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CENTRO UNIVERSITÁRIO FADERGS

CURSO DE DIREITO

RODRIGO SALDANHA FERNANDES

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E DIREITO - VANTAGENS E DESVANTAGENS NO


PROCESSO CIVIL

PORTO ALEGE
2019

1
Sumário
1. TÍTULO..............................................................................................................................2
2. TEMA..................................................................................................................................4
3. DELIMITAÇÃO DO TEMA E PROBLEMATIZAÇÃO...............................................5
3.1. Delimitação do tema.....................................................................................................5
4. HIPÓTESE.........................................................................................................................6
5. OBJETIVOS.......................................................................................................................7
5.1. Geral.............................................................................................................................7
5.2. Objetivos Específicos...................................................................................................7
6. JUSTIFICATIVA...............................................................................................................8
7. REFERENCIAL TEÓRICO...........................................................................................12
7.1. O Acesso à Justiça e a primeira “onda” por MAURO CAPPELLETTI..............12
7.2. Cenário Atual do Poder Judiciário.........................................................................14
7.3. O que é Inteligência Artificial (IA)?........................................................................18
7.3.1. História da IA a partir de Alan Turing................................................................21
7.3.2. IA Fraca e IA Forte.............................................................................................25
7.3.3. Machine Learning..............................................................................................26
7.3.4. Deep Learning....................................................................................................27
7.3.5. IA no Direito......................................................................................................27
7.4. Jurisdição..................................................................................................................32
7.5. Figura do Juiz: da Imparcialidade a Neutralidade do Julgador...........................34
7.6. Decisões de Juízes Humanos....................................................................................37
7.6.1. Conceito de decisões judiciais............................................................................37
7.6.1.1. Sentença..........................................................................................................38
7.6.1.2. Decisão Interlocutória.....................................................................................41
7.6.1.3. Despachos.......................................................................................................42
7.6.2. Hard Cases.........................................................................................................44
7.6.3. Easy Cases..........................................................................................................47
8. METODOLOGIA............................................................................................................49
8.1. Marco Teórico............................................................................................................49
8.2. Setores de Conhecimento...........................................................................................50
8.3. Natureza de Dados......................................................................................................50
8.4. Grau de Generalização dos Resultados.......................................................................50
8.5. Técnicas e Procedimentos Metodológicos..................................................................50
9. CRONOGRAMA.............................................................................................................52
10. SUMÁRIO PROVISÓRIO..............................................................................................53

2
11. REFERÊNCIAS...............................................................................................................55

1. TEMA

Vantagens e desvantagens da atribuição de Inteligência Artificial na elaboração


das decisões judiciais e o limite cognitivo do aprendizado das máquinas na resolução
dos litígios (Machine Learning/ Deep Learning)

3
2. DELIMITAÇÃO DO TEMA E PROBLEMATIZAÇÃO

O procedimento decisório judicial é um ato exclusivamente humano?


É possível definir os parâmetros legais para que um robô prolate uma decisão
judicial?

2.1. Delimitação do tema

Demonstrar a aplicabilidade da Inteligência Artificial nos tribunais brasileiros,


como forma de desobstruir o sistema de justiça nacional.
Avaliar os limites da utilização da Inteligência Artificial nas decisões judiciais,
uma vez que esta tecnologia permite um aprendizado contínuo para a máquina
(Machine Learning).
Analisar as vantagens e desvantagens desta ferramenta no Processo Civil.

4
3. HIPÓTESE

O uso da Inteligência Artificial pelos tribunais auxiliará no desafogamento do


Poder Judiciário, por meio da realização de determinados atos processuais,
proporcionando maior eficiência e economia, com menor dispêndio de tempo dos
servidores dos Tribunais. Assim sendo, o ato decisório deixará de ser exclusivamente
humano, permitindo – em alguns casos – a realização por robôs dotados de capacidade
para tal procedimento.
Dentre os procedimentos do juiz podemos destacar os despachos, que são
ordens judiciais cujo o objetivo é impulsionar o processo – podendo ser proferido a
requerimento das partes ou ex officio – sendo desprovidos de cunho decisório e por este
motivo sendo possível a utilização de sistema computacional dotado de IA para sua
concretização.
Obviamente, que por se tratar de uma máquina sua capacidade de aprendizado
dependerá dos algoritmos desenvolvidos pelos programadores. Para tal, precipuamente
deverá se definir parâmetros legais para sua utilização, assim como ja ocorre na União
Europeia, que em sua resolução de 12 de fevereiro de 2019, estabelece 1: “sobre uma
política industrial europeia completa no domínio da inteligência artificial e da robótica:
X.  Considerando que a aprendizagem automática também suscita desafios no que diz
respeito à garantia da não discriminação, ao processo equitativo, à transparência e à
inteligibilidade dos processos decisórios”. Desta forma, considerando o respeito às leis
brasileiras estabelecidas em nossa Carta Magna vigente, será possível estabelecer
critérios legais para que robôs possam prolatar sentenças.

1
EUROPARL, Disponível em: http://www.europarl.europa.eu/doceo/document/TA-8-2019-
0081_PT.html?redirect. Acesso em: 05 mai.2019

5
4. OBJETIVOS
4.1. Geral
Analisar a possibilidade de utilização da Inteligência Artificial nos processos
judiciais, no intuito de tornar mais célere as demandas, permitindo que determinados
procedimentos e/ou decisões sejam automatizados sem que haja necessidade de
interação do juiz humano.

4.2. Objetivos Específicos


 Analisar o acesso à Justiça e o cenário atual do Judiciário
Brasileiro;
 Analisar o desenvolvimento e estágio atual da IA;
 Verificar e delimitar a IA aplicada no Direito do Brasil e nos
Estados Unidos;
 Estudar a teoria das decisões humanas;
 Verificar quais procedimentos do processo poderão ser realizados
por robôs dotados de IA.

6
5. JUSTIFICATIVA

A reflexão acerca da morosidade no Poder Judiciário, que enfrenta déficit para


processar e julgar a enorme demanda nos faz ponderar a respeito da utilização da
tecnologia de Inteligência Artificial (IA) no Direito Processual Civil. O tema em foco
surge como uma necessidade e, porque não, uma novidade para os tribunais brasileiros,
no intuito de desafogar o judiciário, onde atualmente – conforme relatório de justiça em
números do CNJ – tramitam 80,1 milhões de processos. É evidente que o aumento da
população, da capacidade econômica e das inúmeras faculdades de direito contribuíram
para o acesso à justiça pela população, tendo como consectário o cenário jurisdicional
supracitado.
Assim, CARLOS SIMÕES FONSECA2 entende:

É indiscutível que um dos acontecimentos mais marcantes da última década


foi o considerável crescimento da massa litigiosa devido ao aumento
populacional, aos conflitos sociais, à ampliação do rol de direitos, à melhoria
dos mecanismos para defesa desses direitos, ao reconhecimento dos
interesses coletivos e dos legitimados a defendê-los, bem como à
conscientização da população quanto aos direitos a que faz jus, fenômenos
que, reunidos, ocasionaram a multiplicação dos litígios e contribuíram para o
"esgotamento" do sistema judicial para solucioná-los adequadamente.

Nesse mesmo diapasão para o aumento da demanda, temos a ordem


constitucional brasileira que assegura, de forma expressa na Constituição de 1988 (art.
5º, XXXV) o acesso à justiça3. “Têm-se aqui, pois, de forma clara e inequívoca, a
consagração da tutela judicial efetiva, que garante a proteção judicial contra lesão ou
ameaça de direito”4. Ainda, no mesmo condão, a Constituição no mesmo artigo 5º,
inciso LXXIV, assume a assistência judiciária, a qual prevê: “O Estado prestará
assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem a insuficiência de
recursos”, garantindo assim, o acesso à justiça para todos os cidadãos, inclusive os de
baixa renda.

2
GARBELLINI, Acesso à Justiça. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/19379/acesso-a-justica/2.
Acesso em: 20 abr.2019
3
BRASIL (lei federal). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Art5º: “Todos são iguais perante
a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no
País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos
seguintes termos: XXXV - A lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça de
direito”. Acesso em: 20 abr.2019
4
MENDES, Gilmar Ferreira, Curso de Direito Constitucional, 7ª edição revisada, São Paulo:
Saraiva, 2012, pág. 443.

7
Contudo, para o atendimento a estas garantias constitucionais não podemos
olvidar que o Estado necessita de magistrados e servidores, mas que estes encontram-se
sobrecarregados não conseguindo atender de forma eficiente as demandas judiciais.
Ademais, acrescido a isto temos fóruns no Brasil com infraestrutura precária,
desorganizados e desprovidos de tecnologia, por mais irônico que possa parecer esta
afirmação.
Segundo menciona DALMO DE ABREU DALLARI5

Em muitos lugares há juízes trabalhando em condições incompatíveis com a


responsabilidade social da magistratura, indo à deficiência material desde as
instalações precárias até as obsoletas organizações dos feitos num arcaico
papelório dos autos com fichários datilografados ou até manuscritos e os
inúmeros vaivens dos autos numa infindável prática burocrática de acúmulo
de documentos.

Outro indício da morosidade ocorre por conta de processos que retornam à


tramitação (casos pendentes), como por exemplo, “os casos de sentenças anuladas na
instância superior, ou de remessas de autos entre tribunais em razão de questões
relativas à competência ou de mudança de classe processual. Para se ter uma ideia,
somente em 2017 foram reativados 619.242 processos”6. Naturalmente, que devido a
estes fatores o judiciário brasileiro tornara-se um dos mais caros do mundo, segundo
“Justiça em Números”, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), atingindo o patamar de
90,8 bilhões de reais em 2017 com despesas do Judiciário, representando um
crescimento de 4,4% em relação ao ano de 2016, o equivalente a 1,4% de todas as
riquezas produzidas pelo Brasil no ano, medidas pelo Produto Interno Bruto (PIB). Se
comparado aos EUA, onde o custo chega à casa de 0,14% do PIB e na Alemanha na
faixa de 0,32% do PIB, percebemos o quão necessário se faz o uso da tecnologia de
Inteligência Artificial (IA) como aliada, proporcionando à efetividade da prestação
jurisdicional.
Corroborando aos fatos ante expostos, temos na abertura do seminário sobre
Inteligência Artificial, o discurso da ministra LAURITA VAZ que diz7,

5
DALLARI, Dalmo de Abreu. O Poder dos juízes. São Paulo: Saraiva, 1996. p. 156.
6
CNJ, Disponível em: http://www.cnj.jus.br/pesquisas-judiciarias/justicaemnumeros/2016-10-21-13-
13-04/pj-justica-em-numeros , página 55. Acesso em: 06 abr.2019
7
STJ, Disponível em: http://www.stj.jus.br/sites/STJ/default/pt_BR/Comunicação/noticias/Not
%C3%ADcias/Presidente-do-STJ-abre-seminário-sobre-inteligência-artificial-e-destaca-necessidade-
de-fazer-mais-com-menos
Acesso em: 04 abr.2019

8
É crucial que o Poder Judiciário concentre esforços no sentido de manter uma
constante atualização e modernização do seu parque tecnológico, em busca
sempre do aprimoramento de processos de trabalho, sobretudo, em razão da
permanente necessidade de redução de gastos e aumento de produtividade, ou
seja, teremos que realizar mais com menos.

O campo de atuação da Inteligência Artificial é tão vasto que o cientista e


programador ANDREW NG nas salas de aula da escola de negócios de Stanford
proferira: “É a maior revolução desde a introdução da eletricidade há 100 anos. Não
vejo nenhum setor que não será́ transformado a médio prazo”. 8 E, isso podemos
vislumbrar atualmente em diversos setores, desde jogos de vídeo game que aprendem
com os jogadores, passando pela medicina e alcançando a Justiça, haja vista o exemplo
do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que em menos de um segundo e com apenas um
click no computador julgou um total de 280 processos.  “Belo Horizonte foi palco de
uma das sessões mais importantes do Poder Judiciário de todos os tempos. Trata-se de
um grande salto em direção ao futuro”, disse o desembargador Afrânio Vilela.9
Vivemos em uma sociedade que exige eficiência do Poder Judiciário, onde a
demora para o julgamento é fator determinante para ineficiência jurisdicional, uma vez
que existem processos com duração superior a 7 (sete) anos para serem decididos.
Conforme Conselho Nacional de Justiça, “mesmo que não houvesse ingresso de novas
demandas, e fosse mantida a produtividade dos magistrados e dos servidores, seriam
necessários aproximadamente 2 anos e 7 meses de trabalho para zerar o estoque”10.
Outrossim, além das oportunidades fornecidas pelo trabalho há um interesse
pessoal pelo estudo, uma vez que atuo profissionalmente em uma área ligada às
inovações tecnológicas. Adicionalmente, durante a graduação em Direito sempre me
provoquei no sentido de entender como a tecnologia poderia ser utilizada em prol da
justiça, visando um atendimento mais célere e eficaz para a sociedade.
Desta forma, como o trabalho científico tem o objetivo aproximar a realidade e
analisá-la no intuito de produzir transformações, a discussão sobre Inteligência
Artificial no Direito, além do aspecto relevante, apresenta-se de suma importância para

8
FERNÁNDEZ, Expansão da inteligência artificial e novos rumos da economia no mundo. Disponível
em: http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/567689-expansao-da-inteligencia-
artificial-e-novos-rumos-da-economia-no-mundo. Acesso em: 30 mar.2019
9
TJMG, TJMG utiliza inteligência artificial em julgamento virtual. Disponível em:
https://www.tjmg.jus.br/portal-tjmg/noticias/tjmg-utiliza-inteligencia-artificial-em-julgamento-
virtual.htm#.XJ-Zdhpv-f0. Acesso em: 30 mar.2019
10
CNJ, Disponível: http://www.cnj.jus.br/pesquisas-judiciarias/justicaemnumeros/2016-10-21-13-13-
04/pj-justica-em-numeros, página 73. Acesso em: 06 abr.2019

9
o meio acadêmico. Assim sendo e considerando o atual cenário jurisdicional, a inclusão
de tecnologias como de Inteligência Artificial (IA) surgem como uma tendência vital e
indispensável para a redução de custos e demandas no Poder Judiciário. Por
conseguinte, percebe-se cada vez mais que as inovações tecnológicas, como a em voga,
tornaram-se mais do que necessárias na contemporaneidade, tornando-se
imprescindíveis. Logo, o presente estudo procurará analisar – sob a óptica da
aplicabilidade – o uso da Inteligência Artificial no Processo Civil e sua relevância para
o Direito.

