Você está na página 1de 24

Nadja Lopes

Panderolê - Musicalização Infantil Personalizada

como as
crianças

Música?
aprendem

Uma abordagem à luz da Music Learning Theory


de Edwin Gordon
Edwin Gordon e a Music Learning Theory

A Music Learning Theory (MLT) ou Teoria de Aprendizagem


Musical é a pesquisa mais longa já realizada a respeito de como as
pessoas aprendem música. .
O Dr. Edwin Gordon, PhD, após graduação e mestrado em
performance na Estman School of Music, decidiu enveredar pela
educação por acreditar que a educação musical tinha algumas falhas
de alcance. Os próprios conteúdos musicais universitários pareciam
ser inacessíveis por grande parte dos alunos. Ele não sentia que a
maneira que ele próprio havia sido musicalizado atendia as necessi-
dades plenas de um músico, e que havia muita ênfase em técnica
instrumental e pouca atenção ao que acontece de fato com o músico,
que pensa a música e faz com que ela verdadeiramente aconteça.
E. Gordon é um dos precursores da psicologia da música, fez
seu doutorado na Universidade de Iowa em 1958, onde também foi
professor da graduação em música, ocupando posteriormente o
mesmo cargo na State University of New York, em Buffalo. Foi no-
meado Professor Pesquisador na cadeira Carl E. Seashore de Educa-
ção Musical na Temple University, em Philadelphia, onde recebeu
diversos prêmios por sua atuação como pesquisador na universida-
de onde permaneceu entre 1979 e 1997. .
Ao longo de uma vida de pesquisa foram dez testes de apti-
dão validados, inúmeros livros escritos por ele sobre o assunto -
alguns em parceria com outros educadores musicais que até hoje
dão continuidade ao trabalho de divulgar a MLT. .
Gordon faleceu em 2015, e até dois anos antes de sua morte
estava lançando edições revisadas de seus livros. Hoje seu acervo
pessoal de pesquisa está arquivado sob seu nome na University of
South Carolina em Columbia. Ao invés de apenas buscar melhores
maneiras de ensinar música, a sua pesquisa - a Music Learning
Theory - procurou descobrir como funciona a aprendizagem musi-
cal de fato, para que as melhores práticas pedagógicas fossem aplica-
das em conjunto com a maneira com a qual o nosso cérebro aprende,
processa e compreende música. Esse é um conhecimento que detém
a possibilidade de revolucionar a educação musical e tornar o apren-
dizado musical verdadeiramente acessível a todas as pessoas e é essa
a razão pela qual eu escrevo esse e-book e tornei minha missão de
vida divulgar e trabalhar em sala de aula a partir dos conceitos esta-
belecidos pela MLT. .

Edwin Gordon
1927-2015
Aprendizagem Musical

A MLT operou uma transformação profunda na minha pró-


pria musicalidade.
Eu tive a oportunidade de ser musicalizada em um conserva-
tório de nível técnico. Entrei na Escola de Música de Brasília com 8
anos de idade e me formei lá como técnica em Canto Erudito após 17
anos de estudo, além disso cursei licenciatura em música na Univer-
sidade de Brasília (UnB). Ao todo tenho 24 anos de música em con-
textos formais - estou há mais tempo dentro de uma sala de aula de
música do que fora dela, seja como aluna ou professora. .
Mesmo com dois diplomas em mãos eu sentia a insegurança
proveniente de lacunas musicais não preenchidas pelo ensino
formal em conjunto com o foco em performance pressionando todo
o meu processo de ensino. Na educação musical que eu tive acesso, o
foco era no ensino e não na aprendizagem, me arrisco a dizer que
grande parte dos contextos musicais formais no Brasil, e talvez no
mundo, estão baseados no ensino e não na aprendizagem.
Isso ocorre por desinformação de profissionais que muitas
vezes estão dando o seu melhor em condições que podem variar de
poucos recursos a extrema precariedade. Embora várias abordagens
musicais nos abasteçam de práticas cada vez melhores, apenas uma
é tão recente que pôde aproveitar tudo que veio antes dela tanto em
termos de educação musical, quanto em entendimento pedagógico e
psicológico. E. Gordon, fez questão de não reinventar a roda. Ele
aproveitou tudo que já existia e que ele considerava funcional e coe-
rente para que o processo de aprendizagem musical fosse eficiente.
No momento em que escrevo este e-book é o ano de 2019 e
estamos diante de um momento de florescimento da educação musi-
cal no Brasil nunca antes visto. Muitas escolas buscam aulas de mu-
sicalização e muitos professores buscam informações, técnicas, ma-
teriais e atividades que melhorem a sua atuação em sala de aula. Al-
gumas pedagogias musicais estão sendo difundidas por professores
pioneiros que fornecem tudo isso com maestria. .
Me parece um lindo momento para falar sobre a transforma-
ção que a MLT propõe e que excede a preocupação a respeito de re-
cursos externos, e coloca o foco em um aspecto musical ainda não
abarcado pela educação musical no Brasil: o desenvolvimento do
pensamento musical com sentido na sala de aula de música.
.
Aprender música como linguagem

