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O LADO OCULTO

DO MEDO

Barbara Nonato
Esta é uma obra de ficção, sem compromissos com a realidade, de modo que
semelhanças em relação a nomes, fatos, lugares ou situações relatadas são
apenas coincidências.

É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo desta obra.

Ano de Lançamento: 2016

Contato com a autora através do e-mail: barbaranonato@yahoo.com.br.

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Dedico esta obra ao tempo e à todos que me acompanham.
No medo, que nos faz fracos, nos fazemos fortes para
sermos poderosos além de nossas expectativas.
1

— Recém chegada à vila —

A vida de Tina sempre foi simples e nunca foi fácil. Talvez aquela
oportunidade de emprego fosse o que de mais significativo lhe acontecia
depois de tantos anos de batalhas para concluir o curso universitário e ela
sabia que não poderia desperdiçá-la, independente das possíveis intempéries
que lhe estavam atreladas. O salário oferecido não era nenhuma maravilha e
a distância de casa mostrava-se um obstáculo. Seria preciso deixar o
município onde morava com os pais à fim de que pudesse arcar com os
possíveis horários da rotina de trabalho. Como resultado, boa parte do salário
já estaria destinada ao aluguel de uma casa simples, em algum local próximo
do escritório. O restante, com apertos, daria para passar o mês. Ela era uma
pessoa simples e não estava habituada a quaisquer tipos de luxo, portanto,
encontraria um jeito.
A situação tornava-se ainda pior quando lembrava-se que estava
assumindo aquela vaga porque a profissional que a ocupava anteriormente
fora demitida em decorrência de seu excesso de preparo. Tratava-se,
portanto, de alguém com qualificação demais para o salário que, em
momentos de crise, poderiam lhe pagar, por isso fora desligada da empresa.
A revista, apesar de ser renomada, precisava, por contenção de despesas, de
um profissional mais barato, de preferência alguém recém-formado. Tina
encaixava-se neste perfil: tinha apenas vinte e dois anos e formara-se há
menos de um ano. Para adquirir a experiência do primeiro emprego, poderia
receber menos por seu trabalho, fator que, de certa forma, a desvalorizava.
Mas, como oportunidades e empregos não podiam ser jogados fora e não
costumavam cair do céu, ela aceitaria o cargo oferecido e torceria para que
crescesse a partir dele, criando um nome no mercado e atraindo
oportunidades de trabalho que poderiam ser ainda melhores.
Apesar de haver quase certeza de que a vaga de emprego seria dela, era
preciso tratar de alguns detalhes com o responsável pela contratação e para
isto Tina foi ao escritório. Seu primeiro contato com o senhor Inácio, seu
novo patrão, dono e editor chefe da revista, não fora dos mais agradáveis. O
homem tinha uma simpatia forçada, que não conseguia sustentar por muito
tempo; sorriso cínico e a arrogância daqueles que não sabem se colocar no
lugar do outro, daqueles que desconhecem a humildade. Algumas de suas
atitudes denotavam ganância excessiva e impensada, como se buscasse lucrar
com seus produtos, sem que estes tivessem a real qualidade para tal, apesar
de serem valorizados e reconhecidos no mercado.
A entrevista, parte final do processo seletivo, durou mais de hora e foi
preciso muito jogo de cintura para mostrar-se competente e escapar das
perguntas capciosas, feitas uma após a outra. Entretanto, após aquele contato,
ele confirmara ser dela a vaga, para que a ocupasse pelos próximos três
meses, em período de experiência. Caso fosse bem sucedida durante o
período e se houvesse interesse por parte dela em continuar, de imediato o
homem avisou que não haveria aumento de salário tão cedo. Sua presença no
escritório, também por questão de economia, seria apenas em dois dias na
semana. Nos outros dias ela trabalharia de casa. Aquela era uma sexta feira e
na segunda pela manhã ela deveria estar no escritório, pois, já receberia
serviço. Se era para começar daquela forma, que assim o fosse.
Deixou o escritório por volta das dez e meia da manhã e foi direto para
uma vila, situada próximo dali, onde uma casa encontrava-se disponível para
alugar. Havia agendado a visita com o senhorio, mas, como já estava bem em
cima da hora, apressou-se em pegar um táxi para que não chegasse atrasada e,
consequentemente, causasse má impressão. Não podia correr o risco de o tal
homem achar que ela não fosse responsável o suficiente para alugar uma de
suas casas. De uma mesma forma, também não poderia escolher muito em
relação à possibilidades de moradia. Considerando seu salário, o valor do
aluguel estava acessível, assim como o local onde a vila situava-se, que
oferecia condução fácil para todos os bairros próximos. Se a casa estivesse
em boas condições, sem dúvidas, seria aquela!
O taxi estacionou em frente ao portão da vila e ela pôde perceber que,
considerando sua expectativa e seus temores, o lugar não era ruim. Ao
menos, não parecia ser...
O portão de entrada era grande e pesado, em ferro. A rua estreita, porém,
razoavelmente extensa, acomodava oito casas, quatro de cada lado, todas com
dois andares e fachadas com varandas exatamente iguais. Na outra
extremidade da vila, ainda do portão de entrada, ela avistava um muro e, além
dele, apenas copas verdes de árvores.
—A senhora tem certeza de que é aqui mesmo? - perguntou o taxista.
Não. Ela não tinha certeza de nada. Todas as suas certezas foram deixadas
para trás, esquecidas no quarto que ocupou desde sempre na casa de seus
pais. Todos os seus pensamentos eram vagos e imprecisos, apontando para
possibilidades e expectativas remotas, nas quais ela procurava não pensar
muito. Qualquer menção ao passado agradável que vivenciara até então
poderia resultar em desistência e levá-la de volta para casa.
— Sim. Não conheço esse bairro, mas, pela placa é aqui. Não haveria duas
vilas com um mesmo nome em uma só região. - e, preocupada com o horário,
Tina pagou rapidamente pela corrida e desceu do táxi, agradecendo ao
motorista.
Caminhou até o portão da vila e notou que ele estava aberto. Se a mãe
estivesse por ali, insistiria para que entrasse com o pé direito! Esta era quase
uma regra para quando se estivesse iniciando algo novo... A mãe não estava,
mas não custava nada seguir seus preceitos. Ao empurrar um dos lados e
entrar, ouviu uma voz masculina que, de imediato, não lhe agradou.
— Não pense que este portão estará sempre aberto. Se há coisa pela qual
se deve zelar aqui é a segurança e eu exijo que o portão seja mantido fechado
para evitar problemas. Problemas devem ficar do lado de fora da vila, assim
como ladrões e pessoas estranhas. - o homem estava na varanda da primeira
casa da vila. —Eu sou Gaspar, o dono desta vila. E você deve ser Cristina, a
moça que telefonou ontem e marcou para ver uma das casas.
— Sim, sou eu. Muito prazer, seu Gaspar. - Tina esticou a mão direita
para cumprimentar o homem, não obtendo êxito em sua gentileza.
Como se tivesse pressa ou como se pouco se importasse com o que Tina
fosse pensar a seu respeito, o homem deixou a varanda onde se encontrava e
seguiu em direção ao final da vila. A jovem, sem titubear, foi atrás. Ao passar
por uma das casas, como a porta estava aberta, pôde ver na sala dois
adolescentes: um menino e uma menina, que pareciam assistir televisão.
Como uma névoa densa e baixa, o silêncio pairava no local e isto era um
pouco incômodo. Tudo ali estava calmo, como se as pessoas limitassem-se
em ficar dentro de suas casas ou como se não houvessem outras pessoas na
vila além dela, do homem e os dois adolescentes que vira através da porta.
—A casa que anunciei foi esta, no segundo andar. Cada uma destas casas
se divide em duas: uma no primeiro e outra no segundo andar. E todas têm
dois quartos. Espero que não faça objeção por tratar-se de ser no segundo
andar, o que a torna um apartamento, até mesmo porque, se quiser quintal,
vai ter que procurar em outro local. Nesta vila, nem as casas baixas tem
quintal e espero que tenha percebido isto. A área externa deste local torna-se
comum para todos os moradores.
O homem havia parado em frente à penúltima casa do lado direito da vila,
e apontava um portãozinho que dava acesso à uma porta de ferro com vidro,
por trás da qual ficava a escada. Ele tinha razão: nenhuma das casas de baixo
tinha quintal. Suas varandas desembocavam direto na rua, o que fazia da área
comum da vila quintal para todas as casas. Sem esperar qualquer resposta, ele
prosseguiu: — Além de manter o portão principal sempre fechado, há outras
regras que devem ser cumpridas. Não são permitidos animais. Já nos bastam
os que, vez ou outra, surgem por aqui, vindos do bosque do outro lado. -
apontou para o muro. - O lixo é recolhido três vezes por semana: segundas,
quartas e sextas; e deve ser posto do lado de fora somente ao anoitecer, para
evitar problemas com a prefeitura. Festas também não são permitidas. De
forma alguma! Com o tempo você perceberá que a vizinhança é bastante
sossegada, e que barulho em excesso é um desagravo. Todo barulho deve ser
sempre mínimo para não incomodar os demais moradores e findar às dez da
noite, como é de praxe, conforme pontua a lei do silêncio. O único barulho
permitido após este horário, e sobre o qual infelizmente eu não posso
interferir, é o barulho do trem, já que a estação fica próxima daqui. - em gesto
automático, como se ensaiado, o homem apontou para a estação de trem
situada do outro lado da rua. — O último trem passa à meia noite, depois
disso só volta a circular pela manhã. Se eu não estiver enganado, o primeiro
trem passa às cinco horas da manhã.
Eram tantas as informações e imposições que a vontade de Tina foi
desistir. Dar as costas à Gaspar sem olhar para trás e buscar outro local para
morar. Arriscar, ousar, tentar qualquer outra coisa que representasse menos
problemas... Porém, dificilmente encontraria algo dentro de suas condições
financeiras. E, apesar de todas as regras, o lugar tinha seus atrativos. Além
disso, ela estava ali para trabalhar e morar, não para dar festas, portanto, as
exigências impostas pelo homem, apesar de incômodas, não seriam grande
empecilho. Engoliu em seco, esperando que ele prosseguisse.
—Aqui estão as suas chaves: esta é a chave deste portão de entrada, esta é
daquela porta que dá acesso à escada e a outra chave é da porta lá de cima, a
porta principal do apartamento. A chave maior é do portão lá da frente, que
dá acesso à rua. A porta da sacada também tem uma chave que está lá em
cima, na fechadura. Você quer ver primeiro a casa por dentro, pra ter certeza
de que a quer?
Era óbvio que ela queria ver a casa. Mesmo sem ter outra opção e
precisando de imediato de um lugar para ficar, não lhe passava pela cabeça
fechar negócio sem antes verificar a casa por dentro. Irritada, pegou o
chaveiro das mãos do homem, abriu o portão de acesso à porta, abriu em
sequência a porta seguinte e subiu as escadas, seguida por Gaspar, que não
fazia questão alguma de esconder sua insatisfação e sua pressa.
Eram dezoito degraus razoavelmente altos, o que tornava a subida
cansativa. Os azulejos de tom claro, pareciam gastos e encardidos, e
evidenciavam que a casa pedia com urgência uma boa limpeza.
Lá em cima, surpreendeu-se com o que encontrou. Em termos estruturais,
a casa, apesar de mal cuidada, realmente era melhor do que ela esperava e, de
certa forma, aquilo a animava. Pensou que fosse encontrar ambiente menor
considerando o valor do aluguel. Havia ainda alguma mobília dentro da casa,
fato que ela desconhecia e que não havia sido mencionado pelo dono do local
na ocasião em que fez contato por telefone. O homem antecipou-se em
justificar: — Essas peças foram deixadas pelo último inquilino. Era um
marinheiro que estava trabalhando na região... Foi embora... Voltou para sua
cidade natal... Alguma transferência de trabalho talvez, não sei ao certo. Só o
que sei é que ficou tudo aí e ainda não me desfiz de nada. Se tiver interesse
em algum móvel pode mantê-lo, mas, caso não tenha, ainda amanhã mando
um caminhão para retirar tudo.
Não eram muitas coisas. Uma escrivaninha com cadeira na sala, um sofá
antigo de dois lugares com almofadas que combinavam e uma estante de
caixotes envernizados, montada na parede, onde havia alguns itens
esquecidos. Na cozinha, havia uma bancada que se recolhia à parede, com
duas banquetas, uma geladeira simples e um pequeno fogão que parecia ser
também antigo, mas poderia ser aproveitado, além de algumas peças de
louça.
— Seu Gaspar, se isto não lhe têm nenhuma serventia e se o senhor não se
incomodar, pode deixá-los aqui. - "Eu economizo com isso!", completou em
pensamento. E era verdade. Sua realidade era simples demais para deter-se
aos detalhes de aproveitar ou não móveis ou objetos antigos abandonados na
casa. Qualquer tostão que pudesse deixar de gastar naquele momento,
considerando a incerteza do emprego recentemente adquirido, seria válido e
lhe ajudaria. Empreender gastos excessivos, não era sua intenção e, se os
móveis deixados para trás pelo morador pudessem ser utilizados por ela, seria
bom.
— Não me tem serventia alguma. Pra que vou querer estas tralhas? Eu
apenas gastaria dinheiro para chamar um caminhão e descarregar tudo no
lixão. Já que vai ficar com a casa e se é de seu interesse ficar com eles, que
faça bom proveito. - ele mantinha o tom arrogante e Tina precisou se
controlar mais uma vez.
O primeiro mês de aluguel foi pago em mãos, naquele mesmo momento,
firmando seu compromisso com aquele homem insuportável e, logo depois
disto, ele deixou a casa, despedindo-se rispidamente. Havia alugado a casa,
portanto, sua missão ali estava cumprida.
Tina sentou-se no sofá, observando o que encontrava-se à sua volta. Seus
pensamentos vagavam pelo ambiente recentemente conhecido. De alguma
maneira estava satisfeita e precisava acreditar que aquele passo, dado em
meio à tantas improbabilidades, seria proveitoso para seu desenvolvimento
profissional. Por mais que não fosse trabalhar diretamente no escritório da
revista, era necessário estar por perto, o que seria inviável caso se mantivesse
na casa dos pais. E não era só isso: já estava em tempo de ter sua
independência financeira e desenvolver maiores responsabilidades. Morar
sozinha seria seu primeiro passo e ela faria o possível para que tudo corresse
bem.
Por alguns minutos Tina direcionou sua atenção para os movimentos do
lado de fora do apartamento. De fato, a vila era tranquila, silenciosa, como se
todos ali respeitassem plenamente as regras determinadas por seu senhorio.
Ou como se tivessem receio de desrespeitá-las...
O tempo avançava sem piedade naquela sexta feira. Já era quase hora do
almoço e Tina tinha intenção de, ainda naquela tarde, ir até a casa dos pais
buscar alguns dos seus pertences, voltando no mesmo dia, para passar aquele
final de semana na nova residência. Era preciso habituar-se, ambientar-se, e
não havia qualquer intenção de retardar esta nova etapa de vida. Perder tempo
não fazia parte de seus planos.
Antes de deixar o apartamento para buscar o que era seu, abriu a porta da
sacada para conferir se estava em condições de dar-lhe mesmo segurança. Era
preciso inspecionar tudo e ela deveria ter se lembrado de conferir esta porta
ainda na presença do senhorio. Passaria noites sozinha naquela casa e não
podia correr riscos. Lá de cima, percebeu que tinha visão de quase toda a vila
e notou que, do tal bosque ao lado, isolado por um muro alto com cerca de
arame farpado, vinha uma brisa fresca, mesmo àquele horário, quando o sol
estava à pino. A brisa seria muito bem vinda nos dias mais quentes, em
contrapartida, os dias frios certamente seriam ainda mais frios.
O apartamento alugado por Tina, por ser de número par, ficava do lado
direito da vila. Na janela da casa em frente, a casa de número cinco, no
primeiro andar, algo lhe atraiu. Uma mulher, sem perceber que Tina estava na
sacada, parecia espiar através da janela. Não se tratava de uma visão
corriqueira: ela parecia ser bem alta e tinha os cabelos negros, longos e que
lhe escondiam por completo todo o lado esquerdo do rosto. Apesar de
estranhar um pouco a postura da vizinha, Tina rapidamente desviou sua
atenção da mulher e entrou. Respirou fundo, observando mais uma vez o
local onde passaria seus próximos meses.
Certamente conseguiria se adaptar ali. O que Tina tinha de simples em
suas atitudes e expectativas, tinha também de organizada e saberia cuidar
bem daquele local. O fato de ser um apartamento também não representava
um problema para ela, pelo contrário, pois sentia-se mais segura e, de certa
forma, mais acomodada também. Era melhor morar no andar de cima sem
incomodar quem estivesse embaixo e ela sabia que não incomodaria, do que
ter sobre sua cabeça algum vizinho barulhento, que se movimentasse demais
e atrapalhasse sua concentração, consequentemente, atrapalhando também
seu rendimento no trabalho e seu desempenho profissional. Precisava manter
a confiança no futuro que se apresentava e acreditar que a mudança lhe traria
benefícios; precisava acreditar que estar ali seria bom para seu
desenvolvimento profissional e pessoal. E ela faria com que o fosse!
Sabendo que seus pais a aguardavam para pegar suas coisas e ansiosa por
levar-lhes as notícias sobre o emprego, Tina apressou-se em buscar sua bolsa
na sala para voltar à casa deles o quanto antes. Depois de encontrá-la, fechou
a porta de acesso à sacada, sem perceber que seu movimento despertara a
atenção da tal mulher da casa cinco, que passou a observá-la disfarçadamente
por trás da cortina de sua janela.
Ao deixar a vila, rumo à casa dos pais, deu mais uma olhada nas casas ao
redor. A sensação que tinha era de incompletude e ela acarretava isso ao fato
de ser uma recém chegada. O tempo faria com que tudo se acertasse; ela
precisava acreditar e se deixar confiar no futuro e em suas possibilidades.
Quando passou pela porta da tal mulher sentiu um forte cheiro de incenso,
apesar de não vê-la mais na janela. "Ainda bem que cheiros não estão nas
regras!", pensou ao fechar o portão principal e deixar a vila.
2

- Sobre as boas vindas -

Quando o carro que levava Tina de volta à vila estacionou em frente ao


portão, a noite já havia caído. Percebeu que a iluminação na área externa, era
pouca, quase insuficiente, com postes antigos e no estilo colonial, o que não
combinava com a perspectiva de segurança declarada tão veemente pelo
senhorio, apesar de aparentemente combinar com seu pouco caso em relação
aos inquilinos. Em contrapartida, as casas apresentavam mais movimento que
aquele que fora percebido pela manhã.
Na casa de número um, onde encontrou seu Gaspar pela manhã, um casal
de velhinhos que tomava a fresca na varanda, a cumprimentou de forma
simpática.
— Boa noite, minha jovem. Você deve ser a nova moradora, que vem para
ocupar o segundo andar da casa seis, não é? - disse o velhinho sorridente. —
Seja muito bem vinda a esta vila! Eu sou Cândido, batizado assim em
homenagem ao ilustre artista plástico, cujas obras meu pai sempre apreciou.
E esta é minha amada esposa, Florência, mas todo mundo por aqui a chama
de Flor.
Tina esperava tudo, menos aquilo! Sentiu-se contente e um pouco surpresa
com a recepção que lhe fora dedicada. Ao final de um dia onde foi mal
recebida no escritório e também não viu nenhuma receptividade por parte de
seu senhorio, ser bem tratada por pessoas desconhecidas poderia ser
considerado um luxo. E, frente à tantas incertezas, isto a fazia feliz!
— Boa noite. Sou Cristina, mas podem me chamar de Tina. - ela
respondeu, também sorrindo, apesar de todo seu cansaço.
Cândido era um senhor bonachão, careca e simpático, que parecia fazer de
tudo para causar em Tina uma boa impressão e conseguira. Florência, não era
nada reservada e não privou-se de sorrir para a moça, mostrando também
alguma simpatia, mesmo que inicialmente tímida.
— Seja bem vinda à esta vila. Fazemos votos de que goste daqui.
Qualquer dia destes, quando já estiver acomodada, venha para uma conversa.
Eu e Flor gostamos muito de conhecer e conversar com os mais jovens.
Somos dois velhos e quase não temos companhia. - o velho sorria. — E não
se incomode com os outros moradores daqui, viu? Alguns são bem
reservados, mas é o jeito deles, nada pessoal, entende? Com tempo você vai
gostar daqui. Ou, pelo menos, vai se habituar...
Sorrindo, ela agradeceu e prometeu voltar para conversar quando estivesse
mais familiarizada com o local e já estivesse com sua vida organizada. Sentiu
mesmo vontade de aproximar-se daquele casal que a tratara tão bem sem
sequer a conhecer. Em sua concepção, tratar bem as pessoas era requisito
essencial à convivência em sociedade e ela valorizava bastante este tipo de
iniciativa, por isto, Cândido e Flor lhe causaram muito boa impressão.
Depois, seguiu rumo ao seu apartamento, ainda observando as demais
casas ao redor. Na casa onde, pela manhã, vira os dois adolescentes, a casa de
número três, que ficava ao lado da casa de Cândido e Flor, pôde ver pela
janela aberta uma mesa posta na sala para o jantar, apesar de não ver seus
moradores. Em cima, na sacada do apartamento no segundo andar desta casa,
um homem debruçado na grade fumava e observava a noite. Ao vê-la passar,
ele cumprimentou-a levemente com um aceno de cabeça. Ao menos foi esta a
impressão que Tina teve e, por via das dúvidas, achou melhor responder para
não passar por mal educada.
No primeiro andar da casa de número cinco, onde pela manhã vira a
mulher estranha, cujos cabelos escondiam um lado da face, a fresta de janela
permanecia aberta e a sala parecia estar iluminada apenas por um abajur de
luz bem fraca. O cheiro de incenso, como se estivesse impregnado,
permanecia, mas não havia nenhum sinal da moradora. Aquela mulher,
considerando a aparência de sua casa vista por fora e sua atitude mais cedo,
certamente, enquadrava-se entre os mais reservados, sobre os quais Cândido
havia falado. Tina respeitava isso, achava válido que cada pessoa preservasse
sua intimidade conforme achasse que deveria preservar.
Chegando ao seu portão, a casa seis, percebeu que o andar de baixo
também estava aceso. Debruçada na janela, uma jovem feia a cumprimentou:
— Oi! Foi você que alugou o apartamento aqui em cima, foi? - perguntou de
maneira direta, com voz esganiçada, sem rodeios, em tom que assemelhava-
se à fofoca e sem tirar os olhos da bagagem de Tina.
— Sim. Sou Cristina, mas todos me chamam de Tina. - ela respondeu
sorrindo e um pouco apressada, enquanto colocava a chave na fechadura do
portão que dava acesso à porta da escadaria de seu apartamento.
Tina percebeu que considerar a jovem feia era generosidade. Ela tinha os
cabelos escuros e lisos, com uma franja grande que usava presa por um
grampo no topo da cabeça; os olhos escuros eram caídos e escondiam-se por
trás de óculos grandes e redondos, com aro preto e lentes grossas, que lhe
deformava ainda mais; o nariz, redondo e arrebitado, lembrava muito o
focinho de um porquinho de desenho animado.
— Eu sou Júlia e moro aqui. - disse com desdém.
Ela tinha, aparentemente, uns vinte e poucos anos de idade. Seu tom de
voz e sua postura não agradaram muito à Tina em um primeiro momento,
mas ela tentou não se deixar levar por aquela impressão. Entretanto, sem ver
nada de relevante na informação dada pela vizinha, e sem saber se a intenção
de Júlia era intimidá-la por morar no andar de baixo, ou tentar demarcar
território, impondo-lhe ainda mais limites, Tina achou melhor encerrar a
conversa: — É um prazer conhecê-la, Júlia. Vou subir, pois, como você pode
ver, tenho muita coisa pra organizar lá em cima. - apontou as duas bolsas que
carregava penduradas nos ombros e a mala de rodinhas que puxava.
Despediu-se rapidamente e subiu as escadas, entrando no apartamento
enquanto Júlia continuou na janela. Lá em cima, Tina largou as bolsas e a
mala na sala, fechou a porta atrás de si e jogou-se cansada no sofá. Poderia
ter ficado na casa dos pais, aproveitado o jantar por lá e voltado apenas no dia
seguinte já que era sábado, mas, havia pressa em recomeçar. O futuro não
sabia esperar e ela também não! Como não tinha feito compras em
supermercado, apenas lancharia o sanduíche de queijo e presunto que
trouxera da casa dos pais, acompanhado de uma lata de refrigerante. Se a
fome insistisse, havia alguns bombons em sua bolsa. Frente à tanto cansaço,
qualquer lanche ou petisco era um verdadeiro banquete!
Por ter ficado o dia todo fechada, a casa estava quente. Lembrando-se da
brisa que emanava do bosque, Tina abriu a porta da varanda e levou a cadeira
da escrivaninha para a sacada, onde sentou-se para comer e observar a
vizinhança à distância. Como era jornalista e na faculdade aprendera a
esmiuçar algumas situações, considerava este primeiro contato visual
bastante importante na formação de suas próprias opiniões.
De longe, via que Cândido e Flor permaneciam na varanda de sua casa.
Na casa três, as pessoas já estavam sentadas à mesa e jantando. Não dava
para ver direito, mas lhe pareciam ser os dois adolescentes e uma senhora de
meia idade, provavelmente a mãe. O homem no apartamento de cima também
já havia entrado, mas a porta de sua sacada permanecia aberta, permitindo
que seus movimentos do lado de dentro fossem observados. Inicialmente, ele
ia de um lado ao outro da sala e, minutos depois, com um livro nas mãos, lia
dando voltas ao redor de uma mesa na sala. No andar de baixo da casa cinco,
tudo se mantinha como antes: à meia luz e apenas uma fresta de janela aberta.
Nenhum movimento de pessoas ou variação de iluminação que pudessem ser
verificados. Nada mudara desde que havia chegado na vila.
Da sacada, enquanto lanchava, sintonizando sua audição no silêncio da
noite, Tina pôde ouvir uma voz que parecia ser de Júlia. A vizinha da casa de
baixo falava ao telefone, sem preocupar-se se seria ou não ouvida por outras
pessoas.
— É uma garota! E, eu te falo com toda a minha sinceridade: ela é bem
bestinha, pelo menos foi o que eu achei e eu não costumo me enganar.... -
Júlia falava compulsivamente, como se não desse tempo de resposta à pessoa
que estava do outro lado da linha. — Como se não bastasse ser besta, ainda é
feia, coitada! Feia de dar dó, você precisa ver! Chegou carregando só duas
bolsas e uma mala, sem mudança... Não chegou mudança! Nenhuma peça de
mobília! Aposto com você que ela vai aproveitar tudo que ficou lá em cima.
Vai se apossar de tudo...
Sabendo tratar-se dela, Tina não gostou do que ouviu. Feia? Besta? Não!...
Ela não era nada daquilo! Pelo contrário! E ouvir o que a vizinha acabara de
dizer a deixou indignada.
Tina era uma moça vistosa, de altura mediana e corpo esguio. Tinha
cabelos muito lisos e castanhos bem claros, mantidos em corte reto na altura
do queixo e que emolduravam perfeitamente seu rosto delicado. Os olhos
tinham cor indefinida, de forma que em dias claros habitualmente estavam
verdes e nos dias mais sombrios adquiriam a coloração do mel. Poucas sardas
salpicavam-lhe as bochechas e a base do nariz, mas ela não considerava isto
um defeito. Seus dentes eram claros e bem alinhados, o que resultava em um
sorriso perfeito. Se a vizinha a achava feia, certamente não tinha um espelho
em casa! E, se tinha, não o usava!
Dentro da bolsa, o telefone celular tocou, fazendo com que Tina entrasse
rapidamente para atendê-lo, deixasse de lado a conversa da vizinha e
esquecesse de fechar a porta da sacada. Era seu pai, para saber se tudo estava
bem e desejar-lhe uma boa primeira noite na casa nova. Ela não estranhou o
telefonema; estranho seria se eles não buscassem notícias suas.
Como era filha única, a preocupação dos pais para com ela era constante e
até excessiva. Na situação nova em que se encontrava, esta preocupação
aumentava drasticamente. Eles tinham receio de que ela não desse conta de se
virar sozinha na nova casa, que não se habituasse, que corresse riscos, que
sentisse medo ou qualquer outra coisa típica de pais cuidadosos. Tina nunca
tivera experiências daquele tipo, nunca foi preciso que ela arcasse com
responsabilidades. Pela primeira vez estaria no comando de sua vida e isto,
certamente, preocupava seus pais, apesar de ambos terem total confiança na
criação que deram à jovem.
O pai a reteve no telefone por exatos trinta minutos. Sem jeito e
entendendo a preocupação dele, Tina não o interrompeu em momento algum.
Depois, foi a vez da mãe dar-lhe conselhos, estendendo-se por mais alguns
minutos consideráveis. Era preciso acostumar-se, pois, ela tinha a mais
absoluta certeza de que, dali para a frente, seria daquele jeito.
Ao desligar o telefone, estava exausta. O cansaço era tanto que ali mesmo,
no sofá da sala, ela apagou, pegou no sono. Dormiu pesado. Acordou tempos
depois, assustada com o barulho do trem que passava pela estação em sua
ultima viagem. Meia noite! Em outros horários o barulho poderia até passar
despercebido, porém, tarde da noite, o sossego da madrugada o amplificava e
tornava bastante incômodo para quem ainda não o havia reparado. Precisaria
se habituar também àquela suposta invasão sonora noturna... Levantou-se do
sofá e deparou-se com um gato preto, de olhos verdes, que, de cima da
escrivaninha, a encarava. Ela gelou e se encolheu bruscamente com a
presença inesperada.
Assustado com seu movimento, o gato miou e, em um salto repentino,
desceu do móvel, atravessou a sala saindo rapidamente pela porta da sacada
que havia sido esquecida aberta, provavelmente por onde ele também havia
entrado.
Considerando que animais eram proibidos na vila, Tina estranhou o fato
de encontrar um gato no meio de sua sala. Porém, era um animal inofensivo e
cuja presença, apesar de tê-la assustado, não a incomodara. Foi até a sacada e
não viu mais o animal. Assim como entrou sem ser notado, o gato sumiu sem
deixar rastros. "Coisas de gato!", ela pensou.
A vila já estava completamente deserta, como se todos os seus habitantes
tivessem se recolhido. O único movimento que notou foi a janela do andar de
baixo da casa cinco, cuja fresta aberta até então, acabava de ser fechada por
mãos femininas, de unhas longas e vermelhas. Provavelmente a mulher de
cabelos negros e compridos tinha hábitos notívagos e dormia tarde. Deveria
estar se recolhendo àquela hora... De resto, apenas o silêncio da madrugada,
exatamente como postulava o senhorio.
Ficou ali por alguns minutos, observando o local e perguntando-se qual
era a realidade dos moradores daquela vila. Deveriam ser pessoas pacatas,
que acatavam com subserviência o que lhes impunha Seu Gaspar, ou pessoas
às quais as exigências do homem não incomodavam, caso contrário não
estariam mais na vila.
Deixou seus pensamentos vagarem. Não era difícil entender a suposta
realidade de seus vizinhos... Provavelmente, assim como ela, precisavam de
local para morar cujo aluguel fosse acessível e a vila oferecia isto. Frente às
tantas dificuldades impostas pela realidade da maioria das pessoas, acatar
algumas regras em troca de moradia boa e barata não soava como pecado
mortal. De certo, subordinavam-se às condições impostas por verem
vantagens no local.
Tina fechou a porta de sua sacada, certificou-se de que a porta principal da
sala também estava fechada, e voltou ao sofá para dormir. Sem móveis de
quarto, aquele sofá seria sua cama durante algum tempo.
3
- Pessoas estranhas -

Apesar de ser sábado e de ter custado a dormir após o incidente com o


gato, no dia seguinte Tina acordou cedo, com a cantoria dos pássaros no
bosque do outro lado do muro. Ela tinha pressa em recomeçar! Abriu a porta
da sacada, inspirou lentamente o ar matutino e espiou do lado de fora, vendo
que a vida começava a despertar na casa de alguns de seus vizinhos. Em
seguida, entrou pensando em como faria para se alimentar. Precisava ir ao
supermercado, pois, não havia suprimentos na casa; mas acreditava que
deveria ter por ali alguma padaria, onde pudesse saciar sua necessidade de
um bom café quente, antes das compras. Seu corpo ansiava por uma xícara de
café fumegante, daqueles que queimam a língua! Seus devaneios foram
interrompidos por alguém que a chamava.
Olhou da sacada e viu Flor, que esperava ser atendida.
— Bom dia, Tina. Eu estava esperando que você acordasse e vim logo que
vi sua sacada aberta. Venha para o café! Não vi movimento de supermercado
e imagino que você não tenha feito compras ainda. Eu e Cândido fazemos
questão de que você tome seu café da manhã conosco hoje.
Tina não tinha nenhuma intenção de aproveitar-se da boa vontade e da
simpatia daquele casal, mas o convite para o café caseiro, além de
excessivamente tentador, vinha a calhar. Tomou uma chuveirada rápida,
escovou os dentes, arrumou-se, pegou a bolsa com a carteira e o telefone
celular, pois, de lá iria ao supermercado, e desceu seguindo para a primeira
casa da vila. Passou pela mulher da casa três, onde moravam os dois
adolescentes, que varria a calçada em frente a sua fachada e a cumprimentou.
Parecia ser boa gente, mas isto somente o tempo poderia confirmar.
Na casa de Cândido e Flor, a mesa para o café estava posta na cozinha.
Tina surpreendeu-se ao ver que, assim como pelo lado de fora, por dentro a
disposição dos cômodos era exatamente igual ao seu apartamento, conforme
seu Gaspar mencionara .
— Bom dia, Cristina! - Cândido, entrando na cozinha, pareceu satisfeito
ao vê-la chegar.
— O senhor pode me chamar de Tina. Todo mundo me chama assim
desde pequena.
Ela não sabia se por costume ou pela praticidade, mas sempre preferiu ser
chamada pelo apelido e, naquele momento, estava encantada com o cheiro de
café fresco que sentia.
— Certo, Tina. Sente-se e sirva-se. Sinta-se em casa. E aproveite o bolo,
que está fresquinho! Minha Flor cozinha muito bem. Eu não saberia viver
sem ela.
Cândido e Tina sentaram-se à mesa, enquanto Flor chegava com o bule de
café e se acomodava ao lado do marido. Havia pão fresco, manteiga e queijo,
uma jarra de suco, leite quente e bolo de fubá com coco.
— Conte, Tina, o que a trouxe para cá? - Cândido demonstrava interesse
em conhecer a história da jovem e ela não se negou a falar.
Enquanto servia-se de uma fatia de bolo, Tina respondeu: — Sou
jornalista, formada de pouco tempo e encontrei emprego aqui perto, no
escritório de uma revista. Não muito perto, fica mais para os lados do centro,
porém, é nesta cidade. Como a minha família reside em outro município,
achei que fosse melhor me mudar para facilitar minha rotina e o meu
desempenho no trabalho.
— Jornalista? Que interessante! Nunca tivemos nenhum jornalista
morando aqui na vila. Temos um médico e até um padre, mas jornalista nós
nunca tivemos. - disse Cândido.
Padre?! Era certo que Tina ainda não vira todos os moradores da vila, mas
não lhe passou pela cabeça que pudesse ter um padre como vizinho próximo.
Talvez o sossego local servisse como um atrativo para o religioso. Sua
estranheza deve ter despertado no casal de velhos a necessidade de explicar,
apesar de ela não ter perguntado nada.
— O rapaz que mora no apartamento aqui de cima é padre. Veio
transferido. Está na cidade faz um ano, por causa de um curso de pós
graduação que faz na universidade e mora na vila fazem uns seis meses. Ele
se chama Bernardo, Padre Bernardo. É muito tranquilo, uma boa pessoa...
Um verdadeiro homem de Deus! - Flor esclareceu, dando mais detalhes do
que Tina esperava em relação ao padre e mostrando-se bem faladeira.
Apesar de ter alguma curiosidade sobre o local e seus habitantes, falar
sobre a vida pessoal dos vizinhos não era a sua intenção. Não, de forma
alguma. Sentia-se como se estivesse invadindo espaços que não lhe
competiam, como se estivesse indo além do que o bom senso permitia. Ela
não gostava de fofoca e aquilo, de alguma forma, lhe soava como se fosse.
Sem querer frustrar seus vizinhos, mudou de assunto com delicadeza: — O
bolo está delicioso, Flor. Me faz lembrar os bolos de minha mãe. - e era
verdade! —Fico grata pelo convite. Eu procuraria uma padaria onde pudesse
tomar café antes de sair para ir ao supermercado. - foi o que conseguiu dizer.
Procurou manter o tom impessoal durante todo o café. Por mais que o
casal de velhinhos lhe parecesse bastante simpático e sociável, ela não queria
que pensassem que tinha interesse em especular seus vizinhos. Pelo
contrário! Sua intenção era evitar conversas sobre outras pessoas, conforme
aprendera com a mãe. Após a refeição, agradeceu e deixou a casa, para ir ao
supermercado.
Os pensamentos dela vagavam entre passado e futuro. Até a véspera tudo
sempre fora centrado e sua vida parecia seguir sem desvios, certeira como em
um manual de eletrodomésticos simples. Bastou apenas um dia para que a
incerteza lhe povoasse todos os demais, sombreasse todos os outros dias que
ainda estavam por vir. Não era somente sua rotina que havia mudado; toda a
realidade se transformara a partir do momento em que aceitara o emprego na
revista. Ela não sabia o que estava por vir, mas queria muito pagar para ver.
Ao sair da vila, tão logo atravessou a passagem de entrada, a figura de um
andarilho lhe despertou a atenção. Ele estava ao lado direito do portão
principal e, junto dele, um carrinho velho de supermercado repleto de
quinquilharias. Eram objetos, sacolas, caixas de sapatos, jornais amarelados
e, pela frente do carrinho, uma boneca velha e encardida, que deveria ter sido
abandonada no lixo e encontrada pelo homem. Suas vestes também não eram
nada agradáveis de ver: vestia roupas sujas e muitos trapos pendiam-lhe dos
braços e das pernas. Havia trapos amarrados até mesmo em seus calçados.
Ele a olhou e, no meio do rosto sujo, surgiu um sorriso com dentes perfeitos,
bem alinhados e de um branco impecável, seguido de um cumprimento: —
Bom dia, moça bonita! - e abaixou-se em reverência, como Tina via nos
filmes de época.
Ela respondeu ao cumprimento do andarilho, sorriu e seguiu seu caminho,
pensando no que devia passar aquele homem, trajado daquela forma, pelas
ruas da cidade. Devia ser tratado como um louco... Certamente as pessoas
tinham medo dele, ou até repulsa, o que não deveria lhe render respostas ou
reações muito agradáveis. Entretanto, ao menos cordial e educado o homem
era.
No supermercado, não se surpreendeu ao ver que as mercadorias eram
bem mais caras que na sua cidade e precisou se conter para comprar apenas o
necessário para sua alimentação, higiene pessoal e limpeza da casa nos
próximos dias, de forma que os gastos não fossem excessivos. Frente à tantas
incertezas, não havia como gastar muito. Porém, como não tinha nada em
casa, ao sair do supermercado carregava cinco sacolas pesadas e seria
complicado tomar um ônibus com tudo aquilo sem desequilibrar-se. Além
disso, o gasto no supermercado fazia com que qualquer outro gasto fosse
considerado desperdício, portanto, tomar um táxi para casa não estava em
seus planos.
— Precisa de carona? Eu também estou indo para a vila. - no
estacionamento que dava acesso à saída do supermercado, uma voz de
homem falou atrás dela.
Ao virar-se, constatou tratar-se do homem que morava no apartamento de
cima da casa três, que na véspera fumava na sacada e, mais tarde, andava ao
redor da mesa. Percebeu que tratar-se de um sujeito alto, que aparentava ter
mais de trinta anos e era moreno, bonito e de postura elegante. Tina ficou
sem graça e sem saber se deveria ou não aceitar a carona oferecida pelo
sujeito. Ele era um estranho... Entretanto, considerando o peso de suas
sacolas, a distância até a vila e a dificuldade em tomar condução, decidiu
aceitar e contar com a sorte de não ter problemas.
— Se não for incomodar o senhor, eu aceito.
— Humberto. Me chame apenas de Humberto, por favor. Não tenho idade
para este tipo de tratamento, pelo menos não por enquanto.
Tina agradeceu e entrou no carro. Não demoraram nem dez minutos para
chegar à vila e Humberto, diferente de Cândido e Flor, não disse
absolutamente nada durante o trajeto, não lhe perguntou nada, não quis saber
da vida dela e não falou de sua própria vida ou da vida dos vizinhos. Nem
uma palavra. Nadinha! Quando o carro chegou à vila, o andarilho ainda
estava por lá, porém, sentado no chão do outro lado da calçada, com seu
carrinho de quinquilharias.
Humberto estacionou em frente à casa de Tina e a ajudou a descarregar
suas compras; depois, dirigiu de volta à frente de sua casa, subindo
rapidamente com suas duas sacolas. Enquanto Tina colocava as mercadorias
para dentro do portão de acesso ao seu apartamento, algo lhe chamou a
atenção.
—Psiu!...
Olhou ao redor e não viu ninguém. Era hora de almoço e o sol estava alto,
deixando a vila deserta. Pensou tratar-se de sua imaginação, alguma
impressão qualquer.
— Psiu! - ouviu novamente.
Olhando mais uma vez, apenas o que pôde ver foi a mulher de cabelos
escuros, na janela da casa cinco. Ela a chamou, fazendo um gesto rápido e
discreto com as mãos e Tina, receosa, foi até lá, para ver do que se tratava,
sentindo mais forte o cheiro de incenso. Ao aproximar-se, ouviu da mulher:
— Somente quero agradecer por ontem.
Tina não entendeu o motivo daquele agradecimento e a mulher percebeu
que ela não sabia sobre o que falava.
—Meu gato, Sétimo. Ele entrou na sua casa durante a noite e você não
falou para ninguém. É preciso ser grata por isso e um dia poder retribuir este
favor.
— Sétimo?... - ela achou curioso o nome dado ao gato.
— Sim, Sétimo. Ele é o sétimo gato, antes dele foram outros seis, todos
assim: negros e de olhos verdes. É preciso mantê-lo escondido para no ter
problemas com o senhorio e, se algumas pessoas aqui da vila o descobrirem,
certamente falarão ao Gaspar. A janela ficou entreaberta e ele saiu no meio da
noite, indo para sua casa. Sétimo gosta de fazer passeios noturnos... Você o
viu e não contou para ninguém. Muito grata.
— Não precisa me agradecer. Entendo as regras do senhorio, mas sei que
um gato não faz mal a ninguém. Seu segredo está guardado comigo... -
interrompeu a frase quando deu-se conta de que desconhecia o nome da
mulher.
— Maria.
Maria tinha na fala um sotaque que assemelhava-se ao castelhano, o olhar
forte, porém, sem nenhuma arrogância; e mantinha os cabelos exatamente
como na véspera: escondendo um lado de seu rosto. Do lado direito, onde o
cabelo revelava-lhe a face, usava uma pequena flor artificial presa com um
grampo. Tina só via-lhe o busto mas percebeu que vestia uma camisa
decotada, com estampa floral que mesclava o preto e o vermelho. Na mão
tinha um cigarro aceso e posicionado em uma longa piteira. De certo tinha
mais de quarenta anos e era muito bonita, completamente diferente da
impressão inicial que Tina tivera dela na manhã de sexta, quando a viu na
janela ao chegar na vila.
— Certo, Maria. Pode ficar sossegada, pois, não falarei nada para
ninguém.
A mulher sorriu, deixando à mostra uma falha de ouro em um dos dentes e
Tina despediu-se, afastando-se em direção à sua porta, para subir as sacolas
de compras. O contato com Maria a havia intrigado, apesar de não tê-la
intimidado. Antes de subir, percebeu que na casa de Júlia havia um rádio
ligado em um programa de auto ajuda, cujo locutor mais parecia um
charlatão. De fato, pela forma como agia, Júlia precisava muito daquilo!
Colocou uma lasanha congelada que trouxera do supermercado no forno
para assar enquanto arrumava o restante das compras. Era hora de almoço e
sabia que não adiantava correria: sozinha ali, sem televisão ou qualquer outra
coisa que a distraísse, a segunda feira, seu primeiro dia de trabalho, custaria
muito para chegar e, quanto mais tempo se mantivesse ocupada, melhor seria.
Rapidamente tudo estava organizado: o que era de geladeira foi colocado
dentro da geladeira e o restante, como não havia armário, foi guardado em
um canto sobre a bancada da pia. E seria assim até que, aos poucos, pudesse
ir comprando o restante da mobília.
Tina não sabia exatamente o motivo, mas, apesar de não haver nada de seu
ali, também não tinha pressa alguma em mobiliar o apartamento. Gostaria de
poder fazer tudo com calma, minuciosamente, escolhendo móveis e peças
que fossem de seu agrado e transformando o local em um ambiente
acolhedor; algo simples, porém, que tivesse o seu jeito. De certa forma, para
que isto se concretizasse da maneira como almejava, seriam necessários
alguns meses de trabalho e bastante economia. Enquanto almoçava, ela
imaginou diversas possibilidades de arrumação... Uma estante para a sala e
uma rede na varanda, um armário de cozinha, uma cama confortável no
quarto dos fundos e uma boa poltrona na sala. Porém, sua prioridade seria
uma televisão.
O marasmo instalou-se após o almoço. O que ela poderia fazer ali para
que o tempo passasse? Pegou uma revista esquecida na sala pelo antigo
morador e sentou-se na sacada folheando-a, pois, assim aproveitaria para dar
mais uma olhada na vizinhança.
Um rapaz que passava descontraidamente pela vila despertou sua atenção.
Tina ficou sem jeito quando ele acenou, percebendo que ele havia visto que
ela o acompanhava com o olhar.
— Oi. Sou Dalton, da casa dois. Você é Tina, não é? Flor me falou que se
mudou para cá. As notícias por aqui correm bem rápido... Seja bem vinda.
Espero que goste da vila e da... vizinhança. - ele sorria.
— Obrigada. Eu também espero gostar daqui.
—Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa que seja, é só bater lá em
casa. Nem sempre estarei por lá, mas no que eu puder ajudar, pode contar
comigo. E se eu não estiver, pode deixar recado com a Clara, que divide o
aluguel comigo. Tenho certeza de que ela, se puder, terá muito prazer em
ajudar também.
Neste momento a conversa dos dois foi interrompida por uma batida de
janela que parecia vir do andar de baixo. Certamente, Júlia estava
incomodada com o barulho ou com a receptividade do vizinho para com a
nova moradora da vila. Dalton, que também percebeu a reação da vizinha,
deu um sorriso meio irônico e não perdeu tempo: — E não se deixe abater
por certas reações loucas. - ele disse debochando da moradora do primeiro
andar e depois continuou: —Tem gente que já nasceu chata. Aliás, vou
aproveitar e te fazer um convite! Mais tarde, venha lanchar em casa, assim
nós podemos conhecê-la melhor. Clara estará por lá também.
Tina ficou contente com a possibilidade de ter momentos diferentes. Não
sabia exatamente o porquê, mas ela havia simpatizado de imediato com
Dalton e não via motivos para não aceitar o convite. Uma conversa ao final
da tarde, com jovens cujas idades regulavam com a sua, seria ideal para
passar o tempo.
— Eu vou sim. Mais tarde estarei lá. Obrigada. - ela agradeceu satisfeita
por ter com quem conversar.
— Certo! Estarei esperando. - Dalton despediu-se com um aceno de
cabeça e seguiu de volta em direção à sua casa.
De fato o rapaz era simpático. Tratava-se de um mulato alto, com cabelos
rastafári com ponteiras coloridas e presos em um rabo de cavalos que pendia
até o meio das costas, cujo sorriso, com dentes grandes e alvos por trás de um
aparelho metálico, esbanjava simplicidade. Suas roupas também eram
simples, joviais: bermuda, camiseta e chinelos. Ela gostava de gente assim,
gente que se comunicava desinteressadamente e, por isso, acreditava que ele
poderia ser uma boa companhia.
Tina continuou na sacada, observando a vila. Na casa três, onde moravam
a mãe e os dois adolescentes, a janela estava fechada, dando impressão de
casa vazia. Já em cima, no apartamento de Humberto, a porta da sacada
estava aberta e via-se seu movimento lá dentro da sala. Maria, vez ou outra,
chegava à janela de sua casa e dava também suas espiadas para o lado de
fora. Cândido e Flor, de braços dados, deixavam sua casa. Na passagem até o
portão da vila, cruzaram com um homem de altura mediana que entrava e
pararam com ele por alguns minutos. Curiosa para saber de quem se tratava,
Tina continuou observando aquele contato, para ver para qual casa o tal
homem iria quando findado o assunto. De longe, ele parecia ter uns quarenta
anos, ou talvez um pouco menos; não dava para distinguir, visto que trajava
roupas sóbrias e que poderiam lhe aumentar a idade. Alguns minutos depois
despediram-se e o homem entrou no portão de acesso ao apartamento que
ficava sobre a casa de Cândido e Flor. Era o padre sobre quem o vizinho lhe
havia falado e que, ao deixar o casal de idosos, subiu rapidamente para seu
apartamento. Uma vez lá em cima, manteve sua sacada fechada.
A tarde passou arrastada. Parecia ser sempre assim: quando não havia
nada por fazer, nada que favorecesse a passagem das horas, estas se
estendiam ou ao menos pareciam se estender além do permitido. E Tina não
gostava nada daquilo. Não carregava consigo a pressa típica dos
adolescentes, mas, em contrapartida, não se sentia bem em dias
aparentemente estáticos, onde o tempo parecia vagar sem rumo, sem
perspectivas de avanço. A falta de acontecimentos a irritava.
Antes, quando morava com seus pais, tudo era muito diferente. Vinha de
um lugar barulhento, onde de dentro de casa ouviam-se as brincadeiras das
crianças correndo pela rua, o transitar de veículos e os sons de buzinas altas e
insistentes, que despertavam quem quer que fosse. Vinha de um local
movimentado, com pessoas animadas, que não ocupavam seus dias com o
silêncio ou com a passividade. Seus ouvidos estavam acostumados com os
tumultos do cotidiano, com idas e vindas do lado de fora da janela. Sua rotina
estava habituada ao passar repentino das horas e às presenças. De alguma
forma, aquela movimentação toda lhe fazia falta. Muita falta, apesar de ter
convicção de que deveria resignar-se à sua nova realidade, pois, naquele
momento, era disso que dependia caso quisesse realmente progredir no
campo profissional.
Morar sozinha não necessariamente significava estar sozinha. Havia os
pais, com quem poderia contar se algo não corresse bem; havia sua antiga
casa, para onde poderia voltar se fosse necessário. "Quisera Deus que não o
fosse!", ela pensava. Não por não querer retornar para a casa onde vivera,
mas por querer progredir, por precisar desenvolver-se profissionalmente e
pessoalmente também. Já era tempo de crescer! Era tempo de tornar-se
responsável por sua própria vida e atuante no mundo; era tempo de ser um
pouco mais do que fora até então. Ela sabia perfeitamente disso! Sabia que a
nova vida apresentaria desafios e que caberia a ela enfrentá-los ou digeri-los
da melhor forma possível. Caberia a ela e somente a ela, evitar retrocessos!
Sabia que manter-se ali não seria tarefa simples, mas havia disposição para
encarar o que lhe estivesse reservado.
4