10
6. REFERENCIAL TEÓRICO

6.1. O Acesso à Justiça e a primeira “onda” por MAURO CAPPELLETTI

O acesso à justiça não é algo novo, tem seu debate há algumas décadas,
principalmente a partir de 1965, quando posicionamentos nestes sentidos surgiram.
Dentre as principais possibilidades de solução para os problemas enfrentados
destacamos as três “ondas” de MAURO CAPPELLETI, sendo a primeira onda voltada a
assistência judiciária; a segunda em relação aos direitos difusos, principalmente em
ambiental e consumidor; e a terceira onda o enfoque de acesso à justiça, que contempla
os posicionamentos anteriores, só que de forma mais ampla11.
Destarte, cumpre salientar que a pesquisa ora apresentada utilizará da primeira
onda, ou seja, a assistência judiciária para os pobres. Pois, ela é considerada a principal
solução para os obstáculos de acesso ao Poder Judiciário e que foi fortemente abrangido
na CF/1988, como veremos a seguir. Devido à complexidade das leis e de
procedimentos jurídicos extremamente técnicos, faz-se necessário a advocacia para
suprir esta necessidade de acesso à justiça para o cidadão. De acordo com MAURO
CAPPELLETI, em sua análise da primeira onda, da assistência judiciária para os
pobres, podemos perceber que o Estado precisou prestar suporte para custear as
demandas das classes sociais pobres, pois tinha-se um cenário onde os advogados mais
experientes e competentes não trabalhavam nestas causas, pois tendiam aos trabalhos
remunerados. Ademais, aqueles advogados que aderiam a este tipo de trabalho
geralmente limitavam sua habilitação evitando a benevolência em excesso.12
Tinha-se ciência das falhas nestes programas e por isso, países como Alemanha
e Inglaterra introduziram reformas para assegurar uma garantia mais eficiente. A
Alemanha entre os anos 1919 a 1923 começou a remunerar os advogados que
prestassem a assistência judiciária, permitindo, inclusive, extensão do programa a todos
os advogados que tivessem interesse de pleiteá-la. Anos mais tarde, em 1949, foi a vez
da Inglaterra com seu estatuto, quando implantou um sistema que reconhecia a
importância de remunerar os advogados não somente pelos aconselhamentos jurídicos,

11
CAPPELLETTI, Mauro. O Acesso à Justiça. Tradução de Ellen Gracie Northfleet. Editora Fabris.
Porto Alegre, 1988. Pág. 31
12
CAPPELLETTI, Mauro. O Acesso à Justiça. Tradução de Ellen Gracie Northfleet. Editora Fabris.
Porto Alegre, 1988. Pág. 33

11
mas também na assistência judiciária. Esta prestação jurisdicional recebeu o nome
Legal Aid and Advice Scheme, sendo confiado a associação nacional dos advogados13.
A grande reforma, no sentido de permitir acesso à justiça iniciou-se nos
Estados Unidos, por meio da Office of Economic Opportunity em 1965 e disseminou
inúmeras mudanças ao redor do mundo nos anos seguintes. Esses movimentos ao redor
do mundo começaram a crescer e foram sendo aprimorados, superando inclusive, a ideia
da assistência judiciária.14
O sistema Judicare foi a maior realização da reforma, pois tinha como fator
crucial do programa fornecer aos cidadãos de baixa renda a representação adequada, da
mesma forma que seria prestado caso pudessem arcar com os custos do processo.
Devido a sua remuneração ser extremante atrativa – o Estado é quem pagava os
advogados particulares – o programa atraiu inúmeros advogados para prestação do
serviço jurisdicional. Como forma de selecionar os candidatos, fez-se necessário a
demonstração de qualificação por parte dos advogados para que estes pudessem obter a
assistência judiciária. Entretanto, nem tudo saiu como planejado, pois o sistema
Judicare superou a barreira da baixa renda, mas não conseguiu atender aos pobres em
todas suas necessidades, pois um novo obstáculo surgiu: os pobres pouco sabiam de
seus direitos, a não ser quando tratava-se de matéria de família ou criminal, pois
desconheciam matérias de consumidor, inquilino, etc. Nestes casos, a sociedade de
baixa renda deveria procurar um advogado particular para instruírem-se, mas numa
sociedade segregada entre ricos e pobres, esta procura não ocorria, inclusive por motivo
de vergonha. Ademais, os litigantes de baixa renda encontravam enormes desvantagens
frente às empresas.15
Posteriormente, surgiu o programa Advogado Remunerado pelos Cofres
Públicos, tenho cunho diferente do programa Judicare. A ideia do programa era
fornecer escritórios de vizinhança, atendidos por advogados pago pelo Estado. Sua
principal diferença em relação ao Judicare estava na conscientização dos pobres em
relação aos novos direitos, até então desconhecidos por estes. A estrutura fora
organizada de forma a estabelecer escritórios em locais de baixa renda, permitindo um
acesso mais fácil aos pobres sem quaisquer obstáculos. Com isso, os advogados
13
CAPPELLETTI, Mauro. O Acesso à Justiça. Tradução de Ellen Gracie Northfleet. Editora Fabris.
Porto Alegre, 1988. Págs. 32-33
14
CAPPELLETTI, Mauro. O Acesso à Justiça. Tradução de Ellen Gracie Northfleet. Editora Fabris.
Porto Alegre, 1988. Pág. 33
15
CAPPELLETTI, Mauro. O Acesso à Justiça. Tradução de Ellen Gracie Northfleet. Editora Fabris.
Porto Alegre, 1988. Pág. 38

12
buscavam oferecer aos clientes a conquista por seus os direitos, tanto no âmbito judicial
quanto extrajudicial, utilizando para tal o exercício de lobby. É notória as vantagens
deste modelo em relação ao Judicare, pois o programa Advogado Remunerado pelos
Cofres Públicos foi capaz de transpor barreiras além dos custos, atingindo fatores de
desinformação até então presentes no cotidiano dos pobres ora assistidos pelo modelo
anterior, inclusive no que tange o âmbito dos direitos difusos e coletivos dos pobres.16
A partir destes modelos de programas começaram a surgir novos sistemas ao
redor do mundo, muitos como combinações entre o sistema Judicare e o programa
Advogado Remunerado pelos Cofres Públicos, atendendo de forma mais eficiente a
sociedade pobre e, em contrapartida, especializando advogados nesta seara. Após a
análise da primeira “onda” de MAURO CAPPELLETI, tem-se evidenciado o
movimento que permitiu o acesso à justiça, contudo, o Poder Judiciário estava
preparado para tal volume? Qual reflexo causado pelo acesso à justiça no cenário atual
do Poder Judiciário? Respostas para estas perguntas encontraremos no próximo
capítulo.

6.2. Cenário Atual do Poder Judiciário

Vislumbra-se um Poder Judiciário abarrotado de processos e cada vez mais


distante de encontrar uma solução que atenda aos anseios da sociedade. Esta enxurrada
de demandas deve-se, principalmente, ao amplo acesso à justiça assegurado pela Carta
Magna de 1988, conforme destaca THIAGO CARLOS DE SOUZA BRITO 17 em sua
dissertação de mestrado:

Vivencia-se uma crise sem precedentes no Poder Judiciário. Após o período


de ditadura militar, encerrado com a promulgação de uma constituição
extremamente ambiciosa, o Poder Judiciário foi alçado ao patamar de bastião
das liberdades individuais. O acesso à justiça, durante o mencionado período,
era restrito a uma pequena parcela dos cidadãos brasileiros. Somente valiam-
se dos serviços judiciais aqueles que possuíam condições para tanto.
Contudo, após reabertura democrática, somada à ascensão da corrente que
defende o amplo acesso à justiça, recepcionada pela Constituição Federal de

16
CAPPELLETTI, Mauro. O Acesso à Justiça. Tradução de Ellen Gracie Northfleet. Editora Fabris.
Porto Alegre, 1988. Pág. 41
17
BRITO, Gerenciamento dos processos judiciais: Estudo Comparado dos Poderes e Atuação do Juiz
na Inglaterra, nos Estados Unidos e no Brasil – Dissertação Mestrado – Disponível em:
http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/BUOS-
9CKKAC/disserta__o___gerenciamento_dos_processos_judiciais_nos_eua_e_inglaterra.pdf?
sequence=1. Acesso em 24 mai.2019

13
1988, colocou o Poder Judiciário no lugar de convergência de todos os
anseios nacionais.

Todavia, não podemos considerar o acesso à justiça como um fator negativo,


muito pelo contrário, devemos comemorar esta conquista, uma vez que possibilitou a
toda população – principalmente as classes sociais menos favorecidas – um canal para
solução dos seus litígios. Desta forma, em hipótese alguma, poderemos retroagir e
refletir sobre o óbice deste acesso à justiça.18
Corroborando com a afirmação supra destacamos MAURO CAPPELLETTI,
em seu livro o acesso à justiça, quando diz: “O acesso à justiça pode, portanto, ser
encarado como o requisito fundamental – o mais básico dos direitos humanos – de um
sistema jurídico moderno e igualitário que pretenda garantir, e não apenas proclamar os
direitos de todos”19.
Ademais a conquista do acesso à Justiça, a Constituição de 1988 foi
responsável por inúmeras mudanças no Direito brasileiro, principalmente no que se
refere a hierarquia e estrutura do Poder Judiciário. Dentre as principais mudanças
destacam-se a autonomia administrativa e financeira, além da independência dos
poderes. Como destaca MARIA TEREZA AINA SADEK 20: “Foi assegurada autonomia
administrativa e financeira ao Judiciário, cabendo a este a competência de elaborar o seu
próprio orçamento, a ser submetido ao Congresso Nacional conjuntamente com o do
Executivo”.
No mesmo sentido, a nossa Carta Magna de 1988 garantiu um acesso a justiça
de forma ampla, por meio de seu artigo 5º, inciso XXXV. De forma complementar, em
seu artigo 5º, inciso LXXIV, estabeleceu que o Estado será responsável por prover
assistência judiciária gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos. Oportuno
destacar que ao propiciar a sociedade maior facilidade de acesso à justiça, previsível
deveria ser que a demanda aumentaria de forma exponencial e que o Poder Judiciário
precisaria preparar-se para suportar esta enxurrada de processos. Contudo, pouco viu-se

18
BRITO, Gerenciamento dos processos judiciais: Estudo Comparado dos Poderes e Atuação do Juiz
na Inglaterra, nos Estados Unidos e no Brasil – Dissertação Mestrado – Disponível em:
http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/BUOS-
9CKKAC/disserta__o___gerenciamento_dos_processos_judiciais_nos_eua_e_inglaterra.pdf?
sequence=1. Acesso em 24 mai.2019
19
CAPPELLETTI, Mauro. O Acesso à Justiça. Tradução de Ellen Gracie Northfleet. Editora Fabris.
Porto Alegre, 1988. Pág. 12
20
SADEK, Poder Judiciário: perspectivas de reforma. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S0104-62762004000100002. Acesso em: 11 mai.2019.

14
de melhorias para tornar o judiciário mais célere e eficaz, como aduz MARIA TEREZA
AINA SADEK21:

Nos últimos tempos, entretanto, tornou-se dominante a idéia de que estas


instituições, além de incapazes de responder à crescente demanda por justiça,
tornaram-se anacrônicas e, pior ainda, refratárias a qualquer modificação.
Nas análises mais impressionistas sustenta-se, inclusive, que as instituições
judiciais ficaram perdidas no século XVIII ou, na melhor das hipóteses, no
XIX, enquanto o resto do país teria adentrado o ano 2000.

Obviamente que o judiciário está sobre sobrecarregado devido ao número de


processos entrantes se comparado aos conclusos. Conforme relatório justiça em
números 2018 do CNJ22, 80,1 milhões de processos estão aguardando sua conclusão. O
ano de 2017 foi o que apresentou melhor resultado, uma vez que tivemos 31 milhões de
processos baixados contra 29,1 milhões ingressantes, representando 6,5% de evolução.
Em contrapartida, o cenário histórico desde 2009 é desfavorável, registrando
um crescimento acumulado de 18,3%. Desde 2015 percebe-se que o número de
baixados supera os de casos novos, sendo que em 2017 foi o primeiro ano em que o
volume de baixados superou o patamar de 30 milhões de casos solucionados, conforme
figura 1 extraído relatório justiça em números23.

Figura 1: Série histórica dos casos novos e processos baixados

21
SADEK, Poder Judiciário: perspectivas de reforma. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S0104-62762004000100002. Acesso em: 11 mai.2019.
22
CNJ, Disponível em: http://www.cnj.jus.br/pesquisas-judiciarias/justicaemnumeros/2016-10-21-13-
13-04/pj-justica-em-numeros , página 73. Acesso em: 11 mai.2019
23
CNJ, Disponível em: http://www.cnj.jus.br/pesquisas-judiciarias/justicaemnumeros/2016-10-21-13-
13-04/pj-justica-em-numeros , página 74. Acesso em: 11 mai.2019

15
Mesmo com uma redução histórica entre o número de processos baixados
versus casos novos, o estoque não reduziu, conforme demonstra a Figura 2, da justiça
em números do CNJ. O crescimento acumulado no período 2009-2017 foi de 31,9%, ou
seja, acréscimo de 19,4 milhões de processos.24

Figura 2: Série histórica dos casos pendentes

Ademais ao volume de processos, não podemos esquecer que estes trarão


reflexos nos custos e, diga-se de passagem, ocasionarão altos custos de manutenção,
principalmente nas despesas de RH. De acordo com relatório do CNJ, justiça em
números, no ano de 2017, as despesas totais do Poder Judiciário atingiram o montante
de R$ 90,8 bilhões (figura 3), sendo que R$ 82,2 bilhões são relacionadas ao RH, o que
representa 90,5% de todas as despesas do Poder judiciário. Ainda, o montante de R$
90,8 bilhões significou um crescimento de 4,4% se comparado ao ano de 2016.25

Figura 3: série histórica das despesas

24
CNJ, Disponível em: http://www.cnj.jus.br/pesquisas-judiciarias/justicaemnumeros/2016-10-21-13-
13-04/pj-justica-em-numeros , página 74. Acesso em: 11 mai.2019
25
CNJ, Disponível em: http://www.cnj.jus.br/pesquisas-judiciarias/justicaemnumeros/2016-10-21-13-
13-04/pj-justica-em-numeros , página 56. Acesso em: 25 mai.2019

16
O cenário contemporâneo do Poder judiciário pouco traduz uma justiça célere
e eficiente de forma a atender as necessidades e anseios da sociedade. Posto isso,
pergunta-se até quando a máquina pública conseguirá suportar este aumento de
demanda e de custos? Até onde o uso da IA poderá auxiliar o Poder Judiciário? Antes
de respondermos a estas perguntas, faz-se necessário entendermos do que se trata a
tecnologia de Inteligência Artificial, uma às maiores inovações criadas pelo ser humano.
Para isso, abriremos espaço no próximo capítulo desta pesquisa jurídica para explicar
sobre tecnologia da informação, mas especificamente IA.

