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Componente curricular:
Regina Claro
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HISTÓRIA
Miriam Dolhnikoff
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Flavio de Campos
Bacharel e licenciado em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Mestre em História na área de História Social e doutor em Ciências na área de História Social pela
Universidade de São Paulo (USP). Professor doutor do Departamento de História da Universidade
de São Paulo (USP). Coordenador científico do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre
Futebol e Modalidades Lúdicas (Ludens-USP). Autor de livros didáticos e paradidáticos.

Regina Claro
Bacharel em História pela Universidade de São Paulo (USP). Mestre em Ciências na área
de História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Desenvolve projetos de capacitação
para professores da rede pública na temática História e Cultura Africana e Afro-americana,
em atendimento à Lei nº 10.639/03. Autora de livros didáticos e paradidáticos.

Miriam Dolhnikoff
Bacharel e licenciada em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Doutora em Ciências na área de História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP).
Professora doutora do Departamento de História e do curso de Relações Internacionais
da Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise
e Planejamento (Cebrap). Autora de livros didáticos e paradidáticos.

HISTÓRIA
ESCOLA E DEMOCRACIA

6 o
ano

Componente curricular: HISTÓRIA

MANUAL DO PROFESSOR
1a edição

São Paulo, 2018


Coordenação editorial: Leon Torres
Edição de texto: Angela Duarte
Gerência de design e produção gráfica: Cia. de Ética
Coordenação de design e projetos visuais: Didier Moraes, Marcello Araújo
Projeto gráfico: Didier Moraes, Marcello Araújo
Capa: Didier Moraes, Marcello Araújo
Foto: Fabio Colombini.
Coordenação e edição de arte: Didier Moraes e Marcello Araújo
Editoração eletrônica: Cia. de Ética/Cláudia Carminati, Fernanda do Val, Luciano Pessoa,
Márcia Romero, Mônica Hamada, Ruddi Carneiro
Edição de infografia: A+com
Ilustrações de vinhetas: Didier Moraes, Marcello Araújo
Ilustrações: Lucas C. Martinez
Revisão: Cia. de Ética/Ana Paula Piccoli, Denise Pessoa Ribas, Fabio Giorgio, Luciana Baraldi
Coordenação de pesquisa iconográfica: Cia. de Ética/Paulinha Dias
Pesquisa iconográfica: Cia. de Ética/Angelita Cardoso
Mapas: Mário Yoshida
Tratamento de imagens: Pix Arte Imagens
Fechamento de arquivo: Cia. de Ética/Mônica Hamada, Ruddi Carneiro
Impressão e acabamento:

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Campos, Flavio de
História : escola e democracia : manual do
professor / Flavio de Campos, Regina Claro, Miriam
Dolhnikoff. -- 1. ed. -- São Paulo : Moderna, 2018. -
- (História : escola e democracia)

Obra em 4 v. do 6º ao 9º ano.
Bibliografia.

1. História (Ensino fundamental) I. Claro, Regina.


II. Dolhnikoff, Miriam. III. Título. IV. Série.

18-20775 CDD-372.89

Índices para catálogo sistemático:


1. História : Ensino fundamental 372.89
Maria Paula C. Riyuzo - Bibliotecária - CRB-8/7639

ISBN 978-85-16-11649-1 (aluno)


ISBN 978-85-16-11650-7 (professor)

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Todos os direitos reservados
EDITORA MODERNA LTDA.
Rua Padre Adelino, 758 - Belenzinho
São Paulo - SP - Brasil - CEP 03303-904
Vendas e Atendimento: Tel. (0_ _11) 2602-5510
Fax (0_ _11) 2790-1501
www.moderna.com.br
2018
Impresso no Brasil

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Sumário

PAPO ABERTO, V
HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA, VI
O historiador e seu ofício, VI
A renovação teórico-metodológica, VI
A política e a cultura, VII
A História e a construção da cidadania, VIII
África: reflexões sobre História e Historiografia, VIII

PROPOSTA DE ENSINO, X
A produção do conhecimento histórico: livro didático, estímulos e significações, X
Uma história crítica, XI
Um impulso lúdico para o ensino da História, XI
Conteúdos, estrutura da coleção e suas seções, XII
Seções, XII
Projetos interdisciplinares do livro de 6º ano, XIII
Quadro de conteúdos, XIV
Distribuição dos capítulos por bimestres, XIV
A Base Nacional Comum Curricular, XV
Competências Gerais da BNCC, XV
Competências Específicas de História para o Ensino Fundamental, XV
Unidades temáticas, objetos de conhecimento e habilidades, XVI
Unidade temática 1 – História: tempo, espaço e formas de registros, XVI
Unidade temática 2 – A invenção do Mundo Clássico e o contraponto com outras sociedades, XVII
Unidade temática 3 – Lógicas de organização política, XVIII
Unidade temática 4 – Trabalho e formas de organização social e cultural, XIX

TEXTOS SUPLEMENTARES, XX
História da África, XX
Oralidade e tradição nas culturas africanas
HAMPATÉ BÂ, A. A tradição viva, XX
As rotas comerciais transaarianas (1100-1500)
NIANE, D. T. Relações e intercâmbios entre as várias regiões, XXI
O cristianismo na Etiópia e no Sudão
ILIFFE, J. Os africanos. História dum continente, XXIII
Evolução política na floresta ocidental (séculos XI-XV)
ILIFFE, J. Os africanos. História dum continente, XXIV
A África no imaginário político português
ALEXANDRE, V. Velho Brasil/Novas Áfricas: Portugal e o Império (1808-1975), XXV
Fronteiras e construção do Estado-Nação
BARRY, B. Senegâmbia: o desafio da História regional, XXVII
O entre-lugar do discurso africano
REIS, E. L. L. Pós-colonialismo, identidade e mestiçagem cultural: a literatura de Wole Soyinka, XXVII
Identidades africanas
APPIAH, K. A. Na casa de meu pai: a África na filosofia da cultura, XXIX
Um renascimento africano?
M'BOKOLO, E. África Negra. História e civilizações (do século XIX aos nossos dias), XXIX
Teóricos e metodológicos, XXXII
Sobre documentos históricos
LE GOFF, J. "Documento/Monumento". História e memória, XXXII
Sobre história oral
BOM MEIHY, J. C. S. Manual de História oral, XXXIV
Sobre música
NAPOLITANO, M. História e música: história cultural da música popular, XXXV
Sobre leitura e leitores
DARNTON, R. História da leitura, XXXVI
Sobre periódicos
CAPELATO, M. H. R. Imprensa e História do Brasil, XXXVI
Sobre obras de arte
PANOFSKY, E. Estudos sobre iconologia, XXXVII
Sobre arquitetura
FOCILLON, H. Vida das formas, XXXVIII
Sobre fotografia
BURKE, P. A arte de ler retratos, XXXIX
Sobre cinema
FERRO, M. Cinema e História, XL
Sobre mapas e cartografia
GOMES, M. do C. A. Velhos mapas, novas leituras: revisitando a História da cartografia, XL
Sobre a questão racial
PENA, S. D. Ciências, bruxas e raças, XLIII
Sobre os jogos
HUIZINGA, J. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura, XLIII

BIBLIOGRAFIA, XLV
Educação e ensino de História, XLV
História da África, XLV
Teoria, metodologia e historiografia, XLVI
Jogos, esportes e modalidades lúdicas, XLVII

LIVRO DO ALUNO COM ORIENTAÇÕES


Educação Legal: Constituição, leis, resoluções, pareceres, 1
Competências gerais da BNCC, 2
Apresentação/ Competências Específicas de História para o Ensino Fundamental, 3
Por dentro do livro/ Atividades da coleção e competências específicas para o Ensino Fundamental, 4
Passo a Passo: Análise de documentos visuais; Leitura de textos/ Roteiro para análise de filmes, 6
Passo a Passo: Leitura de mapas; Pesquisando na internet / Letramento digital, 7
Sumário/ Habilidades da BNCC por capítulo, 8
Sumário/ Habilidades da BNCC por capítulo; Projetos interdisciplinares, 10
Capítulo 1. A história, os seres humanos e o tempo, 12
Capítulo 2. Origens da humanidade, 30
Capítulo 3. Mesopotâmios, semitas e povos americanos, 56
Capítulo 4. O Egito Antigo, 86
Capítulo 5. A Grécia Antiga, 108
Capítulo 6. Roma Antiga, 138
Capítulo 7. A África de muitos povos, 168
Capítulo 8. A Idade Média, 190
Índice remissivo, 220
Referências bibliográficas, 222
Papo aberto

Não vês que o olho abraça a beleza do mundo inteiro? É a janela do O olhar deseja sempre mais do que lhe é dado ver. E o papel de
corpo humano, por onde a alma especula e frui a beleza do mundo, aceitan- um livro crítico é o de estimular desejos. Desejos por olhares mais di-
do a prisão do corpo que, sem esse poder, seria um tormento. versos. Desejos por olhares mais profundos. Desejos por olhares mais
Leonardo da Vinci surpreendentes. Desejos por olhares mais livres. Desejos por olhares
mais críticos. Desejos por olhares despidos de intolerâncias. Desejos
O livro é um pássaro com mais de cem asas para voar.
que não se confundam com a satisfação pura e simples de prazeres in-
Ramón Gómez de la Serna dividuais, mas que estejam orientados e limitados pelas precondições
Se quiséssemos estabelecer uma história dos sentidos humanos, da vida coletiva.
ao olhar seria destinado um lugar especial, sem dúvida alguma. Tal- Em 1962, o escritor Umberto Eco estabelecia o conceito de obra
vez o mais espiritual dos sentidos, o olhar estimulou a elaboração aberta para referir-se à estética contemporânea. Grosso modo, a aber-
das mais belas metáforas e analogias da cultura ocidental. Olhares tura referida na definição remetia para a possibilidade de se ampliar a
perigosos como os da Medusa. Olhares punitivos como os de Édi- capacidade de indagação e questionamento das obras artísticas e lite-
po. Olhares contemplativos como os de São Bento de Núrsia. Olhares rárias. No lugar de uma análise predeterminada do texto, o estímulo à
destemidos como os de Giordano Bruno. Olhares furtivos como os de intervenção do leitor, a valorização da sua capacidade criativa, inter-
pretativa e analítica.
Shakespeare.
Nesta coleção, procuramos oferecer uma obra aberta, cuja intenção é
Pintores renascentistas chegaram a revelar que enquanto olhavam
contribuir para o processo de formação dos estudantes do Ensino Fun-
sentiam-se vistos pelas coisas. Locke, no século XVII, afirmava que nós
damental II sem considerá-los meros receptores de informações e de-
conhecemos o mundo porque as partículas dos objetos ferem os nos-
finições. Assim, tentamos valorizar suas experiências, seus repertórios
sos olhos. Merleau-Ponty acreditava que a pintura possuía uma fala
culturais e suas referências sociais no desenvolvimento dos mais diver-
própria, através da qual se comunicava conosco.
sos conteúdos conceituais da programação curricular desse segmento
De um modo muito especial, nossos olhares situam-se em uma espé-
de ensino.
cie de fronteira entre nós e o mundo, entre nós e os outros. Do abade
Na mesma direção, tentamos desenvolver possibilidades de explica-
Suger, o célebre arquiteto medieval das catedrais repletas de vitrais, a
ção múltiplas, que superassem uma explicação causal linear e/ou de-
Bill Gates, o proeminente construtor de janelas virtuais contemporâne-
terminada a um único nível de existência humana. Procuramos estimu-
as, a cultura ocidental sustenta-se numa contínua educação do olhar.
lar uma diversificação do olhar. E, nesse sentido, utilizamos uma vasta
A escola é, assim, uma importante instituição de fronteira. Um posto
gama de documentos históricos, balizados por uma perspectiva que
avançado nas múltiplas rotas e caminhos da cultura.
não circunscreve tal definição apenas aos documentos escritos, valo-
No seu dia a dia, cada disciplina procura refinar o olhar dos estudan-
rizando, também, os documentos visuais.
tes com base em práticas e teorias específicas. Não foi por acaso que
Ao longo dos capítulos inserimos orientações aos professores. Tra-
o termo grego theoria foi traduzido por contemplatio pelos romanos, ta-se de um conjunto de propostas de encaminhamento para as ati-
que significa "olhar por admiração". vidades, informações complementares, lembretes sobre a distribui-
No cotidiano, os agentes envolvidos e comprometidos com o proces- ção dos conteúdos e até eventuais demarcações historiográficas. É um
so de educação procuram ampliar o olhar dos estudantes sobre si mes- papo aberto, comentários e conversas sobre possibilidades de desen-
mos, sobre os outros, sobre as relações que definem os lugares sociais volvimento e utilização do material didático.
e os pontos críticos de nosso país e de nossa época. Procuramos elaborar um Manual do Professor que mantivesse tal di-
O ensino de História é indispensável à qualificação e à sofisticação álogo e que servisse de ferramenta aos professores para uma interven-
desses olhares, aos quais procuramos revelar o que talvez esteja menos ção ativa no processo de transformação educacional em curso no Brasil.
aparente ou despertar para perspectivas diversas e questionadoras. Assim, na primeira parte estabelecemos um balanço resumido acerca
Referimo-nos a belezas e tristezas. Elementos que estimulam o riso ou das atuais tendências da historiografia. Evidentemente, tal balanço
provocam o choro, como a comédia e a tragédia, as duas máscaras jus- é apenas uma pequena contribuição para um intrincado debate sobre o
tapostas que representam o teatro e que têm a função de comover o ser qual não nos furtamos de um posicionamento. A seguir, apresentamos
humano e levá-lo a reconhecer suas virtudes e suas potencialidades. algumas reflexões a respeito da questão da cidadania hoje, o papel
Olhar é reconstruir o real, é emancipar cores, decifrar enigmas, provo- do ensino de História a esse respeito e uma reflexão acerca da Histó-
car vertigens na mente. Não importa se o foco é um pôr de sol, uma onda ria da África e sua historiografia.
perfeita, um passo de balé, uma jogada de futebol, uma situação de injus- Na segunda parte apresentamos nossa proposta de ensino de
tiça social, uma crise política ou a desigualdade frequentemente aceita. História, com destaque para a inserção de modalidades lúdicas como
O que importa é aprender a olhar o mundo através dessas muitas repertório a ser considerado na formação dos estudantes. Dando
janelas que compõem a existência humana. E conservar a indignação prosseguimento, oferecemos um panorama da estrutura da coleção,
diante das injustiças. Mesmo quando a indignação se torna cada vez suas seções e o quadro de conteúdos desenvolvidos ao longo dos
mais fora de moda. quatro volumes.

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano V


Além disso, apresentamos um quadro com a distribuição dos ca- dos e perspectivas com trabalhos de outros pesquisadores sobre
pítulos por bimestres, as competências gerais da BNCC, as com- tais assuntos.
petências específicas de História para o Ensino Fundamental, Na quarta parte listamos algumas referências bibliográficas dividi-
e tabelas com as unidades temáticas, objetos de conhecimento das em: educação e ensino de História, História da África, teoria, me-
e habilidades. todologia e historiografia e modalidades lúdicas.
Na terceira parte apresentamos um conjunto de textos suple- Esse papo aberto que pretendemos estabelecer completa-se com o
mentares, divididos em textos de apoio para História da África e desejo dos autores desta coleção em receber críticas e sugestões dos
textos teóricos e metodológicos. No primeiro caso, fizemos uma colegas professores que vierem a tomar contato e/ou utilizar nossos li-
seleção de obras (excertos) que podem contribuir para a formação vros em sala de aula. Fruto da experiência didática dos seus autores, a
dos professores em uma área na qual os estudos acadêmicos, a pro- coleção atual é também o resultado de uma série de observações, pro-
dução intelectual e a circulação bibliográfica são relativamente re- postas e críticas que chegaram até nós. Em algumas situações, feitas
centes. No segundo caso, como nossa coleção oferece atividades não apenas por professores, mas até mesmo por alunos, que devem
baseadas em uma vasta diversidade de documentos históricos, pro- também ser considerados produtores de conhecimento e capacitados
curamos enriquecer as discussões e o aproveitamento dessas ope- a avaliar o nosso trabalho.
rações por meio de textos específicos, alguns considerados clássi- É desse diálogo que esperamos obter subsídios para superar deter-
cos, outros mais recentes. Evidentemente, tais textos são um convite minados limites de nosso projeto, corrigir eventuais equívocos e buscar
para que os colegas examinem as obras citadas com maior profun- o aprimoramento dessa prática social que é o ensino de História.
didade e extensão e que possam também confrontar seus postula- Os autores

História e historiografia
Quando o historiador busca estabelecer, no lugar do poder, as regras e/ou coletiva que foi considerada relevante e transformadora para a
da conduta política e as melhores instituições políticas, representa o prín- vida social em determinada época.
cipe que não é; analisa o que deveria fazer o príncipe. Esta é a ficção que Salientar tal característica do ofício do historiador permite-nos repen-
abre ao seu discurso o espaço onde se inscreve. Ficção efetiva por ser ao sar o papel da subjetividade na construção do objeto de análise. Há mui-
mesmo tempo o discurso do senhor e do servidor – de ser permitida pelo to tempo, a História, bem como as outras ciências sociais, abandonaram
poder e defasada com relação a ele, numa posição onde o técnico, resguar- a concepção positivista de uma verdade calcada na exposição e encade-
dado, como mestre de pensamento pode tornar a representar problemas de amento de fatos. Sabemos que a História não significa uma mera exposi-
príncipe. Ele depende do “príncipe de fato” e produz o “príncipe possível”. ção de datas, acontecimentos, nomes e grandes vultos e heróis.
Michel De Certeau, A escrita da História Não se trata de retornar a uma velha e já ultrapassada discussão.
Ora, a história é a matéria-prima para as ideologias nacionalistas ou Cabe, no entanto, buscar e definir o sentido político e social de nossa
étnicas ou fundamentalistas, tal como as papoulas são a matéria-prima ação como historiadores, como elaboradores de discursos e seleciona-
para o vício da heroína. O passado é um elemento essencial, talvez o ele- dores de determinados conteúdos que implicam determinado percurso
mento essencial nessas ideologias. Se não há nenhum passado satisfató- reflexivo a ser trilhado por nossos colegas e alunos. Ou seja, explicitar
rio, sempre é possível inventá-lo. [...] nossa intervenção política na sociedade, que não descarta nossa parti-
Nessa situação os historiadores se veem no inesperado papel de ato- cipação efetiva nos sindicatos, partidos políticos e movimentos sociais.
res políticos. Eu costumava pensar que a profissão de historiador, ao con- Pelo contrário, complementa-a.
trário, digamos, da de físico nuclear, não pudesse, pelo menos, produzir da- Nosso trabalho, como historiadores, não é meramente técnico. Não
nos. Agora sei que pode. Nossos estudos podem se converter em fábricas se restringe ao ambiente acadêmico nem à exploração de nossos diver-
de bombas, como os seminários nos quais o IRA aprendeu a transformar sificados campos documentais. Não se trata de uma especialidade di-
fertilizante químico em explosivos. vorciada das tramas sociais e políticas que dão sentido à nossa socie-
Eric Hobsbawm, Sobre História dade no tempo presente. Pelo contrário. Em nossas aulas, em nossas
leituras, em nossas pesquisas, em nossos livros, em nossas apostilas e
O HISTORIADOR E SEU OFÍCIO em nossos textos produzimos “saberes” que têm implicações políticas
Segundo Michel De Certeau (1982), o historiador padece de uma frus- e ideológicas.
tração originária. Suas pretensões são políticas, na mesma medida que seu
ofício e labor. Não é senão por acaso que o historiador deixa o palco para A RENOVAÇÃO TEÓRICO-METODOLÓGICA
os sindicatos, classes sociais, grupos revolucionários, líderes religiosos e se Aparentemente, o esgotamento de dogmas intelectuais e de paradig-
encerra, a contragosto, nos bastidores do grande teatro do mundo. mas que até meados da década de 1980 haviam exercido influência
Em seu recolhimento, o historiador reconstrói a vida coletiva, identi- decisiva nas ciências humanas (materialismo histórico, funcionalismo e
fica a lógica de determinados sistemas, busca as conexões entre os fe- estruturalismo e, em termos historiográficos, a Escola dos Annales) con-
nômenos de ordem religiosa e as bases econômicas que sustentam o duziram ao que já foi definido como a “multiplicação do insignificante”,
meio social. De tal modo que “fazer história” traz embutido um duplo ou a fragmentação excessiva da operação historiográfica (BURKE, P.,
sentido: ação do sujeito que opera o conhecimento e a ação individual 1992; DOSSE, F., 1992). De um lado, vivemos a multiplicação de pes-

VI HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


quisas que perdem a dimensão do conjunto e que, renunciando à edi- História, sem princípios incontestáveis, o historiador sente-se mais inde-
ficação de qualquer totalidade, retraem-se acabrunhadas às particula- feso e inseguro. É conduzido a afirmar suas dúvidas, a expor suas contra-
ridades de seus objetos. Uma espécie de ecletismo temático, voltado dições teóricas e epistemológicas, a relativizar suas conclusões e críticas,
para temas triviais (FONTANA, J., 2004). a oferecer suas reflexões como “obra aberta”, passível de ser completa-
Além da excessiva fragmentação, preserva-se uma não menos inquie- da e questionada por outras pesquisas e por seus leitores. Em nenhuma
tante plasticidade metodológica, característica pronunciada desde a cha- outra época a perspectiva democrática, da divergência e do contraditó-
mada terceira geração dos Annales. Os historiadores ainda lançam mão rio, vinculou-se de forma tão estreita ao ofício do historiador.
de conceitos polêmicos e polissêmicos sem muito critério: consciente/ No mesmo processo podemos assistir ao surgimento de diversos
inconsciente coletivo, mentalidades, imaginário, cultura e representação, modelos historiográficos que possuem uma vasta área de intersecção
para ficarmos nos mais atuais. de elementos comuns e que são tributários dessa mesma reação ao es-
As imprecisas fronteiras entre a economia, a sociedade, a política e gotamento dos paradigmas do pós-Segunda Guerra: a Micro-História
a cultura tornaram-se obsoletas. A transdisciplinaridade tornou-se um (GUINZBURG, C., 1991), a História Sociocultural ou Nova História
imperativo. A fértil aproximação da História com a Antropologia e a Lin- Cultural (CHARTIER, R., 1990; HUNT, L., 1992; DARNTON, R., 1996;
guística, registrada pelo menos desde a década de 1960, trouxe novas BURKE, P., 2005), a História do Quotidiano e História da Vida Pri-
interrogações e conceitos, ampliando o universo da ação política e da vada (HELLER, A., 1972; MAFFESOLI, M., 1984; DE CERTEAU, M., 1998;
intervenção social. A cultura, tratada sobretudo em sua vertente erudita ARIES, P. e DUBY, G., 1990).
(BURCKHARDT, J., 1990; HUIZINGA, J., 1978), foi buscada entre os gru- No horizonte dessas últimas soluções, pode-se vislumbrar um vasto
pos subalternos, em suas ramificações populares e nas inter-relações programa historiográfico: “Uma historiografia política e social que não
entre estas e a cultura das elites (THOMPSON, E. P., 1981; VOVELLE, esquecesse as dimensões culturais, os sujeitos e suas interpretações
M., 1983; GINZBURG, C., 1987; BURKE, P., 1989; LADURIE, E. R., 1975; das coisas. Uma história social que não esquecesse a política, o que
ARIÈS, P., 1977; BAKTHIN, M., 1993). tem sido reivindicado repetidamente, ao mesmo tempo em que a histó-
A completa ausência de consenso, um volume imenso de reflexões ria cultural não se esqueceria das estruturas e processos sociais (ARÓS-
teórico-metodológicas e uma superprodução historiográfica podem TEGUI, J., 2006, p. 231). De certo modo, são estas as linhas tendenciais
significar uma salutar busca de novos caminhos. O que pode parecer dominantes na historiografia nesse início do século XXI, ou pelo menos,
sintoma de uma das mais profundas crises da História, capaz de abrir o horizonte de preocupações e intenções que norteiam as discussões
espaço para o relativismo desmedido dos pós-modernistas (LYOTARD, J. e produções atuais.
F., 1993; HARVEY, D., 1992; CONNOR, S., 1993) ou até mesmo o anún-
cio do fim da História (FUKUYAMA, 1992), pode ser compreendido
A POLÍTICA E A CULTURA
como a expressão de um momento de extraordinária renovação dessa A problematização do cotidiano e da vida privada, os estudos da lin-
disciplina. E de redefinições. guagem e do repertório simbólico das classes subalternas e a atenção
Desde meados da década de 1970, operara-se um giro linguístico aos conflitos sociais – mesmo com a redução da escala de observação
(ARÓSTEGUI, J., 2006), ampliado e potencializado pelo pós-modernis- no caso da Micro-História – representaram uma ampliação investigati-
mo, que promoveu uma atenção primordial à linguagem. A análise da va em direção a temas considerados prosaicos: cumprimentos, etiqueta,
linguagem como “representação” do mundo, em suas múltiplas ex- alimentação, comunicação oral, gestualização, sexualidade, relações de
pressões, conduziu, por sua vez, à análise do discurso (FOUCAULT, M., gênero. Em torno desses temas os pesquisadores procuraram estabele-
1998; PÊCHEUX, M., 1999) e à identificação da História como uma for- cer nexos e desvendar articulações sociais tão determinantes e decisivas
ma literária (WHITE, H., 1994). para a vida coletiva quanto as conjunturas econômicas ou as estruturas
De certa maneira, a crise dos paradigmas permitiu o fortalecimento sociais. Muitos conseguiram empreender tais práticas sem perder de vis-
dessa crítica pós-moderna que questionava a possibilidade de um co- ta as implicações políticas de seus objetos. Outros trabalhos, como já ob-
nhecimento objetivo e científico considerado ingênuo e ilusório. A ação servamos anteriormente, acabaram sucumbindo e reduziram-se à parti-
interpretativa e uma renúncia a toda teoria e a um conhecimento to- cularidade e à especificidade de seus objetos e temas.
talizante procurava substituir a ação explicativa, vinculada aos princí- Na busca de significados e da compreensão do funcionamento das
pios de causalidade. sociedades, as mais diversas linguagens tornaram-se objetos privilegia-
Na esteira de tal postura resignada e a despeito do imenso avanço dos para a análise, vistas, cada vez mais, como metáforas da realida-
qualitativo verificado após a Segunda Guerra, tomaram fôlego formas de. Os variados discursos (escritos, orais, arquitetônicos, urbanísticos,
tradicionais da história. Muitas vezes travestidas de novas roupagens e iconográficos, musicais, gestuais, rituais) passaram a ser decodifica-
aproveitando-se da instabilidade conceitual, ressuscitou-se o empirismo, dos com maior frequência, procurando-se também a apreender neles
a erudição ensimesmada, o fetiche pela documentação escrita, a história os elementos que remetem a tensões sociais e a sentidos históricos,
política tradicional, e o neoinstitucionalismo (CHIFFOLEAU, J., 1994). Serí- além de identificar sua produção, circulação e apropriação num dado
amos tentados a identificar uma postura política conservadora animando meio social.
e avivando tais procedimentos historiográficos, em consonância à guina- Dito de outra forma, registrou-se a expansão do território tradicional
da também conservadora que marcou a década de 1990. da política e das lutas sociais, dos lugares mais evidentes (Estado, sin-
Apesar disso, acreditamos que em nenhuma outra circunstância a ope- dicatos, partidos, associações) para áreas onde até então não se atri-
ração reflexiva do historiador aproximou-o tanto da diversidade e da plu- buía grande relevância (escola, família, cultura). Ou seja, a identificação
ralidade características de nossas complexas sociedades. Sem verdades de elementos da “Micro-História” (LEVI, 1992) e sua valorização diante
estabelecidas, sem a metodologia “correta”, sem um “sentido” para a da tradicional “Macro-História”. A História sociocultural impõe, nesse

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano VII


sentido, uma possibilidade de revalorização da política e sua identifica- ras sociais travadas nas grandes cidades do Terceiro Mundo. Essa ética
ção em todos os poros do tecido social. dissemina o cinismo com respeito às questões sociais e provoca um
Ao mesmo tempo que se registrou tal redirecionamento entre os es- perturbador deslocamento daqueles que combatiam os diversos mo-
tudos históricos, operou-se também um alargamento do escopo das lu- vimentos da sociedade civil para o interior desses mesmos movimen-
tas sociais na sociedade contemporânea. No Brasil, como em diversas tos, muitas vezes como pretensos líderes que servem na verdade como
outras regiões do planeta, assistiu-se à multiplicação de movimentos testas de ferro, não por acaso, de poderosos interesses internacionais.
que requereram (e requerem) o estabelecimento de garantias legais e a Mas, principalmente, no nosso cotidiano, essa ética oriunda da globali-
implementação de políticas públicas que erradicassem discriminações zação fragiliza as imunidades sociais frente às diversas formas de precon-
e condições sociais que promovem a degradação da convivência huma- ceito, enfraquecendo os anticorpos que seriam capazes de desencadear
na. Mesmo em conjunturas de refluxo dos movimentos sociais afirma- uma reação à ofensiva da intolerância em seus diversos matizes. Essa éti-
-se uma cultura política diversificada e plural. ca estimula a passividade ao transformar o cidadão em um mero espec-
Essa verdadeira “Era dos Direitos” (BOBBIO, 1992) compreende a tador. Ou, o que é até mais pernicioso, em um ator de um grande espetá-
luta contra os preconceitos raciais, religiosos, sexuais, físicos, regio- culo que submete as pessoas pelas imagens e cujo roteiro e direção não
nais, estéticos, geracionais e tantos outros. Não se trata mais de afirmar se ousa questionar. All that jazz. O show não pode parar.
apenas os direitos fundamentais do homem e sim estabelecer mecanis- A competição desenfreada provoca medos coletivos e individuais. E
mos de proteção e defesa dessas regras elementares para a vida coleti- um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer com que as coi-
va. Nesse sentido, nos dias de hoje, o debate desloca-se da esfera filo- sas pareçam o que não são, como afirmou Miguel de Cervantes. Por
sófica para o universo jurídico-político, tendo como cerne a edificação causa desses medos e da inércia de um olhar direcionado a enaltecer
de uma cidadania participativa e democrática. as benesses do espetáculo da globalização, banaliza-se a violência e
acumula-se um explosivo arsenal de estereótipos e estigmas que visam
A HISTÓRIA E A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA desqualificar o outro como forma de alavancar o sucesso pessoal ou
Não sou de Atenas, nem da Grécia, mas do mundo. então de suportar a própria mediocridade.
Tão letais quanto os explosivos, as armas químicas e os artefatos
Sócrates
nucleares que frequentam os noticiários são essas munições de into-
Quis ser cidadão para ser melhor historiador, sempre me preocupei em lerância que se alojam em nossas casas, em nossas famílias, em nos-
ser um homem do meu tempo para ser melhor um homem do passado. sas escolas e universidades. Como professores e educadores, temos
Jacques Le Goff de nos posicionar diante de uma corrida armamentista muito mais
sutil e dissimulada.
Um dos principais desafios do nosso tempo, no Brasil e no mundo,
Não se trata de desarmar nossos alunos. Trata-se de armá-los contra a
é erradicar o vírus da intolerância. Verdadeira endemia que em deter-
intolerância. Trata-se de provê-los de um refinado repertório cultural que
minados momentos assume a feição de febre social, a intolerância é
seja condicionado por uma formação crítica e pluralista. Trata-se de coibir
transmitida, sobretudo, por olhares deformadores.
discriminações, exclusões e perseguições que fazem da violência uma tri-
Discriminações étnicas, estereótipos sociais, preconceitos regionais
vialidade socialmente aceita.
ou estigmas sexuais têm um mesmo denominador comum: a negação
A tão desgastada palavra “cidadania” não se esgota em programas
do outro. No limite, o desejo de eliminar aqueles que são diferentes.
assistencialistas, governamentais ou não. A tolerância não se reduz à
Uma postura violenta de quem está doente dos olhos.
caridade ou a espetáculos de generosidade de efemérides e de afe-
O ensino de História tem de enfrentar essas questões. Trata-se de
tos súbitos.
uma tarefa difícil, em um momento em que a competitividade parece
A tolerância solidifica-se simultaneamente à construção de uma ci-
ter atingido níveis jamais imaginados. Historicamente, é o momento do
dadania participativa e crítica que requer preparação constante e não
triunfo da ideologia do trabalho, triunfo de uma disciplina introjetada
sentimentos de ocasião. Preparação dos olhares destinados a ler e a
que não se volta apenas para o desenvolvimento das potencialidades entender o mundo, que supere a observação passiva em prol de uma
e habilidades de cada indivíduo, mas que o direciona para um embate intervenção firmemente contrária a qualquer tipo de intolerância. Prin-
– uma verdadeira guerra social pela sobrevivência e pela disputa por cipalmente, contra aquelas que nos possam ser convenientes.
espaços e dignidades cada vez mais exíguos.
Há uma ética que emerge da globalização, consolidada nos últimos ÁFRICA: REFLEXÕES SOBRE
vinte anos e que apresenta um télos social, um destino a qual todos de- HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA
vem se submeter. Uma ética capaz de universalizar a classificação dos A introdução dos estudos de História da África nos meios acadêmicos
homens entre winners e losers – tão estadunidense – e eleger o suces- e escolares brasileiros não representa apenas um acerto de contas com
so como uma espécie de prova inconteste das capacidades individuais. uma malfadada consciência europeia acerca das conquistas de territórios
Ou de associar a manifestação da graça divina à expansão de uma pa- e explorações de povos e nações, transformados, ao mesmo tempo, em
rafernália tecnológica que se assemelha a amuletos contra a solidão e símbolos de sua dominação nos últimos séculos. Muito menos a aceita-
o vazio existencial. Uma tecnologia teleológica, viciosa e estimuladora ção de uma espécie de mea-culpa dos dominadores em busca de uma
de uma compulsão consumista que consome os próprios consumidores. absolvição por suas práticas históricas.
Essa ética torna o solo fértil para a semeadura de alucinógenos mais A inclusão da temática africana deve ser vista como uma continui-
perigosos que a cocaína e o ópio, que se propagam viciosamente tan- dade das lutas e resistências dos povos da África e dos africanos escra-
to no estímulo aos terrores das ações características das guerras ét- vizados na América. Como as guerras contra o invasor, como as fugas e
nico-culturais quanto na anestesia em relação aos horrores das guer- os quilombos, o reconhecimento da História da África e da História dos

VIII HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


Afrodescendentes impõe-se como a preservação e a reconstituição da -se pela negação da historicidade dos africanos. Nessa perspectiva, os
memória de uma história tão desfigurada e violada quanto o foram as africanos seriam incapazes de fazer e contar suas histórias. Somam-
formações sociais e as culturas africanas. -se ainda a influência das teorias raciais às análises feitas pelas ciên-
Constituída a partir das pressões e do trabalho dos movimentos ne- cias sociais, de modo que resultam em uma classificação dos africanos
gros, que explicam as deliberações governamentais de janeiro de 2003, como primitivos e inferiores.
a obrigatoriedade da inclusão da temática africana nas programações A África era considerada um continente a-histórico por excelência.
escolares amplia as pioneiras experiências de grupos de professores da Hegel (1770-1831) definiria explicitamente essa posição em sua Filo-
rede de ensino de todo o país que já atuavam nesse sentido. sofia da História, onde afirmava:
Trata-se de um momento de renovação de nossas práticas de ensino. A África não é uma parte histórica do mundo. Não tem movimentos,
Um momento de transformações da nossa história e de intervenção so- progressos a mostrar, movimentos históricos próprios dela. Quer isto dizer
cial. Após a renovação dos estudos históricos com a ampliação de temas que sua parte setentrional pertence ao mundo europeu ou asiático. Aquilo
e objetos e com a já consolidada e fértil relação transdisciplinar com ou- que entendemos precisamente pela África é o espírito a-histórico, o espíri-
tras áreas do conhecimento, os estudos sobre a História da África abrem to não desenvolvido, ainda envolto em condições de natural e que deve ser
um novo capítulo da escrita da história brasileira. Assim, busca-se um aqui apresentado apenas como no limiar da história do mundo.
novo eixo para a formação do Brasil, busca-se reavaliar as chaves inter-
(Apud FAGE, J. D., in KI-ZERBO, J., 1982, p. 48).
pretativas que permitiram analisar a história do país.
A ausência de estudos sobre a História da África foi uma das maio- Para os historiadores do século XIX ou da virada para o século XX,
res lacunas no sistema educacional brasileiro e teve consequências da- a História da África teria começado no momento em que os europeus
nosas sobre a população brasileira, principalmente a afrodescendente. passaram a estabelecer relações com as populações do continente.
Tal ausência acabou por permitir a criação de uma série de estereótipos Não somente pela ação de registrar e relatar, feita por viajantes, admi-
que dificulta a construção de uma identidade positiva sobre as nossas nistradores, missionários e comerciantes dos séculos XV ao XIX, mas
origens e permite a formulação de hipóteses preconceituosas e desin- principalmente pelas mudanças introduzidas pelos europeus. Tal con-
formadas, criando uma profusão de ideias equivocadas e reforçando cepção foi exposta com ênfase em 1923, pelo professor de História Co-
uma visão eurocêntrica acerca do nosso passado. lonial do King’s College, Arthur Perival Newton (1843-1942), em uma
O conhecimento da História da África é condição para o entendimen- conferência da Royal African Society de Londres sobre “A África e a
to da formação da sociedade brasileira. As tecnologias, costumes, cul- pesquisa histórica”.
turas, estruturas políticas, econômicas e sociais trazidas pelos africanos Segundo ele, a África ao sul do Saara não possuía “arte ou escrita an-
não são devidamente reconhecidos e integrados à História do Brasil. tes da chegada dos europeus. A história começa quando o homem se
Nossa formação, via de regra, apresenta-se reduzida a uma extensão põe a escrever”.
da história europeia com pinceladas exóticas das culturas indígenas Essa opinião forjada no século XIX continuou a ecoar até bem
e africanas, transformadas nos famigerados capítulos denominados pouco tempo. Na década de 1960, em pleno processo de desco-
“contribuições da cultura africana”: capoeira, feijoada (que não é dos lonização do continente africano, o professor de História Moderna
escravos e sim portuguesa), samba, música, candomblé. da Universidade de Oxford, Hugh Trevor-Hoper, em uma série de en-
Além disso, a África é a região do mundo de mais longa historicida- saios sentenciava:
de. Berço da humanidade, esse continente foi palco de diversas expe- Pode ser que no futuro haja uma história da África para ser ensinada. No
riências sociais e uma multiplicidade de fenômenos culturais, inclusive presente, porém, ela não existe; o que existe é a história dos europeus na Áfri-
do aparecimento da sociedade egípcia – uma das primeiras do mundo ca. O resto são trevas e as trevas não constituem tema de história. O mundo
antigo, e certamente a mais duradoura, prolongando-se por mais de 3 atual [...] está a tal ponto dominado pelas ideias, técnicas e valores da Europa
mil anos. No entanto, uma operação conceitual recorrente nos livros ocidental que, pelo menos nos cinco últimos séculos, na medida em que a his-
didáticos e no ensino de História remove o Egito de sua vinculação ao tória do mundo tem importância, é somente a história da Europa que conta.
continente africano associando-o à Mesopotâmia e Palestina. Trata-se Por conseguinte, não podemos nos permitir divertirmo-nos com o movimento
do conceito de Crescente Fértil, criado pelo orientalista estadunidense sem interesse de tribos bárbaras nos confins pitorescos do mundo, mas que
James Henry Brestead, na década de 1920. Por mais operativo e didá- não exerceram nenhuma influência em outras regiões.
tico, o conceito tem claras implicações ideológicas, provocando o es- (Apud FAGE, J. D., in KI-ZERBO, J., 1982, p. 49).
vaziamento da importância da história africana. Ele não é diretamente
eurocêntrico, mas é etnocêntrico. Podemos identificar um segundo grupo de pesquisas predomi-
Com efeito, a tarefa de integrar adequadamente a História da África nantes entre 1950-1980, articulado ao período das independên-
às grades curriculares da rede de ensino alia-se à tarefa de revisão do cias africanas e composto sobretudo de intelectuais e pesquisadores
próprio conceito de História da África. Conceito que reclama uma re- africanos engajados. É designado como corrente da superioridade
leitura livre de preconceitos, anacronismos ou formulações aberrantes. africana, marcado pela reação ao colonialismo e ao racismo e pelo
No intuito de oferecer um panorama geral sobre a historiografia afri- reforço às noções de negritude e de unidade decorrentes das propos-
cana, apresentamos sua produção dividida em três grandes tendên- tas do pan-africanismo.
cias. Evidentemente, trata-se de uma classificação provisória e simplifi- Esse novo contexto de afirmação permitiu o surgimento de uma his-
cada, sujeita a questionamentos, mas de certo modo aceita por grande toriografia africana, produzida inclusive por africanos, comprometida
parte dos estudiosos de temas africanos. com o resgate de seu passado e a dissolução de estereótipos, sobretu-
Um primeiro grupo de trabalhos, produzido entre 1840 e 1950 cos- do a ideia de um continente sem história ou fontes confiáveis. Reforça-
tuma ser denominado corrente da inferioridade africana. Identifica- -se a noção do continente como um todo ainda que articulado em suas

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano IX


diversas partes. As investigações focavam as histórias dos reinos e so- lutas pela libertação em Guiné-Bissau e Angola e com a chamada polí-
ciedades africanos e sua capacidade de organização e transformação tica externa independente promovida por Jânio Quadros.
independentemente dos padrões europeus. É também desse período a criação de três importantes núcleos de es-
Durante as décadas de 1970 e 1980, foram publicadas diversas tudos africanos em atividade até hoje: o Centro de Estudos Afro-Orien-
obras de introdução à História da África, trabalhos de síntese e divulga- tais (CEAO), fundado em 1959, na Bahia, o Instituto Brasileiro de Estu-
ção, e pesquisas sobre diversos aspectos da realidade africana, feitos dos Afro-Asiáticos (IBEAA), fundado em 1961 e ligado à presidência da
com o intuito de dar conta de todo o espaço continental. Um grande República, o Centro de Estudos e Cultura Africana, fundado em 1963,
exemplo é a coleção publicada pela Unesco, História Geral da África, em São Paulo, e ligado à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Hu-
8 vols.; Nações negras e culturas (DIOP, C. A., 1955); Companhia do manas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e hoje Centro de Es-
Senegal (LY, A., 1958). tudos Africanos (CEA). Além desses, em 1973, foi criado o Centro de
Por outro lado, a ascensão das independências no continente africa- Estudos Afro-Asiáticos (CEAA) no Rio de Janeiro. Hoje também conta-
no, ao mesmo tempo que abria novas perspectivas aos povos africa- mos com o Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) na Universidade
nos, também apresentava certa divisão entre dois objetivos contraditó- de Londrina (Paraná), o Núcleo de Estudos Africanos da Universidade
rios: a unidade africana e a construção dos Estados-Nação. de Brasília e o Núcleo de Estudos Africanos da Universidade Federal de
A partir da década de 1980 surgiu uma nova escola de historiadores Santa Catarina.
africanos denominada Nova Escola de Estudos Africanos. A partir de A Universidade Federal da Bahia é pioneira no ensino de História da
então, a História da África passa a ser enriquecida com uma diversida- África e cultura afro-brasileira e pode-se verificar a inclusão de disci-
de de temáticas para investigação como estudos ligados a elementos plinas de História da África nos departamentos de História de diversas
culturais e artísticos, ao cotidiano, às novas tendências da economia e universidades em todo o país nos últimos 15 anos. A dispersão dos tra-
da ciência política, às relações de gênero, à religiosidade. Mantém-se, balhos desenvolvidos vem sendo superada pela promoção de diversos
contudo, a atenção aos temas “clássicos”: escravidão, colonização e os encontros, seminários e congressos. Sem dúvida nenhuma, trata-se de
recentes processos de independências. uma fase de constituição de uma massa crítica sobre a História da Áfri-
No Brasil, há uma significativa tradição em estudos africanos nas áre- ca, que começa hoje a conquistar o espaço que de direito lhe pertence
as de antropologia, sociologia, literatura e linguística. Não se deve es- no campo da pesquisa e do ensino de História.
quecer o trabalho pioneiro e valioso de José Honório Rodrigues, Brasil
e África: outro Horizonte, de 1961. Sua obra coincide com o início das

Proposta de ensino
Nosso teatro precisa provocar o prazer do conhecimento, organizar a Escrever uma coleção didática de História envolve uma série de desa-
brincadeira, a alegria da mudança da realidade. fios. Ser professor no Brasil é também um grande desafio. Sem dúvida, o
Bertolt Brecht livro didático tem de ser acessível aos alunos. E deve ajudar o trabalho
cotidiano dos professores.
A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO HISTÓRICO: A coleção deve atrair a atenção, deve despertar o interesse. Deve pro-
LIVRO DIDÁTICO, ESTÍMULOS E SIGNIFICAÇÕES vocar reflexões. Deve trazer conteúdos e assuntos que sejam relacioná-
veis à diversidade social dos alunos brasileiros. E deve ser aperfeiçoa-
O processo de mudanças no ensino brasileiro sofreu uma acelera-
da, a partir das críticas, sugestões e observações feitas por aqueles que
ção nas últimas décadas. Após o estabelecimento dos PCN (Parâmetros
lidam com ela no dia a dia. Ou seja, alunos e professores.
Curriculares Nacionais) e a disseminação do ENEM como instrumento
O material didático é um instrumento, uma ferramenta para ser usada
de avaliação e ingresso em universidades em todo o país, temos agora
nessa oficina que é a sala de aula. O livro didático deve abrir possibilida-
as orientações da BNCC.
des de análise, deve abrir janelas a serem investigadas, deve suscitar nos
Sepulta-se, assim, a chamada história tradicional, voltada para o acú-
alunos a curiosidade científica e criteriosa. Porque o leitor, ainda jovem,
mulo de informações, para a mera memorização de dados ou a repeti-
é também um agente de transformação histórica. É um sujeito social que
ção de definições. Em seu lugar, afirma-se uma história transdisciplinar, deve ter um papel ativo no processo de elaboração do conhecimento his-
operativa, que requer um conjunto de competências cognitivas e habi- tórico. O estudante deve ser estimulado a desenvolver sua autonomia.
lidades instrumentais. Nosso material não pretende substituir o professor. Até porque
Produzir conhecimento torna-se, desse modo, o objetivo não apenas essa coleção é o resultado de muitos anos de atividades pedagógicas
da História como disciplina específica, mas também para todo o con- de seus autores. Procura auxiliar o professor ao oferecer uma visão
junto das ciências humanas (e também para as Linguagens, Matemáti- de história que tenta incorporar a historiografia recente e também ao
ca e Ciências Naturais). propor uma série de atividades diversificadas, das mais simples ope-
Esta coleção de História procura estar sintonizada com tais mudan- rações de verificação e compreensão de leitura até análises de ima-
ças. Evidentemente, as escolhas efetuadas carregam muito da trajetória, gens, de documentos escritos e mapas, instigando relações, associa-
dos limites e das reflexões de seus autores a respeito dessas questões. ções e comparações.

X HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


A lição, já se disse muitas vezes, sabemos de cor. Resta aprender. tória, que permitem identificar as permanências e transformações e
Os conteúdos conceituais não podem ser considerados um fim em si acompanhar as variações nesses diversos níveis da existência huma-
mesmos. Mas são meios pelos quais se desenvolve um conjunto de na. No consagrado esquema de Braudel, tentamos articular o tempo do
competências e habilidades fundamentais para a ação social e cogni- evento ao tempo conjuntural e ao tempo estrutural.
tiva desses estudantes. No entanto, a privatização do espaço público e o consequente estrei-
Estudar é semelhante ao trabalho de um detetive que investiga um de- tamento do exercício da cidadania operaram-se conjuntamente com a
terminado assunto. O bom detetive é aquele que considera o maior núme- discriminação social a partir de elementos culturais. Apresentar tais tra-
ro de hipóteses e escolhe aquelas que julga mais convincentes. Para fazer ços por meio das mais variadas linguagens (iconografia, letras de mú-
isso, ao contrário do que se pode pensar, é importante ter dúvidas. Todos sicas, arquitetura, propaganda, textos literários etc.) possibilita não só
têm dúvidas. Do mais importante cientista ao mais humilde trabalhador. a compreensão dessas engrenagens passadas como também suas per-
O que faz um trabalho de investigação ser bom é a capacidade de manências e transformações na sociedade contemporânea.
organizar essas dúvidas e tentar solucionar o maior número delas. Em Em suma, trata-se de um livro engajado nas lutas sociais que procura
qualquer área profissional, há sempre questões em aberto, onde as re- não ser panfletário, cujo objetivo é oferecer, por intermédio da compre-
flexões e as investigações ainda não obtiveram respostas conclusivas. ensão crítica da História em suas diversas significações e linguagens, um
A pesquisa dá respostas sempre provisórias. Sempre é possível ampliar exercício de cidadania.
e reformular as respostas obtidas anteriormente. O diálogo com outras disciplinas, desde há muito, vem se revelan-
Elaborar um livro com esse intuito significa enfrentar as simplifica- do profícuo e indispensável às análises históricas. Como a vida huma-
ções da História. Significa não banalizar os conflitos sociais reduzindo- na não pode ser reduzida a um único nível, a perspectiva de História
-os a esquematismos caricatos ou a maniqueísmos vulgares. que tem pretensões totalizadoras deve resgatar os diversos aspectos
As lutas sociais não podem ser compreendidas em sua complexidade da existência: econômico, político, social, cultural.
se forem apresentadas como lutas do bem contra o mal. É necessário Além disso, determinados conteúdos, denominados temas trans-
recuperar os interesses em jogo, as ambiguidades e contradições dos versais, tornam-se também indispensáveis para o ensino de História
agentes envolvidos e até mesmo o lugar social de onde os autores, os que se pretenda crítico e atento às questões do cotidiano dos alunos.
professores e os alunos partem para a análise das questões. Sem dúvida, entre todos os temas transversais, este livro estabelece
Todavia, sobre o estudo da História paira a maldição do anacronis- uma aproximação mais estreita com a ética e a cidadania e com a pers-
mo. É uma espécie de pecado capital do historiador. Isso significa que pectiva da pluralidade cultural.
o nosso trabalho é operacionalizado no fio da navalha. Devemos apro-
ximar os conteúdos da realidade dos alunos. Devemos problematizar UM IMPULSO LÚDICO PARA O ENSINO DA HISTÓRIA
as questões. Devemos estabelecer o diálogo entre passado e presente. O meu jeito de brincar é dizer a verdade. É a brincadeira mais séria
Devemos operar com várias temporalidades simultaneamente. do mundo.
Os valores morais e sociais, as formulações políticas e os princípios Bernard Shaw
éticos são historicamente condicionados. Assim, é preciso preservar a
historicidade de cada situação. Para estimular o interesse dos estudantes para o ensino da História
Devemos ter o cuidado de não transformar as análises em julgamen- é necessário que a disciplina tenha significação para eles. Não basta
tos arbitrários e autoritários. A avaliação de determinados comporta- simplesmente afirmar que o objetivo a ser alcançado é situar o aluno no
mentos deve, sempre, levar em consideração as características cultu- momento histórico em que vive, nem que se pretenda que ele seja ca-
rais e mentais de cada época. Aquilo que Lucien Goldmann chamou de paz de estabelecer relações entre sua vida cotidiana e as estruturas so-
“consciência possível” (1972) e que a Escola dos Annales desenvolveu ciais e que proceda a “idas e vindas” na apreensão das temporalidades.
em diversas vertentes desde Lucien Febvre e Marc Bloch. É necessário identificar elementos especiais, comuns e significativos
que se estabeleçam como canais de comunicação entre o universo in-
UMA HISTÓRIA CRÍTICA fantojuvenil e o universo adulto. De nossa parte, acreditamos que o
A proposta desta nossa obra é possibilitar, por meio do estudo de elemento lúdico pode ser um canal privilegiado dessa comunicação.
História, a compreensão do funcionamento de diversas sociedades ao A questão do jogo foi motivo de profícuas indagações e reflexões nas
longo do tempo e o resgate das lutas políticas e sociais entre os gru- mais diversas áreas do conhecimento. Segundo Schiller (Cartas sobre
pos subalternos e os grupos dominantes em seus mais diversos níveis. la Educación Estética del Hombre, p. 94) o homem só pode conside-
Não basta a um livro de História apenas denunciar os problemas que rar-se humano pelo exercício lúdico, que lhe confere a experiência da
se constituíram no Brasil e em várias partes do mundo ao longo de sé- plenitude existencial. Para Karl Groos, o jogo está diretamente relacio-
culos (concentração de renda, concentração fundiária, analfabetismo, nado com o desenvolvimento da inteligência (Apud COUTNEY, R., Jogo,
exclusão e privilégios sociais). É necessário pôr a nu os mecanismos teatro & pensamento, p. 24-25.). Para Walter Benjamin (Obras Esco-
sociopolíticos e culturais que geraram tal situação e que garantem sua lhidas: magia e técnica, arte e política, p. 252-253), a essência da
perpetuação, limitando o exercício pleno da cidadania. brincadeira é a repetição e, assim, a brincadeira está na origem de to-
Quando possível, procuramos estabelecer as inter-relações dos vários dos os hábitos. Para Johan Huizinga (Homo ludens, p. 3-31) tal dado
níveis da vida social, a multiplicidade das representações do real, a plu- fundamental alicerça os mitos, rituais, práticas coletivas, relações de
ralidade de lógicas. E, sobretudo, procuramos resgatar as diversas moda- classe e estruturas sociais. Ou seja, o impulso lúdico é o próprio cerne
lidades discursivas, as variadas linguagens que compõem o “fazer” coti- do ímpeto construtivo do ser humano. O jogo cria uma ordem particu-
diano da História. Uma história viva, não esquemática e não reducionista. lar, uma realidade fascinante com seu tempo e espaço definidos, com
Assim, pareceu-nos importante recuperar os ritmos variados da His- suas tensões, regras e valores.

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano XI


Para a criança, o jogo é o centro da infância, uma busca incessante No livro de 6º ano o eixo é dado pela questão da diversidade cultural
do prazer das vitórias e das competições. A essência do brincar não nas diversas formações sociais abordadas. Apresentamos um longo per-
é “fazer como se” mas “fazer sempre de novo”, repetir à exaustão de- curso da História da humanidade, desde as suas origens na Pré-História
terminadas situações e saborear prolongadamente a excitação dos até a formação da Europa feudal. Um dos elementos articuladores é o con-
desafios. O jogo desempenha em sua vida o mesmo papel que o tra- junto de crenças e práticas religiosas, utilizados como justificativas para a
balho representa para o adulto. Aquela sente-se forte por suas proe- origem das organizações sociais e dos conhecimentos e saberes. Por essa
zas; este, por suas obras. Por outro lado, o mundo do jogo constitui-se razão, optamos por reforçar as articulações entre as religiões monoteís-
também em uma antecipação do universo adulto: a criança brinca de tas do tronco abraâmico (judaísmo, cristianismo e religião muçulmana).
profissões e ocupações desempenhadas pelos mais velhos. Ao mes- No livro de 7º ano, que se ocupa da longa transição do feudalismo
mo tempo, nas brincadeiras infantis projeta-se o imaginário social, para o capitalismo, o eixo é a questão dos Estados e suas articulações
os desejos, as fantasias sociais e as utopias. A imitação é própria do com as variadas relações de trabalho. Apresentamos um percurso da
jogo: os brinquedos/brincadeiras constituem-se em um diálogo sim- história marcado pela expansão europeia nos séculos XV e XVI e pela
bólico entre o universo da criança e o universo dos adultos. É nes- conquista de terras e possessões na América, África e Ásia, com o esta-
se diálogo que pretendemos incluir a História: no centro da vida da belecimento de uma série de regras, instituições e mecanismos de con-
criança e esta no centro da História. trole sobre os diversos continentes.
Articular jogos/brincadeiras e História não é apenas uma forma mais No livro de 8º ano o eixo reside na questão das revoluções e nas trans-
estimulante de organizar e produzir o conhecimento histórico. É aliar formações aceleradas que propiciaram o surgimento da sociedade tec-
as habilidades instrumentais e competências cognitivas do jogo às da nológica. Uma Era das Revoluções, como propôs Hobsbawm. O elemento
reflexão. É valorizar o repertório infantojuvenil sem realizar a apologia central que articula os diversos capítulos são as transformações políticas,
do senso comum e muito menos da ausência de significação. É ten- econômicas e sociais a partir do século XVII com as Revoluções Inglesas
tar apresentar uma história viva e desenvolver a capacidade operativa e com os componentes culturais associados à Ilustração e às chama-
e decodificadora das engrenagens sociais simultaneamente à compre- das ideologias: liberalismo, nacionalismo, socialismo e anarquismo.
ensão e ao contínuo exercício de práticas lúdicas. É tentar salientar e No livro de 9º ano o eixo repousa sobre conflitos ideológicos, direitos
disseminar o prazer das operações reflexivas. Como na Grécia Antiga, civis e movimentos sociais, iniciando pela questão do imperialismo
procura-se estabelecer a paidia (os jogos) em sua estreita vinculação que desemboca na Primeira Guerra Mundial. É possível entender o pe-
com a paideia (educação). ríodo contemporâneo como a Era dos Direitos, de acordo com Bobbio.
Assim como as estruturas sociais, os jogos/brincadeiras também se Direito à liberdade para os escravos no final do século XIX. Direito dos
constituem a partir de regras, permissões e interditos. O funcionamento afrodescendentes à igualdade social. Direito à independência dos po-
de determinadas sociedades pode, portanto, ser compreendido a partir vos africanos, conquistada pelos movimentos anticolonialistas. Direito
da análise de determinados jogos característicos: futebol para o Brasil, à democracia contra as ditaduras latino-americanas e contra os regimes
xadrez para a Europa medieval e moderna, jogos olímpicos para a Gré- autoritários do Leste Europeu. Direitos dos excluídos e explorados. Di-
cia ou o beisebol para os estadunidenses. reitos iguais para mulheres e homens. Direito à paz e à vida contra as
Ao mesmo tempo que se descortina o funcionamento de dadas so- políticas militaristas. Direito a outra globalização, que não represente a
ciedades pelos seus jogos, rituais e brincadeiras, desenvolvem-se no- exclusão social e a concentração de poderes e conhecimentos. Direito
ções de regras, organização, princípios éticos e participação política. à organização da sociedade e à contestação política.
Estimula-se a noção de direitos procurando discutir as características
SEÇÕES
históricas do processo de formação da cidadania no Brasil e no mundo
Ocidental, seus limites e contradições, por meio das relações entre os A seguir são apresentadas as seções de cada capítulo:
cidadãos e o poder público, estabelecendo paralelos com as dinâmicas Na parte introdutória é oferecida aos alunos uma seção intitulada Pas-
dos jogos, competições e brincadeiras. so a passo (páginas 6 e 7 de cada um dos livros). Trata-se de roteiros
Há uma história de Andersen em que se narra a existência de um livro para a leitura de textos, imagens, mapas e pesquisa pela internet. Para 6º
caríssimo, cujo preço valia a metade do reino. Era um livro vivo. Os pássa- e 7º anos, com orientações um pouco reduzidas para facilitar a sua com-
ros cantavam e os homens saíam das páginas e falavam. Era um livro de- preensão e o manuseio por parte dos alunos. Evidentemente, não são
licado, até um pouco confuso, em razão da movimentação dos animais e as únicas formas de procedimento nesses casos. No entanto, podem ser
das diversas pessoas. Mas o seu valor essencial não residia nas páginas úteis para que os alunos se habituem à sucessão de passos necessários
que saltavam aos olhos das crianças. O que lhes prendia a atenção não ao melhor aproveitamento de determinados registros textuais ou visuais.
era a contemplação, mas a intervenção penetrante e lúdica que lhes sa- Nossa sugestão é que essa introdução, por tudo o que oferece aos
ciava a curiosidade e lhes instigava a criatividade e a participação. alunos, seja visitada com regularidade. Tanto para a compreensão e
assimilação da estrutura da coleção quanto para a assimilação desses
CONTEÚDOS, ESTRUTURA DA COLEÇÃO E SUAS SEÇÕES procedimentos. Sobretudo com respeito à análise de imagens, que não
A coleção estrutura-se em quatro livros, cujo número de capítulos é são meras ilustrações coloridas. Trata-se de uma linguagem muito pró-
variável e que procura dar conta da programação curricular do Ensino xima do universo visual de nossos estudantes e que merece ser traba-
Fundamental II, desde a Pré-História até os dias atuais, de acordo com lhada com rigor. O exercício constante com tais imagens procura aper-
a BNCC. feiçoar o olhar dos alunos e capacitá-los ao exercício crítico frente ao
Nos quatro livros da coleção, procuramos destacar as questões relati- turbilhão de imagens com as quais lidam cotidianamente.
vas a relações de gênero e o manuseio das fontes históricas, com ênfa- Jogo aberto: atividades introdutórias estimuladas por imagens que
ses variadas dependendo da série e dos conteúdos específicos. visam estabelecer uma sondagem prévia sobre o conteúdo a ser traba-

XII HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


lhado com os estudantes, ativar seu repertório acerca desses assuntos perspectiva a elaboração de um dicionário como resultado do trabalho
e oferecer elementos que serão abordados e posteriormente retoma- e das atividades dos quatro anos letivos.
dos ao longo do capítulo. A seguir oferecemos uma Leitura complementar (documento escri-
Texto básico: é o texto geral do capítulo que reúne os conteúdos con- to, texto historiográfico, artigo de jornal ou revista, trecho de livro etc.)
ceituais e dados informativos e serve como fio condutor para os estudos cujo objetivo é ampliar um pouco mais os conhecimentos sobre os as-
dos estudantes. suntos desenvolvidos no capítulo.
Tá ligado?: atividades de verificação de leitura do texto básico e dos Por fim, três seções extremamente importantes: Olho no lance, na
mapas. Serve como um roteiro simples para a compreensão e organi- qual há um exercício de leitura ou produção de imagem; Permanências
zação dos conteúdos apresentados ao longo do capítulo. Esse recurso e rupturas, em que se propõe algum tipo de relação com outras tem-
foi utilizado de maneira mais abundante no livro de 6º ano, como fer- poralidades, destacando os ritmos do desenvolvimento histórico; Salto
ramenta para auxiliar a leitura do texto pelos alunos. Nos livros subse- triplo, com sugestões de filmes, livros e sites para aprofundar ainda
quentes, o número de atividades é um pouco menor devido ao desen- mais os conteúdos desenvolvidos ao longo de cada capítulo. Além des-
volvimento crescente da competência leitora dos estudantes. sas sugestões, em alguns capítulos, procuramos oferecer aos estudantes
Bate-bola: trata-se de um quadro do capítulo que apresenta uma ima- dicas de acessos a sites educativos, museus, acervos digitais e outros
gem e/ou um pequeno texto seguido de questões que visam aprofundar portais para pesquisa e aprofundamento com a seção Tá na rede. Por
os conteúdos apresentados, oferecer um documento de época (visual ou meio de um QR Code, o estudante pode acessar tais conteúdos utilizan-
escrito), estabelecer relações com o presente, ou sugerir algum tipo de do um smartphone, conferindo maior dinamismo ao material impresso.
polêmica ou controvérsia com respeito ao que está sendo estudado. Va- Ao longo dos livros da coleção indicamos a possibilidade de se de-
riável, essa é uma seção que permite relações transdisciplinares e que se senvolver projetos interdisciplinares.
orienta no sentido de possibilitar relações e associações entre temporali-
dades diversas e discussões sobre conteúdos atitudinais. PROJETOS INTERDISCIPLINARES DO LIVRO DE 6º ANO
Quadros complementares: acrescentam informações e imagens ao 1. Jogos Indígenas
conteúdo que está sendo desenvolvido pelo Texto básico. Alguns des- História + Educação Física
ses quadros possuem um ícone temático que os identificam: 2. Origens
História + Ciências + Arte + Língua Portuguesa
África
3. Seres humanos na América
Relações África- História + Arte + Língua Portuguesa + Ciências + Geografia
América anglo-saxã 4. Iraque e o patrimônio histórico mesopotâmico
Relações África- História + Geografia + Arte
América Latina 5. História social das cores
História + Arte + Língua Portuguesa
Jogos
6. A crise hídrica no Brasil
História + Geografia + Ciências + Arte + Língua Portuguesa
Povos indígenas
7. Mumificação e práticas fúnebres
História + Ciências
Relação de gênero
8. Matemática no Egito Antigo
Relação de gênero História + Matemática
e diversidades 9. Fazendo cena
História + Língua Portuguesa + Arte
Cidadania
10. Jogos Olímpicos
História + Geografia + Ciências + Língua Portuguesa + Matemática
Oralidade
11. O mundo através da Matemática
História + Arte + Matemática + Língua Portuguesa
Olhares diversos
12. Mulheres na História
História + Arte + Língua Portuguesa
Direitos humanos
13. Reforma agrária
História + Geografia
Patrimônio
14. Há dez mil anos atrás
Quebra-cabeça: atividades variadas que visam aprofundar a leitu- História + Arte + Língua Portuguesa
ra sobre algum quadro do capítulo, organizar informações e conceitos, 15. As mulheres no mundo islâmico
propor desafios criativos e apresentar sugestões de pesquisa. É pro- História + Geografia
posto que o conjunto de conceitos selecionados seja organizado sob 16. O maravilhoso medieval: produção de um folio iluminado
a forma de um pequeno dicionário conceitual. Pode ser interessante História + Arte + Língua Portuguesa
desenvolver tal proposta de maneira cumulativa, ou seja, tendo como

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano XIII


QUADRO DE CONTEÚDOS

• Tempo natural e tempo • Sítio arqueológico • Escravidão/escravismo • Teocracia


cultural • Nomadismo • Estado • Povos da Índia
• História • Sedentarização • Cidade-Estado • Povos da China
• Memória • Propriedade coletiva • Povos da Mesopotâmia • Reinos germânicos
• Periodizações/Divisões da • Propriedade privada • Maias, astecas e incas • Império Bizantino
História • Politeísmo • Sociedade Marajoara • Religião muçulmana
Conteúdos • Pré-História • Monoteísmo • Povos do Egito Antigo • Islamismo
conceituais • Natureza/Cultura • Divisão sexual do trabalho • Povos da Palestina • Servidão
• Diversidade cultural • Mito • Povos africanos • Senhorio
• Hominização • Rito • Grécia Antiga • Feudo
• Documentos históricos • Exclusão social • Democracia • Mobilidade social/estrati-
• Escrita/oralidade • Religiosidades • Roma Antiga ficação social
• Eurocentrismo • Sociedades/formações • República • Reconquista Ibérica
• Cultura material sociais • Império
• Desenvolvimento da capa- • Desenvolvimento inicial • Desenvolvimento da ca- • Observação e compara-
cidade lecto-escrita de coleta de dados e infor- pacidade de classifica- ção de estruturas e divi-
• Identificação e análise de mações ção de fenômenos so- sões sociais
Competências documentos escritos • Identificação de ritmos e ciais • Desenvolvimento da ca-
cognitivas e • Desenvolvimento da capa- temporalidades diversas • Estabelecimento de rela- pacidade de leitura e in-
habilidades cidade de leitura e análise • Organização sequencial e ções entre situações de terpretação de mapas
instrumentais de imagens (ilustrações, cronológica de eventos diversas temporalidades • Estímulo à produção de
fotos, charges, pinturas, • Desenvolvimento da capa- • Identificação de perma- desenhos e imagens
esculturas) cidade de elaboração de nências e rupturas
linhas do tempo
• Relativização dos padrões • Questionamento crítico • Postura crítica diante da • Postura crítica com rela-
culturais ocidentais sobre as várias formas de dominação sobre os po- ção aos preconceitos e
• Postura crítica em relação violência social e de exclu- vos africanos discriminações sociais
Conteúdos ao eurocentrismo são sociais • Valorização da participa- • Postura crítica com rela-
atitudinais • Identificação e historici- • Discussão sobre relações ção política ção à sociedade tecnoló-
zação da construção do de gênero e papéis sociais • Valorização da demo- gica e ao consumismo
espaço público e da cida- femininos ao longo da his- cracia • Estímulo à tolerância reli-
dania tória giosa e étnico-cultural
• Jogos dos povos indíge- • zarabatana; futebol de ca- • Senet • Jogos Votivos, Ludi
nas; jogos de lutas; cor- beça; arremesso de lan- • Teatro Romani; jogos de lutas;
ridas; jogos com bolas; ças; canoagem; futebol • Jogos Olímpicos; Salto corridas de cavalos; tea-
dramatizações; jogos ele- feminino; cabo de guerra; com vara; 4 por 100 m; tro; futebol.
trônicos; futebol; basque- rodar pião; pula-cela; arco; lançamento de disco; jo- • Corridas de cavalos; cor-
tebol; voleibol; natação; cavalinho; gira/roda; pas- gos de luta; pugilato; cor- ridas de bigas; combates
Modalidades atletismo; boxe; tênis; sa-perna. rida com armas; pentatlo de gladiadores; atletismo;
lúdicas golfe; jogos de tabuleiros; • Jogos e caça; jogos e lin- (corrida, luta, arremesso teatro; harpastum; follis;
teatro; novelas; mímica; guagem; dança; jogos e de dardo, lançamento de trigon; futebol; futebol
reality shows; esportes pinturas rupestres; jogos disco e salto em exten- americano; rúgbi; volei-
radicais; surfe; alpinismo; com bolas de pedras; jo- são); dromo; diaulo; hípi- bol; Jogos Olímpicos
bungee jump; paraque- gos de varetas; jogos de ca; maratona; ginástica. • Jogos de imitação;
dismo; corrida de tora; bastão; jogos com bola. capoeira.
arco e flecha; • Jogo Real de Ur

DISTRIBUIÇÃO DOS CAPÍTULOS POR BIMESTRES

1º Bimestre 2º Bimestre 3º Bimestre 4º Bimestre


Capítulos 1 e 2 Capítulos 3 e 4 Capítulos 5 e 6 Capítulos 7 e 8

XIV HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


A Base Nacional Comum Curricular

A versão homologada da BNCC, apresentada em 2017, ofereceu referencias nacionais para o ensino e apren-
dizagem da Educação Básica definindo conhecimentos essenciais e progressivos e o sequenciamento das
habilidades.
A BNCC estabeleceu dez competências gerais, inter-relacionadas e sete competências específicas de História
para o Ensino Fundamental. Na BNCC, competência foi definida como como a mobilização de conhecimen-
tos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para
resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho.

COMPETÊNCIAS GERAIS DA BNCC 9. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a coo-


1. Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos peração, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao ou-
sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e ex- tro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da
plicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a cons- diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes,
trução de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de
2. Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria qualquer natureza.
das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, 10. Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade,
a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com
testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis
(inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das dife- e solidários.
rentes áreas.
3. Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS DE
das locais às mundiais, e também participar de práticas diversifi- HISTÓRIA PARA O ENSINO FUNDAMENTAL
cadas da produção artístico-cultural. 1. Compreender acontecimentos históricos, relações de poder e pro-
4. Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, cessos e mecanismos de transformação e manutenção das estru-
como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem turas sociais, políticas, econômicas e culturais ao longo do tempo
como conhecimentos das linguagens artística, matemática e cien- e em diferentes espaços para analisar, posicionar-se e intervir no
tífica, para se expressar e partilhar informações, experiências, mundo contemporâneo.
ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos 2. Compreender a historicidade no tempo e no espaço, relacionan-
que levem ao entendimento mútuo. do acontecimentos e processos de transformação e manuten-
5. Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e ção das estruturas sociais, políticas, econômicas e culturais,
comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas bem como problematizar os significados das lógicas de organi-
diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comuni- zação cronológica.
car, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, 3. Elaborar questionamentos, hipóteses, argumentos e proposições
resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pes- em relação a documentos, interpretações e contextos históricos
soal e coletiva. específicos, recorrendo a diferentes linguagens e mídias, exerci-
6. Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apro- tando a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos, a cooperação
priar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem en- e o respeito.
tender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas 4. Identificar interpretações que expressem visões de diferentes su-
alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com jeitos, culturas e povos com relação a um mesmo contexto histó-
liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. rico, e posicionar-se criticamente com base em princípios éticos,
7. Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis,
democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários.
para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e deci-
5. Analisar e compreender o movimento de populações e mercadorias
sões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a
no tempo e no espaço e seus significados históricos, levando em
consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito
conta o respeito e a solidariedade com as diferentes populações.
local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao
6. Compreender e problematizar os conceitos e procedimentos nor-
cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.
teadores da produção historiográfica.
8. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional,
7. Produzir, avaliar e utilizar tecnologias digitais de informação e co-
compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas
municação de modo crítico, ético e responsável, compreendendo
emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar
seus significados para os diferentes grupos ou estratos sociais.
com elas.

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano XV


UNIDADES TEMÁTICAS, OBJETOS DE CONHECIMENTO
E HABILIDADES
A BNCC estabeleceu um conjunto de habilidades, ou seja, aptidões ou terizar, associar, conceituar, relacionar, associar, analisar e estabelecer.
destrezas para a realização de determinadas tarefas específicas. Nesse Para que tais habilidades sejam acionadas, a BNCC definiu uma série
sentido, vale destacar o emprego de comandos operatórios como iden- de objetos do conhecimento e estabeleceu as operações básicas que de-
tificar, descrever, comparar, formular, conhecer, discutir, explicar, carac- vem relacioná-los.

Unidade temática 1
História: tempo, espaço e formas de registros
Habilidades
Objetos de conhecimento Habilidades
Capítulos Páginas

p. 12-14
p. 19
Capítulo 1 p. 16-29
Capítulo 2 p. 47-53
A questão do tempo, sincronias e (EF06HI01) Identificar diferentes formas Capítulo 4 p. 101-105
diacronias: de compreensão da noção de tempo e
Capítulo 5 p. 110-113
reflexões sobre o sentido das de periodização dos processos históricos
cronologias (continuidades e rupturas) Capítulo 6 p. 118-119
Capítulo 7 p. 133-135
Capítulo 8 p. 140-143
p. 188-189
p. 192-193

p. 12-17, 19
p. 26-29
p. 30-31, 32
p. 35-41, 51-55
Capítulo 1
p. 75-77, 80-81,
Capítulo 2
p. 86-87
(EF06HI02) Identificar a gênese da produção do Capítulo 4
Formas de registro da história e da saber histórico e analisar o significado das fontes p. 92-93, 98-99
Capítulo 5
produção do conhecimento histórico que originaram determinadas formas de registro p. 104-107
em sociedades e épocas distintas. Capítulo 6
p. 108-113
Capítulo 7
p. 133-135
Capítulo 8
p. 138-143
p. 166-169
p. 184-187
p. 216-217

(EF06HI03) Identificar as hipóteses científicas


sobre o surgimento da espécie humana e sua p. 30-34
Capítulo 2
historicidade e analisar os significados dos mitos p. 52-53
de fundação.

(EF06HI04) Conhecer as teorias sobre origem do p, 30-31, 39


Capítulo 2
homem americano. p. 42-43, 52-53
As origens da humanidade, seus
deslocamentos e os processos de (EF06HI05) Descrever modificações da natureza p. 40-45
sedentarização e da paisagem realizadas por diferentes tipos de Capítulo 2 p. 47-49
sociedade, com destaque para os povos indígenas
originários e povos africanos, e discutir a natureza Capítulo 4 p. 52-53
e a lógica das transformações ocorridas. p. 86-89

(EF06HI06) Identificar geograficamente as rotas p. 39


Capítulo 2
de povoamento no território americano. p. 42-43

XVI HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


Unidade temática 2
A invenção do Mundo Clássico e o contraponto com outras sociedades

Habilidades
Objetos de conhecimento Habilidades
Capítulos Páginas

p. 56-61
p. 62-83
p. 86-94
(EF06HI07) Identificar aspectos e formas de
registro das sociedades antigas na África, no Capítulo 3 p. 96-99
Oriente Médio e nas Américas, distinguindo Capítulo 4 p. 100
Povos da Antiguidade na África alguns significados presentes na cultura Capítulo 7 p. 102-107
(egípcios), no Oriente Médio material e na tradição oral dessas sociedades.
(mesopotâmicos) e nas Américas (pré- p. 168-169
colombianos) p. 174-175
p. 184-189
Os povos indígenas originários do
atual território brasileiro e seus
hábitos culturais e sociais

(EF06HI08) Identificar os espaços territoriais


ocupados e os aportes culturais, científicos, p. 78-79
sociais e econômicos dos astecas, maias Capítulo 3
e incas e dos povos indígenas de diversas p. 80
regiões brasileiras.

p. 108-113
p. 116-121
(EF06HI09) Discutir o conceito de Antiguidade p. 126-129
O Ocidente Clássico: aspectos da Clássica, seu alcance e limite na tradição Capítulo 5
p. 133-139
cultura na Grécia e em Roma ocidental, assim como os impactos sobre Capítulo 6
outras sociedades e culturas. p. 148-149
p. 154-155
p. 164-167

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano XVII


Unidade temática 3
Lógicas de organização política
Habilidades
Objetos de conhecimento Habilidades
Capítulos Páginas

p. 108-109
(EF06HI10) Explicar a formação da Grécia p. 112-115
Capítulo 5
Antiga, com ênfase na formação da pólis e nas p. 118-121
Capítulo 6
transformações políticas, sociais e culturais. p. 136-137
p. 165-167

(EF06HI11) Caracterizar o processo de formação


p. 140-147
da Roma Antiga e suas configurações sociais e Capítulo 6
p. 164-165
As noções de cidadania e política na políticas nos períodos monárquico e republicano.
Grécia e em Roma. p. 108-109
p. 114-117
• Domínios e expansão das culturas p. 124-127
grega e romana (EF06HI12) Associar o conceito de cidadania
Capítulo 5 p. 133-137
a dinâmicas de inclusão e exclusão na Grécia e
Capítulo 6 p. 140-143
• Significados do conceito de Roma antigas.
p. 146-147
“império” e as lógicas de conquista, p. 158-159
conflito e negociação dessa forma de p. 164-167
organização política.
p. 68-69
As diferentes formas de organização p. 102-103
política na África: reinos, impérios, p. 114-115
cidades-estados e sociedades p. 122
Capítulo 3
linhageiras ou aldeias p. 128-129
(EF06HI13) Conceituar “império” no mundo Capítulo 4
p. 133-135
antigo, com vistas à análise das diferentes formas Capítulo 5
p. 144-145
de equilíbrio e desequilíbrio entre as partes Capítulo 6
p. 149-153
envolvidas Capítulo 7
p. 156-157
Capítulo 8
p. 160-161
p. 164-165
p. 170-175
p. 194-195

p. 156-165
A passagem do mundo antigo para o p. 168-183
mundo medieval. (EF06HI14) Identificar e analisar diferentes Capítulo 6 p. 186-187
formas de contato, adaptação ou exclusão entre Capítulo 7 p. 192-194
A fragmentação do poder político na populações em diferentes tempos e espaços. Capítulo 8 p. 198-201
Idade Média. p. 204-209
p. 216-219

p. 72-77, 80
p. 102-103
p. 122-123
Capítulo 3 p. 133-135
Capítulo 4 p. 144-147
O Mediterrâneo como espaço de (EF06HI15) Descrever as dinâmicas de circulação
Capítulo 5 p. 152-153
interação entre as sociedades da de pessoas, produtos e culturas no Mediterrâneo e
Capítulo 6 p. 164-165
Europa, da África e do Oriente Médio. seu significado.
Capítulo 7 p. 168-169
Capítulo 8 p. 170-177
p. 186-187
p. 196-197
p. 200-201

XVIII HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


Unidade temática 4
Trabalho e formas de organização social e cultural
Habilidades
Objetos de conhecimento Habilidades
Capítulos Páginas

p. 130-133
p. 148-149
(EF06HI16) Caracterizar e comparar as dinâmicas Capítulo 5
p. 152-153
de abastecimento e as formas de organização do Capítulo 6 p. 164-165
Senhores e servos no mundo antigo trabalho e da vida social em diferentes sociedades
Capítulo 7 p. 168-183
e no medieval. e períodos, com destaque para as relações entre
p. 190-191
senhores e servos. Capítulo 8
p. 204-209
p. 212-215
Escravidão e trabalho livre em
diferentes temporalidades e espaços
p. 97
(Roma Antiga, Europa medieval e
p. 124-125
África). Capítulo 4 p. 133
Capítulo 5 p. 142-143
Lógicas comerciais na Antiguidade (EF06HI17) Diferenciar escravidão, servidão e p. 146-147
Capítulo 6
romana e no mundo medieval. trabalho livre no mundo antigo. p. 156-157
Capítulo 7 p. 164-165
Capítulo 8 p. 168-169
p. 190-191
p. 216-217

O papel da religião cristã, dos (EF06HI18) Analisar o papel da religião cristã


p. 190-197
mosteiros e da cultura na Idade na cultura e nos modos de organização social no Capítulo 8
p. 202-219
Média. período medieval..

p. 81
p. 86-87
p. 95
Capítulo 3 p. 106-109
Capítulo 4 p. 116-117
(EF06HI19) Descrever e analisar os diferentes Capítulo 5 p. 126-127
O papel da mulher na Grécia e em
papéis sociais das mulheres no mundo antigo e p. 133-137
Roma, e no período medieval.. Capítulo 6
nas sociedades medievais. p. 162-163
Capítulo 7 p. 172-175
Capítulo 8 p. 182-183
p. 186-187
p. 196-199
p. 216-219

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano XIX


Textos suplementares

É, pois, nas sociedades orais que não apenas a função da memória é


HISTÓRIA DA ÁFRICA mais desenvolvida, mas também a ligação entre o homem e a Palavra é
mais forte. Lá onde não existe a escrita, o homem está ligado à palavra
ORALIDADE E TRADIÇÃO NAS CULTURAS AFRICANAS que profere. Está comprometido por ela. Ele é a palavra, e a palavra en-
cerra um testemunho daquilo que ele é. A própria coesão da sociedade
HAMPATÉ BÂ, A. A tradição viva. In: KI-ZERBO, J. (Org.). História geral da África. repousa no valor e no respeito pela palavra. Em compensação, ao mes-
São Paulo: Ática/Unesco, 1982. v. 1. p.179-218. mo tempo que se difunde, vemos que a escrita pouco a pouco vai substi-
tuindo a palavra falada, tornando-se a única prova e o único recurso; ve-
Quando falamos de tradição em relação à história africana, referimo-
mos a assinatura tornar-se o único compromisso reconhecido, enquanto
-nos à tradição oral, e nenhuma tentativa de penetrar a história e o espíri-
o laço sagrado e profundo que unia o homem à palavra desaparece pro-
to dos povos africanos terá validade a menos que se apoie nessa herança
gressivamente para dar lugar a títulos universitários convencionais.
de conhecimentos de toda espécie, pacientemente transmitidos de boca
Nas tradições africanas – pelo menos nas que conheço e que dizem
a ouvido, de mestre a discípulo, ao longo dos séculos. Essa herança ain-
respeito a toda a região de savana ao sul do Saara – a palavra falada se
da não se perdeu e reside na memória da última geração de grandes de-
empossava, além de um valor moral fundamental, de um caráter sagra-
positários, de quem se pode dizer: são a memória viva da África.
Entre as nações modernas, onde a escrita tem precedência sobre a ora- do vinculado à sua origem divina e às forças ocultas nela depositadas.
lidade, onde o livro constitui o principal veículo da herança cultural, du- Agente mágico por excelência, grande vetor de “forças etéreas”, não era
rante muito tempo julgou-se que povos sem escrita eram povos sem cul- utilizada sem prudência.
tura. Felizmente, esse conceito infundado começou a desmoronar após Inúmeros fatores – religiosos, mágicos ou sociais – concorrem, por
as duas últimas guerras, graças ao notável trabalho realizado por alguns conseguinte, para preservar a fidelidade da transmissão oral. Pareceu-
dos grandes etnólogos do mundo inteiro. Hoje, a ação inovadora e cora- -nos indispensável fazer ao leitor uma breve explanação sobre esses fa-
josa da Unesco levanta ainda um pouco mais o véu que cobre os tesou- tores, a fim de melhor situar a tradição oral africana em seu contexto e
ros do conhecimento transmitidos pela tradição oral, tesouros que per- esclarecê-la, por assim dizer, a partir do seu interior.
tencem ao patrimônio cultural de toda a humanidade. Se formulássemos a seguinte pergunta a um verdadeiro tradicionalista
Para alguns estudiosos, o problema todo se resume em saber se é pos- africano: “O que é tradição oral?”, por certo ele se sentiria muito emba-
sível conceder à oralidade a mesma confiança que se concede à escrita raçado. Talvez respondesse simplesmente, após longo silêncio: “É o co-
quando se trata do testemunho de fatos passados. No meu entender, não nhecimento total”.
é esta a maneira correta de se colocar o problema. O testemunho, seja O que, pois, abrange a expressão “tradição oral”? Que realidades vei-
escrito ou oral, no fim não é mais que testemunho humano, e vale o que cula, que conhecimentos transmite, que ciências ensina e quem são os
vale o homem. transmissores?
Não faz a oralidade nascer a escrita, tanto no decorrer dos séculos Contrariamente ao que alguns possam pensar, a tradição oral africana,
como no próprio indivíduo? Os primeiros arquivos ou bibliotecas do com efeito, não se limita a histórias e lendas, ou mesmo a relatos mitoló-
mundo foram o cérebro dos homens. Antes de colocar seus pensamen- gicos ou históricos, e os griots estão longe de ser seus únicos guardiães
tos no papel, o escritor ou o estudioso mantém um diálogo secreto con- e transmissores qualificados.
sigo mesmo. Antes de escrever um relato, o homem recorda os fatos tal A tradição oral é a grande escola da vida, e dela recupera e relaciona to-
como lhe foram narrados ou, no caso de experiência própria, tal como ele dos os aspectos. Pode parecer caótica àqueles que não lhe descortinam o
mesmo os narra. segredo e desconcertar a mentalidade cartesiana acostumada a separar
Nada prova a priori que a escrita resulta em um relato da realidade tudo em categorias bem definidas. Dentro da tradição oral, na verdade, o
mais fidedigno do que o testemunho oral transmitido de geração a gera- espiritual e o material não estão dissociados. Ao passar do esotérico para
ção. As crônicas das guerras modernas servem para mostrar que, como o exotérico, a tradição oral consegue colocar-se ao alcance dos homens,
se diz (na África), cada partido ou nação “enxerga o meio-dia da porta de falar-lhes de acordo com o entendimento humano, revelar-se de acordo
sua casa” – através do prisma das paixões, da mentalidade particular, com as aptidões humanas. Ela é ao mesmo tempo religião, conhecimento,
dos interesses ou, ainda, da avidez em justificar um ponto de vista. Além ciência natural, iniciação à arte, história, divertimento e recreação, uma vez
disso, os próprios documentos escritos nem sempre se mantiveram livres que todo pormenor sempre nos permite remontar à Unidade primordial.
de falsificações ou alterações, intencionais ou não, ao passarem sucessi- Fundada na iniciação e na experiência, a tradição oral conduz o ho-
vamente pelas mãos dos copistas – fenômeno que originou, entre outras, mem à sua totalidade e, em virtude disso, pode-se dizer que contribuiu
as controvérsias sobre as “Sagradas Escrituras”. para criar um tipo de homem particular, para esculpir a alma africana.
O que se encontra por detrás do testemunho, portanto, é o próprio va- Uma vez que se liga ao comportamento cotidiano do homem e da co-
lor do homem que faz o testemunho, o valor da cadeia de transmissão da munidade, a “cultura” africana não é, portanto, algo abstrato que possa
qual ele faz parte, a fidedignidade das memórias individual e coletiva e ser isolado da vida. Ela envolve uma visão particular do mundo, ou, me-
o valor atribuído à verdade em uma determinada sociedade. Em suma: a lhor dizendo, uma presença particular no mundo – um mundo concebi-
ligação entre o homem e a palavra. do como um Todo onde todas as coisas se religam e interagem.

