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A FORÇA DA HUMILDADE

“Quando estava o Senhor para tomar Elias ao céu por um redemoinho, Elias partiu de Gilgal
em companhia de Eliseu” (2 Reis 2:1).
Os filósofos da antiguidade valorizavam muito o cultivo e a prática das “virtudes”. Eles
consideravam virtude como a disposição firme e constante para a prática do bem. Ou boa
qualidade moral, força moral, valor. Para esses filósofos, estas eram algumas das principais
virtudes: Coragem, generosidade, honestidade e lealdade.
Na Bíblia, o apóstolo Paulo é quem propõe as virtudes cristãs, especialmente em
Colossenses 3:12. Elas são: Misericórdia, Bondade, Humildade, Mansidão e Longanimidade.
Mas também podemos ver virtudes naquilo que o apóstolo Paulo chama de “o fruto do
Espírito”, em Gálatas 5:22: Amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade,
fidelidade, mansidão e domínio próprio. Como podemos perceber, muitas e desafiadoras são
as virtudes, tanto do ponto de vista secular como do ponto de vista bíblico.
Elias era um profeta virtuoso. Poderíamos fazer uma lista e, facilmente, mencionar pelo
menos uma meia dúzia de grandes virtudes desse profeta extraordinário. Mas há uma
virtude que dita o tom da narrativa aqui em 2 Reis 2: Humildade.
- Verso 1: O célebre e lendário profeta caminhando com um aprendiz. Isso requer
humildade.
- Verso 2: O profeta lendário atende ao pedido do aprendiz. Isso requer humildade.
- Verso 4: Mais uma vez o lendário profeta atende ao pedido do aprendiz. Qualquer
pessoa arrogante teria reagido com cólera, destempero, impaciência. Mas Elias
cultivava um espírito humilde.
- Verso 6: Pela terceira vez o lendário profeta atende ao pedido do aprendiz. Elias foi
paciente, atencioso. Isso só é possível para alguém humilde.
- Verso 8: O lendário profeta ensina ao aprendiz uma lição de como operar um milagre.
Foi uma postura modesta. A modéstia é construída no terreno da humildade.
- Verso. 9: O lendário profeta estabelece um diálogo amistoso com o aprendiz,
motivando-o a fazer um pedido para benefício pessoal e ministerial. Pessoas
orgulhosas e arrogantes se limitam a exigir, impor, e nunca a oferecer uma chance de
crescimento para o outro. Novamente, Elias demonstrou humildade.
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Etimologicamente, humildade vem de húmus, palavra de origem latina que quer dizer
“terra fértil, rica em nutrientes e preparada para receber a semente”. Desta maneira,
humildade é a disposição de aprender, a fim de deixar brotar na vida a boa semente, em
forma de bom comportamento e de obediência à verdade. Humildade é a virtude que nos dá
o sentimento de nossa fraqueza. Mas humildade é também modéstia.
Devido à sua natureza, a humildade é considerada a mais nobre das virtudes, pois
apenas ela predispõe a pessoa a se desenvolver nas outras virtudes. Crisóstomo, teólogo
cristão do fim do século IV, dizia que “a humildade é a raiz, a mãe, a ama-de-leite, o alicerce
e o vínculo de todas as virtudes”.

EXEMPLOS DE HUMILDADE FORA DA BÍBLIA

Dentre as pessoas do mundo não bíblico, houve muita gente humilde. Martinho Lutero
era um deles. Lutero jamais quis produzir a divisão que suas ideias provocaram. Ele não se
vangloriava por ter iniciado a Reforma. Muitas vezes ele se dispôs humildemente a se
retratar de suas ideias, caso fosse claramente convencido pela Palavra de Deus de que
estava errado. Entretanto, a humildade de Lutero estava entrelaçada com seu espírito

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destemido. Alguns até dizem que Lutero talvez tenha sido o homem mais destemido e
corajoso que já viveu. Por ocasião de uma de suas viagens para ser julgado, ele disse:
“Você pode esperar de mim qualquer coisa menos medo ou abjuração. Não fugirei e muito
menos me retratarei”. Que sujeito extraordinário! Soube manter-se humilde e corajoso!
José Bates também era uma pessoa humilde. Ellen White o descreve como “um
verdadeiro cavalheiro cristão, cortês e amável”. Na primeira vez que Bates ouviu Ellen White
falar como profetisa, ele se levantou e disse: “Eu duvido como Tomé. Não creio em visões.
Se, porém, pudesse crer que o testemunho que a irmã relatou nesta noite é na verdade a
voz de Deus para nós, seria o mais feliz dos homens”. Posteriormente, depois de bastante
reflexão e acompanhamento do trabalho de Ellen White, José Bates disse: “Creio que a obra
[de Ellen White] é de Deus, e é dada para consolar e fortalecer Seu povo”. Sua atitude de
humilde busca da verdade permitiu a José Bates manter a mente aberta. Que exemplo!