6.3. O que é Inteligência Artificial (IA)?

De acordo com COPPIN, IA consiste na capacidade de um computar pensar e


ter consciência da mesma forma que o ser humano, utilizando para tal algoritmos
(expressão textual das etapas da resolução de algum problema) e processamento de
hardware. Desta forma, seria possível a criação de sistemas que simulam a capacidade
do ser humano de pensar, resolver problemas, ou seja, de ser inteligente. 26
Podemos visualizar na a figura abaixo oito definições de IA, divididas em duas
dimensões. Em suma, as definições dispostas na parte superior da tabela se vinculam a
processos de pensamento e raciocínio, por sua vez na parte inferior teremos às
definições se relacionadas ao comportamento. Ainda, de forma complementar, a
esquerda da tabela temos as descrições que mensuram o sucesso no que tange a
fidelidade no sentido do desempenho humano, enquanto do lado direitos as definições
aferem o sucesso se comparado a um conceito inteligência, denominado racionalidade27.

26
COPPIN, Ben. Inteligência Artificial. [Minha Biblioteca]. Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/978-85-216-2936-8/. Acesso em 18 mai.2019
27
RUSSEL, STUART J. (Stuart Jonathan), 1962- Inteligência artificial /tradução Regina Célia Simille.
– Rio de Janeiro: Elsevier, 2013, pág.25.

17
O campo da IA é tão vasto que não se permite ficar restrito a uma área
específica de pesquisa; trata-se de um programa multidisciplinar. Sua ambição inicial
simular os processos cognitivos do ser humano. Contudo, atualmente seus objetivos são
desenvolver robôs capazes de resolver alguns problemas muito melhor que os humanos.
Para tal, a IA utiliza-se de multidisciplinar como: ciência da computação, matemática
(lógica, otimização, análise, probabilidades, álgebra linear), ciência cognitiva e por fim,
o conhecimento específico dos campos aos quais queremos aplicá-la. Já, os algoritmos
que desenvolvem a IA utiliza-se de: análise semântica, representação simbólica,
aprendizagem estatística ou exploratória, redes neurais e etc. As técnicas de aprendizado
são uma revolução das abordagens históricas da IA: em vez de programar as regras
(geralmente muito mais complexas do que se poderia imaginar) que governam uma
tarefa, agora é possível deixar a máquina descobrir sozinha, de forma autônoma.28
A IA consiste em um sistema que consulta um banco de dados para retornar a
busca desejada, conforme ROMULO SOARES VALENTINI29:

Inicialmente, é necessário estabelecer o mecanismo de entrada de dados


(input). Um algoritmo deve ter um ou mais meios para recepção dos dados a
serem analisados. Em uma máquina computacional, a informação deve ser

28
VILLAN, Donner uns sens à li’intelligence artificielle: pour une stratégie nationale et européenne.
Disponível em: https://www.aiforhumanity.fr Acesso em 18 mai.2019
29
VALENTINI, Julgamento por computadores? As novas possibilidades da juscibernética no século
XXI e suas implicações para o futuro do direito e do trabalho dos juristas. Tese. (Doutorado em
direito) – Faculdade de Direito, Universidade Federal de Minas Gerais. Disponível em:
http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/BUOS-
B5DPSA/vers_o_completa_tese_romulo_soares_valentini.pdf?sequence=1. Belo Horizonte. p. 44-45.
Acesso em 18 mai.2019

18
passada para o computador em meio digital (bits). Do mesmo modo, é
necessário ter um mecanismo para a saída ou retorno dos dados trabalhados
(output). Um algoritmo deve ter um ou mais meios para retorno dos dados, os
quais devem estar relacionados de modo especifico com o input. Por
exemplo, um algoritmo de uma calculadora que receba as informações para
somar 2+2 (input) irá retornar como resultado o número 4 (output). O output
decorre do input, sendo papel do algoritmo fornecer o retorno dos dados
corretos a partir dos dados de entrada. Uma vez que o algoritmo não faz
nenhum juízo de valor para além de sua programação, é necessário que a
relação de “correção” entre o input e o output seja definida de modo preciso e
sem ambiguidade. Por isso, os algoritmos precisam ter cada passo de suas
operações cuidadosamente definido. Assim, cada passo da tarefa
computacional deve seguir um roteiro de tarefas pré-determinado e o
programa (computação dos dados) deve terminar depois que o roteiro seja
cumprido. O algoritmo tem que ser finito, ou seja, entregar algum retorno
(output) após cumpridos todos os passos estabelecidos. Para cumprir a tarefa
adequadamente, cada operação que o algoritmo tiver que realizar deve ser
simples o suficiente para que possa ser realizada de modo exato e em um
tempo razoável (finito) por um ser humano usando papel e caneta. Conclui-
se, desse modo, que um o algoritmo é um plano de ação pré-definido a ser
seguido pelo computador, de maneira que a realização continua de pequenas
tarefas simples possibilitará a realização da tarefa solicitada sem novo
dispêndio de trabalho humano.

De forma exemplificativa sobre o procedimento adotado pelos algoritmos


podemos utilizar o Google, maior buscador da internet, que realiza suas buscas por meio
do sistema PageRank30:

O PageRank é um ranking global de todas as páginas da internet,


independentemente do seu conteúdo, com base apenas na sua localização na
estrutura de grafos da rede. Usando o PageRank, podemos solicitar resultados
de pesquisa para que as páginas mais importantes e centrais da internet
tenham preferência. Em experimentos, isso resulta em proporcionar
resultados de pesquisa de qualidade superior aos usuários. A programação do
PageRank consiste em usar informações que são externas às próprias páginas
da internet - seus backlinks, que fornecem uma espécie de revisão por pares.
[...] Para que uma página obtenha um nível alto no PageRank, ela deve
convencer uma página importante, ou um monte de páginas não importantes,
a se conectar a ela.

Traduzindo, PageRank realiza a pesquisa na internet com bases nos dados que
foram imputados em seu buscador, verificando os sites mais relevantes e os respectivos
pesos no quesito de confiabilidade e segurança dos dados. Desta forma, apresenta-se ao
usuário uma lista de endereços que poderá acessar.

30
VALENTINI, Julgamento por computadores? As novas possibilidades da juscibernética no século
XXI e suas implicações para o futuro do direito e do trabalho dos juristas. Tese. (Doutorado em
direito) – Faculdade de Direito, Universidade Federal de Minas Gerais. Disponível em:
http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/BUOS-
B5DPSA/vers_o_completa_tese_romulo_soares_valentini.pdf?sequence=1. Belo Horizonte. p. 46
Acesso em 18 mai.2019

19
Podemos considerar que a IA, como dissemos anteriormente é vasto, que
possivelmente chegaremos a um cenário onde teremos a tecnologia dotada sentimentos.
Os sentimentos não são exclusividades do ser humano, pois de acordo com estudos
científicos em relação ao funcionamento do cérebro e corpo, os sentimentos seriam
mecanismos bioquímicos inerentes a mamíferos e aves, que são utilizados para análise
de probabilidades de sobrevivência e reprodução. Assim sendo, baseiam-se em cálculos
e não em intuição, inspiração ou liberdade.31
Mas, podemos perguntar porque esta tecnologia avança com tanta velocidade.
Será que ela é uma novidade mesmo? Como veremos no capítulo seguinte, a história da
IA vem de longa data, já analisada por filósofos na Grécia antiga, porém, iniciaremos a
partir de Alan Turing, principal nome no campo de Inteligência Artificial.

6.3.1. História da IA a partir de Alan Turing

Mesmo ciente que a lógica surgiu na Grécia antiga por ARISTÓTELES,


quando criou a ideia do Silogismo – base importante para pesquisas no campo da IA –
optou-se por iniciar a história da IA na presente pesquisa por ALAN TURING, já que
ele fora uma das maiores personalidades na história da Inteligência Artificial. ALAN
TURING destacou-se grandiosamente durante a Segunda Guerra Mundial, quando
trabalhou em Bletchley Park para o serviço de inteligência britânico (Government Code
and Cypher School), auxiliando na quebra de códigos criptografados (Máquina Enigma)
da frota naval alemã.32 A máquina Enigma tinha capacidade de mudar seus códigos de
codificação diariamente, sendo necessário que o processo de descriptografia fosse ainda
mais ágil, sob pena de não conseguir interceptar as ações devastadoras dos ataques
alemães. Para solucionar os enigmas da máquina alemã TURING projetou a Bomba,
equipamento responsável por solucionar as mensagens criptografadas da máquina
Enigma e que fora construída em 1940. Esta máquina era capaz de realizar milhares de
combinações a fim de obter a chave das mensagens geradas pelos alemães.33

31
HARARI, Yuval Noah, 21 lições para o século 21. 1ª edição. São Paulo: Companhia das letras,
2018. Pág. 72-73
32
COPPIN, Ben. Inteligência Artificial. [Minha Biblioteca]. Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/978-85-216-2936-8/. Acesso em 18 mai.2019
33
ALMEIDA, Alan Turing - A Bomba - a lógica, a matemática e a cifra -. Disponível em:
https://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/871/1/TURING.PDF. Acesso em 18 mai.2019

20
Após a guerra, TURING começou a trabalhar na construção de um computador
que fosse capaz de pensar. O seu trabalho publicado em 1950, Computing Machinery &
Intelligence, sendo um dos primeiros trabalhos sobre o tema. A grande questão do teste
estava na imitação, sendo: “baseado na ideia de que se uma pessoa interrogasse o
computador e não pudesse dizer se este era um humano ou um computador, então, para
todos os efeitos, conforme TURING, o computador seria inteligente34”.
No final da década de 1950 começaram a surgir programas de computador
capazes jogar xadrez. No mesmo período iniciaram os investimentos para desenvolver
programas de computador providos da capacidade de compreensão da língua humana.
O termo conhecido por Inteligência Artificial surgiu em 1956, durante uma
conferência Dartmouth College, em Hanover, New Hampshire, quando foi apresentado
por JOHN MCCARTHY. Já em 1958 MCCARTHY desenvolveu a linguagem de
programação LISP, sendo utilizada até hoje no ramo da IA. Em 1959, surge pela
primeira vez o termo Machine Learning, o que permite ao computador aprender
determinadas funções sem necessidade de programação. A ideia principal é alimentar o
sistema de informações para que a máquina aprenda a executar uma tarefa
automaticamente35.
As décadas de 1960 a 1990 foram as menos inovadoras, sendo considerado um
período sombrio no campo da IA. Todavia, na segunda metade da década de 1990, com
advento da internet começaram a ressurgir por programas de busca na internet, como o
caso do protótipo do Google. Ainda na década de 90, mais precisamente em 1997 surgiu
Deep Blue, computador da IBM que derrotou o campeão soviético GARRY
KASPAROV. A conceito do Deep Blue baseava-se em cálculos de possibilidades,
prevendo respostas e realizando os melhores movimentos no tabuleiro36.
Em 2011 a IBM disponibilizou o Watson, um computador com IA
desenvolvido para responder perguntas, de um famoso jogo chamado Jeopardy. Neste
jogo o Watson competiu contra KEN JENNINGS e BRAD RUTTER, os dois campeões
maiores campeões da história do programa)37. Ainda em 2016 a capacidade da
34
COPPIN, Ben. Inteligência Artificial. [Minha Biblioteca]. Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/978-85-216-2936-8/. Acesso em 18 mai.2019
35
INSTITUTO DE ENGENHARIA, a história da inteligência artificial, disponível em:
https://www.institutodeengenharia.org.br/site/2018/10/29/a-historia-da-inteligencia-artificial. Acesso
em: 15 mai.2019.
36
INSTITUTO DE ENGENHARIA, a história da inteligência artificial, disponível em:
https://www.institutodeengenharia.org.br/site/2018/10/29/a-historia-da-inteligencia-artificial. Acesso
em: 15 mai.2019.
37
BOURCHARDT, Inteligência Artificial — Um pouco da história e avanços atuais. Disponível em
https://medium.com/@eliezerfb/intelig%C3%AAncia-artificial-499fc2c4aa79. Acesso em: 15 mai.