- Um vulto à espreita -

No horário em que o sol ameaçava se recolher, Tina estava de banho


tomado e pronta para ir até a casa dos vizinhos. Penteou rapidamente os
cabelos e passou um brilho leve nos lábios. Desceu a escadaria e, na calçada,
pôde ouvir mais uma vez o som do rádio vindo da casa de Júlia e que,
aparentemente, era mantido na programação de autoajuda.
Tina atravessou a vila lentamente, buscando perceber detalhes ainda não
vistos. Observou que a instalação de gás da vila ficava próxima ao muro que
dava para o bosque. A janela de Humberto continuava aberta, assim como a
porta da casa dos adolescentes estava aberta novamente. Viu o menino lá
dentro e o cumprimentou com um breve aceno, sem obter nenhuma resposta.
Apesar de estranhar o fato, não se deteve à ele. Seguiu rumo à casa dois, onde
moravam Dalton e Clara. Algumas casas mantinham-se fechadas e imaginou
que talvez, assim como o apartamento da casa oito, que ficava ao lado do seu,
também estivessem vazias.
— Oi, Tina! Entre. Já estávamos esperando por você. - disse Dalton de
dentro da sala, ao vê-la se aproximar.
Tina entrou e foi apresentada à Clara que, assim como Dalton, era
bastante simpática e faladeira. A casa não era bagunçada, mas pelo estilo
percebia-se tratar de lugar habitado por jovens. Os móveis eram poucos,
porém modernos; outros elementos eram improvisados, como as prateleiras
recicladas e pintadas com tinta de cor viva e vibrante, que montavam uma
estante em um canto da sala. Nas paredes, algumas pinturas abstratas e sobre
as poltronas, almofadas e mantas grandes, todas de estampas muito coloridas.
Clara era alta, magra, de pele muito branca e cabelos longos e
encaracolados em um louro natural que, de tão claro, chegava a ofuscar a
visão. Seus olhos eram azuis como o céu. A maquiagem forte demarcava os
traços de seu rosto. Ela ostentava no nariz um discreto piercing de cristal e
algumas tatuagens no pescoço e nos braços.
— Enfim, parece que temos gente normal morando aqui! - foi a forma
como Clara saudou Tina que, sem graça, deu apenas um sorriso.
Era complicado para Tina sentir toda aquela suposta implicância entre
vizinhos e, até aquele momento, tirando Júlia, todos os demais com os quais
fizera contato, foram cordiais e lhe trataram bem. Não queria causar a má
impressão de não compactuar da conversa, mas também não achava correto
maldizer os vizinhos gratuitamente. Durante toda sua vida sempre buscou
fazer o que aprendeu ser justo e não considerava justo falar daqueles que
ainda não conhecia.
— Não fale assim, Clara. Desse jeito você vai espantar a nossa nova
vizinha. - retrucou Dalton em tom de voz que denotava para brincadeira.
Sentaram-se na sala e conversaram informalmente enquanto a noite se
aproximava. Dalton era ator de novelas, mas nunca tivera papel significativo
e talvez por isso Tina não tivesse lembranças de tê-lo visto em alguma
produção da programação televisiva. Já Clara era bailarina profissional e
trabalhava em uma companhia de dança. Por conta de seu trabalho estava
sempre viajando com apresentações variadas pelo país. Eram artistas e isso
explicava a espontaneidade e jeito divertido dos dois.
— Quer dizer então que você já conhece alguns dos moradores da vila? -
Dalton perguntou, após Tina ter comentado que fora bem recebida pelo casal
da casa um.
— Sim. Conheço Cândido e Flor. Já vi o padre e a senhora que mora com
os dois filhos na casa três. Conheço também Humberto, que mora no
apartamento de cima, e a Maria, da casa cinco. Ah! E Júlia... Não posso me
esquecer de Júlia.
— Tem razão, querida! Júlia é inesquecível! Quem olha pra ela não
esquece nunca mais, tamanha a feiura da coitada... - Clara era realmente
debochada, não havia mais como negar isto.
Dalton, aparentemente surpreso, perguntou: — Você já conhece a
espanhola?
Tina entendeu tratar-se de Maria e confirmou com um aceno de cabeça.
— Isso me espanta! Ela é bem reservada e não costuma falar muito com
as pessoas, principalmente com recém chegados, apesar de estar sempre
espiando pela janela. Eu mesmo só tirei um 'bom dia' dela depois de tempos
morando na vila. - Dalton explicou-se.
Clara complementou:
—É! O cara do apartamento três também é de poucas palavras. Estranho
que ele tenha se aproximado de você, Tina. Acredita que pouco se sabe a
respeito dele? Já mora aqui há algum tempo... Mais ou menos uns seis meses.
Quase não sai de casa e quando sai, pelo que se pode observar, é para coisas
rotineiras, como supermercado ou banco. Não tem nem rotina de trabalho,
não tem horários... Ninguém aqui tem qualquer contato com ele.
Procurando mais uma vez desviar-se de assuntos tão diretos sobre os
vizinhos, Tina perguntou: —E as outras casas? Sei que o apartamento da casa
oito está vazio, mas não vi movimento na casa de baixo, assim como em
algumas outras casas da vila. - ela precisava saber mais sobre a vila, apesar de
não ter intenção de esmiuçar as vidas de seus moradores.
— Sim, a casa oito está vazia e o apartamento em cima dela também.
Parece que precisam de reformas. Quem mora em cima da espanhola é o
Rafael. Ele é médico e passa mais tempo no hospital onde trabalha do que em
casa. E quando está em casa dorme pra compensar o tempo de trabalho. São
muitos plantões... Deve estar em meio à algum deles e por isso você ainda
não o viu. Aqui em cima de nossa casa fica o apartamento da Dora, mas ela
está fora há mais de duas semanas, cuidando da mãe adoentada. - o rapaz
explicou, passando a palavra à Clara que prontamente continuou explicando.
— Cândido e Flor você já conhece, assim como viu o padre que mora no
apartamento em cima da casa deles. A mulher da casa três se chama Berenice
e ficou viúva faz pouco tempo. Ela tem um casal de gêmeos: o Paulo e a
Lúcia. Eles tem uns quinze anos, se eu não me engano... O Paulo é cego.
Teve um problema de saúde que o fez perder a visão ainda quando era bem
pequeno. A irmã é quem o ajuda o tempo todo, em tudo, inclusive nos
estudos.
Tina entendeu então o porquê de ter cumprimentado o jovem sem receber
nenhuma resposta e sentiu vergonha por seus pensamentos na ocasião.
— A casa quatro está vazia também e não deve ser ocupada tão cedo. Já
no apartamento em cima dela quem mora é o Lobato, que é mecânico e
trabalha em uma oficina duas ruas abaixo desta. Ele pouco para em casa
também. É extremamente introspectivo, grosseiro e antipático. E na casa sete,
embaixo, mora a Aurora, que é muito reservada e não dá conversa pra
ninguém aqui. No apartamento em cima da casa dela, temos Pedro e
Jaqueline, casados e vindos do interior. - Clara falou sobre cada um dos
vizinhos.
Tina ouviu tudo aquilo tentando imaginar como eram os vizinhos que não
conhecia e ainda se culpando por ter julgado mal Paulo, quando este não a
respondeu. Curiosa com a perspectiva apontada por Clara de a casa quatro
não ser ocupada tão cedo, perguntou: — Você disse que a casa quatro não
deve ser ocupada tão cedo. O que houve lá?
— Buh!... Morte! Suicídio! - disse Clara, em tom de suspense,
movimentando as mãos e arregalando os olhos, como se quisesse despertar
algum medo em Tina.
Dalton, aparentando alguma tensão ou desconforto, tentou contornar a
situação de piada feita pela amiga: — Não se sabe ao certo. Quem morava lá
era o Clemente. Ele beirava os cinquenta anos e trabalhava com eventos e
animação de festas, caracterizado como palhaço. Um dia ele foi encontrado
enforcado, pendurado no lustre da sala. A polícia constatou ter sido mesmo
suicídio. Dizem que Aurora era apaixonada por ele... Que tinham um caso.
Aparentemente ela até hoje não se conforma com isso. A história ganhou
mundo por aqui e a casa, como se carregasse um estigma, nunca mais foi
alugada, ficando conhecida no bairro como a 'casa do palhaço triste'. Aurora
passou a detestar o local, mas jurou só mudar-se daqui após descobrir a
verdade sobre a morte de Clemente. Ela ainda não aceita a morte dele de jeito
nenhum! Por isso fechou-se para conversas, tornando-se antipática e
destratando à todos por aqui. É como se ela culpasse alguém.
Tina não sabia que havia registros de tragédia na vila. Nunca tivera medo
destas coisas, mas o fato de um lugar aparentemente tranquilo carregar um
passado daqueles já a deixava apreensiva. Sentiu-se traída por Seu Gaspar
que não lhe dissera nada à respeito.
— E o bosque? - ela perguntou, cismada com a existência de uma área
verde no meio da cidade grande.
— Não é exatamente um bosque, apesar de todos usarem esse nome. É
uma reserva florestal que foi uma fazenda no passado e que é cuidada pelo
governo. Tempos atrás era área de lazer e recebia visitantes, mas hoje, está
fechada. Parou de gerar lucros para a prefeitura, por isto está praticamente
abandonada... - o rapaz explicou.
"Então era isso!", pensou Tina. A área parecia ser grande e poderia ser
opção de lazer. Era uma pena ter tamanho espaço abandonado só por não
representar lucro significativo para os governantes.
Preocupados em agradar a nova vizinha, Dalton e Clara, com excessiva
cordialidade, serviram salgadinhos e refrigerante à Tina enquanto
conversavam. Como nenhum deles tinha pressa, a conversa fluiu até tarde, de
modo que trocaram informações sobre projetos pessoais, gostos e hobbies.
Após a novela, os vizinhos convidaram Tina para ficar e assistir com eles o
filme inédito que seria exibido pelo canal de televisão. A jovem aceitou, pois,
se fosse para casa, só o que lhe restaria seria tentar dormir. Não havia
qualquer intenção de explorar ou tirar proveito da boa vontade de Dalton e
Clara, mas poder ficar ali mais algum tempo faria bem à Tina.
Quando o filme terminou, Tina despediu-se e deixou a casa dos vizinhos
caminhando lentamente em direção à sua. Já era bem tarde e o trem da meia
noite acabara de passar pela estação. A vila estava deserta, sem nenhum
movimento. A maioria das casas estava com suas luzes apagadas, com
exceção do apartamento de Humberto, que tinha também a sacada ainda
aberta e o ventilador de teto ligado, apesar dela não conseguir vê-lo lá dentro.
Provavelmente ele estaria andando ao redor da mesa.
Desviando a atenção da sacada da casa de Humberto, Tina percebeu que
um vulto caminhava sorrateiro, rente ao muro no final da vila. Considerando
a estatura, parecia tratar-se de um homem. Aquilo lhe soou estranho... Apesar
de fazer muito calor, via claramente que o sujeito alto, trajava um casaco
grande e pesado, com um capuz cobrindo-lhe a cabeça e usava luvas também
grossas. Por sorte, ele pareceu não notar sua presença ali.
Lembrou-se do andarilho que vira pela manhã e teve medo. Imaginou que
alguém pudesse ter esquecido o portão da vila aberto e ele tivesse entrado,
para procurar algum resto de alimento ou algo que lhe fosse útil. Mas não
parecia ser ele! O homem que estava ali vestia-se bem demais. Ou talvez
pudesse ser ele... Talvez o medo e o estranhamento estivessem alterando a
percepção de Tina.
Sem titubear e aproveitando-se de que ele estava de costas, Tina buscou
não fazer ruídos e apressou-se para chegar à sua casa antes de ser vista pelo
indivíduo. Considerando a urgência de Gaspar em primar por segurança e as
histórias contadas por Dalton e Clara, talvez o lugar oferecesse riscos e ela
não estava disposta a descobri-los naquele momento. Enquanto o vulto
caminhava pelo local próximo às instalações de gás como se procurasse por
alguma coisa, Tina abriu seu portão sem fazer barulho e depois a porta de
acesso às escadas. Subiu e ficou dentro de sua casa, sem abrir a sacada para
não despertar a atenção do homem que se esgueirava lá fora. Era melhor que
ele, fosse lá quem fosse, não soubesse que tinha sido visto por ela.
O que levava alguém, em um dia quente como aquele, à esgueirar-se pelos
muros da vila usando luvas e um casaco grosso de capuz? Tratava-se de
atitude excessivamente suspeita na perspectiva dela. Apesar de ter ouvido as
histórias contadas por Dalton e Clara, Tina não imaginava deparar-se com um
suposto mistério em tão pouco tempo. Não queria nem pensar naquela
hipótese! Nunca viu-se envolvida em situação do tipo. Sentiu receio e teve a
certeza de que não deveria comentar aquele fato com ninguém. Não sabia de
quem se tratava, não conhecia a índole dos moradores dali e, sendo assim,
não queria gerar implicâncias ou cismas que poderiam não levar à lugar
nenhum ou lhe causar problemas.
A fraca luz de iluminação da vila entrava pela janela e era somente isso
que iluminava a sala de Tina. Sentada no sofá, ela tentava digerir tudo aquilo
e entender o que poderia ser. Na casa dos pais, sempre, a vida toda sentiu-se
segura, pois, sabia que havia quem olhasse por ela, quem cuidasse dela.
Havia a quem recorrer caso precisasse. Lá ela nunca estivera só. Entretanto, a
vida a chamava para uma nova realidade, onde teria que se virar e,
consequentemente, se proteger sozinha. Não havia quem lhe cuidasse naquele
momento ou quem lhe abraçasse e acalmasse. Em paralelo, apesar do receio,
precisou lutar contra a curiosidade que, em voz mansa e ao pé do ouvido, lhe
implorava uma espiadela pela sacada. Coisas de jornalista talvez...
A questão era que havia alguém lá embaixo, trajado de forma atípica,
revirando as instalações de gás e este sujeito deveria ter motivos para tal, mas
quais seriam estes motivos? Porque alguém se ocuparia com aquilo no meio
da madrugada e em pleno sábado? Eram questionamentos para os quais ela
talvez nunca encontrasse respostas...
A realidade vivenciada ali lhe mostrava que os riscos não eram mitos ou
apenas suspeitas e que a vida do lado de fora da casa dos pais poderia ser
bem mais complicada do que ela imaginara até então. As coisas começavam a
não soar bem e ela mal havia se estabelecido... Estava apenas em seu
primeiro dia na vila! Era apenas o começo e Tina sequer imaginava o que
ainda estava por vir.
5

- Bom dia, morte! -

Na manhã de domingo, após custar muito para dormir na noite anterior,


Tina despertou com um feixe de luz solar atravessando a poeira que pairava
atrás da porta fechada da sacada e esquentando seu corpo refestelado no sofá.
Havia uma movimentação diferente na vila. Ouvia barulho, vozes, um
murmurinho sem fim. Viu da sacada que havia muitas pessoas do lado de
fora e um carro de polícia próximo ao portão principal. Viu claramente um
casal jovem conversando com um policial em frente a casa sete. Além deles,
também Berenice e a filha estavam do lado de fora, conversando com
Cândido. Na varanda da casa um, Flor parecia chocada e Clara, que estava
com ela, tentava consolá-la, enquanto Dalton olhava também em direção à
casa sete.
Da sacada da casa quatro, um homem parrudo e alto, com a barba por
fazer e a cara fechada, debruçado na grade observava a cena, sem mostrar
nenhuma preocupação ou reação. Aquele deveria ser Lobato, o mecânico de
quem Dalton e Clara falaram na véspera e que quase não parava em casa. Já o
apartamento de Humberto, tinha sua sacada aberta, sem qualquer sinal dele;
enquanto Maria mantinha-se espiando através de uma fresta aberta em sua
janela, como era o seu habitual. No portão de acesso ao apartamento sobre a
casa de Maria, surgiu um rapaz louro, alto e bonito, só de bermuda e ainda
descabelado, como se também tivesse acabado de acordar e deixado sua casa
assustado. "Rafael, o médico!", pensou Tina.
Tina trocou de roupas rapidamente, escovou os dentes e penteou os
cabelos. Depois, apressada, desceu as escadas para ver o que havia
acontecido, encontrando Júlia na janela da casa de baixo.
— Você não está sabendo, não? Acharam a Aurora morta dentro de casa.
A velha deve ter morrido envenenada com a própria amargura! A vida é
assim, preguiçosa: quem dorme até tarde sempre perde o melhor da festa. -
Júlia disse, sem que Tina tivesse lhe perguntado nada.
Dava pra notar que Júlia não poupava esforços quando a intenção era falar
merda. Pasma, Tina seguiu sem lhe dar resposta, parando somente ao se
aproximar de Dalton.
— Bom dia. Júlia disse que Aurora morreu. O que houve, Dalton?
— Não sabem ainda. Pedro, quando desceu mais cedo para comprar pão,
estranhou e pulou a entrada da casa. Abriu o vidro da janela à força e espiou
pelo lado de fora, vendo Aurora morta, com os olhos arregalados, sentada em
uma poltrona na sala. - Dalton respondeu sério, abrindo mão de suas
habituais brincadeiras, antes de continuar: — O corpo ainda está lá dentro,
ninguém entrou ou mexeu em nada. A polícia acabou de chegar e estão
esperando pela equipe de perícia.
— Mas alguém faz ideia do que tenha acontecido? — Tina perguntou,
imaginando que houvesse alguma suspeita em relação à causa da morte.
— Gás. - ele respondeu.
— Gás?!... - Tina, lembrando-se de imediato do vulto que vira rondando a
instalação de gás na noite anterior, não queria acreditar no que acabara de
ouvir.
Tentou manter a atenção no que Dalton dizia, disfarçando seu nervosismo
para que o rapaz não percebesse que seus pensamentos iam muito além da
informação que ele lhe dera.
— Sim. Parece que houve um vazamento. Pedro sentiu o cheiro quando
desceu e isso foi o que lhe causou estranheza. Por via das dúvidas, fechamos
os registros externos até que a companhia de gás chegue para a verificação. -
Dalton ofereceu-lhe mais estes detalhes, sem notar que a palavra 'gás' a havia
intrigado.
— Oh, Tina! Que desgraça! Mais uma vez a tragédia se abateu sobre
nossa vila! Outra história de morte para manchar a rua por onde andamos
todos os dias... Oh, Deus!... Ah!... Coitada da Aurora!...
Flor dramatizava a situação, tentando claramente chamar a atenção de
Tina e deixando de lado Clara, que até então a acalmava na porta de casa.
Tina não sabia o que fazer. Não conhecia Aurora a ponto de comover-se
com o discurso de Flor, mas, em paralelo, não era feita de pedra como Júlia e
uma morte inesperada, mesmo que fosse de um desconhecido, a consternava.
Mas não era apenas isto! Havia mais! Considerando tudo o que vira na noite
anterior, aquele acontecimento a incomodava. E muito!
— O que aconteceu por aqui, Dona Florência?
Padre Bernardo, que chegava da rua, trazendo o jornal do dia e um pacote
com pães, aproximou-se dos vizinhos desconhecendo ainda a morte de
Aurora. Flor aproveitou-se para dramatizar um pouco mais: — Oh, padre!
Aurora, nossa vizinha da casa sete, foi encontrada morta. A coitada morreu.
Morreu, padre! Morreu! Ahh! Morreu... É a desgraça mais uma vez cobrindo
a vila com seu véu negro e cruel!
O homem era padre, mas não era bobo. Tina percebeu que, assim como
ela, ele também via excessos na reação de Flor. Ele sorriu de leve para Tina e,
em seguida, disse à Flor: — Calma, Florência. Deus sabe a hora de cada um
de nós e decide sobre todas as coisas. Nos cabe apenas aceitar sua decisão,
rezar pela alma de Aurora e manter a serenidade. Eu vou até ali para falar
com o policial. - e, dirigindo-se à Clara, pediu que cuidasse de Flor: — Cuide
dela, por favor.
Clara levou Flor para dentro de casa, dando-lhe um copo de água com
açúcar, enquanto Tina e Dalton continuaram do lado de fora, observando a
conversa entre o policial, o casal de vizinhos, o médico e o padre, que se
juntara a eles. Lobato já havia deixado sua sacada e, quanto à Humberto, nem
sombra dele.
Minutos depois chegava outro carro de polícia, que faria a perícia no
local, e o rabecão com a equipe que levaria o corpo. Gaspar também chegou,
pois, como dono da vila, deveria ter sido chamado por algum de seus
inquilinos e juntou-se aos demais, do lado de fora da casa ocupada por
Aurora. Todos se aglomeravam por ali, especulando e buscando saber o que
havia realmente acontecido.
Com a chegada do senhorio, não foi preciso arrombar a porta: ele tinha
uma cópia da chave e a havia levado. A porta de entrada da casa de Aurora
foi aberta, deixando escapar ainda resquícios de gás.
Com a entrada da perícia, todos se aproximaram um pouco mais da casa e
Tina acompanhou os vizinhos. Berenice, demonstrando que queria uma
brecha para espiar lá dentro, pediu que a filha Lúcia, que também estava por
ali, entrasse para ver se o irmão precisava de alguma coisa e justificou-se com
Tina: — Pedi que ela entrasse para verificar o irmão por que não quero que
veja a retirada do corpo. É muito jovem para isso. Pode traumatizar.
Tina concordou, tentando ser cordial naquele primeiro contato direto com
a mulher. Rafael também aproximou-se, apresentando-se à Tina.
— Bom dia. Eu sou Rafael, morador do apartamento sobre a casa cinco. -
disse com simpatia.
— Não sei como o senhor não tem medo de morar em cima da casa da
espanhola, doutor. - disse Berenice, torcendo o nariz e demonstrando algum
preconceito em relação à Maria.
— Ora, Berê! Você deveria parar com estas concepções infundadas. Ela é
uma pessoa como outra qualquer, só um pouco deformada e bastante
reservada. Não há motivo para medo.
Tina não se surpreendeu ao saber que havia moradores ali que tinham
medo de Maria. De fato, em um primeiro momento, a mulher poderia
despertar algum receio, mas não via justificativa para evitá-la. E não
entendeu o que Rafael quis dizer ao empregar o termo "deformada". Não
lembrava-se de ter visto deformidade alguma na mulher. talvez precisasse
prestar mais atenção em Maria em um próximo contato.
— Somos todos iguais aos olhos de Deus, Berenice. - repreendeu o padre
Bernardo, que ouvira a conversa e buscava repreender a vizinha faladeira.
O corpo demorou sendo periciado. O policial também levou bastante
tempo conversando com Pedro, que encontrara a defunta, e com Jaqueline,
que não desgrudava do marido. Os que estavam do lado de fora, podiam
observar a equipe de perícia fotografando e coletando digitais pela sala de
Aurora.
Cândido também mostrava-se tenso com o ocorrido e comentava com o
padre Bernardo.
— É, padre! Ainda não conseguimos nos destituir da má impressão
causada pela morte do Clemente e somos surpreendidos com mais uma morte
trágica. Agora, a suposta namorada do palhaço triste foi ao seu encontro...
— Cândido, sem trocadilhos ou palavras vãs. Não é hora para piadas. - o
padre o repreendeu e prosseguiu: — Ninguém está livre de sofrer acidentes
nesta vida, meu caro amigo. Tudo é desígnio de Deus e Ele sabe de todas as
coisas. - disse o padre.
Tina sabia que, muito provavelmente, não se tratava de um acidente.
Durante a madrugada vira um vulto rondando a área próxima a instalação de
gás e sabia que aquele vulto não estava ali à toa.
Quando retiraram o corpo da casa, dentro de um saco preto de plástico
grosso, o padre benzeu-se e fechou seus olhos em aparente oração. Em sinal
de respeito àquele momento, todos mantiveram-se em silêncio.
A equipe da empresa fornecedora de gás chegou para a inspeção. O
policial informou que seria feita a autópsia para confirmar a causa da morte e
que, mediante o que fosse apurado nesta autópsia, os moradores da vila
poderiam ser chamados para prestar depoimentos que pudessem agregar
dados à investigação.
Depois perguntou sobre parentes de Aurora e pediu que informassem aos
familiares da defunta sobre sua morte.
— Ela tem uma irmã. Eu me lembro desta irmã ter visitado a falecida
umas duas vezes. Mas não sei de nenhuma forma de contato. - disse
Berenice.
— Então a polícia pode buscar por isso também. Nós encontraremos esta
irmã. Vamos precisar informar a ela que sua irmã tirou a própria vida.
—Tirou a própria vida? Aurora suicidou-se policial? - Rafael perguntou,
externando a estranheza de todos os que estavam ali.
— Sim. Não há vazamento algum na tubulação de gás. O gás foi aberto
propositalmente e não havia mais ninguém na casa, apenas a morta. A porta
estava trancada por dentro. Sem vestígios de invasores... - pigarreou e
prosseguiu. —Ninguém entrou ou saiu da casa. Desta forma, só podemos
constatar que foi ela quem abriu o gás. Esta senhora, a Aurora, se matou.
Trancou a casa, abriu o gás e, durante algum tempo, deixou que se
acumulasse no ambiente, depois fechou o registro e esperou pela morte. O
gás não encontrou por onde sair e o acúmulo, mesmo em quantidade
razoavelmente restrita, a sufocou. Resta apenas confirmar suas digitais nos
registros lá de dentro, os que ficam ligados ao fogão.
"Se Aurora morava sozinha e sendo ela quem manuseava os registros de
gás, evidentemente suas digitais serão encontradas lá! O suicídio, sendo real
ou não, será confirmado!", pensava Tina tentando controlar sua expressão
facial para não chamar a atenção dos vizinhos. "O sujeito de ontem usava
luvas... Nenhuma digital será identificada na tubulação externa!", como uma
exímia detetive, seus pensamentos vagavam.
— Mais um suicídio, Berenice?! - gritou Flor de sua varanda, ao ouvir a
informação do policial.
— Pois é, Flor!... Mais um! Veja só... - Berenice tentava manter a fofoca,
mesmo que à distância.
Tina sabia que não era nada daquilo! Uma mulher aparece morta,
sufocada por gás, na manhã seguinte em que ela vira um homem rondando as
instalações que levavam o gás para as casas? Não. Aquilo não fora suicídio!
— Agradeço à todos vocês pela atenção e peço que fiquem de prontidão, e
atendam caso sejam chamados à delegacia. - disse o policial.
O padre Bernardo acompanhou o policial até seu carro. Pedro e Jaqueline,
que estava ainda muito nervosa, subiram de imediato; Cândido e Berenice
também tomaram o rumo de suas casas, enquanto Tina e Dalton estenderam
um pouco a conversa.
— Caramba! Quando a gente pensa que nada acontece por aqui, eis que
morre mais um! - disse o rapaz.
— Eu acabei de chegar... Não esperava presenciar isso...
— Pois é! É tudo muito triste... Imagino que deva ser difícil pra você ter
um acontecimento desses como uma quase recepção. - Dalton mostrava-se
atencioso.
E ele tinha a mais absoluta razão, apesar de desconhecer o que realmente a
incomodava. Não era fácil para Tina estar sozinha ali e ter que digerir aquela
situação sem poder comentar com alguém.
—Tina, o sol está quente demais. Se não se incomodar, vou entrar para
tomar um banho. - ele parecia apressado.
Despediram-se e Tina então seguiu para sua casa, reparando que não havia
nenhum movimento nos apartamentos de Humberto e de Lobato. Ao passar
pela casa de Maria, foi chamada por ela mais uma vez: — Venha cá, moça.
Entre aqui, por favor.
6
- Alerta de perigo -

Como Tina esperava, a casa de Maria era escura, com cortinas pesadas,
abrigava um aglomerado de móveis e peças alternativas, e o cheiro de
incenso se mantinha lá dentro. Não havia ali muitos equipamentos eletrônicos
e, sobre uma cadeira acolchoada, posicionada ao lado da porta, Sétimo
dormia faceiro.
Ver Maria mais de perto não a intimidou. Contrária à impressão passada
através da janela, a mulher era alta e esguia, apresentando um caminhar com
passos firmes que a levaram até a vizinha que chegava. Nas mãos, com
excessiva delicadeza, segurava o cigarro aceso, sempre posicionado na longa
piteira.
—A moça de certo deve estar achando estranha esta convocação. Tens
medo de Maria?
A fala da mulher misturava claramente o castelhano com um português
mal empregado, fato que Tina ainda não havia reparado. De certo, tudo
aquilo intrigava e afastava os vizinhos, por isso tantos comentários.
— Não, não tenho medo algum. - respondeu, sem deixar-se intimidar pela
situação.
— Bom! Mas palavras são só palavras e muitas delas se perdem no vento,
assim como se criam nele. Vossa visão futura é que vai confirmar se há ou
não medo de Maria. Mas saiba que Maria não quer seu mal.
Tina nunca entendeu o que levava alguém a falar de si na terceira pessoa e
aquele parecia ser um hábito de Maria. Dentro da casa o cheiro de incenso era
quase insuportável e, atrelado à pouca luz, instaurava uma aura mística no
ambiente e que certamente alguns diriam ser sombria. Ela esperou que Maria
continuasse, revelando o real motivo pelo qual a havia chamado até ali. Se ela
era tão calada e reservada como dissera Dalton, o que despertava seu
interesse em Tina, que chegara havia tão pouco tempo?
— Tome assento. - Maria disse, apontando uma das cadeiras que
rodeavam uma mesa redonda, forrada com uma toalha de tecido grená
aveludado e babado pesado. — Maria quer falar-te sobre o local, para que
não busques problemas. Vejo que és boa pessoa e que estás aqui por um bom
motivo.
Tina sentou-se e Maria sentou-se à sua frente sorrindo, porém, sempre
mantendo os cabelos escondendo-lhe o lado esquerdo do rosto.
— Maria viu riscos nas cartas. - disse a mulher.
— Cartas? - Tina não sabia exatamente sobre o que aquela mulher falava.
— Sim, moça! Nas cartas. Nestas cartas. - apoiou o cigarro em um
cinzeiro e mostrou-lhe um maço de cartas de tarot, sacadas de uma gaveta
acoplada à parte de baixo da mesa.
A espanhola lia cartas de tarô! Talvez, aquele fosse o motivo pelo qual os
vizinhos afastavam-se dela! As pessoas temiam o futuro, assim como temiam
quem o pudesse desvendar ou supor. Tina sabia que, na maioria das vezes, o
oculto assustava aos mais céticos: não lhes bastava não acreditar, era preciso
que desenvolvessem medo ou temores e ainda rechaçassem aqueles que, de
alguma forma, o apreciavam ou praticavam. Caso este dom de Maria fosse do
conhecimento dos vizinhos, seus receios, de certa forma, apesar de não
justificados, podiam ser entendidos se pensados por este ângulo.
— Maria aprendeu a ler as cartas com sua avó, e isto faz muitos anos.
— Avó? - Tina surpreendia-se com tudo aquilo.
A espanhola explicou:
—Prosseguindo, Maria lê as cartas desde pequena e não se priva de
respeitar seus apontamentos. Vi problemas para você, moça. Vi riscos. Riscos
graves. E, como foi ensinado para Maria, a visão das cartas tem seus limites,
mas, até onde estas cartas permitem, sua visão não deve ser guardada. - a
mulher explicou com firmeza na voz.
— O que foi que a senhora viu? - por mais que aquilo lhe fosse esquisito
ou constrangedor, a curiosidade forçava Tina a perguntar.
— Maria precisa antes saber se a moça crê nas cartas.
— Não tenho nada contra, mas nunca fiz nenhuma consulta com
cartomantes. Nunca tive oportunidade, mas também nunca busquei por este
isto. Não tenho qualquer experiência com cartas, não sei dizer se acredito ou
não. Espero que a senhora me entenda.
A mulher olhou fundo nos olhos de Tina, como se quisesse tirar-lhe à
força alguma resposta, como se tentasse ver além, desvendar os reais
pensamentos da jovem sentada à sua frente. Era um olhar certeiro, olhar de
quem talvez soubesse mais do que podia revelar, ou de quem procurasse mais
do conseguia captar. Depois, levantou uma das sobrancelhas e respirou
fundo, antes de responder.
— Maria aceita, mas sem entender. Se o destino pode ser desvendado, não
há motivo para não recorrer às cartas quando estas podem falar. Entretanto,
cada tipo de criação forma pessoas distintas. Se criada em berço cético, você
será cética. Maria foi criada em berço hispânico, o que lhe acarreta a crença
nas cartas como sendo uma quase obrigação. Faz parte do passado de meu
povo e por isso é parte de minha vida.
Não havia qualquer argumento!
—Eu entendo e respeito. - Tina respondeu, sem saber o que dizer.
— E queres que te diga o que as cartas apontam? - a mulher sorriu de
lado, mostrando mais uma vez a falha de ouro que carregava em um dos
dentes.
— Si... Quero dizer: sim! - a confusão de ideias já lhe deixava nervosa.
— Vossa chegada aqui não trouxe maus presságios. Todos os maus
presságios já estavam na vila. Mas, caso não tomes os devidos cuidados, estes
presságios ruins podem se direcionar para você e envolvê-la.
— A senhora fala da morte de Aurora? - Tina perguntou receosa.
— Não. Maria fala dos riscos. A morte é apenas uma consequência direta
destes riscos. É resultado, nada mais... Aquele que se deixar guiar pelos
riscos e pelo medo, de certo cruzará com a morte. O envolvimento com os
riscos pode ser fatal para quem tem medo. Segundo as cartas, em tempo
próximo, você estará neste meio, estará diretamente envolvida com os riscos.
Sétimo, que havia despertado, desceu da cadeira onde estava, caminhou
pela sala e subiu no colo de Tina, acomodando-se vagarosamente para mais
um cochilo.
— És boa pessoa, moça. O gato não se aproximaria se não o fosses. É
preciso cuidar para não se deixar levar pelos riscos ou por palavras tortas que
venhas a ouvir. Mantenha-te afastada. Não te permitas o envolvimento ou a
comoção com aquilo que não te diz respeito. E, o principal, não te deixes
tomar pelo medo. Jamais!
A forma como Maria falava deixava Tina intrigada. Talvez, se fosse
considerar tudo o que acontecera na vila em tão pouco tempo desde seu
estabelecimento ali, ela sentisse algum receio ou insegurança. Nunca tivera
contato tão próximo com tragédias e isso, naturalmente, lhe gerava
incômodo. Mas, não se tratava de medo. Não. De certo não era!
— Fique certa de que seguirei seu conselho.
— Sim, Maria acredita que seguirá. Se Maria chamou e fez a revelação do
que apontam as cartas, é por saber que você dará ouvidos a isto. Maria sabe
exatamente onde pisa e espera que você faça o mesmo. - e depois de uma
breve pausa, prosseguiu: —Por este momento, era só o que Maria precisava
dizer-te. Agora, podes ir, podes voltar à sua casa. Maria disse tudo o que
devia dizer.
A mulher levantou-se, dirigindo-se até a porta e Tina entendeu que a
conversa entre as duas estava encerrada. Seguiu também em direção à saída e,
quando já havia cruzado a porta, Maria a chamou de volta. Tina olhou para
trás e espantou-se ao deparar-se com a mulher afastando lentamente os
cabelos que lhe cobriam o lado esquerdo da face e sorrindo mais
escancaradamente, com um estranho brilho nos olhos.
De fato, Maria era muito bonita. Tão bonita que, na concepção de Tina,
deveria mostrar mais seu rosto, e não esconder um dos lados atrás dos
cabelos.
— Sem medo ainda? - Maria perguntou, olhando-lhe com intensidade.
— Sim, sem medo algum! - Tina respondeu com firmeza, sem entender
sua real intenção.
— Ótimo! —Maria disse, antes de dar uma sonora gargalhada e fechar a
porta de sua casa, deixando Tina do lado de fora, no espaço de varanda que
dava acesso à vila.
Durante a tarde daquele domingo, Tina viu-se tomada pela necessidade de
entender a morte de Aurora. Pensava no vulto que vira revirando as
instalações de gás durante a madrugada anterior. Quem seria? Como não
havia nenhuma distração na casa ainda, os pensamentos relativos aos
acontecimentos ajudavam a passar o tempo. Se já tivesse uma televisão,
certamente estaria mais ocupada!
Ela sentia necessidade de entender o que se processara apesar de faltar-lhe
dados concretos. Não conseguia ver aquilo como acaso e muito menos como
suicídio, conforme dissera o policial. O vulto que vira vagando na vila não
lhe permitia tal aceitação. Havia algo escuso naquele acontecimento!
E havia também o palhaço! Não sabia quando ocorrera a morte de
Clemente, o morador da casa quatro, e nada sabia sobre sua história, além do
fato de o homem animar festas fantasiado de palhaço. O palhaço triste!,
lembrou-se da denominação usada por Dalton para defini-lo. Realmente, se
havia algo que não se espera de um palhaço, figura que naturalmente
resplandece a alegria e entusiasmo, eram tristeza e postura suicida. O que
teria levado o homem a matar-se?
E Aurora? Quem seria o sujeito que, no meio da madrugada, fuçava nas
instalações de gás da vila para, no dia seguinte, uma de suas moradoras
amanhecer morta por intoxicação de gás? Qual seria o motivo daquela ação?
Tina era jornalista e a curiosidade era característica intrínseca de sua
personalidade. Perdida em tantos pensamentos, vez ou outra vinha-lhe à
mente o encontro com Maria e as palavras que lhe foram ditas. "Vossa visão
futura é que vai confirmar se há ou não medo de Maria." Tudo parecia vago,
mas esta frase em especial remetia à associações. Antes de deixar a casa da
mulher, Maria fez com que ela se voltasse para ver-lhe o lado esquerdo do
rosto, escondido, até então, atrás dos cabelos, e perguntou-lhe se mantinha-se
sem medo. Qual seria o real significado daquilo? Porque Maria lhe revelou a
face para depois voltar ao assunto do medo? Como o medo de Tina poderia
estar relacionado à tudo aquilo? E porque os vizinhos insistiam em chamar de
feia e deformada uma mulher que era muito bonita? Não havia qualquer
conexão entre os fatos que Tina testemunhava e as narrativas feitas por seus
vizinhos.
Quando a noite chegou, nada mudou. Não se ouvia qualquer barulho na
vila e, se estivesse em qualquer outro lugar, Tina pensaria que a tranquilidade
decorria do final de um domingo, quando as pessoas buscam descansar para
começar a semana. Mas ali era diferente! Havia um sossego frequente e quase
forçado, que se instalava todos os dias da semana, que se repetia
exaustivamente. A vila que Tina escolhera para morar tinha seus segredos.
A brisa soprava do bosque mais uma vez, deixando a noite bem mais
fresca que a tarde que passara e trazendo para dentro de casa o cheiro de mato
e plantas. Espiando de sua varanda, Tina viu que a casa de Lobato tinha a
porta da sacada entreaberta, mas ele não era visto desde a manhã.
Provavelmente, como trabalhava tanto, o homem reservava os domingos para
descanso. Humberto chegava à vila, trazendo na mão direita uma sacola com
o logotipo de uma conhecida lanchonete. Certamente saíra para comprar algo
para comer. Já na janela de Maria, apenas a fresta que ela costumava deixar
aberta podia ser vista e lá dentro a fraca luz do abajur. Nas demais casas não
havia qualquer movimento.
Não esperava tanto mistério em tão pouco tempo de estadia na vila. Não
imaginava que o silêncio que pairava ali mascarava uma realidade adversa à
sua aparente tranquilidade. Ao rememorar as expectativas que criara antes da
mudança, seu pensamento mais frequente era a necessidade de adaptação ao
seu novo local de moradia e às responsabilidades que seriam impostas pela
independência. Não pensou no fato de ter que lidar diretamente com a morte
repentina de moradores da vila. Não! Aquilo tudo não fora incluído em seus
planos.
O trem da meia noite passou, encerrando o domingo consigo e anunciando
a chegada da madrugada. Era preciso buscar o sono, pois, acordaria cedo na
manhã seguinte, mas, sua mente desassossegada não parava de funcionar.
Diversas perguntas pareciam saltitar como carneirinhos pulando cercas ou
como rãs barulhentas, aglomeradas em beiradas de lagoas. Tudo fervilhava!
Os questionamentos sobrepunham-se e afastavam toda e qualquer vontade de
dormir. Em paralelo, não havia condição alguma de investigar qualquer
coisa... Os fatos encontravam-se todos misturados e, apesar dela fazer
associações, nada parecia fazer sentido, pois, não conhecia a realidade local.
Eram rebarbas soltas, arestas que saltavam e que se espalhavam, se
esbarravam e se afastavam, se repeliam imediatamente e sem permitir
qualquer entendimento.
A energia de Tina parecia retesada dentro de uma cúpula invisível que não
impedia seus movimentos, mas debilitava muito suas ações. Tudo se
misturava, informações se confundiam e elementos aparentemente
desconexos estabeleciam conexões que ela não conseguia enxergar
plenamente.
Revirava-se no sofá da sala, ciente de que sua única certeza era de que
deveria guardar somente para si a visão da madrugada anterior, ao menos até
conseguir ter noção de quem poderia ser o homem de casaco que vira na vila.
Não cabia a ela revelar o incerto a quem quer que fosse e correr o risco de
ver-se ou sentir-se ainda mais envolvida por tudo aquilo e, na pior das
hipóteses, ainda lançar-se como possível alvo de um assassino. Mas também
não havia como fugir daquela realidade!
7

