e o “átrio exterior
ceber os três diferentes modos de cumprimento nesta subestrutura. Estes do santuário” dado às nações (Ap 11:2). Estas referências militam contra uma
diferentes modos de cumprimento surgem das características da tipologia compreensão literal das cenas do santuário celeste no restante do livro? Ao con-
envolvendo Cristo, salvação e a igreja. trário! Uma compreensão da subestrutura escatológica da tipologia do Novo
O reino de Deus é cristocêntrico. Cristo não é o centro de forma abstrata, Testamento fornece uma explicação para desvendar o uso consistente e coer-
mas em relação salvífica com o seu povo. O reino de Deus partilha a mesma ente da tipologia do santuário encontrada no Apocalipse.
modalidade que a ligação de Cristo com o seu povo. Assim o cumprimento dos Notamos (veja gráfico 3, coluna do meio que na era da igreja os antítipos terres-
tipos partilha o mesmo caráter que a natureza da presença de Cristo. tres do reino espiritual da graça encontram um cumprimento espiritual (não literal),
Por exemplo, no primeiro advento o reino (o governo) de Deus é literal- parcial (não final) e universal (não geográfico/étnico), sendo que eles estão espirit-
mente incorporado em Jesus (Mt 12:28). Os tipos são cumpridos literal e lo- ualmente (mas não literalmente) relacionados com Cristo no Céu. Assim, devemos
calmente nEle. Depois da ascensão de Cristo, seu reino ou “domínio” é par- esperar que quando a imagem do santuário/templo no Apocalipse é aplicada a um
tir do Céu e seus súditos por todo o mundo se relacionam com Ele apenas ambiente terrestre na era da igreja, haverá uma interpretação espiritual e não literal,
espiritualmente, pela fé. Através do seu Espírito eles recebem as primícias, o sendo que o templo é espiritual aqui na Terra.
122 cumprimento parcial dos dons básicos que Ele prometeu (Rm 8:23). Assim, Em harmonia com este princípio hermenêutico, os castiçais antitípicos na Terra 123
a natureza do cumprimento na igreja sobre a Terra é espiritual, universal, em Apocalipse 1 não são literais, mas espirituais. A igreja que vive entre “o já e o
e parcial. Ao mesmo tempo os tipos do santuário têm um cumprimento ainda não” é retratada em outros textos das Escrituras como o templo antitípico
literal no santuário celestial, sendo que Cristo está literalmente presente ali. eclesiológico. O Apocalipse é consistente com isto na utilização da terminologia
Na consumação final Cristo está literalmente reunido com o seu povo, e os dos castiçais do santuário para aplicar ao corpo espiritual da igreja terrestre. Jesus
tipos têm um cumprimento glorioso, final, universal, literal.7 (através do Espírito) está espiritualmente presente na igreja na Terra.
Mas em Apocalipse 4:1 a cena muda para o Céu, e João é convidado: “Sobe
para aqui, e te mostrarei o que deve acontecer depois destas coisas.” Então
7
  Para uma sucinta apresentação desta subestrutura escatológica de uma perspectiva cristocên- se segue a cena no santuário celestial, onde Cristo reina como rei-sacerdote.
trica, veja Ellen G. White (1996, p. 15-22). Veja também LaRondelle (1979, p. 308-14), embora Como temos visto, durante a era da igreja, o reino espiritual terrestre é sobrepu-
todo o livro esclareça este ponto. Também deve ser notado que a aplicação dos tipos do Antigo
Testamento ao Israel espiritual poderia ter sido inteiramente diferente tivesse o Israel nacional
jado pelo reinado literal de Cristo no Céu. Consistente com esta perspectiva
permanecido fiel a Deus e aceitado a Jesus como o Messias. Israel teria sido a maior nação da do Novo Testamento, a tipologia do santuário de Apocalipse, quando focaliza
Terra (Dt 28:1, 13; WHITE, 2000, 288), em prosperidade (Dt 28:3, 11-13), intelecto (4:6-7), saúde o santuário celestial, participa da mesma modalidade que a presença de Cristo,
(7:13, 15), e espiritualidade (28:9). Isto teria sido um testemunho para outras nações (Dt 28:10; isto é, um cumprimento antitípico literal.
WHITE, 2000, p. 232; Is 43:10); Jerusalém tria sido o centro missionário para a espiritualmente
dinâmica nação judaica. Outras nações se uniriam a Israel (Zc 8:21-23) até que o reino de Israel
abrangesse o mundo Is 27:6; 54:3; WHITE, 2000, p. 290). O templo de Jerusalém teria permane-
cido para sempre (Jr 7:7; WHITE, 2000, p. 19). Em seguida a uma rebelião final de insurgentes de Deus teria sido dentro do Israel nacional de um modo geográfico, literal. Mas sendo que o
(Zc 12:2-9) e sua destruição (14:12, 13), o Senhor seria rei sobre toda a Terra, e todos seriam Israel nacional rejeitou o Messias e separou-se da teocracia, todas as promessas da aliança serão
seguidores do Senhor (Zc 14:3, 8, 9, 13, 16; Jr 31:34 etc.). Cristo ainda teria morrido como o cumpridas com o “Israel espiritual” (WHITE, 2007, p. 714). Para um resumo detalhado do plano
homem representativo e o israelita representativo, mas o cumprimento dos tipos com o povo original de Deus para Israel, veja Nichol (1976, v. 4, p. 25-38).
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Logo consideraremos estas cenas do santuário celestial. Mas aqui notamos mente para a Terra. Em seguida ao juízo final e à purificação da Terra pelo fogo, o
que no meio das cenas do santuário celestial em Apocalipse, há breves mu- átrio (uma Terra recriada segundo o modelo do Éden) estará unido ao seu centro, o
danças para alusões ao santuário terrestre. Por exemplo, em Apocalipse 6:9-11 literal tabernáculo de Deus, em uma Nova Jerusalém literal.
encontramos menção do altar (do holocausto).8 Sendo que esse altar estava no Com estas considerações hermenêuticas gerais da natureza da tipologia do
pátio exterior do santuário terrestre, e sendo que de acordo com Apocalipse santuário em mente, voltemos agora mais diretamente para a função da tipolo-
11:1-2 o átrio exterior simboliza coisas terrestres e não celestiais, devemos in- gia do santuário no fluxo estruturado do livro de Apocalipse.
terpretar isto como uma mudança para a esfera terrestre.9 Em harmonia com
o aspecto eclesiológico do cumprimento tipológico, devemos interpretar estas Tipologia do santuário no arranjo literário
referências terrestres de uma maneira espiritual, não literal.
A cena de “almas debaixo do altar” clamando por vingança alude ao sangue A análise literária do Apocalipse por Kenneth Strand tem demonstrado
(isto é, “a vida”, Lv 17:11) dos sacrifícios do santuário derramado à base do altar o arranjo básico literário quiástico do livro (ver STRAND, 1979, p. 43-52). C.
(Lv 4:7). O simbolismo ecoa uma referência ao sangue Abel clamando a de Deus Mervyn Maxwell segue em geral o mesmo esboço quiástico, com ideias adicio-
da terra (Gn 4:10; ver Hb 12:24). João torna esta conexão entre o martírio dos nais sobre certos detalhes (MAXWELL, 1985, p. 54-62). Estas análises revelam
santos e o derramamento do sangue do sacrifício mais explícita em Apocalipse as metades pares do livro: histórica (Ap 1–14) e escatológica (Ap 15–22), bem
16:6, em que é dito ter os ímpios “derramado” (екcheō) o sangue dos santos e como a correlação quiástica de suas correspondentes subseções.
dos profetas. Assim, não um altar literal, não “almas” literais debaixo do altar,
Cenas introdutórias do santuário
estão à vista, mas antes um cumprimento eclesiológico nos santos e profetas
Dentro deste arranjo geral do Apocalipse ocorrem muitas das imagens do san-
martirizados cujo sangue clama espiritualmente pela vindicação de Deus.
tuário nas cenas que introduzem as várias sequências de visões. Recentes estudos
Igualmente, não um “átrio” literal está em vista no cenário terrestre de
124 têm indicado o significado decisivo dessas cenas do santuário. Maxwell afirma cor- 125
Apocalipse 11:2, mas um “calcar aos pés” ou perseguição da “cidade santa”
retamente que “o santuário celestial é um eixo central da mensagem do Apocalipse”,
terrestre/espiritual, os santos, pelos “gentios”, os inimigos espirituais de
e que as “cenas do santuário são pontos de referência que nos guiam ao significado
Deus, por 42 meses proféticos.
do Apocalipse” (MAXWELL, 1985, p. 164). Strand mostra como o Apocalipse está
Ao chegarmos às cenas finais do Apocalipse, o cumprimento apocalíptico da
dividido em uma série de sequências visionárias e como cada uma das visões se ini-
tipologia do santuário resolve a tensão entre terrestre e celestial. Na era da igreja, o
cia com uma cena introdutória do santuário (STRAND, 1987a, p. 107-121; 1987b, p.
Israel espiritual está espiritualmente reunido na Jerusalém celestial sobre o monte
267-288).11 Assim, todo o livro está estruturado pela tipologia do santuário.
Sião (Hb 12:22-24). Mas quando “o tabernáculo de Deus estiver com os homens”
Alusões ao ministério no primeiro compartimento. Talvez a descoberta
(Ap 21:3 , o Israel de Deus de todos os séculos terá sido literalmente reunido à sua
mais significativa nestes recentes estudos seja a demonstração de como as cenas
Nova Jerusalém. Depois de mil anos literais,10 a Jerusalém celestial descerá literal-
introdutórias do santuário destacam a progressão da história da redenção den-
tro do livro de Apocalipse. As primeiras três cenas do santuário (Ap 1:12-20;
8
  Para evidência de que este é o altar de holocaustos, e não o altar de ouro, veja Jon Paulien (1988, v.
11, p. 315-318).
9
  Veja Hebreus 13:10 (e subentendido em Hb 8:1-5) para colocação do altar na Terra, cristologica- referências ao tempo são espirituais (isto é, tempo profético, usando-se o princípio dia-ano).
mente cumprido na cruz. O cumprimento eclesiológico em conexão com os mártires cristãos que Mas depois que os santos estiverem literalmente reunidos a Cristo na Parousia, então as
seguiram os passos de Jesus seria uma extensão natural da tipologia. Veja também Paulien (1988, v. referências ao tempo pertencerão àquela mesma modalidade. Assim, o milênio é um período
11, 316), para comprovação do detalhe adicional de que “a apocalíptica judaica leva em conta apenas de mil anos literais, e o simbólico princípio dia-ano não mais se aplica.
um altar no Céu (excluindo o altar de holocausto que ficava no pátio exterior do santuário israelita).” 11
  Maxwell (1985, p. 164) chega a conclusões similares com respeito às primeiras cinco cenas do
10
  A tríplice subestrutura da tipologia do Novo Testamento também esclarece quanto a santuário. Jon Paulien, no capítulo 10 deste volume, reduz as oito cenas de Strand a sete, elimi-
interpretar os períodos de tempo do Apocalipse simbólica ou literalmente. Antes do Seg- nando a sexta cena de Strand (16:18–18:24) que tem uma voz do templo mas não uma real cena
undo Advento, enquanto Cristo está apenas espiritualmente relacionado com o seu povo, as do santuário. O esquema das sete cenas é seguido aqui.
Estudos selecionados em interpretação profética Tipologia do santuário

4–5; 8:2-5) centralizam-se, ou se relacionam com o lugar santo do santuário. 1. Limpeza do candelabro (m. Tamîd 3.9; cf. Ap 1;12-20).
Assim, elas servem para situar o ambiente temporal das cenas dentro do tempo 2. Abrir a grande porta (m. Tamîd 3.7; cf. Ap 4:1).
do ministério diário (tamîd) de Cristo no lugar santo. 3. Cordeiro imolado (m. Tamîd 3.7; 4.1-3; 4:1-3, cf. Ap 5:6).
A primeira cena (1:12-20) está na Terra, e não no santuário celestial. Em 4. Sangue derramado à base do altar de bronze (m. Tamîd 4:1; cf. Ap 6:9).
nenhuma outra parte do livro se encontra tão concentrada ênfase na morte 5. Incenso oferecido no altar de ouro (m. Tamîd 5.4; cf. Ap 8:3, 4).
terrestre e ressurreição de Cristo. Ao mesmo tempo, a menção explícita dos 6. Pausa no cântico (m. Tamîd 7:3; Ap 8:1).
sete castiçais lembra o candelabro de sete braços ardendo continuamente 7. Toque de trombetas para assinalar a conclusão do sacrifício (m. Tamîd
(tamîd) no lugar santo do santuário. 7:3; ver 8:2-6).
A segunda cena (4:1–514) se muda explicitamente para o santuário celestial Conclui Paulien (1993, p. 13): “Não somente esta porção do Apocalipse
(cf. 4:1). Jon Paulien (nos capítulos 10 e 11) mostra como a mistura completa contém todos os grandes detalhes da liturgia do tamîd, mas alude a eles em
de imagens de todo o santuário, mas sem a linguagem do juízo, aponta para um essencialmente a mesma ordem. Assim o material que constitui os septetos das
cenário de investidura (MAXWELL, 1991, p. 147-148). Cristo, não presente em igrejas, selos e trombetas está sutilmente associado com as atividades no tem-
Apocalipse 4, está em Apocalipse 5 instalado em sua contínua (tamîd) obra no plo relacionadas ao serviço contínuo ou tamîd.”
lugar santo12 do santuário celestial como resultado de sua vitória na cruz. Alusões ao ministério no segundo compartimento. Em contraste com o
A terceira cena do santuário (8:2-5) revela que o foco básico do con- foco sobre o serviço diário na primeira parte do livro, Apocalipse 11 muda a ên-
tínuo (tamîd) ministério de Cristo é intercessão. A referência à oferta de fase para a liturgia anual do Dia da Expiação. O tema do Yom Kippur é mantido
incenso no altar de ouro indica claramente um ministério intercessório através da última porção do livro até o capítulo 20.15
diário (tamîd) no lugar santo (PAULIEN, 1990, p. 9).13 Strand (1984, p. 317-325) mostra como a medição do templo, do altar
Ritual diário no Segundo Templo. O ambiente diário (tamîd) de Apocalipse e adoradores (Ap 11:1) tem sua mais completa temática e analogia sequen-
126 1–8 é ainda mais confirmado quando estes capítulos são comparados com a cial na descrição dos rituais do Dia da Expiação (Lv 16). 16 Isto vem ime- 127
ordem dos rituais diários no Segundo Templo do século em que João escreveu. diatamente após o término do tempo profético de Daniel em Apocalipse
Estudos recentes têm exposto os impressionantes paralelos entre a ordem de 10:5-6 (ver Dn 12:7) (Ver SHEA, cap. 13 desse volume).
alusões ao santuário em Apocalipse 1–8 e a descrição dos rituais diários (tamîd) A quarta cena do santuário (Ap 11:19) retrata explicitamente a abertura do
descritos na Mishnah.14 Resumimos a seguir: “templo interior” (naos) ou Lugar Santíssimo e focaliza a arca da aliança. O con-
texto do juízo imediato desta cena (ver 11:18) apoia o cenário do Dia da Expi-
ação, e também o contexto mais amplo aponta nesta direção.
12
  Embora haja uma completa mistura de imagens do santuário em Apocalipse 4–5 visto que todo o Recentes estudos têm demonstrado como o livro de Apocalipse frequente-
santuário está envolvido na investidura, todavia o foco primário da cena de intronização/investidura mente segue a estrutura básica e a descrição detalhada de Ezequiel (ver VAN-
em Ap 4–5 parece ser o lugar santo (ver STRAND, no cap. 3 deste volume; e WHITE, 2005, p. 414-15). HOYE, 1962, p. 436-476; VOGELSANG, 1985; LUST, 1980, p. 179-183), e o mod-
13
  A nota 32 fornece evidência de que esta cena no altar de incenso é uma parte do ministério
diário (tamîd) no lugar santo, e não o ministério anual do Dia da Expiação (Yoma). Na cena de Ap
elo de Ezequiel é decisivo em Apocalipse 10–11. É dado a Ezequiel um rolo para
8:2-6, (1) o altar de incenso é central como no tamîd, não ultrapassado como no Yoma (Mishnah comer (Ez 2:9–3:3) e então ele é imediatamente chamado para dar uma men-
Tamîd 6.2, 3; ver m. Yoma 5.1); (2) o sacerdote oficiante recebe o incenso, como no tamîd, e não sagem de um juízo investigativo do Lugar Santíssimo do santuário (3:4–8:18) (ver
reúne o seu próprio, como no Yoma (m. Tamîd 6.2, 3; ver Yoma 5.1); e (3) o incenso é oferecido no SHEA, 1989, 283-291; DAVIDSON, 1987, p. 12-14; 1991, p. 97-100). De modo
altar de ouro, como no tamîd, não na Arca, como no Yoma (m. Tamîd 6.3, ver Yoma 5.5).
14
  Para a descrição básica da ordem de serviços diários nos tempos do segundo Templo, veja
o tratado Tamîd na Mishnah judaica. Paulien (no cap. 10 deste volume; 1993, p. 12-13), resume
os paralelos. D. T. Niles (1961, p. 112-14), observa a conexão entre Ap 1–8 e o tratado Tamîd da 15
  Isto será discutido com mais detalhes na seção deste capítulo que trata do “Ciclo anual
Mishnah, mas como Paulien observa corretamente, Niles tenta sem sucesso continuar os parale- de festividades” em Apocalipse.
los do tamîd ao longo do restante do Apocalipse. Um olhar cuidadoso para a evidência revela que 16
  Observe especialmente como o “medir” de Ap 11:1 e a “expiação/purificação” de Lv 16
a liturgia do tamîd fornece paralelos estruturais somente até Apocalipse 8. abrange os mesmos aspectos do santuário na mesma ordem (templo, altar e adoradores).
Estudos selecionados em interpretação profética Tipologia do santuário

semelhante é ordenado a João que coma um rolo (Ap 10:8-11) e então é imediata- Fluxo linear/sequências de recapitulação. Esta lógica progressão tempo-
mente dada uma mensagem para medir o templo, o altar e adoradores (Ap 11:1- ral das cenas do santuário — cruz, investidura, intercessão, juízo — não implica,
2), com um foco sobre o Lugar Santíssimo do santuário celestial (11:19). porém, que a primeira metade do Apocalipse prossegue cronologicamente verso
A quinta cena do santuário (15:5-8) assinala o fechamento ou “desinaugu- por verso. Juntamente com o plano linear básico destacado pelas cenas introdu-
ração” do santuário. Ele está cheio da fumaça procedente da glória de Deus, e tórias do santuário, encontra-se o esquema de recapitulação semelhante às visões
ninguém pode entrar: terminou a provação ou o tempo da graça. Seguem as de Daniel (Dn 2, 7, 8). Uma progressão histórica segue cada cena introdutória do
sete últimas pragas, a ira de Deus sem mistura de misericórdia (16:1-21). santuário e se move ao longo da Era Cristã para terminar em um refletor sobre
A sexta cena do santuário (19:1-10) descreve a adoração no santuário — os últimos eventos e uma descrição do glorioso clímax (STRAND, 1979, p. 48).17
louvor a Deus por seus justos juízos — mas não há nenhuma menção explícita Assim a estrutura geral do Apocalipse é ao mesmo tempo linear e recapitulatória,
do santuário. A função salvífica do santuário deu lugar à doxologia. como uma “espiral cônica” (FIORENZA, 1985, p. 171), ou melhor, como uma
A cena final do santuário (21:1–22:5) retorna à Terra. Agora a tensão “escala musical, que evolui continuamente em uma direção linear ao rever os tons
entre o celestial e o terrestre é desmoronada: “o tabernáculo [skēnē] de anteriores em vibrações cada vez mais ricas” (PAULIEN, 1990, p. 20).
Deus está com os homens” (Ap 21:3). Relações temáticas entre introduções e mensagens do santuário. As cenas in-
Assim, as cenas introdutórias do santuário estruturam o livro de Apoc- trodutórias do santuário não somente estruturam o livro de Apocalipse e demonstram
alipse e provêem as chaves para determinar a progressão do livro. O fluxo sua progressão espaço-temporal, mas também servem para realçar a mensagem das
espaço-temporal das cenas do santuário da Terra para o Céu e de volta para principais seções que elas introduzem (MAXWELL, 1991, p. 164-166).18
a Terra, e do ministério diário para o anual até a cessação de todas as fun- Antes de ser dada a João a mensagem para as sete igrejas, ele vê a Cristo
ções de salvação, pode ser resumido como segue: vestido como sacerdote, caminhando entre os sete castiçais (as sete igrejas, Ap
1:20). Cristo, o sumo sacerdote antitípico, está supervisionando as lâmpadas do
128 santuário. Ele está desempenhando sua responsabilidade tamîd (contínua ou 129
1:12-20 (1) Terra | Focaliza a obra terrestre de Cristo diária) de manter as lâmpadas ardendo brilhante e continuamente.
(combinada com imagens do lugar santo)
Os detalhes simbólicos empregados para descrever o Cristo sacerdotal
4–5 (2) Inauguração do santuário celestial | (completa mistura
de imagens do santuário, mas focaliza o lugar santo) em Apocalipse 1:10-20 são enfatizados em Apocalipse 2 e 3 ao serem apli-
8:3-5 (3) Intercessão no santuário celestial | (Lugar santo) cados à situação de cada igreja individual. Por meio disso é revelada uma
11:19 (4) Juízo no santuário celestial | (Lugar Santíssimo) íntima ligação entre o Sacerdote celestial e suas mensagens às sete igrejas.
15:5-8 (5) Cessação do ministério no santuário celestial A conexão significa segurança e conforto. Cristo está no meio dos castiçais
19:1-10 (6) Doxologia no Céu | (ausência de explícitas imagens (1:12), caminhando entre eles (2:1). Ele conhece sua condição e cuida. Mas
do santuário) há também advertência: Cristo anuncia as maldições da aliança contra as
21:1—22:5 (7) De volta à Terra | “Tabernáculo de Deus está com igrejas se elas continuarem na desobediência.
os homens.” Mudando para os sete selos, Kenneth Strand mostracomo eles “representam os
passos ou meios pelos quais Deus através de Cristo prepara o caminho na história
Na metade histórica do Apocalipse, as cenas introdutórias do san-
tuário naturalmente fluem da morte e ressurreição de Cristo (Ap 1:5, 17,
18; cf. 5:6, 9, 12) para a inauguração do ministério de Cristo no santuário 17
  Strand esquematiza o quádruplo modelo básico de (1) visão vitoriosa do santuário; (2) pro-
feita possível por sua morte e ressurreição (Ap 5), para o seu ministério gressão histórica; (3) focalização dos últimos eventos; e (4) clímax glorioso como aparece nas ce-
intercessório em seguida à sua investidura (Ap 8:3, 4), e prosseguindo até nas dos selos (Ap 4:1–8:1), trombetas (Ap 8:2–11:18), e as forças competidoras (Ap 11:19–14:20).
à obra do juízo no final dos tempos (Ap 11:18, 19). Veja também os capitulos 2 e 3 deste volume.
18
  É proveitoso em salientar a íntima relação entre as cenas do santuário e as seções que as
seguem no Apocalipse.
Estudos selecionados em interpretação profética Tipologia do santuário