21
inteligência artificial foi testada novamente em um jogo de Weiqi ou Go, quando um
computador venceu Lee Sedol considerado o melhor jogador de Go do mundo.38
Durante o maior evento de tecnologia da Europa, Web Summit 2017, em
participação por teleconferência, STEPHEN HAWKING afirmou: “Não podemos
prever o que seremos capazes de alcançar quando o nosso próprio intelecto for ampliado
pela inteligência artificial. Talvez com essa revolução tecnológica possamos reduzir
parte dos danos feitos à natureza, erradicar doenças e a pobreza”.39
Para ter ideia da amplitude proporcionada pela IA, em 2016 o norte-americano
DAVID HANSON, proprietário da Hanson Robotics, criou a robô Sophia, sendo a
primeira androide dotada de Inteligência Artificial no mundo. Sophia possui capacidade
de conversação, de demonstrar expressões com o rosto similares às das pessoas e
aumentar sua capacidade de conhecimentos cada vez que interage com um humano.
Dentre as criações de David, Sophia foi a que melhor desenvolveu as três características
que seu inventor buscava para um robô: criatividade, empatia e compaixão. 40 Esta
androide viaja o mundo participando de eventos com celebridades e chefes de Estado,
como por exemplo, quando participou de uma palestra da ONU. Para se ter ideia da
capacidade de Sophia, em determinado momento o fotógrafo DI STURCO, que teve
acesso ao laboratório Hanson Robotics em Hong Kong, onde estavam trabalhando com
Sophia afirmou: “No começo, foi um pouco difícil. [Sophia] não reconhecia a câmera...,
mas depois de três dias, ela aprendeu. Não sei se o engenheiro colocou alguma coisa no
software ou se ela entrou na internet e pesquisou, mas ela começou a posar”. 41 Assim
como reflexo da máquina de TURING, DI STURCO completou: “Na verdade, foi muito
estranho – em um momento, eu percebi que estava falando com ela […]. Eu tive que me
afastar para perceber que ela era um robô, não um ser humano”.42
2019.
38
LEISTER, Inteligência Artificial: o futuro é agora. Disponível em:
https://canaltech.com.br/inteligencia-artificial/inteligencia-artificial-o-futuro-e-agora-100050/. Acesso
em 18 mai.2019
39
CAMPOS, Stephen Hawking: a inteligência artificial pode ser a melhor ou a pior coisa que já
aconteceu à humanidade, disponível em:
https://epocanegocios.globo.com/Tecnologia/noticia/2017/11/stephen-hawking-inteligencia-artificial-
pode-ser-melhor-ou-pior-coisa-que-aconteceu-humanidade.html. Acesso em: 18 mai.2019
40
CORONA, Robô Sophia: “Os humanos são as criaturas mais criativas do planeta, mas também as
mais destrutivas”. Disponível em:
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/06/tecnologia/1523047970_882290.html, acesso em: 18
mai.2019
41
GRESHKO, Conheçam Sophia, a robô que parece quase humana. Disponível em:
https://www.nationalgeographicbrasil.com/fotografia/2018/05/conhecam-sophia-robo-que-parece-
quase-humana. Acesso em: 19 mai.2019
42
GRESHKO, Conheçam Sophia, a robô que parece quase humana. Disponível em:
https://www.nationalgeographicbrasil.com/fotografia/2018/05/conhecam-sophia-robo-que-parece-

22
Obviamente que a IA não vive somente de fatores positivos, pois como tudo
ela também tem seus fatores negativos, desde o medo em relação ao desemprego no
futuro, uma vez que o ser humano poderia ser substituído por máquinas, até os casos
onde há conflitos em relação à segurança e domínio do humano sobre a máquina. Em
relação aos empregos no futuro destaca-se o apontamento feito por YUVAL NOAH
HARARI43, que diz:

Humanos tem dois tipos de habilidades – física e cognitiva. No passado, as


máquinas competiram com os humanos principalmente em habilidades
físicas, enquanto os humanos se mantiveram à frente das máquinas em
capacidade cognitiva. Por isso, quando trabalhos manuais na agricultura e na
indústria foram automatizados, surgiram novos trabalhos no setor de serviços
que requeriam o tipo de habilidade cognitiva que só os humanos possuíam:
aprender, analisar, comunicar e acima de tudo compreender as emoções
humanas. No entanto, a IA está começando agora a superar os humanos em
um número cada vez maior dessas habilidades, inclusive a de compreender as
emoções humanas.

Outro exemplo importante do cuidado que a sociedade deverá ter ao adotar


sistemas com IA diz respeito à segurança e domínio sobre o mesmo, pois o poderoso
Facebook teve de desligar dois robôs (Bob e Alice) que começaram a se comunicar em
idioma próprio, sendo que foram configurados para falar em inglês. O risco de perderem
o controle sobre as máquinas foi tão alto que decidiram por desligar os robôs. No caso
em destaque, os engenheiros estavam testando a conversação entre dois chatbots. O
projeto consistia em resolver como transacionar bolas de determinados valores,
realizando uma negociação entre os dois Bots para produzir o melhor resultado possível
para o negócio. Contudo, em determinado momento a conversa perdeu sentido para os
engenheiros, mas que para os bots passou a ser uma linguagem natural. Mais tarde os
engenheiros descobriram que se tratou de uma improvisação que os robôs estavam
programados para fazer, mas que seguiu um rumo inesperado. Por este motivo, os
programadores decidiram por desligarem os bots44.
Após esta breve análise histórica da IA, precisaremos retornar ao estudo da IA
no que diz respeito a seus tipos de tecnologia e suas capacidades, pois será de
fundamental importância para continua desta pesquisa, uma vez que a mesma se baseia

quase-humana. Acesso em: 19 mai.2019


43
HARARI, Yuval Noah, 21 lições para o século 21. 1ª edição. São Paulo: Companhia das letras, 2018.
Pág. 41
44
CAETANO, Facebook desliga dois robôs de Inteligência Artificial que “inventaram a própria
língua”. Disponível em: https://observador.pt/2017/08/01/facebook-desliga-dois-robos-de-
inteligencia-artificial-que-inventaram-a-propria-lingua. Acesso em 19 mai.2019

23
na implantação do seu uso no ramo do Direito. O capítulo seguinte falará um pouco
sobre os tipos de IA, que subdividem-se em IA Fraca e IA Forte e, também, nos tipos de
aprendizados das máquinas como Machine Learning e Deep Learning.

6.3.2. IA Fraca e IA Forte

O conceito de IA fraca e IA forte surgiu com base no teste de Turing, já


apresentado neste trabalho no capítulo da história da IA. Conforme RÔMULO
SOARES VALENTINI45 a definição de Turing permitiu a cisão das duas hipóteses:

A afirmação de que as máquinas poderiam agir de forma inteligente (ou,


talvez melhor, agir como se fossem inteligentes) é chamada de hipótese de
"IA fraca" pelos filósofos, e a afirmação de que as máquinas que agem de
forma inteligente estão realmente pensando (ao contrário de simular o
pensamento) é chamada de hipótese de "IA forte".

Com base no exposto podemos conceituar que a IA fraca está relacionada com
o desenvolvimento de sistemas ou robôs com determinado teor de inteligência,
entretanto, não sendo capazes de raciocinar de forma independente. Desta forma, a
máquina ou sistema dependerá da programação realizada pelos especialistas, pois o que
não for inserido por humano é que for testado não apresentará retorno, pois neste caso
não existe um real raciocínio da máquina. Em suma, a IA fraca apenas simula a
inteligência humana, porém, não é inteligente e não possui autoconsciência.
Em contrapartida, no caso da IA forte a máquina possui o atributo de pensar e é
dotada autoconsciência, e não somente de simular o raciocínio humano. Por exemplo, se
uma máquina for submetida ao processo de escrever uma poesia, ela teria que ter
consciência do que escreveu e não somente organizar as palavras para formar frases.
Resumindo, neste caso a máquina teria consciência do que produziu46.
O intuito de apresentar a IA fraca na presente pesquisa foi de explicar as
diferenças básicas entre a mesma e a IA forte. Contudo, para responder os problemas
propostos na pesquisa trabalharemos apenas com a IA forte, a partir dos modelos de

45
VALENTINI, Julgamento por computadores? As novas possibilidades da juscibernética no século
XXI e suas implicações para o futuro do direito e do trabalho dos juristas. Tese. (Doutorado em
direito) – Faculdade de Direito, Universidade Federal de Minas Gerais. Disponível em:
http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/BUOS-
B5DPSA/vers_o_completa_tese_romulo_soares_valentini.pdf?sequence=1. Belo Horizonte. p. 55
Acesso em 18 mai.2019
46
GRANATYR, IA Forte x IA Fraca. Disponível em: https://iaexpert.com.br/index.php/2017/01/17/ia-
forte-x-ia-fraca/. Acesso em: 19 mai.2019

24
Machine Learning e Deep Learning, pois somente a IA forte tem a capacidade de
raciocínio e consciência.

6.3.3. Machine Learning

O aprendizado de máquina (em inglês, Machine Learning) é um modelo de IA


forte que automatiza a construção dos modelos analíticos utilizando a análise de dados
inseridos em sua base por meio de algoritmos. É um ramo da IA cuja ideia se baseia em
sistemas que aprendem com dados, identificam padrões e tomam decisões com o
mínimo de ação humana. Para que tenha sucesso é necessário que os dados atendem
determinados requisitos, pois desta forma a teoria estatística será matematicamente
confirmada. O Machine Learning surgiu pela capacidade de os computadores
examinarem a base de dados, mesmo se desconhecermos esta base de dados. Os
algoritmos de Machine Learning aprendem a partir dos dados a eles submetidos e,
assim, as máquinas são treinadas para aprender a executar diferentes tarefas de forma
autônoma. Logo, ao serem expostas a novos dados, elas se adaptam a partir dos cálculos
anteriores e os padrões se moldam para oferecer respostas confiáveis.
Como Machine Learning geralmente usa uma abordagem iterativa (realiza
procedimentos inúmeras vezes) para aprender com os dados, o aprendizado pode ser
facilmente automatizado. As etapas são executadas repetidas vezes até que um padrão
robusto e confiável seja encontrado.47

6.3.4. Deep Learning

Deep Learning, ou aprendizagem profunda, como segundo modelo de IA forte


é a parte do aprendizado da máquina que, por meio de algoritmos de alto nível, imita a
rede neural do cérebro humano, tendo como aplicações principais o reconhecimento de
imagens e a transformação de palavras em sons. Para alcançar este nível de
conhecimento foi utilizado um princípio de redes neurais artificiais, que simulam o
pensamento por neurônios de forma autônoma.
De forma simples e objetiva, podemos falar que Deep Learning são algoritmos
complexos desenvolvidos por meio de um empilhamento de inúmeras camadas de

47
SAS, Machine Learning. Disponível em: https://www.sas.com/pt_br/insights/analytics/machine-
learning.html. Acesso em: 19 mai.2019

25
neurônios artificiais, alimentados por uma imensa base de dados, capaz de reconhecer
imagens e fala, processar a linguagem natural e aprender a realizar tarefas
extremamente avançadas sem interferência humana.48
Agora que entendemos sobre os tipos da Inteligência Artificial e seus
aprendizados, apresentaremos no capítulo seguinte um pouco da IA na área do Direito,
onde começou e como é utilizada nos Estados Unidos e no Brasil, sendo priorizado o
estudo de cases do Brasil.

6.3.5. IA no Direito

Com exceção de poucos trabalhos, estudos na área da IA e Direito apareceram


aproximadamente nos anos 70, quando despertou nos operadores do direito o interesse
pela automatização do raciocínio jurídico. A aplicação da IA no Direito, exige uma
análise prévia do papel desempenhado pela ciência dentro do mundo jurídico. Aliás, não
há como se separar as ciências naturais e sociais quando se trata da viabilidade da
aplicação da IA no Direito, surgindo assim a inteligência jurídica artificial.
Na mesma linha, afirma GRAY49 que o sistema jurídico, unicamente, não
gerou uma inteligência jurídica artificial. Com advento da IA o processo de
informatização do Direito ganhou uma nova dimensão, constituído de três pontos de
vista distintos (científico-ideológico, ius-filosófico e informático-jurídico), responsáveis
pela aproximação entre a IA e o Direito, o que resultou à automatização do raciocínio
jurídico.50
Conforme afirma, RENATO MAGALHÃES51:

O problema em classificar a IA e Direito como um subcampo da Informática


Jurídica é que, muitas vezes, ambas as disciplinas se mesclam de uma
determinada forma que se torna bastante difícil encontrar os limites entre
uma e a outra. Ainda que a IA tenha, como vimos anteriormente, um estatuto
próprio, não havendo maiores complicações em diferenciar desde o ponto de
vista teórico, técnicas puramente informáticas de técnicas de IA, o mesmo
não ocorre quando encontramos esta ciência aplicada ao campo jurídico. O
fato é que ambas, tanto a informática jurídica, enquanto gênero, quanto a IA e

48
SALESFORCE. Disponível em: https://www.salesforce.com/br/blog/2018/4/Machine-Learning-e-
Deep-Learning-aprenda-as-diferencas.html. Acesso em: 19 mai.2019
49
GRAY, P.N. op.cit., p. 6, apud, Magalhães, Disponível em:
http://bdjur.stj.jus.br/dspace/handle/2011/59627 . Acesso em: 18 mai.2019
50
MAGALHÃES, Inteligência Artificial e Direito – uma breve introdução histórica. Disponível em:
http://bdjur.stj.jus.br/dspace/handle/2011/59627. Acesso em: 18 mai.2019
51
MAGALHÃES, Inteligência Artificial e Direito – uma breve introdução histórica. Disponível em:
http://bdjur.stj.jus.br/dspace/handle/2011/59627. Acesso em: 18 mai.2019

26
o Direito, enquanto espécie, são largamente utilizadas no apoio às decisões
jurídicas e, em alguns casos, é difícil, desde o ponto de vista dos resultados,
identificar quando um sistema de apoio à decisão (Decision Support System)
está fazendo uso de técnicas de IA ou não.

A ideia de aplicar a IA no Direito surgiu após a união de diversas áreas como


matemática, lógica, direito, ciência da computação, filosofia, psicologia, entre outras.
Pensando na complexidade e nos riscos que a IA pode trazer, o Parlamento Europeu em
recente resolução de fevereiro de 2019, estabeleceu recomendações para a
regulamentação da AI. De acordo com BRUNO FARAGE DA COSTA FELIPE E
RAQUEL PINTO COELHO PERROTA52:

Em geral, robôs autônomos, dotados de Inteligência artificial, seguem as


seguintes características: (1) adquirem autonomia através de sensores e/ou
através da troca de dados com o seu ambiente (interconectividade) e troca e
analisa dados; (2) aprendem por si mesmos (critério opcional); (3) possuem
um suporte físico; (4) adaptam o seu comportamento e as suas ações ao
ambiente no qual se encontram.

Com o alcance e velocidade com qual Tecnologia da Informação e


Comunicação (TIC) avança, torna-se latente a utilização da IA nos mais diversificados
ramos de trabalho e é natural que o Direito não poderia estar de fora. Nota-se que o
mundo vem utilizando destes meios de tecnologia para prestação jurisdicional em
diversos países, entretanto focaremos nos Estados Unidos e no Brasil, por meio de seus
“cases” de sucesso.
Os EUA utilizam para auxílio na atividade policial e judiciária a AI, realizando
por meio de dados armazenados em seu banco o cruzamento destas informações,
permitindo um policiamento mais efetivo nos locais mais perigosos e desarticulando
gangues. Também, no âmbito da execução penal utilizam-se de IA para análise de
concessão de benefícios. A Suprema Corte Americana realizou testes neste campo,
utilizando como material de suporte ao robô as decisões anteriores de matérias
específicas, sendo que nos testes realizados à margem de acerto da máquina atingiu 75%
dos casos em relação aos votos dos juízes humanos. Mas, o case que mais se destaca é o
do estado americano de Wisconsin, que se utiliza da IA para cálculo de pena de prisão
ou para concessão de liberdade provisória.53
52
FELIPE e FERROTA, Inteligência Artificial no Direito – Uma realidade a ser desbravada.
Disponível em: http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/inteligencia_artificial_no_direito_-
_uma_realidade.pdf. Acesso em 25 mai.2019
53
CARVALHO, A inteligência artificial na Justiça dos EUA e o Direito Penal brasileiro. Disponível
em: https://www.ab2l.org.br/inteligencia-artificial-na-justica-dos-eua-e-o-direito-penal-brasileiro/.