XX HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


A tradição oral baseia-se em uma certa concepção do homem, do seu Através da boca de Tierno Bokar, o sábio de Bandiagara, a África dos
lugar e do seu papel no seio do universo. Para situá-la melhor no contex- velhos iniciados avisa o jovem pesquisador:
to global, antes de estudá-la em seus vários aspectos devemos, portanto, “Se queres saber quem sou,/Se queres que te ensine o que sei,
retomar ao próprio mistério da criação do homem e da instauração pri- Deixa um pouco de ser o que tu és/E esquece o que sabes.”
mordial da Palavra: o mistério tal como ela o revela e do qual emana. [...]
[...] Para a África, a época atual é de complexidade e de dependência. AS ROTAS COMERCIAIS TRANSAARIANAS (1100-1500)
Os diferentes mundos, as diferentes mentalidades e os diferentes perío-
NIANE, D. T. “Relações e intercâmbios entre as várias regiões”. In: História geral da
dos sobrepõem-se, interferindo uns nos outros, às vezes se influencian-
África. Trad. São Paulo: Ática/Unesco, 1988. v. 4. p. 629-637.
do mutuamente, nem sempre se compreendendo. Na África, o século XX
encontra-se lado a lado com a Idade Média, o Ocidente com o Oriente, o Entre 1100 e 1500, a África foi um parceiro privilegiado nas relações
cartesianismo, modo particular de “pensar” o mundo, com o “animismo”, intercontinentais do Velho Mundo. Tanto através do Mediterrâneo como
modo particular de vivê-lo e experimentá-lo na totalidade do ser. Os jo- através do oceano Índico, um comércio intenso, mais frequentemente in-
vens líderes “modernos” governam, com mentalidades e sistemas de lei, termediado pelos muçulmanos, ligava a Europa e a Ásia ao continente
ou ideologias, diretamente herdados de modelos estrangeiros, povos e africano. Deve-se enfatizar que vários tipos de comércio organizado no
realidades sujeitos a outras leis e com outras mentalidades. Para exem- interior da África já existiam desde a Pré-História. [...]
plificar, na maioria dos territórios da antiga África ocidental francesa, o có- Parece que no plano econômico e comercial a África estava em plena
digo legal elaborado logo após a independência, por nossos jovens juris- expansão nos séculos XIV e XV; mas os contatos com o Ocidente aber-
tas, recém-saídos das universidades francesas, está pura e simplesmente tos pelo tráfico de escravos significaram a interrupção de um impulso vi-
calcado no Código Napoleônico. O resultado é que a população, até en- goroso, que teria mudado o curso da história da África, caso o comércio
tão governada segundo costumes sagrados que, herdados de ancestrais, se tivesse desenvolvido com mercadorias de fato. Grandes correntes de
asseguravam a coesão social, não compreende por que está sendo jul- intercâmbios culturais atravessaram o continente em todas as direções,
gada e condenada em nome de um “costume” que não é o seu, que não confundindo-se por vezes com as correntes de comércio. Não havia mais
conhece e que não corresponde às realidades profundas do país. regiões isoladas, pois nem florestas nem desertos constituíam barreiras
O drama todo do que chamarei de “África de base” é o de ser frequen- intransponíveis. Hoje, as escavações arqueológicas, o estudo das línguas
temente governada por uma minoria intelectual que não a compreende africanas e das tradições orais abrem novas perspectivas para a pesquisa
mais, através de princípios incompatíveis com a sua realidade. histórica e já começam a esclarecer o problema das migrações, da trans-
Para a nova “intelligentsia” africana, formada em disciplinas universi- ferência de tecnologia e das relações entre regiões bastante afastadas.
tárias europeias, a Tradição muitas vezes deixou de viver. São “histórias O papel do Islã, tanto na difusão de ideias como no comércio, foi de ex-
de velhos”! No entanto, é preciso dizer que, de um tempo para cá, uma trema importância à época, como ilustram as viagens de Ibn Battuta para
importante parcela da juventude culta vem sentindo cada vez mais a ne- a China e pela África oriental e ocidental. Nossos conhecimentos sobre as
cessidade de se voltar às tradições ancestrais e de resgatar seus valores populações no período que ora tratamos muito devem aos trabalhos dos
fundamentais, a fim de reencontrar suas próprias raízes e o segredo de geógrafos, viajantes e historiadores muçulmanos.
sua identidade profunda.
Por contraste, no interior da “África de base”, que em geral fica longe O Saara e o Sabel: um espaço privilegiado para a pesquisa no
das grandes cidades – ilhotas do Ocidente –, a tradição continuou viva e, estudo das relações exteriores
como já o disse antes, grande número de seus representantes ou deposi- Em meados deste século, historiadores europeus tentaram explicar o
tários ainda pode ser encontrado. Mas por quanto tempo? atual atraso tecnológico da África pela existência do Saara, que, segundo
O grande problema da África tradicional é, em verdade, o da ruptura diziam, teria isolado a África negra do mundo mediterrâneo. Na realidade,
da transmissão [...]. mesmo quando se tornou desértico, o Saara nunca constituiu uma barreira.
[...] Estamos hoje, portanto, em tudo o que concerne à tradição oral, Afinal, não era desabitado. Era a terra dos nômades, que mantinham con-
diante da última geração dos grandes depositários. [...] tatos estreitos com os povos sedentários do norte e do sul. Entre 1100 e
Para que o trabalho de coleta seja bem-sucedido, o pesquisador de- 1500, o Saara serviu como zona de passagem privilegiada, e pode-se dizer
verá se armar de muita paciência, lembrando que deve ter “o coração de que esse período correspondeu à idade de ouro do comércio transaaria-
uma pomba, a pele de um crocodilo e o estômago de uma avestruz”. “O no. A partir do século X, o comércio de ouro da África ocidental com a Áfri-
coração de uma pomba” para nunca se zangar nem se inflamar, mesmo ca setentrional desenvolveu-se com regularidade. O Saara foi comparado,
se lhe disserem coisas desagradáveis. Se alguém se recusa a responder com procedência, com o mar: o Sahel sudanês e as fronteiras meridionais
sua pergunta, inútil insistir; vale mais instalar-se em outro ramo. Uma dis- da África setentrional seriam seu litoral. No sul, Tichit, Walata, Tombuctu,
puta aqui terá repercussões em outra parte, enquanto uma saída discre- Tirekka e Gao eram os terminais mais importantes das caravanas de Ta-
ta fará com que seja lembrado e, muitas vezes, chamado de volta. “A pele mdult, Sidjilmasa, Tlemcen, Wargla e Ghadames. Só o dromedário se pres-
de um crocodilo”, para conseguir se deitar em qualquer lugar, sobre qual- tava para a travessia do deserto, que levava dois meses, senão três. Isso
quer coisa, sem fazer cerimônias. Por último, “o estômago de uma aves- explica a importância das grandes pastagens ao norte e ao sul do Saara, re-
truz”, para conseguir comer de tudo sem adoecer ou enjoar-se. servadas à alimentação e à criação de dromedários, e também as disputas,
A condição mais importante de todas, porém, é saber renunciar ao há- às vezes violentas, entre os nômades pelo controle desses pastos.
bito de julgar tudo segundo critérios pessoais. Para descobrir um novo Tanto ao norte como ao sul, o comércio transaariano estendeu-se bem
mundo, é preciso saber esquecer seu próprio mundo, do contrário o pes- além dos “portos” mencionados; o Tuat e o Ghura, o Djarld tunisiano e os
quisador estará simplesmente transportando seu mundo consigo ao in- oásis líbios foram tão importantes para o comércio transaariano quanto
vés de manter-se “à escuta”. os próprios “portos”. Do Sahel à savana florestal, as vias terrestres e flu-

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano XXI


viais completavam o sistema transaariano. Certamente é este o caso da O sal servia de moeda comercial para os sudaneses, assim como o
atual República do Senegal, sendo bem conhecido o sistema constituído ouro e a prata. Cortavam-no em pedaços para negociá-lo. Apesar de o
pela bacia superior do Níger. As mais recentes pesquisas realizadas em burgo de Teghazza ser de pouca importância, ali se comercializava gran-
Burkina Fasso (ex-Alto Volta) e nas Repúblicas de Gana e da Nigéria su- de quantidade de pó de ouro.
gerem que se desenvolveram relações comerciais entre a África ao sul O sal era muito caro no Sudão. O preço era quatro vezes maior em Nia-
do Saara e o Magreb. A área em questão situa-se na savana, e há muitas ni e Walata; provavelmente os povos da floresta pagavam-no ainda mais
evidências arqueológicas de que era bem frequentada. No norte da atual caro. O sal-gema cortado em pedaços pequenos servia de brinde ou di-
República Federal da Nigéria, essa corrente de circulação certamente en- nheiro miúdo para os comerciantes itinerantes. Da mesma forma, as nozes-
contrava a que vinha da atual República do Chade [...] -de-cola provenientes da floresta serviam de moeda nos mercados das al-
Os nômades, senhores do deserto, foram muito beneficiados pelo co- deias. Começa a parecer provável que os povos da floresta obtivessem sal
mércio transaariano, pois as caravanas levavam-lhes cereais e tecidos em por outros meios, como, por exemplo, pela queima de plantas salíferas. O
troca de carne, sal e água. Assim, os nômades e os povos sedentários sal também vinha da costa, embora em pequena quantidade. [...]
complementavam-se. As caravanas necessitavam de guias na imensidão O cobre também era artigo importante no comércio da África ocidental e
do Saara; estes lhes eram fornecidos pelos nômades, que conheciam as de outras partes do continente. Pesquisas de anos recentes começam a re-
rotas e eram pagos a preço de ouro. A travessia do Saara tinha que ser velar as formas mais antigas do comércio do cobre na África ocidental. [...]
preparada minuciosamente; os camelos eram alimentados durante vá- Os habitantes de Takedda eram prósperos e gozavam uma vida abas-
rias semanas. Para chegar ao Sudão, Ibn Battuta foi a Sidjilmasa, ponto tada, tendo grande número de escravos de ambos os sexos. As escravas
de encontro dos que partiam do Marrocos para o sul, e anotou: “Nes- instruídas só raramente eram vendidas, e por um preço alto. Ibn Battuta
ta cidade comprei camelos, que alimentei com forragem durante quatro teve dificuldades para comprar uma, já que os que as possuíam recusa-
meses”. A caravana era liderada por um chefe, que a todos comandava vam-se a vendê-las. Conta que um habitante que concordou em vender-
como um capitão de navio. Começada a viagem, ninguém deveria atra- -lhe uma delas arrependeu-se tanto que quase “morreu com o coração
sar-se ou avançar muito rapidamente, nem se afastar do grupo, pois po- partido”. Infelizmente não nos relata em que consistia a educação dessas
dia se perder no imenso deserto. [...] mulheres escravas, tão requisitadas. É muito provável que fossem procu-
No Sudão, acumular ouro era uma antiga tradição, ao passo que em radas por seus talentos culinários ou por sua grande beleza.
Gana o rei tinha o monopólio sobre as pepitas encontradas nas minas [...] De Takedda, Ibn Battuta partiu para Tuat numa grande caravana, com cer-
No entanto os sudaneses sempre mantiveram os muçulmanos na mais ca de 600 mulheres escravas. Esse é um dado muito revelador, pois nos
completa ignorância quanto à localização das minas de ouro e à forma de informa quantos escravos uma caravana podia transferir do Sudão para o
explorá-lo. O mansa Musa I, sem mentir e fornecendo várias explicações, in- Magreb, e também que o objetivo do tráfico de escravos era fornecer em-
clusive sobre a exploração das minas, não deu maiores esclarecimentos aos pregados domésticos, às vezes bem especializados em algumas atividades,
habitantes do Cairo que lhe fizeram perguntas sobre seu fabuloso império. para a aristocracia árabo-berbere. Os soberanos sudaneses também impor-
Isso explicaria como o rei do Mali manteve sua reputação de rique- tavam escravos, sobretudo do Cairo, para formar sua guarda pessoal. [...]
za extraordinária. Pouco mais de uma geração após sua peregrinação, o Para os soberanos e a aristocracia, o que contava era ter uma comitiva
mansa apareceu segurando na mão sua pepita de ouro no famoso atlas bem dotada e leal.
de Maiorca feito para Carlos V da França. Os maiorquinos só poderiam ter Alguns autores tentaram atribuir importância injustificada à exporta-
sabido dessa história pelos muçulmanos. Hoje está praticamente esta- ção de escravos para os países árabes. No período ora estudado, esse co-
belecido que, além das conhecidas jazidas de Galam, Burem e Bambuku, mércio não constituía uma hemorragia, pois o que mais interessava aos
o ouro das regiões pré-florestais e florestais – atuais Repúblicas da Cos- árabes no Sudão era o ouro, cuja necessidade para cunhagem se fazia ur-
ta do Marfim, de Gana e da Nigéria – alimentava o comércio setentrional gente ao redor do Mediterrâneo. Raymond Mauny arriscou uma estimati-
daquela época. É sabido que o comércio de ouro do Mali foi muito impor- va do número de escravos negros exportados para o norte da ordem de
tante na Idade Média, mas seria arriscado adiantar estimativas sobre a 20 mil por ano, ou 2 milhões por século. Os árabo-berberes não tinham
quantidade do metal exportada. A generosidade dos mansa leva à supo- tanta necessidade de mão de obra para uma demanda tão grande. É im-
sição de que o montante de ouro acumulado era considerável. No Sudão, portante lembrar o famoso tratado, referido como o bakt, assinado pelos
o ouro era tido como “sagrado”, ou, ao menos, dotado de poder miste- dirigentes do Egito e pelos reis da Núbia. Estipulava ele que o rei da Nú-
rioso. No pensamento tradicional, apenas o rei podia dominar o “espíri- bia deveria mandar 442 escravos anualmente para o Cairo, assim distri-
to” do ouro. A mesma concepção prevalecia nas regiões florestais do sul, buídos: 365 para o tesouro público, 40 para o governador do Cairo, 20
onde as chefarias possuíam muito ouro. para seu delegado em Aswan (Assuã), 5 para o juiz de Aswan e 12 para
os 12 notários da cidade. O tributo exigido pelo sultão do Cairo prova que
O sal e outras mercadorias
as necessidades da Corte não eram enormes.
O sal teve um papel preponderante no comércio transaariano, bem O tráfico transaariano de escravos, se foi permanente do século VIII ao
como no de outras regiões africanas. Muitos dirigentes da África ociden- XVI, nunca ultrapassou certo limite. Para alimentar esse comércio, os sobe-
tal constantemente tentaram abaixar seu preço. Oficiais alfandegários ranos guerreavam com o sul, preferindo poupar as reservas disponíveis em
controlavam rigorosamente as exportações e importações de sal. As mi- seus Estados. Os árabo-berberes não só procuravam ouro, como também
nas de Teghazza supriam os mercados do Sudão ocidental; as regiões do marfim. As presas de elefantes africanos eram muito valorizadas na Arábia
rio Senegal obtinham sal-gema em Awlil, mas a distribuição desse sal di- e na Índia por serem mais moles e, portanto, mais fáceis de esculpir do que
ficilmente ultrapassava o interior da curva do Níger. as dos elefantes da Ásia, extremamente duras. O Sudão também vendia
Grande parte da renda da Coroa provinha da taxação do sal, e isso se peles, ônix, couro e cereais para os oásis do Saara. No século XIV, quan-
manteve no século XIV. [...] do do apogeu do Mali, a rota mais frequentada era a que foi utilizada por

XXII HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


Ibn Battuta; uma outra rota, bastante usada pelos peregrinos do Mali, ia de Os soberanos do Sudão rodeavam-se de juristas e conselheiros ára-
Tombuctu a Kayrawãn (Kairuan), passando por Wargla. [...] bes, que, em sua maioria, seguiam o culto maliquita. No entanto, no sé-
É bem provável que o papel das comunidades judaicas nesse comércio culo XIV, Ibn Battuta menciona a existência de caridjitas brancos entre os
tenha sido muito importante. A pesquisa de T. Lewicki revelou a participa- Diafununke do Mali.
ção dos judeus de Tuat já desde os séculos VIII e IX [...] Em todo caso, há O papel cultural e econômico dos muçulmanos foi mais notável no sul
muitas referências a judeus: no início do século XVI, o português Valentim do Saara. Ao voltar de sua peregrinação, o mansa Müsa I trouxe em sua
Fernandes fala dos “judeus” ricos, mas oprimidos, de Walata. comitiva escritores e um arquiteto que empregou para construir a famo-
No século XV, com a ofensiva da Reconquista, os cristãos estabelece- sa sala de audiência, onde Ibn Battuta foi recebido em 1353 pelo mansa
ram-se no Magreb. Muitos comerciantes italianos foram atraídos para o Solimão, irmão e sucessor de Müsa I.
Sudão, pois sua riqueza em ouro tornara-se lendária. Benedetto Dei, via-
jante e escrivão florentino, afirma ter errado pela região até Tombuctu en- O CRISTIANISMO NA ETIÓPIA E NO SUDÃO
tre 1469 e 1470. O genovês Antonio Malfante é conhecido pela famosa
ILIFFE, J. Os africanos: história dum continente. Trad. Lisboa: Terramar, 1999. p.
carta que enviou do Tuat a sua casa comercial em Gênova. Malfante vi-
59-61.
sitou o Tuat e recolheu valiosas informações sobre o Sudão nigeriano e
sobre o Tuat enquanto encruzilhada de comércio. Mas o contato direto A Igreja copta era uma igreja missionária. A primeira região em que se
entre a Europa e o Sudão deu-se pelo Atlântico, no século XV, com os na- expandiu foi a Etiópia. Após a queda de D’mt, entre os séculos V e III a.
vegadores portugueses. C., vários pequenos estados que lhe sucederam ocuparam o planalto do
Ibn Khaldun nos informa que havia caravanas de 12 mil camelos indo norte da Etiópia. O incremento do comércio no Mar Vermelho, no período
do Sudão ao Egito. A travessia do Saara em linha reta era difícil devido ptolomaico, enriqueceu a região e ligou-a às atividades mediterrânicas
às tempestades de areia na diagonal Níger-Nilo; assim, era raro as cara- através do seu porto mais importante, Adulis, célebre pelo marfim. Du-
vanas irem diretamente para o Egito. Nas rotas normais do Níger ao Ma- rante o século I d.C., numa época que se caracterizou por uma precipita-
greb, as caravanas tinham em média mil camelos. ção invulgarmente generosa, surgiu um reino em Axum, que continuou a
unificar a região, herdando uma grande parte da cultura do Sul da Arábia
A difusão de ideias e técnicas
e embelezando a sua capital com edifícios apalaçados em pedra, gran-
Como resultado do comércio transaariano, muitos árabo-berberes se des estelas de pedra que assinalavam túmulos reais e uma zona envol-
estabeleceram nas cidades do Sudão – Walata, Niani, Tombuctu e Gao, vente constituída por vivendas rurais. Dois séculos depois, o reino cunha-
entre outras; a maioria dessas cidades tinha um bairro árabe. Os casa- va moedas segundo modelos romanos.
mentos criavam laços de parentesco que os genealogistas sudaneses A introdução do cristianismo em Axum atribui-se tradicionalmente a Fru-
adoram deslindar. mêncio, um jovem mercador cristão raptado quando viajava de Tiro para a
Os historiadores ainda discutem se foi pelo contato com os árabo-ber- Índia. Tornou-se tutor do futuro rei Ezana, que adoptou oficialmente o cris-
beres que se introduziu a filiação patrilinear no Sudão. Na época do Impé- tianismo por volta de 333, depois de Frumêncio ter sido consagrado em
rio de Gana, a sucessão ao trono não era por linha direta, mas colateral; o Alexandria como primeiro bispo de Axum. Esta tradição simplifica em de-
herdeiro era sempre o sobrinho do rei (o filho de sua irmã). Foi difícil para o masia um processo complexo, porque o cristianismo era apenas uma das
Mali do século XV aceitar a sucessão direta (de pai para filho). A influência várias religiões (incluindo o judaísmo) da Corte de Ezana; mais de um sécu-
muçulmana não foi um fator decisivo nesse caso em particular. Se exami- lo depois da sua suposta conversão, um sucessor registrou o sacrifício de
narmos as regiões florestais do sul, vamos encontrar dois tipos de descen- cinquenta cativos a Mahrem, o deus local da guerra. É provável que Ezana
dência, e é difícil falar de influência islâmica no Congo a essa época. tivesse tentado proteger todas as religiões, incluindo o cristianismo, cuja
A islamização da África negra nesse período não se deu pela violência, presença nas suas moedas sugere que ele o exibia especialmente, mas
mas pacificamente, pela influência dos comerciantes árabo-berberes, os não em exclusivo, aos estrangeiros. Como o cristianismo chegou a Axum
Wangara e os Haussa. Além do episódio belicoso dos Almorávidas, houve vindo de Alexandria, a Igreja etíope tornou-se monofisita e foi chefiada por
poucas guerras com o objetivo de propagar o islamismo. A nova religião monges coptas de Alexandria até meados do século XX. Além disso, como
levava em conta as antigas práticas das sociedades tradicionais; mas Ibn o cristianismo foi o primeiro a influenciar a corte, tornou-se uma religião
Battuta admirou a devoção dos muçulmanos negros, sua assiduidade às de Estado, que a pouco e pouco os sacerdotes e os monges difundiram ao
orações e sua fidelidade ao culto coletivo, obrigando mesmo seus filhos povo com o apoio real. Entre os séculos V e VII, as Escrituras foram traduzi-
a seguirem seu exemplo. Os Wangara, sempre indo de aldeia em aldeia, das para Ge’ez (a língua franca semita de Axum, escrita num alfabeto ins-
construíram mesquitas em vários centros comerciais, como marcos ao pirado no alfabeto do Sul da Arábia), o cristianismo e o domínio de Axum
longo das rotas das nozes-de-cola. Em virtude da tolerância tradicional estenderam-se a sul, ao planalto etíope, e os templos pagãos de Axum e de
dos negros, podiam orar até nas aldeias pagãs. Adulis foram transformados em igrejas. Mas a partir do final do século VI, a
Na cidade, o árabe tornou-se a língua dos letrados e cortesãos; se- prosperidade de Axum decaiu, primeiro porque a guerra entre Bizâncio e a
gundo al-’Umari, o mansa Müsã I falava corretamente o árabe; este go- Pérsia desviou o comércio, depois porque a expansão muçulmana destruiu
vernante pode ser considerado o responsável pela introdução da cultura Adulis e por fim porque o apoio crescente na agricultura coincidiu com o
muçulmana no Mali. declínio das chuvas. Axum cunhou a sua última moeda no início do século
Nasceu uma literatura africana de expressão árabe, que floresceu na cur- VII. O rei, que morreu em 630, não foi sepultado na capital, mas mais para
va do Níger, principalmente no século XVI, sob os askiyas. Do século XIV ao sudeste, onde a amálgama da cultura de Aksum e das culturas indígenas
XVI, houve intercâmbios constantes entre as Universidades do Sudão e do de Cush iria dar origem à Igreja histórica e ao reino da Etiópia.
Magreb. No século XIV, porém, o Cairo foi o grande centro de atração para As origens cristãs da Núbia diferiam das de Axum, em parte porque
os sudaneses; situado na rota de peregrinação, tinha muitos habitantes. a Núbia se juntou logo ao Egito cristão. Depois da queda de Méroe, no

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano XXIII


século IV d. C., os dirigentes de língua núbia criaram três reinos no vale do portanto eram raras nesta região. O exemplo mais importante é o dos Tiv
Nilo: Nobatia, no Norte, cuja capital era Faras, Makuria, no centro, com o do Vale do Benue, cuja história é pouco conhecida. Mais vulgares eram
quartel-general na Antiga Dongola, e Alwa, no Sul, sediada em Soba (nos ar- as aldeias autônomas de pioneiros, chefiadas ou por um Homem Gran-
redores da moderna Cartum). Os mercadores egípcios trouxeram consigo o de, cujas características pessoais atraíam os parentes e os clientes, como
cristianismo pelo menos no século V, porque os arqueólogos descobriram muitas vezes sucedeu nas zonas florestais dos Camarões, ou pelo descen-
igrejas dessa época em Faras e em Qars Ibrim, em Nobatia, enquanto, ao dente mais velho do colono pioneiro, como aconteceu em muitas regiões
que parece, os cristãos de Axum visitavam Alwa. Em Nobatia, só os túmulos mais a ocidente. Povos do litoral como os Jola do Senegal não constituí-
da gente vulgar continham objetos cristãos, sugerindo que ali, ao contrário ram um estado e a sua sociedade apoiava-se em ritualistas hereditários
de Axum, o cristianismo evoluíra de baixo para cima, impressão reforçada que agiam como mediadores, enquanto outros recebiam uma orientação
pela supressão da Igreja em Faras e pela manutenção, até 535, do hábito mínima indispensável dos dirigentes de estados vizinhos, cuja autorida-
anual de levar uma estátua de Ísis de Philae para o Egipto, para abençoar de teriam rejeitado se ela se manifestasse de outro modo, como foi o
as colheitas núbias. Quando o imperador bizantino Justiniano baniu a ceri- caso dos povos sem estados que bordejavam o Benim. Talvez as institui-
mônia nesse ano, as igrejas ortodoxa (bizantina) e monofisita (copta) envia- ções religiosas mais comuns que mantinham a coesão com comunida-
ram missões à Núbia. O missionário monofisita chegou primeiro a Nobatia, des sem estados fossem as sociedades secretas nomeadamente as so-
em 543, “e eles renderam-se imediatamente, cheios de alegria”, como es- ciedades iniciáticas Poro e Sande, destinadas a homens e mulheres cuja
creveu o cronista João de Éfeso, “repudiaram o erro dos seus antepassa- importância nas florestas da Guiné e da Serra Leoa foi atestada por an-
dos, e reconheceram o Deus dos cristãos”. Vestígios de igrejas nas aldeias tigos visitantes portugueses. Essas instituições não se excluíam umas às
e da rápida adoção de sepulturas cristãs confirmam este relato, embora so- outras. Os povos sem estados mais numerosos em África pertenciam ao
brevivessem templos pagãos em Nobatia durante mais dois séculos. Alwa grupo linguístico mais tarde conhecido por Igbo, no sudeste da moderna
também se mostrou disposta a aliar-se ao mundo maior. Quando o mis- Nigéria. Apesar da relativa densidade populacional e de uma atividade co-
sionário Longinus lá chegou em 580, vindo de Constantinopla, “dirigiu ao mercial considerável, os Igbo mantiveram-se decididamente sem estados
rei e a todos os seus nobres as palavras de Deus, e eles abriram o seu en- utilizando quase todos os sistemas referidos. Um dos seus chefes rituais
tendimento, e ouviram com júbilo o que ele dizia; e depois de alguns dias foi talvez o notável sepultado em Igbo-Ukwu no século IX. Os Igbo do oci-
de aprendizagem, o rei foi baptizado com todos os seus nobres; e depois, dente viviam à sombra do Benim, enquanto os do norte se apoiavam em
ao longo do tempo, também o seu povo”. Durante cerca de um milénio, os grupos etários e sistemas de títulos nos quais os homens iam avançando
reis núbios foram cristãos. Nobatia e Alwa foram monifisitas desde o início; à medida que eram mais velhos, mais ricos e mais influentes.
Makuria, ou já era ou tornou-se monofisita pouco depois. Aparentemente, Em termos políticos, a distância entre um chefe ritual ou um Homem
os bispos núbios terão sido nomeados em Alexandria e a Igreja datava os Grande da aldeia e um chefe territorial era pequena, e é fácil imaginar
acontecimentos pela era copta dos mártires. Mas a Igreja copta do Egito de- como os povos da floresta e os seus vizinhos criaram os pequenos es-
pressa caiu sob o domínio muçulmano, e os dirigentes núbios voltaram-se tados que terão surgido no final do primeiro milênio d. C., inicialmen-
cada vez mais para o imperador cristão em Constantinopla. Os belos murais te na região dos modernos Ioruba, Edo, Nupe e lukun que contornam a
da catedral de Faras, desenterrados da areia durante os anos [19]60, come- orla meridional da floresta-savana do território Haússa. O pequeno es-
çaram por ser de estilo copta e depois transitaram a pouco e pouco para o tado mais antigo já identificado pelos arqueólogos foi Ife, precisamente
estilo bizantino, embora revelassem características locais distintas. A língua na zona limítrofe da floresta. É grande a incerteza que envolve as suas
litúrgica era o grego; só a pouco e pouco certas partes da liturgia e da Bíblia origens, mas havia pequenos aglomerados populacionais nessa zona,
foram traduzidas para núbio, escritas na forma copta do alfabeto grego. A nos séculos IX ou X, e indícios de urbanização, casas pavimentadas com
arquitetura das igrejas revela que o papel litúrgico dos leigos diminuiu com fragmentos de barro e esculturas em terracota nos séculos XI ou XII. A
o tempo. Os reis assumiam poses sacerdotais e os bispos realizavam ceri- cidade erguia-se sobre uma pequena mina de ouro e estava bem loca-
mônias de Estado à moda bizantina. Alguns historiadores atribuem o desa- lizada para comerciar e interagir com a savana e a costa, mas os seus
parecimento final do cristianismo núbio a uma incapacidade de adaptação vestígios não denunciam grandes contatos deste tipo e sugerem antes
à cultura local, ao contrário do cristianismo etíope, que estava mais isola- a existência de uma economia agrícola que contribuía para um sistema
do das influências externas. As pinturas núbias, por exemplo, representam de comércio regional com a produção de contas de vidro. Desta forma,
sempre Cristo e os santos com pele branca, ao contrário dos núbios, uma Ife foi a capital de um reino importante talvez entre os séculos XII e XV. A
distinção que não existe na arte etíope. Mas os destinos diferentes das duas sua fama assenta em magníficas esculturas de terracota e de latão; que
Igrejas devem muito a diversos tipos de relacionamento com o islamismo. representam seres humanos, mais do que os objectos naturais repre-
EVOLUÇÃO POLÍTICA NA FLORESTA OCIDENTAL sentados em Igbo-Ukwu. As terracotas foram feitas em primeiro lugar. É
(SÉCULOS XI-XV) provável que muitas fossem oferendas destinadas a santuários. Repre-
sentavam com todo o realismo um espectro de situações humanas, dos
ILIFFE, J. Os africanos: história dum continente. Trad. Lisboa: Terramar, 1999.
reis e dos cortesãos aos doentes e aos executados. Nos séculos XIV e
p. 104-107. XV, a tradição da terracota transferiu-se para o latão. Conhecem-se me-
nos de trinta objetos de latão. Produzidos com moldes de cera e dota-
Nas florestas da África Ocidental e nas pastagens vizinhas, os estados dos de um realismo idealizado, quase todos representam reis no auge
formaram-se mais lentamente do que na savana e eram mais pequenos, dos seus poderes e se caracterizam por uma majestade serena nunca
e muitas sociedades não tinham estados constituídos quando os euro- ultrapassada na arte humana. Por razões que desconhecemos, os lato-
peus as descreveram pela primeira vez. As sociedades de linhagem seg- eiros de Ife nutriram um apreço pelo ser humano que iria sobreviver de
mentar, onde a ordem assentava apenas na ameaça de retaliação, exis- uma forma mais popular no humanismo e na afirmação da vida das xi-
tiam essencialmente no seio de povos que se dedicavam à pastorícia, e logravuras dos Ioruba, muito depois de outras comunidades organiza-

XXIV HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


das terem isolado Ife das suas fontes de latão e de poder, reduzindo-a séculos XIV ou XV. Seguiram-se os reinos Mossi de Uagadugu (no final do
a uma prioridade meramente ritual. século XV) e de Yatenga (em meados do século XVI). As origens dos che-
O mais antigo sucessor de Ife que se conhece foi o reino Edo do Be- fes são incertas, mas é provável que fossem forasteiros, pois reclamaram
nim, o único outro estado florestal importante da época. Aqui, os vestí- apenas o poder político e deixaram o controle da terra nas mãos dos indí-
gios de que o reino nasceu de aldeias mais antigas são particularmente genas, satisfazendo-se com tributos. Neste aspecto o seu comportamen-
claros, a avaliar pelos 10 000 quilômetros de sebes de terra construídas to diferiu acentuadamente das alterações políticas que se registraram na
pelos seus fundadores no início do segundo milênio. A cidade de Benim, floresta, no seio dos povos de língua Akan do Gana. O homem já se ins-
na orla ocidental, terá dado origem a um centro religioso, mas foi trans- talara nessa região desde o princípio do primeiro milênio, mas os aldea-
formada nos séculos XV e XVI por reis guerreiros que reclamaram origens mentos foram esparsos até o século XVI, quando uma nova tradição de
Ife e introduziram inovações Ioruba. O primeiro e o mais importante des- cerâmica substituiu a antiga, a colonização se expandiu rapidamente e
ses reis foi Ewuare, que se diz ter conquistado 201 cidades e aldeias, na região começaram a surgir os estados florestais mais importantes da
subjugando os pequenos estados envolventes, reinstalando as suas po- África Ocidental. O motor desta transformação foi o ouro. Não se sabe ao
pulações e transformando a cidade na capital de um reino com 120 qui- certo quando começou a sua exploração. Begho, o centro de comércio
lômetros de largura. Ewuare terá construído o palácio e as fortificações que ligava os Akan ao norte, a Jenne e ao Mali, era habitado desde o sé-
da cidade. Converteu o governo numa burocracia patrimonial, nomeando culo XI, e Bono Manso, a capital do primeiro estado Akan, desde o século
homens livres para chefes militares e administrativos que suplantavam XIII, mas ambas progrediram muito nos séculos XV e XVI. O ouro fornecia
os chefes dos grupos hereditários. Ele ou os sucessores terão sido res- os recursos necessários à compra de escravos para desbravar a floresta,
ponsáveis pelo alto nível de envolvimento estatal no comércio com o es- cuja conquista modelou sempre a cultura Akan. Os pioneiros foram Ho-
trangeiro, que os portugueses encontraram quando chegaram em 1486. mens Grandes típicos, os abirempom, cujos descendentes de homens de
O regime protegeu os latoeiros que fundiram as célebres cabeças reais clãs matrilineares e de escravos formaram os núcleos dos estados da flo-
do Benim e outras esculturas magníficas, combinando o metal europeu resta, conferindo-lhes uma resistência, um espírito empreendedor e uma
com técnicas de cera que se supõe serem originárias de lfe, embora os singularidade que impressionaram os europeus que comerciaram com
especialistas modernos não estejam de acordo quanto a este ponto. A eles no litoral, a partir do final do século XV.
arte do Benim era uma arte da corte, criada por artesãos hereditários que
viviam no interior do palácio, separados por um abismo da cultura popu- A ÁFRICA NO IMAGINÁRIO POLÍTICO PORTUGUÊS
lar. Quando chegaram os primeiros europeus, o Benim era o estado mais
importante da floresta da África Ocidental e impressionou-os fortemente ALEXANDRE, V. Velho Brasil/Novas Áfricas: Portugal e o Império (1808-1975).
Porto: Afrontamento, 2000. p. 219-222.
com a sua riqueza e a sua sofisticação. Mas, no século XVII, os chefes mi-
litares e administrativos sobrepuseram-se ao rei, reduzindo-o a uma figu-
A historiografia sobre a questão colonial nos séculos XIX e XX tem sido
ra ritual isolada, guerreando entre si e despovoando a cidade.
marcada, nas duas últimas décadas, por uma reacção contra a teoria do
No século XV, vários outros reinos loruba coexistiram com lfe, cada um
imperialismo não econômico, até então dominante por influência sobretu-
com uma capital muralhada, um rei que se reclamava de origem lfe, chefes
do do livro de R. J. Hammond Portugal in África 1815-1910, que estabe-
das cidades que dirigiam poderosos grupos de descendentes corresiden-
leceu um padrão de interpretação muito espalhado e muito duradouro do
tes e aldeias distantes. É provável que o comércio fosse importante em vá-
colonialismo português: o que o filiava, não em razões econômicas, nesta
rios agregados políticos, sobretudo o comércio com mercadores itineran-
perspectiva inexistente ou de pouco peso, mas num comportamento de
tes de Songai, pois a língua loruba ainda conserva muitos termos Songai
tipo nostálgico e sentimental, que viveria do passado, sonhando com a res-
que designam conceitos islâmicos, comerciais e equestres. Um dos novos
tauração do prestígio perdido. Refutando esta tese, vários autores têm vin-
reinos, ljebu Ode, terá [teria] ganho [ganhado] forma em 1400 e, um sécu-
do a estabelecer pacientemente o mapa dos interesses econômicos por-
lo depois, era “uma cidade muito grande”, enquanto que Owo, no século
tugueses ligados às colônias e a medir o seu grau de influência na política
XV, era um centro artístico que rivalizava com lfe e Benim. A vinda de ca-
dos governos de Lisboa. A tais trabalhos cabe pelo menos o mérito de de-
valos de guerra do Norte constituiu outro estímulo político. Até então, os
povos da floresta tinham mantido a iniciativa nesta região. As esculturas monstrarem que esse é um aspecto da realidade que não pode descurar-
em latão da Ife do século XIV tinham passado para norte, para o reino de -se – abalando definitivamente a teoria do “colonialismo de prestígio”, nos
Nupe, na savana. Tsoede, que segundo a tradição foi o fundador de uma termos em que Hammond a formulava. Mas parece evidente que a simples
nova dinastia Nupe no princípio do século XVI, era filho de uma mulher constatação de tais interesses não permite concluir de imediato que eles
que falava Edo. No entanto, pouco depois, os exércitos Nupe e Baribá do são “a força motriz subjacente à expansão imperialista”, como pretende
norte invadiram o território loruba, talvez com cavaleiros. Atacaram sobre- Clarence-Smith na sua síntese O Terceiro Império Português. “Tal ideia –
tudo Oyo, o reino mais ao norte de loruba, situado na savana. Oyo reagiu escrevi na recensão que dediquei ao livro – só poderia ser eventualmente
adoptando a cavalaria na guerra e, no século XVII, era o estado loruba aceita depois de sopesados todos os fatores, de estudadas as condições
mais poderoso. É possível que processos semelhantes tenham estado na em que surge e se desenvolve o projeto colonial para África, nas suas várias
origem de Allada e Whydah, os primeiros reinos constituídos por povos versões e nas suas diversas fases, e nas suas relações, não apenas com a
de língua Aja (Ewe e Fon) que ocuparam a garganta de Daomé. É provável economia, mas também com a política portuguesa no seu todo”.
que os dois reinos existissem no século XV, embora a maioria dos povos Seguindo a via assim traçada, o primeiro ponto que chama a atenção é
de língua Aja vivessem ainda em pequenos reinos tribais. o peso que a questão colonial assume na história portuguesa dos últimos
Mais para noroeste, nas regiões da savana do Gana e de Burkina, os dois séculos – mais evidente em épocas de crise como o da partilha de Áfri-
cavalos de guerra permitiram que pequenos grupos de cavaleiros fun- ca (entre várias outras), mas também muito clara nas fases de acalmia, es-
dassem uma série de estados no seio dos povos indígenas de língua vol- tando sempre presente, não apenas num ou outro autor, neste ou naquele
taica, a começar pelos reinos de Mamprussi e de Dagomba no final dos texto mas no conjunto da argumentação política, pela relação estreita que

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano XXV


mantém com o problema central da identidade e da própria sobrevivência rie”, onde “nem a luz da religião nem a da civilização” penetrava, onde
do país. Por isso mesmo, todas as correntes do nacionalismo português se era “tudo escravo dos chefes e das paixões selvagens”; essa “população
defrontam, de uma forma ou de outra, com a opção ultramarina. selvagem”, em “estado de grande embrutecimento”, que não conhecia
Nesta perspectiva, o projeto colonial é irredutível ao simples jogo dos “nenhum dever social”, nem o “sentimento do amor à família” ou o “amor
interesses econômicos – embora também lhe não seja por inteiro alheio. do próximo”. Libertando alguns negros deste “mundo primitivo”, a com-
Tanto a tese do “imperialismo econômico” como a do “colonialismo de pra de escravos no interior – o “resgate”, na velha terminologia colonial,
prestígio” parecem prejudicadas, como o estará também qualquer ou- que continuava a aplicar-se – teria de ver-se, ao fim e ao cabo, como um
tra explicação de natureza monocausal que se pretenda sobrepor a um ato humanitário, permitindo salvar a vida dos prisioneiros de guerra, dos
fenômeno tão complexo como a expansão imperial na África. Por isso criminosos, sujeitos à tortura e à morte nas suas sociedades de origem, e
mesmo, tentando evitar interpretações redutoras, recorremos na nossa submetendo-os à influência benéfica da civilização.
análise não ao conceito de ideologia (que remete para um conjunto es- O outro dos grandes temas de ideologia esclavagista estava na natu-
truturado de noções com um certo grau de coerência interna) mas ao de reza que atribuía ao negro em si – pintando-o como ser “essencialmente
mito, entendido como modo de apreender a realidade no seu todo, de indolente”, “inteiramente boçal”, dado à embriaguez e ao roubo, dotado
pensar e de sentir, integrando fatores econômicos e não econômicos e, de uma “grosseira sensualidade” e de uma aversão inata pelo trabalho.
em qualquer deles, tanto os aspectos racionais como os irracionais. Este quadro fornecia as premissas para a conclusão fundamental da te-
Dois desses mitos terão tido um papel central como sustentáculos do oria: a de que o africano não se prestava a servir voluntariamente, sendo
projecto colonial. O primeiro deles – a que chamaremos o “mito do Eldo- sempre necessário obrigá-lo “a receber a educação do trabalho”.
rado” – tem como pano de fundo a crença inabalável na riqueza das co- É certo que, a par desta ideologia, uma outra se afirma, tributária do pen-
lónias de África, na sua extrema fertilidade, nos tesouros das suas minas samento iluminista, que vê na escravatura uma instituição altamente ma-
por explorar. Dominante logo nos primeiros anos do liberalismo, após léfica, a abolir logo que possível, e nos africanos seres decerto atrasados,
1834, o tema aparece-nos então em dezenas de artigos, nos periódicos devido a circunstâncias históricas acidentais, mas capazes de progredir e
de todas as facções políticas, servindo de base à defesa do projecto colo- de se integrarem como cidadãos no corpo nacional. Mas esta corrente –
nial como via privilegiada para a regeneração da nação, compensando a personificada em Sá da Bandeira – é extremamente minoritária durante
perda do Brasil. Sob formas menos primárias, mais elaboradas – voltadas a maior parte do século XIX: só na década de [19]70 se detecta uma vira-
para um Eldorado longínquo, no qual se cumpriria o destino da nação, gem, com a emergência de novas elites políticas e intelectuais que, mais
que recuperaria finalmente o estatuto de grande potência –, o mito per- abertas aos ventos do exterior e mais conscientes da necessidade de mo-
siste ao longo de todo o império, ganhando um caráter estrutural. dernizar os processos de exploração colonial, viam na persistência dos fa-
Um segundo tema ideológico – que designaremos pelo “mito da heran- tos da escravatura uma mancha na imagem de nação civilizada e europeia
ça sagrada” vê na conservação de toda e qualquer parcela do território ul- que queriam para Portugal. Miraculosamente, o “lunático” Sá da Bandeira
tramarino um imperativo histórico, tomando os domínios sobretudo como dos anos [19]50 e [19]60, geralmente atacado pelas suas “manias” filan-
testemunhos da grandeza dos feitos da nação, que não os poderia perder trópicas, vê-se agora recuperado como símbolo e testemunho dos senti-
sem se perder. Geralmente latente, o tema vem à superfície sempre que se mentos antiesclavagistas do país: ele é o “Wilberforce português”, “infa-
configuram casos de perigo e de iminência de perda, real ou suposta, de tigável paladino da liberdade”, atacando “em suas últimas fortificações a
qualquer das possessões ou de zonas sobre que se reivindicava a sobera- ideia velha, que permitia a escravização do homem pelo homem”.
nia portuguesa, contribuindo para afastar a tentação de abandono, não só Tendo como seu principal expoente político o ministro Andrade Cor-
da via colonial em si, mas também de cada um dos territórios em particular, vo, que é também o seu teorizador mais importante, esta nova tendência
por mais difícil que se afigurasse a sua exploração e conservação. ganha expressão jurídica com a abolição do trabalho servil nas colônias
Também o “mito da herança sagrada” tem um caráter permanente, es- decretada em 1875 – a primeira medida abolicionista promulgada pelo
trutural, que lhe resulta da sua estreita relação com dois elementos de Parlamento liberal português (todas as outras haviam emanado do Po-
fundo do nacionalismo português: a consciência, sempre presente nas der Executivo).
elites políticas, da vulnerabilidade de Portugal (que as tornam especial- Mas os seus efeitos são, em fim de contas, superficiais: preocupados
mente sensíveis às ameaças externas); e sobretudo a ideia, muitas vezes em primeiro lugar com a imagem e a retórica, essas mesmas elites dei-
expressa, de que a própria sobrevivência da nação dependia da existên- xam subsistir quase sem resistência formas de trabalho forçado próximas
cia do império, como contraponto necessário à força de atração da Espa- da escravatura. E sobretudo, o impulso humanista e liberalizante esgota-
nha no conjunto da Península Ibérica. -se rapidamente, afetado pelas pressões nascidas da partilha da África e
Ligado, como vemos, a uma determinada imagem do país, o projeto pela forte reação nacionalista por elas provocada em Portugal.
colonial implica igualmente uma certa visão dos povos a ele submetidos Neste contexto, o “mito da herança sagrada” ganha novos contornos,
(no nosso caso, sobretudo da África e dos africanos), visão de sujeito a passando a justificar, não apenas a conservação dos antigos territórios
objeto, marcada do mesmo modo pelo nacionalismo, que toma modali- coloniais, mas também a expansão para zonas até então não ocupadas,
dades e aspectos diversos consoante as conjunturas, flutuando entre o a partir de uma perspectiva maximalista para a qual toda a região do
etnocentrismo e formas mais ou menos explícitas de racismo. Congo e ainda outras vastas terras de África estavam naturalmente vota-
Durante uma longa primeira fase, que dura até aos anos 70 do sécu- das ao domínio português, por direito de descoberta e pela influência aí
lo XIX, a imagem das sociedades africanas é profundamente influencia- exercida historicamente. Assim tomava corpo o novo mito: a espoliação
da pela ideologia esclavagista de Antigo Regime – uma ideologia que do império por parte da Grã-Bretanha.
repousava, em primeiro lugar, na negação de qualquer vida cultural (ou As mesmas pressões externas, em particular o Ultimatum britânico de
mesmo, nas fórmulas mais radicais, de qualquer traço de humanidade) 1890, contribuem decisivamente para sacralizar o império: já atuante,
às sociedades do interior da África – esse sertão “sepultado na barbá- como referimos, nas décadas anteriores, o “mito da herança sagrada”