Para Edwin Gordon a música não é exatamente uma língua,


porque ela não tem significados literais, não pode ser traduzida para
o português por exemplo, e não existe um país cuja língua oficial é a
música. Mas o nosso cérebro aprende a música como uma lingua-
gem, estrutura ela como uma linguagem e aprende contexto e sinta-
xe musicais para que exista comunicação musical. .
Usamos esses contextos para nos comunicar plenamente, e
existem diversos contextos rítmicos e melódicos. Improvisamos mu-
sicalmente ao executar música via contextos em comum com as pes-
soas que estão executando música conosco. Somos seres sociais, po-
demos falar sozinhos e pensar muitas coisas sem que ninguém saiba,
mas a comunicação precisa do outro. Na música não é diferente.
A maior descoberta de Edwin Gordon é a descoberta de uma
linguagem musical pré-falada. Assim como pensamos antes de falar,
existe um pensamento musical em desenvolvimento ao aprender-
mos música. E para nos comunicarmos musicalmente de maneira
efetiva e eficiente é preciso pensar “musiquês” e posteriormente
falar “musiquês”. Ele deu nome a esse pensamento de audiação. Nós
audiamos antes de cantar, antes de dançar e antes de tocar. Audia-
mos para conseguir ler música e audiamos para conseguir escrever
música. Vejam como esses conceitos tornam acessível o aprendizado
musical: se alguém não consegue se comunicar musicalmente a
partir de um instrumento não é só porque não sabe tocar o instru-
mento ainda. É porque não falam “musiquês”. Por isso, de maneira
ideal, é muito mais importante ouvir, cantar e dançar primeiro para
falar “musiquês” com o corpo, que é a porta de entrada para o pensa-
mento musical com sentido – a audiação. .
Gordon afirma em seu livro “A Music Learning Theory for
newborn and young children” (2013) que a fala é fruto de um proces-
so biológico enquanto o pensamento é fruto de um processo psicoló-
gico. A audiação também é um processo psicológico. .
Aprender música não é tocar um instrumento