para a abertura e leitura do grande livro do destino no juízo na consumação es- Na quarta seção do Apocalipse, a cena introdutória em Apocalipse 11:19
catológica” (STRAND, 1979, p. 57). Strand (1979, p. 57) intitula esta seção “Deus aponta claramente para o Lugar Santíssimo do santuário celestial, e em par-
trabalha para a salvação do homem”. Ela é apropriadamente introduzida em uma ticular para a celestial arca da aliança que ali se encontra. A atenção é assim
cena do santuário celestial revelando Deus em seu trono (Ap 4) tendo a Cristo em chamada para a lei de Deus (contida na arca) como a base do juízo (o Dia da
sua presença realmente qualificado para desatar os selos e abrir o livro (Ap 5). Expiação) e para o propiciatório como a fonte de certeza ou confiança no juízo.
A despeito das provas e tribulação do povo de Deus e a aparente demora Estes temas são então desenvolvidos ao longo da seção. É proclamado o anúncio
divina na vindicação dos perseguidos e martirizados (6:9, 10), segundo Apoc- do juízo do fim dos tempos (14:6, 7), e as marcas do povo de Deus são enfatiza-
alipse 4, Deus está no controle. Como em Salmo 2:4 e Habacuque 2:20, o Senhor das como a guarda dos mandamentos e a fé de Jesus (14:12; cf. 12:17).
Deus todo-poderoso, o Criador, se assenta serenamente em seu trono, Aquele Com a quinta cena introdutória do santuário em Apocalipse 15, mudamos
que era, que é e que há de vir para pôr as coisas em ordem. Além disso, segundo da metade histórica para a metade escatológica (pós-tempo de graça) do livro.
Apocalipse 5, “o título de propriedade, por assim dizer, da perdida herança do Assim a cena do santuário é realmente dupla.
homem [...] foi readquirido por Cristo, o Cordeiro” (STRAND, 1979, p. 55). O Primeira, encontramos nos versos 2-4 um quadro daqueles que são vence-
Cordeiro pascal foi morto e pelo seu sangue Ele resgatou o homem para Deus. dores na luta contra a besta e sua imagem e o número do seu nome, em pé (epi)
Ele digno, portanto, de tomar o livro e desatar os selos: estará presente com o no mar de vidro celestial (parte da cena do santuário celestial de Apocalipse 4:6;
seu povo e trabalhando por ele durante o tempo de sua aflição. o antitípico “mar de fundição”?)20 cantando o cântico de Moisés e o cântico do
A estreita relação temática entre a cena introdutória do santuário e sua men- Cordeiro (um tema tipológico do tema do Êxodo, Êx 15).
sagem que vem a seguir é encontrada também na terceira grande seção do livro. Segunda, nos versos 5-8, é aberto “o templo do tabernáculo do testemu-
Na introdução à série de trombetas (Ap 8:2-6) o anjo-mediador mistura incen- nho no céu” par liberar os anjos das sete pragas e então é fechado. Da mesma
so com as orações dos santos sobre o altar de ouro no santuário celestial, uma forma que a glória do Senhor encheu o santuário/templo na Terra no final da
130 descrição da “contínua mediação de Cristo no santuário celestial”.19 provação de Judá e o início do juízo executivo sobre ele (Ez 10:3-4),21 assim 131
Segundo a análise de Jon Paulien (1988, p. 311-323) desta passagem e sua aqui em Apocalipse a fumaça procedente da glória de Deus, enchendo o templo
relação com o quinto selo (Ap 6:9-11), as ”orações dos santos” se referem par- para que ninguém possa entrar, parece assinalar o final do tempo da graça e o
ticularmente às orações imprecatórias dos santos perseguidos e martirizados começo do juízo executivo sobre os inimigos de Deus.
(recebidas pelo anjo ministrador do terrestre “altar de holocausto” e então min- Estas duas cenas do santuário em Apocalipse 15 são prelúdios das recom-
istradas em um contexto celestial no altar de ouro do santuário celestial). pensas finais para os santos e punições finais para os ímpios; elas são apropri-
O incenso (um símbolo dos méritos de Cristo) torna essas orações aceitáveis, adamente seguidas (em ordem inversa) por um enfoque sobre punição e recom-
e “as sete trombetas são a resposta de Deus às orações dos santos por vingança pensa no restante do livro (ver MAXWELL, 1991, p. 425).
sobre aqueles que os têm perseguido e martirizado” (PAULIEN, 1988, p. 320).
Na tipologia do santuário celestial, o altar de ouro e o incenso, as fontes de me-
diação no tipo terrestre, se fundem com uma descrição do juízo que cai sobre 20
  Mais estudo é necessário para confirmar se a tipologia aqui vai além do tema do “Mar Ver-
os rejeitadores da mediação celestial. O incensário é cheio de fogo e atirado à melho” do Êxodo para incluir uma alusão ao “lavatório” antitípico do santuário. Embora a pala-
Terra, em harmonia com a descrição do juízo executivo divino procedente do vra represente em kiyyōr (significando “lavatório” e “algo em que se manter”) e o paralelo verbal
santuário em Ezequiel 10:1-6 e reminiscente da experiência de Nadabe e Abiú de thalassa (a mesma palavra grega para “mar” em Ap 15:2 e na descrição do “mar de fundição”
do templo de Salomão, 2Cr 4:2, LXX), torna tentador aceitar tal interpretação, a falta de clara
(Lv 10:1-3) (ver PAULIEN, 1988, p. 320-322). Como o expressa Paulien (1988, p.
evidência no texto, e o ambiente do pátio exterior para o lavatório (que o ambiente do pátio em
322) “o incensário de oração e o incensário de juízo têm se tornado um”. Ap se refere às coisas terrestres) torna tal opinião problemática.
21
  Muitos têm apontado para as passagens paralelas do Antigo Testamento onde a glória do
Senhor enche o santuário/templo em sua inauguração: Êxodo 40:34-35; 1Rs 8:10-11; 2Cr 5:13-
  Paulien (1988, p. 312-13) apresenta várias linhas de evidência que apoiam a equação de Cristo
19
14; 7:1-2. Contudo, a passagem de Ezequiel 10, frequentemente ignorada, parece prover um mais
com o anjo ou ao menos indicam que o incenso é dado por Cristo. próximo paralelo temático e estrutural em seu contexto de “fim da provação” e juízo executivo.
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A sexta cena do santuário (Ap 19:1-10) focaliza o louvor celestial pelos jus- Grandes festividades de Israel. A Páscoa parece estar identificada com
tos juízos de Deus que são em grande medida passados e a ceia das bodas do o início da história da salvação de Israel: “Este mês vos será o principal dos
Cordeiro que está adiante. Durante os crescendos da doxologia, estão ausentes meses; será o primeiro mês do ano” (Êx 12:2).
explícitas descrições do santuário/templo. A seção que segue esta cena é transi- A Festa dos Tabernáculos, a última festividade do ciclo religioso anual,
cional. Com a obra de salvação de Cristo completa, o santuário como o centro parece estar identificada com a consumação apocalíptica da história da sal-
da atividade redentora desaparece de vista. As fases finais do juízo (a serem dis- vação de Israel. O plano original de Deus para o desfecho do grande conflito
cutidas abaixo) são levadas a cabo, e o caminho é preparado para ser resolvida entre o bem e o mal deveria ser através da agência do Israel nacional e lit-
a tensão Terra-Céu na história da salvação. eral (se tivesse permanecido fiel a Deus). Neste contexto Zacarias descreve
Na sétima cena do santuário (21:1–22:5), a Nova Jerusalém desce para a como em seguida à batalha apocalíptica final e à restauração de Jerusalém
Terra, e é feito o pronunciamento: “Eis que o tabernáculo [skēnē] de Deus está e da Terra, os habitantes da Terra viriam de ano em ano à grande festa es-
com os homens” (Ap 21:3). O propósito supremo para o qual o santuário ter- catológica por excelência, a Festa dos Tabernáculos (Zc 14:16).
restre foi construído na Terra, “para que eu possa habitar no meio deles” (Êx Assim, a primeira e a última festa do calendário religioso de Israel
25:8), está agora consumado. “Deus habitará com eles” (Ap 21:3). O supremo parecem vinculadas respectivamente à inauguração e consumação da
enfoque teocêntrico/cristocêntrico do santuário celestial é enfatizado ao João história da salvação de Israel.
escrever: “Nela, não vi santuário, porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Pode ser afirmado que as três grandes festas de Israel prefiguram a tríplice
todo-poderoso, e o Cordeiro” (Ap 21:22). subestrutura da história da salvação no Novo Testamento.24 Deus ordenou a Israel:
O foco de atividade na cidade é agora doxológico22 — todos os redimidos se “Três vezes no ano me celebrareis festa” (Êx23:14). Estas são identificadas como a
reúnem em redor do trono na cidade para adorá-Lo, seu Templo supremo (22:3).23 Festa dos Pães Asmos (ligada à Páscoa), a Festa da Sega (Pentecostes) e a Festa da
Colheita (Tabernáculos), nos versos 14-16. Estas são as únicas vezes de reunião no
132 Ciclo anual de festividades calendário religioso realmente chamadas de “festas” (hag) nas Escrituras. 133
Outra importante área da tipologia do santuário parece estar embutida Relacionadas com a história da salvação no Novo Testamento. O sig-
no arranjo literário geral do Apocalipse. Esta é a tipologia das festividades nificado e a precisão destas três festas correlacionam-se bem com a dinâmi-
religiosas israelitas (Lv 23). ca da história da salvação no Novo Testamento. O tempo da primeira Páscoa
Já no Antigo Testamento há indícios de que o calendário religioso anual de e Pães Asmos trouxe redenção temporal a Israel. Eles foram “redimidos pelo
Israel prefigura a amplitude da história da salvação. O autor de Hebreus afirma sangue do cordeiro” (cf. Êx 12:21-23). Eles foram libertados do cativeiro,
esta verdade quando diz que o sistema sacrifical era “uma sombra dos bens mas não tinham ainda chegado a Canaã. A história da salvação para eles
vindouros” (Hb 10:1). Havia uma realidade genuína para a qual cada um dess- estava inaugurada, mas não ainda consumada.
es tipos apontava. O fato de que as cerimônias precisavam ser repetidas “ano No deserto eles estavam vivendo na tensão entre o “já” e o “ainda não”. Está
após ano” revelava sua própria inadequação e instabilidade, mas enfatizava a em harmonia com os dados bíblicos, e mantidos pela tradição judaica, que a
suficiência e estabilidade das realidades vindouras. entrega da lei no monte Sinai ocorreu no tempo do Pentecostes original.25 Nessa
ocasião a aliança com Israel foi ratificada. Assim, a nação foi incorporada como
povo da aliança de Deus. Por 40 anos o período de viver “entre os tempos” con-
tinuou, e Israel se apropriou das bênçãos da aliança.
Finalmente Israel chegou a Canaã, e sua redenção temporal foi consumada.
22
  Na consumação da história da salvação, o santuário ou templo celestial aparentemente re-
torna à sua função doxológica original. Em harmonia com esta sugestão, Ellen White (2006, p. A nação podia agora celebrar a Festa dos Tabernáculos, uma jubilosa lembrança
368) escreve que ao longo da eternidade os redimidos adorarão de sábado a sábado “no santuário”.
23
  Tem sido sugerido por alguns que o formato cúbico da Nova Jerusalém (Ap 21:16) indica que toda
a Nova Jerusalém se torna o “Lugar Santíssimo” da Nova Terra e o lugar de adoração para os redimidos 24
  Veja gráfico 3.
ao redor do trono na cidade (Ap 22:1-3) (ver LADD, 1972,p. 282; MOUNCE, 1977, p. 380). 25
  Êx 19:1; cf. Bab Talmud, Pes. 68b; Zohar, Ytro, 78b.
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da proteção divina durante o período de vagueação no deserto, e uma ocasião “Não temas; Eu sou o primeiro e o último e aquele que vive; estive morto,
de regozijar-se sobre a consumação da história de sua salvação temporal. mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte
Os adventistas do sétimo dia geralmente estão familiarizados com a ma- e do inferno” (1:17-18). Anteriormente no capítulo a graça é vista como
neira como o Novo Testamento encontra o cumprimento antitípico dessas três vindo de Jesus Cristo, “a Fiel Testemunha, o Primogênito dos mortos [...] e,
festas na história da salvação escatológica produzida por Cristo, o qual morreu pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados” (1:5).
por ocasião da Páscoa, como o Cordeiro pascal antitípico (1Co 5:7), com ossos Paulien (1990, p. 15) observa que “o escrutino das igrejas por Cristo
não quebrados (Jo 19:36; Êx 12:46). Ele ressurgiu no terceiro dia como o molho lembra a busca do fermento pela família judaica pouco antes da Páscoa (ver
movido antitípico, primícias da futura colheita (1Co 15:23; Lv 23:10-11). Cin- Êx 12:19; 13:7)”.27 M. D. Goulder (1981, p. 355) aponta para “uma antiga
quenta dias depois o Pentecostes antitípico é plenamente chegado. Como no tradição de cada igreja ter um círio pascal ardendo no culto desde a Páscoa
Pentecostes original no monte Sinai, agora vem ali fogo, terremoto e uma rajada até o Pentecostes”, e sugere isto como um fundo para a cena dos sete candee-
de vento (At 2:1-3; ver 4:31). Como Deus tinha escrito a lei em tábuas de pedra iros que representam as sete igrejas. Goulder também fornece interessante
com o seu próprio dedo, Ele novamente escreve a lei com o dedo do Espírito evidência de que outros importantes temas de Apocalipse 1 estão intimam-
(ver Lc 11:20; Mt 12:28), desta vez sobre o coração dos homens (Jr 31; Hb 8; 10). ente ligados à Páscoa.28 E o ambiente terrestre é compatível com a Páscoa, a
E como Israel se tornou o povo especial da aliança de Deus, assim o novo Israel única festividade com seu cumprimento primário no Cristo terrestre.
torna-se a igreja da nova aliança de Cristo. 2. Temas do Pentecostes. A cena introdutória do santuário de Apocalipse
As festas da Primavera encontram esse cumprimento no começo da história 4–5 parece mais provável retratar a cerimônia de investidura do Cordeiro no
da salvação no Novo Testamento. Da mesma forma, as principais festividades templo celestial,29 um evento que ocorreu durante os dez dias em seguida à
do outono (Trombetas e Dia da Expiação) levando até e incluindo Tabernáculos ascensão de Cristo, atingindo seu ponto culminante no dia de Pentecostes.30 Se
no final do calendário religioso encontram cumprimento em conexão com a esta interpretação está correta, então a segunda grande seção do Apocalipse
134 consumação apocalíptica da história da salvação no Novo Testamento. Este é pode ser considerada como intimamente ligada ao Pentecostes antitípico. No 135
o foco especial do livro de Apocalipse que está no âmago da autocompreensão tempo da visão de João, a Páscoa e o Pentecostes antitípicos eram eventos pas-
adventista como um movimento profético/apocalíptico. sados tendo consequências contínuas. Na liturgia celestial Jesus, o Leão/Cord-
Tipologia das festividades. A estrutura geral do livro de Apocalipse pode eiro é declarado digno de abrir os selos, para dar início à sua celestial obra de
ser vista seguindo-se a extensão da história da salvação conforme apresentada salvação preparatória para a abertura do livro do destino no juízo final.
na tipologia das festividades do Antigo Testamento. O esquema geral do Apoc- Não é sem significado que as leituras tradicionais do lecionário judaico para o
alipse parece evoluir sequencialmente através das festividades do Antigo Testa- Pentecostes sejam Êxodo 19:1–20:23 e Ezequiel 1.31 Que a visão do trono de Apoc-
mento. Contudo, embora um tipo do Antigo Testamento encontre cumprimen-
to básico em um dos três aspectos da história da salvação (Cristo, igreja, clímax
final), ao mesmo tempo implicações do mesmo tipo podem ser encontradas tinha sido morto, indicando que sua morte precedeu a cena do trono de Ap 5.
27
  Paulien (1990, p. 15) também documenta a conexão entre o maná (Ap 2:17) e a Páscoa no
nos outros aspectos de cumprimento escatológico. Tal parece ser o caso na tipo- Judaísmo primitivo, e nota a alusão a uma “refeição de comunhão mútua” em Ap 3:20.
logia da festividade do santuário, conforme ilustrada no gráfico 4, e portanto 28
  Goulder (1981, p. 355) salienta que o tema do retorno de Cristo sobre as nuvens seria iden-
não se deve esperar que cada seção sucessiva do Apocalipse tenha referência tificado pelos leitores do primeiro século com a Páscoa, visto que “era na Páscoa que a igreja
exclusiva à festividade correspondente. primitiva muito amplamente esperava o retorno de Cristo.” (veja n. 24 para evidência judaica e
cristã). Ele além disto (p. 356) afirma que o “dia do Senhor” (Ap 1:10) nos dias de João se refere à
1. Temas da Páscoa. Na cena introdutória do santuário de Apocalipse
Páscoa. Parece mais provável, contudo, que esta frase se refere ao sábado semanal, embora
1, há uma forte ênfase sobre os temas pascais. Somente aqui no livro há tão isto pudesse ao mesmo tempo ser um grande sábado.
forte concentração sobre a morte e ressurreição de Cristo.26 Ele diz a João: 29
  Veja n. 24 acima.
30
  Veja Ellen G. White (1996, p. 834; 2010, p. 38-39) para apoio deste ponto de vista. Básica evidência
bíblica fortalecendo esta posição inclui passagens como Dn 9:24; At 1:8; 2:32-33; Hb 1:8, 9; Sl 133:2.
  Embora a referência ao Cordeiro morto seja encontrada em Ap 5:6, ele é um Cordeiro que
26 31
  Veja Goulder (1981, p. 356, n. 33-34). Goulder salienta que a tentativa rabínica de proibir a
Estudos selecionados em interpretação profética Tipologia do santuário

alipse 4 é extraída grandemente de Ezequiel 1 é inconfundível com suas descrições do restante do livro: as nações se enfurecem, a ira divina, o julgamento dos mortos,
similares do trono, do arco-íris e dos quatro seres viventes. Vários detalhes também a recompensa dos santos, a destruição dos ímpios (PAULIEN, 1988, p. 337-339).
parecem aludir a Êxodo 19. Note especialmente as vozes e os relâmpagos (Ap 4:5; Temas do Dia da Expiação. A cena introdutória do santuário da quarta
ver Êx 19:16-19) e o chamado “sobe para aqui” (Ap 4:1; ver Êx 19:24). grande seção do Apocalipse (Ap 11:19) nos conduz ao Lugar Santíssimo para o
A conexão com Êxodo 19 não é surpreendente sendo que, como já temos nota- início do mais sagrado dia antitípico do ano religioso, o dia da expiação (Yom
do, a entrega da Torá (Lei) no monte Sinai provavelmente coincidiu com o primeiro Kippur). As sete cenas do grande conflito que se seguem destacam o anúncio de
Pentecostes. Se modelado segundo a experiência do Sinai, Apocalipse 5 pode ser que “é chegada a hora do seu juízo” (14:7).
visto em um sentido de apresentar a Cristo como o Moisés antitípico, recebendo de O Yom Kippur típico incluía não somente (1) a obra do juízo investiga-
Deus a nova Torá. No primeiro Pentecostes Moisés ofereceu o sacrifício sangrento tivo, a expiação final e a purificação do santuário (Lv 16), mas também (2)
para ratificar a aliança sinaítica da redenção (Êx 24:8; cf. Êx 20:2; Dt 9:11), e Israel o juízo retributivo/executivo sobre os pecadores impenitentes do acampa-
foi investido como um “reino de sacerdotes” (Êx 19:6). De igual modo o Cordeiro mento (Lv 23:29-30) e (3) o rito de eliminação por meio do bode Azazel que
morto, por Seu “sangue da aliança” (Mt 26:28 = Êx 24:8), redimiu os homens para era enviado para o deserto (Lv 16:10, 20-22).
Deus (Ap 5:6, 9) e investiu-os como um “reino e sacerdotes para Deus” (Ap 5:10). Igualmente, no antítipo, o Dia da Expiação em Apocalipse nos leva através
3. Temas das trombetas. Na terceira grande seção do Apocalipse, as sete trom- do juízo investigativo (11:1, 2, 19; 14:7); através das sete últimas pragas (caps.
betas lembram as sete festividades mensais da Lua Nova que formam uma transição 15–16), e o juízo de Babilônia (17:1–19:4); e sucessivamente através do envio
entre as festas da primavera e do outono e chega ao ponto culminante na “Festa” milenial de Satanás para o “deserto”/abismo e o concomitante juízo de revisão
das Trombetas (Nm 10:2, 10; 29:1). Da mesma forma que a Festa das Trombetas pelos santos (20:1-10) ao culminante trono branco do juízo e à eliminação final
(também chamada Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico) convocava o antigo Israel a do pecado na segunda morte (20:11-15). O Dia da Expiação, portanto, abrange
se preparar para o vindouro dia de juízo, Yom Kippur, assim as trombetas de Apoc- as fases do juízo de investigação, de revisão e executiva do juízo final.34
136 alipse destacam especialmente a aproximação do antitípico Yom Kippur. Temas da Festa dos Tabernáculos. Em Apocalipse 21 o antitípico Dia da 137
Enquanto os selos veem a extensão da história a partir da perspectiva da in- Expiação (Yom Kippur) cessou, o “acampamento está limpo”, e a antitípica Festa
vestidura de Cristo e para a frente, as trombetas parecem retroceder na história dos Tabernáculos pode começar. É surpreendente notar o quanto da seção final
da salvação como indícios ao longo da Era Cristã de que Deus “se lembrará” do Apocalipse (e os refletores sobre as recompensas finais dos redimidos das
(isto é, agirá em favor de) de seu povo e como advertências para o preparo para seções anteriores) é expresso na imagem dos tabernáculos.
o antitípico Dia da Expiação.32 Os chamados de trombetas ao arrependimento A Festa dos Tabernáculos era também chamada a Festa da Colheita, vin-
vêm através de sucessivos juízos de alerta e atinge o seu ponto culminante no do depois que a ceifa tinha sido armazenada no celeiro. Igualmente, a festa
interlúdio após a sexta trombeta (Ap 10–11). É de acordo com as imagens da antitípica segue a ceifa da Terra (Ap 14:14-20) e constitui a colheita final do
Festa das Trombetas que o enfoque sobre os últimos acontecimentos (neste in- povo de Deus para o seu lar da colheita. O Israel do passado ia a Jerusalém
terlúdio entre a sexta e a sétima trombetas) detalha o tempo do Grande Desa- na “revolução (teqûpah) do ano” (Êx 34:22) para celebrar a festa por sete
pontamento e o início do juízo investigativo em 1844.33 dias (mais um oitavo, Lv 23:33-37). No antítipo, o Israel apocalíptico entra
A sétima trombeta leva à consumação a extensão histórica desta seção do Apoc- na Nova Jerusalém na revolução dos séculos (“as primeiras coisas passaram.
alipse com uma descrição do glorioso clímax: “O reino do mundo se tornou de
nosso Senhor e do seu Cristo, e Ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap 11:15).
Então a reação dos vinte e quatro anciãos (11:18) resume antecipadamente o fluxo
34
  Várias alusões a passagens do Antigo Testamento nestas seções realmente constituem ima-
gens do juízo investigativo/Dia da Expiação. Por exemplo, a referência a Satanás como “acusador
leitura de Ez 1 ocorre no tempo de João (p. 357). de nossos irmãos” (Ap 12:10) relembra a cena do juízo investigativo de Zacarias 3 (ver White,
32
  Ver Paulien (1998, cap. 3) para uma descrição mais completa do significado das trombetas. 2005, p. 484; 2002, p. 38-41). Para uma análise do juízo investigativo sobre Babilônia nos termos
33
  Veja a discussão do “modelo Ezequiel” acima, p. 114-15; e Maxwell (1991, p. 269-280). da lei do falso testemunho de Dt 19:16-21, veja Kenneth Strand (1982, p. 53-60).
Estudos selecionados em interpretação profética Tipologia do santuário

[...] Eis que faço novas todas as coisas” [Ap 21:4, 5]) para celebrar e “adorar discussão geral do tema do santuário dentro da estrutura geral do Apocalipse.
pelos séculos dos séculos” (7:9-17; 22:3-5). Algumas dessas alusões são explícitas, outras referências são mais indefiníveis.
Na festa histórica do Antigo Testamento os israelitas habitavam em “tab- O “maná escondido” (2:17) certamente pertence ao tema do Êxodo, mas tam-
ernáculos” (sukkôt) de onde a festa derivava seu nome. No final antitípico, “o bém pode se referir ao maná “escondido” dentro da arca no Lugar Santíssimo (cf.
tabernaculo” [skēnē, como em Lv 23:42 LXX) de Deus está com os homens, e Êx 16:32-34; Hb 9:4). A promessa aos vencedores de Sardes de que eles seriam
Ele habitará [skēnoō] com eles, e eles serão o seu povo, e Deus mesmo estará vestidos de vestiduras brancas (3:4) pode simbolizar mais do que pureza/justiça.
com eles” (Ap 21:3). Foi ordenado ao antigo Israel que “se alegrasse perante o O símbolo pode também apontar para sua função como sacerdotes antitípicos
Senhor” (Lv 23:40) na festa. Na prática, isto significava o agitar dos ramos de com Cristo (tal função torna-se explícita em 1:6; 5:10). As várias referências aos
palmeira, o cântico, o toque de instrumentos musicais e uma grande festa.35 No vinte e quatro anciãos (4:4) podem aludir ao sacerdócio levítico e seus vinte e
cumprimento apocalíptico, há novamente o agitar dos ramos de palmeira (Ap quatro turnos de sacerdotes levitas (1Cr 24:1-19).
7:9), gloriosas antífonas de louvor (7:10; 14:3; 15:2-4), harpistas tangendo suas Os quaro seres viventes, mencionados repetidamente ao longo do Apocalipse
harpas (14:2) e a grande ceia das bodas do Cordeiro (19:9). (4:6-9) são quase idênticos aos seres de Ezequiel 1 e 10. Na última passagem eles são
Durante a festa típica, os adoradores deveriam se lembrar do seu tempo de identificados como “querubins”. Esses seres podem ser considerados como os corre-
peregrinação no deserto (Lv 23:43). Na prática, isto se desenvolvia em duas ce- spondentes antitípicos para os querubins sobre a arca do santuário terrestre.37
rimônias impressionantes: (1) “a água da efusão” simbolizando a água da rocha Finalmente, em uma disposição semelhante, as numerosas alusões aos
que havia nutrido Israel no árido deserto e (2) a “cerimônia das luzes”, comemo- Salmos e outras passagens hinológicas do Antigo Testamento na liturgia
rando a coluna de fogo que os havia guiado através do deserto.36 Ambas estas celestial de louvor podem ser vistas na relação antitípica aos salmos litúr-
cerimônias por volta do primeiro século d.C. tinham sido reconhecidas por sua gicos terrestres no santuário do antigo Israel.38
significação messiânica. Jesus apontou claramente para o seu cumprimento Não seria exagero concluir que o último livro do Novo Testamento reúne
138 cristológico em si mesmo como a luz do mundo e a água da vida (Jo 7:37; 8:12) todos os grandes fios da tipologia do santuário do Antigo Testamento e tece-os 139
(ver BROWN, 1966, p. 326-330, 343-345). em um complexo e formoso tapete para formar o pano de fundo de todo o livro.
No final e glorioso cumprimento apocalíptico da festa, a festividade da água No processo, o profeta revela a centralidade e importância do tema do santuário
presente. Não apenas um cálice do tanque de Siloé, nem mesmo água brotando para desvendar a estrutura, mensagem, e significado do Apocalipse.
de uma rocha, mas um “rio da água da vida, brilhante como cristal, que sai do
trono de Deus e do Cordeiro” (Ap 22:1). E a cerimônia das luzes está ali. Não Referências
candelabros no pátio das mulheres, nem mesmo a coluna de fogo, nem mesmo
o deslumbrante Sol, mas a “glória de Deus é a sua luz, e o Cordeiro é a sua lâm-
ANDREASEN, N. E. The Heavenly Sanctuary in the Old Testament. In: WALLENKAMPF, A.
pada” (21:23). O apelo final de Jesus no livro parece continuar a imagem dos V.; LESHER, W. R. (Eds.). The Sanctuary and the Atonement. Silver Spring: Biblical Research
tabernáculos “Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água Institute, 1981.
da vida” [a água dos Tabernáculos perfeitos] (22:17).
BALENTINE, G. Death of Christ as a New Exodus. Review and Expositor. v. 59, 1962.
Considerações finais
Ao concluirmos esta pesquisa da terminologia do santuário, devemos no-
tar algumas relacionadas imagens tipológicas adicionais não mencionadas na 37
  Interessantemente, Ellen G. White (1870, v. 1, p. 399) indica que “quatro anjos celestiais sem-
pre acompanhavam a arca de Deus em todas as suas jornadas, para guardá-la de todo perigo, e
para cumprir qualquer missão deles exigida em conexão com a arca”.
  Para a prática rabínica, veja Mishnah, Sukkah 5.1-4.
35 38
  Veja acima, n. 7; importantes comentários sobre Apocalipse para exemplos das copiosas
  Para uma descrição destas cerimônias, veja Mishnah, Sukkah 4.9; 5.1-3.
36
alusões aos Salmos nos hinos litúrgicos de Apocalipse.
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Adventist Bible Commentary. Washington: 1976. v. 4.
Gráfico 1 Tipologia bíblica: visão geral

WHITE, E. G. Atos dos apóstolos. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2010.