27
Para transmitir maior transparência e segurança aos cidadãos, em abril de 2019
os legisladores norte-americanos americanos no interesse de regulamentar o uso da IA
nos Estados Unidos, inclusive em relação a decisões automatizadas, apresentaram
projeto de lei para apreciação. O projeto denominado de Algorithmic Accountability
Act, determina a auditoria de seus sistemas de Machine Learning por parte das grandes
empresas no que diz respeito a preconceitos e discriminação. Ainda, exige que tomem
medidas corretivas quando identificado falhas nas suas decisões.54
No Brasil temos alguns tribunais que dispunham de Inteligência Artificial para
auxílio nas demandas. Dentre estes destacam-se o Tribunal de Contas da União (TCU),
TST e o STF, sendo apresentados de forma sucinta a seguir.
Desde 2016, o Tribunal de Contas da União – TCU – utiliza três robôs para
análise de licitações e identificação de fraudes nestes processos licitatórios.
Denominados de Alice (acrônimo Análise de Licitações e Editais), Sofia (abreviatura
para Sistema de Orientação sobre Fatos e Indícios para o Auditor) e Mônica. Estes três
robôs fazem parte da Labcontas, laboratório de informações de controle, que utiliza
ferramentas com Machine Learning para automatização na interpretação de documentos
e tem como finalidade a classificação e extração automaticamente dos dados que não se
encontram estruturados.
De acordo com Cesar Taurion:55

No TCU, me parece claro que o papel da IA será o de um auxiliar


extremamente eficaz na análise de contas, analisando de forma ampla e
rápida milhões de documentos, fazendo comparações e identificando
correlações que nem sempre nós humanos conseguimos fazer. Não temos
capacidade de lidar com grandes volumes de dados muito rapidamente.
Assim, nossas decisões muitas vezes são influenciadas por experiência
pessoais.

Em outubro de 2018 o TST (Tribunal Superior do Trabalho) adotou o uso da


Inteligência Artificial para auxiliar nas demandas e tornar mais célere os processos. Por
meio de seu sistema denominado Bem-te-Vi, responsável por gerenciar os processos no
TST, o órgão conseguiu aplicar a IA para analisar a tempestividade dos processos de
forma automática. No TST, cerca de 3% dos processos são intempestivos e para que

Acesso em: 25 mai.2019


54
DE LUCA, Americanos dão o primeiro passo para regulamentar a Inteligência Artificial. Disponível
em: https://porta23.blogosfera.uol.com.br/2019/04/12/americanos-dao-o-primeiro-passo-para-
regulamentar-a-inteligencia-artificial/. Acesso em 26 mai.2019
55
TAURION, As inovações tecnológicas na fiscalização. Disponível em:
https://revista.tcu.gov.br/ojs/index.php/RTCU/issue/download/68/101. Acesso em 26 mai.2019

28
fossem analisados demandavam muito tempo dos serventuários. O sistema Bem-te-Vi
possui integração com outros sistemas da justiça, como o eRecurso, o Pje e o DEJT,
desta forma ele coleta às informações e realiza os cruzamentos necessários para
obtenção da solução.56
Segundo secretário de TI, HUMBERTO MAGALHÃES AYRES57, o projeto é:

“Inédito na Justiça do Trabalho” e servirá para que os servidores dos


gabinetes ganhem tempo na análise dos processos que chegam ao TST.
“Quando chega ao gabinete, o processo exige uma leitura global que
demanda muito tempo. Desenvolvemos, então, uma maneira de sinalizar para
o responsável por esse exame a probabilidade de esses processos terem sido
interpostos dentro do prazo, por meio de cores”.

O projeto teve tanto sucesso que o TST já trabalha para disponibilizar outras
funcionalidades a ferramenta. A expectativa é que o software consiga incluir alertas
para indicar os impedimentos dos ministros no julgamento de determinados processos.
O programa já está sendo utilizado como piloto no gabinete da ministra MARIA
CRISTINA PEDUZZI. De acordo com AYRES, o sistema possui em sua base mais de
dois mil impedimentos cadastrado o que permitirá uma maior agilidade na análise dos
processos. A expectativa para implantação da funcionalidade é entre agosto e setembro
de 2019.58
No STF (Superior Tribunal Federal) a inovação também chegou e ela ocorreu
por meio da IA. Para esta corte foi criado o VICTOR, com custo de desenvolvimento na
casa de 1,6 milhão e que fora desenvolvido em parceria com a Universidade de Brasília
(UnB). O VICTOR terá a capacidade de analisar os casos de repercussão geral,
prometendo decidir aproximadamente dez mil casos e remetê-los às instâncias
inferiores. No seu desenvolvimento foi lhe dado a capacidade de decisão automática e
autônoma para os REs – Recursos extraordinários –, pois lhe foram imputados 27 temas
de repercussão geral como base de conhecimento e através deles são realizados os
cruzamentos para tomada de decisão. A devolução para primeira instância se dá tanto na
aplicação de tese já aprovada pelo STF, quanto para sobrestar um processo e aguardar
56
TST, Inteligência artificial traz melhorias inovadoras para tramitação de processos no TST.
Disponível em: https://www.ab2l.org.br/inteligencia-artificial-traz-melhorias-inovadoras-para-
tramitacao-de-processos-no-tst/. Acesso em: 26 mai.2019
57
TST, Inteligência artificial traz melhorias inovadoras para tramitação de processos no TST.
Disponível em: https://www.ab2l.org.br/inteligencia-artificial-traz-melhorias-inovadoras-para-
tramitacao-de-processos-no-tst/. Acesso em: 26 mai.2019
58
TST, Inteligência artificial traz melhorias inovadoras para tramitação de processos no TST.
Disponível em: https://www.ab2l.org.br/inteligencia-artificial-traz-melhorias-inovadoras-para-
tramitacao-de-processos-no-tst/. Acesso em: 26 mai.2019

29
uma decisão por parte dos ministros. Esta última entrega da ferramenta está em fase de
homologação, mas já encontra uma média de acerto de aproximadamente 90%.59
No momento o VICTOR já aplica sua tecnologia para identificação e separação
das principais peças do processo, sendo: acórdão recorrido, o juízo de admissibilidade, a
sentença, agravo no recurso e petição do RE. Para esta função era despendido um tempo
aproximado de 30 minutos por parte dos serventuários, sendo que o VICTOR realiza a
função em apenas 5 segundos. Para facilitar o trabalho dos assessores dos ministros, o
sistema converte textos que foram recebidos no formato de foto, para um formato de
texto padrão, permitindo o “CTRL + C” e “CTRL + V”, algo que não era possível antes,
necessitando dos assessores a digitação.60
De acordo com EDUARDO TOLEDO, Diretor-geral do STF, o VICTOR é
muito mais que um buscador por palavras chave, ele diz61:

Na verdade, ele procura o contexto, associa mais de um documento para


poder chegar à identificação daquele tema. Ele busca, na verdade, realmente
a compreensão das expressões que estão sendo utilizadas em conjunto,
baseado na repetição

De acordo com o secretário de TI do Supremo, EDMUNDO VERAS, o STF já


recuperou o recurso investido – 1,6 milhão – e possibilitou mais retornos financeiros a
corte:62

No primeiro semestre, recebemos 42 mil processos. Se fosse feito trabalho de


quebra e identificação das peças principais neles, precisaríamos de 22 mil
horas de trabalho de servidores. Isso só para separar a documentação, o que
não era feito em todos. Levaria dois anos e meio para fazer em todos os
processos, a um custo aproximado de R$ 3 milhões

O STF enxerga o VICTOR como um aliado e não como algo para substituir
humanos nas tarefas. A ideia do tribunal será utilizar a mão de obra que antes realizava

59
TEIXEIRA, STF investe em inteligência artificial para dar celeridade a processos. Disponível em:
https://www.ab2l.org.br/stf-investe-em-inteligencia-artificial-para-dar-celeridade-a-processos/. Acesso
em: 28 mai. 2019
60
TEIXEIRA, STF investe em inteligência artificial para dar celeridade a processos. Disponível em:
https://www.ab2l.org.br/stf-investe-em-inteligencia-artificial-para-dar-celeridade-a-processos/. Acesso
em: 28 mai. 2019
61
TEIXEIRA, STF investe em inteligência artificial para dar celeridade a processos. Disponível em:
https://www.ab2l.org.br/stf-investe-em-inteligencia-artificial-para-dar-celeridade-a-processos/. Acesso
em: 28 mai. 2019
62
TEIXEIRA, STF investe em inteligência artificial para dar celeridade a processos. Disponível em:
https://www.ab2l.org.br/stf-investe-em-inteligencia-artificial-para-dar-celeridade-a-processos/. Acesso
em: 28 mai. 2019

30
às tarefas ora desempenhadas pela máquina para outra atividade, tornando-se mais
estratégicos para a corte.

6.4. Jurisdição

A sociedade, como conhecemos, depende do Direito para regular a interação e


cooperação entre as pessoas o Estado. Ainda, definirá a cada titular os bens dos quais
possuem titularidade. Assim, o Direito exerce uma função ordenadora para a sociedade,
transformando-se em controle social. Contudo, não basta a existência de um conjunto de
normas que regulem determinadas situações, uma vez que elas por si sós, não têm o
poder de afastar, evitar ou eliminar os conflitos que surgirão entre os membros da
sociedade em questão.63
A partir daí é que surgem afirmações de que a jurisdição é uma das funções do
Estado, mediante substituição dos titulares dos interesses em conflito, atuando na
vontade concreta da lei, por meio do processo. Tornando-se, então, o ator responsável
pela pacificação da lide no processo, afirmando sua função social. O Estado busca o
bem comum da sociedade e utiliza-se da jurisdição para sua concretização. Desta forma,
quando o Estado impõe decisões, por meio do processo, estará por si só, exercendo a
jurisdição. Por fim, a jurisdição pode ser entendida como sendo o complexo de atos do
juiz no processo, exercendo a função que lhe foi concebida por lei e investido nas
atribuições de sua função para dirimir os conflitos.64
Em suma, como explica SIDNEI AMENDOEIRA JR.: “jurisdição é a atuação
(entendida não só como a declaração, mas também a imposição) da vontade concreta da
lei pelo Estado, em especial pelo Poder Judiciário. Trata-se de um trinômio: poder,
função e atividade. Sua função primordial é realizar a paz social”.65
De acordo com FREDIE DIDIER JR., a jurisdição seria a técnica de solução
onde um terceiro substitui a vontade das partes e resolve o problema apresentado. Para
tanto, não se aplica a definição de que jurisdição é a aplicação da vontade da lei ao caso
concreto, mas sim, exige-se que seja essencialmente criativa. Para a atividade
jurisdicional é fundamental que o órgão julgador seja um terceiro e desinteressado.
63
JR., Sidnei Amendoeira. Manual de direito processual civil. Ed. Saraiva, 2ª edição. 2012. São
Paulo. Pág. 19
64
JR., Sidnei Amendoeira. Manual de direito processual civil. Ed. Saraiva, 2ª edição. 2012. São
Paulo. Pág. 19
65
JR., Sidnei Amendoeira. Manual de direito processual civil. Ed. Saraiva, 2ª edição. 2012. São
Paulo. Pág. 20

31
Neste caso, o terceiro teria aspecto objetivo enquanto o desinteressado no conflito teria
o aspecto subjetivo da imparcialidade.66
Os tribunais possuem papel essencial na produção da norma. Cabendo a eles a
elaboração jurídica no sentido de interpretar, construir e distinguir os casos para que
consigam aplicar suas decisões, com base no direito vigente. Desta forma, a legislação
não consegue abranger amplamente todas as decisões dos tribunais, exigindo deste a
interpretação, teste ou confirmação da consistência da norma jurídica. Um exemplo são
os Hard Cases, onde a aplicação dos textos normativos existentes, se aplicados
puramente dedutivos não resolveriam litígio, assim, o magistrado não poderia apenas ter
o conhecimento do direito vigente, mas sim de mais métodos para solução do conflito.67
Assim, quando o juiz se vê diante dos fatos da causa, deverá compreender sua
complexidade e verificar a norma geral a ser aplicada ao caso. Se identificada a norma
jurídica, a mesma deverá estar de acordo com a Constituição, sendo necessário a
realização do controle de constitucionalidade em sentido estrito e sopesando com os
direitos fundamentais. Desta forma, o tribunal que foi submetido a análise de
determinado litígio deverá necessariamente resolvê-lo, mesmo que a situação não esteja
prevista de forma expressa na legislação, cabendo ao magistrado a decisão do problema.
A característica principal e exclusiva da jurisdição consiste definitividade, pois somente
estes atos da jurisdição recebem estabilidade, denominada coisa julgada.68

6.5. Figura do Juiz: da Imparcialidade a Neutralidade do Julgador

Sempre é bom lembrar que a pessoa do juiz não pode ser confundida com o
juízo ou órgão jurisdicional, pois o juiz é o agente do Estado investido do Poder
jurisdicional. O juiz é o sujeito processual que aplicará a lei no caso concreto, enquanto
o órgão competente é responsável por apreciar determinadas causas. 69 Destaca-se, pois,
as leis existentes não conseguem exaurir todas as necessidades legais, uma vez que
existem lacunas ou normas genéricas que não podem ser aplicadas por si só no caso
66
JR., Fredie Didier. Curso de direito processual civil volume 1. Ed. Juspodivm, 17ª edição. 2015
Salvador. Págs. 154 – 155.
67
JR., Fredie Didier. Curso de direito processual civil volume 1. Ed. Juspodivm, 17ª edição. 2015
Salvador. Pág.157
68
JR., Fredie Didier. Curso de direito processual civil volume 1. Ed. Juspodivm, 17ª edição. 2015
Salvador. Pág. 160
69
JR., Sidnei Amendoeira. Manual de direito processual civil. Ed. Saraiva, 2ª edição. 2012. São
Paulo. Pág. 63

32
concreto. Por isso, o juiz na realização de sua tarefa jurisdicional poderá aplicar ao caso
onde não couber a lei expressa o seguinte, com base no art. 4º da LINDB: “decidirá o
caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito”. Diante
disso, percebe-se que não caberá ao juiz apenas reproduzir a lei, exigindo-lhe uso da
atividade criativa para completar o preceito legal genérico ou para eliminar as lacunas
existentes na lei para o caso analisado.70
A jurisdição deve ser exercida de forma impessoal e por este motivo o juiz
deverá ser imparcial na condução do processo. Costuma-se falar em Estado-juiz, pois é
o Estado e não seu agente que atua na relação jurídica processual.71
Para que o juiz seja considerado imparcial, ele não deverá estar envolvido com
nenhuma das partes, muito menos agir em favor ou desfavor de qualquer das partes no
processo. Também, não poderá ter interesse direto no conflito, permitindo-lhe decidir de
forma neutra às questões pertinentes da lide.72
Como assevera LUIS ALBERTO REICHELT:73

Uma primeira trilha possível a ser considerada na busca do significado da


ideia de imparcialidade do juiz é aquela que toma tal noção como sendo uma
característica que deve estar presente no agir do julgador. Sob essa ótica, a
imparcialidade possa ser definida a partir da anotação de traços que não
podem estar presentes na atuação jurisdicional, tratando-a como “a ausência
de qualquer ‘interesse pessoal’ ou ‘envolvimento emocional’ do julgador
com o feito”, como uma “virtude passiva” da jurisdição. Assim também
ocorre quando se observa a doutrina que conceitua a imparcialidade do juiz
como a “isenção do julgador em relação à matéria e às partes envolvidas no
litígio”.