- Da humilhação ao susto -

Na manhã seguinte, segunda feira, Tina levantou-se cedo e apresentou-se


pontualmente no escritório da revista. Mais cedo, quando deixou a vila,
cruzara com Paulo e Lúcia que saíam para o colégio e viu Florência varrendo
a calçada em frente à sua casa. Somente isso. Nenhum outro vizinho ou nada
que fizesse menção à tragédia da véspera. O apartamento de Humberto
permanecia com a sacada aberta, enquanto o de Lobato tinha a sua fechada.
Certamente ele saíra cedo para o trabalho. Da casa de Júlia, emanava um som
baixo, porém, desta vez, não tratava-se de programa de autoajuda, mas um
tipo de som que se repetia e parecia sair de uma caixinha de músicas antiga.
Nada ali fazia qualquer menção à um suicídio recente e ela ficou pasma com
a facilidade com que as pessoas demonstravam ao tocar suas vidas adiante.
Ao chegar no escritório, foi recebida pelo chefe: — Bom dia, seu Inácio.
— Doutor!... Todos aqui me chamam de doutor... Portanto, me chame de
doutor.
Ele se remexia na cadeira, como se tentasse acomodar a ira por ter sido
tratado de forma que, em seus pensamentos tortos, o diminuía. Era muita
prepotência! Ele poderia ter sido pelo menos um pouco mais educado ao
exigir que o título fosse empregado junto de seu nome.
Tina recebeu as instruções sobre a primeira tarefa que desenvolveria para
a revista: uma pesquisa aprofundada sobre lendas urbanas, tema definido para
a capa da edição a ser lançada no mês seguinte. Entretanto, foi logo
informada de que a matéria não seria sua e sequer carregaria seu nome. Seria
assinada e redigida por Romualdo Galvão, o principal jornalista contratado,
cabendo a ela, como uma assistente, apenas pesquisar e enviar-lhe o material
coletado.
— Ossos do ofício de quem está dando os primeiros passos na profissão,
minha cara! Todo o seu trabalho será supervisionado e sua função é a
pesquisa. Pesquisa! Apenas isto! Ou se sujeita, ou cai fora! - justificou o
homem, antes mesmo que ela pudesse questionar a tarefa, como se
percebesse seu desagrado.
Naquele momento, era preciso respirar fundo e sujeitar-se! Não havia
outro jeito. Ela já estava ali e, precisava do trabalho.
Recebeu um computador portátil, onde toda a pesquisa deveria ser
armazenada, e um modem de internet sem fio, para que pudesse acessar a
rede de casa, onde trabalharia. O editor chefe acreditava que, colocar alguns
funcionários menos importantes trabalhando de suas casas, significava
economia de energia elétrica e água no escritório. Desta forma, Tina foi
dispensada, com a condição de, ao final de todas as tardes, enviar tudo o que
fora pesquisado e considerado válido por e-mail para Romualdo Galvão, o
jornalista "dono" da matéria.
Deixou o escritório sentindo-se humilhada e desrespeitada, mas ciente de
que faria o seu melhor para provar àquele homem que competência, apesar de
sua pouca experiência, não lhe faltava. Ganhou a calçada à passos largos,
revoltada e incomodada por ter sua condição profissional diminuída e sem
prestar a menor atenção às coisas ao seu redor. Tina era assim: quando algo a
incomodava, todo o resto parecia deixar de fazer sentido. O pior de tudo ali
era não poder responder ao "doutor" Inácio da forma como ela julgava que
ele merecia; era não poder dar as costas à ele e voltar para o que sempre foi
seu.
Antes de seguir para o ponto de ônibus, parou em uma banca de jornais
para comprar a última edição da revista. Precisava ler alguma reportagem do
tal Romualdo Galvão e ver como ele escrevia, ter noção de seu estilo e do
tipo de conteúdo associado ao tema que pudesse despertar-lhe interesse. Tina
não era boba e sabia que, frente à tantas dificuldades, qualquer erro seu
resultaria no desemprego.
— Precisa de carona? - uma voz familiar lhe perguntou ao deixar a banca
de jornais.
Humberto! Do lado de fora da banca, o homem parecia ler a primeira
página de um jornal. Depois o dobrou e encarou Tina.
— De novo?!... - foi o que Tina deixou escapar.
— Coincidências acontecem. Ou será que a jovem não acredita em
coincidências? - irônico, ele parecia divertir-se com sua reação.
Ela acreditava em coincidências, mas detestava gente petulante. Teve
vontade de dizer isto à ele, mas, lembrando-se dos riscos apontados com tanta
severidade por Maria, calou-se. Não fazia ideia de quem ele era ou de quais
eram as suas reais intenções com toda aquela aproximação. De uma mesma
forma, não sabia se deveria aceitar a tal carona. Era muito estranho ter saído
de casa apenas duas vezes após sua mudança e, nestas duas ocasiões, ter
encontrado o vizinho. Ser encontrada por ele., encaixava-se melhor naquele
contexto, ela pensou.
Tentando disfarçar sua estranheza, ela encarou Humberto no fundo dos
olhos.
— Não vou incomodar? - perguntou, sem querer irritar o homem.
—Não. Eu estava mesmo indo para a vila e, se você também vai para lá,
não me custa levar-lhe. O carro tem quatro lugares e eu só ocupo um deles.
Mais ironia! Mais petulância! Sarcasmo, arrogância e piadas desnecessárias...
—Aceita a carona ou não? - ele parecia impaciente.
— Certo. Aceito. Muito obrigada. - ela respondeu, intrigada com a tal
"coincidência".
Mais uma vez os dois não trocaram nenhuma palavra durante o percurso.
Tina aproveitou para disfarçadamente observar o homem enquanto ele
mantinha sua atenção direcionada ao trânsito.
De fato, Humberto era muito bonito, apesar de sisudo e de evitar sorrisos.
Era alto, com costas largas e musculatura trabalhada sem excessos. Seu rosto
tinha traços bem definidos e algumas rugas miúdas começavam a surgir ao
redor de seus olhos, porém, nada que diminuísse sua beleza. Os olhos, de
verde profundo, e o nariz reto, destacavam-se em sua face lembrando os
Deuses Gregos, sobre os quais ela adorava ler nos tempos de escola. Os
cabelos escuros e bem penteados, ofereciam a moldura perfeita e
completavam-lhe o rosto com maestria, já mostrando alguns poucos fios
prateados brotando nas têmporas. Apesar de toda a sua petulância, ele era
charmoso e isso Tina não podia negar. Sem falar no perfume... Ah! Que
perfume era aquele?! Forte e másculo, como era de se esperar, considerando
sua elegância e porte atlético. Sem sombra de dúvidas era um sujeito que
despertava a atenção.
Chegando à vila, Humberto parou o carro em frente à casa de Tina para
que ela descesse. Depois manobrou, estacionando em frente à casa três e
subindo para seu apartamento, cuja sacada permanecia aberta. Tina concluiu
então que ver a sacada do apartamento de Humberto aberta não significava
que ele estivesse em casa. De certo, segurança não era fator de preocupação
para aquele homem.
Ao entrar em casa, Tina abriu a sacada de sua varanda, para arejar o
ambiente. Detestava casa fechada, pois associava ao calor. Colocou o
computador portátil sobre a escrivaninha da sala e o ligou. Depois foi a
cozinha, colocou água para esquentar e cozinhar um punhado de macarrão
para o almoço. Precisava se alimentar e a ânsia de começar a pesquisa, bem
como o horário que limitava seu envio ao jornalista, motivavam uma refeição
rápida. Em uma olhadela pela sacada, viu que Humberto, mais uma vez,
andava ao redor da mesa. Por que ele fazia aquilo?
Depois do almoço, começou sua incursão pelos mais variados sites, tanto
os mais sérios como os duvidosos, buscando conteúdo para endossar a
pesquisa que não levaria seu nome. Triste realidade! Antes das cinco da tarde
já havia angariado bastante material e o encaminhou por e-mail para
Romualdo Galvão, recebendo como resposta apenas um "Ok. Me mande mais
amanhã." Nenhum agradecimento; apenas a reafirmação de uma ordem que
ela já conhecia, pois, fora informada de que o tema deveria ser pesquisado
durante os próximos dias e ela só precisaria voltar à edição da revista na sexta
feira para buscar mais trabalho e receber o salário referente à semana. O
chefe via mais vantagens em pagar-lhe por semana, o que ela não contestou
pois precisava ter dinheiro em mãos.
Foram três dias seguidos de pesquisas, sem que qualquer movimento
diferente na vila, lhe desviasse a atenção. O lugar era excelente para pessoas
que precisavam de concentração para escrever: calmo e silencioso. Durante
estes dias, Tina ficou em casa, dedicando-se completamente ao trabalho, para
que pudesse fazer e mostrar o seu melhor. Não imaginava que pudesse
descobrir tantas coisas interessantes sobre lendas urbanas. Sempre tratara o
tema com desdém e nunca lhe atribuíra qualquer relevância ou seriedade, mas
percebia que as histórias contadas pelo folclore das grandes cidades podiam
mesmo render uma boa matéria. Se soubesse aproveitar todo o material que
ela vinha lhe enviando desde segunda feira, Romualdo Galvão publicaria uma
reportagem de sucesso.
Na manhã do quarto dia, quinta feira, Tina precisou comprar pão pela
manhã, pois, havia acabado o pacote de pão integral que trouxera do mercado
no sábado. Tinha por hábito tomar um bom café da manhã e sem pão isto se
tornava inviável. Desceu para ir à padaria e encontrou Paulo na calçada em
frente à sua casa, esperando pela irmã.
— Bom dia, Paulo. - cumprimentou-o verbalmente, sabendo que ele não a
veria passar.
— Bom dia. - o jovem respondeu com tom de voz calmo e baixo.
—Você é sempre calmo, não é? Gosto de sua forma tranquila de falar.
Paulo sorriu antes de responder.
— Como sou cego, tenho a audição apurada... É como se um dos meus
sentidos se esforçasse para suprir a carência do outro. Ouço tudo em tons
muito altos e por isso procuro falar baixo. - o jovem explicou.
Tina conhecia bem esta teoria de que um sentido se sobrepunha a outro
cuja eficácia pudesse deixar a desejar, mas não quis frustrar o rapaz.
— É mesmo? Nossa, que interessante! - ela fingiu surpresa com o relato
do jovem vizinho.
— Sim, é. É interessante, mas também incômodo. Às vezes passo noites
inteiras acordado, preso aos barulhos das madrugadas, se é que você me
entende. Só eu os escuto. Enquanto todos dormem estes barulhos, mesmo que
mínimos, me fazem companhia e não me deixam pregar os olhos. - ele
realmente parecia bastante incomodado.
Lúcia saiu ainda pendurando a mochila nos ombros e juntou-se ao irmão
do lado de fora. Despediram-se de Tina e, apressados, seguiram rumo à rua.
Tina deixou a vila, seguindo para a padaria, do outro lado da calçada,
depois da estação de trem. Ao atravessar a rua, cruzou com o andarilho
empurrando seu carrinho e ainda vestindo roupas de onde pendiam trapos.
— Bom dia, moça bonita! - ele a cumprimentou, fazendo suas mesuras no
meio da rua.
— Bom dia. - Tina respondeu com um pouco mais de naturalidade que na
ocasião anterior em que o havia encontrado.
Na padaria Tina comprou pão fresco e queijo branco para o café da
manhã. Não era sua intenção gastar demais, mas não resistiu a uma torta de
chocolate exibida na vitrine e levou uma fatia generosa para comer mais
tarde. Pediu também que montassem um sanduíche de queijo e presunto e um
café com leite para viagem. Levaria para o andarilho. Quando já se retirava
do local com sua sacola nas mãos, viu Humberto que também chegava à
padaria, provavelmente para tomar ali o seu café da manhã.
— Bom dia. E não, obrigada. A vila fica do outro lado da rua e não há
necessidade de carona, antes que me pergunte.
Humberto, que era sempre tão sério, não conseguiu conter o riso. Riu alto,
chamando a atenção dos que estavam ao seu redor. Tina não esperava que
aquela fosse a reação do vizinho e, de certa forma, surpreendeu-se com sua
espontaneidade. Depois disso, disfarçou o sorriso enquanto deixava o local.
Talvez houvesse uma parcela mínima de qualquer coisa que se assemelhasse
à humildade ou simpatia dentro de toda aquela couraça sustentada por
Humberto.
Chegando na entrada da vila, ao lado do portão, ela encontrou o andarilho
e lhe entregou o lanche.
— Oh! Muito obrigado. São atitudes assim que aquecem o coração de um
pobre mendigo! Que Deus lhe pague, que lhe dê em dobro. - o homem
agradeceu, abrindo o pacote.
A gratidão dele era genuína! Apesar de todos os seus trejeitos, que o
aproximavam de uma suposta loucura, o andarilho sabia reconhecer quando
alguém fazia algo por ele, diferente de muitos considerados normais pelas
grandes sociedades.
Já dentro da vila, Tina cruzou com o padre, que saía, carregando uma
sacola grande e que parecia estar pesada.
— Olá, Cristina. Desejo que tenha um bom dia de trabalho.
Ela não se lembrava de ter sido apresentada diretamente ao padre, apesar
de os dois dividirem o mesmo espaço físico na manhã em que acontecera a
morte de Aurora. Porém, como a vila era pequena e For encarregava-se de
todas as notícias, não era de se estranhar o fato de algumas pessoas saberem
os nomes das outras. Em se tratando de um padre, talvez isso fosse ainda
mais comum. E, certamente, não podia se esquecer de que Berenice também
se responsabilizava por manter todos muito bem informados por ali.
— Bom dia, padre. Obrigada. Boa missa para o senhor.
— Oh! Não... Não vou à missa. Na realidade, não rezo missas. Sou de fora
e estou na cidade somente para estudo. - ele respondeu com um leve sorriso
no rosto.
Um padre que não rezava missas? Ela não conhecia plenamente as regras
religiosas. Enfim... Cada qual com sua vida. Sorriu e o padre seguiu em
direção à estação de trem, enquanto Tina entrava na vila. Pela janela da casa
um viu que Flor parecia incomodada com o atraso de Cândido para o café da
manhã. Dalton também entrava em sua casa, como se tivesse acabado de
chegar de alguma gravação noturna e a cumprimentou com um aceno tenso.
"Devia estar cansado.", ela pensou, considerando a expressão diferente que o
rapaz ostentava no rosto.
Observou que Lobato dirigia um carro preto que passara a noite na
calçada dentro da vila e atravessava o portão principal em velocidade
considerada exagerada para uma rua onde circulavam pedestres. Na traseira
do carro, do lado esquerdo, um adesivo sombrio e que parecia mesclar a face
de um lobo e de um gato. Viu também que o médico Rafael, acabava de
entrar no portão de acesso ao seu apartamento. "Já este deve estar chegando
do plantão no hospital!", tirou suas conclusões, baseada no relato sustentado
por Dalton de que ele emendava diversos plantões no hospital.
De sua sacada, Pedro, o marido de Jaqueline, a cumprimentou com
cordialidade lá de cima, assim que ela chegou em frente ao portão de seu
apartamento e logo depois entrou, fechando a porta da sacada da casa sete
com alguma força.
Ao aproximar-se da entrada do apartamento, percebeu que, naquela
manhã, nenhum som de rádio ou caixinha de músicas emanava da casa de
Júlia. Não conseguia lembrar-se de um dia em que aquela casa estivesse tão
silenciosa. O portão de acesso à varanda estava aberto e isto não era comum.
Mas Tina, ciente de que não deveria pestanejar quando o assunto fosse Júlia,
não se ateve àquele fato, subindo diretamente para o seu apartamento, pois,
precisava dar andamento à sua pesquisa.
Tomou seu café da manhã sem pressa na bancada da cozinha. Depois
lavou toda a louça e retomou sua busca por conteúdo sobre lendas urbanas.
Tinha somente até o dia seguinte para concluí-la e, apesar de ter enviado
muito material para Romualdo Galvão, ainda recebia como resposta a cada
um de seus e-mails apenas um ok seguido da solicitação de mais material.
Das duas, uma: ou o sujeito era incansável ou explorava claramente seu
trabalho.
A manhã já havia avançado quando seu telefone celular tocou, desviando-
a de suas atividades.
— Alô?
— Bom dia, Cristina. Aqui quem fala é Gaspar...
— Ah! Sim... Bom dia, seu Gaspar. Algum problema? - perguntou
estranhando o fato do senhorio telefonar-lhe.
— Não. Ou melhor, de certa forma sim. - o homem dizia do outro lado da
linha ainda preso a seu tom antipático. —Preciso falar com Júlia, sua vizinha
da casa de baixo, mas não tenho tido sucesso desde cedo. Ela não atende
minhas ligações. Posso pedir que vá até a casa dela e a informe que a estou
procurando? Peça que me telefone, por favor.
—Pode deixar que falo com ela. Vou descer agora e verificar se está em
casa. Caso esteja e me atenda, pedirei que procure pelo senhor. - ela
respondeu aliviada ao perceber que a questão de Gaspar não era com ela.
— Obrigado. - foi um obrigado seco, coisa de gente que não sabia
agradecer.
Gaspar nem esperou por uma resposta. Após agradecer rispidamente,
desligou o telefone e deixou Tina dizer um sonoro "De nada." para ninguém.
Infelizmente algumas pessoas eram exatamente daquela forma: após
conseguir aquilo que lhes interessava, sem rodeios, simplesmente
desapareciam. Tina já deveria ter se acostumado.
Ainda pensando na atitude de seu senhorio, Tina olhou da sacada para ver
se avistava Júlia pela frente da casa. Não a viu. Teria que descer. Calçou os
chinelos e desceu, com intuito de bater à porta da casa da vizinha e passar-lhe
o recado, já digerindo por antecipação o desânimo de ouvir alguma ofensa da
jovem feia.
Não conseguia recordar-se de uma ocasião em que Júlia fora gentil com
ela. Por trás das palavras da jovem amargurada, havia sempre uma piada, um
elemento de duplo sentido, uma frase torta jogada ao vento. Estas atitudes
injustificadas a irritavam demais. Não via motivos para ser ofendida ou
destratada gratuitamente por alguém a quem mal conhecia e a quem nunca
fizera nada. Nunca tratara a jovem mal, sendo assim, esperava ao menos que
houvesse uma cota mínima de educação no tratamento que lhe fosse
direcionado. Mas isto não acontecia.
Ao chegar à calçada, percebeu que não havia mais movimento na vila.
Diferente do que presenciara mais cedo, quando o tráfego de pessoas era
grande, àquelas horas ninguém transitava, chegava ou saía. A sacada de
Humberto, como sempre, estava aberta, bem como a fresta da janela de
Maria. Todos os que estavam em casa, provavelmente estavam ocupados com
seus afazeres; enquanto os outros moradores estavam em seus locais de
trabalho ou escola. Mas aquele era o tom habitual da vila: tranquilidade e
pouca movimentação.
Chamou Júlia pelo lado de fora da casa, reparando que, assim como
quando voltara da padaria, o portão ainda estava entreaberto. Foram três as
vezes em que chamou pelo nome da vizinha e à nenhuma destas chamadas
houve qualquer resposta de Júlia. O silêncio era o único elemento que
emanava de dentro da casa. Nem locutor de autoajuda, nem caixinha de
músicas... Somente o silêncio.
Muito à contragosto, entrou na varanda e viu que a porta da sala de Júlia
também estava aberta. Já completaria uma semana ali e nunca vira a porta
daquela casa aberta... Era esquisito. Tornava-se mais esquisito ainda em se
tratando de Júlia, que não carregava cordialidade alguma e não alimentava
nenhuma proximidade com a vizinhança. Não conseguia imaginar a
possibilidade dela, frente à tanta antipatia, deixar a porta aberta possibilitando
que qualquer pessoa da vila entrasse. Isto definitivamente não fazia o feitio
de Júlia.
Por um breve momento Tina teve receio de entrar e ser escorraçada pela
vizinha feia e mal educada, que não gostaria de vê-la invadindo sua casa.
Mas, aparentemente, não havia nenhuma outra alternativa.
Empurrou a porta e entrou, chamando por Júlia e usando de tom que ela
mesma desconhecia.
— Júlia?!... Júlia, você está em casa? Júlia? É a Tina.
Tina seguiu pelo corredor onde deparou-se com a porta de um dos quartos
entreaberta. Percebeu que, apesar de o dia estar claro, a luz do lustre estava
acesa. Espiou da porta e o que viu foi estarrecedor: debaixo de um grande
espelho com moldura de madeira, cujos cacos estavam estilhaçados ao redor,
sobre uma poça de sangue que misturava-se a um pedaço de tecido azul, jazia
um corpo inerte.
8
- Sem sentido-

Na calçada, Flor insistia para que Tina tomasse mais um copo de água
com açúcar, enquanto a abanava. Berenice e Clara a rodeavam.
— Oh! Duas mortes em menos de uma semana. E que acidente horroroso!
Tão jovem e morta por um espelho... De certo não estava pregado
adequadamente na parede. Que desgraça! Mais uma desgraça em nossa
vila!... - Flor repetia.
— O mais estranho nisto tudo é saber que Júlia detestava espelhos... -
disse Clara, acreditando tratar-se de algo banal, quase devaneando, mas
chamando a atenção de Tina para este fato.
— Detestava espelhos? - perguntou com intuito de entender sobre o quê a
vizinha falava.
— Sim! Detestava. Houve uma ocasião, tem um tempinho, em que uma
prima de Júlia passou férias aqui. Ela era bastante comunicativa e simpática e
se aproximou de alguns vizinhos, diferente de Júlia que sempre se manteve
afastada de todos. Em uma conversa lá no meu portão, ela comentou que a
prima era tão feia que tinha medo de espelhos. Disse que Júlia até tinha um
espelho grande em sua casa por acaso, mas não se olhava nele e o mantinha
sempre coberto com um pedaço de tecido azul.
Sim, havia tecido azul no chão do quarto, junto ao corpo!, pensou Tina
espantada, complementando a informação de Clara e esperando que a jovem
concluísse o que começara a falar.
— A prima achava que o problema de Júlia em relação aos espelhos se
dava em decorrência de sua feiura. - todos olharam para Clara, talvez
condenando sua sinceridade e a moça não se fez de rogada: —Ah! Gente,
para com isso! Sem condenação. Não é por que ela está morta que eu vou
dizer que era bonita. Sem hipocrisia, por favor... Era feia, sempre foi. É
realidade! E de tão feia, tinha medo de olhar-se no espelho.
Medo? Havia até algum sentido no que Clara dizia. As pessoas
costumavam evitar aquilo que as incomodava e, se Júlia realmente se
percebia feia, ou via-se feia, evitar espelhos talvez fosse algo normal e que
pudesse, perfeitamente, ser entendido. Mas ter medo? Parecia exagero.
— Engraçado... Aurora também falava que tinha muito medo de gás
encanado. Medo de vazamentos... Achava perigoso e ficava apavorada com a
possibilidade. Isto chega a ser curioso, não é? - divagou Berenice, sem ter
noção do real teor de sua revelação.
A veia jornalística de Tina deu um sobressalto com aquela informação.
Aurora morrera vítima de algo que a amedrontava. Júlia também. Só restava
saber se tratava-se de algo acidental, fato que não demoraria para ser
revelado, pois, o carro da polícia acabava de entrar na vila.
Assim que o carro estacionou próximo à entrada da casa de Júlia, o padre
Bernardo surgiu no portão principal, entrando na vila, voltando da atividade à
qual destinou-se de manhã cedo. O andarilho estava lá fora e, através das
grades do portão, parecia espiar para dentro da vila. Cândido, muito nervoso,
também saiu de sua casa e, acompanhando o padre, seguiu em direção ao
portão de Júlia. Maria estava em sua janela. Os demais moradores não
apareceram e Tina acreditava que, com exceção de Lobato e das crianças que
estavam na escola, todos estavam dentro de suas casas. Era estranho que não
olhassem nem pelas janelas de suas casas.
— Quem foi que achou o corpo? - perguntou secamente o policial.
—Fui eu. - disse Tina.
— Só espero que não tenha fuçado em nada... Você era amiga da morta?
— Não. Moro no apartamento de cima. Cheguei na vila faz pouco tempo e
mal a conhecia. Trocamos apenas algumas palavras desde que me mudei... -
ela respondeu de imediato, tensa e sem o menor trato para situações do tipo.
A tensão parecia percorrer cada espaço de seu corpo e refletia-se
claramente em seus olhos, como se a alertasse para tudo o que estava por vir.
— Se não era amiga e se não tinha nenhuma intimidade, o que fazia
dentro da casa da defunta? - o policial era invasivo e não media esforços para
constranger Tina.
— Eu precisava passar um recado do senhorio, que tentou falar com Júlia
por telefone mais cedo e não foi atendido. Chamei do portão, mas ela não
respondeu. Como a porta estava aberta, entrei. - respondeu nervosa.
— Certo. Quer dizer: errado! Não é correto entrar pela casa dos outros
sem autorização. Isso é invasão de privacidade, sabia disso? Mas, espero que
esta sua ousadia não lhe acarrete nenhuma culpa. Pelo contrário: que a faça
testemunha.
Culpa? Seria possível que aquele homem achava ser Tina a responsável
pela morte de Júlia? Ela espantou-se com a suposição aventada pelo policial,
mas se conteve.
Achou melhor se calar. Não sabia como lidar com tudo aquilo e, por um
breve momento, achou que qualquer coisa que dissesse poderia ser usada
contra ela, como via nos filmes policiais. Ser mal interpretada não era sua
intenção. Pelo contrário! Precisava manter-se firme para não dar margem à
divagações infundadas ou suspeitas absurdas.
O policial, acompanhado de seu assistente, entrou na casa, deixando todos
do lado de fora. Tina, correndo os olhos pelos outros apartamentos teve a
impressão de ver Humberto espiando de longe, lá do meio da sala, como se
tentasse ver algo sem mostrar-se na sacada ou sem ser visto pelos demais.
Como o vulto recolheu-se abruptamente, imaginou que ele a tivesse visto.
Não era hora para teorias. Precisava estar pronta para responder às
perguntas que, por ventura, o policial insistisse em fazer. Precisava manter-se
de prontidão, atenta aos fatos! Qualquer detalhe que desviasse seus
pensamentos poderia ser um agravante, poderia atrapalhá-la, tirar-lhe o tino.
— É muito triste que tenhamos uma morte tão prematura e tão próxima da
morte de Aurora. - as palavras do padre Bernardo ecoaram em seus ouvidos e
deram brecha para mais um drama de Flor.
— Muito triste! Tristeza sem tamanho, padre! Tão jovem... Tão... Tão...
Ah!... Tão... Saudável! E morrer desta forma! Que situação!... - Flor insistia
na comoção exacerbada, transformando o ocorrido em um espetáculo quase
grotesco de lágrimas frias e, até certo ponto, injustificadas.
— Como foi, Dona Florência? - perguntou o padre, mostrando que
Cândido não lhe tinha passado grandes informações no caminho de sua casa
até a casa de Júlia.
— Não se sabe direito, padre. Parece que o espelho despencou da parede
em cima dela. Morreu toda cortada. Tina disse que tem muito sangue lá
dentro...
O padre fez o Sinal da Cruz.
— Que o senhor acolha sua alma e, em seu lar e em seus braços, lhe dê o
descanso eterno.
Flor fez também o santo sinal, disse um sonoro e esganiçado 'amém' e
depois mudou de assunto, referindo-se à Maria, que surgira na janela: —
Aquela mulher! Sempre por trás da janela, espiando pela cortina. Quase não
dá as caras do lado de fora... Mas, é melhor assim. Ninguém quer ver uma
aberração.
Era um contraponto no mínimo curioso: após acompanhar prontamente o
padre em um sinal religioso, a mulher, com a cara torcida, direcionava
ofensas à vizinha.
— Aberração?! - Tina não se conteve.
— Sim. Nunca esteve perto dela? - Flor mostrou que não sabia que Tina já
havia até entrado na casa de Maria. — Ela tem o lado esquerdo do rosto todo
deformado, e por isso usa o cabelo daquela forma... Para esconder a cara!
Maria não era deformada! Não era uma aberração. Pelo contrário: tinha o
rosto bonito, muito bonito. De certo, aquela era alguma fofoca de Flor que
implicava com a vizinha.
— Vamos respeitar o momento, Dona Florência. Uma pessoa acaba de
falecer tragicamente; não é hora para comentários maldosos em relação à
qualquer outra pessoa. - repreendeu o padre, tentando conter a língua da
vizinha faladeira.
Um homem disfarçado e que no meio da noite mexe na instalação de gás...
Vizinhos cujas mortes poderiam estar atreladas à supostos medos... Uma
mulher linda, que era considerada aberração... Eram coisas demais para
menos de uma semana na nova moradia e Tina começava a não gostar nada
do que vivenciava. Sua vontade era voltar para seu apartamento, tomar um
banho e esquecer-se de tudo aquilo, mas era impossível! Precisava se manter
ali, ouvir as bobagens ditas pela vizinha, acompanhar os sermões do padre e
engolir todos os sapos que o policial desaforado lhe quisesse enfiar goela
adentro.
Como no dia da morte de Aurora, depois do policial, chegou o rabecão
com o perito, que demorou-se bastante avaliando o local da morte e
fotografando o corpo antes de retirá-lo. As palavras do perito ao deixar o
local carregando o corpo em um saco preto foram assustadoras: — O corpo
estava imprensado embaixo do espelho, e a causa da morte foi um corte
profundo na jugular, que fez com que a mulher perdesse muito sangue e não
tivesse forças nem voz para pedir por socorro. Entretanto, parece que antes da
queda do espelho, ela já havia se cortado. A moça quebrou o espelho e
propositalmente cortou o pescoço com um caco. Depois derrubou o espelho,
porque, talvez em agonia, tenha se agarrado nele, fazendo com que
despencasse sobre seu corpo. Houve outros cortes, evidentemente, mas este
na jugular foi o determinante da morte. Nunca vi ninguém se matar desta
forma, mas foi suicídio. Mais um suicídio pra marcar a história deste lugar.
Parece maldição. Todo mundo aqui se mata...
Para Tina, um buraco preto, estreito e fundo abriu-se no chão e ela
começou a cair nele vagarosamente. Ela entrava no buraco... Ia cada vez mais
pra baixo, rodando, batendo-se contra as paredes, afundando lentamente, até
que o som de todas as vozes ao seu redor, a luz e toda movimentação das
pessoas tiveram um fim, estabelecendo um silêncio insano e do qual ela não
conseguia desvencilhar-se.
Ao acordar, sequer tinha noção do tempo passado. Estava no sofá de seu
apartamento. Certamente alguém a tinha carregado até lá. Em sua frente,
estavam o padre Bernardo e Clara.
— O que houve, Tina? Você desmaiou, apagou de repente! - Clara
demonstrava preocupação.
— Calma, Clara. Deixe Cristina acabar de despertar.
Como todo padre, Bernardo transmitia calma com suas palavras e parecia
ser um sujeito centrado, que não deixava levar-se por precipitações.
— O desmaio é natural. A moça estava nervosa. - completou o padre. —
Não é qualquer pessoa que se depara com um corpo e não reage
negativamente. A tensão, neste tipo de situação, é mais que esperada.
A cabeça de Tina ainda parecia rodar. Ela sentia-se tonta fisicamente e
excessivamente atordoada com tudo aquilo que acontecia. Não fora um
sonho! A visão de Júlia morta voltou à sua cabeça aumentando sua sensação
de vazio. Porém, mais uma vez o padre estava certo: o desmaio foi natural,
uma simples reação física à toda tensão que se instalara.
Clara e padre Bernardo fizeram companhia à Tina até o meio da tarde e,
foi iniciativa do padre fazer-lhe um chá de camomila, para que a moça se
acalmasse um pouco mais, já que ela não tinha vontade alguma de comer.
Tina evitava falar. Não sabia o que poderia dizer àquelas pessoas, até onde
poderia expressar sua opinião em relação às mortes. Tinha muito medo de
falar demais e, consequentemente, ser mal interpretada. Os vizinhos, com
receio de que ela tivesse uma recaída, também evitavam falar sobre a morte
de Júlia, detendo-se em assuntos triviais, como se buscassem distraí-la.
Já era tardinha quando alguém bateu à porta do apartamento, despertando
a atenção de Tina para o fato de que o portão e a porta lá de baixo estavam
abertos. Era Humberto.
— Vim ver se precisa de alguma coisa. - ele disse à Tina, ignorando por
completo os demais e mantendo seu ar de arrogância.
— Não. Está tudo bem. Obrigada. - foi a resposta que conseguiu dar ao
vizinho petulante.
Clara, aproveitando-se da chegada de mais uma pessoa, tratou de informar
que precisava ir embora: — Eu tenho uma apresentação de dança hoje e
preciso chegar cedo para o ensaio geral. Preciso ir. Se Dalton não tivesse
gravação, pediria que ele ficasse aqui com você, Tina, para que não passe a
noite sozinha depois de tamanho susto.
— Eu fico. - foram as palavras de Humberto.
— Não considero correto. - apressou-se em justificar padre Bernardo. —
É melhor verificarmos se Dona Florência ou Berenice podem acompanhar
Tina esta noite.
— Ora vejam só!... Era o que me faltava! Todas as duas tem ocupações
que lhes tomam o tempo. Uma precisa chaleirar o marido que é cheio de
vontades e a outra tem dois filhos para cuidar, sendo um deles deficiente
visual, se é que você ainda não percebeu. Quem ficar aqui deve ter condições
de dedicar-se integralmente e de cuidar de Tina caso ela precise. E se você é
um sujeito ocupado demais para isso, fico eu. Será que eu fui claro? -
Humberto,sem rodeios, levantou a voz.
Nem mesmo um padre estava livre da arrogância daquele homem e Tina
não gostou nada daquela situação. Estava bem, não precisava de cuidados.
Levantou-se abruptamente em tom de protesto e cambaleou, caindo sentada
no sofá.
— Só não acho adequado que seja um homem a cuidar dela, meu rapaz.
Apenas isto.
Tina teve a ligeira impressão de que padre Bernardo se intimidava com as
respostas de Humberto. De certo, caso se tratasse de qualquer outra pessoa da
vila, a resposta dada pelo padre seria uma citação bíblica ou algum dito
próximo da cultura popular, um conselho. Nunca vira o padre Bernardo se
justificando, apenas o via amenizando situações.
— Não me venha com justificativas idiotas ou preconceituosas. Isso tudo
é bobagem! Palhaçada, pra ser mais exato! Uma coisa nada tem a ver com a
outra. Se a intenção é prestar ajuda, tanto faz se essa ajuda vem de um
homem ou de uma mulher.
O padre calou-se e Tina sentiu-se envergonhada por ter um sujeito, que
lhe era praticamente estranho dentro de sua casa, desacatando alguém que
aparentava ter boas intenções e que lhe havia ajudado. Não gostou da atitude
de Humberto, mas também não tinha condições de entrar em discussões.
Ainda estava zonza.
— Se a questão for deixar Tina na companhia de uma mulher, podemos
ver se a espanhola pode ficar com ela. - disse Clara, mudando imediatamente
de ideia. — Se bem que não deve ser nada agradável, nesta situação em que
ela se encontra, ter que encarar uma pessoa deformada. Não é qualquer dia
que queremos ficar ao lado de uma aberração.
— Não devemos maldizer as pessoas e muito menos fazer troça de seus
defeitos, Clara. - amenizou o padre.
— Posso saber de quais defeitos vocês estão falando? Maria não é a
mulher solitária da casa cinco? Aquela que tem um gato? Nunca reparei que
ela tem defeitos... - foi Humberto quem falou desta vez.
— Gato? Não. Ninguém tem gato aqui na vila. - disse Clara, disfarçando
um sorriso sem graça e bastante surpresa com a informação. —Não há gato e
nem cachorro, nenhum animal doméstico.
— Não são permitidos animais na vila, se é que o rapaz não conhece esta
regra. - padre Bernardo explicou, como se repetisse metodicamente as
palavras de Gaspar.
Estranhamente, Humberto tentou se consertar: —Não? Bem... Vi um gato
dia desses e pensei que fosse dela. Devo ter me enganado então... Talvez
estivesse só de passagem. Gatos são assim, não são?... Sempre saem à
passeios e depois voltam para suas casas. - havia algo em sua resposta que
fugia por completo de seu tom habitual e Tina percebeu isto claramente.
Tina teve a mais absoluta certeza de que Humberto sabia da existência de
Sétimo e, depois de deixar seu conhecimento escapar, tentava disfarçar.
Como uma pessoa tão distante, tão desinteressada, conhecia segredos que não
lhe competiam? E qual motivo o levou a negar o fato após ser contestado
pelos demais? Porque de repente ele decidiu conter-se e guardar o segredo de
Maria? De certo sua intenção não era privar Maria de constrangimentos ou
problemas com a vizinhança por descumprir as regras do local. Mas... Não...
Não fazia sentido algum... Ele não gastaria seu precioso tempo com isso.
Havia algo por trás daquele suposto arrependimento por ter falado demais.
Mas o que seria?
Clara despediu-se e se retirou, seguida por padre Bernardo, que deveria
estar na faculdade naquela noite e, por isso, não poderia demorar-se mais
tempo. Precisava pegar o trem das dezoito horas, se quisesse assistir ainda
sua primeira aula.
—Eu soube que o senhor estuda, que faz pós graduação. É alguma
especialização em teologia? - Tina tentou ser agradável com o padre ao
despedir-se dele, ainda culpando-se pela má impressão causada por
Humberto dentro de sua casa.
— Oh, não! Eu faço um curso de especialização em psicologia. Eu sou
psicólogo também, completamente fascinado pela mente humana. Formei-me
em psicologia, antes mesmo de tornar-me padre. Hoje faço pós graduação em
psicopatia e transtornos de personalidade e estou construindo minha tese. - o
padre respondeu e encarou Humberto.
Havia algo diferente naquele olhar que, na perspectiva de Tina, pareceu
desafiar Humberto, que desviou os olhos, sem encarar diretamente o padre. O
que, nas palavras de padre Bernardo, poderia ter abalado a barreira de
petulância que Humberto ostentava? Teria ele se sentido intimidado com o
olhar ou com a formação acadêmica do padre?
— Muito interessante, padre. Pensei que seu curso fosse voltado para
religião. - Tina respondeu tentando disfarçar sua percepção acerca da
situação.
— Nem só de religião vive um padre, minha jovem. Apesar de nossa
vocação, a maioria de nós estuda, pesquisa, busca conhecer outros campos
das ciências. Respeitamos a honramos à Deus, porém, ampliamos sempre os
nossos horizontes culturais e profissionais, estudando e conhecendo coisas,
até mesmo para que possamos ajudar as comunidades de nossas paróquias.
— Eu entendo. É muita generosidade...
— Não se trata de generosidade, Cristina. Trata-se de vocação. Trata-se de
reconhecimento para com as necessidades humanas, nada mais. Se um padre
não estiver disposto a aprimorar-se para amparar seu rebanho, de que vale ter
sido ordenado? A dedicação é necessária sempre.
As palavras do padre eram bonitas e despertavam reflexão em Tina. Dava
gosto ver tanta dedicação e preocupação para com o próximo. Saber que
havia alguém ali que pensava daquela forma, a confortava e deixava mais
tranquila.
Agradeceu satisfeita pela atenção e pelo cuidado do padre para com ela
quando este despediu-se e deixou seu apartamento. Já Humberto nem sequer
cumprimentou o religioso.
9