E. Gordon nos presenteou com um entendimento imprescin-


dível. Existem dois instrumentos a serem aprendidos. O pensamen-
to musical estruturado e com sentido musical e o instrumento exter-
no, que funcionaria como uma extensão do pensamento musical
com sentido. Se aprendemos a pensar musicalmente primeiro é mais
fácil fazer música com sentido a partir de qualquer instrumento.
Falando “”musiquês” fluentemente é possível inclusive tocar
vários instrumentos e obter sentido musical e fluência com maior
facilidade a partir de um instrumento no qual você não obteve co-
nhecimento formal. .
O que acontece na maior parte das vezes é que por falta de
exposição a contextos musicais que ensinem “musiquês” de maneira
eficiente, acabamos tendo acesso a música da maneira mais difícil, o
que deixa os alunos com muitas dificuldades e pouco entendimento
levando-os a desistência. Essa desistência é ainda mais frequente
quando crianças pequenas fazem aula de instrumento cedo demais.
Isso ocorre por desconhecimento tanto das famílias quanto dos pró-
prios professores, que muitas vezes não sabem qual seria o melhor
momento de começar as aulas de instrumento ou como começá-las
de maneira que exista um acolhimento para o momento de aprendi-
zagem daquela criança. As famílias têm pressa de instrumentalizar
suas crianças, mas o acesso a instrumentos musicais nos primeiros
anos de vida não é necessariamente acesso a “musiquês”. .
A MLT coloca alguns pontos importantes a respeito do pro-
cesso no qual uma criança aprende música. O primeiro é que,
quando aprendemos o português já estamos em uma imersão longa
antes de entrar na escola para darmos continuidade ao processo de
alfabetização. Essa imersão é realizada pela família, que fala com a
criança o tempo todo e a ajuda a aprender palavras e frases. Na
música isso não acontece, mas deveria. .
A MLT pensa o aprendizado musical a partir da imersão. É
preciso ser aculturado na linguagem musical. É preciso que os adul-
tos na vida de uma criança cantem para ela, dancem com ela no colo
antes que ela seja capaz de andar, escutem música ao vivo, tenham
experiencias musicais. .
Então E. Gordon propõe as aulas de musicalização em famí-
lia, com as crianças de 0 a 3 anos, acompanhadas de um dos pais.
Nesse momento alimentamos as crianças com o alimento sonoro ne-
cessário e dentro das condições que o cérebro necessita para ser ver-
dadeiramente musicalizado na primeira infância e não somente ex-
posto a música sem critérios e sem atender às necessidades de
aprendizagem. Fazem parte desse modelo cantar sem acompanha-
mento, ter músicas que exaltem ritmo e melodia em separado,
cantar músicas com contextos rítmicos complexos - que vão inclusi-
ve além dos ritmos da nossa cultura. Também incluímos músicas
modais, com sonoridades que contemplem melodias complexas
(porém curtas) que constroem um entendimento musical para além
das músicas infantis do nosso repertório popular. Afinal não falamos
com as crianças apenas as palavras mais fáceis para que elas apren-
dam o português, isso seria contraproducente para o aprendizado.
Falamos todas as palavras e todos os tipos de frases. Na música, não
deveria ser diferente. .
Posteriormente as crianças dão continuidade a esse processo
numa turma sem os pais, até mais ou menos 7 anos de idade. A
partir de então, com um pensamento musical já mais desenvolvido e
com a capacidade de coordenar cantar, respirar e mover-se, aí sim,
seria interessante aprender um instrumento. Antes de coordenar o
movimento no espaço em relação a música é completamente contra-
producente aprender um instrumento. E a dica para os professores
que recebem crianças com dificuldades desse tipo é dar um passo
atrás para poder andar dois pra frente: cantar e dançar com esse
aluno, para que o corpo aprenda, para depois tocar. .
Resumir o ato de tocar ao movimento mecânico dos dedos
leva a um processo muito lento, que muitas vezes desmotiva os
alunos. Precisamos invariavelmente aprender a nos comunicar mu-
sicalmente com o instrumento e não ficar limitados a nos comunicar
musicalmente somente por meio dele. .
Para a MLT não há dúvida de que podemos nos beneficiar
muito de falar musiquês via corpo e voz antes de tocar um instru-
mento. Para os primeiros estágios de aprendizagem musical, espe-
cialmente na primeira infância, a criança que percebe a música com
o corpo todo irá se beneficiar exclusivamente de ouvir, cantar e de se
movimentar em relação à música. Para a MLT trazer o instrumento
cedo demais é limitar o aprendizado musical das crianças. .
A sequência de aprendizagem musical