I. Significado da interpretação Tipológica do AT pelo NT
     . O desejado de todas as nações. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1996. A. Avaliações modernas:
     . O grande conflito. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2005. 1. Leonard Goppelt: Tipologia “é a maneira central e distintiva de compreender
as Escrituras”.
2. G. Ernest Wright: “A única palavra que talvez melhor do que qualquer outra
     . Parábolas de Jesus. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2000.
descreve o método da Igreja primitiva de interpretar o AT é ‘tipologia.’”
3. Robert G. Grant: “O método do Novo Testamento de interpretar o Antigo
     . Profetas e reis. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2007. era geralmente o da tipologia.”
4. E. Earle Ellis (citando W. G. Kümmel): “A interpretação tipológica expres-
     . Testemunhos para igreja. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2006. v. 6. sa muito claramente ‘a atitude básica do Cristianismo primitivo para com o
Antigo Testamento.’”
     . Testemunhos para ministros e obreiros evangélicos. Tatuí: Casa Publicadora
B. Crítica: As asserções acima podem exagerar o caso, mas certamente a
Brasileira, 2002.
tipologia provê um importante estudo de caso na hermenêutica do NT.
     . The Spirit of Prophecy: the great controversy between Christ and his angels and II. Duas modernas visões de tipologia bíblica: tradicional e “pós-crítica”
Satan and his angels. Battle Creek: Steam Press, 1870. v. 1.
A. Tipologia Tradicional é o estudo da prefiguração divinamente designada (na
142 forma de pessoas/eventos/instituições) que apontam para o seu cumprimento 143
WHYBRAY, R. N. The Heavenly Councellor in Isa. XI 13-14. Cambridge: [s.n.], 1971.
antitípico em Cristo e nas realidades do evangelho produzidas por Cristo.
B. “Neotipologia Pós-crítica”: Tipologia é o estudo das correspondências
históricas entre pessoas, eventos e instituições do AT e NT, retrospectiva-
mente reconhecidas dentro da consistente revelação de Deus na História.
C. Principais elementos de diferença:

Tradicional Crítico-Histórica
1. Firmada em realidades históricas 1. Historicidade não essencial.
(historicidade essencial).
2. Prefiguração divinamente designada 2. Analogias/correspondências dentro de
modos de atividades similares de Deus.
3. Prospectiva/preditiva. 3. Retrospectiva (pouco ou nenhum
elemento preditivo).
4. Prefigurações se estendem a detalhes 4. Envolve somente “situações paralelas”
especiais. gerais.
5. Inclui tipologia vertical (santuário). 5. Rejeita vertical como estranha à perspec-
tiva bíblica. (Hebreus = mítico/dualista).
6. Envolve princípios consistente de 6. Nenhum sistema ou ordem — liber-
interpretação dade do Espírito.
Estudos selecionados em interpretação profética Tipologia do santuário

1 23

(1 Co 3:16 e 17; 2 Co 6:16) (Ap 3:12; 7:15; 11:19; 21:3 e 22)


Escatologia Consumada
Gráfico 2 - Interpretação Tipológica do Antigo Testamento:Identificando os Tipos

Cumprimento literal
Segundo advento

Êxodo apocalíptico
Israel apocalíptico
Segundo advento

Templo supremo
Templo celeste/
Reino da Glória

glorioso e final
(Apocalíptico)
Clímax Final
de Cristo

(Ap 15:1-3)
(Mt 25:31)

(Ap 7:4)
Tipo do Antigo Testamento Indicador Verbal de Tipologia Anúncio do Antítipo no
(Pessoa/Evento/Instituições) no Antigo Testamento Novo Testamento

Resolução
da tensão
1. Êxodo: Novo Êxodo1 Êxodo Antitípico2

Antitipos do Novo Testamento


Livro de Êxodo; Os 2:14-15; 12:9, 13; 13:4-5; Mt 1:5; Lc 9:31, etc.
Oséias 11:1, etc. Jr 23:4-8; 16:14-15; 31:32;

Tensão entre “Já” e “Ainda

Escatologia Apropriada

Cumprimento parcial
espiritual e universal

Igreja como templo


Is 11:15-16; 35; 40:3-5;

(Hb 4; 2 Co 6:17)
Êxodo espiritual
não” (Mt 16:19)

(Eclesiológico)

Israel de Deus
Espírito Santo
41:17-20; 42:14-16; 43:1-3,

(Gl 6:16)
A Igreja
14-21; 48:20-21; 49:8-12;

Gráfico 3 - Quádrupla subestrutura escatológica da tipologia

Igreja
51:9-11; 52:3-6, 11-12;

Irrompimento de poderes
55:12-13

da era vondoura
Dimensão vertical abrangente

Pentecostes
2. Santuário Original Celeste3 Original Celeste
Êxodo 25–40 Êx 25:40; Sl 11:4; 18:6 ; Hb 8:5; 9:24; Ap 8:1-5;

Escatologia Inaugurada

(Jo 1:14; 2:21; Mt 12:6)


Cristo como Templo
Primeiro advento
60:6; 63:2; 68h35min; 96:6; 11:19; 16:1; etc.

(Mt 12:28; Hb 4:16)


Primeiro advento

(Mt 1-5; Lc 9:31)


Êxodo de Cristo
Reino da Graça

Cumprimento
(Cristológico)
102:19; 150:1; Is 6; Jn 2:7;

literal e local
Novo Israel
de Cristo

Tipologia

(Mt 2:15)
Mq 1:2; Hc 2:20; etc.

Cristo
144 145
3. Jonas Novo Jonas Jonas Antitípico
O Livro de Jonas Os 6:1-3 (=Israel); Is 41–53 Mt 12:40; etc.
(Messias representa e

(governo direto de Deus ou


seu representante terrestre)
recapitula a experiência de

Santuário / Templo
Israel: Is 41:8; 42:1; 44:1;

Antigo Testamento

Tipos do Antigo
do fim dos tempos
Antigo testamento

Predições verbais
Reino Teocrático

Pessoas, eventos

Nacional, étnico
49:3-6; 52:13–53:11, etc.)

Testamento

e instituições

Êxodo
Israel
4. Elias Novo Elias Elias Antitípico
1Rs 17–19 Ml 4:5, 6 Mt 11:14; Mc 9:11; Lc 1:17

5. Moisés Novo Moisés Moisés Antitípico

Modos de cumprimento
cumprimento tipológico
Na linguagem do Reino
Pentateuco Dt 18:15-19 Jo 1:21; 6:14; 8:40; etc.

Na linguagem

(2)
Exemplos (1)

(3)
1
Veja C. H. Dodd, According to the Scriptures: The Substructure of New Testament Theology

escatológica

Aspectos do
(Londres, 1952), esp. 75-133.
2
Veja George Balentine, “The Concept of the New Exodus in the Gospels,” (diss. Th.D., Southern Bap-
tist Theological Seminary, 1961); cf. id.., “Death of Christ as a New Exodus,” RevExp 59 (1962): 27-41.
3
Veja Davidson, Typology in Scripture, 367-88; id., Issues in the Book of Hebrews, 156-69.
146
Gráfico 4 - Festividades de Levítico 23: Aspectos Tipológicos no Novo Testamento
A. Primavera: ** *** AT Festividade Cristológico* Eclesiológico* Apocalíptico*
1 Festa do Cordeito
1 (NISÃ) 14 Páscoa (Pesach) Crucifixão (Mt 26:27- Ceia do Senhor
(Lc 22:15-16; Mt 26:29;
(Lv 23:4 e 5; Êx 12:1-14) 28; 27:46; Jo 19:31-37) (1 Co 5:7; 11:23-26)
Ap 19:7-9; 15:1-3)
1 (NISÃ) 15-21 Festa dos pães asmos Provisão para remoção do Remoção do pecado Remoção do pecado
(Lv 23:5-8; Êx 12:8-20) pecado (1 Co 5:6-8) (1 Co5:6-8) (1 Co 15:22 e 53; Ap 14:4-5)

1 (NISÃ) 16 Primícias Ressurreição Primícias do Espírito 144.000 como primícias


(Lv 23:4-14) (1 Co 15:23) (Rm 8:23) (Ap 14:4)
2 Unção com o Espírito “Chuva Temporã” “Chuva Serôdia”
3 (SIVÃ) 6 Pentecoste (Shavout)
(Lv 23:15-22) (Mt 3:16 e 17; At 10:38) (Jl 2:23; At 2) (Joel 2:23; Ap 18:1)
B. Outono: **
Trombetas
Chamado ao Juízo Chamado ao Juízo Chamado ao Juízo
7 (TISHRI) 1 (Rosh Hashaná)
(Jo 12:31) (Ap 8 e 9; 1 Pe 4:17) (Ap 14:6 e 7; Jl 2:1)
(Lv 23:23-25)
Bode do Senhor (Hb 9:25-26;
1844 ao fim do Milênio
7 (TISHRI) 10 Dia da expiação DTN 24 e 275; AA 33) Cristo purifica o templo da
Estudos selecionados em interpretação profética

(Dn 8:14; Ap 11:19; 14:6-8 e 20)


(Yom Kippur) Cristo vem subtamente para alma (Ml 3:3; 2 Co 6:16-17;
Cristo purifica o Templo celestial
(Lv 16; 23:26-31) purificar Seu templo. 1 Co 3:16 e 17; DA 161)
(Ml 3:1-3; GC 424-426)
(Ml 3:1-3; Jo 2:13-22; DA 161)
3 Cristo “habita” (Jo 1:14); Observar a festa hoje PP
7 (TISHRI) 15-22 Tabernáculos
Cêrimônia da água antitípica 540-541, água antitípica Nova Terra (Zc 14:16; Ap 7:9-12;
(Sukkoth)
(Jo 7:37) e cerimônia das luzes (Jo 7:37) e Luz (Mt 5:14- 14:1-5; 19:6-12 e 21-22)
(Lv 23:33-36)
(Jo 8:12a) 16; Jo 8:12b)

*Espaços sombriamente delineados = Cumprimento primário na extensão da história da salvação.


**Nas datas para as festas, o primeiro número se refere ao mês e o segundo número(s) ao dia(s) do mês.
***Os números indicam as três festividades (Páscoa/Pães Asmos, Pentecostes, Tabernáculos) realmente designadas como hag (festa) nas Escrituras.
1. Introdução
Esboço do capítulo

3. Alusões a Daniel em Apocalipse


4. Por que estudar Daniel e Apocalipse?
2. Uso de Daniel pelo Novo Testamento

extensão da Era Cristã.

suntos” (WHITE, 2002, p. 117).


dos e aprimorados em Apocalipse

encadernados juntos, Apocalipse


“Era minha ideia ter os dois livros
rpretes historicistas, os adventistas

esses livros, mostrando que ambos


seguindo a Daniel, oferecendo mais
Alguns assuntos, apresentados pela

na medida em que ambos cobrem a


sempre reconheceram a estreita
Richard Lehmann
Relações entre Daniel e
Apocalipse

Em 1902 Ellen White escreveu:

sentados em Daniel. O alvo é unir


ligação entre Daniel e Apocalipse.

se relacionam com os mesmos as-


primeira vez em Daniel, são repeti-
Sinopse editorial. Como inté-

ampla luz sobre os assuntos apre-


6
Estudos selecionados em interpretação profética Relações entre Daniel e Apocalipse

Sendo que a moderna erudição liberal nega a possibilidade da profecia e re- A erudição crítico-histórica considera o livro de Daniel como restrito ao
stringe Daniel e sua mensagem a um ambiente da Palestina do segundo século Judaísmo do segundo século a.C. Somente alguns versículos são aceitos como
a.C., o presente autor sugere que a igreja de hoje precisa de razões adicionais de natureza profética. Consequentemente, é necessário estabelecer a partir das
para justificar seu estudo de Daniel e Apocalipse em conjunto. Escrituras se Daniel tinha uma mensagem apocalíptica que se estendia além
Além dos vínculos de gênero literário comum (apocalíptico) e tema co- daquela época. Podemos legitimamente perguntar aos escritores do Novo Tes-
mum, ele sugere outra linha de evidência: referências do Novo Testamento a tamento se Daniel menciona eventos do fim dos tempos e se eles viam o cum-
Daniel 2, 7 e 9. Os escritores do Novo Testamento não eram “futuristas” no primento de suas profecias como ocorrendo em pontos futuros para seus dias.
moderno sentido religioso do termo. Antes, eles reconheciam que as partes Se podemos responder afirmativamente a essas interrogações, temos então
escatológicas de Daniel não tinham ainda se cumprido — em seu tempo ou o direito de ligar Daniel e Apocalipse sobre a base de uma interpretação comum.
antes do seu tempo, mas se destinavam a ter cumprimento em algum ponto Além disso, se podemos estabelecer que as profecias de Daniel eram percebidas
do tempo que era futuro para eles. Consequentemente, é legítimo ligar Dan- nos tempos do Novo Testamento como tendo precisas aplicações históricas, en-
iel a Apocalipse em seus pontos de interesse comum da Era Cristã. tão seremos capazes de interpretar os dois livros como lidando com a história
Partindo de uma perspectiva mais ampla, o autor sugere que preocu- contínua deste mundo em relação com o plano da salvação.
pações éticas comuns, períodos de tempo cronológicos, bem como a ên-
fase sobre o Filho do homem messiânico em Daniel e Apocalipse de tal Uso de Daniel pelo Novo Testamento
modo se complementem e suplementem um ao outro que as duas profe-
cias devam ser estudadas em conjunto.
A pedra que destrói
A profecia de Daniel 2 é uma narração de uma sucessão de poderes políticos
Introdução que se estendem desde os dias de Daniel até o fim dos tempos (Dn 2:36-45).
148 149
É procedimento tradicional entre os adventistas do sétimo dia analisar os Viam os autores do Novo Testamento a profecia já cumprida? É verdade que os
livros de Daniel e Apocalipse segundo suas relações mútuas (ver WHITE, 2002, Evangelhos se referem apenas à última parte dela — a pedra que fere a imagem
p. 116; 1957, v. 7, p. 971). Por exemplo, deve ser evidente para qualquer leitor metálica em seus pés. Mas é de interesse ver se eles percebiam a ação destrutiva
que os animais de Daniel 7 devem ser outra vez encontrados na besta do mar da pedra como um evento passado ou futuro.
de Apocalipse 13, que as fases milenial e executiva do juízo final em Apocalipse Duas referências são feitas à profecia de Daniel 2. Em Lucas 20:18 e Ma-
20 não estão sem conexão com a descrição do juízo pré-advento de Daniel 7, e teus 21:44, é feita referência a uma pedra. “Todo o que cair sobre esta pedra
que a permanência da mulher no deserto em Apocalipse 12:6, 14 é idêntica à ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó” (Mt
perseguição dos santos mencionada em Daniel 7:25. 21:44). A leitura desses dois textos poderia sugerir que eles estão aludindo
Mas nem todos os pesquisadores veem a ligação do mesmo modo. Certos a Salmo 118:22-23 em vez de Daniel 2, sendo que a primeira passagem lida
teólogos preferem ver Isaías e Ezequiel como o pano de fundo para Apocalipse com a pedra rejeitada pelos construtores, que se tornou a pedra angular do
(COMBLIN, 1965, p. 11). Portanto, torna-se necessário hoje — muito mais do Templo. Contudo, por várias razões cremos que nesse caso Jesus combina
que no passado — justificar nossa escolha e nossa interpretação do livro de ambas as referências (Sl 118 e Dn 2) em sua declaração.
Apocalipse em conexão com o livro de Daniel. Que razões podemos sugerir Ambos os textos do Evangelho parecem lembrar a dupla ação declarada
para alinhar Apocalipse especialmente com o livro de Daniel? em Daniel 2:34-35. A pedra, foi dito, quebra os reinos em pedaços e os es-
Se vemos um elo relacionado entre as duas profecias, é essencialmente palha como “a palha das eiras no estio”. Em outras palavras, a pedra esmaga
porque encontramos nelas a mesma descrição, periódica e contínua, da história e tritura. Nos Evangelhos, pessoas que caem sobre a pedra são esmagadas ou
do mundo e da igreja. Cremos que esses livros tratam da nossa história do mun- são trituradas se a pedra cai sobre elas.
do e armam seus principais cenários em conexão com a história da redenção.
Estudos selecionados em interpretação profética Relações entre Daniel e Apocalipse

Além disso, Mateus e Lucas usam o mesmo verbo grego que a LXX (Teod.) é de surpreender que Mateus seja aqui mais detalhado e preciso do que Lucas.
em Daniel 2:44 para “esmagar” ou “triturar. “Triturar” (grego, likmaō), ocorre Portanto, ele registra a declaração de Jesus: “O reino de Deus [...] será entregue
na LXX (Teod.) somente em Daniel 2:44 e Rute 3:2. a um povo que lhe produza os respectivos frutos” (v. 43). Além disso, Jesus não
Parece evidente que quando Mateus e Lucas declaram que aquele que cai faz sua referência a Daniel 2 após a citação de Salmo 118, mas imediatamente
sobre a pedra será esmagado e aquele sobre o qual a pedra cai será triturado — a depois de mencionar a vinda de outra “nação”.
mesma ordem verbal que em Daniel —, eles têm Daniel 2 em mente. Temos, portanto, em ordem sucessiva: o verso 42 e o Salmo 118; o verso 43
Vale a pena saber como Jesus e os escritores dos Evangelhos compreendiam e a transferência do reino; o verso 44 e Daniel 2. A referência à igreja (reino de
essa referência à pedra de Daniel. Olhavam eles para os eventos do primeiro século Deus) é posta entre as duas referências a uma pedra. O verso 42 está ligado ao
como cumprimento da profecia? Alguns acham que sim; mas eu penso que não. verso 43 por meio de uma conjunção — “portanto” (dia touto) — a qual mostra
Lucas 20:18. Analisemos o contexto imediato da referência extraída de Lu- que se Jesus é a pedra angular, Ele é a pedra angular da igreja.
cas 20. Ele segue a parábola dos lavradores maus (Lc 20:9-16) e prediz o jul- O verso 44 está ligado ao verso 43 por meio de um pronome demonstrativo
gamento de Israel. Quando se aproxima o tempo da colheita, o proprietário de proximidade (houtos, “esta”) em vez do pronome demonstrativo de distân-
quer receber o fruto de sua vinha. Mas a impiedade dos lavradores o compele a cia (ekeinos, “aquela”) encontrado em Lucas. Tivesse Mateus desejado omitir
exercer juízo sobre eles e alugar a vinha a uma nova turma de lavradores. a referência à igreja (v. 43) a fim de ligar o verso 44 ao verso 42 (as duas de-
Seus ouvintes mentalmente recusaram tal resultado. Como poderia Deus clarações sobre pedra), ele teria simplesmente usado “aquela [ekeinos] pedra” de
escolher outra nação? Assim Jesus — falando para a questão silenciosa — per- Lucas. Essa linha de raciocínio significa que a igreja está edificada sobre Jesus
gunta-lhes: “Que quer dizer, pois, o que está escrito: A pedra que os constru- Cristo (v. 42) e que ela participa de sua vitória (v. 43). A atitude dos judeus para
tores rejeitaram, esta veio a ser a principal pedra, angular?” (v. 17). Ele então com a igreja é semelhante àquela que eles têm para com Cristo.
traz à baila a referência a Daniel 2 (v. 18). Significa isso que a igreja é o reino predito na profecia de Daniel? Não, ab-
150 Uma leitura superficial poderia levar o leitor a imaginar que Jesus vê sua solutamente. Por três razões, a pedra não deve ser identificada com a igreja no 151
rejeição pelos judeus como o cumprimento por Israel da profecia de Daniel 2. primeiro advento de Cristo. Primeira, há o tempo futuro do verso 44 conforme
Uma leitura mais cuidadosa mostra que este não é o caso. observado antes (“todo o que cair sobre esta pedra ficará em pedaços”). So-
O futuro escatológico do verso 18 deve ser notado (ficará em pedaços, ficará mente o juízo final revelará e demonstrará a vitória da igreja.
reduzido a pó). Os efeitos da pedra são projetados para um futuro indeterminado. Segunda, existe a distinção que Jesus faz na parábola entre a primeira e a seg-
Além disso, se a designação “construtores” aponta para os dirigentes de Is- unda vinda do dono de casa ou pai de família. Quando ele envia seu filho, o tempo
rael ou para a própria nação, o “todo o que” do verso 18 sugere uma aplicação da colheita não é ainda chegado. Como disse Mateus, ele apenas “se aproximava” (v.
universal. O juízo a cair sobre Israel em 70 d.C. é apenas um exemplo histórico 34, KJV). Mas quando o dono de casa vier para executar justiça sobre seus ímpios
apontando para o que acontecerá a “todo o que” rejeita o Messias. lavradores (v. 40), é também com uma intenção de receber os frutos em seu tempo.
Essa interpretação é confirmada pela passagem de Mateus, que é mais Assim, segundo a parábola, há somente um tempo de colheita; quando Jesus esteve
detalhada do que a de Lucas. na Terra esse tempo estava apenas “se aproximando”.
Mateus 21:44. Este verso não tem sido retido por todos os exegetas. Creio, Uma razão adicional está no fato de que Mateus fornece um detalhe (v. 41)
porém, juntamente com o The Seventh-Day Adventist Bible Commentary, que que não aparece em Lucas: os novos lavradores “lhe produzirão os respectivos
ele pode ser mantido. O verso aparece em importantes manuscritos; e sua omis- frutos em seu devido tempo”, isto é, no tempo da colheita. E só então sua fi-
são em outros pode ser explicada como um erro de copista devido à palavra delidade será demonstrada. Esta involuntária alusão à igreja pelos fariseus pode
final semelhante nos versos 43 e 44 (autēs/auton) no texto grego. Além disso, o ser explicada em termos da parábola e do registro pelo método semítico da
verso 44 se ajusta perfeitamente à linha de raciocínio do contexto. inclusão. Esse método consiste em repetir no final de uma história (v. 41) o
O Evangelho de Mateus é fortemente orientado para a igreja. Beda Rigaux tema do início (v. 34) a fim de dar coerência ao relato (ver Mt 7:16, 20; 12:39, 45;
afirma que entrar no Evangelho de Mateus é como entrar numa catedral. Não 15:2, 20; 16:6, 12; 18:1, 4 etc.). A função adequada dos novos lavradores lembra
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o propósito da história, seu principal objetivo. No tempo da colheita o Senhor quem confere o reino aos santos para que possam reinar com Ele (Lc 22:29, 30;
virá para receber o fruto. Há, portanto, um tempo no futuro quando o Senhor cf. Ap 5:9-10). Os conceitos de Daniel 7:18, 22 são combinados em uma simples
virá à sua vinha; naquele tempo Ele será recebido por sua propriedade. declaração de Jesus em Mateus 19:28 — “Na regeneração quando o Filho do
A profecia de Daniel 2 diz respeito ao fim do tempo. A pedra (rei- homem se assentar no trono da sua glória, vós também vos assentareis sobre
no) que “trilharia” (trituraria) as nações, segundo as palavras de Cristo, era doze tronos, julgando as doze tribos de Israel.” Notemos que essas predições não
futura em seus dias e pertence ao vitorioso estabelecimento do eterno reino se referem a um evento do passado, mas são orientadas para o futuro.
de Deus. Isso acha confirmação também no fato de que a igreja dos crentes Observemos que estas referências a Daniel na interpretação adventista têm
genuínos não é plenamente manifestada até “o tempo da colheita”, “quando um caráter escatológico futuro. É o mesmo no uso feito delas pelo Novo Testamen-
Ele [Cristo] virá para ser glorificado em seus santos, e ser admirado em to- to. E essas não são as únicas. Outras poderiam ser acrescentadas. Por exemplo,
dos os que creem [...] naquele dia” (2Ts 1:10, KJV). Daniel 12:2/Mateus 25:46; Daniel 12:3/Mateus 13:43.
Concluamos esta parte do nosso estudo examinando a referência explícita de Je-
O Filho do Homem e a abominação da desolação sus à “abominação da desolação” (Mt 24:15). Os judeus estavam familiarizados com
Depois de Daniel 2, não é surpreendente ver o Novo Testamento dar ainda o livro de Daniel. Eles evidentemente viam no sacrilégio perpetrado por Antíoco
mais atenção a Daniel 7. C. H. Dodd acha que esse capítulo do Antigo Testa- Epífanes o cumprimento de uma de suas profecias (1 Macabeus 1:54; 6:7). Como
mento “pertence aos próprios fundamentos do pensamento neotestamentário” poderia ter sido de outro modo para um povo afligido que tentava compreender os
(DODD, 1968, p. 69). Esse capítulo serviu como ponto de referência para Jesus eventos contemporâneos à luz da profecia? Tudo o que eles ainda aguardavam era
bem como para os apóstolos. A mais óbvia referência (embora não citada dire- “a consumação, e o que está determinado será derramado sobre o assolador” (Dn
tamente) é Daniel 7:13 — a profecia do Filho do homem vindo nas nuvens. 9:27) e o aparecimento do Messias. O advento do Messias e o fim do mundo eram
Outra vez, segundo Dodd, ”obviamente temos de lidar com uma daque- um e o mesmo acontecimento em sua estimativa (Mt 24:3).
152 las passagens que desde o início guiou de uma maneira decisiva o pen- O que é impressionante acerca da referência de Jesus à “abominação da des- 153
samento e o vocabulário da igreja concernente ao que tinha a ver com um olação de que falou o profeta Daniel” é que Ele corrige a interpretação que os
dos pontos essenciais do Kerygma, o retorno de Cristo como juiz e Salvador judeus davam a isto. Para Ele, “a abominação da desolação” não tinha ainda
da humanidade” (DODD, 1968, p. 67). chegado! Jesus projetou no futuro além do seu tempo o que o pensamento judaico
O Filho do homem nas nuvens é mencionado por Jesus em seu discurso es- considerava ter ocorrido. Certamente, é a Judeia, e mais precisamente Jerusalém,
catológico: “E então eles verão”, disse Ele, “o Filho do homem vindo nas nuvens com diz Lucas, que vê o início desses eventos, mas eles se estenderão universalmente,
grande poder e glória” (Mc 13:26, KJV). Diante do Sinédrio, Ele incluiu com a porque os justos têm de ser reunidos dos quatro ventos, da extremidade da
alusão a Daniel uma referência a Salmo 110:1. “E vereis o Filho do homem assen- Terra até a extremidade do céu (Mc 13:27).
tado à mão direita do poder, e vindo nas nuvens do céu” (Mc 14:62). Uma referência Podemos concluir esta seção observando que até onde temos pesquisa-
implícita a Daniel 7 é apresentada nas palavras dos anjos aos apóstolos na ascensão do as profecias de Daniel interpretadas no Novo Testamento, nenhuma é
de Jesus quando uma nuvem o encobriu dos seus olhos. “Esse Jesus que dentre vós vista como tendo tido uma aplicação no passado ou no presente pelos escri-
foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir” At 1:11). O apóstolo Paulo tirou tores do Novo Testamento. Cada vez que o material é interpretado escato-
disto uma conclusão óbvia: no retorno de Cristo os redimidos serão arrebatados logicamente, é parte das profecias de Daniel que lida com o fim dos tempos.
“entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares” (1Ts 4:17). Portanto, temos todos os motivos para pensar que o livro de Daniel é visto
É possível que quando Paulo afirma que os santos julgarão o mundo (1Co pelos escritores do Novo Testamento como um livro cujo cumprimento é
6:2), ele esteja pensando em Daniel 7:22, onde diz que o “juízo foi dado aos san- esperado no futuro além deles, isto é, no fim da era.
tos” (KJV) e eles possuem o reino (veja também Ap 20:4). Daniel 7:18 também Significa isto que os escritores do Novo Testamento estão adotando um
declara que os santos do Altíssimo receberão o reino. Essa alusão ao reinado método futurista de interpretação? Não, porque como temos visto, eles es-
dos santos é refletida em 2 Timóteo 2:12. Finalmente Jesus afirma que é Ele tão citando aquelas porções das profecias de Daniel 2 e 7 que em si mesmas
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estão lidando com o fim dos tempos. Referências ao texto de Daniel 9 nos derramado por muitos” (KJV). Philip Mauro faz a observação de que as pala-
mostrarão que a igreja primitiva lia as profecias de Daniel em uma estrutura vras de Cristo não poderiam estar em mais perfeito acordo com as da profecia:
cronológica e contínua. Para Jesus e os autores do Novo Testamento, o livro “E ele confirmará a aliança com muitos” (MAURO apud FORD, 1978, p. 201).
de Daniel (especificamente os capítulos 2 e 7) não deve ser interpretado Assim o Novo Testamento confirma que a profecia das setenta semanas
em um sentido preterista. Nessas grandes cenas delineadas estamos lidando concernente ao Ungido encontra seu cumprimento na pessoa de Jesus. Sua
muito mais com o tempo porvir. vinda e morte eram dependentes de um programa conhecido e anunciado
há muito tempo pela profecia.
Jesus, o Ungido de Daniel 9 Podemos acrescentar que a relação entre os livros de Daniel e Apocalipse está
A profecia das setenta semanas (Dn 9) tem sido objeto de considerável também nesta área da profecia messiânica. A Igreja Adventista do Sétimo Dia tem
estudo. Nossa interrogação é: via a igreja primitiva a profecia das setenta se- bons motivos para estar interessada em ambos os livros proféticos. Como profecias
manas como a vemos? Isto é, via ela em Jesus o cumprimento dessa profecia? apocalípticas, eles apresentam a história em seu desdobramento associando-a com
Eles a consideravam como tendo um caráter cronológico? Temos razão para o foco central do Céu — a pessoa e a obra de Jesus Cristo.
dizer sim a essas indagações.
Por unanimidade, os historiadores afirmam que no primeiro século de Alusões de Apocalipse a Daniel
nossa era a expectativa messiânica de Israel estava em efervescência. Te-
mos algumas evidências disso no Novo Testamento. Por exemplo, o apóstolo Que lugar ocupa o livro de Daniel em Apocalipse? Se esses dois livros têm
Paulo justifica seu apelo a César diante dos principais dos judeus em Roma uma estreita relação, devemos procurar alguns aspectos do livro de Daniel li-
por causa da “esperança de Israel” (At 28:20). gados ao Apocalipse. H. B. Swete fez uma análise do vocabulário de Apocalipse.
Essa esperança só podia ser a do Messias (1Tm 1:1). Lucas observa que Embora sua obra seja muito antiga (a data da segunda edição que eu consultei é
154 quando João Batista apareceu, o povo estava na expectativa, “discorrendo 1907 [SWETE, 1907]) ela nos será útil para nosso propósito. 155
todos no seu íntimo a respeito de João, se não seria ele, porventura, o próp- Embora certos livros da Bíblia sejam usados mais do que outros em Apoc-
rio Cristo” (Lc 3:15). Para Paulo, o assunto é claro. “No devido tempo”, diz alipse, há uma ausência total de citações formais. Mais da metade das referên-
ele, “Cristo morreu pelos ímpios” (Rm 5:6,). cias são extraídas os Salmos, das profecias de Isaías e Ezequiel, e do livro de
O próprio Jesus parece estar ciente do elemento tempo dessa profecia Daniel. Mas segundo Swete, proporcional à sua extensão, o livro de Daniel é de
que prediz o aparecimento e morte do Messias (Dn 9:25-26; cf. Mc 1:15). O longe o mais usado (SWETE, 1907, clii). Segundo P.-M. Bogaert, “implícita ou
evangelista João, que presta grande atenção à questão da cronologia, sub- explícita, a referência a Daniel constitui uma das mais certas características da
linha essa ênfase quando relata a repetida observação de Jesus de que sua literatura de origem apocalíptica” (BOGAERT, 1980, p. 36). Seria tedioso apre-
hora ainda não era chegada (Jo 7:6, 8; 2:4; 7:30). No cenáculo, pouco antes sentar todas as referências, porque há mais de 30. Mas notemos várias.
de ser preso, Jesus orou: “Pai, é chegada a hora” (Jo 17:1). Primeiro, imagem de Daniel 2. Esta profecia de Daniel diz respeito ao
Neste contexto devemos compreender as palavras do apóstolo Paulo: “Vin- “que há de ser futuramente” (Dn 2:45). João usa este vocabulário em algumas
do, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho” (Gl 4:4). E quando seções não descritivas para especificar que suas visões se relacionam com
ele declara precisamente que Jesus foi “nascido de mulher, nascido sob a lei”, é “coisas que em breve devem acontecer” (1:1; 22:6) ou “depois destas coisas”
porque ele pensa na vinda de Jesus como situada na história. (4:1). Segundo Daniel 2:28, o profeta declarou que o Deus que revela misté-
É provável, portanto, assumir que a igreja primitiva reconhecia Jesus como rios fez saber ao rei o que há de ser nos últimos dias. Agora, segundo João,
sendo o Cristo, quer dizer o Ungido, porque via seu determinado aparecimento é o próprio Jesus que lhe pede que escreva as coisas que hão de acontecer
e execução como um cumprimento de Daniel 9. Uma importante declaração de depois destas, o mistério das sete estrelas (Ap 1:19, 20).
Jesus indica muito bem que Ele se considerava o Ungido predito pela profecia. Estas alusões a Daniel 2 provêem mais do que imagens linguísticas. Elas
Disse Ele em Mateus 26:28: “Este é o meu sangue do novo testamento, que é são escritas nas séries de eventos que se sucedem uns aos outros. O uso do
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vocabulário de Daniel não é feito por acaso. Por exemplo, a visão de Dan- Por que estudar Daniel e Apocalipse?
iel (cap. 2) termina com o juízo de Deus simbolizado por uma pedra que
esmiúça a estátua e espalha seus pedaços em tal extensão que “o vento os Notamos agora três características que especialmente justificam o estudo
levou, que nenhum lugar foi achado para eles” (Dn 2:35, KJV). De maneira comum de Daniel e Apocalipse em nosso tempo.
idêntica, a visão dada a João acerca do mundo presente finaliza com a cena Qualidade ética. Escreve Ellen G. White concernente a Daniel e Apocalipse:
do juízo final de “um grande trono branco, e aquele que se assentava sobre “Quando os livros de Daniel e Apocalipse forem bem compreendidos, terão os
ele, de cuja face a terra e o céu fugiram; e não foi achado nenhum lugar para crentes uma experiência religiosa inteiramente diferente” (WHITE, 2002, p. 114).
eles” (Ap 20:11, KJV). Há uma clara correspondência entre o fim da visão de E outra vez: “Precisamos estudar a realização dos propósitos de Deus na história
Daniel e o fim do presente mundo segundo João. das nações e na revelação de coisas vindouras, para que possamos estimar em seu
O capítulo de Daniel mais citado em Apocalipse é o capítulo 7. Veja verdadeiro valor as coisas visíveis e as invisíveis” (WHITE, 1952, p. 184).
as 12 referências enumeradas abaixo. 1 Alusões a Daniel parecem às vezes Destes livros apocalípticos brotam importantes consequências éticas. H.
fazer mais do que prover fraseologia. Antes, são escritas na perspectiva de H. Rowley (1944, p. 12) reconhece esta verdade quando escreve: “As visões
uma interpretação linear, de conformidade com o que temos encontrado de Daniel e do livro de Apocalipse merecem nossa atenção não somente
em outro lugar no Novo Testamento. Por exemplo, Jesus vem com as nu- pelos detalhes de sua forma, mas pelo grande princípio espiritual que eles
vens (Ap 1:7; Dn 7:13), e Ele se mostra a João como um semelhante ao mantêm por toda parte.” A convicção geral concernente a esta característica
Filho do homem (Ap 1:13; Dn 7:13). ética é tal que certos escritores pensam que ela é a única. P. Fruchon, por
Como em Daniel, a ação do chifre pequeno termina na guerra que ele trava exemplo, declara que a compreensão da apocalíptica deveria ser psicológica
contra os santos (Dn 7:21-22, 25), assim em Apocalipse é o mesmo para a besta ou sociológica, até mesmo estética (FRUCHON, 1977, p. 96).
do mar que profere blasfêmias e faz guerra contra os santos (Ap 13:1-10). Sem É de fato notável observar que Daniel e Apocalipse se iniciam com re-
156 dúvida, o Apocalipse é uma obra original, e não uma cópia de Daniel. Os dois latos eminentemente éticos (Dn 1:6-21; Ap 1:9). Através das visões é apre- 157
livros são assinalados, porém, por similaridades que justificam sua interpre- sentada ali uma escolha entre fidelidade à vontade de Deus ou recuo ante
tação mútua como faz a Igreja Adventista do Sétimo Dia. a terrível pressão dos poderes malignos. As visões simbólicas não propõem
Além das muitas alusões a Daniel a serem encontradas em Apocalipse, está simplesmente denunciar os inimigos de Deus, mas chamar os crentes à
o fato de que ambos os livros proféticos partilham as características comuns completa fidelidade Àquele que reina e que vem para fazer justiça.
da literatura apocalíptica.2 A profecia apocalíptica apresenta uma abrangência O conteúdo ético da profecia apocalíptica lhe confere um caráter eterno.
cósmica do grande conflito entre o bem e o mal, assegurando ao crente quanto Lembra que o conteúdo profético diz respeito ao grande conflito entre Satanás
ao controle de Deus na História e a certeza da vindicação do seu povo em um e Deus em que a vitória divina está garantida. Assim, a atenção se volta para a
glorioso ponto culminante escatológico. Assim, o desdobramento do seu tema vitória final de Deus e o seu significado para o crente.
comum serve para esclarecer as respectivas profecias de cada um deles. O fiel leitor de Daniel e Apocalipse não se perde em especulação acerca do fu-
turo, antes acha nestes dois livros uma clara compreensão do tempo em que vive e
um motivo para a ação. Como o apóstolo Paulo, que anunciou a futura vinda do
Senhor nas nuvens do céu e depois avançou para a ética do casamento, atitudes
políticas, relações sociais, e assim por diante, certamente os escritores da apocalíp-
tica também fazem soar uma dimensão ética convidando ao exercício da fé e obe-
diência. Nada pode prover um melhor fundamento para a ética do que a expectativa
1
  Dn 7:3/Ap 11:7; Dn 7:4-6/Ap 13:2; Dn 7:7/Ap 12:3; Dn 7:9/Ap 1:14; Dn 7:10/Ap 20:12; Dn
7:10/Ap 5:11; Dn 7:13/Ap 1:7; Dn 7:13/Ap 1:13; Dn 7:18/Ap 22:5; Dn 7:20/Ap 13:5; Dn 7:21/Ap de um Salvador que virá e a certeza que Daniel e Apocalipse proporcionam pelo
13:7; Dn 7:25/Ap 12:14. metódico e sucessivo cumprimento de suas profecias.
2
  Para uma revisão abrangente destes, veja neste volume, Kenneth Strand, “Princípios Funda-
mentais de Interpretação”, cap. 1.
Estudos selecionados em interpretação profética Relações entre Daniel e Apocalipse