XXVI HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


alcança agora um predomínio avassalador, derrotando em definitivo as outro das fronteiras tornam-se terras de ninguém, abandonadas pelos
correntes mais pragmáticas que aceitavam a recomposição e mesmo a Estados-Nações, que concentram seus esforços de desenvolvimento nas
redução do território imperial. Doravante, o projeto colonial é o elemento zonas úteis do litoral, onde se situa a maior parte das capitais. Do norte
central do nacionalismo português, remetendo-se a sua eventual contes- ao sul, Praia, Nuakchott, Dacar, Banjul, Bissau, Conakry, Freetown, Mora-
tação para a categoria ético-jurídica da traição à pátria. via, Abidjan, Accra, Lomé, Cotonu e Lagos – ou seja, treze Estados entre
dezesseis – têm suas capitais na costa e a economia voltada para o exte-
FRONTEIRAS E CONSTRUÇÃO DO ESTADO-NAÇÃO
rior, deixando todo o interior no abandono total.
Esse desenvolvimento voltado para fora reforça o caráter arcaico das fron-
BARRY, B. Senegâmbia: o desafio da História regional. Trad. Rio de Janeiro:
teiras, que contribui assim para reduzir as trocas entre os Estados da África
Centro de Estudos Afro-Asiáticos, 2000. p. 74-76.
Ocidental. Em todos os casos, para os países pequenos, assim como para
A ascensão à independência abre novas perspectivas aos povos afri- os grandes, o desenvolvimento separado muito rapidamente mostrou seus
canos, que se encontram divididos entre dois objetivos contraditórios, limites no contexto do Estado-Nação. À crise econômica somou-se a crise
o da unidade e o da construção do Estado-Nação. Apesar dos ideais do política, que revelou as fragilidades do Estado-Nação baseado em forte cen-
movimento pan-africano, os novos Estados sacralizam na conferência da tralização e na prática despótica do partido único. Tudo isso contribuiu para
OUA [Organização da Unidade Africana] em 1963 as fronteiras herdadas reforçar os desequilíbrios sociais e políticos, que ameaçam profundamente
da colonização com o objetivo de evitar conflito. Essa decisão abre a via os fundamentos dos Estados-Nações no interior de suas fronteiras.
para a construção do Estado-Nação e para a aventura individual no curso É paradoxal constatar que as crises atuais, que ameaçam a integrida-
do desenvolvimento. de de Estados como Serra Leoa, Libéria ou Guiné-Bissau, não resultam
Exceto a breve federação de Mali, que liga Senegal e Sudão, ou a União dos conflitos de fronteiras que os opõem a seus vizinhos. Na maior parte
Ghana-Guiné-Mali, sem futuro, a unidade política permanece um símbo- dos casos, as populações têm dificuldades de se exprimir no interior das
lo inscrito nas constituições dos Estados-Nações, que optaram por con- fronteiras de seus Estados respectivos, onde vivem sufocadas. Esse mal
solidar as fronteiras coloniais. Na África Ocidental, as estruturas federais de viver no interior das fronteiras tomou diferentes formas em crises que
da AOF são desmanteladas, com exceção da moeda, que daí em diante arriscam afinal precipitar a implosão dos Estados.
liga os novos Estados entre eles, mas que, sobretudo, continua a ligá-los Isso se traduz na guerra de secessão de Biafra a Nigéria, da de Casa-
todos em conjunto à França. Em seguida, Guiné, Mali e Mauritânia vão mansa ao Senegal, sem contar as guerras civis de caráter étnico em Ser-
forjar a própria moeda, assim contribuindo para maior fragmentação da ra Leoa e Libéria, e a rebelião Tuareg em Mali e Níger. E é preciso acres-
África Ocidental, à imagem do que se passa na África Oriental, no seio da centar o conflito senegalês-mauritano, que terminou, fato excepcional,
ex-Federação que reunia Quênia, Uganda e Tanzânia. no repatriamento sistemático das populações respectivas de um país ao
A fisionomia da África Ocidental é ainda mais fragmentada pois, fora o
outro, criando com isso o problema das relações entre mouros, de um
uso do inglês, francês ou português, nenhum laço orgânico no plano polí-
lado, e populações de origem wolof, peul e soninké, do outro. Pior, esse
tico vem consolidar as relações entre os dezesseis novos Estados, que se
conflito fixa não só o rio como fronteira entre os dois Estados, mas ainda
fecham a chave no interior de suas fronteiras nacionais. Mesmo a Guiné-
como linha de demarcação étnica entre mouros e outras populações ne-
-Bissau e as ilhas do Cabo Verde, que bateram armas pela independên-
gras que refluíram para o Senegal. Esses novos refugiados vêm se juntar
cia, sob direção de um partido unificado, cindem-se em dois Estados dis-
aos tuareg que deixaram Mali e Níger e foram para países vizinhos, per-
tintos. Daí para frente, no contexto do Estado-Nação, são reforçados os
turbando assim o equilíbrio regional em seu conjunto.
controles nas fronteiras assim como as barreiras alfandegárias, reduzin-
Todos esses conflitos recolocam de maneira indireta o problema das
do as trocas oficiais entre os Estados, que se voltam as costas.
fronteiras, cuja gestão se revelou um grande handicap em relação à inte-
Entretanto, durante os primeiros anos das independências são raros
gração regional. O problema com certeza não está em modificar as fron-
os conflitos de fronteiras fora da oposição Mali – Burkina Faso e Senegal
teiras atuais com o fim de criar novos desequilíbrios, mas em suprimir
– Guiné-Bissau, que terminaram por regular pacificamente os litígios. Ao
tudo o que pode contribuir para frear uma verdadeira política de reinte-
contrário, se assiste a uma maior fragmentação do espaço na medida em
que a Guiné se fecha aos vizinhos, Senegal e Costa do Marfim, durante gração do espaço ocidental africano, caracterizado por uma fragmenta-
longos anos, por razões de divergências políticas entre os líderes. O mes- ção grande demais sem uma lógica interna de desenvolvimento de todos
mo ocorre com Mali, que se fecha ao Senegal, para se abrir em direção os seus componentes. Isso implica uma visão nova da noção de fronteira
à Costa do Marfim depois do rompimento da Federação, rompendo as- em relação aos imperativos da integração regional.
sim os elos seculares criados por Dacar – Níger. Do mesmo modo, Gana
O ENTRE-LUGAR DO DISCURSO AFRICANO
e Costa do Marfim se voltam as costas, agudizando a competição entre
duas economias fundadas sobre o cacau, ao sabor das divergências po-
REIS, E. L. L. Pós-colonialismo, identidade e mestiçagem cultural: a literatura de
líticas entre Kwame Nkrumah e Huphuete Boigny. Os conflitos políticos Wole Soyinka. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999. p. 85-105.
entre os Estados daí para frente ritmam o fechamento ou abertura das
fronteiras, sem se levar em conta os interesses das populações, que con- A fronteira é ao mesmo tempo uma abertura e um fechamento. É na fron-
tinuam a se deslocar em função de suas necessidades e sobretudo em teira que acontece a distinção do e a ligação com o meio ambiente. Todas as
função da valorização externa dos Estados. fronteiras, inclusive as membranas dos seres vivos, inclusive as fronteiras das
Assim, o Rio Senegal que, no decorrer de toda a história, em si mesmo nações, são, ao mesmo tempo, não só barreiras, mas também lugares de co-
nunca constituiu uma fronteira, daí para frente se transforma em barrei- municação e de intercâmbio. Elas são o lugar de desassociação e associação,
ra entre Senegal e Mauritânia, que fecham a travessia do rio após o con- de separação e articulação.
flito entre os dois países em 1988. Ainda pior, os espaços de um lado e Edgar Morin

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano XXVII


Dizem os mitos iorubás que, a princípio os deuses viviam na Terra com que um homem idoso possa se referir a uma criança como Baba (“pai”
os homens, porém uma falta humana fez com que voltassem a seu mun- ou “ancião”) se as circunstâncias da vida dessa criança parecerem retros-
do. O longo isolamento entre deuses e homens deu origem a uma barreira pectivas ou o sinal de uma reencarnação. Segundo Soyinka, esse princí-
intransponível entre eles, uma espécie de intrincada floresta feita de ma- pio contribui para uma harmonização social, já que atenua as geralmente
téria e não matéria. Angustiados com a sensação de incompletude devido inflexíveis hierarquias etárias características das sociedades tradicionais.
à separação, os deuses sentiram a necessidade de se ligarem novamente A coexistência e a interdependência desses três mundos impedem a
aos homens. O único que conseguiu a façanha de destruir a barreira entre emergência de qualquer noção de centro. Na verdade, o fato de os mun-
os mundos foi Ogum, que, usando o primeiro instrumento, feito de ferro, dos não serem considerados entidades distintas, está associado à visão
abriu caminho para si e para os outros deuses, restabelecendo o contato holística do Universo, que se baseia na ideia de totalidade cósmica: o ho-
entre deuses e homens. Devido a uma falta trágica, contada em outro mito, mem recebe sua essência do Grande Ancestral e com ela participa da to-
Ogum é obrigado a repetir essa viagem anualmente em favor dos homens, talidade de uma consciência universal que inclui todos os seres. A vida e
mantendo sempre aberto um canal de comunicação entre os mundos. a morte são partes integrantes de um continuum: o homem tem em si a
A noção de tempo cíclico presente na viagem periódica de Ogum refle- essência divina que lhe confere não só a espiritualidade e o poder criati-
te-se no seu emblema, a serpente que morde a própria cauda, represen- vo, mas também a possibilidade de, ao findar a vida, passar para o mun-
tando a condenação eterna à repetição, os ciclos contínuos de criação do dos espíritos e então agir como uma força positiva sobre os vivos. Os
e destruição e a recorrência dos padrões humanos de comportamento. mortos, os vivos e os ainda por nascer compõem a ordem cíclica eterna.
A imagem da serpente e a ideia de eterno retorno estão marcadas pela O sangue, a principal força entre os vivos, une-os aos mortos, de modo
noção de fatalidade inerente à figura do círculo: a serpente engole a pró- que nenhuma família diminui: os ancestrais, transformados em divinda-
pria cauda e um novo ciclo recomeça. Embora Soyinka [escritor nigeriano des menores, ligam-se pelo sangue a seus descendentes e funcionam
vencedor do Prêmio Nobel de 1986] chame a atenção para o fato de que como seus guias e protetores. Em suma, uma comunhão, uma linha ativa
não se trata do eterno retorno do mesmo, mas do retorno com uma di- de comunicação mantém os três mundos interligados: a cerimônia de li-
ferença, ele sente que, para expressar com maior precisão suas ideias, bação ou invocação junta os mortos, os vivos e os não nascidos e, através
a serpente de Ogum precisa ser traduzida para uma metáfora semelhan- do ritual, renova os laços que unem todos os seres.
te, porém mais aberta e livre. Daí sua escolha de uma imagem ocidental Os rituais servem, assim, para transformar o que poderia ser um es-
equivalente à serpente de Ogum para representar o sistema de pensa- paço intransponível entre os mundos – chamado por Soyinka de gulf ou
mento iorubá e sua própria cosmovisão: a Faixa de Möbius, uma inter- abyss – em “canais de força”, que estabelecem uma ligação contínua
pretação pessoal do mito de Ogum e de uma visão holística do Universo. entre eles. Essa concepção cosmológica depende da existência do tem-
Geralmente representada pelo sinal grego de infinito (∞), a Faixa de po ritual, que cria um intervalo em que o passado é momentaneamente
Möbius indica uma sequência sem princípio nem fim, portanto, sem um negado, suspenso ou anulado e em que o futuro ainda não começou. É
centro fixo, constituindo uma perfeita imagem de descentramento e de essa suspensão do tempo que torna possível juntar o passado e o futuro
relações não hierarquizadas. Sendo uma imagem da unidade na diversi- num longo presente. [...]
dade, a Faixa de Möbius representa o que Soyinka chama de “consciên- Partindo da função principal de Ogum, a de mediador entre os vários ní-
cia do entrelaçamento cósmico” presente na cosmovisão africana, isto é, veis da existência, a relação com Soyinka é clara: sujeito cultural híbrido,
a consciência da interdependência entre todas as coisas e a ideia do Uni- Soyinka transita entre as tradições, incorporando-as e organizando-as em
verso como uma rede de relações. [...] novas combinações. O resultado só pode ser também híbrido, como o fer-
Nas sociedades tradicionais o tempo é um fenômeno bidimensional, ro de que Ogum faz seu machado: “uma fusão de energias elementares”,
composto de um longo passado, o presente e, virtualmente, nenhum fu- “uma força que junta corpos e propriedades díspares”, como o projeto de
turo. O conceito ocidental de tempo, representado graficamente pela fle- unir as tradições africanas à tradição ocidental e, eventualmente, a outras.
cha e caracterizado por um passado indefinido, o presente e um futuro Como Ogum, Soyinka se faz e trabalha na passagem, na transição,
infinito, opõe-se ao sistema de pensamento tradicional que praticamente no “espaço cultural intersticial”, nas palavras de Abdul Jan Mohamed; na
ignora o futuro: como os acontecimentos futuros ainda não se tornaram “liminaridade” ou “inscrição dupla”, na “dimensão internacional” da cul-
realidade, não constituem tempo propriamente. Os eventos que certa- tura, nos termos de Homi Bhabha. Afinal, na dimensão transnacional do
mente ocorrerão e aqueles que integram o inevitável ritmo da natureza mundo contemporâneo, diz H. Bhabha, não se pode mais opor dentro/
são considerados como tempo potencial, e não real; na verdade, apenas fora. As fronteiras foram substituídas pelos espaços intersticiais “através
o presente tem valor intrínseco. [...] dos quais se negociam os sentidos da autoridade cultural e política”. As-
Também ao contrário da concepção ocidental, nas sociedades tradi- sim, a função do artista e do intelectual acaba sendo funcionar como o
cionais africanas o tempo não se mostra como mudança e sucessão, mas que Gayatri Spivak e Trinh Minh-Ha chamam de shuttle, termo que pode
como o contínuo fluir de um presente permanente que abrange todos os ser tornado em seu sentido duplo, tanto como naveta ou lançadeira de
tempos. Segundo Soyinka, a cosmologia iorubá distingue três realidades máquina de tecelagem (a peça que leva o fio de um lado para o outro)
simultâneas: o mundo dos vivos, o dos mortos/das divindades e o dos quanto como veículo que faz um trajeto de ida e volta numa rota curta
que ainda vão nascer. Esses três mundos não constituem entidades se- (shuttle bus espace shuttle, por exemplo). [...]
paradas, já que o sistema de pensamento iorubá baseia-se na simulta- A descolonização faz-se, assim, não pela recusa da cultura colonial, mas
neidade dos tempos, o que faz com que os mortos, os vivos e os não nas- pela sua “assimilação inquieta e insubordinada, antropófaga” e pela es-
cidos habitem um tempo em que a periodicidade é ignorada. [...] colha de um lugar enunciativo “terceiro”: um entre-lugar. É essa posição
Como os três mundos são igualmente antigos e importantes – na ver- liminar que vai caracterizar o discurso de Wole Soyinka, sujeito cultural em
dade eles coexistem – os vários níveis de existência são percebidos como trânsito permanente como o orixá Ogum, num mundo construído como a
interligados, o que acaba por afetar os princípios sociais, fazendo com cosmovisão iorubá, imagem tanto de descentramento quanto de relação.

XXVIII HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


IDENTIDADES AFRICANAS põem uma identidade: que podemos escolher, dentro de limites amplos
instaurados pelas realidades ecológicas, políticas e econômicas, o que
APPIAH, K. A. Na casa de meu pai: a África na filosofia da cultura. Trad. Rio de significará ser africano nos anos vindouros. [...]
Janeiro: Contraponto, 1997. p. 241-251. Penso que existem três lições cruciais a serem aprendidas através
desses casos. Primeiro, que as identidades são complexas e múltiplas,
Toda identidade humana é construída e histórica; todo o mundo tem
e brotam de uma história de respostas mutáveis às forças econômicas,
seu quinhão de pressupostos falsos, erros e imprecisões que a cortesia
políticas e culturais, quase sempre em oposição a outras identidades.
chama de “mito”, a religião, de “heresia”, e a ciência, de “magia”. Histó-
Segundo, que elas florescem a despeito do que antes chamei de nosso
rias inventadas, biologias inventadas e afinidades culturais inventadas
“desconhecimento” de suas origens, isto é, a despeito de terem suas ra-
vêm junto com toda identidade; cada qual é uma espécie de papel que ízes em mitos e mentiras. E terceiro, que não há, por conseguinte, muito
tem que ser roteirizado, estruturado por convenções de narrativa a que o espaço para a razão na construção – em contraste com o estudo e a ad-
mundo jamais consegue conformar-se realmente. ministração – das identidades. [...]
Muitas vezes, quem diz isto – quem nega a realidade biológica das ra- Por fim, eu gostaria de sugerir que realmente não surpreende que uma
ças ou a verdade literal de nossas ficções nacionais – é tratado pelos na- identidade continental esteja se transformando numa realidade cultural e
cionalistas e pelos “adeptos da raça” como se estivesse propondo o ge- institucional através de organizações regionais e sub-regionais. Compar-
nocídio ou a destruição das nações, como se, ao dizer que literalmente timos um continente e seus problemas ecológicos; compartimos uma re-
não existe uma raça negra, estivesse obliterando todos aqueles que afir- lação de dependência perante a economia mundial; compartimos o pro-
mam ser negros, e, ao duvidar da história de Okomfo Anokye, estivesse blema do racismo, na maneira como o mundo industrializado pensa em
repudiando a nação achanti. Essa é uma hipérbole que não ajuda; mes- nós (e permitam-me incluir aqui, explicitamente, a África “negra” e a “ma-
mo assim, deve haver contextos em que uma afirmação dessas verdades grebina”); compartimos as possibilidades de desenvolvimento dos mer-
é politicamente inoportuna. Sou aplicado o bastante para me sentir atra- cados regionais e dos circuitos locais de produção; e nossos intelectuais
ído pela enunciação da verdade, mesmo que o mundo venha abaixo; e participam, através das contingências comuns de nossas histórias diver-
sou animal político o bastante para reconhecer que há lugares em que a sas, de um discurso cujos contornos tentei delinear neste livro.
verdade prejudica mais do que ajuda. [...] diz um provérbio akan: o crocodilo não morre embaixo d’água para
Mas, pelo que posso ver, não temos que optar entre esses impulsos: que possamos chamar o macaco para celebrar seu funeral. Cada um de nós,
não há razão para crer que o racismo seja sempre – ou mesmo usual- pode-se usar o provérbio para dizer, pertence a um grupo com costumes
mente – promovido pela negação da existência das raças; e, embora haja próprios. Admitir que a África, sob esses aspectos, possa ser uma identida-
uma certa razão para desconfiar que os que resistem aos remédios legais de utilizável é não esquecer que todos pertencemos a comunidades diver-
para a história do racismo poderiam utilizar a inexistência das raças para sificadas, com seus costumes locais; é não sonhar com um Estado africano
se posicionar – nos Estados Unidos, por exemplo – contra uma ação afir- único e esquecer as trajetórias complexamente diferentes das inúmeras lín-
mativa, essa estratégia, em matéria de lógica, encontra uma oposição fá- guas e culturas do continente. “Africano” certamente pode ser uma insígnia
cil. Pois, como nos lembra Tzvetan Todorov, a existência do racismo não vital e capacitadora; mas, num mundo de sexos, etnicidades, classes e lín-
requer a existência de raças; podemos acrescentar que as nações são guas, de idades, famílias, profissões, religiões e nações, mal chega a sur-
bem reais, por mais inventadas que sejam suas tradições. preender que haja ocasiões em que ela não é o rótulo de que precisamos.
Levantar a questão de saber se essas verdades são verdades a serem
enunciadas é ser forçado a encarar de frente a verdadeira questão políti- UM RENASCIMENTO AFRICANO?
ca: a questão, tão velha quanto a filosofia política, de quando devemos
endossar a mentira enobrecedora. No mundo real da prática política, das M’BOKOLO, E. África Negra. História e civilizações (do século XIX aos nossos dias).
alianças cotidianas e das mobilizações populares, uma rejeição das raças Trad. Salvador/São Paulo: EDUFBA/Casa das Áfricas, 2011. Tomo II. p. 704-710.

e nações, na teoria, só pode fazer parte do projeto de uma prática políti-


ca coerente se pudermos mostrar mais do que o fato de que a raça negra 1. Os agrupamentos regionais
– ou a tribo chona, ou qualquer dos outros modos de autoinvenção que Com efeito, mantendo-se ciosamente fiéis à sua soberania, os Estados
a África tenha herdado – enquadra-se no padrão comum de se basear africanos tinham-se empenhado na constituição de agrupamentos de vo-
em algo menor do que a verdade literal. Precisaríamos mostrar, não que cação técnica, monetária e financeira, econômica e política bastantes nu-
a raça e a história nacional são falsidades, mas que elas são, na melhor merosos à escala das diferentes regiões ou “sub-regiões”. No contexto
das hipóteses, falsidades inúteis, ou – na pior – perigosas: que um outro dos anos 1980 e 1990, só duas comunidades demonstraram alguma
conjunto de histórias nos construirá identidades através das quais possa- eficácia: a CEDEAO (Comunidade Econômica dos Estados da África Oci-
mos fazer alianças mais produtivas. [...] dental, ECOWAS em inglês) e a SADCC (Comunidade de Desenvolvimen-
A “raça” nos incapacita porque propõe como base para a ação comum to da África Austral), cujo dinamismo iria servir para o relançamento da
a ilusão que as pessoas negras (e brancas e amarelas) são fundamental- ideia pan-africana.
mente aliadas por natureza e, portanto, sem esforço; ela nos deixa des- Formada em 1975 pelo conjunto dos Estados independentes da África
preparados, por conseguinte, para lidar com os conflitos “intrarraciais” Ocidental (que eram 15 na altura, tendo-se-lhes juntado Cabo Verde, após
que nascem das situações muito diferentes dos negros (e brancos e ama- a sua separação da Guiné-Bissau), a CEDEAO foi a primeira estrutura de
relos) nas diversas partes da economia e do mundo. [...] integração a superar efetivamente as clivagens entre países “anglófonos”,
Para que uma identidade africana nos confira poder, o que se faz ne- “francófonos” e “lusófonos” herdadas da colonização a tentar federar as
cessário, eu creio, não é tanto jogarmos fora a falsidade, mas reconhe- energias de Estados muito diversos pela dimensão, pela história e pelas es-
cermos, antes de mais nada, que a raça, a história e a metafísica não im- truturas políticas e econômicas. A CEDEAO foi criada apesar das reticências

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano XXIX


de alguns Estados “francófonos” que mantinham ligações estreitas com a blica Democrática do Congo (1997). A coexistência no seio deste conjun-
França e que tinham entre si poderosos laços econômicos e financeiros no to de Estados que dispunham de industrias mais ou menos fortes (África
quadro da Comunidade Econômica da África Ocidental (CEAO), à qual su- do Sul e Zimbabwe), de Estados mineiros (Angola, Congo-Kinshasa, Na-
cedeu em 1994 a União Econômica e Monetária Oeste-Africana. Este su- míbia e Zâmbia) e de países agrícolas parecia promissora para o seu fu-
cesso teve como principal artesão a Nigéria: apoiando-se no seu peso de- turo econômico. Mas, em virtude das suas origens, as preocupações po-
mográfico e econômico, graças ao petróleo, a Nigéria pôs em prática uma líticas assumiram nela um lugar de primeiro plano.
diplomacia ativa, feita de pressões e promessas, para obter a adesão de Foram precisamente as questões políticas que puseram a SADC à prova.
todos os Estados oeste-africanos. O projeto recebeu também o apoio de- A criação, em 1996, de um “Órgão de Política, Defesa e Segurança” não
cidido do Togo e dos empresários do setor privado reunidos no seio da Fe- conseguiu obter a unanimidade. E, sobretudo, a guerra na República De-
deração Oeste-Africana das Câmaras de Comércio. mocrática do Congo opôs, a partir de 1998, os Estados que acorreram em
O tratado fundador de 1975 limitava o seu campo de ação à econo- auxílio do Estado congolês (Angola, Namíbia, Zimbabwe) aos que observa-
mia, adotando como objetivo “a promoção da cooperação e do desen- vam, oficialmente, uma prudente expectativa. O mesmo se passou com a
volvimento em todos os campos da atividade econômica”, de maneira a atitude a assumir face à politica de expropriação fundiária conduzida pelo
dar aos Estados a capacidade de contarem com as suas próprias forças. governo do Zimbabwe relativamente aos agricultores brancos, que emba-
Em 1979, juntou-se a isto a livre circulação no interior do espaço comum raçava outros Estados da SADC, em especial a África do Sul e a Namíbia:
dos cidadãos de todos as Estados-membros, bem como das mercadorias estes haviam herdado do seu passado colonial estruturas agrárias tão pro-
e dos capitais. Em 1981, foi aceito pelos Estados-membros um protocolo fundamente inigualitárias como as do Zimbabwe e temiam um efeito de
de não agressão, tendo a maioria deles (13 no total) assinado um pacto contágio. Por último, a gravidade da epidemia da Aids, com taxas de soro-
de assistência mútua em matéria de defesa. A revisão do Tratado, reali- positividade superiores a 25% (África do Sul), ou ate 33% (Botswana, Swa-
zada em 1993, alargou consideravelmente os domínios da cooperação zilândia, Zimbabwe), constituía um grave desafio para o futuro. Contudo, o
em matéria econômica e integrou explicitamente a cooperação política. peso da África do Sul (33% da população da SADC, 75% do seu PNB) so-
Passava a tomar-se como objetivos construir um mercado comum, ado- mada ao ativismo e a eficácia da sua diplomacia africana fazia da organi-
tar uma moeda única e estabelecer um parlamento oeste-africano, bem zação uma das zonas de integração mais promissoras na África. Esse país
como um conselho econômico e social e um tribunal de justiça da CEDE- iria desempenhar, como a Nigéria, um papel de primeiro plano no relança-
AO, objetivos que não ficaram letra morta, embora não tenham faltado os mento da dinâmica unitária a escala continental.
obstáculos que retardaram a sua realização, em especial, a considerável
2. Da OUA à União Africana: a África e os desafios africanos do
extensão do espaço econômico assim constituído, as múltiplas contradi-
século XXI
ções e defeitos de ajustamento entre três legados coloniais, a desarticu-
lação das redes de comunicação, a manutenção de relações comerciais De fato, o novo contexto – caracterizado por aspirações sociais premen-
preferenciais com as antigas potências coloniais e a mediocridade das tes, por conflitos de tipo novo no interior dos Estados e entre os Estados,
trocas comerciais entre os parceiros, a violação frequente dos princípios por mutações rápidas à escala da economia mundial e no funcionamento
da livre circulação pelos Estados sempre ciosos da sua soberania, bem dos Estados africanos, pela renovação gradual das equipes dirigentes –
como o medo frequentemente agitado de ver a Nigéria exercer a sua so- acelerou o processo de integração, obrigando a OUA a conceber o seu ag-
berania sobre o conjunto. giornamento e suscitando projetos pan-africanos alternativos.
Mesmo assim, a CEDEAO conseguiu dar origem a numerosas institui- Já em 1979 os responsáveis africanos tinham acordado criar um co-
ções econômicas, financeiras, sociais e culturais a escala oeste-africana mitê de revisão da Carta da OUA. Em 1980, uma alteração à Carta pro-
e, sobretudo, mostrou-se muito ativa na gestão dos conflitos e na manu- pôs-se definir três novas missões essenciais: a manutenção da paz e da
tenção da segurança. segurança, a proteção dos direitos humanos e a rápida resolução das
Com efeito, logo que a guerra civil na Libéria foi declarada, a CEDEAO crises. A mudança de atitude dos chefes de Estado só se tornou percep-
propôs-se em 1990 atuar como mediadora e mobilizar tropas dos Esta- tível em 1990, no auge do surto de democratização, quando adotaram
dos-membros para garantir um cessar-fogo e a manutenção da paz. Cria- a “Declaração sobre a situação socioeconômica na África e as mudanças
do na altura, o ECOMOG (Grupo de Observadores Militares da CEDEAO) fundamentais que estão ocorrendo atualmente no mundo”. Continuando
mais do que sobreviveu às numerosas críticas e prosseguiu ativamente preocupados com as questões relativas a segurança, faziam suas as ima-
as suas intervenções nas crises posteriores por que passaram a Serra gens então em voga sobre a “marginalização da África” e comprometiam-
Leoa e a Costa do Marfim. -se a “trabalhar em conjunto com vista a rápida resolução de todos os
O nascimento da SADC foi quase contemporâneo ao da CEDEAO. Com conflitos que o continente conhece”, dando à OUA os meios adequados
efeito, as suas origens remontam a duas reuniões realizadas em Arusha para “reduzir as tensões e resolver os conflitos existentes na África, com
(1979) e em Lusaka (1980), durante as quais os “Estados da Linha da o objetivo último de criar as condições de paz, de estabilidade e de jus-
Frente” (Angola, Botswana, Lesoto, Malawi, Moçambique, Namíbia Swa- tiça social que são imprescindíveis para garantir o desenvolvimento eco-
zilândia, Tanzânia e Zâmbia) decidiram constituir a SADCC (Conferência nômico e social dos povos africanos”.
para a Coordenação do Desenvolvimento da África Austral), com o obje- Retomando as ideias mestras do Plano de Ação de Lagos, o tratado de
tivo de harmonizar os seus esforços de desenvolvimento e sobretudo re- Abuja, assinado em 1991, instituía a “Comunidade Econômica Africana” e,
duzir a muito longa dependência das suas economias relativamente a da para garantir a sua aplicação prática, encarregava o secretariado da OUA
África do Sul do apartheid. O colapso do apartheid e a instauração de de trabalhar com todos os Estados-membros com vista a “lançar bases só-
um regime democrático na África do Sul levaram a SADCC a transformar- lidas para as Comunidades Econômicas regionais que deverão servir de pi-
-se em SADC em 1992 e a abrir as portas a novos membros: a África do lares para a Comunidade Econômica Africana”, cuja formação progressiva
Sul (1994), mas também a Ilha Maurícia (1995), as Seychelles e a Repú- deveria estar concluída em 2028. Era, de certa maneira, um regresso às po-

XXX HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


sições de 1963, salvo que agora se assumia claramente a ligação entre os cretariado da defunta OUA. A União Africana retomou a antiga reparti-
agrupamentos regionais e a união continental, da qual aqueles seriam ou- ção da África em cinco “regiões” (Norte, Oeste, Leste, Centro, Sul), mas
tras tantas etapas e simultaneamente um laboratório. Em 1993, o “Meca- acrescentou-lhe uma sexta “região” constituída pelas diásporas africanas
nismo da OUA para a prevenção, a gestão e a resolução de conflitos”, cujo decorrentes do tráfico negreiro e das migrações contemporâneas. Numa
princípio fora adotado no ano anterior, surgiu efetivamente. Mas a acele- altura em que persistiam a crispação nacional e os particularismos étni-
ração dos acontecimentos a nível continental voltou a surpreender os res- cos e religiosos em certos países, constituiu como que um símbolo o fato
ponsáveis africanos. Já assoberbada pela guerra civil da Libéria e pelo con- de a União Africana ter sido lançada em Durban: negros, brancos, india-
flito somali, a OUA apenas pôde assistir passivamente aos conflitos mais nos, mestiços, as diferentes componentes da nação “arco-íris” sul-africa-
graves que o continente conheceu desde a sua independência: o genocí- na acolhiam outros africanos, negros, brancos, mestiços, indianos rea-
dio ruandês (1994) e a guerra do Congo-Kinshasa (1998-2002). firmando assim, no alvorecer do século XXI, os valores da solidariedade
Coube ao chefe de Estado líbio, Mouammar Kadhafi, precipitar a deci- continental que tinham feito a força do pan-africanismo desde o fim da
são que visava substituir a OUA por uma organização mais ambiciosa e Segunda Guerra Mundial. [...]
mais eficaz, a União Africana. Essa decisão foi tomada durante a cúpula Paralelamente à gestação da União Africana, novas propostas emer-
extraordinária reunida por sua iniciativa em Syrte (setembro de 1999). giam com vista a assegurar o desenvolvimento a escala do continente.
Adotado em Lomé em julho de 2000, o Ato Constitutivo entrou em vigor As reflexões organizaram-se em torno de dois projetos, o “Plano Ome-
em maio de 2001 e a União Africana foi solenemente lançada em Dur- ga”, de Abdoulaye Wade, e o “Programa do Milênio para o Renascimento
ban em julho de 2002. A Declaração de Syrte não visava apenas acelerar Africano”, proposto pelos presidentes Abdelaziz Bouteflika, Thabo Mbeki
o processo de união à escala da África. Embora o projeto inicial do seu e Olusegu Obasanjo. Da convergência desses projetos ia nascer a NEPAD
promotor – a criação dos Estados Unidos da África, congregando os 53 (Nova Parceria para o Desenvolvimento da África), adotado pelos chefes
Estados existentes – tenha sido consideravelmente alterado, o advento de Estado africanos em 2001. Renunciando às ambições do Plano de
da União Africana consagrou uma nova abordagem dos problemas da Ação de Lagos (1980), a NEPAD apresentava-se modestamente como
integração, que visava “fazer face aos desafios multiformes com que se um catálogo realista de múltiplos programas concebidos no espírito do
confrontam o nosso continente e os nossos povos, à luz das mudanças liberalismo econômico, social e cultural, suscetíveis de serem financiados
sociais, econômicas e políticas que ocorrem no mundo”. Especial aten- separadamente. Durante esses debates, Thabo Mbeki inspirou-se cons-
ção era dada aos conflitos: segundo o Ato Constitutivo, “o flagelo dos tantemente na experiência vitoriosa dos combatentes da liberdade na
conflitos constitui um obstáculo fundamental ao desenvolvimento socio- África do Sul para voltar a par em relevo a noção de “renascimento africa-
econômico do continente”; é necessário “promover a paz, a segurança no”. [...] Essas afirmações pareceram novas às gerações africanas nasci-
e a estabilidade, como condição prévia à execução da nossa agenda no das apos as independências e surpreenderam o mundo exterior, mas, na
domínio do desenvolvimento e da integração”. realidade, iam beber no viveiro ideológico alimentado constantemente
Para lá do reconhecimento da necessidade de “promover a boa go- desde o século XVIII por numerosos intelectuais, pensadores e homens
vernança e o Estado de direito”, reconhecimento que se tornara habitu- de Estado como Anthony Amo, Edward W Blyden, Nnamdi Azikiwe, Kwa-
al desde o início dos anos 1990, as principais inovações incidiam sobre me Nkrumah, Leopold Sedar Senghor, Julius Nyerere ou Kenneth Kaunda.
vários pontos: a definição de uma política comum de defesa; o direito de A complexidade dos processos sociais e culturais que percorrem a
ingerência dos Estados-membros num país da União culpado de crimes África desde as independências constitui um dos sinais mais seguros da
contra a humanidade; o direito de intervir para restabelecer e manter a vitalidade do continente. Hoje como ontem, a África negra, vista do ex-
paz e a segurança num Estado-membro, a pedido deste; a participação terior, continua a suscitar imagens contraditórias. Concebidas por olha-
nos assuntos da União de “todas as componentes da sociedade civil, em res estrangeiros, na sua maioria apressadas, prisioneiras do espetacu-
especial as mulheres, os jovens e o setor privado”; a instauração, tanto à lar, sensíveis aos dramas do cotidiano, impressionadas pela sucessão e
escala da União como dos Estados, da igualdade efetiva entre os homens pela precipitação dos acontecimentos, essas percepções, o mais das ve-
e as mulheres. Os responsáveis africanos declaravam que se inspiravam zes, foram negativas e pessimistas quanta ao futuro do mundo negro.
no modelo da União Europeia. Contudo, decidiram admitir sem qualquer Ora, não temos razão para nos desesperar pela África. Sem menospre-
condição todos os antigos membros da OUA, sem consideração pelo es- zar a crônica do tempo curto e dos acontecimentos que passam, o olhar
tado da sua economia, nem por sua observância das regras do Estado de perscrutador do historiador tende a demorar-se em períodos de maior
direito. Ao proclamar que seria uma união dos povos e não uma simples duração, no interior dos quais os fatos ganham sentido. A efervescência
união dos Estados, a União Africana pretendia não ser uma mera repeti- perceptível a todos os níveis da vida social na África prende-se com um
ção da defunta OUA. prazo mais longo caracterizado por uma vontade tenaz de sobreviver às
Assim, os Estados deveriam transferir algumas das suas competências provações mais temerosas, como o tráfico negreiro e o choque colonial,
para a União nos domínios prioritários em que iam ser rapidamente im- por uma capacidade permanente de inovar, tanto com os recursos pró-
plementadas políticas comuns: paz e segurança continentais; integração prios, como recorrendo a recursos bebidos no exterior, numa palavra, por
das economias e coordenação das políticas e das ações de desenvolvi- uma aptidão constante para surpreender. As numerosas atitudes indivi-
mento; segurança alimentar e erradicação da pobreza; proteção do am- duais aliadas a estratégias coletivas foram e continuam a ser os procedi-
biente; luta contra as epidemias e pandemias; liberdade de circulação mentos inventados para contornar as falências econômicas, para evitar,
dos homens, dos bens e dos capitais. Além disso, um parlamento repre- contestar e rejeitar a pesada tutela de Estados ditatoriais ou ainda para
sentante dos povos participaria plenamente na tomada de decisões re- afirmar raízes e identidades múltiplas. Assim, contra o desencanto, ao
lativas à governança, ao desenvolvimento e a integração econômica. Se- observarmos o movimento real das sociedades africanas, cabe procla-
guindo o modelo europeu, instituiu-se também uma comissão, órgão mar hoje, como em outros tempos o declarou François Rabelais: “A África
chave da organização dotado de poderes mais extensos do que o se- sempre traz alguma coisa nova.”

