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Suplemento Literário de Mato Grosso >>TANGARÁ DA SERRA - MT - BRASIL

Nódoa no Brim 30 DE NOVEMBRO DE 2019 - EDIÇÃO 67 | ISSN 2645-8072

Suplemento Literário de Mato Grosso

Nódoa no Brim
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AOS LEITORES, EXPEDIENTE

Nesta edição, Caro Leitor, o Nódoa te conduzirá por SUPLEMENTO LITERÁRIO DE MATO
dois textos sobre a Periferia. O primeiro com discussões GROSSO: NÓDOA NO BRIM é um jornal
criado em 2012, como projeto de
sobre o sistema literário, cortejando hipóteses sobre a extensão, pelo Núcleo de pesquisa
construção de um sistema afro-brasileiro. Já o segundo Wlademir Dias-Pino, Universidade do
apresenta um escritor de Mato Grosso, Agnaldo Rodri- Estado de Mato Grosso, sob a direção
gues da Silva, membro da Academia Mato-Grossense de Walnice Vilalva. Nasceu como
de Letras e do Instituto Histórico e geográfico de Mato suplemento cultural impresso pelo
Diário de Tangará da Serra, Mato
Grosso. Grosso. Atualmente, continua como
A poesia visual de Wlademir Dias-Pino ilustra esta projeto de extensão da UNEMAT (por-
edição. Enciclopédia Visual ( Escritas Arcaicas e Febres taria: 3676/2018), sob a direção de
Walnice Vilalva, assumindo uma versão
do Capricho) Boa leitura!!
exclusivamente digital.
Abordamos assuntos relacionados à
Literatura e a questões do contempo-
râneo. Nossa periodicidade é mensal e
a circulação é nacional.
CONTATO
Por email: wdiaspino@gmail.com
Universidade do Estado de Mato Grosso
Núcleo de Pesquisa Wlademir Dias-Pino
Endereço: MT-358, 7 - Jardim Aeroporto,
Tangará da Serra - MT, 78300-000

SUMÁRIO

(SILVA, Agnaldo Rodrigues da)


CANTILENA 3
Da periferia do hegemônico: o sistema literário afro-brasileiro
(José Victor Nunes Mariano) 4
ARTIGO
ENTRE SORRISOS E OLHARES: A FIGURA FEMININA NOS CONTOS O SORRISO
DE MONALISA E UMA DOSE DE CICUTA, DE AGNALDO RODRIGUES DA SILVA
(Maria Elizabete Nascimento de Oliveira)
ARTIGO 12
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[(...) Passeei os olhos pela sala toda, olhei debaixo das


mesas, das cadeiras, do tapete, nada encontrei. Mas eu
sentia aquele colar próximo de mim, parecia que estava
colado na minha pele, como se eu estivesse vendo, mas
não pudesse identificar o lugar exato em que ele se encon-
trava.
- Colar maldito! Onde você se escondeu?
Corri para o quarto à procura de um espelho para verificar
como estavam os meus olhos. Eles ardiam mais intensifi-
camente depois que olhei para aquele colar misterioso. De
longe percebi que havia um espelho na porta do guar-
da-roupa. Aproximei-me e fitei minha imagem e nos meus
olhos vi o colar. (SILVA, 2009, p.49)
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DA PERIFERIA DO
HEGEMÔNICO: O SISTEMA
LITERÁRIO AFRO-BRASILEIRO
Muitos autores têm se debru- Even Zohar, em seu artigo de
çado sobre a existência de mesmo título. Assim, buscar--
uma literatura de vertente se-á uma atualização da críti-
afro-brasileira. Pesquisadores ca literária frente ao tema e
buscam, frequentemente, uma novos caminhos para se iden-
José Victor Nunes Mariano forma de concerni-la visando a tificar os processos pelos
compreensão de seu surgimen- quais a literatura afro-brasilei-
to. Pensando nessa problemá- ra se consolidou.
tica, tentarei desenvolver uma De certo não é a primeira vez
sistematização da literatura que o sistema literário pro-
afro-brasileira utilizando, para posto por Antonio Candido é
isso, o conceito de sistema recuperado para uma inter-
literário desenvolvido por pretação da literatura negra
Antonio Candido, na obra For- no Brasil. Octavio Ianni, em
mação da literatura brasileira um famoso artigo intitulado
(CÂNDIDO, 2000), e da teoria Literatura e consciência, dava
de polissistemas, de Itamar um grande passo ao identifi-
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civilização” (CANDIDO, 2000,