Evidencia-se, portanto, que para efetuar as decisões judiciais imprescindível


deverá será sua lisura, não restando quaisquer dúvidas quanto seu posicionamento no
ato, inexistindo interesses pessoais no que diz respeito a decisão. Tal importância surge
com força quando o código de processo civil, em seu art. 966, determina as situações de
impedimento (art. 144 NCPC) ou suspeição (art. 145 NCPC) no juiz para o julgamento
de determinadas lides. Destaca-se entre os casos de impedimentos do juiz, pois este
realizando julgamento e posteriormente decretado impedido poderá ensejar ação

70
JUNIOR, Humberto, Curso de Direito Processual Civil - Volume I - 56ª edição. 2015. Rio de
Janeiro. Pág. 490
71
JR., Sidnei Amendoeira. Manual de direito processual civil. Ed. Saraiva, 2ª edição. 2012. São
Paulo. Pág. 171
72
JR., Sidnei Amendoeira. Manual de direito processual civil. Ed. Saraiva, 2ª edição. 2012. São
Paulo. Pág. 63
73
REICHELT, Luis Alberto. O direito fundamental das partes à imparcialidade do juiz no direito
processual civil. Revista de Processo. vol. 227. p. 2. São Paulo: Ed. RT, 2014

33
rescisória (art. 966, II, NCPC) da sentença. Agora, diante da suspeição aplicar-se-á o
afastamento do magistrado do processo, sem, contudo, afetar a coisa julgada se não
houver tempestivamente a recusa do juiz pela parte.74
Destaca-se que o juiz tem o dever de declarar-se suspeito ou impedido por ato
ex officio. Em caso de não observância pelo magistrado em seu dever, caberá a parte no
prazo de 15 dias do conhecimento do fato, com base no art. 146 NCPC, requerer o
impedimento ou suspeição do juiz quando este abstém-se do dever.75
Vale diferenciar a imparcialidade, ora explicado acima, da neutralidade do juiz,
onde trataremos a seguir.

A neutralidade passa pelo ponto de vista científico, ou seja, exige o não


envolvimento do cientista com o objeto de seu estudo, algo que não parece acontecer
quando se trata de um juiz. Isto acontece devido ao comportamento humano, pois
sempre haverá, no mínimo uma escolha ou ao menos uma predisposição para tal
decisão. Assim sendo, torna-se humanamente impossível uma neutralidade absoluta
pelos magistrados, como se pode extrair do texto de PAMPLONA FILHO76:

Impossível para qualquer ser humano conseguir abstrair totalmente os seus


traumas, complexos, paixões e crenças (sejam ideológicas, filosóficas ou
espirituais) no desempenho de suas atividades cotidianas, eis que a
manifestação de sentimentos é um dos aspectos fundamentais que diferencia
a própria condição de ente humano em relação ao frio "raciocínio" das
máquinas computadorizadas.

A neutralidade chega a ser considerada um mito, conforme ensina FREDIE


DIDIER JR., uma vez que sustenta que a neutralidade se assenta na possibilidade de o
juiz estar carente de vontade inconsciente, predominando o interesse das partes no
processo e não o interesse do Estado.77
Logo, uma característica que não se pode exigir de um magistrado ou de
qualquer outro individuo é a neutralidade. Isso ocorre, pois, ao decidir ele explicitará as
convicções que se formaram durante sua vida, por meio de preconceitos, observações e
desenvolvimento do próprio conhecimento. Todo sujeito possui ideologias,
74
JUNIOR, Humberto, Curso de Direito Processual Civil - Volume I - 56ª edição. 2015. Rio de
Janeiro. Pág. 495
75
JUNIOR, Humberto, Curso de Direito Processual Civil - Volume I - 56ª edição. 2015. Rio de
Janeiro. Pág. 498
76
PAMPLONA FILHO, O mito da neutralidade do juiz como elemento de seu papel social. Disponível
em: https://jus.com.br/artigos/2052/o-mito-da-neutralidade-do-juiz-como-elemento-de-seu-papel-
social. Acesso 16 jun.2019
77
JR., Fredie Didier. Curso de direito processual civil volume 1. Ed. Juspodivm, 17ª edição. 2015
Salvador. Pág. 155

34
principalmente aquelas que são dominantes no seu período histórico. Dentre os aspectos
externos que influenciam na neutralidade do juiz, podemos destacar a mídia que por
meio de toda sua força de comunicação estabelece papel expressivo para definição de
conceitos e estereótipos, criando inclusive campanhas em massa para posicionamento
sobre determinado tema que se encontra sob análise do Poder Judiciário. Uma
campanha tendenciosa poderá influenciar diretamente na liberdade do juiz em decidir o
caso em concreto, uma vez que ele pode, em tese, estar inserido neste contexto.78

6.6. Decisões de Juízes Humanos


6.6.1. Conceito de decisões judiciais

No decorrer do processo, o juiz poderá adotar duas espécies de poderes: o de


dar soluções à lide que está sob sua análise, e o de conduzir o processo conforme o
procedimento legal, resolvendo todos os incidentes existentes no transcorrer até o
momento adequado à realização da prestação jurisdicional. Durante o período
processual e no exercício de seus poderes, o juiz pratica dois tipos de atos processuais,
sendo eles:
(a) decisórios;
(b) não decisórios.
Nos atos decisórios, há estamos diante de comando, como nos casos de
sentença e decisão interlocutória. Por isso, consideram-se como decisórios os atos que
possuem pronunciamentos do juiz em relação a questões que surgem dentro do
processo, sendo eles provenientes do campo de direito material como no direito
processual. Tanto as questões de fato como as de direito poderão ser atacadas pelas
decisões, produzindo efeitos dentro do processo e, algumas vezes, podendo expandir
para fora dele.79
Já, quando predominar a função administrativa e/ou de polícia judicial
estaremos diante de atos não decisórios, como por exemplo os despachos. O art. 203 do
CPC trata dos despachos como atos não decisórios, mas ele não esgota todos os atos

78
ALMEIDA, O juiz e as motivações no ato de julgar: Para Além das Legais. Disponível em:
https://www.revistas.unijui.edu.br/index.php/revistadireitoemdebate/article/download/609/339.
Acesso em16 jun.2019
79
JUNIOR, Humberto, Curso de Direito Processual Civil - Volume I - 56ª edição. 2015. Rio de
Janeiro. Pág. 556

35
processuais do juiz, pois ele somente alcança os procedimentos decisórios ou
ordinatório.
Ressalta-se, porém, que o juiz pratica muitos outros atos de natureza não
decisória e que não são considerados como impulsionadores do processo. Dentre os
quais temos conforme HUMBERTO THEODORO JÚNIOR80:

A presidência de audiências (art. 358), a ouvida de peritos e testemunhas


(arts. 361, I, e 459, § 1º), a colheita direta e pessoal de outras provas (art. 361,
II), a inspeção judicial de pessoas e coisas (art. 481), a entrevista do
interditando (art. 751) etc., sem embargo daqueles outros atos chamados pela
doutrina de “atos administrativos do processo”, derivados do poder de polícia
em audiência, poder disciplinar sobre serventuários da justiça etc.

Por diversos momentos o juiz precisa tomar medidas concretas para que sua
decisão seja cumprida, como nos casos de expedição de alvarás, solicitação de força
policial, bloqueio de bens e contas, etc. Ademais, existem atos onde juiz terá a função
de documentar ou integrar, como nos autos de arrematação (art. 903, caput) e de
adjudicação (art. 877, § 1º), autorização para o inventariante alienar bens do espólio (art.
618, I) ou pagar dívidas do autor da herança (art. 618, III), os formais de partilha (art.
655), os autos de demarcação (art. 586) e de divisão (art. 597), entre outros.81
Como se pode ver, muitos atos são praticados pelo juiz sem cunho decisório e
que servem para continuidade do processo. Veremos a seguir dos atos decisórios como a
sentença e a decisão interlocutória e dos atos não decisórios o despacho.

6.6.1.1. Sentença

De acordo com o CPC 2015, sentença é a decisão por meio do qual o juiz
encerra a fase de conhecimento do processo (art. 203, §1º). Mas, importante destacar
que a sentença deverá ser fundamentada conforme apregoa os arts. 485 e 487 do
CPC/2015, pois somente desta forma extinguirá a fase cognitiva do procedimento
comum, bem como a execução. Desta forma a sentença subdivide-se por seu conteúdo –
quando diz respeito às situações dos arts. 485 e 487 – e por sua finalidade quando
encerrar o a fase de conhecimento ou extinguir a execução. Importante destacar que a

80
JUNIOR, Humberto, Curso de Direito Processual Civil - Volume I - 56ª edição. 2015. Rio de
Janeiro. Pág. 563
81
JUNIOR, Humberto, Curso de Direito Processual Civil - Volume I - 56ª edição. 2015. Rio de
Janeiro. Págs. 563-564

36
sentença, a partir do NCPC não possui em seu texto a expressão extingue-se o processo.
Isso ocorre, pois, após o pronunciamento do juiz na sentença haverá início a nova fase,
denominado cumprimento de sentença.82
De forma resumida, a sentença é o pronunciamento jurisdicional que tem por
conteúdo umas das situações previstas no artigo 485 (sentença sem resolução do mérito)
ou 487 (sentença com resolução do mérito) do CPC/2015 e que determine o
encerramento da fase do processo de conhecimento ou a extinção da execução na
primeira instância.83
Dispõe o art. 485, que o juiz decidirá a demanda sem resolver o mérito,
quando:

Art. 485. O juiz não resolverá o mérito quando:


I - indeferir a petição inicial;
II - o processo ficar parado durante mais de 1 (um) ano por negligência das
partes;
III - por não promover os atos e as diligências que lhe incumbir, o autor
abandonar a causa por mais de 30 (trinta) dias;
IV - verificar a ausência de pressupostos de constituição e de
desenvolvimento válido e regular do processo;
V - reconhecer a existência de perempção, de litispendência ou de coisa
julgada;
VI - verificar ausência de legitimidade ou de interesse processual;
VII - acolher a alegação de existência de convenção de arbitragem ou quando
o juízo arbitral reconhecer sua competência;
VIII - homologar a desistência da ação;
IX - em caso de morte da parte, a ação for considerada intransmissível por
disposição legal; e
X - nos demais casos prescritos neste Código.
§ 1º Nas hipóteses descritas nos incisos II e III, a parte será intimada
pessoalmente para suprir a falta no prazo de 5 (cinco) dias.
§ 2º No caso do § 1º, quanto ao inciso II, as partes pagarão
proporcionalmente as custas, e, quanto ao inciso III, o autor será condenado
ao pagamento das despesas e dos honorários de advogado.
§ 3º O juiz conhecerá de ofício da matéria constante dos incisos IV, V, VI e
IX, em qualquer tempo e grau de jurisdição, enquanto não ocorrer o trânsito
em julgado.
82
CAVALCANTI, Conceito processual de sentença no novo Código de Processo Civil. Disponível em:
https://www.conjur.com.br/2017-out-22/opiniao-conceito-processual-sentenca-cpc. Acesso em: 02
jun.2019
83
CAVALCANTI, Conceito processual de sentença no novo Código de Processo Civil. Disponível em:
https://www.conjur.com.br/2017-out-22/opiniao-conceito-processual-sentenca-cpc. Acesso em: 02
jun.2019

37
§ 4º Oferecida a contestação, o autor não poderá, sem o consentimento do
réu, desistir da ação.
§ 5º A desistência da ação pode ser apresentada até a sentença.
§ 6º Oferecida a contestação, a extinção do processo por abandono da causa
pelo autor depende de requerimento do réu.
§ 7º Interposta a apelação em qualquer dos casos de que tratam os incisos
deste artigo, o juiz terá 5 (cinco) dias para retratar-se.84

Dispõe o art. 487, que o juiz decidirá a demanda com resolução do mérito,
quando:

Art. 487. Haverá resolução de mérito quando o juiz:


I - acolher ou rejeitar o pedido formulado na ação ou na reconvenção;
II - decidir, de ofício ou a requerimento, sobre a ocorrência de decadência ou
prescrição;
III - homologar:
a) o reconhecimento da procedência do pedido formulado na ação ou na
reconvenção;
b) a transação;
c) a renúncia à pretensão formulada na ação ou na reconvenção.
Parágrafo único. Ressalvada a hipótese do § 1º do art. 332, a prescrição e a
decadência não serão reconhecidas sem que antes seja dada às partes
oportunidade de manifestar-se.85

Posto isso, significa dizer que, por meio da sentença, o juiz encerra a lide
trazida à sua apreciação, finalizando o processo na primeira instância. Cabe reiterar que
a sentença pode ser dada com ou sem julgamento do mérito, ou seja, acolhendo ou não a
causa levantada pela parte.86
O Estado satisfaz o direito da parte e cumpre seu dever quando aplica a
sentença. A obrigação assumida pelo Estado no processo quando procurada pela parte
interessada para decidir sobre sua lide, será decidida por meio da sentença, encerrando

84
BRASIL (lei federal). Código de Processo Civil. Lei Nº 13.105, De 16 De Março De 2015.
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso
em: 02 jun.2019
85
BRASIL (lei federal). Código de Processo Civil. Lei Nº 13.105, De 16 De Março De 2015.
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso
em: 02 jun.2019
86
Agência CNJ de Notícias, Saiba a diferença entre sentença, decisão e despacho. Disponível em:
https://www.tjpr.jus.br/destaques/-/asset_publisher/1lKI/content/saiba-a-diferenca-entre-sentenca-
decisao-e-despacho/18319?inheritRedirect=false. Acesso em: 02 jun.2019

