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SURPRESAS DE UM

CASAMENTO
Lindsay Armstrong

Um contrato de
casamento?! Qual
seria o desfecho?

Lee não se satisfaria


com menos! Ela queria
o advogado mais
famoso da cidade,
Damien Moore, para
defender os direitos de
sua família. Além de
ser um profissional
brilhante, ele era
bonito e charmoso! No
entanto, Lee não soube
o que fazer quando um
imprevisto a obrigou a se casar com ele!

Damien ficou igualmente aturdido. No entanto, sua experiência o fez


convencê-la de que valeria a pena concordarem com o casamento... Afinal
seria apenas no papel e de curta duração. Mas eles não esperavam que
fossem se apaixonar um pelo outro e que essa paixão os tornaria marido e
mulher não apenas em público mas também a sós!

Digitalização: Carla Matos


Revisão: Pam
Copyright © 2002 by Lindsay Armstrong

Originalmente publicado em 2002 pela Silhouette Books, divisão da Harlequin Enterprises Limited.
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma.
Esta edição é publicada através de contrato com a Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá.
Silhouette, Silhouette Desire e colofão são marcas registradas da Harlequin Enterprises B.V.
Todos os personagens desta obra são fictícios.
Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.

Título original: Marriage on Command

Tradução: Nancy de Pieri Mielli Kditoni


Publisher: Janice Florido
Editora: Fernanda Cardoso
Arte: Ana Suely S. Dobón, Mônica Maldonado
Paginação: Dany Editora Ltda.

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.


Rua Paes Leme, 524 - 10º andar CEP 05424-010 - São Paulo - Brasil

Querida leitora,
Quase sempre não entendemos porque a vida toma certo rumo... Queríamos tanto algo e
lutávamos tanto por ele e de repente parece que tudo o que fizemos serviu para nos afastar
ainda mais do desejado. Mas embora não saibamos, estou certa de que existe uma razão... E
que depois de algum tempo, anos talvez, entendamos porque tudo aconteceu ao contrário do
que imaginávamos... e constatemos de que foi muito melhor assim!

\
Fernanda Cardoso
Editora
P.S.: Não perca a edição 805 de aniversário da série Bianca! Nas bancas no próximo mês.

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CAPÍTULO I

Damien Moore era alto, moreno e arrogante. Essas três palavras


resumiam a impressão inicial de Lee Westwood ao entrar na sala do
famoso advogado e ser analisada da cabeça aos pés antes de ser convi-
dada a sentar-se.
De certo modo, porém, não podia culpá-lo por erguer uma
sobrancelha ao final do exame. Ela deveria ter sido a única pessoa a se
apresentar no maior escritório de advocacia da cidade com uma roupa
que nada tinha de formal.
Em linhas gerais, contudo, ninguém poderia criticar seu aspecto.
Estava usando sua melhor calça jeans, embora já não fosse tão nova. E
tanto ela quanto a blusa verde que escolhera para combinar com seus
olhos, estavam limpas e bem passadas. O mesmo acontecia com as botas
de couro marrom de cano curto. Apesar de estarem um pouco gastas,
haviam sido submetidas a uma farta camada de graxa e a uma escova
antes de serem calçadas.
Lee não se lembrava, aliás, de ter se preocupado tanto na vida em
se arrumar para causar uma boa impressão.
A única nota destoante, Lee pensou, ao pendurar a bolsa no braço
da cadeira, foi justamente a escolha desse acessório. Poderia ter trocado a
velha e prática bolsa de barbante por outra de couro, mais apropriada ao
luxo daquele escritório.
Não que estivesse surpresa com o que encontrou: prédio imponente,
decoração cara, pessoas elegantes e formais. O que realmente a
surpreendeu foi o aspecto do advogado que encontrou ao entrar na sala.
Longe de estar na casa dos sessenta, como ela imaginava, o homem não
deveria ter mais de trinta e três ou trinta e quatro anos. E era bonito e
atraente como um modelo, apesar de sua expressão séria e reservada.
Que não a intimidaria nem naquele instante nem nunca porque ela não
era de se deixar impressionar por ares de superioridade.
— Estou aqui em busca de orientação jurídica, sr. Moore.
— Foi o que minha secretária me disse. Parece que a senhorita tinha
urgência em marcar esta consulta.
— Infelizmente, não posso dizer que a recíproca é verdadeira, não é
mesmo? — Lee retrucou, irônica. — O senhor valoriza tanto seu tempo que
não precisa receber muitos clientes por dia para garantir um bom
rendimento no fim do mês.
Um brilho de humor atravessou os olhos escuros e sagazes.
— Meus honorários não são baixos, é verdade. Mas se estão fora de
seu alcance, por que se deu ao trabalho de insistir que minha secretária
conseguisse encaixá-la em minha agenda?
— Vou satisfazer sua curiosidade, sr. Moore. Acontece que fiz uma

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pesquisa e soube que é o melhor em sua especialidade. Simples assim. —
Lee deu de ombros. — Quanto a seu preço, por acaso tenho como lhe
pagar.
Damien Moore precisou se esforçar para não sorrir diante do ataque
verbal da geniosa e atraente ruiva. Sua secretária nunca havia se
queixado de seus clientes. A jovem Lee Wes-twood deveria ter realmente
quase enlouquecido a pobre Sarah para que marcasse uma consulta com
ele quando sua agenda estava lotada. E ele tinha uma estranha sensação
de que deveria recusar o caso antes que a ruiva também o deixasse
maluco. Mas, por outro lado, que mal poderia lhe fazer uma jovem tão
bonita que não aparentava mais de vinte e três ou vinte e quatro anos?
— Muito bem, srta. Westwood, diga-me em que tipo de confusão se
encontra?
— Eu não me encontro em nenhum tipo de confusão! — Lee
protestou. — Sempre respeitei a lei!
— O que a traz aqui, então?
— Meus avós. — Lee fez uma pausa para ordenar seus
pensamentos. — Eles foram persuadidos a investir a economia de toda
uma vida em um negócio duvidoso. Agora, além de não conseguirem
recuperar o montante, não estão nem sequer recebendo os juros e a
correção monetária prometida. Tenho procurado localizar o sujeito a fim
de tentarmos um acordo, mas ele parece ter desaparecido no ar.
Damien Moore encarou-a ao mesmo tempo que girava uma caneta
prateada entre os dedos.
— Em primeiro lugar, por que os próprios interessados não me
procuraram?
— Meus avós são as pessoas mais importantes do mundo para mim.
Foram eles que me criaram desde a idade de seis anos, quando meus pais
morreram em um acidente. O problema é que eles são pessoas simples do
campo e não entendem de negócios. Ou não teriam caído nesse conto do
vigário. — Lee apertou os lábios. — Não descansarei enquanto não
recuperar todo o dinheiro deles, centavo por centavo.
— Entendo.
— Para ser franca, eu tentei resolver o assunto sozinha. Só estou
aqui porque não tive sucesso.
— Desculpe se estou sendo inconveniente, mas a que recursos
recorreu para recuperar o investimento?
Lee respirou fundo.
— Procurei a polícia para registrar uma queixa, mas, apa-
rentemente, trata-se de um problema de ordem civil. Como o proponente
se salvaguardou contra uma denúncia, fazendo constar um termo em
letras minúsculas que ninguém lê, fui orientada a procurar um advogado.
É claro que não poderia ficar de braços cruzados até que o problema fosse
solucionado. Sei da demora que envolve cada processo. Por isso, acampei

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na porta do sujeito com um cartaz e fiz com que toda sua vizinhança e
quem mais passasse por sua casa soubesse o crápula que ele é.
Damien esforçou-se para não deixar escapar uma risada.
— Quer dizer que ficou a postos na frente da casa dele, segurando
um cartaz?
— Sim.
— O que estava escrito no cartaz?
Lee não conseguiu sustentar o olhar do advogado.
— Basicamente, algumas palavras pouco lisonjeiras sobre a falta de
integridade dele.
— O que o homem fez?
Chamou a atenção de Damien a expressão de constrangimento, mas
também de firmeza e de convicção moral de Lee Westwood.
— Ele mandou alguém me ameaçar com um processo de perdas e
danos. Não teve nem sequer a decência de me falar cara a cara.
Dessa vez, Damien não conseguiu refrear a vontade de rir.
— Não é de admirar! Como pode uma pessoa que se diz cumpridora
das leis fazer ameaças a seu bel-prazer?
— Acontece que eu sei que ele não é um homem íntegro, mas sim
um ladrão! Como você se sentiria nessas circunstâncias se as vítimas
fossem seus avós?
O protesto teve razão de ser. Dessa vez, Damien levou-o a sério e se
pôs a anotar os dados.
— Como é o nome do homem?
— Cyril Delaney.
A caneta escorregou da mão de Damien.
— Está brincando!
— Não, não estou.
— Srta. Westwood, Cyril Delaney é um respeitado proprietário de
terras, antigo na região. E altamente improvável que ele ande por aí
dando golpes em senhores aposentados.
— Trouxe comigo um documento assinado por ele. Meus avós
afirmam que trataram com um homem chamado Cyril Delaney e que foi
sua lábia que os levou a cometerem a imprudência. O que o senhor acha
disso?
— Que existe alguém por aí se fazendo passar por Cyril Delaney.
— Só se for um sósia.
Damien refletiu por um instante diante da possibilidade. Impaciente,
Lee olhou para o teto. Esperava conseguir uma resposta lógica para o
problema de seus avós. Aparentemente, não seria tão fácil assim.

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— O que me diz, senhor advogado? Gastei uma fortuna em
telefonemas para marcar esta entrevista. Sua secretária custou a me
encaixar. Precisei jurar que iria acampar em sua porta, se ela se recusasse
a dar um jeito na situação. Damien balançou a cabeça e Lee ergueu o
queixo.
— Posso ser teimosa e obstinada quando necessário. Ele a encarou
em silêncio por um longo tempo.
— Afirma que não chegou a falar pessoalmente com Cyril, não é?
— Como poderia? Todas as vezes que o procurei, ou não o encontrei
ou não fui recebida.
— Chegou a reclamar por escrito?
— Sim, mas não recebi resposta. — Posso ver o documento?
Lee tirou o papel da bolsa e entregou-o.
— Então, o que acha? — perguntou, ansiosa, quando o advogado
demorou a se pronunciar.
— Que noventa e nove por cento da população nunca lê todos os
termos de um contrato antes de assiná-lo. Neste caso, contudo, há
indícios de que o documento foi adulterado e eu farei uma nova carta
lembrando-o da existência desta aqui, bem como do investimento
efetuado por seus avós.
— E o que mais?
— Por enquanto, isso é tudo que eu posso fazer.
— E se ele ignorar sua carta como ignorou a minha?
— Não creio nisso, srta. Westwood.
As palavras do advogado não tranqüilizaram Lee.
— Não terei sossego enquanto aquele sujeito não devolver o
dinheiro que roubou de meus avós!
Damien deixou escapar um pequeno sorriso.
— Entendo que queira partir para a guersa, senhorita, mas,
infelizmente, terá de exercer sua paciência. Precisaremos dar um passo de
cada vez. A menos, é claro, que prefira procurar outro advogado.
— Não.
Damien pigarreou.
— Nesse caso, preciso anotar alguns dados seus.
— Não se preocupe. Não tenho planos de lhe dar um calote — Lee
respondeu na defensiva.
— Longe de mim ter essa idéia — Damien garantiu. — Sua profissão,
por favor?
— Sou paisagista. Meu maior sonho é ter meu próprio negócio.
Sempre fui apaixonada por jardinagem. Gostaria de ser famosa um dia

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como Capability Brown.
A expressão sonhadora chamou a atenção de Damien para os olhos
de sua cliente. Eles eram verdes e brilhantes como jade. A pele era alva e
levemente salpicada de sardas nas maçãs do rosto. Os cabelos
lembravam as folhas do outono.
— Já teve a oportunidade de admirar os jardins europeus?
— Oh, sim, há dois anos. O senhor também se interessa por
jardinagem?
— Eu não, mas minha mãe adora plantas. Ela também é fã de
Capability Brown. — O advogado se levantou. — Seu entusiasmo pelo
assunto é admirável. Mais cedo ou mais tarde parece-me muito provável
que concretizará seu sonho. Quanto ao problema com seus avós, deixe
suas preocupações comigo e eu entrarei em contato assim que tiver uma
resposta.
Lee se levantou ao perceber que o advogado dera a entrevista por
encerrada, mas não apertou a mão que ele lhe estendeu.
— Isso é tudo?
— O que mais tinha em mente? — ele perguntou com uma
entonação dúbia que passou despercebida a Lee no primeiro momento.
Tanto que ela chegou a mover os lábios para dizer que havia evidências
suficientes para eles tomarem providências outras que não simplesmente
enviar uma carta a Cyril Delaney. Mas aquele olhar que subitamente
captou, e que só pode existir quando um homem sente atração por uma
mulher, a fez hesitar e enrubescer até a raiz dos cabelos.
— Está falando com a pessoa errada — Lee respondeu, por fim.
Ele não tentou disfarçar.
— Às vezes acontece, srta. Westwood. — Ele pressionou a tecla de
comunicação com a secretária. — Agora, se me dá licença, tenho um
compromisso para o almoço.
O apartamento de Lee era compacto, mas confortável. Durante o dia
ela usufruía de uma sala. A noite, a sala virava quarto pela transformação
do sofá em cama. A cozinha, em forma de um barco, era clara e bem
montada e uma bonita reprodução da tela Irises, de Van Gogh, cobria uma
da paredes.
Via de regra, bastava Lee chegar em casa, após o trabalho, para se
sentir de bem com a vida. Naquela noite, contudo, nada conseguia
acalmá-la. A entrevista com Damien Moore não saía de sua mente. Mais
especificamente o final, quando o advogado insinuara que ela poderia
estar querendo por parte dele mais do que uma orientação profissional.
Que audácia!
Não que ele não fosse atraente. E seguro de si, é claro. Cada gesto
daquele homem traduzia sua autoconfiança. Ele era bonito e tinha
consciência disso.

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Precisava parar de pensar em Damien Moore, Lee ordenou-se
enquanto tentava comer a salada e a omelete que preparara para o
jantar. Não conseguia tirá-lo da cabeça. Se ele demorasse para ligar, ela o
procuraria. Sabia que teria dificuldade em pagar os honorários que lhe
seriam cobrados, mas estava disposta a reunir o dinheiro, custasse o que
custasse. Faria qualquer coisa que estivesse a seu alcance para salvar a
casa em que seus avós viviam desde que ela se lembrava por gente.
Também naquela casa que ficava no campo, a três horas de distância do
sul de Brisbane, havia nascido sua paixão pela jardinagem, herança de
sua avó.
Terminado o colégio, Lee ingressou na Universidade de Southern
Cross, na cidade de Lismore, onde fez horticultura. Por ficar próxima a sua
casa, Lee podia ir e vir todos os dias, mas depois de se formar, teve de se
mudar para Brisbane para seguir com sua profissão.
No presente momento, Lee estava trabalhando no departamento
municipal de parques. Era um bom emprego e Lee estava satisfeita com o
que fazia, mas no fundo continuava acalentando o sonho de possuir seu
próprio negócio. Queria montar uma firma de jardinagem e paisagismo.
Sempre que podia, ela freqüentava cursos também de decoração de in-
teriores. Achava apaixonante tudo que se relacionava à arte de compor
ambientes, em especial os externos. O conhecimento mais o talento
natural, segundo sua avó, a faria ter sucesso garantido.
Mas não até que a confusão que envolvia seus avós fosse resolvida,
Lee suspirou. Até que isso acontecesse, seus sonhos teriam de ser
relegados a segundo plano. Agora, dependeria de Damien Moore ser
realmente um bom advogado. Ela lhe daria uma semana antes de procurá-
lo para saber sobre o andamento do caso.
Duas semanas depois, Damien Moore estava descendo do Porsche
azul metálico diante de seu restaurante favorito quando teve o caminho
barrado por uma garota de macacão caqui e chapéu preto de croché. Ele
só pôde reconhecê-la quando o chapéu foi retirado e uma cascata de fogo
se espalhou pelos ombros.
— Então é você! — Damien suspirou. — Pensei que fosse uma
paisagista, não uma detetive à espreita de meus passos!
— Se está se referindo a minha roupa — Lee respondeu, ofendida —,
é meu uniforme de trabalho, não um disfarce. Esqueceu que trabalho com
jardinagem? — Ela olhou ao redor para se referir ao distrito de Milton, o
mais luxuoso de Brisbane. — Mas se está se referindo a minha presença
aqui, fui obrigada a procurá-lo pessoalmente porque não consigo alcançá-
lo por telefone.
Damien estreitou os olhos.
— Como descobriu que eu estaria aqui hoje? Lee sorriu, maliciosa.
— Fácil. Fingi que era secretária de um outro escritório de advocacia
e que meu chefe precisava lhe falar com urgência. Sua secretária me
forneceu todo o roteiro caso seu celular estivesse desligado.

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— Não estou fugindo de você, se é isso que está insinuando —
Damien armou-se de paciência para responder. — Eu apenas ainda não
tenho nenhuma informação para lhe fornecer, o que minha secretária lhe
teria dito caso lhe perguntasse.
— Mas já passaram duas semanas! — Lee protestou. — Se aquele
homem tivesse intenção de responder, ele já o teria feito!
— Olhe...
— Olhe você — Lee o interrompeu. — Meus avós precisaram
hipotecar a casa para complementarem a mísera aposentadoria que
recebem ou não teriam como continuar sobrevivendo. Eu já lhe disse que
eles não estão conseguindo pagar a dívida. Se algo não for feito e rápido,
eles perderão também a casa. Eu não posso ficar esperando indefinida-
mente enquanto você almoça nos restaurantes mais caros a minha custa!
Damien suspirou entre impaciente e divertido.
— Venha almoçar comigo.
Lee olhou para a fachada do restaurante. O luxo estava presente em
cada detalhe.
— Aí? — Lee pestanejou.
— Sim, aí. Eu fiz reserva de uma mesa.
— Mas eu não estou vestida de maneira adequada. Há um fast food
no fim da rua.
— Em hipótese alguma! Ou almoçamos aqui ou nada feito! Lee
mordeu o lábio. Damien Moore estava usando um terno cinza-claro,
camisa listrada de branco e azul e gravata azul-marinho. Os sapatos
pretos, muito finos, pareciam ter saído aquele dia da loja. O lenço, no
bolso, também era azul-marinho. Em suma, ele estava elegante da cabeça
aos pés.
Mas foi o brilho de desafio que ela leu em seu olhar que a fez
decidir.
— Está bem, mas com uma condição. Eu pago minha parte.
— Por quê?
— Não quero ficar lhe devendo nenhum favor.
Lee hesitou. Algo lhe dizia que aquele homem seria capaz de lhe
virar as costas e entrar sozinho no restaurante se ela iniciasse uma
discussão.
Cinco minutos depois, portanto, ela estava sentada diante dele,
tomando um copo de vinho, enquanto aguardava seu pedido: uma fatia de
torta de queijo com salada, o prato mais barato que ela havia encontrado
no menu.
— Tem certeza de que só irá querer isso? Não é preciso passar fome
porque...
— Eu tenho certeza. — Lee não permitiu que ele terminasse. — Eu

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adoro quiche Lorraine e adoro salada de qualquer tipo.
Alguns minutos depois, Lee resolveu ser mais cordial. Damien
Westwood estava se conduzindo como um cavalheiro.
Ele não havia insistido. Ao contrário. Embora a aconselhasse a
experimentar o lombo assado com batatas e ervilhas, não tentou
argumentar quando ola o ignorou.
— Este lugar é muito agradável. Não sei se é porque estou com
você, mas ninguém se importou com meu traje pouco apropriado.
— Eu sou um cliente assíduo.
— Ou seja, se eu tivesse tentado entrar aqui sozinha, eles
gentilmente me convidariam a me retirar?
— Eu diria que não — Damien retrucou com um sorriso.
— Você fez uma entrada triunfal a minha frente, de cabeça erguida
e voluntariosa. Parecia a rainha de Sabá.
— Preferiria que me comparasse a uma famosa atriz de cinema —
Lee brincou.
— Pensando bem, foi a impressão que você deu — disse Damien.
— Eu precisava dar um jeito de melhorar minha auto-estima.
Convenhamos que não estou vestida à altura deste ambiente. — Lee fez
uma pausa. — Você sempre almoça nesse solitário esplendor?
— Não — Damien respondeu depois de tomar um gole do vinho. —
Normalmente almoço apenas um sanduíche em minha mesa. Ao contrário
do que parece, meu trabalho é duro. Eu tinha marcado de almoçar com
alguém, mas o encontro foi cancelado durante meu trajeto para cá. Como
eu estava perto, resolvi seguir em frente. Já havia me decidido a comer
um lombo assado e achei que valeria a pena descansar por uma hora ou
duas e fazer uma boa refeição para variar. — Damien fitou-a. — Isso me
redime perante seus olhos?
— Sim. Peço que me desculpe pela minha atitude inicial
— Lee murmurou, envergonhada. — A propósito, com quem...? — Ao
se dar conta de sua indiscrição, Lee se calou abruptamente. Afinal, o que
estava acontecendo com ela? — Por favor, me desculpe novamente.
— Não era uma mulher — Damien informou com uma expressão
divertida.
Lee não conseguiu encontrar palavras para dizer. Por sorte, o
almoço foi servido e eles tiveram com o que se ocupar.
Damien Moore se revelou uma companhia agradável. Durante a
refeição, ele conduziu a conversa em torno do assunto de que ela mais
gostava: horticultura. Encantou-a ouvi-lo lalar sobre o jardim botânico de
Cooktown, no extremo norte de Queensland, que ele considerava o mais
bonito de todos. Contou-lhe que conhecera Cooktown a caminho da Ilha
Lizard onde participaria de uma convenção.

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Lee sabia que o símbolo de Queensland era uma orquídea cor-de-
rosa, mas não o interrompeu quando ele se pôs a falar a respeito. Estava
gostando de ouvi-lo. Com entusiasmo, ele lhe contou sobre o Capitão Cook
e Joseph Banks que ali estiveram e deram nomes às árvores e arbustos
nativos que encontraram, e também sobre os camponeses chineses, os
responsáveis pelos primeiros plantios de frutas, vegetais e flores.
Poderiam ter continuado a conversar durante horas, de tão
animados que estavam, mas uma ligação pelo celular os interrompeu.
— Parece que hoje é seu dia de sorte — Damien Westwood declarou
depois de desligar.
— Por quê?
— Passei a manhã inteira no tribunal e não tive tempo de verificar a
correspondência. Minha secretária acaba de me dizer que Cyril Delaney
concordou em marcar uma reunião conosco.
A notícia teve o efeito de uma descarga elétrica em Lee. Ela se
empertigou na cadeira e seus olhos faiscaram de excitação.
— Agora estamos chegando a um lugar! Quando? Onde? Damien
não respondeu de imediato. Estava intrigado com aqueles olhos verdes
mais uma vez. De repente, aquela jovem ruiva não estava mais lhe
parecendo um problema. Era teimosa e persistente, sim, mas também
sabia ser uma boa companhia quando queria. Não que isso fosse causar
alguma diferença na relação advogado/cliente, é claro.
— Daqui dois dias, na casa dele. O homem afirma que não está bem
de saúde, por isso demorou a escrever. E ele insiste que você esteja
presente ao encontro — Damien acrescentou com o rosto franzido.
— Notei que você não gostou dessa exigência, embora eu,
francamente, não a queira perder por nada!
— Eu já tive oportunidade de ver sua reação quando o nome de Cyril
Delaney é mencionado. Preocupa-me o modo como irá se comportar
durante o encontro.
— Isso dependerá do modo como Cyril Delaney irá se comportar —
Lee afirmou, categórica.
— Era o que eu temia — Damien respondeu. — Talvez valha a pena
lembrar que a falta de controle só tornará sua posição ainda mais
vulnerável.
— Tentarei me lembrar — Lee prometeu e tomou o café com os
deliciosos petit fours que foram servidos para acompanhar. — Admito que
foi um almoço maravilhoso, principalmente em comparação com o que eu
tinha em mente, mas tenho de ir agora, sr. Moore. Poderia pedir minha
conta, por favor?
— De maneira alguma.
— Mas nós não combinamos que...?
— Eu não concordei com nada.

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— Eu faço questão de pagar por meu almoço!
— Eu entendo, mas procure se colocar em meu lugar. Isso acabaria
com minha reputação.
Lee pestanejou.
— Não entendi. O que isso tem a ver?
— Nunca permiti que um convidado meu dividisse as despesas. Em
especial, uma mulher.
— Em primeiro lugar eu não me incluo na categoria de convidada.
— Mas eu a convidei. Lee encolheu os ombros.
— Não lhe deixei escolha, deixei? Em segundo lugar — Lee
prosseguiu —, eu não...
— Você não é uma mulher? — Damien a interrompeu. Lee estreitou
os olhos.
— Eu quis dizer que não marcamos um encontro. E mesmo que
tivéssemos marcado, muitas mulheres pagam suas próprias despesas
quando saem com homens.
— Tive um imenso prazer em almoçar com você, srta. Westwood. Foi
muito melhor ter sua companhia do que comer sozinho. O mínimo que eu
poderia fazer era pagar a conta.
— Tem certeza? — Lee perguntou por fim.
— Dou-lhe minha palavra.
Damien Moore se levantou nesse instante para irem embora. Lee
demorou alguns segundos para imitá-lo. Estava tentando assimilar a
descoberta que acabara de fazer e que a deixara completamente aturdida.
Seria possível alguém se apaixonar durante um almoço?
As duas horas daquela madrugada Lee desistiu de continuar rolando
de um lado para o outro do sofá-cama e foi à cozinha preparar uma xícara
de chá. De onde tirara a idéia de que estava apaixonada pelo advogado
quando saíram do restaurante?
Por outro lado, mesmo que ela conseguisse encontrar a resposta
para aquela pergunta, de que isso adiantaria? Nada mudaria o fato de ela
ter perdido a voz quando saíram à luz do dia e ele lhe perguntou onde ela
havia deixado o carro.
A espontaneidade e a fluidez que acompanhara a conversa durante
o almoço desapareceram por completo. Ela só conseguia pensar que
estava atraída por um homem gentil e atraente que dera a entender que
ela também não lhe era indiferente.
Encontraram-se diante da casa de Cyril Delaney no dia marcado.
Lee havia pedido licença do trabalho naquela tarde e estava usando
uma calça de linho bege, uma blusa branca e um casaco curto. Os cabelos
continuavam soltos e a bolsa de barbante ainda não havia sido
substituída.