- Póstumo -

Tina preferia ter ficado sozinha. Não sentia-se à vontade na companhia de


Humberto, que andava de um lado para o outro no meio de sua sala. Estava
habituada com a casa vazia e ter que dividi-la com alguém, ainda mais
naquelas condições, não lhe agradava nem um pouco. A presença de alguém
ali não lhe deixava pensar direito sobre todos os acontecimentos.
Gostaria de ter tempo para avaliar suas suspeitas, para pensar na questão
do medo mencionada por Berenice pela manhã. Mas, ao sentir-se vigiada,
não conseguia encontrar a devida concentração; e não poderia levantar
nenhum tipo de suspeita, visto que desconhecia a índole de Humberto. Não
poderia permitir que ele percebesse que ela refletia sobre as mortes. Caso se
tratasse de assassinatos, qualquer morador da vila poderia ser suspeito,
inclusive o próprio Humberto.
— Não precisa se preocupar com comida. Mas não pense que eu vou para
a cozinha. Pedi uma pizza. Espero que goste de pizza. - disse Humberto em
certo momento.
— Não precisava se incomodar.
— Não, eu não precisava me incomodar. Sei disso. Eu precisava comer,
só comer. E, querendo ou não, você também. Vou ficar na varanda, de onde
posso ver o entregador. - disse pegando a cadeira da escrivaninha e
arrastando até a sacada.
A insatisfação de Humberto por estar ali era clara e, com isso, Tina,
apesar ter dito que não precisava de companhia, sentia-se sem jeito por
incomodá-lo. Era como se ela fosse um grande estorvo e ele o bom
samaritano que se dispunha a carregá-la nas costas. Ao menos, era desta
forma que encarava a situação... Há quem diga que algumas coisas que
acontecem em nossas vidas são inexplicáveis; de certo Humberto ter se
oferecido para ficar com ela era uma destas coisas.
O entregador de pizzas não demorou muito para chegar e Humberto
desceu rapidamente para buscar a encomenda. Olhando para o relógio, Tina
percebeu que já era um pouco tarde, quase nove da noite; ele devia ter fome e
por isso sua pressa. Depois de comer, ela se acomodaria no sofá para dormir
e ele que encontrasse algum lugar da casa onde pudesse se deitar e dormir.
Preocupar-se em acomodá-lo em uma casa onde não havia condições de
conforto, não estava em seus planos.
Rapidamente o vizinho subiu trazendo a pizza fumegante. Tina, que já
estava em melhores condições, foi até a cozinha buscar pratos, talheres e duas
latas de refrigerante. Contentou-se com um pedaço de pizza. Depois foi ao
banheiro e escovou os dentes, pegou uma almofada e deitou-se no sofá
enquanto Humberto ainda comia.
Ela precisava colocar as ideias no lugar e tentar entender o que se
processava na vila, apesar disto não lhe parecer ser uma tarefa simples. E
como se não bastasse, era preciso pensar sozinha. Sabia perfeitamente que
qualquer comentário mal fadado poderia gerar-lhe problemas com aquela
vizinhança tão estranha ou gerar suspeitas sobre ela. Era uma recém chegada
e ninguém ali a conhecia direito, bem como ela não sabia pormenores das
vidas e costumes de seus vizinhos. Tudo podia ser como também podia não
ser... Em alguns momentos tinha a impressão de que as pessoas por ali não
eram exatamente como demonstravam ser e, caso estivesse certa, se fosse
realmente assim, seria necessário precaver-se.
Seu cansaço era tanto que Tina não demorou para dormir. Pegou no sono
rapidamente e logo em seguida viu-se em meio a uma névoa densa e baixa
que tomava conta de toda a vila e fazia com que ela sentisse muito frio. A tal
névoa parecia persegui-la. Por mais que caminhasse, por mais que apressasse
seus passos, não conseguia chegar ao portão, não conseguia sair dali. Ela
precisava sair! Precisava achar a direção! Algumas vozes surgiam do nada
para lhe indicar o caminho... "Só mais um pouco, Tina!", parecia ser a voz de
Clara à distância... "Vamos, Cristina! Os esforçados terão um dia o reino dos
céus!", era padre Bernardo lançando mão de mais uma citação de cunho
religioso. "Os sons são perceptíveis! Você pode segui-los e chegar até a
saída!", Paulo repetia... "Corre, moça bonita! Devagar não se chega longe,
não, hein?!", o andarilho! Até ele parecia estar ali... E Tina corria e sentia a
névoa cada vez mais perto dela. Até que conseguiu tocar algo pesado, tão
pesado que só podia ser o portão de acesso à rua. Ela sairia da vila! Bastava
puxar um dos lados do portão... "Segurança! Não pense que este portão
estará sempre aberto...", era a voz de seu Gaspar que então ecoava. Ela
forçou o portão trancado tentando fazer com que este se abrisse até que uma
figura aparentemente masculina, alta, de casaco, capuz e luvas pulou em sua
frete.
Em um sobressalto Tina acordou. Estava suada e com a respiração
ofegante, como se ela estivesse mesmo fugindo de alguém. Não se recordava
de nenhuma outra ocasião em que tivera pesadelos daquele tipo! Tudo lhe
parecia real e aterrorizante.
Enquanto pensava em toda aquela confusão decidiu ir ao banheiro e não
viu Humberto pela sala. Era tarde e, apesar de suar em decorrência do
pesadelo, precisava admitir que havia esfriado bastante. Talvez ele estivesse
deitado em um dos quartos vazios. Seguiu pelo corredor procurando não
fazer barulho para não acordar o visitante e tentando, em vão, se recompor do
sonho mal vindo. Ao voltar do banheiro, surpreendeu-se ao encontrar o
vizinho entrando pela porta da sala. Onde ele fora as três horas da manhã?
Humberto parecia não esperar encontrá-la acordada: — Fui em casa
buscar cigarros. Os que trouxe cedo acabaram e, como durmo muito pouco,
preciso ter algum cigarro aqui comigo. O que houve? caiu da cama?
Ela devia estar com uma aparência horrível! Sentia-se ainda assustada
com o sonho...
— Não. Tive um pesadelo. Foi só um sonho ruim, mas estou bem. Vou
deitar novamente e voltar a dormir. - Tina disse já se acomodando no sofá.
— Vou ficar lá fora mais algum tempo.
E Humberto foi para a varanda sem fazer qualquer pergunta sobre o sonho
ou sobre como ela realmente se sentia. Fazer perguntas não era mesmo um
hábito dele... Sem lhe dar atenção, Tina deitou-se e voltou a dormir, torcendo
para que nenhum outro pesadelo a despertasse.
Pouco tempo fazia que havia amanhecido quando um grito estridente e
desesperado acordou todos na vila. Tina levantou-se do sofá e encontrou
Humberto já desperto, mas ainda sentado em um canto no chão da sala.
Aparentemente ele dormira ali. Os dois foram para a sacada e depararam-se
com uma cena grotesca: Sétimo, o gato de Maria, estava morto, pendurado
pelo rabo nas grades da janela da casa da mulher.
— Maldito! Verme maldito! Você vai pagar o preço por ter feito esta
maldade com uma criatura inocente! O gato de Maria... Querido Sétimo!...
Você vai pagar, desgraçado!
Da sacada do apartamento, Tina e Humberto observavam o desespero da
mulher. Os demais moradores também estavam em suas janelas e sacadas,
provavelmente surpresos não somente com a morte do gato, mas também
com o fato de descobrirem a existência de um gato em uma das casas da vila.
Se até então Sétimo era um segredo, a partir daquele acontecimento não o era
mais. Somente Humberto, que conforme deixara escapar na tarde anterior,
sabia que Maria tinha um gato, não se surpreendeu com este fato, apesar de
demonstrar algum incômodo com o cadáver do animal e, aparentemente,
parecia sem ação, sem saber como lidar com tudo aquilo.
— Você saiu no meio da noite! - Tina questionou Humberto: —Não viu
nada?! Não viu quem fez isso?
— Eu não! Não vi nada. Não havia nada na janela... Pelo menos, eu acho
que não havia nada... Não prestei atenção. Eu não saí por aí olhando para as
janelas dos outros ou procurando por gatos mortos. Eu fui buscar cigarros! -
ele respondia vorazmente, demonstrando irritação.
— Acha que não havia nada na janela? Como acha?... - ela começava a
sentir raiva e medo.
— Já disse que não prestei atenção. Eu saí para ir até o meu apartamento
buscar cigarros e não para ver o que acontecia na casa da vizinha! Apenas fiz
o que precisava fazer e voltei pra cá, sem prestar atenção ao resto da vila. -
sem ter como defender-se, Humberto pegou a chave sobre a escrivaninha e
deixou o apartamento de Tina, batendo a porta atrás de si. Lá de baixo, após
fechar o portão, jogou-lhe a chave na sacada sem sequer olhar em sua cara.
Primeiro Aurora, depois Julia e, agora, Sétimo, o gato. O gato fora
assassinado. O gato de quem Maria tanto gostava e que não incomodava
ninguém... Um animal indefeso! Seriam todas aquelas mortes frutos de
assassinatos? Era bastante incomum que diversos moradores de uma mesma
vila optassem pelo suicídio com intervalos tão curtos de tempo. E, no caso do
gato, não se tratava de suicídio, o que, mais uma vez, despertava a
possibilidade de que havia ali algo que era desconhecido, algo que fugia do
padrão tão enaltecido pelo policial responsável por atender às imediações.
Ciente de que ninguém ajudaria Maria, Tina tomou uma chuveirada
rápida, arrumou-se e desceu com pressa, encontrando a vila já vazia, em uma
total atitude de descaso dos outros moradores com a mulher que, sozinha e
engolindo o choro, retirava o corpo do gato das grades.
—Bom dia, Maria. - arrependeu—se. —Desculpe... Não é um bom dia.
— Não é pra Maria que acabou de encontrar seu gato, seu único amigo
leal, morto e pendurado na janela da sua casa. Não é para Maria que não pode
rasgar com as unhas a carne do infeliz que cometeu esta atrocidade! Mas,
para você o dia está apenas começando e o sol começa a iluminar seu destino
de hoje. Bom dia, moça.
Não entendia o porquê de todos rejeitarem uma pessoa tão generosa.
Menos ainda entendia a história de que Maria era deformada. Não via
nenhuma deformidade no rosto da mulher e, ao que tudo indicava, pelo que
pôde perceber na véspera, Humberto também não. Em contrapartida, todos os
outros, incluindo o padre, pareciam concordar com aquela condição. No
mais, era doloroso ver a tristeza estampada nos olhos lacrimejantes de Maria.
Três mortes em menos de uma semana e o fato de uma destas mortes ser
de um animal de estimação, em nada lhe amenizava o peso. Mortes são
sempre mortes; são perdas... Era mais uma morte! Não se tratava de fato
normal ou corriqueiro. Havia algo ou alguém por trás daquilo tudo.
— Vou fazer café. Você aceita? Sei que não passou bem a noite e não
deve ter tomado café ainda. - a mulher perguntou após terminar de recolher o
cadáver do gato.
Maria dava mais uma prova de sua generosidade e Tina, mesmo sabendo
que poderia não receber reação favorável dos demais vizinhos caso fosse
vista na casa da mulher, aceitou de bom grado e acompanhou Maria para
dentro de casa.
Contendo seu choro, Maria colocou água no fogo enquanto arrumava a
mesa.
— Um dia a verdade vai surgir, moça. Tudo virá à tona! Maria viu tudo. E
o culpado pagará por seu atos. As cartas não mentem. Ele mente e mente
muito, mas as cartas de Maria não.
— Todas estas pessoas foram mortas, não é, Maria? E pela mesma pessoa
que matou o seu gato. Não são suicídios.
— Preste atenção a uma coisa que Maria vai falar: basta não ter medo.
Você não tem medo. Maria sabe, Maria viu. Se continuares assim, sem medo,
você sobreviverá e sairá vitoriosa desta história.
Não cabia à uma cartomante revelar para alguém algo confidenciado pelas
cartas além do que lhe era de direito. O tarot limitava algumas respostas,
tinha suas regras e elas deveriam ser respeitadas pela cartomante. Maria
levava a cartomancia à sério, conforme seu povo a ensinara.
— Sétimo se foi. Maria ficou para ver o declínio daquele que insiste em
fazer o mal. A derrocada deste desgraçado não tarda... - a espanhola concluiu.
Apesar de empregar palavras duras, não havia vingança no tom de voz
usado por Maria. Tina conseguia identificar apenas a certeza de que o
destino, por mais que oscilasse e fizesse suas curvas, seria certeiro e chegaria
ao esperado.
Maria serviu café quente e broa de milho caseira à Tina, que comeu com
satisfação. Apesar do horário e da perda repentina, a mulher mantinha-se
impecável. Muito bem vestida, com os cabelos penteados como lhe era
habitual, perfumada e maquiada, o que despertava ainda mais estranheza em
Tina ao pensar no tratamento que ela recebia dos outros vizinhos.
Depois do café, ciente de que era dia de ir até o escritório, Tina ao deixar
a casa despediu-se de Maria, afastando-lhe os cabelos que escondiam o lado
esquerdo do rosto que não tinha qualquer traço de deformidade e dando-lhe
um beijo de agradecimento na bochecha. Maria inesperadamente soltou sua
sonora gargalhada, colocando um dos braços na cintura e jogando a cabeça
para trás. Depois, fechou a porta de sua sala atrás de Tina que seguia rumo à
rua.
Ao seguir pela vila viu que Dalton estava na janela, mas não teve certeza
se ele a havia visto deixando a casa de Maria.
— Bom dia, Dalton.
— Cacete, Tina! Viu que a espanhola mantinha um gato escondido e que
mataram o bicho? A mulher já é feia, quando deu aqueles berros ficou mais
feia ainda. Acordei com os urros dela e tomei um baita de um susto...
— Feia como, Dalton? - talvez fosse hora de tentar entender tudo aquilo.
— Ora, feia como... Feia! Aliás, a palavra feia é generosidade minha... Ela
é horrorosa! O lado esquerdo da cara dela é horrível. Todo deformado, como
se tivesse sido queimado ou derretido... Não sei explicar. Mas é por isso que
ela usa o cabelo escondendo metade da cara. Você nunca deve tê-la visto sem
os cabelos escondendo a cara.
Já, ela já havia visto. Acabara de ver, inclusive. E não, o lado esquerdo do
rosto dela não era feio. Era perfeito e fazia de Maria uma mulher de traços
hispânicos fortes e muito bonita.
Sem insistir no assunto, um pouco irritada e alegando atraso, ela despediu-
se e deixou a vila em direção ao escritório da revista. Viu que o andarilho
estava sentado próximo à entrada da estação de trem. Ele lhe acenou sorrindo
e ela retribuiu.
Dentro do ônibus, no percurso, pensava em Maria e em toda aquela a
situação. De acordo com o que entendera, não era só Dalton que via a mulher
com a face deformada. Todos os demais. Clara, Flor, Padre Bernardo,
Berenice... Aliás, não! Nem todos... Humberto também não via ou, pelo
menos, ainda não havia reparado.
Por mais que Tina não quisesse acreditar, chegara em um ponto em que
não podia negar que havia algo de sobrenatural ali. Era a única explicação
que encontrava para o fato de todos verem Maria com deformações e ela não.
Movida por este pensamento, fez exatamente o que Maria disse para que ela
não fizesse: sentiu medo! A incerteza a fez ter medo. A dúvida a fez ter
medo! Medo de que, de alguma forma, aquela mulher, de posse de poderes
supostamente fantásticos, tivesse se aproximado dela para ludibriá-la,
enganá-la de alguma forma, acreditando que por ter pouca idade ela fosse
boba.
Tina sentia-se dividida. Já não sabia mais em quem confiar. Um lado dela
pedia que não interrompesse o contato com Maria, enquanto o outro
solicitava muita cautela.
Havia ainda as mortes. E não somente as que presenciara; pensava
também no suicídio de Clemente, o palhaço. Sabia que havia acontecido
antes de Aurora e que tinha um intervalo de tempo maior em relação às
demais mortes. Entretanto, considerando todo aquele contexto, Tina
acreditava que esta morte tinha alguma ligação com as outras.
Ao chegar no escritório da revista, foi surpreendida por um elogio do
chefe: — Me parece que você cumpriu muito bem com seu dever. Romualdo
Galvão ficou muito satisfeito com o material que enviou para ele. - doutor
Inácio disse.
— Obrigada, doutor. - respondeu sem graça, pois, nunca sabia como
reagir quando era elogiada.
— Com exceção de uma questão... Você pesquisou tantas lendas urbanas,
tanto conteúdo esdrúxulo... Mas acabou deixando de lado justamente a lenda
que permeia a cidade, uma lenda que originou-se exatamente aqui nesta
região e que é bastante comentada. Como pode ter deixado isso passar
despercebido?
Por ser de fora, ela desconhecia que aquela região tivesse sua própria
lenda urbana. Não havia lido nada a respeito ou encontrado qualquer menção
a esta lenda na rede.
— Qual seria? - perguntou curiosa.
— Há cerca de cinquenta anos, havia uma família bastante conhecida e
que residia no centro da cidade. Eram todos palhaços e tinham o próprio
circo, que foi sucesso por décadas. Eu era moleque, mas ainda me lembro.
Com a evolução da cidade, vieram parques e cinemas, depois os shoppings
centers, que diversificaram as formas de lazer por aqui e, com isso, o
rendimento do circo começou a cair significativamente. Assim como
reduziram-se também as visitas na reserva florestal que fica próxima à
estação de trem.
A reserva da qual o chefe falava era o bosque atrás da vila e Tina o
identificou com precisão, considerando a explicação sobre o local que
recebera de Dalton anteriormente. Enquanto isso, o dono da revista
prosseguia em seu relato: — Com a chegada destas novas formas de diversão,
a população, que queria novidades, deixou as antigas de lado. O circo foi à
falência e a família de palhaços, que não tinha outra forma de trabalho,
precisou se virar. O circo era pequeno, mas fez muito sucesso e empregava
muitas pessoas: acrobatas, mágicos, dançarinas, anões... Pessoas em várias
funções que ficaram desempregadas com seu fechamento. A família dona do
circo era formada por cinco pessoas: o avô, um irmão dele, seu filho com a
esposa e o filho deles, que era ainda criança. Em meio à tantas dificuldades
financeiras, o mais velho começou a desenvolver problemas e entrou em uma
forte depressão que o levou ao suicídio. Depois disso, seu irmão se matou.
Passados uns vintes anos, o filho do palhaço dono do circo, envolvido com
bebidas e ainda na pindaíba, fez com que sua esposa se matasse por conta da
tristeza que sentia e, na sequência, se matou, sobrando apenas seu filho já
adulto, que quando pequeno também trabalhou no circo e na época vestia-se
de palhaço para animar festas infantis. Reza a lenda que ele trabalhou com
isto por anos a fio, mas vivia recluso em algum lugar na cidade, uma vila, se
não me falha a memória. Quando estava vestido de palhaço, era uma alegria
só; mas se estivesse em trajes comuns mostrava-se um sujeito triste e
reprimido, que evitava contato com outras pessoas. Enfim... Há cerca de seis
meses, ele também suicidou-se, assim como o restante de sua família havia
feito no passado. Se enforcou no teto da sala da casa onde morava e acabou
ficando conhecido como o palhaço triste. Não há nessa cidade uma pessoa
que não conheça esta história. Como você veio de fora, é perdoável que não a
conheça e, consequentemente, não a tenha relatado.
Tina estava embasbacada com tudo aquilo. A história relatada por Dalton
não chegava nem aos pés da situação real. O palhaço triste trazia um histórico
de suicídios na família e isto ela desconhecia.
— Ouvi falar superficialmente sobre o palhaço triste, mas não sabia que
esta história adquirira status de lenda urbana. Desconhecia sua proporção.
— Pois agora conhece! O escritório desta revista, assim como eu, também
somos fonte de cultura, Cristina. Já temos tema para a próxima pauta de
Romualdo: assassinos em série ou serial killers, como preferir. Preciso que
pesquise sobre isso e, assim como fez com as lendas, envie todo o material
para o e-mail de Romualdo com precisão durante a semana.
— Certo! - a jornalista respondeu ainda surpresa com a história da família
de palhaços.
E retirando dinheiro da gaveta, ele completou: — E aqui está o pagamento
desta semana, conforme havíamos combinado. - o chefe lhe deu em dinheiro
o valor semanal referente ao salário tratado na ocasião em que aceitara a
vaga. — peço que assine o recibo com a secretária na recepção antes de sair.
Tina deixou o escritório satisfeita com o fato de seu trabalho render-lhe
elogios e com o salário recebido. Já estava quase sem dinheiro e, com aquele
valor, poderia comprar suprimentos e dar entrada em uma televisão. Era
muito ruim ficar sem televisão em casa.
Ao sair do escritório passou na loja e escolheu um modelo simples de
televisão, que seria entregue em sua casa naquele mesmo dia, no final da
tarde. Sabia que, frente à tantas incertezas, não podia gastar dinheiro com
luxos e, aos olhos de outras pessoas o aparelho de televisão talvez fosse um
luxo. Entretanto, isso lhe ajudaria a passar o tempo e fazer com que os dias
parecessem menos arrastados.
Depois foi ao supermercado, torcendo para não encontrar nenhum vizinho
que lhe oferecesse carona. Deu sorte. Não havia conhecidos por lá.
Comprou alguns suprimentos, pois, os que tinha na dispensa já estavam
no final. Perto de casa somente a padaria vendia alimentos, todos por altos
preços e, ainda assim, a variedade era pouca, ficando os produtos restritos
àqueles destinados aos lanches rápidos e guloseimas. Se precisasse de um
tempero, um vegetal ou uma fruta, não tinha como encontrar em outro local
que não fosse o supermercado. Além disso, apesar de vender produtos caros,
no supermercado os produtos ainda eram mais baratos se comparados à
padaria.
Não teve pressa alguma durante as compras. Caminhava vagarosamente
por entre os corredores de prateleiras e detinha-se mais em alguns que em
outros. Apesar da manhã ter passado rapidamente e de estar satisfeita com os
elogios recebidos pelo trabalho, Tina não queria chegar logo em sua casa. O
problema não estava na casa em si, mas, de alguma forma, o clima na vila a
perturbava, a deixava tensa. Não era nada fácil estar em lugar onde sucediam-
se acontecimentos estranhos, sobre os quais não havia segurança para debater
direta e abertamente com qualquer pessoa. Se estivesse certa em suas
suposições, ela sabia que um deslize ou uma palavra mal dita poderiam
prejudicá-la. Se os suicídios fossem assassinatos, ao revelar isto ela correria
riscos.
Voltou à vila no meio da tarde com as sacolas de compras e notou que o
movimento por lá era quase nenhum, exatamente como costumava ser.
Tirando os dias em que as mortes aconteceram, somente lembrava-se de ter
visto maior movimento na vila na manhã que antecedeu o encontro do corpo
de Júlia quando, em sua ida à padaria, cruzou com praticamente todos os
moradores locais. Lembrava-se de que até mesmo Lobato, que era pouco
visto, deixava a vila apressado naquela manhã. Curiosamente, pouco tempo
depois, ainda nesta mesma manhã movimentada, o corpo de Júlia foi
encontrado.
10

- Descortinando mistérios -

Conforme fora informado pela loja, a televisão foi entregue naquela


mesma tarde. Depois que o entregador colocou o aparelho dentro do
apartamento, Tina desceu para acompanhá-lo até a porta. Já estava voltando
para dentro de casa quando um objeto caído no chão lhe chamou a atenção.
Surpreendeu-se ao ver que tratava-se de um crachá onde se lia: "Centro
Municipal de Medicina Legal. Dr. Rafael Alcântara — Médico Legista". Ela
tinha quase certeza de que Dalton, na tarde em que lhe falara sobre os
vizinhos, dissera que Rafael trabalhava em um hospital. Lembrava-se de ter
ouvido sobre plantões... Descobrir que ele era médico legista e que trabalhava
no centro de medicina legal, lidando diretamente com cadáveres, a deixou
espantada. Porque o homem escondia sua especialidade médica?
A cada dia a vila tornava-se um mistério maior. Suicídios, moradores de
personalidades variadas e que não entendiam-se entre si... Ao chegar ali,
imaginou tratar-se de local mais tranquilo, de ambiente quase familiar, onde
houvesse um melhor entendimento entre os vizinhos, onde todos se dessem
bem, já que suas casas eram tão próximas. Mas não era nada daquilo. As
pessoas estranhavam-se enquanto ela estranhava toda a situação.
Como se não lhe bastasse constatar tantas divergências, o médico morador
do local trabalhava em um necrotério, enquanto os vizinhos acreditavam que
ele desse plantões em um hospital. E se ele trabalhava no necrotério local, se
era médico legista, de certo tivera acesso às autópsias dos vizinhos mortos.
Talvez até ele mesmo as tivesse realizado e soubesse exatamente as causas
das mortes. Talvez soubesse algo sobre os suicídios...
A única certeza que Tina tinha era de que, o que quer que acontecesse
naquela vila, era coisa de gente dali! Em sua concepção, não houve nenhum
suicídio, apesar dos indícios e registros policiais apontarem para isto. A
pessoa que matou o gato de Maria, foi a mesma pessoa que matou Júlia,
Aurora e, muito provavelmente, matou também o palhaço Clemente tempos
atrás. Restava descobrir quem e por qual motivo.
No meio da tarde, ao ver a sacada da casa de Rafael aberta, Tina desceu e
tocou sua campainha. Enquanto esperava ser atendida pelo vizinho, percebeu
que, da sacada da casa três, Humberto a observava. Cumprimentou o vizinho,
que entrou grosseiramente sem lhe responder.
— Oi! Pois não? - disse Rafael lá de cima, sorrindo e em tom de grande
simpatia.
— Boa tarde, doutor. Encontrei isto mais cedo aqui na rua. É seu crachá.
Acredito que o senhor o tenha deixado cair. - Tina informou, sem saber o que
lhe esperava.
Se havia algo que ela não queria eram intimidades, por isso fez questão de
usar o título que antecedia o nome do vizinho no crachá, apesar dele
aparentar pouca idade. Chamou-o de doutor, evitando qualquer tipo de
aproximação maior.
— Oh!... Me dê só um minuto. Eu vou descer já... - ele respondeu ao
atendê-la.
Não demorou nem trinta segundos. Rapidamente Rafael surgiu na porta lá
embaixo para pegar seu crachá. Ele parecia tenso.
— Muito obrigado. Não havia dado falta. Tenho que usar esta
identificação no trabalho e se não fosse encontrada, eu teria problemas mais
tarde no plantão.
— O senhor trabalha no necrotério, não é?
— Sim, mas...
Rafael estava nervoso. Muito nervoso! Parecia dar voltas antes de falar ou
buscar palavras adequadas e Tina imaginou que ele não tivesse gostado de ter
sua real função revelada.
— Posso lhe pedir um favorzinho? - o homem perguntou em tom de voz
baixo, enquanto com rapidez guardava o crachá em um bolso da bermuda.
— Sim, pode.
— Não conte à ninguém aqui na vila. Sou médico legista e trabalho no
necrotério municipal. Sou responsável pelas autópsias que são feitas lá. Não
se trata de uma profissão que seja vista com bons olhos e... Bem... E as
pessoas aqui na vila são um pouco preconceituosas... Elas rejeitam o que é
diferente... Preconceito mesmo, infelizmente não encontro outro termo que
seja mais coerente com estas atitudes... Eu prefiro que continuem pensando
que atendo em hospitais. Tenho muito medo de suas reações se souberem,
entende? Posso contar com sua compreensão? - ele parecia se perder
completamente com as palavras tamanha tensão que sentia.
Fazia sentido! Ele estava certo. Pela pouca experiência de Tina ali, já
havia percebido que as pessoas de fato eram preconceituosas. Se soubessem
que aquele homem abria cadáveres e revirava suas vísceras buscando as
causas de suas mortes, de certo ele seria rejeitado, teria problemas.
—Fique sossegado. Não falarei nada para ninguém.
— Fico grato. Muito obrigado mesmo!
De volta ao seu apartamento, Tina ligou o computador para dar
andamento à nova pesquisa solicitada por seu chefe pela manhã. Apesar de
ser ainda sexta feira e a responsabilidade de enviar material ao jornalista estar
agendada para a segunda feira seguinte, ela tinha intenção de adiantar-se e
deixar algum material reservado.
As informações coletadas lhe foram uteis para pontuar algumas dúvidas e
despertar desconfianças. Constatou mediante sua pesquisa que serial killer ou
assassino em série era um criminoso patológico, que cometia crimes com
alguma frequência, apesar de alguns conseguirem ficar longos períodos sem
cometê-los. Não havia qualquer regra ou outro elemento que estabelecesse
estes intervalos entre os crimes. Estes criminosos apresentavam maneira
específica de agir, ou um foco específico que vinha a ser o elemento
determinante para sua ação: toda ação girava ao redor daquele foco. Como
quem determina suas próprias normas, um serial killer estabelecia seu roteiro
de mortes, na maioria das vezes endossadas com requintes de crueldade.
Movidos pela necessidade de saciar seus desejos mórbidos, eram desprovidos
de compaixão e, além disso, eles geralmente deixavam sua assinatura na cena
do crime, uma marca qualquer e que fosse comum em todos os seus crimes,
como se lançassem um desafio aos investigadores. E, por meio desta
assinatura acontecia a associação entre os diversos crimes cometidos por
estes assassinos.
Tudo aquilo que leu encaixou-se perfeitamente no que Tina procurava
entender!
De alguma forma, se ela não estivesse errada, as mortes acontecidas na
vila poderiam ser ação de um assassino deste tipo, um psicopata que brincava
com os medos das pessoas para ver o que elas sentiam ou como reagiam
antes de morrer. Sim, podia parecer loucura, mas fazia todo sentido!
— Talvez seja este o caso... Um serial killer... Uma maneira específica de
agir: ele usa como arma o medo de suas vítimas, ele as mata usando seus
medos. Uma assinatura: faz com que o crime pareça suicídio... - Tina pensava
alto na sala de seu apartamento Porém algumas arestas deveriam ser aparadas
e ela sabia disso. Aurora tinha medo de instalações de gás, medo de que
apresentassem defeitos ou vazamentos; e Júlia tinha medo de espelhos. Mas e
Clemente? Como especificamente ele se encaixava neste padrão? Qual seria o
medo alimentado pelo palhaço? E porque o assassino matara também o gato
de Maria? Havia muito por descobrir... Eram lacunas que deveriam ser
preenchidas antes que Tina seguisse adiante. Era preciso saber mais sobre a
morte de Clemente, entender o motivo de seu suicídio..
Aproveitando que ainda não anoitecera, ela desceu, mas não sem antes
perceber que, da sacada de sua casa, Humberto parecia vigiar sua
movimentação na sala. Foi até a casa de Cândido e Flor para tentar descobrir
alguma coisa. De certo eles saberiam algo e, como Flor gostava muito de
falar, não seria difícil obter alguma informação.
Na passagem, cruzou com Lobato que chegava na vila.
— Boa tarde. - por educação, Tina o cumprimentou.
—Só se for pra você. - foi a resposta que o homem lhe deu. — Olha,
garota, não se preocupe em ser educada comigo. Não precisa me
cumprimentar. Não gosto de perder tempo com conversinhas. Sou um sujeito
ocupado, portanto, quanto menos falar comigo, melhor será. Isso eu te
garanto!
Já imaginava que Lobato fosse grosso, mas não esperava tanto. Olhou
para o alto e respirou fundo para se recompor do fora que acabara de tomar.
Viu padre Bernardo na sacada de seu apartamento, em cima da casa dos
idosos. Acenou para ele, que lhe respondeu, e depois chamou Cândido da
porta.
— Entre, Tina. O portão está aberto. Eu e Flor estamos aqui na cozinha. -
o homem disse lá de dentro.
Tina entrou, encostou o portão e seguiu até a cozinha, onde encontrou
Cândido à mesa, comendo um prato de aipim fumegante com manteiga de
garrafa.
— Chegou na hora certa! Nós velhos não temos o hábito de jantar então,
ao final da tarde, fazemos um lanche farto. Junte-se à nós! Está quentinho e
tem muito! Somos só dois, não daremos conta de comer isso tudo...
Tina sentiu-se completamente sem graça por ser sempre convidada para
comer com eles. Outro dia fora convidada para o café e agora para o lanche...
Porém, não resistiu ao clima acolhedor e ao cheiro de café e acabou aceitando
o convite. Serviu-se de café fresco e um pedaço generoso de aipim, que
desmanchava-se no prato.
— Eu queria saber um pouco sobre o Clemente. Sou jornalista... Ouvi
algumas histórias sobre ele... Tem horas que bate uma curiosidade louca,
sabem como é? - ela tentava disfarçar, tentava passar impressão de não ser
nada além de mera curiosidade.
— Era um homem educado, sério, apesar de sua profissão. Um sujeito de
pouquíssimas palavras. Não incomodava os vizinhos e muito pouco era visto
na vila. Havia quem acreditasse tratar-se de um trauma.
— Trauma? - perguntou, tentando motivar Cândido para que ele falasse
mais.
— Sim. Parece que havia um histórico de mortes na família dele... Mas ele
não falava sobre isto. Acredito que fosse doloroso lembrar-se de um passado
tão ruim... - o vizinho confirmou enquanto comia.
— Dizem que sua família era dona de um circo que fez muito sucesso e
depois faliu. Com isso o avô, que era palhaço, entrou em depressão e se
matou. Algum tempo depois, seu pai, também palhaço, fez com que sua mãe
se matasse e na sequência suicidou-se. Todas as mortes foram movidas pela
tristeza causada pela depressão, pelo ócio, pelo fracasso profissional. Eles se
mataram por não verem mais alternativas que melhorassem suas vidas e
Clemente parecia ter medo disto... Medo de entristecer a ponto de não ver
sentido na própria vida e se matar como fizeram os demais parentes. - Flor
complementou a explicação do marido.
— Nossa! Então ele tinha tanto medo de que algo o levasse ao suicídio,
como aconteceu com seus parentes, que acabou suicidando-se? - Tina
concluiu, desvendando o suposto medo de Clemente.
— Parece que sim. Confuso, não é mesmo? Contraditório até!... Ora
veja!... Um palhaço com medo de se matar e que acaba se matando... - Flor
parecia sustentar um ar de riso nervoso no rosto, como se regozijasse, como
se houvesse realização ao ser convidada a falar da vida alheia. .
— Estranho, mas se pensarmos, parece que assim foi também com
Aurora. - Cândido deu prosseguimento, fazendo comparações diretas. —
Quando foi feita a instalação de gás na vila, ela foi contra. Dizia que havia
riscos, mais até que nos casos de gás de botijão; e que, como morava sozinha,
tinha muito medo de vazamentos que pudessem sufocá-la durante a noite.
Não haveria quem a acudisse... Coitada! Era tão preocupada com esta
possibilidade de fim que acabou a encontrando. Triste isso!
— E Júlia? Vocês acreditam na história que Clara contou sobre Júlia ter
medo de espelhos? Eu acho isto tão absurdo!
—Minha filha, se formos dar ouvidos à tudo o que é dito... Parece um
pouco estranho imaginar que alguém, por ser feio, tenha medo de espelhos. -
disse o vizinho.
— Cândido, meu querido, estranho é, mas não é impossível. O medo pode
matar, sim, ou levar a pessoa a cometer o ato. Eu, por exemplo, não consigo
me imaginar presa em algum lugar... Sem poder sair de algum lugar, sem ver
uma saída. Tenho muito medo de lugares fechados e não sei qual seria a
minha reação em uma situação destas. Só de pensar já sinto um desespero
enorme. - Flor tentava justificar o medo de Júlia.
— E eu morro de medo de ficar sem você, meu bem. Certamente, sem
você ao meu lado, eu não saberia mais viver. - Cândido respondeu à mulher,
segurando com candura uma de suas mãos, dando-lhe um beijo na testa e
despertando nela um sorriso.
Realmente, todas as pessoas sentem algum tipo de medo. Todas! Umas
mais, outras menos; medos que são explicáveis e medos que talvez não o
sejam... Mas todos sentem, mesmo que sejam medos bobos, medos mais
amenos, como o medo de baratas. De certa forma, tudo podia despertar medo.
Tina sabia disso! E acreditava que aqueles que não tinham forças suficientes
para encarar seus medos, poderiam se deixar vitimar pelo tal assassino,
matando-se. Mas quem seria ele? Imaginava ser alguém dali, alguém muito
próximo, que rondasse os vizinhos com intuito de se aproximar e ganhar
confiança, de forma que através de conversas ou atitudes dóceis pudesse
descobrir o medo de cada um deles, para depois aproveitar-se disto.
Tina conversou um pouco mais com os vizinhos e depois despediu-se,
pois, sabia que dormir cedo era um hábito dos dois velhinhos. Na volta para
sua casa, foi cumprimentada por Paulo, que aproveitava a brisa na varanda de
casa.
— Oi, Tina. - disse ele, assim que ela aproximou-se.
— Como sabe que sou eu, Paulo? - surpreendeu-se com a precisão do
rapaz ao identificá-la.
— Pelos passos. Já conheço o ritmo de seus passos. Os ouvi e acompanhei
desde que deixou a casa de seu Cândido. Soube que sentiu-se mal. Está
melhor?
Gentileza gratuita! Coisa rara de se ver ali naquela vila e que deixou Tina
contente. Um jovem de quinze anos, cujos problemas não eram pequenos,
preocupando-se em ser gentil onde parte das pessoas eram distantes em
relação aos outros, a deixou satisfeita.
— Sim, estou melhor.
— Lúcia disse que o cara aqui de cima cuidou de você na noite do
desmaio. - o jovem disse, referindo-se à Humberto.
— Sim...
— Mas ele não ficou o tempo todo lá, não é? Saiu no meio da madrugada
e andou até o seu apartamento.
— Ele foi buscar cigarros. Parece que não conseguia dormir e seus
cigarros tinham acabado. Foi até seu apartamento pegar outro maço. - ela deu
ao rapaz a mesma explicação que Humberto dera a ela quando o encontrou
entrando no apartamento àquela madrugada.
— Só isso? - Paulo demonstrou estranhamento. — Pensei que fosse algo
mais demorado... Ele desceu suas escadas, andou até aqui em cima onde
mora, demorou-se muito pouco em casa, saindo logo em seguida. Mas não
subiu suas escadas de imediato. Só ouvi os passos dele subindo as escadas do
seu apartamento depois de uns vinte ou trinta minutos. Acho que ele fez
alguma outra coisa antes de voltar para lá.
"O que Paulo queria lhe dizer?", Tina se perguntava.
— Ele quase não dorme. Costuma vagar pela noite... Sempre sinto seus
passos pela madrugada e também é muito comum ele sair no meio da noite.
Muito comum mesmo! Esse cara é meio estranho. - o jovem concluiu.
A audição apurada de Paulo, resultado de sua cegueira, lhe permitia
alcançar sons que outros ouvidos não alcançariam. Mas se Humberto fora até
seu apartamento somente para buscar cigarros, conforme havia dito, onde
estivera o restante do tempo? O que fizera entre o momento em que deixou
seu apartamento e o retorno ao apartamento de Tina, minutos depois? Como
estava dormindo na ocasião, ela não tinha noção alguma do tempo em que o
homem ficara fora. Lembrou-se da forma como Humberto falara de Maria no
dia de seu desmaio: "Aquela que tem um gato?"
Contrária à concepção de todos os outros, o vizinho sabia da existência de
Sétimo, que apareceu morto exatamente na manhã que sucedeu àquela
madrugada, e quando deixara escapar seu conhecimento. Teria sido ele quem,
ao deixar seu apartamento e antes de voltar ao apartamento de Tina, teria
matado o gato e o pendurado na janela de Maria? Não fazia sentido... Porque
tanta crueldade com um animal que não incomodava à ninguém? Qual seria o
objetivo de Humberto ao matá-lo e exibir seu cadáver com requintes de
crueldade?
— Vou indo, Paulo. Não se demore do lado de fora, pois, pode ser
perigoso.
— Pode deixar! O que meus olhos não veem, meus ouvidos conseguem
captar de longe. Mas não vou demorar. - o rapaz sorriu e Tina seguiu para
casa.
Naquela noite, Tina custou para dormir. Sentia medo de pegar no sono e
ter o mesmo pesadelo que tivera anteriormente; medo de vivenciar toda
aquela agonia onírica mais uma vez... Foi tão desesperador que ela não queria
ter de passar por tudo aquilo mesmo sabendo tratar-se apenas de um sonho
ruim.
Com a televisão ligada em volume baixo, revirava-se no sofá da sala,
pensando no relato de Paulo e nas informações que coletara sobre a morte de
Clemente. Aparentemente algumas peças se encaixavam. O medo de
suicidar-se, como fizeram seu avô e seus pais, levaram Clemente ao suicídio.
Mais uma vez o medo era elemento motivador da morte e o suicídio sua
causa. Se ela estivesse certa e acreditava estar, Clemente poderia ter sido a
primeira vítima do tal assassino.
E Humberto? Não sabia o que aquele homem fazia, qual era sua ocupação.
Não sabia nada sobre sua vida apesar de ter estado com ele algumas vezes.
Qual teria sido sua ação durante os vinte minutos em que, após deixar seu
apartamento, esteve ausente do apartamento de Tina? Ele não esboçara
reação alguma ao ver o cadáver do gato pendurado na janela... Seria por já
saber daquilo?
Além de tudo isso, havia ainda Lobato, que insistia em afastar qualquer
forma de aproximação, negando-se até mesmo a responder um cumprimento.
Seria apenas falta de educação ou aquele homem precisava esconder algo que
pudesse ser descoberto caso alguém se aproximasse ou estabelecesse algum
contato maior com ele?
E o andarilho! Na manhã do dia em que alguém mexera na instalação de
gás, Tina o vira; na manhã em que Júlia fora encontrada morta, Tina também
o vira; assim como ele também espiava do portão na ocasião em que Sétimo
fora encontrado morto. Ele parecia estar presente em todas as ocasiões em
que algum evento acontecia na vila. Seria apenas uma coincidência?
Tina chegara em um ponto de onde não podia mais voltar. Um ponto onde
retroceder se mostrava impossível! Ponto onde já não sabia mais em quem
poderia confiar ou o que deveria pensar. Aliás, ela nem sabia se podia confiar
realmente em alguém por ali...
11