pg.23); a segunda são as produ-
ções que não foram incorpora-
das ao sistema - obras que,
para o autor, não possuíam
impacto frente ao dinamismo
das relações que envolvem o
sistema literário. Assim, a litera-
tura brasileira poderia ser siste-
matizada a partir de um
modelo orgânico, enquanto
que obras não incorporadas a
esse modelo seriam marginali-
zadas e até mesmo, devido a
pouca relevância no dinamis-
mo autor-obra-público, descar-
tadas da formação da literatura
brasileira.
Essa compreensão de sistema
literário enquanto estrutura
fixa e não maleável tende a
criar relações subjugadas a
juízos de valor, não necessaria-
mente literários. Sabendo-se
que as instâncias autor-obra-
-público propostas por Antonio
Candido são elementos cons-
truídos e sistematizados social-
mente, a partir de valores
muitas vezes hierárquicos e
colados em perspectivas de
desigualdade e diferença
car a dinâmica das instâncias vertente da literatura brasileira , (sociais, classistas, gênero, raça,
literárias na caracterização da Ianni dava os primeiros passos etc), torna-se difícil essenciali-
literatura afro-brasileira: de sua fundamentação teórica . zar o sistema literário enquanto
No entanto, gostaria de me modelo único de compreensão
É um imaginário que se articula aprofundar um pouco mais na de formação da literatura brasi-
aqui e ali, conforme o diálogo de proposta de sistema literário de leira.
autores, obras, temas e invenções Antonio Candido e tentar atua- Itamar Even-Zohar, crítico
literárias. É um movimento, um lizá-la frente aos novos debates literário israelense, propõe uma
devir, no sentido de que se forma e e caminhos da teoria e crítica nova forma de se ater ao siste-
transforma. Aos poucos, por dentro
e por fora da literatura brasileira, literária. ma literário a partir da teoria
surge a literatura negra, como um Antonio Candido, na primeira dos polissistemas (EVEN--
todo com perfil próprio, um siste- parte da introdução do célebre ZOHAR, 1999). O autor relata
ma significativo. (IANNI, Octavio. livro Formação da literatura que quando falamos de siste-
1988) brasileira, delineia a divisão ma literário, estamos, na verda-
entre literatura e manifestação de, nos remetendo a sistemas
Ianni recupera, em seu artigo, literária. A primeira é a produ- literários, ou seja, um sistema
o modelo de sistema literário ção literária incorporada a um múltiplo e heterogêneo, com-
de Candido para apresentar o sistema literário, ou seja, impli- posto de vários sistemas com
surgimento da literatura afro- cada ao dinamismo social das intersecções e sobreposições,
-brasileira. Apesar de ainda relações entre obra, público e desenvolvidos no campo da
incipiente em comparação autor “que se manifestam cultura. Sendo a cultura um
com as formulações que historicamente e fazem da elemento heterogêneo, essen-
conhecemos hoje sobre essa literatura aspecto orgânico da cializar um sistema literário

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específico como a única forma


de se organizar a história literá-
ria nacional retira do próprio
sistema a possibilidade de se
compreender a literatura em
sua completude, diversidade e,
principalmente, em suas rela-
ções de poder.
Parto da teoria dos polissiste-
mas de Itamar Even-Zohar e as
instâncias do autor, obra e
público, formulados por Anto-
nio Candido, a fim de demons-
trar: 1) a existência de um siste-
ma literário afro-brasileiro; 2)
que sua não existência
enquanto dinâmica orgânica,
no século XIX, dependeu do
jogo de poder complexo com
um sistema literário hegemôni-
co, construído e desenvolvido
em recortes específicos de
gênero, raça e classe.
Ao pensarmos em sistema
literário, tanto na proposta de
Candido quanto na de Even--
Zohar, relacionamos sua exis-
tência às instâncias construídas
e difundidas socialmente. Na
dinâmica sistêmica de autor,
obra e público, a produção
literária afro-brasileira encon-
trou, desde do século XIX, difi-
culdades de expansão. A insti-
tuição da escravidão e o recorte
sub humano dos negros na
sociedade escravocrata impos-
sibilitou que essas instâncias
dialogassem; até certo ponto,
foram sistematicamente
solapadas. As dificuldades
encontradas por autores e
autoras negras ao buscarem
uma escrita calcada em suas
próprias experiências raciais, a
partir de uma posição social de
escritor em suas potencialida-
des de subjetivação enquanto
sujeito negro, e a ausência de
um público específico que
pudesse consumir essa litera-
tura em toda sua faculdade
identitária, são elementos cen-
trais para o descentramento da
literatura afro-brasileira

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enquanto sistema. Os princi- racialidade não possuiria um necessário um grupo leitor que
pais escritores do século XIX campo de consumo literário, o interiorize conforme as
tiveram o elemento racial de em uma acepção profunda da marcas de diferença cultural e
suas obras ocultado e/ou dimi- experiência racial e subjetiva- afirmação identitária. Na
nuído, no caso de Machado de ção dos traços de diferença que ausência desses elementos, a
Assis , Lima Barreto e Cruz e essas obras trazem. Eduardo de instância literária que corres-
Sousa, ou simplesmente des- Assis Duarte, em seu artigo Por ponde à recepção da obra
cartadas e/ou omitidas da um conceito de literatura afro- torna-se descentrada.
historiografia literária nacional, -brasileira, comenta: Assim verifica-se que toda
como é o caso de Luiz Gama e possibilidade de um projeto
Maria Firmina dos Reis. Em A formação de um horizonte literário afro-brasileiro, orga-
alguns desses casos, a não assi- recepcional afrodescendente nizado enquanto sistema, foi
milação de um caráter racial como fator de intencionalidade “sabotado” pelas relações
aos debates críticos fez com próprio a essa literatura distingue- impostas por um modelo
que muitos desses autores -a do projeto que norteia a literatu- escravocrata de sociedade,
tivessem a identidade racial ra brasileira em geral. A constitui- atuando fortemente nos ele-
ção desse público específico, mar-
ocultada . Assim, uma escrita cado pela diferença cultural e pelo mentos de autoria, obra e
que põe em jogo as experiên- anseio de afirmação identitária, público. No entanto, essas
cias e a subjetividade negra compõe a faceta algo utópica do instâncias, no século XX,
não encontrou espaço para projeto literário afro-brasileiro, começaram a ser preenchidas -
difusão no cenário literário do sobretudo a partir de Solano Trin- demarco principalmente o
século XIX. dade, Oliveira Silveira e dos autores trabalho realizado pelo grupo
No mesmo andar, sendo que contemporâneos. (DUARTE, 2011, Quilombhoje e pela publicação
grande parte desse público é n.p) dos Cadernos Negros somados
vinculado à uma burguesia às políticas de educação dos
majoritariamente branca, toda Ou seja, dentro de um campo anos 70, 80 e 90. A fomentação
e qualquer obra realizada a que se tome um projeto literá- de um grupo leitor centralizado
partir de um olhar centrado à rio, consciente ou não, torna-se nas temáticas vinculadas à