Existem muitas possibilidades de nos comunicarmos musi-


calmente. E existem músicos que não dançam e não cantam, músi-
cos que não compõe e músicos que não improvisam. Existem
também músicos que dançam, cantam, improvisam, tocam e não
leem nem escrevem. E músicos que leem e escrevem, mas não
cantam, dançam e nem improvisam. .
Enfim, cada um faz o que pode com o acesso que teve e talvez
nem todo músico gostaria de fazer tudo isso ou vê utilidade em
aprender a dançar e cantar ou a ler e escrever música, ainda que su-
perficialmente. Porém todos nós gostaríamos de nos comunicar mu-
sicalmente de maneira cada vez mais livre, plena e sem lacunas.
A MLT propõe uma sequência de aprendizado musical lógica
e coerente. Quando aprendemos nossa língua mãe, o português,
aprendemos em uma sequência. Primeiro ouvimos, durante quase
dois anos ou até um pouco mais, em média. Depois falamos nossas
primeiras palavras, testamos essas palavras, erramos a pronuncia, e,
após tentativas e erros, simultaneamente ao desenvolver um pensa-
mento pré-falado, aprendemos os primeiros estágios da comunica-
ção falada. Depois de muito falar, possivelmente só após os cinco
anos aprendemos a ler, e só depois de ler aprendemos a escrever.
Também levamos alguns anos para nos comunicarmos plenamente
via escrita. O tempo do processo varia um pouco de pessoa para
pessoa, mas esse processo segue a mesma ordem, para todos nós. E
segue a mesma ordem para o aprendizado de todas as línguas.
A MLT nos esclarece que o entendimento musical ocorre em
uma ordem muito semelhante. Primeiro ouvimos muita música,
depois testamos palavras musicais, cantamos e nos movimentamos
em relação a música. .
Conforme vamos adquirindo entendimento musical via ex-
periencias musicais passamos a improvisar, experimentamos nossas
ideias musicais e construímos sentido sobre elas, para só aí desen-
volvermos o pensamento musical com sentido que nos permite
aprender música e decifrar sons. Somente depois de muito audiar e
após extensa prática musical seria interessante ler, e somente depois
de ler seria interessante escrever. Desta forma, Edwin Gordon de-
senvolveu uma pirâmide de aprendizado musical, cuja base é ouvir.

Escrever

Ler

AUDIAR/improvisar

Cantar/recitar/mover-se

Ouvir

Agora voltando a minha educação musical formal, no meu


primeiro semestre de musicalização infantil, aos 8 anos de idade eu
precisei ler e escrever uma língua que eu não falava. E no meu caso
essa língua precisou ser entendida de maneira escrita antes de ser
sentida pelo corpo. A prática do canto coral (ao longo de vários anos)
funcionou como uma experiencia musical que me ajudou a sentir a
música e me permitiu ouvir e cantar, acredito que essa prática foi
imprescindível para que pudesse me tornar cantora lírica. Eu
lembro que no meu primeiro semestre de música na universidade,
quando fui trabalhar num projeto de musicalização em família com
base na MLT – agradeço ao professor Dr. Ricardo Dourado Freire -
entendi que aquele contexto seria capaz de não deixar que se insta-
lassem nas crianças as lacunas que eu tinha como musicista. .
Aquele era para mim o começo de um entendimento do
aprendizado da música como linguagem. .
Ao longo dos últimos 14 anos eu toquei, cantei, dancei e brin-
quei, ensinando vocalmente para as crianças as palavras musicais
rítmicas e melódicas propostas por E. Gordon como as palavras que
estabelecem a sintaxe de um pensamento musical organizado. É im-
possível comparar o que esses anos de música cantada à capella, de
maneira afetiva, sistemática e complexa trouxeram ao meu entendi-
mento musical – como eu disse anteriormente, não cantamos