EXEMPLO BÍBLICO DE HUMILDADE

Para mim, todavia, um dos mais impactantes exemplos bíblicos de humildade é o profeta
Elias. Charles Swindoll, autor de uma famosa série de livros sobre pessoas da Bíblia, define
o profeta Elias como “um homem de heroísmo e humildade”. Na verdade, o profeta Elias é
um misto de coragem, poder e humildade. A começar pelo significado de seu nome: “Meu
Deus é Jeová”, ou “o Senhor é o meu Deus”. Que nome poderoso para alguém que viveu à
altura do nome que tinha, e que nunca perdeu a humildade!
Imagine, então, que quando Elias se apresenta diante de Acabe, para dizer que não
haveria chuva nos próximos anos. Assim que ele entra em cena, seu próprio nome já faz sua
apresentação, que poderia ser mais ou menos assim: “Eu tenho um Deus. Seu nome é
Jeová. Ele é o único a quem sirvo e diante de quem me prostro. Por isso, em nome do Deus
vivo de Israel, não vai cair orvalho nem chuva durante os próximos anos, até que eu diga
para cair orvalho e chuva de novo” (1 Reis 17:1). Que palavras tremendas!
O povo de Israel estava vivendo durante mais de cinco décadas de descrença,
assassinatos, idolatria, impiedade e declínio espiritual. De repente, da cidade de Tisbé, da
região de Gileade, eis que Deus suscita um profeta.
Gileade era um lugar solitário; seus habitantes eram provavelmente rudes, pele queimada
pelo sol. Gileade não era um lugar de estudos e de fino trato; não era um lugar de
sofisticação, de leitura, de ENADE, de TCC e diplomacia. Por causa disso, Elias não era um
sujeito sofisticado, letrado. Não. Ele não segue o protocolo, não marca audiência com o rei,
não se intimida com os guardas fortemente armados, e não faz deferência diante da realeza.
Ele simplesmente aparece do nada, e dá o seu recado, dizendo: “Pessoal, com Baal ou sem
ele, vocês não terão nada de chuva. E, sem chuva, vocês não terão colheita. E sem colheita,
seu gado vai morrer. E sem o gado, vocês vão morrer. Acabou a festa! Fui!”.
Elias entrega a bomba relógio e vai embora. Numa espécie de “carreira solo”, este
homem corajoso e humilde torna-se – nas palavras de Acabe – o “perturbador” de Israel.
Você pode estar se perguntando: Onde está a humildade de Elias? Eu lhe respondo:
Elias faz, única e estritamente, a vontade de Deus. Pessoas orgulhosas e arrogantes agem
como bem entendem, enquanto que pessoas humildes agem de acordo com a vontade de
Deus, pois, espiritualmente falando, sua vida é composta de húmus, terra fértil para a
germinação da determinação divina.
Em Querite e em Sarepta Deus ensinou a Elias a como se vive longe da badalação e da
festa. Foi nesses lugares retirados, mediante a disciplina do silêncio e da solidão, que Elias
aprendeu a andar humildemente diante de Deus.
Humildade é a virtude que nos dá o sentimento de nossa fraqueza e limitações.
Humildade é modéstia. Ser humilde é permitir que a vontade de Deus floresça em nossa

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vida. Elias viveu assim. Nunca se considerou “a cereja do bolo”. E embora corajoso, deixou-
se lapidar humildemente ao longo de seu ministério.

