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DEZ

CONTOS
DE
UM
POETA
LOUCO
(AMOSTRA GRATUITA)

G U T T O L O R E N Z
Título Original: DEZ CONTOS DE UM POETA LOUCO

Copyright © 2018 por Gutto Lorenz.

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quaisquer erros identificados, embora eu tenha revisado o
conteúdo centenas de vezes, no intuito de apresentar um
conteúdo de enorme qualidade.

Essa é uma obra de ficção. As pessoas, lugares e


situações aqui descritas existem apenas na minha imaginação,
e qualquer semelhança com a realidade não passa de simples e
mera coincidência. As ideias e ações dos personagens não
retratam as minhas ideias e ações.
NOTA DO AUTOR

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DEZ CONTOS DE
UM POETA LOUCO

(AMOSTRA GRATUITA)
meu nome é
BERTONI PERONI

bem-vindo ao meu delírio


FALSOS AMORES

Chovia feito o diabo.


Entrei no carro, dei a partida e sai rodando. Gosto de
dirigir à noite; gosto de dirigir na chuva; gosto de fazer muitas
coisas que a maioria das pessoas não gosta – gosto de andar na
contramão dos idealismos, e não gosto do pensamento
padronizado das multidões. Naquela noite, eu estava
rodando sem destino; rodava o carro; rodava minha cabeça;
rodava os olhos. Estava procurando qualquer coisa que
pudesse me tirar da rotina, me afastar daqueles acontecimentos
repetitivos que nos perseguem como pragas famintas, dia após
dia, noite após noite. Naquele momento, tudo passava tão
depressa e tão lentamente que nada parecia fazer sentido.
Quando a encontrei, estava com a cabeça repleta de
pensamentos confusos e cansativos. Ela caminhava depressa,
lutando contra o vento, segurando o guarda-chuva com
dificuldades. Era o tipo de garota que você olha e não quer
parar de olhar, como se algo nela o convidasse a ser ousado, a
fazer o que não faria normalmente – e eu gostava de ser
ousado.
O que eu tinha a perder?! Nós nunca temos nada a
perder, essa é a maior verdade. Se não fizermos o que
acreditamos que temos que fazer, alguém vai fazer por nós. E,
na maioria das vezes, a vida não nos dá uma segunda chance.
Faça o que tem de fazer, e aguarde pelas consequências – mas
não seja otário e vacilão.
Fiquei observando-a durante algum tempo, tentando
decifrá-la através da chuva que fustigava as janelas do carro.
Tive a ligeira sensação que a conhecia de algum lugar, o que,
de certa forma, era um pouco encorajador. Apesar disso, não
consegui reconhecê-la com exatidão. Talvez fosse alguma
garota da faculdade, do jornal, do escritório, ou de um bar
qualquer – talvez eu nem mesmo a conhecesse.
Sou bom em algumas coisas, mas nunca fui bom em
fisionomia. Eu seria capaz de cruzar na rua com alguma pessoa
da minha própria família e não a reconhecer. Vez ou outra, eu
fazia isso de propósito – e, se fosse preciso, culpava o
astigmatismo ou a miopia. Quem não seria capaz de fazer isso
pra evitar alguma conversa chata com algum parente irritante
ou algum conhecido irritante e sem graça?
“Oi”, disse eu, abrindo o vidro e buzinando. “Quer
carona?”
Ela hesitou, me olhando com atenção.
“Ah, é você?!”, disse ela, enfim, confirmando minhas
expectativas, embora eu ainda não lembrasse de onde a
conhecia. “Tudo bem”.
Sem sorrisos, entrou no carro e largou o guarda-chuva
sobre o tapete. Seus cabelos castanhos, lisos e molhados, lhe
escorriam pelo rosto. Era bonita, mas não parecia ser muito
simpática – o que a deixava menos bonita.
Ofereci uma pequena toalha e, enfim, ela sorriu. Sorri
de volta, mais satisfeito, e andei com o carro. Engraçado como
algumas pessoas conseguem confiar em qualquer um que
encontram pelo caminho.
“Não me lembro do seu nome”, disse eu.
“Não se lembra do meu nome e me ofereceu uma
carona?!”
“Eu me lembrei de você. Acho que já é o suficiente.”
“Lembra de mim de onde?”
“Do jornal?”, arrisquei.
“Sua memória não é tão ruim, para alguém que bebe
tanto”.
“Isso não é uma coisa muito agradável de se dizer. Não
bebo tanto quanto imagina. Bebo menos que gostaria, se quer
saber a verdade”.
“Já nos encontramos em algumas festas, também”,
disse ela.
Tentei me lembrar, mas não consegui.
“Não costumo me lembrar dessas coisas”, disse eu.
“Quero dizer, não costumo me lembrar de coisas que
acontecem nas festas que frequento”.
“Imagina se bebesse o quanto gostaria”.
Sorri. Sempre gostei de pessoas irônicas e debochadas.
Identificação, talvez.
“Você tentou me beijar umas três vezes”, disse ela.
“Consegui?”
“Se não se lembra, certamente não conseguiu”.
“Um pouco presunçosa. Isso é engraçado”.
“Por que acha engraçado?”
“Você não parece ser do tipo que tem autoestima
elevada”.
Ela tentou falar, mas gaguejou. Pareceu ter recebido
um golpe no estômago.
“Pra ser sincera, não muito. Não ultimamente”.
“Está indo para onde?”
“Para minha casa. Quatro quadras em frente”, disse
ela.
“Quer ir para minha casa? Podemos conversar sobre
sua autoestima, tentar entender por que motivos não consegui
te beijar, ou simplesmente desperdiçar algum tempo falando
sobre quaisquer besteiras, até que a chuva passe e tudo volte ao
normal”.
Ela pensou – longos segundos.
“Está bem”.
Ela sorriu. Eu sorri. Nós dois sorrimos. A chuva caia
forte.
“Seus poemas estão dando o que falar”, disse ela. “O
pessoal do jornal estava comentando esses dias”.