apenas músicas em modo maior e menor, mas usamos todos os
modos gregos em nossas músicas e, além do tradicional compasso
simples tão presente na nossa cultura, vivenciamos também com-
passo composto e compassos alternados e/ou ímpares.
Na sala de aula, segundo a MLT, nada é apresentado de ma-
neira aleatória, tudo tem um porquê definido e uma intenção muito
coerente: a intenção da plena comunicação musical. .
Me desculpem por tantos jargões musicais, mas é muito im-
portante para mim que os professores de música que leiam este
e-book compreendam a complexidade musical do que acontece
nessas aulas de música como linguagem. .
A MLT não é uma abordagem que abrange somente o ensino
infantil, ela fornece possibilidades completas para todos os âmbitos
de aprendizagem. Em todas as faixas etárias é possível aprender
música tendo em vista um objetivo: a comunicação musical plena.
Em todas as faixas etárias é possível plantar sementes para que essa
comunicação musical aconteça. Ela acontece via exposição musical a
partir dos primeiros anos de vida e segue de maneira prática e ativa,
sem nenhum tipo de teorização. .
Um diferencial: a prática musical a partir da MLT planta as
sementes da plena comunicação, portanto planta as sementes para
um aprendizado musical completo, para o qual não seria difícil exe-
cutar, ler e escrever música por exemplo, dado o momento certo.
O que me encanta é que o processo de longo prazo nesse con-
texto da MLT, que me proponho a colocar hoje em prática com as
crianças de Brasília, na minha escola, o Panderolê – Musicalização
Infantil Personalizada, propõe um resultado que irá alimentar toda
uma vida de compreensão musical. As crianças não estão aprenden-
do um repertório cantado ou tocado para apresentar ou focadas em
experiencias musicais que não possuem uma relação direta com o
aprendizado musical a nível de linguagem. Elas cantam, dançam e
após os 4 anos também tocam, e embora não estejam numa aula de
instrumento, estão num contexto muito mais abrangente: estão
aprendendo a pensar musicalmente e naturalmente passam a im-
provisar música com sentido musical dentro do contexto musical es-
tabelecido. Após 7 anos de imersão musical os nossos alunos são ca-
pazes de se adequar de ouvido a qualquer métrica e modo, e se ex-
pressam musicalmente com liberdade. .
Se você desse continuidade ao processo como professor de
instrumento diria que elas são talentosas, quando na verdade elas
aprenderam música como linguagem e no momento certo.
Esse é um contexto que ensina musicalmente, nos permitin-
do a comunicação musical já na primeira infância. E é um contexto
com foco na aprendizagem da criança, que já vem ao mundo com a
musicalidade tão exposta e que muitas vezes é subestimada musical-
mente - um desserviço para cada criança que não tem acesso a
música nos primeiros anos de vida. Imagine que ninguém falasse
com uma criança durante os 3 primeiros anos de vida. Como seriam
as suas capacidades de comunicação via linguagem falada? Imagine
que uma criança na primeira infância tenha acesso a música somen-
te via tablet e celular, qual serão as possibilidades de aprendizagem
musical dessa criança? Agora imagine uma família que goste de
cantar e dançar com sua criança, que forneça experiencias musicais
ao vivo, que a leve para uma aula onde pode estar com outras crian-
ças e famílias que estão ali partilhando de maneira prazerosa
experiencias musicais em conjunto. Quais serão as possibilidades
musicais dessa outra criança? Agora, além da experiencia musical
adicione uma sequência musical de aprendizagem que leve a auto-
nomia e fluência da linguagem musical... .
Audiação Preparatória e aptidão musical