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Ao se aproximar de Damien, Lee demonstrou que tinha pressa em
entrar e liquidar logo com a pendência. Por sua expressão reservada,
Damien percebeu quanto lhe estava custando se apresentar diante do
culpado pela penosa situação em que se encontravam os avós.
Damien pensou em tranqüilizar a jovem, mas se manteve em
silêncio. Não podia se envolver emocionalmente com os clientes. Na
verdade, ele não tinha por que perguntar nada a Lee Westwood, exceto o
necessário para o desempenho de sua função.
A governanta os levou a uma sala ensolarada nos fundos da mansão
e apresentou-os a um senhor de aparência frágil, em uma cadeira de
rodas. Após apertarem-se as mãos, Lee e Damien se sentaram em um
sofá feito de cana-da-índia.
— Então estou finalmente tendo a oportunidade de conhecer a
pessoa que precisou ser ameaçada de um processo por um de meus
empregados, enquanto eu estive hospitalizado?
— Sim — Lee confirmou —, mas eu não sabia que o senhor estava
com problemas de saúde.
— Isso significa que teria organizado um protesto diante do hospital
se soubesse?
— Não — Lee respondeu, corada. — Apenas não sabia mais o que
fazer para chamar sua atenção. Como continuo acreditando que meus
avós e eu estamos em nossos direitos, aviso-o que não descansaremos
enquanto não tivermos alguma compensação sobre o prejuízo.
— Então foi à procura de um advogado famoso. Muito bem. — Cyril
Delaney olhou para Damien. — Sabia que eu conheci seu pai e que
sempre fui um grande admirador de sua mãe, meu jovem?
— Obrigado, senhor. — Damien fez uma pausa para que o homem
continuasse. Como nada aconteceu, ele prosseguiu. — Quanto à
reivindicação da srta. Lee Westwood sobre os bens de seus avós...?
— Deixe que a garota fale por si, está bem?
Damien estranhou a postura do ancião, mas atendeu seu pedido.
Colocada a condição, ele simplesmente se virou para Lee e lhe transmitiu
uma mensagem pelos olhos.
Sem discussões.
Lee engoliu em seco antes de dar início à explicação sobre os
direitos de seus avós. Para encerrar, ela tentou apelar para a compaixão
do homem.
— Eles não teriam feito o investimento se o senhor não tivesse
insistido, sr. Delaney.
Cyril Delaney notou a impetuosidade de Lee e o modo como o
advogado conseguia controlá-la. Outro detalhe que ele observou foi o jeito
mais carinhoso do que profissional com que Damien estava conduzindo o
caso.

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Interessado naqueles dois, Cyril Delaney se determinou a ligar para
sua velha amiga, Evelyn Moore, assim que a reunião terminasse. Ele
sabia, por intermédio dela, que o filho não pensava em casar. A
preocupação de Evelyn, talvez ela estivesse certa, era que o filho já não
era um menino e que estava na hora de começar a procurar uma noiva, ou
o nome da família não teria continuidade.
Certo, portanto, de que havia assuntos mais importantes para serem
resolvidos, Cyril fechou os olhos e abreviou o discurso inflamado da linda
ruivinha.
— Fale-me um pouco a seu respeito. Lee fitou-o, boquiaberta.
— Por quê?
— Você me interessa. Só isso. E eu não tenho tido oportunidade de
me interessar por nada nem por ninguém desde que vim parar nesta
cadeira.
Lee sentiu Damien segurar seu braço, como se quisesse lhe dar
apoio. Mas Cyril Delaney a havia surpreendido a tal ponto que ela não
sabia o que dizer.
— A srta. Westwood foi criada pelos avós depois que os pais
faleceram — Damien contou.
— Onde?
Fornecidas as informações, não apenas sobre os pais, mas também
sobre a vida que Lee levava, Damien terminou a explicação contando ao
homem sobre o sonho de Lee de se tornar famosa como Capability Brown.
— A garra dessa moça é algo difícil de ver.
— Não me diga que ela acampou em sua porta também — Cyril
Delaney caçoou.
— Não, eu não acampei — Lee respondeu por fim e afastou-se do
toque de Damien. — Se não for pedir muito, gostaria que os senhores
parassem de falar sobre mim como se eu não estivesse presente.
— Seria impossível alguém não notar sua presença — disse Damien.
— E verdade — concordou Cyril Delaney. — Sobre o maldito
documento — ele mudou abruptamente de assunto —, de quando é
datado? Damien informou-o.
— Eu estava hospitalizado na ocasião. Alguém esteve usando meu
nome e falsificou minha assinatura. É a única explicação, srta. Westwood.
Posso provar o que estou dizendo. De qualquer forma, não me importo se
quiserem verificar minha conta bancária.
— Isso não será necessário, senhor — afirmou Damien.
— Esperem um pouco — disse Lee. — Eu lamento que o senhor não
esteja bem, mas a descrição feita por meus avós confere com a sua!
Fez-se silêncio. Após alguns instantes, Cyril Delaney olhou para
Damien e encerrou a entrevista.

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— Leve-a daqui, meu rapaz, e cuide dela. E peça para a enfermeira
vir até aqui antes de saírem.
— Está se sentindo melhor?
— Sim, obrigada.
Lee e Damien estavam no bar de um hotel que ficava próximo à
residência de Cyril Delaney. Damien havia notado a palidez de Lee e a
levou para tomar um drinque.
— Além de desapontada, eu me senti culpada diante daquele
homem — Lee explicou com os olhos lacrimosos. — Ele parecia tão idoso e
tão frágil. Não acredito realmente que tenha sido ele, no entanto, eu o
acusei...
— Você está certa. Não pode ter sido ele.
— Mas, então, quem foi? E por que ele encerrou rapidamente a
entrevista depois de algo que eu disse?
Damien refletiu por um instante.
— Também tive essa impressão.
— E agora? O que faremos?
— Acho que só resta uma opção: entregar o caso à polícia.
— Eu tentei esse caminho. Já lhe disse isso.
— Agora sabemos que o contrato era falso. Com essa nova
evidência, talvez possamos progredir com o caso.
— Eu agradeço, mas, infelizmente, não poderei continuar lhe
pagando. — Lee endireitou o corpo e respirou fundo.
— Não lhe cobrarei nada — Damien ofereceu.
Um sorriso triste surgiu nos lábios de Lee.
— Não posso aceitar sua caridade, mas agradeço do mesmo jeito.
— Nada que diga poderá me deter. Agora que comecei, irei até o
fim.
Lee fitou-o, surpresa. As três horas da tarde, eram os únicos
fregueses naquele bar.
— O que está querendo me dizer? — Lee indagou com o rosto
franzido.
— Que cada cidadão tem o dever moral de denunciar um crime.
Portanto, não precisa se sentir em débito comigo. — Damien consultou
seu relógio de pulso. — Se está se sentindo bem, eu a levarei até seu
carro. Nem tudo está perdido, Lee. Tenha isso em mente.
Lee não conseguia atinar com o que estava acontecendo.
— Está fazendo tudo isso porque Cyril lhe pediu que tomasse conta
de mim? Aliás, não é estranho que ele tenha dito isso?
— Quem sabe? — Damien encolheu os ombros. — Eu diria que ele

Sabrina 1300 15
ficou com pena de seus avós e de você pelo que lhes aconteceu.
Damien segurou Lee pelo braço para levá-la até o carro. Apenas
nesses momentos lhe ocorreu que o comportamento de Cyril Delaney não
podia ser considerado normal. Assim como o comportamento da mulher a
seu lado que continuava pálida e quieta como nunca a vira antes.
— Obrigada por tudo, sr. Moore, mas...
— Por favor, me chame por meu primeiro nome, Damien.
— Como eu estava dizendo, eu lhe agradeço, mas...
— Entre, Lee. — Damien abriu a porta do carro. — Estou atrasado.
— Mas eu...
— Não precisa dizer nada. Volte para seus afazeres e deixe esse
assunto comigo.
Cinco minutos depois, Lee estava atrás do volante de seu próprio
carro.
Damien cumpriu o que prometeu. Ligou para ela diversas vezes nas
semanas seguintes e convidou-a uma vez para tomar o café da manhã
com ele em seu apartamento para informá-la sobre o andamento do
processo. Uma outra vez, ele a convidou para almoçar e lhe explicou que o
desfecho do caso poderia demorar porque a pessoa que se fez passar por
Cyril Delaney havia tido cuidado para não deixar pistas.
Um mês depois, Lee leu no jornal que Cyril Delaney havia falecido e
lamentou sinceramente. Jamais poderia imaginar que três dias depois
Damien fosse lhe telefonar para avisá-la que tanto ela quanto ele haviam
sido convocados para a leitura do testamento do velho homem.

CAPÍTULO II

Damien Moore olhou pela décima vez para seu relógio de pulso. Ele
tinha outro compromisso marcado para dali quinze minutos e Lee
Westwood ainda não havia chegado.
Pediu o menu. Lee poderia se satisfazer com uma salada ou um
pequeno sanduíche, mas ele precisava se alimentar bem.
Para ganhar tempo, ele encomendou um filé com batatas para ele e
uma salada César para Lee.
Enquanto a garçonete anotava o pedido e se desmanchava em
sorrisos e olhares, ocorreu a Damien, pela primeira vez, que Lee era
diferente das outras mulheres.
Como se tivesse pressentido que estava sendo lembrada, Lee surgiu
na calçada. Damien ficou acompanhando seus passos pela janela. Os

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cabelos de fogo e o cachecol esvoaçavam ao vento. O frio a levou a
colocar as mãos nos bolsos dò casaco.
Como sempre, ela estava usando uma calça jeans desbotada e
botas de cano curto, mas ao menos havia deixado em casa o chapéu preto
de croché.
Tudo bem que ele não havia marcado o encontro em um local
chique, mas embora fosse um café, desses com mesas na calçada, era um
lugar caro. A maioria dos freqüentadores parecia ter saído das páginas da
revista Vogue.
Não que a roupa fosse fazer grande diferença com relação a Lee. Ela
certamente se revestiria de glamour se vestisse roupas finas. Mas assim
como era, Lee fazia muitos homens virarem a cabeça quando passava por
eles.
Por causa dos cabelos? Sem dúvidas. Dos olhos verdes sen-
sacionais? Oh, sim. E das sardas? Saíras costumavam ser eliminadas pelos
dermatologistas, ou ao menos clareadas, porque as mulheres
normalmente as detestavam. Por um motivo que ele não saberia explicar,
as sardas de Lee emprestavam um toque sensual a seu rosto. E as
pernas...?
No entanto, não eram os atributos físicos que mais o atraíam em
Lee, Damien se deu conta nos últimos segundos antes que ela alcançasse
a mesa. Era sua vitalidade e sua autoconfiança. Ele admirava a qualidade
de Lee de não dar importância ao que os outros pensavam a seu respeito.
Fora essa força interior que o convencera a aceitar o caso embora
soubesse de antemão que ela estava enganada ao acusar Cyril Delaney.
— Desculpe o atraso — Lee disse, ofegante. — O tráfego estava
inacreditável.
— Nunca lhe ocorreu que alguns minutos dedicados ao
planejamento de nossa agenda podem evitar a desagradável tarefa de
pedir desculpas?
Lee percebeu que Damien estava vestido formalmente e se viu
novamente se desculpando.
— Atrapalhei você, não é? Fiz com que perdesse algum outro
compromisso...
— Não se trata disso, mas você deve convir que atrasos podem
dificultar a vida dos outros. No nosso caso, por exemplo, eu agora só
poderei dispor de quarenta e cinco minutos.
Lee suspirou.
— Serão quinze minutos menos do que o planejado. Não foi uma
catástrofe, eu diria. — Lee parou de falar à aproximação da garçonete com
uma imensa salada César..
— Você pediu para mim! — Lee exclamou, surpresa.
— Se tivesse chegado no horário marcado, teria a possibilidade de
escolha. Mas esse é o tipo de refeição que você costuma fazer, não? —

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Damien indagou ao mesmo tempo que cortava a carne.
— Sim, obrigada. Mas eu teria pedido apenas meia porção e sem
anchovas que eu detesto.
— Não coma as anchovas e deixe a metade — ele se limitou a
recomendar.
— Poderia me dizer a razão de tanto mau-humor? — Lee estreitou os
olhos. — Eu não moro na esquina, como você sabe. Precisei atravessar a
cidade inteira para chegar aqui!
Damien não esbravejou dessa vez. Preferiu usar de ironia.
— É verdade. Como vão as coisas lá na fazenda? Aquela pequena
frase teve o poder de lembrar Lee de que o encontro fora marcado para
conversarem sobre o testamento de Cyril Delaney. Por um motivo bizarro,
ele havia deixado Plover Park, uma propriedade de vinte e cinco acres
com um viveiro de plantas já produtivo, para Lee e para Damien em
partes iguais sob a condição de que eles não poderiam vendê-la antes de
decorridos doze meses.
Como em um passe de mágica, Lee tinha em suas mãos a solução
das duas questões mais importantes de sua vida: realizar seu sonho de
trabalhar por conta própria e reembolsar seus avós pelo investimento
perdido.
A palavra mais exata seria um milagre. Porque além de tudo, Plover
Park ficava a apenas dez minutos de distância, de carro, da chácara de
seus avós. Para Lee, foi como voltar para o lar onde crescera. E seu avô,
um homem saudável e ainda ativo, estava feliz por poder ajudá-la com o
viveiro de plantas.
— É maravilhoso! — Lee vivia dizendo a si mesma e a Damien. — De
vez em quando preciso me beliscar para ter certeza de que não é um
sonho. Bem, o que houve para você me chamar aqui com tanta urgência?
Damien esperou que Lee se servisse de uma porção da salada e
separasse as anchovas. Assim ele ganhava tempo. Não sabia como dar a
notícia.
— Surgiram complicações. O testamento será contestado. A cor
desapareceu das faces de Lee.
— Você está brincando! — Ao movimento negativo que Damien fez
com a cabeça, Lee prosseguiu. — Com base em quê?
— Sob a premissa de que nós pressionamos Cyril para que ele nos
incluísse em seu testamento.
— Mas nós não fizemos isso! — Lee protestou. — Não tínhamos a
menor idéia de que ele pensaria em nossos nomes.
— Você e eu sabemos disso, Lee, mas Cyril não mais está entre nós
para confirmar sua decisão.
— Mas é terrível!
Lee olhou para a salada que não conseguiria mais engolir.

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— Damien, como advogado, qual sua opinião a respeito? — ela
perguntou com um fio de voz. — Eles podem nos tirar a propriedade?
Damien refletiu por um instante.
— Em termos gerais sempre é possível destinar uma parte dos bens
a outros desde que os herdeiros legais recebam o que lhes cabe por
direito. No caso, um dos herdeiros legais de Cyril Delaney não se satisfez o
suficiente com o que recebeu. Em sua opinião, Plover Park é dele por
direito.
— Qual dos herdeiros? — Lee quis saber.
— O irmão. Ele alega que Plover Park pertence à família Delaney.
Originalmente, a propriedade era do avô deles e ele não acha justo que
nós fiquemos com ela quando nosso único interesse é vendê-la, após doze
meses, para dividirmos o dinheiro.
— Bem, por mais duro que seja para nós, ele está certo. Na verdade,
ser herdeira de Cyril Delaney era a última coisa que eu esperava.
— Eu também — Damien concordou. — Mal pude acreditar quando li
a carta que Cyril deixou explicando o motivo de sua decisão: que ele
pensou que combinávamos um com o outro e a posse em conjunto de
Plover Park, pelo período de um ano, poderia ser o impulso que nos levaria
ao casamento. Mas, como não demos nenhum sinal de que pretendemos
continuar administrando a propriedade para sempre, como marido e
mulher, o irmão de Cyril alega má fé de nossa parte por termos sugerido,
talvez, essa possibilidade ao velho homem.
Lee suspirou antes de tomar um gole do café que acabava de ser
servido.
— Era bom demais para ser verdade. Não foi à toa que eu vivia me
beliscando desde a leitura do testamento. Só podia ser um sonho. Para ser
sincera, eu nunca entendi porque Cyril Delaney se lembrou de mim ao
redigir seu testamento.
— Obviamente ele gostou de você — Damien deu uma piscada —,
apesar das inúmeras vezes que a encontrou acampada na porta dele
segurando um cartaz que punha em dúvida sua integridade.
— Mas se eu o conquistei no final, como você supõe, por que ele não
deixou Plover Park apenas para mim? Por que precisei dividir a
propriedade com você?
Damien balançou a cabeça.
— Não sei. Ele estava à beira da morte e era solteiro. Talvez tenha
se sentido só e arrependido por não ter tido filhos para deixar sua fortuna.
Ou então — Damien fez outra pausa —, ele achou realmente que nós dois
fomos feitos um para o outro e que só precisávamos de um empurrão para
nos acertarmos.
— Não acredito. Como ele poderia ter chegado a essa conclusão se
nos viu apenas uma vez? Com certeza, nenhum de nós se comportou
como se comportam os amantes.

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— Deve ter acontecido algo naquela entrevista que nem você nem
eu notamos. Cyril Delaney era um homem experiente. Todos afirmavam
que ele tinha faro para os negócios. Eu diria que ele tinha sensibilidade
não apenas para os negócios, mas com relação a tudo. Acredito que ele
tenha ficado com pena de seus avós e admirado seu esforço para ajudá-
los. O legado, então, seria uma forma de resolver o problema. Quanto a
mim, talvez ele tenha me deixado a outra metade da propriedade como
garantia de que eu cuidaria dos trâmites legais decorrentes.
— É mesmo... Antes de sairmos, ele pediu para você cuidar de mim!
— Nós dois sabemos que estamos falando a verdade — Damien
concordou. — O problema é que essa teoria não vale nada perante o juiz.
Os olhos de Lee encheram de lágrimas ao ter confirmado seu
pensamento de que o legado não passara de um sonho.
— Eu estava certa. Era bom demais para ser verdade.
— Talvez nem tudo esteja perdido — Damien declarou. — Existe um
modo irrefutável de conservarmos Plover Park.
— Qual?
— Casamento.
Mais do que antes, Lee podia dizer que era bom demais para ser
verdadel
— Você não está falando sério, está?
— Você gostaria que estivesse?
Lee precisou umedecer os lábios com a ponta da língua.
— Nós mal nos conhecemos. Tenho certeza de que isso nunca lhe
passaria pela cabeça se não fossem as presentes circunstâncias. O mais
provável é que você esteja dizendo isso de brincadeira. Aliás, uma
brincadeira de mau gosto.
Damien fitou-a com ar de provocação.
— Você não respondeu minha pergunta.
— Não. Lógico que não. Mas obrigada assim mesmo.
— Nesse caso, o que diria de um casamento de conveniência?
— Seria conveniente para mim, mas inconveniente para você.
— Não vejo o porquê, desde que as respectivas necessidades sejam
respeitadas. Aliás, de certa forma, casar seria bom para mim também
neste momento.
— A que forma você se refere? — Lee quis saber, completamente
perdida.
— Seria excelente se eu pudesse me mudar para Plover Park o mais
rápido possível.
— Por quê? — Lee perguntou, desconfiada.

Sabrina 1300 20
— Estou precisando de férias. E como tenho planos de abrir um
outro escritório em Byron Bay, poderia unir o útil ao agradável.
Uma mudança para Plover Park seria mais do que providencial para
Damien, Lee pensou. Byron Bay ficava a apenas meia hora de distância de
Plover Park.
— Você ficaria morando em Plover Park até o final do prazo proposto
por Cyril Delaney? — Lee deduziu.
Damien pediu outro café para eles.
— Apenas o tempo necessário para não deixarmos dúvidas de que
estamos ao menos tentando satisfazer o desejo do velho Cyril.
Lee corou.
— Eu... Eu não sei o que dizer.
— Nesse caso, considere a alternativa. Uma disputa judicial da qual
eu não poderei participar como advogado porque estarei tão envolvido no
processo quanto você. Mesmo que exista uma chance de ganharmos a
causa, haverá um longo e penoso caminho a percorrer.
Diante do exposto, Lee não teve como negar. Seu cenho franziu e
ela ficou tentando encontrar uma outra saída.
— Não estou gostando nada disso. Parece tudo tão suspeito.
Damien recostou na cadeira e permaneceu em silêncio.
Lee examinou-o. Mais do que qualquer outro homem que conhecera,
Damien Moore tinha a capacidade de intrigá-la. Ele não era daqueles que
despia a mulher com os olhos. O que a incomodava era justamente isso. O
fato de ele não demonstrar nenhum interesse.
Ao contrário do que acontecia com ela. Porque desde o primeiro
momento, uma pergunta estava sempre atravessando seu pensamento.
Como seria Damien Moore na cama?
Lee fez uma careta consigo mesma. Precisava parar de pensar
naquele homem que nunca lhe dera a menor evidência de estar atraído
por ela. Afinal, seria uma tolice se deixar levar pela esperança porque se
apaixonar por um homem capaz de propor um casamento platônico era
pura perda de tempo.
— Suspeito por quê? — Damien perguntou por fim.
— Não sei. Essa herança inesperada, depois a condição para recebê-
la. Parece algo planejado.
— Eu estou sugerindo dividirmos a mesma casa, não a mesma
cama, se é isso que a preocupa.
Lee mordeu o lábio. O que Damien diria se soubesse que ela se
sentia ofendida justamente por esse tipo de observação?
— É claro que poderemos contar com várias camas — Damien
piscou.

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— Engraçadinho!
Uma expressão divertida surgiu naquele rosto.
— Admiro sua rapidez de raciocínio, Lee. Você sempre tem uma
resposta na ponta da língua.
Lee continuou séria, mas suspirou de alívio por dentro.
— Digamos que eu concorde, embora não acredite que possa dar
certo. Quando você se mudaria?
— Daqui a duas semanas.
— Então eu teria de lhe dar uma resposta antes? — Lee murmurou,
súbita e inexplicavelmente apreensiva.
— Não seria algo tão difícil quanto ir para a cadeira elétrica, eu
presumo.
— Eu não disse isso! — Lee tentou se defender. — É que eu preciso
de algum tempo para pensar.
— Há tanto assim para pensar, Lee? Até agora eu não defendi seus
interesses?
Mais uma vez, Lee não soube o que dizer. Damien não podia
imaginar o dilema em que ela se encontrava. Até aquele momento, ela
havia conseguido se comportar diante dele como se comportaria na frente
de qualquer outro homem. Mas como seria quando estivessem morando
juntos? Partilhando a mesma cozinha, a mesma mesa, o mesmo sofá,
dormindo sob o mesmo teto?
Lee foi salva pelo gongo. Ao descobrir que estava atrasado, após
uma consulta ao relógio de pulso, Damien se desculpou.
— Eu preciso ir agora. Pense bem, Lee. Não quero que diga depois
que eu a pressionei a uma decisão. — Ele se levantou. — Sinto muito, mas
tenho de ir. Por que não pede uma sobremesa e aproveita para relaxar um
pouco? Quando tiver uma resposta para me dar, eu estarei esperando.
Lee ergueu os olhos para ele. Não se levantou para se despedir.
— Está bem. Damien hesitou.
— Não faça nada de que venha a se arrepender depois, Lee
Westwood.
Lee acompanhou cada passo de Damien até o caixa e depois até a
saída. Damien chamava a atenção com seu porte alto e másculo. Todas as
mulheres presentes o estavam seguindo com os olhos.
Distraída, Lee tomou um gole de café e tentou se consolar ao
pensamento de que não era a única a achar Damien Moore irresistível.
Ela estava se preparando para ir embora quando ouviu uma voz de
homem as suas costas. Antes que se virasse para ver quem era, o homem
se sentou na cadeira que Damien acabara de vagar.
— Um almoço ocasional não resolverá a questão.

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— Quem é você? — Lee se apressou a perguntar.
— Cosmo, srta. Westwood — o homem respondeu. — Sou o irmão de
Cyril Delaney.
Os olhos de Lee quase saltaram das órbitas.
— É o senhor que está contestando o testamento?
— Eu mesmo.
— Está me seguindo? É por isso que está aqui?
— Em absoluto — ele negou. — Foi pura coincidência. Eu reconheci
Damien Moore e somei dois mais dois. Aproveitei que ele saiu para me
apresentar e dizer que é minha intenção lutar com todas minhas armas
para anular a doação que meu irmão foi convencido a fazer a vocês.
— Sua acusação é absurda! — Lee protestou. — O senhor não está
em seu juízo perfeito!
— Não estou? Meu irmão tinha prometido me dar Plover Park. Para
ter mudado de idéia, vocês devem ter feito uma ótima apresentação
teatral, porque pelo que pude ver nenhum está apaixonado pelo outro.
Lee não quis ouvir mais nada. Ela se levantou, olhou bem para
Cosmo Delaney e se despediu.
— Faça como quiser, senhor. Passe bem.
Lee só conseguiu voltar a respirar quando chegou perto de seu
carro. Nesse instante, tirou o celular da bolsa e ligou para o escritório de
Damien.
— É melhor ser importante — disse Damien depois de Lee esperar
cinco minutos pela conexão. — Estou no meio de uma reunião.
— É muito importante. Preciso falar com você.
— Nesse caso, poderemos nos encontrar depois do trabalho. —
Damien se calou por um momento. — Não. Esta noite terei de ir a uma
festa. Será tarde quando eu...
— Excelente — Lee o interrompeu. — Irei com você à festa. Se você
não for levar ninguém, é claro.
— Não, não levarei ninguém, mas....
— Acha que ficará mal levar uma acompanhante?
— Não, mas não se trata apenas de um jantar. Haverá um bufê e
música...
— Melhor ainda! O único problema é um lugar para eu ficar. Posso
usar seu apartamento?
Fez-se silêncio do outro lado da linha.
— Damien?
— Você quer ir ao meu apartamento?
— Alguma sugestão sobre onde eu possa ficar o resto da tarde e me

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arrumar para a festa?
— Eu...
— Se você não acha uma boa idéia, irei ao seu escritório e ficarei
esperando até o encerramento do expediente. Eu estou falando sério
sobre o assunto ser urgente.
— Está bem. Vou telefonar para o zelador do prédio e autorizar sua
entrada. Tem o que vestir para a festa?
Lee detectou uma nota de preocupação na voz de Damien e sorriu,
apesar de tudo.
— Não, mas trouxe meu cartão de crédito comigo. Fique tranqüilo.
Não serei motivo de constrangimento.
No salão de beleza, Lee foi atendida por uma mulher sofisticada e
falante. Enquanto fazia as unhas de Lee e cuidava da hidratação de sua
pele, a profissional a submeteu a um verdadeiro interrogatório.
— Com certeza há um homem nessa história. É o que costuma
acontecer com todas que nos procuram para uma noite de Cinderela.
Lee sorriu mentalmente, uma vez que a máscara de frutas havia
transformado seu rosto em pedra.
— Podemos dizer que sim.
— Ele é bonito?
— Sim — Lee confessou. — É moreno, sério e formal, mas dá a
impressão de ser alguém diferente sob a superfície.
— Do tipo capaz de fazer uma mulher perder a cabeça?
— Exatamente. Acho que sou uma maluca.
— Claro que não. Só se vive uma vez, só se é jovem uma vez e você
tem olhos e cabelos que são verdadeiras armas de sedução.
— Obrigada, mas eu preferiria ser atraente de uma outra maneira.
— Dizem que nunca se pode ser rica nem magra demais. Dessa vez,
Lee não conseguiu controlar o riso.
— Oh, acho que a máscara partiu inteira.
— Tudo bem. O tempo de tratamento acabou. Eu iria removê-la
agora de qualquer jeito. E quanto ao vestido? Já o escolheu?
— Essa será a próxima etapa.
— Eu iria com um preto curtinho se tivesse suas pernas. Vi um
modelo que ficaria perfeito em você na butique do salão.
Uma hora depois, Lee estava se mirando ao espelho.
— Eu não disse? Ficou maravilhoso em você!
— Não acha que é ousado demais?
— De forma alguma! Use e abuse desse glamour, garota! E não

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esqueça de prender os cabelos!
Duas horas mais tarde, Lee estava se dirigindo ao apartamento de
Damien, em Kangaroo Point, com uma vista fantástica para o rio Brisbane
e para o centro da cidade.
Ela já havia estado ali uma vez para tomar o café da manhã.
Naquele dia, a decoração a havia impressionado. Agora ela poderia
admirá-la com mais calma. Os quadros e os objetos mereciam um exame
minucioso. Em tons claros de rosa e azul com fundo branco o ambiente
transmitia paz e serenidade. Um vaso com cravos cor-de-rosa na mesa de
centro completava o cenário.
Como ainda era cedo, Lee ligou a televisão na sala íntima e se
deitou no sofá para assistir a um filme, mas acabou dormindo. Quando
acordou, já estava escuro. Não que isso a preocupasse. Ainda contava
com mais de uma hora para se arrumar.
O estômago deu um aviso de que estava vazio. Lee fez uma
incursão pela cozinha e encontrou pouca coisa, mas o suficiente para
matar a fome: queijo, bolachas de água e sal, uma maçã e alguns cachos
de uva. Era óbvio que seu futuro marido apenas em nome não costumava
fazer suas refeições em casa. As garrafas de champanhe na geladeira,
contudo, era um sinal de que receber visitas deveria ser uma constante.
A caminho do quarto de hóspedes, Lee passou pela suíte principal.
Sem saber porque, ela parou à porta. O bom senso lhe dizia para seguir
adiante. Damien era um homem livre e desimpedido. Ela poderia
encontrar ali o que não desejaria.
Com um suspiro, Lee decidiu ignorar a curiosidade e entrar no
quarto vizinho que também contava com um banheiro anexo.
A curiosidade acabou sendo satisfeita. Havia evidências ali de que
ele recebia visitas de uma mulher ao menos. Além de haver uma linha
completa de cosméticos sobre a pia de mármore, um conjunto de
camisola e robe estava pendurado em um cabide na parede. Um conjunto
dos mais finos e sensuais, em seda e rendas.
Lee colocou a camisola junto a seu corpo para comparar as medidas.
A dona era um pouco mais alta e curvilínea. Como seria sua compleição?
Loira? Morena?
Os fios longos e pretos na escova lhe deram a resposta. Ela era
morena. Ocorreu-lhe, então, que deveria haver roupas no armário e que
elas poderiam lhe dar uma pista do tipo de mulher de que Damien
gostava.
As roupas eram finas e esportivas, mas a quantidade de saias e de
blazers indicavam que ela poderia ser uma advogada como ele.
Lee examinou o jeans desbotado e tornou a suspirar. Mas então se
lembrou das compras que fizera e que lhe emprestariam a mesma
aparência de qualquer outra mulher que vivesse no mundo dos
executivos.