Característica cronológica. A cronologia é um elemento importante nos livros de Sendo que Daniel e Apocalipse cobrem os mesmos períodos da história, eles cer-
Daniel e Apocalipse. Esta é a segunda característica semelhante que consideraremos. tamente merecem ser estudados em conjunto. Em pontos seus dados cronológicos so-
Embora J. Moltmann não dê à escatologia o mesmo significado que os ad- brepõem-se uns aos outros, expressos às vezes nos mesmos termos (Ap 12:14; Dn 7:25).
ventistas, ele diz com razão: “O cristianismo é completamente escatológico, é Finalmente, notemos um último elemento comum.
esperança, visão e orientação com antecedência, portanto também uma partida A natureza cristocêntrica da apocalíptica. Não podemos deixar de ligar
e uma mudança a partir do presente. [...] A perspectiva escatológica não é um Daniel e Apocalipse quando descobrimos em cada um a figura central do Filho
aspecto do cristianismo, é em todos os aspectos o centro da fé cristã. Há segu- do homem que vem nas nuvens do céu. “A visão cristã da história que nos vem
ramente apenas um problema real na teologia cristã; é apresentado a ela por sua de Patmos é primeiramente esta: uma visão de Cristo e de sua indivisível, mas
finalidade, e através disto, é colocado para a humanidade e para o pensamento certa e irresistível parte na história” (FERET, 1943, p. 98). A primeira palavra
humano: é o problema do futuro” (MOLTMANN, 1970, p. 2). profética de Apocalipse diz respeito à vinda do Filho do homem nas nuvens
U. Vanni, também, reconhece que “o Apocalipse seria, além de sua roupagem (1:7). Todo o livro está centralizado nesta vinda. É dada como um ponto de
literária, um livro de profecia” (VANNI, 1980, p. 27). E P. Prigent, que não sim- referência para quase todas as igrejas (2:5, 16, 25; 3:3, 11, 20). É dada como um
patiza com uma interpretação do Apocalipse no estilo adventista do sétimo dia, ponto terminal: “Certamente, venho sem demora” (22:20).
tem de admitir que “não é uma questão de reduzir a mensagem do Apocalipse
à afirmação de um eterno presente”. “O livro”, diz ele, “está cheio de declarações Considerações finais
relativas ao tempo e até mesmo à cronologia. Devemos fazer justiça a elas.”
Essas ideias são arranjadas em Daniel e Apocalipse em uma maneira de Muitas relações entre Daniel e Apocalipse são evidentes. Por exemplo, a
composição recorrente. J. Lambrecht, que analisou a estrutura do Apocalipse, adoração da imagem de ouro em Daniel 3 e da imagem da besta em Apoc-
declara que repetição e progressão constituem as características essenciais da alipse 13; a visão de Cristo em Daniel 10 e Apocalipse 1; a queda de Ba-
158 composição do livro (LAMBRECHT, 1980, p. 103). bilônia em Daniel 5 e Apocalipse 14 e 18; o Deus que vem para livrar os Seus 159
Ora, se estas características relacionam Daniel e Apocalipse um ao em Daniel 3 e 6 e Apocalipse 14; as bestas de Daniel 7 e Apocalipse 13 e 17;
outro, relaciona-os também no método do discurso ritual. De acordo com os tempos de Daniel 7 e Apocalipse 11, 12, etc. Ambos os livros proféticos
Levi-Strauss (apud PICARD, 1976), esse discurso é o oposto do mito e ten- coincidem em seus dados cronológicos e preocupações éticas.
ta “refazer uma continuidade a partir de uma descontinuidade”. Aplicada à O próprio Jesus chamou a atenção de seus contemporâneos para a pedra
história, poderia mostrar que forma uma entidade e tende para um objetivo. de Daniel 2 e para o Filho do homem de Daniel 7. Os evangelistas aponta-
Cada seção é uma retomada sequencial da mesma história global a fim de vam para o Ungido de Daniel 9. O lugar central de Cristo na apocalíptica
adicionar detalhes e progredir em direção à explicação. bíblica, a ênfase colocada em Sua vinda; todos estes justificam para cada
Temos citado várias referências, mas elas bem mostram que os pesquisa- cristão o estudo mútuo de Daniel e de Apocalipse.
dores de todos os matizes de opinião às vezes admitem, a despeito de si mes-
mos, que a profecia apocalíptica exige ser orientada para o futuro de uma forma Referências
bastante diferente dos profetas clássicos. “Ao clamor dos profetas: ‘Até quando,
ó Senhor, até quando?’ os escritores apocalípticos dão o ano, o dia, e a hora” BARR, J. Biblical Words for Time. Londres: [s. n.], 1962. v. 33.
(RUSSEL apud FRUCHON, 1977, p. 435), por assim dizer. “Em outras palavras,
a profecia é compreendida não mais como uma promessa que desvenda o futuro, BOGAERT, P.-M. Les Apocalypses contemporaines de Baruch, d’Esdras et de Jean. In:
mas como uma predição de eventos que têm de ser cumpridos. Ao mesmo tem- LAMBRECHT, J.; BEASLEY-MURRAY, G. R. (Eds.). L’Apocalypse johannique et l’Apocalyptique
po, a interpretação apocalíptica se entende e se cumpre como acerto de contas e dans le Nouveau Testament. Gembloux: J. Duculot, 1980.
previsão” (FRUCHON, 1977; ver BARR, 1962, v. 33, p. 29).
COMBLIN, J. Le Christ dans l’Apocalypse. Tournai: [s. n.], 1965.
7
Estudos selecionados em interpretação profética

DODD, C. H. Conformément aux Ecritures. Paris: [s. n.], 1968.

FERET, H. M. L’Apocalypse de saint Jean: vision chrétienne d’histoire. Paris: Corrêa, 1943. O uso de Daniel e
FORD, D. Daniel. Nashville: [s. n.], 1978.
Apocalipse por
FRUCHON, P. Sur l’interprétation des apocalypses. In: MONLOUBOU, L. (Ed.). Apocalypses et
Ellen G. White
théologie de l’espérance. Paris: Éditions du Cerf, 1977. George E. Rice

LAMBRECHT, J. A Structuration of Revelation 4, 1-22, 5. In: LAMBRECHT, J.; BEASLEY- Esboço do capítulo
MURRAY, G. R. (Eds.). L’Apocalypse johannique et l’Apocalyptique dans le Nouveau Testament.
Gembloux: J. Duculot, 1980. 1. Introdução
2. Princípios pioneiros de interpretação profética
MOLTMANN, J. Théologie de l’espérance. Paris: [S.n.], 1970. 3. A perspectiva histórica
4. Declarações acerca de Jerusalém
PICARD, J. C. Trois instances narratique, symbolique et idéologique: propositions d’analyse
5. Usos não exxpositivos da linguagem profética
applicables à un texte comme l’apocalypse. Foi et vie, v. 75, n. 4, p. 12-25, 1976.
6. Um expositor
ROWLEY, H. H. The Relevance of Apocalyptic: a study of Jewish and Christian apocalypses 7. Considerações finais
from Daniel to the Revelation. Londres: Association Press, 1944.

160 VANNI,U. L’Apocalypse johannique: Etat de la question. In: LAMBRECHT, J.; BEASLEY-
MURRAY, G. R. (Eds.). L’Apocalypse johannique et l’Apocalyptique dans le Nouveau Testament.
Sinopse editorial. Alguns ad-
Gembloux: J. Duculot, 1980.
ventistas que propõem um duplo
WHITE, E. G. Comments. In: NICHOL, F. D. (Ed.). The Seventh-Day Adventist Bible
cumprimento para determinadas
Commentary. Washington: Review And Herald Publishing Association, 1957. v. 7. profecias de Daniel e Apocalipse
afirmam que encontram endosso
_____________. Educação. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2007. para essa abordagem nos escritos
de Ellen G. White. Alguns aban-
_____________. Testemunhos para ministros e obreiros evangélicos. Tatuí: Casa Publicadora donaram completamente o método
Brasileira, 2002. historicista a favor de uma forma
futurista de interpretação. Mas não
há nenhuma evidência de que Ellen
G. White achava que a igreja deve-
ria seguir qualquer outro método
de interpretação dessas profecias a
não ser o método historicista.
Em seus próprios escritos, as
profecias de Daniel e Apocalipse
se desenrolam em tempo histórico
Estudos selecionados em interpretação profética O uso de Daniel e

desde os dias de Daniel e João até o estabelecimento do reino eterno de Deus. A finalidade deste estudo é examinar a compreensão de Ellen G. White acer-
Por exemplo, ela reconhece o cumprimento sequencial das profecias de Apoc- ca de como as profecias de Daniel e Apocalipse devem ser estudadas, e como ela
alipse através da Era Cristã em uma importante declaração: mesma usava passagens desses livros em seus próprios escritos.

No Apocalipse são pintadas as coisas profundas de Deus. [...] Suas verdades são di- Princípios dos pioneiros sobre interpretação profética
rigidas aos que vivem nos últimos dias da história da Terra, como o foram aos que
viviam nos dias de João. Algumas das cenas descritas nesta profecia estão no passado Ellen G. White é muito clara em que os pioneiros adventistas que estuda-
e algumas estão agora tendo lugar; algumas apresentam-nos o fim do grande confli- vam as mensagens de Daniel e Apocalipse foram guiados por Deus ao usarem
to entre os poderes das trevas e o Príncipe do Céu e algumas revelam os triunfos e o o método historicista para interpretar a profecia apocalíptica. Concernente à
regozijo dos remidos na Terra renovada (WHITE, 2010, p. 584, ênfase acrescentada). experiência de Guilherme Miller, diz ela:

Neste capítulo o autor demonstra a perspectiva historicista dos pioneiros Elo após elo da cadeia da verdade recompensava seus esforços, enquanto passo a
e de Ellen G. White. Ele examina várias citações extraídas de seus escritos passo divisava as grandes linhas proféticas. Anjos celestiais estavam a guiar-lhe
que supostamente ensinam o princípio de um duplo cumprimento que pode o espírito e a abrir as Escrituras à sua compreensão.
ser aplicado às profecias de Daniel e Apocalipse. O estudo focaliza particu-
larmente o significado de sua frase frequentemente repetida, “a história se Tomando a maneira por que as profecias se tinham cumprido no passado como
repetirá”, e seus comentários concernentes à profecia de Cristo acerca da critério pelo qual julgar do cumprimento das que ainda estavam no futuro, che-
gou à conclusão de que o conceito popular acerca do reino espiritual de Cristo -
destruição de Jerusalém e do fim do mundo.
o milênio temporal antes do fim do mundo - não é apoiado pela Palavra de Deus
(WHITE, 2005, p. 321).
162 Introdução 163
Desde a formação da Igreja Adventista do Sétimo Dia, tem havido uma Achar defeitos no método historicista não é um novo desenvolvimento
tendência da parte de alguns de se afastar da abordagem historicista de inter- entre os adventistas. Reconhecendo que existiam aqueles em seus dias que
pretação profética adotada já pela Reforma do século 16. Enquanto os advent- desejavam reinterpretar esses dois livros, Ellen G. White (2008, v. 2, p. 111)
istas têm se voltado para a história em busca do cumprimento da profecia e a salienta que essas pessoas não compreendiam que Deus estava dirigindo os
fim de compreender a direção da mão divina nos negócios das nações, alguns próprios homens que efetuavam uma obra especial em apresentar a verdade
creem que essa abordagem à profecia é uma hermenêutica defeituosa. no tempo designado. “Mas o Senhor não põe sobre os que não tiveram uma
Apontando para o Grande Desapontamento de 1844 como um excelente ex- experiência em sua obra a responsabilidade de fazer uma nova exposição
emplo, alguns críticos do método historicista insistem em que os adventistas de das profecias que, por meio de seu Espírito Santo, Ele moveu seus escolhi-
hoje têm fechado a porta da verdade progressiva perpetuando a errônea hermenêu- dos servos a explicar” (WHITE, 2008, v. 2, p. 112).
tica dos pioneiros adventistas. A verdade não pode ser vista pelo uso desse método, Concernente à interpretação historicista pioneira das profecias de Daniel
dizem eles, porque Satanás tem falsificado e manipulado a história secular para o e Apocalipse, diz Ellen White: “Repito: Ele [Deus] não está dirigindo ninguém
expresso propósito de desencaminhar aqueles que interpretam a profecia pelo mé- por seu Espírito Santo a arquitetar uma teoria que vai perturbar a fé nas solenes
todo historicista. Em vez disto, os estudantes de Daniel e Apocalipse devem com- mensagens que deu a seu povo para apresentar ao mundo” (WHITE, 2008, v.
preender que as profecias de ambos os livros têm seu cumprimento em uma sim- 2, p. 112). Em 1907, ela escreveu a A. G. Daniells: “Temos pesquisado as Es-
ples geração — a última geração do fim dos tempos. Assim, há alguns que olham crituras; temos construído solidamente; e não temos tido de arrancar nossos
para o futuro em busca do cumprimento da maior parte de Daniel e Apocalipse. fundamentos e colocar novas vigas” (WHITE, 1981, v. 1, p. 54).
Estudos selecionados em interpretação profética O uso de Daniel e

Em benefício das gerações posteriores, para que elas não esqueçam, deve ser O livro de Apocalipse abre ao mundo o que tem sido, o que é, e o que há de vir; é
repetida a experiência daqueles que esquadrilharam as profecias e que tiveram para nossa instrução sobre quem são chegados os fins dos séculos. [...] Nesse livro
uma parte na proclamação da primeira e da segunda mensagens angélicas. são descritas cenas que estão agora no passado, e algumas de interesse eterno que
estão ocorrendo ao nosso redor; outras de suas profecias não terão seu cumprimen-
O Senhor declarou que a história do passado repetir-se-á ao entrarmos na to completo até o final do tempo, quando ocorrer o último grande conflito entre os
obra finalizadora. Toda verdade que Ele deu para estes últimos dias deve ser poderes das trevas e o Príncipe do Céu (WHITE, 1957, v. 7, p. 954; 2010, p. 584-585).
proclamada ao mundo. Toda coluna por Ele estabelecida deve ser fortalecida.
Não podemos desviar-nos agora do fundamento estabelecido por Deus. Não
podemos agora entrar em nenhuma nova organização; pois isto significaria Nem tudo é futuro
apostasia da verdade (WHITE, 2008, v. 2, p. 390). É dentro do contexto desse conceito de cadeia profética que as declarações
de Ellen G. White acerca do capítulo 11 de Daniel devem ser compreendidas. “A
profecia do décimo primeiro capítulo de Daniel quase já alcançou seu completo
A perspectiva historicista cumprimento” (WHITE, 1948, v. 9, p. 14; 1981, v. 13, p. 394). A profecia é de
fato uma cadeia, apresentando elo por elo os eventos que ao longo da história
Embora Ellen G. White não use o termo “historicista”, é claro que ela com- afetam a experiência do povo de Deus até o fim dos tempos. A ênfase de Ellen
preendia que a única maneira adequada de interpretar Daniel e Apocalipse era G. White é que temos agora atingido os elos finais da cadeia.
pesquisar o desdobramento de suas profecias dentro dos eventos históricos que Que ela compreende a profecia como tendo cumprimento dentro da su-
haviam ocorrido ao longo dos séculos. Em vez de uma ferramenta nas mãos cessiva história das nações é visto pela próxima sentença da Carta 103, 1904:
de Satanás para desviar e confundir o povo de Deus, a história humana, tanto “Muito da história que tem ocorrido no cumprimento desta profecia se repe-
secular quanto religiosa, é a base para interpretar a profecia. “Na história das tirá.” A história está relacionada aos acontecimentos da vida da humanidade e
164 165
nações o estudante da Palavra de Deus pode contemplar o cumprimento literal da ascensão e queda das nações. Sendo que a profecia prediz o surgimento e a
da profecia divina” (WHITE, 2007, p. 501). queda das nações e os eventos que ocorrerão, é lógico que devemos olhar para
Concernente ao rolo de Apocalipse 5, diz Ellen White: “Ali em sua mão ab- a história a fim de compreendermos a profecia.
erta está o livro, o rolo da história das providências divinas, a história profética das Cada elo na cadeia profética deve nos preparar para compreender a próxi-
nações e da igreja [...] e a história de todos os poderes que governam as nações” ma série de acontecimentos que em si mesmos devem se tornar história. “Cada
(WHITE, 1981, v. 9, p. 7; v. 12, p. 296). Elo após elo a história da raça humana con- período do cumprimento da história profética é uma preparação para a luz pro-
forme delineada por Deus em sua Palavra, formam uma cadeia profética. Dentro gressiva que sucederá cada período. Ao chegar a profecia ao fim, há de ser um
dessa cadeia podemos reconhecer “onde nos achamos hoje, no prosseguimento dos todo perfeito” (WHITE, 1981, v. 13, p. 15).
séculos” (WHITE, 1997a, p. 178). Elo após elo, Deus revela a história “desde a eter- Ter em mente que a história é o desdobramento de uma cadeia profética
nidade no passado até à eternidade no futuro” (WHITE, 1997a, p. 178; 2007, p. 536). nos guardará do erro de colocar o cumprimento de toda a profecia apocalíp-
Ela fala de modo semelhante das profecias de Daniel e Apocalipse ao exortar os tica dentro de uma única geração — a última geração do final dos tempos.
ministros e o povo igualmente a identificar as linhas da profecia para que pudessem Declarações como a seguinte serão compreendidas dentro do contexto desta
ter “inteligente compreensão dos perigos e conflitos diante deles” (WHITE, 2010, cadeia: “A luz que Daniel recebeu de Deus foi dada especialmente para estes
583; ver 1889; 1870; 2008, v. 1, p. 56). últimos dias. As visões que ele viu às margens do Ulai e do Hidéquel, os
Concernente à natureza da profecia apocalíptica em geral, diz ela: “As pro- grandes rios de Sinear, estão agora em processo de cumprimento, e logo
fecias apresentam uma sucessão de acontecimentos que nos levam ao início do ocorrerão todos os acontecimentos preditos” (WHITE, 2002, p. 112-113).
juízo. Isso se observa especialmente no livro de Daniel” (WHITE, 2005, p. 356). Essa declaração dificilmente pode significar que nenhuma das profecias de
E no que concerne às profecias de João, ela escreve: Daniel será cumprida antes dos eventos culminantes da história.
Estudos selecionados em interpretação profética O uso de Daniel e