As aulas nesses primeiros 3 anos são cantadas em um con-


texto via MLT por motivos muito específicos. As crianças dessa faixa
etária, e até os 7 anos de idade mais ou menos precisam de condições
específicas para que o aprendizado musical aconteça. Nesses primei-
ros 7 anos de vida o cognitivo das crianças está em formação, as suas
capacidades motoras também e existe uma maior plasticidade neu-
rológica, por esses motivos, a aprendizagem musical também ocorre
via condições especiais. Esse é um dos maiores achados da pesquisa
do Dr. E. Gordon quanto a primeira infância. .
A MLT aponta que nesse momento a aptidão musical das
crianças está em desenvolvimento. Isso quer dizer que nesse mo-
mento é possível elevar a potencialidade musical com a qual cada
criança nasceu até a sua plena potencialidade. Ao mesmo tempo se
uma criança nasce com uma determinada potencialidade musical,
mas não ouve música de maneira sistemática e presencial ao longo
desses primeiros 7 anos, essa criança não será capaz de atingir a sua
plena potencialidade musical por falta de exposição. .
Gordon cita o seguinte exemplo: se alguém nascesse hoje
com a aptidão musical que Mozart nasceu por exemplo, não chega-
ria a desenvolver essa habilidade de maneira tão plena pelas condi-
ções precárias de exposição a música. Na época de Mozart não exis-
tia música gravada, a música era presencial e o principal entreteni-
mento era a música ao vivo, seja como música de câmara, óperas ou
liturgia. Embora hoje tenhamos pleno acesso a música de todo o
mundo, o entretenimento musical raramente é presencial, e quando
é presencial, é insuficiente e raramente atende às necessidades das
crianças para que o aprendizado da linguagem aconteça. .
As crianças aprendem qualquer língua pela afetividade e re-
lação com os seus cuidadores, por isso a presença dos pais ou um cui-
dador familiar no processo é tão importante. Inclusive falando de
Mozart, ele foi musicalizado pelo pai na primeira infância. .
Provavelmente ouviu música ao vivo desde a barriga, cres-
ceu em um ambiente muito musical e quando começou a tocar,
muito cedo, com uma aptidão musical elevada e acesso a música
numa imersão irreal para os dias de hoje, conseguiu se beneficiar de
tudo isso. Mas é necessário educar (vejam como educar é diferente
de aprender) para criar um Mozart nos dias de hoje? Um músico vir-
tuoso, compositor, conhecido por todo o mundo e cuja música atra-
vessa gerações? Claro que não. A pressão desse resultado não é nem
um pouco saudável para ninguém, muito menos para uma criança.
E definitivamente não é esse o objetivo da MLT e nem de qualquer
aprendizagem musical coerente e responsável. Isso seria musicali-
zar pela exceção. .
O ensino formal e tradicional de música é construído a partir
dessa falácia. Apenas alguns ditos talentosos serão celebrados
nesses contextos desatualizados. .
Todas as pedagogias ativas de educação musical admitem
que a música é para todos e que a prática e o ouvir devem vir antes
da teoria. A MLT vai além e acrescenta que o foco deve ser no pro-
cesso de aprendizagem e não no resultado imediato. A aprendiza-
gem musical é trabalho de uma vida. Os resultados imediatos são
frustrantes e colocam pressão nas crianças. A aprendizagem acon-
tece com a criança como agente ativo e a educação acontece com o
adulto como agente coercitivo. O motivo pelo qual eu acredito que a
MLT nos presenteia com possibilidades de entendimento únicas
quanto ao processo pelo qual todos nós aprendemos música é pri-
meiramente a sequência de aprendizagem de linguagem com a qual
todos nós podemos aprender música. .
Tanto o meu trabalho com a primeira infância em sala de
aula quanto o desenvolvimento da minha própria musicalidade ao
longo dessa aplicação me mostram a sequência de aprendizagem e a
presença do momento Aural/Oral - que consiste em ouvir, cantar e
entoar - são poderosíssimas para todo o processo de aprendizagem
e para construir uma aprendizagem musical efetiva em sala de aula.
Mas existe outro agente importante que permeia toda a aprendiza-
gem musical com base na MLT: a guia informal. Ela permite que os
nossos alunos possam se expressar livremente, e que o professor uti-
lize esse livre expressar como parte ativa da prática musical. O livre
expressar da criança, a sua exploração vocal e corporal, evidencia o
estágio de desenvolvimento musical que ela se encontra, colocando
a criança como protagonista do seu próprio aprender. A partir da ob-
servação desse expressar o professor alimenta o ouvido dessa crian-
ça com o que ela precisa ouvir para avançar. Isso ocorre em um con-
texto musical não-verbal. Uma completa revolução pedagógica.
Durante o momento em que as crianças estão com sua apti-
dão musical em desenvolvimento, a guia informal é importantíssi-
ma. Ela permite que a criança teste sons e movimentos em relação a
música e comece a compreender por si mesma que existe contexto e
sintaxe musical, que as melodias seguem uma lógica e os contextos
rítmicos também. Assim, as crianças começam a desenvolver um
pensamento musical organizado e com sentido durante a primeira
infância, denominado audiação preparatória. Quando esse processo
termina, as crianças começam a organizar o pensamento musical e
adentram na aptidão musical estabilizada. A partir daí a criança per-
cebe a música de outra maneira e desenvolve sua musicalidade a
partir da aptidão musical construída diante das suas experiencias
nos primeiros anos de vida. Por isso, educação musical na primeira
infância é questão de dar acesso a música. .
Ensinar o que precisamos aprender