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Esse pensamento fez Lee lembrar do motivo que a levara ao
apartamento de Damien. Estaria preparada para casar com ele? Estava
disposta a aceitar a proposta de um casamento sem amor para garantir a
posse de uma propriedade que significava não apenas o sonho de sua
vida, mas a segurança financeira de seus avós?
Lee mirou-se pela última vez ao espelho. A metamorfose estava
completa. Maquilagem esmerada, unhas e batom da mesma cor, cabelos
presos de acordo com a sugestão da esteticista, roupa impecável.
Agora, ela só precisaria esperar alguns minutos até ouvir a chave
girar na fechadura...

CAPÍTULO III

Damien deu um passo para trás involuntariamente e pestanejou. O


pouco tecido com que o vestido fora confeccionado se amoldava às
formas de Lee. O decote, em formato de coração, realçava o colo aceti-
nado. As alças finas, bordadas em pedrarias, formavam uma moldura
perfeita para os seios. A saia, bem acima dos joelhos, e as sandálias
pretas de saltos altos e finos, pareciam alongar ainda mais as pernas.
O vestido revelava um corpo que Damien só imaginara existir sob a
habitual calça jeans. O contraste com o preto do vestido destacava ainda
mais o verde dos olhos. A maquilagem era leve e ao mesmo tempo
sofisticada. Sob todos os aspectos, Lee parecia ter saído, subitamente, das
páginas de uma revista.
— Surpreso? — Lee desafiou-o.
— Admito que parece outra mulher.
— Trabalho com terra e plantas, esqueceu? É preciso uma ocasião
especial para eu me produzir. Seria pedir demais perguntar se você
aprovou meu visual?
— Você se importaria se eu dissesse que não?
— Não, é claro — Lee mentiu. Porque, embora ela estivesse ansiosa
por ouvir um elogio, preferiria morrer a admitir. — Perguntei apenas para
efeito de sua festa.
Damien parou diante de Lee e sorriu.
— Eu acho que você está sensacional. Para qualquer efeito. As
roupas são um mero acessório. Peço que me desculpe pela observação
infeliz da hora do almoço.
Lee mordeu o lábio e tentou não enrubescer sob o escrutínio. Só
agora estava se dando conta de que fora a referência feita durante o
almoço a responsável pela compra do vestido.

Sabrina 1300 26
— Fico satisfeita em saber, por uma importante razão. Preciso
chamar a atenção esta noite de todos que estarão na festa. — Lee hesitou
como se precisasse se armar de coragem. — Será minha primeira
apresentação à sociedade como sua futura esposa.
— Não resta dúvida de que você será notada — Damien afirmou. —
Por que essa preocupação agora?
— Cosmo Delaney me dá arrepios — Lee confidenciou.
— Você acha que ele ouviu nossa conversa antes de se aproximar e
se sentar a seu lado?
— Acho que não. E você?
— Penso o mesmo. Em todo caso, estou acostumado a lidar com
esse tipo de situação. Aceita um drinque?
— Não, obrigada. — Lee ficou olhando enquanto Damien se servia
de uma dose de uísque. — Sua situação financeira lhe oferece uma
perspectiva diferente da minha. A herança não fará diferença em sua vida.
— Ao contrário, Lee. — Damien fechou a garrafa e seguiu para o
sofá. — Se alguém resolver me acusar de pressionar Cyril a me incluir em
seu testamento, poderei dar adeus a minha carreira.
— Nesse caso, como pode estar tão tranqüilo?
— Vou ser bem claro com você. O caminho mais fácil para mim seria
desistir de minha parte da herança. Eu não preciso daquelas terras nem
do estresse da contestação. Embora não pretenda fazer isso, acho bom
você ter uma idéia do quadro.
Sem dizer nada, Lee foi até o bar e se serviu de uma dose de
conhaque com soda. Damien ficou observando-a com um sorriso.
— Estou perplexa.
— Não irei desistir, Lee. Por admiração a sua luta pelos seus avós e
também porque não pressionei Cyril Delaney de nenhuma forma a nos
incluir em seu testamento. Além disso, Cosmo não foi injustiçado. Seria
diferente se ele não tivesse recebido uma parte significativa da herança.
— Isso é tudo? — Lee indagou quando Damien se levantou, como se
tivesse dado a conversa por encerrada.
— Não. A parte mais difícil será sua. Tem certeza de que quer
continuar com a luta?
— E com um casamento fictício pelos próximos dez meses, você se
esqueceu de dizer — Lee acrescentou com um fio de voz.
— Exatamente.
Lee respirou fundo e apertou as mãos, uma contra a outra.
— Sim, tenho certeza.
— Muito bem. Eu já volto. — Damien deixou-a sozinha por um
instante. Quando retornou, trouxe consigo um estojo preto de veludo. —

Sabrina 1300 27
Ocorreu-me que poderíamos aproveitar a noite de hoje para anunciarmos
nosso noivado.
— O que é isto? — Lee perguntou, boquiaberta, ao ver o magnífico
brilhante solitário.
— O que parece: um anel de noivado.
— Você o comprou? — Lee perguntou ainda mais atônita.
— Não. Eu o possuo há anos. Uma de minhas tias deixou-me todos
seus bens, inclusive as jóias. — Coloque-o.
Ocorreu a Lee pedir que Damien o fizesse, mas se calou a tempo.
— É lindo!
Damien ficou olhando para a mão de Lee por algum tempo. Por fim,
pediu licença para tomar um banho.
Quinze minutos depois, Damien se apresentou na sala. Estava
elegante, embora vestido de maneira casual. Nas mãos trazia uma garrafa
de champanhe francês.
— Pronta?
Lee se levantou do sofá e alisou o vestido para disfarçar o
nervosismo.
— Fica longe?
— Oh, não. Só teremos de tomar o elevador. Meus amigos moram na
cobertura do prédio. — Damien se deteve. — Algo errado?
— Estou com frio no estômago — Lee confessou.
— Não costuma ir a festas?
— Raramente, mas não é esse o problema.
— Qual é, então? Eu pensava que você era capaz de enfrentar
qualquer tipo de situação e que não dava a mínima para a opinião que os
outros possam ter a seu respeito.
— Obrigada. Eu sou capaz de enfrentar qualquer tipo de situação.
Acontece que não tenho a menor idéia de como fingir que sou noiva de
alguém!
— Não? Esqueceu que não me deixou escolha sobre eu levá-la a
essa festa?
Lee baixou os olhos.
— Cosmo Delaney me tirou do sério...
— Ou seja, você não mede conseqüências quando é provocada.
— Ok, você venceu. Mas como foi o responsável por despertar esse
espírito guerreiro em mim, o que sugere?
Damien colocou a garrafa de champanhe ao lado dos cravos e
cruzou os braços.

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— Um noivado repentino só pode ser justificado por um romance
explosivo, não acha? Minha sugestão, portanto, é que você procure treinar
o papel de mulher apaixonada nos minutos em que estivermos no
elevador.
— Não é engraçado, Damien.
— Tente pensar que é.
Lee andou de um lado para o outro.
— Eu desisto. É melhor você ir sozinho à festa.
— E dar essa satisfação a Cosmo?
Lee pressionou as mãos, uma contra a outra.
— Ele estará lá?
— Posso apostar que não, mas as fotos da festa devem sair nas
colunas sociais do domingo.
Uma imagem do viveiro de plantas veio à mente de Lee naquele
instante. O que seria das flores e dos arbustos negligenciados que ela
havia conseguido salvar? E dos projetos que ela havia assumido nos
últimos dias?
— Nós precisaríamos combinar sobre o que iremos dizer.
— Sem dúvida — Damien concordou e sugeriu. — Que tal dizermos a
verdade? Que nos conhecemos quando você me procurou para
aconselhamento jurídico? Quanto a rapidez de nosso noivado, você não
precisa se preocupar.
— Por que não? — Lee estranhou.
Damien retirou um cravo do vaso e colocou-o entre os seios de Lee.
— Deixe isso comigo.
— Não acredito! — exclamou Ella Patroni, a vizinha de Damien e
uma das anfitriãs mais famosas da cidade, genuinamente surpresa ao ser
apresentada a Lee.
— Garota esperta. — A mulher abraçou Lee e piscou. — Muitas
tentaram levar esse homem para o altar, mas nenhuma usou a tática do
mistério. Aposto que foi essa a razão de seu sucesso.
Nem Damien nem Lee responderam. Para fingir naturalidade, Lee
desviou o olhar. Não esperava encontrar plantas exuberantes no terraço,
além das portas de vidro de correr. O lugar parecia uma ilha tropical.
Havia vasos com palmeiras, uma piscina iluminada e um bar construído
como uma cabana. De um piano branco vinham as notas que alegravam
ainda mais o ambiente.
— É simplesmente maravilhoso! — Lee exclamou
Ella concordou com um gesto de cabeça e em seguida deu um
sorriso de cumplicidade para Damien.
— Foram esses olhos que o fisgaram, não? São fantásticos! Bem, o

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que pretendem fazer? Pouparia um bocado de tempo e esforço se
fizéssemos o comunicado agora mesmo, não acham?
— Não.
— Sim.
Lee e Damien responderam juntos. Lee, na negativa.
— Acho melhor fazermos o que deve ser feito e ficarmos livres de
uma vez.
— Ele está certo — Ella declarou. — Se a notícia tiver de correr de
boca em boca, vocês serão abordados a noite inteira para a confirmação.
Confie em mim, minha cara. Eu mesma resolverei isso. Venham comigo.
A medida que Ella a conduzia pela mão ao terraço, Lee sentiu que o
impacto da situação apenas começava a calar em sua mente. Em poucos
minutos o mundo ficaria sabendo que ela se casaria com Damien Moore.
Até aquele instante, não havia realmente parado para pensar nas
implicações dessa decisão. Seu padrão de comportamento era sempre
esse: agir por impulso. Apenas das outras vezes, ela fora capaz de medir
as conseqüências porque tinha certeza de que suas intenções eram as
melhores possíveis.
Porque as intenções continuavam a ser as melhores, mas ela não
fazia idéia sobre as conseqüências...
Ella subiu à pequena plataforma onde estava o piano e pegou o
microfone. Com um sorriso, Damien levou a mão de Lee aos lábios. O
pianista tocou uma música de fundo que sugeria um suspense.
— Não faça essa cara de quem está esperando uma sentença, Lee.
Estragará o efeito.
Lee engoliu em seco. De assustada, entrou em pânico. Depois de lhe
beijar a mão, Damien tomou-a nos braços diante de toda a platéia.
— Parentes, amigos, e amigos dos amigos. Com vocês, Damien
Moore e sua noiva, Lee Westwood!
Um burburinho dominou a audiência antes de se transformar em
uma algazarra. Em meio ao barulho, Damien beijou Lee na boca pela
primeira vez.
Damien olhou, divertido, para o rosto corado de Lee e para seus
olhos atônitos. Não houve tempo para trocarem nem outro beijo, nem
palavras. Uma multidão os rodeou para dar os parabéns e para investigar
o porquê do segredo. Em especial o último.
Damien a surpreendeu com a atitude fácil e relaxada com que
driblou a curiosidade do pessoal. O que deu a entender a todos foi que
quis sua noiva apenas para si mesmo por algum tempo. O que ninguém
colocou em dúvida porque a declaração se fez acompanhar por longos e
significativos olhares.
— Não foi tão ruim, foi? — Damien sugeriu quando tiveram uma
chance de se dirigirem à pista de dança.

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— Não — Lee foi obrigada a admitir. Damien enganava bem como
homem apaixonado. Ela chegou a notar que várias mulheres suspiraram
diante dos olhares que ele lhe endereçava.
— Não sei porque mas você não parece segura do que diz — Damien
reclamou.
— E eu tenho a sensação de que você parece confiante demais.
Falou como se fosse verdade e nós sabemos que é uma grande mentira.
— Sou um homem de trinta e seis anos de idade. Todo esse tempo
traz alguma experiência. Além disso, sou de opinião de que quando algo
precisa ser feito, deve ser feito direito.
Foi impossível retrucar nos braços de Damien. Ele dançava bem.
Bem demais. E o modo como passeava os olhos pelo decote de seu
vestido lhe dava a sensação de estar sendo tocada. No elevador, ela havia
tirado a flor de entre os seios e a colocara entre os cabelos. Agora se
arrependia do gesto.
Antes ela se sentira atraída pela aura de masculinidade de Damien.
De repente, via-se em seus braços e era beijada diante de pessoas. Aos
poucos, Damien havia se infiltrado em seus sentidos. O desejo de se
entregar à força daquela atração estava aumentando cada vez mais.
— Você estava dizendo...? — Damien a trouxe de volta de seus
devaneios.
— Eu disse alguma coisa? — Lee pestanejou.
A música terminou e Damien soltou-a, mas continuou com a mão na
cintura dela.
— Não, mas seus pensamentos estão quase escritos em seu rosto.
— Foi um dia cheio de surpresas — Lee admitiu. — É de admirar que
eu não estivesse falando em voz alta comigo mesma.
Ele riu e beijou-a na testa, dessa vez.
— A propósito — Lee procurou demonstrar que o gesto não a havia
afetado —, sua geladeira e sua despensa deixam a desejar.
Damien pareceu chocado.
— Você não pediu um almoço por telefone?
— Não. Cosmo acabou com o resto do apetite que você havia
deixado com a notícia que me deu.
Damien soltou-a no mesmo instante.
— Então vamos comer. Espero que tenham preparado ao menos um
prato de sua preferência.
Havia um delicioso bufê de frutos do mar. Lee se serviu de camarão,
salmão defumado e saladas variadas.
— Você nunca come carne? — Damien quis saber ao se sentarem na
única mesa vazia.

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— Não. Como você disse há pouco, não deveria fazer essa
observação em público. Poderá estragar o efeito.
Damien concordou com ela dessa vez.
— Diga-me — Lee continuou depois de se sentarem e tomarem um
gole de vinho. — Existe um sr. Patroni?
— Sim — Damien respondeu. — Ele se chama Hank e está em algum
lugar por aí. Não é tão extrovertido quanto Ella. Estive pensando, Lee.
Você pretende dormir aqui esta noite?
Até aquele instante Lee não havia se dado a chance de refletir sobre
esse assunto, mas se fizesse questão de voltar para sua casa não teria
alternativa exceto empreender uma viagem de três horas de duração.
— Acho que sim.
Damien sorriu e baixou a voz.
— Está convidada para dormir no quarto ao lado do meu. Lee
agradeceu, tensa. Damien se dava conta de que seu convite apenas
enfatizava o caráter burlesco da história?
— Como amanhã é sábado, poderemos aproveitar para você ir
comigo visitar minha mãe.
Lee deixou o garfo cair. Damien recolheu-o e pediu que um garçom
o trocasse. E antes que Lee pudesse reagir, Hank Patroni se reuniu a eles.
Uma hora depois, a banda deu início à segunda parte da
apresentação. Ao ritmo de músicas de discoteca, Lee conheceu outros
amigos de Damien e descobriu uma série de detalhes sobre a vida dele.
Ela não tinha idéia, por exemplo, de que seu futuro marido era um
esportista e que adorava jogar golfe. Ela não imaginava, tampouco, que
ele tivesse licença para pilotar helicópteros e que a mãe fosse uma juíza.
Mas a informação que a deixou mais perplexa foi a de que Damien era um
dos donos do cavalo que vencera a corrida da última competição de
Melbourne.
Foi sob o peso de todas essas informações que Lee precisou pedir
licença e se refugiar consigo mesma, ao menos por alguns minutos, no
toalete.
Ella a interceptou e a levou para sua suíte.
— Fique à vontade. Está sendo uma noite e tanto para você, eu
tenho certeza.
Lee colocou a bolsa sobre a pia de mármore negro e se olhou ao
espelho. Estava pálida. Havia um brilho de perplexidade em seus olhos.
Realmente a noite estava sendo demais para ela enfrentá-la.
A banheira redonda, também de mármore, ficava um nível abaixo do
chão. Lee abriu a torneira e refrescou os pés. Ella era uma mulher rica e
circulava entre as pessoas mais importantes da cidade. Assim como
Damien...

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De repente, Lee fechou a torneira e respirou fundo. Não podia
continuar com aquele plano. Algo estava errado ali. Não fazia sentido que
um homem rico e bem-sucedido como Damien Moore se casasse com uma
quase desconhecida por causa do termo de um testamento que não
deveria representar para ele mais do que algumas migalhas.
— Tudo bem?
— Tudo — Lee respondeu. Ela havia retocado a maquilagem e
ajeitado os cabelos. Damien notou o brilho diferente nos olhos verdes e
estreitou os dele.
— Você demorou tanto que eu já estava começando a pensar que
havia dado um jeito de bater em retirada.
— Estava lavando meus pés.
Ele se mostrou tão perplexo que Lee não conseguiu evitar o riso.
— Não pude resistir à banheira de Ella — explicou. — Confesso que
estou me sentindo melhor agora.
Damien balançou a cabeça.
— Deixe-me ver se entendi direito. Você precisa lavar os pés para se
sentir bem?
— Deveria tentar o recurso — Lee recomendou. — É ótimo para
relaxar.
— E por que, se me permite perguntar, você precisou apelar para
essa medida?
— Estamos vivendo uma farsa, Damien. Não estou acostumada a
jogar e tudo isso não passa de um jogo para mim. Para você é mais fácil.
Não há muito o que saber a meu respeito. A não ser...
— Algo me diz que me arrependerei de ter perguntado, mas o que é
que eu não sei?
Ela sorriu, de repente, como se fosse uma garota travessa.
— A surpresa interferiu com meus passos quando fomos dançar há
pouco. A música que estão tocando agora trouxe de volta minha
animação.
— Mostre para mim.
— Ok — Lee concordou, mas fique avisado que eu danço solta.
— Eu sabia que me arrependeria — Damien disse, bem-humorado.
— Mas será como você deseja: sem abraços.
Damien conseguiu cumprir sua palavra por quase uma hora. Lee se
deu por satisfeita. Após dançar à exaustão, sentir o aconchego dos braços
de Damien em sua cintura e ter ombros fortes onde se apoiar foi muito
bom. Damien também era um dançarino entusiasmado. Ela não havia se
dado conta de que eles haviam chamado a atenção dos outros convi-
dados, mas quando pararam, foram aplaudidos.

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— O que foi que você colocou na água onde lavou os pés? — Damien
brincou. — Quero a receita.
— O que quer que tenha sido, o efeito acabou — Lee confessou, sem
fôlego. — Leve-me para casa, por favor.
— Será um prazer — Damien afirmou e lhe deu um beijinho, o que
valeu mais aplausos e um corredor de honra até a porta da saída,
encabeçado por Ella e por Hank, quando eles se despediram.
— Nunca fui a uma festa igual! — disse Lee ao entrar no
apartamento e tirar os sapatos enquanto Damien abria uma garrafa de
champanhe.
— Você estava inspirada — ele murmurou.
— Sou de opinião de que quando nos propomos a fazer algo,
devemos fazer direito.
— Posso afirmar que você conseguiu seu intento. As pessoas ficaram
convencidas a nosso respeito.
— Talvez eu tenha exagerado. Portei-me como Cinderela no baile do
príncipe. Acho que fiz aquilo porque me ocorreu que as pessoas poderiam
estar estranhando sua escolha.
— Por que diz isso?
— Você deve convir que não temos muitos pontos em comum. Eu
não jogo golfe, não dirijo um Porsche, nunca venci nenhuma Copa de
Melbourne, não tenho uma mãe juíza... A propósito, sobre a visita amanhã
a sua mãe, minha resposta é não.
— Esse assunto à parte, meus amigos nunca se preocupariam com o
que temos ou não em comum. Sua personalidade e o fato de estarmos
apaixonados um pelo outro são os motivos que contam.
Lee suspirou.
— Mas nós não estamos. Damien demorou a responder.
— Você já se apaixonou alguma vez? Lee tomou o último gole de
champanhe.
— Acho que não. Pensei que sim por duas vezes, mas o tempo me
provou que não era amor de verdade. E você?
— Também pensei que tivesse me apaixonado algumas vezes, mas
nunca deu certo.
Lee quase não resistiu ao impulso de perguntar a ele sobre a
morena que o estava acompanhando no momento.
— Quanto a minha mãe, eu...
— Estou exausta, Damien — Lee o interrompeu. — Você se importa
se eu dormir no sofá?
— O que há de errado com o quarto de hóspedes? — Damien
estranhou.

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— Eu prefiro a sala...
— Não correrá nenhum risco comigo, Lee. Se está com medo, seria
mais fácil eu tirar vantagem de você na sala do que no quarto.
— Não se trata disso — Lee se apressou a explicar. — É que sofro de
insônia de vez em quando. Se esse for o caso esta noite, poderei ligar a
televisão. — Lee hesitou. — Moro há anos em um apartamento pequeno
com sala que se transforma em dormitório e vice-versa. Acostumei-me a
dormir com a televisão ligada.
— Por que está falando como uma matraca, minha querida? Lee
corou.
— Estou realmente cansada e não quero ir com você à casa de sua
mãe amanhã!
— Agora entendi. Falaremos sobre isso pela manhã. E você pode
dormir onde quiser. Vou apanhar um cobertor e um travesseiro, caso se
decida pela sala. Quer algo para vestir?
— Eu... Não é preciso.
— Espere um instante. Vou ver o que posso arranjar. Lee
estremeceu ao pensar no conjunto de seda e rendas, mas o que Damien
trouxe consigo foi uma enorme camiseta branca junto com o cobertor e o
travesseiro.
— Obrigada. Desculpe lhe dar tanto trabalho.
— Você é uma garota estranha — Damien murmurou. — Eu pagaria,
muitas vezes, para saber o que se passa por trás desses seus olhos
incríveis.
Por um momento, Lee ficou olhando para ele, fascinada. Se antes
era difícil fingir indiferença, depois do que acontecera aquela noite, ela
precisaria se armar de muito mais coragem e determinação.
Porque ela havia conhecido o outro lado de Damien: o charme que o
tornava irresistível. E, de repente, apesar do cansaço, ela estava sentindo
a excitação crescer em seu corpo. Se Damien quisesse tomá-la nos
braços, ela tinha certeza de que não resistiria.
— Boa noite.
Ele sorriu e Lee pôde ver um brilho de admiração nos olhos
castanhos. Seria possível?
— Boa noite, Cinderela. Durma bem..
Como Lee já esperava, o sono só conseguiu dominá-la quando o dia
estava amanhecendo.
Ao contrário do que ela esperava, porém, às dez horas estava
sentada ao lado de Damien, no Porsche, a caminho da casa da mãe dele.

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CAPÍTULO IV

Até quando pretende ficar brava comigo, Lee?