CAMINHAR AO LADO DAS PESSOAS

Voltemos ao texto que li no início: “Quando estava o Senhor para tomar Elias ao céu por
um redemoinho, Elias partiu de Gilgal em companhia de Eliseu” (2 Reis 2:1).
Para mim este texto é paradigmático, simbólico: O célebre e lendário profeta caminhando
com um aprendiz. Um pastor experiente, com milhares de quilômetros rodados, com
incontáveis histórias pra contar, próximo e íntimo de Deus, caminha junto a um aspirante ao
Ministério. Isso requer humildade.
Eu digo que este texto é paradigmático porque, entre outras coisas, estabelece um
padrão para o Ministério: Logo vocês estarão iniciando o Ministério Pastoral, e alguém
caminhará com vocês: um pastor mais experiente, um administrador. Mas, enquanto isso,
vocês serão referencial para as pessoas de seu distrito ou de sua Escola. Vocês serão
referencial para os irmãos ou para os alunos. As pessoas quererão andar com vocês, assim
como um aprendiz anda ao lado de um mestre. Quando isso acontecer, vocês serão uma
espécie de Elias guiando os Eliseus.
“Elias partiu de Gilgal em companhia de Eliseu”. Em seu livro Aprenda a Mentorear,
Howard Hendricks argumenta que o mentor – e ele toma Elias como referência – o mentor
deve ser um modelo para o discípulo, especialmente nestes aspectos: iniciativa, disposição,
motivação, lealdade e humildade. Para Hendricks, Elias foi um modelo cabal de mentor para
o discípulo Eliseu. E como isso foi operacionalizado? No diálogo. Na convivência. Na
caminhada. Ou como diz 2 Reis 2:1, “na companhia”.
 Estar em companhia das pessoas significa investir num Ministério centrado em
indivíduos, e não nos equipamentos, nas estratégias, e nem nos métodos.
 Estar em companhia das pessoas implica em sermos próximos, acessíveis, comuns,
agregadores, motivadores, encorajadores.
 Estar em companhia das pessoas significa estar junto para conhecer o mundo de
nossos irmãos, suas lutas e alegrias, seus temores e esperanças.
 Estar em companhia das pessoas significa falar a linguagem do povo.
 Estar em companhia das pessoas implica, se necessário, em frequentar os mercados
que os irmãos frequentam, as padarias que eles frequentam, a fim de transmitir a
ideia da proximidade.
 Enfim. Estar em companhia das pessoas significa humanizar-se.

CONCLUSÃO

Vivemos numa época extraordinária. Os meios de comunicação, particularmente a


internet, tornam alguém famoso da noite para o dia. Quem sabe, a fama espera por vocês
na próxima esquina. Mas quando a tentação da fama aparecer, lembrem de Elias
caminhando ao lado de Eliseu. O mito ao lado do aprendiz: sem cerimônias e sem
assessores.
Assim como Elias, estejam dispostos a entrar no palácio do rei, mas também estejam
dispostos a conversar com os simples, com os iniciantes, com os anônimos. Tenham olhares
para os que tem nome e sobrenome, mas também sejam simpáticos com os anônimos.
Afinal, as viúvas de Sarepta sempre estarão por aí.

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Ser humilde, praticar a humildade – sem pieguice e falsa mansidão – é desafiador. Aqui
na Terra, provavelmente nunca chegaremos à medida apropriada de humildade. Mas
podemos avançar, pela graça de Deus.
O que fazer? Oremos sobre isso. Fujamos do poder como se foge do câncer.
Reconheçamos nossas limitações. Valorizemos as capacidades dos outros.
O apóstolo Paulo, que viveu em humildade depois de sua conversão, garante em
Filipenses 4:13: “Tudo posso naquele que me fortalece”. Pelo poder de Deus, é possível
sermos pessoas humildes. E, com seu exemplo, Elias nos aponta o caminho.
Como vimos, humildade é uma caminhada, e envolve aprendizado lento, onde as coisas
nem sempre acontecem como nós queremos, mas como Deus quer.
E qual a recompensa?

Mateus 5:3: “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos Céus”.
Este verso de Mateus me lembra 2 Reis 2:11: “Elias subiu ao céu num redemoinho”. O
profeta que viveu uma vida corajosamente humilde, recebeu como recompensa a plenitude
do Reino de Deus.

Amigos: Como a brisa suave que traz frescor ao nosso corpo, a humildade traz alento e
novo ar à nossa vida.

Deus tenha misericórdia de nós e nos faça crescer em humildade a cada dia.

Amém!

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