Uma evolução pessoal para mim é que hoje eu sou capaz de


compor minhas próprias músicas. Mas durante toda a minha educa-
ção formal eu não tinha o que compor, a minha musicalidade se limi-
tava a imitar o que eu já tinha ouvido - eu não fazia minhas próprias
frases musicais e improvisava com insegurança – algumas pessoas
até chamariam isso de falta de talento, na verdade eu só não audia-
va. Mas era capaz de imitar com precisão. Para a MLT esse é apenas
um estágio de aprendizagem. A possibilidade de levar os meus
alunos a se comunicarem musicalmente de maneira afetiva e efi-
ciente é motivo de grande alegria e realização pessoal para mim. A
possibilidade de sair da zona de conforto na minha própria musicali-
dade me instiga a continuar aprendendo para oferecer melhores
possibilidades para os meus alunos. .
Gordon diz no seu livro “Learning Sequences in Music” (LSM,
2012) que nós precisamos fazer parte da mudança e ensinar o que
nós precisamos aprender, pois os alunos aprendem mais daqueles
que estão também aprendendo. Faço dessa a minha busca.
Imaginem as possibilidades de mundo que estariam abertas
para nós seres humanos caso jamais quiséssemos parar de apren-
der? Imaginem as possibilidades que estariam abertas aos alunos
que aprendem em contextos de constante renovação pedagógica?
Imaginem que a música, manifestação cultural inerente ao ser
humano, presente em todas as culturas desde a pré-história estives-
se acessível a todas as pessoas? Imaginem que pudéssemos sair por
um momento da ditadura do excesso de informação e pudéssemos
nos conectar presencialmente com os nossos semelhantes via arte,
desde os primeiros anos de vida? Como essas crianças se relaciona-
riam com o mundo, tendo crescido diante dessas experiências artís-
tico-musicais presenciais? .
Em algum momento as manifestações inerentes ao ser foram
sobrepostas pelo utilitarismo educacional. Gordon afirma que no
ensino da música isso aconteceu após a criação da notação musical.
Antes dela todos aprendiam pelo ouvido e pela prática, após
a notação etapas importantes de aprendizagem começaram a ser pu-
ladas e até extintas. Surgiu um ensino goela abaixo, que ignora o
devido aprendizado e que não dá ferramentas para a autonomia mu-
sical. Ninguém nos ensinou a falar todas as frases que falamos na
nossa língua materna. Aprendemos gramática na escola, mas a gra-
mática não foi necessária para que pudéssemos aprender a falar. O
mesmo ocorre com a música: se somos expostos a um contexto práti-
co rico, aprendemos a falar o idioma e nos comunicarmos nele. Na
falta de um contexto cultural musical rico e presencial, a aula de
música pode ser a única experiencia musical na qual o seu filho, so-
brinho, neto ou aluno vai experimentar a música. Talvez a única na
qual ele possa experimentar a música como protagonista. Cabe a nós
professores estudarmos para proporcionar o melhor contexto possí-
vel, atendendo as condições necessárias para que o aprendizado
ideal ocorra na primeira infância – o melhor momento para se
aprender a falar “musiquês” - via audiação. .
Um aprendizado ideal

Se esperarmos pelas condições educacionais ideais elas não


vão acontecer. Precisamos cria-las. Na falta de um lugar que me aco-
lhesse respeitando as condições ideais que eu visualizei a partir da
minha prática, e com um interesse crescente nas melhorias que um
ensino musical que acolhe as famílias necessita, eu e o meu sócio
Anderson Nigro abrimos nossa própria escola com muita determi-
nação em fornecer as condições ideais para que a aprendizagem mu-
sical aconteça. Temos turmas sempre com 6 alunos e sempre com
dois professores, sempre um homem e uma mulher. Tenho plena
consciência que a mudança que estamos operando é única. Mas
acredito que ela pode acontecer em inúmeros lugares, se começar de
dentro para fora. Os formatos que conseguimos conceber para aten-
der aos contextos em que vivemos são únicos, e por isso a MLT é
uma abordagem e não um método. .
A MLT fornece ferramentas preciosas para que a aprendiza-
gem musical aconteça desde a primeira infância até a idade adulta,
incluindo ensino infantil, fundamental e médio, grupos vocais, ins-
trumentais e também aulas de instrumento. Vale a pena conhecer
esse trabalho incrível, ainda pouco conhecido no Brasil, mas que
mudou a minha vida e planta sementes musicais duradouras na
vida de todos os meus alunos. .
Eu compartilho a MLT para a primeira infância em um curso
de imersão em Brasília algumas vezes por ano. São apenas 10 profes-
sores de cada vez, para que realmente possamos aproveitar e com-
preender conceitos tão complexos. Alguns professores me dizem
que a situação profissional no mercado de trabalho não favorece
condições tão ideais de aprendizagem. Alguns adiam a aplicação da
MLT por esse motivo. .
Eu sou categórica ao dizer que, além das condições externas,
existem mudanças internas que precisam realizadas. Existem com-
preensões musicais e pedagógicas que precisam acontecer.
.
Existe um trabalho interno de fé nas renovações pedagógico-
-musicais pessoais e profissionais. Mas a verdade é que nada impede
que um professor de música possa começar hoje a aprender o que
precisa ensinar e assim fazer parte de uma mudança profunda em si
mesmo e consequentemente na sua realidade. Nada impede que dei-
xemos a porta aberta para o conhecimento entrar nas nossas vidas.
O Jardim do Entendimento Musical