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano XXXI


to e realização que estão expressos, por exemplo, nos “Monumenta Ger-
TEÓRICOS E METODOLÓGICOS maniae historica”, e marcados, segundo ele, não pela chancela da ciên-
cia, mas pela do patriotismo.
SOBRE DOCUMENTOS HISTÓRICOS Pode-se, então, falar do triunfo do documento sobre o monumento.
Lento triunfo. Quando, no final do século XVII, Mabillon publica o seu De
LE GOFF, J. “Documento/Monumento”. História e memória. Trad. Lisboa: Ed. 70, re diplomatica [1681], fundamento da história “científica” que aceita-
2000. v. 2. p. 103-115.
rá utilizar criticamente o documento e de certa maneira criá-lo, trata-se
apenas ainda de monumento. [...]
1. Os materiais da memória coletiva e da história
2. O século XX: do triunfo do documento à revolução
A memória coletiva e a sua forma científica, a história, aplicam-se a
documentária
dois tipos de materiais: os documentos e os monumentos.
De fato, o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passa- Com a escola positivista, o documento triunfa. O seu triunfo, como bem
do, mas uma escolha feita quer pelas forças que operam no desenvolvi- o exprimiu Fustel de Coulanges, coincide com o do texto. A partir de en-
mento temporal do mundo e da humanidade, quer pelos que se dedicam tão, todo o historiador que trate de historiografia ou do ofício de historia-
à ciência do passado e dos tempos passados, os historiadores. dor recordará que é indispensável o recurso ao documento. [...]
Tais materiais da memória podem apresentar-se sob duas formas prin- Os fundadores da revista Annaies d’histoire économique et sociale
cipais: os monumentos, herança do passado, e os documentos, esco- (1929), pioneiros de uma nova história, insistiram sobre a necessidade
lha do historiador. de alargar a noção de documento: “A história faz-se com documentos es-
A palavra latina monumentum remete para a raiz indo-europeia men, critos, sem dúvida. Quando estes existem. Mas pode fazer-se, deve fazer-
que exprime uma das funções essenciais da mente (mens), a memória -se sem documentos escritos, quando não existem. Com tudo o que a
(memini). O verbo monere significa “fazer recordar”, donde “avisar”, “ilu- inventiva do historiador lhe permite utilizar para fabricar o seu mel, na
minar”, “instruir”. O monumentum é um sinal do passado [...] falta de flores apropriadas. Logo com palavras. Marcas. Paisagens e te-
As características do monumento são ligar-se à capacidade voluntária lhas. Com as formas do campo e das ervas. Com os eclipses da Lua e os
ou involuntária – de perpetuar as sociedades históricas (é um legado à arreios dos cavalos de tiro. Com os exames de pedras feitos pelos geó-
memória colectiva) e reenviar para testemunhos que só numa parcela mí- logos e com as análises de metais feitas pelos químicos. Numa palavra,
nima são testemunhos escritos. com tudo o que, pertencendo ao homem, depende do homem, serve o
O termo latino documentum, derivado de docere, “ensinar”, evoluiu homem, exprime o homem, demonstra a presença, a atividade, os gostos
para o significado de “prova” e é amplamente usado no vocabulário le- e as maneiras de ser do homem. Toda uma parte, e sem dúvida a mais
gislativo. É no século XVII que se difunde, na linguagem jurídica francesa, apaixonante do nosso trabalho de historiadores, não consistirá num es-
a expressão titres et documents e o sentido moderno de testemunho forço constante para fazer falar as coisas mudas, para fazê-las dizer o que
histórico data apenas do início do século XIX. O significado de “certidão elas por si próprias não dizem sobre os homens, sobre as sociedades que
justificativa”, especialmente no domínio policial, por exemplo, demons- as produziram, e para constituir, finalmente, entre elas, aquela vasta rede
tra a origem e a evolução do termo. O documento que, para a escola de solidariedade e de entreajuda que supre a ausência do documento
histórica positivista do fim do séc. XIX e do início do século XX, será o escrito?” [Febvre, 1949]. [...]
fundamento do fato histórico, apesar de ser o resultado de uma esco- É uma revolução ao mesmo tempo quantitativa e qualitativa. O interesse
lha, de uma decisão do historiador, parece apresentar-se por si mesmo da memória coletiva e da história já não se cristaliza exclusivamente sobre
como prova histórica. Parece possuir a objetividade que se contrapõe à os grandes homens, os acontecimentos, a história que avança depressa,
intencionalidade do monumento. Além de mais, afirma-se essencialmen- a história política, diplomática, militar. Interessa-se agora por todos os ho-
te como um testemunho escrito. mens, suscita uma nova hierarquia mais ou menos implícita dos documen-
No final do século XIX, Fustel de Coulanges pode ser tomado como um tos; por exemplo, coloca em primeiro plano, para a história moderna, o re-
testemunho válido de como documento e monumento se transforma- gistro paroquial que conserva para a memória todos os homens [...]
ram para os historiadores. Os dois termos encontram-se, por exemplo, nas Da confluência destas duas revoluções nasce a história qualitativa,
clássicas páginas do primeiro capítulo de La monarchie franque [1888]: que repõe em discussão a noção de documento e o seu tratamento. De-
“Leis, cartas, fórmulas, crónicas e histórias, é preciso ter lido todas estas sejada em primeiro lugar pelos historiadores da economia, obrigados a
categorias de documentos sem omitir uma única... Encontraremos no cur- tomar como documentos de base séries de verbas ou de dados numéri-
so destes estudos várias opiniões modernas que não se apoiam em do- cos [cf. Marczewski, 1961], introduzida depois na arqueologia [cf. Gardin,
cumentos; deveremos estar em condições de afirmar que não são confor- 1971] e na história da cultura [cf., por exemplo, Furet e Ozouf, 1977], a
mes a qualquer texto, e por esta razão não nos cremos com o direito de história quantitativa altera o estatuto do documento. “O documento, o
aderir a elas. A leitura dos documentos não serviria, pois, para nada se dado, já não existem por si próprios, mas em relação com a série que os
fosse feita com ideias preconcebidas... A sua única habilidade (do histo- precede e os segue, é o seu valor relativo que se torna objectivo e não a
riador) consiste em extrair dos documentos tudo o que eles contêm e em sua relação com uma inapreensível entidade ‘real’” [Furet, 1974].
não lhes acrescentar nada do que eles não contêm. O melhor historiador A intervenção do computador permite uma nova periodização na me-
é aquele que se mantém o mais próximo possível dos textos”. mória histórica: produz-se, a partir de então, um corte fundamental no mo-
É claro que para Fustel, como para a maior parte dos historiadores em- mento em que se podem formar séries [sobre a história serial, entre os
bebidos de um espírito positivista, vale: documento = texto. A esta his- seus numerosos escritos, cf. Chaunu, 1972]; tem-se, doravante, uma idade
tória, fundada em documentos que se impõem por si próprios, Fustel de pré-estatística e uma idade quantitativa. Mas é necessário observar que,
Coulanges opõe o espírito e a realização da história erudita alemã; espíri- se este corte corresponde a um grau de diferença das sociedades históri-

XXXII HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


cas em relação ao levantamento estatístico – indiferença ou desconfiança Confrontando os textos latinos e os testemunhos em língua vulgar da
em relação ao número, por um lado, atenção sempre maior e mais precisa, época, Paul Zumthor quase identificou escrito e monumento: “O escrito,
por outro –, a história quantitativa, como o demonstra a arqueologia, pode o texto é mais frequentemente monumento do que documento”. Mas,
transpor alegremente esta fronteira histórica. Porque a história quantitativa mais adiante, admite “que houve monumentos a nível de expressão vul-
não é nem uma revolução puramente tecnológica, nem a consequência da gar e oral” e que existiram “tradições monumentais orais” [ibid.]. O que
importância assumida pelo número na história. Não é imposta nem pelo distingue a língua monumental da língua documental é “esta elevação,
computador nem pelo passado. Como observa Glénisson, no século XIX, esta verticalidade” que a gramática confere a um documento, transfor-
no início estava o documento; hoje, no início está o problema. É uma “revo- mando-o em monumento. Por isso, a língua vulgar, que provisoriamen-
lução da consciência historiográfica” [Furet, 1974]. te permaneceu no plano documental, só pouco a pouco se transformará
A revolução documentária tende também a promover uma nova uni- em “francês monumental” [ibid.]. Por outro lado, duas observações de Zu-
dade de informação: em lugar do facto que conduz ao acontecimento e mthor conduzem-nos ao centro do problema. “O futuro ‘francês’ foi iden-
a uma história linear, a uma memória progressiva, ela privilegia o dado, tificado como uma entidade linguística particular na medida em que pas-
que leva à série e a uma história descontínua. Tornam-se necessários no- sou... conforme as necessidades do verdadeiro direito do rei, ao estado
vos arquivos, onde o primeiro lugar é ocupado pelo corpus, a fita mag- monumental”. E ainda: “O testemunho dos monumentos mais numero-
nética. A memória coletiva valoriza-se, organiza-se em patrimônio cultu- sos, mais antigos e mais explícitos revela-nos quanto deve ter influído, na
ral. O novo documento é armazenado e manejado nos bancos de dados. tomada de consciência linguística da Alta Idade Média, a revolução polí-
Surge uma nova ciência que balbucia ainda e que deve responder simul- tica que então se operava nos reinos mais orgânicos da România: Gália
taneamente às exigências do computador e à crítica da sua sempre cres- merovíngia, Espanha visigótica, Lombardia” [ibid.].
cente influência sobre a memória coletiva. Assim, Paul Zumthor descobria o que transforma o documento em mo-
numento: a sua utilização pelo poder. Mas hesitava em transpor o fosso
3. A crítica dos documentos: em direção aos documentos/ que consistia em reconhecer em todo o documento um monumento. Não
monumentos
existe um documento objetivo, inócuo, primário. A ilusão positivista (que,
Não nos devemos contentar com esta verificação da revolução docu- bem entendido, era produzida por uma sociedade cujos governantes ti-
mentária e com uma reflexão crítica sobre a história quantitativa de que nham interesse em que não houvesse mudanças), a qual via no docu-
esta revolução é o aspecto mais espetacular. Recolhido pela memória co- mento uma prova de boa-fé, desde que fosse autêntico, pode muito bem
letiva e transformado em documento pela história tradicional (“na histó- encontrar-se ao nível dos dados mediante os quais a atual revolução do-
ria, tudo começa com o gesto de pôr de parte, de reunir, de transformar cumentária tende a substituir os documentos.
em ‘documentos’ certos objectos catalogados de outro modo”, como es- A concepção do documento/monumento é, pois, independente da re-
creve Certeau [1974]), ou transformado em dado nos novos sistemas de volução documentária e entre os seus objetivos está o de evitar que esta
montagem da história serial, o documento deve ser submetido a uma crí- revolução necessária se transforme num derivativo e desvie o historiador
tica mais radical. [...] do seu dever principal: a crítica do documento – qualquer que ele seja –
Mas os fundadores dos “Annales” davam início a uma crítica em pro- enquanto monumento. O documento não é uma mercadoria invendida do
fundidade da noção de documento. “Os historiadores ficam passivos, de- passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações
masiado frequentemente, perante os documentos, e o axioma de Fustel de força que nela detinham o poder. Só a análise do documento enquanto
(a história faz-se com textos) acaba por se revestir para eles de um senti- documento permite à memória coletiva recuperá-lo e ao historiador usá-lo
do deletério”, afirmava Lucien Febvre [1933], que lamentava não já a au- cientificamente, isto é, com pleno conhecimento de causa.
sência de sentido crítico nos historiadores – que praticavam todos, mais Michel Foucault [1969] colocou a questão em termos duros. Antes de
ou menos, a crítica dos documentos preconizada pela École des Chartes mais, ele declara que os problemas da história se podem resumir numa
e a história positiva do século XIX –, mas o fato de que se pusesse em só palavra: “o processo ao documento”. E logo recorda: “O documento
discussão o documento enquanto tal. Por isso, Marc Bloch teria escrito: não é o feliz instrumento de uma história que seja em si própria, e com
“Não obstante o que por vezes parecem acreditar os principiantes, os pleno direito, memória: a história é um certo modo que uma sociedade
documentos não aparecem, aqui ou ali, pelo efeito de um qualquer im- tem de dar estatuto e elaboração a uma massa documentária da qual
perscrutável desígnio dos deuses. A sua presença ou a sua ausência num não se separa” [ibid.].
fundo arquivístico, numa biblioteca, num terreno, dependem de causas Segue-se-lhe a definição de revolução documentária em profundidade e
humanas que não escapam de forma alguma à análise, e os problemas da nova tarefa que se apresenta ao historiador: “A história, na sua forma tra-
postos pela sua transmissão, longe de serem apenas exercícios de técni- dicional, dedicava-se a ‘memorizar’ os monumentos do passado, a trans-
cos, tocam, eles próprios, no mais íntimo da vida do passado, pois o que formá-los em documentos e em fazer falar os traços que, por si próprios
assim se encontra posto em jogo é nada menos do que a passagem da muitas vezes não são absolutamente verbais, ou dizem tacitamente coisas
recordação através das gerações” [1941/42]. diferentes do que dizem explicitamente; hoje, pelo contrário, a história é
Mas era necessário ir mais longe. que transforma os documentos em monumentos e que, onde dantes se de-
Já Paul Zumthor [1960] tinha aberto a via a novas relações entre docu- cifravam traços deixados pelos homens e se descobria em negativo o que
mento e monumento. Tratando-se de um muito pequeno número de tex- eles tinham sido, apresenta uma massa de elementos que é preciso separar,
tos, os mais antigos em língua francesa (século VIII/IX), ele propôs uma reagrupar, tornar pertinentes, relacionar, constituir em conjunto” [ibid.] [...]
distinção entre os monumentos linguísticos e os simples documentos. Os A intervenção do historiador que escolhe o documento, extraindo-o
primeiros respondem a uma intenção de edificação, “no duplo significado do conjunto dos dados do passado, preferindo-o a outros, atribuindo-
de elevação moral e de construção de um edifício”, ao passo que os segun- -lhe um valor de testemunho que, pelo menos em parte, depende da
dos respondem “apenas às necessidades da intercomunicação corrente”. própria posição na sociedade da sua época e da sua organização men-

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano XXXIII


tal, insere-se numa situação inicial que é ainda menos “neutra” do que de apreensão de narrativas feita por meio de meios eletrônicos e desti-
a sua intervenção. O documento não é inócuo. Antes de mais, é o re- nada a recolher testemunhos, promover análises de processos sociais
sultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, da do presente e facilitar o conhecimento do meio imediato. A formulação
época, da sociedade que o produziu, mas também das épocas suces- de documentos mediante registros eletrônicos é um dos objetivos da
sivas durante as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as história oral que, contudo, podem também ser analisados a fim de fa-
quais continuou a ser manipulado, também pelo silêncio. O documento vorecer estudos de identidade e memória cultural.
é uma coisa que fica, que dura, e o testemunho, o ensinamento (para A História oral é um conjunto de procedimentos que se iniciam com a
evocar a etimologia) que traz devem ser em primeiro lugar analisados elaboração de um projeto e continuam com a definição de um grupo de
desmistificando o seu significado aparente. O documento é monumen- pessoas (ou colônias) a serem entrevistadas. O projeto prevê: planeja-
to. É o resultado do esforço realizado pelas sociedades históricas para mento da condução das gravações; transcrição, conferência da fita com
impor ao futuro – voluntária ou involuntariamente – determinada ima- o texto; autorização para o uso; arquivamento e, sempre que possível,
gem de si próprias. No limite, não existe um documento-verdade. Todo publicação dos resultados, que devem, em primeiro lugar, voltar ao gru-
o documento é mentira. po que gerou as entrevistas. [...]
Cabe ao historiador não passar por ingênuo. Os medievalistas, que [...] A História oral mantém um compromisso de registro permanente
tanto trabalharam para construir uma crítica – sempre útil, de fato – do que se projeta para o futuro sugerindo que outros possam vir a usá-la
falso, devem superar esta problemática porque qualquer documento é, de diferentes maneiras; por isso, é importante separar as etapas: grava-
ao mesmo tempo, verdadeiro – incluindo, e talvez sobretudo, os falsos – ções de entrevistas, estabelecimento de textos e, finalmente, suas aná-
e falso, porque um monumento é em primeiro lugar uma roupagem, uma lises. A primeira etapa é obrigatória por ser germinal, a segunda e a ter-
aparência enganadora, uma montagem. É preciso começar por desmon- ceira dependem das determinações estabelecidas no projeto. Pode-se
tar, demolir esta montagem, desestruturar esta construção e analisar as dizer que três elementos constituem a relação mínima da história oral,
condições de produção dos documentos-monumentos. e um não faz sentido sem os outros: 1) o entrevistador; 2) o entrevista-
Ora, esta desmontagem do documento-monumento não pode fazer-se do; 3) a aparelhagem de gravação. Todo projeto de história oral precisa
com o auxílio de uma única crítica histórica. Numa perspectiva de desco- ter no mínimo um diretor ou coordenador, que pode ser também o exe-
brimento dos falsos, a diplomática, cada vez mais aperfeiçoada, cada vez cutante do processo. É comum existir projetos de grande alcance, que
mais inteligente, sempre útil, repetimo-lo, é suficiente. [...] demandam mais de um entrevistador, além de transcritor e revisor. Boa
Mais ainda do que estes múltiplos modos de abordar um documento, parte dos projetos é feita por uma só pessoa, que assume a responsa-
para que ele possa contribuir para uma história total, é importante não bilidade de todas as tarefas. Os entrevistados são as pessoas ouvidas
isolar os documentos do conjunto de monumentos de que fazem parte. em um projeto e devem ser reconhecidos como colaboradores. As esco-
Sem subestimar o texto que exprime a superioridade, não do seu tes- lhas e todos os procedimentos de contato e condução das entrevistas
temunho mas do ambiente que o produziu, monopolizando um instru- devem ser feitos de acordo com o projeto. Comumente se fazem entre-
mento cultural importante, o medievalista deve recorrer ao documento vistas individuais, realizadas com gravadores ou câmaras portáteis, de
arqueológico, sobretudo àquele que utiliza o método estratigráfico, ao preferência com microfones embutidos a fim de tornar menos ostensivo
documento – iconográfico, às provas que fornecem métodos avançados o ato da gravação. [...]
como a história ecológica, que faz apelo à fenologia, à dendrologia, à pa- [...] A presença do passado no presente imediato das pessoas é a ra-
linologia: tudo o que permite a descoberta de fenómenos in loco (a se- zão de ser da história oral. Nessa medida, ela não só oferece uma mu-
mântica histórica, a cartografia, a fotografia aérea, a fotointerpretação) é dança do conceito de história, mas, mais do que isso, garante sentido à
particularmente útil. vida dos depoentes e leitores, que passam a entender a sequência his-
O novo documento, mais completo do que os textos tradicionais, trans- tórica e se sentem parte do contexto em que vivem.
formado – sempre que a história quantitativa é possível e pertinente – [...] Oralidade é o conjunto amplo de expressões verbais e compreen-
em dado, deve ser tratado como um documento/monumento. Daí a ur- de a mais larga gama de manifestações sonoras humanas. Pode-se di-
gência de elaborar um novo saber capaz de transferir este documento/ zer que, desde que se organize em códigos comunicantes, a oralidade
monumento do campo da memória para o da ciência histórica. é o repertório dos sons humanos articulados e caracterizados pela exis-
SOBRE HISTÓRIA ORAL tência em sentido puro e precário. Deve-se notar a distinção entre orali-
dade e fontes orais. Apesar de ser comum a confusão entre as duas ma-
nifestações, elas são diferentes: a primeira não é gravada; a segunda
BOM MEIHY, J. C. S. Manual de História oral. São Paulo: Ed. Loyola, 2002. p. 13-19. só é “fonte” porque foi registrada mecanicamente. Fontes orais são as
diversas manifestações sonoras, gravadas, decorrentes da voz humana
É difícil definir história oral em poucas palavras, pois essa prática, e que se destinam a algum tipo de registro passível de arquivamento ou
além de nova, é bastante dinâmica e criativa, o que torna provisória de estudos. As fontes orais são sempre decorrentes de projetos de gra-
qualquer conceituação. Pode-se, no nível material, considerar que his- vação, como bancos de entrevistas ou pesquisas dirigidas. [...].
tória oral consiste em gravações premeditadas de narrativas pessoais, [...] Documentação oral é mais que fonte oral ou que história oral;
feita diretamente de pessoa a pessoa, em fitas de vídeo. Tudo prescrito é todo e qualquer recurso que guarda vestígios de manifestações de
pela existência de um projeto. oralidade. Entrevistas esporádicas, gravações de músicas, registros so-
História oral é um recurso moderno usado para a elaboração de do- noros de ruídos, absolutamente tudo que é gravado e preservado se
cumentos, arquivamento e estudos referentes à experiência social de constitui em documento ou fonte oral. Portanto, no âmbito dessas ma-
pessoas e de grupos. Ela é sempre uma história do tempo presente e nifestações, história oral é um procedimento mais específico e, sobre-
também reconhecida como história viva. A História oral é uma prática tudo, programado; é o resultado de entrevistas indicadas em projetos

XXXIV HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


previamente existentes. Por outro lado, muito do que é verbalizado ou cos que devem ter origem em várias Ciências Humanas, como a sociolo-
integrado à oralidade, como o gesto, a lágrima, o riso ou as expressões gia, a antropologia, a crítica literária, a comunicação social, os estudos
faciais – na maioria das vezes sem registros verbais garantidos em gra- culturais como um todo. [...]
vações – pode integrar os discursos que devem ser trabalhados para [...] A questão metodológica central, que vem emergindo dos deba-
dar sentido ao que foi expresso numa entrevista oral. Muitos autores tes, é problematizar a música popular, e particularmente a canção, a
usam fontes orais integradas às histórias orais. Isso, aliás, é bastante partir de várias perspectivas, de maneira a analisar “como” se articu-
comum nos casos de projetos que envolvam músicos e folcloristas, que lam na canção – musical e poeticamente – as tradições, identidades
sempre se valem de exemplos consagrados na transmissão oral. Nes- e ideologias que a definem, para além das implicações estéticas mais
sas alternativas, pessoas narram suas vidas e contam como algumas abstratas, como um objeto sociocultural complexo e multifacetado [...]
tradições musicais integraram suas histórias pessoais. [...] [...] Neste sentido, é fundamental a articulação entre “texto” e “con-
[...] A literatura oral é outra manifestação eloquente das fontes orais, texto” para que a análise não se veja reduzida, reduzindo a própria
compreendendo-se por literatura oral todas as narrativas transmitidas importância do objeto analisado. O grande desafio de todo pesqui-
oralmente e com estrutura de conto, poesia, “causos” não escritos e sador em música popular é mapear as camadas de sentido embuti-
mantidos na tradição popular; esse manancial constitui a base da or- das numa obra musical, bem como suas formas de inserção na so-
ganização cultural de um grupo que, sem isso, não teria garantida sua ciedade e na história, evitando, ao mesmo tempo, as simplificações
identidade. No caso da literatura ora propriamente dita, convém des- e mecanicismos analíticos que podem deturpar a natureza polissêmi-
tacar no Brasil o significado do cordel – os poemas chamados de “his- ca (que possui vários sentidos) e complexa de qualquer documento
tórias” ou “romances” conforme seu conteúdo político ou de caso de de natureza estética. Portanto, o historiador, mesmo não sendo um
amor – como manifestação da poesia popular [...] musicólogo, deve enfrentar o problema da linguagem constituinte do
[...] Ainda que alguns bons trabalhos de história oral tenham deriva- “documento” musical e, ao mesmo tempo, “criar seus próprios crité-
do de experiências clínicas, as entrevistas de consultórios de psicólo- rios, balizas e limites na manipulação da documentação”. No campo
gos ou de psiquiatras em si só valem como motivos para a história oral da história, duas abordagens têm sido comuns, em torno do tema da
quando se enquadram em projetos [...] música (popular): ou uma importação, nem sempre bem-sucedida, de
modelos teóricos ou o “primado do objeto”, muitas vezes um eufemis-
SOBRE MÚSICA mo para uma abordagem puramente descritiva da obra, do contexto
ou da biografia dos autores [...]
NAPOLITANO, M. História e música: história cultural da música popular. Belo
[...] O pesquisador deve levar em conta a estrutura geral da canção,
Horizonte: Autêntica, 2002. p. 7-80.
que envolve elementos de natureza diversa e que devem ser articula-
A música, sobretudo a chamada “música popular”, ocupa no Brasil dos ao longo da análise. Basicamente, estes elementos se dividem em
um lugar privilegiado na história sociocultural, lugar de mediações, fu- dois parâmetros básicos, que separamos apenas para fins didáticos, já
sões, encontros de diversas etnias, classes e regiões que formam o nos- que na experiência estética da canção eles formam uma unidade. São
so grande mosaico nacional. Além disso, a música tem sido, ao menos eles: 1) os parâmetros verbo-poéticos: os motivos, as categorias simbó-
em boa parte do século XX, a tradutora dos nossos dilemas nacionais licas, as figuras de linguagem, os procedimentos poéticos e 2) os parâ-
e veículo de nossas utopias sociais. Para completar, ela conseguiu, ao metros musicais de criação (harmonia, melodia, ritmo) e interpretação
menos nos últimos quarenta anos, atingir um grau de reconhecimento (arranjo, coloração, timbrística, vocalização etc.). Na perspectiva histó-
cultural que encontra poucos paralelos no mundo ocidental. Portanto, rica, essa estrutura é perpassada por tensões internas, na medida em
arrisco dizer que o Brasil, sem dúvida uma das grandes usinas sonoras que toda obra de arte é produto do encontro de diversas influências,
do planeta, é um lugar privilegiado não apenas para ouvir música, mas tradições históricas e culturais, que encontram uma solução provisória
também para pensar a música. Não só a música brasileira, no sentido na forma de gêneros, estilos, linguagens, enfim, na estrutura da obra de
estrito, mas a partir de uma mirada local, é possível pensar ou repensar arte. Na canção, a sua “dupla natureza” verbal e musical acirra o cará-
o mapa-múndi da música ocidental, sobretudo este objeto-não-identi- ter instável do equilíbrio estrutural da obra (seja uma canção ou mesmo
ficado chamado de “música popular”. [...] uma peça instrumental). [...]
[...] Chegamos num momento, nesta virada de século, em que não se [...] O ponto de partida de qualquer análise é o resultado geral de
podem mais reproduzir certos vícios de abordagem da música popular, uma estrutura poético-musical (no caso da canção) que chega até os
sob o risco de não ser integrado ao debate nacional e internacional. Em nossos ouvidos pronta e acabada, bem ou mal resolvida, mais ou me-
minha opinião, esses vícios podem ser resumidos na operação analí- nos complexa, pouco ou muito bem articulada em suas diversas par-
tica, ainda presente em alguns trabalhos, que fragmenta este objeto tes. Cabe ao pesquisador tentar perceber as várias partes que com-
sociológica e culturalmente complexo, analisando “letra” separada de põem a estrutura, sem superdimensionar um ou outro parâmetro. Foi
“música”, “contexto” separado da “obra”, “autor” separado da “socie- muito comum, até o passado recente, a abordagem da música popu-
dade”, “estética” separada da “ideologia”. [...] lar centralizada unicamente nas “letras” das canções, levando a con-
[...] Minha perspectiva aponta para a necessidade de compreender- clusões problemáticas e generalizando aspectos parciais das obras e
mos as várias manifestações e estilos musicais dentro de sua época, da seus significados. [...]
cena musical na qual estão inseridos, sem consagrar e reproduzir hie- [...] Se numa primeira abordagem é lícito separar os eixos verbal e
rarquias de valores herdadas ou transformar o gosto pessoal em medi- musical, para fins didáticos, procedimento comum e até válido, deve-se
da para a crítica histórica. [...] ter em mente que as conclusões serão tão mais parciais quanto menos
[...] A música, e os próprios musicólogos o reconhecem, torna-se tan- integrados estiverem os vários elementos que formam uma canção ao
to mais compreensível quanto mais forem os focos de luz sobre ela. Fo- longo da análise [...]

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano XXXV


SOBRE LEITURA E LEITORES listas de subscrição não proporcionam uma visão acurada do leitor. Dei-
xavam de lado os nomes de muitos subscritores, incluíam outros que atu-
DARNTON, R. “História da leitura”. In: BURKE, Perter (Org.). A escrita da História. avam como patronos e não como leitores, e normalmente representavam
São Paulo: Editora da Unesp, 1991. p. 203-211. mais a venda de alguns empresários do que os hábitos de leitura do pú-
blico educado, segundo uma crítica um tanto devastadora que Reinhard
[...] Em suma, seria possível desenvolver uma história e também uma
Wittmann dirigiu contra a pesquisa das listas de subscrição.[...]
teoria da reação do leitor. Possível, mas não fácil; pois os documentos ra-
[...] Os registros das bibliotecas de empréstimo oferecem uma oportu-
ramente mostram os leitores em atividade, moldando o significado a par-
nidade melhor para se fazerem conexões entre os gêneros literários e as
tir dos textos, e os documentos são, eles próprios, textos, o que também
classes sociais, mas poucos deles sobrevivem. [...] Os microanalistas fize-
requer interpretação. Poucos deles são ricos o bastante para propiciar
ram muitas outras descobertas – tantas, de fato, que se defrontam com
um acesso, ainda que indireto, aos elementos cognitivos e afetivos da lei-
o mesmo problema dos macroquantificadores: como reuni-las? A dispa-
tura, e alguns poucos casos excepcionais podem não ser suficientes para
ridade da documentação – catálogos de leilão, registros notariais, listas
se reconstruírem as dimensões interiores dessa experiência. Mas os his-
de subscrição, registros de bibliotecas – não tornam a tarefa mais fácil. As
toriadores do livro sempre exibiram uma grande quantidade de informa-
diferenças nas conclusões podem ser atribuídas mais às peculiaridades
ção sobre a história externa da leitura. Tendo estudado a leitura como um
das fontes que ao comportamento dos leitores [...]
fenômeno social, podem responder a muitas das perguntas de “quem”,
[...] Assim, já sabemos bastante sobre as bases institucionais da leitura.
“o que”, “onde” e “quando”, o que pode ser de grande ajuda na aborda-
Temos algumas respostas para as perguntas de “quem”, “o quê”, “onde”
gem dos mais difíceis “por quês” e “comos”.
e “quando”. Mas os “por quês” e os “comos” nos escapam. Ainda não
O estudo de quem lê o quê em diferentes épocas recai em dois tipos
descobrimos uma estratégia para o entendimento do processo interno,
principais: o macro e o microanalítico. A macroanálise floresceu acima de
através do qual os leitores compreendem as palavras. Nem mesmo en-
tudo na França, onde se nutre de uma poderosa tradição de história so-
tendemos a maneira como nós mesmos lemos, apesar dos esforços dos
cial quantitativa. Henri-Jean Martin, François Furet, Robert Estivals e Fré-
psicólogos e neurologistas para traçarem os movimentos dos olhos e ma-
déric Barbier traçaram a evolução dos hábitos de leitura desde o século
pearem os hemisférios do cérebro. [...] Em primeiro lugar, creio que seria
dezesseis até os dias de hoje, utilizando séries de longo prazo, construí-
possível aprender mais sobre os ideais e as suposições subjacentes à lei-
das a partir do dépôt legal, dos registros de direitos do livro e da publica-
tura no passado. Poderíamos estudar as descrições contemporâneas da
ção anual da Bibliographie de la France. [...]
leitura na ficção, em autobiografias, escritos polêmicos, cartas, pinturas e
[...] Toda essa compilação e computação proporcionaram algumas
gravuras para descobrir algumas noções básicas daquilo que as pessoas
orientações para os hábitos de leitura, mas as generalizações parecem
imaginavam ocorrer quando liam [...].
às vezes amplas demais para serem satisfatórias. A novela, como a bur-
guesia, parece sempre estar em ascensão; e os gráficos caem nos pon- SOBRE PERIÓDICOS
tos esperados – mais especialmente durante a Guerra dos Sete Anos na
feira de Leipzig, e durante a Primeira Guerra Mundial na França. A maior CAPELATO, M. H. R. Imprensa e História do Brasil. São Paulo: Contexto, 1988.
parte dos quantificadores classifica suas estatísticas em categorias va- p. 13-35.
gas como “arte e ciências” e belles-lettres, que são inadequadas para se
identificarem fenômenos particulares como a Controvérsia da Sucessão, É fascinante ler a história do Brasil através dos jornais. Em cada pá-
o Jansenismo, o Iluminismo ou o Renascimento Gótico – exatamente os gina nos deparamos com aspectos significativos da vida de nossos an-
temas que atraíram mais atenção entre os estudiosos de literatura e os tecessores, que permitem recuperar suas lutas, ideais, compromissos e
historiadores culturais. A história quantitativa dos livros precisará refinar interesses. Manancial dos mais férteis para o conhecimento do passa-
suas categorias e aguçar seu foco, antes de provocar um impacto impor- do, a imprensa possibilita ao historiador acompanhar o percurso dos
tante nas correntes tradicionais da erudição. [...] homens através dos tempos. O periódico, antes considerado fonte sus-
[...] Apesar de toda a sua variedade e ocasionais contradições, os estu- peita e de pouca importância, já é reconhecido como material de pes-
dos microanalíticos sugerem algumas conclusões gerais, algo semelhan- quisa valioso para o estudo de uma época. A imprensa registra, comen-
te à “desmistificação do mundo” de Max Weber. Mas isso pode parecer ta e participa da história. Através dela se trava uma constante batalha
por demais cósmico para servir de consolo. Aqueles que preferem a pre- pela conquista dos corações e mentes – essa expressão de Clóvis Ros-
cisão podem recorrer à microanálise, embora essa em geral se dirija ao si define bem a atividade jornalística. Compete ao leitor reconstituir os
extremo oposto – o excesso de detalhes. Podemos apresentar centenas lances e peripécias dessa batalha cotidiana na qual se envolvem múl-
de listas de livros nas bibliotecas, desde a Idade Média até nossos dias, tiplas personagens.
mais do que qualquer um poderia conseguir ler. Mas a maioria de nós Desde os seus primórdios, a imprensa se impôs como uma força
concorda que um catálogo de uma biblioteca particular pode servir como política. Os governos e os poderosos sempre a utilizam e temem; por
um perfil do leitor, ainda que não tenhamos lido todos os livros que nos isso adulam, vigiam, controlam e punem os jornais. Os que manejam
pertencem e tenhamos lido muitos livros que nunca adquirimos. Esqua- a arma-jornal têm uma variada gama de opções entre o domínio das
drinhar o catálogo da biblioteca de Monticello é inspecionar as provisões consciências e a liberdade; os alvos que procuram atingir são defini-
da mente de Jefferson. E o estudo das bibliotecas particulares tem a van- dos antes da luta, mas o próprio movimento da história os leva a mu-
tagem de unir o “o quê” com o “quem” da leitura. [...] dar de rumo.
[...] Ele deve, por isso, buscar outras fontes. As listas de subscrição têm Acompanhar a trajetória sinuosa dos sujeitos da produção jornalísti-
sido as preferidas, embora em geral cubram apenas os leitores abasta- ca é tarefa complexa. Para compreender a participação de um jornal na
dos. [...] Mas mesmo durante sua Blütezeit [período de florescimento], as história, o pesquisador faz, de início, algumas indagações: quem são

XXXVI HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


seus proprietários? A quem se dirige? Com que objetivos e quais os re- SOBRE OBRAS DE ARTE
cursos utilizados na batalha pela conquista de corações e mentes? Com
esses dados preliminares é possível delinear um perfil provisório do pe- PANOFSKY, E. Estudos sobre iconologia. 2. ed. Trad. Lisboa: Estampa, 1995.
riódico eleito como objeto/fonte de estudo. O primeiro levantamento p. 19-23.
fornece pistas para definir os caminhos a serem investigados.
O uso do jornal como fonte histórica implica dificuldades de tal or- A Iconografia é o ramo da História da Arte que trata do conteúdo temá-
dem, que historiadores do passado chegaram a se desencorajar. Hoje, tico ou significado das obras de arte, enquanto algo de diferente da sua
muitos enfrentam o desafio obtendo resultados altamente compensa- forma. Tentemos, pois, definir a diferença entre conteúdo temático ou
tórios. Nas últimas décadas, observa-se, no Brasil, um crescente inte- significado e forma [...]
resse com relação a esse tipo de documento. Ao repensarem o seu ob- 1. Conteúdo Temático Natural ou Primário,
jeto, os historiadores vencem os receios e preconceitos, passando a subdividido em Factual e Expressivo
reconhecer a importância da imprensa nos estudos históricos. Várias É apreendido pela identificação de formas puras, ou seja, certas con-
pesquisas têm sido realizadas nesse campo, mas o terreno começa figurações de linha e cor, ou certas massas de bronze ou pedra de forma
apenas a ser desbravado, necessitando ainda de muitas outras contri- característica, de representações de objetos naturais tais como seres hu-
buições para que se torne fértil. manos, animais, plantas, casas, instrumentos etc.; identificando as suas
[...] A reconstituição das lutas políticas e sociais através da imprensa tem relações mútuas como fatos; e percebendo as qualidades expressivas,
sido o alvo de muitas das pesquisas recentes. Nos vários tipos de periódi- como o caráter triste duma pose ou dum gesto, ou a atmosfera doméstica
cos e até mesmo em cada um deles encontramos projetos políticos e vi- e pacífica dum interior. O mundo das formas puras, reconhecidas como
sões de mundo representativos de vários setores da sociedade. A leitura portadoras de significados primários ou naturais, pode ser chamado o
dos discursos expressos nos jornais permite acompanhar o movimento das mundo dos motivos artísticos. Uma enumeração destes motivos consti-
ideias que circulam na época. A análise do ideário e da prática política dos tuiria uma descrição pré-iconográfica da obra de arte.
representantes da imprensa revela a complexidade da luta social. Grupos
se aproximam e se distanciam segundo as conveniências do momento; 2. Conteúdo Secundário ou Convencional
seus projetos se interpenetram, se mesclam e são matizados. Os conflitos Percebemo-lo quando verificamos que uma figura masculina com uma
desencadeados para a efetivação dos diferentes projetos se inserem numa faca representa S. Bartolomeu, que uma figura feminina com um pêssego
luta mais ampla que perpassa a sociedade por inteiro. O confronto das fa- na mão é o símbolo da Verdade, que um grupo de figuras sentadas a uma
las, que exprimem ideias e práticas, permite ao pesquisador captar, com mesa numa determinada combinação e numa certa atitude representam
riqueza de detalhes, o significado da atuação de diferentes grupos que se a Última Ceia, ou que duas figuras lutando representam o Combate do Ví-
orientam por interesses específicos. cio e da Virtude. Ao fazê-lo, relacionamos motivos artísticos e combina-
Há muitas maneiras de se estudar a história das ideias políticas e so- ções de motivos artísticos (composições) com temas e conceitos. Aos
ciais através da imprensa. Alguns autores utilizam a linguística na análise motivos, assim reconhecidos como portadores dum significado secun-
da ideologia; outros se preocupam com a identificação das matrizes das dário ou convencional, podemos chamar imagens e as combinações de
ideias, procurando compreender os pressupostos dos projetos políticos imagem são aquilo a que os antigos teóricos da arte chamavam inven-
veiculados nos jornais; alguns escolhem a imprensa como fonte primor- zioni e nós chamamos de histórias e alegorias.
dial para esse tipo de investigação, e há também os que dela se servem A identificação de tais imagens, histórias e alegorias pertence ao cam-
como fonte complementar para o estudo de um determinado tema. po da iconografia no sentido mais restrito da palavra. Na realidade, quando
Os pesquisadores que se dedicam às análises político-ideológicas falamos vagamente de “conteúdo temático como oposto a forma, “referi-
privilegiam os editoriais e artigos que constituem, por excelência, a par- mo-nos especialmente à esfera do conteúdo secundário ou convencio-
te opinativa do jornal. Com isto não quero dizer que a opinião só se nal, isto é, ao mundo dos temas e conceitos específicos que se manifes-
expressa nesses espaços; ela se manifesta também no noticiário e até ta através de imagens, histórias e alegorias, por oposição à esfera do
mesmo na forma pela qual o periódico se apresenta. conteúdo do primário ou natural que se manifesta em motivos artísticos. A
Os jornais oferecem vasto material para o estudo da vida cotidiana. “análise formal”, no sentido em que usava Wölfflin, é sobretudo uma aná-
Os costumes e as práticas sociais, o folclore, enfim, todos os aspectos lise de motivos e combinações de motivos (composições); para fazer uma
do dia a dia estão registrados em suas páginas. Neste tipo de aborda- análise formal, em sentido estrito, haveria inclusivamente que evitar ex-
gem, o pesquisador pode recorrer às colunas sociais, aos faits divers, pressões como “homem”, “cavalo”, ou “coluna”, já para não falar de ava-
às ilustrações, às caricaturas e às diferentes seções de entretenimento. liações tais como “o feio triângulo formado pelo espaço entre as pernas
O noticiário tem grande importância para as investigações históricas. É do David de Miguel Ângelo”, ou “a admirável clareza das articulações dum
utilizado nas análises econômicas, nos estudos sobre as condições de corpo humano”. É evidente que uma análise iconográfica correta no seu
vida, relações e lutas sociais [...] sentido mais estrito implica uma identificação correta dos motivos. [...]
[...] O conceito de jornal como fonte suspeita merece revisão. A his-
toriografia mais recente tem refletido muito sobre o significado do do- 3. Significado Intrínseco ou Conteúdo
cumento e foi a partir de redefinições nesse campo que as “suspeitas” Percebemo-lo analisando os pressupostos que revelam a atitude bá-
contra a imprensa desapareceram [...] sica de uma nação, uma época, uma classe, uma crença religiosa ou fi-
[...] A imprensa oferece amplas possibilidades para isso. A vida co- losófica assumidos inconscientemente por um indivíduo e condensados
tidiana nela registrada em seus múltiplos aspectos, permite compre- numa obra. Desnecessário se torna dizer que essas normas de condu-
ender como viveram nossos antepassados – não só os “ilustres”, mas ta se exprimem e portanto se esclarecem pelos “métodos de composi-
também os sujeitos anônimos. ção” e pelo “significado iconográfico”. Por exemplo, nos séculos XIV e

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano XXXVII


XV (o exemplo mais antigo data de cerca de 1310) o tipo tradicional da incapazes de mudar. E, na verdade, é bem assim, uma vez que, por sua
Natividade, que mostra a Virgem Maria estendida numa espécie de lei- própria essência e finalidade, é no espaço real que esta arte se exerce,
to, começou a ser substituído frequentemente por um outro, que mostra aquele em que nos movemos e que é ocupado pela atividade do nos-
a Virgem ajoelhada em adoração perante o Menino. Do ponto de vista so corpo. Mas consideremos o modo pelo qual a arquitetura trabalha e
da composição, esta mudança significa, em termos gerais, a substituição pelo qual as formas se harmonizam para utilizar esse domínio e, talvez,
dum esquema triangular por um retangular; dum ponto de vista iconográ- para lhe dar uma nova feição. As três dimensões não são apenas o es-
fico, no sentido mais estrito da palavra, significa a introdução dum tema paço da arquitetura, são também a sua matéria, assim como o peso e
novo, formulado literariamente por escritores como o Pseudo-Boaventu- o equilíbrio. A relação que une essas dimensões em um edifício não é
ra e Santa Brígida. [...] nunca nem aleatória nem fixa. A ordem das proporções intervém no seu
A descoberta e a interpretação desses valores “simbólicos” (geral- tratamento, dando à forma a sua originalidade e modelando o espaço
mente ignorados pelo próprio artista e que inclusivamente podem ser segundo um cálculo das conveniências. A leitura da planta seguida do
muito diferentes daquilo a que o artista tencionava exprimir) é o obje- estudo da elevação dão apenas uma ideia muito insignificante dessas
to daquilo a que chamamos iconografia num sentido mais profundo: relações. Um edifício não é um conjunto de superfícies, mas um con-
um método de interpretação que surge mais como síntese do que como junto de partes cujo comprimento, largura e profundidade se harmoni-
análise. E como a identificação correta dos motivos é a condição prévia zam de um determinado modo e constituem um corpo sólido original,
para uma correta análise iconográfica no sentido mais estrito, a análi- que comporta um volume interno e uma massa externa. Sem dúvida,
se correta de imagens, histórias e alegorias é a condição prévia “duma a leitura de uma planta diz muito, faz conhecer o essencial do projeto
correta interpretação iconográfica num sentido mais profundo [...] e permite que a visão se exercite em apreender as principais soluções
em termos de construção. Uma memória que guarde informações pre-
SOBRE ARQUITETURA cisas e exemplos abundantes pode reconstituir teoricamente o edifício
a partir da projeção sobre o solo, e o ensino das escolas permite prever,
FOCILLON, H. Vida das formas. Trad. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1943. p. 38-47. para cada espécie de planta, todas as consequências possíveis na ter-
ceira dimensão, bem como ensina a melhor solução, a mais exemplar,
[...] O espaço é o lugar da obra de arte. Mas não é suficiente dizer que para uma determinada planta. Mas essa espécie de redução ou, se qui-
ela acontece nele. Ela o trata segundo as suas necessidades, define-o sermos, essa abreviação dos procedimentos de trabalho, não abrange
e mesmo o cria tal como necessita dele. O espaço onde a vida se mo- toda a arquitetura, antes a despoja do seu privilégio fundamental que
vimenta é um dado ao qual ela se submete, o espaço da arte é matéria é o de possuir um espaço completo, e não apenas como um objeto ma-
plástica e variável. Nós temos, talvez, uma certa dificuldade em admiti- ciço, mas como um molde vazio que impõe às três dimensões um novo
-lo, uma vez que estamos sob o império da perspectiva albertiana: mas valor. As noções de planta, de estrutura e de massa estão indissoluvel-
há várias outras, e a própria perspectiva racional, que constrói o espaço mente ligadas e é perigoso abstraí-las umas das outras. [...]
da arte como o espaço da vida, é, como veremos, mais móvel do que se [...] Mas é incontestável que as massas arquitetônicas são rigorosa-
costuma pensar habitualmente e capaz estranhos paradoxos e inven- mente estabelecidas de acordo com a relação das partes entre si e des-
ções. Precisamos fazer um esforço para admitir como tratamento legíti- sas com o todo. Além disso, um edifício é raramente uma massa única.
mo do espaço tudo o que escapa às suas leis. Além disso, a perspecti- Na maioria das vezes, ela é uma combinação de massas secundárias e
va só se aplica à representação de um objeto em três dimensões sobre de massas principais [...]
um plano, e isto é apenas um dos problemas dentro de uma série mui- [...] É que, se as proporções são necessárias à definição da massa,
to extensa de questões. Devemos observar, em primeiro lugar, que não não bastam para essa definição. Uma massa suporta mais ou menos
é possível examinar todas essas questões in abstracto e reduzi-las a ousadias, mais ou menos brechas, mais ou menos efeitos. Reduzida à
um certo número de soluções generalizadas que comandariam as apli- mais sóbria economia mural, adquire uma estabilidade considerável,
cações particulares. A forma não é indiferentemente arquitetura, escul- pesa fortemente sobre o seu pedestal, apresenta-se aos nossos olhos
tura ou pintura. Quaisquer que sejam as trocas entre técnicas, por mais como um sólido compacto. A luz a toma de maneira uniforme e como
decisiva que seja a autoridade de uma delas sobre as outras, a forma é, que de um só golpe. Ao contrário, a multiplicidade de focos de lumino-
antes de tudo, qualificada pelo domínio específico em que se exerce, e sidade a compromete e abala [...]. [...] Sob essas alternativas incessan-
não por um desígnio da inteligência; o mesmo acontece com o espaço tes, a arquitetura se agita, ondula e se desfaz. O espaço que pesa de
que ela exige e que compõe para si. [...] todos os lados sobre a integridade contínua das massas é imóvel como
[...] Fundo visível ou escondido, base que permanece aparente e es- elas. O espaço que penetra os vazios da massa e que se deixa invadir
tável entre os signos ou que se mistura às suas trocas, plano que se pelo crescimento dos seus relevos significa mobilidade. [...] A massa
mantém uno e fixo ou que ondula sob as figuras e se mistura às suas externa e a interna podem depender uma da outra, e há casos em que
correntes, trata-se sempre de um espaço construído ou destruído pela a composição externa nos faz perceber imediatamente a disposição de
forma, animado, moldado por ela. No entanto, como já observamos, seu conteúdo. Mas essa regra não é constante [...]
especular acerca do ornamento é especular acerca da força de abstra- [...] Mas é, talvez, na massa interna que está a originalidade profunda
ção e dos infinitos recursos da imaginação, e pode parecer por demais da arquitetura como tal. Ao dar uma forma definida a esse espaço va-
evidente que o espaço ornamental, com seus arquipélagos e o litoral zio, ela cria, verdadeiramente, o seu universo próprio. Sem dúvida, os
e os monstros de tais arquipélagos, não é propriamente espaço e se volumes externos e seus perfis fazem intervir um elemento novo e intei-
apresenta como a elaboração de dados arbitrários e variáveis. Parece ramente humano no horizonte das formas naturais, elemento esse que,
acontecer exatamente o oposto com relação às formas da arquitetura, por mais bem calculado para se harmonizar com elas, sempre acres-
submetidas da maneira mais passiva, mais estrita, a dados espaciais centa algo de inesperado [...]