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experiência racial do negro per- do sistema literário afro-brasi- Itamar Even-Zohar, a partir da
mitiram a constituição de um leiro foram, de alguma forma, concepção de heterogeneida-
projeto literário, no qual auto- preenchidas no século XX a de do sistema literário, afirma:
ria, obra e público pudessem partir do trabalho consciente
construir organicamente um de um projeto literário, que só Heterogeneity is reconcilable with
sistema literário específico. É pôde ser sedimentado devido o functionality if we assume that
necessário apontar que a cons- preenchimento das instâncias rather than correlating with each
trução desse sistema se deu literárias que sempre estiveram other as individual items (elements

por ordens institucionais não comprometidas na instituição or functions), the seemingly non-
hegemônicas, ou seja, fora do da escravidão e pós-escravidão. -reconcilable items (elements or
âmbito das grandes editoras e Porém, é necessário perguntar- functions) constitute partly alter-
com uma baixa circulação edi- -mo-nos ainda: seria a literatura native systems of concurrent
torial. A isso, podemos somar a afro-brasileira apenas um siste- options. These systems are not
ampliação de um projeto edu- ma literário tardio? Até que equal, but hierarchized within the
cacional em larga escala que ponto essas instâncias literárias polysystem. . (EVEN-ZOHAR, 1999,
possibilitou uma assimilação solapadas atuaram sobre o pg.14)
de recursos da linguagem por modelo hegemônico de siste-
parte de jovens negros no ma literário, no século XIX?
Brasil, fazendo com que mais Ainda mais: por quais formas Para o autor, o polissistema é
pessoas escrevessem sobre esse sistema atuou enquanto constituído por diversos siste-
uma perspectiva racializada e uma estrutura de poder na não mas internos, o que demarca
consciente, com clara demar- consolidação de outros siste- sua heterogeneidade. Esses
cação de um ponto de vista mas literários, principalmente, sistemas são hierarquizados
negro. para este artigo, o afro-brasilei- entre si, porém totalmente cor-
Resumidamente, as lacunas ro? relacionados. Assim, um polis-

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sistema literário possuirá uma subjetividade negra, um deslo- Assim, apesar de uma não con-
série de jogos de poder entre camento dessa produção às solidação da literatura afro-bra-
sistemas internos e, muitas periferias do polissistema literá- sileira enquanto modelo orgâ-
vezes, opostos. A consolidação rio, minando potencialidades nico, no século XIX, calcado às
de um modelo hegemônico de sua constituição enquanto instâncias de autor, obra e
será estabelecido a partir da um sistema orgânico afro-bra- público, é importante demar-
luta permanente de vários sileiro; ou seja, é no próprio car a existência de uma proje-
estratos. jogo interno dos conflito entre ção enquanto sistema. Trata-se
valores e instâncias opostas de pensar a literatura afro-bra-
It is the permanent struggle betwe- que um sistema hegemônico sileira enquanto potencialida-
en the various strata, Tynjanov has (ou que busca ser hegemônico) de para constituir-se enquanto
suggested, which constitutes the afasta do centro de um polissis- sistema orgânico, porém
(dynamic) synchronic state of the tema as literaturas contrárias. É solapado por um modelo hege-
system. It is the victory of one
dessa forma que as relações de mônico de literatura. É no com-
stratum over another which consti-
tutes the change on the diachronic poder estabelecidas, dentro de plexo jogo interno do polissis-
axis. (EVEN-ZOHAR, 1999, pg.14) um polissistema literário, no tema que as diferentes instân-
século XIX, simplesmente bar- cias literárias, de diferentes
Essa luta constrói um movi- raram qualquer consolidação sistemas literários, consolida-
mento entre o que deve se de um projeto literário afro- dos ou não, se conflitam e
impor enquanto modelo único -brasileiro. buscam hegemonia. No entan-
e o que deve ser periferizado, O que Antonio Candido carac- to, para constituírem-se
colocados à margem do polis- teriza como manifestação enquanto enquanto tal, deve
sistema. Ao olharmos para a literária, enquanto aquilo que existir uma relação de poder
produção literária afro-brasilei- não foi incorporado a um siste- entre diferentes instâncias
ra no século XIX, vemos, nos ma, pode tratar-se, na verdade, literárias de diferentes sistemas
primeiros escritos de autores e de uma produção literária que literários, sendo estes sistemas
autoras que impunham uma foi deslocada e descentrada. reais ou projetados virtualmen-