“Acho que sim”.
“São muito bons, apesar de tudo”.
“Obrigado”.
Sorri. Ela ficou mais simpática.
“O que você quer dizer com “apesar de tudo”? Pareceu
um pouco crítica”.
“Críticas te incomodam?”
“De maneira alguma. Gosto de críticas. Gosto de
polêmicas, também”.
“É claro que gosta”, disse ela, divertindo-se. “Você
não tem papas na língua. É isso o que quero dizer. Você
escreve coisas bastante controversas”.
“Coisas?”, repeti. “Escrevo poemas e pensamentos. E a
controvérsia é só uma questão de ponto de vista”.
“Poemas, poesias, seja lá o como você queira chamar.
Você é do tipo que se ofende facilmente com o que diz
respeito ao seu trabalho?”
“Gosto de chamar pelo nome correto”, disse eu.
“Quando você diz “coisas”, soa um pouco desagradável para
alguém que trabalha duro”.
Ela deu de ombros.
“O que você faz no jornal?”, perguntei. Eu tinha de dar
o troco. Sou do tipo que sempre precisa dar o troco quando
alguém me atinge onde eu não gostaria, ou onde simplesmente
não deveria atingir. Existem, ao menos, duas coisas com as
quais não se deve mexer: com a dignidade, e com a capacidade
de alguém.
“Editora da coluna de dicas culturais”, disse ela, cheia
de si.
“Sinto muito”.
“Por quê?”
“Ninguém lê essas besteiras. Estamos no século vinte e
um. Ninguém precisa abrir um jornalzinho de baixa circulação
para saber o que deveria fazer no final de semana. O que as
pessoas precisam mesmo é beber, comer e fazer sexo. O resto é
besteira. Existe muita gente à beira da loucura sentada num
balcão de bar, esperando que a próxima dose lhe devolva a
pessoa amada”.
Ela sorriu, mas pareceu chateada. Ponto pra mim.
“Um pouco exagerado”, disse ela. “Bastante
presunçoso, também. Você é tão sincero pessoalmente quanto
nos seus poemas”.
“Que me perdoem os muito falsos, mas sinceridade é
fundamental. Obrigado”.
“Não foi um elogio”, disse ela.
“Pra mim, soou como um belo elogio. Obrigado”.
“Tudo bem, então”.
“É jornalista?”, perguntei.
“Quer saber se sou formada? Me formei há dois anos”.
“Interessante!”
“Não seja debochado”.
Sorri. Meu primeiro nome é deboche, o segundo é
ironia. Ou vice e versa. Quem é que se importa?
“O que você faz, além de ser poeta?”
“Costumo beber, para ter inspirações. Bebo de sexta a
domingo. Segunda, me recomponho das ressacas. De terça a
quinta, faço exercícios, trabalho e sofro por conta de amores
não correspondidos e ilusões criadas pela minha cabeça de
poeta louco”.
Ela soltou uma rápida gargalhada. Pregou os olhos em
mim durante um momento, passando a mão pelas coxas. Tirou
o cabelo do rosto pela décima vez.
“Com o que você trabalha?”
“Trabalho num escritório”, disse eu, querendo não ter
dito. “E estudo, à noite”.
Era um bom emprego, mas poetas não trabalham em
escritórios. Ou você é um poeta que apenas escreve, ou você
não é nada.
“Ah, legal!”, disse ela. “Às vezes, pelo que escreve, dá
a impressão de que não é uma pessoa fácil de conviver”.
“Não sou”, disse eu. “Mas consigo disfarçar, em
alguns momentos”.
Ela sorriu. Ficou olhando através da janela. Tive a
estranha sensação que ela estivesse arrependida e pudesse
avaliar a possibilidade de saltar com o carro em movimento,
mas talvez fosse só impressão, até porque, eu não era tão
assustador assim.
A chuva continuava caindo forte.
Pouco depois, chegamos à minha casa. Era uma casa
confortável, de certa forma, mas a garagem era descoberta, de
modo que acabamos entrando encharcados em casa.
“Fique à vontade”, disse eu, tirando a roupa molhada.
Ela tirou as dela, sem cerimônia, vergonha, ou taças de
vinho e copos de cerveja.
Emprestei-lhe uma camiseta comprida.
Preparei um café, enquanto ela lia alguns escritos
meus, que estavam sobre a mesa. Não gosto que leiam meus
escritos sem permissão, mas é inegável que um clima de tensão
sexual se espalhou pelo ar assim que entramos em casa, de
modo que eu não queria ser o responsável por quebrá-lo. Em
alguns momentos, devemos conduzir as situações o mais
cautelosamente possível. Existe sempre um jogo sendo jogado.
Ganha quem se arrisca menos – ou será que ganha quem
assume o controle? Não sei quem estava no controle daquela
situação, mas tive a sensação que tudo estava se encaminhando
para um agradável desfecho.
Voltei com o café.
“Odeio café”, disse ela. “Tem algo diferente?”
“Poderia ter dito antes que eu preparasse o café”.
“Você não perguntou”.
“Tenho cerveja, vinho e leite”.
“Não gosto de cerveja, nem de leite. E não posso beber
vinho. Tive uma ressaca de vinho que acabou comigo algum
tempo atrás. Uma experiência terrível. Fiz coisas que não
deveria ter feito. Passei uma vergonha que ficou eternizada em
fotos e vídeos”.
“Algo não muito interessante para uma jornalista em
ascensão”.
“Não seja debochado”.
Sorri.
“Nesse caso, beba água”.
“Prefiro não beber nada”.
Sentamos no sofá, como um casal de velhos.
“Tem namorada?”, perguntou ela, como se tivesse
iniciando uma entrevista de emprego. Essas perguntas sempre
me deixam pouco à vontade, como se existisse uma obrigação
em estar em algum relacionamento sério, ou como se
realmente existisse algum tipo de relacionamento sério. Afinal,
se fossemos pessoas realmente sérias, jamais nos
relacionaríamos com outras pessoas antes dos quarenta anos.
Talvez o segredo da vida eterna esteja na solidão, mas quem é