- Falatório e sumiço -

Na manhã de sábado, Tina despertou e abriu a porta da sacada. Estava


frio. A chuva chegara durante a madrugada e, ainda naquele momento,
chovia bastante, porém, não o suficiente para apagar a inscrição feita com
tinta vermelha na lataria do carro de Rafael: "Maldito profanador de corpos!
Médico Legista!"
Da sacada de seu apartamento, o médico parecia não saber como reagir
àquela situação. Da rua, recebia diversos olhares, todos sustentando ares de
reprovação. Ele estava certo, sempre esteve: os vizinhos, imbuídos de seus
preconceitos, não saberiam lidar com sua profissão naturalmente. Tina
percebeu que Flor e Berenice teciam comentários entre dentes, enquanto
apontavam sem discrição alguma para o veículo. De uma mesma forma, mais
adiante, Dalton, Clara e Cândido também cochichavam. Lobato, que descia
para sair a trabalho, enquanto abria a porta de seu carro, parecia conter o riso,
como se sentisse algum tipo de prazer em ver a situação ruim em que se
encontrava o vizinho. Humberto, mantinha-se em sua sacada apenas
observando, sem expressar nenhuma reação, enquanto o padre Bernardo
deixava a vila, carregando a mesma sacola que carregava em outra ocasião,
porém, aparentemente mais leve.
— Aqui se vê de tudo! Todo tipo de gente. Não é à toa que Pedro e
Jaqueline se mudaram noite passada. Eles procuravam casa maior e a que
encontraram chegou na hora certa! São pessoas de bem e não devem conviver
com gente de laia duvidosa ou correr quaisquer tipos de riscos que sejam
desnecessários. Se esconde a própria profissão, pode esconder qualquer outra
coisa... — Berenice parecia enfurecida, amargurada com tudo aquilo e
recebia a compreensão de Flor, que concordava com o que ela dizia.
Tina não conseguia acreditar no que seus ouvidos captavam. As vizinhas
falavam do médico como se a sua especialização profissional fosse um crime,
como se buscar as causas das mortes das pessoas fosse pecado e como se ele
tivesse obrigação de mantê-las a par de toda sua vida e rotina.
Rafael entrou e fechou sua sacada, isolando-se daquela aura negativa que
permeava a manhã na vila. Mas, de certo, tudo aquilo lhe fizera muito mal.
Estudar durante anos para manter sua profissão oculta por saber que as
pessoas não a aceitariam de bom grado, não era objetivo de ninguém.
Tina perguntava-se quem poderia ser o responsável por aquela inscrição,
quando atentou-se para o fato de, por ter sido ela a pessoa que encontrara o
crachá, talvez fosse também ela, na perspectiva de Rafael, a principal
suspeita. E se eles estivesse imaginando que ela era a responsável... Era
preciso desfazer esta impressão.
Escovou os dentes, trocou de roupa e, mesmo chateada com tudo aquilo,
foi até a casa do médico. Rafael não desceu, jogou-lhe a chave e a pediu que
subisse.
— Eu pedi que não contasse à ninguém... - foi sua reação ao ver Tina na
sala de seu apartamento. —Eu sabia que seria rechaçado aqui! Sabia que
todos me tratariam com desdém! Que não teriam limites em me humilhar por
julgarem ser a minha profissão algo indigno...
— Mas eu não disse nada.
— Ora, sem mentiras, por favor! O que estou passando me basta! Você
encontrou e me entregou o crachá... Somente você sabia que tipo de medicina
eu exerço. Quer que eu pense o quê? Foi você! Só posso pensar que você é
uma fofoqueira, que gosta de se meter na vida dos outros e de falar demais.
De fato, não havia nada diferente a pensar. Talvez, se estivesse no lugar
do médico, Tina chegasse às mesmas conclusões. Constatou que Rafael
chorava. Apesar de não pensar ser a atitude correta, sentiu pena dele.
— Nós vamos descobrir quem foi! - disse, sem pensar no que falava,
apenas tentando amenizar aquela dor.
— Durante toda a minha infância fui humilhado por colegas de escola.
Meus pais não tinham posses, eram pobres e eu estudava em bom colégio
porque tinha bolsa de estudos. Mas pisavam em mim, debochavam por eu
não ser de uma mesma classe social. Agiam como se eu fosse menos que
eles, como se eu não valesse nada... Lutei muito para me formar e ser o que
sou hoje..
— Imagino o que tenha passado... Tina estava consternada com o relato
do médico.
— Não, você não imagina nada! Só quem passa por isso é que sabe... Só
quem sente na pele! Antes de mudar para cá, morei em um edifício onde
aconteceu exatamente a mesma coisa: ao descobrirem que eu era médico
legista, as pessoas passaram a me como se eu estivesse sempre com as mãos
sujas, como se fosse crime examinar os corpos para identificar os motivos de
suas mortes. Estou aqui há seis meses e cuidei para que ninguém soubesse, de
forma que eu não precisasse passar pela mesma humilhação. Então, você
chega e isto tudo cai por terra!
— Mas espere, não fui eu quem perdeu o crachá no meio da rua... - ela
alegava, tentando provar não ter nenhum tipo de culpa.
— Foi você quem o achou! - ele gritava sem medidas.
— Eu achei mas não falei nada! Absolutamente nada! Não foi pela minha
boca que descobriram, isto eu te garanto. E, se outra pessoa o tivesse
encontrado, a situação talvez não fosse diferente!
Deixou a casa do médico nervosa, certa de que ele jamais lhe entenderia.
Viu que o andarilho estava do lado de fora da vila e seguiu até ele.
— Bom dia.
— Moça bonita, bom dia! - ele respondeu sorridente, como se sua miséria
não tivesse a menor importância.
Era estranho ver alguém em suas condições sempre tão feliz. Não havia
uma ocasião em que aquele homem não sorrisse.
— Você está sempre por aqui. Por acaso viu o que aconteceu?
— Vi! O trem da primeira hora atrasou e a fila hoje cedo era enorme. -
respondeu o homem, como se estivesse alheio ao que ela queria descobrir.
Sem jeito, Tina respondeu: — Eu me refiro à vila... Você viu o que
aconteceu na vila pela manhã? Por acaso viu quem pintou ofensas no carro do
meu vizinho?
— Ah!... Vi não! Pintaram um carro, foi? Que desperdício! Estragar tinta
dessa forma é pecado... - o homem disse, mexendo as mãos em atitude
repetitiva, enquanto, ao mesmo tempo, revirava seu carrinho de
quinquilharias.
"Desperdício de tinta?", Tina pensou. Um carro surge pintado, com a
lataria praticamente estragada, e o andarilho considerava isto como um
desperdício de tinta, sem considerar o carro! Certamente o homem não batia
bem da cabeça. Tina viu que, daquele homem, não sairia nada de coerente e
agradeceu desanimada.
— Certo. Obrigada. - e lembrou-se que não sabia o nome dele: — Te vejo
sempre por aqui. Qual é o seu nome?
— Remela. Todo mundo aqui me chama de Remela. E me chamam de
Remela faz tanto tempo, que já nem me lembro do meu nome de verdade.
Até eu me chamo de Remela... - e ria, como se somente aquilo lhe restasse.
Tina teve a mais absoluta certeza de que aquele homem, aparentemente
tão simpático, se não fosse louco, fingia ser. Agradeceu, despediu-se e seguiu
com suas dúvidas.
De volta ao seu apartamento, recolheu sua correspondência e subiu.
Percebeu pela sacada que Humberto voltara a caminhar ao redor da mesa da
sala. Na porta da casa de Flor, ela e Berenice voltavam a conversar.
Tina imaginou que, talvez alguém tivesse encontrado o crachá antes dela,
verificado os dados de Rafael e propositalmente o deixado no chão, para que
fosse encontrado por outra pessoa que, consequentemente, receberia a culpa
pela difamação do médico. Ela!
"Era muita ruindade para uma vila só!", Tina pensava enquanto revirava
suas cartas. Mortes trabalhadas para que soassem como suicídios e
maledicência em relação aos moradores que não incomodavam à ninguém.
Era preciso descobrir quem havia feito aquilo, pois assim, talvez chegasse
ao sujeito por trás das mortes.
Um folheto dobrado destacou-se em meio às suas cartas. Ao desdobrá-lo,
chocou-se ao perceber tratar-se de uma cópia do crachá de Rafael. Aquela
fora então a fonte de informação: assim como ela, todos deveriam ter
recebido uma cópia, fazendo com que a notícia lastrasse rapidamente entre os
moradores. Alguém encontrou o crachá, tirou cópias, depois o devolveu ao
chão para que fosse encontrado por outra pessoa. Distribuiu as cópias aos
vizinhos e, desta forma, qualquer um poderia ser responsável pelo dano no
veículo. Fora caso pensado! Só podia tratar-se de ação minuciosa, oriunda de
uma mente patológica: o assassino! Muito provavelmente o assassino que
baseava-se nos medos planejava agir novamente. Ao revelar a especialização
do médico aos vizinhos, ele mexera com seu medo de ser descoberto e mal
tratado, ativou-lhe um trauma antigo, provocando no homem tristeza,
angústia e desespero que, se não fossem bem digeridos ou contidos, poderiam
levá-lo a um fim trágico. Rafael seria uma vítima e Tina precisava agir!
Trabalhou o restante da manhã, parando apenas para preparar um almoço
rápido e depois retornou às suas pesquisas. Mas o acontecido não lhe saía da
cabeça. Quisera pudesse ter alguém em quem confiar, entretanto, uns mais e
outros menos, todos ali poderiam estar envolvidos no caso.
Pensava também no fato de Pedro e Jaqueline terem se mudado
silenciosamente durante a noite. Isto era estranho visto que fora Pedro quem
sentira o cheiro de gás e descobrira o cadáver de Aurora. Mas, deviam ter
seus motivos... E se houvesse alguma culpa, a polícia os procuraria.
A tarde avançou sem que qualquer fato a desviasse de seus pensamentos e
nem de seu trabalho e, à noitinha, já havia enviado o material pesquisado
durante o dia para Romualdo Galvão, recebendo do jornalista a resposta de
sempre. Mais tarde, jantou as sobras do almoço e buscou algo de atrativo na
televisão.
O filme que assistia já estava avançado quando teve impressão de ouvir
algum barulho vindo do apartamento ao lado direito do seu. Logo
desvencilhou-se da ideia, pois, lembrara que aquele apartamento estava vazio
e trancado, precisando de reformas. Certamente fora o vento vindo do bosque
que lhe causara tal impressão ou qualquer outra movimentação que
aparentara barulho... Mas não custava dar uma espiada pela varanda.
Sem abrir a sacada, aproximou-se e olhou por trás do vidro, vendo passar
embaixo de sua sacada o vulto de casaco escuro que vira na noite anterior à
morte de Aurora. E ele vinha do lado da casa vazia.
Recolheu-se para que não fosse vista e esperou um pouco, antes de espiar
novamente. Não havia mais sinal de ninguém. O vulto desaparecera e ela
sentira-se uma verdadeira idiota por não ter ficado na sacada e verificado o
rumo que ele tomaria. Voltou à sala sentindo raiva de si, quando percebeu
que, do outro lado da calçada, no apartamento ocupado por Humberto, a luz
da sala se acendia. Contrariando os conselhos de Maria, Tina sentiu medo.
Talvez o fato de a luz da sala do apartamento de Humberto ter sido acesa
logo após a passagem do vulto fosse apenas uma coincidência. Talvez não o
fosse.
O domingo também amanheceu chuvoso. Tão chuvoso quanto o sábado e
não se via viva alma na vila naquela manhã. Tina tomou seu café e ligou o
computador, pois, apesar de ser um dia de folga, quanto mais adiantasse seu
trabalho, melhor seria.
Ficou pasma ao ler sobre a desenvoltura dos psicopatas. Descobrira que
portadores de psicopatia habitualmente dispunham de charme excessivo e
inteligência acima da média, que acabava por favorecer a aproximação com
as pessoas caso fosse este o seu intuito. Em contrapartida, apresentavam
também total falta de consideração com os sentimentos de outras pessoas,
como se somente suas vontades tivessem valor e urgência.
Descobrira também que estes indivíduos podiam adotar postura de
liderança, com postos ou profissões de destaque e, quando descobertos pela
sociedade, os psicopatas não continham suas ações ou modificavam seu
comportamento; pelo contrário: habitualmente reagiam com mais
agressividade, apesar de disfarçar este comportamento de forma inteligente.
Perguntou-se o que um serial killer faria para disfarçar seu
comportamento agressivo... A resposta veio-lhe à mente quase
automaticamente: sendo aquilo que não é! Fingindo boas ações e tratando de
maneira natural à todos.
Seus pensamentos foram desviados por Cândido, que a chamava do lado
de fora.
— Por acaso você viu a minha Flor? - o homem aparentava nervosismo.
— Não, Cândido. Não vi Flor hoje. Aconteceu alguma coisa?
— Eu espero que não... Mas Flor desapareceu. Eu dormi cedo ontem à
noite e, quando acordei pela manhã, percebi que ela não estava em casa. Não
dormiu em casa, para ser mais exato. Flor sumiu desde ontem. Eu não tinha
intenção de fazer alarde mas... Revirei tudo! Procurei em todos os lugares,
mas não a encontrei.
Tina não conseguia acreditar no que ouvia. Nem bem havia se recomposto
do ocorrido na véspera, quando todos voltaram-se contra Rafael após a
misteriosa inscrição em seu carro e já se deparava com um novo e não menos
estranho evento. Como uma senhora de idade simplesmente desaparece sem
qualquer motivo que justifique isso? Ela não via sentido naquele
desaparecimento.
— Dalton e Clara vão me ajudar nas buscas. Eu procurei cedo, mas agora
sairemos pelo bairro pra ver se alguém tem notícias dela, se alguém a viu.
— Você não faz nenhuma ideia de onde ela possa estar? Nenhuma casa de
parentes ou conhecidos? - Tina tentava ajudar.
— Já telefonei à todos e ninguém sabe dela. Minha Flor sumiu! Algo deve
ter acontecido com ela.
Preocupada e consternada com o desespero do homem, Tina ofereceu-se
para ir com eles. Desligou o computador e desceu. Na saída da vila, munidos
de fotografias de Flor, Cândido e Dalton seguiram para um lado, enquanto
Clara e Tina tomaram direção oposta.
Não havia qualquer sinal do andarilho por ali e Tina imaginou que, em
decorrência da chuva, ele tivesse buscado algum abrigo, algum local onde
pudesse se proteger. Talvez ele não vivesse tão à esmo e tivesse uma casa ou
lugar para ficar em dias como aquele.
Passaram toda a tarde nas ruas, batendo de porta em porta, entrando em
cada estabelecimento comercial que estivesse aberto, perguntando para cada
pessoa com quem cruzavam... Nada! Nenhuma pista. Ninguém vira Flor
pelas redondezas e isto, de certa forma, era desesperador para Cândido.
Quando voltaram à vila, já havia escurecido e a chuva havia diminuído,
apesar do frio ter aumentado. Cândido foi direto para casa. Lá no fundo ele
alimentava esperanças de que ela houvesse voltado. Mas não, Flor não estava
em casa. Frustrado e cansado, o velho senhor acionou a secretária eletrônica
em busca de algum recado da esposa ou alguma ligação perdida que pudesse
apontar seu paradeiro. Mais uma vez não havia nada. Nenhum sinal de Flor,
nenhuma notícia e o nervosismo de seu marido crescia à olhos vistos.
— Se ela sumiu ontem de noite, já vai pra vinte e quatro horas do
desaparecimento... Não seria caso de colocar a polícia no meio? - Clara,
também preocupada, pensava em possíveis atitudes que deveriam ser
tomadas.
— Seria, mas ele tem esperanças de que ela volte antes de chamar a
polícia. Sabe como é o Cândido... Preferiu esperar um pouco mais. Caso não
apareça até amanhã pela manhã, ele vai à delegacia registrar o
desaparecimento. - Dalton explicou.
— Se ela estivesse por aí, teríamos encontrado. - Tina mantinha-se
intrigada com tudo aquilo.
Pensava em tudo... Flor poderia ter saído e sofrido algum acidente,
poderia ter tido um lapso de memória e por isso não conseguia voltar para
casa, um infarto... Possibilidades fervilhavam sem dó na mente incansável da
jornalista.
— Quando entrar, vou imprimir alguns panfletos com a foto dela e o
número do telefone. Amanhã pela manhã, ao sair para o estúdio de televisão,
vou distribuir em alguns locais. - Dalton disse, complementando:— Uma
velhinha tranquila e caseira como a Flor não desaparece do nada!
Despediram-se e Tina seguiu para sua casa. Debruçada em sua janela,
Berenice perguntou se obtiveram êxito, demonstrando tristeza com a negativa
de Tina. No apartamento de cima, na penumbra, Humberto observava a
mobilização da jovem.
Na sala de sua casa, Tina torcia para que aquele desaparecimento não
significasse mais um ataque do serial killer, apesar de não ter nenhuma
certeza sobre isto. Pensava no desespero de Cândido ao ver-se sem a esposa.
Justo ele que lhe afirmara não saber mais viver sem ela... Teria aquele
desaparecimento alguma relação com a aparição do vulto de casaco na noite
anterior? Seria coisa que Tina deveria investigar por si, sem comentar com os
vizinhos. Analisando todos os fatos, qualquer um ali poderia ser suspeito e,
caso soubessem de sua desconfiança, poderia também voltar-se contra ela.
Era preciso investigar sem deixar que os outros percebessem; precisava
buscar pistas e averiguar possibilidades sem que os demais moradores da vila
notassem suas desconfianças. E isto não seria uma tarefa fácil!
O sono não chegava. Deitada no sofá da sala e enrolada em um cobertor
grosso, com uma xícara de chá quente nas mãos, Tina assistia a última sessão
de filmes do canal local sem prestar a menor atenção. Mediante tantos
acontecimentos, ela não conseguia se concentrar. Metaforicamente, seus
pensamentos vagavam pela vila, buscando evidências ou pistas que pudessem
apontar o paradeiro de Flor ou, ao menos, dar-lhe algum indício. Mas, ao
pensar no homem de casaco escuro e nas mortes que haviam acontecido, nada
parecia se encaixar ao caso além do que ela já havia considerado. Eram
informações incertas e aparentemente distorcidas; elementos que ao mesmo
tempo em que se aproximavam também se afastavam sem significar algo de
concreto. Até aquele momento somente o que ela tinha eram divagações que
apontavam para uma série de situações que, em determinado momento, ao
serem comparadas, escapavam de seu controle.
Na manhã de segunda feira, Tina acordou com o toque do telefone celular
e muita dor de cabeça, sem conseguir sequer encarar de frente a claridade que
vinha da janela. Talvez fossem reflexos da noite mal dormida. Do outro lado
da linha, ao atender ouviu a voz do pai.
— Quer dizer então que você esqueceu que tem pai e mãe?
De fato, fazia dias que não telefonava para casa e ficou sem jeito ao ser
cobrada pelo pai.
— É o trabalho, pai. Muita correria.
A conversa com o pai estendeu-se por alguns minutos e ainda falou com
mãe. Eufóricos, eles queriam saber sobre seu progresso enquanto ela
procurava disfarçar para que não percebessem a tensão que a acometia.
Depois de falar com os pais, era hora de ir até a casa de Cândido buscar
notícias e ver se algo havia mudado.
12
- Estranhamentos -

Era incrível mas, de um dia para o outro, Cândido parecia ter perdido
muito peso e estava visivelmente abatido, tamanha sua tristeza pelo
desaparecimento de Flor. Tina ficou consternada com a aparência do vizinho,
que já não continha mais o choro.
O homem se mantinha nervoso: — Aconteceu alguma coisa... Eu sei
disso! Minha Flor não me abandonaria. Ela sabe que eu não conseguiria viver
sem ela. Ela não tinha motivo algum para abandonar a nossa casinha... Não
tinha!...
— Calma, Cândido. Deus não abandona seus filhos em desespero. Ele
proverá!
Era padre Bernardo, que falava da porta, chegando à casa do vizinho.
— Oh, padre! Sempre tão gentil, sempre com palavras de consolo. Sou
grato por seu cuidado, mas não tenho como ficar calmo em momento como
este. - mesmo em meio à todo o desespero, o homem agradecia aos que lhe
acolhiam.
— Há algo mais que eu possa fazer, Cândido? - perguntou Tina,
preocupada em ajudar.
— Dalton saiu por aí espalhando fotos dela. Clara também levou algumas
fotos. Precisamos mobilizar as pessoas. Minha Flor precisa aparecer...
A situação era real e dolorosa.
— Vou até a edição da revista onde trabalho. Talvez o editor chefe tenha
algum conhecimento em jornais e consiga a divulgação da foto de Flor. Isso
aumentaria significativamente o alcance... Mais pessoas saberiam do
desaparecimento e conheceriam seu rosto. Talvez isto nos traga respostas
sobre o paradeiro dela.
— Não sei se seria adequado fazer estardalhaço, Cristina. - disse o padre,
mostrando que não aprovava sua intenção.
A visão do padre era mais centrada, mais calma e mais confiante. Coisas
de padre! Mas não era hora de sentar e esperar por milagres. Era preciso que
todas as possibilidades fossem esgotadas. A situação exigia ação e Tina
agiria.
Pegou uma remessa dos cartazes impressos por Dalton na noite anterior,
que estavam sobre a mesinha de centro na sala de Cândido e deixou a vila
rumo ao escritório da revista. Padre Bernardo permaneceu lá, dando atenção e
consolando o vizinho.
— Não esperava vê-la hoje, minha jovem!
O chefe, sentado atrás de sua mesa e com os pés sobre ela, recebia visitas
e parecia mais contente que nos outros dias, forçando alguma simpatia e
sustentando na face um sorriso amarelo.
— Conhece Romualdo Galvão, o melhor e mais inteligente escritor de
casos policiais e sobrenaturais que esta revista tem? - ele falou sorrindo,
tentando ser ainda mais agradável.
Doutor Inácio lhe apresentava o homem que estava com ele em sua sala.
Então aquele era Romualdo Galvão, o sujeito para quem Tina pesquisava,
mas cujo rosto lhe era desconhecido? Tina cumprimentou o homem, que
deixou escapar um sorriso irônico enquanto dizia: — Olá! Você então é a
jovem jornalista por trás das pesquisas dos meus artigos? Pois saiba que estou
muito satisfeito com seu trabalho e com sua competência e responsabilidade
com as tarefas. Muito satisfeito!...
— Obrigada, senhor, mas não vim até aqui para receber elogios. - e,
direcionando-se ao chefe, prosseguiu: — Posso falar com o senhor em
particular, doutor?
— Ora, vejam só! Mal chegou e já quer ter particulares com seu chefe... -
a ironia cedeu lugar ao sarcasmo e à insatisfação no rosto de Romualdo
Galvão. — Eu já estava mesmo de saída!
O homem pareceu não gostar muito da intromissão de Tina e de ser
preterido naquele momento. Talvez estivesse ali tratando também de algo
sério... Entretanto, Romualdo Galvão deixou a sala, cedendo espaço para que
ela pudesse conversar com o patrão.
— Espero que você tenha um bom motivo para interromper minha
conversa com Romualdo. Um escritor deste porte não pode ser destratado ou
deixado de lado por banalidades. - disse o homem, sem esconder sua
insatisfação e já afastando do rosto qualquer resquício de simpatia.
— Preciso de sua ajuda. - ela não lhe deu tempo para ficar tecendo elogios
ao jornalista. - Uma moradora da vila onde moro desapareceu no sábado à
noite. Ninguém consegue encontrá-la... Já é uma senhora de idade e não
temos notícias dela. O senhor não teria nenhum conhecimento no jornal local
que pudesse divulgar este desaparecimento?
As palavras de Tina foram suficientes para que doutor Inácio ficasse
enfurecido.
— Veio até aqui para me pedir favores? Favores para indigentes?...
— Não é uma indigente, senhor. - ela deveria saber que a reação do
homem não seria das melhores, já devia ter se acostumado aos seus
rompantes.
— Doutor! É doutor! - reforçou furioso e aos berros antes de prosseguir. -
Se não vai reverter em nada, se não vai me acrescentar nada, é indigente e
não tem a menor importância. Não vivo de caridade... Porque eu faria isso?
Era absurdo o que ele dizia! Sabia que não se tratava de um bom homem,
mas não imaginava um mercenário.
— Porque, talvez, ao ajudar e se ela for encontrada, o senhor pode ser
citado como benemérito no caso. Já pensou nisso? Sua ajuda pode enaltecer
seu nome. - ela buscava alguma justificativa que encantasse o homem e o
fizesse ajudar.
— Isso não me basta, minha cara aprendiz de jornalista! Minha
experiência com desaparecimentos que estendem-se por mais de vinte e
quatro horas não é nada favorável... Sendo realista: há noventa por cento de
chances desta mulher estar morta e, caso isto se confirme, eu quero o caso
nas páginas da revista com exclusividade. Isto sim enalteceria o meu nome!
Uma bomba jornalística! Este tipo de notícia aumenta as vendas, favorece a
concorrência e se não for desta forma, nada feito, entendeu?
"Aprendiz de jornalista?!", ela indignou-se com o tratamento que lhe fora
direcionado. Tina via-se "entre a cruz e a espada", como diziam os antigos.
Era aceitar a ajuda e depois entregar o caso para a revista ou negar-se a
entregar o caso e não contar com a ajuda do homem. Ficou com a primeira
opção.
— Certo, eu entrego o caso ao senhor, desde que eu mesma possa redigi-
lo.
— Você redige e eu supervisiono. Sua publicação só será feita após meu
aval. Caso não esteja adequada, eu faço as alterações necessárias. Não vou
abrir nenhuma brecha para que faça merda na edição das matérias de minha
revista. Se estiver de acordo, passo agora mesmo os dados desta senhora, para
que sejam publicados na próxima edição do Notícia Vespertina. Hoje mesmo
estará nas bancas. O que me diz? - ele foi enfático e direto como uma víbora.
Era preciso concordar. Confiava perfeitamente em sua redação e sabia
que, o que quer que escrevesse, não apresentaria falhas ou sofreria retaliações
por parte do patrão. Talvez uma pequena alteração ou algum breve
acréscimo, mas nada que deturpasse por completo o teor de seu texto. Sendo
sua única alternativa, valia a pena arriscar.
— Fechado!
Passou os dados ao chefe, assim como a foto de Flor e, de imediato, ele
enviou tudo por fax para o conhecido que tinha no jornal, com a promessa de
que seria publicado. Dali pra frente tudo se tornava apenas um "seja o que
Deus quiser"!
Tina voltou rapidamente à vila na expectativa de que algo houvesse
mudado, porém, o cenário que encontrou foi o mesmo: Flor desaparecida e
Cândido desesperado. Próximo ao portão de entrada, nem sinal do andarilho.
Sem ter muito o que fazer a não ser esperar, seguiu rumo à sua casa,
parando rapidamente na janela de Maria, que parecia esperar por ela.
— Boas notícias? Acharam a mulher? - Maria demonstrava alguma
preocupação, apesar dos maus tratos que Flor lhe direcionava.
— Nada, Maria. Flor continua sumida desde sábado à noite.
— Maria sempre diz que não se deve ter medo. Guarde isto! Não tenhas
medo.
— Eu sei, mas em meio a tantos acontecimentos, não ter medo é quase
impossível. Penso nos suicídios e agora neste desaparecimento... É tudo
muito complicado.
— Sim, é. Mas você precisa se manter a calma, sem medo.
— Alguém está brincando com nossos medos não é, Maria? Por isso é
preciso não ter medo... Para não ser mais uma vítima?
Maria apenas riu. A gargalhada de sempre, jogando com força a cabeça
para trás, porém em tom mais contido, como se não quisesse ser ouvida por
outras pessoas, como se não quisesse chamar a atenção ou por respeito à dor
de seu vizinho e entrou, deixando repentinamente Tina do lado de fora da
janela de sua casa.
Antes de entrar em casa, Tina percebeu que o carro de Rafael permanecia
na vila, assim como o carro de Humberto. Aparentemente os dois estavam em
suas casas, apesar das janelas fechadas. Já o veículo de Lobato, como era de
praxe durante horário comercial, não estava por lá.
O frio se manteve durante toda a tarde e somente ao anoitecer Tina voltou
a ouvir barulho na vila. Era Lobato, que estacionava o carro em frente à sua
casa e, como se estivesse revoltado com alguma coisa, bateu a porta com
força.
— Só perguntei se ele havia visto Flor e ele me destratou desta forma. Mal
educado! - Berenice explicava-se com Tina que, ao ouvir o barulho, chegara
na janela.
Sem sombras de dúvidas, Lobato era um sujeito estúpido e irritadiço, que
evitava qualquer contato com os vizinhos. Berenice continuou justificando-
se: — Não me custava perguntar... Ele poderia ter visto alguma coisa, ora!
Sem ter o que dizer à mulher, Tina sorriu de leve, acenou com a cabeça,
dando-lhe a impressão de concordar e depois entrou, voltando à sua pesquisa.
Considerando o acontecido com Rafael e a forma como Maria era maltratada,
ela não queria muita conversa com as pessoas dali.
Por volta das oito da noite, alguém batera à porta de sua casa. Tina
estranhou, pois, não se recordava de ter deixado aberto o portão de acesso à
escada. Era Humberto, com uma pizza, duas latas de refrigerante nas mãos e
o semblante repleto de ironia.
— Vim jantar e trouxe a janta. Espero que não se incomode. Comer pizza
sozinho é ruim, ainda mais em noites de segunda feira, portanto, nestas horas,
qualquer presença é bem vinda. Você pode pegar os pratos na cozinha? -
disse já entrando pela casa e deixando no assoalho da sala algumas pegadas
marcadas com lama seca.
"Qualquer presença?!..." Ela não era qualquer presença e não gostou de
ouvir aquilo.
— Como você subiu? Como chegou até aqui em cima?
— Acho que você deveria ser um pouco mais atenta. Deixar o portão e a
porta abertos com tantas mortes acontecendo na vila, não é uma boa
estratégia de sobrevivência. - ele foi enfático.
Era incrível a forma como aquele homem se expressava, mantendo sempre
ares de que o certo era ele. Petulante ao extremo, como sempre fizera questão
de ser. E se as mortes, ao que tudo indicava, eram suicídios, por qual motivo
o vizinho associava à elas o perigo de deixar o portão aberto? Quem se mata
não precisa necessariamente ter deixado seu portão aberto... A veia
jornalística de Tina sobressaltou-se mais uma vez! Era preciso prestar atenção
em Humberto. Em paralelo, não se lembrava de ter deixado o portão aberto,
mas, pensaria naquilo depois.
Com preguiça de questionar, Tina foi até a cozinha e trouxe pratos e
talheres para os dois. Ao voltar à sala, encontrou Humberto em frente ao
computador lendo seus registros.
— Isto é trabalho! - ela disse, interpondo-se entre o homem e a máquina.
—Pesquisar sobre serial killers? É isso que você faz o tempo todo aqui
dentro?
— Como já falei: isso é trabalho! Sou jornalista e estou coletando
conteúdo para fundamentar uma matéria a ser publicada na próxima edição
da revista. Você veio aqui, sem eu ter chamado, para comer pizza e não para
mexer nas minhas coisas. - e fechou o computador.
Ele não questionou, apesar do ar irônico estampado no rosto.
— Então, vamos à pizza!
Humberto abriu a caixa da pizza e serviu uma fatia para Tina antes de
servir-se. Ela sentou em um canto da sala comendo e ele sentou-se no sofá.
Não sabiam sobre o que falar... Não havia assunto que rendesse conversas e
isto fazia com que se instalasse um clima desconfortável. Mas, como já
estavam ali, restava-lhes comer a maldita pizza.
— O que você pensa sobre o sumiço da velha da casa um? - Humberto
perguntou enquanto servia-se de outra fatia de pizza.
— Espero mesmo é que ela apareça. Mas a situação é complicada...
— Também acho. Não vi movimentação de polícia e estranhei. O marido
dela não deveria ter registrado este desaparecimento? - ele demonstrava
curiosidade que não combinava com suas ações.
Tina achava bastante esquisito que Humberto, sempre alheio à qualquer
acontecimento, demonstrasse interesse no desaparecimento de uma vizinha a
quem mal cumprimentava. Não esperava que ele sequer tocasse no assunto.
— Eu não sei dizer se Cândido foi à delegacia e registrou o
desaparecimento. Depois que cheguei do escritório da revista não estive com
ele. Sai cedo, deixei padre Bernardo o aconselhando e não sei o que ele
decidiu.
— O padre?!... Então é provável que não tenha registrado. Não houve
nenhum policial na vila hoje. Caso ele tivesse comunicado o
desaparecimento, haveria algum investigador por aqui. - ele explicou com
propriedade.
Neste ponto, o vizinho estava certo. Considerando que nenhum policial
esteve na vila, era provável que Cândido não tivesse registrado a queixa. Por
que? Era mais que tempo de mobilizar a polícia, pois, como Flor
desaparecera no sábado de noite, seu desaparecimento completava quarenta e
oito horas e quanto mais tempo passasse, mais difícil o caso se tornava. Era
preciso que algo efetivo fosse feito, pois, apenas procurar não surtira
resultados.
— Talvez você tenha razão... - Tina respondeu, sem saber o que dizer.
— Eu tenho razão.
Humberto comeu ainda uma terceira fatia de pizza e, ao terminar, foi até a
sacada para fumar. Tina o acompanhou — Uma pena que esta reserva esteja
fechada. - ele disse mencionando o bosque. — Dizem que há anos atrás era
um dos principais pontos de lazer da região. Hoje encontra-se abandonada,
servindo de moradia para desocupados. Mais uma decisão imprudente do
governo.
— Toda cidade tem suas falhas. Certamente esta é uma falha da prefeitura
daqui.
O frio parecia mais ameno naquela noite, permitindo que ambos
passassem mais tempo do lado de fora. A vila, como era de se esperar, não
tinha nenhum movimento, como se todos já tivessem se recolhido às suas
casas, com exceção da casa de Cândido, onde todos os cômodos pareciam
acesos ainda. Era provável que ele passasse mais uma noite em claro,
esperando pela esposa.
— O que você pensa sobre todas estas mortes?
Por mais que tentasse, Tina não conseguiu resistir em perguntar a opinião
de Humberto.
— E eu deveria achar alguma coisa? - ele respondeu seco e com a cara
fechada, como se não tivesse gostado da pergunta. —Essa gente resolve se
matar e eu tenho que achar alguma coisa disso?
— Só imaginei que tivesse opinião formada... - respondeu sem jeito.
— Não tenho opinião alguma.
— E não acha estranho tantos suicídios em um mesmo lugar? - ela
insistiu, certa de que a reação dele não seria das melhores.
—Sinceramente? Não sei se é tema que mereça atenção... - e, mesmo
frente à surpresa dela, ele prosseguiu: —Esse lugar é estranho. Não sei se
percebeu, mas as pessoas aqui são estranhas. O tipo de gente de quem tudo
pode ser esperado.
— Esta é uma verdade, mas, ainda assim, os suicídios não me cheiram
bem. Não se trata de coisa natural... São muitos e sucessivos para uma vila
tão pequena. As pessoas não decidem se matar e simplesmente se matam!
Deve existir um elemento motivador... Algum fator que favoreça estes
suicídios.
Neste momento, ela não conseguiu identificar se a expressão dele era de
irritação ou incredibilidade. Ouviu sua resposta insatisfeita — Eu acho que
seu tempo está sendo desperdiçado. Acho que você emprega tempo demais
pensando em coisas que não lhe competem. Se eu fosse você, certamente
teria um cuidado maior e evitaria falar este tipo de coisa pra qualquer pessoa.
Nunca se sabe quem é quem.
Mais uma vez ele saia pela tangente! Não respondia, não expressava sua
opinião; apenas direcionava a questão para as ações de Tina, acarretando-lhe
culpa por sua curiosidade. E prosseguiu: —É tarde. Vou embora.
Humberto deixou a casa de Tina sem olhar para trás ou agradecer pela
companhia, deixando a vizinha na varanda.
Tina, chateada com a reação do vizinho, não esperou que ele chegasse lá
embaixo. Entrou e fechou a porta de sua varanda logo que ele saiu de lá e
retomou sua pesquisa, estendendo-se nela até parte da madrugada.
13
- A morte ronda-

Quando despertou pela manhã já era tarde e sentiu-se envergonhada por


ter dormido tanto. Perdeu a hora! Não havia intenção de levantar-se tarde. O
clima ali oscilava bastante... Fazia muito sol e o frio havia se dissipado.
Levantou-se, tomou banho e após o café desceu para ir até a casa de Cândido
saber como estavam as coisas. Sentiu um cheiro ruim na escada, mas
imaginou que talvez fosse das pegadas de lama deixadas por Humberto na
véspera. Entretanto, ao chegar do lado de fora, o cheiro parecia mais forte.
Para aumentar seu estranhamento, encontrou portão e porta fechados. Na
véspera, Humberto chegara informando que foram deixados abertos e por
isso ele subira. Ela não se recordava de tê-los deixado destrancados. Quando
ele foi embora, chateada com seus desaforos, ela não desceu para fechá-los.
Esqueceu-se completamente disto. Porque cargas d'água então a porta e o
portão encontravam-se fechados pela manhã? Se ela não desceu, se não
fechou, deveriam, pela lógica, ainda estar abertos.
Enquanto dirigia-se para a casa de Cândido, viu que padre Bernardo
deixava a vila e Berenice varria sua calçada. Cumprimentou a vizinha, sem
parar para conversas.
Do outro lado do muro, na entrada da vila, coincidentemente, Remela
passava, empurrando seu carrinho, que parecia ainda mais cheio de
quinquilharias. Ele acenou para ela.
Na casa um, tudo permanecia como antes: Flor ainda estava desaparecida
e Cândido cada vez mais abatido. Estava realmente bem mais magro tamanha
sua desolação e tristeza por não achar a esposa.
Por mais que quisesse ajudar, não havia muito o que fazer. Cândido
negava-se chamar a polícia. Alegava, empregando as palavras do padre, não
querer estardalhaço com o caso e Tina achava tudo aquilo fora do comum. A
inclusão da polícia em casos de desaparecimento, era necessária, mas o
vizinho não via desta forma. Não cabia a ela tomar decisões por ele. Já
bastava ter solicitado a publicação no jornal por iniciativa própria, sem
consultar ninguém. Ficou cerca de uma hora na casa de Cândido, fazendo-lhe
companhia e depois, deixou-o sob os cuidados de Dalton, que chegara de sua
gravação.
O cheiro ruim parecia ainda mais forte com o avançar da manhã. Quanto
mais Tina se aproximava de casa, pior ficava. A casa de Júlia permanecia
fechada desde sua morte. Nenhum parente viera para recolher seus pertences.
Fechada estava também a casa sete, de Aurora, e seu andar de cima, que antes
era ocupado por Pedro e Jaqueline. Em contrapartida, os vizinhos que
moravam mais para o começo da vila, pareciam ainda não ter sentido o
cheiro, o que fez com que Tina suspeitasse que ele estava concentrado
naquela região, ou seja, no final da vila. Era estranho... Imaginou que o
cheiro pudesse vir da casa oito, fechada para obras.
Aproximou-se do portão de entrada e, de fato, o cheiro encontrava-se mais
forte por ali. O que quer que estivesse fedendo, estava dentro da casa oito e
Tina teve muito receio de descobrir do que se tratava... Espiou pelo muro
baixo tentando ver algo, mas não via nada. Porta e janelas fechadas, passando
a impressão de que havia, além delas, uma cortina escura e pesada, talvez
algo para reduzir a luz. Tina não se recordava de já ter observado a presença
daquelas cortinas. Seria plástico para omitir a obra inacabada? E o cheiro era
quase insuportável.
Forçou a entrada, mas, assim como o dela pela manhã, o portão da casa
oito também estava trancado. Ela precisava chamar alguém para lhe ajudar,
mas quem? Pensou em Humberto, porém, desistiu ao lembrar-se da noite
anterior. Padre Bernardo não estava; Lobato certamente, se estivesse em casa,
lhe daria um fora e Cândido não tinha a menor condição. Só restava Rafael e,
por sorte, a sacada da casa do médico estava aberta. Tina chamou por ele e
pediu ajuda.
Rafael não parecia muito satisfeito ao descer, mas, sabe-se lá o porquê,
não negou ajuda à vizinha que, em sua concepção, lhe causara um grande
problema e fizera com que todos os moradores da vila se voltassem contra ele
e revirassem seus traumas.
— Mas você quer abrir a porta da casa? Entrar sem autorização? Isso é
invasão! Pode dar problema... Gaspar não é um sujeito fácil de lidar, é
intransigente, grosseiro e certamente não vai gostar nem um pouco disso... -
disse o médico, quando Tina lhe contou sobre suas intenções.
— Tem alguma coisa lá dentro, doutor. O cheiro está muito forte.
— Sim... Eu sinto. E você identifica este cheiro, não é? - ele disse sério,
demonstrando seu conhecimento em relação ao que poderiam encontrar
dentro da casa.
— Eu acho que sim.
Tina torcia para que ambos estivessem errados. Por mais que tudo ali
fosse possível e por mais que ela considerasse toda e qualquer possibilidade,
queria muito que suas suspeitas naquele momento fossem infundadas. Rafael
foi até seu carro, ainda sujo de tinta, e trouxe de lá uma ferramenta, com a
qual forçou o portão e conseguiu fazer com que se abrisse. Ao vararem o
pequeno portão, perceberam que havia muitas moscas na varanda da casa. O
cheiro era muito ruim e foi preciso usar a ferramenta e forçar também a porta
para que se abrisse.
As paredes estavam revestidas de isopor, técnica conhecida para evitar a
passagem de som para o meio externo. Em um canto da sala, muito escura em
decorrência dos panos pretos que isolavam a claridade vinda de fora, no meio
de uma poça de sangue ressecado, estava o corpo inerte de Flor, já em estado
de decomposição.
A mulher estava morta alia havia dias. Muito provavelmente desde a noite
ou madrugada de sábado quando desaparecera. Tina e Rafael não sabiam
como agir e foi preciso, até mesmo para o médico que estava acostumado
com autópsias em corpos apodrecidos, conter a ânsia de vômito frente à cena
grotesca.
A notícia não demorou para se espalhar pela vila. Quando a polícia
chegou, após investigação da perícia, foi constatado, mais uma vez, suicídio:
Flor havia se trancafiado na casa abandonada e cortado seus pulsos com
cacos de azulejo que estavam espalhados pela sala, onde a reforma fora
suspensa.
Tina se perguntava o motivo da mulher ter se trancado em uma casa vazia
para cometer suicídio, quando lembrou-se de algumas palavras ditas por ela
na noite de sexta feira, quando visitou o casal: "Eu, por exemplo, não consigo
me imaginar presa em algum lugar... Sem poder sair de algum lugar, sem ver
uma saída. Tenho muito medo de lugares fechados e não sei qual seria a
minha reação em uma situação destas."
Medo de lugares fechados! Flor morria de medo de lugares fechados e o
assassino deve ter descoberto isso, aproveitando-se deste medo ao trancá-la
na casa vazia e escura, sem qualquer comunicação com o mundo do lado de
fora, para promover seu suicídio. Tudo se encaixava perfeitamente. O
assassino descobria realmente os medos de cada pessoa ali naquela vila e
usava estes medos para fazer com que se matassem.
Apesar de absorta com tudo aquilo e preocupada com Cândido, que
entrara em estado de choque ao ser comunicado sobre a morte da mulher,
algo que vira na sala despertou a atenção de Tina. Lembrava-se de que havia
restos de obras e, em determinado espaço de chão próximo da janela, se
fixasse a visão, poderia identificar uma pegada grande e mal limpa de
homem. Era uma marca fraca, quase não se podia notar. Talvez, em sua
tentativa de apagar rastros, o assassino tivesse falhado e deixado ainda uma
sombra de sua pegada ali, que parecia ter sido marcada com sangue, porém,
suas impressões eram extremamente parecidas com as impressões de lama
deixadas por Humberto na véspera, na sala da casa de Tina. A tal pegada, ao
que tudo indicava, passara despercebida pela perícia, que já havia levado o
corpo e isolado o local.
Toda a vila permaneceu silenciosa o restante do dia e Rafael, apesar de
todas as ofensas recebidas, atendeu e medicou Cândido em casa, sem que o
idoso precisasse ser encaminhado à uma unidade de saúde. Depois
prontificou-se em acompanhar o viúvo até o Centro de Medicina Legal para
oficializar o reconhecimento do corpo. Quando retornaram à vila, Tina,
mesmo envolta em tantas dúvidas, esperava por eles e tinha preparado
comida na casa de Cândido, para que o vizinho se alimentasse.
Cândido entrou ainda muito nervoso e amparado por Rafael. Ambos
sentaram-se na sala.
— Eu mesmo reconheci o corpo. Não achei justo deixar que ele o visse. É
doloroso demais e ele já é um senhor de idade. Como tenho conhecimento lá,
fiz a identificação e Cândido concordou em só assinar o documento.
Tina achou o gesto inesperado do médico muito bonito e generoso. Lhe
agradeceu. Depois informou que colocaria a mesa.
— Vamos, Cândido. Você não comeu nada o dia inteiro. Precisa se
alimentar. - disse Rafael ao levá-lo até a cozinha.
— Eu e Flor não temos o hábito de jantar. - o homem falava ainda
confuso, como se mulher estivesse viva.
— Mas hoje você vai jantar. Precisa de forças... Até eu vou jantar aqui
com você, Cândido. - o médico insistia.
Era comovente ver o quanto Rafael se dedicava mesmo tendo sido tão
maltratado. Cândido sentou-se à mesa com Rafael, mas mal se alimentou.
Beliscou umas duas garfadas da comida apenas para não fazer desfeita aos
vizinhos. Enquanto estavam na cozinha, o padre Bernardo entrou pela casa.
— Boa noite. Cândido, meu amigo, peço perdão por não estar ao seu lado
em um momento tão difícil. Que Deus o abençoe e conforte. - o padre parecia
muito chateado por sua ausência naquele momento. — Só soube agora, ao
chegar na vila.
Após o jantar, Tina lavou toda a louça e deixou a cozinha arrumada. Padre
Bernardo ofereceu-se para passar a noite com Cândido, para que o velho não
ficasse sozinho.
Tina e Rafael deixaram a casa do vizinho juntos e, ao chegarem em frente
a casa cinco, encontraram Maria do lado de fora, o que era bastante incomum,
pois, a vizinha raramente deixava sua janela. Sua saia era tão comprida que
escondia-lhe os pés e, conforme ela se movia, fazia barulho ao roçar o chão
da calçada.
— Boa noite. - a mulher os cumprimentou e, antes de qualquer reposta,
continuou:—Maria vê que vocês cuidaram do velho. Fizeram bem. Muito
bem! O que menos se precisa agora é de mais um medo alimentado nesta vila
e aquele velho tem todos os motivos para alimentar seu medo, certo?
Rafael parecia não entender nada do que a mulher dizia e percebia-se a
confusão em seu semblante. Tina sabia que não seria fácil para Cândido ficar
sem a esposa, mas também não conseguiu captar o real teor do que Maria
falava. Porém, considerando a atenção que lhe era dispensada, ela sabia que
devia respostas à mulher.
— Ele vai ter que se acostumar a viver sem ela, Maria. - foi o que
conseguiu dizer à vizinha, tamanho seu cansaço.
— Fique quieta, moça. Hoje Maria quer falar com você. - e apontou para
Rafael. —Você é um moço que sente medo mas não se deixa levar por ele.
Sabe reverter seu medo, certo, moço? Entretanto, é preciso ter atenção, muita
atenção. Urso que pisa onde não deve fica preso em arapuca; cigana que
dança perto da fogueira, toca fogo na saia; homem que não mede os próprios
passos acaba pisando na merda. É preciso que o moço tenha cautela, e que
você, moça, tenha mais atenção. É preciso não prender-se à passos errados.
Nem sempre o que parecer ser, realmente é. Passos errados, entendeu, moça?
— Não...
Realmente, Tina não havia entendido. Maria nunca fora tão enigmática. A
impressão que se tinha era de que ela não queria ser entendida, queria deixar
no ar suspeitas e charadas cujas respostas Tina não podia dar de imediato.
Seria Rafael uma próxima vítima?
A conversa deles foi interrompida por Humberto, que chegava à vila e,
antes de subir ao seu apartamento, sobre a casa três, os cumprimentou
secamente. Tina sentiu um frio na espinha ao lembrar-se da pegada vista na
cena da morte de Flor. Não comentara nada com ninguém, porém, o fato de
tratar-se de pegada muito semelhante às que foram deixadas por Humberto na
sala de sua casa em outra noite ainda a incomodava. E amedrontava também!
Percebeu que Maria manteve os olhos voltados para o chão e respondera
timidamente ao cumprimento do vizinho.
— Maria vai pra casa. O que não foi entendido, de certo o será quando
chegar a hora. Mas lembrem-se: sem medo, sem riscos. É preciso lembrar... -
e entrou.
— Nossa! Ela saber ser enigmática. Talvez, por isso, todos a evitem.
— Eles não a evitam, doutor. Eles a destratam, exatamente como fizeram
com o senhor naquela manhã, após seu carro amanhecer pintado. - Tina
justificou.
— Eu sei. Não aceitam sua deformação.
Mais uma vez surgia a história da deformação de Maria! Pelo visto, Rafael
também via seu rosto deformado e Tina, intrigada, perguntou-se o que fazia
com que aquilo acontecesse. Por que ela não via defeitos em Maria?
Considerando as reações, a visão que os vizinhos tinham de Maria não era
nada agradável, mas Tina sabia que ela era uma mulher bonita. Ao menos, era
assim que a via.
— E não deve ser nada fácil pra ela ser assim e ter que conviver com estas
pessoas daqui. - Rafael insistiu no assunto. — Não sei como ela não tem
medo dessa gente, medo que lhe façam mal.
Tina sabia. Maria não tinha medo. Medo algum. E sabia que ninguém ali
poderia ter medo.
— Falando nisso... Preciso me desculpar com você. Minha reação naquela
manhã não foi das melhores e acabei te ofendendo. - Rafael disse, sem jeito.
Tina não esperava um pedido de desculpas, pois, já havia deixado o
acontecido de lado e imaginou que ele também o tivesse deixado. Não
esperava que Rafael voltasse ao assunto... Como nada foi dito e ele a tratara
bem, pensou que o desentendimento entre os dois estivesse superado. Mas o
médico prosseguiu com sua explicação: —Depois, parei para pensar e percebi
que você não faria uma coisa daquelas. Não faria... Não faz o seu tipo...
Certamente, foi alguma outra pessoa da vila. Alguém cruel, que gosta de ver
as pessoas sentindo-se mal. Não foi você!
Tina entendeu o médico e respondeu: — Não se preocupe. Sei o quanto
aquele evento o incomodou e entendo a situação.
Ela realmente entendia, mas não quis estender-se: — E se me dá licença,
vou subir. O dia foi puxado e amanhã não será diferente.
14
- Aqui jaz -