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te, dentro do polissistema. conferir autoridade aos hibridis- Busquei, neste artigo, uma
Demarco aqui que a projeção mos culturais que emergem em nova interpretação frente a
de um modelo sistêmico para a momentos de transformação teoria de sistema literário trazi-
literatura afro-brasileira, no histórica. (BHABBA, 2014, pg.20) do por Antonio Candido e pelo
século XIX, se dá internamente escritor israelense Itamar Even-
ao próprio polissistema. São nas relações de poder das -Zohar, a fim de demonstrar
Enquanto que não há um diferenças, em seus interstícios não somente como a literatura
modelo literário afro-brasileiro e cruzamentos, e nas diferen- afro-brasileira se organizou
consolidado no século XIX, sua ças enquanto constituintes de enquanto sistema mas
projeção deve existir dentro sistemas literários concretos, também compreender a moti-
das relações de poder no polis- existentes ou projetados, que vação de sua não estruturação
sistema. De alguma forma, o os valores culturais são nego- no século XIX, quando já exis-
hegemônico existe a partir da ciados e que uma literatura se tiam escritores e escritoras
construção simultânea do não torna hegemônica. É no deslo- negras produzindo obras literá-
hegemônico , mesmo que a camento de domínios de dife- rias. Concomitantemente, um
sistematização do não hege- rença - filtrados por recortes de novo modo de perceber o siste-
mônico exista apenas enquan- raça, classe e gênero, entre ma literário brasileiro tentou
to projeção. Bhaba, em seu outros, e integrando também ser visualizado: não como uma
cultuado livro O local da cultu- as instâncias literárias do autor, estrutura homogênea e enrai-
ra, revela: obra e público - que o valor das zada na tradição, mas sim hete-
“partes” será negociado. Ou rogênea, a partir de um com-
É na emergência dos interstícios - seja, é no próprio jogo de plexo conjunto de sistemas
a sobreposição e o deslocamento poder das diferenças que o literários, os quais estão
de domínios de diferença - que as valor dos sistemas serão instau- sempre em relação de disputa
experiências intersubjetivas e cole- rados. Dentro da perspectiva e conflito. Acredito que o traba-
tivas de nação (nationess), o inte- brasileira, do século XIX, qual- lho será útil também para des-
resse comunitário ou o valor cultu- quer projeção de sistema literá-
ral são negociados. De que modo construir o ideal de cânone
rio proveniente das populações literário de tradição única,
se formam sujeitos nos “entre luga- negras - e aqui poderíamos
res”, nos excedentes da soma das abrindo espaços para uma críti-
pensar em outros recortes ca, teoria e historiografia literá-
“partes” da diferença (geralmente
expressas como raça/classe/gênero identitários de minoria - seria ria ampla, diversa e integrativa.
etc.)?” (Bhaba continua logo a devidamente barrada por um
frente no texto) A articulação social sistema hegemônico de litera-
da diferença, da perspectiva da tura, muito bem estruturado
minoria, é uma negociação com- nos rígidos moldes de raça,
plexa, em andamento, que procura classe, gênero, etc.

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Bibliografia teraf ro/arquivos/artigos/teori- Rio de Janeiro: Civilização Bra-


cos-conceituais/Artigoeduardo2 sileira, 1971
BHABA, Homi. O local da onceitodeliteratura.pdf SOUZA, F. da S. Afro-descen-
cultura. Belo Horizonte, Ed: EVEN-ZOHAR, Itamar. Polysys- dência em cadernos negros e
UFMG, 1998. tem Studies. IN: Poetics Today, jornal do MNU. São Paulo, ED:
CANDIDO, Antonio. O escritor International Journal for Theory Autêntica, 2005
e o público. IN: Literatura e and Analysis of Literature and KIMMEL, Michael S. A produ-
sociedade. São Paulo, ED: Communication, volume 11. Ed: ção simultânea de masculini-
Publifolha, 2000 Duke University Press, 1990: dade hegemônicas e subalter-
CANDIDO, Antonio. Formação 9-25 nas. Porto Alegre, Horizontes
da Literatura Brasileira. São GOMES, Nilma Lino. O movi- Antropológicos, ano 4, n. 9, p.
Paulo, ED: Editora Itatiaia, 2000: mento negro educador. São 103-117, out. 1998. Disponível
23-29 Paulo. ED: Vozes, 2017 em: scielo.br/pdf/ha/v4n9/0104-
DUARTE, E. A.. Machado de IANNI, Octavio. Literatura e -7183-ha-4-9-0103.pdf
Assis Afrodescendente. Minas Consciência. Revista do institu-
Gerais, ED: Crisálida, 2007. to de Estudos Brasileiros. São
DUARTE, E. A. Por um conceito Paulo, 1988: 91-99
de literatura afro-brasileira. MASSA, Jean-Michel. A juven-
Minas Gerais, LITEAFRO, 2011. tude de Machado de Assis.
Disponível em letras.ufmg.br/li- Tradução de M. A. de M. Matos.

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Esta reflexão versa sobre a aborda a inversão do tempo.


ENTRE SORRISOS E OLHARES: configuração do espaço da Inicia com a protagonista
A FIGURA FEMININA NOS CONTOS figura feminina nos contos O expurgando o corpo das
O SORRISO DE MONALISA E UMA sorriso de Monalisa e Uma impurezas adquiridas ao
dose de cicuta, criação literá- longo da vida conjugal, como
DOSE DE CICUTA, DE AGNALDO ria de Agnaldo Rodrigues da se a água pudesse limpar-lhe
RODRIGUES DA SILVA Silva. Ambos compõem a a alma.
obra Dose de Cicuta (2011), Os contos tratam do amor
Maria Elizabete Nascimento de Oliveira uma coletânea de onze para além do reflexo no espe-
contos, que representam o lho, há configurações mais
contexto de opressão e dor- profundas que levam ao labi-
mência sofrida pela mulher ríntico universo existencial e
na vida cotidiana que, muitas provocam a pensar nas diver-
vezes, abafa seu grito por sas formas de agressão. Dose
liberdade. Focalizamos na de Cicuta, com uma lingua-
configuração estética da gem felina e uma porção
figura feminina e nas inter-re- generosa de ironia, provoca o
lações suscitadas pelo univer- leitor a perceber as contradi-
so da ficção. ções apontadas no cenário
No primeiro conto, o olhar da ficcional das narrativas. Para
obra de arte sobre o jogo de tanto, consideraremos espe-
traição denuncia a tríade cialmente as ponderações de
amorosa, em que as relações Nelly Novaes Coelho (2000) e
sexuais são seguidas silencio- Antonio Candido (2006) ao
samente pela Monalisa. É apreciar a literatura como um
uma belíssima metáfora da feixe de relações sociocultu-
amplitude do alcance da arte rais e humanas.
sobre o mundo. O segundo O livro Dose de Cicuta escrito
conto, Uma Dose de Cicuta, em 2011, por Agnaldo Rodri-
recebe o título da obra e gues da Silva, apresenta uma
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coletânea de onze contos que Navegantes das Letras (2009). As relações expostas acima
traz à baila suas memórias de Agnaldo Rodrigues foi discen- estão representadas nos
leitor, acrescidas pela elabora- te da Universidade do Estado contos de Agnaldo, eviden-
ção estética de um autor que de Mato Grosso e, atualmen- ciando as inter-relações pre-
metaforicamente, nesta obra, te, é doutor em Estudos Lite- sentes na literatura e que, de
pode ser visto como um gênio rários e docente nos cursos de certa forma, incita-nos a refle-
da lâmpada que, soube fazer graduação e Pós-Graduação tir sobre as injustiças sociais,
jus ao título e nos inquietar desta universidade, com um ou seja, é um objeto que ao
com seu desassossego. Para trabalho intelectual relevante trabalhar com a arte e/ou com
tanto, movimenta os recôndi- em diversos setores sociocul- a estética da palavra em seu
tos labirintos da linguagem turais, inclusive como grau fecundo e avassalador
por meio da sinestesia, com membro efetivo da Academia permite o deslizar para o
ironias, metáforas, personifi- Mato-Grossense de Letras. cenário existencial. Para esta
cações, entre outras figuras Apresentamos autor e obra breve apresentação da obra,