que poderia viver assim?
“Algumas coisas em andamento… nada demais”, disse
eu.
Ela sorriu. Senti que ela estava tensa, como se algo a
incomodasse. Mas por que ela estaria ali? O que se passava na
cabeça dela? Sua linguagem corporal era difícil de decifrar.
“Parece preocupada”, disse eu. “Acha que não deveria
estar aqui? Medo do namorado, talvez?”
“Se eu tivesse um namorado, estaria com ele,
certamente”.
“Seria compreensível”.
“Não dou sorte com homens”, disse ela, enfim. Soou
como um lamento, algo saído das suas mais profundas
inseguranças.
“Prefere as mulheres?”, perguntei.
“Não, é claro que não”.
“O que há de errado com as mulheres?”
“Não há nada errado com as mulheres”, disse ela.
“Apenas não gosto delas. Não do jeito que você está
sugerindo”.
“Tudo bem. As coisas não vão bem nos
relacionamentos, não é? E, certamente, está achando que eu
posso te ajudar. Muita gente costuma achar que posso ajudá-
las, pelas coisas que escrevo, como se eu fosse o dono da
razão, ou como se eu pudesse entender a cabeça dos homens e
das mulheres com maior facilidade do que o resto do mundo.
Bem, talvez seja o caso, mas não sei. Falo o que observo, o que
vivencio. Acredito que cada um tem que quebrar a própria cara
uma centena de vezes até que comece a entender as coisas por
si só. Não posso ser seu salvador”.
Ela ficou sem graça.
“Não acho que você seja um salvador, mas acredito
que tenha uma sensibilidade maior. Pelo menos é o que
demonstra. Sempre quis conversar com você, sem ninguém por
perto. Você parece ser aquele tipo de pessoa que nos deixa à
vontade, que faz com que a gente se sinta bem, somente por
estar por perto, mesmo levando em conta os problemas que
você pode causar”.
“Obrigado pela avaliação, mas não sou do tipo que
causa problemas. Pelo menos, não problemas desnecessários”.
“Já vi você metido em algumas brigas no jornal”,
lembrou ela. “Algumas coisas bem desnecessárias, eu diria.
Quem consegue brigar no local de trabalho mais de uma vez
por motivos aparentemente tão banais?”
Dei de ombros. Bebi um gole do meu café.
“Não acha perigoso vir a minha casa, sem me conhecer
muito bem? Posso parecer uma pessoa agradável de se ter por
perto, mas talvez não seja bem assim. E você não parece ser do
tipo que gosta de aventuras”.
“Não sou, mas estava precisando disso. Sabe,
conversar com alguém, de certa forma, desconhecido. Às
vezes, é preciso sair um pouco da rotina”.
“Concordo plenamente. A rotina pode enlouquecer
qualquer um”.
“E você é um cara legal, não queira bancar o esquisito
pra cima de mim. Conheço pessoas que conhecem você muito
bem. Também não se trata de um completo desconhecido. E,
apesar das brigas e das confusões que se envolve, certamente
não é um completo maluco”.
“Algumas pessoas mentem bastante”, disse eu. “Posso
não ser o que você acha. Você costuma acreditar em tudo que
ouve?”
“Consigo perceber muitas coisas. Tenho percepções
muito afloradas. Meus instintos não costumam me enganar”.
“Então, por que não dá sorte com homens?”
Ela ficou sem graça.
“É mais complicado do que parece”, disse ela.
“Talvez o problema esteja em você”.
Ela sorriu, mas não gostou.
“Isso é típico nos homens”, disse ela. “Quando as
coisas não dão certo, o problema é sempre da mulher”.
“Não foi o que eu disse. Joguei uma possibilidade no
ar. Às vezes, quando você tenta algo mais de uma vez, e não
dá certo com ninguém, pode ser que o problema esteja com
você”.
Ela cerrou os olhos. Ficou me observando seriamente.
“Pode ser que eu tenha dado azar”, disse ela,
“Acontece, é comum. Acredito que a incidência de homens
cafajestes é maior que a de mulheres loucas, que não dão certo
com ninguém”.
“Não disse que você é louca”.
“Foi o que pensou”.
“Você não consegue saber o que penso. Se soubesse o
que estou pensando agora, já teria ido embora”.
Ela sorriu.
“É o que seus poemas dizem”.
“Digo muitas coisas em meus poemas. Gosto de falar
sobre tudo”.
“Eu sei”, disse ela. “Ela é linda, mas é louca, muda de
vontades como muda de roupa”, recitou, me desafiando com os
olhos.
Fiquei em silêncio. Bebi mais um gole do café. Ela
sorriu, ainda me observando. A chuva continuava caindo forte.
“Uma fã!”, disse eu.
“É claro, você escreve sobre muitas coisas, de um jeito
que mais ninguém consegue. Você tem o dom de descrever
nossos sentimentos”.
“Escrevo sobre muitas coisas, realmente”.
“Inclusive, que mulheres são loucas”.
“Falo muito sobre as mulheres, porque gosto muito de
vocês”.
“Eu sei, não estou te julgando. As mulheres gostam do
que você escreve. Apesar de algumas bobagens, você, de certa
forma, entende o que se passa na nossa cabeça”.
“Isso é bom, embora eu não escreva para agradar
alguém. Escrevo porque preciso. Preciso dizer o que sinto, o
que vejo, minhas percepções. Além disso, não acho que
mulheres são loucas, como você sugeriu. Não no sentido
literal… bem, poemas não se explicam, não é mesmo?”
“Interessante. Se alguns homens pensassem como
você, acredito que eu não teria quebrado a cara tantas vezes”,
disse ela.
“Não sou o único a pensar dessa forma. Às vezes, você
está tentando da forma errada”.
“Qual é a forma certa?”
“Não esperar demais. Se possível, não tentar”.
“Contraditório”.
“Não crie expectativas”, disse eu. “Amores e paixões
costumam ser bastante contraditórios É isso que torna tudo tão