O próprio Daniel nos diz que certos símbolos do livro se referem a Babilônia, específicas destes dois livros serão repetidas, mas que eventos semelhantes
Pérsia e Grécia. É nessas profecias, retomadas por João no Apocalipse, que al- àqueles que as cumpriram no passado serão vistos novamente.
cançam seu cumprimento a pregação da primeira, segunda e terceira mensa- Esses eventos serão vistos dentro de um contexto diferente, dentro de um perío-
gens angélicas, por meio das quais Daniel “está em sua sorte”: “Daniel estará em do de tempo diferente, e com atores diferentes. Assim eles não são os mesmos even-
sua sorte no fim dos dias (Dn 12:13). João vê o pequeno livro não selado. Então tos que cumpriram as profecias, mas eventos semelhantes. Os problemas, porém,
as profecias de Daniel têm o seu devido lugar na primeira, segunda e terceira serão os mesmos que aqueles que conduziram aos acontecimentos históricos que
mensagens angélicas a serem dadas ao mundo” (WHITE, 1957, v. 7, p. 971). originalmente cumpriram certas profecias no conflito entre o bem e o mal.
Ellen G. White adverte contra a má aplicação da profecia. Ela diz que tais
experiências “começam por se desviar da luz que Deus já deu” (WHITE, 2008, v. O Senhor me apresentou assuntos que são de premente importância para
2, p. 111-112). Parte do perigo contra o qual ela adverte é o desejo por parte de o tempo presente, e que se estendem ao futuro. Numa exortação foram-me
alguns de achar um futuro cumprimento para profecias que já tiveram cumpri- proferidas estas palavras: “Escreve num livro as coisas que tens visto e ouvi-
mento. “Alguns há que estão pesquisando as Escrituras em busca de provas de do, e deixa que vá a todas as pessoas; pois está próximo o tempo em que se
que estas mensagens [dos três anjos] estão ainda no futuro. Eles concluem pela repetirá a história do passado” (WHITE, 2008, v. 3, p. 113).
veracidade cumulativa das mensagens, mas deixam de assinalar-lhes o devido
lugar na história profética” (WHITE, 1997b, p. 613). Circunstâncias semelhantes àquelas que cumpriram a profecia no passado po-
A serva do Senhor adverte: dem existir no presente. As circunstâncias presentes não são, porém, um cumpri-
mento da profecia, porque a profecia foi cumprida historicamente pela série origi-
Os grandes sinais demarcadores da verdade, mostrando-nos a direção na história nal de circunstâncias. Mas a geração presente pode ser informada pelo estudo da
profética, devem ser cuidadosamente observados, para que não sejam derribados, e profecia e pelo registro histórico dos eventos que a cumpriram, e assim estar pre-
166 substituídos por teorias que trariam confusão em vez de genuíno esclarecimento. [...] parada para desempenhar um papel inteligente nas similares e atuais circunstâncias. 167
Assim é que a profecia, previamente cumprida, pode neste sentido ser “aplicada” a
Alguns tomarão a verdade aplicável a seu tempo, e pô-la-ão no futuro. Acontecimen- uma situação presente. Isaías 58:12-14 pode ser citado como um exemplo.
tos, na sequência da profecia, que tiveram seu cumprimento no distante passado, são
considerados futuros, e assim, por essas teorias, a fé de alguns é solapada. Desta maneira indica o profeta a ordenança que tem estado esquecida: “Le-
vantarás os fundamentos de geração em geração; e chamar-te-ão reparador
Segundo a luz que o Senhor quis conceder-me, estais em risco de fazer a mesma das roturas, e restaurador de veredas para morar.” [...] Esta profecia também
obra, apresentando perante outros verdades que tiveram seu lugar e fizeram sua obra se aplica a nosso tempo. A rotura foi feita na lei de Deus, quando o sábado
específica para o tempo, na história da fé do povo de Deus. Reconheceis como ver- foi mudado pelo poder romano. Chegou, porém, o tempo para que esta ins-
dadeiros esses fatos na história bíblica, mas os aplicais ao futuro. Eles têm sua força tituição divina seja restabelecida. A rotura deve ser reparada, e levantado o
ainda em seu devido lugar, na cadeia dos acontecimentos que nos tornaram, como fundamento de geração em geração (WHITE, 2005, p. 452-453).
um povo, o que somos hoje, e como tal, eles devem ser apresentados àqueles que se
encontram nas trevas do erro (WHITE, 2008, v. 2, p. 101-103). Aqui vemos que o problema é o mesmo — o conflito entre o bem e o mal.
As circunstâncias são semelhantes. O povo que professava grande justiça nos
dias de Isaías estava “calcando a pés os preceitos divinos”. Mas temos contextos
A história — não a profecia — se repetirá diferentes — a nação judaica e a igreja cristã; um período de tempo diferente —
Ellen G. White repetidamente afirma que ao mover-se o conflito ente Cristo o sétimo século a.C. e o século 20 d.C.; atores diferentes — o povo judeu/Isaías
e Satanás em direção ao seu clímax, cenas de páginas anteriores da história se e a igreja cristã/o povo remanescente de Deus. Um estudo da profecia de Isaías
repetirão. Assim é que ela diz: “Estudai o Apocalipse em ligação com Daniel; e o seu cumprimento podem ser aplicados à experiência do povo remanescente
pois a história se repetirá” (WHITE, 2002, p. 116). Ela não diz que profecias
Estudos selecionados em interpretação profética O uso de Daniel e

de Deus para ajudá-los a ver sua função como reparadores de uma rotura se- As profecias que predisseram o sofrimento do Messias tiveram seu cumprimen-
melhante feita na lei de Deus na Era Cristã. to. Elas não serão repetidas, mas as cenas de abuso que Cristo sofreu serão repetidas
Retornando à declaração de Ellen G. White acerca de Daniel 11, vemos nas experiências de Seus seguidores, e assim a história será repetida.
como este princípio pode ser aplicado. “A profecia do undécimo [capítulo] de Noé, Sodoma e Gomorra. “A história será repetida. Cristo declarou que antes
Daniel tem quase atingido seu completo cumprimento. Muito da história que de Sua segunda vinda o mundo estaria como foi nos dias de Noé, quando os ho-
tem ocorrido no cumprimento desta profecia será repetido” (WHITE, 1981, v. mens atingiram tal condição em seguir sua própria imaginação pecaminosa que
13, p. 394). Eventos da história já têm cumprido certas predições deste capítulo. Deus os destruiu por um dilúvio” (WHITE, 1981, v. 12, 413, grifo do autor).
Todavia, circunstâncias semelhantes serão outra vez desenvolvidas no término
do grande conflito, e nessa luta cósmica a história será vista como se repetindo. “E Judas diz: “Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se
Ellen G. White não sugere que aquelas profecias de Daniel 11 que já se cum- corrompido como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo,
priram receberão um segundo cumprimento. sofrendo a pena do fogo eterno.” “Aqui nos é apresentado um estado de coisas
Note os vários contextos, proféticos e não proféticos, dentro dos quais Ellen que tem sido, e a história se repetirá” (WHITE, 1981, v. 19, p. 105, grifo do autor).
G. White diz que a história será repetida. Também note que ela não está suger-
indo que uma determinada profecia em si deve ser repetida. Quarto cavalo (Ap 6:7-8). Em Apocalipse 6, o quarto cavalo simboliza a
Grandes impérios da profecia de Daniel. “A profecia delineou o levanta- intolerância religiosa e perseguição que existiu na Europa sob o poder papal.
mento e queda dos grandes impérios mundiais - Babilônia, Média-Pérsia, Gré- “O mesmo espírito é visto hoje que é representado em Apocalipse 6:6-8. A
cia e Roma. Com cada um destes, assim como com nações de menos poder, história se repetirá. O que tem sido será outra vez” (WHITE, 1981, v. 9, p.
tem-se repetido a história. Cada qual teve seu período de prova, e cada qual 7, grifo do autor). Mais uma vez, é evidente que a declaração trata de uma
fracassou; esmaeceu sua glória, passou-se-lhe o poder e o lugar foi ocupado por repetição da história, não um segundo cumprimento da profecia. Em cada
168 outra nação” (WHITE, 1997a, p. 177, grifo do autor). caso, o contexto, o tempo e os atores são diferentes. 169
As profecias concernentes a essas nações da Antiguidade tiveram seu Nabucodonosor. “É uma coisa terrível para qualquer alma colocar-se ao
cumprimento. Circunstâncias semelhantes têm sido vistas na história de lado de Satanás na questão, pois tão logo ela faz isto uma mudança passa por
outras nações, grandes e pequenas. Cada uma tem sido provada, cada uma ela, como é dito do rei de Babilônia, que seu semblante mudou para com os três
tem falhado, cada uma tem perdido sua glória e poder, e cada uma tem sido fiéis hebreus. A história passada se repetirá. Os homens rejeitarão a operação
substituída por outra. Assim a história de Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia do Espírito Santo, e abrirão a porta da mente para os atributos satânicos que os
e Roma tem se repetido. Mas a profecia que se relaciona com estes reinos separam de Deus” (WHITE, 1981, v. 19, p. 122, grifo do autor).
específicos tem se cumprido apenas uma vez. Assim, Ellen G. White não fala em termos de uma determinada profe-
Perseguição do povo de Deus. “Estamos no limiar de grandes e solenes cia receber um segundo cumprimento. Isso necessitaria o mesmo contexto
acontecimentos. Muitas das profecias estão prestes a se cumprir em rápida suc- histórico, o mesmo período de tempo e os mesmos atores. Todavia, ela fala
essão. Cada elemento de poder está prestes a ser posto a operar. A história pas- em termos de circunstâncias similares, mas um contexto, período de tempo
sada será repetida; velhos conflitos despertarão para nova vida, e perigos assedi- e atores diferentes. Dentro dessas circunstâncias semelhantes, os aconteci-
arão o povo de Deus de todos os lados” (WHITE, 1897, grifo do autor). mentos históricos originais que uma vez cumpriam a profecia serão repeti-
Mais especificamente, “as cenas de perseguição promulgadas durante a vida dos, tais como a ascensão e queda das nações, perseguição etc.
de Cristo serão promulgadas por religiosos falsos até o fim do tempo. Os ho- Algumas declarações mal compreendidas. Antes de deixarmos este assunto,
mens pensam que têm o direito de tomar sob sua responsabilidade as consciên- há duas declarações que devem ser notadas. Ambas podem ser facilmente mal-
cias dos homens e elaborar suas teorias de apostasia e transgressão. A história se compreendidas chegando-se à conclusão de que Ellen G. White defendia a ideia
repetirá” (WHITE, 1981, v. 13, p. 394; 2010, p. 84-85). de que o cumprimento de uma profecia apocalíptica pode ser repetido. Diz ela:
“Algumas profecias Deus tem repetido [...].” O contexto não está sugerindo que
Estudos selecionados em interpretação profética O uso de Daniel e

algumas profecias terão um múltiplo cumprimento, mas que algumas profecias Em Mateus 24, em resposta à pergunta dos discípulos relativa aos sinais de Sua vinda
dadas em Daniel são de tal importância que Deus achou por bem que João as e do fim do mundo, Cristo indicara alguns dos acontecimentos mais importantes da
reafirmasse em seu livro. Tanto a profecia de Daniel quanto a de Apocalipse terá história do mundo e da igreja, desde o seu primeiro advento até ao segundo, a saber:
um só cumprimento (WHITE, 1981, v. 9, p. 8). a destruição de Jerusalém, a grande tribulação da igreja sob a perseguição pagã e
papal, o escurecimento do Sol e da Lua, e a queda de estrelas. Depois disto, falou a
Há a seguinte conhecida declaração:
respeito de Sua vinda em seu reino, e expôs a parábola que descreve as duas classes
de servos que lhe aguardam o aparecimento (WHITE, 2005, p. 393; 2003, p. 320).
A grande obra do evangelho não deverá encerrar-se com menor manifestação do
poder de Deus do que a que assinalou o seu início. As profecias que se cumpriram
no derramamento da chuva temporã no início do evangelho, devem novamente 3. A destruição de Jerusalém é um tipo profético da destruição do mundo. “A
cumprir-se na chuva serôdia, no final do mesmo (WHITE, 2005, p. 611-612). ruína de Jerusalém era um símbolo da ruína final que assolará o mundo. As profe-
cias que tiveram seu parcial cumprimento na queda de Jerusalém têm mais direta
Pareceria à primeira vista que aqui está um caso em que Ellen G. White aplicação aos derradeiros dias” (WHITE, 2009, p. 120-121, grifo do autor).
fala de uma simples profecia tendo um duplo cumprimento. Contudo, deve- Assim, a destruição de Jerusalém torna-se um tipo de futuros acontecimen-
mos lembrar que as profecias que ela cita nesta passagem que prediz a chuva tos (WHITE, 2005, p. 25-26, 351; 2002, p. 232).
temporã também predizem um segundo acontecimento, a chuva serôdia. 4. À semelhança de Daniel, algumas das profecias da cadeia profética de
No contexto, Ellen G. White cita Oseias 6:3, que diz: “E Ele descerá sobre Mateus são retomadas por João e repetidas em Apocalipse.
nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra”, e Joel 2:23, que
afirma: “Ele fará descer, como outrora, a chuva temporã e a serôdia.” Assim Disse Jesus: “As estrelas cairão do céu” (Mt 24:29). E João, no Apocalipse, decla-
rou, ao contemplar em visão as cenas que deveriam anunciar o dia de Deus: “E
as simples declarações de Oseias e Joel aguardam dois eventos separado: as
as estrelas do céu caíram sobre a Terra, como quando a figueira lança de si os
170 dotações da chuva temporã e serôdia do Espírito sobre a igreja. seus figos verdes, abalada por um vento forte” (Ap 6:13). Essa profecia teve cum- 171
primento surpreendente e impressionante na grande chuva meteórica de 13 de
Declarações sobre Jerusalém novembro de 1833 (WHITE, 2005, p. 333).
Declarações feitas por Ellen G. White concernentes às profecias de Ma-
As categorias precedentes resumem as declarações de Ellen G. White sobre
teus 24 são muito frequentemente tomadas como prova para duplos/múlti-
o sermão apocalíptico de Jesus. O tempo e o espaço não permitirão um exame
plos cumprimentos ou para futuros cumprimentos de todas as profecias.
de cada declaração, mas referências representativas são dadas acima.
Contudo, devemos ter em mente o seguinte quando estamos lidando com a
Contudo, há uma declaração que precisa ser examinada, porque ela tem
profecia apocalíptica de nosso Senhor:
sido usada como prova para cumprimento múltiplo.
1. O discurso trata de dois grandes acontecimentos, não apenas de um.
Na profecia da destruição de Jerusalém, Cristo disse: “Por se multiplicar a iniqüidade,
Jesus não respondeu aos discípulos falando em separado da destruição de Je-
o amor de muitos esfriará. Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo. E este
rusalém e do grande dia de sua vinda. Misturou a descrição dos dois aconte-
evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as gen-
cimentos. [...] Por misericórdia com eles, Jesus misturou a descrição das duas
tes, e então virá o fim” (Mt 24:12-14). Essa profecia terá outra vez seu cumprimento.
grandes crises, deixando aos discípulos o procurar por si mesmos a significação
A abundante iniquidade daquela época encontra seu paralelo nesta geração. Assim
(WHITE, 2000, p. 628-631).
será quanto à predição referente à pregação do evangelho (WHITE, 2000, p. 633).
2. Mateus 24 é uma cadeia profética.
Deve ser notado o seguinte: (1) A declaração de Ellen G. White leva em con-
sideração que esta é uma profecia de duas partes que trata dos acontecimentos
em torno da destruição de Jerusalém e do fim do mundo. (2) A destruição de
Estudos selecionados em interpretação profética O uso de Daniel e

Jerusalém é um tipo de profecia do que aguarda o mundo, como pode ser visto
nas palavras: “Na profecia da destruição de Jerusalém [...]. A abundante iniqui- Enquanto Satanás estava insistindo em suas acusações e procurando destruir
dade daquela época encontra seu paralelo nesta geração.” (3) O tipo profético é esse grupo, santos anjos, invisíveis, estavam passando de um lado para outro,
aplicado à perda do amor e à pregação do evangelho. colocando sobre eles o selo do Deus vivo. Estes são os que estão com o Cordeiro
Duas profecias distintas e separadas estão sendo tratadas. A primeira sobre o monte Sião, tendo o nome do Pai escrito na fronte. Eles cantam o novo
cântico diante do trono, aquele cântico que ninguém pode aprender senão os
não pode ter um cumprimento duplo ou múltiplo, porque o templo teria
cento e quarenta e quatro mil (WHITE, 1948, v. 5, p. 475-476).
de ser reconstruído e a cidade cair uma segunda vez. O cumprimento da
primeira parte desta profecia foi um acontecimento de uma vez por todas.
Ellen G. White não está escrevendo uma exposição sobre os 144.000, nem
Este cumprimento profético, porém, foi em si um exemplo dos mais exten-
está tentando identificá-los. Ela simplesmente usa Apocalipse 14:1 para finali-
sos eventos que cumprirão a segunda parte da profecia.1
dades descritivas e então completa a cena citando Apocalipse diretamente:
“Estes são os que seguem o Cordeiro para onde quer que vá”.
Aplicações não expositivas da linguagem profética
Ellen G. White usou passagens de Daniel e Apocalipse tanto quanto usou Propósitos ilustrativos
outras porções das Escrituras. Seguem vários exemplos. Este exemplo é um tanto semelhante ao exemplo acima. Contudo, onde Ellen
G. White usa passagens para realçar sua descrição no exemplo anterior, usa breves
Propósitos descritivos sentenças de Daniel e Apocalipse para ilustrar o que ela tem dito. Por exemplo, ela
Isso pode ser visto claramente em O Grande Conflito, onde ela de- reforça sua declaração de que alguns sobre a Terra permanecem fiéis a Deus citando
screve o Segundo Advento (WHITE, 2005, p. 632-652). Versículos e partes Apocalipse 14:12: “Nem todos neste mundo tomaram partido com o inimigo contra
de versículos são entrelaçados livremente em seu relato descritivo, pro- Deus. Nem todos se tornaram desleais. Há uns poucos fiéis que são leais a Deus;
172 173
duzindo uma narrativa fluente do acontecimento. porque João escreve: ‘Aqui estão os que guardam os mandamentos de Deus e a fé de
Ao descrever a final e “desesperada luta” entre as forças do bem e do mal, Jesus’ (Ap 14:12)” (WHITE, 1948, v. 9, p. 15).
ela diz: Novamente, ao descrever os chuveiros de graça que virão na chuva serôdia,
ela usa Apocalipse 18:1 para ilustrar o que acabara de apresentar:
O poder do Espírito Santo deve estar sobre nós, e o Capitão das hostes do Senhor es-
tará à frente dos anjos do Céu para dirigir a batalha. Solenes acontecimentos à nossa Devemos esperar pela chuva serôdia. Ela virá sobre todos os que reconhecem e
frente ainda estão para ocorrer. Trombeta após trombeta deve soar, taça após taça se apropriam do orvalho e chuveiros de graça que caem sobre nós. Quando reu-
derramada uma após outra sobre os habitantes da Terra (WHITE, 1957, v. 7, p. 982). nimos os fragmentos de luz, quando nos apropriamos das firmes misericórdias
de Deus, o qual ama que tenhamos confiança nEle, então todas as promessas
serão cumpridas. Toda a deve ser cheia da glória de Deus” (WHITE, 1948, v. 7,
Obviamente, a referência a trombetas não é uma tentativa para interpretar seu
p. 984).
significado, nem ligá-las às sete últimas pragas. Seu intento, em vez disto, é impres-
sionar o leitor com a magnitude e as devastadoras consequências da luta final.
Ao descrever as provações e vitórias do povo de Deus do fim dos tempos, ela Incorporação de linguagem
tece em Apocalipse 14:1: Reiteradamente, Ellen G. White incorpora a linguagem de Daniel e Apocalipse
em sua descrição de uma cena a ela dada pelo Senhor, ou em sua narrativa de um
evento bíblico. Isso é semelhante ao exemplo citado acima em que ela usa as Escrit-
1
  O contexto sugere que Ellen G. White está lidando com uma repetição da história em vez de
uma repetição da profecia específica pertencente a Jerusalém. A iniquidade do fim dos tempos e uras ou a linguagem escriturística para descrever uma cena. Aqui, porém, notamos
a pregação mundial do evangelho são preditas por outras profecias do Novo Testamento (ver 2 que ela frequentemente incorpora a linguagem escriturística em seu próprio uso
Tm 3:1-5; Ap 14:6).
Estudos selecionados em interpretação profética O uso de Daniel e

das palavras. Citamos, como um exemplo, uma visão do juízo investigativo a ela que o caráter da obra de cada um será determinado antes da retorno de Jesus “para
dada em 23 de outubro de 1879 (WHITE, 1948, v. 4, p. 384-387). dar a cada um segundo a sua obra” (WHITE, 1999, p. 310).
Ao longo do seu relato ela incorpora a linguagem de Daniel e Apocalipse. As
frases usadas incluem: “dez milhares vezes dez milhares”, “vários livros estavam di- Conselho pastoral
ante dEle”, “outro livro foi aberto”, “fostes pesados na balança e achados em falta”, ‘Por Frequentemente Ellen G. White mostra uma preocupação pastoral pelo
que não lavastes vossas vestes de caráter e as branqueastes no sangue do Cordeiro?”, povo de Deus. As Escrituras são livremente usadas, inclusive Daniel e Apoc-
“Quem é injusto faça injustiça ainda”. No livro O Grande Conflito, Ellen G. White dá alipse, nessas passagens de admoestações pastorais. Daniel 8:14 forma a base de
uma descrição de Adão e seus descendentes sendo introduzidos na Cidade Santa. um apelo pastoral quanto ao preparo para o solene tempo do juízo.
Novamente podemos ver como ela incorpora a linguagem de Daniel e Apocalipse
em sua própria linguagem (WHITE, 2005, p. 648-649). Qual é nosso estado neste terrível e solene tempo? [...] Não pesquisaremos as Es-
crituras, para sabermos onde nos encontramos na história deste mundo? Não nos
Expansão tornaremos esclarecidos quanto à obra que se está efetuando por nós neste tempo,
Ocasionalmente Ellen White, tendo citado uma passagem, se expande sobre e a atitude que nós como pecadores devemos ter enquanto esta obra de expiação
está em andamento? Se temos qualquer consideração pela salvação de nossa alma,
ela. Por exemplo, ela cita Apocalipse 5:11, “Olhei, e ouvi a voz de muitos anjos ao
precisamos fazer decidida mudança. Precisamos buscar ao Senhor com genuíno ar-
redor do trono.” Ela então explica em detalhes a citação descrevendo como os anjos rependimento; importa que, com profunda contrição de alma, confessemos nossos
se unem a Jesus na obra do ministério em favor daqueles que devem receber o selo pecados, para que sejam apagados (WHITE, 2008, v. 1, p. 125).
de Deus. Conta como os anjos são um poder que restringe as forças do mal, como
eles circundam a Terra, negando a Satanás sua reivindicação sobre o povo de Deus, Exemplos semelhantes a este são abundantes nos escritos de Ellen White.
e como eles são os ministros de Jeová (WHITE, 1957, v. 7, p. 967).
174 Às vezes Ellen G. White inicia um capítulo citando uma passagem das Escrituras; Uso extensivo 175
por exemplo, ela começa o capítulo 38 de O Grande Conflito (“O último convite di- O uso extensivo das Escrituras é visto frequentemente no Novo Testamento e
vino”) citando Apocalipse 18:1, 2, 4. O capítulo então se torna uma expansão desta nos escritos de Ellen White. Isso ocorre quando um escritor inspirado confere um
passagem. Seguindo imediatamente a citação há várias linhas de interpretação. significado a uma passagem que está além do que o escritor original pretendia. Por
exemplo, Ellen G. White escreve: “A mistura do estratagema da igreja e do estratage-
Esta passagem indica um tempo em que o anúncio da queda de Babilônia, con- ma do estado é representada pelo ferro e o barro” (WHITE, 1957, v. 4, p. 1168-1169),
forme foi feito pelo segundo anjo do capítulo 14 do Apocalipse, deve repetir-se
uma declaração baseada na visão da imagem metálica por Nabucodonosor (Dn
com a menção adicional das corrupções que têm estado a se introduzir nas vá-
2:43). Isso vai além da simples interpretação baseada no contexto, palavras, sintaxe
rias organizações que constituem Babilônia, desde que esta mensagem foi pela
primeira vez proclamada, no verão de 1844 (WHITE, 2005, p. 603). etc. Aqui um escritor inspirado dá um novo significado a uma passagem conhecida,
tanto quanto Paulo faz em Gálatas 3:16, com Gênesis 22:18.
Essa breve interpretação é então seguida pela expansão descritiva no restante Outro exemplo pode ser visto no qual Ellen G. White estende Apocalipse
do capítulo. “Descreve-se aqui uma terrível condição do mundo religioso.” 1:7 (uma referência ao Segundo Advento) para o final do milênio. “Então ao
final dos mil anos, Jesus, com os anjos e todos os santos, deixa a Cidade Santa,
Uso didático e enquanto Ele está descendo com eles para a Terra, os ímpios mortos são res-
O ensino espiritual é fortalecido pelo uso de passagens de Daniel e Apocalipse. suscitados, e então aqueles mesmos que ‘o traspassaram’, ao serem ressuscitados,
Por exemplo, depois de citar Daniel 12:1, Ellen G. White trata do selamento e o fim vê-lo-ão à distância em toda a sua glória, com Ele os anjos e os santos, e se
do tempo da graça enquanto introduz o conselho da Testemunha Verdadeira de lamentarão por causa dEle” (WHITE, 2011, p. 53).
Apocalipse 3:18 (WHITE, 1948, v. 5, p. 212-215). No decorrer da interpretação da
parábola, o homem sem as vestes nupciais, ela cita Apocalipse 22:12 para ensinar
Estudos selecionados em interpretação profética O uso de Daniel e

Uma expositora destruição de Jerusalém e o fim do mundo; (2) mas ainda é uma cadeia profé-
tica; e (3) apresenta a destruição de Jerusalém como uma profecia da destruição
Alguns são relutantes em dizer que Ellen G. White interpreta as Escrit- do mundo, contudo ambos os acontecimentos são separados e distintos.
uras. É verdade que ela não trabalhou como um exegeta faria hoje — fazen- 6. Além de suas exposições objetivas das profecias ao longo das lin-
do estudos de palavra e examinando em detalhes a sintaxe de passagens nas has historicistas, Ellen G. White às vezes empregava sua fraseologia e
línguas originais etc. Todavia, não há dúvida de que ela por vezes interpreta imagens de uma maneira pastoral, não técnica.
as Escrituras, inclusive as profecias de Daniel e Apocalipse. Como notamos
anteriormente, as profecias básicas foram estudadas e explicadas pelos pio- Referências
neiros do movimento adventista sob a orientação do Espírito Santo. Essas
interpretações são endossadas por Ellen G. White em sua própria apresen-
tação desses assuntos, por exemplo, em O Grande Conflito. WHITE, E. G. Atos dos apóstolos. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2010.
Contudo, Ellen G. White edifica sobre a obra dos pioneiros expandindo sua
obra anterior com extensos detalhes interpretativos. Essa obra de interpretação
     . Cast not away our confidence. Bible Echo and Signs of the Times, v. 4,
pode ser vista nos detalhes adicionais que tratam de (1) o papel das forças sobre- n. 11, 3 jun. 1889. Disponível em: <http://bit.ly/RWryVf>. Acessado em: 15 jan. 2012.
naturais do mal no conflito final (WHITE, 2005, p. 492-562), (2) especialmente a
descrição da tentativa de Satanás para personificar Jesus (WHITE, 2005, p. 624), (3)
a tríplice união entre protestantismo, catolicismo e espiritualismo (WHITE, 2005,      . Comments. In: NICHOL, F. D. (Ed.). The Seventh-Day Adventist Bible
p. 588), (4) condições sobre as quais a marca da besta será recebida etc. (WHITE, Commentary. Washington: Review And Herald Publishing Association, 1957. v. 7.
2005, p. 624). Aqui estão apenas alguns exemplos dos muitos que mostram Ellen G.
176 White em ação como uma intérprete da profecia. 177
     . Comments. In: NICHOL, F. D. (Ed.). The Seventh-Day Adventist Bible
Commentary. Washington: Review And Herald Publishing Association, 1957. v. 4.
Considerações finais
Como resultado deste estudo, podemos tirar as seguintes conclusões:
1. Ellen G. White endossa a abordagem historicista para a interpretação da      . Educação. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1997a.
profecia. Este método de interpretação profética foi usado pelos pioneiros nos
anos formativos de nossa igreja.
     . Evangelismo. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1997b.
2. Embora Ellen G. White não usasse o termo “historicista”, é claro que ela
compreendia esta abordagem à profecia como sendo o único método correto
para sua interpretação.      . História da redenção. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2003.
3. Ellen G. White opina que existe um perigo muito real em olhar ao futuro
para todo cumprimento profético.
4. Eventos semelhantes àqueles que cumpriram uma determinada profecia      . Manuscript releases. Washington: Ellen G. White Estate, 1981. v. 1.
podem surgir. Assim, a história é repetida — não o cumprimento da profecia.
Se a profecia devesse ser cumprida outra vez isto exigiria o mesmo contexto
     . Manuscript releases. Washington: Ellen G. White Estate, 1981. v. 9.
histórico, o mesmo período de tempo e os mesmos atores.
5. Quando se lida com as declarações de Ellen G. White sobre o discurso
apocalíptico de Jesus registrado nos evangelhos sinópticos, deve ser lembrado      . Manuscript releases. Washington: Ellen G. White Estate, 1981. v. 12.
que este discurso (1) centraliza-se em torno de duas grandes predições — a
Estudos selecionados em interpretação profética O uso de Daniel e

     . Manuscript releases. Washington: Ellen G. White Estate, 1981. v. 13.      . Testimonies. Mountain View: [S.n.], 1948). v. 9.