XXXVIII HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


SOBRE FOTOGRAFIA 1. Comecemos pelos casos mais extremos. Como sugeriu Hine, “os menti-
rosos podem fotografar”. Eles podem retocar as fotos ou manipulá-las de
BURKE, P. “A arte de ler retratos”. São Paulo: Folha de S.Paulo, 29 de novembro outras maneiras montagem, por exemplo – para enganar o observador.
de 1998. Um caso famoso de manipulação é um filme feito pelos socialistas alemães
que “mostra” o kaiser Guilherme conversando com Krupp, o maior fabricante
Costumava-se dizer que “as câmeras não mentem”. De fato, um dos de armas da época, para demonstrar a ligação entre o capitalismo e o milita-
motivos do entusiasmo pela fotografia na época de sua invenção foi exa- rismo alemão na época da Primeira Guerra Mundial.
tamente a sua objetividade. No século XIX a fotografia era considerada o 2. Os fotógrafos que não desejam enganar os observadores podem en-
produto do “lápis da natureza”, pois os próprios objetos deixam traços na tretanto desejar incentivá-los a assumir certas posições. Por exemplo,
chapa fotográfica quando ela é exposta à luz, sem outras intervenções podem querer convencer o público a ver a guerra, ou uma determina-
da parte do fotógrafo. da guerra, como gloriosa, enfatizando a coragem e as vitórias, ou ter-
Desde aquela época, a objetividade da fotografia tem sido muito criti- rível, mostrando crianças vietnamitas nuas fugindo de um ataque de
cada. Lewis Hine, um norte-americano famoso por sua “fotografia social” napalm. Ou podem estar envolvidos num projeto de “conscientização”
de trabalhadores, imigrantes e cortiços, disse que, “embora as fotografias do público sobre determinados problemas sociais.
não possam mentir, os mentirosos podem fotografar”. Mas a ilusão de ver o O próprio Hine, como seus contemporâneos Dorothea Lange e Margaret Bour-
mundo diretamente quando se olha para fotografias – o “efeito realidade”, ke-White, fez “fotografias sociais” como publicidade para campanhas de reforma
como o chamou Roland Barthes (1915-1980) – continua difícil de evitar. social. Os três fotógrafos trabalharam para instituições que tentavam mudar a so-
Esse efeito, parte do que Barthes chamou de “retórica da imagem”, é explo- ciedade, como a Charity Organisation Society, o National Child Labour Committee
rado nas imagens de fatos recentes que aparecem nos jornais e na televi- e a California State Emergency Relief Administration. Daí a sua ênfase ou o seu
são e é particularmente vívido no caso de antigas fotos de ruas das cidades. “enfoque” nos acidentes de trabalho, na vida nos cortiços, no sofrimento das mães
Quando essas fotos são ampliadas, como no caso de algumas foto- e nos olhos mortiços de crianças que trabalharam demais e comeram de menos.
grafias de São Paulo exibidas numa mostra na avenida Paulista alguns 3. Os fotógrafos que não desejam enganar os espectadores ou induzi-los
anos atrás ou como as fotos da cidade feitas por Claude Lévi-Strauss nos a determinadas conclusões ainda podem intervir nas cenas sociais
anos [19]30 e expostas há alguns meses, é difícil resistir à sensação de que desejam registrar, arranjando-as para que pareçam mais autênti-
que estamos realmente parados no lugar onde o fotógrafo esteve e que cas. Na Inglaterra vitoriana, um fotógrafo de crianças de rua contratou
podemos entrar na fotografia e caminhar pela rua no passado. Um dos um menino para se vestir com farrapos e sujou seu rosto com fuligem
motivos para a dificuldade de nos afastarmos desse efeito de realidade para torná-lo mais “autêntico”. Sabe-se que alguns fotojornalistas que
é sem dúvida a “cultura do instantâneo”: nossa prática cotidiana de tirar chegaram a campos de batalha depois da remoção dos mortos pedi-
fotografias da vida, registrando a história de nossa família e de amigos e ram a soldados vivos que se deitassem e se fingissem de cadáveres,
como no caso da mais famosa foto da batalha de Gettysburg, na Guer-
também, é claro, moldando nossas lembranças dessa história.
ra Civil dos EUA. No mínimo, eles dizem às pessoas onde se colocar e
Então por que não devemos confiar nos fotógrafos? Afinal, os tribunais
se devem ou não fazer gestos.
consideram as fotos e os vídeos provas cabais de furto, assassinato ou vio-
4. Amadores e profissionais que não arranjam as cenas que fotografam
lência policial (como no notório caso em Los Angeles alguns anos atrás).
também podem ser influenciados – consciente ou inconscientemen-
O escritor francês Paul Valéry (1871-1945) sugeriu que nossos pró-
te – por suas lembranças de outras fotografias ou mesmo de quadros,
prios critérios de veracidade histórica passaram a incluir a pergunta: “Po-
seja na escolha de temas ou de ângulos. Por exemplo, já se cogitou
deria tal fato, assim como é narrado, ter sido fotografado?”. Ele não teria
que as fotografias do século XIX dos engenhos do Recife são reminis-
ficado surpreso ao saber que os historiadores estão cada vez mais cons-
centes dos quadros de Frans Post (1612-1680), enquanto as imagens
cientes de que as fotografias, pinturas, filmes e outras imagens podem
da vida rural na Inglaterra do século XIX foram influenciadas por pintu-
ajudá-los em suas tentativas de reconstrução do passado. ras holandesas do século XVII, muito populares entre a classe média
Por exemplo, um historiador norte-americano do Brasil, Robert Levine, vitoriana. Esses são apenas dois exemplos entre vários possíveis de
publicou vários livros de fotografias com comentários sobre sua possível como as imagens podem influenciar o modo como todos nós perce-
utilidade para escrever história social. Outros, como Robert Rosenstone, bemos a realidade. Uma lembrança dessa influência é a palavra “pito-
defendem a “escrita” da história por meio da realização de filmes, o que foi resco”, originalmente empregada para significar que certas paisagens
chamado de “historiofotia”, substituindo ou se aliando à “historiografia”. ou cenas da vida social eram tão bonitas ou interessantes quanto uma
Alguns estudiosos defendem com entusiasmo essa tendência, en- pintura. Ainda esperamos que o mundo real se assemelhe a determi-
quanto outros a rejeitam, alegando que a câmera não é confiável. Nesse nadas fotografias, como as praias nos folhetos turísticos, sempre enso-
debate, minha opinião é que o uso crescente de fotografias e outras ima- laradas e limpas e nunca apinhadas de gente.
gens como fontes históricas pode enriquecer muito nosso conhecimen- 5. No caso dos chamados “documentários”, precisamos de uma crítica
to e nossa compreensão do passado, desde que possamos desenvolver da narrativa visual assim como das fotografias individuais, examinan-
técnicas de “crítica da fonte” semelhantes às que foram desenvolvidas há do por que o filme começou e terminou com determinadas imagens,
muito tempo para avaliar depoimentos escritos. por exemplo, e prestando atenção aos padrões de justaposição, repe-
Como já notou o crítico inglês John Ruskin no século XIX, o depoimento tições, contrastes e – não menos importantes – omissões.
de fotografias, assim como o de testemunhas no tribunal, “é muito útil se Para não sermos enganados por fotografias, sejam fixas ou móveis, precisamos
soubermos fazer um exame cruzado”. Enquanto aguardamos a elaboração – assim como no caso dos textos prestar atenção à mensagem e ao remeten-
de uma crítica sistemática das evidências fotográficas e cinemáticas, vale a te, perguntando quem está tentando nos dizer o quê e por que motivos. Numa
pena lembrar cinco pontos, não apenas aos historiadores, mas a qualquer sociedade como a nossa, saturada de imagens, as escolas poderiam dar uma
pessoa tentada a ver nas fotografias registros precisos do passado. grande contribuição à democracia e à responsabilidade cívica ensinando aos

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano XXXIX


estudantes uma espécie de “crítica da imagem”, revelando as técnicas das comércio, declarações ministeriais, ordens operacionais, discursos. Além
agências de publicidade e de fotojornalismo e as intenções das instituições do mais, como confiar nos jornais cinematográficos, quando todo mundo
que as contratam. sabe que essas imagens, essa pseudorrepresentação da realidade, são
escolhidas, transformáveis, já que são reunidas por uma montagem não
SOBRE CINEMA controlável, por um truque, uma trucagem. O historiador não poderia se
apoiar em documentos dessa natureza. Todos sabem que ele trabalha
FERRO, M. Cinema e História. Trad. São Paulo: Paz e Terra, 1992. p. 79-87. numa redoma de vidro: “Aqui estão minhas referências, aqui estão mi-
nhas provas” [...]
[...] Seria o filme um documento indesejável para o historiador? Muito [...] [O filme] está sendo observado não como uma obra de arte, mas
em breve centenário, mas ignorado, ele não é considerado nem sequer sim como um produto, uma imagem-objeto, cujas significações não são
entre as fontes mais desprezíveis. O filme não faz parte do universo men- somente cinematográficas. Ele não vale somente por aquilo que testemu-
tal do historiador. nha, mas também pela abordagem sócio-histórica que autoriza.
Na verdade, o cinema ainda não era nascido quando a história se cons- A análise não incide necessariamente sobre a obra em sua totalidade:
tituiu, aperfeiçoou seus métodos, parou de narrar para explicar. A “lin- ela pode se apoiar sobre extratos, pesquisar “séries”, compor conjuntos. E
guagem” do cinema revela-se ininteligível e, como a dos sonhos, é de a crítica também não se limita ao filme, ela se integra ao mundo que o ro-
interpretação incerta. Mas essa explicação não é satisfatória para quem deia e com o qual se comunica, necessariamente. Nessas condições, não
conhece o infatigável ardor dos historiadores, obcecados por descobrir seria suficiente empreender a análise de filmes, de trechos de filmes, de
novos domínios, sua capacidade de fazer falar até troncos de árvores, planos, de temas, levando em conta, segundo a necessidade, o saber e a
velhos esqueletos, e sua aptidão para considerar como essencial aquilo abordagem das diferentes ciências humanas. É preciso aplicar esses mé-
que até então julgavam desinteressante. todos a cada um dos substratos do filme (imagens, imagens sonorizadas,
No que diz respeito ao filme e outras fontes não escritas, creio que não não sonorizadas), às relações entre os componentes desses substratos;
se trata nem de incapacidade nem de retardamento, mas sim de uma re- analisar no filme tanto a narrativa quanto o cenário, a escritura, as relações
cusa em enxergar, uma recusa inconsciente, que procede de causas mais do filme com aquilo que não é filme: o autor, a produção, o público, a críti-
complexas. Fazer o exame de quais “monumentos do passado” o histo- ca, o regime de governo. Só assim se pode chegar à compreensão não ape-
riador transformou em documentos e depois, hoje, que “documentos a nas da obra, mas também da realidade que ela representa [...]
história transformou em monumentos”, levaria a uma primeira forma de
SOBRE MAPAS E CARTOGRAFIA
compreender e ver por que o filme não aparece [...]
[...] Um outro fato se verifica nas histórias da História. O historiador es-
GOMES, M. do C. A. “Velhos mapas, novas leituras: revisitando a História da
colheu esse ou aquele conjunto de fontes, adotou esse ou aquele méto- cartografia”. In: GEOUSP. Espaço e Tempo. São Paulo, n. 16, 2004. p. 68-76.
do de acordo com a natureza de sua missão, de sua época, trocando-os
como um combatente troca de arma ou tática quando aquelas que utili-
zava perdem sua eficácia [...]. I – A constituição da história da cartografia como disciplina
[...] Nessa época, as fontes utilizadas pelo historiador consagrado for- O geógrafo inglês J. Brian HARLEY (1987), um dos teóricos que mais
mam um corpo que é tão cuidadosamente hierarquizado quanto a socie- influenciaram o processo renovador da história da cartografia (HC), em
dade à qual ele destina sua obra. Como essa sociedade, os documentos um dos seus ensaios seminais, mostrou como esse campo disciplinar
estão divididos em categorias, entre as quais distinguimos sem dificul- consolidou-se ao longo do século XIX, quando se intensificou o inte-
dades os privilegiados, os desclassificados, os plebeus, o lumpen. Como resse pela pesquisa dos mapas antigos, enquanto uma arena distinta
escreveu Benedetto Croce, “a história é sempre contemporânea”. Ora, no da cartografia contemporânea. Segundo esse autor, o impulso principal
início do século XX essa hierarquia reflete as relações de poder: à frente desse movimento crescente, especialmente após 1850, decorreu da
do cortejo vão, prestigiosos, os Arquivos do Estado, com manuscritos ou emergência e institucionalização da Geografia enquanto ciência, alia-
impressos, documentos únicos, expressão de seu poder, do poder das do ao crescimento dos acervos cartográficos das nações em formação
Casas, parlamentos e tribunais de contas. Em seguida vem a legião dos e ao desenvolvimento, na Europa e nos Estados Unidos, de um merca-
impressos que não são secretos: inicialmente textos jurídicos e legislati- do antiquário de mapas.
vos, expressão do poder, e a seguir jornais e publicações que não ema- O desenvolvimento da Geografia e o surgimento das bibliotecas espe-
nam somente dele, mas da sociedade cultivada inteira. As biografias, as cializadas em mapas antigos, favoreceram a infraestrutura institucional
fontes da história local, os relatos dos viajantes formam a parte de trás do para o estudo histórico da cartografia, enquanto que os colecionadores
cortejo: quando levados em consideração, esses testemunhos ocupam privados e o comércio de antiquários contribuíram na pesquisa e na es-
uma posição mais modesta na elaboração da tese [...] crita da HC, ainda que marcada pela ênfase excessiva na apreciação ar-
[...] Além do mais, no início do século XX, o que é o cinematógrafo para tística dos mapas, especialmente da Renascença.
os espíritos superiores, para as pessoas cultivadas? “Uma máquina de Esses fatores condicionaram os objetivos e métodos da HC e molda-
idiotização e de dissolução, um passatempo de iletrados, de criaturas ram parte essencial da tradição acadêmica da disciplina, até meados do
miseráveis exploradas por seu trabalho”. O cardeal, o deputado, o gene- século XX. Considerada como um campo auxiliar da história da Geogra-
ral, o notário, o professor, o magistrado compartilham desse julgamen- fia, a qual, por sua vez, compreendia basicamente a história dos desco-
to de Georges Duhamel. Eles não frequentam esse “espetáculo de pá- brimentos e das explorações, a HC tradicional permaneceu marcada por
rias” [...]. Sem pai nem mãe, órfã, prostituindo-se em meio ao povo, a essa origem, e epistemologicamente condicionada pela ideia de que de-
imagem não poderia ser uma companheira dessas grandes personagens veria servir primeiramente para tornar os documentos cartográficos aces-
que constituem a sociedade do historiador: artigos de leis, tratados de síveis a outros domínios do conhecimento. [...]

XL HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


II – Balizas do processo de renovação: ideias, livros, eventos e para compreender como o poder opera através do discurso cartográfico,
personagens e os efeitos desse poder na sociedade.
Com um profundo questionamento do conceito e do estatuto de objetivi-
II.3 – Comemoração e reflexão
dade dos mapas, o processo de renovação, ou mais propriamente, o alarga-
Dois importantes programas comemorativos de eventos históricos fo-
mento dos horizontes teóricos e metodológicos da HC, pode ser claramente
ram também determinantes no estímulo às novas produções e reflexões
observado entre as décadas de 1980 e 1990, com ricos desdobramentos
ligadas ao tema: o bicentenário da revolução francesa em 1989 e os 500
no momento atual. Como todo movimento ligado ao trânsito das ideias,
anos da descoberta da América, em 1992 [...]
muitos fatores contribuíram para seu impulso e desenvolvimento.
Em artigo publicado à época, Harley e Woodward propuseram mais re-
II.1 – Projetos institucionais abrem os caminhos flexão e menos comemoração, conduzindo sua análise da cartografia das
Como marcos cronológicos iniciais, podemos identificar duas obras mo- descobertas e da colonização em direção a um explícito manifesto polí-
numentais que, mesmo em suas diferenças, foram igualmente férteis na tico: [...] ao mesmo tempo em que inventariava os lugares descobertos
proposição de caminhos: de um lado, a exposição cartográfica promovi- pelos europeus e identificava as terras para a evangelização, o espaço
da pelo Centro Georges Pompidou e seu respectivo catálogo, denominado coordenado dos novos mapas era instrumental na apropriação simbóli-
Cartes et figures de la Terre, publicado na França em 1980; de outro, o ca do território dos nativos americanos. Reconhecendo os povos indíge-
projeto enciclopédico iniciado em 1982 na Universidade de Chicago, sob nas como vítimas da cartografia europeia nós também reinstauramos sua
o título The History of Cartography Project. A iniciativa francesa – exposi- contribuição nos registros cartográficos da história americana [...]
ção e publicação – reuniu uma constelação de pesquisadores para analisar Toda a HC desenvolvida nos EUA nos anos noventa seria profunda-
os mapas nos seus mais diversos ângulos [...] Tanto a exposição, como o mente marcada por essa ótica pós-colonialista.
catálogo, buscaram exprimir a diversidade das abordagens no domínio da
II.4 – Dois autores, um desafio comum
cartografia, e não seguiram uma ordem cronológica ou temática. Propuse-
ram uma visita e uma leitura em diagonal do conjunto de mapas, as quais Além do marco comemorativo dos 500 anos, o ano de 1992, distingue-
contrabalançavam três pontos de vista: viajar, que concebia o mapa como -se pela publicação de duas obras individuais de enorme relevância nessa
um sistema de imagens a serviço da relação do homem com o território; le- vaga de reflexões epistemológicas sobre a HC: os livros L’empire des car-
vantar, voltado para as operações de leitura do território, sua tradução, sua tes, (JACOB, 1992) e The power of maps (WOOD, 1992). Em seu erudito e
transcrição; decidir, que mostrava o mapa como instrumento de controle desafiador ensaio, o pesquisador francês Christian Jacob considerou que o
político, de gestão e transmissão de conhecimento. [...] novo programa da HC somava aos seus objetos tradicionais – descobertas
progressivas das partes do globo, fontes de informação e dos modelos, da-
II.2 – Brian Harley: a história da cartografia nunca mais seria a tação e atribuição de documentos – um especial interesse pela dimensão
mesma técnica da carta e pelo contexto social – meio dos cartógrafos, dos gravado-
Com o seu trabalho editorial à frente do projeto The History of Carto- res, dos impressores, das livrarias, dos encomendantes e dos usuários. Ja-
graphy, Brian Harley consolidou o seu papel como o mais influente intelec- cob desenvolveu largo esforço teórico na conceituação do mapa, percebido
tual no campo da HC de sua época. Já consagrado historiador da Geografia como um artefato resultante de um conjunto de operações e escolhas gráfi-
e da cartografia, Harley passou a publicar trabalhos dedicados à discus- cas (geometria, traços, imagens figurativas, ornamentos, escrita), que acio-
são teórica e epistemológica sobre o estatuto do documento cartográfico nam códigos de representação organizados em uma verdadeira linguagem.
e sobre os objetivos e métodos da HC. Criticou as abordagens tradicionais, Esse artefato é um meio de comunicação que permite a transmissão visu-
as quais considerava fundadas em três paradigmas: o darwiniano, o old- al de informações que se prestam também a manipulações retóricas (per-
-is-beautiful e o nacionalista. Harley não estava sozinho nessa empreita- suasão, engano, sedução, decisão). Tanto por sua complexidade semióti-
da e suas ideias inovadoras provocaram intenso debate no meio acadê- ca como pelas instâncias sociais que o produzem, utilizam ou controlam, o
mico, produziram muitos adversários e um maior número de seguidores, mapa é um instrumento de duplo poder, no qual a eficácia não se reduz à
com grande repercussão até os dias de hoje. A partir de leituras de autores representação objetiva de um fragmento da superfície. Como acontece com
como Erwin Panofsky, Roland Barthes, Michel Foucault e Jacques Derrida, a linguagem escrita e falada, não se presta atenção à carta no seu uso coti-
Harley formulou um novo programa para a HC. Convidou os pesquisado- diano ou técnico. A condição de sua eficácia intelectual está precisamente
res a adotarem os conceitos e as posturas analíticas dos filósofos france- nessa suposta transparência. Jacob discutiu também as possibilidades de
ses na análise dos mapas (como o desconstrucionismo), a ver os mapas um novo programa epistemológico para a HC. Será sempre preciso conduzir
como imagens carregadas de juízo de valor, como um modo de imaginar, as pesquisas na dimensão diacrônica, mas repensando o estatuto da evo-
articular e estruturar o mundo dos homens. Harley foi um incansável divul- lução, das mudanças e do chamado progresso. Jacob propôs uma história
gador de uma concepção alargada de mapa, que não menosprezava a sua que privilegiasse o objeto por ele mesmo, e não pelos seus conteúdos geo-
dimensão técnica, da qual era profundo conhecedor. Recusava-se, porém, gráficos. Uma história do mapa e não uma história da descoberta da Terra.
a ver toda a cartografia e, consequentemente, a sua história, reduzida a O livro The Power of Maps, do americano Denis Wood, não é propria-
uma questão técnica, como era até então tradição nesse campo disciplinar. mente um trabalho de ou sobre a HC, e sim um contundente ensaio sobre
Brian Harley apontou para as diferentes formas de traduzir as imagens as bases epistemológicas da própria cartografia em fins do século XX. Mas
cartográficas como representações culturais carregadas de mensagens a perspectiva crítica de Wood, que apontou diretamente para a relação en-
políticas, seja nos seus conteúdos explícitos, nas distorções e ausências, tre mapa e poder, pode ser largamente aplicada às produções e práticas
nos signos convencionais ou no claro simbolismo das decorações de cartográficas mais antigas. Questionando a pretensa neutralidade dos car-
suas margens, cartuchos e vinhetas. Sublinhou também a necessidade tógrafos, o autor mostrou como a naturalização dos mapas na cultura oci-
de estudos mais aprofundados sobre cada contexto histórico específico, dental, ou seja, a aceitação de sua autoridade como perfeita representa-

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano XLI


ção do território e fonte de informação objetiva, foi uma construção social II.7 – A História da Cartografia atual: uma história dos
e histórica. Para Wood, o mapa não registra silenciosa e inocentemente mapeamentos
uma paisagem, mas responde a atos deliberados de identificação, seleção Abordar a cartografia sob o ângulo das práticas cientificas e culturais é
e nomeação do que é observado, mostrando ou escondendo elementos de uma tendência que se verifica, com especial vigor, na produção anglo-sa-
acordo com os interesses em jogo no projeto cartográfico. xônica. No final dos anos 90, Denis COSGROVE (1999) organizou o livro
Mappings, com ensaios que privilegiavam os processos de mapeamen-
II.5 – Desdobramentos: uma nova constelação de interesses
tos, explorando contextos e contingências que determinaram os atos de
Deflagrado no início dos anos oitenta, o processo de renovação da HC
visualização, conceitualização, pesquisa, representação e criação gráfica
desdobrou-se em congressos, exposições e iniciativas editoriais diversas,
de espaços. Para Cosgrove, uma história dos mapeamentos se adequa
que buscaram dar vazão e impulso a uma produção crescente sobre as
melhor à concepção do mapa como um produto cultural, um elemento
cartografias dos diferentes períodos históricos e regiões do globo [...]
da cultura material.
O pesquisador inglês Denis COSGROVE (1999) chegou a identificar
O livro de M. EDNEY, Mapping an empire (1998), pode ser citado
uma explosão de interesse e fascinação pelos mapas para além do cir-
como exemplar dessas novas abordagens da HC. Em resenha na revista
cuito dos especialistas, espalhando-se pelos domínios dos estudos cul-
Imago Mundi, Christian JACOB (1998) considerou o trabalho de Edney
turais e da produção artística. Para Cosgrove, as novas práticas de espaço
como um modelo metodológico para a HC, pela amplidão das fontes uti-
decorrentes das novas tecnologias, o redesenho geopolítico do globo e a
lizadas e das interpretações que a pesquisa suscita. Três fios condutores
superação definitiva das técnicas tradicionais de mapeamento conduzi-
estruturam o trabalho: uma reflexão sobre o poder e a natureza dos ma-
ram a um questionamento do estatuto de autoridade do mapa no mundo
pas no momento em que se dá a lenta transição das técnicas da cartogra-
contemporâneo. A onda de interesse carregou consigo um desafio epis-
fia de gabinete para uma cartografia baseada na triangulação sistemáti-
temológico que a HC tradicional não poderia resolver: dar conta da com-
ca do território (fins do século XVIII e primeiras décadas do século XIX);
plexidade das relações culturais que sustentam a autoridade do mapa
uma interrogação mais ampliada sobre os atores, individuais ou coleti-
significava tratar o mapa como um produto cultural e inseri-lo nos circui-
vos, que, em graus e modalidades múltiplas, intervêm em um dado pro-
tos de uso, troca e significação de cada sociedade.
cesso cartográfico; e, por fim, uma reflexão sobre o lugar da cartografia
II.6 – Trocas e empréstimos com outros campos disciplinares na política colonial e no projeto de construção de um espaço imperial [...]
O alargamento do objeto da nova HC não se produziu isolada ou interna- II.8 – Um trabalho inaugural no Brasil
mente à disciplina, mas constitui uma resposta a um processo de trocas e Pouco se tem produzido nesse campo no Brasil, quase intocado pelos
empréstimos com outros campos disciplinares correlatos. É o caso da reno- debates e movimentos de renovação teórica aqui comentados. A maio-
vação da história da ciência, que tem se voltado para a dimensão material, ria dos trabalhos relativos à HC brasileira tem sido realizada por histo-
técnica, econômica e discursiva das produções científicas. Em artigo sobre riadores portugueses e tratam do período colonial, com especial ênfase
a nova história social e cultural da ciência, Dominique PESTRE (1995) in- na cartografia dos descobrimentos. Podemos afirmar que, de forma ain-
ventariou novos objetos e abordagens com os quais podemos relacionar da esparsa, alguns trabalhos acadêmicos pioneiros têm surgido em res-
trabalhos específicos de HC, como a história dos instrumentos, das práticas posta ao movimento de renovação e alargamento do campo da HC. Uma
científicas, dos protocolos de prova, e das instituições [...] exceção é a tese da geógrafa brasileira Enali DE BIAGGI (2000), intitula-
Parte significativa da nova HC é também um desdobramento das no- da La Cartographie et les représentations du territoire au Brésil. Ao
vas abordagens da história do imperialismo e do nacionalismo, inscri- conceber os mapas como construções sociais e enfatizar sua dimensão
tas nos chamados estudos pós-coloniais. Nessa produção revisionista, os discursiva, De Biaggi, como tantos autores aqui analisados, se mostra de-
empreendimentos cartográficos são analisados como processos estraté- vedora das proposições teóricas e epistemológicas de B. Harley e C. Ja-
gicos do estado-nação moderno que visavam a construção de territórios cob. A tese apresenta um painel histórico da produção cartográfica no e
e o controle dos seus recursos, fossem populacionais ou naturais. O livro sobre o Brasil, a partir de uma preocupação essencialmente geográfica,
de Jeremy BLACK, Maps and history (2000), insere-se nessa gama de qual seja a de revelar a contribuição da cartografia na construção des-
estudos que tomam a cartografia como instrumento político, estratégi- se grande território. Mas a autora empreende também uma investigação
co no processo de expansão do nacionalismo e seu desdobramento, o histórica sobre os contextos científicos e políticos que conduziram à rea-
imperialismo. O livro trata dos atlas históricos, ou seja, do mapeamento lização das cartas geográficas, colocando em evidência os atores sociais
e da mapeabilidade do passado. Usualmente considerados como obras envolvidos e as relações entre a produção cartográfica internacional e a
de referência (como dicionários, cronologias e enciclopédias), na obra de produção local [...] Por outro lado, tal dimensão permite à autora cons-
Black os atlas históricos ganham estatuto de fonte documental. São ana- truir uma primeira periodização do tema e equilibrar sua análise entre os
lisados como imagens visuais que concorreram na criação e sustentação diferentes períodos, escapando à forte tradição dos estudos da cartogra-
de determinadas situações históricas, como na emergência das nações fia brasileira de privilegiar o período colonial. A importância do trabalho
modernas como comunidades políticas imaginadas [...] de De Biaggi reside essencialmente no ponto de visada – para usar uma
A forte tendência dos novos estudos, que inserem os mapas nos seus metáfora cartográfica – de sua análise: a trajetória da cartografia brasi-
contextos socioeconômicos, atinge também disciplinas como a história leira nos seus processos específicos, processos que engendram as repre-
da arte, por muito tempo um campo refratário às mudanças. Não é mais sentações próprias do território brasileiro. Tais representações têm, evi-
suficiente, também para os historiadores da arte, estudar os mapas nos dentemente, origem na cartografia europeia, mas são construídas em um
quadros das chamadas national schools; agora é necessário considerar contexto específico, no qual a tradição ocidental é confrontada com uma
o desenvolvimento econômico, social e cultural que permitiu o apareci- nova paisagem, um outro contexto social, diferentes relações de poder e
mento das formas cartográficas. padrões culturais.

XLII HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


III – Considerações finais: o mapa e sua herança distorcida De acordo com o historiador Hugh Trevor-Roper, o declínio da perse-
Consideremos as reflexões do historiador da cartografia David BUISSE- guição às bruxas foi em grande parte causado pela revolução científica
RET (2003), em seu mais recente livro, The mapmaker’s quest. Buisse- no século 17, que tornou impossível a crença continuada em bruxaria.
ret comenta o incremento do número de pesquisadores interessados em Analogamente, o fato cientificamente comprovado da inexistência das
HC nas duas ou três últimas décadas, ao qual correspondeu um crescente “raças” deve ser absorvido pela sociedade e incorporado às suas convic-
entendimento da relevância histórica dos mapas. Entre os avanços teóri- ções e atitudes morais. Uma atitude coerente e desejável seria a valoriza-
cos originados dessa vaga de interesse, Buisseret destaca a redefinição ção da singularidade de cada cidadão.
de mapa – cujo conceito tornou-se igualmente mais extenso e mais pre- Em sua individualidade, cada um pode construir suas identidades de
ciso –, a preocupação com a inserção dos mapas nas redes sociais e eco- maneira multidimensional, em vez de se deixar definir de forma única
nômicas de sua produção e, finalmente, o entendimento de que o impul- como membro de um grupo “racial” ou “de cor”.
so de mapear parece ser um traço universal das sociedades humanas [...] Segundo o nobelista Amartya Sen, todos nós somos simultaneamen-
A chave para o entendimento do aspecto mais profundo dessa reno- te membros de várias coletividades, cada uma delas nos conferindo uma
vação reside, a nosso ver, no alargamento do foco dos estudos. Ao in- identidade particular.
teresse pelos mapas antigos enquanto fontes objetivas para uma outra Assim, um indivíduo natural de Ruanda pode assumir identidades múlti-
história (da Geografia, da Arte ou da Ciência) somaram-se os estudos do plas por ser, por exemplo, africano, negro, da etnia hutu, pai de família, mé-
artefato cartográfico e dos processos de mapeamento como objetos de dico, ambientalista, vegetariano, católico, tenista, entusiasta de ópera etc.
uma história em si mesma reveladora e significativa. Nesses termos, o A consciência de sua individualidade e dessa pluralidade lhe permite
produto mapa – a imagem codificada – é parte substantiva, mas não ex- rejeitar o rótulo unidimensional de “hutu”, que, como tal, deveria neces-
clusiva, da HC, e o estudo do processo cartográfico necessariamente con- sariamente odiar tútsis.
duz à interrogação histórica mais complexa e abrangente. Pelo contrário, em sua pluralidade de identidades ele pode comparti-
lhar interesses e encontrar elementos para simpatia e solidariedade com
SOBRE A QUESTÃO RACIAL um outro indivíduo que também é ruandês, negro, africano, colega médi-
co, tenista e cantor lírico, e que, entre tantas outras identidades, também
PENA, S. D. “Ciências, bruxas e raças”. São Paulo: Folha de S.Paulo, 2 de agosto é da etnia tútsi.
de 2006. p. 3. Em conclusão, devemos fazer todo esforço possível para construir uma
sociedade desracializada, na qual a singularidade do indivíduo seja va-
Do ponto de vista biológico, raças humanas não existem. Essa constata-
lorizada e celebrada e na qual exista a liberdade de assumir, por escolha
ção, já evidenciada pela genética clássica, hoje se tornou um fato científi-
própria, uma pluralidade de identidades.
co irrefutável com os espetaculares avanços do Projeto Genoma Humano.
Esse sonho está em perfeita sintonia com o fato, demonstrado pela ge-
É impossível separar a humanidade em categorias biologicamente sig-
nética moderna, de que cada um de nós tem uma individualidade genô-
nificativas, independentemente do critério usado e da definição de “raça”
mica absoluta que interage com o ambiente para moldar a nossa exclu-
adotada. Há apenas uma raça, a humana.
siva trajetória de vida.
Sabemos, porém, que raças continuam a existir como construções so-
Alguns certamente vão tentar rejeitar essa visão, rotulando-a de elitista e
ciais. Alguns chegam mesmo a apresentar essa constatação com tom de
reacionária. Mas, como ela é alicerçada em sólidos fatos científicos, temos
inevitabilidade absoluta, como se o conceito de raça fosse um dos pila-
confiança de que, inevitavelmente, ela será predominante na sociedade.
res da nossa sociedade.
Talvez isso não ocorra em curto prazo aqui no Brasil, principalmente se
Entretanto, não podemos permitir que tal construção social se torne de-
o Congresso cometer a imprudência de aprovar o Estatuto da Igualdade
terminante de toda a nossa visão de mundo nem de nosso projeto de país.
Racial, o qual forçará os cidadãos a assumirem uma identidade principal
Em recente artigo na Revista USP, eu e a filósofa Telma Birchal de-
baseada em cor.
fendemos a tese de que, embora a ciência não seja o campo de origem
Um pensamento reconfortante é que, certamente, a humanidade do fu-
dos mandamentos morais, ela tem um papel importante na instrução
turo não acreditará em raças mais do que acreditamos hoje em bruxaria.
da esfera social.
E o racismo será relatado no futuro como mais uma abominação histó-
Ao mostrar “o que não é”, ela liberta pelo poder de afastar erros e pre-
rica passageira, assim como percebemos hoje o disparate que foi a per-
conceitos. Assim, a ciência, que já demonstrou a inexistência das raças em
seguição às bruxas.
seu seio, pode catalisar a desconstrução das raças como entidades sociais.
Há um importante precedente histórico para isso. Durante os séculos SOBRE OS JOGOS
16 e 17, dezenas de milhares de pessoas foram oficialmente condena-
das à morte na Europa pelo crime de bruxaria. HUIZINGA, J. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 4. ed. Trad. São
As causas dessa histeria em massa são controversas. Obviamente, a Paulo: Perspectiva, 2000. p. 5-7.
simples crença da época na existência de bruxas não é suficiente para
explicar o ocorrido. O jogo é fato mais antigo que a cultura, pois esta, mesmo em suas de-
É significativo que a repressão à bruxaria tenha vitimado primariamen- finições menos rigorosas, pressupõe sempre a sociedade humana; mas
te as mulheres e possa ser interpretada como uma forma extrema de con- os animais não esperaram que os homens os iniciassem na atividade
trole social em uma sociedade dominada por homens. lúdica. É-nos possível afirmar com segurança que a civilização humana
Mas, indubitavelmente, a crença em bruxas foi essencial para alimen- não acrescentou característica essencial alguma à ideia geral de jogo. Os
tar o fenômeno. Assim, podemos afirmar que, na sociedade dos séculos animais brincam tal como os homens1. Bastará que observemos os ca-
16 e 17, as bruxas constituíam uma realidade social tão concreta quanto chorrinhos para constatar que, em suas alegres evoluções, encontram-se
as raças hoje em dia. presentes todos os elementos essenciais do jogo humano. Convidam-se

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano XLIII


uns aos outros para brincar mediante um certo ritual de atitudes e gestos. “Está tudo muito bem, mas o que há de realmente divertido no jogo? Por
Respeitam a regra que os proíbe morderem, ou pelo menos com violên- que razão o bebê grita de prazer? Por que motivo o jogador se deixa absor-
cia, a orelha do próximo. Fingem ficar zangados e, o que é mais importan- ver inteiramente por sua paixão? Por que uma multidão imensa pode ser
te, eles, em tudo isto, experimentam evidentemente imenso prazer e di- levada até ao delírio por um jogo de futebol?”. A intensidade do jogo e seu
vertimento. Essas brincadeiras dos cachorrinhos constituem apenas uma poder de fascinação não podem ser explicados por análises biológicas. E,
das formas mais simples de jogo entre os animais. Existem outras formas contudo, é nessa intensidade, nessa fascinação, nessa capacidade de ex-
muito mais complexas, verdadeiras competições, belas representações citar que reside a própria essência e a característica primordial do jogo. O
destinadas a um público. mais simples raciocínio nos indica que a natureza poderia igualmente ter
Desde já encontramos aqui um aspecto muito importante: mesmo em oferecido a suas criaturas todas essas úteis funções de descarga de energia
suas formas mais simples, ao nível animal, o jogo é mais do que um fenô- excessiva, de distensão após um esforço, de preparação para as exigências
meno fisiológico ou um reflexo psicológico. Ultrapassa os limites da ati- da vida, de compensação de desejos insatisfeitos etc., sob a forma de exer-
vidade puramente física ou biológica. É uma função significante, isto é, cícios e reações puramente mecânicos. Mas não, ela nos deu a tensão, a
encerra um determinado sentido. No jogo existe alguma coisa “em jogo” alegria e o divertimento do jogo.
que transcende as necessidades imediatas da vida e confere um sentido Este último elemento, o divertimento do jogo, resiste a toda análise e
à ação. Todo jogo significa alguma coisa. Não se explica nada chamando interpretação lógicas. A palavra holandesa aardigheid é extremamente
“instinto” ao princípio ativo que constitui a essência do jogo; chamar-lhe significativa a esse respeito. Sua derivação de aard (natureza, essência)
“espírito” ou “vontade” seria dizer demasiado. Seja qual for a maneira mostra bem que a ideia não pode ser submetida a uma explicação mais
como o considerem, o simples fato de o jogo encerrar um sentido implica prolongada. Essa irredutibilidade tem sua manifestação mais notável,
a presença de um elemento não material em sua própria essência. para o moderno sentido da linguagem, na palavra inglesa fun, cujo sig-
A psicologia e a fisiologia procuram observar, descrever e explicar o nificado mais corrente é ainda bastante recente. É curioso que o francês
jogo dos animais, crianças e adultos. Procuram determinar a natureza e não possua palavra que lhe corresponda exatamente e que tanto em ho-
o significado do jogo, atribuindo-lhe um lugar no sistema da vida. A ex- landês (grap e aardigheid) como em alemão (Spass e Witz) sejam neces-
trema importância deste lugar e a necessidade, ou pelo menos a utilida- sários dois termos para exprimir esse conceito3. E é ele precisamente que
de da função do jogo, são geralmente consideradas coisa assente, cons- define a essência do jogo. Encontramo-nos aqui perante uma categoria
tituindo o ponto de partida de todas as investigações científicas desse absolutamente primária da vida, que qualquer um é capaz de identificar
gênero. Há uma extraordinária divergência entre as numerosas tentativas desde o próprio nível animal. É legítimo considerar o jogo uma “totalida-
de definição da função biológica do jogo. Umas definem as origens e fun- de”, no moderno sentido da palavra, e é como totalidade que devemos
damento do jogo em termos de descarga da energia vital superabundan- procurar avaliá-lo e compreendê-lo.
te, outras como satisfação de um certo “instinto de imitação”, ou ainda Como a realidade do jogo ultrapassa a esfera da vida humana, é impos-
simplesmente como uma “necessidade” de distensão. Segundo uma teo- sível que tenha seu fundamento em qualquer elemento racional, pois nes-
ria, o jogo constitui uma preparação do jovem para as tarefas sérias que se caso, limitar-se-ia à humanidade. A existência do jogo não está ligada
mais tarde a vida dele exigirá, segundo outra, trata-se de um exercício de a qualquer grau determinado de civilização, ou a qualquer concepção do
autocontrole indispensável ao indivíduo. Outras veem o princípio do jogo universo. Todo ser pensante é capaz de entender à primeira vista que o
como um impulso inato para exercer uma certa faculdade, ou como dese- jogo possui uma realidade autônoma, mesmo que sua língua não possua
jo de dominar ou competir. Teorias há, ainda, que o consideram uma “ab- um termo geral capaz de defini-lo. A existência do jogo é inegável. É pos-
-reação”, um escape para impulsos prejudiciais, um restaurador da ener- sível negar, se se quiser, quase todas as abstrações: a justiça, a beleza, a
gia despendida por uma atividade unilateral, ou “realização do desejo”, verdade, o bem, Deus. É possível negar-se a seriedade, mas não o jogo.
ou uma ficção destinada a preservar o sentimento do valor pessoal, etc.2. Mas reconhecer o jogo é, forçosamente, reconhecer o espírito, pois o
Há um elemento comum a todas estas hipóteses: todas elas partem do jogo, seja qual for sua essência, não é material. Ultrapassa, mesmo no
pressuposto de que o jogo se acha ligado a alguma coisa que não seja o mundo animal, os limites da realidade física. Do ponto de vista da con-
próprio jogo, que nele deve haver alguma espécie de finalidade biológica. cepção determinista de um mundo regido pela ação de forças cegas, o
Todas elas se interrogam sobre o porquê e os objetivos do jogo. As diversas jogo seria inteiramente supérfluo. Só se toma possível, pensável e com-
respostas tendem mais a completar-se do que a excluir-se mutuamente. preensível quando a presença do espírito destrói o determinismo abso-
Seria perfeitamente possível aceitar quase todas sem que isso resultasse luto do cosmos. A própria existência do jogo é uma confirmação perma-
numa grande confusão de pensamento, mas nem por isso nos aproximarí- nente da natureza supralógica da situação humana. Se os animais são
amos de uma verdadeira compreensão do conceito de jogo. Todas as res- capazes de brincar, é porque são alguma coisa mais do que simples seres
postas, porém, não passam de soluções parciais do problema. mecânicos. Se brincamos e jogamos, e temos consciência disso, é por-
que somos mais do que simples seres racionais, pois o jogo é irracional.
Natureza e significado do jogo Ao tratar o problema do jogo diretamente como função da cultura, e
Se alguma delas fosse realmente decisiva, ou eliminaria as demais ou não tal como aparece na vida do animal ou da criança, estamos iniciando
englobaria todas em uma unidade maior. A grande maioria, contudo, preo- a partir do momento em que as abordagens da biologia e da psicologia
cupa-se apenas superficialmente em saber o que o jogo é em si mesmo e o chegam ao seu termo. Encontramos o jogo na cultura, como um elemen-
que ele significa para os jogadores. Abordam diretamente o jogo, utilizan- to dado existente antes da própria cultura, acompanhando-a e marcan-
do-se dos métodos quantitativos das ciências experimentais, sem antes do-a desde as mais distantes origens até a fase de civilização em que
disso prestarem atenção a seu caráter profundamente estético. Por via de agora nos encontramos. Em toda a parte encontramos presente o jogo,
regra, deixam praticamente de lado a característica fundamental do jogo. A como uma qualidade de ação bem determinada e distinta da vida “co-
todas as “explicações” acima referidas poder-se-ia perfeitamente objetar: mum”. Podemos deixar de lado o problema de saber se até agora a ciên-

XLIV HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


cia conseguiu reduzir esta qualidade a fatores quantitativos. Em minha Notas
opinião não o conseguiu. De qualquer modo, o que importa é justamente 1 A diferença entre as principais línguas europeias (onde spielen, to play, jouer,
aquela qualidade que é característica da forma de vida a que chamamos jugar significam tanto jogar como brincar) e a nossa nos obriga frequentemente
“jogo”. O objeto de nosso estudo é o jogo como forma específica de ativi- a escolher um ou outro destes dois, sacrificando assim à exatidão da tradução
dade, como “forma significante”, como função social. Não procuraremos uma unidade terminológica que só naqueles idiomas seria possível. (N. do T.)

analisar os impulsos e hábitos naturais que condicionam o jogo em geral, 2 Sobre estas teorias, consultar H. Zondervan, Het Spel-bij Dieren, Kinderen
en Votwassen Menschen (Amsterdã, 1928) e F. J. J. Buytendijk, Het Spel van
tomando-o em suas múltiplas formas concretas, enquanto estrutura pro- Mensch en Diet als openbaring van levensdriften (Amsterdã, 1932).
priamente social. Procuraremos considerar o jogo como o fazem os pró- 3 Também em português a palavra divertimento é apenas a maneira menos ina-
prios jogadores, isto é, em sua significação primária. Se verificarmos que dequada de exprimir esse conceito, que para o autor corresponde à própria
o jogo se baseia na manipulação de certas imagens, numa certa “imagi- essência do jogo (v. infra), e está ligado também a noções como as de prazer,
nação” da realidade (ou seja, a transformação desta em imagens), nossa agrado, alegria etc. (N. do T.)
preocupação fundamental será, então, captar o valor e o significado des-
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XLVIII HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


Flavio de Campos BRASIL. Parâmetros Curricula-
Bacharel e licenciado em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). res Nacionais (PCN’s): terceiro
e quarto ciclo. História. Brasí-
Doutor em Ciências na área de História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Professor
lia: MEC/Secretaria de Educa-
Doutor do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP). Coordenador científico ção Fundamental, 1997. Disponível em:
do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (Ludens-USP). <https://goo.gl/jChduQ>. Acesso em: 20
Autor de livros didáticos e paradidáticos. ago. 2018.
BRASIL. Presidência da República. Lei nº
Regina Claro 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei
Bacharel em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). nº 9.394, de 20 de dezembro de
Mestre em Ciências na área de História Social pela Universidade de São Paulo (USP). 1996, que estabelece as diretri-
zes e bases da educação nacio-
Especialista em História e Cultura Africana e Afro-americana. Desenvolve projetos
nal, para incluir no currículo ofi-
de capacitação para professores da rede pública em atendimento à Lei nº 10.639/03. cial da rede de ensino a obrigatoriedade da
Autora de livros didáticos e paradidáticos. temática “História e Cultura Afro-Brasileira”,
e dá outras providências. Brasília, 2003. Dis-
Miriam Dolhnikoff ponível em: <https://goo.gl/aeKRNK>. Acesso
em: 20 ago. 2018.
Bacharel e licenciada em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Doutora em Ciências na área de História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP). BRASIL. Presidência da República. Lei nº
Professora Doutora do Departamento de História e do curso de Relações Internacionais 11.645, de 10 de março de
2008. Altera a Lei no 9.394,
da Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadora do Centro Brasileiro de
de 20 de dezembro de 1996,
Análise e Planejamento (Cebrap). Autora de livros didáticos e paradidáticos. modificada pela Lei nº 10.639,
de 9 de janeiro de 2003, que estabelece
as diretrizes e bases da educação nacional,

HISTÓRIA para incluir no currículo oficial da rede de


ensino a obrigatoriedade da temática “His-
tória e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”.
Disponível em: <https://goo.gl/3TnLvN>.
ESCOLA E DEMOCRACIA Acesso em: 20 ago. 2018.
BRASIL. Conselho Nacional de

6
Educação (CNE/CP n. 003) de
10 de março de 2004, CNE/
o
ano CP 003/2004 - parecer para
as Diretrizes Curriculares Nacionais para
a Educação das Relações Étnico-Raciais e
para o Ensino de História e Cultura Afro-
-Brasileira e Africana na Educação Básica”
disponível em: <https://goo.gl/T9QVBo>.
Acesso em: 20 ago. 2018.
Componente curricular: HISTÓRIA
BRASIL. Plano Nacional de Im-
plementação das Diretrizes
Curriculares Nacionais para a
Educação das Relações Étnico-
-Raciais e para o Ensino de História e Cultu-
ra Afro-brasileira e Africana. Brasília: MEC/
SECAD, 2009. Disponível em: <https://goo.
1a edição gl/nef2FT>. Acesso em: 20 ago. 2018.
BRASIL. Pareceres e Resoluções
São Paulo, 2018 sobre Educação das Relações
Étnico-Raciais. Disponível em:
<https://goo.gl/KfVUXc>. Acesso
em: 20 ago. 2018.
BRASIL. Ministério da Educação e Conse-
lho Nacional de Educação. Resolução CNE/
CP Nº 2, de 22 de dezembro de 2017. Ins-
titui e orienta a implantação
da Base Nacional Comum Cur-
ricular, a ser respeitada obri-
gatoriamente ao longo das
etapas e respectivas modali-
dades no âmbito da Educação Básica. Dis-
EDUCAÇÃO LEGAL: ponível em: <https://goo.gl/yWAVjF>. Aces-
CONSTITUIÇÃO, LEIS, RESOLUÇÕES, PARECERES so em: 20 ago. 2018.
BRASIL. Presidência da República. Lei nº BRASIL. Base Nacional Comum
BRASIL. Presidência da República. Lei nº
4.024 de 20 de dezembro de 1961. Esta- Curricular (BNCC) homologa-
9.394 de 20 de dezembro de 1996. Revo-
belece as Diretrizes e Bases da Educação da. Disponível em: <https://
ga a Lei 4.024/61 e estabelece as Diretrizes
Nacional (texto original). Disponível em: goo.gl/HTLkLJ>. Acesso em: 20
e Bases da Educação Nacional. Disponível
<https://goo.gl/g58FY1>. Acesso em: 20 ago. 2018. ago. 2018.
em: <https://goo.gl/qAnfvQ>. Acesso em: 20 ago. 2018.
BRASIL. Presidência da República. Constituição da Repú- BRASIL. Presidência da República. Lei nº
BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacio-
blica Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: <https:// 13.146 de 06 de Julho de 2015. Institui
nal (LDB). Edição atualizada. março de 2017. Disponí-
goo.gl/eisZfE>. Acesso em: 20 ago. 2018. a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com
vel em: <https://goo.gl/RtX9r7>. Acesso em:
Deficiência. Disponível em:
20 ago. 2018.
<https://goo.gl/LfvHGP>. Aces-
so em: 20 ago. 2018.