interessante e tão passível de erros e problemas irreparáveis”.
“Tenho dúvidas”, disse ela. “Às vezes, acho que o
amor não existe”.
“Tenha calma. Você está sendo muito pessimista
agora”.
“Você acredita em amor?”
“Acredito”, disse eu. “Mas ele é raro. A maioria das
pessoas sente carência e tesão, e confundem com amor e com
paixão. O amor é muito mais que isso. Muitas vezes, o
comodismo não permite que as pessoas encontrem o amor
verdadeiro”.
“Como saber quando é amor?”
“Quando não se tem dúvidas”.
“Algumas vezes, não tive dúvidas. Em todas, quebrei a
cara. Nem uma, nem duas vezes. Quebrei a cara tantas vezes
quando é possível quebrar a cara e continuar tendo vontade de
seguir em frente”.
“Quebrou a cara muitas vezes para alguém da sua
idade. Talvez esse seja um dos problemas: esperar que o
próximo seja capaz de te dar aquilo que só você pode dar a
você mesma. A sua felicidade, a sua satisfação e a sua
autoestima só dependem de você. Aqueles que se tornam parte
da sua vida, devem ser tratados apenas como quem realmente
são: alguém que entrou em sua vida para divertir-se com você,
mostrar coisas novas, ou coisas sob um novo ponto de vista”.
“Não entendo”, disse ela.
“Quando você se relaciona com alguém, não deve
esperar que essa pessoa tenha o segredo para apagar todos os
seus fracassos amorosos. Essa pessoa não é responsável por
fazê-la viver uma vida perfeita e feliz. Isso não existe, apesar
do que os filmes e os livros mostram. Viver a dois é uma tarefa
que requer conhecimento, e que pode ser muito prazerosa, mas
isso só acontece se cada um souber quais são os limites. É
preciso entender que ninguém é o salvador de ninguém”.
“Mas preciso continuar tentando, não é? Ou existe um
limite de tentativas? Devo desistir após três ou quatro grandes
decepções? Devo largar tudo e me contentar com a solidão ou
com alguém que não me desperta por completo? É assim que
as coisas funcionam?”
“É preciso continuar tentando, se é isso que você quer.
Entretanto, nunca deve deixar de se divertir, de viver as
possibilidades maravilhosas da sua juventude e da sua vida. A
vida não nos dá segundas chances. A vida não nos deixa voltar
atrás e recuperar o tempo perdido. A juventude é uma só, e
passa rápido. A vida é uma só, e passa rápido. Você pode se
divertir até o fim da vida, obviamente, mas aconteça o que
acontecer, a sua juventude terá sido uma só, e todos devem
vivenciar a juventude como a mais completa e enriquecedora
experiência. Lições valiosas e diversões inesquecíveis podem e
devem ser vivenciadas na juventude, não há como fugir disso”.
Ela ficou em silêncio, me observando com seus olhos
expressivos, que me penetravam de um jeito instigante. Além
de ser uma garota daquelas que nos faz nunca mais querer
parar de olhar, parecia ser também aquele tipo de garota que
nos faz querer provar algo, nem que seja provar que não somos
capazes de provar coisa alguma. Uma garota fora do alcance,
fora do controle de qualquer um. Uma garota indomável – e
quem é que acha que garotas podem ser domadas? Garotas são
seres livres, independentes. Junte isso a uma beleza e um
charme natural. Junte isso a algum tipo de capacidade
inexplicável que só garotas podem ter e você descobrirá
porque elas podem ser tão interessantes, atraentes e
assustadoras.
“O que você espera, exatamente?”, perguntei. “O que
espera daqui pra frente?”
“Espero não quebrar a cara mais uma vez. Não sei se
seria capaz de suportar uma nova decepção. Estou procurando
viver de modo a não ser mais afetada por essas maluquices
todas. Outro dia, li algo que você escreveu e que me fez refletir
muito, apesar do estranhamento inicial: “por que ser trouxa, se
posso ser solteira?” Achei uma boa reflexão”.
“Não leve a sério tudo o que eu escrevo”.
“Tenho muito medo de me machucar”, disse ela. “Já
me machuquei muito. Meus sentimentos foram pisoteados,
com doses gigantescas de covardia e crueldade. É difícil
conseguir acreditar novamente. Talvez a solidão seja menos
dolorosa do que ter de enfrentar essas situações mais uma vez.
Apesar de relutar contra isso frequentemente, tenho muito
medo de amar novamente”.
Fiquei pensativo. Ela havia despejado doses muito
grandes e dolorosas de sinceridade. Algumas pessoas
conseguem foder as outras com muita competência – e ela era
apenas mais uma vítima dessas pessoas cruéis. O que eu
poderia fazer?
“É isso que torna tudo tão complicado”, disse eu. “Não
conseguimos evitar uma nova paixão. Não conseguimos evitar
um novo amor. Faz parte da nossa natureza, da nossa
existência. O ser humano veio ao mundo para se apaixonar,
quebrar a cara e, vez ou outra, conseguir se divertir um pouco.
Não há como fugir disso”.
“O que fazer, então?”
“Evitar, ao máximo, os falsos amores”, disse eu. “Esse
é um dos maiores problemas: depositar seu amor onde não
existe reciprocidade. Esperar que alguém que não dá a mínima
pra você, possa, de alguma maneira, satisfazer as suas
necessidades amorosas. Não é assim que as coisas funcionam,
embora seja realmente muito difícil evitar esses falsos
amores”.
Ficamos nos observando durante algum tempo, em
silêncio. Em seguida, fui até a máquina de escrever. Tomei o
último gole do café, que já estava frio, feito um falso amor, e
escrevi um pequeno poema:

não tenha medo


de amar

tenha medo
de tomar no cu
por falsos amores

Ela aproximou-se, curiosa. Tirei a folha da máquina e


li em voz alta.
Ela ficou sorrindo ao meu lado, com os olhos
penetrados nos meus. Em seguida, sentou-se em meu colo, de
frente para mim. Sorrimos e nos beijamos.
Certamente, não iríamos viver um grande amor, mas
eu tentaria não a machucar, nem machucar a mim mesmo – é o
mínimo que devemos fazer por nós mesmos e pelos outros, não
é? De uma forma ou de outra, eu tentaria fazê-la sorrir e se
sentir bem, nem que fosse por uma noite, por uma semana, ou
por um mês, apenas. Quem é que sabe até quando uma história
pode durar? Às vezes, histórias assim duram a vida inteira. Às
vezes, não passam de carências momentâneas e sem sentido.
Muitas vezes, ambos sabem o que querem e, num
acordo mútuo e jamais combinado, tudo acontece
naturalmente, sem dúvidas, sem expectativas, apenas como
deveria ser na maior parte dos casos. O problema é que, em
algumas oportunidades, alguém sempre encontra uma maneira
de romper com acordos não combinados. Alguém sempre
encontra uma maneira de foder com tudo – e talvez esse seja
um dos maiores problemas dos relacionamentos: esperar do
outro aquilo que nunca foi combinado, aquilo que julgamos, do
fundo de nossas carências, que seja o certo a ser feito.
Sorríamos, com os lábios colados, e os corpos em
chamas.
Nos beijamos novamente, virando um só.
A chuva continuou caindo forte.
A cadeira rangeu.
Quem é que não gosta de uma boa chuva batendo no
telhado de vez em quando?
DOSES DE VERGONHA NA CARA

Conheci Sarah num sábado à noite.