     . Manuscript releases. Washington: Ellen G. White Estate, 1981. v. 19.      . What the revalations means to us. Review and Herald, v. 74, n. 35, 31
ago. 1897. Disponível em: <http://bit.ly/XaqKJu>. Acessado em: 15 jan. 2012.

     . Mensagens Escolhidas. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2008. v. 2.


     . O maior discurso de Cristo. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2009.

     . Mensagens Escolhidas. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2008. v. 1.

     . Mensagens Escolhidas. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2008. v. 3.

     . O desejado de todas as nações. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2000.

     . O grande conflito. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2005.

178      . Parábolas de Jesus. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1999. 179

     . Practical remarks. Review and Herald, v. 35, n. 15, 29 mar. 1870. Dispo-
nível em: <http://bit.ly/VHrh9A>. Acessado em: 15 jan. 2012.

     . Primeiros escritos. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2011.

     . Profetas e Reis. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2007.

     . Testemunhos para ministros e obreiros evangélicos. Tatuí: Casa Publi-


cadora Brasileira, 2002.

     . Testimonies. Mountain View: [S.n.], 1948). v. 4.

     . Testimonies. Mountain View: [S.n.], 1948). v. 5.


8
Estudos selecionados em interpretação profética

O intérprete e o uso
dos escritos de
Ellen G. White
Jon Paulien

Esboço do capítulo
1. Introdução
2. Princípio básicos
3. Princípios ilustrados
4. Considerações finais

180
Sinopse editorial. À semelhan-
ça do apóstolo João, Ellen G. White
estava impregnada pela linguagem
bíblica. Embora ela e os demais
pioneiros adventistas acreditassem
que o Espírito Santo lhe havia con-
cedido o dom profético, ela sempre
reconheceu a autoridade das Sagra-
das Escrituras (Antigo e Novo Tes-
tamento) como a regra suprema de
fé e prática. Escreveu ela:

Em Sua Palavra, Deus conferiu


aos homens o conhecimento
necessário à salvação. As San-
tas Escrituras devem ser acei-
tas como autorizada e infalível
revelação de Sua vontade. Elas
Estudos selecionados em interpretação profética O intérprete e o uso

são a norma do caráter, o revelador das doutrinas, a pedra de toque da expe- Bíblia como um todo.1 Assim, os acadêmicos adventistas não poderiam ignorar a
riência religiosa (WHITE, 2005, p. vii). perspectiva dela sobre os símbolos e a teologia do livro de Apocalipse.
Devemos lembrar também que os escritos de Ellen White podem ser mal em-
Para Ellen G. White, sua função especial, sob o Espírito, era iluminar e pregados; em resultado, o texto bíblico terá seu sentido obscurecido e será usado
aplicar as verdades e os princípios bíblicos à vida dos crentes e promover a como base para as opiniões preconcebidas do intérprete.2 Observações incidentais
missão da igreja. feitas em contextos específicos podem ser universalizadas ou aplicadas de tal forma
que contradigam as implicações do texto bíblico em si.3 Em realidade, tal uso im-
Recomendo-lhe, caro leitor, a Palavra de Deus como regra de sua fé e prática. Por plica em abuso e diminui a autoridade de Ellen White em vez de realçá-la.4
essa Palavra seremos julgados. Nela Deus prometeu dar visões nos “últimos dias”; Os escritos inspirados são tratados com respeito somente quando permitimos
não para uma nova regra de fé, mas para conforto do Seu povo e para corrigir os que que a intenção do profeta seja apresentada pelo do texto em seu contexto original (ex-
se desviam da verdade bíblica (WHITE, 2011, p. 78, ênfase no original). egese). Devemos evitar introduzir no texto nossos próprios interesses e pressuposições
(eisegese). Mensagens de profetas vivos poderiam ser esclarecidas mediante solicitação.
Tal como um pastor, Ellen White emprega as Escrituras de várias maneiras Mas, sendo que isso não é mais possível, estamos em condições mais seguras quando
diferentes. Às vezes, ela apresenta uma exposição abrangente, como pode ser vis- usamos cuidadosa exegese para compreender a intenção da mensagem escrita. O de-
to em obras como O Maior Discurso de Cristo (sobre o Sermão da Montanha) e sejo de estabelecer um ponto de vista particular não oferece nenhuma licença para
Parábolas de Jesus. Outras vezes, ela adapta a linguagem das Escrituras para apresen- que o intérprete use o texto da maneira que for conveniente.5
tar um quadro teológico mais amplo ou aplicar os ensinamentos bíblicos de forma
homilética. Esse uso da linguagem bíblica expressa uma verdade universal, embora
talvez não se harmonize com o contexto do qual a fraseologia foi retirada.
182 Por causa desse uso variado (embora adequado) das Escrituras, o intérprete 1
  “No Apocalipse, todos os livros da Bíblia se encontram e se cumprem. Ali está o complemento 183
da Bíblia às vezes se defronta com certa ambiguidade na citação de passagens do livro de Daniel” (WHITE, 2010, p. 585).
bíblicas por Ellen White. A mensagem geral e sua intenção serão claras, mas
2
  “Os que não estão andando na luz da mensagem podem reunir declarações dos meus escritos
que por acaso os agrada e que concordam com seu discernimento humano. Separando essas
surge a seguinte questão: se o texto bíblico citado está sendo usado e explicado declarações do seu contexto e colocando-as ao lado do raciocínio humano, fazem parecer que
em seu contexto, ou se a linguagem dele foi apenas emprestada para expressar meus escritos apoiam o que eles condenam” (Ellen G. White, Carta 208, 1906).
algo diferente do ele significa em seu contexto original. 3
  O fato de que Ellen White recomendou que Daniel e Apocalipse fossem publicados juntos
Neste capítulo, o autor sugere regras fundamentais para serem usadas pelo num livreto, sem comentários, indica a importância que ela atribuía ao estudo textual e com-
parações cuidadosas (WHITE, 2002, p. 117).
intérprete da Bíblia quando confrontado com tal ambiguidade, para que não 4
  O estudo “Ellen G. White e a Interpretação de Daniel e Apocalipse”, do Instituto de Pesquisa
compreende de modo incorreto a intenção de uma declaração de Ellen White, o Bíblica (Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia), trata do uso e do mau uso das de-
texto bíblico usado, ou ambos. Usados corretamente, os escritos de Ellen White clarações de Ellen White sobre Daniel e Apocalipse.
continuam iluminando os ensinos e as profecias das Sagradas Escrituras. 5
  “Muitos dentre nosso próprio povo me escrevem pedindo com ansiosa determinação o privilégio
de usarem meus escritos para dar força a certos assuntos que desejam apresentar ao povo de modo a
deixar sobre eles profunda impressão.
Introdução “É verdade que há razão para que alguns desses assuntos devam ser apresentados; mas não me ar-
riscaria a dar minha aprovação ao uso dos testemunhos dessa maneira, ou a sancionar que ponham
Os intérpretes adventistas do Apocalipse possuem uma profunda apreciação matéria, em si mesma boa, pela maneira por que eles propõem.
pelos escritos de Ellen G. White. As observações dela sobre o livro de Apocalipse es- “As pessoas que fazem essas propostas, quanto eu saiba, podem ser capazes de conduzir o empreendi-
timulam uma percepção muito produtiva, particularmente para o “grande quadro”, mento acerca do qual escrevem com prudência; não obstante, não ouso dar a mínima permissão para
ou seja, como as visões simbólicas do Apocalipse contribuem para a perspectiva usarem meus escritos na maneira que elas propõem. Tomando em consideração tal empreendimento,
há muitas coisas a serem levadas em conta; pois servindo-se dos testemunhos para apoiar algum as-
cósmica do “grande conflito”. Ellen White estava ciente de que o Apocalipse reúne
sunto que possa impressionar a mente do autor, os extratos poderão dar uma impressão diferente
linguagem, ideias e tipos de toda a Bíblia, formando uma conclusão apropriada da daquela que dariam, fossem eles lidos em sua relação original” (WHITE, 2008, v. 1, p. 58).
Estudos selecionados em interpretação profética O intérprete e o uso

Intérpretes com fortes ideias preconcebidas às vezes utilizam as citações Uso: exegese, teologia ou homilia? Quando Ellen White claramente dirige a
bíblicas feitas por Ellen White de tal modo que distorce o sentido claro do texto atenção do leitor a uma passagem bíblica, o leitor deve indagar como ela está usan-
em seu contexto bíblico.6 Às vezes, inferências extraídas do texto do Apocalipse do a passagem. Está ela usando-a exegeticamente – fazendo uma declaração acerca
são criativamente combinadas com inferências retiradas dos escritos de Ellen do significado da passagem no contexto do autor? Está ela usando-a teologicamente
White, e as conclusões não podem ser demonstradas por meio de uma leitura – discutindo a implicação que a passagem tem para uma teologia mais ampla ba-
natural do Apocalipse ou dos escritos de Ellen White.7 seada nas Escrituras como um todo? Ela a está usando homileticamente – usando a
Embora geralmente bem-intencionados, esses desvios afastam os lei- linguagem bíblica para mover as pessoas à ação, como um pastor?8
tores do claro sentido do texto e incentivam métodos inapropriados de in- Interpretar um uso homilético como se fosse uma declaração exegética dis-
terpretação que podem prejudicar a igreja. Com o objetivo de salvaguardar torcerá não somente a intenção de Ellen White em tal uso, mas também o sig-
a intenção de Ellen White, sugerimos agora algumas diretrizes para o uso nificado da declaração bíblica. Embora precise ser feito mais estudo sobre esse
dos escritos de Ellen White no estudo do Apocalipse. assunto, penso que Ellen White raramente usa as Escrituras exegeticamente
(isto é, explanando o intento do escritor bíblico).9 Como era o caso com os pro-
Princípios básicos fetas clássicos do Antigo Testamento, a principal preocupação dela é falar para a
situação contemporânea. Isso geralmente a levará a usar as Escrituras de forma
Citação ou eco? É importante determinar se Ellen White está pretendendo teológica e homilética, em vez de exegética.
citar um texto bíblico específico ou está meramente “ecoando-o”. O mesmo pro- Afirmar isso não é limitar a autoridade de Ellen White. A intenção dela em
cedimento que aplicamos às alusões do Apocalipse ao Antigo Testamento seria uma determinada declaração deve ser levada a sério ao máximo. Ao mesmo
proveitoso também aqui. Quando ela simplesmente ecoa um texto, não está tempo, devemos ser cuidadosos para não limitar a autoridade do escritor bíbli-
expressando um julgamento sobre a intenção do escritor bíblico. Talvez ela co. Não devemos negar ao escritor bíblico o significado primário sobre a base
184 esteja extraindo uma lição espiritual válida quando ecoa as Escrituras, mas essa de uma utilização homilética de sua passagem. Precisamos respeitar a própria 185
não é necessariamente a mesma lição com que o escritor bíblico tratou de im- intenção de Ellen White em seu manuseio do material bíblico. Sendo que ela
pressionar seus leitores no contexto original. frequentemente usa as Escrituras de maneiras não exegéticas, as declarações
que citam o Apocalipse devem ser examinadas com grande cuidado antes de
serem aplicadas dogmaticamente na exegese do livro.10
6
  Por exemplo, quando Ellen White aplicou ao uso de chá, café, álcool e fumo a frase “não
Intenção coerente? A própria Ellen White faz uma distinção entre seus escritos
toques, não proves, não manuseies” (WHITE, 2007, p. 335), ela estava ecoando a linguagem de
Colossenses 2:21, mas esse certamente não é o sentido original do texto bíblico. Para ela, a frase publicados e outros materiais.11 Assim, podemos compreender melhor sua intenção
tinha um uso positivo em relação à abstenção de substâncias prejudiciais, ao passo que a frase,
no contexto original, representava um ascetismo prejudicial que desviava a atenção de Cristo (Cl
2:18-23). Quando Ellen White aplicou à necessidade de boa postura a frase “Deus fez o homem 8
  Veja a ilustração acima acerca do uso de Colossenses 2:21.
reto” (WHITE, 1997, p. 198), ela não pretendia insinuar que o autor de Eclesiastes estivesse 9
  Uma elevada percentagem de suas declarações exegéticas são provavelmente encontradas no livro
discutindo postura em Eclesiastes 7:27-29. Em Patriarcas e Profetas, por outro lado, ela usou a Atos dos Apóstolos, que contém discussões específicas de livros do Novo Testamento em seu contexto
frase em harmonia com a intenção moral do autor bíblico (WHITE, 2009, p. 49) original; também Parábolas de Jesus e O Maior Discurso de Cristo (ver OLSON; JAMES, 1990, p. 17).
7
  Um exemplo de tal “teologia híbrida” pode ser encontrado no livro Give Glory to Him, de Robert 10
  Nos textos em que Ellen White parece usar um texto exegeticamente, e, contudo, ainda per-
Hauser (1983, p. 30-32). Comparando declarações da Bíblia e de Ellen White, o autor tenta provar manece uma tensão entre seu uso de um texto e o evidente intento da linguagem do autor, duas
que a cena de Apocalipse 4:1–5:6 ocorre no Lugar Santo do santuário celestial, que 5:8-14 ocorre no possibilidades devem ser conservadas em mente: (1) é possível que o intérprete tenha compreen-
Lugar Santíssimo, e que, em Apocalipse 5:7, Jesus se muda do Lugar Santo para o Lugar Santíssimo. dido mal o intento do escritor bíblico ou de Ellen White, ou de ambos; ou (2) uma pessoa in-
Por mais criativa que seja a sugestão, ela torna-se extremamente improvável pelo simples fato de que spirada pode aplicar uma passagem bíblica à sua situação contemporânea em um sentido local
nenhum movimento como esse entre os compartimentos é detectável no próprio texto de Apocalipse sem exaurir a intenção básica do escritor original (note o uso de Pedro de Joel 2:28-32 em Atos
4–5, e Ellen White jamais descreveu tal movimento em termos de Apocalipse 5. A sugestão do autor 2:16-21 e o uso de Jesus de Daniel 7:13-14 em Mateus 9:6.)
transcende a intenção de João e de Ellen White. Assim, o uso das Escrituras por Ellen White é usado 11
  ”E agora a todos os que têm um desejo pela verdade eu diria: Não deem crédito a relatos não
de modo equivocado para demonstrar algo que nem ela nem João pretendiam. autenticados quanto ao que a irmã White tem feito ou dito ou escrito. Se vocês desejam conhecer
Estudos selecionados em interpretação profética O intérprete e o uso

teológica nos escritos que foram mais cuidadosamente escritos e editados por ela. que um conceito é repetido está em proporção direta à preocupação da escri-
Comentários de improviso em cartas ou reproduzidos estenograficamente de ser- tora de que o conceito seja claramente compreendido pelo leitor. Não é um pro-
mões podem não refletir sua opinião estabelecida sobre assuntos universais. Com- cedimento seguro basear uma interpretação em uma só passagem. Uma ideia
pilações de seus escritos reunidos por pastores ou leigos precisam ser usados ainda que é repetida em uma variedade de circunstâncias e por diferentes expressões
mais cautelosamente, sendo que a disposição do material pode apresentar o tema não é facilmente mal-compreendida ou usada impropriamente.
de maneira tendenciosa. Se algo é encontrado somente em cartas e manuscritos, Problema de ambiguidade. O principal motivo para a sugestão destas di-
principalmente se ocorre apenas uma vez, o intérprete precisa determinar se isso retrizes básicas em determinar seu intento é o problema da ambiguidade nos
está de acordo com considerado e coerente intento. escritos de Ellen White. Suas declarações são às vezes suscetíveis de mais de
Fundamental para o argumento? Deve ser feita a interrogação: É o uso de El- uma interpretação.14 Isso não é necessariamente devido à confusão ou falta de
len White de determinado texto bíblico essencial para a conclusão a que ela chega clareza da sua parte; é devido ao fato de que com frequência ela não trata dire-
em dada porção de seus escritos? Se o uso é periférico para o tema central, ele pode tamente das questões que hoje mais nos preocupam. Leitores imparciais podem
não estar baseado no uso exegético do texto. Como no caso das Escrituras, estamos achar declarações que respondem às nossas preocupações com menos clareza
em terreno mais firme quando aludimos à passagens em que o assunto específico do que preferiríamos. O leitor parcial, porém, ao defrontar-se com uma de-
está sendo discutido. Sendo que a maior parte do Apocalipse nunca é fundamental claração ambígua, escolhe a opção que melhor se ajusta às suas ideias preconce-
para qualquer das discussões de Ellen White, devemos exercer cuidado em extrair bidas e critica severamente aqueles que poderiam discordar.
firmes conclusões de empregos periféricos do Apocalipse.12 A realidade é que muitas questões exegéticas não podem ser esclarecidas por
Esclarecimento posterior? Deve-se permitir que os escritos posteriores de El- meio dos escritos de Ellen White. O procedimento mais sábio é evitar o uso de de-
len White esclareçam pontos de vista assumidos em escritos anteriores. Ao aumentar clarações ambíguas como evidência definitiva para provar um argumento. É sempre
suas habilidades como escritora, aumentava correspondentemente sua capacidade apropriado, sem dúvida, destacar as possibilidades inerentes em tais declarações.
186 de expressar de maneira acurada e clara os pensamentos recebidos de Deus. Ao se 187
tornarem declarações anteriores opostas ou sujeitas a controvérsia, ela apresentava Princípios ilustrados
afirmações esclarecedoras para tornar clara sua intenção. Um exemplo disso é en-
contrado em Primeiros Escritos, onde ela apresenta uma série de esclarecimentos de Para ilustrar o uso desses seis princípios, pode ser proveitoso examinar a
declarações anteriores e descrições visionárias (WHITE, 2011, p. 85-96).13 seguinte declaração de Ellen G. White em Primeiros Escritos:
Frequência de conceito. Quão frequentemente Ellen White utilizava uma
Um anjo com um tinteiro de escrivão ao lado voltou da Terra, e informou a Jesus
passagem bíblica de determinada forma? Geralmente, o número de vezes em
que sua obra estava feita, e os santos estavam numerados e selados. Então vi Je-
sus, que estivera ministrando diante da arca, a qual contém os Dez Mandamen-
tos, lançar o incensário. Levantou as mãos e com grande voz disse: “Está feito.” E
o que o Senhor tem revelado por meio dela, leiam suas obras publicadas. Há alguns pontos de
interesse concernentes ao que ela não tem escrito, não apanhem avidamente e relatem rumores
quanto ao que ela tem dito” (WHITE, 2006, v. 5, p. 696; ver 2008, v. 1, p. 66; 2002, p. 33).
12
  O Apocalipse é fundamental para a discussão do capítulo 57 de Atos dos Apóstolos (WHITE, 14
  Um exemplo de uma declaração ambígua é encontrado em Testemunhos para Ministros
2010, p. 578-592) e para muito da última parte do livro O Grande Conflito. (WHITE, 2002, p. 445). Nesse texto, ela declara que “esse selamento dos servos de Deus é o mes-
13
  Um exemplo teológico de sua amadurecida clareza de expressão é a sua compreensão da mo que foi mostrado em visão a Ezequiel. João também fora testemunha dessa tão assustadora
divindade de Cristo. A plena divindade de Cristo é expressa em declarações posteriores (ver revelação”. Ela segue com vários itens que são comuns a ambos os livros. Sendo que as visões
WHITE, 2008, v. 1, p. 296; 1996, p. 530; 1906; 1899). Mas declarações anteriores a 1888 (ver de João e Ezequiel são análogas, mas certamente não idênticas, surgem duas possibilidades de
WHITE, 1870, v. 1, p. 17-18), são ambíguas o suficiente para serem lidas como semi-arianas se as interpretação: (1) Os acontecimentos ocorridos em torno de 600 a.C. compartilham dos mesmos
declarações posteriores são ignoradas. (Ela atualiza e esclarece The Spirit of Prophecy, [WHITE, princípios que se manifestarão na crise final descritos em Apocalipse 7; (2) Ezequiel não descreve
1870, v. 1, p. 17-18] em Patriarcas e Profetas [WHITE, 2009, p. 37-38]). Extrair seu ponto de vista eventos de 600 a.C., mas eventos do fim dos tempos. Conquanto uma ou outra interpretação seja
de The Spirit of Prophecy (WHITE, 1870, v. 1, p. 17-18), enquanto ignorando as declarações es- considerada mais provável, baseado nas pressuposições que um leitor leva ao texto, uma ou outra
clarecedoras posteriores, é distorcer desesperadamente sua intenção. é possível com base na linguagem que ela preferiu usar no contexto.
Estudos selecionados em interpretação profética O intérprete e o uso

todo o exército dos anjos tirou suas coroas quando Jesus fez a solene declaração: o contexto de Apocalipse 8. A fraseologia — lançar o incensário — poderia ser
“Quem é injusto, faça injustiça ainda; e quem está sujo, suje-se ainda; e quem é omitida sem afetar o conteúdo teológico da declaração.
justo, faça justiça ainda; e quem é santo, seja santificado ainda” (WHITE, 2011, Quinto, a declaração é uma das primeiras referências de Ellen White ao
p. 279-280). tema. Assim, o intérprete que desejar compreender a utilização dela deve estar
preparado para a possibilidade de que uma declaração posterior possa decisi-
O assunto dessa passagem é o fim do tempo da graça. Ellen White utiliza vamente esclarecer esta. As possíveis implicações desta declaração não devem
alusões à linguagem de Ezequiel 9 (“Um anjo com um tinteiro de escrivão ao lado... ser pressionadas diante de uma posterior, principalmente se a última declaração
informou”), Apocalipse 8:5 (“lançar o incensário”), Apocalipse 16:17 (“Grande voz... modifica significativamente o material em questão.
“Está feito”), e então cita Apocalipse 22:11. Os dois últimos textos (Ap 16:17; 22:11) Finalmente, a alusão ocorre apenas uma vez em todas as suas obras dis-
claramente pertencem a um contexto do “fim do tempo da graça”. Nosso interesse poníveis. Mesmo se o significado do texto parecesse claro a todos os intérpretes,
diz respeito ao significado de seu uso da linguagem de Apocalipse 8:5 neste con- poderia ser questionado se a intenção de Ellen G. White na alusão tinha sido
texto. Na passagem de Primeiros Escritos, Ellen White interpreta o ato de atirar o compreendida corretamente. Ao longo de seu ministério, ela jamais tentou es-
incensário descrito em Apocalipse 8:5 como sendo uma referência ao fechamento clarecer a relação de Apocalipse 8:5 com o fechamento da porta da graça.
da porta da graça no fim dos tempos? Aplicaremos as diretrizes delineadas acima Resumindo: por mais que possamos desejar ter auxílio exegético em de-
em uma tentativa para determinar corretamente a resposta. terminar o significado de Apocalipse 8:5 e seu contexto, Primeiros Escritos
Em primeiro lugar, não está claro que ela pretendia que o leitor percebesse (WHITE, 2011, p. 279-280), embora bem possa aludir a Apocalipse 8:5, não
uma alusão a Apocalipse 8:5 em sua declaração de Primeiros Escritos. A frase deve ser usado para este propósito. Não é exegético ou fundamental para o as-
“lançar o incensário” é certamente inconfundível. Se há absolutamente uma sunto em seu contexto, nem é razoavelmente certo que fosse intenção de Ellen
alusão às Escrituras quando em visão ela vê Jesus “lançando o incensário”, é White que o leitor percebesse uma alusão a Apocalipse 8:5.
188 claramente uma alusão a Apocalipse 8:5. Mas várias indicações demonstram De grande interesse para este assunto é o fato de que a declaração é posterior- 189
que ela não estava aludindo a Apocalipse 8:5 de maneira exegética. Note suas mente repetida (quase em sua inteireza) em O Grande Conflito (WHITE, 2005, p.
observações. É Jesus quem ministra o incenso, não um anjo. Jesus ministra di- 613). Esta declaração é citada abaixo com a ênfase em itálico representando todas as
ante da arca, não no altar de incenso. Jesus lança o incensário diante da arca, palavras que são idênticas à passagem de Primeiros Escritos.
não na Terra. Assim, sua declaração meramente ecoa a linguagem de Apoc-
alipse 8:5, sem remeter o leitor ao texto. É inseguro extrair informação exegética Um anjo que volta da Terra anuncia que a sua obra está feita; o mundo foi submetido
específica de um eco da linguagem bíblica. à prova final, e todos os que se mostraram fiéis aos preceitos divinos receberam “o
Segundo, nenhuma tentativa de fazer exegese de Apocalipse 8:5 é evi- selo do Deus vivo” (Ap 7:2). Cessa então Jesus de interceder no santuário celestial.
dente na passagem. A declaração é parte de uma descrição visionária de um Levanta as mãos e com grande voz diz: “Está feito” (Ap 16:17); e toda a hoste angélica
acontecimento futuro: o fim do tempo da graça. Como tal, é um emprego depõe suas coroas, ao fazer Ele o solene aviso: “Quem é injusto, faça injustiça ainda; e
teológico ou homilético de Apocalipse 8:5. Não é tratado o significado de quem está sujo, suje-se ainda; e quem é justo, faça justiça ainda; e quem é santo, seja
Apocalipse 8:5 no contexto original. santificado ainda” (Ap 22:11) (WHITE, 2005, p. 613, grifo do autor).
Terceiro, a declaração ocorre em uma obra publicada que foi editada com
considerável cuidado. Todavia, sendo que o eco é excepcional nesta declaração, O assunto desta passagem e dois terços do seu fraseado são idênticos a
ele é incerto para determinar se ela estabeleceu compreensão associada a Apoc- Primeiros Escritos (WHITE, 2011, p. 279-280). Mesmo onde o fraseado está
alipse 8:5 com o fechamento da porta da graça no fim dos tempos. modificado, o significado básico é o mesmo. Mas ocorreram duas mudan-
Quarto, conforme mencionado anteriormente, a exegese de Apocalipse 8:5 ças significativas no uso das Escrituras por Ellen G. White. A linguagem de
não é fundamental para o texto de Primeiros Escritos (WHITE, 2011, p. 279- Ezequiel 9 e Apocalipse 8:5 foi abandonada. Em lugar de Apocalipse 8:5, está a
280). O assunto tratado é uma descrição do fechamento da porta da graça, não declaração de que Jesus “cessa Sua intercessão no santuário celestial”.
Estudos selecionados em interpretação profética O intérprete e o uso

O texto de O Grande Conflito esclarece o significado da citação ante- _____________. Mensagens escolhidas. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2008. v. 1.
rior. Evidentemente, Ellen G. White não quis deixar a impressão de que sua
alusão devia ser considerada como uma exposição de Apocalipse 8:5 em seu
contexto. Portanto, na última descrição ela empregou terminologia explícita _____________. O desejado de todas as nações. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1996.
em vez de um eco de Apocalipse 8:5.
Essa ilustração indica que aplicar estas diretrizes exige paciência e tempo. _____________. O Grande Conflito. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2005.
Provavelmente, em muitos casos, a compreensão de Ellen White pode ser obti-
da por uma leitura atenta de suas declarações. Torna-se, porém, essencial seguir
cuidadosamente estas diretrizes sempre que uma declaração específica ou série _____________. Patriarcas e profetas. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2009.
de declarações se torna controvertida, geralmente devido à ambiguidade. Em
tais exemplos, o ônus da prova está em demonstrar que Ellen G. White (se es-
tivesse viva) apoiaria seu uso específico de uma determinada declaração. _____________. Primeiros escritos. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2011.