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano 1


COMPETÊNCIAS GERAIS
BNCC Coordenação editorial: Leon Torres
Edição de texto: Angela Duarte
1. Valorizar e utilizar os conhecimentos his- Gerência de design e produção gráfica: Cia. de Ética
toricamente construídos sobre o mundo físi- Coordenação de design e projetos visuais: Didier Moraes, Marcello Araújo
Projeto gráfico: Didier Moraes, Marcello Araújo
co, social, cultural e digital para entender e Capa: Didier Moraes, Marcello Araújo
explicar a realidade, continuar aprendendo e Foto: Fabio Colombini.
colaborar para a construção de uma socieda- Coordenação e edição de arte: Didier Moraes e Marcello Araújo
de justa, democrática e inclusiva. Editoração eletrônica: Cia. de Ética/Cláudia Carminati, Fernanda do Val, Luciano Pessoa,
Márcia Romero, Mônica Hamada, Ruddi Carneiro
2. Exercitar a curiosidade intelectual e re- Edição de infografia: A+com
correr à abordagem própria das ciências, in- Ilustrações de vinhetas: Didier Moraes, Marcello Araújo
cluindo a investigação, a reflexão, a análise Ilustrações: Lucas C. Martinez
crítica, a imaginação e a criatividade, para in- Revisão: Cia. de Ética/Ana Paula Piccoli, Denise Pessoa Ribas, Fabio Giorgio, Luciana Baraldi
Coordenação de pesquisa iconográfica: Cia. de Ética/Paulinha Dias
vestigar causas, elaborar e testar hipóteses,
Pesquisa iconográfica: Cia. de Ética/Angelita Cardoso
formular e resolver problemas e criar solu- Mapas: Mário Yoshida
ções (inclusive tecnológicas) com base nos Tratamento de imagens: Pix Arte Imagens
conhecimentos das diferentes áreas. Fechamento de arquivo: Cia. de Ética/Mônica Hamada, Ruddi Carneiro
3. Valorizar e fruir as diversas manifestações Impressão e acabamento:
artísticas e culturais, das locais às mundiais,
e também participar de práticas diversifica-
das da produção artístico-cultural.
4. Utilizar diferentes linguagens – verbal
(oral ou visual-motora, como Libras, e escri-
ta), corporal, visual, sonora e digital –, bem
como conhecimentos das linguagens artísti-
ca, matemática e científica, para se expres-
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
sar e partilhar informações, experiências, (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
ideias e sentimentos em diferentes contex-
tos e produzir sentidos que levem ao enten- Campos, Flavio de
História : escola e democracia / Flavio de Campos,
dimento mútuo. Regina Claro, Miriam Dolhnikoff. – 1. ed. -- São
5. Compreender, utilizar e criar tecnologias Paulo : Moderna, 2018. – (História : escola e
democracia)
digitais de informação e comunicação de for-
ma crítica, significativa, reflexiva e ética nas Obra em 4 v. para alunos do 6º ao 9º ano.
diversas práticas sociais (incluindo as esco- Bibliografia.

lares) para se comunicar, acessar e dissemi- 1. História (Ensino fundamental) I. Claro, Regina.
nar informações, produzir conhecimentos, II. Dolhnikoff, Miriam. III. Título. IV. Série.
resolver problemas e exercer protagonismo
e autoria na vida pessoal e coletiva. 18-20773 CDD-372.89
6. Valorizar a diversidade de saberes e vi-
Índices para catálogo sistemático:
vências culturais e apropriar-se de conheci-
1. História : Ensino fundamental 372.89
mentos e experiências que lhe possibilitem
Maria Paula C. Riyuzo - Bibliotecária - CRB-8/7639
entender as relações próprias do mundo do
trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exer- ISBN 978-85-16-11649-1 (aluno)
cício da cidadania e ao seu projeto de vida, ISBN 978-85-16-11650-7 (professor)
com liberdade, autonomia, consciência críti-
ca e responsabilidade.
7. Argumentar com base em fatos, dados e Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
informações confiáveis, para formular, nego- Todos os direitos reservados
ciar e defender ideias, pontos de vista e de- EDITORA MODERNA LTDA.
Rua Padre Adelino, 758 - Belenzinho
cisões comuns que respeitem e promovam São Paulo - SP - Brasil - CEP 03303-904
os direitos humanos, a consciência socioam- Vendas e Atendimento: Tel. (0_ _11) 2602-5510
Fax (0_ _11) 2790-1501
biental e o consumo responsável em âmbito www.moderna.com.br
2018
local, regional e global, com posicionamen- Impresso no Brasil
to ético em relação ao cuidado de si mesmo, 1 3 5 7 9 10 8 6 4 2
dos outros e do planeta.
8. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua
saúde física e emocional, compreendendo-
se na diversidade humana e reconhecendo
suas emoções e as dos outros, com autocríti-
ca e capacidade para lidar com elas.
9. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolu-
ção de conflitos e a cooperação, fazendo-se
respeitar e promovendo o respeito ao outro
e aos direitos humanos, com acolhimento e
valorização da diversidade de indivíduos e
de grupos sociais, seus saberes, identidades,
culturas e potencialidades, sem preconceitos
de qualquer natureza.
10. Agir pessoal e coletivamente com auto-
nomia, responsabilidade, flexibilidade, resi-
liência e determinação, tomando decisões
com base em princípios éticos, democráti-
cos, inclusivos, sustentáveis e solidários.

2 HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


Apresentação
COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS
DE HISTÓRIA PARA
Há muitas definições para a história. Uma das mais difundidas e aceitas a considera O ENSINO FUNDAMENTAL
o estudo dos seres humanos no tempo. Assim, nossos olhares e interesses não devem
1. Compreender acontecimentos históricos,
se dirigir apenas para o passado, mas também para o presente, articulando tempos
relações de poder e processos e mecanis-
diversos, procurando significações, nexos e relações. mos de transformação e manutenção das
Se a história é uma ferramenta para o manuseio do tempo, a escola é uma instituição estruturas sociais, políticas, econômicas e
de fronteira entre o ambiente familiar e o conjunto da sociedade. Ambas são marcadas culturais ao longo do tempo e em diferentes
pela transição. A primeira pela multiplicidade de tempos. A segunda pela ampliação dos espaços para analisar, posicionar-se e inter-
horizontes e pela compreensão científica e sistematizada das dinâmicas sociais. vir no mundo contemporâneo.
É na interface dessas transições que situamos a proposta desta coleção. Além dos 2. Compreender a historicidade no tempo
elementos econômicos, sociais, políticos, religiosos e culturais, procuramos conside- e no espaço, relacionando acontecimentos
e processos de transformação e manuten-
rar aspectos muito próximos do repertório dos estudantes, visando a uma aprendiza-
ção das estruturas sociais, políticas, econô-
gem significativa.
micas e culturais, bem como problematizar
Por essa razão, resgatamos elementos lúdicos desenvolvidos nos períodos e nas os significados das lógicas de organização
sociedades analisados. Os jogos são dados culturais, desenvolvidos ao longo da história cronológica.
para divertir e tornar a existência humana mais agradável. São permanências que devemos 3. Elaborar questionamentos, hipóteses, ar-
entender e analisar como temas privilegiados para a compreensão das diversas formações gumentos e proposições em relação a do-
sociais ao longo do tempo. cumentos, interpretações e contextos his-
Os jogos podem nos oferecer parâmetros para o entendimento de regras, meca- tóricos específicos, recorrendo a diferentes
linguagens e mídias, exercitando a empatia,
nismos e, sobretudo, valores de respeito, diversidade e tolerância, elementos funda-
o diálogo, a resolução de conflitos, a coope-
mentais para o convívio coletivo em uma sociedade democrática.
ração e o respeito.
Os autores 4. Identificar interpretações que expressem
visões de diferentes sujeitos, culturas e po-
vos com relação a um mesmo contexto histó-
rico, e posicionar-se criticamente com base
em princípios éticos, democráticos, inclusi-
vos, sustentáveis e solidários.
5. Analisar e compreender o movimento de
Brincadeiras de criança, Pieter Brueghel. Óleo sobre madeira, 1560. MUSEU KUNSTHISTORISCHES, VIENA, ÁUSTRIA populações e mercadorias no tempo e no es-
paço e seus significados históricos, levando
em conta o respeito e a solidariedade com as
diferentes populações.
6. Compreender e problematizar os concei-
tos e procedimentos norteadores da produ-
ção historiográfica.
7. Produzir, avaliar e utilizar tecnologias digi-
tais de informação e comunicação de modo
crítico, ético e responsável, compreendendo
seus significados para os diferentes grupos
ou estratos sociais.

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano 3


Por dentro do livro
Atividades da coleção e competências
específicas de História para o Ensino É importante que você compreenda como organizamos este livro. Cada capítulo oferece algumas
Fundamental. ferramentas para facilitar seu estudo. Cada uma das seções do capítulo tem uma função que vai
ajudá-lo(a) a desenvolver um tipo de conhecimento e habilidade.

tre
es
m

Bi
JOGO ABERTO


Capítulo
Origens da
2
3

humanidade
Cada capítulo tem uma abertura com imagens

PA
Pangeia – 240 milhões de anos.

MÁRIO YOSHIDA
Ilustração baseada na representação

N
de Alfred Wegener, 2012.
E

G
IA Fauna e flora terrestre e aquática;

e questões. Sua função é iniciar os trabalhos.


dinossauros e répteis voadores.
1

HANNA-BARBERA/EVERETT COLLECTION/FOTOARENA
JOGO

Na seção Jogo aberto propomos OBSERVE AS IMAGENS


ABERTO

Laurásia e Gonduana – 200 milhões


LAURÁSIA
4
Você vai perceber que é capaz de lembrar de
alguns dados, informações e até mesmo de
de anos. Ilustração baseada na

MÁRIO YOSHIDA
uma sondagem de conhecimentos pré-
representação de Alfred Wegener, 2012.

1. Compare a Pangeia (fig.


Fauna e flora terrestre e
3 ) com o Mapa-múndi
GO
chegar a algumas conclusões iniciais, ou seja,
aquática; dinossauros,
(fig. 6 ) e aponte as di- répteis voadores, mamíferos. ND
UA N

vios. Os conhecimentos dos estudan-


ferenças com relação à
distribuição dos conti-
A
nentes.
2. Com base nas infor-
mações fornecidas nas
ÁSIA 5
muitas vezes você já tem conhecimentos sobre
tes não estão limitados apenas às in-
AMÉRICA
DO NORTE EUROPA
legendas dos mapas,

os assuntos que vão ser tratados. Imagens e


elabore uma crítica às Os Flintstones, Hanna Barbera. Desenho animado, 1960. Divisão de Gonduana – 50 milhões

MÁRIO YOSHIDA
imagens 1 e 2 . 2 Arábia de anos. Ilustração baseada na

HANNA-BARBERA/EVERETT COLLECTION/FOTOARENA
representação de Alfred Wegener, 2012.
3. As imagens 1 e 2 po- ÁFRICA

formações que possuem, mas também


AMÉRICA Índia
dem ser consideradas DO SUL

documentos históricos?
Justifique. Austrália
Dinossauros extintos, diversificação
de mamíferos e aves, primatas.
atividades servirão de estímulo. O Jogo está
às suas crenças, à sua forma de ver e
ANTÁRTICA

TÁ N A R E D E !
EUROPA
ÁSIA
6
aberto para que você inicie suas reflexões.

A M
ANCIENT EARTH GLOBE

explicar o mundo. Desta forma, ao so-

MÁRIO YOSHIDA
<https://goo.gl/foJidT> ÁFRICA

R
Mapa-múndi –

I
Acesso em: 12 mar. 2018. 2 milhões de anos.

C
Em Inglês.

A
OCEANIA

A plataforma Homo habilis.

licitar que registrem as respostas to-


mostra diferentes
configurações da
superfície do planeta Fonte dos mapas: Elaborado com ESCALA A N TÁ R T I D A
no decorrer do tempo base em Atlas histórico escolar. 0 3 540 7 080 km
O Vale dos Dinossauros, Hanna Barbera. Desenho animado, 1974-76. Rio de Janeiro: IBGE, 2007.

mando por base apenas seus conhe- 30 31


Capítulo 2 | Origens da humanidade REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA Origens da humanidade | Capítulo 2

cimentos, pretende-se possibilitar que


os alunos organizem suas ideias para TEXTO BÁSICO
ORIGENS O DESENVOLVIMENTO DOS SERES HUMANOS
Cada capítulo tem um texto geral que
Esqueleto do Tyrannosaurus
rex. Ilustração 3D. EUA, 2011. TÁ LIGADO

aproximá-las do conhecimento cientifi- Calcula-se que o planeta Terra tenha se formado


Micróbios
As origens dos seres humanos são ain-
da bastante incertas. De acordo com pes-
Primatas
1. Estabeleça a relação
entre seres humanos,
FREDERICK MATZEN/DREAMSTIME.COM/GLOW IMAGENS

há cerca de 5 bilhões de anos. Micróbios e bactérias Qualquer organismo de Mamíferos como macacos,
hominídeos e primatas.

trata de um ou mais temas. Sua função


dimensões diminutas seres humanos e lêmures.
teriam sido os primeiros organismos e surgiram há quisas científicas, seríamos descendentes
(microrganismos), como
dos hominídeos, uma espécie dentro da grande ordem dos primatas. 2. Aponte o título do info-

camente organizado que será apresen-


cerca de 3,5 bilhões de anos. Há cerca de 550 mi- bactérias e fungos.
gráfico abaixo.
lhões de anos teria ocorrido um grande desen- Bactérias Muitas transformações entre os hominídeos teriam resultado nos
volvimento biológico que deu origem a diversas
Microrganismos de seres humanos atuais. Isso é tema de discussões e hipóteses a serem 3. Liste todos os hominí-

é oferecer informações, explicações,


uma célula, essenciais
deos mencionados na
formas de vida mais complexas. para a decomposição comprovadas. Há quase 4 milhões de anos surgiu o Australopithecus,
de materiais orgânicos. tabela.
Os dinossauros surgiram há cerca de 250 milhões que alguns cientistas apontam como nosso antepassado mais antigo.

tado no decorrer do capítulo. Desse


4. Leia o quadro “Evolução
de anos. Calcula-se que os dinossauros tenham se extinguido há cerca de 65 O Homo habilis (Homem habilidoso) surgiu há cerca de 2 milhões
do crânio e da mas-

análises e interpretações do estudo


milhões de anos. Os motivos dessa extinção são objeto de muita discussão. de anos e possuía cerca de um metro e meio de altura e cinquenta qui- sa cerebral”. O que se
Ela pode ter sido provocada por doenças ou pelo impacto de um grande los. Alimentava-se de carne, frutos e raízes. Aprendeu a lascar a pedra, pode deduzir ao com-
Com 13 metros meteorito que teria se chocado com o planeta Terra, causando uma grande utilizando-a como instrumento para cortar alimentos e como arma. parar o tamanho do

diálogo, espera-se a reformulação dos


de comprimento cérebro das espécies
mudança climática. Essa alteração teria afetado diversas espécies, que tam- Há cerca de um milhão e oitocentos mil anos desenvolveu-se o

de História. É o momento de atenção


e 7 toneladas, o listadas?
Tiranossaurus rex bém desapareceram mais ou menos no mesmo período. Homo erectus (Homem ereto). Possuía até um metro e sessenta de altu-
é o mais ilustre 5. Comente o fato de que
As cenas de filmes e animações em que dinossauros perseguem seres hu- ra e sessenta quilos. Já produzia machados e ferramentas para a caça.
dos dinossauros. as diferentes espécies
manos não ocorreram na verdade. Os seres humanos desenvolveram-se há cerca O Homo habilis e o Homo erectus formaram-se paralelamente e listadas coexistiram por

conhecimentos prévios e a construção de cem mil anos, muito tempo depois da extinção dos dinossauros. conviveram com o Australopithecus durante cerca de 1 milhão de anos. milhares de anos.

e de leitura cuidadosa. Ao longo

DIDIER MORAES/MARCELLO ARAÚJO


Evolução humana Lascas de pedra Armas Armas mais Ferramentas afiadas, Anzóis, agulhas e Evolução do crânio e da massa cerebral
usadas como fer-

de conceitos científicos a partir daque-


simples sofisticadas, usadas também para arco e flecha. Maior

desta seção, há outros quadros, como


ramentas de corte, utilizadas planejadas antes fabricar outras armas desenvolvimento do Espécie Forma do crânio Cérebro (em cm³)
Diversas espécies listadas aqui mas não de caça. na caça. de serem feitas. e ferramentas. raciocínio abstrato.
coexistiram na Terra por milhares Australopithecus 300-500
de anos durante diferentes
períodos. Novas pesquisas Peso: 50 kg Peso: 58 kg Peso: 60 kg Peso: 65 kg Peso: 65 kg
850

se fossem janelas, com imagens e


Homo habilis

les espontâneos, investindo-se, dessa


continuam revelando detalhes Altura: 1,4 m Altura: 1,6 m Altura: 1,7 m Altura: 1,7 m Altura: 1,7 m
desconhecidos de onde estes
+ + Homo erectus 850-1 250
grupos viviam e da evolução de
suas estratégias de sobrevivência.

informações complementares.
Homo
Reconstituição artística baseada heidelbergensis 1 350

maneira, em uma aprendizagem signi-


em crânio de Lucy.

Homo sapiens 1 400


MARTINS SHIELDS/PHOTO
RESEARCHERS

Homo sapiens

ficativa. Dessa forma, estimulamos a


sapiens 1 400

Homo habilis Homo erectus Homo heidelbergensis Homo sapiens Homo sapiens sapiens
+ carne cozida
As primeiras ferra- Introduziram a Acredita-se terem sido Produziam Os seres humanos como conhe-
carne crua
mentas, feitas de caça como uma os primeiros a caçar ferramentas cemos hoje, com ossatura mais

elaboração de questionamentos, hipó-


Australopithecus afarensis, lascas de pedra, são atividade animais de grande utilizando fibras leve que a de seus ancestrais e o frutas

TÁ LIGADO?
conhecida como Lucy, um atribuídas ao regular. porte e a construir e resinas para cérebro bem maior.
dos primeiros hominídeos, Homo habilis. abrigos simples. fixação. raízes
viveu no leste da África,
há cerca de três e meio Fontes: Elaborado com base em

teses, argumentos e proposições em


milhões de anos. 30 000 anos <http://goo.gl/PT7zK> e
1,4 milhão de anos 40 000 anos <http://goo.gl/0QYHMw>.

Como um roteiro de leitura, há questões


Linha do tempo Acessos em: 03 out. 2018.

2 milhões de anos 1,8 milhão de anos 500 mil anos 200 mil anos 100 mil anos séc. XXI

relação aos documentos visuais apre- 32 Capítulo 2 | Origens da humanidade REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA Origens da humanidade | Capítulo 2 33

e propostas de atividades para auxiliar a


sentados, o exercício da construção de compreensão do texto básico.
interpretações e o estabelecimento de
contextos históricos específicos. BATE-BOLA
Os primeiros seres humanos na América
CHEGADA E DESLOCAMENTOS DOS PRIMEIROS SERES HUMANOS
NA AMÉRICA
BATE-BOLA
MÁRIO YOSHIDA

De 13 mil a 9 mil anos

São quadros com atividades, TÁ N A R E D E !


Mais de 13 mil anos
Brasil – possíveis rotas
1 Bacia do Rio São Francisco
2 Bacia do Rio Amazonas
3 Bacia do Rio da Prata

Círculo Polar Ártico localizados ao longo do texto MESQUITA DE DJENNÉ TÁ NA REDE!


básico. É um jogo rápido, um Digite o endereço abai-
Em alguns
xo na barra do navega-
treinamento com atividades
Hell Gap

Extensão de gelo de 10000 a.C.

capítulos, dicas
Lindenmeiur

dor de internet: <http://bit.


Extensão de gelo de 18000 a.C.
Sanda
anda Cava Folsom
Folsom Meadcroft
Meadcro
Blackwater
Blackkwater Draw

inserido no decorrer do
La Jolla
olla

Lenner
Lenner
ly/2QqnEFn>. Você pode
Trópico de Câncer

também tirar uma foto com de sites para


capítulo. Há sempre uma
Tiapocoya
iapocoya
OCEANO

aprofundar seus
PACÍFICO OCEANO

um aplicativo de QrCode
El Jobo
obo
ATLÂNTICO
o
Rio Orinoc

imagem ou um pequeno texto


Rio

A seção de atividades Tá ligado? tem


Equador Ne
a
El Inga gro

para saber mais sobre o as-


Rio Solimões

conhecimentos.
2 nas
Rio Marañon
s
Francisc Rio To c a n ti n

Rio Amazo
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ira
Rio Ju

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vindo
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Rio

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Rio Ara

sunto. Acesso em: 21 set.


o
Rio

oliné Pedra
Pedra
sia

seguido de algumas questões.


Serranópolis
Serranópolis
ranópolis F
Furada
1

como objetivo auxiliar os estudantes a


Rio São

Também pode
aná

Lagoa Santa

2018. Em inglês.
Trópico de Capricórnio
ua io Par
Rio Paraguai
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3
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vindos da

Sua função é aprofundar e


Austrália
Rio
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Rio
da

realizar a leitura do texto básico e, even- ser acessado


Pr
ata

Monte
erde
Verde

ESCALA Pall Aike, Cerro Sota


complementar conteúdos, Viagem virtual
através de
tualmente, de determinados mapas.
0 695 1 390 km

pela mesquita
levantar algum tipo de polêmica
Fonte: Elaborado com base em BLACK, Jeremy (Dir.). World History Atlas. London: DK Book, 2008; HAYWOOD, John.

de Djenné.
Historical Atlas of ancient civilizations. London: Penguim, 2005; SELLIER, Jean. Atlas de los pueblos de América.

um aplicativo
Barcelona: Paidós Ibérica, 2007.

Evidentemente, sua utilização deve ser 42 Capítulo 2 | Origens da humanidade REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO

ou estabelecer alguma relação QrCode.


balanceada de acordo com as necessi- com o presente.
dades de cada grupo de estudantes.
Com tal recurso, pretendemos estimu-
4 REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO
lar a compreensão dos acontecimentos
históricos e as lógicas de organização
cronológica, seus processos, suas es-
truturas sociais, políticas, econômicas
e sociais. Com a análise de determina- Na seção Bate-Bola, procura-se estimular a ela- Com o recurso do Tá na rede!, procuramos utilizar
das representações cartográficas, pro- boração de questionamentos e proposições acerca tecnologias digitais de informação e comunicação
curamos estimular a leitura de mapas e de documentos recorrendo a diferentes linguagens. de modo positivo e responsável, para a apreensão
os movimentos de ocupação, fixação e Em alguns casos, é possível identificar expressões de informações, documentos, contextualizações e
deslocamentos humanos e da sua pro- de opiniões controversas e o encaminhamento de resgate de elementos do cotidiano.
dução material. questões baseadas em princípios éticos, democrá-
ticos e inclusivos.

4 HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


ES Ícones para o(a) professor(a)
ÍCOCONLEÇÃOIA
DA R
ISTÓ
DE H

África relação de gÊnero


Lei 10.645 em ação
RelaçõES
relação de gÊnero
Jogos e celebrações

o
Entre 23 de outubro e 1 de novembro de 2015 ocorreram os Primeiros Jogos Mundiais dos Povos
Indígenas, na cidade de Palmas, em Tocantins. Reuniram-se mais de 30 povos indígenas do Brasil e 20
África-América
e diversidades
Lei 11.639 em ação
povos vindos de diversos continentes. O emocionante encontro envolveu competições e jogos sob o
lema “O importante não é ganhar nem competir, mas celebrar”.
Esses jogos deram continuidade aos Jogos dos Povos Indígenas, organizados desde 1996 no Brasil, e
QUADROS anglo-saxã
COMPLEMENTARES
aos Jogos Tradicionais Indígenas do Pará, praticados desde 2004. Nesses jogos, resgatam-se elementos
mitológicos e valoriza-se a relação dos indígenas com a natureza.
RelaçõES África-
As modalidades são um pouco diferentes das que estamos acostuma-
dos a acompanhar nos esportes modernos: corrida de tora, arco e flecha,
zarabatana, futebol de cabeça, arremesso de lanças, canoagem, corridas
Zarabatana
Tubo comprido de madeira
pelo qual se pode soprar

América Latina
Cidadania proposta pedagógica
Janelas em que estão
um dardo ou pelota de
de velocidade e resistência, lutas corporais, futebol feminino e masculino barro envenenados.
e cabo-de-força.
O cabo-de-força (ou cabo-de-guerra), além da força física dos praticantes, representa as disputas en-
tre forças da natureza, entre o dia e a noite, entre a vida e a morte.
Variações desse jogo aparecem em diversas sociedades: no Egito Antigo, na Birmânia (atual Myan-
mar), nas Coreias, entre os povos indígenas da América do Norte e os povos da Ásia. Em geral, esses e
outros jogos eram praticados antes do cultivo do solo, como parte dos rituais para obter boas colheitas.
presentes textos jogos Oralidade interdisciplinariedade
variados, imagens,
O cabo-de-força figurou como modalidade olímpica entre 1900 e 1920.
SIDNEY OLIVEIRA/AG. PARÁ

mapas ou gráficos Povos indígenas olhares DIVERSOS


complementares. Sua
cidadania
função é inserir novas direitos humanos patrimônio
informações e relações patrimônio
com os conteúdos
do capítulo. Direitos Humanos
Competição de cabo de força feminina. IV Jogos Tradicionais Indígenas. Marapanim, Pará (Brasil), 10 set. 2014.

NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA A História, os seres humanos e o tempo | Capítulo 1 25

LEITURA COMPLEMENTAR

Inclusão
Deus-sol Shamash ditando suas

LEITURA
O CÓDIGO DE HAMURABI leis a Hamurabi, anônimo. Relevo
em diorito, Mesopotâmia,
Leia com atenção o trecho abaixo e alguns artigos selecionados do Código c. 1700 a.C. (imagem e detalhe)

de Hamurabi. Em seguida, responda às perguntas propostas.

COMPLEMENTAR
[...] Para que o forte não prejudique o mais fraco, a fim de proteger as
viúvas e os órfãos, ergui a Babilônia [...] para falar de justiça a toda a terra,
para resolver todas as disputas e sanar todos os ferimentos, elaborei estas
palavras preciosas [...]
Epílogo do Código de Hamurabi.

21. Se alguém arrombar uma casa, ele deverá ser condenado à morte na
frente do local do arrombamento e ser enterrado.
22. Se estiver cometendo um roubo e for pego em flagrante, então ele
Textos de diversos Olhares diversos
tipos (artigos de
deverá ser condenado à morte. [...]
OLHO NO LANCE 129. Se a esposa de alguém for surpreendida em flagrante com outro ho-
mem, ambos devem ser amarrados e jogados dentro d’água, mas o marido
pode perdoar a sua esposa, assim como o rei perdoa a seus escravos. [...]

OLHO NO LANCE

IMAGENS: MUSEU DO LOUVRE, PARIS, FRANÇA


jornais e revistas,
OBSERVE AS IMAGENS 137. Se um homem quiser se separar de uma mulher ou esposa que
lhe deu filhos, então ele deve dar de volta o dote de sua esposa e parte
ACERVO PARTICULAR, SÃO PAULO, BRASIL

Museu virtual
do usufruto do campo, jardim e casa, para que ela possa criar os filhos.
Trabalhos agrícolas Quando ela tiver criado os filhos, uma parte do que foi dado aos filhos deve
ser dada a ela, e esta parte deve ser igual a de um filho. A esposa poderá

Apresenta uma imagem


então se casar com quem quiser.
depoimentos, literatura,
MUSEU CONDÉ, CHANTILLY, FRANÇA

138. Se um homem quiser se separar de sua esposa que lhe deu filhos,
ele deve dar a ela a quantia do preço que pagou por ela e o dote que ela
trouxe da casa de seu pai, e deixá-la partir. [...]

ou conjunto de imagens.
148. Se um homem tomar uma esposa, e ela adoecer, se ele então de-
sejar tomar uma segunda esposa, ele não deverá abandonar sua primeira
esposa que foi atacada por uma doença, devendo mantê-la em casa e
trechos de livros etc.)
Sua função é ajudar você
sustentá-la na casa que construiu para ela enquanto esta mulher viver.
Disponível em: <http://goo.gl/7Ag9Q9>. Acesso em: 03 out. 2018.

de outros autores, retornar


seguidos de questões.
1. Releia com atenção o epílogo do Código de Hamurabi. No seu ca-

a desenvolver habilidades
Atividade agrícola no Egito Antigo. Pintura mural, Tebas, XIXa dinastia. (detalhe)
derno, esclareça os objetivos desse conjunto de leis.
STUART LEAVENWORTH/MCT/GETTY IMAGES

avançar
2. Tendo por base a leitura dos artigos 137, 138 e 148, identifique o tipo
de tratamento que as mulheres recebiam na Mesopotâmia.

em interpretar e analisar 3. Faça uma lista das punições e deveres mencionados nos artigos dis-
poníveis. A intenção aqui é
Mês de junho (Colheita), Barthélemy van Eyck.
Iluminura extraída do manuscrito As mui ricas horas
documentos visuais. A figura do rei como um representante dos deuses é muito forte na
Mesopotâmia. Na parte superior da pedra em que está gravado o Código
de Hamurabi, aparece o rei perante o deus-sol. O deus, com o braço direito
desenvolver ainda mais imagem
erguido, parece estar apresentando as leis ao soberano.

Algumas vezes, a partir sua capacidade de


do Duque de Berry, 1416-1440.
A escrita cuneiforme era obtida por meio de objetos cortantes em forma de
Irrigação mecanizada de alfafa. Fazenda Escalante. Utah (Estados Unidos), 11 jun. cunha que gravavam sinais em tabletes de argila ou monolitos de rocha.
2014.

1. Faça uma breve descrição de cada imagem.


2. Identifique o que as imagens têm em comum e a atividade praticada em cada uma delas.
de textos ou de questões
NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA Mesopotâmios, semitas e povos americanos | Capítulo 3 81
leitura e ampliar seus filme
apresentadas no capítulo, conhecimentos.
3. Anote no seu caderno o que mudou com o passar do tempo e o que permanece semelhante na
prática dessa atividade.
4. Essas imagens podem ser consideradas documentos históricos? Justifique sua resposta.

5. Agora você é o artista! Imagine que você está produzindo uma imagem sobre essa mesma ativi-
dade daqui a 30 anos. Faça um desenho de como você acredita que esse trabalho será feito no
futuro. Considere os seguintes aspectos:
a) Como será a paisagem?
pediremos a você que livro
elabore um desenho e dê
b) Que tipo de alimento será plantado?
c) Quem fará o trabalho de plantio e colheita?
d) Que instrumento será utilizado para esse trabalho?

PERMANÊNCIAS E RUPTURAS
NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA A História, os seres humanos e o tempo | Capítulo 1 27
asas à sua criatividade. Mulheres de Atenas
Chico Buarque de Hollanda e Augusto Boal Mirem-se no exemplo
OBSERVE AS IMAGENS

PERMANÊNCIAS E site
Daquelas mulheres de Atenas
Mirem-se no exemplo

RUPTURAS
Geram pros seus maridos
Daquelas mulheres de Atenas Os novos filhos de Atenas.
Vivem pros seus maridos Elas não têm gosto ou vontade
Orgulho e raça de Atenas Nem defeito nem qualidade
Quando amadas, se perfumam Têm medo apenas.
Se banham com leite, se arrumam

Conteúdo digital
Não têm sonhos, só têm presságios.

Atividades que
Suas melenas O seu homem, mares, naufrágios...
Quando fustigadas não choram Lindas sirenas
Se ajoelham, pedem imploram Morenas
Mais duras penas Mirem-se no exemplo

procuram relacionar
Cadenas Daquelas mulheres de Atenas
Mirem-se no exemplo Temem por seus maridos
Daquelas mulheres de Atenas Heróis e amantes de Atenas
Sofrem pros seus maridos As jovens viúvas marcadas

algum assunto
Poder e força de Atenas E as gestantes abandonadas
Quando eles embarcam soldados Não fazem cenas
Elas tecem longos bordados Vestem-se de negro, se encolhem
QUEBRA-CABEÇA Mil quarentenas Se conformam e se recolhem

desenvolvido no
E quando eles voltam, sedentos Às suas novenas
1. Releia o quadro complementar “Homo lu- 3. Uma das questões mais importantes do capí- Querem arrancar, violentos Serenas
dens” (p. 36). Agora responda ao que se pede: tulo são as transformações que permitiram o Carícias plenas, obscenas Mirem-se no exemplo

QUEBRA-CABEÇA
a) Defina a palavra ludens. desenvolvimento da cultura humana. Faça um Mirem-se no exemplo Daquelas mulheres de Atenas

capítulo com questões


texto dissertativo discutindo natureza e cultura. Daquelas mulheres de Atenas Secam por seus maridos
b) Comente a possibilidade de denominar os
Despem-se pros maridos Orgulho e raça de Atenas
Homo sapiens como Homo ludens. 4. No seu caderno, faça a conversão das seguin- Bravos guerreiros de Atenas Mulheres de Atenas. Meus caros amigos (1976).
c) Comente a atração humana por objetos tes datas para séculos em números romanos: Quando eles se entopem de vinho (CD), de Chico Buarque, Philips.
esféricos.
Costumam buscar um carinho

Conjunto de atividades da atualidade. O


3500 a.C.; 2500 a.C.; 476 d.C.; 1453 d.C.;
1789 d.C. De outras falenas
(Retome os quadros da página 23.) Mas no fim da noite, aos pedaços
2. Pesquisa sobre os jogos mais apreciados hoje Quase sempre voltam pros braços 1. Após a leitura atenta da letra da canção de Chi-
5. Com as datas do exercício 4, faça uma linha De suas pequenas

A seção Leitura complementar visa


em dia.

diversificadas objetivo aqui é utilizar


co Buarque, transcreva no seu caderno duas
a) Elabore uma lista de vinte pessoas conheci- do tempo em seu caderno. Helenas
das a serem entrevistadas. Sugestão: inclua 6. Com base nas informações sobre as pinturas
pessoas da sua família, vizinhos e amigos. rupestres e sobre a vida dos Homens de La-
O
SALT
relativas ao texto a História como uma
b) Para o questionário, elabore uma tabela goa Santa, elabore desenhos que procurem
triplo
oferecer expressões e visões diversas
(intitulada Pesquisa sobre Jogos/Esportes) representar as características da vida cotidia-
de 21 linhas, dividida em 4 colunas: nome na desses grupos humanos.
do entrevistado; idade; gênero; jogo ou Albert Uderzo (ilustrações), embarcam

básico e aos quadros ferramenta capaz de


esporte preferido. Filme em uma nova aventura em que terão de Livros
vencer os Jogos Olímpicos para que o

e/ou complementares aos conteúdos


c) Ofereça ao seu entrevistado a seguinte lista 7. Defina cada um dos conceitos abaixo e Asterix nos Jogos Olímpicos Grécia e Roma
jovem gaulês Apaixonadix possa se ca-
de possibilidades e saliente que ele deve organize um pequeno dicionário concei- França/Alemanha/Espanha/Itália/Bél- sar com a princesa Irina e derrotar o ter- FUNARI, P. P. São Paulo: Contexto, 2006.
escolher apenas uma delas: tual em seu caderno:
gica, 2008. rível Brutus. Este, no entanto, também

complementares. analisar também o


Direção de Frédéric Forestier e Tho- está pronto para usar todos os estrata- Asterix nos Jogos Olímpicos
• Esportes (ele indica o esporte preferido)
• hominização mas Langmann. gemas para ganhar os jogos e livrar-se GOSCINNY, R.; UDERZO, Albert. Rio de
• Jogos eletrônicos/digitais (ele indica o
• nomadismo

conceituais oferecidos nos capítulos


Asterix e Obelix, personagens de qua- de seu pai, Júlio César. Janeiro: Record, 2008.
jogo preferido) • sítio arqueológico drinhos de René Goscinny (histórias) e
• Jogos de tabuleiros/cartas/peças (ele

Tem como objetivo presente.


• sedentarização
indica o jogo preferido)
• eurocentrista
136 Capítulo 5 | A Grécia Antiga REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO
• Reality shows (ele indica o jogo preferido)

e estimular posicionamentos críticos


• Outros (ele indica algum jogo que não se

encaixe nos anteriores)


d) Aplique o questionário a cada entrevistado
e complete a sua tabela.
8. Vamos construir
nossos tags. Siga
as instruções do Pesquisando propor desafios,
acerca da análise documental e da pro-
e) Em uma folha, elabore uma nova tabela na inter-

SALTO TRIPLO
net, na seção Passo a
passo (p. 7), uti-

estimular pesquisas e
intitulada Faixa Etária. Essa tabela deve ser lizando as palavras-cha
dividida em 6 colunas: até 8 anos; de 9 a 12 ve abaixo:
anos; de 12 a 20 anos; de 20 a 35 anos; de Hominídeos
35 a 50 anos; mais de 50 anos. Australopithecus
f) Distribua os jogos preferidos de acordo
com a idade dos entrevistados.
g) Em outra folha, elabore uma nova tabela
intitulada Masculino/Feminino. Essa tabela
Homo habilis
Cro-Magnon
organizar conceitos Indicações de filmes, livros e sites para aprofundar dução historiográfica.
Neanderthalensis
e informações.
deve ser dividida em 2 colunas.
h) Distribua os jogos preferidos de acordo
com o sexo dos entrevistados.
i) Elabore um texto comentando os dados
Homo sapiens

Homo erectus
temas desenvolvidos nos capítulos e ampliar sua
capacidade de pesquisa. Como na modalidade
obtidos pela entrevista.

52 Capítulo 2 | Origens da humanidade REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO

atlética, três impulsos complementares para auxiliar Na seção Permanências e rupturas,


sua aprendizagem.
entrelaçamos temporalidades diversas
de maneira a traçar comparações en-
NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA 5
tre processos sociais e acontecimen-
tos, problematizando conceitos e pro-
cedimentos norteadores da produção
historiográfica reforçando os princí-
Nas variadas atividades da seção Quebra-cabeça, pios éticos, democráticos, inclusivos,
resgatamos textos para o aprimoramento da capa- sustentáveis e solidários. Nessa se-
Na seção Olho no Lance, por meio de documentos
cidade de lecto-escrita, estimulamos a compreen- ção procuramos oferecer uma aprendi-
visuais procuramos estimular os questionamentos,
são factual e cronológica da História bem como as zagem significativa e responder às le-
interpretações e confronto de visões controversas
transformações processuais das estruturas sociais, gítimas e necessárias perguntas que
no sentido de estimular a reflexão e o posiciona-
provocamos a formulação de hipóteses e questiona- muitas vezes são formuladas pelos es-
mento crítico por parte dos estudantes calcado em
mentos e a produção de pesquisas em meio digital tudantes: Por que estamos estudando
princípios éticos e democráticos.
e entrevistas e resgatamos sistematicamente as for- isso? O quê isso tem a ver com a mi-
mulações de conteúdos conceituais. Como eixo nor- nha vida e/ou com o mundo contem-
teador, reforçamos os princípios éticos, democráti- porâneo?
cos, inclusivos, sustentáveis e solidários.

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano 5


Passo a passo
ROTEIRO PARA ANÁLISE
DE FILMES Para a análise de imagens e textos, elaboramos alguns roteiros que vão ajudar nesse trabalho.
Sugerimos um conjunto de procedimen- É bom dizer que os roteiros não são a única maneira de analisar esses materiais, eles servem como
tos para análise de filmes. Tais procedi- dicas e guias de orientação para seu estudo.
mentos não foram inseridos no livro do
aluno. Foram reservados para o Manual A divisão da História em períodos
HISTÓRIA MUNDIAL OU EUROPEIA?
Apesar de úteis, é necessário observar que as divisões em perí-
TÁ LIGADO
33. Comente a seguinte fra-

DIDIER MORAES/MARCELLO ARAÚJO


odos são imprecisas e questionáveis. Por exemplo, a chamada Idade se: “Os diversos grupos

do professor para que o docente o utili-


Idade da Pedra Idade dos Metais dos Metais situa-se em uma transição entre a Pré-História e a História. humanos, espalhados
Pré-História Na verdade, os diversos grupos humanos, espalhados pela Terra, pela Terra, experimen-
2500000 a.C. 12000 a.C. 6000 a.C. 3500 a.C. 2500 a.C. experimentaram ritmos variados de desenvolvimento das técnicas de taram ritmos variados
fabricação de instrumentos de pedra ou metal, das práticas agrícolas e de desenvolvimento
Paleolítico Neolítico Idade do Cobre Idade do Bronze Idade do Ferro

LATINSTOCK
pastoris e de desenvolvimento de linguagens visuais e escritas. das técnicas de fabrica-

ze ao exibir trechos ou filmes inteiros,


A Idade da Pedra é o período duran- A Idade dos Metais é o período a partir do qual os ção de instrumentos de
te o qual os seres humanos desen- seres humanos começam a desenvolver utensílios de As subdivisões da História, em contrapartida, foram definidas
pedra ou metal, das prá-
volveram utensílios de pedra, muitas metais. A utilização dos metais inicia-se na Pré-História principalmente com base em acontecimentos políticos. Podemos or-
vezes utilizando também ossos de e estende-se para o período definido convencional- ticas agrícolas e pastoris
ganizar a História da humanidade sob outros pontos de vista, como
Caça de cervos. animais e pedaços de madeira fixa- mente como História. e de desenvolvimento
Pintura rupestre. dos com resinas e fibras vegetais. o econômico, o religioso ou o cultural.
de linguagens visuais e

caso considere conveniente.