— Até quando você pretende me dar ordens? — Lee retrucou sem
olhar para Damien que não pôde evitar um sorriso. O perfil de Lee parecia
talhado em pedra, mas assim mesmo ele era bonito e delicado. Os cabelos
estavam soltos aquela manhã. Ao contrário das outras mulheres que ele
conhecia, que gastavam horas diante de um espelho, Lee não parecia ter
se dado ao trabalho de escová-los ao se levantar.
Seria porque ele a obrigara a se levantar quando tudo que ela queria
era dormir? Também teria sido por essa razão que ela insistira em vestir a
mesma roupa que usara na festa?
— O que pretende dizer a sua mãe? — Lee perguntou por fim.
— A verdade, é claro. O que mais eu poderia dizer?
— Posso imaginar a felicidade com que ela receberá a notícia! — Lee
ironizou. — Que mãe não adoraria saber que o filho resolveu casar de um
minuto para outro com uma mulher que ela nunca viu mais gorda?
Damien entrou em uma das ruas arborizadas de Ascot, um bairro
montanhoso de Brisbane, com vista para o rio e suntuosas casas antigas.
— Você ficará surpresa com minha mãe. Ela não é de colocar reparo
na vida dos outros.
— Por isso se tornou uma juíza, eu imagino.
— Pode ser. — Damien respirou fundo e parou o carro ao perceber
que Lee estava resmungando. — O que foi agora?
— O que foi é que você passou do limite! Primeiro se apoderou das
chaves do meu carro enquanto eu dormia para me impedir de ir embora.
Depois me traz para Ascot contra minha vontade!
— Achei que pouparíamos tempo e discussões se enfrentássemos a
situação juntos: Só isso — Damien respondeu com a calma de quem
tratava com uma criança.
— E agora eu me encontro diante de uma mansão que deve ser
considerada um dos tesouros mais importantes de Brisbane e estou,
provavelmente, em iminência de ser expulsa dessa mesma mansão por
sua dona, quando ela descobrir que sou sua futura nora!
— A casa não é nenhum tesouro nacional apesar de velha — Damien
retrucou.
Lee não lhe deu ouvidos, mas continuou admirando a casa de dois
andares em tijolos aparentes, com suas graciosas chaminés e janelas com
quadriculados, no centro de um extenso jardim.
— A casa foi projetada segundo o sonho de algum colonizador que
queria trazer um pouco da Inglaterra para a Austrália — disse Damien. —

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Para uma região subtropical não é prática. Só foi possível torná-la
agradável depois de instalarmos aparelhos de ar-condicionado nos
ambientes. Quanto a sua imponência, bem, ao menos você está usando
uma roupa de festa.
Lee tornou a resmungar, com a mão sobre o decote, subitamente
constrangida por seu comportamento irrefletido pela manhã.
— Eu estou usando uma roupa de festa porque vim de uma festa!
Não ficarei admirada se sua mãe se sentir ofendida por eu me apresentar
em sua casa deste jeito a esta hora da manhã! Ou se achar que eu sou
uma louca!
— Ela acharia que o louco sou eu, se você tivesse vindo com um
jeans desbotado, botas e aquela bolsa de barbante pendurada no ombro
— Damien retrucou. — Se era com o decote que você estava preocupada,
eu poderia ter lhe emprestado um de meus casacos.
— Eu pareceria Júlia Roberts saindo diretamente do filme Uma Linda
Mulher — Lee respondeu, mordaz. — Foi por isso que eu recusei. Talvez
você não tenha assistido ao filme e não saiba o papel que ela fazia.
— Eu vi o filme.
Lee ficou calada por algum tempo. Quando Damien lhe ofereceu o
casaco, ela ficou possessa com a imagem de garota de programa que lhe
veio à mente. Naquele momento, contudo, ocorreu-lhe que exatamente
por sua recusa em aceitá-lo, ela poderia causar aquela impressão.
— Você já contou a sua mãe sobre o testamento? — Lee indagou
com um suspiro.
— Não. Ela esteve fora do país nos últimos seis meses.
— É a primeira vez que a visita desde seu retorno?
— Sim.
— Céus! Estou me sentindo ainda pior do que antes. Tem certeza de
que não consigo convencê-lo a dar marcha-a-ré e a voltar para o
apartamento?
— Absoluta. Ela é minha mãe, Lee. Não posso permitir que ela venha
a descobrir sobre nós pelos jornais. Tente pensar em Cosmo Delaney e
você encontrará coragem para ir em frente.
— Sua noiva?
Evelyn Moore desabou em uma cadeira e levou a mão ao coração.
Corada de vergonha, Lee olhou ao redor. Dava a impressão que eles
estavam em uma outra era. Pesadas cortinas de veludo pendiam sobre as
janelas e os móveis eram todos de mogno e de nogueira. Mas o que mais
lhe chamou a atenção foram as franjas de veludo colocadas ao redor dos
lustres.
A decoração deveria obedecer propositalmente a história daquela
casa. Em sua opinião, ninguém em seu juízo perfeito conservaria uma
residência segundo seu modelo original. Portanto, ou a mãe de Damien

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era uma historiadora ou uma excêntrica.
Lee se forçou a olhar novamente para sua anfitriã. Tão alta quanto o
filho, ela deveria estar na casa dos sessenta anos. Seus cabelos loiro-
acinzentados eram bem cuidados. Os olhos eram escuros e inteligentes.
Seu porte poderia ser chamado de aristocrático. A escolha de roupa
obedecia ao estilo clássico. As calças compridas de linho azul-marinho
tinham um corte perfeito assim como a blusa azul-clara. No dedo, ela
usava um anel com uma enorme safira.
— Quem é ela? Quando aconteceu? E quanto a Júlia? Lee olhou para
Damien com ar de eu não disse?. Ele, para sua surpresa, não perdeu a
calma.
— Mãe, em primeiro lugar, por que estamos conversando aqui? Não
é esta a sala que sempre chamamos, por gozação, de câmara das
torturas?
Evelyn pestanejou.
— Você sabe que seu pai fazia questão de conservá-la como a
recebemos.
— É verdade, mas desde quando passamos a receber nossas visitas
aqui?
— Bem — a mãe de Damien tentou ganhar tempo —, talvez eu
tenha tido uma premonição de que a conversa seria difícil.
Calada até aquele momento, Lee decidiu que era hora de participar
da reunião.
— Será um casamento apenas de aparência, sra. Moore. Para ser
honesta, eu também relutei em aceitar essa saída. Damien poderá lhe
explicar a situação melhor do que eu. Depois de ouvi-lo, a senhora não
terá mais com o que se preocupar.
Os olhos de Evelyn Moore passearam ao longo do corpo de Lee e se
detiveram mais demoradamente no decote pronunciado e nas pernas à
mostra. Por fim, deu um longo suspiro, balançou a cabeça e pediu que
eles a acompanhassem.
A sala onde o café da manhã costumava ser servido era clara e
confortável e dava vista para o jardim. Lee se sentou junto à janela e ficou
admirando-o enquanto Damien colocava a mãe a par do ocorrido.
— Mas por quê, afinal, Cyril Delaney impôs essa condição? — Evelyn
protestou. — Não faz sentido.
— É exatamente o que eu penso — disse Lee.
— Por que, então, você concordou em se casar com Damien? — a
mãe indagou, desconfiada.
— Porque eu insisti — Damien explicou. — Seria pedir demais que
nos servisse um café?
— Sim, seria — Evelyn respondeu com maus modos. — De que eu
estou precisando é de um gim-tônica.

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— Seu desejo é uma ordem — Damien respondeu e se retirou da
sala.
— Deve haver algo por trás dos termos desse testamento! — Evelyn
observou. — Você não é o tipo de mulher que Damien costuma escolher!
Ao menos para casar. — Mais uma vez a mulher olhou enviesado para o
decote e para o comprimento do vestido.
— Para sua informação — Lee respondeu sem perder a calma —, é a
primeira vez que me apresento com uma roupa de festa fora de uma
festa. Ou melhor, eu nunca vou a festas. Quanto a eu não ser o tipo de
mulher com quem seu filho casaria, a senhora está certa.
— Então?
— Então eu só concordei com o pedido de Damien para salvar meus
avós da penúria.
— Se você conhecesse Cyril Delaney, jamais o imaginaria capaz de
prejudicar quem quer que fosse — disse Evelyn, terminada a explicação
de Lee.
— Eu não o conhecia e continuo não conhecendo. Existe um mistério
nessa história e eu não consigo chegar a nenhuma conclusão satisfatória.
— Você trabalha?
— Sou paisagista. A propósito, é tempo de podar sua ave-do-paraíso
para que se desenvolva melhor. E sinto-me no dever de informá-la que as
samambaias são um veneno para as pessoas alérgicas por causa dos
esporões em suas folhas.
Damien se reuniu a elas no momento que Evelyn começou a sair do
estupor que o pequeno discurso de Lee havia causado.
— Esqueci de avisá-la, minha mãe — disse Damien, bem-humorado
—, que raramente consigo ganhar de Lee quando entramos em discussão.
Aturdida, Evelyn tomou a bebida quase de um só gole.
— Damien, como pode esperar que eu dê minha bênção em seu
casamento?
— Não é uma questão de abençoar, mas de fechar um negócio.
Afinal, você conhecia Cyril e deve saber melhor do que eu o porquê de nos
deixar Plover Park em seu testamento.
Lee percebeu o rubor nas faces de Evelyn quando ela admitiu que
Cyril Delaney nunca escondeu o interesse que sentia por ela.
— Você diria que ele, no aspecto moral, era um sujeito acima de
qualquer suspeita? — Damien perguntou após alguns instantes.
— Sim. Ele tinha um senso de humor estranho, mas...
— Mas você não o acusaria de tentar prejudicar alguém, acusaria?
— Claro que não — Evelyn respondeu sem titubear antes de
perceber que havia caído em uma armadilha. — Bem, quero dizer...

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— Por alguma razão, portanto, que nós desconhecemos, ele queria
que Lee, mais do que eu, ficasse com Plover Park. Ao vê-la, provavelmente
percebeu que ela iria precisar de alguém que a ajudasse. Com sua visão,
talvez tenha adivinhado que seu desejo seria contestado. Por falar nisso,
você conhece Cosmo Delaney?
— Não pessoalmente. Quanto a Cyril ter deixado parte de seus bens
a você, Damien, eu posso entender. Você é meu filho e ele nunca se
casou. Houve uma época que ele queria casar comigo.
Ao ouvir a declaração, Lee se desligou da conversa e viu Cyril
Delaney olhando para Evelyn, o amor de sua vida. De repente, as peças se
encaixaram e um brilho de compreensão passou pelos olhos dela e de
Damien, ao se fitarem.
— De qualquer modo — Damien prosseguiu —, nós seguiremos em
frente com o plano e ao final de um ano, Lee e eu nos separaremos e
recuperaremos nossa liberdade.
— E como eu já disse, a senhora pode ficar completamente tranqüila
porque seu filho não corre nenhum perigo comigo.
— Bem, se é esse o caso...
— Antes de encerrarmos a conversa, tenho mais uma observação a
fazer — Damien interrompeu a mãe.
— De que se trata? — Lee estranhou.
— Eu não quero dividir Plover Park com nenhum outro homem.
— O que está querendo dizer? — Lee franziu o cenho.
— Que o fato de não haver nada entre nós não significa que eu
esteja disposto a ser visto como alguém que está sendo passado para
trás.
— Não posso acreditar que você pensou isso de mim! — Lee
protestou.
— Ele tem certa razão — Evelyn concordou. — Já aconteceu antes
em boas famílias.
— Então, posso confiar que vocês duas serão capazes de se
portarem de modo a não despertarem suspeitas sobre o acordo? De se
entenderem ao menos sobre plantas e flores? A propósito, eu já lhe contei,
Lee, que minha mãe também é uma grande admiradora de Capability
Brown?
— O que achou de minha mãe? — Damien quis saber no trajeto de
volta.
— Acho que deu para nos entendermos — Lee respondeu. Evelyn,
para sua surpresa, acabara convidando-a para conhecer a propriedade
enquanto Damien, a pedido dela, removia a cobertura de madeira da
piscina.
— Se você está pensando que conquistou minha mãe só porque
deram juntas um passeio pelo jardim, fique esperta.

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Lee sorriu, divertida.
— O que o faz pensar que eu estou com segundas intenções com
relação a sua mãe?
— Vocês duas pareciam estar mancomunadas. Dessa vez, Lee quase
riu alto.
— Que idéia! Nós duas apenas reconhecemos nossos respectivos
lugares.
— Que lugares são esses? — Damien se apressou a perguntar.
— Você não gostaria de saber.
A resposta o deixou surpreendentemente furioso. Com maus modos,
Damien engrenou a quinta marcha e acelerou o carro.
— As únicas pessoas nas circunstâncias que precisam reconhecer
seus lugares são você e eu.
Lee segurou o cinto.
— Não sabia que você era do tipo esquentado. Não se importa de
levar uma multa por excesso de velocidade?
Damien diminuiu a velocidade no mesmo instante.
— Não consigo entender as mulheres. Você e minha mãe, inclusive.
O que deu em vocês?
Durante a conversa com a mãe de Damien, Lee havia descoberto o
verdadeiro motivo que o levara à decisão de lhe propor casamento.
— Sua mãe acha que existe algo por trás de sua proposta de
casamento — Lee disse sem refletir. — Ela me contou sobre seu último
romance. Eu percebi, aliás, que ela preferia Júlia a mim. Eu soube ainda
que a exigência de Cyril surgiu em sua vida em um momento estratégico
que o armou para dar uma lição em sua ex-namorada.
Damien não poderia ter olhado para Lee com maior assombro.
— Vocês entenderam tudo errado.
— Ela disse também que não deixa de ser uma sorte que tenha sido
eu a entrar em sua vida.
— Por que isso?
— Porque eu não tenho o perfil, digamos assim, para interessá-lo.
Damien parou em um farol e olhou para Lee.
— Engraçado você dizer isso depois do que houve ontem à noite.
Lee não respondeu, mas o rubor em seu rosto a traiu.
— Devemos esquecer? — Damien insistiu. Lee engoliu em seco.
— A luz do dia, o que houve foi uma aberração.
— Eu não tenho tanta certeza — Damien murmurou, pensativo. —
De qualquer forma, teremos dez meses para comprovar sua teoria.

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— O que está insinuando? — Lee pestanejou.
— Que ao final de dez meses saberemos o que realmente sentimos
um pelo outro.
— Damien, por favor, diga que não é o que eu estou pensando!
— O que você está pensando?
— Que você está propondo um desafio. Sua mãe é da mesma
opinião.
O Porsche passou pelo portão automático da garagem e foi
estacionado ao lado do velho Toyota amarelo de Lee. Damien desligou o
motor, mas não fez menção de descer do carro.
— Minha mãe pode ser uma juíza, mas é a última em condição de
julgar meu presente estado de espírito. Quanto a você, Lee Westwood,
não sabe nem sequer por onde começar.
Não havia muito espaço dentro do Porsche para Lee conseguir
escapar à força da personalidade e da presença física de Damien. Ele
estendeu a mão e tocou-a no pescoço. Ela não queria, mas precisou fechar
os olhos. Sabia que era errado, mas não conseguia impedir que Damien
deslizasse as pontas dos dedos por sua pele em direção ao vale entre os
seios.
— Você não gostou do que eu disse há pouco — Damien declarou
baixinho. — Sobre visitas de outros homens.
Lee suspirou. Como poderia convencer Damien de que não havia
perigo porque nenhum outro homem a fazia se sentir como ele? Que não
era uma mulher fraca de quem qualquer aventureiro poderia querer tirar
vantagem?
Com um suspiro de contrariedade, ela tentou encontrar palavras
para dizer a Damien, de uma vez por todas, que ele não tinha com que se
preocupar. Mas tudo que conseguiu com seu esforço foi provocar um
sorriso e um olhar que a fez ter certeza de que iria acontecer um beijo.
No entanto, justamente quando ela estava fechando os olhos à
aproximação de Damien, ele se afastou e se endireitou no banco.
— Já basta!
— Por que fez isso? — Lee não conteve a curiosidade ao vê-lo saltar
e dar a volta para ajudá-la a descer.
— Acho que não temos mais idade para namorar dentro de um
carro. Mas se você está querendo...
— Eu preferiria morrer a beijá-lo! — Lee exclamou, indignada.
Damien olhou para ela e ergueu uma sobrancelha.
— Nesse caso, importa-se de subirmos para o apartamento? Estou
esperando uma ligação.
Lee entrou no elevador como se estivesse sendo levada por um
furacão. Estava zangada e, o que era pior, tão vermelha quanto seus

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cabelos. Quanto mais calmo Damien se mostrava, maior era sua irritação.
Vou apanhar minhas coisas — ela anunciou enquanto ele abria a
porta do apartamento.
— Não precisa ter pressa. Não gostaria de trocar de roupa antes de
sair?
Lee olhou para baixo.
— Está bem.
— Enquanto isso, vou preparar o café que minha mãe ficou nos
devendo.
— Não se dê ao trabalho. Não vou ficar aqui mais do que o
estritamente necessário. Tenho um negócio para cuidar. Não esperava
ficar fora tanto tempo.
— Procurarei ser rápido.
Lee abriu a boca para protestar, mas pensou melhor e seguiu em
silêncio para o quarto de hóspedes onde, após trocar de roupa, se pôs a
refletir. Se o último romance de Damien havia acabado mal, como dissera
a mãe dele, o que faziam ali aquelas roupas e aqueles cosméticos?
Os pensamentos começaram a ricochetear pela mente de Lee, mas
ela se obrigou a afugentá-los. Uma convivência de dez meses seria penosa
o suficiente sem que ela se entregasse a ciúme que não tinham lugar.
Com a bolsa de barbante pendurada no ombro e a sacola com a
roupa da festa na mão, Lee encontrou Damien no escritório diante do
computador. Havia uma bandeja com uma jarra de café e uma xícara
sobre a mesinha de centro. Damien já havia se servido.
— Assim está melhor. — Ele parou de trabalhar ao vê-la e percorreu
os olhos sobre o jeans, a camiseta e as botas. Os cabelos estavam presos
em um rabo-de-cavalo.
— Não entendo você — Lee resmungou. — Deu-me a entender que
não aprovava meu estilo de vestir. Agora diz que estou bem. Você é difícil
de agradar.
— Não era minha intenção ofendê-la.
— Não ofendeu. — Lee consultou seu relógio de pulso. — Você
prometeu ser rápido.
— Está bem. Se ainda está disposta a casar, quando e onde será?
A firmeza de Lee foi esquecida. Ela olhou para o anel em seu dedo.
— Eu não sei.
— Isso significa que continua em dúvida, Lee?
— Só estou pensando. Uma coisa é lidar com o problema no papel,
outra é morarmos juntos em Plover Park. Você não está acostumado à
vida no campo. É muito quieto. Além disso, terá de conviver com sapos,
insetos, aranhas e até mesmo cobras.

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— Não posso afirmar que gosto desses animais, mas uma cobra ou
duas não fará diferença.
Lee tomou um gole do café.
— Gostaria de encontrar uma outra forma de resolver a questão.
— Há uma — Damien sugeriu. — Você poderia vir morar aqui
comigo.
O choque deixou Lee sem fala. Damien percebeu a reação e
encolheu os ombros.
— Então, não há o que fazer. Lee suspirou.
— Você cuida de tudo, então. Apenas não me peça para casarmos
no religioso.
— Concordo com você nesse sentido. Quanto aos preparativos, acho
que precisaremos de cerca de duas semanas de prazo. Nós dois juntos,
Lee. Sinto muito, mas sozinho não darei conta do recado. Quero deixar os
processos em ordem antes de sair de férias.
Lee cogitou, naquele instante, como faria para dar a notícia aos
avós. Decidiu deixá-la para quando o fato estivesse consumado.
— Espero que você não se arrependa — Lee murmurou. — Não
quero ouvi-lo dizer, mais tarde, que descobriu odiar Plover Park.
— Para ser sincero, não vejo a hora de ir para lá — Damien afirmou
para surpresa de Lee.
— Talvez fosse conveniente, nesse caso, acertarmos desde já nossas
posições — Lee declarou. — A cozinha, por exemplo. Quem se encarregará
do serviço?
— Eu sei cozinhar, se é isso que a preocupa. Não me ofereço para
preparar todas as refeições, contudo, porque não poderei me instalar
definitivamente na fazenda. Não receie, portanto, que eu vá me tornar um
peso em sua vida.
— Ainda bem. Vou esperar para ver — Lee respondeu com o maior
desdenho que conseguiu imprimir à voz. — E agora, se não tem mais nada
a dizer, quero me despedir.
— Sinto desapontá-la em sua saída triunfal, Lee, mas não poderá
sair da garagem sem minha chave.
Lee suspirou, frustrada. De repente, sem mais nem menos, ela
sentiu uma lágrima deslizar pelo rosto. Damien deixou a ironia de lado.
— Ei, você está indo para casa, esqueceu? Para seu adorado viveiro
de plantas.
— Desculpe. — Lee soluçou. — Acho que foram emoções demais em
tão poucos dias. Não sou de chorar à toa.
Em vez de conduzi-la ao elevador, Damien colocou os braços ao
redor da cintura e apoiou o queixo no alto da cabeça de Lee.

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— Você não está sozinha, minha querida. Não permitirei que Cosmo
a magoe.
Lee não se moveu durante o abraço nem quando Damien a beijou
nos lábios. Não porque não quisesse corresponder, mas porque não
conseguira reagir ao esgotamento físico e mental que a arrebatara.
O trajeto de volta foi ainda mais longo do que seria o normal porque
Lee errou uma entrada e demorou para encontrar um retorno.
— Concentre-se! — ela se ordenou. — Você está parecendo uma
adolescente. Damien pode ser seu príncipe encantado, mas não sente
nada por você...
Alguns dias depois, Lee recebeu uma mensagem de Damien
comunicando a data do casamento. Em anexo, ele enviava um recorte de
jornal onde ela aparecia nos braços dele, durante a festa no apartamento
de Ella Patroni. O vestido preto a deixou sexy e chique e o resultado final
agradou-a. O que jamais poderia esperar, era que a foto fosse registrar a
adoração com que ela olhava para Damien. Não era à toa que se lia
embaixo: A noiva pode ser misteriosa, mas que está apaixonada por nosso
amigo, não resta dúvida!
Lee mordeu o lábio. No bilhete, Damien não fazia referência ao
recorte nem aos dizeres. O que teria pensado? Que ela era uma boa atriz?
Afinal, Damien Moore era inteligente e experiente demais com as
mulheres para engolir aquela história.
Duas semanas após a festa, Lee voltou ao apartamento de Damien
para o casamento. Não sabia o que esperar. Estava usando um vestido
novo, simples mas elegante, verde para combinar com seus olhos, e
sapatos marfim. O toque de sofisticação fora dado pelos cabelos presos.
Damien havia lhe preparado uma surpresa. Um delicado buquê de
orquídeas e dois amigos para testemunharem o enlace. Ella e Hank
Patroni.
Discretos e prestativos, Ella e Hank não fizeram perguntas sobre a
ausência de convidados, inclusive a mãe de Damien e os avós de Lee.
Terminada a pequena cerimônia civil, eles ofereceram um delicioso
almoço ao casal.
A simpatia e a preocupação de Ella por Evelyn Moore não ter
comparecido deixou Lee comovida e ao mesmo tempo arrependida pela
mentira. Por pouco não cedeu ao impulso de lhe contar a verdade.
Mais tarde, após a comemoração íntima, Damien e Lee se
encontraram a sós no apartamento dele.
— Não foi tão ruim, foi? — Damien perguntou, mais tarde, quando
ele e Lee estavam de volta ao apartamento.
Lee olhou para trás. Fazia um longo tempo que estava junto à
janela, admirando a vista do rio.
— Não — ela admitiu. — Obrigada pelas flores e por permitir que Ella
nos oferecesse um almoço. Mas eu confesso que me senti constrangida.

Sabrina 1300 45
Damien sorriu.
— Nosso casamento pode ter sido uma transação comercial, mas
não precisamos nos isolar das pessoas por causa disso. Você está linda,
sra. Moore. Não seria justo eu querer guardá-la apenas para mim.
Lee estremeceu quando Damien se dirigiu a ela como se fosse sua
esposa de verdade. Após a troca das alianças, ela havia agradecido
mentalmente por Damien tê-la segurado pelos braços. Não sentia seus
pés no chão.
— Não se preocupe. Vai dar tudo certo — Damien insistiu no
otimismo. — O que gostaria de fazer agora?
Lee pediu para ir para casa.
— Você sabe que isso não é necessário.
— Por favor, eu prefiro ir. Plover Park é o lugar onde me sinto mais
feliz. Não teria recorrido a uma medida tão drástica se não fosse
absolutamente necessário. Você sabe disso. — Lee hesitou. — Quando irá
para lá?
— Daqui uma semana. Preciso me organizar antes. Lee agradeceu e
se despediu. Teve a impressão de que Damien queria lhe dizer algo, mas
ele se limitou a dar um pequeno sorriso e lhe desejar uma boa viagem.
Uma semana depois, Plover Park parecia outra fazenda. Com a ajuda
dos avós, Lee havia limpado a casa, o jardim e o viveiro de plantas. A
propriedade contava com um regato que atraía pássaros e dava de beber
aos bois. No momento, Plover Park contava com cinco bezerros e uma
família de patos.
Os móveis e objetos de decoração haviam sido herdados por Lee e
Damien junto com a casa. E não poderiam ser mais bonitos e perfeitos.
A sala dava para um espaçoso terraço com vista para o córrego.
Uma imensa lareira fora construída para atendê-la e também às salas
íntima e de jantar que haviam sido construídas ao redor. Os quartos
ficavam nas duas alas agregadas à área central. A cozinha, como a sala
principal, dava para uma ampla varanda, com vista para o jardim.
Lee havia montado um galinheiro naqueles dias e estava dando
milho às galinhas quando a avó se aproximou.
— Não conseguimos parar de pensar, seu avô e eu, no que você fez
por nós, minha querida. Não nos parece certo.
— Eu fiz o que achei que devia ser feito. Tudo que quero é vê-los
felizes.
— No entanto, você não nos parece feliz. É por causa desse Damien,
não é?
— Confesso que não sei o que sinto por Damien, vovó. Pensei que o
amava, mas agora não tenho certeza.
— E se ele estiver sentindo essa mesma dificuldade em analisar o
que há entre vocês?

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— Damien nunca me deu nenhum sinal nesse sentido — Lee
respondeu, cabisbaixa.
— Ele casou com você — a avó lembrou.
A conversa foi interrompida pela chegada de Bill Mercer e de
Damien, quase ao mesmo tempo.
— Isso é o que eu chamo de carro! — Bill exclamou ao ver o
Porsche. As duas mulheres trocaram um olhar. — Será que ele me deixa
dar uma olhada no motor?
Lee e Damien estavam conversando no terraço. Mary e Bill já
haviam voltado para casa. A tarde estava linda e o sol começava a se pôr.
Lee tomava um copo de vinho e Damien uma cerveja. Uma música suave
se ouvia ao fundo. Damien havia trazido os ingredientes para o jantar e
fez questão de prepará-lo.
— Por que não convida seus avós para morarem com você? — ele
sugeriu ao perceber a tensão de Lee.
— Porque eles adoram o lugar onde vivem e eu não tenho intenção
de interferir na vida deles, se puder evitar.
— Você não se sente solitária nem insegura?
Lee assobiou e um lindo cachorro surgiu em segundos.
— Desde que cheguei aqui não tive tempo para me sentir só — Lee
contou. — Tenho Peach para me fazer companhia e guardar a casa, uma
porção de galinhas e de bois para cuidar. E, por falar em cuidar, não acha
que o macarrão já deve estar cozido?
Damien a proibiu de levantar. Enquanto ele dava os retoques finais
na refeição, Lee recostou na cadeira e pensou na irrealidade de seu
casamento.
O quarto de Damien estava arrumado e uma das salas havia sido
transformada em escritório para ele. Em seu primeiro dia em Plover Park,
Damien havia ajudado seu avô a consertar a bomba que levava a água do
córrego até o viveiro de plantas. Agora ele estava preparando o jantar.
Mas o que faria depois? Algo dizia a Lee que Damien não era do tipo que
acordava às cinco e meia e ia dormir às nove, como ela.
— Lee?
— O que foi? — ela quase deu um salto.
— Não fique tão preocupada! — Damien aconselhou-a, bem-
humorado. — Você cuida de suas coisas e eu cuido das minhas. Pense em
mim como alguém com quem você simplesmente divide a casa e as
despesas.