de linguagem que olham de porque, tal qual Nelly Novaes selecionamos dois contos que
espreita para as desconfian- Coelho (2000), acreditamos fazem parte da coletânea
ças do leitor. Lembrando que na: supracitada. O primeiro inti-
como salienta Antonio Candi- tula-se O sorriso da Monalisa
do (2006, p. 83): “A literatura é [...] literatura como feixe de rela- (2011, p. 33), enredo que apre-
pois um sistema vivo de ções, no sentido de que ela não senta um caso de traição que
nasce da pura fantasia de suas
obras, agindo umas sobre as autoras e autores, mas germina de acontece dentro do consultó-
outras e sobre os leitores; e só uma complexa interação entre o rio médico acompanhado
vive na medida em que estes espírito criador do artista e o pelo olhar clínico da Monalisa,
a vivem, decifrando-a, acei- húmus cultural herdado (húmus a protagonista.
tando-a, deformando-a”. que foi engendrado, ao longo do O narrador incita-nos à me-
O autor é natural de Cáceres- tempo, pelas múltiplas heranças mória, fazendo-nos recordar
ou tradições acumuladas no espíri-
-MT/Brasil, com diversas obras do fabuloso quadro de Leo-
to ou na memória do povo) (COE-
publicadas, entre elas cito: LHO, 2000, p. 92). nardo Da Vinci (1503-1506), A
Cantos do mundo (2007) e Monalisa, e da perspicácia
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narrativa do jornalista, drama- como se fosse necessário (1982), a escultura feita por
turgo e jornalista brasileiro ignorar os fatos para que o August Rodin (1887), em már-
Nelson Rodrigues (1912-1980). jogo das aparências cotidia- more, atualmente exposta no
Neste cenário memorialístico, nas pudesse continuar. Museu Roin, em Paris, o
tece a relação amorosa entre “Tenho pacientes no horário quadro “O beijo”, de Gustav
marido/mulher sob os olhos do almoço. Uma exceção. Klimt (1907-1908), localizado
vigilantes e críticos da Monali- Almoçarei no consultório. [...] à na Österreichische Galerie
sa: “Ela entrou no consultório, hora do almoço, a campainha Belvedere, em Viena e a intri-
deu-lhe um beijo e disse: Eu do consultório soou. Ele abriu gante obra surrealista de
te amo. Olhou para o quadro a porta. A paciente entrou e René Magritte (1928) “Os
da Monalisa que estava fixado deu-lhe um beijo na boca” amantes”, exposta na Galeria
na parede e percebeu um sor- (SILVA, 2011, p. 34). É instigan- Nacional da Austrália.
riso de sarcasmo” (SILVA, te a representação do beijo na Além das artes supracitadas,
2001, p. 33). narrativa. Na descrição da destacamos o poder do beijo
O autor nos provoca a obser- visita da mulher do médico ao em dois clássicos da literatu-
var o olhar da arte sobre o consultório, o narrador não ra: o primeiro um fragmento
mundo, inverte a lógica das descreve que tipo de beijo da obra Romeu e Julieta de
coisas ao representar o poder aconteceu: “Ela entrou no Willian Shakespeare (1591-
da arte em ver os interstícios consultório, deu-lhe um beijo -1595) “ - Ofendeis vossa mão,
do real, “A Monalisa continua- e disse: - Eu te amo!”. bom peregrino, que se mos-
va lá, observando a tudo. Os Há no beijo a representação trou devota e reverente. Nas
olhos arregalados, atentos, da traição e do amor, fator mãos dos santos pega o pala-
como se estivesse humana” que lembra diversas obras de dino. Esse é o beijo mais santo
(Ibidem, 2001, p.33). A mulher artes numa viagem prazerosa e conveniente." O segundo
do médico percebera a sensi- sobre os movimentos estéti- acontece em Dom Casmurro
bilidade da arte sobre o acon- cos, para citar alguns: o (1899 ), escrito por Machado
tecimento e ficou incomoda- quadro do pintor francês de Assis: “[...] até que ela abro-
da, mas é ludibriada pela fala Jean-Léon Gérôme (1980), a chou os lábios, eu desci os
persuasiva do marido. obra pós-impressionista de meus, e... Grande foi a sensa-
A rotina conjugal segue Henri de Toulouse-Lautrec ção do beijo; Capitu ergueu--
se, rápida, eu recuei até à
parede com uma espécie de
vertigem, sem fala, os olhos
escuros”.
No conto O sorriso de Mona-
lisa, o olhar da obra de arte
sobre o jogo de traição
denuncia a tríade amorosa, as
relações sexuais eram segui-
das silenciosamente pela Mo-
nalisa, enfatizando a reação
de reprovação, numa belíssi-
ma metáfora da amplitude do
alcance da arte sobre o
mundo. “A Monalisa queria
gritar: ‘parem, seus porcos
imundos! Não profanem os
olhos da arte!’ Mas, ela tinha
os lábios engessados, parali-
sados. Apenas os olhos esta-
vam abertos pela eternidade”.