Considerações finais _____________. Testemunhos Para a Igreja. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2006. v. 5.
Depois de meticuloso estudo do texto bíblico, será útil para o intérprete advent-
ista examinar o uso de Ellen White de Apocalipse em busca de ideias proveitosas.
A compreensão inspirada dela sobre os assuntos universais para os quais aponta o _____________. Testemunhos para ministros e obreiros evangélicos. Tatuí: Casa Pu-
blicadora Brasileira, 2002.
livro de Apocalipse torna suas declarações de grande interesse e importância.
190 Todavia, sua contribuição para o debate não deve ser expandida além de 191
sua própria intenção. Fazer isso distorceria sua intenção e a de João, solapando _____________. The Spirit of Prophecy: the great controversy between Christ and his
assim a autoridade da inspiração. As diretrizes acima podem ajudar a prover angels and Satan and his angels. Battle Creek: Steam Press, 1870. v. 1.
salvaguardas contra tal uso não intencional.

Referências _____________. The word made flesh. Review and Herald, v. 83, n. 14, abr. 1906. Dis-
ponível em: <http://bit.ly/ZxjdWA>. Acessado em: 10 jan. 2013.

HAUSER, R. Give Glory to Him. Angwin: Robert W. Hauser, 1983.


_____________. The word made flesh. Signs of the Times, v. 25, n. 18, mai. 1899. Dis-
ponível em: <http://bit.ly/VNyZyq>. Acessado em: 10 jan. 2013.
OLSON, R. W.; JAMES, D. C. Olson Discusses the Veltman Study. Ministry, dez.1990.

WHITE, E. G. A ciência do bom viver. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2007.

_____________. Atos dos Apóstolos. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2010.

_____________. Educação. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1997.


9
Estudos selecionados em interpretação profética

Debates contemporâneos
sobre o Apocalipse
Relatório da Comissão*

192
A estrutura distintiva que mantém
unido o quadro da verdade bíblica con-
forme ensinada pelos adventistas do
sétimo dia é a sua compreensão das
profecias de Daniel e Apocalipse. Nes-
tas profecias o povo adventista tem en-
contrado seus tempos, sua identidade
e sua tarefa. Jesus Cristo está no centro
da Palavra profética e sua dinâmica na
fé adventista (Jo 14:29; 2Pe 1:19).
Os adventistas do sétimo dia che-
garam à sua interpretação da profecia
bíblica empregando os princípios
da escola histórica de interpretação
profética, às vezes chamada método
historicista ou método histórico-con-
tínuo. O método historicista aceita a
ideia de que as profecias de Daniel
Estudos selecionados em interpretação profética Debates contemporâneos sobre o Apocalipse

e Apocalipse são destinadas a se desdobrar e encontrar cumprimento no tempo a tendência de alterar a metodologia e empregar princípios não sólidos a fim de
histórico — no espaço de tempo entre os profetas Daniel e João, respectivamente, encontrar soluções satisfatórias. Duas seções de Apocalipse especificamente caem
e o estabelecimento final do reino eterno de Deus. O princípio dia-ano (um dia nesta categoria: os selos (Ap 4:1–8:1) e as trombetas (Ap 8:2–11:17). Embora a
simbólico equivale a um ano literal) é uma parte integrante do método, porque fun- igreja talvez jamais compreenda plenamente estas porções da profecia mais ampla,
ciona para desenrolar os períodos de tempo simbólicos, habilitando-nos a localizar podemos delas aprender importantes lições, e encorajamos o seu estudo pessoal.
os eventos preditos ao longo do caminho da história. A comissão a esta altura não tem desenvolvido uma interpretação satisfatória
Jesus empregou o método historicista quando anunciou o tempo do seu destas profecias que resolva todos os problemas inerentes a elas, mas tem chegado
ministério como um cumprimento da profecia (Mc 1:15; cf. Dn 9:25), e poste- a acordo em alguns princípios gerais e algumas ideias específicas. Se quisermos
riormente quando se referiu à profetizada ruína de Jerusalém e do templo (Mt preservar a verdade e assegurar uma verdadeira interpretação dessas profecias de-
24:15; cf. Dn 9:26). Os mileritas, nossos ancestrais imediatos, eram historicistas, safiadoras, devemos fazer nosso estudo dentro dos parâmetros dos sólidos princí-
como eram também os reformadores protestantes do século 16. pios de interpretação. A comissão concorda nos seguintes pontos e os submete aos
Em seu esforço para enfrentar as interpretações protestantes, a Igreja Católi- nossos pastores e membros para sua consideração com oração.
ca Romana introduziu o preterismo e o futurismo como métodos opostos de in-
terpretação. Estes dois métodos formam a base de duas escolas dos dias atuais Princípios gerais
de interpretação de Daniel e Apocalipse. A posição preterista/crítico-histórica A comissão conclui que:
considera as profecias de Daniel como tendo cumprimento nos tempos e acon- 1. A estrutura literária divide o livro de Apocalipse em duas grandes
tecimentos da Palestina do segundo século a.C., e restringe o Apocalipse aos seções: (1) uma seção histórica (Ap 1–14), que enfatiza a experiência da ig-
primeiros séculos d.C. O futurismo remove a setuagésima semana da profecia reja e eventos relacionados durante a Era Cristã, e (2) uma seção escatológi-
das setenta semanas de Daniel, colocando-a no final da era, onde também es- ca ou do final dos tempos, (Ap 15–22) que focaliza principalmente os even-
194 pera o cumprimento da maior parte do livro de Apocalipse. Hoje os adventistas tos do fim dos tempos e o fim do mundo. 195
do sétimo estão virtualmente sozinhos como expoentes do método historicista, Embora os estudantes da Bíblia possam diferir de certa forma sobre o ponto
sendo que grupos não católicos em geral têm abandonado esta abordagem a exato onde deve ser colocada a linha divisória, estudo sério feito por eruditos
favor de um dos outros dois métodos mencionados. Como se poderia esperar, a adventistas (ver STRAND, 1979; MAXWELL, 1985, v. 2) confirmam plena-
mudança de método tem inevitavelmente ocasionado mudanças de conclusões. mente esta divisão literária e seu consequente efeito sobre a interpretação.
A Comissão de Daniel e Apocalipse deseja reafirmar para a igreja mundial a 2. As séries dos selos e das trombetas ocorrem na seção histórica de
validade da abordagem historicista a estes dois livros apocalípticos. A comissão Apocalipse. Consequentemente, seu cumprimento deve ser procurado no
o vê como o único método sólido e correto a ser usado. Nossos pioneiros não tempo histórico, a Era Cristã.
seguiram “fábulas artificialmente compostas” quando pesquisaram e pregaram 3. As profecias dos selos e das trombetas têm apenas um cumprimento
as verdades destas profecias. Eles nos transmitiram uma valiosa herança. Con- profético.
vidamos nossos membros a renovado estudo destes grandiosos livros proféticos a. O modelo de Daniel da profecia apocalíptica é claro sobre este ponto: cada
que continuam dando certeza e estabilidade à nossa fé pessoal em Cristo e sua metal, animal e chifre tem somente um cumprimento. (Até mesmo o “chifre
vinda e ao esforço mundial do povo adventista nesta era solene da atividade do pequeno” de Daniel 8, usado como um símbolo para Roma em suas duas fases,
juízo divino no santuário celestial (Ap 14:6-14; Dn 7:9, 10, 13, 14). tem apenas um cumprimento: Roma.) Não há nenhuma evidência contextual
Nem todos os segmentos de Daniel e Apocalipse são tão claramente compreen- de que deve ser dado às profecias apocalípticas de Daniel e Apocalipse duplos
didos como outros. Existe uma tendência de algumas pessoas sinceras em focalizar ou múltiplos cumprimentos. Esta última proposição foi examinada detalhad-
as porções menos compreendidas a tal ponto que negligenciem a grandiosa exten- amente e rejeitada pela Comissão Revisora do Santuário (representantes das
são das passagens mais claras e das importantes verdades teológicas que elas apre- Divisões mundiais) em 1980 (ver GENERAL CONFERENCE OF SEVENTH-
sentam para nossos tempos. O desejo de revelar essas porções obscuras estimula DAY ADVENTIST CHURCH, 1980). A Comissão de Daniel e Apocalipse a tem
Estudos selecionados em interpretação profética Debates contemporâneos sobre o Apocalipse

igualmente rejeitado (ver HASEL, 2010, v. 3, p. 288-322). Cumprimentos dup- Entre estas duas cenas do trono estão os eventos dos selos de Apocalipse 6. As-
los ou múltiplos de Daniel e Apocalipse também deixam de encontrar apoio em sim, os selos de Apocalipse 6 devem ser localizados entre a vitória de Cristo na
Ellen White (veja o panfleto do Instituto de Pesquisa Bíblica, “Ellen G. White e cruz e a vitória dos redimidos, isto é, na Era Cristã.
a Interpretação de Daniel e Apocalipse”).
b. O cumprimento duplo pode estar presente em algumas profecias ge- a Pregação do evangelho (Mt 24:14). a Primeiro selo: cavalo branco (Ap 6:2).
rais ou clássicas em que há marcadores contextuais indicando tal — por b Guerras, fomes, pestilências, ter- b Segundo ao quarto selos: guerra, fome,
exemplo, a profecia do derramamento do Espírito Santo, Joel 2; a profecia remotos (v. 6-8). pestilência (v. 3-8).
do nascimento virginal, Isaías 7. Mas nenhum dos tais marcadores está pre- c Período de grande tribulação/ c Quinto selo: clamor dos mártires para
sente nas profecias de Daniel e Apocalipse. perseguição (v. 21). serem vingados (v. 9-11)
c. Em relação às trombetas, o próprio Apocalipse faz um aplicação para o fim d Sinais no sol, lua, estrelas (v. 29). d Sexto selo: grande terremoto; sinais no
dos tempos da linguagem das trombetas em sua descrição das sete últimas pragas. sol, lua, estrelas (v. 12, 13).
É, portanto, uma pressão desnecessária dessas passagens colocar as trombetas e as e Segunda Vinda (v. 30, 31). e Sexto selo: “é vindo o grande dia da sua
ira” (v. 14-17).
pragas em um cumprimento simultâneo pós-tempo da graça.
f Juízo (Mt 25:31-46). f Sétimo selo: “silêncio no céu” (Ap 8:1),
possivelmente fases milenial ou executiva
I. Os selos — Apocalipse 4:1–8:1
do juízo final (Ap 20: 4, 11-15).
A comissão concorda no seguinte:
1. Cenário
1. Apocalipse 4–5 é uma unidade, descrevendo a mesma cena (Ap 4:2; 5:1). III. Observações gerais sobre os selos
2. Apocalipse 4–5 descreve uma cena do trono no santuário celestial (cf. Ap 1. A imagem dos quatro cavalos e suas cores é extraída de Zacarias 1:8-
196 4:3; 8:3). 11; 6:1-6; 10:3, mas é empregada por João para simbolizar uma mensagem 197
3. A ênfase da cena do trono é sobre a morte expiatória de Cristo, sua obra diferente daquela transmitida por Zacarias.
perfeita na cruz (Ap 5:6, 9, 12). 2. Os selos são sequenciais, representando eventos sucessivos através da Era
4. A cena do trono não é o juízo investigativo de Daniel 7:9, 10. Cristã. Isto é evidenciado pela ordem da visão: Os selos são abertos um após
a. A cena de Apocalipse não é designada a um juízo; a cena de Daniel, outro, não todos ao mesmo tempo (Ap 6:1, 3, 5, 7, 9, 12; 8:1).
sim (Dn 7:10, 26). 3. Os selos apresentam uma progressão geral da história em vez de uma
b. A cena de Apocalipse tem apenas um livro: está na mão do Pai; está fecha- cronologia detalhada; sua interpretação, portanto, não está ligada especifica-
do e selado; nenhum ser no Universo exceto o Cordeiro pode abri-lo; o livro mente à profecia das sete igrejas.
nunca é aberto na visão. Contrastando, na cena de Daniel há dois ou mais livros. 4. Os selos são um desenvolvimento paralelo de Mateus 24 e 25 (o apocalipse
Eles são abertos, e está subentendido que eles foram abertos para o Ancião de sinóptico). Este vínculo é outra evidência para o seu cumprimento na Era Cristã.
dias pelos seres santos assistentes (Dn 7:10). 5. Conquanto haja semelhanças entre os selos e o apocalipse sinóptico, há
também diferenças. Em alguns exemplos o simbolismo parece estender o sig-
II. Estrutura do tempo nificado além de uma simples repetição de Mateus 24. Por exemplo:
1. A cena do trono está no começo da Era Cristã. a. Se o primeiro selo simboliza, inicialmente, o envolvimento apostólico
a. É mostrada a João (pela abertura sequencial dos selos) “o que deve acon- com o evangelho (cf. Zc 10:3), então as cores mutáveis dos cavalos (branco, ver-
tecer depois destas coisas” (Ap 4:1; cf. Ap 1:1, 19). melho, preto e amarelo) sugerem apostasia progressivamente aprofundada.
b. O trono do Pai (Ap 4), a vitória de Cristo (Ap 5:5) e sua junção ao Pai no b. Os sinais físicos tais como guerra, fome e pestilência seriam alterados
trono (v. 6; cf. Ap 3:21) são temas fundamentais nesta cena do trono (Ap 4 e 5). pelo simbolismo para retratar as características adicionais através das quais o
Os redimidos vitoriosos juntam-se à cena do trono em Apocalipse 7 (v. 9, 10).
Estudos selecionados em interpretação profética Debates contemporâneos sobre o Apocalipse

povo de Deus teria de viver: agitação por causa das diferenças religiosas, fome 4. Apocalipse 10:1–11:14 é um interlúdio entre a sexta e a sétima trom-
pela verdade de Deus, severa perseguição de cristãos por cristãos. betas (precisamente como Apocalipse 7 é um interlúdio entre o sexto e o
c. Sendo que a apostasia cristã parece estar presente do segundo ao quar- sétimo selos) e pertence à sexta trombeta (exceto o retrospecto ao período
to selos, os acontecimentos funestos retratados nestes selos podem refletir a de 1260 anos [Ap 11:3]).
imagem das desgraças/maldições da aliança preditas para ocorrer quando a 5. Os eventos das trombetas ocorrem no tempo histórico, tempo da graça.
aliança é violada (Lv 26:14-39). a. Introdução (Ap 8:2-6). Funcionando como um anúncio das vindouras
6. Embora cada um dos primeiros quatro selos tenha um princípio inicial, sete trombetas, os versos 2 e 6 são marcadores para formar uma inclusão lit-
a ação uma vez começada pode prosseguir com variados graus de intensidade. erária em torno dos dois processos descritos nos versos 3-5:
a. Primeiro selo: embora iniciada pelos apóstolos, a pregação do evan- (1) O contínuo ministério intercessório de Cristo (v. 3, 4).
gelho continua através da era. É dito aos mártires sob o quinto selo que mais (2) A cessação do ministério intercessório de Cristo e o fim da provação
ainda serão mortos (Ap 6:11). humana ou fim da graça (v. 5; cf. Ez 10:1-7).
b. Modelos apocalípticos para o tipo de simbolismo: (1) a influência dos Este artifício literário, uma inclusão-introdução, definitivamente liga
quatro animais se prolonga depois de um domínio sequencial inicial (Dn a série de eventos das trombetas à era da intercessão sumo sacerdotal de
7:12); (2) as mensagens sequenciais dos três anjos continuam depois do seu Cristo, tempo da graça.
anúncio inicial (Ap 14:6-12). b. Sétima trombeta: o soar da sétima trombeta está ligado à finalização do
7. O primeiro selo representa o início da mensagem do evangelho no “mistério de Deus” (Ap 10:7). “O mistério de Deus” é o evangelho e sua proc-
primeiro século (Ap 6:2). O quinto selo representa as perseguições da Idade lamação (Ef 3:4; 6:19; Cl 4:3; Rm 16:25, 26). Se a sétima trombeta está ligada à
Média (v. 9-11). O sexto selo se relaciona com os sinais da segunda vinda de conclusão da obra do evangelho, a dispensação evangélica, então as seis trom-
Cristo (v. 12-17). O sétimo selo se relaciona com algum acontecimento de sig- betas precedentes devem necessariamente soar durante o tempo da graça.
198 nificado cósmico depois da Segunda Vinda (8:1). c. Altar de ouro: referência ao altar de ouro de incenso no começo da sexta 199
8. A atividade do selamento de Apocalipse 7:1-8 está incluída no período de trombeta é um marcador na profecia, indicando que a intercessão sacerdotal de
tempo do sexto selo e é a resposta à indagação “É vindo o grande dia da sua ira; Cristo ainda está em andamento (Ap 9:13; cf. 8:3, 4).
e quem poderá subsistir?” (Ap 6:17). d. Interlúdio (veja nº 4 nesta seção): a obra do evangelho continua avante
9. O grande terremoto e os sinais no sol, na lua e nas estrelas do sexto selo sob a sexta trombeta.
são literais, e o sexto selo se inicia com o terremoto de Lisboa. (1) A igreja (simbolizada por João) deve pregar “outra vez [a] muitos povos,
10. Os sinais celestiais do sexto selo podem ter causas físicas/naturais (cf. e nações, e línguas, e reis” (Ap 10:11).
abertura do Mar Vermelho, Êx 14:21); contudo, eles são eventos significativos (2) As pessoas podem se arrepender e dar glória a Deus (Ap 11:13; cf. 16:9).
porque ocorrem no tempo certo em conexão com o final do período de 1260 e. Períodos de tempo: a presença de períodos de tempo na quinta e sexta
anos de supremacia papal e perseguição (cf. Mc 13:24). trombetas são marcadores indicando que essas trombetas aparecem no tempo
histórico antes do final do tempo da graça aos seres humanos.
As trombetas
A comissão conclui que: Referências
1. As trombetas são sequenciais, conforme se evidencia por sua ocorrência
uma após outra na visão.
2. As trombetas aparecem como advertências ou anúncios de acontecimen- HASEL, G. F. Cumprimento de profecia. In: HOLBROOK, F. B. (Ed.). Setenta Semanas:
Levítico e a Natureza da Profecia. Engenheiro Coelho: Unaspress, 2010. (Série Santuá-
tos adversos por vir (cf. Nm 10:1-10).
rio e Profecias Apocalípticas, 3).
3. Um evento específico das trombetas pode ocupar um extenso período de
tempo (Ap 9:5, 15; 10:7).
10
Estudos selecionados em interpretação profética

STRAND, K. A. Interpreting the Book of Revelation: Hermeneutical Guidelines, with


Brief Introd. to Literary Analysis. 2. ed. [S.l.]: Ann Arbor Publ., 1979.
Selos e trombetas:
MAXWELL, C. M. God Cares: The Message of Revelation for You and Your Family.
algumas discussões atuais
[S.l.]: Pacific PressPub Assn, 1985. v. 2. Jon Paulien

GENERAL CONFERENCE OF THE SEVENTH-DAY ADVENTIST CHURCH. Sta-


tement on Desmond Ford Document. Ministry, out. 1980. Disponível em: <http://bit.
ly/11jOW32>. Acessado em: 10 jan. 2013.
Esboço do capítulo
1. Questões no debate atual
2. A “grandiosa estratégia” do Apocalipse
3. O historicismo e os sete selos
4. O historicismo e as sete trombetas
5. Considerações finais

200
Sinopse editorial. Em anos re-
centes, os eruditos adventistas têm
focalizado a estrutura literária do
livro de Apocalipse. Esses estudos
têm confirmado o consenso dos
pioneiros adventista de que os cum-
primentos das linhas paralelas da
profecia (por exemplo, os sete selos
e as sete trombetas), se estendem
ao longo da Era Cristã, iniciando-
se nos dias de João, e alcançando a
Segunda Vinda.
Hoje alguns estão defendendo
dois cumprimentos distintos dos
selos e trombetas (e outras porções
do Apocalipse, inclusive os períodos
de tempo). Eles veem um segundo
(primário para eles) cumprimento do
Estudos selecionados em interpretação profética Selos e trombetas

fim dos tempos dos selos e das trombetas, comumente ligando o primeiro ao juízo A segunda divisão do Apocalipse era compreendida como abrangendo prin-
investigativo de Daniel 7. As trombetas são colocadas ou no final dos tempos pouco cipalmente os eventos ligados à própria Segunda Vinda. Embora seguido hoje
antes da Segunda Vinda, ou imediatamente depois do fim do tempo da graça. em detalhe exato por alguns, Daniel and Revelation, de Uriah Smith, continua
Neste capítulo o autor resume a evidência embutida nas introduções a es- como uma expressão desse consenso básico modelado cerca de cem anos atrás
sas séries, bem como nos modelos do santuário e das festividades refletidos no por nossos pais espirituais (SMITH, 1897).
livro. Os dados coletados endossam claramente a compreensão historicista de
que estas séries se estendem através da Era Cristã e jamais foram destinadas Novas interpretações particulares
(como séries inteiras) a encontrar um segundo cumprimento no final da era. Em anos recentes, vários adventistas do sétimo dia têm explorado a pos-
sibilidade de que a perspectiva do fim dos tempos do Apocalipse poderia
Questões no debate atual ser muito mais ampla do que os adventistas têm imaginado. Em geral, esses
intérpretes concordam com o consenso histórico concernente às igrejas (Ap
1–3) e a última metade do livro (Ap 13–22).
Consenso dos pioneiros Todavia, eles comumente defendem um futuro segundo cumprimento de
Por volta do final do século 19, preeminentes adventistas do sétimo dia certas porções de Apocalipse, inclusive seus períodos de tempo. Um importante
estudiosos da Bíblia chegaram a um consenso sobre como aplicar as várias ponto de desacordo jaz em como os selos e as trombetas (Ap 4–11) devem ser
partes do livro de Apocalipse à história da Era Cristã. compreendidos. Esses “intérpretes do fim dos tempos”1 creem que os selos e as
Eles compreenderam as cartas às sete igrejas (Ap 1–3) como sendo dirigi- trombetas (Ap 4–11) retratam acontecimentos associados ao fim dos tempos,
das inicialmente a sete igrejas do primeiro século sobre as quais João tinha um em vez de à extensão global da Era Cristã. Os selos (Ap 4–6) são geralmente
interesse supervisor. O significado destas cartas se estendia também (por repre- compreendidos como retratando aspectos do juízo investigativo que começou
202 sentação simbólica) aos sete grandes períodos da história cristã. em 1844, e as trombetas (Ap 8–11) são compreendidas como vindo em seguida 203
Os pioneiros adventistas do sétimo dia compreendiam os selos, as trom- ao fechamento da porta da graça pouco antes do retorno de Cristo. Para alguns,
betas e o capítulo 12 (Ap 4–12) como apresentando três linhas paralelas que estes são vistos como um segundo cumprimento.
abrangem toda a Era Cristã. (1) Os sete selos se dispunham em posição paralela O que tem surgido desses estudos e resultantes discussões é a percepção de
às sete igrejas como um esboço dos grandes períodos da história cristã. (2) As que os adventistas do sétimo dia não têm investido a espécie de energia criativa
sete trombetas continham primariamente os juízos divinos sobre as porções sobre os selos e trombetas que habilitaria a posição historicista, ou qualquer
ocidental e oriental do Império Romano. (3) O capítulo 12 retratava o grande outra posição, a ser declarada firmemente estabelecida. Os adventistas têm tido
conflito no Céu e seu resultado na experiência da igreja na Terra. a tendência de supor que os selos e trombetas são duas séries históricas, se es-
Os pioneiros também concordavam em que a maior parte dos aconteci- tendendo dos dias do profeta até o fim, mas não têm estabelecido este ponto de
mentos descritos nos capítulos 13–19 dizia respeito ao fim dos tempos, con- vista sobre a base de cuidadosa exegese do texto.2 Se as interpretações emergen-
duzindo até a segunda vinda de Cristo. Apocalipse 20–22, por outro lado, tes do fim dos tempos dos selos e das trombetas se demonstrarem corretas, os
era visto como se situando além da Segunda Vinda.
A corrente principal do adventismo, portanto, veio a afirmar que o livro de
Apocalipse se divide naturalmente em duas partes. A primeira cobre os grandes 1
  Eles são frequentemente rotulados como “futuristas”, mas embora esta designação seja
acontecimentos da história profética entre os dois adventos de Cristo, embora descritiva até um ponto, eles geralmente recusam qualquer aceitação do sistema dispensa-
cada série conduza ao fim. Essa abordagem interpretativa de Apocalipse 1–12, cionalista futurista de interpretação.
conhecida como historicismo, baseia-se no modelo de Daniel e do próprio Jesus 2
  Em apoio desta asserção, note o comentário de Uriah Smith sobre Apocalipse 8:7–9:21. Ses-
retratando o futuro em termos de uma série de eventos históricos que vão desde senta e dois por cento dos comentários de Smith são diretamente citados de comentaristas não
adventistas do sétimo dia. A maior parte do restante é parafraseada. Dificilmente há um exemplo
o tempo do profeta até o estabelecimento do reino eterno (ver Dn 2). em que é feita referência ao texto. A posição historicista é assumida como um dado, nunca é ar-
gumentada a partir do texto das trombetas.
Estudos selecionados em interpretação profética Selos e trombetas