CAPÍTULO V

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Hoje vou aproveitar para lavar os animais.
— Irei com você — Damien se ofereceu, enquanto eles tomavam o
café.
— Dormiu bem? — Lee perguntou, amável, ao se servir dos ovos
com bacon e tomates fritos que Damien preparara.
— Como um bebê — Damien respondeu, animado, apesar de já ter
feito uma porção de tarefas, como alimentar o cachorro e as galinhas e
recolher os ovos.
Lee sentiu necessidade de piscar mais de uma vez para ter certeza
de que não estava sonhando. Como um advogado tão importante podia
ser também um homem tão simples? A noite anterior fora tranqüila e
agradável. Após o jantar, eles haviam dado um passeio pelos arredores e
assistido a um filme.
— Acho que tenho condições de lidar sozinha com o gado. Os
animais são dóceis.
— Dois darão conta do recado na metade do tempo, não acha?
Lee concordou. O dia prometia ser ensolarado. As gotas de orvalho
sobre o jardim brilhavam como diamantes sob o céu claro, sem nuvens. Os
passarinhos cantavam. As roseiras começavam a florir, desde o mais puro
branco até o vermelho intenso.
— Está bem. Aceito sua ajuda. Mas tenha cuidado. O touro do
vizinho está passando uns tempos por aqui. Embora seja manso, seu
tamanho dá medo!
— Prometo ter cuidado. Quanto tempo ele deverá ficar por estas
bandas?
— Dois meses.
— Muito bem, sra. Moore. O que quer que eu faça? Lee deu as
instruções e ofereceu as botas do avô para facilitar o trabalho de Damien.
— Obrigada pelo excelente café — Lee agradeceu ao final da
refeição. — Não faço um desjejum como este há anos.
— Deixe-me adivinhar. Você é do tipo que prefere iogurte, frutas e
cereais?
Lee encolheu os ombros.
— Ao menos é saudável.
— Também é saudável se atirar à vida e à aventura uma vez ou
outra — Damien sugeriu.
Lee estreitou os olhos ao adivinhar um duplo sentido na frase. Aliás,
não se tratava de impressão. Damien estava olhando para ela de um jeito
diferente.
Na verdade, Damien estava pensando que a Lee daquela manhã não

Sabrina 1300 48
tinha nada a ver com a garota que o acompanhara à festa de Ella Patroni.
Lee era um enigma. Qual outra garota de apenas vinte e quatro anos de
idade se dedicaria com tanta paixão a um projeto?
Cyril Delaney, no entanto, fora capaz de enxergar seu potencial para
cuidar de Plover Park. Ele não poderia ter deixado suas terras em
melhores mãos. Ou teria sido o caso de ele tê-la investigado antes de
mencioná-la em seu testamento?
E quanto a ele próprio?, Damien cogitou. Por que razão fizera aquele
comentário? Porque sabia que Lee não lhe era tão indiferente quanto
queria fazer crer? Por que, embora o deles fosse um casamento de
conveniência, uma onda de sensualidade começava a invadi-lo cada vez
que ficava perto de Lee?
Damien se levantou e fitou-a. Lee acompanhou seu movimento com
olhar aturdido. Era essa mistura, provavelmente, de mulher dinâmica e
esperta e de garota ingênua que o atraía tanto.
Quase três quartos de hora depois, Lee chegou ao local onde
combinara de encontrar Damien em vinte minutos. Estava em cima de um
trator. Damien não estava por perto, mas ela não podia culpá-lo. Um
telefonema fizera com que se atrasasse.
Ela seguiu pelos campos e estava se aproximando do portão do
cercado do meio quando finalmente avistou Damien. Ele, sozinho, havia
conduzido as onze cabeças de gado, inclusive o touro, para o local.
— Será que existe alguma coisa que esse homem não saiba fazer?
— Lee sorriu consigo mesma. E para Damien, ao alcançá-lo. — Você não
nasceu cem por cento um homem da cidade, eu imagino.
Ele fitou-a, divertido.
— Tive meus dias de caubói quando era jovem.
— Você podia ter me contado! — Lee saltou do trator. — Estou me
sentindo uma completa tola!
— Desculpe. — Damien riu. — Não pude resistir. Mas se eu a
surpreendi, você também me surpreendeu — ele admitiu. — O que achou
da foto no jornal?
— Acho que ficou perfeita para o propósito a que se destinava — Lee
declarou, corada.
Damien sorriu, malicioso.
— Qual seria a reação das pessoas, você diria, se pudessem vê-la
agora?
Lee examinou a camisa xadrez comprada em uma liquidação, vários
tamanhos maior do que o dela, a calça velha de moletom e as botas
marrom de cano curto. Os cabelos estavam escondidos sob um chapéu
caqui.
— Elas me tomariam por outra mulher.
— Eu concordo. Talvez pensassem que você era um homem. Mas

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não necessariamente menos interessante.
Lee encarou-o insegura sobre como entender a mensagem.
— O que estou tentando dizer é que você é uma surpresa constante
para mim — Damien explicou. — Mas quero que me faça uma promessa:
não tentar lidar sozinha com o trabalho pesado da próxima vez.
— Eu...
— Não porque você não é capaz — Damien se apressou a
acrescentar —, mas porque acidentes acontecem e sempre é bom ter
alguém por perto.
— Não costumo cuidar do gado sem Bill, meu avô.
— Está bem. E agora, qual é a próxima tarefa do dia?
— Tenho de tomar umas providências no viveiro de plantas. A
propósito, foi um telefonema que me atrasou. Bill avisou que Nan acordou
com enxaqueca e que não está em condições de sair de casa. Por quê?
— Daria para você encaixar um banho de mar e um almoço em
Byron Bay em sua agenda? Vão entregar hoje as chaves de meu novo
escritório. Será rápido. Preciso apenas trocar umas idéias com a
decoradora.
Não havia piscina em Plover Park. Apesar de cedo, não deveriam ser
mais de nove horas, o calor já se fazia sentir. A idéia de um mergulho era
quase irresistível.
Lee pensou no trabalho que tinha pela frente e hesitou.
— Posso lhe dar uma mão com as plantas — Damien ofereceu e
ergueu a mão para afastar as mechas de cabelos que haviam se soltado
do chapéu e que incomodavam as faces de Lee.
Ela recuou involuntariamente. Por dois motivos: pelo toque em sua
pele e pela certeza de que Damien estava determinado a vencê-la.
Uma força parecia dominá-la. Ela estava sentada na cerca. Mais alta
do que ele, portanto. Suas mãos queriam largar o apoio para apertarem
aqueles ombros largos e másculos. A boca queria pousar naqueles lábios
em um longo beijo. O ar ficou preso em sua garganta e uma onda de
desejo a inundou. Ela poderia estar parecendo um garoto no momento,
mas jamais se sentira tão mulher em sua vida.
Frágil, vulnerável e indefesa seriam as palavras. Seus sentidos
estavam sob o impacto de Damien Moore em toda sua glória. Na força e
na elegância de seu corpo, no charme dos cabelos que caíam sobre os
olhos de vez em quando, no modo como Damien sorria com o olhar, e na
fantasia de ter aquelas mãos em seu corpo...
— Lee?
Lee ouviu o chamado e respirou fundo. Não conseguia se lembrar do
assunto que eles estavam tratando. Oh, sim, um banho de mar e um
almoço em Byron Bay. Por que não?

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Qual a diferença entre tomar o café da manhã com ele em Plover
Park e almoçarem fora?
— Parece ótimo.
Ele sorriu, distraído. Um momento depois, olhou para o trator.
— Não dirijo um desses há anos.
— Ele está a sua disposição.
— Não quero invadir seu espaço. Se você...
— Eu lhe cedo meu lugar com prazer. Você, como meu avô, parece
ter mais jeito do que eu com essas geringonças mecânicas. Além disso, os
pedais são duros demais para mim.
Escolher uma roupa para sair com Damien fora um desafio. Seu
guarda-roupa deixava a desejar. E ela estava determinada a caprichar na
aparência para não ser novamente comparada a um garoto.
Optou por um conjunto rosa pálido e sandálias brancas. Por baixo,
vestiu um biquíni verde-água, e como único adorno colocou brincos
dourados de argola. Os cabelos ficaram soltos sobre os ombros e os óculos
escuros foram colocados no alto da cabeça. O chapéu, a toalha e o filtro
solar foram para a bolsa.
O reflexo ao espelho deixou-a tranqüila. Ao menos seus cabelos
nunca a deixavam na mão. Embora ela preferisse tê-los lavado para sair,
eles ainda estavam bons e poderiam esperar por um shampoo até depois
da praia.
Terminado o exame diante do espelho, Lee sentou-se na beirada da
cama e balançou a cabeça. Para que tudo aquilo? Por que estava tão
preocupada em impressionar Damien?
Porque por mais que ela quisesse ignorá-lo, não conseguia. A
proximidade de Damien tornava seu dilema ainda mais difícil. E ele não
estava colaborando em nada para não fazerem daquela convivência
forçada um caminho para um pequeno idílio que só resultaria no
agravamento do problema.
A medida que avançavam pela estrada entre as colinas que
separavam Plover Park de Byron Day, com suas vastas plantações de
macadâmia, a conversa entre Damien e Lee foi se tornando mais solta e
amigável. Lee prestou atenção quando ele se pôs a explicar as razões por
ter escolhido aquela região para montar seu novo escritório.
— Boa parte de nossos clientes são do norte de New South Wales e
eles nos procuram, em Brisbane, por ela ser a cidade grande mais
próxima. No entanto, como Brisbane fica no estado de Queensland,
existem diferenças na legislação e isso acarreta recolhimento especial de
taxas e impostos. Uma filial aqui de nossos escritórios facilitará nosso
trabalho e também a vida de nossos clientes.
— Faz bastante sentido — Lee concordou.
— Eu estava falando sério sobre a conveniência de vir para Plover

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Park. Você não havia acreditado, confesse!
— Para ser franca, você acertou — Lee respondeu com um sorriso
sem jeito. — Ao mesmo tempo, sabia que você é um homem e um
profissional inteligente demais para recorrer a motivos escusos por causa
de uma mulher.
— Essa comparação é perigosa, Lee — Damien murmurou. — Seria
algo como colocar um gato no meio de pombos.
Lee deveria ter mordido a língua antes de falar aquilo. Agora, só
restava tentar consertar o erro.
— O que eu quis dizer foi que você está absolvido de toda e
qualquer suspeita em relação a mim.
— Apesar de nossa tendência de nos deixarmos levar pelas
emoções?
— Acho que sou a maior culpada nesse caso — Lee sentiu
necessidade de admitir.
— Ao me propor desafios, você quer dizer? Lee demorou para
responder.
— O que eu quero dizer, Damien, é que montar um ato em público é
uma coisa, empolgarmo-nos quando estamos a sós é outra.
— Nós não saímos da cozinha — Damien lembrou.
Lee sentiu que enrubescia. Damien havia parado ao chegarem à
intersecção entre as estradas de Ross Lane e Byron Bay.
— E claro que entre marido e mulher a distância entre o quarto e a
cozinha é pouca — ele continuou.
— Não em minha casa — Lee protestou.
— Nossa casa — Damien a corrigiu.
— Não faço parte de seu séquito — Lee retrucou. — Não espere que
eu me comporte como as mulheres que está acostumado a seduzir.
— Por que está dizendo isso? Por causa do discurso de minha mãe?
— Não apenas por causa dela, mas pelo que vi em seu apartamento
— Lee respondeu e se arrependeu no mesmo instante.
— Está se referindo às roupas que encontrou no armário? — Damien
encarou-a.
Lee fez que sim e continuou com ironia.
— Ela já sabe que você está casado?
— Não. A menos, é claro, que nossa querida mãe lhe tenha dado a
notícia. Mas como ela não ligou para mim, tenho quase certeza de que
ainda não está a par da novidade.
— Isso não importa. Ela precisa... — Lee parou no meio da frase.
Nossa querida mãe?

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Damien se pôs a rir da expressão de Lee.
— Toda a parafernália que você encontrou pertence a minha irmã,
Melinda. Ela mora em Cairns, mas vez por outra vem a Brisbane para
participar de conferências. Melinda é gerente da filial de Cairns de uma
rede de lojas de departamentos. Minha irmã sempre se hospeda com
nossa mãe, mas não quis ficar sozinha no casarão enquanto ela esteve
fora, daí as roupas e perfumarias em meu apartamento.
— Por favor, me desculpe.
Damien não respondeu de imediato. Acabou dando de ombros e
esboçando um sorriso.
— Você teria se poupado desse aborrecimento se tivesse feito a
observação na época.
Lee não conseguiu ter outra reação que não fosse olhar para baixo.
— Chegamos! — Damien exclamou para surpresa de Lee. Ela havia
ficado tão alheia que não percebeu que eles já estavam circulando por
Byron Bay havia algum tempo.
Damien parou o carro sob alguns pinheiros.
— Pensei em liquidarmos o assunto do escritório para depois
aproveitarmos a praia e o almoço, sem pressa e preocupações. Tudo bem
para você?
— Oh, sim. Para mim está ótimo.
O escritório que Damien estava alugando ficava no segundo andar
de um prédio de dois andares, onde também funcionava um shopping
center.
As salas eram amplas e claras. A decoração feita pelo inquilino
anterior, contudo, nada tinha a ver com os escritórios Moore & Moore, de
Brisbane.
A decoradora havia chegado antes deles. Adiantou-se para
cumprimentá-los. Seu sorriso não poderia ser mais deslumbrante, mas Lee
percebeu que ele diminuiu consideravelmente no momento que Damien a
apresentou à mulher como sua esposa.
Ao passarem para o estudo do projeto, Lee sentiu que estava sendo
ignorada, mas não se importou. Estava aborrecida consigo mesma por seu
comportamento durante a manhã. Mas quando notou que a atitude da
mulher estava acima do tolerável, resolveu intervir.
— Se me permite uma opinião, querido, o projeto está um tanto
exagerado. E claro que Byron Bay é uma cidade litorânea, mas a
impressão que dá é que se trata do interior de um aquário, não de um
escritório. — Lee apontou para um outro desenho. — E esta decoração em
preto e branco, com piso em igual padrão, mais parece um banheiro ou
uma estação ferroviária.
Damien encarou-a por um instante. Depois indagou, gentil.
— O que você sugere?

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— Paredes claras. Brancas ou marfim. E piso terracota. Se você
quiser dar um colorido local, há um ateliê, aqui mesmo em Byron Bay,
onde fabricam peças incríveis em madeira. O balcão da recepção, por
exemplo, poderia ser feito sob medida, com tampo curvo. Sofás em couro
marrom também ficariam lindos, além de práticos. No canto, um arranjo
de plantas e duas palmeiras. Eu posso providenciar essa parte para você.
Ficaria simples, mas elegante.
Damien ficou olhando para Lee e para a decoradora. Por fim,
agradeceu a atenção da última, acertou o pagamento do projeto e
dispensou-a.
— Obrigado, mas as idéias de minha esposa estão mais de acordo
com as minhas.
A caminho da praia, Lee estava satisfeita.
— Se olhar matasse, ela teria me matado. De qualquer forma,
obrigada por me apoiar, sr. Moore.
— Como eu poderia aceitar que alguém tentasse ignorá-la? Além
disso, fui sincero quanto a termos gostos semelhantes. Um bom gosto,
aliás — Damien acrescentou com uma piscada. — Mas já lhe ocorreu que
terá de dar conta de mais uma tarefa?
— Espere um pouco. Eu tenho condições de sugerir um esquema de
cores e um balcão para a área de recepção, mas um escritório inteiro é
outra conversa.
— Não se preocupe com as outras salas. Existem lojas
especializadas em móveis para escritório. Eu só esperaria de você a classe
e a simplicidade que descreveu. E eu lhe pagarei por seu trabalho, é claro.
— Preciso pensar.
— O que há para pensar? — Damien olhou para Lee e pegou sua
mão.
— Muito. No momento, porém, de que eu estou realmente
necessitando é de um mergulho e de uma refeição.
Ele sorriu, beijou a mão de Lee e concordou com ela.
— A água está maravilhosa! — Lee exclamou meia hora mais tarde
enquanto apanhava a toalha e secava os cabelos. — Esta praia é demais.
Não sei porque não venho aqui com mais freqüência.
— Excesso de trabalho? — Damien sugeriu. Lee estendeu a toalha
na areia e sentou-se.
— Quanto mais serviço eu tiver, maiores serão nossos lucros, não
acha?
— É verdade. Em alguns aspectos você é responsável e madura até
demais.
Lee sabia que não deveria prolongar o assunto, mas não pôde
evitar.

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— Em que aspectos eu não sou responsável nem madura? Damien
viu-se preso de uma súbita excitação diante daquele corpo perfeito, ainda
mais sensual por estar molhado e brilhante ao sol.
Lee engoliu em seco. O modo de Damien olhar para seu corpo
começava a perturbá-la. Mas antes que o embaraço a obrigasse a falar ou
a tentar desaparecer da frente dele, ele finalmente respondeu.
— Você é impetuosa.
Ela quase suspirou de alívio.
— Dizem que eu herdei essa característica de minha mãe e de meu
avô. Mas na maioria das vezes, meu comportamento obedece às melhores
e mais puras intenções.
— O que não a impede de se meter em enrascadas de vez em
quando — Damien murmurou com ar de malícia.
Lee admirou aquele corpo másculo estendido sobre uma toalha,
apoiado sobre o cotovelo para manter a cabeça erguida. De maio azul-
marinho, Damien parecia ainda mais moreno. Para disfarçar o que estava
sentindo, ela apanhou os óculos escuros na bolsa e colocou-os.
— Acertou. — Inclusive com relação a você, Damien Moore — ela
desejaria acrescentar.
Lee se levantou naquele momento. De repente, ficar ali olhando
para Damien, só de maio, e sendo olhada, só de biquíni, lhe pareceu
insuportável.
— Estou faminta. E posso me tornar perigosamente impetuosa
quando sinto fome.
Damien imitou-a.
— Como eu disse, você é impetuosa.
Lee fitou-o, incerta sobre ele ter conseguido ler seus pensamentos.
Damien levou-a ao Praia Hotel e eles almoçaram ao ar livre, em uma
mesa protegida por um guarda-sol. Lee pediu um refresco bem gelado e
Damien uma cerveja ainda mais.
— A Byron Bay — Damien brindou. — Lee, confesso que não havia
percebido que aquela mulher a estava ignorando.
— A decoradora? Você não está acostumado a pensar em mim como
sua esposa. Por isso.
— Também não sabia que você entendia de decoração.
— Nem eu — disse Lee. — Acho que não gostei de ser considerada
como alguém que não serve para você e que, ainda por cima, não entende
de nada. Damien sorriu.
— Talvez eu deva prevenir as pessoas de que minha esposa pode
virar uma tigresa sob certas circunstâncias?
— Sério que pensa assim?

Sabrina 1300 55
Damien negou com um movimento de cabeça.
— Mas se eu fosse Cosmo Delaney começaria a me preocupar.
— Não gosto daquele homem — Lee admitiu enquanto saboreava o
peixe grelhado com batatas e salada. — Não é implicância. Ele me dá
arrepios. A propósito, ele já formalizou sua queixa contra nós.
— Não. — Damien deu um sorriso frio. — Mas fará isso e eu espero
que não demore porque terei imenso prazer em acabar com sua pose. Ele
acha que amedrontando-a terá chance de recuperar Plover Park. Não
poderia estar mais enganado.
Lee pestanejou diante da expressão autoritária de Damien.
— Céus! Eu não queria lutar contra você em um tribunal. Mas,
voltando a falar sobre Cosmo, e se ele tem provas de que Cyril lhe
prometeu Plover Park?
— Se houvesse provas, ele teria aberto um processo contra nós
imediatamente.
Um pouco mais tranqüila, Lee continuou a comer em silêncio. Mas a
tensão logo voltou a dominá-la. Damien estava olhando para ela com
insistência.
— O que foi? — Lee perguntou, por fim. Ela mal estava conseguindo
engolir. De repente, a sensação de que estava sendo despida e acariciada
não lhe permitiu mais pensar.
— Estamos mais perto do quarto do que da cozinha? Não era preciso
pedir nenhuma explicação. A mensagem estava clara. Lee ficou ainda
mais excitada, mas também zangada. Como Damien podia afirmar que
não era uma boa idéia e depois provocá-la daquele jeito?
No primeiro momento, ela não soube como reagir. Um momento
depois, sustentou-lhe o olhar e ergueu uma sobrancelha.
— Se você quer guerra, Damien, guerra é o que terá!

CAPÍTULO VI

A paz, não a guerra, reinou em Plover Park naquela semana. Damien


não a provocou nem sequer uma vez. Se fosse sincera consigo mesma,
Lee admitiria que não estava gostando de ser tratada como uma irmã
caçula. Ao mesmo tempo, à menor insinuação, ela estava preparada para
saltar nos olhos de Damien.
Se ela fosse ainda mais honesta, aliás, confessaria que, talvez,
estivesse maluca. Era apenas a forte suspeita de que Damien estava se
divertindo a custa dela que garantiu seu controle.

Sabrina 1300 56
Por outro lado, não seria justo da parte dela criticar Damien. Ele
estava lhe dando uma ajuda e tanto no trabalho. Não parecia se importar
em passar longas horas no viveiro de plantas. Até sugeriu que Bill e Mary
tirassem uma semana para descansarem.
A energia de Damien parecia inesgotável. Ele trabalhava com a terra
e com os animais e também a ajudava com a contabilidade. Parabenizou-a
pela competência em aumentar os lucros em período tão curto. A noite,
eles faziam uma caminhada após o jantar, que se revezavam para
preparar, e assistiam a filmes e shows ou ouviam música. Em resumo,
Damien se revelara o melhor companheiro que ela poderia desejar.
A maior dificuldade de Lee era enfrentar a madrugada, sozinha em
seu quarto, quando não conseguia resistir aos pensamentos que a
assaltavam. Porque ela estava ficando cada vez mais fascinada por
Damien.
Sentia prazer em vê-lo trabalhando. Admirava-o por sua inteligência
e por suas habilidades. Por seu corpo magnífico e por seu senso de humor.
Nunca faltava assunto durante as refeições.
Um dia, Damien lhe fez uma surpresa: improvisou um pequeno
campo para treinarem golfe.
De que Lee mais gostava era certamente o jantar. Por Damien ser
um bom cozinheiro, ela procurara se esmerar quando lhe cabia a tarefa.
As refeições em Plover Park se tornaram não mais um prato diante da
televisão, mas uma ocasião alegre e elegante. Em vez de comida
congelada em embalagens descartáveis ou sanduíches, eles serviam a co-
mida em pratos de porcelana sobre uma toalha de linho.
A especialidade de Lee era fazer tortas. A esse respeito, Damien se
curvava para ela. Lee sabia preparar tortas de dar água na boca, tanto
doces quanto salgadas, todas ensinadas por sua avó.
Eles conversaram sobre o período de seis meses que Lee passara na
Europa para se aprimorar na profissão. Ela lhe contou também sobre a
vida que levara como filha única e mais tarde como órfã. E Damien contou
a ela sobre fatos de sua vida. Como os escritórios Moore & Moore foram
fundados pelo avô e a pressão por parte da família que foi grande.
O pomo da discórdia foi a decoração dos novos escritórios.
Uma semana depois do almoço em Byron Bay, Lee apresentou suas
idéias finais.
O balcão de madeira para a recepção já havia sido encomendado,
juntamente com um porta-chapéu e guarda-chuva. Vasos de cerâmica
para as plantas também estavam escolhidos e ela conseguira encontrar
um fornecedor de sofás de couro.
Lee estava usando um vestido verde e branco, sem mangas,
comprido até quase o tornozelo, que colocara para ir às compras.
Damien examinou o orçamento em silêncio e depois percorreu-a
com os olhos.

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— Caro demais? — Lee perguntou, receosa.
— Em absoluto. Em geral, precisamos pagar pela classe. Vestido
novo?
— E. Por que pergunta?
— Nunca o vi antes. Só por isso.
— Eu o tenho há anos. Não costumo comprar roupa com freqüência.
— É o caso daquele vestido preto? — Damien perguntou, malicioso.
— Aquele foi o último que comprei e que, provavelmente, usei pela
última vez.
— Seria uma pena. — Damien tirou um papel do bolso.
— Para você.
O papel era um cheque. Ao verificá-lo, Lee tentou devolver.
— Obrigada, mas não posso aceitar. Damien colocou as mãos nos
bolsos.
— É seu, Lee.
— Você não precisa me pagar nada. Se alguém tem de pagar algo
sou eu. Você tem trabalhado sem parar. Eu só lhe dei algumas sugestões
e providenciei algumas amostras. Mesmo que quisesse aceitar, você
superestimou o pagamento.
— Eu teria pago esse mesmo valor a uma decoradora.
— Talvez, mas eu não fiz nada além de dar umas idéias.
— São por suas idéias que os decoradores cobram.
— De qualquer modo, não quero que você me pague nada.
— A insistência de Damien começou a aborrecê-la. — Isso cheira a
caridade e eu não estou precisando!
— Caramba, Lee. Não se trata de nenhuma caridade. Não estou
pagando de meu bolso. E uma verba de que a firma dispõe para montar a
nova filial.
— Acontece que eu sou uma paisagista, não uma decoradora de
interiores!
— Por que você se desmerece, Lee? — Damien indagou.
— Não confia em sua capacidade?
— Claro que confio! — Lee respondeu sem pensar. — Mas...
— Nada de mas — Damien a interrompeu com um súbito sorriso. —
Se insistir nessa discussão, eu acabarei fazendo o que você esperou que
eu fizesse durante toda a semana. Algo que eu próprio tive de me esforçar
muito para resistir. Acho que seria a única maneira de ganhar esta
disputa.
— Não sei de que você está falando — Lee tentou ganhar tempo.

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— Estou falando disto. — Damien tomou-a nos braços e se pôs a
beijá-la.
Lee tentou negar, mas o que Damien dissera era a pura verdade. Ela
estava esperando por beijos. Por muito mais...
— Então foi mútuo — Damien murmurou quando eles finalmente se
afastaram.
— Claro que foi! — Lee concordou. — Eu não costumo beijar homens
que não quero beijar!
— Uma resposta típica de Lee Westwood — Damien caçoou.
— Então talvez eu deva lhe fazer uma pergunta, Damien Moore.
Você se apaixonou por mim?
— Eu deveria ter imaginado que você iria exigir que eu desse nome
aos bois.
Lee enrijeceu. Damien percebeu imediatamente que a havia
atingido e tentou reparar o erro.
— Não estou me divertindo a sua custa, Lee, se foi isso que pensou.
Ela pestanejou.
— Não se trata disso. Eu...
— Vamos olhar o caso por um outro ângulo — Damien propôs. —
Você se apaixonou por mim?
Por um instante, Lee sentiu-se tentada a confessar que sim, mas se
conteve. Como eles poderiam continuar juntos em Plover Park se ela
declarasse seu amor e descobrisse que não era correspondida?
— Eu não sei — mentiu. — Aconteceu duas vezes e...
— Você confundiu amor com atração e ficou decepcionada?
— Sim — Lee concordou, mas omitiu o fato de que seus sentimentos
no passado eram uma pálida imitação ao que estava acontecendo entre
eles.
Damien sorriu e acariciou os longos cabelos que tanto o seduziam.
— Você acredita se eu disser que está acontecendo o mesmo
comigo?
— Acredito. Acho que os homens enfrentam esse tipo de situação
mais do que as mulheres. Especialmente homens como você.
Damien franziu o rosto.
— Não vou discutir a esse respeito. Prefiro lhe fazer uma Outra
pergunta. O que você sugere fazermos?
— Você me beijou...
— Sonhei com isso a semana inteira.
— Mas não teria acontecido se eu ficasse quieta? — Lee adivinhou.