Foi uma noite de muita diversão e algumas
experiências novas. Sarah e eu rapidamente criamos uma
conexão muito grande, o que foi um pouco surpreendente no
começo. Por um momento, pensei que tivesse encontrado a
mulher ideal. Depois, ri de mim mesmo, pela ilusão
momentânea de acreditar que existem pessoas ideais. O que
existem, na verdade, são pessoas que nos suportam e que nós
suportamos além do normal. Pessoas que, entre prós e contras,
valem a pena de se manter por perto.
Achando meus primeiros pensamentos um pouco
assustadores, bebi mais do que normalmente beberia naquela
noite, e consegui tirá-los da minha cabeça, como se tivesse
recebido um merecido tapa na cara – às vezes, isso é tudo o
que precisamos para deixarmos de ser babacas e seguirmos
com nossas vidas.
Naquela noite, Sarah e eu conversamos durante muito
tempo, sobre muitos assuntos. Naturalmente, bebemos juntos,
demos boas risadas, mas acabamos não nos beijando, nem
tendo qualquer tipo de contato mais íntimo – algo que
definitivamente não estava nas minhas primeiras intenções
com ela.
Depois daquela noite, nos tornamos muito amigos.
Sarah é a prova de que pode existir amizade verdadeira e sem
interesses entre homens e mulheres. E, por quais motivos, não
poderia? Carências existem, é claro. Das carências, podem
surgir situações que façam as amizades seguirem por um
caminho diferente. Apesar disso, quando não existe carência e
quando as coisas estão muito claras entre ambos, a amizade
entre um homem e uma mulher pode ser muito enriquecedora.
Confesso que, vez ou outra, observo Sarah com
olhares sacanas, mas como poderia ser diferente? Sarah é uma
mulher linda e encantadora. De várias formas, ela é muito bem
resolvida e independente. É o tipo de mulher que atrai qualquer
homem – e assusta qualquer pessoa. Foi por isso que me
aproximei dela naquela noite. Sarah possui um magnetismo
capaz de envolver o mais desapegado dos seres humanos.
Entretanto, apesar de, vez ou outra, observá-la com
esses olhares sacanas, nunca mais tive intenções suficientes
para tentar algo diferente com ela. Cultivo muito bem nossa
amizade. Por quais motivos eu estragaria tudo? Mulheres
existem aos montes, não é preciso colocar tudo a perder por
conta de carências mal resolvidas.
Naturalmente, muitos casos de amores surgiram de
boas amizades, mas muitas amizades boas foram aniquiladas
por carências mal resolvidas. É preciso ter sabedoria e força de
vontade para conseguir manter uma amizade entre homem e
mulher, é claro – mas quais são os relacionamentos que não
precisam ser cultivados com grandes doses de sabedoria e
força de vontade?
Amizades assim podem ser melhores do que entre
pessoas do mesmo sexo. Digo isso porque Sarah me ajuda
constantemente em muitas situações. Ela faz com que eu
entenda as mulheres em situações que eu jamais entenderia se
ela não estivesse por perto. Hoje, acredito que todo homem
precisa ter um toque feminino em sua vida, principalmente os
solteiros. Em contrapartida, toda mulher precisa de um toque
masculino em sua vida, principalmente as solteiras. As coisas
funcionam melhor dessa forma, pois existe uma troca de
conhecimentos e de experiências muito poderosa quando isso
acontece.
É claro que, quando estamos em um relacionamento
sério, tudo tende a ficar mais complicado. Quantos são aqueles
que conseguem entender perfeitamente e se sentir confortáveis
quando seu parceiro sai de casa para se encontrar com alguém
do sexo oposto, alegando serem apenas bons amigos? Não
podemos condená-los, porque é natural ficar incomodado e se
sentir intimidado com essa situação – mas é preciso que exista
confiança para que tudo funcione da melhor forma possível.
Quando Sarah me ligou, num fim de tarde, fazia alguns
dias que não nos víamos. Sarah alegava que estava sem tempo,
principalmente porque permanecia na busca de um novo e
verdadeiro amor, ou algo tão estranho quanto. Vez ou outra,
apesar de ser uma mulher muito inteligente, Sarah nutre alguns
delírios como esse, e nada faz com que ela perceba os
problemas que está procurando para si mesma. Já disse muitas
vezes a ela, que amores não podem ser encontrados dessa
forma, porque surgem naturalmente, quando menos se espera,
onde menos se procura. Pelo menos, é o que acredito.
Naquela noite, conversamos bastante sobre essa sua
constante busca pelo amor verdadeiro, ou pelo parceiro ideal.
Naturalmente, nem sempre gosto de fazer o tipo de conselheiro
amoroso, ou o dono da razão, mas tenho opiniões bem
definidas sobre isso, e gosto de expô-las com sinceridade.
Além disso, são essas conversas que fazem com que eu
aprenda muito sobre como funciona a cabeça das mulheres, em
geral.
Arrumamos uma mesa num bar de fim de tarde,
pedimos algumas bebidas e uma boa quantidade de petiscos.
Sarah parecia cansada e, pelo que eu conhecia dela, tinha muita
coisa pra jogar pra fora. Como um bom ouvinte, deixei que ela
despejasse tudo.
“Todos uns babacas”, disse ela. “Qual a dificuldade
que os homens possuem em manter o cavalheirismo, os bons
modos e a educação dos primeiros encontros?”
“Comodismo, talvez”, disse eu. “Não que eu queira
defendê-los, mas, vez ou outra, o comodismo costuma foder
com tudo”.
“Falta de educação”, disse ela. “Educação vem de
berço. Ou você tem, ou você finge ter. Alguns conseguem
fingir bem, num primeiro encontro. Depois disso, mostram
quem realmente são”.
“Mas não é possível que sejam todos iguais”.
“Não consigo encontrar os diferentes”, disse ela. “O
que muda são os nomes, os endereços, e os tipos de merdas
que fazem”
“Então, não são iguais”.
“São iguais na essência. Comportamentos,
pensamentos, atitudes. Todas iguais”.
“Tenho alguns amigos que são muito cavalheiros e
educados”, disse eu. “Já te falei isso algumas vezes. Nem só de
homens babacas o mundo é feito”.
“São raros, certamente”.
“Alguns deles já me falaram que suas namoradas
reclamam de excesso de educação e bons modos. Às vezes,
elas querem parceiros mais sacanas”.
“Isso não faz sentido algum”, disse ela.
“É realmente muito engraçado. Algumas mulheres