Valltorta (Espanha), Assim, poderíamos escolher outras datas significativas e outros escritas”.
c. 7000 a.C. (detalhe)
marcos históricos.
34. Explique por que a

5-4 mil a.C.


50 mil a.C.

11 mil a.C.
É importante destacar que tal forma de organizar a História e sub-

1500 a.C.

1300 a.C.

1200 a.C.
3 mil a.C.

400 d.C.
divisão tradicional da

850 a.C.

500 a.C.

200 a.C.

100 a.C.
dividi-la está baseada na trajetória das sociedades europeias. Essa
História pode ser consi-
História se aplicaria, realmente, apenas ao Ocidente europeu. Isso ten-
derada eurocentrista.
América de a deixar o resto do mundo em segundo plano. Ou melhor, acaba
fazendo com que a História do resto do mundo seja ordenada a partir
Luzia Ocupação Cultura Cultura Cultura

Procedimentos para análise


(Lagoa da Ilha do Olmeca Adena Hopewell de uma referência europeia.
Santa - Marajó (México) (EUA) (EUA) A História apresentada dessa maneira é chamada de eurocentrista, pois só

FUNDAÇÃO MUSEU DO
HOMEM AMERICANO,
PIAUÍ, BRASIL
MG)
Primeiros núcleos Aterro artificial Cultura Cultura Cultura considera as outras partes do planeta em função de suas ligações com a Europa.
Vestígio mais sedentários agrícolas mais antigo da Chavín Moche Marajoara
antigo de presença
Apesar disso, tais divisões em geral são as mais utiliza-
América do Norte (Peru) (Peru) (Brasil)
humana na América Seleção de plantas e (Louisiana) das pelos historiadores. É uma demonstração de

de filmes
(Boqueirão da domesticação de animais como o poderio econômico, político e cultu-
Beijo. Pintura rupestre,
Pedra Furada - PI) no México, região Andina,
Toca do Boqueirão da
Mesoamérica ral das sociedades ocidentais (sobretudo
Pedra Furada, Parque
Nacional da Capivara. Europa e Estados Unidos da América)
São Raimundo Nonato, acaba sendo valorizado também
Piauí (Brasil), c. 10000
a.C.-6000 a.C. (detalhe) na nossa maneira de pensar e di- AUSTRÁLIA

vidir a História mundial.

• O professor deverá destacar que os fil-


Assim, tais divisões de-
vem apenas servir como POLO SUL
Idade Antiga Idade Média Idade Moderna Idade Contemporânea
uma referência para os nos-
História
sos estudos. Não são ver-
4000 a.C. 476 d.C. 1453 d.C. 1789 d.C.
dades inquestionáveis.

MÁRIO KANNO
ÁFRICA

mes contam histórias por meio de ima-


Se estende de aproxi- Começa a partir do sé- Tem início em 1453 Da Revolução Fran- Pelo contrário, são demar-
BRASIL

MUSEU BRITÂNICO,
LONDRES, INGLATERRA
madamente 4000 a.C., culo V e se estende até (ou 1492) e termina cesa, iniciada em cações provisórias sobre
tendo como marco o século XV, no ano de em torno de 1789, 1789, até os dias de
principal a invenção 1453, que corresponde com a Revolução hoje. Nesse período as quais devemos refletir e
da escrita, até a queda à tomada de Constan- Francesa. É o estabelece-se a analisar.
do Império Romano tinopla pelos turcos e período das nave- sociedade industrial

gens, sons, diálogos e efeitos especiais


Placa de argila com do Ocidente, em 476. ao fim da Guerra dos gações marítimas e desenvolvem-se EUROPA AMÉRICA
Mundo invertido com Brasil no
sinais contábeis em Esse período com- Cem Anos. Também se europeias, que vão as instituições e os DO NORTE
centro, Mário Kanno. Ilustração
escrita cuneiforme. preende a História pode definir seu tér- resultar na conquis- regimes políticos elaborada especialmente para
Mesopotâmia,
do Oriente Próximo, mino em 1492, com a ta da América e na atuais. esta coleção, 2015.
c. 1980 a.C.
dos gregos e dos chegada dos europeus montagem das so-

AUGUSTO CORUJA
POLO NORTE
romanos, e vai até as à América e o início da ciedades coloniais.

que conduzem o espectador através de


invasões germânicas conquista colonial.
do século V.

50 Capítulo 2 | Origens da humanidade REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA Origens da humanidade | Capítulo 2 51

uma narrativa recheada de mensagens e Babel brasileira, Augusto Coruja. Fotomontagem, 2012.

informações.
• O professor deverá verificar se é preci- ANÁLISE DE DOCUMENTOS VISUAIS LEITURA DE TEXTOS
so passar o filme na íntegra ou apenas Para a análise de imagens, precisamos estar aten- Lembre-se: no momento da leitura, temos de es-
partes selecionadas, e se o filme contém tos a diversos detalhes. É como assistir a um espe- tar concentrados. Conversas e brincadeiras atrapa-
táculo teatral ou a uma partida de futebol. Temos lham. Imagine um jogador de futebol ao cobrar um
cenas impróprias para a faixa etária dos
de identificar o palco onde se desenrola a ação e pênalti. Para não chutar de bico ou mandar a bola
alunos. as personagens em cena, o campo de jogo, os uni- por cima do gol, ele fica atento a todos os detalhes.
• Esclarecer que o filme representa um epi- formes dos atletas, o juiz, as jogadas, os esquemas 1. Em uma primeira leitura, identifique o autor,
sódio histórico, mas não é a realidade. táticos, a torcida.
a data, o título e o gênero de texto (artigo
O primeiro ponto a se levantar em uma 1. Identifique o autor, a data e o tipo de de jornal, poesia, literatura, trecho do livro,
aula de História é que tanto os filmes imagem, ou seja, o seu suporte material: discurso etc.).
quanto os documentos são representa- pintura, baixo-relevo, fotografia, escultura,
2. Faça uma lista com as palavras que você não
gravura, cartaz etc.
ções da realidade. entendeu.
2. Faça um passeio pelo interior da imagem
• Discutir com os alunos o fato de que o fil- 3. Organize suas dúvidas. Faça no seu caderno
antes de começar a analisá-la. Observe-a
me é uma forma de conhecimento e não três listas. A primeira com palavras que você
atentamente.
poderia arriscar o significado. A segunda com
mero entretenimento. O filme é uma vi-
3. Uma pintura, por exemplo, cria espaços. palavras que você entendeu pelo texto. E a
são particular do roteirista e do diretor, Alguns estão mais perto, outros mais terceira com aquelas que realmente você não
que se baseiam em fatos históricos. Para distantes. Alguns são mais fechados, outros tem ideia do que significam.
isso, selecionaram e interpretaram as in- abertos. Algumas cenas estão no centro da
4. Consulte o dicionário. Escreva o significado
formações de que necessitavam. imagem, outras estão nas laterais. Identifique
das palavras que você não conhecia. Confira as
esses espaços.
• Preparar um roteiro de perguntas como outras palavras e corrija, se necessário.
forma de orientação para que os alunos 4. Identifique os elementos da imagem:
5. Faça uma nova leitura do texto e identifique
pessoas, animais, construções, a paisagem.
percebam os conflitos, o tema, as perso- as ideias mais importantes de cada parágrafo
nagens. 5. Observe qual é o lugar, a posição e o e o assunto central do texto. Para essas
tamanho de cada um desses elementos. tarefas, você pode fazer um levantamento das
• Antes da exibição, retomar alguns con- Veja o que está em destaque, no centro, nas palavras-chave.
ceitos já desenvolvidos no curso e que laterais, no alto e embaixo.
6. Depois resolva as questões propostas nas
podem ser relacionados e destacados 6. Observe as ações retratadas. Identifique as seções.
com o filme. principais e as secundárias.
• Distribuir o roteiro de perguntas. Suges- 7. Qual é o tema ou assunto da imagem?
tões: De que trata o filme? Onde se desen- 8. Depois, responda às questões propostas.
volve a maior parte das cenas? Que cenas
mostram conflitos? Qual a mensagem?
• Durante a exibição é importante que os
alunos possuam material para fazer ano-
tações e registros. O professor deve des- 6 REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO

tacar previamente 5 ou 6 aspectos a se-


rem observados.
• Ao final, o professor poderá propor a ela-
boração de um texto que desenvolva cri-
ticamente algum aspecto importante do
tema associado ao filme.
• O filme também pode ser utilizado para
se iniciar a discussão de um assunto que
ainda não tenha sido abordado. O pro-
fessor pode propor uma questão para
ser investigada. O aluno deverá perceber
o contexto histórico a que o filme se re-
fere, o que ele está mostrando, que fenô-
menos e fatos são retratados.

6 HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


LETRAMENTO DIGITAL

Desde seu surgimento e emprego nos


ÁFRICA (SÉC. III D.C.)
meios acadêmicos, o letramento (ou al-
MÁRIO YOSHIDA

fabetismo) vem ampliando seus sen-


tidos. Ao falar-se de letramento di-
gital, a referência é a cibercultura (ou
cultura da tela), sua linguagens (que
OCEANO
usam sons, sinais gráficos etc.), gêne-
ros (blog, e-mail, apresentação visual,
Cesareia
ATLÂNTICO Cartago
Tingis
Mar
Me
ciberpoema, twit etc.), recursos (presen-
diterrâneo Tiro
Númida Leptis Magna
Mauro Alexandria

ciais e físicos, a distância ou virtuais),


Gétulo
Líbio Petra
Nasamão EGITO
Farfúsio

Garama
Tebas

Berenice
Península
Arábica
<http://goo.gl/09hY2U>
a história de sua construção, as conse-
Para
Índia
quências de suas práticas e como o in-
ilo
Rio N

Tichitt-Walata
Djenné
Para PESQUISANDO NA INTERNET divíduo pode inserir-se nessa cultura.
Kumbi Saleh Meroe Índia
Adulis

A participação da cibercultura, as lingua-


Soninkê Lago Chade
Rio

Sennar
Axum
Navegar é preciso! As pesquisas na internet podem

ge

Avalitae Emporium

gens digitais e suas transformações li-


r

ser mais eficientes e seguras se tivermos palavras-cha-


povos
nilóticos
núcleo
povos do Atlântico Bantu Para
ocidental

ve estabelecidas, com critério e atenção. Com essas


Zanzibar

ESCALA
gam-se a um passado recente, cujos
0 750 1 500 km ferramentas, a navegação pela internet também será principais efeitos vêm sendo sentidos
mais precisa e eficaz. e levam os pesquisadores de diferentes
go
C on

Império Romano Ri OCEANO


Na linguagem da internet, costuma-se utilizar tag
o

Pigmeu ÍNDICO
campos do conhecimento, entre eles, o
como sinônimo para palavra-chave. Na verdade, tag
Império de Kush

educacional, a olhar para o futuro social.


Confederação Garamante
Reino de Axum
Khoi-Khoi
em português significa etiqueta. É uma forma de clas-
Rotas transaarianas
Principais direções
do tráfico do ouro o
Za
mbeze sificar e orientar a pesquisa. Assim, ao utilizar um tag É possível falar, hoje, para além de al-
estamos aplicando uma espécie de bússola que nos
Ri

Expansão Bantu
Khoi-Khoi fabetizados e analfabetos, de nativos di-
Expansão dos povos nilóticos
Limite sul do deserto
im
p o po orienta em nossas pesquisas pela internet. Você pode gitais (indivíduos que, desde o seu nas-
L

criar esses tags ou apenas utilizar as sugestões forneci-


Rio

Minas de ouro
cimento, estão mergulhados na cultura
das na seção “Quebra-cabeça” presente em cada ca-
Rotas comerciais San
Rio Orange

digital, também denominados ciberna-


Estradas romanas
Salinas ESCALA pítulo do seu livro. De posse desses tags:
Khoi-Khoi Povos 0 750 1 500 km
tivos), imigrantes digitais (indivíduos
1. Elabore uma definição resumida para cada tag a que estão se adaptando às mudanças
ser pesquisado.
LEITURA DE MAPAS da cultura do papel para a digital, tam-
2. Escolha um site de busca confiável para aplicar bém denominados cibernaturalizados)
O mapa é a representação de determinado es-
seus tags. e excluídos digitais (indivíduos que estão
paço geográfico. Deve ser lido como uma com-
posição de texto e imagem. Assim, vamos des- 3. No menu do site de busca, escolha o suporte distantes da participação digital).
tacar alguns procedimentos necessários para desejado (web, imagens, vídeos). Educa-se, hoje, para a cibercultura, uma
essa leitura.
4. Para textos, aplique seus tags em pesquisas na cultura de simultaneidade de lingua-
1. Leia o título do mapa. Nele está contido o web. gens, da viagem pelos sentidos em teias
tema representado. variadas. Cabe ao professor conhecer
5. Para fotos, desenhos, pinturas, gráficos e mapas,
2. Identifique as partes do mundo retratadas aplique seus tags em pesquisas de imagens. mais essas teias, participar de suas prá-
(continentes, países, regiões, localidades ticas, refletir criticamente sobre elas,
6. Para vídeos e trailers de filmes, aplique seus tags
etc.). para tornar-se um mediador mais efi-
em pesquisas de vídeos.
3. Identifique os oceanos, rios e mares. ciente das relações de seus alunos, ora
7. Para cada pesquisa realizada, selecione pelo
4. Verifique se há representação de relevo ou menos cinco fontes que você considera mais nativos ora excluídos digitais, com essas
vegetação. interessantes. Adote como critério de seleção a mesmas práticas em sala de aula.
5. Verifique se há representação de cidades, definição resumida conforme o item 1. Bibliografia
reinos, impérios ou outra divisão política no 8. Verifique se há contradição entre a definição BONILLA, M. H. S.; PRETTO, N. L. (Org.). In-
mapa. inicial e as informações encontradas durante a clusão Digital: polêmica contemporânea.
6. Perceba quais são as partes destacadas. pesquisa. Salvador: EDUFBA, 2011.
7. Leia com atenção as legendas e 9. Selecione as informações de cada fonte que GEREMIAS, B. M. Entre o lápis e o mouse:
identifique no mapa os símbolos e as cores você considerou relevante para melhorar a sua práticas docentes e tecnologias da comu-
correspondentes. São informações muito definição inicial. nicação digital. Dissertação de Mestrado.
importantes. 10. Reelabore a sua definição inicial com base nos Universidade Federal de Santa Catarina,
dados selecionados. 2007.
HENRICHS, M. R. Práticas de letramento di-
gital na formação de professores: um de-
NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA 7 safio contemporâneo. Dissertação de Mes-
trado. Universidade Federal de Juiz de Fora,
Juiz de Fora, 2012.
MARCUSCHI, L. A.; XAVIER, A. C. (Org.). Hi-
pertexto e gêneros digitais: novas formas
de construção de sentido. Rio de Janeiro:
Lucerna, 2005.
SANTAELLA, L. Linguagens líquidas na era
da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007.
________. Navegar no ciberespaço: o per-
fil cognitivo do leitor imersivo. São Paulo:
Paulus, 2004.
SOARES, M. Letramento: um tema em três
gêneros. Belo Horizonte, Minas Gerais: Au-
têntica, 1998.
XAVIER, A. C. S. A era do hipertexto: lingua-
gem e tecnologia. Recife: Ed. Universitária
da UFPE, 2009.

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano 7


Habilidades
Sumário
Capítulo 1
Caminhos e deslocamentos dos povos

1º Bimestre
(EF06HI01) Identificar diferentes for- A História, os seres originários do Brasil, 40
mas de compreensão da noção de tem-
po e de periodização dos processos his-
1 humanos e o tempo Vestígios no Brasil, 40
Bate-bola: Os primeiros seres humanos na
tóricos (continuidades e rupturas). América, 42
(EF06HI02) Identificar a gênese da pro- Jogo aberto, 12 Os sambaquis, 44
dução do saber histórico e analisar o O que é História?, 14 Os sítios arqueológicos vivos, 44
significado das fontes que originaram
determinadas formas de registro em so- Compreender a História, 14 A arte rupestre no Brasil, 45
ciedades e épocas distintas. Os historiadores, 15 Divisões e períodos da História humana, 47
Tudo é história, 16 A Idade da Pedra, 47
Capítulo 2 Presente, passado e futuro, 16 O Período Neolítico, 48
(EF06HI01) Identificar diferentes for- Comunicação e tecnologia, 16 A agricultura, 48
mas de compreensão da noção de tem- Para medir o tempo, 17 Novas ferramentas, 48
po e de periodização dos processos his- História das horas, 18 Sedentarização, 48
tóricos (continuidades e rupturas). A Idade dos Metais, 49
Bate-bola: A sonda Voyager 1, 19
(EF06HI02) Identificar a gênese da pro- História mundial ou europeia?, 51
dução do saber histórico e analisar o Escritos nas estrelas, 20
Quebra-cabeça, 52
significado das fontes que originaram Tempos para a agricultura, 20
Leitura complementar: O único animal, 53
determinadas formas de registro em so- As festas e o tempo circular, 21
ciedades e épocas distintas. Olho no lance: Comida, diversão e arte, 54
O tempo dos mitos, 21
(EF06HI03) Identificar as hipóteses cien- Permanências e rupturas: Nomadismo e
O tempo histórico, 22 telefonia celular, 55
tíficas sobre o surgimento da espécie hu-
O tempo judaico-cristão, 23 Salto triplo, 55
mana e sua historicidade e analisar os
significados dos mitos de fundação. Para contar os séculos, 23
Os jogos e o tempo, 24 Quadros do capítulo
(EF06HI04) Conhecer as teorias sobre a Evolução humana, 32 • Homo ludens, 36 • Luzia e o
origem do homem americano. Quebra-cabeça, 26
grupo de Lagoa Santa, 41 • Tradições da arte rupestre
(EF06HI05) Descrever modificações da Leitura complementar: [Sobre a História], 26 no Brasil, 46 • A divisão da História em períodos, 50
natureza e da paisagem realizadas por di- Olho no lance: Trabalhos agrícolas, 27
ferentes tipos de sociedade, com desta-

2º Bimestre
Permanências e rupturas: Brincadeiras de criança, 28
Mesopotâmios, semitas
3
que para os povos indígenas originários e
Salto triplo, 29
povos africanos, e discutir a natureza e a e povos americanos
lógica das transformações ocorridas. Quadros do capítulo
(EF06HI06) Identificar geograficamen- Calculadora de mão, 18 • A semana, 22 • Jogos e
te as rotas de povoamento no território celebrações, 25 Jogo aberto, 56
americano. A organização da vida coletiva, 58
Os rios e o desenvolvimento humano, 58
Capítulo 3
(EF06HI02) Identificar a gênese da pro- 2 Origens da humanidade Sociedades fluviais, 58
Primeiras povoações na Índia e na China, 58
dução do saber histórico e analisar o A Mesopotâmia, 59
significado das fontes que originaram Jogo aberto, 30 Os trabalhos e os deuses, 60
determinadas formas de registro em so- Desigualdade social, 61
ciedades e épocas distintas. Origens, 32
O desenvolvimento dos seres humanos, 33 Novas classes sociais, 61
(EF06HI07) Identificar aspectos e for- O Estado, 62
mas de registro das sociedades antigas Homo sapiens, 34
na África, no Oriente Médio e nas Amé- Os primeiros Estados, 62
Natureza e cultura, 34
ricas, distinguindo alguns significados Os sumérios e a vida urbana, 63
A vida dos primeiros seres humanos, 34
presentes na cultura material e na tradi- Cidades-Estado, 64
A domesticação do fogo, 35
ção oral dessas sociedades. Comércio, 65
Arte rupestre: técnica, comunicação, diversão
(EF06HI08) Identificar os espaços terri- Religião e arte na vida dos sumérios, 66
e arte, 35
toriais ocupados e os aportes culturais, Azuis, 66
A arqueologia e os sítios arqueológicos, 37
científicos, sociais e econômicos dos as- Zigurates, 67
tecas, maias e incas e dos povos indíge- O arqueólogo, 37 Os acadianos, 67
nas de diversas regiões brasileiras. Vestígios na África, 38 Os amoritas: o primeiro Império
(EF06HI13) Conceituar “império” no América, 39 Babilônico, 68
mundo antigo, com vistas à análise das
diferentes formas de equilíbrio e dese- 8 REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO
quilíbrio entre as partes envolvidas.
(EF06HI15) Descrever as dinâmicas de
circulação de pessoas, produtos e cul-
turas no Mediterrâneo e seu significado.
(EF06HI19) Descrever e analisar os di- MATERIAL DIGITAL
ferentes papéis sociais das mulheres no
Plano de desenvolvimento anual
mundo antigo e nas sociedades medievais.

Capítulo 4
(EF06HI01) Identificar diferentes for-
mas de compreensão da noção de tem-
po e de periodização dos processos his-
tóricos (continuidades e rupturas).
(EF06HI02) Identificar a gênese da pro-
dução do saber histórico e analisar o
significado das fontes que originaram
determinadas formas de registro em so-
ciedades e épocas distintas.

8 HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


(EF06HI05) Descrever modificações da
natureza e da paisagem realizadas por di-
ferentes tipos de sociedade, com desta-
que para os povos indígenas originários e
Assírios: o jogo da guerra, 69 A unificação do Egito, 93
povos africanos, e discutir a natureza e a
Os caldeus: o segundo Império Babilônico, 69 Faraó, 93 lógica das transformações ocorridas.
Tijolo: a casa, o palácio, o templo, a cidade, 70 O armazenamento da produção, 93 (EF06HI07) Identificar aspectos e for-
Bate-bola: Desvendando a escrita, 71 A escrita dos egípcios, 94 mas de registro das sociedades antigas,
Os semitas, 72 Mulheres poderosas, 95 na África, no Oriente Médio e nas Amé-
A divisão social no Egito Antigo, 96 ricas, distinguindo alguns significados
Os fenícios e o comércio, 72
A religião egípcia, 98 presentes na cultura material e na tradi-
A cor púrpura, 73 ção oral dessas sociedades.
Navegantes, 73
A crença na vida após a morte, 99
(EF06HI13) Conceituar “império” no
Colônias, 74
Politeísmo, 100 mundo antigo, com vistas à análise das
Monoteísmo, 100 diferentes formas de equilíbrio e dese-
Religião e sociedade, 74
Bate-bola: A técnica de embalsamar corpos, 101 quilíbrio entre as partes envolvidas.
Cidades-Reino, cidades-Estado, 74
A periodização da história egípcia, 101 (EF06HI15) Descrever as dinâmicas de
Legado fenício, 74
Quebra-cabeça, 105 circulação de pessoas, produtos e cul-
Os hebreus, 75 turas no Mediterrâneo e seu significado.
Leitura complementar: [Egito e Mesopotâmia], 105
A origem do povo hebreu, 75 (EF06HI17) Diferenciar escravidão, ser-
Olho no lance: Egípcios, 106
A época dos patriarcas, 75 vidão e trabalho livre no mundo antigo.
Permanências e rupturas: Cleópatra, 106
A época dos juízes, 76 (EF06HI19) Descrever e analisar os di-
Salto triplo, 107 ferentes papéis sociais das mulheres no
A monarquia, 77
Quadros do capítulo mundo antigo e nas sociedades medievais.
Sociedades Americanas, 78
Olmecas, 78 O calendário dos egípcios, 92 • Os escribas, 94 •
Trabalho e divisão social, 96 • Períodos do Império, 102
Capítulo 5
Maias, 78 (EF06HI01) Identificar diferentes for-
• Senet: o jogo da alma, 104
Astecas, 78 mas de compreensão da noção de tem-
3º Bimestre

Incas, 79 po e de periodização dos processos his-


Os povos originários do Brasil, 79
Quebra-cabeça, 80
5 A Grécia Antiga tóricos (continuidades e rupturas).
(EF06HI02) Identificar a gênese da pro-
dução do saber histórico e analisar o
Leitura complementar: O Código de Hamurabi, 81 significado das fontes que originaram
Jogo aberto, 108
Olho no lance: O maior dos zigurates da determinadas formas de registro em so-
Mesopotâmia, 82 O mundo grego na Antiguidade, 110
ciedades e épocas distintas.
Permanências e rupturas: Os rios mais poluídos do Período Pré-Homérico, 111
(EF06HI09) Discutir o conceito de Anti-
Brasil, 84 O labirinto do Minotauro, 111 guidade Clássica, seu alcance e limite na
Salto triplo, 85 A sociedade minoica, 111 tradição ocidental, assim como os impac-
A sociedade micênica, 112 tos sobre outras sociedades e culturas.
Quadros do capítulo
O jogo real de Ur, 65 • A Epopeia de Gilgamesh, 66 Período Homérico, 112 (EF06HI10) Explicar a formação da Gré-
• Invasão do Iraque pelo Exército dos EUA provoca
cia Antiga, com ênfase na formação da
Organização política, 112 pólis e nas transformações políticas, so-
prejuízos arqueológicos, 71 • Indígenas do Brasil: a A Guerra de Troia, 113 ciais e culturais.
sociedade marajoara, 80
Período Arcaico, 113 (EF06HI11) Caracterizar o processo de
As cidades-Estado gregas, 114 formação da Roma Antiga e suas confi-
gurações sociais e políticas nos perío-
4 O Egito Antigo A vida em Atenas, 114
Crise e reformas, 114
dos monárquico e republicano.
Reformas de Sólon, 115 (EF06HI12) Associar o conceito de cida-
Jogo aberto, 86 dania a dinâmicas de inclusão e exclu-
Tirania de Psístrato, 115
são na Grécia e Roma antigas.
A África de muitos povos, 88 O nascimento da democracia, 116
(EF06HI13) Conceituar “império” no
A formação do Egito, 89 Esparta: um Estado fortificado, 117 mundo antigo, com vistas à análise das
Hapi, o deus-rio, 90 Estado militar, 117 diferentes formas de equilíbrio e dese-
Fertilização, 90 Organização política, 117 quilíbrio entre as partes envolvidas.
Os trabalhos de irrigação, 90 Laconismo, 118 (EF06HI15) Descrever as dinâmicas de
A formação dos nomos ao longo do Nilo, 91 Bate-bola: Falando grego, 118 circulação de pessoas, produtos e culturas
As federações do Baixo e Alto Egito, 91 Período Clássico, 119 no Continente Africano e seu significado.
(EF06HI16) Caracterizar e comparar as
NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA 9 dinâmicas de abastecimento e as for-
mas de organização do trabalho e da
vida social em diferentes sociedades e
períodos, com destaque para as rela-
ções entre senhores e servos.
(EF06HI17) Diferenciar escravidão, ser-
Tabela completa da BNCC nas páginas XVI a XIX.
vidão e trabalho livre no mundo antigo.
(EF06HI19) Descrever e analisar os di-
ferentes papéis sociais das mulheres no
mundo antigo e nas sociedades medievais.

Capítulo 6
(EF06HI01) Identificar diferentes for-
mas de compreensão da noção de tem-
po e de periodização dos processos his-
tóricos (continuidades e rupturas).

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano 9


Sumário (cont.)
Habilidades
(EF06HI02) Identificar a gênese da pro-
A filosofia grega, 119 A conquista da Macedônia, 146
dução do saber histórico e analisar o
significado das fontes que originaram Amantes da sabedoria, 119 As influências da cultura grega, 146
determinadas formas de registro em so- Os Jogos Olímpicos e a integração grega, 120 Consequências das conquistas, 146
ciedades e épocas distintas. Principais modalidades olímpicas, 120 A escravidão, 147
(EF06HI09) Discutir o conceito de Anti- Trégua e celebrações, 121 A invenção do latifúndio e o escravismo, 147
guidade Clássica, seu alcance e limite na As Guerras Greco-Persas, 123 A revolta dos escravizados, 147
tradição ocidental, assim como os impac- A maturidade da democracia ateniense, 124 A reforma agrária, 148
tos sobre outras sociedades e culturas. Aristocratas, 124 A crise da República, 149
(EF06HI11) Caracterizar o processo de A Guerra do Peloponeso, 125 O fortalecimento do Exército, 150
formação da Roma Antiga e suas confi-
gurações sociais e políticas nos perío- O enfraquecimento das cidades com Os generais e o Senado, 150
dos monárquico e republicano. a guerra, 126 Imperadores, 151
(EF06HI12) Associar o conceito de cida- O domínio macedônico, 127 O Império, 151
dania a dinâmicas de inclusão e exclu- A expansão militar, 127 As obras públicas romanas, 152
são na Grécia e Roma antigas. Síntese cultural, 127 A Paz Romana, 153
(EF06HI13) Conceituar “império” no A cultura helenística, 128 A crise do Império Romano, 156
mundo antigo, com vistas à análise das Índia e China: o esplendor cultural do Ruralização e colonato, 156
diferentes formas de equilíbrio e dese- século V a.C., 130
quilíbrio entre as partes envolvidas. Segurança e poderes privados, 156
Budismo e confucionismo, 130 O cristianismo, 157
(EF06HI14) Identificar e analisar dife- A sociedade de castas na Índia, 131
rentes formas de contato, adaptação ou Os cristãos, 157
exclusão entre populações em diferen- A sociedade chinesa, 132 Perseguições e aceitação, 158
tes tempos e espaços. Quebra-cabeça, 133 Os povos germânicos, 158
(EF06HI15) Descrever as dinâmicas de Leitura complementar: A cidade grega, 134 A arte germânica, 159
circulação de pessoas, produtos e cul- Olho no lance: O homem é a medida de todas as Mitos germânicos, 159
turas no Mediterrâneo e seu significado. coisas, 134 As primeiras invasões germânicas, 160
(EF06HI16) Caracterizar e comparar as Permanências e rupturas: Mulheres de Atenas, 136 Centralização e divisão do Império, 161
dinâmicas de abastecimento e as for- Salto triplo, 136 Igreja e Estado, 161
mas de organização do trabalho e da
vida social em diferentes sociedades e Quadros do capítulo O enfraquecimento do poder central, 162
períodos, com destaque para as rela- Periodização da História da Grécia, 110 • O teatro, 116 O fim dos Jogos Olímpicos da Antiguidade, 163
ções entre senhores e servos. • As mulheres de Esparta, 117 • Os persas, 122 • As O Império Romano do Oriente, 163
(EF06HI16) Caracterizar e comparar as mulheres atenienses, 126 • Sociedade de castas, 131 Bate-bola: O Senado, 164
dinâmicas de abastecimento e as for- Quebra-cabeça, 165
mas de organização do trabalho e da Leitura complementar: A condição das pessoas, 165
vida social em diferentes sociedades e
períodos, com destaque para as rela-
ções entre senhores e servos.
6 Roma Antiga Olho no lance: Vida cotidiana, 166
Permanências e rupturas: A semana e os deuses
pagãos, 167
(EF06HI17) Diferenciar escravidão, ser-
vidão e trabalho livre no mundo antigo. Jogo aberto, 138 Salto triplo, 167
(EF06HI19) Descrever e analisar os di- As origens lendárias de Roma, 140
Quadros do capítulo
ferentes papéis sociais das mulheres no Rômulo e Remo, 140 O banquete, 149 • Jogos e diversões romanos, 154 • A
mundo antigo e nas sociedades medievais. O rapto das sabinas, 140 morte da filósofa Hipátia, 162
(EF06HI16) Caracterizar e comparar as Decifrando as lendas, 141
4º Bimestre

dinâmicas de abastecimento e as for- O período monárquico (753-509 a.C.), 141


mas de organização do trabalho e da
vida social em diferentes sociedades e
A fundação da República, 142
As lutas entre plebeus e patrícios, 142
7 A África de muitos povos
períodos, com destaque para as rela-
ções entre senhores e servos. O nascimento do Direito romano, 143
As conquistas romanas, 144 Jogo aberto, 168
(EF06HI17) Diferenciar escravidão, ser-
vidão e trabalho livre no mundo antigo. As Guerras Púnicas, 144 Núbia: Os senhores da fronteira ao sul do Nilo, 170
(EF06HI19) Descrever e analisar os di- Primeira Guerra Púnica, 144 Baixa Núbia, 170
ferentes papéis sociais das mulheres no Segunda Guerra Púnica, 144 Alta Núbia: o Reino de Kush, 170
mundo antigo e nas sociedades medievais Terceira Guerra Púnica, 145 O Império de Kush, 171

10 REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO

PROJETOS INTERDISCIPLINARES
4. Iraque e o patrimônio histórico mesopotâmico Capítulo 4, Página 100
1. Jogos Indígenas História + Geografia + Arte
História + Educação Física Capítulo 3, Página 70 8. Matemática no Egito Antigo
Capítulo 1, Página 24 História + Matemática
5. História social das cores Capítulo 4, Página 105
2. Origens História + Arte + Língua Portuguesa
História + Ciências + Arte + Língua Portuguesa Capítulo 3, Página 73 9. Fazendo cena
Capítulo 2, Página 32 História + Língua Portuguesa + Arte
6. A crise hídrica no Brasil Capítulo 5, Página 116
3. Seres humanos na América História + Geografia + Ciências + Arte + Língua
História + Arte + Língua Portuguesa + Portuguesa 10. Jogos Olímpicos
Ciências + Geografia Capítulo 3, Página 84 História + Geografia + Ciências + Educação Física
Capítulo 2, Página 42 + Língua Portuguesa + Matemática
7. Mumificação e práticas fúnebres Capítulo 5, Página 120
História + Ciências

10 HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor


Capítulo 7
Kush conquista o Egito, 172 O Islã, 196 (EF06HI01) Identificar diferentes for-
Atividades econômicas, 172 Maomé e o monoteísmo, 197 mas de compreensão da noção de tem-
po e de periodização dos processos his-
Organização política, 172 A palavra do Alcorão, 197 tóricos (continuidades e rupturas).
Etiópia, terra das árvores de perfume, 173 Os sucessores de Maomé, 197 (EF06HI02) Identificar a gênese da pro-
A rainha Makeda e o rei Salomão, 174 As divisões, 198 dução do saber histórico e analisar o
Egito sob gregos e romanos, 175 A expansão do Islã, 198 significado das fontes que originaram
Estrangeiros, 176 Os muçulmanos na Península Ibérica, 199 determinadas formas de registro em so-
Al-Andaluz, 199 ciedades e épocas distintas.
Alexandria, o umbigo do mundo, 177
A biblioteca, 177 Os muçulmanos na África, 200 (EF06HI07) Identificar aspectos e for-
mas de registro das sociedades antigas
Povos do deserto, 178 A sociedade feudal, 201 na África, no Oriente Médio e nas Amé-
Camelos, comércio e o deserto, 178 O centauro, 201 ricas, distinguindo alguns significados
A Confederação Garamante, 178 Os guerreiros, 201 presentes na cultura material e na tradi-
Povos das savanas, 179 Os monarcas, 202 ção oral dessas sociedades.
Pastores e agricultores, 179 O clero, 202 (EF06HI13) Conceituar “império” no
Os mercados, 180 O senhorio, 204 mundo antigo, com vistas à análise das
diferentes formas de equilíbrio e dese-
Povos das florestas, 180 Os trabalhadores, 204 quilíbrio entre as partes envolvidas.
A expansão dos povos de língua bantu, 181 Direitos senhoriais, 205 (EF06HI14) Identificar e analisar diferen-
Atividades bantu, 181 O feudalismo e a sociedade de ordens, 205 tes formas de contato, adaptação ou ex-
Os pequenos grandes caçadores, 182 Clérigos e nobres, 207 clusão entre populações em diferentes
Os pigmeus, 182 A expansão feudal, 207 tempos e espaços.
Homens e mulheres, 182 O comércio, 208 (EF06HI15) Descrever as dinâmicas de
Os bosquímanos, 183 As cidades, 209 circulação de pessoas, produtos e culturas
no Continente Africano e seu significado.
Divisão sexual do trabalho, 183 As corporações de ofícios e a burguesia, 209
(EF06HI16) Caracterizar e comparar as
Bate-bola: A tradição viva, 185 A cidade e as autoridades de Deus, 209 dinâmicas de abastecimento e as for-
Quebra-cabeça, 186 Bate-bola: O românico e o gótico, 210 mas de organização do trabalho e da
Leitura complementar: Salomão e a rainha de Sabá Mobilidade social, 212 vida social em diferentes sociedades e
(versão bíblica – 2Cr: IX,1-12; 1Rs: X, 1-13), 186 As Cruzadas, 213 períodos, com destaque para as rela-
Olho no lance: Coexistência, 187 ções entre senhores e servos.
Pobres e marginalizados, 213
Permanências e rupturas: Eu nasci há dez mil anos (EF06HI17) Diferenciar escravidão, ser-
A Reconquista Ibérica, 214
atrás, 188 vidão e trabalho livre no mundo antigo.
Peregrinações, 214
Salto triplo, 188
A centralização política, 215 Capítulo 8
Quadros do capítulo Portugal, 215
Candaces: rainhas guerreiras, 172 • O avô do berimbau Leão e Castela, 215 (EF06HI01) Identificar diferentes for-
e os jogos de imitação, 184 mas de compreensão da noção de tem-
Quebra-cabeça, 216
po e de periodização dos processos his-
Leitura complementar: As três ordens, 217 tóricos (continuidades e rupturas).

8 A Idade Média Olho no lance: Simbolismo das espadas cristã


e islâmica, 217
(EF06HI02) Identificar a gênese da pro-
dução do saber histórico e analisar o
Permanências e rupturas: Jerusalém: judeus, significado das fontes que originaram
Jogo aberto, 190 cristãos e muçulmanos, 218 determinadas formas de registro em so-
Salto triplo, 219 ciedades e épocas distintas.
Pensando a Idade Média, 192
(EF06HI09) Discutir o conceito de Anti-
Os reinos germânicos, 192 Quadros do capítulo
guidade Clássica, seu alcance e limite na
A Igreja e os reinos germânicos, 193 A nobreza, 203 • O senhorio, 204 • A rotação trienal, 207
tradição ocidental, assim como os impac-
O Reino Franco, 193 • Feiras, 208 tos sobre outras sociedades e culturas.
O Império Carolíngio, 194 (EF06HI13) Conceituar “império” no
A fragmentação do poder, 194 Índice remissivo, 220 mundo antigo, com vistas à análise das
As novas invasões, 194 diferentes formas de equilíbrio e dese-
quilíbrio entre as partes envolvidas.
O Império Bizantino, 195 Referências bibliográficas,
(EF06HI14) Identificar e analisar dife-
Cristianismo, 196 222 rentes formas de contato, adaptação ou
exclusão entre populações em diferen-
NÃO ESCREVA NO LIVRO | REPRODUÇÃO PROIBIDA 11 tes tempos e espaços.
(EF06HI15) Descrever as dinâmicas de
circulação de pessoas, produtos e cul-
turas no Mediterrâneo e seu significado.
11. O mundo através da Matemática 14. Há dez mil anos atrás
(EF06HI16) Caracterizar e comparar as
História + Arte + Matemática + Língua História + Arte + Língua Portuguesa
dinâmicas de abastecimento e as for-
Portuguesa Capítulo 7, Página 188
mas de organização do trabalho e da
Capítulo 5, Página 134
15. As mulheres no mundo islâmico vida social em diferentes sociedades e
12. Mulheres na História História + Geografia períodos, com destaque para as rela-
História + Arte + Língua Portuguesa Capítulo 8, Página 198 ções entre senhores e servos.
Capítulo 5, Página 136 (EF06HI17) Diferenciar escravidão, ser-
16. O maravilhoso medieval: produção de um fólio vidão e trabalho livre no mundo antigo.
13. Reforma agrária iluminado (EF06HI18) Analisar o papel da religião
História + Geografia História + Arte + Língua Portuguesa cristã na cultura e nos modos de organi-
Capítulo 6, Página 148 Capítulo 8, Página 206 zação social no período medieval.
(EF06HI19) Descrever e analisar os di-
ferentes papéis sociais das mulheres no
mundo antigo e nas sociedades medievais.

Manual do Professor | HISTÓRIA 6º ano 11


tre
es
m

Bi

A História, os seres
EF06HI01
Capítulo

1
EF06HI02

MATERIAL DIGITAL
Plano de desenvolvimento bimestral
humanos e o tempo

JOGO ABERTO 1

FUNDAÇÃO MUSEU DO HOMEM AMERICANO, PIAUÍ


É importante que os alunos levantem JOGO
o máximo de suposições em relação às ABERTO
questões propostas, as quais serão, de-
pois do estudo do capítulo, revisadas
OBSERVE AS IMAGENS
em função dos conteúdos trabalhados.
A atividade visa iniciar a discussão so-
bre o conceito de tempo e os documen-
tos históricos. 1. Identifique e descreva
cada uma das imagens.
1 2. Identifique a imagem
Imagem 1: Pintura rupestre. Toca do que se refere à situação
Boqueirão da Pedra Furada, Piauí, c. histórica mais antiga.
12000 a.C. Na imagem, uma capivara e seu 3. Identifique a imagem
filhote representados na parede de uma ca-
que se refere à situação Homens e animais. Pintura rupestre, Parque Nacional da Capivara. São Raimundo Nonato, Piauí
verna. A imagem é tão famosa que acabou (Brasil), c. 12000 a.C. (foto de 2017).
mais recente. Qual é a
por servir de referência para o nome da re-
origem dessa celebra-
gião onde se encontram inúmeras pinturas
ção?
rupestres: Parque Nacional da Serra da Ca- 2
GREGORIO BORGIA/AP PHOTO/GLOW IMAGES

pivara. 4. Indique a sequência da


Imagem 2: Foto do Papa Francisco I duran- numeração das imagens
te a celebração da Missa de Natal de 2013, em ordem cronológica.
que comemora o nascimento de Jesus. Ba- 5. Indique os tipos de
sílica de São Pedro, Vaticano. Em gesto de imagens apresentadas.
humildade, o Papa beija a imagem do Me-
nino Jesus. À esquerda, é possível identifi- 6. Você considera essas
car a pequena estátua de um anjo. imagens documentos
históricos? Tente justifi-
Imagem 3: Charge de Angeli, 2005. O car-
car sua resposta.
tunista aproveita o título de seu desenho,
Natureza morta, para criticar o desmata-
mento das florestas. Uma caveira apare-
ce na clareira formada como resultado da
derrubada das árvores.
Imagem 4: Foto das Pirâmides de Quéops,
Quéfren e Miquerinos. Construídas durante
a IV dinastia (2613-2494 a.C.). Gizé, Egito, Papa Francisco beija imagem do menino Jesus na celebração da missa de Natal, Basílica de São
2008. São as três pirâmides mais famosas Pedro. Vaticano, 24 dez. 2013.
do planalto de Gizé, na margem esquerda
do Rio Nilo, próximo à atual cidade do 12 Capítulo 1 | A História, os seres humanos e o tempo REPRODUÇÃO PROIBIDA | NÃO ESCREVA NO LIVRO

PROJETOS INTERDISCIPLINARES vo. Esse é um dos principais desafios para o ensi- to do ponto de vista técnico, no manuseio das mais
no de História nessa faixa etária, tal como apon- diversas fontes documentais, mas também como
1. Página 24
tou Piaget (A noção de tempo na criança). agente histórico, como cidadão inserido em uma
• Apresentar uma primeira discussão sobre fontes dada sociedade. Tais aspectos correspondem tam-
OBJETIVOS DO CAPÍTULO bém às tentativas de articular as referências tempo-
documentais e operações de identificação, análi-
se e interpretação históricas. rais subjetivas dos estudantes à construção de no-
• Apresentar noções conceituais a respeito da His-
ções de tempo histórico, coletivo e objetivo.
tória e diversas noções de temporalidade.
• Iniciar a passagem de uma noção de tempo indi- SUGESTÕES PEDAGÓGICAS
SUGESTÕES DE LEITURA PARA O PROFESSOR
vidual, aproveitando uma série de representações
Neste capítulo introdutório e teórico é importante
sobre o tempo, procura-se egocêntrico e subjetivo ARIÈS, P. O tempo da história. Rio de Janeiro: Francisco
que se destaque as atividades do historiador tan-
para noções de tempo coletivo, histórico e objeti- Alves, 1989.

12 HISTÓRIA 6º ano | Manual do Professor | Capítulo 1


Cairo. As pirâmides eram grandes túmulos
erguidos sobre uma câmara, onde era se-
3 4 pultado o corpo do faraó. Os egípcios acre-

JACQUES SIERPINSKI/AURIMAGES/AFP
© ANGELI/FOLHA PRESS

ditavam que existia uma outra vida após a


morte e para isso preservavam os corpos
dos seus mortos. As pirâmides são constru-
ções emblemáticas da Antiguidade.
Imagem 5: Grafite, Nene Surreal, Dia da Mu-
lher é todo dia – LIBERTEM-SE. Através do
grafite apresenta-se uma crítica ao machis-