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— Não.
Ela se dirigiu à porta do terraço.
— Procurarei não irritá-lo mais, Damien. Já temos complicações o
suficiente. Um caso...
— Não seria um caso — Damien a interrompeu. — Nós somos
casados.
— Não de verdade — Lee retrucou. — Ambos estamos cientes de
que seguiremos caminhos separados cumprido o prazo que determina o
testamento. Portanto seria um caso, sim, e um problema adicional.
— E se descobrirmos que Cyril estava certo?
— Ele não estava — Lee respondeu, séria. — Não sou a mulher certa
para você, Damien. Tem sido maravilhoso comigo, um companheiro
melhor do que eu esperava, mas para você tudo não passa de um
interlúdio, de umas férias diferentes.
— Talvez — Damien admitiu após alguns segundos.
— Enquanto para mim, isto é um estilo de vida. Eu seria igual se não
houvesse Plover Park. Para você, tudo é novidade. Inclusive eu.
— Uma esposa impetuosa? — Damien sugeriu. — Não vejo um
empecilho nisso. Nem em estilos de vida diferentes. Muitos casamentos
bem-sucedidos dizem respeito a pessoas com carreiras até mesmo
conflitantes. — Damien fez uma pausa. — Mas se é assim que você pensa,
eu me curvo a sua sabedoria.
Lee agradeceu a compreensão, mas, no fundo, estava insegura
sobre estar tomando a decisão certa. Seu coração parecia pesar no peito.
— Mas quanto ao pagamento — Damien se inclinou para apanhar o
cheque que havia caído durante o abraço —, eu faço questão. — Ele o
colocou na mão de Lee e fechou seus dedos. — Deposite-o em sua conta.
Não se esqueça de quais seriam as conseqüências! — ele a preveniu com
um olhar malicioso que acabou fazendo-a corar e o levando a rir. — Ok,
não falemos mais nisso, está bem? Terei de ir a Brisbane por um dia ou
dois esta semana, antes que me esqueça.
— Algum problema? — Lee se obrigou a perguntar, depois de engolir
em seco. De repente, a vida em Plover Park, sem Damien, não fazia o
menor sentido. — Espero que não seja sério.
— Um cliente se meteu em uma enrascada. Seus avós já voltaram?
— Já. Nan telefonou para avisar e nos convidou para jantar lá esta
noite.
— Nesse caso, vou aproveitar que você tem companhia e partir
imediatamente. Poderei estar em Brisbane a tempo para jantar com esse
cliente.
Lee sentiu o fôlego faltar.
— O que quer que eu faça com as amostras de cores?

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— Se puder cuidar disso para mim, eu gostaria de inaugurar a filial
em quatro semanas. Não se preocupe se não der. Posso perfeitamente
mandar alguém de Brisbane para ajudá-la, ou para assumir o serviço, se
for o caso.
— De jeito nenhum! — Lee protestou. — Se estou sendo paga pelo
projeto, quero realizá-lo até o fim.
— Lee, isso exigirá idas e vindas constantes. Você terá de passar
uma boa parte de seu tempo em Byron Bay.
— Não me desafie, Damien Moore! — Lee ordenou, em tom de
brincadeira. — Este é um argumento que você não tem condições de
ganhar!
Damien fitou-a intensamente e sorriu.
— Desta vez eu acredito em você. Sei reconhecer ares de tigresa
quando os detecto.
Lee não teve alternativa senão sorrir também.
— Assim está melhor. Mas lembre-se de que você não é uma tigresa
de verdade. Portanto, nada de se aventurar por aí enquanto eu estiver
fora.
— Está bem.
Damien parecia querer dizer mais alguma coisa, mas o telefone
tocou naquele instante e Lee precisou atender. Meia hora depois,
enquanto observava o Porsche desaparecer pela estrada, ela tentou se
convencer de que tomara a decisão correta. Se estava sendo difícil ver
Damien partir como amigo, como se sentiria se eles tivessem dormido
juntos?
Os dois dias se tornaram quatro.
Nesse período, Lee mal se permitiu comer e dormir. Trabalho
parecia ser o único antídoto para a sensação de perda e de vazio que a
atormentava.
Não havia outra saída. Ela havia defrontado Damien com uma
equação simples: eles não serviam um para o outro e um romance só
complicaria ainda mais suas vidas. Damien concordou. Mais do que isso.
Ele admitiu que ela estava certa.
Era difícil assimilar o alcance daquelas palavras. Sem ser indelicado,
Damien não havia deixado dúvidas sobre a condição que a esperava, caso
ela resolvesse aceitar sua proposta. Ou seja, um romance passageiro.
Talvez as chances fossem maiores se a autêntica Lee Westwood fosse a
mulher que o acompanhara à festa de Ella Patroni, mas aquela versão só
existira por uma noite...
O pensamento paralisou Lee por um instante. Naquela noite, ela
havia se transformado no tipo de mulher com quem Damien costumava
conviver. Como podia estar tão convicta de que não servia para ele?
As quatro horas da manhã, Lee estava acordada na cama,

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contemplando a lua cheia. Ela nunca fechava as cortinas porque adorava
acordar com o sol nascendo.
Aquela noite, como em todas as outras em tempos recentes, ela não
estava conseguindo conciliar o sono. Imagens de Damien vinham a sua
mente a todo instante. Ela agora o conhecia melhor. Um elemento vital,
porém, continuava a lhe escapar: o que Damien procurava em uma
mulher.
Algo que a mãe dele disse ecoou em seus ouvidos.
As vezes me surpreendo pensando se Damien não está acomodado
à situação. Mulheres demais têm se oferecido a ele. Um casamento de
conveniência talvez lhe faça um genuíno bem...
Lee havia perguntado a Evelyn o porquê dessa opinião. A resposta
foi que ela já havia presenciado um grande número de casamentos acabar
em divórcio e que na grande maioria os casais se casavam apaixonados.
Casamentos de conveniência, por outro lado, quando nenhum dos
parceiros acalentava ilusões sobre o companheiro, ofereciam chances de
sucesso.
Agora sentada em sua cama, com a cabeça nas mãos, Lee se
perguntou se Evelyn Moore não estaria mais certa do que ela imaginava.
Afinal, não seria por Lee ser diferente das outras mulheres, e não tratá-lo
como se fosse um deus, que Damien estava atraído por ela?
Isso explicaria muito, Lee pensou. Se ela tivesse deixado escapar
como se sentia e permitido que suas defesas caíssem, certamente Damien
não lhe teria proposto casamento.
Não era uma ironia que a idéia de um casamento de conveniência
estivesse começando a parecer sedutora a ele? Não teria sido essa a
razão por Damien ter feito aquele comentário sobre os diferentes estilos
de vida não significarem necessariamente um casamento sem futuro?
De qualquer modo, o conceito da mãe de Damien não lhe servia.
Jamais em sua vida ela seria capaz de sobreviver a uma relação onde duas
pessoas viviam vidas separadas durante o dia e ficavam juntas à noite
apenas para gerarem um herdeiro.
Assim, mesmo sob o risco de perder Plover Park, ela estava firme
em seu propósito de não manter uma maior intimidade com Damien.
Três dias depois, Lee ainda não havia encontrado uma solução para
seu problema: como ficar o mais longe possível de Damien antes que
acabasse cometendo o erro de fraquejar.
A temperatura havia caído e a tão necessária chuva finalmente os
visitou. Ao cair da noite, porém, o céu já estava claro outra vez e Lee pôde
dar seu costumeiro passeio, quando aproveitava para fechar o galinheiro e
dar uma olhada nos animais.
Assim que a noite se fez por completo, Lee acendeu a lanterna que
sempre carregava consigo ao dar esses passeios. O susto que levou foi tão
grande, quando o foco de luz incidiu sobre uma cobra, que ela deu um

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pulo para trás e se desequilibrou ao afundar os pés na terra amolecida
pela chuva e pelas águas do regato.
Ao tentar se levantar, a situação piorou. Havia pedras no meio do
lodo e ela escorregou. Coberta de lama, Lee tentou novamente se
levantar. Não conseguiu. Um dos pés ficou preso e ela não conseguiu
soltá-lo.
Peach olhava para a cobra e latia sem parar. Por mais que ela o
chamasse, ele não obedecia ao comando.
— Isso não pode estar acontecendo! — Lee se pôs a soluçar. Mas
seu protesto de nada adiantou. Trinta minutos depois, continuava sentada
na margem do regato, que felizmente era raso, sem conseguir soltar o pé
do meio das pedras.
O cachorro havia parado de latir. Solidário, foi lambê-la diversas
vezes antes de voltar a seu posto como guardião entre ela e a cobra.
Como se não bastasse o acontecido, a chuva voltou a cair.
Desesperançada, Lee se pôs novamente a chorar. Estava com frio e com
medo. Nunca se sentira tão só e abandonada antes.
Um pequeno ruído a fez parar de respirar. Parecia vir do outro lado
do pasto. Aguçou os ouvidos. Em seguida Peach se pôs a latir, nervoso, e
ela sentiu o alento da esperança aquecê-la.
Damien. Ele a estava chamando. Ao reconhecer a voz, Peach correu
em sua direção.
— Lee, onde você está? Não pôde controlar o instinto de tigresa, no
final das contas?
Damien parou de falar assim que a iluminou com a lanterna. Nesse
instante, precipitou-se para o regato e se ajoelhou ao lado dela.
— Meu Deus, o que aconteceu? Eu fiquei preocupado quando não a
encontrei em casa, mas achei que você estava apenas se demorando um
pouco mais em sua caminhada. Só depois de ouvir os latidos de Peach me
ocorreu que você poderia estar com problemas.
— Em tenho pavor de cobra — foi a única coisa que Lee conseguiu
dizer entre a nova avalanche de soluços.
Damien abraçou-a e a fez deitar a cabeça em seu ombro até que ela
se acalmou. Tentou livrá-la, então, mas precisou desistir.
— Não estou conseguindo. Vou precisar ir até o galpão para pegar
uma ferramenta. — Ele tirou a gravata, tão molhada e suja de lama como
o resto de sua roupa e a de Lee, e amarrou-a no pescoço de Peach. —
Desta vez ele não sairá de perto de você. Voltarei antes do que você
espera. E fique sossegada. A cobra não está mais por aqui.
— Eu estou bem — ela afirmou. — Pode não parecer, mas eu estou.
— Assim é que se fala! — Damien beijou-a na testa e se afastou o
mais depressa que pôde.
Em menos de dez minutos, Lee soube que Damien estava voltando

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pelo barulho e pelos faróis potentes do trator que iluminaram o trecho
onde ela se encontrava, como se fosse dia. Daí a soltá-la das pedras,
Damien não levou mais do que alguns minutos.
— Não houve fratura embora o pé esteja inchado — Damien
constatou, depois de carregar Lee até a terra firme e lhe tirar
cuidadosamente a bota. — Acha que consegue andar?
Lee apoiou o pé no chão e sentiu o tornozelo doer, mas foi capaz de
suportar o.peso do corpo. Damien agasalhou-a, então, com um cobertor e
acomodou-a na pá do veículo para levá-la para casa.
A primeira coisa que Damien fez quando chegaram foi carregá-la até
o banheiro e lhe dar uma dose de conhaque.
— Quanto tempo você ficou na água?
— Não sei. Cerca de uma hora, eu imagino. Fiquei fora de mim.
Morro de medo de cobras. — Lee estremeceu a um incontrolável arrepio e
Damien a fez tomar o resto da bebida.
— Ei, o que você está fazendo? — Lee pestanejou ao ter o copo
tirado de sua mão e ser submetida às mãos hábeis, que se puseram a lhe
desabotoar a roupa.
— Você precisa de um banho quente. Não quer pegar uma
pneumonia para complicar ainda mais sua vida, quer? Quanto ao medo de
cobras, quem não tem? — Ele piscou para ela.
Lee ficou petrificada ao se ver nua na frente de Damien, mas ele se
comportou de maneira impecável, como se realmente só estivesse
pensando em ajudá-la. E ela estava precisando de ajuda.
— Segure-se aqui — Damien colocou a mão de Lee na barra fixada
na parede do box. — A menor sensação de tontura, me chame. Vou tirar
esta roupa molhada.
Ele demorou não mais de cinco minutos para voltar, já banhado e
vestido com um abrigo. Lee continuava no banho.
— Terminou? — Damien quis saber ao mesmo tempo que lhe
estendia uma toalha.
O que havia de errado com ela?, Lee se perguntou. Por que ainda
não estava seca e vestida como Damien? Por que permanecera no
chuveiro, como uma estátua, até que Damien voltasse e a visse nua outra
vez, sem demonstrar o menor interesse por ela, como mulher?
Em primeiro lugar, Lee pensou, o modo de Damien olhar para ela
continuava tão impessoal quanto antes, ao despi-la. Em segundo, ela
continuava incapaz de se mover e de refletir. Seria efeito do choque?
Ela se deixou levar de volta para o quarto. Damien a enxugou e
vestiu com uma camisola e a colocou na cama antes de se dirigir à
cozinha para preparar algo para comerem.
Peach pulou na cama e ela o afagou, agradecida.
— O que está acontecendo comigo, meu querido cão de guarda?

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Damien cuidou de mim como teria feito com qualquer outra pessoa nessas
circunstâncias. O que eu esperava? Que ele fosse perder o controle
porque me viu nua?
Pouco a pouco, Lee começou a se sentir como uma criança. Era isso.
Damien gostava dela como se fosse uma criança.
— Lee?
Ela voltou de seu devaneio e o viu colocando uma bandeja sobre
suas pernas.

CAPÍTULO VII

Lee conseguiu tomar todo o chá com torradas e bolo, apesar de sua
impressão inicial de que estava sem apetite.
A companhia de Damien fez diferença, por certo. Ele puxou uma
poltrona para perto dela e eles comeram juntos. Damien lhe contou que
havia resolvido dar uma passada para saber se estava tudo bem com ela,
antes de continuar viagem. Na tarde seguinte, ele teria de estar em
Vanuatu onde permaneceria por dois dias.
Lee colocou-o a par das novidades sobre a decoração do escritório.
A pintura e o carpete estariam prontos até o final da semana seguinte.
— Você é uma garota esperta — Damien elogiou-a. Lee examinou o
quarto pela primeira vez. A cama de casal em cerejeira era linda. As
cortinas de damasco estavam fechadas e eram de cor marfim assim como
o fundo do edredom estampado de botões de rosas.
— Não fui muito esperta algumas horas atrás.
— Acidentes acontecem com todo o mundo — Damien lembrou
antes de levar as bandejas para a cozinha e retornar com dois cálices de
cherry brand. — Eu diria que é o maior inconveniente de morar sozinho.
— Não há muito que eu possa fazer a respeito — Lee murmurou.
— É uma boa oportunidade para trazer seus avós para morarem
com você.
— Você gosta mesmo deles, não? — Lee comentou com um sorriso.
— Sim, eu gosto deles.
Damien esticou as pernas e curvou o pescoço para trás. Estava
cansado, mas não conseguia se afastar de Lee. Ela estava pálida, mas
linda. Pensou no momento que a colocara no banho. Que corpo! Que pele!
— Quer algo para ajudá-la a dormir? — Ele se levantou. Se não
saísse daquele quarto o quanto antes...
— Não, obrigada. Ficarei bem.

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— Tem certeza? — Damien se aproximou da cama e estreitou os
olhos. — Você está quieta demais.
— Acho que é porque estou exausta.
— Descanse. Eu tenho um trabalho para terminar e estarei acordado
por algum tempo ainda, caso você precise de alguma coisa. — Ele apagou
a luz. — Boa noite, Lee. Durma bem.
— Boa noite, Damien. Obrigada por tudo.
Lee dormiu em seguida, mas por pouco tempo. De repente, ela
estava presa, outra vez, nas pedras, tremendo de frio e com medo de ser
picada por uma cobra. No esforço de se soltar, debateu-se e caiu no chão.
Ao bater na mesinha de cabeceira, fez um enorme barulho.
Damien se precipitou no quarto e correu para ela.
— Lee? Você se machucou?
— Acho que não — ela respondeu, pálida de susto. — Por favor, não
me deixe sozinha!
Ele não a deixou.
Ajudou-a a voltar para a cama e se deitou ao lado dela. ainda
totalmente vestido. Para distrai-la, pôs-se a falar. Embora não soubesse
explicar o porquê, viu-se contando a Lee sobre seu pai e por muitas vezes
ele não ter tido certeza se o amava ou odiava.
Lee cochilou duas vezes, mas em ambas acordou sobressaltada.
Pela manhã, contudo, ao despertar, sentiu-se descansada e
maravilhosamente aquecida. Damien havia dormido abraçado com ela.
Ela procurou não se mover para não acordá-lo, mas ele não
demorou para abrir os olhos.
No primeiro instante ele pareceu surpreso ao vê-la. Em seguida,
sorriu.
— Até que enfim, sra. Moore! — Ele encarou-a, mas logo reassumiu
o ar brincalhão e soltou-a. Não esperava que Lee fosse voltar a abraçá-lo.
— Acho melhor não facilitarmos, Lee — Damien recomendou.
— Fique comigo.
Ela sentiu no próprio corpo a tensão que o invadiu.
— O que está querendo dizer?
— Que eu preciso de você.
— Mas você disse...
— Eu mudei de idéia. Não sou mais uma criança. — Ela se
aconchegou mais a ele e sorriu, provocante.
Damien fechou os olhos e suspirou. Lee estava tão linda, tão macia.
Ele apertou-a contra o peito e soube instintivamente que estava perdido.
Segurou-a pelo rosto, olhou nos olhos verdes e começou a deslizar

Sabrina 1300 66
as mãos para o pescoço sob a cascata de cabelos vermelhos, até chegar
aos seios.
— Tenho esperado por este momento desde aquela noite quando
coloquei uma flor em seu decote — Damien confessou e se pôs a acariciá-
los.
Lee só teve forças para fazer que sim quando Damien deslizou as
alças da camisola pelos ombros para despi-la.
— Seios perfeitos — ele murmurou. — Pele de cetim, pernas
fascinantes. O jeans e a camiseta não lhe fazem justiça, Lee. O vestido
preto começou a me fornecer uma pista de como você realmente era. Mas
ontem à noite, eu tive a prova definitiva. Você é a mulher que todo
homem deseja possuir.
A respiração de Lee estava tão acelerada que ela não conseguiu
responder. Nem dominar as mãos. Porque naquele instante, Damien
também se despiu.
Nos momentos seguintes, eles exploraram mutua e intimamente
seus corpos até que só restou uma coisa a fazer: se entregarem um ao
outro.
Lee arqueou as costas para recebê-lo. Ele a penetrou com cuidado,
mas logo perdeu o controle. Beijou-a na boca, no pescoço e nos seios.
Quando sentiu que estavam perto de explodir de paixão, tornou a se
apoderar daquela boca e a mergulhar as mãos naqueles cabelos que o
enlouqueciam.
— Foi demais...
Lee abriu os olhos. Damien ainda estava por cima dela e lhe beijou a
pontinha do nariz.
— Surpreso? — Lee perguntou, corada.
— Você sempre é cheia de surpresas — Damien respondeu. — Estou
certo ao dizer que foi sua primeira vez, não estou?
O rubor aumentou.
— Foi como se fosse — Lee admitiu. — Sou praticamente
inexperiente em sexo, mas algo me diz que você é um mestre nessa arte.
Damien sorriu e tornou a beijá-la.
— Eu diria que a mestra é você, sra. Moore. Mestra de sedução.
Porque depois do que acabou de acontecer, não conseguirei seguir
sozinho para Vanuatu.
— Não está certo! — Lee esbravejou. Eles estavam no Porsche, na
estrada para Brisbane. — Você não me deixou opção!
— Não há com o que se preocupar — Damien insistiu. — Seus avós
ficarão em Plover Park durante sua ausência e cuidarão de tudo. Eles são
da mesma opinião que eu. Você está precisando descansar.
Lee não respondeu.

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— Afinal, por que você faz tanta questão de brigar comigo? —
Damien protestou. — Acabarei sendo obrigado a investigar o porquê desse
seu comportamento. O que pensou? Que iria dormir comigo apenas uma
vez e me colocar de lado?
— Você está me tratando outra vez como se eu fosse uma criança.
Não gosto disso — Lee resmungou. — Apenas aconteceu muito rápido e eu
ainda não tive tempo para pensar sobre nós dois.
— Uma vez pode ter sido suficiente para você, mas não para mim. —
Damien colocou a mão por cima da dela. — Se não tivéssemos de pegar
um avião agora, eu ficaria tentado a parar em um hotel.
— Você está exagerando — Lee caçoou. Damien estreitou os olhos.
— Você não sabe muito sobre os homens, minha querida. Tome
cuidado.
Duas tardes depois, na ilha Erakor, distante alguns minutos por
ferry-boat de Port Vila, a capital de Vanuatu, Lee estava admirando o pôr-
do-sol e um habitante local navegando em uma pequena canoa, feita de
um tronco oco de árvore, rumo a um pesqueiro.
Algo estranho aconteceu em seguida. Como em um passe de
mágica, uma nuvem escura cobriu o sol e ondas altas começaram a
quebrar nas pedras onde ficava seu bangalô. Uma forte chuva começou a
cair e uma nuvem cinzenta ocultou toda a vista ao redor da varanda.
Por sorte, a chuva não durou muito e as cores do céu logo foram
restauradas como uma pintura.
Lee olhava para a paisagem, fascinada. Ela havia se apaixonado por
aquela ilha. A primeira impressão que teve ao conhecê-la foi que estava
entrando em um exuberante parque tropical.
Lee aprendeu algo sobre a história e sobre o povo daquela ilha,
enquanto Damien permanecia na cidade em conferências com seu
abastado cliente.
Havia uma capela ao ar livre onde os casamentos eram realizados à
tradição samoana. Resorts luxuosos eram responsáveis por grande parte
da contratação de mão-de-obra. O lugar era animado. Pessoas se
divertiam naquele paraíso ecológico, mergulhando nas águas, brincando
com as canoas, admirando as plantas aquáticas e os peixes com a prática
do snorkel.
Lee foi uma das turistas que aproveitou essa oportunidade para ver
as milhares de criaturas coloridas que movimentavam o fundo da lagoa.
O serviço de transporte da ilha para o continente era rápido e
disponível as vinte e quatro horas do dia.
Na noite anterior, sob uma imensa lua cheia, uma mulher nativa
cantara uma canção diferente de tudo que Lee já havia ouvido, em
homenagem à noite de luar. E ela estava justamente se lembrando
daquela melodia e da lua prateada quando Damien veio ao encontro dela.
— Desculpe. Eu acabei dormindo sem querer. Damien se

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vangloriava por nunca dormir durante o dia.
Naquele dia, porém, o cansaço falara mais alto.
— Não se desculpe. Eu fiquei bem. Estou adorando este lugar.
— Então a idéia de trazê-la não foi tão ruim?
— Foi brilhante — Lee admitiu.
— Venha cá. — Damien abriu os braços para que ela se refugiasse
entre eles. — Minhas idéias normalmente são brilhantes — ele a provocou.
— Convencido.
Assim que Lee se sentou no colo de Damien, ele introduziu a mão
por baixo da blusa.
— De sutiã? — ele perguntou com um olhar significativo.
— Não mude de assunto!
Como se não tivesse ouvido, Damien se pôs a desabotoar a blusa. A
respiração de Lee se tornou ofegante. Ele a olhou nos olhos e não foi
preciso dizer nada. Com Lee nos braços, eles seguiram em direção ao
quarto.
Não houve tempo para preliminares. Damien tomou os seios, nos
lábios e começou a sugá-los daquele jeito que fazia Lee incendiar de
desejo. Daí a partirem para a relação sexual completa foi uma questão de
segundos.
— Eu estava apressado demais desta vez, me desculpe — Damien
murmurou.
— Foi maravilhoso assim mesmo —Lee declarou ao mesmo tempo
que acariciava os cabelos de Damien. — E sobre o cochilo? — ela caçoou.
— Continua cansado?
— E você? — Damien provocou-a. — Continua se sentindo ótima?
Lee deu uma gargalhada.
— Sr. Damien Moore, você é convencido!
— Nesse caso, vou fazer com que se sinta ainda mais convencida do
que eu. Porque quero lhe dizer que, graças a você, estou tão disposto que
a convido para dar um mergulho.
— Já está escuro — Lee observou.
— Há um trecho iluminado e as águas são tranqüilas por aqui.
No mesmo instante, Lee saltou da cama e desafiou Damien sobre
quem vestiria o maio primeiro.
A água estava deliciosa.
— Eu nunca tinha nadado à noite antes — Lee contou. — E uma
aventura sensacional.
— Você é sensacional — Damien elogiou-a e a puxou para seus
braços.

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— Você também. — Lee abraçou-o pelo pescoço com os braços e
pela cintura com as pernas. — Pena termos de voltar amanhã.
Damien a beijou.
— Eu concordo.
Lee ficou admirada com o jeito carinhoso de Damien, mas não disse
nada, nem ele. Depois, de volta ao bangalô, eles tomaram banho e
Damien deixou-a à vontade para que se vestisse e fosse encontrá-lo no
restaurante em meia hora. Não disse por que.
Lee colocou um vestido novo amarelo da cor do topázio que
comprara em uma butique em Port Vila e maquilou-se com os produtos
comprados nas lojas duty-free do aeroporto de Brisbane.
Satisfeita com o resultado, Lee pensou, ao espelho, que fora uma
tola ao hesitar em fazer aquela viagem. Estava adorando cada minuto.
Estava mais apaixonada por Damien do que nunca.
Sua pele havia adquirido um tom dourado que a seda do vestido
realçava ainda mais. Também os olhos pareciam mais verdes e brilhantes.
Ocorreu-lhe que tanta felicidade não seria saboreada por muito
tempo. Para fugir ao pensamento, ela colocou duas gotas de perfume
atrás das orelhas e foi ao encontro de Damien.
As mesas estavam arrumadas ao ar livre e a iluminação era feita por
tochas. Na decoração predominavam os hibiscos e pequenos abajures de
parafina. A sombra emprestada pelas palmeiras tornava o ambiente
misterioso e sensual.
Lee procurou por Damien com os olhos. Ele não estava em nenhum
lugar. Aguardou alguns instantes em vão. Quando estava se virando para
procurá-lo no salão fechado, ouviu a voz dele as suas costas.
— Janta comigo, sra Moore?
Lee fitou-o, subitamente insegura.
— Algum problema.
— Não. — Ela negou com a cabeça. — Apenas não estava
conseguindo encontrá-lo.
Damien apertou a mão de Lee.
— Reservaram a mesma mesa para nós. Espero que esteja com
fome.
Lee pediu o filé a Vanuatu que era servido com uma guarnição de
camarões gigantes. Segundo Damien, não havia carne mais macia nem
camarões tão grandes e tenros.
— Tenho uma surpresa para você — Damien anunciou enquanto
tomavam vinho e aguardavam os pratos. — Mudei nosso vôo. Antes de
voltarmos para casa, quero que conheça outro de meus lugares favoritos.
Tamanu. Consegui uma reserva para duas noites. É diferente de Erakor. A
praia é mais selvagem, mas também de uma beleza fantástica.