autores destas interpretações estimularam o estudo chamando a atenção para 4–7 com o capítulo 19, como sugere Strand. Encontrei, na língua original,
estas porções mais obscuras do Apocalipse. quatro grupos de ideias paralelas entre os selos e o capítulo 19, dois dos
Conquanto uma compreensão dos selos e trombetas possa não ser decisiva quais se relacionam diretamente com o assunto em questão.4
para a salvação, as realidades atuais exigem que lhes seja dada mais cuidadosa 1. Nos capítulos 4 e 5, as cenas de adoração descrevem o louvor ofereci-
atenção do que tem sido o caso no passado. Este capítulo, portanto, descreve do a Deus pela Criação e pela cruz. Contudo, cenas paralelas nos capítulos
várias realidades do livro de Apocalipse que precisam ser levadas em conta 7 e 19 descrevem o louvor a Deus por redimir o seu povo da Babilônia do
quando se trata de como os selos e as trombetas devem ser interpretados. fim dos tempos. Esta observação sugere que a melhor colocação dos capí-
tulos 4 e 5 está no início da Era Cristã.
A “grandiosa estratégia” do Apocalipse 2. Apocalipse 6:10 descreve um tempo em que Deus não está ainda julgando.
Apocalipse 19:2 vem após estar concluído o juízo. O juízo não ocorre nos capí-
tulos 4 e 5, quando os selos ainda têm de ser abertos. É óbvio que o juízo deve
Função do arranjo literário
ocorrer algum tempo entre a abertura do quinto selo (em que os mártires pedem
Uma das principais evidências citadas em defesa de uma compreensão his-
julgamento) e o pronunciamento do juízo concluído em Apocalipse 19:2.
toricista dos selos e trombetas baseia-se na observação de que o livro de Apoc-
Essas duas observações coincidem com o que se poderia esperar se a
alipse está estruturado como um “quiasma” (STRAND, 1979, p. 43-59). Uma
primeira parte do Apocalipse diz respeito a toda a Era Cristã e a última
“estrutura quiástica” ocorre quando as palavras e ideias são paralelas umas às
parte ao fim dos tempos.
outras na ordem inversa do início ao fim de um livro.
No caso de Apocalipse, o material antes de Apocalipse 15 é, no conjunto, Função do santuário em Apocalipse
confrontado no sentido inverso pelo material que vem depois do capítulo 15. Cenas introdutórias do santuário. As pesquisas mostram uma série de
204 Kenneth Strand considera a primeira (e maior) metade como estando relacio- indicações de que o próprio João compreendia os selos e as trombetas como 205
nada com toda a Era Cristã. O conteúdo do Apocalipse posterior ao capítulo 15 abrangendo o vasto alcance da história cristã em vez de somente o fim dos
diz respeito quase exclusivamente ao tempo após o fim do tempo da graça, um tempos. Por exemplo, as cenas do santuário que introduzem várias partes do
evento que ainda está no futuro. O “quiasma” e seus resultados são evidentes Apocalipse demonstram uma progressão significativa (Ap 1:12-20; 4:1–5:14;
por si mesmos quando se compara os três primeiros capítulos do Apocalipse 8:2-6; 11:19; 15:5-8; 19:1-8; 21:1–22:5).
quando os dois últimos.3 Os intérpretes do fim dos tempos, porém, têm resis- A primeira cena do santuário (1:12-20). Aqui a visão usa as imagens do
tido a esta compreensão do arranjo literário do Apocalipse, sendo que ela tem santuário para retratar a presença de Cristo entre as igrejas na Terra; no entanto,
impacto negativo sobre suas interpretações dos selos e trombetas. não é um olhar para o santuário celestial. A cena ocorre em Patmos, e os sete
Tenho procurado esclarecer a aplicabilidade do esboço de Kenneth candeeiros representam as sete igrejas. O convite explícito “sobe para aqui” para
Strand aos selos e às trombetas comparando cuidadosamente os capítulos o reino celestial vem posteriormente em Apocalipse 4:1.
A segunda cena do santuário (4:1–5:14). O foco agora muda para o san-
3
  Note os seguintes paralelos:
tuário no Céu. A maior coleção de imagens do santuário no livro se encontra
1:1 ………………. “que em breve devem acontecer” ……………… 22:6 nesta introdução aos selos. A cena contém uma completa mistura de imagens
1:3 ................ “bem-aventurados aqueles que [...] guardam” ............... 22:7 de quase todos os aspectos do ritual hebraico.
1:3 ................................. “o tempo está próximo” ................................. 22:10 No santuário israelita somente duas ocasiões tinham contato com quase
1:4 ......................................... “as sete igrejas” ........................................ 22:16
todos os aspectos do seu culto: o serviço de inauguração em cujo momento o
1:17 .................................. “o primeiro e o último” ................................. 21:6
2:7 ......................................... “árvore da vida” ......................................... 22:2
2:11 ....................................... “segunda morte” ....................................... 21:8
3:12 ...................................... “nova Jerusalém” ..................................... 21:10 4
  Para uma discussão mais completa destes grupos paralelos, veja o capítulo 11 deste vol-
ume, “Os sete selos”.
Estudos selecionados em interpretação profética Selos e trombetas

santuário foi dedicado (cf. Êx 40) e o Dia da Expiação. A cena do santuário nos (1) Ap 1:12-20 Terra
capítulos 4–5 é a primeira visão do santuário celestial no livro. É mais bem iden-
(2) Ap 4 e 5 (Inaguração)
tificado com a inauguração ou serviço de dedicação do antigo santuário. O foco
(3) Ap 8:2-6 (Intercessão)
central é sobre as consequências da cruz, uma das quais foi o estabelecimento
(4) Ap 11:19 (Julgamento) Céu
do reinado de Cristo no santuário celestial. (5) Ap 15:5-8 (Cessação)
A descrição não é certamente uma cena de juízo como se poderia esperar se o (6) Ap 19:1-10 (Abstenção)
Dia da Expiação estivesse em vista. De fato, a linguagem explícita do juízo está to-
talmente ausente da cena.5 A única ocasião em que uma palavra grega para “julgar” (7) Ap 21:1 - 22:5 Terra
aparece na primeira metade do livro está em Apocalipse 6:10, e ali a asserção é que
Deus ainda não começou a julgar! Sendo que a cena do santuário em Apocalipse 5
precede a abertura dos selos, a evidência de que o quinto selo ocorre em um tempo
de “não julgamento” é decisiva na localização dos selos na Era Cristã em geral.
A terceira e a quarta cenas do santuário (8:2-6 e 11:19). Estas continuam no
santuário celestial. A primeira (8:2-6) apresenta uma visão explícita do primeiro
compartimento com seus serviços de intercessão. A última (11:19) retrata uma Nesta progressão, o primeiro dia explícito da cena de expiação-juízo ocorre
visão explícita do segundo compartimento no contexto de juízo (cf. 11:18). somente em 11:18-19. A primeira metade do livro focaliza inauguração e inter-
A quinta cena do santuário (15:5-8). Esta visão retoma outra vez a lin- cessão; a última metade move-se para juízo e rejeição. Isso apoia o consenso dos
guagem da inauguração (a glória enchendo o templo), mas realmente descreve pioneiros e a compreensão básica de Kenneth Strand de que o livro de Apoc-
um fechamento do santuário, sua desinauguração ou cessação do seu ministério. alipse está dividido em uma metade histórica e uma escatológica.
206 A sexta cena do santuário (19:1-10). A linguagem de trono, adoração e 207
O modelo diário/anual. Quando o livro do Apocalipse como um todo é exam-
Cordeiro é característica da segunda cena, mas todas as imagens explícitas do inado à luz do santuário, são feitas descobertas de natureza mais implícita. Partindo
santuário estão ausentes. O santuário celestial desapareceu de vista. das fontes históricas, nos tornamos familiarizados com a maneira como os serviços
A sétima cena do santuário (21:1–22:5). O foco da visão retorna à Terra, o diários e anuais do santuário eram conduzidos no primeiro século da Era Cristã.
equivalente ao capítulo 1. O Senhor Deus e o Cordeiro são o templo da Cidade Uma comparação de Apocalipse 1–8 com essas fontes sugere que esta seção de
Santa (21:22). Deus está agora com seu povo na Terra (21:3). Apocalipse reflete os serviços diários do santuário que prenunciavam a cruz.6
Estas cenas introdutórias do santuário mostram duas linhas definidas de O primeiro ato importante no serviço sacrifical diário (tāmîd) do Templo
progressão. Primeira, é chamada a atenção do leitor da Terra para o Céu, e de era que um sacerdote escolhido entrava no lugar santo e punha em ordem o
volta novamente à Terra. Segunda, ele é levado da inauguração do santuário ce- candelabro certificando-se de que cada uma das lâmpadas estava ardendo bril-
lestial para a intercessão, para o juízo, para a cessação do santuário, e finalmente hantemente e tinha um novo suprimento de azeite (cf. Ap 1:12-20). Em seguida
para sua ausência. Esta progressão é ilustrada a seguir. a este ministério a grande porta do Templo era aberta (cf. Ap 4:1). Então um
cordeiro era morto (cf. Ap 5:6), e o seu sangue derramado à base do altar do
holocausto no pátio exterior do Templo (cf. Ap 6:9). Depois do derramamento
do sangue, era oferecido incenso no altar de ouro do lugar santo (cf. Ap 8:3-4;

6
  A fonte para a descrição do sacrifício diário é o tratado Tamid da Mishnah, uma coleção de
  As palavras gregas para “juízo”, krisis, krima e krinô, são muito comuns na segunda metade do livro.
5
tradições mais antigas pertencentes às leis, tradições e práticas do judaísmo primitivo.
Estudos selecionados em interpretação profética Selos e trombetas

Lc 1:8-10). Então, durante um intervalo no cântico (cf. Ap 8:1), eram tocadas as Páscoa. As cartas às sete igrejas são rememorativas da Páscoa, a festa primária
trombetas para indicar que o sacrifício estava concluído (cf. Ap 8:2, 6). da estação primaveril. Por exemplo, em nenhuma outra parte do Apocalipse há
Não somente a primeira parte de Apocalipse reflete todos os importantes de- tão fortes concentrações de referências à morte e ressurreição de Cristo (cf. Ap 1:5,
talhes do sacrifício diário no Templo, mas também alude a eles essencialmente na 17-18).8 O intenso escrutínio de Cristo nas igrejas nos lembra a procura por fer-
mesma ordem. Assim, o material que constitui as igrejas, selos e trombetas parece mento em cada família judaica para removê-lo pouco antes da Páscoa (Êx 12:19;
estar habilmente associado com as atividades do Templo relacionadas ao serviço 13:7). Sendo que a Páscoa é a única festividade cumprida pelo Cristo terrestre
diário (tāmîd). Os adventistas do sétimo dia compreendem esses serviços diários (1Co 5:7), é apropriado que ela estivesse associada com esta porção do livro onde
como sendo típicos da fase intercessora do ministério de Cristo iniciado no san- Ele é retratado em seu ministério às igrejas na Terra.
tuário celestial por ocasião de sua ascensão em 31 d.C. O fato de que as cenas in- Pentecostes. Como a inauguração do santuário celestial, a cena do trono
trodutórias aos selos e às trombetas estão associadas à inauguração e intercessão do de Apocalipse 4–5 está adequadamente associada ao Pentecostes. O primeiro
santuário é certamente compatível com esta descoberta. Pentecostes ocorreu durante o tempo em que a lei foi dada a Moisés no monte
É interessante, portanto, descobrir no capítulo 11 que o livro muda para a Sinai (Êx 19–20). Como o novo Moisés, Cristo recebe de Deus, por assim dizer,
linguagem explícita dos serviços anuais do Dia da Expiação. Kenneth Strand a nova Torá (Ap 5). Êxodo 19 também envolvia a inauguração de Israel como
salienta que Apocalipse 11:1-2 contém uma clara alusão ao Dia da Expiação, o povo de Deus (Êx 19:5-6; cf.Ap 5:9-10). A liturgia judaica para a festa de
que vem imediatamente depois da referência ao término das profecias de tem- Pentecostes incluía a leitura de não apenas Êxodo 19, mas também de Ezequiel
po de Daniel (Ap 10:5, 6) (STRAND, 1984, p. 317-325). Em Levítico 16 — o 1, importante base literária para Apocalipse 4–5.
grande capítulo do Dia da Expiação —, é feita expiação pelo sumo sacerdote, o Festa das Trombetas e Dia da Expiação. O soar de sete trombetas — perto
santuário, o altar e o povo. O único outro lugar nas Escrituras onde os termos do centro do livro (Ap 8–9, 11) — lembra ao leitor as sete festas mensais da lua
santuário, altar e povo estão combinados é em Apocalipse 11:1-2. Sendo que nova que culminavam na Festa das Trombetas, assinalando a transição entre
208 o Sumo Sacerdote do Novo Testamento, Jesus Cristo, não precisa de expiação, as festas da primavera e do outono. A própria Festa das Trombetas, caindo no 209
a referência comum a santuário, altar, e povo sendo medidos parece ser uma primeiro dia do sétimo mês (correspondendo à sétima trombeta) introduzia
deliberada recordação do Dia da Expiação como o dia em que estes eram avali- solenemente a hora do juízo que preparava o caminho para o Dia da Expiação
ados ou “medidos” (cf. 2Sm 8:2; Mt 7:2). Essa tênue alusão ao Dia da Expiação (cf. 11:18-19). Há uma crescente focalização sobre o conceito do juízo deste
vem pouco antes da mais explícita de Apocalipse 11:18-19. ponto em diante no livro (Ap 14:7; 16:5, 7; 17:1; 18:8, 10, 20; 19:2 etc).
Concluindo, podemos inferir que o modelo diário/anual embutido nas Festa dos Tabernáculos. A última das cinco festas básicas do sistema levítico
imagens do santuário de Apocalipse sugere que a primeira porção do livro (cf. Lv 23) era a Festa dos Tabernáculos que seguia o Dia da Expiação. A colheita
(Ap 1–10) foi escrita tendo em mente o ministério intercessório de Cristo. No havia terminado (cf. Ap 14–20). Deus estava agora “habitando” com o seu povo (cf.
capítulo 11, a imagem que se relaciona com os serviços diários é substituída Ap 21:3). As celebrações de Apocalipse do fim dos tempos estão repletas de imagens
por alusões ao ministério orientado para o juízo do Dia da Expiação. Isso é de festividades, ramos de palmeira, música, e regozijo diante do Senhor (ver Ap
o que esperaríamos se a primeira metade do livro focaliza principalmente os 7:9ss. e Ap 19:1-10, bem como Ap 21–22). As imagens principais da festa — água e
grandes acontecimentos da Era Cristã e a última metade os eventos finais desta luz — encontram seu cumprimento final em Apocalipse 22:1, 5.
era quando o juízo trará um fim ao pecado e aos pecadores. Dentro do adventismo, as festas da primavera têm sido associadas à cruz de
Festas anuais em Apocalipse. Igualmente impressionante é a evidência Cristo e sua investidura e ministério no santuário celestial. As festas do outono en-
de que o livro de Apocalipse parece estar modelado também segundo as contram seu cumprimento no tempo do fim e no juízo pré-advento e acontecimen-
festas anuais do ano judaico.7 tos que envolvem a segunda vinda de Cristo. O que tem sido ignorado é o fato de

7
  Sou grato a Richard Davidson, do Seminário Teológico Adventista do Sétimo Dia, por muitas 8
  Embora o cordeiro morto seja mencionado na próxima parte de Apocalipse (Ap 5:6), ele mor-
das analogias aqui descritas. reu antes da cena de Apocalipse 5 (Ap 5:5-6; cf. 3:21).
Estudos selecionados em interpretação profética Selos e trombetas

que a Festa das Trombetas vem como o clímax de sete festas da lua nova (Nm 10:10) Assim, pode ser assumido que toda a cena é uma descrição do Dia da Expiação.
e forma a ponte entre as festas da primavera e do outono. Ela está, portanto, nas sete Estes argumentos certamente merecem investigação, mas não revertem o quadro
trombetas do Apocalipse em que se encontra a ponte cronológica entre as festas da mais amplo delineado brevemente acima.
primavera e do outono, entre um foco sobre a cruz e o início da Era Cristã, e um Em primeiro lugar, as analogias a Ezequiel e Daniel são informativas, mas
foco sobre o fim dos tempos em Apocalipse. não contam toda a história. João alude também a outras importantes passagens
Assim, a primeira metade de Apocalipse, baseada nos sacrifícios diários e nas do Antigo Testamento (Is 6; 1Rs 22:19-22; Êx 19). O denominador comum en-
festas da primavera, apresenta uma ênfase sobre a cruz e seus efeitos; ao passo que tre todas as cinco passagens do Antigo Testamento não é juízo, mas uma de-
a última metade do livro, baseada nos sacrifícios anuais e nas festas do outono, fo- scrição do trono de Deus. De fato, João seleciona a imagem da sala do trono de
caliza o fim. A Festa das Trombetas (o primeiro dia do sétimo mês) introduzia a Daniel 7 e Ezequiel 1–10, mas evita empregar seus aspectos de juízo.11
época do ano em que ocorria o juízo e o santuário era purificado (Ap 11:18-19). Especialmente impressionantes são as acentuadas diferenças entre Apocalipse
4–5 e Daniel 7. Em Daniel são postos uns tronos (Dn 7:9); em Apocalipse os tronos
Resumo já estão lá (Ap 4:2-4). Em Daniel muitos livros são abertos (Dn 7:10); em Apocalipse
O material acima sobre os antecedentes do santuário no Apocalipse indica que um livro está selado (Ap 5:1). Em Daniel a figura central é “o filho do homem” (Dn
o quiasma de Kenneth Strand é bem apoiado por amplas tendências que abrangem 7:13; um termo com o qual o Apocalipse certamente está familiarizado — 1:13);
o livro de Apocalipse como um todo. Estas tendências sugerem que João compreen- em Apocalipse ele é o Cordeiro (Ap 5:6; um termo mais apropriado para o serviço
dia os selos e as trombetas como cobrindo toda a dimensão da história cristã desde diário do que para o Dia da Expiação em qualquer caso).
os seus dias até o Segundo Advento (não importa quão longa João compreendia Como foi notado acima, a linguagem de juízo nas cenas de Apocalipse
que esta fosse). O principal ponto de diferença com Strand diz respeito a se o ponto 4–5 está totalmente ausente12 até 6:10, onde está claro que o juízo ainda não
central do livro é Apocalipse 11–12 ou 14–15. havia começado. Parece inconcebível que Apocalipse 4–5 pudesse ser a cena
210 Este assunto não é, porém, uma diferença essencial. O material de Apocalipse do juízo do fim dos tempos quando o juízo ainda não tem começado mesmo 211
12–14 é de transição. Seu objetivo e foco estão sobre a ira final das nações contra no tempo em que o quinto selo é aberto!
o remanescente (12:17; 13). Mas gasta muito tempo recapitulando a história que Conquanto haja algumas alusões ao santuário em Apocalipse 4–5 que po-
levaria até esse clímax, preparando o terreno para as operações finais de caracteres dem estar relacionadas ao Dia da Expiação, há muito mais que se relacionam
que têm estado funcionando na maior parte da era. Começando com o capítulo 15, com outros aspectos do santuário e seus serviços. A impressão geral dada por
o foco quase exclusivo é sobre o próprio término do tempo do fim. esta passagem não pertence a qualquer compartimento ou serviço, mas sugere
uma lista abrangente de quase todos os aspectos do antigo ministério.
O historicismo e os sete selos As séries de observações acima concernentes ao santuário na estrutura
O espaço não permite uma resposta ponto por ponto aos argumentos daque- literária do Apocalipse indicam fortemente que Apocalipse 4–5 é uma de-
les que acham que a profecia dos selos (Ap 4–8) tem em vista retratar os eventos scrição simbólica do serviço de inauguração no santuário celestial que ocor-
do fim dos tempos.9 O mais decisivo argumento bíblico para esta posição, porém, reu em 31 d.C. O que segue à cena de inauguração tem a ver com toda a Era
brota de duas observações: (1) É claro que Apocalipse 4 e 5 contém analogias a Cristão, não apenas o seu fim.
Daniel 7, Ezequiel 1–10 e Apocalipse 19. Sendo que o juízo é o tema principal des-
tas passagens paralelas, infere-se que a cena de Apocalipse 4–5 deve ser a do juízo
investigativo que se iniciou em 1844. (2) Também está claro que algumas das do Antigo Testamento (também pode se usada para outras aberturas dentro do santuário). O
imagens de Apocalipse 4–5 lembram aspectos dos rituais do Dia da Expiação.10 trono pode lembrar o propiciatório sobre a arca da aliança. As três pedras da primeira parte de
Apocalipse 4 podem ser encontradas no peitoral do sumo sacerdote, que ministrava no Dia da
Expiação. Os quatro seres viventes lembram os quatro querubins do Templo de Salomão.
11
  Escritores bíblicos posteriores frequentemente usam escritos inspirados mais antigos para um
9
  Para uma discussão da profecia dos selos, veja o capítulo 11 deste volume. propósito diferente do principal intento do escritor original.
10
  A “porta” de 4:1 pode se referir à porta entre os compartimentos do tabernáculo terrestre 12
  Em grego, as palavras são krima, krisis e krinō.
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Tentativas recentes para localizar Apocalipse 4 no primeiro compartimento do durante o tempo da graça, que evidência existe na série para indicar que a porta
santuário celestial e Apocalipse 5 no segundo compartimento são refutadas sobre da graça ainda está aberta para a humanidade?
a absoluta falta de evidência no texto para qualquer movimento do trono entre os Quando examinamos as cenas introdutórias às séries de sete visões do
dois capítulos. Os dois capítulos retratam uma simples localização visionária. Apocalipse, descobrimos que elas não somente precedem as cenas subse-
quentes, mas permanecem à vista por toda parte. Por exemplo, nas sete
O historicismo e as sete trombetas igrejas a visão introdutória precede as cartas no arranjo literário do livro,
Os argumentos para a interpretação da série de trombetas no fim dos tempos mas cada carta remete para as características de Cristo registradas nessa in-
(Ap 8–11) são um tanto mais fortes do que aqueles apresentados para a série dos trodução. Sendo que as cartas são escritas em prosa ordinária, elas proveem
selos. Afirma-se que o atirar do incensário (Ap 8:5) retrata o fim do tempo da uma clara indicação da estratégia literária do autor.
graça. Assim, a série de trombetas que se segue (8:7ss.) deve ter cumprimento Cada um dos sete selos é aberto durante a incessante atividade do Cordeiro
depois do fim da graça. Mais evidência para um cumprimento pós-fechamento na sala do trono celestial (Ap 5–6). Esta cena, começando com a inauguração
da porta da graça deve ser visto no fato de que os objetos destruídos pelas duas do santuário celestial, continua ao longo da abertura dos selos até a Segunda
primeiras trombetas — a terra, mar e árvores — não devem ser danificados até Vinda e até o tempo em que toda a criação louva a Deus (Ap 5:13).
depois que esteja completo o selamento do capítulo sete (Ap 7:1-3). A terceira A cena introdutória às sete taças (Ap 15:5-8) retrata um tabernáculo
peça de evidência para uma interpretação das trombetas pós-fechamento da vazio no Céu, o que é certamente apropriado para todo o período depois do
porta da graça é o fato de que a praga dos gafanhotos/escorpiões da quinta fechamento da porta da graça.
trombeta não tem permissão de afetar os selados, sugerindo assim um cenário Assim, cada visão introdutória provê o cenário para a atividade subsequente
depois do fechamento da porta da graça (Ap 9:4). e permanece ativa em segundo plano até a conclusão da visão. Sendo que este é
Estes argumentos, é claro, contrariam frontalmente a evidência acima de que tão claramente o caso para três das quatro séries de sete visões, o ônus da prova
212 João tinha uma preocupação pela Era Cristã como um todo na primeira metade do está sobre qualquer um que deseja argumentar que Apocalipse 8:2-6 é uma ex- 213
Apocalipse e apenas focalizou especificamente o fim dos tempos na última metade ceção. É mais provável que João pretendia que o leitor visse a intercessão no
do livro. Sob exame mais atento, porém, torna-se evidente que os argumentos para altar de ouro como estando disponível até o instante em que soa a sétima trom-
um cenário pós-fechamento da porta da graça para as trombetas baseiam-se mais beta, levando à finalização do “mistério de Deus” (Ap 10:7), isto é, à conclusão
em suposições do que na real evidência do texto bíblico. do evangelho (Rm 16:25-27; Ef 3:2-7; 6:19).
Cena introdutória do santuário: Apocalipse 8:2-6 Outras evidências do tempo da graça
A principal suposição que está por trás do primeiro argumento é que a cena O exposto acima é apoiado por abundante evidência de que a porta da graça
introdutória do santuário que retrata simbolicamente o ministério sacerdotal permanece aberta ao longo da sexta trombeta. A sexta trombeta equivale ao “seg-
de intercessão de Cristo é concluída antes do início das trombetas. Assim, o undo ai” e como tal vai claramente de Apocalipse 9:12 a 11:14. Em Apocalipse 9:13,
atirar do incensário (o final da provação humana) precede os eventos que se há uma voz “dos quatro ângulos do altar de ouro que se encontra na presença de
seguem no capítulo. Como resultado, todas as sete trombetas são compreendi- Deus”, uma clara referência ao altar de ouro de Apocalipse 8:3, 4. Isto sugere que a
das como vindo depois do fechamento da porta da graça. intercessão ainda está em andamento no tempo do soar da sexta trombeta.
A suposição de que a cena introdutória é concluída antes do início das trom- Em Apocalipse 9:20-21, aqueles que experimentam a praga da sexta trombeta
betas pode ser testada de duas maneiras. Primeira: As outras cenas introdu- não se arrependem, o que pode indicar que o arrependimento ainda é uma opção.
tórias (que precedem as sete igrejas, os sete selos e as sete taças) concluem antes Em Apocalipse 10:11, o profeta é informado de que ele deve profetizar outra
do começo de cada sétima série? Ou elas continuam permanecendo na base de vez, algo que faria pouco sentido depois do fechamento da porta da graça.
toda a sequência visionária? Segunda: Se as trombetas em grande parte ocorrem O que é mais importante, um grupo de pessoas descrito em Apocalipse
11:13 quando o “resto” ou os “restantes” (hoi loipoi — a mesma palavra aplicada
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para o remanescente de Apocalipse 12:17)13 “ficaram sobremodo aterrorizadas sétima, a sexta trombeta é o exato correlativo histórico de Apocalipse 7:1-8.
e deram glória ao Deus do Céu”. Qualquer ponto da história que possamos levar É a última oportunidade para salvação pouco antes do final.
isto a ser, é claramente uma resposta apropriada ao evangelho proclamado pelo Portanto, as sete trombetas não seguem os acontecimentos de Apocalipse 7 em
primeiro anjo de Apocalipse 14:6-7 — “Temei a Deus e dai-lhe glória.”14 ordem cronológica. Em vez disso, as trombetas aproveitam a sugestão e o início, a
Assim é evidente que a porta da graça continua aberta, e a intercessão partir da visão introdutória de Apocalipse 8:2-6. O principal tema dessa visão é in-
de Apocalipse 8:3, 4 continua até o fim da sexta trombeta. As sete trombe- tercessão no altar de incenso. Este é um suplemento apropriado para a inauguração
tas como um todo não são claramente compreendidas como sendo depois do santuário celestial conforme descrito em Apocalipse 5.
do fechamento da porta da graça.