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Nesta metáfora, estetica-


mente bem elaborada, o
autor coloca em jogo a ação
do silêncio, que atua com
gritos de revolta, de crítica e,
ao mesmo tempo, de impo-
tência diante das atrocida-
des do mundo real. Porém,
vale ressaltar que:

[...] a posição do escritor depende


do conceito social que os grupos
elaboram em relação a ele, e não
corresponde necessariamente ao
seu próprio. Este fator exprime o
reconhecimento coletivo da sua
atividade, que deste modo se
justifica socialmente (CANDIDO,
2006, p. 84).

Como que para enfatizar o


jogo cíclico da traição, o conto
finaliza com o marido con- amor conjugal (“puro” e destinado sujeiras do contato que tivera por
vencendo a mulher ao telefo- exclusivamente ao dever de anos com aquele corpo asqueroso.
procriação) contraposto ao amor Foi despregando, lentamente, o
ne do seu amor incondicional sexual (impuro e condenado às cheiro do pecado e do suor que lhe
e pedindo-lhe que esqueces- penas do Inferno) (COELHO, 2000, incomodava a sensibilidade (SILVA,
se a Monalisa, no entanto, ao p. 92). 2011, p. 79).
sair do escritório, ele mesmo
percebera o sorriso: “Virou-se Embora haja no conto uma Acreditamos que o autor,
de súbito [...] percebeu a Mo- descrição da voluptuosidade ironicamente, expõe a bata-
nalisa sorrindo. [...] era linda do marido ao fazer sexo com a lha que a figura feminina vem
demais para proferir palavras esposa no escritório, não travando ao longo dos anos
para superar o machismo que
tão sujas. Desconfiado, bateu passa despercebido o interdi- impera em nossa sociedade,
a porta e saiu. A Monalisa to, certa relação de superiori- destacando que esta é uma
ficou ali, sozinha, rindo da dade do macho sobre a luta desigual e invencível: “Há
comédia da vida” (SILVA, 2011, fêmea, assim, o jogo do amor como tinha sofrido até vencer
p. 36). Embora os dois, marido puro e impuro circula por a guerra! Guerra de vinte anos
e mulher, tenham percebido entre a narrativa. – pensou com os olhos fixos
o sorriso da Monalisa a forma O segundo conto que sele- no tempo” (SILVA, 2011, p. 79).
de descrição narrativa atribuir cionamos é Uma Dose de O autor utiliza uma configu-
à mulher uma observação Cicuta (2011, p.76), que recebe ração parecida ao conto ante-
mais sensível e refinada do rior, reportando-nos à memó-
o título da obra e, de certa
ria ao apresentar a figura de
fato. O triângulo amoroso nar- forma, fecha a produção com Lucíola, de José de Alencar
rado nos leva a refletir sobre a inversão do tempo. Inicia (1862). Momento em que a
como a sociedade disciplinou: com a protagonista limpando mulher do conto é compara-
o corpo das impurezas adqui- da a personagem porque
[...] as relações homem-mulher ridas ao longo da vida conju- “contornou a boca com um
[relações que, em última análise, gal, como se a água pudesse batom rosa escuro, igual
são a verdadeira pedra-base de àquele que provavelmente a
qualquer sociedade ou grupo também limpar-lhe a alma.
Lucíola, de Alencar, deslizava
social] e cuja regra de ouro é, como sobre os lábios antes de
já sabemos, o interdito ao sexo Ligou o chuveiro. A pureza da
como prazer: a superioridade do água levava para o ralo todas as entrar no seu quarto verme-

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lho para exercer a prostituição” em frente de um bar e viu um nine Albert Zinani (2003) des-
(SILVA, 2011, p. 79). Neste mo- casal a se beijar na boca. Um taca que:
mento, relembramos a identi- beijo demorado e profundo.
dade dupla de Lucíola, ora des- Achou indecente”. (SILVA, A libertação da mulher envolve
crita como pura e ingênua, ora 2011, p. 54) e/ou em Cacto: “Es- um percurso longo e árduo, pois é
necessário desconstruir os concei-
como cortesã. távamos nus a cada beijo que
tos tradicionais, redesenhar os
Destaca-se a presença do eu dava no meu amante tinha papéis de homens e mulheres e
duplo, submissão e liberdade, a impressão de que os espi- prepara-los para assumirem novas
onde a figura feminina, nova- nhos do cacto caíam um a tarefas com igualdade e respeito.
mente, é a pivô da narrativa. “[...] um”. (SILVA, 2011, p. 60). Talvez a transformação do homem
não era mais nenhuma adoles- Trata-se a história de uma seja a tarefa mais difícil, pois, como
a mulher, precisa vencer condicio-
cente, a juventude tinha lhe ido mulher que sonha com a namentos ancestrais que perten-
[...] Estava velha! [...] Mas a sua liberdade, em limpar a sujeira cem ao inconsciente coletivo, além
boca ainda queria provar o fel que foi sua vida conjugal, se disso, necessita da aceitação do
da liberdade, beijar outros tornar sedutora e, em matar o grupo e da própria mulher (ZINANI,
lábios, ceder-lhes aos desejos marido com uma dose de 2003, p. 119).
mais proibidos” (SILVA, 2011, p. Cicuta. “[...] nunca tinha