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A surpresa deixou Lee sem fala.
— Não gostou da idéia? — Damien perguntou, decepcionado.
— Claro que gostei, mas por que você insiste em tomar as decisões
sem me consultar? — Lee protestou.
— Você gostou de Vanuatu, não gostou?
— Sabe que sim, mas meus avós me esperam amanhã.
— Não mais. Eu já telefonei a eles, avisando, e tive permissão para
mantê-la afastada por mais uma semana.
A expressão irritada de Lee, Damien sorriu.
— Fique tranqüila. Não a roubarei deles tanto tempo assim. E posso
garantir que você também irá amar Tamanu.
Esse era exatamente o problema, Lee pensou. Ela não tinha dúvida
de que amaria estar com Damien em mais uma ilha paradisíaca. O
problema era que ficaria cada vez mais difícil dizer adeus quando
chegasse a hora.
— Lee — Damien chamou-a. — Diga-me o que há por trás dessa
sombra em seus olhos. É birra por eu não tê-la consultado antes?
Francamente, pensei que você iria gostar da surpresa.
Naquele instante, Lee se deu conta de que estava colhendo o que
plantara. Ela havia se oferecido a Damien, por sua livre e espontânea
vontade. O problema era dela, portanto, não dele. O que quer que o futuro
estivesse lhe reservando, não podia culpar Damien.
— Ok — Lee admitiu por fim. — Você está certo e errado ao mesmo
tempo. Não gosto que decidam por mim. Por outro lado, mal posso
esperar para irmos amanhã a Tamanu.
Após o entendimento, o jantar transcorreu em clima agradável e
divertido.
— Eu descobri que este é o cenário que James Michener escolheu
para criar seu Histórias dos Mares do Sul, um de meus musicais favoritos
— disse Lee. — Não a ilha Erakor, exatamente, mas Santo. Baseia-se nos
tempos da Segunda Guerra Mundial, quando Vanuatu era conhecida como
New Hebrides e serviu de base para a tropa americana.
— Vejo que você esteve fazendo sua lição de casa — Damien
brincou. — A propósito, vou lhe mostrar um outro lugar de que gosto
muito: Bokissa. Fica nos arredores de Santo. Eu já tive a oportunidade de
visitar a ilha Ambae. Ela é a ilha que Michener descreveu como a mais
linda do sul do Pacífico. Você aprecia o gênero musical?
Lee sorriu.
— Você ficaria atônito se eu lhe contasse o número de vezes que
assisti ao filme A Noviça Rebelde.
O sorriso de Lee foi sendo substituído pela ansiedade conforme ela
corava sob o olhar longo e possessivo de Damien. Eles haviam acabado de

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jantar e Damien, subitamente, havia se tornado sério.
— Vamos voltar para o bangalô? — ele propôs.
Lee engoliu em seco. Ela havia sentido uma mudança drástica se
operar nele. Uma mudança que ela não entendia. Mas acompanhou-o até
o bangalô e ficaram juntos na varanda para tomarem o resto do vinho que
ele trouxe do restaurante.
— O que houve? — Lee perguntou quando não conseguiu mais
suportar o silêncio.
— Nada — Damien respondeu com os olhos voltados para as luzes
do continente. — Mas, talvez, seja melhor nos reservarmos até amanhã,
quando estaremos em Tamanu.
Lee apertou o copo com tanta força que poderia quebrá-lo. Se isso
fosse possível, ela estava entendendo Damien cada vez menos.
Estavam sentados no sofá de cana-da-índia na varanda. Damien
estava com o braço ao redor dos ombros de Lee e ela com a cabeça no
ombro dele.
De repente, ele atraiu-a mais para junto de si e beijou-lhe os
cabelos.
— Em circunstâncias normais, Lee, este seria o momento de eu
pedir você em casamento, mas como já estamos casados... O que houve?
Você ficou estranha, de repente!

CAPÍTULO VIII

Estamos vivendo uma ilusão, Damien — Lee respondeu. — Não te-


nho dúvidas de que a viagem para Tamanu será igualmente fantástica.
São os últimos lugares do mundo, entretanto, para que se tome uma
decisão racional.
— Você ainda não sabe o que eu estou querendo lhe propor.
— Não — Lee admitiu. — Mas aplaudo sua idéia de praticarmos uma
relação platônica esta noite. Porque...
Damien fez Lee calar com um beijo. Um beijo tão longo e intenso
que os deixou inseguros sobre a restrição sexual com que acabavam de
concordar.
— Você está nervosa? — Damien perguntou ao senti-la tremer.
Lee suspirou e Damien abraçou-a, carinhoso. Mas e o amor?, Lee se
perguntou. Como Damien se sentia em relação ao amor verdadeiro e
eterno que ela lhe dedicava?
O toque do celular afugentou as cogitações. E também Damien.

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Quando desligou, ele olhou para ela e balançou a cabeça.
— O destino resolveu nosso impasse.
— Você terá de viajar outra vez? — Lee perguntou com um fio de
voz.
— Oh, não. Só terei de dar um pulo em Port Vila. Estarei de volta em
duas ou três horas.
Lee tentou esperá-lo acordada, mas o sono a venceu. Damien
sentou-se com cuidado na cama para não acordá-la. Antes de se deitar,
ficou olhando um longo tempo para ela.
Lee o surpreendera. Ela não era apenas linda, mas adorável. Aquela
viagem mostrara a ele quanto Lee e ele se entendiam. Ela não o
perturbava em momento algum. Sabia compreender os deveres e as
responsabilidades dele com respeito ao trabalho. E também sabia ocupar
seu tempo de modo útil e ao mesmo tempo divertido.
E que amante! Ela era puro prazer. Sensível, generosa, doce,
apimentada e extremamente vulnerável, às vezes, ao modo que ele
conduzia a relação. Essa descoberta lhe despertara um instinto inédito.
Um sentimento de proteção e também de ciúme.
Damien prendeu a respiração ao vê-la se mover na cama. Depois se
deitou e teve a grata sensação de ser abraçado por ela, embora estivesse
adormecida, como se isso já fosse completamente natural entre eles.
O sono para Damien, contudo, não foi tão fácil. Ele não se movia
para não acordar Lee. Seu perfume era suave e sua pele macia.
Lee também era contraditória, Damien pensou. Ela se recusava a
falar sobre o futuro, no entanto era capaz de se abandonar nos braços
dele com completa segurança e serenidade. Isso o estava incomodando.
Porque, na verdade, não estava lhe parecendo uma má idéia continuarem
casados.
Uma leve esperança o fez sorrir consigo mesmo naquele momento.
Até mesmo o sono começou a surgir. Porque no dia seguinte eles iriam
para Tamanu...
Eles estavam na varanda do novo bangalô. Lee estava sem palavras
diante de tanta beleza.
A praia era dourada e o mar apresentava diferentes tons de azul:
índigo em direção ao horizonte, turquesa próximo à rebentação. O ar
estava impregnado do murmúrio do mar. O céu azul era imenso. A areia
estava repleta de palmeiras, não do tipo exuberante de folhagens, como
os de Erakor, mas pontiagudos e disformes como os de uma pintura chi-
nesa, possivelmente em conseqüência da intensidade dos ventos.
A sensação de paz e de vastidão era incrível.
O bangalô era um universo à parte. Construído em coral branco,
com três portas-balcão que se abriam para a varanda e venezianas de
madeira nas janelas. O piso também era branco em cerâmica. A cama era
protegida por um véu preso ao teto e o quarto ainda contava com um jogo

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de sofá e poltronas estofados no mesmo tecido azul cobalto que cobria a
cama. Vasos com hibiscos vermelhos dominavam todo o ambiente. O
lugar era tranqüilo e exclusivo. Simplesmente perfeito.
— Um recanto maravilhoso para uma lua-de-mel — Lee disse sem
pensar.
Damien fitou-a de um jeito enigmático.
— Que tal um mergulho antes do almoço?
— Por que não? — Lee se apressou a responder, mas com uma
insegurança que não passou despercebida.
— Estou com vontade de levá-la para conhecer uma outra praia
chamada Fred's Hole. O que acha?
— Você é o guia.
Damien instruiu-a para que levasse tênis para caminharem sobre os
recifes e as conchas e um chapéu. Assim que chegaram, deram um
mergulho e nadaram por aproximadamente meia hora tanto por cima
quanto por baixo d'agua, antes de irem almoçar.
— Estava tudo uma delícia! — Lee exclamou depois de comer um
prato feito de frutos do mar com legumes e verduras, acompanhado por
um vinho branco bem gelado. — Acho que uma soneca agora viria a
calhar.
— Tenho uma idéia melhor — disse Damien. — Há um campo de
golfe aqui perto.
— Sem chance.
— Ora, vamos comigo. Uma caminhada nos fará bem. E mais tarde,
poderemos aproveitar e dar outro mergulho.
— Você está cheio de energia! Como consegue, depois de fazer uma
refeição como esta?
Damien apenas sorriu.
— Não sabia que você era preguiçosa.
— Não sou. Por outro lado, não estou acostumada a passar o dia me
divertindo nem dormindo tão tarde. Por falar nisso, a que horas você
chegou ontem à noite?
— Não era tão tarde assim. Passavam alguns minutos das dez.
— Você não ficou decepcionado por eu... — Lee não foi capaz de
completar a frase.
— Sim e não — Damien respondeu com franqueza. — Mas como
havíamos combinado não fazer nada, eu tomei cuidado para não acordá-
la. — Damien fez uma pausa e fitou-a. — O dia de hoje poderia ser
diferente. O que você acha?
Lee cruzou e descruzou os braços e Damien percebeu que ela
estava sem o sutiã, um detalhe que o excitava muito.

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— De quê? — Lee sentiu um arrepio lhe percorrer as costas.
— De esquecermos sobre o golfe?
— Eu... não. Não creio que seria uma boa idéia.
— Você está sem sutiã hoje. Lee tornou a cruzar os braços.
— Não faça isso — Damien pediu, rouco.
Lee olhou ao redor. O bangalô era protegido da curiosidade alheia.
Ela e Damien poderiam fazer ali o que quisessem...
De repente, Lee sentiu-se tomada por uma incrível sensação de
liberdade.
— Peça um café. Isso nos dará um tempo para digerir o almoço
antes de seguirmos para o campo de golfe. A lua só aparece à noite.
Damien estava começando a franzir o rosto quando ouviu a última e
promissora frase.
O outro vestido que Lee comprara em Port Vila era branco, curto,
sem mangas, abotoado na frente, com decote quadrado. Ela havia
prendido um hibisco nos cabelos. Estava pronta para o jantar. E
apreensiva.
A tarde transcorrera às mil maravilhas. Damien e ela se divertiram
muito e continuaram se tratando como bons amigos. A expectativa da
noite, porém, estava aumentando a ponto de Lee ter a sensação de que
iria explodir.
O culpado disso era Damien e seu modo intenso de olhar para ela. A
tensão sexual os envolvia como uma espiral. Em resultado, ela havia
falado cada vez menos e se sentido cada vez mais insegura. Tanto que ele
começou a lhe parecer um estranho.
Ao chegarem ao bangalô, Lee seguiu-o até o quarto, mas
permaneceu junto à porta-balcão admirando a lua. Damien acendeu uma
vela sobre a mesinha de cabeceira e se aproximou dela por trás.
— O momento chegou, milady. Permite-me? — Ele a virou para que
pudessem ficar de frente um para o outro e colocou as mãos no primeiro
botão do vestido.
Lee pensou que precisava ganhar tempo. Em seguida lhe ocorreu
que não havia motivo para sentir medo.
Assim, permaneceu em silêncio quando Damien começou a
desabotoar lentamente o vestido e o fez deslizar para o chão, deixando-a
apenas de calcinha.
— Por que está me olhando desse jeito, Lee? — Damien murmurou.
— De que jeito?
— Como se estivesse petrificada. Pensei que confiasse em mim.
— Eu confio. Não sei o que está acontecendo comigo. Por um longo
momento, Damien se limitou a fitá-la em seu esplendor. Lee estava

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dourada pelo sol e pela chama da vela. Depois, ele foi até o banheiro e
voltou com um robe que a ajudou a vestir antes de puxar o lençol para
que ela se deitasse.
Lee ficou olhando sem entender o que ele pretendia. Observou-o em
silêncio enquanto se livrava da roupa e a trocava por uma calça de pijama.
— Sabe onde eu errei? — Damien questionou-a depois que se
acomodou ao lado dela e a fez deitar em seu ombro. — Não deveria ter
proposto uma noite platônica. Acho que minha intenção era ouvi-la
discordar da idéia. Não faz bem ao ego descobrir que a restrição pode ser
praticada pela parceira. Então, sem me dar conta de meu erro, eu a
assustei com meu modo de reagir.
Lee não esperava que Damien fosse entendê-la tão bem e ser capaz
de uma absoluta franqueza. Sentiu-se aliviada.
E dessa vez, quando Damien quis lhe acariciar os cabelos, ela se
aconchegou a ele.
— Você me desculpa por ter me comportado como um tolo
monumental?
— Claro que desculpo. De certa forma, eu também não deveria estar
me comportando como uma virgem em pânico.
— Você é mais virgem do que pensa. E antes que me pergunte
porque eu disse isso, é como eu a vejo.
Damien abraçou-a com força e a fez ficar por cima dele. Depois, pela
primeira vez, pediu que ela conduzisse a relação. Lee se entregou ao
prazer daquela experiência. Damien era um amante perfeito. Ele e ela se
satisfaziam em todos os sentidos.
— Eu gemi alto, não? — Lee perguntou, algum tempo depois.
— Não mais alto do que eu — Damien respondeu com um sorriso
antes de fazê-la rolar na cama e ficar por cima dela.
— O que foi? — Lee quis saber quando o olhar de Damien se tornou
por demais penetrante.
— Eu queria agradecer a você, minha adorável deusa da lua.
Damien a beijou e ela correspondeu como, talvez, nunca tivesse
correspondido antes. Estava profundamente tocada.
O vôo de regresso para Brisbane foi tranqüilo. Durante a viagem,
Damien e Lee só conversaram sobre o presente, assim como acontecera
no segundo dia em Tamanu. Mas à medida que o avião se aproximava de
Moreton Bay, o futuro voltou a assombrar Lee.
— É sexta-feira — disse Damien quando aterrissaram.
— Nove horas da manhã — Lee completou. Damien sorriu.
— Tenho de trabalhar. O que pretende fazer?
— Dar um jeito de ir para casa.

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— Não vá — ele pediu. — Podemos ir amanhã. Juntos. Lee refletiu
por um instante e concordou. Não esperava que Damien fosse ficar tão
contente.
Havia uma surpresa esperando por eles no apartamento. Ao abrir a
porta e sentir cheiro de café, Damien franziu o rosto.
— Minha irmã... Eu lhe falei sobre ela.
Era tarde demais para Lee recuar. Uma mulher alta e morena veio
recebê-los. Havia um sorriso em seus lábios ao se dirigir a Damien. Esse
sorriso ficou congelado quando ela se deu conta de que ele não estava
sozinho.
Damien abraçou-a e colocou o braço ao redor do ombro de Lee.
— Esta é Lee, minha esposa — Damien apresentou com
naturalidade.
— Oh, meu Deus! — Melinda engoliu em seco antes de estender a
mão. — Prazer em conhecê-la, Lee. Desculpe, mas você é a última pessoa
que eu esperava encontrar neste momento. Nossa mãe disse que...
Damien estreitou os olhos.
— As coisas mudaram desde minha última conversa com ela. Lee e
eu estamos acabando de chegar de nossa lua-de-mel.
— Oh, eu não fazia idéia! Marquei aqui com Júlia e...
— Júlia virá aqui? — Damien protestou.
— Ela já está aqui — Melissa informou, desnorteada. — Ela me
telefonou e perguntou se poderíamos bater um papo. Eu achei que seria
mais prático se ela viesse me encontrar aqui porque só ficarei em
Brisbane por dois dias e todos meu tempo já está comprometido.
— Bem, paciência! — Damien encolheu os ombros e olhou para Lee.
— E agora? — Lee pestanejou. — Você precisa ir para o trabalho e
eu não quero...
— Esse apartamento também é seu agora.
— Mas eu não conheço sua irmã e muito menos essa Júlia.
— Júlia — Damien hesitou — é a pessoa de quem minha mãe lhe
falou naquele dia.
Era difícil dizer quem estava mais constrangida naquela sala.
Júlia Blake-Whitney, uma mulher alta e elegante, como a irmã de
Damien, embora loira, se mostrou insegura apenas no momento da
apresentação. Melinda, porém, não parecia saber o que fazer. Para tentar
ganhar tempo, insistiu em preparar mais café. Lee não conseguia nem
sequer conversar sobre o trivial. Damien era o único que se portava como
se estivesse à vontade.
Em comparação com as duas mulheres, Lee estava esportiva
demais. Seu único consolo era estar usando uma calça jeans nova, uma

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blusa cor-de-rosa bonita e mocassins de couro em vez das costumeiras
botas.
Damien foi quem conduziu a conversa. Ele se sentou em uma
poltrona, aceitou o café oferecido pela irmã e se pôs a falar sobre a
viagem a Vanuatu.
Júlia foi a primeira a recuperar o controle. Ela já havia visitado
Vanuatu por duas vezes e também pôde contar sobre suas experiências.
Era uma mulher inteligente. Sua personalidade parecia combinar com sua
aparência. Por mais que Lee quisesse ignorar o pensamento, ocorreu-lhe
que seria a parceira ideal para Damien.
— Imagino que seja um lugar excelente para uma lua-de-mel,
embora tardia.
Foi o estímulo que estava faltando a Lee. Apesar de nada ter sido
dito, concretamente, sobre seu futuro com Damien, ela não iria ficar de
braços cruzados enquanto a ex-namo-rada de seu marido a provocava.
— Embora tenha sido atrasada, jamais a esquecerei.
O silêncio que se seguiu à afirmação disse a Lee que ela havia
conseguido atingir seu objetivo.
Melinda se apressou a tentar corrigir a situação. Consultou seu
relógio de pulso e se levantou.
— Desculpe, mas eu preciso voar ou perderei minha reunião. Júlia
seguiu o exemplo.
— Eu também tenho um compromisso. — Ela se virou para Damien e
depois para Lee. — Felicidades.
Damien se levantou e se ofereceu para acompanhá-la. Mas antes
pediu para que a irmã o esperasse.
Assim que as duas ficaram sozinhas na sala, Melinda olhou para Lee.
— Minha mãe disse que era um casamento do conveniência e que
eu deveria ficar fora disso. Acho que ela não gostou da atitude de Damien.
Ontem a noite, Júlia me ligou pelo celular. Ela pensou que eu estava em
Cairns, mas eu já havia chegado aqui. Ao saber disso, ela quis me
encontrar. Nós somos amigas desde o colégio. Oh, eu estou me sentindo
péssima...
— Você não podia saber — Damien interrompeu-a.
— Não, eu não sabia — Melinda admitiu. — Todos nós pensávamos
que você e Júlia acabariam voltando. — Melinda mordeu o lábio. Quando
prosseguiu, demonstrou seu desagrado. — Nada disso teria acontecido se
você não nos deixasse no escuro. — Ela se virou para Lee. — Sinto muito.
Apesar do mau jeito, quero lhe dar as boas-vindas à família!
Lee havia se colocado de pé. Melinda foi até ela e abraçou-a.
Quando se afastou, parecia outra pessoa e Lee gostou dela
instantaneamente.
— Posso ter metido os pés pelas mãos, mas estou sendo sincera.

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Dez minutos depois, Lee e Damien estavam novamente a sós.
— Não fique assim — disse Lee diante do mutismo de Damien. —
Poderia ter acontecido com qualquer um.
— Com qualquer uma — Damien esbravejou. — Desde que fosse
minha mãe ou minha irmã. — Damien estreitou os olhos. — Lee, você foi
sincera?
— Sobre o quê?
— Sobre nunca esquecer Vanuatu?
— Sim. Eu...
— Porque eu fui sincero — Damien declarou e segurou-a pelos
ombros. — Desculpe se me comportei novamente como um ditador, mas
foi você que não quis conversar sobre o assunto.
— Por que elas pareciam ter certeza de que você e Júlia acabariam
voltando? — Lee perguntou como se não o tivesse escutado.
Lee sentiu os dedos de Damien cravarem em seus ombros.
— Não faço idéia. Talvez porque Melinda e Júlia sejam amigas há
muitos anos. E não é segredo para você que o maior desejo de minha mãe
é dar continuidade ao nome da família, porque eu já lhe contei a esse
respeito.
— Desconfio que é mais do que isso — Lee sugeriu. — Você e Júlia
devem ter feito um bom par. Nem sua mãe nem sua irmã gostariam que
você se casasse com alguém que não amasse.
— Eu admito que sim — Damien concordou após hesitar por um
momento. — Para todos os fins, Júlia e eu formávamos o par ideal. Ela é
exímia jogadora de golfe, sua família cria cavalos de raça em um famoso
haras e ela também é advogada. Nós ficamos juntos por dois anos. Mas
sempre houve algo inexplicável que me impedia de lhe propor casamento.
Até hoje não sei o que foi, mas quando ela começou a me pressionar, eu
procurei acabar o relacionamento da forma mais decente possível.
— Você promete ser sincero em sua resposta?
— Para qual pergunta?
— Que tipo de futuro você visualiza para nós?
— Que continuemos casados. Pensei que isso já estivesse óbvio —
Damien respondeu novamente com aquele tom de irritação.
— Como? — Lee insistiu. — Com você passando a maior parte do
tempo aqui e eu em Plover Park?
O que Lee esperava, aconteceu.
— Acho que funcionaria muito bem. Você adora Plover Park e
poderia continuar dona da propriedade. E sempre que quiser ficar aqui
comigo, há espaço mais do que suficiente.
Lee engoliu em seco.

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— Eu não suportaria ficar aqui sem fazer nada.
— Não teríamos de ficar aqui necessariamente. Minha mãe sempre
disse que se mudaria de nossa casa quando eu me casasse. Ascot House,
aliás, é minha.
Lee refletiu por um instante.
— E se tivermos filhos e eu escolher continuar em Plover Park?
— Não creio que exista um lugar melhor para criar filhos. — Damien
puxou-a gentilmente e beijou-lhe os cabelos. — O que foi? O que está
querendo me dizer?
— Eu não suportaria essa vida, Damien. Ser uma esposa de longa-
distância. Nossos mundos são diferentes demais para dar certo.
— Eu não concordo. Temos todas as razões a nosso favor para irmos
em frente. Nenhum de nós é do tipo que gosta de viver no bolso do outro.
Lee se afastou abruptamente.
— O que foi?
— Júlia também não concordaria em viver dentro de seu bolso,
Damien, e você não a quis.
— O que está querendo dizer?
— Que um casamento de conveniência que possa lhe garantir a
continuação de sua linhagem é o que você realmente deseja.