38
assim a fase de conhecimento. Contudo, existem duas classificações para as sentenças,
sendo elas: a) sentenças terminativas; e b) sentenças definitivas.
Cumpre explicar que as sentenças terminativas encerram o processo sem
resolverem o mérito por falta de condição técnica para tal, de acordo com os casos
previstos no art. 485 NCPC. Contudo, estas sentenças não extinguem o direito de ação,
podendo a parte instaurar novo processo sobre a mesma lide, uma vez que esta não foi
apreciada.
Já, quando tratamos das sentenças definitivas estamos falando das que decidem
o mérito da causa, extinguindo por si só o direito de propor novamente esta ação (direito
de ação). Depois que for a aplicado a sentença definitiva, não será mais possível que as
partes propunham nova ação sobre a mesma lide, pois esta contemplou a definitiva
solução por meio da sentença. Devemos, então, conceituar sentença definitiva como ato
decisório do juiz que, em primeiro grau de jurisdição, encerra a fase de conhecimento
do processo. Mas, também será sentença quando a decisão decretar a extinção da
execução.87
Como forma de enfrentamento à pretensão do autor, poderá o juiz decidir a lide
por meio da sentença com resolução de mérito ou sem resolução do mérito, esta última
quando nos deparamos com casos de falta de condições técnicas (pressupostos
processuais ou condições da ação). Independentemente da posição do juiz, se o ato
encerrar a discussão acerca da pretensão jurídica da causa, estaremos diante de uma
sentença. Assim sendo, a sentença será o ato judicial não enquadrado em decisão
interlocutória, pois não versa sobre simples incidentes processuais, mas sobre o destino
final da solução que deu origem a propositura da demanda judicial.88

6.6.1.2. Decisão Interlocutória

Ao falarmos em decisão interlocutória devemos ter em mente que ela é uma


decisão judicial que não se enquadra como sentença (art. 203, §2º), uma vez ela não
encerrará a fase de conhecimento ou de execução. Questões que necessitam ser
decididas no curso do processo são denominadas de questões incidentes ou questões
incidentais. Destaca-se ainda, que mesmo que a decisão contemple do conteúdo dos

87
JUNIOR, Humberto, Curso de Direito Processual Civil - Volume I - 56ª edição. 2015. Rio de
Janeiro. Págs. 561-562
88
JUNIOR, Humberto, Curso de Direito Processual Civil - Volume I - 56ª edição. 2015. Rio de
Janeiro. Págs. 561-562

39
arts. 485 e 487 CPC, mas não encerrando a fase de conhecimento ou execução
estaremos diante de uma decisão interlocutória. A utilização deste instrumento decisório
admite, inclusive, os casos de julgamento antecipado parcial de mérito, desta forma,
estamos diante de uma decisão de mérito (parcial) antes mesmo da sentença.89
Todavia, para que haja julgamento parcial de mérito deverá o juiz respeitar o
art. 356 CPC/2015, pois neste conterá sua previsibilidade. De acordo com o artigo 356
do CPC/2015, o juiz decidirá parcialmente o mérito quando: a) um ou mais dos pedidos
formulados ou parcela deles mostrar-se incontroverso; b) não houver necessidade de
produção de outras provas; ou c) o réu for revel, tiver ocorrido o efeito material da
revelia e não houver requerimento de prova.
Assim sendo, o juiz profere a decisão parcial de mérito, continuando o
processo em relação aos demais pedidos formulados na petição inicial, uma vez que
estes dependerão dos demais atos processuais para serem julgamos. 90
Conforme ensina HUMBERTO THEODORO JÚNIOR91:

A decisão interlocutória, porém, tem um conteúdo específico, diante do


conceito que o Código lhe emprestou de maneira expressa. Corresponde,
assim, ao pronunciamento judicial de natureza decisória que não seja a
sentença, e, assim, não encerre a fase cognitiva do procedimento, nem ponha
fim à execução.

As decisões interlocutórias surgiram como uma ideia que remete ao Direito


Romano, quando faziam distinção entre sentenças e interlocuções. As sentenças naquela
época eram utilizadas para decidir o mérito do pedido, seja acolhendo ou rejeitando. No
caso das interlocuções, estas atendiam a todos os demais pronunciamentos do juiz, sem
decidir o litígio em concreto.
A denominação “decisão interlocutória” surgiu como forma de caracterizar as
decisões que solucionam questões incidentes no curso do processo, diferenciando-as dos
despachos, procedimentos dos quais o juiz utiliza quando quer dar andamento ao
processo. A ocorrência da decisão interlocutória só acontecerá quando a questão
incidental não levar ao encerramento do feito ou a nenhuma das fases principais,
89
AGÊNCIA CNJ DE NOTÍCIAS, Saiba a diferença entre sentença, decisão e despacho. Disponível
em: https://www.tjpr.jus.br/destaques/-/asset_publisher/1lKI/content/saiba-a-diferenca-entre-sentenca-
decisao-e-despacho/18319?inheritRedirect=false. Acesso em: 02 jun.2019
90
CAVALCANTI, Conceito processual de sentença no novo Código de Processo Civil. Disponível em:
https://www.conjur.com.br/2017-out-22/opiniao-conceito-processual-sentenca-cpc. Acesso em: 02
jun.2019
91
JUNIOR, Humberto, Curso de Direito Processual Civil - Volume I - 56ª edição. 2015. Rio de
Janeiro. Págs. 558

40
conhecidas por cognição ou execução. Como já explicado, mesmo nos casos de mérito,
será decisão interlocutória quando o objeto principal não for atingido pelo procedimento
incidental. Destaca-se, pois, que toda decisão interlocutória deverá ser fundamentada, da
mesma forma que acontece com a sentença, como apregoa o art. 11 NCPC, sob pena de
nulidade.92

6.6.1.3. Despachos

Diferentemente do que ocorre com sentença e decisão interlocutória, os


despachos (art. 203, §3º) são atos praticados pelo juiz a requerimento da parte ou de
ofício, mas que não encerram o processo. O objetivo deste procedimento é o de
impulsionar o processo determinando as medidas necessárias para o encerramento do
feito. Desta forma, os despachos são movimentações administrativas, como citação ao
réu, intimação das partes, determinação de juntada de documentos, entre outros. O CPC
facilita seu entendimento quando dispõe em seu art. 203, §3º: “são despachos todos os
demais pronunciamentos do juiz praticados no processo, de ofício ou a requerimento da
parte”.93
Uma vez provocada a atividade jurisdicional por meio da ação pela parte
interessada, o processo irá se desenvolver por impulso do juiz, independentemente de
nova provocação da parte (NCPC, art. 2º).
Cumpre distinguir os tipos de despachos, que são despachos ordinatórios ou de
mero expediente. Como forma exemplificativa, são despachos ordinatórios o que
versem sobre o recebimento da contestação, que determinem a intimação de
testemunhas ou de peritos, os que designarem data de audiências, entre outros.
Consideram-se despachos de mero expediente os que possuem caráter
unicamente de impulso processual, sem gerar qualquer dano ao direito ou interesse das
partes. Se porventura acarretarem ônus ou prejudicar direitos das partes, causando dano,
deixarão de ser despachos, caracterizando-se em decisões interlocutórias e desta forma,
ensejarão recurso de agravo de instrumento.
Contudo, como o despacho não pode ser atacado por meio de recurso, nenhuma
preclusão existirá nesse ato do juiz. Tanto é assim, que mesmo após citação em
92
JUNIOR, Humberto, Curso de Direito Processual Civil - Volume I - 56ª edição. 2015. Rio de
Janeiro. Págs. 558-559
93
AGÊNCIA CNJ DE NOTÍCIAS, Saiba a diferença entre sentença, decisão e despacho. Disponível
em: https://www.tjpr.jus.br/destaques/-/asset_publisher/1lKI/content/saiba-a-diferenca-entre-sentenca-
decisao-e-despacho/18319?inheritRedirect=false. Acesso em: 02 jun.2019

41
despacho liminar, poderá o juiz declarar inepta a petição inicial em que fora referido o
respectivo despacho.94
O NCPC em seu art. 203, §4º, determina que atos meramente ordinatórios
devem ser praticados pelas secretarias judiciais, sendo revistos pelo juiz somente
quando necessário. Assim define o §4º: “Art. 203 […] §4º: Os atos meramente
ordinatórios, como a juntada e a vista obrigatória, independem de despacho, devendo
ser praticados de ofício pelo servidor e revistos pelo juiz quando necessário”.95
Essa mudança prevista no NCPC serviu para retirar dos juízes a demanda de
despachos que não continham qualquer conteúdo valorativo e que não afetaria de forma
decisiva nenhuma das partes na lide.96

6.6.2. Hard Cases

Hard Cases em uma tradução literal e significa casos difíceis.97No direito estes
casos ocorrem quando não há nas regras jurídicas uma que se aplique na situação
analisada ou, mais ainda, quando existe mais de uma regra para aplicar no caso sob
judice ou então, a solução aplicada ao caso gerará desconforto e estranheza na sociedade
em que fora aplicada. Os Hard Cases possuem dois grandes protagonistas, HERBERT
L.A. HART e RONALD DWORKIN, dois grandes filósofos que divergiam de
posicionamento em relação as soluções que deveriam ser dadas pelos magistrados nos
casos em concreto.
Para HART, os juízes ao se depararem com casos difíceis deveriam solucionar
o conflito por meio do uso razoável da discricionariedade, com base no seu
entendimento do que seria melhor para o caso naquele momento, pois para ele o juiz
tem total independência para decidir em relação a qualquer das partes,
independentemente da moral e princípios existentes na comunidade de sua jurisdição.
Logo, HART considera a impossível existir apenas uma solução correta para os Hard

94
JUNIOR, Humberto, Curso de Direito Processual Civil - Volume I - 56ª edição. 2015. Rio de
Janeiro. Pág. 560
95
BRASIL (lei federal). Código de Processo Civil. Lei Nº 13.105, De 16 De Março De 2015.
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso
em: 02 jun.2019
96
JUNIOR, Humberto, Curso de Direito Processual Civil - Volume I - 56ª edição. 2015. Rio de
Janeiro. Pág. 560
97
LINGUEE, Dicionário Inglês-Português. Disponível em: https://www.linguee.com.br/ingles-
portugues/traducao/hard+case.html. Acesso em 06 jun.2019

42
Cases, uma vez que cada juiz de acordo com sua discricionariedade poderia decidir o
caso de forma autônoma, gerando decisões divergentes para casos semelhantes.98
Já, DWORKIN refuta a teoria de HART, pois entende que o juiz ao aplicar a
discricionariedade estaria criando nova lei e aplicando-a de forma retroativa, conforme
ensina:99

A conhecida história de que a decisão judicial deve ser subordinada à


legislação é sustentada por duas objeções à originalidade judicial. De acordo
com a primeira, uma comunidade deve ser governada por homens e mulheres
eleitos pela maioria e responsáveis perante ela. Tendo em vista que, em sua
maior parte, os juízes não são eleitos, e como na prática eles não são
responsáveis perante o eleitorado, como ocorre com os legisladores, o
pressuposto acima parece comprometer essa proposição quando os juízes
criam leis. A segunda objeção argumenta que, se um juiz criar uma nova lei e
aplicá-la retroativamente ao caso que tem diante de si, a parte perdedora será
punida, não por ter violado algum dever que tivesse, mas sim por ter violado
um novo dever, criado pelo juiz após o fato.

DWORKIN propõe como solução aos Hard Cases, a aplicação dos princípios,
direito, política e economia, pois desta forma não incorreria na criação de nova lei, não
afrontando princípio da legalidade. Estaria assim, realizando uma decisão mais
equânime já que os princípios fariam parte do sistema jurídico onde o caso está inserido,
sem prejuízo ao princípio da legalidade.100
O julgador estará diante dos Hard Cases, quando houver lacunas nas leis ou
quando os conceitos utilizados na criação das leis são considerados vagos ou ambíguos,
permitindo ao juiz uma discricionariedade extensa para solução da lide. Contudo, a
discricionariedade do juiz não será completa, pois deverá ponderar a sua consciência
interior de acordo com o ordenamento jurídico existente no local e tempo de aplicação,
ou seja, decidir de forma adequada sem causar estranheza a sociedade jurisdicionada.
Ademais, a fundamentação da decisão deverá estar pautada conforme conveniência e
oportunidade constitucional, estando de forma expressa sentença.101
98
BELTRAMI, Princípios como solução dos hard cases. Teoria Dworkiniana. Disponível em:
http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=10222.
Acesso em: 06 jun.2019
99
DWORKIN, Ronald. Levando os direitos a sério. 2ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 2007. Pág.
132
100
BELTRAMI, Princípios como solução dos hard cases. Teoria Dworkiniana. Disponível em:
http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=10222.
Acesso em: 06 jun.2019
101
BRITO, Fundamentação das decisões judiciais: Elementos para superação do Conceito de Motivação
das Decisões a partir da Análise Comparativa da Atuação Jurisdicional da Supreme Court e dos
Tribunais Brasileiros. Disponível em:
http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/BUBD-
AW6LN3/tese___fdufmg___thiago_carlos_de_souza_brito.pdf?sequence=1. Acesso em 10 jun.2019

43
Conforme esclarece THIAGO CARLOS DE SOUZA BRITO 102, o juiz deverá
indicar os motivos de sua escolha:

Ao decidir, portanto, deve o juiz indicar os motivos que o levaram a optar por
determinada solução jurídica e evidenciar aqueles que foram rejeitados ainda
que democraticamente válidos. Certamente, após a primeira decisão, haverá
um leading case (precedente), que deverá ser utilizado em decisões
posteriores como solução para o caso concreto, de modo a limitar a
discricionariedade dos julgadores futuros de casos similares. Não obstante,
parece certo que a liberdade do magistrado que decidiu em primeiro lugar
resultou na criação de uma norma para o caso concreto.