80). Veja que de forma sútil e conhecido outro homem, Segue a narrativa destacan-
felina aparece novamente nesta apenas o carrasco. [...] tudo do a maneira como a mulher
narrativa à representação do isso porque o marido tinha se livrara do marido que “[...]
beijo enquanto objeto de sido ao longo dos anos um caiu, fechou os olhos e devol-
desejo e traição. maldito carrasco. [...] a cor da veu a ela a tão sonhada liber-
Ressaltamos ainda que o cicuta cintilava, criando a dade”. Assim, o narrador des-
beijo surge ainda em outros tênue metáfora da tão deseja- taca a felicidade da mulher
contos da mesma coletânea, da liberdade” (SILVA, 2011, p. “[...] o corpo todo tremia como
como em Indecências: “Passou 80). Neste sentido, Cenil Jea- se não acreditasse no aconte-

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cido” (SILVA, 2011, p.81). Mas,


há uma inversão nos aconte-
cimentos: “[...] a campainha
tocou. Agora era a realidade,
não mera fantasia” (SILVA,
2011, p. 81). Nesta construção
narrativa instigante, o marido
chega agredindo-a: “Ao abrir
a porta, ele socou-lhe um
tapa no rosto e disse: - Vaga-
bunda! Por que demoraste a
abrir a porta? Nem para
esposa serves, sua parva” (Ibi-
dem, 2011, p. 81).
O glamour do contexto
sonhado pela mulher no
início da narrativa por meio
do sonho da mulher é des-
construído pela descrição da
vida real:

Serviu o jantar num prato de


louça barato. O vinho, de quinta
categoria, foi despejado num copo
de massa de tomate bem ordiná-
rio. Olhava para ele e imaginava o
quanto seria bom ter acrescentado
naquela bebida uma única dose
de cicuta. Quis rir, mas não ousou.
Nunca teria coragem para tanto
atrevimento. Apenas disse: - Senti
saudades tua, querido! (SILVA, 2011,
p. 82, grifo nosso).

O fragmento reforça que a


realidade destoa do sonho da
mulher, enquanto no sonho
se apresenta determinada e
consciente de sua condição
de sulbaternidade, na realida-
de é, totalmente, submissa,
talvez porque enredada aos
liames existenciais e históri-
cos. Neste sentido, Antonio
Candido (2006), enfatiza que:
A sociedade, com efeito,
traça normas por vezes tirâni-
cas para o amador de arte, e
muito do que julgamos
reação espontânea de nossa
sensibilidade é, de fato, con-
formidade automática aos

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padrões. Embora esta verifi- segundo conto, em muitos Ainda em destaque à função
cação fira a nossa vaidade, o aspectos mantém proximida- humanista, democrática e
certo é que muito poucos de com a Monalisa da primei- integral da literatura, a autora
dentre nós seriam capazes de ra narrativa. Ambas olham a salienta que a mesma pode-
manifestar um juízo livre de realidade com olhos de quem ria funcionar como uma “es-
injunções diretas do meio em extravasa e enxerga critica- pécie de ‘fio de Ariadne’ que
que vivemos (CANDIDO, mente as situações de des- poderia indicar caminhos,
2006, p. 45). vantagens socioculturais e não para sairmos do ‘labirinto,
políticas, bem como, se veem mas para conseguirmos
Este enfoque nos permite impossibilitadas de agir transformá-lo em ‘vias comu-
pensar em uma reforma frente às condições que lhes nicantes’ que a concepção de
necessária do pensamento, são impostas. O fato de não mundo atual exige” (COELHO,
como diria Edgar Morin (1999), nomear as personagens do 2000, p. 26). Pelos textos lite-
rários é possível ouvir as diver-
sas vozes que ecoam das
palavras, numa perspectiva
de campo democrático e aco-
lhedor, em que o leitor e o
autor interagem na atribuição
de sentidos à criação.

O público dá sentido e realidade à


obra, e sem ele o autor não se reali-
za, pois ele é de certo modo o espe-
lho que reflete a sua imagem
enquanto criador. Os artistas
incompreendidos, ou desconheci-
dos em seu tempo, passam real-
mente a viver quando a posterida-
de define afinal o seu valor. Deste
modo, o público é fator de ligação
entre o autor e a sua própria obra
(CANDIDO, 2006, p. 45).

Observamos ainda o sentido


duplo do sorriso, enquanto a
Monalisa era livre para sorrir, a
mulher de Uma Dose de
em sua teoria da complexida- conto nos permite destacar Cicuta não tinha coragem
de, para nos ajudar a refletir que, pode se tratar das vivên- para este atrevimento,
que a mulher de hoje, confor- cias e sonhos de muitas mu- embora em sonho tivesse
me destaca Coelho (2000, lheres que vivenciam as coragem para matar. Há duas
p.91-92) tem, ainda, raízes na mesmas condições. Assim: mulheres silenciadas, uma
mulher de ontem. Trata-se, contida na pintura plástica e a
portanto, de uma configura- [...] a literatura é um autêntico e outra aprisionada, também,
ção estético-literária que complexo exercício de vida, que se
realiza com e na Linguagem – esta pelo quadro produzido pelo
abarca, ainda segundo a complexa forma pela qual o contexto sociocultural e histó-
autora, complexos e necessá- pensar exterioriza e entra em rico. Silêncio este interrompi-
rios entrelaçamentos da lite- comunicação com os outros pen- do pelo alto grau de expressi-
ratura com outras “áreas do sares. Espaço de convergência do vidade e poder que adquirem
pensamento e das vivências mundo exterior e do mundo inte-
com a expressividade de seus
humanas”. rior (COELHO, 2000, p. 24).
criadores. Na metáfora do sor-
A mulher que protagoniza o