CAPÍTULO IX

Está dizendo que eu só vejo em você uma esposa para gerar meus
filhos e uma amante para me dar prazer?
Se Lee tinha ficado pálida antes, Damien tornou-se lívido.
— Muitos homens se sentem atraídos por essa possibilidade — Lee
murmurou, já arrependida por ter sido tão drástica.
— Eu, inclusive?
— Bem, não foi esse exatamente o ponto em que me baseei para...
— Qual foi?
O ambiente estava carregado de tensão. Lee hesitou. No momento
de responder, ela não sabia o que dizer.
— Então? Será preciso eu persuadir seu corpo a falar por você?
— Você não se atreveria!
— Não aposte nisso! — Damien avisou-a. — E que uma coisa fique

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bem clara. Quem seduziu quem nesta história?
— Isso não vem ao caso — Lee procurou se defender.
— Não?
Lee suspirou.
— Por que acha que Júlia queria falar com Melinda?
— Isso não tem nada a ver conosco — Damien afirmou. — Eu
terminei com Júlia antes de me casar com você.
Ao sentir os olhos marejarem de lágrimas, Lee recuou. Damien
abandonou no mesmo instante o ataque verbal o passou para o físico.
Com muito carinho, ele a segurou pelo queixo e beijou-lhe as
pálpebras e depois os lábios.
— Você está com sabor sabe de quê? De Tamanu. Da pele que beijei
ainda esta manhã após nosso último mergulho.
Era verdade. Eles haviam feito amor com urgência porque ela havia
acordado apreensiva. Depois, tomaram um último banho de mar diante da
glória do nascer do sol. Parecia fazer um século.
— Você fez amor comigo como se seu mundo estivesse
desmoronando esta manhã, Lee, mas não precisa ser assim — Damien
murmurou e cumpriu sua ameaça. Diante do silêncio que se seguiu a suas
observações, ele carregou Lee para o quarto.
Ela estava vulnerável demais para resistir quando Damien começou
a despi-la. E depois excitada demais para querer parar.
O que uma mulher podia fazer, afinal, com um homem que a fazia
se sentir como uma chama viva em seus braços?
Deitado ao lado dela, Damien começou a traçar um longo caminho
por seu corpo com as pontas dos dedos. .
— Lee — Damien murmurou, rouco, ao ser acariciado da mesma
forma que ele estava fazendo. — Você está entrando em terreno perigoso.
Lee olhou para ele, provocante e sedutora. Parou por um instante,
mas logo continuou a tocá-lo.
— Talvez eu tenha a aventura no sangue. Talvez eu realmente goste
de brincar com fogo, porque neste exato momento estou louca para vê-lo
tão perigoso quanto você quiser se mostrar.
Damien não a fez esperar. Rolou na cama e penetrou-a com ímpeto.
Lee gemeu alto de prazer. Era maravilhoso amoldar as curvas de seu
corpo contra o dele. A força e a rigidez daqueles músculos a inebriavam.
Cada vez que se deitava com Damien parecia melhor.
No instante final, ele tornou a rolar na cama e a fez deitar por cima
dele. Em total abandono, Lee esperou que a respiração voltasse ao
normal.
— Tudo certo agora? — Damien murmurou com as mãos

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mergulhadas naqueles cabelos de seda. — Assinado embaixo e
reconhecido firma?
Era uma covardia, Lee pensou. Ela era tão capaz de pensar naquele
momento quanto de voar para a lua. Não conseguia nem sequer sentir
raiva por estar sendo forçada a aceitar a vontade de Damien.
— Lee?
Ela olhou para ele, por fim, e sentiu uma inconfessável satisfação ao
perceber um brilho de apreensão nos olhos escuros.
— Está bem. Vamos fazer uma tentativa. É tudo em que consigo
pensar no momento.
Damien deu uma risada tão espontânea que acabou por contagiá-la.
— Sabe de uma coisa? Não irei trabalhar hoje. O que acha de irmos
para casa?
— Você faria isso? — ela perguntou, fascinada.
— Bem, terei de fazer umas ligações, mas em uma hora, no máximo
duas, estarei pronto. Aproveite e tome um banho de imersão, ou faça uma
caminhada ou decida se quer mudar algo na decoração.
— Aqui? — Lee estranhou.
— É seu apartamento também. E você é minha decoradora
preferida, esqueceu?
Lee levou uma das mãos à cabeça.
— Céus! Eu me esqueci por completo! Damien tornou a rir e beijou-
a.
— É bom saber que eu a faço esquecer todo o resto. Lee corou.
— Vanuatu também teve algo a ver.
— Viva Vanuatu! — Damien exclamou. — Fui eu que a levei para lá.
Não mereço algum crédito?
— Está bem — Lee concordou após fingir uma reflexão. — Foi uma
combinação fantástica dos dois.
— Nesse caso, teremos de repetir a experiência em um futuro
próximo.
— Não vejo nenhum problema a esse respeito, sr. Moore.
Lee continuou entre os lençóis enquanto Damien tomava uma ducha
e depois se deu ao prazer de assistir enquanto ele se vestia.
Ao terminar, Damien sentou-se na beirada da cama, beijou a mão de
Lee e sussurrou em seu ouvido.
— Confie em mim, sra. Moore. Não irei decepcioná-la.
Lee demorou alguns minutos para se levantar depois que Damien
saiu do quarto. Ainda estava aturdida com a enormidade de sua decisão.
Damien pedira para que ela confiasse nele. Em que sentido? Em que

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ele não iria machucá-la? Damien não imaginava que o fato de não lhe
dizer que a amava já a fazia sofrer?
Abraçada ao travesseiro, Lee decidiu que o melhor seria se deixar
levar pelo fluxo da maré. Porque ela não tinha a menor dúvida de que
amava e continuaria a amar Damien, mesmo que ele não sentisse amor
por ela.
Lee optou por um longo banho de espuma.
Mais tarde, novamente com seu jeans e sua blusa cor-de-rosa, foi ao
encontro do marido que estava ao telefone. Preparou café para ambos e
tomou-o enquanto perambulava pelo apartamento de acordo com a
sugestão recebida.
Deteve-se à porta da sala de jantar e examinou a mesa com tampo
de vidro e pedestal de mármore. O adorno no centro da mesa era um
elefante também de mármore, coberto de pedrinhas coloridas. As cortinas
e o estofado das cadeiras eram bege, para combinar com os veios dessa
cor do mármore. A janela dava vista para as altas torres de vidro do outro
lado do rio.
De repente, a mente de Lee começou a divagar. Viu a sala à luz de
velas, com a mesa arrumada para Damien e ela receberem convidados.
Os talheres eram dourados e os copos de cristal.
Ela estava usando um vestido longo que brilhava conforme seus
passos. Os cabelos estavam presos e enfeitados com uma flor.
O devaneio foi interrompido pelo chamado de Damien para que ela
atendesse a porta. A campainha deveria ter soado, sem que percebesse.
Era Ella Patroni. Não daria para dizer quem demonstrou maior
surpresa.
— Lee! Enfim você se mudou para cá! Eu acho ótimo ter alguém
com quem conversar em vez de deixar recados na secretária-eletrônica,
que nunca são respondidos!
— Entre — Lee convidou com genuína alegria por rever a vizinha de
Damien. — É um prazer tornar a vê-la.
Atraído pelas vozes, Damien apareceu na sala. Ao encontrar Ella,
bateu com a palma da mão na cabeça.
— Sinto muito, Ella. Sinto muito mesmo. Você me desculpa?
— Vou pensar em seu caso — Ella respondeu.
— Eu não tive tempo. Juro. Fiquei um tempo na fazenda e depois Lee
e eu viajamos.
— Bem, então você está perdoado.
Antes que a conversa pudesse prosseguir, Damien precisou voltar
para o escritório para atender outro telefonema.
Lee fez mais café e as duas foram tomá-lo na sala.
— Desculpe, mas não tenho nada para acompanhar. Ou talvez

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tenha, mas não sei onde está — Lee confessou.
— Tudo bem. Estou de regime. Pelo jeito, você não tem vindo aqui
com freqüência.
— Só estive uma vez depois de sua festa. Nós regressamos de
Vanuatu esta manhã.
Ella tomou o café e colocou a xícara na mesa com o cenho franzido.
— Sou famosa por minha franqueza. Se vamos ser amigas, eu
preciso ser sincera com você e achei que deveria avisá-la
— Não se preocupe — Lee respondeu com um sorriso sem humor. —
Eu soube pela irmã de Damien.
Ella pestanejou.
— Então você não se importa se eu disser que o mistério de seu
casamento está nos matando de curiosidade? Por outro lado, o que quer
que o tenha afastado de Júlia e levado a você, está funcionando. Isso é
óbvio.
Lee hesitou diante da súbita visão da sala de jantar preparada para
receber convidados, desta vez contudo, sendo Júlia a anfitriã.
— Nunca achei que ela fosse a mulher certa para ele.
— Não? — Lee perguntou, surpresa.
— Não. Ela é linda, talentosa e tudo o mais, mas lhe falta aquele
algo mais.
— Que seria?
— Aquele algo mais que não dá para explicar em palavras. Eu não
sei porque, mas acho que você, talvez, seja a mulher para ele.
— Eu gostaria de saber o que é porque, para dizer a verdade,
começou como um casamento de conveniência. E ainda é — Lee
desabafou com um fio de voz.
Ella foi se sentar ao lado de Lee nesse momento.
— Imagino que seus sentimentos por Damien não sejam
convenientes. É isso, não?
— Você imaginou certo — Lee desabafou.
— Então conte comigo. — Ella deu um abraço que Lee não esperava.
— Porque eu gosto de você.
As duas mulheres ficaram em silêncio por alguns minutos. Quando a
emoção passou, Ella voltou para a poltrona e disse a Lee que estava
planejando uma outra festa. Talvez baseada na seqüência da corrida de
cavalos, do filme My Fair Lady.
— Quero vê-la tão deslumbrante quanto Audrey Hepburn — Ella
declarou com ar de malícia.
— Ainda bem que você não optou pelo filme A Noviça Rebelde —
caçoou Damien ao se juntar a elas. — Lee gosta de cantar.

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— Eu não me atreveria a cantar em público! — Lee protestou,
corada.
Ella observou o casal com um sorriso divertido nos lábios. De
repente, tudo se encaixou. Dava para saber exatamente qual o ponto
entre Lee e Júlia Blake-Whitney que fizera a diferença para Damien.
Ocorreu-lhe tecer um comentário, mas ela decidiu se calar. Lee nem
sequer desconfiava do que era, ou não teria dúvidas sobre os sentimentos
de seu marido...
— Você e Ella parecem ter se dado bem — Damien sugeriu depois
que a vizinha foi embora.
— Sim. Eu gosto dela.
— Eu diria que ela também gosta de você. Eu também diria, ou
melhor, eu tenho certeza de que o assunto foi nosso casamento. Não
conheço ninguém mais curiosa.
Damien começou a desfazer a mala e tornar a fazê-la com roupa
limpa. Lee tentou escapar da conversa. Mas antes que saísse do quarto
com a pilha de roupas sujas para levar à área de serviço, Damien a
deteve.
— Tenho quem faça isso. Conte-me sobre Ella.
— Não há o que contar. Ela só disse que a curiosidade a respeito de
nosso casamento está matando todo o mundo.
— Você não mente muito bem, Lee. — Damien sentou-se ao lado
dela. — Foi alguma coisa que eu disse?
— Não.
— Qual é o mistério, então?
— Nenhum.
— Vou precisar convencê-la a falar daquela maneira peculiar? —
Damien desafiou-a. — Apesar de que três vezes em uma manhã soa
demais até mesmo para nós — ele acrescentou, brincalhão. — A propósito,
tenho uma boa notícia para você.
Lee fitou-o, ansiosa.
— É sobre Cosmo, a ovelha negra da família Delaney.
— Céus! Por que não pensei nisso antes? — Lee pestanejou. — A
semelhança, a mesma inicial...
— Foi sua observação sobre a semelhança entre Cyril e Cosmo
aquele dia no restaurante em Byron Bay que me deu um estalo e me
levou a investigar o sujeito.
— Foi esse o motivo que levou Cyril a hesitar durante aquela
conversa, não foi?
— Eu diria que sim — Damien concordou. — Descobri que Cyril
pagou fiança para Cosmo se livrar de duas acusações. Ele deve ter

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finalmente se cansado de acobertar o irmão que nunca se emendava.
— Cyril preferiu deixar seus bens a você, Damien, porque o
considerou o filho que nunca teve. Quanto a mim...
— Porque você é quem é, Lee, e ele previu nosso futuro juntos
Lee balançou a cabeça.
— Cosmo se arriscou demais ao me ameaçar, considerando que
foram meus avós que...
— Não havia nenhuma razão para ele ligar o nome Westwood a
Mercer, Lee.
Ela respirou fundo.
— É verdade.
— No decorrer da investigação, tive a oportunidade de conhecer a
irmã deles, Carol. Ela não suporta Cosmo e se prontificou para
testemunhar que Cyril discutia com freqüência com Cosmo a respeito de
Plover Park. Cosmo vivia insistindo para que Cyril vendesse a propriedade.
— É isso!
— Sim. Ele só enxerga o dinheiro por trás da herança, enquanto nós
estamos realizando o maior desejo de Cyril.
Lee olhou nos olhos de Damien e ficou tocada com o que viu:
honestidade, seriedade, dignidade.
— Estou pronta para irmos para casa.
Três meses depois, Lee precisou interromper o que estava fazendo
para enxugar as lágrimas.
Desde a volta de Vanuatu, Damien e ela haviam passado apenas os
finais de semana juntos, mas ao menos foram todos os finais de semana,
intercalados com visitas dela a Brisbane para compras e também para a
festa de Ella. Agora, Damien havia acabado de telefonar para avisá-la que
não poderia vir.
Durante aquele tempo, Damien havia se portado de maneira
irrepreensível. Ele contratara até mesmo caseiros para ajudarem Lee e
para que ela não ficasse sozinha durante a ausência dele. Ele também
comprou um filhote de dinamarquês para ajudar Peach a guardar a casa,
que Lee chamou de Paddy. Ciente de que Lee adorava cavalos, ele levou
todos que possuía para Plover Park.
Também adquiriu uma picape com tração nas quatro rodas e uma
camionete para o transporte das plantas, e montou um escritório completo
para Lee estudar seus projetos de paisagismo.
Além de tudo isso, Damien entrou com um processo contra Cosmo
Delaney para a devolução das economias dos avós de Lee. O que mais ele
poderia ter feito por ela?
No entanto, Lee nunca estivera mais infeliz em sua vida.

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Não podia culpar Damien. Ele sempre a convidava para sair, para ir
a alguma festa em casa de amigos, mas ela não aceitava. Não acreditava
que seria capaz de sorrir se alguém se aproximasse e tornasse a
questionar o tal mistério que pairava sobre o casamento deles.
As únicas visitas que recebiam eram da parte dos avós dela e dos
dois representantes da filial da Moore & Moore em Byron Bay, com as
esposas. A mãe de Damien veio passar um fim de semana em Plover Park,
mas por mais que Lee tivesse se esforçado para agradá-la, não sentiu nem
sequer uma vibração de afeto e amizade por parte da sogra.
Na verdade, a vida de Damien durante a semana era um livro
fechado para Lee. O casamento deles se resumia em encontros sensuais.
Ela se sentia mais amante do que esposa.
— O que devo fazer? — Lee falou consigo mesma. — Se eu mudar
para Brisbane, como será minha vida? E meu trabalho?
Quando se acalmou, Lee olhou ao redor. O outono estava
transformando a paisagem em ouro velho e o céu parecia ainda mais azul.
Como se estivesse escutando seu pensamento, uma brisa soprou e a
obrigou a cruzar os braços para se proteger do frio. Ocorreu-lhe, naquele
momento, que ela estaria disposta a trocar tudo aquilo pela vida ao lado
de Damien, em Brisbane.
Quanto mais Lee pensava sobre todas as comodidades que Damien
providenciara em Plover Park, maior era sua certeza de que aquelas
medidas foram uma compensação pelas deficiências do casamento deles.
Passado o tempo, porém, Plover Park deixara de ter a importância
original. Ela trocaria tudo por Damien. Não sabia, contudo, como fazê-lo
entender seus sentimentos.
O destino escolheu o caminho por ela.
Lee costumava ir ao dentista uma vez por ano para fazer um check-
up. Estava folheando uma revista enquanto esperava sua vez de ser
atendida, quando sua atenção foi atraída para uma foto do baile anual da
Ordem dos Advogados de Brisbane. Aturdida, Lee fechou a revista para
verificar a data. O evento havia ocorrido duas semanas antes. Damien
estava sorridente junto a um grupo de pessoas. A seu lado, com um
vestido tomara-que-caia, estava Júlia Blake-Whitney.
A revista escorregou das mãos de Lee e foi parar no chão. Ela se
levantou e saiu. Estava tão perturbada que nem sequer ouviu a
recepcionista perguntar se ela iria voltar ou se havia desistido da consulta.
Lee deixou Plover Park naquele mesmo dia. Disse aos avós e aos
caseiros que iria passar uma semana em Brisbane, mas a verdade era que
não pretendia voltar.

CAPÍTULO X

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Duas semanas depois, Lee estava diante da Ópera de Sydney
observando a chegada das pessoas que iriam compor a platéia de um
grande concerto beneficente.
A tarde estava fria e o sol já se despedia com suas nuances róseo-
alaranjadas.
Lee voltava de uma caminhada pelo Jardim Botânico e estava a
caminho da oficina onde deixara o carro para consertar. Ela havia fechado
a conta no hotel aquela manhã com planos de prosseguir viagem rumo ao
sul enquanto decidia o que fazer de seu futuro.
Estava prestes a entrar em um café quando viu Ella Patroni, em traje
de gala, descer de uma limusine. Tentou fingir não tê-la visto, mas a
vizinha de Damien a reconheceu.
— Lee! Graças a Deus eu a encontrei! Damien está a ponto de
enlouquecer! Hank! Não dispense o motorista. Nós vamos voltar para o
hotel! Temos coisa mais importante a fazer!
Dez minutos depois, Lee estava sentada na suíte do casal, com um
copo de conhaque com soda na mão.
— Muito bem. — Ella tirou o casaco de pele e jogou-o em uma
cadeira. — Tome um bom gole. Você parece que irá desmaiar. Não tenho
a menor intenção de interrogá-la sobre os porquês e os portantos de sua
atitude. Imagino que tenha tido suas razões para fazer o que fez. Só não
acho justo deixar o marido sem lhe dizer nem sequer uma palavra. Não é
mesmo, Hank?
O pobre homem titubeou. Lee baixou os olhos e tomou um gole da
bebida.
— Damien não é nenhum monstro — ele respondeu. — Isso eu posso
garantir porque o conheço há anos.
— Eu nunca pensei que fosse — Lee murmurou. — Eu não sabia o
que fazer.
— Então o casamento de conveniência se tornou real. Eu já havia
adivinhado. — Ella se sentou ao lado de Lee e abraçou-a para lhe dar
conforto.
Lee sentiu duas lágrimas deslizarem pelo rosto.
— Eu agradeceria se pudessem avisá-lo que estou bem. Eu escrevi a
meus avós, contando. Não tive coragem de lhes dizer em pessoa. — Lee
estava cabisbaixa. Quando foi olhar para Ella, surpreendeu-a fazendo um
sinal para que Hank usasse o telefone. — Não, por favor. Não ligue para
Damien em Brisbane. Eu prometo que o procurarei... quando estiver em
condições.
Ella se levantou e tirou pessoalmente o fone do gancho.
— Sinto muito, mas vocês já perderam tempo demais. Damien está

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no andar de cima e eu vou chamá-lo. Tenho certeza de que será para o
bem dos dois.
Um forte zumbido nos ouvidos atordoou Lee. Ella não podia
entender...
— Ele estava no mesmo vôo que Hank e eu — Ella explicou depois
de fazer a ligação. — Se eu não a tivesse visto, ele acabaria chegando até
você, mais cedo ou mais tarde. Damien estava efetuando uma verificação
em todos os hotéis do país e a chapa de seu carro foi identificada.
A explicação foi interrompida por uma batida à porta.
— É ele! — disse Ella e se dirigiu ao marido. — Hank, nossa parte
está terminada. Podemos ir ao concerto, afinal.
Hank olhou para Lee antes de sair.
— Damien estava preocupado, Lee. Ele nos procurou para saber se
você havia tido algum contato com Ella...
Antes que Lee pudesse responder, Ella puxou o marido e saiu pela
porta um segundo antes de Damien entrar.
A primeira impressão de Lee foi que Ella havia se enganado porque
em vez de se mostrar contente e aliviado por vê-la, Damien a encarou
como se quisesse matá-la.
As primeiras palavras dele confirmaram essa suposição.
— Se algum dia você tornar a fazer isso comigo, Lee, eu lhe darei
uma lição que nunca mais irá esquecer.
Lee engoliu em seco.
— O que deu em você? Onde esteve todo esse tempo? Que loucura
foi essa que a levou a fugir de casa?
— Eu não sabia o que fazer! Não suportava mais ser a esposa de
conveniência, isolada em uma fazenda, enquanto você vivia uma vida
dupla. Não o culpo. Você nunca me enganou sobre o tipo de casamento
que teríamos, mas, por outro lado, você não me deixou escolha!
— Eu não levo uma vida dupla, Lee! —Damien se defendeu. —
Quando não estou com você, eu trabalho.
— E vai a festas.
— Eu sempre a convido. Algumas delas são impossíveis de faltar.
— É claro. E companhia não é um problema. Você sempre pode
contar com Júlia Blake-Whitney. Afinal, ela continua apaixonada por você.
Damien franziu o cenho.
— De que você está falando?
— Eu vi uma foto em uma revista. Vocês estavam no Baile da Ordem
dos Advogados.
Pela primeira vez, a expressão de Damien suavizou.

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— Foi por isso que você me deixou? — ele perguntou, incrédulo.
Lee se encolheu na poltrona conforme Damien se aproximava dela.
Mas ele só lhe tirou o copo para tornar a enchê-lo.
— Foi por isso? — Damien insistiu depois de se sentar de frente para
ela.
— Entre outras coisas — Lee respondeu.
— Júlia também é advogada. Eu já lhe disse isso. Nós não fomos
juntos à festa. Aliás, eu não fui com ninguém. Só não pude faltar porque
fui escolhido como presidente da Ordem este ano. Quanto a Júlia estar
apaixonada por mim, eu não acredito nisso. Só você me interessa, Lee.
Minha única culpa foi não querer mergulhar a fundo em nosso casamento.
Embora já estivesse completamente envolvido por você. — Damien fez
uma pausa, mas não parou de fitá-la. — Foi Ella quem apontou o que
faltava entre mim e Júlia e todas as outras mulheres que conheci. A prova
pôde ser tirada nestas duas semanas. E na manhã de hoje, especialmente,
quando descobri que a havia perdido por duas horas.
Lee sentiu o corpo tremer. Não de apreensão dessa vez, mas de
esperança.
— Você me ama ou se sente responsável por saber de meu amor por
você?
— Não suporto a idéia de outro homem a ter em seus braços. —
Damien deu um sorriso cansado. — Você me fascina, você me faz sentir
importante, você desperta o que há de melhor em mim.
— Eu tão tenho defesa contra você, Damien — Lee murmurou. — Por
isso não pude suportar uma vida conjugal pela metade.
— Está falando sério
— Pensei que a realidade tivesse ficado clara para você.
— Depois de Vanuatu, sim, mas antes...
— Eu me apaixonei por você muito antes, Damien. Eu me apaixonei
por você à primeira vista.
Ele pestanejou.
— Como conseguiu...?
— Esconder? Foi fácil. Eu não me julgava a mulher certa para você.
Damien sorriu.
— Você é. Esses últimos meses também não foram fáceis para mim.
Eu sabia quanto sua carreira lhe era importante. Não sabia como conciliar
nossas vidas. Só sabia que não podia ficar sem você.
Com os olhos marejados, Lee deu um sorriso.
— Se eu soubesse que você me amava tanto quanto eu te amo,
nunca teria me ocorrido um afastamento.
Damien segurou o rosto de Lee nas mãos.

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— Ao contrário do que eu disse quando cheguei aqui, passaria o
resto de minha vida tentando tê-la de volta. — Damien respirou fundo. —
Eu mudei, Lee. Quem não conseguia enxergar as vantagens de um
casamento, agora é o maior defensor dessa instituição. O que devo fazer
para você acreditar nisso?
— Leve-me para casa — Lee pediu.
— Pobre Hank — Lee disse a Damien algum tempo depois. — Ella o
colocou em uma situação difícil hoje.
— Ele já está acostumado ao jeito da esposa. E que jeito! Lee se
moveu nos braços do marido. A casa mais próxima a que eles haviam
chegado foi a suíte que Damien estava ocupando no mesmo hotel. Antes
de deixarem os aposentos dos amigos, ele havia encomendado uma
garrafa do melhor champanhe e colocado sobre a mesinha de cabeceira
do casal com um bilhete dizendo que estava tudo bem entre ele e Lee.
— E você? Já se acostumou comigo? — Lee murmurou, provocante.
— Parece que estou sonhando depois de tantos pesadelos — Damien
confessou. — A partir de agora, não quero vê-la longe de mim nem sequer
por um dia. Sabe por quê? Porque aconteceu comigo o mesmo que
aconteceu com você. Não sou dado a atos quixotescos. Portanto, o fato de
eu ter lhe proposto casamento, só pode ser explicado pelo amor. Um amor
que eu não conseguia reconhecer por causa de meu orgulho.
Lee o fez parar de falar com um beijo. Damien gemeu baixinho e
abraçou-a com ímpeto.
— Não pode imaginar a falta que senti de fazer isto.
— De tirar minha roupa? — Lee provocou-o quando sentiu as mãos
ávidas acariciarem sua pele sob o agasalho.
— Também — Damien admitiu com um sorriso malicioso.
— Aconteceu o mesmo comigo.
— Uma vez você propôs que esquecêssemos sobre as con-
seqüências deste tipo de intimidade. A proposta continua valendo?
— Na ocasião, eu tinha algo a provar, lembra?
— E a prova foi irrefutável — Damien concordou. — Depois daquilo
eu nunca mais fui o mesmo. — Ele piscou, em seguida, de maneira
significativa. — Ainda resta algo a ser provado?
Lee respirou fundo.
— Nós nunca conversamos a respeito, mas eu adoraria ter um bebê.
Nosso bebê. Sempre fui muito só, Damien. Tenho meus avós, é claro,
mas...
Dessa vez, foi Damien quem a calou com um beijo.
— Não consigo pensar em nada mais bonito, Lee. — Damien olhou
ao redor. — Acha que este cenário é propício para começarmos a
trabalhar nesse sentido? Lee olhou ao redor com expressão marota.

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— O Regent que me desculpe, mas qualquer lugar é propício desde
que estejamos você e eu a sós.
Todas as mágoas e preocupações desapareceram quando Damien
fez amor com ela. A paixão e a ternura dos momentos preciosos vividos
em Erakor, Tamanu, Plover Park, estavam de volta. E mais. Aquelas duas
semanas de separação despertaram um sentimento novo em Damien.
Uma necessidade por ela que Lee antes não percebia. E que lhe deu a
certeza de que não importava o lugar, nem os ajustes que tivessem de
fazer para poderem estar juntos sempre.
Alguns anos depois, Lee estava na varanda de Plover Park com um
garotinho nos braços. Seus cabelos eram escuros como os do pai. Estavam
ali, olhando para o helicóptero que se preparava para aterrissar.
— Papai! — William chamou, alegre. — Posso correr para ele me
pegar no colo, posso?
Lee esperou que as hélices parassem antes de atender ao pedido.
Ao assistir ao abraço dos dois e a felicidade de Damien ao apertar o
filho nos braços, Lee se lembrou do encontro, em Sydney. Nunca poderia
afirmar com certeza, mas gostava de pensar que fora naquela noite que
eles fizeram o bebê. E a gravidez fora não só uma afirmação do amor que
dedicavam um ao outro, mas a resolução segura de suas vidas em
comum.
A sugestão de Damien para que ela alugasse o viveiro foi acatada.
Sem o trabalho pesado de cultivar as plantas, ela passou a se concentrar
em seus projetos de paisagismo.
Quanto ao local de residência, eles resolveram se instalar na casa
em Ascot e a mãe de Damien se mudou, com muito gosto aliás, para o
apartamento em Brisbane.
Mas foi a compra do helicóptero, por sugestão de Ella, que lhes
garantiu a convivência diária e a facilidade de se deslocarem para Plover
Park nos finais de semana.
Ella, cada vez mais amiga, deu o impulso que faltava à carreira de
Lee como paisagista. Ao lhe solicitar um projeto para sua cobertura, Ella
lhe abriu as portas para a alta sociedade de Brisbane.
Evelyn também se tornou uma importante aliada ao finalmente
reconhecer Lee como sua nora e até mesmo fazer planos para que ela lhe
desse um outro neto. Mas quem mais contribuiu para a transição de Lee,
da garota que não se achava à altura do famoso advogado Damien Moore,
para a esposa amorosa e dedicada, foi ele próprio.
Damien estava regressando, após uma semana, de uma viagem a
Sydney. Lee continuava sentindo saudade quando ele se ausentava, mas
as exigências profissionais não mais a perturbavam.
Tinha William e ele adorava a fazenda e os avós.
Sempre que estava com a família, Damien fazia questão de colocar
o filho na cama. Lee aproveitou para levar uma garrafa de champanhe

Sabrina 1300 92
para a varanda e acender uma vela.
— Ele dormiu? — perguntou baixinho quando Damien finalmente se
reuniu a ela.
— Só porque seus olhos simplesmente não conseguiram mais
permanecer abertos.
Lee sorriu.
— Porque ele queria olhar para seu herói. Meu herói também.
Damien abriu a garrafa e despejou o líquido borbulhante nas taças.
— O que tem em mente para o aniversário deste ano? perguntou.
— Antes de você me levar para o quarto? — Lee o provocou.
Damien sorriu.
— Eu proponho um brinde imediatamente. Mal posso esperar para
despi-la e comemorar mais um casamento, beijando cada centímetro de
seu corpo e fazendo amor a noite inteira. O que você acha?
Lee olhou para o céu coberto de estrelas e deu início ao ritual de
todos os aniversários de seu casamento com Damien.
— A você, Cyril Delaney. Nossos eternos agradecimentos.

    

Sabrina 1300 93