De certa forma, há de analisar qual o limite para a discricionariedade do


magistrado, visto que ele não está subordinado a um controle superior, como ocorre
com os demais agentes que são fiscalizados pelo Poder Judiciário. No entanto, o
controle do julgador estará subordinado a obrigatoriedade da publicidade dos atos
judiciais e da fundamentação da decisão. Desta forma, dar-se-á o controle externo da
discricionariedade por meio da fundamentação judicial.103
Algumas vezes, os novos costumes originados pela evolução da sociedade
poderão acarretar controvérsias no mesmo ordenamento jurídico, pois estes novos
costumes não mais se aplicam ao caso concreto. Um dos exemplos é a questão do
Código Penal de 1940 e a Constituição Federal de 1988. Por óbvio que o Código Penal
deverá ser interpretado aplicando-se os valores existentes na nova ordem constitucional.
Neste caso, quando o juiz se deparar com um Hard Case que não encontra amparo na
lei em relação aos valores constitucionais, poderá interpretá-lo por meio da Constituição
esteja princípios em detrimento do Código Penal? Pois, bem, a resposta conforme STF é
sim, como já apreciado pela Suprema Corte nos casos de aborto de anencéfalos, sendo
que o aborto esta tipificado no CP (arts. 124 a 126) como crime, permitindo ao
magistrado resolver esta controvérsia por meio do controle de constitucionalidade.104

102
BRITO, Fundamentação das decisões judiciais: Elementos para superação do Conceito de Motivação
das Decisões a partir da Análise Comparativa da Atuação Jurisdicional da Supreme Court e dos
Tribunais Brasileiros. Disponível em:
http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/BUBD-
AW6LN3/tese___fdufmg___thiago_carlos_de_souza_brito.pdf?sequence=1. Acesso em 10 jun.2019
103
BRITO, Fundamentação das decisões judiciais: Elementos para superação do Conceito de Motivação
das Decisões a partir da Análise Comparativa da Atuação Jurisdicional da Supreme Court e dos
Tribunais Brasileiros. Disponível em:
http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/BUBD-
AW6LN3/tese___fdufmg___thiago_carlos_de_souza_brito.pdf?sequence=1. Acesso em 10 jun.2019
104
CARNEIRO, A função criativa do juiz para a resolução de hard cases: a questão do aborto na adpf 54
e no hc 124.306. Disponível em: http://www.inverbis.com.br/site2010/wp-
content/uploads/2017/07/2.-A-FUNÇÃO-CRIATIVA-DO-JUIZ-PARA-A-RESOLUÇÃO-DE-
HARD-CASES-A-QUESTÃO-DO-ABORTO-NA-ADPF-54-E-NO-HC-124.306.pdf. Acesso em: 15

44
O caso em comento foi submetido a análise do STF por meio de uma arguição
de descumprimento de preceito fundamental (ADPF), prevista no art. 102, §1º da CF e
de competência exclusiva do Supremo Tribunal Federal. Caberá ADPF quando não
existir outro meio capa de sanar a lesão ora apresentada. Desta forma, por intermédio da
ADPF 54, ajuizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde e que
obteve a seguinte ementa, tendo como relator o Ministro Marco Aurélio:105

ESTADO – LAICIDADE. O Brasil é uma república laica, surgindo


absolutamente neutro quanto às religiões. Considerações. FETO
ANENCÉFALO – INTERRUPÇÃO DA GRAVIDEZ – MULHER –
LIBERDADE SEXUAL E REPRODUTIVA – SAÚDE – DIGNIDADE –
AUTODETERMINAÇÃO – DIREITOS FUNDAMENTAIS – CRIME –
INEXISTÊNCIA. Mostra-se inconstitucional interpretação de a interrupção
da gravidez de feto anencéfalo ser conduta tipificada nos artigos 124, 126 e
128, incisos I e II9, do Código Penal (SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL,
2018b, p. 41).

Neste sentido, evidenciou-se a discórdia entre a Constituição Federal e o


Código Penal, sendo que o último, por meio de interpretação, entendia que a
antecipação da gestação de anencéfalo. No Hard Case em tela vislumbrou-se que a
antecipação do parto não consistiria em aborto, tão pouco o feto viveria de forma
extrauterina, portanto, não violando os direitos de dignidade humana da mulher. 106

6.6.3. Easy Cases

Quando as decisões judiciais se fundamentarem por força da norma expressa


ou por precedentes jurisdicionais que se aplicam ao caso sob Judice estaremos diante
dos Easy Cases. Nestes casos, diferentemente do que ocorre nos Hard Cases, não
ensejará para sentença a discricionariedade do juiz, estando ele adstrito a aplicação da
lei ou precedente ao caso concreto.107
jun.2019
105
CARNEIRO, A função criativa do juiz para a resolução de hard cases: a questão do aborto na adpf 54
e no hc 124.306. Disponível em: http://www.inverbis.com.br/site2010/wp-
content/uploads/2017/07/2.-A-FUNÇÃO-CRIATIVA-DO-JUIZ-PARA-A-RESOLUÇÃO-DE-
HARD-CASES-A-QUESTÃO-DO-ABORTO-NA-ADPF-54-E-NO-HC-124.306.pdf. Acesso em: 15
jun.2019
106
CARNEIRO, A função criativa do juiz para a resolução de hard cases: a questão do aborto na adpf 54
e no hc 124.306. Disponível em: http://www.inverbis.com.br/site2010/wp-
content/uploads/2017/07/2.-A-FUNÇÃO-CRIATIVA-DO-JUIZ-PARA-A-RESOLUÇÃO-DE-
HARD-CASES-A-QUESTÃO-DO-ABORTO-NA-ADPF-54-E-NO-HC-124.306.pdf. Acesso em: 15
jun.2019
107
BRITO, Fundamentação das decisões judiciais: Elementos para superação do Conceito de Motivação
das Decisões a partir da Análise Comparativa da Atuação Jurisdicional da Supreme Court e dos

45
A diferença entre Hard Cases e Easy Cases apresentar-se-ão novamente no
momento da decisão pelo magistrado, pois parece claro que por se tratar de caso fácil a
fundamentação da sentença poderá ser mais objetiva, uma vez que na teoria, encontrará
na lei ou nos precedentes a resposta adequada para solução da lide em análise,
respeitando as disposições previstas no art. 489, §1o, do CPC/15.108
Confia-se que para decisões de Easy Cases bastaria um raciocínio dedutivo,
pois em relação ao litígio haveria apenas uma solução a ser aplicada, como uma espécie
de naturalismo. Desta forma, ao fazer a diferenciação entre os casos fáceis e os difíceis,
restaria observar se no caso em concreto aplicar-se-ia uma relação sujeito-objeto.109
De acordo com LENIO LUIZ STRECK110, trata-se de Easy Cases:

Para as teorias da argumentação, os easy cases são solucionados pela via da


subsunção, circunstância que, no limite — como que a repetir a tese de um
objetivismo ingênuo — dispensa a mediação interpretativa. Permito-me
repetir: isso não passa de um objetivismo ingênuo. Afinal, subsunção
pressupõe esgotamento prévio das possibilidades de sentido de um texto e um
automático acoplamento do fato. Ora, tal perspectiva implica um mergulho
no esquema sujeito-objeto, portanto, aquém do giro linguístico-ontológico.

Ademais, não é possível diferenciar destarte os Easy Cases dos Hard Cases
antes da análise jurídica do caso, pois a grande distinção se encontrará na aplicação dos
princípios de forma ponderada para os Hard Cases.111 Inclusive, conforme pesquisa
realizada por THIAGO CARLOS DE SOUZA BRITO, os próprios tribunais superiores
em suas decisões não realizam a devida diferenciação, independentemente da situação
jurídica levada a sua apreciação, pois nos acórdãos analisados não houvera distinção na
forma de argumentação, até mesmo quanto a extensão dos votos.112
Tribunais Brasileiros. Disponível em:
http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/BUBD-
AW6LN3/tese___fdufmg___thiago_carlos_de_souza_brito.pdf?sequence=1. Acesso em 10 jun.2019
108
BRITO, Fundamentação das decisões judiciais: Elementos para superação do Conceito de Motivação
das Decisões a partir da Análise Comparativa da Atuação Jurisdicional da Supreme Court e dos
Tribunais Brasileiros. Disponível em:
http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/BUBD-
AW6LN3/tese___fdufmg___thiago_carlos_de_souza_brito.pdf?sequence=1. Acesso em 15 jun.2019
109
STRECK, Hermenêutica e Constituição: As conseqüências da (indevida) cisão entre easy cases e
hard cases no direito. Disponível em: http://dfj.emnuvens.com.br/dfj/article/download/543/101/.
Acesso em 15 jun.2019
110
STRECK, Porque a ponderação e a subsunção são inconsistentes. Disponível em:
https://www.conjur.com.br/2014-abr-26/observatorio-constitucional-porque-ponderacao-subsuncao-
sao-inconsistentes. Acesso em 16 jun.2019
111
STRECK, Porque a ponderação e a subsunção são inconsistentes. Disponível em:
https://www.conjur.com.br/2014-abr-26/observatorio-constitucional-porque-ponderacao-subsuncao-
sao-inconsistentes. Acesso em 16 jun.2019
112
BRITO, Fundamentação das decisões judiciais: Elementos para superação do Conceito de Motivação
das Decisões a partir da Análise Comparativa da Atuação Jurisdicional da Supreme Court e dos

46
Tribunais Brasileiros. Disponível em:
http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/BUBD-
AW6LN3/tese___fdufmg___thiago_carlos_de_souza_brito.pdf?sequence=1. Acesso em 15 jun.2019

47
7. METODOLOGIA

7.1. Marco Teórico

No decorrer dos anos o direito processual vem acumulando demandas e


aumentando os custos de sua infraestrutura. Por consequência, a prestação jurisdicional
torna-se ineficaz e contrária ao que preceitua a CF, no rol dos Direitos Fundamentais
(Art. 5º, inciso LXXVIII)113. A morosidade judiciária é assunto recorrente no âmbito do
direito e nas conversas das demais áreas profissionais, e entre os fatores que mais
contribuem para este resultado temos o volume de processos por juiz. Conforme CNJ 114,
justiça em números, em 2017, cada juiz brasileiro julgou, em média, 1.819 processos
(gráfico abaixo), o que equivale a 7,2 casos por dia útil.

Partindo do pressuposto que celeridade não pode ser confundir aceleração,


causando prejuízo a outros direitos e garantias fundamentais, o marco teórico desta
pesquisa acompanha o que apregoa DIERLE JOSÉ COELHO NUNES115:

113
BRASIL (lei federal). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Art. 5º - [...]
LXXVIII - todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo
e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação. Acesso em: 25 mai.2019
114
CNJ, Disponível em: http://www.cnj.jus.br/pesquisas-judiciarias/justicaemnumeros/2016-10-21-13-
13-04/pj-justica-em-numeros , Pág. 83. Acesso em: 25 mai.2019
115
NUNES, Dierle José Coelho. Direito Constitucional ao Recurso. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2006,
p. 49

48
É de se verificar que a quantidade média de processos que um juiz brasileiro
possui sob sua “direção” impõe-lhe uma análise superficial dos casos que lhe
são submetidos, uma vez que o sistema de “prestação jurisdicional” faz com
que este atue como se o que importasse não fosse a aplicação de tutela
constitucional e democraticamente adequada, mas sim a prestação de serviços
rápidos e em larga escala

Posto isso, a análise sob a óptica da utilização da IA no direito, permite


estabelecer quais procedimentos do rito processual poderão ser realizados por máquinas,
proporcionando um resultado eficaz e economicamente viável, respeitando os
pressupostos legais inseridos em nossa Constituição.

7.2. Setores de Conhecimento

O presente projeto basear-se-á na pesquisa interdisciplinar, uma vez que


procura apresentar materiais de conteúdo técnico de IA, bem como material de Direito
Processual.

7.3. Natureza de Dados

Os dados do presente trabalho serão coletados de códigos, leis e da Resolução


da União Europeia de 12 de fevereiro de 2019, que estabelece os parâmetros legais para
utilização de IA. Por fim, serão coletados dados de livros eletrônicos (E-books), artigos,
literatura específica sobre IA e literatura especializada em Direito processual. Para
coleta dos bibliográficos foi realizada pesquisa por meio de palavras chave como:
Inteligência Artificial, Inteligência Artificial e Direito, Direito Processual Civil, Roos,
Victor STF, Humanoide Sophia.

7.4. Grau de Generalização dos Resultados

No que tange a coleta dos dados de literatura especializada, será utilizado o


método de amostragem intencional, haja vista a necessidade de apresentação dos fatores
positivos e negativos da aplicação do IA.

7.5. Técnicas e Procedimentos Metodológicos

49
Trata-se de uma pesquisa exploratória e bibliográfica, com uma abordagem
qualitativa, realizada com os materiais referenciados na bibliografia e análise de “cases”
onde a tecnologia de Inteligência Artificial já fora implantada.

50
8. CRONOGRAMA

São as etapas tanto do projeto quanto da monografia. As abreviaturas que estão


no quadro são as dos meses do ano.

MESES
Mar/1 Mai/1 Jun/1 Out/1
ETAPAS Jan/19 Fev/19 9 Abr/19 9 9 Jul/19 Ago/19 Set/19 9 Nov/19 Dez/19
Definição do Tema objeto do
estudo X
Apresentação do projeto ao
orientador para aprovação X
Levantamento bibliográfico inicial X X
Revisão de literatura e elaboração
do quadro teórico da pesquisa X X
Leitura da Bibliografia X X X
Coleta de dados X X X
Elaboração do sumário provisório X
Redação do referencial teórico X X X X
Redação da 1ª versão do texto X X X
Redação definitiva X X X X
Defesa X

51
9. SUMÁRIO PROVISÓRIO
São os capítulos que serão desenvolvidos na monografia. Ele é provisório, pois
poderá ser modificado.
SUMÁRIO

1. Introdução
2. Poder Judiciário Brasileiro
2.1. Acesso à Justiça e a primeira “onda” por MAURO CAPPELLETTI
2.2. Cenário Atual do Poder Judiciário
3. Conceito de Computar e Sistemas
3.1. Definição de computador
3.2. Definição de Algoritmos
3.3. Definição de Heurística
4. Inteligência Artificial
4.1. História da IA a partir de Alan Turing
4.2. IA Fraca e IA Forte
4.3. Machine Learning
4.4. Deep Learning
4.5. IA e os Tribunais Brasileiros
4.6. IA e os Tribunais Americanos
5. Jurimetria
5.1. Estado Atual da Jurimetria
5.2. Logica Fuzzy
6. Jurisdição
7. Figura do Juiz
7.1. Imparcialidade do Juiz
7.2. Responsabilidades do Juiz
8. Decisões de Juízes Humanos
8.1. Conceito de decisões judiciais
8.2. Sentença
8.3. Decisão Interlocutória
8.4. Despachos

52
9. Hard Cases
9.1. Hard Cases
9.2. Easy Cases
10. Considerações Finais
11. Referências

53
10. REFERÊNCIAS

AGÊNCIA CNJ DE NOTÍCIAS, Saiba a diferença entre sentença, decisão e despacho.


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