Imagine que a musicalidade de cada um é um grande jardim.


Dentro dele existe uma casa. Essa casa só tem um cômodo, mas
possui inúmeras janelas e portas. Ao trabalhar as diversas potencia-
lidades musicais abrimos uma janelinha, às vezes uma porta, que dá
acesso a uma pequena parte desse grande jardim. Ao longo de anos
de acesso à música vamos acumulando portas e janelas abertas. A
quantidade de janelas e portas abertas nos concede um presente: o
entendimento musical. Quando pensamos, com a arrogância de um
iniciante, que vamos finalmente abrir a última porta, essa casa
mágica cria outras portas e janelas, e nos faz revisitar janelas antigas
em busca de um melhor entendimento. Ao longo dos anos, a casa
dentro do jardim nos presenteia com a compreensão de que o enten-
dimento musical é infinito. .
Hoje entendo que é impossível zerar as possibilidades de
crescimento e entendimento musical. Gordon diz que o aprendizado
musical é circular, e que ele segue construindo novas camadas de
compreensão. Diante das portas que abrem sobre antigas portas e
das janelas que construímos a partir da nossa vontade de aprender
mais nos tornamos professores. Precisamos desenvolver a disciplina
de abrir caminhos em nós constantemente, para que os nossos
alunos também desenvolvam ao longo do tempo a vontade do acesso
livre a algumas portas e janelas imprescindíveis. Só assim vamos
ajudá-los a despertar o encantamento por desvendar esse grande
jardim por si mesmos. .
A música é a linguagem mais complexa de que temos notícia.
Ela é um ponto de ligação com todas as culturas. Ela é um ponto que
liga o presente com as criações passadas e com as criações futuras.
Ela é um canal de libertação criativa. O jardim do entendimento mu-
sical, embora nasça conosco, se jamais visitado, pode um dia se
tornar inacessível. Cabe a nós, adultos presentes no mundo de hoje,
a responsabilidade de mostrar o caminho do encontro com essa casa
de um cômodo que mora dentro de cada um de nós, e que dá
acesso a um jardim tão lindo, que nos preenche de alegria a cada
visita. Também precisamos compreender, como pais, familiares e
professores, que algumas portas e janelas muitos especiais dessa
casa mágica - a morada interna da aprendizagem musical – apenas
ficam abertas durante os primeiros anos de vida, e que se não forem
visitadas com frequência durante o seu prazo de validade correm o
risco de se manterem cerradas para sempre. .
As crianças estão abertas a aprendizagem. Com elas eu
aprendo a estar disponível. Agradeço e dedico a elas a minha atua-
ção neste mundo. Meu sonho é que todas as crianças tenham livre
acesso aos jardins criativos que possuem dentro de si. O grande
jardim do entendimento musical é apenas um deles. .

Nadja Lopes, professora de música e aprendiz. Sempre.

Nadja Lopes é educadora musical licenciada pela Universida-


vde de Brasília e professora certificada em Educação Musical para a
Primeira Infância pelo Instituto Gordon de Educacíon Musical
España (IGEME). É formadora em MLT para a Primeira Infância e
Coordenadora Pedagógica/idealizadora do Panderolê - Musicaliza-
ção Infantil Personalizada, escola de musicalização para crianças
que possui duas unidades em Brasília. .
Para saber mais...

Nadja Lopes Musicalização

www.panderole.com

musicalizacaopanderole
nadjalopesmusicalizacao

contatopanderole@gmail.com

Instituto Gordon de Educación Musical España:


www.igeme.es
The Gordon Institute for Music Learning:
www.giml.org

Você também pode gostar