— Você está maluca? Romualdo Galvão acaba de me informar que não


recebeu nenhum material de pesquisa ontem! Sua função é enviar conteúdo
todos os dias... Todos os dias, entendeu?!
Ainda não eram sete da manhã e o chefe, do outro lado da linha, já
perturbava Tina pelo telefone celular. Ela não havia mandado nada para
Romualdo Galvão! O dia anterior fora tão conturbado que ela realmente
esquecera de enviar a pesquisa à Romualdo, enfurecendo o chefe. Havia
cometido um erro e, pelo que via, erros não eram perdoados.
— De... Desculpe. Ontem o corpo daquela senhora que desapareceu aqui
na vila foi encontrado e eu acabei me envolvendo nisso. Esqueci de enviar o
material. - ela respondeu com a voz trêmula.
— E ainda houve isso? A velha apareceu morta?! Um corpo foi
encontrado e você não relatou nada? Se eu bem me recordo, combinamos
exclusividade em relação ao desfecho deste caso!
— Foi suicídio, senhor. Ela se matou. Trancou-se em uma casa vazia na
vila e se matou. - tentava se explicar, ciente da insatisfação do homem.
Por mais que tivesse feito um acordo com o chefe, Tina não achava justo
ver aquele acontecimento trágico ser explorado em páginas de revistas. Era
preciso respeitar a morta e o marido.
— E, você disse vila, não foi? Onde fica esta vila?
Não havia como relutar. Tina deu ao chefe a localização da vila onde
morava, não se surpreendendo com o que ouviu depois: — Cacete! É a vila
onde o palhaço triste se matou! Mais um suicídio em uma mesma vila! Você
quer história melhor para as minhas páginas? Tem noção dessa bomba,
garota?!... Isso é chamariz de leitor!
O chefe chegara exatamente onde Tina não queria que ele chegasse. Ela
sabia que aquela descoberta resultaria em problemas. Sabia que ele tentaria
explorar o acontecido de forma a extrair dele algum lucro ou prestígio para
sua publicação.
— Ah!... Dois suicídios em uma mesma vila?... Isto não deve ser uma
simples obra do acaso. Tem coisa aí! Se antes você não tinha uma matéria,
agora tem! Não me apareça aqui enquanto não tiver desvendado isso, caso
contrário é olho da rua. Olho da rua, ouviu bem? - e desligou o telefone
abruptamente sem se despedir.
Tina não queria explorar a dor dos moradores da vila para transformá-la
em reportagens sensacionalistas. Entretanto, caso não o fizesse, estaria
desempregada e ela sabia que aquilo não era uma brincadeira. Ele a demitiria
sem pena alguma, sem pensar duas vezes.
Em paralelo, sabia que havia coisa mais importante com o que se
preocupar: a pegada! Assim como os suicídios, conforme dissera o chefe, não
eram coincidência, imaginava que a semelhança entre as pegadas também
não o fosse. Em meio à tanta desinformação, começou a sentir medo de ter
medo de Humberto. Maria reforçava tanto a necessidade de não sentir medo,
mas isto era quase impossível frente às evidências. Se as marcas de lama
deixadas por ele assemelhavam-se à marca com sangue que vira no local do
suposto crime, abrir mão do medo exigia controle emocional que ela não
sabia se conseguiria ter. Seria difícil evitar o vizinho que insistia em fazer-se
presente nas horas e momentos mais variados, porém, até que tudo aquilo
fosse esclarecido, era preciso manter distância. E havia ainda o episódio do
portão e da porta que, até então, não havia sido digerido por ela. Como eles
apareceram fechados se estavam abertos? E como ela não se lembrava de tê-
los deixado daquela forma?
Por meio de Berenice, Tina soube que o velório de Flor começaria às dez
horas, na primeira capela do cemitério local. Por sugestão do padre Bernardo,
seria coisa rápida para poupar Cândido de maior sofrimento e o enterro estava
programado para o meio dia. De fato, era o mais adequado a ser feito,
considerando o desamparo do viúvo, as condições em que se encontrava o
corpo e a maneira como a morte acontecera.
Fosse por gratidão ao casal que a recebera tão bem na vila ou por sentir-se
obrigada, Tina não poderia deixar de comparecer. Ela evitava enterros,
sempre evitou. Não se sentia bem em cemitérios e cerimônias fúnebres, mas
não havia como não ir. Ela estaria lá.
Por volta de nove e meia, Tina deixou sua casa e já deparou-se com a vila
praticamente vazia. Apenas Paulo, estava na varanda, apesar de tratar-se de
horário em que deveria estar na escola.
— Bom dia, Tina. Hoje eu não fui na escola. Não dormi a noite inteira e
de manhã cedo eu sentia muita dor de cabeça, então minha mãe achou melhor
que eu não fosse. - o rapaz, sempre bastante comunicativo, lhe informou.
— Mas o que te impediu de dormir, Paulo? - Tina perguntou, certa de que
algo incomum impedira o sono do jovem cego.
— Passos. Muitos passos. Passos entrando e saindo da casa a noite toda.
— Aqui em cima? - ela perguntou tensa, referindo-se à casa de Humberto.
— Sim. Esse homem passou a noite andando pela casa e, de tempo em
tempo, descia as escadas e saía para logo depois voltar e continuar andando.
Você sabe... Eu escuto demais... Isso não me deixou dormir. Eu me revirava
na cama, mas não pegava no sono...
Ela teve pena do rapaz. Imaginava a angústia de não poder enxergar,
porém ter de ouvir todo e qualquer som, sentir diversos movimentos nas
horas mais inesperadas e vindo de onde menos se imagina. Não devia ser
fácil acompanhar os barulhos da madrugada e, naquele local, isto soava-lhe
mais sofrido, ainda mais para um jovem de quinze anos.
— A pior coisa que tem é querer dormir, sentir sono e não conseguir
porque um imbecil desocupado resolveu passear dentro de casa pela
madrugada. E não é a primeira vez que ele faz isso! Vira e mexe passa as
noites andando... Esse homem não sossega! Anda demais!
Absorta com o relato do rapaz, Tina percebeu que ele interrompera sua
fala repentinamente e, sem entender o motivo, lhe respondeu: — Tente
descansar, Paulo. Tente dormir um pouco.
Um barulho de passos lhe chamou a atenção e ela
deparou-se com Humberto descendo as escadas. Estava
explicado o silêncio repentino de Paulo! Certamente o jovem sentira os
passos do vizinho e por isso conteve suas queixas.
Tentando evitar Humberto, Tina apressou-se em se despedir de Paulo.
— Vou indo, Paulo. Descanse.
— Precisa de carona?
Humberto lhe perguntou e, antes que ela lhe respondesse, ele continuou:
— Imagino que esteja indo ao velório da senhora da casa um... Estou certo? -
ela concordou com a cabeça, temerosa do que viria depois. — Eu também.
Podemos ir?
Ela não queria ir com ele. Não queria ficar perto daquele homem que, até
então, estava em sua concepção, afundado até a cabeça naquelas mortes. Era
absurda a frieza dele!
— Pode ir, moça! Ele te leva e te traz de volta.
Era Maria que, de sua janela, em tom de voz firme, interferia na conversa.
— Bom dia! Como está a senhora?
Tina imaginava que já tivesse visto de tudo por ali, mas não esperava que
houvesse entrosamento entre Maria e Humberto, que a cumprimentava com
excessiva simpatia. Não fora isso que vira anteriormente...
— Maria vai bem, moço. Muito bem. Já você... Ih!... Maria não sabe,
não... - Maria respondeu e depois deu sua habitual gargalhada, entrando e
deixando no ar a frase de cunho duvidoso.
Humberto sorriu. Um sorriso farto, largado. Sorriu sem reservas e
satisfeito, como Tina nunca o havia visto sorrir. Como Maria podia ter tanta
proximidade com aquele homem cujas ações eram cada vez mais
desconexas? E porque, com Maria, ele não usava sua petulância?
Sem ter como fugir, ela aceitou a carona até o cemitério, despertando
olhares dos demais vizinhos ao chegar lá acompanhada de Humberto.
Dentro da capela, onde o caixão fora mantido fechado, Cândido estava
sentado e cabisbaixo em uma cadeira posicionada ao lado do corpo. Rafael
também já estava por lá e, em determinado momento, deixou a capela,
conversando com Seu Gaspar, o senhorio; enquanto em um canto oposto
estavam Dalton, Clara e Berenice. Outras pessoas também estavam lá, mas
Tina as não conhecia. Provavelmente, eram parentes ou conhecidos do casal.
O viúvo não deixou o lado da esposa por um minuto.
Foram duas horas de velório, mas pareceu muito mais. O tempo custava a
passar, explorando o sofrimento de Cândido, como uma mão gélida que
insiste em acariciar sadicamente as solas dos nossos pés nas noites de
inverno, como o bisturi que escava a ferida até o fundo para retirar-lhe a
podridão, como o verme que caminha lento no lixo e dele se alimenta.
Houve um momento em que Tina percebeu que Humberto se ausentara do
local. Imaginou que tivesse saído para tomar um café ou respirar ares menos
tensos. Logo depois, o padre Bernardo chegou e, contrário ao que se espera
de um padre, não iniciou nenhuma oração de corpo presente. Ateve-se em
ficar ao lado de Cândido, consolando-o ao pé do ouvido. Decerto dizia
palavras de conforto, citações religiosas ou coisas deste tipo. Palavras assim
eram bem vindas nestas ocasiões.
Tina manteve-se observando o que acontecia, apesar de bastante
incomodada com o clima tenso no local. Ela não gostava de cerimônias
fúnebres, nunca gostou. Poucas foram as vezes em que comparecera à
alguma. Tratava-se de ambiente onde sentia-se estranhamente desconfortável;
onde deixava-se tomar por incômodos absurdamente dolorosos. Entretanto,
por consideração ao vizinho que conhecia há poucos dias, mas que sempre a
tratara tão bem, não poderia deixar de comparecer.
Quando o sino soou, informando a hora do enterro e os funcionários do
cemitério entraram na capela para levar o caixão, foi preciso que padre
Bernardo e Rafael, que havia acabado de voltar à capela com uma garrafa de
água mineral nas mãos, segurassem Cândido, que entrou em desespero.
— Não sei viver sem minha Flor! Não sei... Tenho medo de ficar sem
ela... A vida sem ela não tem mais graça... Não tem mais sentido... - e
chorava compulsivamente. — Quem vai conversar comigo? Como vou
continuar vivendo sozinho naquela casa sem a minha Flor?... Não sei ficar
sem ela... Tenho muito medo!...
As palavras que eram repetidas constantemente por Maria, ecoaram mais
forte que o som do sino nos ouvidos de Tina: "Não tenha medo!" De certo,
aquilo se aplicava à Cândido também! Se o tal assassino se aproveitava dos
medos para matar, ao expressar seu medo ali, em frente à quase todos os
moradores da vila, que comentariam este episódio em ocasião futura,
Cândido inconscientemente se oferecia como um próximo alvo.
Ao olhar para a porta da capela, Tina percebeu que Humberto ressurgira e
se mantinha implacável, sem tirar os olhos do viúvo e sem trocar uma palavra
com qualquer das pessoas presentes ali. Até nos momentos mais difíceis ele
era arrogante!
O cortejo até a sepultura seguiu com Rafael e o padre amparando
Cândido. Todos os outros seguiram atrás, mas Humberto não foi, ficou na
capela esperando pela volta deles. Qual o motivo daquela ação? Seria
remorso? Pouco provável. Psicopatas não demonstram ou sentem remorso
por seus crimes.
Após o enterro, considerando o estado de Cândido, Tina decidiu que
voltaria com ele no carro de Rafael. Padre Bernardo pediu carona até a vila.
—Tem certeza disso? - Humberto demonstrava não ter gostado da decisão
de Tina.
— Sim. Eu tenho. - ela não mediu as palavras e, muito menos, o tom.
Durante todo o percurso até a vila o carro de Humberto manteve-se atrás
do carro de Rafael, como se o motorista fizesse questão de segui-lo de perto,
de não perdê-lo de vista. Tina estava no banco da frente e o padre, no banco
de trás, segurava as mãos de Cândido em sinal de compaixão e amparo.
Na vila, o padre ofereceu-se para ficar com Cândido mais uma vez. Como
precisava cuidar de seu trabalho para que não tivesse mais problemas com o
chefe, Tina não fez oposição ou ofereceu-se para rendê-lo. Como padre, ele
saberia consolar e cuidar do vizinho.
Na saída da casa de Cândido, Remela a chamou pelo muro, do lado de
fora da vila: — Moça bonita, vem cá!
Ela seguiu em direção ao andarilho para saber o que ele queria.
—A velha morreu! Ela era boa pessoa... Muito boa gente!... Às vezes até
me dava comida, me dava roupas. Sacanagem! Tem gente que não deveria
morrer. Não, não deveria morrer! Devia criar raiz e se transformar em árvore
só pra gente poder apreciar; ou virar estrela lá em cima no céu... Tem gente
que não deveria morrer... - ele se repetia e parecia comovido, mas, mesmo
assim, não conseguia deixar de sorrir.
— Pois é, Remela! É a vida nos pregando peças. - e lembrando-se de que
ajudar nunca é demais, perguntou: — Você já se alimentou hoje?
— Comi um pão com ovo na hora do almoço. Não tenho fome, meu
estômago é de passarinho. E quando a fome vem, de tão acostumado com ela,
ele não ronca; ele pia de mansinho.
Havia algo de poético nas reflexões de Remela. Enquanto em alguns
momentos ele parecia completamente louco, em outros demonstrava
sensibilidade incomum à grande parte das pessoas.
Remela despediu-se, seguindo rumo à estação de trem com seu carrinho
de bugigangas e Tina, antes de voltar-se à vila, percebeu que do tal carrinho
que o homem empurrava pendia uma manga de casaco escuro, semelhante ao
casaco usado pelo sujeito que vira rondando as instalações de gás. Procurou
não pensar naquilo naquele momento. Casacos de cor preta eram bastante
comuns. Talvez aquela fosse somente mais uma coincidência. Talvez não...
De volta à vila, encontrou Dalton e Clara conversando na porta de casa
com uma jovem de cabelos avermelhados.
— Tina, essa é a Dora, a moça que mora aqui em cima de nossa casa. Ela
voltou hoje.
Dora devia ter perto de uns trinta anos ou um pouco mais, e parecia
simpática.
— Oi. Dalton disse que você se mudou faz pouco tempo e que foi você
quem encontrou o corpo de Flor. Espero que não esteja pensando em deixar a
vila por causa de todos estes acontecimentos. - a jovem comentou sorrindo.
— Olha, confesso que a vila é movimentada demais e em sentido
negativo, mas eu não penso em ir embora, não. - tentou ser agradável mesmo
mediante tanto cansaço, depois despediu-se: — Se vocês me dão licença, vou
para casa. Estou cansada e preciso de um banho com urgência. Os últimos
dias foram exaustivos por aqui.
Por mais que Dora parecesse simpática, não havia clima para conversas.
Tina precisava voltar para sua casa e ter tempo para analisar algumas
questões que a estavam incomodando. Além disso, havia também seu
trabalho, que não podia ser deixado de lado.
Ao chegar lá em cima, apesar de a porta estar trancada, Tina encontrou
tudo revirado. As prateleiras de caixotes, deixadas na parede pelo morador
anterior, foram arrancadas e estavam jogadas no chão; o sofá estava de ponta
cabeça. A pouca louça da cozinha estava fora do lugar, apesar de não ter sido
quebrada. O computador e a televisão, únicos objetos de valor dentro do
apartamento, pareciam intactos. Pegou o telefone celular e chamou a polícia.
15
- Tudo pode acontecer -

— Quer dizer então que, enquanto a senhora estava no enterro de sua


vizinha, alguém entrou e saiu de seu apartamento, sem arrombar sua porta e
revirou toda a sua sala. Tem certeza de que nada foi levado?
O policial parecia estranhar o fato de não haver roubo ou falta de qualquer
objeto.
— Não dei falta de nada. Até o meu computador de trabalho, que de certa
forma teria valor comercial, não foi levado.
— E nem foi mexido? - perguntou o investigador.
Isto ela não sabia. Viu que o computador estava na sala onde o deixara,
mas não o havia ligado para conferir seus arquivos. Ligou o computador na
frente do investigador e viu que todos os arquivos sobre serial killers que
havia coletado foram apagados do disco rígido.
— Apagaram a minha pesquisa! - foi o que conseguiu balbuciar.
— Que tipo de pesquisa era?
Tina tremia. Jamais imaginara passar por tal situação. Ela tentou se
acalmar e buscar condições de responder ao policial.
— Sou jornalista. Trabalho para uma revista e estava fazendo pesquisa
sobre serial killers, para endossar uma próxima matéria a ser publicada.
— Certo! Então quem entrou em sua casa apagou arquivos de seu
computador que eram referentes à sua profissão. Só isso? - o homem parecia
interessado.
— Sim. Não havia mais nada arquivado. Uso esta máquina para trabalhar
apenas, ela me foi cedida pelo editor chefe da revista.
— Se não se importa, levarei o computador para ser periciado. Pode ser
que consigamos digitais ou alguma outra pista. - disse o investigador.
Tina não tinha muitas esperanças de que algo fosse descoberto. O
investigador que fora até sua casa era o mesmo que estivera na vila em
ocasião das mortes e ela não o via como um profissional competente. Se ele
nunca desconfiara que os acontecimentos por ali tratavam-se de assassinatos
e não suicídios, não seria ele quem descobriria qualquer indício em seu
computador...
— Vou pedir urgência na perícia do material para não atrapalhar seu
trabalho e talvez amanhã eu já faça contato. Enquanto isto não acontece,
aconselho que troque sua fechadura. Seja quem quer que tenha estado por
aqui, esta pessoa tem uma cópia de sua chave e, se quiser, poderá voltar.
Depois que o investigador se foi, Tina foi até a cozinha pensando em
comer alguma coisa. Já estava pegando um pedaço de queijo na geladeira
quando deu-se conta de que, quem entrou ali, poderia ter mexido em sua
comida e até a envenenado. Tudo o que estava aberto na geladeira e dentro de
panelas, foi ensacado para ser jogado fora. Para não ficar com o lixo repleto
de sobras de comida dentro de casa exalando mau cheiro, Tina decidiu descer
com o saco para colocá-lo na lixeira. Era quarta feira, dia de coleta e o
caminhão passaria em breve.
Colocou o saco na lixeira coletiva que ficava no início da vila, perto do
portão principal e ao virar-se deparou-se com o homem de capuz e luvas,
provavelmente o mesmo que vira na instalação de gás. Não teve tempo para
nenhuma reação. Um soco certeiro no meio da cara lhe tirou os sentidos.
Sem nenhuma noção do tempo que se passara, Tina acordou com Lobato
lhe chamando: — Acorda, garota! Chão de vila não é lugar pra dormir. Eu
cheguei cansado, quero colocar meu carro pra dentro e você está no meio do
caminho. Sinto muito incomodar seu descanso, mas não posso passar por
cima de você.
Ela tentava falar, mas a voz não saía. Percebeu que o vizinho anti-social
começava a perder a paciência, mas não conseguia expressar nada, até que
mais alguém se aproximou. Era Clara.
— O que aconteceu?
— Sei lá! Só sei que quero entrar com o carro na vila e não posso porque
ela está esparramada aqui no chão. Parece louca!
— Você não vê que alguma coisa aconteceu com ela, seu imbecil? - Clara
foi ríspida com Lobato, não poupando-lhe a ofensa.
Sem paciência com o vizinho grosseiro, Clara ajudou Tina a ser recompor
e a levou para a calçada. Quando conseguiu ficar de pé, Tina percebeu que
Lobato já entrava na vila dirigindo seu carro com as janelas abertas. No
banco de trás, pode ver claramente um casaco preto de capuz, ainda do lado
avesso, todo retorcido, como se tivesse sido tirado às pressas. Sentiu que suas
pernas bambeavam mais uma vez e não teve tempo de ver quem se
aproximara para ajudar Clara, que esforçava-se para segurá-la. Apagou
novamente.
Acordou no sofá da sala de Clara e Dalton, rodeada pelos dois e por padre
Bernardo.
— Está melhor, Cristina? - perguntou o padre.
— Muita dor na cabeça. Acho que a bati com força no chão, quando caí.
— Mas o que aconteceu para que você desmaiasse? Deve ter sido algo
grave, considerando seu nervosismo.
— Fui colocar o lixo e, quando estava voltando, um homem encapuzado
me deu um soco na cara.
— É impressão minha ou você viu quem não planejava ser visto?
Tina ficou confusa frente à pergunta feita por Dalton. Não sabia em quem
podia confiar e qualquer comentário que fizesse ali poderia lhe prejudicar,
poderia despertar ainda mais a atenção do assassino em relação à ela. Sabia
perfeitamente que alguém na vila era culpado pelas mortes, mas não sabia
quem e, se falasse demais, certamente teria sérios problemas. Para sua sorte,
Dora entrou pela casa e, sem saber, a livrou da obrigação de responder ao
vizinho.
— Tina, o que houve? Escutei um falatório e quando cheguei na janela,
Clara estava te trazendo pra cá. Precisa de ajuda? Você se acidentou?
A jovem realmente parecia muito preocupada. Tina buscou não fazer com
que tudo aquilo rendesse mais que o necessário.
Não adiantava prorrogar o assunto e, quanto menos falasse, melhor seria.
— Eu já estou melhor. Vou voltar para casa. - Tina tentou se levantar.
— Ah!... Mas não vai mesmo! Depois de ter levado uma porrada destas e
ter batido com a cabeça no chão, você não vai ficar sozinha em casa.
— Talvez ela se sinta melhor sozinha, Clara. - padre Bernardo contestou a
vizinha que se interpunha ao isolamento de Tina. — Isto vai da personalidade
de cada um. Talvez Cristina não queira companhia.
— O padre tem razão. Não há necessidade de se incomodarem. Eu dou
meu jeito...
— Eu fico com você, Tina. Eu fico! Isso é... Se você não se incomodar
por eu ser praticamente uma pessoa estranha. - disse Dora.
"Era muito melhor uma estranha aparentemente pacífica do que alguém
arrogante, que se fazia de conhecido, e lhe invadia a casa!" Tina, em
pensamento, referia-se à Humberto que, em sua concepção, fora quem lhe
invadira o apartamento e revirara os arquivos de pesquisa do computador,
apagando-os, apesar de não haver nenhuma prova ou indícios concretos.
— Não me incomodo, mas podemos ficar na sua casa ao invés de ficar na
minha, Dora? Isso se eu não for incomodar... - ela perguntou de imediato,
apesar do desconforto de oferecer-se para ficar na casa da vizinha.
Tina, certa de que ninguém vira que um policial esteve em sua casa mais
cedo, não queria que soubessem que a casa fora revirada, pois, teria que dar
explicações. Se Dora fosse para sua casa, veria o estado em que ela se
encontrava e faria perguntas. Perguntas que Tina não pretendia ter de
responder tão cedo. Era melhor não ter ninguém em sua casa naquela noite.
— Claro! Eu acabei de fazer uma sopa de ervilhas, que cai muito bem
nesses dias mais frios. Está fresquinha! Podemos jantar e conversar até que
você se acalme.
Assim como as demais casas da vila o apartamento de Dora tinha dois
quartos e uma sacada de varanda; os cômodos eram dispostos exatamente
como no apartamento de Tina. O que destacava-se ali era a decoração. Tudo
bem arrumado, com móveis que, de tão sintonizados, praticamente
dialogavam entre si.
O cheiro da sopa de ervilhas que emanava da cozinha, onde sentaram-se
para comer e conversar, era de abrir o apetite.
— Sei que você não me conhece e que, considerando tudo o que tem
acontecido por aqui, deve ser muito difícil confiar em alguém... Mas quero
que saiba que minha intenção é apenas ajudar. - foi desta forma que Dora
iniciou conversa com Tina. — Estou aqui há tempo o suficiente para entender
que algumas coisas nesta vila não são normais.
— Quanto tempo, Dora? - Tina teve curiosidade devido à segurança
demonstrada pela vizinha ao falar.
— Quase quatro anos. Me mudei por causa da faculdade, para fazer uma
especialização de um ano e acabei ficando. Sou formada em direito, Tina e,
querendo ou não, adquiri um olhar diferenciado para alguns eventos. Nem
tudo por aqui é exatamente como parece ser.
Enfim alguém naquela vila resolvera falar sua língua!
— Desde a morte do palhaço triste, que sucedeu à chegada de novos
moradores, muita coisa aconteceu por aqui. A maioria procura agir como se
fosse obra do acaso. Eu, de certa forma, ajo assim para não ter problemas,
mas sei que há algo além. E agora, depois deste tempo em que passei com
minha mãe, ao chegar e me deparar com outras mortes, fico ainda mais
convicta desta minha suspeita.
— E de quê exatamente você suspeita?
Era preciso entender outros pontos de vista. Tina tinha suas convicções
em relação aos acontecimentos na vila, mas, qualquer outra opinião poderia
mostrar-lhe mais detalhes ou evidenciar elementos que passaram
despercebidos. Se havia alguém ali disposto a falar, que falasse.
— À princípio, quando Clemente se matou, não suspeitei de nada. Ele era
um homem gentil, que tratava à todos muito bem, apesar de bastante
reservado. Completamente diferente de Lobato, que é reservado, mas
grosseiro como um ogro. As pessoas mais próximas perceberam que
Clemente foi mudando... O apelido de palhaço triste veio em decorrência
disto, de tempos antigos, quando eu ainda nem o conhecia. Ele já não
conseguia fazer graça há tempos, coitado! Sua tristeza, com o passar dos
anos, foi aumentando... O apelido foi ganhando força e Clemente foi
enfraquecendo. Foi abraçando este apelido como seu, entende? Todos viram
a evolução da dor que ele carregava. Dizem que em sua última apresentação
pública, na última festa que ele animou, até maquiou-se de maneira diferente,
usando formas no rosto que apontavam para esta tristeza.
— Nossa! E ninguém fez nada para ajudar? - Tina incomodou-se com a
falta de assistência ao homem.
— Não havia o que fazer. Ele estava na vila havia anos, mas não se
deixava ajudar... Quando eu tocava no assunto, quando pedia que ele tivesse
ânimo, sempre me dizia que a vida de palhaço não tinha a menor graça e que
só lhe restava rir de seu próprio destino, já que ele não fazia mais ninguém
rir. Era uma situação complicada, mas não imaginei que chegasse ao suicídio,
até que aconteceu. Acho que ninguém aqui imaginava.
— Você disse que fazem quatro anos que mora aqui. E os demais?
Tina imaginava que saber sobre a chegada de cada morador na vila lhe
daria alguma perspectiva em relação às mortes. Era preciso saber quem já
estava ali em ocasião da morte de Clemente que, em seu entender, fora a
primeira.
— Deixa eu ver se me lembro... - Dora parecia fazer esforço para se
recordar-se da chegada de cada vizinho. — Quando me mudei para este
apartamento somente Cândido, Flor e Clemente moravam na vila. Havia
outros moradores, mas já não estão mais aqui. Muita gente não aguenta o
temperamento do Seu Gaspar. Mais ou menos um ano após minha mudança,
veio Aurora, que também era muito atenciosa com Clemente. - ela explicou,
enquanto vigiava a panela de sopa sobre o fogão.
— Dizem que eles tinham um caso... - Tina tentou ir um pouco além do
que Dora demonstrava ter vontade de falar.
— Sim, dizem. Eram muito próximos mesmo e talvez tivessem, apesar de
serem sempre muito discretos em relação à isso. Mas, pensando por outro
lado, considerando as condições emocionais dele, não sei se viria a envolver-
se com alguém.
Enquanto conversavam, Dora colocou uma travessa com torradas na mesa,
serviu à Tina um prato de sopa de ervilhas quente, regada com azeite, e uma
taça generosa de suco de laranja com acerola. Depois serviu-se também e
voltou à mesa, dando prosseguimento ao assunto enquanto comiam.
— Algum tempo depois de Aurora, chegou Maria, a espanhola da casa
cinco. Apesar de tudo, ela é bem sossegada... Tem a deformidade dela, mas
não perturba ninguém, não incomoda.
"Então Dora também via deformidades no rosto de Maria!", Tina pensou
sem mencionar nada.
— Seu Gaspar fez então uma grande reforma na vila, pra tentar alugar
mais casas, pois, todas estavam precisando de reparos. As obras na casa oito,
onde foi encontrado o corpo de Flor, ficaram inacabadas. Parece que foi falta
de recursos. Estas obras se estenderam e nesse meio tempo só vinham
inquilinos para temporadas. Depois, isso deve ter um ano, chegou Berenice
com os dois filhos. Estava viúva de pouco e buscava aluguel mais barato.
Tina sentia-se muito bem ali. Era bom estar com alguém que não usava de
meias palavras ou parecia esconder segredos. E a sopa de Dora estava
deliciosa, embalando perfeitamente aquela conversa tão agradável.
— Todo o restante veio depois, devem ter uns seis pra sete meses. O
médico, o padre Bernardo, Lobato, o casal Pedro e Jaqueline, Júlia, e o
escritor. Todos chegaram pouco antes da morte de Clemente, quando as obras
enfim foram dadas por encerradas.
— Escritor? - Tina não identificava nenhum escritor.
— O cara do apartamento sobre a casa três. - ela respondeu.
— Humberto? Humberto é escritor?
— Sim. Pelo menos foi o que disse seu Gaspar: "Este rapaz é um escritor
renomado. Ele precisa de silêncio e tranquilidade para escrever seus livros."
- Dora engrossou a voz e imitou o jeito de falar do senhorio. — Parece que
escreve romances policiais. - ela concluiu.
Humberto nunca havia dito nada sobre sua profissão e lembrava-se de, em
outra ocasião, Dalton ter mencionado desconhecer sua ocupação. Tina teve
impressão de que ele a escondia. Era estranho ter um escritor de romances
policiais em uma vila onde aconteciam tantos crimes. Além disso,
considerando a prepotência daquele homem, Tina perguntava-se porque ele
não usava esta sua função para tirar vantagem, para vangloriar-se? Seria
típico dele!
— Os últimos a chegar foram Dalton e Clara. E agora você. Parece que
ninguém dura muito aqui... Quem não vai embora se mata.
— Então você também acha que há excesso de suicídios aqui? - Tina
perguntou.
—Acho tudo muito estranho. Talvez seja alguma maldição. Sou do
interior, Tina, cresci acreditando nesta coisas. Na roça a gente escuta muita
história deste tipo: maldição, praga, almas. Por mais que a vida nos exija
pensamentos mais racionais, para quem veio da roça estas coisas acabam
prevalecendo e povoando nosso imaginário. De repente, seu Gaspar, sendo do
jeito que é, já aprontou alguma e levou com uma maldição pelas costas, que
acaba refletindo na vila, que é o centro de seus negócios.
— E falando em sua casa, como estão as coisas lá? Sua mãe? Como ela
está? Você estava fora por causa dela, não é? - Tina, repentinamente,
lembrou-se de perguntar à nova amiga.
— Minha mãe... A casa... O que não me faltavam eram motivos pra estar
lá. É provável até que eu tenha que voltar em breve. Mas isso é conversa que
rende, então é melhor deixar para outro dia.
Já era tarde e Tina sabia que Dora certamente estava cansada da viagem.
Agradeceu pela sopa e levantou-se da mesa, oferecendo-se para lavar a louça.
— Nem pensar! - Dora disse. - Visita aqui na minha casa não trabalha de
maneira alguma. Vou te emprestar uma roupa e você vai tomar um banho
para relaxar e depois dormir. O seu dia não foi menos cansativo que o meu.
Dora lhe ofereceu um quarto muito bem arrumado e roupas confortáveis,
para que dormisse bem. Como era um cômodo nos fundos, voltado para a rua
de trás, Tina não caiu na tentação de espiar pela janela e tentar ver mais
alguma movimentação suspeita, fosse do homem de casaco ou de qualquer
outro morador da vila. Porém, dormir não foi tarefa fácil.
Teve a sensação de revirar na cama por horas, apesar de todo seu cansaço.
A possibilidade de voltar a sonhar ainda a incomodava muito. E havia tensão!
Ela, lá no fundo, sabia que, por mais que não fosse sua intenção, estava se
colocando na mira do assassino. O simples fato de morar ali já a
transformava em uma possível vítima e se ele, fosse quem fosse, descobrisse
ou explorasse seus medos, seus riscos eram ainda maiores. O ataque que
sofrera, confirmava esta possibilidade! Talvez o psicopata já a estivesse
observando, buscando identificar o que a amedrontava para tirar proveito
disso. Talvez estivesse sondando suas fraquezas para, com isso, ganhar força
e levá-la ao fim.
Era preciso descobrir quem era o tal assassino antes que ele a descobrisse,
antes que captasse seus medos e fizesse deles uma arma. Pensando nas
palavras e na força que Maria tinha em superar tudo o que passava ali, Tina
tentou não esmorecer. Precisava manter-se atenta à qualquer indício, pois, até
o mais inteligente dos psicopatas, em algum momento, deixaria uma falha. E
seria esta falha que a levaria até ele.
16
- Falta que mata -

No dia seguinte Tina acordou cedo e não quis que Dora tivesse mais
trabalho com ela do que já tivera na noite anterior. Alegando que precisava
trabalhar, deixou o apartamento da vizinha e deu uma passada rápida em seu
apartamento, para trocar de roupas e pegar a carteira. Eram seis e meia da
manhã ainda. Ela iria até a padaria comprar algo para comer e, quando
voltasse, arrumaria a bagunça deixada pelo invasor.
A chuva parecia ter voltado forte durante a madrugada. Havia lama na rua,
apesar de, naquele momento, apenas garoar. Decidiu tomar seu café na
padaria: uma caneca grande de capuccino com dois pães de queijo também
grandes, para matar a saudade que sentia de casa.
Sentou-se para comer em uma mesa reservada, em um canto de onde via a
entrada da padaria. Não se surpreendeu ao ver Lobato chegando, pisando
forte como se carregasse a raiva nas pernas e sem o menor cuidado de limpar
seus pés no tapete de entrada. Lobato tinha lama nos pés e deixou impressões
que eram familiares para Tina... Pegadas que ela já havia visto anteriormente.
Buscou não pensar naquilo e saborear seu café. Não havia nada que ela
pudesse fazer naquele momento... Talvez já estivesse exagerando, vendo
coisas onde não tinha nada, criando ou fantasiando baseada nas angústias que
nutria. Desviou seus pensamentos, buscando pensar na mãe e no pai.
— Melhorou? - uma voz a despertou de seus devaneios.
Era Lobato, em uma tentativa infeliz de cordialidade, que a deixara
assustada. Tina se recompôs rapidamente para responder ao homem.
— Sim, obrigada.
— De nada!
Ele puxou uma cadeira, sentando-se na mesa de Tina a deixando ainda
mais espantada e sem qualquer reação. Lobato carregava uma bandeja com
café da manhã farto: uma caneca grande de café com leite fumegante, dois
pães franceses recheados de presunto e queijo e uma rosca doce coberta com
canela e açúcar.
— Servida? - o homem perguntou.
— Não, obrigada.
Por mais que sentisse vontade de falar, Tina tinha receio da reação de
Lobato. Sabia que qualquer palavra que o incomodasse poderia resultar em
um 'passa fora' e ela não estava disposta a começar a manhã daquela forma
ou, muito menos, passar vergonha em lugar público, pois, se resolvesse falar
alto, ele o faria. Disto ela não tinha qualquer dúvida!
— Olha, moça, você já devia saber que aquela vila não é passarela de
moda. Devia evitar desfilar por ali, principalmente à noite. Essa coisa de ficar
andando à esmo é perigosa, pode não trazer bons resultados. Você devia ter
um pouco mais de cuidado, ficar em casa quietinha, sem incomodar... Sem
fuçar onde não deve... - ele advertiu, a deixando surpresa e sem resposta.
O homem falava e comia rapidamente, como se sentisse muita fome ou
como se tivesse muita pressa. Cada dentada que Lobato dava no pão já lhe
levava quase a metade.
—Se eu fosse você, não ficava por aí brincando com a própria sorte.
Nunca se sabe de onde a morte espreita e, qualquer um que estiver em seu
caminho, pode ser o próximo, pode se oferecer como alvo.
Havia algo mais na fala de Lobato. Restava à Tina decifrar se tratava-se
de um simples alerta ou uma ameaça velada. Aquele homem, que não era de
conversas e, muito menos, de puxar assunto voluntariosamente estava à sua
frente, a advertindo sobre possíveis perigos. Ela não podia afirmar ver
simpatia naquele contato, porém, havia o contato.
— Toda atenção com a própria vida pode ser pouca por aqui. - Lobato
insistia.
— Vou tomar cuidado... - ela não conseguia conter a tensão em sua voz,
frente à situação constrangedora pela qual passava ali.
—É bom que tome mesmo. Tome muito cuidado. Para o seu próprio bem.
Lobato deu o último gole na caneca de café com leite e levantou-se,
deixando a padaria mordendo a rosca doce que levou nas mãos. Tina Ficou
ali por mais um período curto de tempo, apenas enquanto tomava seu café.
Não sabia se a atitude do homem era só cuidado com ela, o que deveria ser
pouco provável, ou se ele queria lhe dizer mais alguma coisa. Não conseguia
identificar se tratava-se de alguma ameaça, uma vez que, em sua concepção,
ele também era suspeito.
Depois disto, tomou de volta o rumo da vila, resignada a arrumar seu
apartamento que ainda estava revirado.
— Soube que você sofreu um desmaio ontem. O que houve? - perguntou
Berenice de dentro de casa, enquanto Tina passava em frente à sua janela.
— Não sei... Acho que não me alimentei direito, Berenice. - ela procurou
disfarçar, omitindo o real motivo de seu desmaio.
— E chegando em casa tão cedo... Não passou a noite na vila, não? -
Berenice parecia gostar mesmo de fofocas.
— Sim, passei a noite na casa de Dora, mas já estou voltando para a
minha, não se preocupe.
Se havia uma coisa que irritava Tina, esta coisa era fofoca. Detestava
pessoas que insistiam em conversas com intuito de saber além, de esmiuçar a
vida alheia e Berenice, ao que tudo indicava, era este tipo de gente.
Rafael havia descido e dirigia-se para seu carro, o que fez com que
Berenice, ao vê-lo, entrasse e batesse fortemente a janela, fechando-a.
— É! Parece que não se pode agradar à todos. - ele disse.
O médico mostrava-se mais tranquilo. Apesar de saber que a implicância
da vizinha era decorrente de sua especialização médica, isto parecia já não
incomodá-lo tanto.
— Verdade. - Tina concordou, sorrindo.
— Se ouvi bem, ela disse que você passou mal. Foi medicada? Está
melhor?
— Sim, estou bem. Foi só um susto.
— Susto? O que te assustou, Tina?
— Não, eu não tomei nenhum susto. É só maneira de falar... O desmaio
foi só um susto, mas já me recuperei. Estou bem, pronta para outro. - ela
disfarçou.
—Fico contente que esteja bem. Vou trabalhar, já estou atrasado. Tenha
um bom dia, Tina.
Enquanto o médico deixava a vila dirigindo seu carro, Tina entrou em sua
casa. O desânimo tomou conta dela ao ver tudo revirado.
Antes de dar início à arrumação, telefonou para o chefe, informando o que
havia acontecido e, com isso, justificando o fato de não ter remetido nenhum
material de pesquisa para Romualdo Galvão na véspera.
— Então, alguém invadiu o apartamento onde você mora e apagou tudo o
que havia sido pesquisado? - doutor Inácio parecia incrédulo do outro lado da
linha. —Olha, pela experiência que eu tenho como empregador, vou te dizer
uma coisa: quando funcionário começa com desculpas baratas para não
trabalhar é porque está buscando o olho da rua!
— Mas não é uma desculpa barata! Aconteceu mesmo isso. - em vão, Tina
tentava se justificar.
— Você recebe para fazer pesquisas. Essa é a função que assumiu quando
veio até aqui pleitear vaga de emprego. Sendo assim, se não enviar hoje
conteúdo que compense os dois dias de ausência, não receberá o salário dessa
semana, entendido?
—Sim, senhor.
— E não pense também que engoli a história do simples suicídio da velha
desaparecida. Na minha opinião, tem caroço neste angu.
O homem desligou o telefone, deixando do outro lado uma Tina
humilhada. Nunca imaginou que alguém a pudesse tratar daquela forma. Ele
falava como se buscar por emprego fosse o mesmo que mendigar; falava
como se seus subordinados fossem capachos, nos quais ele podia, à torto e à
direito, limpar os pés sujos de bosta pisada na rua. A junção da humilhação
com o cansaço por tudo o que vinha passando, lhe rendeu uma crise de choro,
que estendeu-se até a chegada do policial, com seu computador.
— É, não deu pra recuperar nada. Vou te dizer uma coisa: quem fez esse
serviço, fez muito bem feito. Limparam tudo; não sobrou um resquício de
pesquisa ou sites visitados. E tem mais: nenhuma digital. Certamente quem
invadiu sua casa usava luvas.
"E quem mexeu na instalação de gás também!", ela pensou.
— E qual o próximo passo? - perguntou ao policial.
— Bem... Você registrou uma ocorrência e um inquérito foi aberto, mas
sem pistas é muito difícil dar andamento. Vou precisar que pense... Que
verifique se não deixou passar nenhuma informação que pode ser relevante
ou algum suspeito. Por acaso você teria algum desafeto entre os seus
vizinhos?
— Não. - ela achou melhor negar, pois, o fato de perceber estranheza em
alguns, não necessariamente significava desafetos.
— Então, se houver algo que queira acrescentar, algo que venha a se
lembrar, me telefone.
O policial se foi e Tina sentiu-se confusa. Por mais que tentasse ou
quisesse, ela não sabia como lidar com tudo aquilo. Sentia-se ameaçada e, ao
mesmo tempo, presa à uma situação incerta, onde a dúvida era norteadora de
todas as suas ações. Tina não sabia como deveria agir. Se por um lado havia a
mais absoluta certeza de que as mortes por ali não eram obras do acaso e
muito menos suicídios, conforme afirmava a perícia; por outro, ela sabia que
não poderia se expor na confirmação da verdade, sob pena de tornar-se o
próximo alvo do assassino que rondava a vila. Quem seria ele?
Considerando atitudes e pegadas, ela colecionava dois suspeitos:
Humberto, talvez com intuito de ter uma boa história para um próximo livro;
e Lobato, o mecânico rude e estúpido, cuja postura era mais que um simples
indício. Havia também a manga de casaco vista no carrinho de Remela... Um
mendigo sempre à espreita não era algo considerado normal. Entretanto, nada
poderia ser feito de imediato. Era preciso esperar, explorar os acontecimentos
de forma que algo pudesse se destacar em meio à tudo aquilo, apontando-lhe
elementos mais concretos. E isto não seria simples. Não bastava acusar
alguém, baseada em suas próprias suspeitas.
Naquele dia Tina trabalhou como um louca, para que conseguisse, ao final
da tarde, enviar à Romualdo Galvão conteúdo que compensasse a ausência
nos dias anteriores. Era necessário entupir o homem de material pesquisado
para que ela pudesse respirar aliviada ao menos na noite que se aproximava.
Foram horas ininterruptas de pesquisa trancada dentro de casa, para que
nada pudesse lhe desviar a atenção ou atrapalhá-la naquela empreitada. Uma
missão lhe fora dada, colocando em teste sua competência e seriedade
profissional e, caso não a cumprisse, antes de qualquer outra coisa, estaria
decepcionando a si, portanto, era preciso trabalhar. E foi exatamente o que
ela fez!
Somente naquela tarde foram dois comprimidos para a dor no rosto, que
ainda a incomodava bastante. Porém, a dor que resultara do soco era muito
pequena, se comparada às dores que Tina começava a nutrir por dentro.
Sentia-se impotente frente aos acontecimentos que pareciam passar
despercebidos aos olhos dos demais moradores que, conformados,
acreditavam plenamente nos supostos suicídios. Talvez Paulo não fosse o
único deficiente visual ali... Todos os outros insistiam em não enxergar a
realidade que lhes saltava aos olhos.
À noite, depois de fazer um lanche rápido, Tina recebeu a visita do padre
Bernardo, aparentemente preocupado com Cândido.
— Não sei mais o que posso fazer para animá-lo, Cristina, para fazê-lo ver
a vida com mais força. Cândido parece se fechar a cada dia, de tanta falta que
sente de Florência. Nem a palavra do Senhor parece suficiente para fazer com
que ele deixe um pouco de lado suas convicções.
— Ele está tão mal assim, padre? - Tina sentiu uma ponta de remorso por
não ter visitado o vizinho.
— Muito mal. Fico preocupado em deixá-lo sozinho, mas tenho meus
compromissos. Todos nós temos nossos afazeres, nossos compromissos,
nossas vidas e não podemos deixá-los de lado para ciceronear Cândido o
tempo inteiro, mas temo pelo que possa vir a acontecer.
Estaria padre Bernardo referindo-se a um possível suicídio de Cândido?
— Ele se queixa tanto de saudades, que pedi que rezasse pela esposa, na
esperança de que isto o conformasse, mas acho que não adiantou. Para você
ter ideia de como a situação está, estive com ele há pouco e o encontrei
mexendo em uma caixa cheia de fotografias dos dois. Sugeri então que
disponibilizasse as fotografias pela casa. Considerando que a necessidade de
ver Florência através de fotografias é tão grande, imaginei que isto pudesse
ajudá-lo, mas, não sei se o que fiz foi certo. Enfim, está feito.
Nem ela sabia se tal atitude era correta. Talvez o ideal fosse destituir
Cândido de posicionamento tão mórbido, porém, em paralelo, apegar-se às
lembranças deixadas pela esposa poderia também ser o único acalento para o
viúvo.
— Foram muitos anos juntos, padre. É natural que ele sinta muita falta
dela. - Tina, sem saber o que deveria dizer, tentava minimizar a situação.
— Sim, foram. Eu sei disso. Mas ele deveria se apegar às boas
lembranças, entretanto, está se apegando à dor da falta. Sentir dor é o que faz
mais sentido para Cândido agora. É como se somente a dor lhe fosse uma boa
companhia e, volto à dizer, tenho receio de que isto lhe seja prejudicial.
Tudo estava mais do que claro nos pensamentos de Tina! O padre via sim
a possibilidade de Cândido dar fim à própria vida.
— Já é tarde, Cristina. Não devo tomar mais o seu tempo. Amanhã todos
precisamos tocar nossas rotinas e sei que você tem seu trabalho e que é
compromissada com ele. Minha intenção era apenas desabafar em relação à
esta postura de Cândido. Peço, inclusive, que me perdoe por lhe trazer mais
uma preocupação.
Tina acompanhou padre Bernardo até lá embaixo, para que pudesse
trancar o portão após sua partida. Deveria ter chamado um chaveiro durante o
dia para providenciar a troca das fechaduras, mas, mesmo correndo riscos,
achou melhor não fazê-lo. A movimentação lhe renderia perguntas que
exigiriam respostas e, quanto menos gente soubesse da invasão ao seu
apartamento, melhor seria.
Depois que o padre se foi, Tina subiu e trancou-se no apartamento.
Arrastou o sofá da sala e o posicionou atrás da porta. Como dormiria sobre
este sofá, com ele encostado na porta de entrada, caso alguém tentasse abri-
la, ela despertaria.
No dia seguinte pela manhã, achou de bom tom visitar Cândido e, se fosse
o caso, lhe preparar o café da manhã. Encontrou a porta da casa do vizinho
aberta, entrou e viu Cândido cochilando no sofá. De fato, havia muitas fotos
de Flor espalhadas pelo cômodo. Era como se o viúvo tivesse montado, no
meio da sala de sua casa, um altar de veneração para a mulher morta, o que
deixou Tina arrepiada, tamanha morbidez. Aproximou-se de Cândido para
acordá-lo e chamou seu nome por pelo menos três vezes, não obtendo
respostas.
O sacudiu de leve e nada. Sacudiu novamente, sem sucesso. Aproximou-
se e sentiu sua respiração fraca. Cândido não estava apenas cochilando!
17