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riso e dos olhares encontra-se agressão à figura feminina, ra, capaz de transmitir o seu
a ênfase na subjetividade destacando pontos de encon- recado e deste modo servir. (CAN-
expressa pela/na linguagem tros que as reforçam. “Com as DIDO, 1989, p. 49)
fazendo alusão à obra da arte mãos, balançou os longos
em contraponto com a rigi- cabelos negros de um lado Ao se deparar com si mesma
dez de algumas normas esta- para o outro, insinuando-se no espelho, a protagonista
belecidas socialmente e que para si mesma frente ao espe- aprofunda a própria imagem
são desmontadas por outras lho” (SILVA, 2011, p. 79). a ao se permitir viver outra
possibilidades de interpreta- experiência. Isto funda a ideia
ção e sentidos. O espelho assume função de de que “toda mudança estru-
Ambos os contos atrevem a compromisso por solidariedade. O tural em qualquer sistema
sentimento de participar da social depende visceralmente
falar sobre o amor, que este mesma humanidade frágil, sujeita de mudanças profundas na
consciência ou mentalidade
de cada indivíduo” (COELHO,
1991). É ele quem pode deter-
minar a condição de expecta-
dor ou protagonista, obvia-
mente, conforme Nelly
Novaes coelho, é uma forma
de compreender os limites
das contradições de uma
história calcada em regimes
socioculturais e históricos
diversos e, muitas vezes,
excludentes. A representação
do espelho enquanto jogo do
duplo que denuncia a traição
também se encontra em
outros contos do autor, cita-
mos como exemplo, um
pequeno fragmento do conto
Cacto, já citado: “Olhei pelo
espelho da prateleira e vi
enrolados no sofá dois cadá-
veres entrelaçados: éramos
eu e meu marido, traidora e
traído” (SILVA, 2011, p. 61).
Ainda na proposição de
entendimento sobre a simbo-
logia do espelho na narrativa
de cunho literário, apresenta-
mos Chevalier e Gheerbrant
sentimento é bem mais que o à marginalização social da prosti- (2015, p. 396), para os quais:
simples reflexo que habitual- tuta, ao esmagamento do pobre, à
alienação do insano, faz por contá- O espelho não tem como única
mente imprimimos na função refletir uma imagem;
gio que o sentimento pessoal se
imagem do espelho, há confi- tornando-se a alma um espelho
torne verdade para os outros; e a
gurações mais profundas que verdade dos outros, experiência perfeito, ela participa da imagem
levam ao labiríntico universo pessoal. Desses vasos comunican- e, através dessa participação,
existencial e nos provocam a tes é que brota, quem sabe, a passa por uma transformação.
pensar as diversas formas de opção por uma arte áspera e since- Existe, portanto, uma configuração

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entre o sujeito contemplado e o existências, especialmente, a Referências bibliográficas


espelho que o contempla. A alma capacidade em suscitar para
termina por participar da própria o “desvelamento” de teses CHEVALIER, Jean; GHEER-
beleza à qual se abre.
que parecem concluídas, sem BRANT, Alain. Dicionário de
possibilidades de novas óticas Símbolos. RJ: José Olympio,
Destacamos a forma como o e abordagens. 2015.
autor trabalha com a humani- Dose de Cicuta, com uma COELHO, Nelly Novaes. Lite-
zação da obra de arte no linguagem felina e uma ratura: arte, conhecimento e
primeiro conto e a coisifica- porção generosa de ironia vida. São Paulo: Peirópolis,
ção da personagem no provoca o leitor a perceber as 2000.
segundo. Nesse sentido, contradições apontadas no COLASANTI, Marina. Mulher
reforçamos a comparação da cenário ficcional das narrati- daqui pra frente. São Paulo:
mulher com peças de museu vas. Há necessidade de ressig- círculo do livro, A.S. 1981.
“[...] Velha como aquelas nificar o espaço da literatura e SILVA, Agnaldo Rodrigues
peças de museu ou cacarecos da leitura reflexiva, especial- da. Dose de cicuta. Cáceres:
que as pessoas não querem mente, com a produção lite- ed. UNEMAT, 2011.
mais dentro de suas casas” rária de autores contemporâ- ZINANI, Cecil Jeanine Albert.
(SILVA, 2011, p.80). Este modo neos. Como destaca Nelly Literatura e gênero: a cons-
de abordagem nos leva à Novaes (2000, p. 135), “[...] a trução da identidade femini-
reflexão de que moldada às palavra é fundadora (e não na. Caxias do Sul, RS: Educs,
regras impostas pela socieda- mero rótulo de algo criado) [...] 2013.
de, a mulher vai aos poucos é o que torna existente o real”.
perdendo a identidade e Assinala-se assim a concep-
tornando um objeto descar- ção da linguagem enquanto
tável, acostumada a viver para espaço demiúrgico que
o outro e esquecer-se de si, anuncia outro feitio de
sem valia na sociedade capi- mundo e de entendimento
talista. Reforça-se o poder da sobre o mosaico existente no
arte mediante as questões ser humano.

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Núcleo de Pesquisa Wlademir Dias-Pino


Direção: Walnice Vilalva
Imagens: Enciclopédia Visual Wlademir Dias-Pino/Wlademir Dias-Pino
Criação/diagramação: Edson Santos
Equipe de revisão: Maria Madalena da Silva Dias
Universidade do Estado de Mato Grosso Samuel Lima da Silva