preferem homens mais brutos, de certa forma. Nada disso faz
sentido. Em geral, as pessoas estão sempre reclamando da falta
daquilo que outras possuem em excesso. E essas, por sua vez,
também estão reclamando. Somos um ser em constante
reclamação”.
“Não consigo entender como algumas mulheres
preferem homens brutos”.
“Questão de necessidade”, disse eu. “Ou talvez elas só
precisem de um tratamento psicológico”.
Sarah riu.
“Ou de alguns tapas na cara”.
“Um brinde aos tapas na cara”, disse eu.
Rimos, brindamos e bebemos – nosso eterno ritual.
“São situações delicadas”, disse Sarah. “Gosto apenas
de carinho, café da manhã na cama, massagem aos finais de
noite, preliminares, troca de olhares, sexo lento e mordidas no
pescoço. É pedir muito encontrar alguém que atenda meus
desejos?”
“Algumas coisas me deixam pouco à vontade na nossa
amizade”, disse eu, bebendo meu copo todo num só gole.
“Quando você fala dessa forma, sinto vontade de atender todos
os seus desejos”.
Sarah gargalhou deliciosamente.
“Achei que já tínhamos passado dessa fase”, disse ela.
“É claro, mas, às vezes, minha imaginação voa longe.
Você sabe como sou”.
“Insaciável?!”
“Alguém na constante busca da satisfação”.
Sarah gargalhou novamente.
“Um safado incontrolável, eu diria”, disse ela.
“Bem, somos dois, então. Talvez seja por isso que
somos tão conectados”.
Brindamos novamente.
“Relacionamentos são tão maravilhosos”, disse ela. “O
problema é que algumas pessoas costumam estragar tudo. São
coisas tão simples, Bertoni. Tudo poderia ser melhor se todos
colocassem a mão na consciência e não fodessem com a vida
alheia”.
“O amor é de boa”, disse eu. “O problema são as
pessoas, que fodem com tudo”.
Brindamos mais uma vez.
“Das vantagens de se ter um amigo poeta”, disse ela.
“Sarah, estive pensando esses dias: normalmente,
todos estão sempre muito insatisfeitos nos relacionamentos.
Constantemente querem encontrar alguém diferente, que faça
mais, que se entregue mais, que cobre menos, que faça isso ou
aquilo. Talvez as pessoas com quem estão se relacionando
sejam ótimas, realmente. O problema muitas vezes está com
aqueles que reclamam de tudo. Às vezes, os problemas são
internos. Às vezes, as pessoas não estão bem resolvidas
consigo mesmo”.
“Está dizendo que eu sou o problema?”
“Claro que não, mas quem sabe? Muitas vezes o
problema está nos vazios sentimentais que todos sentem. O
que pode não ser bom para nós, pode ser maravilhoso para
outras pessoas. Entende o meu ponto de vista? Talvez se você
tentar se conhecer melhor, entender seus sentimentos e seus
desejos, possa se sentir mais feliz num relacionamento. Não
que isso seja regra, é claro. Mas costuma acontecer bastante”.
“Concordo, em partes, mas isso não nos tira o direito
de continuarmos procurando alguém melhor, alguém que, de
certa forma, possa preencher nossos vazios sentimentais. Sei
que não devemos encontrar alguém que nos complete, porque
devemos ser completos sozinhos, mas, na prática, as coisas não
são tão simples assim”.
“Relacionamentos nunca serão simples, justamente
porque as pessoas complicam tudo. O fato é que devemos ficar
muito atentos a isso, porque encontrar alguém que preencha
vazios sentimentais não garante felicidade ou satisfação num
relacionamento. Pode te dar uma sensação de conquista
durante algum tempo, mas depois, tudo tende a ficar como
antes. Vazios sentimentais devem ser fechados por nós
mesmos. É um processo interno. Trata-se do famoso não
colocar sua felicidade em mãos alheias. Você, assim como
muitas pessoas, costuma esperar demais daqueles com quem se
relaciona. Esse não é o caminho. Já te disse isso muitas vezes”.
“O que eu gostaria de entender, é por quais motivos as
pessoas se mostram tão perfeitas num primeiro momento?
Quando isso acontece, acaba sendo muito natural esperar
demais dos momentos seguintes. Acredito que não há motivos
para se relacionar com outras pessoas se não for para
esperarmos coisas boas delas”.
“Acredito que devemos nos relacionar com
determinada pessoa porque ela é capaz de fazer parte da nossa
vida sem foder com tudo”, disse eu. “Esperar coisas além disso
é ser babaca e pedir para quebrar a cara e sofrer como um
miserável”.
Sarah gargalhou.
“Bertoni Peroni, um eterno pessimista”, disse ela. “Eu
sei que você não acredita verdadeiramente em tudo o que fala.
Você ainda acredita no amor”.
“Algumas vezes, é o pessimismo que nos faz seguir
em frente, embora eu confesse que sou um eterno otimista,
apesar das quebradas de cara que já levei em relacionamentos
e, apesar de todas as merdas que vejo por aí. Algumas pessoas
conseguem foder com tudo muito rapidamente, e sem aviso
prévio”.
“Como fugir disso?”
“Pare de procurar demais”, disse eu. “Pare de esperar
demais. Você é uma mulher encantadora, sabe disso. No
momento certo, o amor vai aparecer. Aproveite a vida
enquanto isso não acontece. Depois, aproveitar a vida vai ser
mais complicado, apesar das coisas maravilhosas que todos
falam sobre o amor”.
“Onde está o eterno otimista agora?”.
“É claro que estou brincando, mas a vida é feita de
etapas, isso é inegável. É preciso aproveitar todas elas para
sentir-se completo e realizado quando o amor chegar. Pessoas
que pulam etapas tornam-se muito frustradas depois de algum
tempo. Os manicômios estão cheios de pessoas que pularam
etapas. Hoje em dia, vejo garotas e garotos de quinze,
dezesseis anos, iniciando relacionamentos muito sérios…
sérios demais para pessoas dessa idade. Fico um pouco
saudoso com o tempo em que jovens dessa idade só queriam se
divertir, vivendo seus desejos e aproveitando as possibilidades
da vida sem se prender a ninguém”.
“Mas isso não é regra”, disse ela. “Vejo muitos jovens
curtindo a vida sozinhos”.
“Sim, isso acontece muito, mas a verdade é que a
juventude atual está mergulhada em problemas que só existem
em suas cabeças. Vivem histórias amorosas complexas demais
para pouca experiência. Estão todos imersos em padrões
comportamentais angustiantes, impostos pela mídia e por
pessoas despreparadas para serem formadoras de opinião. Não