- Alguém em quem confiar -

Clara foi quem acompanhou Cândido na ambulância que o levou até o


pronto socorro. De acordo com informações do médico que lhe prestou os
primeiros socorros, parecia que o homem havia ingerido alguma substância
tóxica e, se não tivesse sido socorrido em tempo, não teria resistido.
— Nossa! Quase que temos mais um suicídio nesta vila! - dizia Berenice,
ávida por fofocas novas.
— Vai ficar tudo bem, Berenice. Ele é forte, apesar de estar muito abalado
psicologicamente e apesar também de sua idade avançada. Precisamos
acreditar que seu corpo vai reagir à medicação. Cândido deve ficar bem.
Era curiosa a postura do padre em dizer aquilo para Berenice. Na véspera,
ele confidenciara seus medos à Tina e, em paralelo, fora ele quem incentivara
Cândido a espalhar as fotos da mulher pela casa, mesmo conhecendo a
possibilidade de que aquilo lhe poderia causar mal. Se Tina fosse analisar
friamente a situação, o padre Bernardo tinha certa culpa na tentativa de
suicídio de Cândido. As fotos espalhadas poderiam fomentar a tristeza do
homem, despertando-lhe a vontade de dar fim à própria vida e instigando sua
atitude.
"E eu morro de medo de ficar sem você, meu bem. Certamente, sem você
ao meu lado, eu não saberia mais viver.", como em um flash, lembrou-se das
palavras ditas por Cândido à Flor, na noite em que jantara com o casal.
Aquele era o medo de Cândido: medo de ficar sem Flor! E este medo, além
de se concretizar, fora, de certa forma, inconscientemente alimentado por
padre Bernardo. Inconscientemente? Teria mesmo o padre feito aquilo sem
ter noção das consequências?
Não. Ele era um padre e sua missão era primar pelo bem das pessoas; não
o contrário. Entretanto, era de absurda crueldade o padre compactuar com
aquele altar macabro que Cândido montara em sua sala. Eram fotos e mais
fotos de Flor, das mais variadas épocas. E velas. Velas acesas. Tantas velas
que a sala chegava a ficar mais quente em decorrência de suas chamas. Havia
flores também que, querendo ou não, remetiam ao aroma sentido na capela
em ocasião do velório. Padre Bernardo não devia ter permitido aquilo! Devia
ter desviado a atenção do viúvo para outras questões. Poderia ter encontrado
qualquer outra coisa que lhe ocupasse o tempo. Porém, apenas o que ele fez
foi ajudar ao homem a chafurdar-se em lembranças tristes e visões de um
futuro que ele não objetivava ter: o futuro sem Flor.
Por mais que parecesse distorcida, aquela impressão lançava padre
Bernardo ao olho do furacão. O homem que, por suas ações e postura
religiosa havia passado ileso até então nas suspeitas de Tina, juntava-se à
Humberto e Lobato no hall de suspeitos. Como em um filme de terror, o lobo
perdia sua pele de ovelha e, gradativamente, mostrava dentes e garras afiados,
prontos para o ataque mais cruel. Pronto e decidido à saciar sua sede doentia
de morte.
Frente à tudo aquilo, Tina perguntava-se onde o assassino, fosse este o
padre ou não, havia falhado. Teria sido a dose de veneno fraca para findar a
vida de Cândido, visto que ele era um homem corpulento? Ou quem o
envenenara não contava com a chegada de Tina antes da substância fazer
efeito? Eram perguntas e mais perguntas que pareciam ganhar vida própria na
cabeça da jornalista.
— Vou até o hospital, tentar conversar com o médico que o acompanha e
ver se descubro o que houve. - disse Rafael, estacionando em frente à casa de
Cândido.
— Certo. Obrigada. Clara está lá. Ela o acompanhou na ambulância. Mas,
de repente, como você é médico, talvez seja mais fácil conseguir conversar
sobre o quadro clínico dele.
Tina já não o chamava mais de doutor ou de senhor, devido à proximidade
que se estabelecera entre ambos. Ele parecia ser um bom homem, sempre
prestativo e atencioso com Cândido, assim como também o era com Maria.
Rafael despediu-se e deixou a vila, dirigindo o carro que ainda carregava
algumas marcas da inscrição de dias atrás.
Percebendo que o padre Bernardo não estava mais ali e que o portão que
dava acesso às escadas de seu apartamento estava aberto, buscando encontrá-
lo, Tina subiu.
A sala da casa do padre tinha pouquíssimos elementos, como se ele fosse
abnegado de bens materiais. Uma cadeira com uma mesa em um canto; um
colchonete com travesseiro em outro. A iluminação era pouca, quase
nenhuma, dando ao local ares sombrios. As janelas estavam fechadas,
encobertas por cortinas escuras e de tecido pesado. Nenhuma imagem de
santo ou elemento religioso, fatores que seriam facilmente vistos na
residência de um padre. Não havia um crucifixo sequer...
No canto esquerdo da sala, pilhas e mais pilhas de livros e revistas, que
tomavam uma parede inteira. Aproximando-se, Tina pôde notar que
tratavam-se de revistas importadas, e todas apresentavam o crime como tema
central.
— Procura alguma coisa, Cristina? - ela assustou-se.
Era padre Bernardo, que surgia na sala, vindo de dentro do apartamento.
— Eu... Pro... Procuro pelo senhor. - e deu prosseguimento, tentado
disfarçar seu nervosismo. —Rafael foi até o hospital, tentar conversar com o
médico que atendeu Cândido e ver se consegue informações sobre o que fez
ficar daquele jeito. Eu queria lhe avisar.
— Já avisou. - ele disse secamente, em tom de total desagrado à atitude da
vizinha.
—Sim. Já avisei. Quando ele voltar, caso me traga notícias, eu lhe aviso.
— Não. Pode deixar que, caso eu queira notícias, procuro informações
com você ou com o próprio doutor Rafael.
Tina nunca vira o padre Bernardo daquela forma. O incômodo causado
por ela, ao entrar em sua casa, fora, de fato, grande. Desceu, sem graça e
incomodada com tudo aquilo. Se o padre era um suspeito em potencial, o que
esperar dos demais vizinhos?
No meio da tarde, Rafael chamou embaixo de sua janela e Tina, que
pesquisava em frente ao computador, jogou-lhe a chave para que subisse.
—Você parece nervosa, Tina. Aconteceu alguma coisa?
— Eu estou trabalhando desde cedo... É o cansaço... E Cândido, o que
houve com ele?
— Cicuta! Ele tomou uma quantidade razoável de um chá à base de
cicuta. Acredito que tenha sido intencional. Cândido queria se matar, Tina.
Seria mais um suicídio aqui na vila se você não tivesse chegado em tempo de
encontrá-lo ainda com vida. No hospital, fizeram-lhe uma lavagem estomacal
e ele deve se recuperar.
— Graças à Deus! - Tina sentia-se aliviada com a notícia trazida pelo
médico.
— Pois é. Mas agora, quando ele receber alta, teremos que redobrar a
atenção para que não tente de novo.
— E não ficarão sequelas?
— Imagino que não. Ele estava completamente desacordado quando o vi,
mas não penso que venham sequelas. No mais, é esperar sua recuperação,
para confirmar isto. Mas agora estou preocupado com você. O que aconteceu
e que te deixou tão tensa? - o médico demonstrava muita preocupação com o
estado da vizinha e insistia em saber o que acontecera.
Ela quis disfarçar:
— Nada. Não aconteceu nada. Acho que só estou cansada. Tenho muito
trabalho para colocar em dia e parece que os acontecimentos daqui insistem
em me desviar do que devo fazer.
Pela expressão no rosto de Rafael, ele parecia entender plenamente o que
Tina sentia.
— Eu sei como é. São coisas que, até certo ponto, a gente não espera.
Entretanto, quando se repetem, acabam por ser esperados. Se você parar pra
analisar, certamente já se perguntou quem será o próximo, não é?
— Sim. - ela não podia mais evitar ou fugir do assunto.
— E mesmo aventando a possibilidade de vir mais uma morte, quando
esta morte vem nos surpreendemos frente à forma como ela se dá. Falam em
maldição... Não acredito neste tipo de coisa, porém, ainda assim, por não ver
explicação, acabo aventando esta possibilidade. Em meio ao incerto, o
desconhecido se faz válido...
O médico divagava sobre suas suspeitas e, pelo que Tina entendia, ele
também via aquela sucessão de suicídios como algo anormal.
— Um psicopata. - ela mencionou, consciente do que dizia e sem receio
algum de revelar ao vizinho o que acreditava acontecer por ali.
— O que?! -
— Eu acho que não são suicídios simples. O que temos aqui são
assassinatos.
Ela disse e esperou pela resposta.
— Não, Tina. Não são. São suicídios. Eu verifiquei todos os casos no
necrotério. Estas pessoas se mataram, assim como Cândido também tentou se
matar. Todas escolheram morrer. - ele dizia bastante confuso.
— Todas foram levadas a se matar, Rafael. O que a gente tem aqui é um
psicopata que induz os moradores à se matarem a partir de suas fraquezas.
Ele especula a vida de cada um para explorar seus medos e depois, de posse
desta informação, coloca a vítima cara a cara com aquilo que lhe causa pavor,
fazendo com que sua única escapatória, sua única alternativa mediante tanto
medo seja morrer.
Após confessar suas suspeitas à alguém Tina pôde, enfim, respirar
aliviada. Sentiu-se mais leve, como se a angústia guardada desde quando
começou a analisar tudo aquilo, lhe escapasse mansamente do corpo e
lastrasse pelo espaço ao seu redor. Depois de pensar sozinha durante todos
aqueles dias, aparecia alguém com quem compartilhar seus pensamentos.
— E como você chegou à esta conclusão? Parece ser tudo muito bem
arquitetado... Te confesso que nunca imaginei que pudesse ser desta forma,
que houvesse alguém por trás disso...
Rafael, como era de se esperar considerando algumas de suas atitudes,
mostrou-se interessado e Tina sentiu-se satisfeita por ter uma pessoa próxima,
com quem enfim podia conversar.
— Na noite anterior à morte de Aurora eu saí tarde da casa de Dalton e
Clara e vi alguém mexendo na instalação de gás lá próximo do muro. Era
uma pessoa alta, um homem... Usava um casaco preto, grosso e de capuz; e
tinha luvas nas mãos.
— Meu Deus! Porque não falou isso antes, Tina? Você devia ter
informado ao policial na ocasião...
Ela precisava se explicar.
— Não havia certeza, assim como não há ainda! São especulações, Rafael.
Nem sei se faz sentido realmente ou se eu só estou criando coisas!
— Faz todo sentido! A pessoa pode ter adulterado a instalação de gás por
fora, causando o vazamento na casa de Aurora e depois restituiu a instalação
às suas condições anteriores. O gás concentrou-se lá dentro, levando Aurora à
morte. Como apenas as digitais dela foram coletadas no equipamento de gás
dentro de sua casa e nada foi constatado aqui fora, a perícia concluiu tratar-se
de suicídio, como se Aurora tivesse aberto os registros de gás e deixado que
quantidade considerável escapasse antes de fechar novamente estes registros.
Ao manter-se lá dentro, inalando o gás que se acumulou na casa, Aurora, sob
o ponto de vista da polícia, matou-se.
O médico parecia acompanhar claramente a linha de raciocínio de Tina,
concordando e vendo sentido no que ela lhe narrava. Pela primeira vez desde
que chegara ali naquela vila, ela sentia-se acolhida e amparada ao ver que o
vizinho a entendia e, de certa forma, lhe dava alguma razão.
Curioso e querendo compreender os fatos, Rafael continuou: — O mesmo
pode ter acontecido com os outros. De algum jeito esse tal homem os levou
ao suicídio, caso contrário, não teríamos tantas mortes.
18
- Tudo pode acontecer -

A conversa entre Tina e Rafael foi interrompida por alguém que chamava
embaixo da janela. Tina identificou a voz de Humberto.
— Vou até o supermercado. Precisa de alguma coisa? - o vizinho
perguntou quando ela apareceu na sacada.
— Não, obrigada. - ela não entendeu o real motivo da oferta.
— Tem visitas?
— Oi?!... - não queria acreditar em tamanha intromissão.
— Perguntei se você está com visitas. - Humberto insistiu em saber.
—Não sei no que isso pode ser relevante para você.
Tina irritou-se com o posicionamento de Humberto. Em momento algum
lembrava-se de ter dado intimidades para que ele buscasse especular se
recebia visitas ou quem ela recebia em casa.
— Certo. Vou indo. - ele respondeu e deu-lhe as costas, seguindo em
direção ao carro.
Tina entrou e comentou com Rafael: — Era Humberto, perguntando se eu
preciso de algo do supermercado...
— E você, por algum motivo, imagina que ele possa ser o responsável por
estes suicídios, não é? - Rafael adiantou-se. — Sim e não. - Tina respondeu,
esclarecendo em seguida: —De certa forma, ele é um dos suspeitos, mas não
é o único. Ainda não consegui ligar os fatos de maneira que eu tenha apenas
uma possibilidade, entende?
— Sim. - Rafael concordou com a jornalista, antes de perguntar: — Quem
são os outros?
— Lobato é um deles. No dia em que levei o soco...
— Soco? - Rafael a interrompeu, fazendo com que ela se lembrasse que
ele desconhecia o episódio da agressão.
— Sim, não te contei sobre isso... Fui agredida na noite do enterro de Flor,
quando levei o lixo para a lixeira da vila. E nesta mesma tarde, alguém entrou
em meu apartamento, revirando tudo e apagando os arquivos da minha
pesquisa que estavam armazenados no computador.
— E você guardou isso? Enfrentou isso sozinha?
Rafael estava muito preocupado com a situação em que Tina estava
envolvida.
— Isso não vem ao caso. Já passou. - e prosseguiu: —Foi Lobato quem
me encontrou desacordada lá perto do portão principal e depois, quando ele
entrou com seu carro na vila, vi um casaco semelhante ao do homem que
mexeu nos registros, no banco de trás.
— Eu entendo. Pode ser uma coincidência apenas, como também pode
não ser, correto?
— Sim! - ela confirmou. — E além disso, ele é grosseiro, distante, não se
dá bem com ninguém. No dia seguinte a essa agressão, me encontrou na
padaria e tentou me alertar para possíveis perigos. Mas não sei se foi somente
um alerta ou se foi mesmo uma ameaça.
Rafael parecia consternado com tudo o que a jovem relatava: — Não
entendo porque guardou tudo isso, Tina. - o médico mostrava-se
inconformado.
— Eu não sabia em quem confiar! Tive receio de recorrer à pessoa errada.
A jornalista respondeu e deu prosseguimento à sua narrativa, falando
sobre as atitudes secas e frias de Humberto para com a vizinhança e os
acontecimentos na vila; sobre o fato de ter encontrado revistas sobre crimes
no apartamento do padre Bernardo e, em decorrência disto, ter sido muito
mal tratada por ele.
— Nossa! Até o padre pode ser um suspeito? - Rafael se surpreendeu com
a revelação.
— Sim, até ele. Inclusive foi ele quem incentivou Cândido a montar
aquele altar mórbido para Flor dentro de casa, alimentando as lembranças e a
saudade que ele sente dela. Me pergunto se esta não seria uma forma de levar
Cândido à uma tristeza profunda, fazendo com que se matasse ou tentasse se
matar... Será que havia intenção nisso tudo? Por sorte, não houve tempo para
o veneno agir.
A conversa entre os dois estendeu-se até o escurecer. Tina falou sobre as
pegadas deixadas por Humberto e Lobato, que coincidiam com a impressão
deixada por sapatos na casa onde o corpo de Flor fora encontrado e o médico
pôde enxergar lógica em tudo o que ela pontuava. Tina mencionou inclusive
a manga de casaco vista pendurada no carrinho de Remela, o andarilho. Ao
ver que ele concordava com ela, a jornalista sentiu-se aliviada por
aparentemente não estar tão errada em suas conclusões.
— Então, você acha que esse tal assassino descobriu o medo destas
pessoas e explorou estes medo até levá-las ao suicídio?... Ou as matou
fazendo com que tudo parecesse suicídio?
— Sim, é o que eu penso. - Tina confirmou sua teoria para o médico.
— Tina, se é realmente isto, o que temos aqui é muito pior do que poderia
ser. Um assassino frio! Alguém que descobre as fraquezas dos moradores e
explora estas fraquezas. É muita crueldade.
— E penso que é muita inteligência também! - ela complementou. — Eu
li que um serial killer deixa uma assinatura em cada crime que comete.
Nestes casos, a assinatura é a caracterização de suicídio. Ao caracterizar cada
morte como se fosse um suicídio, ele desvia todo o foco da possibilidade de
assassinato, ou possibilidade de envolvimento de outra pessoa, entende? A
assinatura dele é exatamente o que o tira do caso!
A inteligência de Tina surpreendia Rafael!
— Sim! Seja quem for, esta pessoa sabe exatamente o que faz e, caso se
mantenha no mesmo padrão, caso não cometa nenhum deslize, poderá
continuar matando sem levar qualquer culpa por tempo indeterminado. -
Rafael deu seu parecer de acordo com o raciocínio apresentado por Tina.
— Exato! - ela concordou.
— Imagino como se sente, Tina. E quero ajudar no que for preciso.
Ela tinha um aliado! Alguém que prontificava-se a ajudá-la nas
investigações e em quem sentia poder confiar. Dali pra frente, Tina não
estava mais sozinha.
— Seja Humberto, o padre, o mecânico Lobato, o mendigo, ou qualquer
outro... Seja quem for, vou te ajudar a desvendar isso. Você vai saber quem é!
Eu vou te ajudar, Tina. Mas nós precisamos ter cautela nisso.
Ela sabia da necessidade de ter cautela e manter os dois pés no chão.
Qualquer deslize, qualquer palavra mal dita que deixassem escapar, poderia
colocar tudo a perder.
Quando Rafael deixou o apartamento de Tina, ela o acompanhou para
fechar o portão e deparou-se com Humberto que, da sua sacada, observava
seu movimento. Não sabia desde quando ele estava ali. Rafael e Tina
trocaram olhares, confirmando que ambos perceberam a presença do vizinho.
Humberto só entrou quando viu que Rafael seguia para seu apartamento.
Ainda naquela noite, a chuva voltou sob forma de garoa, e um friozinho
instalou-se novamente na vila.
Mais tarde, Tina já se preparava para dormir quando o padre a chamou lá
embaixo.
— Tem notícias de Cândido, Cristina? O doutor Rafael esteve com você.
Ele trouxe alguma novidade?
Como o padre sabia que ela esteve com Rafael? Seria ele mais um que a
observava constantemente? Se sim, qual o motivo?
— Ele estava desacordado, mas amanhã pela manhã farei uma visita e
espero encontrar um quadro de melhora.
— E em qual horário você pretende ir ao hospital? - o padre quis saber.
— Acredito que lá pelas nove horas, padre. Não sei se antes deste horário
autorizarão a entrada.
— Certo. Se fosse mais tarde, talvez eu te acompanhasse. Mas nesse
horário, não posso. Tenho um compromisso logo cedo. De qualquer forma,
me dê notícias depois, por favor.
O padre despediu-se e tomou o rumo de sua casa, deixando nas partes
secas do chão pegadas que, vistas lá de cima, assemelhavam-se às pegadas de
Humberto, de Lobato, e à pegada de sangue seco vista na casa oito.
Tina tentou convencer-se de que as pegadas podiam não dizer nada e,
considerando a produção massiva de sapatos, diversos modelos, de diversas
marcas, poderiam ter solados iguais. Não funcionou. As pegadas a
incomodavam e nada poderia reverter aquela sensação ruim.
19
- Chegadas e partidas -

No dia seguinte, Tina acordou bem cedo e adiantou tudo o que podia ser
adiantado em casa antes de ir ao hospital visitar Cândido. Depois, arrumou-se
e, por volta das sete e meia da manhã, deixou seu apartamento, percebendo
que tanto o carro de Humberto como o carro de Lobato não estavam
estacionados na vila, como era de costume. Lobato, pelo horário, já deveria
ter saído para trabalhar, mas e Humberto?
No trajeto pela vila, foi parada por Maria: — Bom dia, Maria.
— Bom dia. Você me parece mais forte hoje. Maria vê isso. Algum
acontecimento que Maria não sabe? - a mulher mantinha um leve sorriso no
rosto Tina sorriu, contente com a atenção demonstrada por Maria.
— Vou ao hospital buscar notícias de Cândido.
— Só nos resta esperar que o velho esteja melhor. Mas quem se deixa
guiar pelo medo nem sempre melhora... - depois de alguns segundos, Maria
completou: — O médico foi pra lá.
—Rafael? - Tina perguntou.
— Sim, este.
— Não sei... Não o vi hoje.
De fato Tina não sabia e não havia entendido o real teor da pergunta de
Maria. Porém,cansada de não entender a questão levantada por todos sobre a
deformidade da mulher, Tina não resistiu: — Maria, eu quero lhe fazer uma
pergunta. Posso?
— Somente se entrar para um café! - foi a resposta da mulher, deixando a
janela e dirigindo-se à porta para abri-la.
Tina entrou e deparou-se com um filhote de gato preto em um canto da
sala, e não privou-se de perguntar à Maria: — Oitavo?
— Oh! Não! - a mulher respondeu bem humorada. — Maria achou melhor
mudar o nome para afastar maus presságios. Depois de anos Maria muda a
forma de nomear seus gatos... Este és Palentino, em homenagem ao lugar de
origem do povo de Maria. Os ancestrais da família.
— Interessante.
Maria mostrava ser uma mulher instruída, conhecedora de história e que
não merecia o escárnio das pessoas da vila.
Serviu café quente à Tina, com bolo recheado de frutas secas, enquanto
conversavam.
— Você queria fazer uma pergunta pra Maria...
— Sim... - Tina não sabia ao certo por onde começar. —As pessoas por
aqui falam de alguma deformidade que você tem e, se não estou enganada, é
por isso que te evitam. Que deformidade é esta, Maria? Porque eu não a vejo?
—O povo de Maria veio das terras de Palência e carrega consigo muitas
lendas. Algumas destas lendas, em alguns momentos mostram-se reais. Meu
povo é associado à estas lendas ainda nos dias de hoje mesmo por aqueles
que não as conhecem. É como se estas lendas se fizessem reais frente ao
tempo que as instaurou...
— E o que dizem estas lendas, Maria?
— As mulheres da região eram muito bonitas, o que causava ciúmes
naquelas que chegavam de fora, que muitas vezes não conseguiam evitar que
seus maridos desviassem de seus caminhos e se apaixonassem pelas
palentinas. Isso tem muitos anos...
Tina estava fascinada com aquilo e não despregava os olhos de Maria.
— Assim como histórias foram atribuídas ao povo cigano em tempos
remotos, atribuíram também ao povo de Maria poderes que ganharam força.
Muitas das mulheres que viram seus maridos perdendo-se com as palentinas,
começaram a espalhar boatos de que eram deformadas, meio gente e meio
bicho... Ou bonita e deformada... Coisa dos antigos... A lenda cresceu e ainda
hoje, quando uma mulher é criada nos moldes antigos de seu povo, como
Maria foi criada, isto se faz. Por mais bela que esta mulher seja, os demais,
em decorrência do medo que a história instituiu, ao olhá-la, a veem feia,
deformada. Às vezes veem até patas de animais no prolongamento de suas
pernas...
"Então, aqueles que viam Maria deformada eram os que tinham medo
dela!", Tina pensou. E de imediato concluiu que somente ela e Humberto não
percebiam tal deformidade na face da mulher.
— O maldito medo, moça! Sempre o medo! Em outro lugar onde Maria
morou, havia quem a visse com patas de bode no lugar dos pés. Em cada
local o medo se forma de maneira diferente. Tudo por causa de uma lenda
que ganhou forma no mundo dos homens. Maria só conseguiu moradia aqui
porque a vontade de lucrar em Gaspar é maior que seu medo... A lenda se faz
real não para o mal das pessoas, mas para o bem de Maria que, com isto,
acaba sabendo quem é quem, entende?
— Nesse caso, eu que não tenho medo...
— Quem não deve não teme! - a mulher completou o raciocínio de Tina.
—E você me vê em minha forma real, não na forma que a lenda atribuiu.
Mas, ainda assim, deves saber: as aparências podem enganar.
Tina não sabia o que dizer à mulher. Não teve pena dela; sentiu apreço por
Maria mostrar-se sempre tão forte e por ver a crença criada sobre um povo
antigo mostrar-se viva em pleno Século XXI. Talvez aquele fosse o elemento
sobrenatural que, em sua concepção, existia na vila. Lembrou-se das palavras
de Dora ao afirmar que muito do que era tratado como lenda, no interior era
considerado real. A lenda atribuída ao povo de Maria crescera e ganhara
contornos verdadeiros ao ser passada de boca em boca, estendendo-se até sua
geração e surtindo efeito em época contemporânea.
Entretanto, o tempo não esperava por ninguém e ela precisava deixar
Maria para ir até o hospital.
— Volto a dizer-te: não te deixes levar pelo medo. Por aqui, ele mata.
Mantenha-se atenta aos lobos em pele de cordeiro e esteja certa de que aquilo
que parece ser, nem sempre é. Maria é prova viva disto. Maria não tem patas
ou cara feia, mas é vista assim. Se o belo se faz feio, o feio pode
perfeitamente fazer-se belo. - foram as palavras que Maria usou ao despedir-
se de Tina, que seguiu apressada para o hospital.
Quando dobrou a esquina, na rua onde localizava-se o hospital, já passava
um pouco das nove e meia da manhã e Tina teve uma visão no mínimo
curiosa: o padre Bernardo deixava a instituição pelo portão da frente, com
passos rápidos, indo em direção contrária a dela. Pelo que se lembrava,
aquele horário não condizia com o relato do padre na véspera, que afirmou ter
um compromisso que o impedia de acompanhá-la. Receosa, ela apressou-se
de forma a chegar logo ao seu destino.
No hospital, após identificar-se, foi autorizada a dirigir-se ao quarto de
Cândido e deparou-se com três médicos prestando-lhe assistência e sua maca
sendo levada para outro setor. Um destes médicos era Rafael, que ficou com
ela e lhe informou sobre o ocorrido.
—Ele apresentou uma parada respiratória.
—Espere aí! Me explica isso direito, Rafael. - ela disse, temerosa com o
que pudesse acontecer com o vizinho.
— Cheguei cedo e procurei pelo doutor Vicente, o médico responsável
por Cândido, para buscar informações sobre o quadro clínico dele. Enquanto
eu falava com o médico, o alarme disparou na sala de enfermagem, acusando
algum problema. As enfermeiras correram e constataram a parada
respiratória. Foi preciso chamar o doutor Vicente e o doutor Olegário veio
com ele. Eu corri também. - Rafael explicou, apontando os médicos antes de
continuar: — A solução foi fazer uma traqueotomia e agora ele voltou a
respirar. Está sendo encaminhado para setor onde terá melhor assistência
devido ao procedimento recente. Porém, não sabemos quais serão os
transtornos decorrentes disso...
— Transtornos?... - ela parecia não acreditar no que ouvia.
—Sim. Dependendo do tempo em que ele ficou sem respirar podem surgir
sequelas. Se antes já não sabíamos quais seriam as consequências do
envenenamento, agora a situação fica ainda pior, pois, provavelmente,
teremos que lidar com as possíveis problemáticas da parada respiratória
também.
—E a traqueotomia o impede de falar, não é isso?
—Sim. Causa disfonia, que é a excessiva dificuldade em falar de forma
que possa ser entendido, ou a afonia, que é basicamente o total impedimento
da fala. O ar não atinge as cordas vocais e, dessa forma, o som não é
produzido. Cândido não voltará a falar. Nos resta agora aguardar para
verificar se houve alguma sequela neurológica.
— Meu Deus! E agora, Rafael?
— Agora é esperar, Tina. Tudo o que poderia ser feito foi feito. É esperar
que ele recupere os sentidos e acorde, para que os médicos possam analisar a
situação e verificar esta possibilidade de sequelas.
Desolada com tudo aquilo, Tina conteve-se para não permitir que o
desespero lhe tomasse. Ao perceber o quanto a jovem entristecera com a
notícia, Rafael a abraçou solidário. Este abraço teria se estendido se
Humberto não tivesse surgido no final do corredor e se dirigido até os dois.
Tina não o viu, mas Rafael sim e o cumprimentou: —Bom dia.
— Sim, o dia deve estar muito bom mesmo.
Ao ouvir a voz de Humberto, Tina desvencilhou-se do médico e virou-se
em tempo de ver a cara de desdém de Humberto ao perguntar pelo vizinho. O
que ele fazia ali no hospital? Por que surgira logo após Cândido apresentar
um grave problema?
— Soube que Cândido estava internado neste hospital e, como vim aqui
perto, decidi buscar por notícias.
—E que contato você tem com ele para chegar a este ponto? - sem
conseguir conter sua irritação, Tina desafiou o vizinho.
—Bem... - Humberto começou a falar: — Apesar da pouca convivência,
são meses de bom dia e boa noite a cada entrada ou saída minha da vila e
penso que toda a cordialidade que ele me direciona seja suficiente para que
eu me preocupe. Ou você não vê desta forma?
Por mais estranhas que fossem suas respostas, Humberto tinha uma para
cada situação. Sempre justificava-se de maneira que suas atitudes pudessem
ser encaradas com naturalidade, demonstrando excessiva inteligência e
capacidade de sair ileso, livre de suspeitas.
Percebendo o constrangimento instalado ali, Rafael prontificou-se em
responder, explicando ao vizinho os últimos acontecimentos. Tina
acompanhou toda a explicação, sem tirar os olhos de Humberto, na esperança
de captar algum detalhe em sua expressão que o condenasse. Humberto,
apesar de manter toda sua arrogância estampada na face, ouviu com atenção
e, ao final do relato, agradeceu.
—Obrigado. Acredito que agora nos reste somente esperar que ele se
recupere, até para que possamos entender o que aconteceu na noite em que
tentou se matar.
Mais uma vez ele mostrava-se interessado.
—Acho pouco provável que ele nos dê quaisquer detalhes em relação à
isto de imediato. Mesmo que acorde em plenas condições neurológicas,
mexer com o acontecido sem que haja pronta reabilitação pode ser perigoso. -
Rafael explicou, e complementou: — Vai ser necessário dar-lhe tempo para
que sinta-se em condições reais de nos contar o que houve.
— Certo. - Humberto respondeu seco para depois dirigir-se à Tina: —
Vou para a vila. Precisa de carona?
Ele insistia naquele negócio de carona e Tina se perguntava o que deveria
fazer para se livrar dele. Era quase inacreditável assistir a um suspeito em
potencial agir como se fosse alheio ao caso.
— Você vai agora, Rafael? - ela perguntou ao amigo, extraindo de
Humberto um breve suspiro de insatisfação.
— Não. Cândido foi transferido para uma unidade de terapia intensiva e,
infelizmente, mesmo sendo médico, como não sou lotado nesta unidade, não
poderei vê-lo de perto. Mas, tenho um compromisso de trabalho e não
poderei ir para casa agora. - diminuindo o tom de voz, acrescentou referindo-
se à Humberto: — Se eu fosse você, me livrava dele...
—E se eu fosse você, colocaria a viola no saco e ficaria bem quietinho! -
Humberto mostrou claramente que ouviu o comentário de Rafael.
—Chega! Não vou tolerar essa palhaçada aqui! Vocês deveriam pelo
menos respeitar o hospital.
E Tina deu as costas aos dois, deixando o local. Humberto a seguiu e
interceptou do lado de fora.
—Espera! - ele a segurou pelo braço com força.
Ela virou-se e deixou escapar toda sua fúria em relação à postura
apresentada pelo vizinho antipático.
— Pra quê? Pra ouvir você se posicionando como elemento superior à
qualquer outra coisa que esteja ao seu redor? Quer saber? Cansei disso!
Cansei dessa petulância toda!
— Não é petulância...
— Ah! Não? Então o que é? Necessidade de esconder seus crimes atrás
dessa sua máscara fajuta de arrogância? Tenha a paciência!... Cada ação sua é
no mínimo estranha!
Repentinamente ele a soltou e Tina tomou isso como um indício. De certo
jamais havia passado pela cabeça de Humberto que ela estivesse próxima de
confirmar sua participação nas mortes ocorridas na vila.
— De onde você tirou isso?!... - havia algo no olhar dele que ela não
conseguiu identificar.
— De onde eu tirei? Você ainda me pergunta isso? - cansada de privar-se
de seus pensamentos, ela cuspiu tudo o que pensava até então: — Tirei das
pegadas que você deixou na minha sala e que coincidem com pegadas que eu
vi na casa oito, quando encontrei o corpo de Flor... Tirei do portão da minha
casa, que você disse estar aberto, mas, após sua saída apareceu fechado...
Tirei do gato da Maria, que apareceu morto e só você e eu sabíamos da
existência dele... Se eu não o matei e tenho certeza disso, só pode ter sido
você! É você quem vem matando todas estas pessoas e faz com que tudo
pareça suicídio! Você é o assassino, seu psicopata maldito!
— Não... - foi apenas o que Humberto conseguiu dizer antes de Tina, com
passos firmes, deixá-lo, seguindo em direção ao ponto de ônibus.
Ele não soube como agir.
No caminho para casa, a preocupação instalou-se no semblante de Tina.
Talvez tivesse falado demais, se exposto demais. Se estivesse certa e ela tinha
quase certeza disso, ao saber de suas suspeitas, Humberto tentaria impedi-la
de revelar isto à outras pessoas. Se ele fosse mesmo o assassino, Tina entrava
para o hall das possíveis vítimas definitivamente. Não havia mais o que
fazer... E ela sentiu muito medo de Humberto!
20

- O medo de sentir medo -

Tina desceu do ônibus atordoada e, no caminho para a vila foi


interceptada por Remela, que demonstrava preocupação: — Algum
problema, moça bonita? O mendigo aqui pode ajudar em alguma coisa? A
moça parece nervosa...
— Não. Eu estou bem.
— Não, não está. O mendigo aqui sabe das coisas. Eu posso não ser
letrado, mas na escola da tristeza e do desespero, fiz até pós graduação. Vejo
que você não está bem.
— Vai passar, Remela. É só uma indisposição. - ela tentou convencer o
andarilho de que estava bem.
— Certo! - ele respondeu. —Vou passar o restante do dia por aqui. Se
precisar de alguma coisa, é só chamar. A moça me ajudou outro dia e sempre
me tratou muito bem, então, nada mais justo do que eu ajudar a moça
também.
— Obrigada. - ela disse, seguindo para a vila.
Na vila, Paulo também percebeu a diferença pelo som de seus passos ao
passar em frente à sua casa: — O que houve, Tina? Você está nervosa.
— Nada, Paulo. - e lembrou-se de que o jovem, com sua perspicácia
auditiva, ouvia mais que todos ali: — Você por acaso ouviu algum
movimento diferente na casa de cima hoje?
— No apartamento do Humberto? - ele perguntou.
—Sim.
Tina esperava que o rapaz lhe desse alguma outra pista.
— Durante a noite não ouvi nada. Só uma ou duas idas ao banheiro. Mas
logo cedo, enquanto eu me arrumava para ir à escola, ouvi uma conversa ao
telefone. Ele dizia pra alguém que iria até o hospital resolver alguma
pendência.
— Como?! - Tina não queria acreditar no que sua mente lhe apontava.
— Sim. Foi isso que ele disse. Tinha que ir ao hospital para resolver o que
estava inacabado e dar fim na situação. Dizia que hoje tudo se resolveria. Era
cedo ainda... Umas sete e meia da manhã, por aí...
Tudo estava bem claro! Humberto não havia acabado de chegar ao
hospital quando encontrou ela e Rafael no corredor. Ele já estava lá! Havia
chegado cedo e, certamente, encontrara uma forma de sufocar Cândido,
causando-lhe a parada respiratória, para que não houvesse chance de
recuperação, para que o homem morresse e não elucidasse o acontecido após
se recuperar. Uma possibilidade de recuperação de Cândido poria em risco
todas as suas ações. Se ele matava as pessoas, um sobrevivente o condenaria
e era preciso exterminá-lo.
Convencida de que os assassinatos na vila eram obras de Humberto, Tina
despediu-se de Paulo, pediu que ele tivesse atenção e cuidado, e que
mantivesse em segredo o que havia ouvido. Depois, parou sob a janela de
Maria e a chamou.
—Sim? - Maria lhe atendeu rapidamente.
— Eu já sei o que é Maria. Já entendi o que acontece aqui.
— E para entender o que acontece você manteve os conselhos de Maria?
Não se deixou enganar pelas aparências e não se deixou levar pelo medo?
— Não sei... - de fato, ela não sabia.
Desde que deixara o hospital, sentira o medo muito próximo, como se
estive sentado de seu lado, no mesmo banco do ônibus; como se estivesse de
mãos dadas com ela ao atravessar a rua; como se lhe acompanhasse feito
sombra ao entrar na vila.
Maria, percebendo sua insegurança, a aconselhou mais uma vez: — Ter
medo aqui é como convidar um vampiro para entrar, entende? Ele se alimenta
dos medos e faz deles artifício certeiro para o fim. Se você perder o controle,
ele te controla. Faça como Maria: não tenha medo de nada e mostre sua
verdadeira face somente para aqueles que devem vê-la. Faça como na lenda
carregada nas costas pelo povo de Maria: use o feio se necessário, para
afastar aqueles que não merecem seu respeito.
Por mais que gostasse de Maria, naquele momento Tina não estava pronta
para ouvir meias palavras ou enigmas. Despediu-se e entrou em seu
apartamento. Passava da hora do almoço, mas ela não sentia fome. Além do
mais, precisava trabalhar para cumprir com sua obrigação de enviar material
de pesquisa à Romualdo Galvão. Ligou o computador e tentou se concentrar.
A tarde avançou e com ela veio a chuva forte, transformando por
completo a temperatura. Por volta das cinco da tarde, quando enviou sua
pesquisa para o e-mail do jornalista, já estava escurecendo e Tina sentia
muito frio entrando pela fresta aberta da sacada. A chuva continuava forte e
apenas o seu barulho era ouvido na vila. Certamente, devido ao tempo frio,
todos estavam recolhidos às suas casas.
Espiou por trás da cortina e viu Lobato estacionando o carro na frente de
casa e entrando rapidamente para não se molhar. Os carros de Humberto e
Rafael já estavam na vila, mas ela não sabia desde quando, pois, não havia
escutado nenhum barulho de motor durante toda a tarde. Provavelmente o
som da chuva a impediu de ouvir a chegada dos carros. Observando as casas,
viu que em todas as que estavam ocupadas, com exceção da casa de Cândido,
havia alguma luz acesa, ou seja, todos os moradores, aparentemente, estavam
em suas casas.
A noite não demoraria muito para chegar e Tina teve receio do que ela
poderia lhe trazer. Depois de confrontar Humberto, sentia-se como um alvo e
sabia que uma noite chuvosa e fria, poderia ser cenário ideal para uma nova
morte: a morte dela!
Ignorando a chuva, deixou o apartamento antes de escurecer. A fome
enfim surgira e ela iria até a padaria buscar um lanche.
Estranhou o fato de ver Remela sob a marquise da estação de trem.
Geralmente ele não ficava por ali nos dias chuvosos... Acenou para ele
apressadamente e seguiu seu rumo, entrando na padaria. Pediu tudo para
viagem: duas porções de pão de queijo, dois chocolates quentes grandes e,
pra arrematar, duas barras de chocolate amargo e uma barra de chocolate
branco com passas. Caso não conseguisse dormir, o chocolate seria sua
companhia naquela madrugada.
Ao voltar para casa, parou com Remela e lhe deu um dos copos de
chocolate quente e um dos pacotes de pão de queijo. Caso ele ficasse por ali a
noite toda, teria frio e fome e ela achou que deveria ajudá-lo. Ao aproximar-
se percebeu que o andarilho usava um casaco preto de capuz.
Quando entrou na vila, viu que padre Bernardo estava na sacada. Teve
pena do homem e imaginou-se como uma pecadora ao aventar a possibilidade
de que ele estivesse envolvido naquelas mortes. Em frente, na casa dois viu
Dalton e Clara que pareciam mudar um móvel pesado de lugar; enquanto no
apartamento de cima, ocupado por Dora, via-se a luz do aparelho de televisão
que estava ligado. Na casa de Berenice, lá dentro na sala, seus filhos,
sentados à mesa, pareciam estudar. Sobre a casa de Berenice, Humberto
fumava e a observava da sacada e ela fingiu ignorá-lo. Já no apartamento
sobre a casa quatro, viu apenas a silhueta do Lobato, que parecia acabar de
sair da sacada. Maria não estava em sua janela, mas o abajur aceso lá dentro
acusava sua presença e, sobre sua casa, Rafael sorriu e lhe acenou da sacada.
Tina entrou em seu portão mas, antes de subir, por duas vezes certificou-
se de tê-lo fechado. Nas circunstâncias em que se encontrava, não podia dar
margem ao azar. Trancou também a porta de acesso à escada e a porta da sala
lá em cima, lembrando-se das recomendações que seu Gaspar fazia em
relação à segurança. Naquela noite, mais que nunca, era preciso preservar-se.
O assassino estava lá fora e esperava por ela.
No sofá da sala, Tina comeu o lanche comprado na padaria enquanto via o
noticiário local pela televisão. Não sabia se era apenas uma impressão sua ou
se realmente o tempo parecia mais lento naquela noite. Imaginou que o medo
estivesse interferindo em suas sensações, fazendo com que não sentisse o
passar das horas. Depois do noticiário veio a novela e depois da novela um
seriado de ação. Tina assistiu tudo sem prestar atenção em nada. Não
conseguia concentrar-se de forma alguma.
De tempo em tempo, por trás da cortina, espiava a vila buscando avistar
algum vulto de capuz que pudesse estar à espreita. Não via ninguém. As
casas, gradativamente, apagavam-se a cada espiadela. Primeiro a casa de
Berenice; depois foi a casa de Dalton e Clara e que passou a não refletir mais
nenhuma luz na calçada em frente.
O barulho feito pelo trem da meia noite foi ouvido e Tina mantinha-se
acordada, sem sono e com muito medo, contrariando todos os conselhos de
Maria.
Alguns minutos depois da passagem do trem, Tina assustou-se com o
toque do telefone celular. Pensou em não atendê-lo, mas algo fez com que
desconsiderasse este pensamento. Atendeu.
— Está tudo bem, filha?
Era a mãe do outro lado da linha.
— Sim, mãe.
— E o que te faz estar acordada a esta hora? Já é bem tarde... Você precisa
descansar. - havia preocupação na voz da mãe de Tina e ela percebeu isto
claramente.
—Eu estava assistindo televisão, mãe. - ela mentiu.
— E eu acordei assustada agora, tive um sonho ruim. Desculpe-me pelo
adiantado da hora, mas precisei ter certeza de que tudo estava bem.
— Está tudo bem, mãe. Não precisa ficar preocupada. - dizia isso da boca
pra fora, pois, sabia que quando um sonho chegava a ponto de incomodar sua
mãe era indício de que algo estaria por acontecer.
Após desligar o telefone, as palavras da mãe continuaram ecoando em sua
cabeça. A mãe não lhe contara o sonho, pois, nutria a crença de que sonho
ruim não deveria ser exposto, para que não se concretizasse. Porém, se
telefonou para Tina, era porque a filha certamente estava envolvida neste
sonho. E Tina lembrava-se perfeitamente desde pequena das inúmeras vezes
em que a mãe tivera sonhos ruins que antecederam eventos desastrosos.
Aquele era mais um sinal de que ela deveria precaver-se.
A madrugada corria alta e Tina sabia que ficar pela sala, andando de um
lado para o outro, não lhe acrescentaria nada assim como também não
mudaria sua realidade. Ela precisava dormir. Precisava fazer com que o sono
surgisse e ela, no dia seguinte estivesse recomposta.
Por questão de segurança, decidiu-se por não apagar a luz. Deitou-se no
sofá e cobriu-se com uma manta grossa pois, como cair da madrugada, assim
como a chuva, o frio também havia aumentado.
21

- Saltando para a morte -

Não sabia que horas eram quando acordou e muito menos quanto tempo
havia dormido, mas, apesar do frio que pairava no apartamento, teve sede e
foi até a cozinha buscar por um copo de água. Lembrou-se do tempo que
demorou para pegar no sono e teve receio de, ao voltar para o sofá, demorar
para dormir mais uma vez. Procurou afastar este pensamento, concentrando-
se apenas na água e na sede.
De volta à sala, com tudo apagado, lembrou—se dos acontecimentos
daquele dia. A luz! Sabia que havia deixado a luz da sala acesa antes de
dormir e naquele momento ela estava apagada. Tina gelou. Mas, mesmo
repleta de medo, imaginou que não custava nada dar uma espiada pela
cortina... Afastou uma fresta de forma que pudesse ver a vila sem ser vista. A
chuva havia cessado e uma neblina fraca tomava conta do local. Era a
friagem se estabelecendo, pensou. E já estava para voltar ao sofá quando viu
que, lá embaixo, o portão de acesso à porta de seu apartamento estava
entreaberto. Ela o havia trancado mais cedo...
Neste momento, um ranger fraco de porta a assustou. Vinha do corredor.
Havia alguém ali e fora esta pessoa que apagara a luz da sala.
— Quem está aí? - Tina perguntou com medo da resposta. — Quem está
aí?! - insistiu.
Um vulto surgiu na passagem de acesso ao corredor e, mediante a
claridade fraca, não foi possível ver quem era, até que ele se aproximou. Um
homem alto, de casaco preto com capuz, usando luvas, estava prostrado no
meio de sua sala.
—Não... - foi somente aquilo que ela conseguiu balbuciar tamanho medo
que lhe apossava.
O pior estava por concretizar-se e ela, de alguma forma, sabia daquela
possibilidade desde que desafiara Humberto pela manhã na saída do hospital.
Era certo que, sabendo que ela o havia descoberto, o vizinho procuraria dar-
lhe um fim. O vulto se aproximou e tirou o capuz, revelando a cabeça e a face
cobertas por uma máscara horripilante. Sabendo que já não havia mais nada a
perder, Tina gritou. Foi um grito seco, disforme, porém, potente e que
certamente despertaria a atenção de alguém na vila.
— Chegou a tua hora. - disse o homem atrás da máscara, fazendo uso de
algum tipo de aparelho que lhe deformava a voz e não permitia o
reconhecimento. — Hoje quem se mata é você!
O psicopata maldito estava bem na sua frente, pronto para fazê-la vítima
de sua loucura. O medo tomou conta de Tina. A voz por trás do tal aparelho
lembrava a de Humberto, assim como seu porte físico e o medo daquele
homem cresceu nela. Esse era o medo de Tina: medo de Humberto e do que
ele poderia fazer após saber que ela o havia descoberto. Medo de que o
assassino se voltasse contra ela ao conhecer suas suspeitas.
Lá de fora, ouviu barulho de portas se abrindo. Provavelmente as pessoas
tinham despertado com seu grito e saiam de suas casas para ver do que se
tratava.
Aproveitando-se do fato de estar próxima à porta da sacada,
repentinamente Tina a abriu. Porém, quando estava por sair para a varanda, o
homem a pegou pelos cabelos e puxou de volta para dentro, ação que resultou
em mais um grito da moça.
— Não vou sujar minhas mãos. Eu nunca sujo... - dizia o assassino. —
Você vai pular daquela sacada e engrossar as estatísticas de suicídio nessa
vila maldita. Você vai ser a próxima morta por vontade própria aqui...
Então aquela era a intenção dele? Fazer com que ela pulasse da sacada e,
com isso, sua morte fosse caracterizada como mais um suicídio... A jovem
solitária que não se adapta à nova vida na cidade e por isso decide dar-lhe um
fim. Tudo se encaixava perfeitamente!
Livre das mãos dele, Tina deu dois passos para trás, posicionando-se
exatamente no limite entre a sala e a sacada.
— O que está acontecendo aí em cima, Tina? - era Berenice, que
perguntava lá de baixo.
O homem colocou o dedo sobre a boca, sinalizando para que Tina
mantivesse o silêncio; e continuou afrontando-a, fazendo com que ela
andasse e se aproximasse da grade da sacada.
Ela não via quem estava lá embaixo, porém, ouvia toda a movimentação.
— Sai daí, Tina! - era Clara.
— Tina , você vai cair daí! Cuidado! - dessa vez lhe pareceu ouvir a voz
de Dalton.
Como em um circo desgraçado, aglomerados na vila, seus moradores
viam a vizinha em uma tentativa atroz de suicídio. Ela parecia desnorteada,
desesperada, prestes a pular. Porém, em decorrência da pouca luz, não viam
que havia alguém que a ameaçava além das cortinas. Somente Tina era vista
pelos vizinhos e, de certo, após sua queda, o assassino daria um jeito de
escapar ileso, configurando o suicídio.
O medo já não cabia mais dentro de Tina. Ela sempre soube que todos ali
eram estranhos, mas, o fato de ter inclusive sido cuidada por Humberto na
noite em que desmaiou lhe fez ter ainda mais medo do homem. E as caronas?
Ele esteve o tempo todo rondando suas ações, espiando, buscando uma
maneira de fazer dela uma de suas vítimas.
— Volta pra dentro, garota! Você enlouqueceu? - foi a voz de Lobato que
ouviu vindo lá de baixo.
Lentamente o homem sacou uma arma de fogo de dentro do bolso do
casaco e se aproximou, dizendo em tom baixo: — Pula!
— Não...
— Pula agora. - ele deu mais um passo, porém, mesmo assim, manteve-se
em posição que não permitia que as pessoas lá embaixo o vissem.
— Humberto, por favor, não faça isso...
O homem riu, dando mais um passo e esticando o braço que impunha a
arma. Era ele. Ela já não tinha mais nenhuma dúvida!
— Agora. Pula!
O assassino já estava na sacada, pelo lado de fora, porém o feixe de luz
que vinha da rua iluminava apenas o corpo de Tina, encostado na grade, e já
com a metade para fora dela. Não havia alternativa. Era pular e morrer ou
morrer por tiro. Ele não hesitaria em disparar. Ela virou-se e pensou em pular.
Tremendo muito, acomodou-se sobre as grades. O medo a faria pular. O
medo mataria mais uma pessoa naquela vila.
Ele engatilhou a arma e ela deu uma espiadela para baixo. Estavam todos
lá, em total desespero: o padre, Clara, Dalton, Berenice, Dora, Paulo...
Tina sentiu a arma próxima de sua nuca e, de imediato, por trás do
assassino e o imobilizando, surgiu uma figura masculina. Mas era tarde
demais, o susto a desequilibrou e fez com que caísse da sacada, batendo em
alguma coisa.
Lobato! Ao ver que Tina cairia, Lobato posicionara-se embaixo de sua
grade e a amparara. O mecânico grosseiro e ignorante havia lhe salvado a
vida, fazendo com que, tanto ela como ele, conseguissem apenas alguns
arranhões.
— O que houve, Tina? - perguntou Clara, enquanto a ajudava a levantar-
se.
Tina se levantou e Lobato também, ajudado por Dalton.
— Obrigada! - ela agradeceu, abraçando o mecânico.
— Deu sorte! Se eu não estivesse por aqui, duvido que mais alguém fosse
te segurar. - o homem respondeu.
E ela prosseguiu, respondendo à pergunta de Clara: — Tem alguém lá em
cima! Alguém que queria me fazer pular da sacada.
— Sim! O Humberto viu da varanda dele e por isso subiu. Demorou com
a aporta aqui de baixo, mas subiu. - disse Berenice.
— Eu acho que antes de cair ainda vi alguém imobilizando o homem...
Mas pensei que fosse ele me ameaçando o tempo todo... Pensei que
Humberto quisesse me matar...
— O Humberto subiu? - perguntou padre Bernardo, interrompido pela
porta da escada do apartamento de Tina se abrindo.
Humberto descia e trazia o assassino algemado e já sem a máscara. A
surpresa de Tina foi enorme ao perceber que se tratava de Rafael. Era Rafael
quem tentara matá-la e quem, certamente, era culpado pelas demais mortes. E
ela havia confiado nele...
— Me solta, desgraçado. - dizia o médico tentando desvencilhar-se de
Humberto, que o empurrava pelos braços.
— Não solto, não. Você tem muito o que explicar.
— Ah! Quem é você pra me cobrar explicações? - o homem, mesmo
imobilizado, ainda desafiava Humberto.
— Humberto Vieira, investigador da polícia federal. - respondeu de
imediato.
Um breve 'oh' pode ser ouvido na vila após a revelação feita por
Humberto. Então ele era um policial? De certa forma, aquilo explicava parte
de suas ações e seu jeito evasivo.
— Sempre soube que era você quem estava por trás das mortes, Rafael.
Eu só esperava por um deslize seu.
Rafael, parecia fazer muita força para conter a raiva que o tomava.
Enquanto isso, Humberto prosseguiu: — Desde muito cedo ele começou a
demonstrar comportamentos difusos. Sua própria família percebeu isso ainda
quando era pequeno. A mãe de Rafael conta que ele nunca soube lidar com o
medo, apesar de ser detentor de uma inteligência absurda. Ainda segundo sua
mãe, na escola, quando alguns colegas o humilharam por ser pobre, ele
conseguiu causar o suicídio de um colega, que se enforcou no basculante do
banheiro. Nunca descobriram que foi Rafael o culpado, apenas a mãe sabia e,
por medo, o protegeu.
Todos estavam pasmos e ninguém tinha coragem de interromper o relato
de Humberto, que prosseguiu: — Depois disso, ele se manteve sossegado.
Cresceu, abandonou a família e se formou. Médico legista! Não havia
profissão mais propícia para alguém que quer, a todo custo, disfarçar a morte,
mascarar assassinatos confirmando-os como suicídios. - fazia todo sentido.
Tina estava surpresa com aquela revelação. Justo Rafael, que em
momento algum lhe despertara suspeitas?
— Mas quando mudou-se para um prédio próximo daqui e os vizinhos
descobriram que ele era legista, Rafael voltou a sentir medo de ser humilhado
mais uma vez. Com isso, voltou a matar! E para matar, usava o medo de cada
vítima: ele as colocava cara a cara com seus medos, enquanto observava as
mesmas dando fim às suas vidas. Doentio! Excessivamente doentio... Temos
um psicopata aqui, meus caros vizinhos.
—Mas eu nunca agi sozinho... — Rafael balbuciou entre dentes.
— O que? - Humberto perguntou, apertando ainda mais o braço do
homem.
—Ele me mostrou que se as pessoas soubessem o que eu era, me
prejudicariam, me humilhariam. Eu não queria ser humilhado... Ele me
instigou a fazer com que elas se matassem... Ele sempre me lembrava de que
eu poderia passar humilhações como as que passei quando criança... Ele me
ajudou a conter meu medo vendo o medo dos outros... E por medo, eu
despertava o medo nelas...
— Ele quem, bundão? - foi Lobato quem perguntou dessa vez, já
querendo dar uns tapas em Rafael.
— Ele!
Rafael apontou para o padre Bernardo que sem pestanejar sacou uma
pistola do bolso e imobilizou Paulo, que estava do seu lado, colocando-lhe a
arma no pescoço.
— Não se aproximem de mim! - disse o padre.
—Meu Paulo! Solta meu filho... - disse Berenice fazendo menção de
correr para o filho e sendo impedida por Lúcia e Clara.
O padre parecia certo de que era o dono da situação.
— Você sempre foi fraco, Rafael. Sempre foi um filho da puta fraco... Foi
muito fácil te controlar!
O padre falava e ria ao mesmo tempo, exagerando nos gestos, deixando
escapar uma loucura excessiva e que, até então, parecia ter sido controlada,
enquanto mantinha a arma próxima ao pescoço de Paulo.
— Por que, padre? - Tina perguntou, sem entender o envolvimento do
padre naquilo tudo.
—Pra confirmar a minha tese, só por isso. Eu precisava de um psicopata à
minha disposição para confirmar que, quando desafiados ou incomodados,
eles se superam e trazem à tona sua personalidade doente, mesmo que ela
tenha sido guardada por anos. - e, com requintes de crueldade, continuou sua
explanação: —Rafael sempre teve medo da exposição, medo de ser
humilhado e sempre conheceu o peso desse medo. Em paralelo, sua veia
assassina nunca deixou de pulsar dentro dele. Eu só precisei despertá-la e
fazê-lo reconhecer que, frente à alguns medos, a morte é mais conveniente.
Trabalhei de forma a despertar nele o prazer de ver as pessoas sucumbirem
perante o medo e, com isso, quanto mais ele proporcionava mortes, mais
mortes queria proporcionar. Neste meio tempo, fui endossando minha tese.
Eu usei Rafael o tempo todo para ter argumentos que comprovassem o tema
que defendo em minha formação, apenas por isso. Eu precisava de alguém e a
loucura desse infeliz veio a calhar.
— Desgraçado! - disse Humberto. — Você despertou a doença que ele
havia controlado.
— Não, seu idiota! Eu lhe dei todo o potencial de que ele precisava para
ser quem é: um assassino sem piedade, cuja alma é alimentada pelas mortes
que ele incita. Apenas isso! Eu só acendi o estopim que sempre existiu dentro
desse doente, este psicopata do inferno. Quando se viu apoiado nas minhas
teorias ele voltou a matar, ou melhor: voltou a facilitar a morte dos mais
fracos, daqueles que se deixavam levar por seus medos. E ele despertou o
medo nessas pessoas com maestria! Eu não teria encontrado quem fizesse
melhor. Rafael foi um grande achado para comprovar minha tese.
As palavras do padre eram duras e revelavam uma maldade sem limites e
excessiva ganância em fazer valer seus desejos.
—E que tese é essa? - Lobato mostrava-se confuso.
—Se há algo que nos mantém vivos é o medo. Ao sentir medo o ser
humano se cuida, evita determinados riscos de modo a garantir sua segurança
e, consequentemente, manter-se vivo. O medo não nos permite arriscar e isso
é a nossa garantia de sobrevivência desde os primórdios da humanidade.
Como toda moeda tem dois lados, eu precisava mostrar que o medo também
mata, ou melhor: faz com que as pessoas se matem! Esse é seu lado oculto:
assim como o medo garante a vida, também pode acabar com ela ou levar as
pessoas a fazerem isso. E eu provei esta teoria! - apontando para Rafael,
continuou: — Consegui fazer com que este imbecil despertasse nas pessoas
daqui seus medos mesmo que os mais simples e as levasse a um estado tão
grande de desespero que a morte passou a ser solução. Como em um ciclo,
usei o medo que ele tem para fazer com que se vingasse nos outros. Da
mesma forma em que eu despertei o medo nele, ele seguiu meu jogo,
despertando o medo nos moradores que, um a um, foram se matando.
Paulo não teve tempo de responder. Maria, que até então se mantinha
dentro de casa, havia saído e se aproximara do padre por trás sem ser notada
pelo homem, absorto em seu discurso de fúria.
Quando o padre deu um primeiro passo, arrastando Paulo consigo, ela, em
movimento rápido, acertou-lhe um tapa nas mãos, desviando a arma de sua
mira inicial e causando um disparo. Paulo saíra ileso, mas Maria caiu com um
tiro no braço. Ao cair quase derrubou o padre que rapidamente correu em
direção à rua.
— Pega ele, Jota!
Humberto gritou para alguém do lado de fora da vila e, quando o padre
deixou o portão principal, um vulto grande e envolto em trapos pulou em
cima dele, o imobilizando. Remela!
Caída no chão, Maria mantinha-se acordada apesar da dor que sentia,
enquanto Remela entrava na vila, arrastando o padre Bernardo que tentava
desvencilhar-se dele.
— Fica quieto aí, padreco! Todo começo tem um fim e o teu acabou de
chegar. Ou será que você pensou que fosse brincar de Deus a vida inteira? -
eram as palavras de Remela, já em tom normal, destituído dos trejeitos que
até então empregara em sua fala.
Preocupado com Maria que se mantinha no chão, Humberto dirigiu-se à
Rafael: — O que eu faço pra estancar o sangue?
— Se vira! - foram as palavras do médico misturadas a uma risada doentia
e que, de imediato foi seguro pelo pescoço por Lobato.
— Não, desgraçado. Ele não vai se virar. O médico aqui é você e, depois
de muito ter feito morrer, chegou a hora de fazer coisa que preste. E se não
fizer, te garanto que vai acontecer algo de muito ruim com você e ninguém
aqui vai saber explicar pra perícia o que foi.
Tina estava perplexa com tudo aquilo. Até Lobato, sempre tão distante,
virava-se em favor de Maria. Berenice sentara-se no chão e colocara a cabeça
de Maria sobre seu colo tentando, a todo custo, acalmar a mulher e evitar que
ela desmaiasse. Sob a mira da arma de Humberto, Rafael, com Lobato
empurrando-o pela nuca, ajoelhou-se no chão e amarrou no braço de Maria
uma camiseta cedida por Dalton, estancando de imediato o sangue que
jorrava.
—Caso resolvido. Agora é amargar atrás das grades, passar um bom
tempo refletindo sobre as merdas que vocês fizeram. Pode chamar o pessoal,
Jota. - Humberto disse, após Rafael terminar o procedimento no braço de
Maria. —E chame uma ambulância também.
— Jota?... - perguntou Tina.
— Jota de João. João Ricardo, meu parceiro de trabalho que, assim como
eu se mantinha disfarçado pelas redondezas, pra descobrir o que acontecia
por aqui. - Humberto explicou, colocando Rafael e o padre, algemados um ao
outro, sentados em um canto da vila.
22

- O começo do fim -

Pouco menos de oito meses antes...

— Não. Você não pode permitir que te destratem só por causa da sua
profissão. - dizia Bernardo, enquanto Rafael tentava conter o desespero que
se apossava dele. — Você é mais do que isso, sabe disso e precisa provar!
— Como? Se eu estou no elevador, ninguém entra nele... Se apareço na
portaria, todo mundo se esvai... Não aguento mais ficar aqui, Bernardo.
— Lembra de quando você era pequeno? Aqueles garotos sempre
debochavam da sua condição... Achavam que por serem de família rica,
podiam mais que você, não era? - incomodado com suas lembranças mais
remotas e dolorosas, Rafael apenas concordava com um movimento de
cabeça. — Então pronto! Você não mostrou pra eles que era mais? Que podia
mais? É hora de fazer isso de novo!
— Mas eu não posso! De novo não...
Rafael fazia o que podia para conter seu nervosismo, porém, lá no fundo,
sabia que Bernardo tinha razão. Por mais que o amigo o tivesse ajudado
quando novo e se propunha a ajudar mais uma vez, era preciso que ele fosse
forte, que ele mesmo tomasse atitudes.
— É claro que pode! Se você pôde quando era apenas
um moleque, agora que é um homem formado, pode mais
ainda! Eu ainda me lembro do que aconteceu quando
estávamos na escola... - e prosseguiu seu relato com
requintes de crueldade: — Eu te mostrei o que fazer quando aquele
garoto te ofendeu na escola, lembra? Se não fosse a minha ajuda, você estaria
até hoje carregando o estereótipo do fraco, do bobo que se sujeita a tudo que
outros querem, do ofendido que se arrasta pelo chão implorando migalhas de
atenção dos riquinhos cheios de vontade.
— Chega! Não posso mais ouvir isso!... - Rafael já não se continha mais e
gritava mediante a afronta causada pelo amigo.
— Mas ouvir as pessoas te menosprezando só por ser médico legista você
pode? É isso, Rafael?! É isso? Permitir que te humilhem você pode?
Bernardo, desde pequeno, sempre soube como despertar em Rafael algo
ruim, algo que fazia com que o amigo desse asas à instintos incontroláveis, à
um sadismo cruel, algo doentio que só sossegava frente ao sofrimento alheio.
Eram vizinhos e apesar de Bernardo ser três anos mais velho e sua família ser
melhor posicionada socialmente e economicamente, sempre foram muito
próximos. Não havia nenhum outro menino na vizinhança e ambos eram
filhos únicos, o que acabava por aproximar os dois. Quando brincavam no
jardim, era Bernardo quem apontava o passarinho que Rafael deveria mirar
com o estilingue e, após isso, ficavam os dois observando a agonia do
pequeno animal. Os gatos mais mansos da vizinhança e que fossem de fácil
captura, também não escapavam de suas torturas.
A mãe de Rafael, para ajudar nas despesas da casa, lavava e passava as
roupas da família de Bernardo, indo à sua casa ao menos três vezes por
semana e sempre levando o filho, o que causou a aproximação dos dois. E
Bernardo nunca tratou Rafael com diferenças somente por ele ser pobre.
A bolsa de estudos em um colégio de elite, conquistada por Rafael, fora
iniciativa dos pais de Bernardo em negociação com a diretoria da instituição,
pois, eles reconheciam o interesse que o "filho da lavadeira" tinha na leitura e
nos cálculos. Desta forma, aos onze anos de idade Rafael ingressara em um
colégio onde os demais alunos eram todos de família rica e, conhecendo suas
origens humildes, aproveitavam-se disso para fazer do colega recém chegado
à escola, vítima de todas as suas maldades.
Bernardo, por ser mais velho, estava algumas séries à frente e de início
apenas observava as maldades sofridas pelo amigo, como se testasse o
terreno onde iria atuar. Com o passar dos tempos e com o aumentar das
provocações, foi fácil fazer com que Rafael revidasse. De uma mesma forma,
foi ainda mais fácil optar pelo curso de psicologia quando chegou a hora de
seguir para a universidade. Ele precisava entender a mente humana para
poder empregar o mal sem levantar maiores suspeitas.
Foi exatamente o curso universitário que, durante alguns anos, separou os
dois amigos para o bem de Rafael. Com excelente rendimento, o "filho da
lavadeira" passou para o curso de medicina em uma instituição fora do
município e por lá ficou até concluí-lo, voltando à cidade apenas depois de
formado e encontrando um Bernardo ainda mais transformado, ainda mais
doente e com capacidade de controle sobre ele ainda mais aprimorada.
Apesar de ter ingressado na universidade anos depois de Bernardo, Rafael
concluiu seu curso no tempo regulamentar para tal e seguiu para
especialização em medicina legal, por conselho do amigo, que o influenciara
buscando vantagens. Já Bernardo, levou muito mais tempo do que deveria
para formar-se em psicologia e, depois de formado, com a morte do pai e o
recebimento de parte da herança, mudou-se para outro município; o mesmo
município onde Rafael, já com sua especialização concluída, havia
conseguido seu primeiro emprego. Daí em diante, foi muito mais fácil
manipular o médico...
Bernardo alugou um apartamento simples, para não despertar suspeitas,
em região próxima à região onde Rafael morava e o visitava com frequência.
Era preciso observar a rotina do amigo, influenciar os que estavam ao redor e
despertar nele os mesmos sentimentos que foram despertados quando eram
ainda crianças.
— Já reparou que todo mundo aqui te olha estranho? - Bernardo
perguntou à Rafael em uma de suas visitas.
— É? Não reparei, não.
— Você nunca repara nada! Não é de estranhar que passasse por tudo
aquilo quando novo.
E prosseguiu com crueldade atroz: — Pois é, meu caro... Mas eu reparei. -
ele instigava. — E tem mais! No elevador, quando subi, tinham duas
velhinhas que falavam sobre um vizinho... Elas diziam que, com uma
profissão daquelas, ele só podia ser um sujeito sujo e nojento, que revirar
corpos não era coisa de gente correta... E que, de certo, fedia, tinha o cheiro
da morte entranhado no corpo e nas vestes.
Rafael olhou para o amigo e Bernardo viu em seus olhos a mesma
expressão que via quando eram pequenos, o mesmo desespero que surgia
quando os meninos ricos afrontavam o menino pobre, quando debochavam
do filho da lavadeira. Ele havia dado o tiro certeiro!
Depois disso, bastou a Bernardo duas únicas ações: ausentar-se, deixando
Rafael por dias sozinho, para que o amigo, que era excessivamente
dependente de aprovação, sentisse sua falta; e, ao aparecer para uma visita
ocasional, mencionar algo que associasse repulsa da sociedade em relação à
especialização do médico, em paralelo, enchendo-o de elogios, para que sua
figura enquanto amigo e confidente se tornasse ainda mais relevante e
respeitosa. Com apenas algumas semanas, Rafael voltou a idolatrar Bernardo
e seus conselhos ou suposições passaram a ser encarados como verdades
absolutas. Se Bernardo dizia que os vizinhos o odiavam, ele tinha toda a
razão!
Em sua mente doente, Bernardo sentia a necessidade extrema de morte.
Nada lhe causava mais prazer que arquitetar mortes mantendo suas mãos
limpas. Foi assim com os passarinhos, foi assim com os gatos, foi assim com
o garoto na escola e, agora que estava mais velho e com melhores condições
de ação, seria assim com as pessoas. Ele precisava presenciar a dor de alguém
durante morte sob tortura e revigorar-se com isso para, depois de anos, ver
sua vida fazer sentido mais uma vez.
A notícia do suicídio do palhaço, estampada nas primeiras páginas dos
principais jornais locais veio a calhar. Não havia nada de mais aterrorizante
que o cíclico, o repetitivo... Se uma pessoa havia se matado ali, ao
proporcionar a morte de outra, o medo se faria presente e facilitaria matar
ainda mais. Os jornais levaram até Bernardo a ideia que ele precisava para
saciar seus desejos mais sujos. Ele brincaria com o medo de Rafael, fazendo
com que este, ao sentir tal medo, despertasse o medo em outras pessoas e as
torturasse até que se matassem. Já ele, Bernardo, apenas conduziria as ações e
assistiria à tudo, saindo ileso de cada suposto suicídio. Seu próximo passo
seria descobrir exatamente onde morava o palhaço suicida e convencer Rafael
de que era preciso mudar-se do edifício onde residia.
— Descobri que uma das velhas que falou mal de você outro dia morre de
medo de elevador. Sabe do que eu me lembrei? Dos gatos lá da vizinhança,
que tinham medo de água quente... Lembra que eles ficavam desesperados
quando a gente fervia água e jogava neles? Lembra do quanto era bem ver
aqueles bichos desesperados, tentando fugir?...
Estava aceso o estopim! Duas noites depois, em um domingo de muito
calor e folga do porteiro, quando a tal vizinha chegava da igreja e subia para
seu apartamento no oitavo andar, o elevador deu defeito e parou com a porta
travada. Somente na manhã de segunda feira, bem cedo, quando um morador
precisou descer para o trabalho, foi constatado o defeito e chamado o técnico
que, ao abrir o equipamento, encontrou o corpo da velha caído no chão, com
olhos arregalados, sobre uma poça de urina.
— Viu o que aconteceu com a velha? - foi a pergunta de Rafael para
Bernardo, quando este o visitou três dias depois. — Manipulei o elevador pra
parar e ninguém apareceu pra socorrer a desgraçada, que acabou enfartando
lá dentro. Morreu toda mijada!
— E você? Você gostou disso? - ele sabia como provocar!
Fraco, porém acreditando que agradar ao amigo fosse o mais adequado,
Rafael concordou.
— Muito! Não sou menos que eles, assim como eu não era menos que
aqueles garotos ricos da escola. Nunca fui! E se não adianta dizer que sou
mais, eu mostro. Eu mostro que o medo deles é maior que o meu... Tão maior
que os mata, enquanto eu fico aqui, rindo dessas mortes.
Depois disso, após Rafael sentir novamente o gostinho da morte e após
Bernardo ter descoberto a vila e a disponibilidade de casas para alugar, foi
fácil convencer o amigo de mudar-se: — Matar de medo é sensacional! Se
eles mexem com o seu medo, que provem do próprio veneno! Você precisa
de mais estratégia. Eu estudei isso, vou te ajudar. Vamos fazer de maneira
que a polícia e as pessoas acreditem que todas as suas vítimas se mataram.
Essa vila carrega um suicídio em seu histórico e o povo é idiota, Rafael! Se
vierem outros suicídios, vão criar algum estereótipo, vão dizer que é
maldição ou qualquer merda desse tipo... E você vai poder matar o quanto
quiser!
Bernardo se mudou para a vila, fazendo com que todos acreditassem que
ele era um padre, que estava na região para ampliar seus estudos. Rafael
mudou-se duas semanas depois, convencido por Bernardo de que ninguém ali
poderia conhecer sua especialização em medicina legal ou a relação de
amizade entre os dois. Para todos os efeitos, eram desconhecidos. Bernardo
passou a investigar e descobrir os medos que seus vizinhos alimentavam e
Rafael arquitetava suas mortes baseadas nestes medos e, usando de seu
conhecimento técnico, fazia com que parecessem suicídios. Ninguém ali
sabia que eram amigos de infância.
23

- Destino que se faz -

— Bem que eu estranhei esses dentes! Eram limpos demais para serem
dentes de um andarilho...
— Pois é! Consegui disfarçar quase tudo, menos os meus dentes. Não me
adaptei à prótese que me deram no departamento de polícia. - disse Remela,
em resposta à Tina.
A polícia local chegou menos de meia hora depois e quem veio para
registrar a ocorrência foi o mesmo policial que sempre atendia a vila. Ao
chegar, ele disse para Humberto: —Não imaginei que vocês fossem
conseguir.
— Mas nós sempre soubemos que conseguiríamos, mesmo em meio a
tantos contratempos. Infelizmente, não foi em tempo de evitar tantas mortes,
mas, conforme ele apressou-se em matar, foi deixando rastros. A ânsia por
matar, a pressa, foi o que fez com que ele se condenasse e deixasse brechas.
E tudo se confirmou quando ele se aproximou dela. - e apontou para Tina.
— Eu?
Humberto, centrado no acontecido, explicou: — Sim! Quando você
confiou nele... Acho que ao confiar nele e ao mostrar suas suspeitas, ele
precisou se voltar diretamente para você, como se tivesse pressa em lhe matar
para não ser descoberto. Ele se precipitou ao perceber que você não tinha
medo e que, dessa forma, ele não teria como te levar ao suposto suicídio.
— Maria!... - Tina disse, me referência ao alerta da vizinha para que não
tivesse medo.
— Exato! De alguma forma, ela sabia... - foram as palavras de Humberto.
— Sabedoria popular! - disse Remela, agora João Ricardo: — O
conhecimento e a cultura do povo dessa mulher, tão desprezado pelos demais
através dos tempos, lhe deu a possibilidade de perceber o que ninguém
percebia. De alguma forma, ela teve experiência para entender o que se
processava, prever o que viria e te precaver.
— Foram as cartas! Maria viu nas cartas que eu corria algum risco e que,
para evitá-los, deveria me privar do medo.
— E estas cartas estavam certas. Quando ela se recuperar, vou pedir que
jogue uma mão de cartas pra mim... — disse o parceiro de Humberto.
Apesar de a ambulância já ter levado Maria para o pronto socorro,
acompanhada de Berenice que insistiu em prestar-lhe assistência, Tina não
tinha certeza de sua recuperação.
— Sim, ela vai ficar bem. O tiro foi no braço e de raspão. Não vai nem
demorar muito no hospital. - Humberto informou, enquanto observava Rafael
e Bernardo serem colocados no camburão. — Já esse dois aí, vão pagar caro
pelo que fizeram.
— Isso é que é amizade, hein?! Juntinhos até no camburão!... - Remela
parecia não perder o senso de humor.
— Só mesmo duas mentes doentias para arquitetar um plano desses. Eles
mataram quando eram pequenos e agora, ao se reencontrarem, conseguiram
criar as condições ideais para voltar a matar sem levantar suspeitas dos menos
atenciosos. Se estivessem em outro local, com polícia menos atuante,
continuariam matando por anos.
— Pois é! Só sei que vieram parar em um lugar onde a polícia, além de
funcionar muito bem ainda conta com essa dupla aqui! - e Remela apontou
para ele e Humberto, completando: —Que, diga-se de passagem, é perfeita!
— O pior foi o acontecido com Cândido...
— O que houve? - perguntou Tina, sem entender do que se tratava.
— Ao confirmar que ele não havia morrido, o pilantra se infiltrou no
hospital pra tentar concluir seu feito. Enquanto Rafael distraía os médicos,
Bernardo foi até o quarto e tentou sufocá-lo com o travesseiro...
— Por isso a parada respiratória! Eu vi o padre cedo, nas redondezas do
hospital... - Tina pensou alto.
— Pois é! Mais um pouco e ele teria conseguido. Sorte foi o alarme ter
disparado... Bernardo não soube desligar o alarme que comunicava o leito de
Cândido com o posto de enfermagem então, quando a respiração dele se
alterou, o alarme disparou, chamando a atenção de todos. Ele foi embora sem
conseguir matar o velho. E a equipe conseguiu fazer a traqueotomia em
tempo dele voltar a respirar.
— E o meu apartamento? Quem entrou lá?
— Eu! - Humberto respondeu.
— Você? Não foi um deles?... - Tina perguntou, crédula após as
descobertas que havia sido Rafael ou o falso padre.
— Não, fui eu. Eu vi que você estava se metendo demais em tudo o que
acontecia aqui e, por isso, para te intimidar, entrei lá e revirei tudo.
—Até o...
— Sim, até o computador, apagando o seu trabalho. Não seria convincente
o bastante se não tivesse feito isso. Peço que me desculpe, mas era preciso.
Imaginei que isso te deixaria mais contida, mas me enganei...
— E como você entrou lá?
—Fiz cópia das chaves. Roubei o miolo de suas fechaduras e fiz chaves.
Isso ainda na tarde em que você chegou... Sua postura curiosa ao andar pela
vila me dizia que seriam necessárias. E como pode constatar, sou um
excelente investigador. - e Humberto então riu da mesma forma como Tina o
vira rir para Maria em outra ocasião.
Naquele momento, tudo fazia sentido... Até o seu portão, que aparecera
fechado após uma saída de Humberto.
— E a história de que você escrevia romances policiais? - ela questionou e
Humberto, sorrindo, respondeu: — Esse era o meu disfarce!
Duas semanas depois, satisfeita com o resultado de seu trabalho, Tina
entrava na vila. Na varanda da casa de Cândido, ele tomava o sol do final da
tarde, com Palentino deitado em seu colo, enquanto lá dentro, solícita ao
vizinho, Maria lhe preparava um chá com torradas e esperava por Berenice,
que lhe renderia naquela noite. Cândido perdera a fala em decorrência da
traqueotomia, porém, não havia nenhuma sequela neurológica e seus demais
sentidos estavam preservados. As duas vizinhas revezavam-se nos cuidados
para com ele.
— Saiu? - Maria lhe perguntou lá de dentro.
— Sim! Matéria de capa! E vocês agora estão falando com a nova
jornalista oficial da revista! Eu trouxe exemplares pra todo mundo! - Tina
respondeu, fazendo brotar sorrisos nos rostos de Cândido e Maria.
Doutor Inácio, quando soube do acontecido na vila, retirou a matéria sobre
serial killers de Romualdo Galvão e a cedeu à Tina, visto que a jovem estava
envolvida diretamente com tudo o que acontecera e saberia narrar os fatos
com propriedade. Revoltado e sentindo-se diminuído pelo editor da revista,
Romualdo pediu demissão, abrindo uma vaga de jornalista na revista que foi
passada para Tina. A promoção acabou chegando bem antes dos três meses,
contrariando as expectativas apresentadas pelo patrão em ocasião de sua
contratação.
Os dias ruins estavam findados. Com um salário mais elevado e com
respeito e reconhecimento de seu trabalho no escritório da revista, Tina teria
mais liberdade para tratar suas matérias e melhores condições para mobiliar
seu apartamento. Apesar de todas as lembranças ruins, as vivências na vila
aguçaram seu instinto profissional e deixar aquele local, definitivamente, não
estava em seus planos.
O clima na vila parecia diferente também, menos pesado. Depois de ter
sua vila envolvida em um escândalo, foi preciso que Seu Gaspar revisse
algumas regras para conseguir voltar a alugar suas casas. Aquelas semanas
foram decisivas nestas mudanças... Os animais, por exemplo, eram
permitidos, desde que não fizessem sujeira. Desta forma, sempre que ia à
casa de Cândido, Maria levava Palentino, que alegrava o idoso em seu
processo de reabilitação.
Os moradores ainda viam deformidades em Maria, pois, o medo não é
algo que se desfaz de hora para outra e o destino queria que as histórias de
seu povo se perpetuassem. Entretanto, apesar deste medo, o respeito se fez e
junto dele a aceitação.
Até Lobato, sempre tão fechado e contido, mostrava-se mais sociável na
última semana. Seu nome real era Tadeu e Lobato era apenas um apelido que
lhe fora dado por ele ter em seu carro um adesivo que misturava os
semblantes de lobo e gato. Humberto, dissera que ele não concordava com
alguns costumes seculares de sua família, que era nobre, muito bem
posicionada socialmente e detentora de terras em outra região do país. Essa
discordância fez com que Lobato se afastasse de seus pais e irmãos, abrindo
mão de herança graúda e buscasse moradia em local distante. Após a solução
dos crimes e após ter salvo a vida de Tina, que lhe era muito grata, Lobato
tornou-se um vizinho acessível e solícito, como se sua ação lhe tivesse tirado
um fardo das costas, sempre disposto a ajudar, e excessivamente próximo de
Dora, que nunca o vira como uma má pessoa.
Clara e Dalton felizes na casa dois, enfim, assumiram seu relacionamento,
até então omitido por medo de que sofressem preconceito por parte da
vizinhança, excessivamente arcaica até bem pouco tempo.
Seguindo para seu apartamento lá no final, Tina podia observar a vila com
outros olhos. Encontrou João Ricardo, já acostumada com o verdadeiro nome
do rapaz depois de habituar-se a vê-lo com trajes normais, em conversa com
Paulo e Lúcia.
— Então, quando o Humberto saía no meio da madrugada... — dizia
Paulo.
— Sim! Era pra encontrar comigo que ele saía, pra trocar alguma
informação sobre a investigação. A gente só podia fazer isso de madrugada,
na surdina pra ninguém ver. O que um cara tão fechado teria de assunto com
um mendigo meio louco? Se alguém visse, não daria em boa coisa e o
disfarce poderia cair por terra... Ele só não contava com a perspicácia dos
seus ouvidos, que quase entregaram nossos encontros. — e João Ricardo ria.
— É! Meu irmão ouve melhor que qualquer pessoa por aqui! — Lúcia
demonstrava orgulho do irmão.
— E se ouve! Ouve tão bem que, ao me confidenciar as suas escutas,
alçou Humberto para posto de meu suspeito número um! — Tina,
descontraída, intrometeu—se na conversa, despertando gargalhadas em todos
e depois seguiu para a entrada de seu apartamento.
Ao colocar a chave na fechadura, alguém segurou sua mão. Era
Humberto.
— Vim devolver as cópias das chaves. Não serão mais necessárias.
Ele mostrava-se gentil, completamente diferente do sujeito prepotente de
semanas atrás. seus olhos ostentavam um brilho mais elevado, atencioso, que
despertava em Tina encantamento que ela não imaginava que pudesse sentir
por alguém, — E quero aproveitar para te convidar para jantar hoje à noite.
Temos muito o que comemorar, não é? — ele mirava a revista que Tina
carregava.
— Jantar?...
Talvez, lá no fundo, aquilo fosse o que Tina queria... Ela titubeou em
responder, sendo de imediato interrompida por Maria que, após ser rendida
por Berenice no acompanhamento à Cândido, atravessava a vila de volta para
sua casa: — Sem medo! As cartas novamente disseram que não deves ter
medo e Maria confirma isso com unhas e dentes. — a mulher sorria.
As cartas! Lá estavam as cartas de Maria mais uma vez apontando para
Tina um caminho que poderia levá-la por outros caminhos, certamente
melhores e mais felizes.
— Aceito! — respondeu, retribuindo Humberto com um sorriso.
E que o destino fizesse sua parte a partir dali...

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Notas da Autora

Busquei em "O Lado Oculto do Medo" trazer uma história sóbria, sem
fantasia, onde os acontecimentos, apesar de tratarem aqui de ficção, podem
perfeitamente tornarem-se verdade em alguma vila, ou em qualquer outro
lugar. Busquei despertar a reflexão acerca do "próximo", das pessoas que
transitam cotidianamente em nossas vidas, que impõem respeito por suas
atitudes ou ocupações, muitas das vezes até despertando nossa confiança,
sem que saibamos exatamente quem elas são e quais são suas reais intenções.
Em paralelo, nas figuras de Maria e Remela, por exemplo, eu trouxe
também à tona o preconceito que muitos de nós temos em relação ao outro
somente pelo fato dele ser ou aparentar ser diferente. Quantas vezes
destratamos pessoas baseados em aspectos físicos, sem conhecer sua
personalidade?
E, como não poderia faltar, destaco a mensagem de perdão passada no
final como parte bonita desta história. Ao perdoar seus vizinhos que sempre a
trataram tão mal, Maria nos mostra que podemos ser mais humanos.
Ah!... Sobre a aproximação entre Tina e Humberto? Isto eu deixo para a
imaginação de vocês...
Espero que tenham gostado. Até o próximo!
Barbara Nonato
Agradecimento

Houve um dia, quando este manuscrito estava praticamente concluído, em


que eu busquei alguém para dar uma olhada no texto e dar sua opinião sobre
a história. O trabalho de revisão é caro e pagar à um profissional estava fora
de minha realidade. Uma pessoa, munida de excessiva generosidade e boa
vontade, ofereceu-se para isto. Enviei-lhe o arquivo e em um breve intervalo
de três dias, divididos entre a leitura e tarefas de rotina, todo o material foi
lido. Neste meio tempo tive um problema no sistema do meu computador e o
original de "O Lado Oculto do Medo" foi perdido, me restando apenas um
arquivo inicial salvo em pen drive e que era bastante peculiar, reduzido se
comparado ao trabalho final. Mas eu o havia enviado a esta pessoa e, desta
forma, foi possível ter de volta o livro inteiro. A generosidade desinteressada
e a boa vontade em ler o que eu havia escrito salvaram esta publicação.
Sendo assim, muito obrigada, Selma Guimarães!