vejo o futuro com bons olhos”.
“E não há sinais de que conseguirão se libertar disso”.
“Fico feliz pelos poucos que ainda conseguem
aproveitar sem se prender a esses padrões. Que se divirtam,
que façam o que deve ser feito, porque é disso que se trata. O
que seria a vida se não fosse para gente se divertir enquanto
tentamos nos encaixar no mundo? Enquanto tentamos
encontrar nossa própria voz? Fico triste pelos outros, pelos
manipulados, pelos alienados que não enxergam as coisas da
mesma forma”.
“A juventude está cada vez mais complexada com
problemas que não deveriam se preocupar. A vida pode ser
muito leve quando encarada da forma correta”.
“É claro. Outro dia, encontrei um casal de namorados,
ambos com vinte e poucos anos. Eram o primeiro namorado
um do outro. Praticamente nunca haviam saído com outras
pessoas. Segundo eles, conheceram juntos todos os prazeres da
vida. Pelo que percebi, se orgulham muito disso, e fazem tudo
juntos desde os catorze anos. Uma história de amor, dizem uns.
Fiquei pensando, quanto tempo ainda vai levar até um dos dois
enlouquecer? Ou ambos? Quanto tempo vai levar até que
comecem a enjoar um da cara do outro? Nem mesmo o maior
dos amores é capaz de manter unido um casal que pulou etapas
importantes na juventude”.
“Agora você está sendo muito pessimista, Bertoni. Não
acredita em amor à primeira vista? Não acredita que duas
pessoas podem ser eternamente felizes sem que tenham se
relacionado com outras, ou se divertido pra valer sozinhas
quando jovens? Não acredita que um casal possa se divertir
tanto ao ponto de não precisarem de outras experiências para
conseguirem ficar juntos para sempre?”
“Acreditei em amor à primeira vista quando te
conheci, mas foi uma grande ilusão. Quais alternativas essas
pessoas me deixam, a não ser enxergar tudo de um modo tão
pessimista? Nem mesmo um amor à primeira vista, caso ele
realmente exista, pode ser capaz de suportar quando etapas são
rompidas. É importante e necessário viver todas as etapas da
vida para conseguir viver um amor verdadeiro. Não sei se
existem estudos científicos que comprovem isso, mas, com
certeza, se existisse, eles confirmariam minhas teorias”.
“Suas teorias são sempre ótimas, Bertoni”.
“Um brinde às etapas da vida”, disse eu.
Brindamos e bebemos.
“Vejo jovens sofrendo tanto por amores não
correspondidos. Sinto pena. O que podem saber da vida esses
garotos e garotas com quinze, dezesseis anos? Às vezes, vejo
jovens de vinte e poucos anos sofrendo da mesma forma.
Outro dia, tendo uma conversa parecida com essa, peguei uma
conhecida pelos ombros e a chacoalhei, dizendo: VOCÊ NÃO
VAI MORRER POR CONTA DE UM AMOR NÃO
CORRESPONDIDO!”
“E o que ela fez?”
“O que qualquer pessoa mergulhada no sofrimento de
um relacionamento mal resolvido faria: me esbofeteou como
uma desequilibrada e, depois, deu o fora”.
Sarah riu.
“Fez o que deveria fazer”, disse ela.
“Não conversamos mais depois disso. Acredito que
não conversaremos tão cedo. A coitada estava transtornada
com o fim de um relacionamento rápido. Será que era eu quem
merecia aquele tapa na cara? Sinto pena, realmente”.
“Concordo, em partes. Alguns relacionamentos,
querendo ou não, possuem a necessidade de chegar ao fim.
Não que nem devessem ter começado, mas chega um momento
em que é necessário cada um seguir com seu caminho”.
“A maioria dos relacionamentos possui prazo de
validade”, disse eu. “Aproveite, mate sua vontade, agradeça, e
dê o fora”.
Brindamos outra vez.
“O problema é que algumas pessoas não conseguem
entender isso”, disse ela. “Normalmente as pessoas
desmoronam, entram numa loucura e, muitas vezes, acabam
tornando-se infelizes, nutrindo rancores pelo resto da vida”.
“Amor-próprio”, disse eu. “É o que falta na maior
parte das pessoas. Falta amor-próprio e vergonha na cara para
perceber quando é preciso enterrar as coisas que se foram e
seguir em frente com suas vidas. Quem vai ajudá-lo a sair
dessa loucura a não ser você mesmo? Quem vai ajudá-lo a não
ser o amor-próprio e a vergonha na cara?”
“Mas é realmente muito difícil ter amor-próprio
quando alguém que você gosta decide sair da sua vida. Quando
essa não é a decisão de ambos, é muito difícil permanecer com
a autoestima elevada e com o amor-próprio em
funcionamento”.
“É difícil, mas é necessário. Tudo o que você tem é o
amor-próprio. Não importa quem você é, o que você faz, se
não tiver amor-próprio, os outros sempre passarão por cima de
você, qualquer que seja a situação, queira você ou não. Amor-
próprio é aquilo que te mantém no controle da sua vida. O
amor-próprio tem o poder de trazer a paz e manter a felicidade
em sua vida. O melhor de tudo é que ele só depende de você”.
“Às vezes, me falta muito amor-próprio”, disse ela.
“Além de algumas doses de vergonha na cara. Você
não precisa ficar rastejando por ninguém, Sarah. Você,
independente e interessante como é, vai encontrar uma pessoa,
mais cedo ou mais tarde. Talvez esteja apenas deixando de
viver etapas importantes e necessárias antes que encontre
alguém que combine perfeitamente com você. Aproveite a vida
enquanto isso não acontece. Divirta-se. Conheça pessoas sem
criar expectativas. Saia com esse e com aquele. Compreenda
os sentimentos e os desejos humanos. Aprenda tudo o que
puder. Ganhe experiência. Toque o foda-se. Meta o louco. E
nunca se preocupe com a opinião dos outros. Não quero que
você seja uma pessoa que não está nem aí para as
consequências, mas quero que você entenda que deve conhecer
os prazeres do mundo ao máximo antes de viver um amor
verdadeiro”.
Sarah concordou. Brindamos.
Apanhei um guardanapo e escrevi um pequeno poema:

o amor
vai chegar

mas antes disso


você precisa
passar o rodo

Sarah leu e riu. Seu sorriso sempre fora lindo e


encantador.
Lembrei-me, mais uma vez, do sábado em que nos
conhecemos. Meu único desejo, aquela noite, era beijá-la o
mais depressa possível. Hoje, agradeço por não termos nos
envolvido, embora, vez ou outra, eu me pegue deixando
minhas maliciosas imaginações percorrerem o seu corpo. Mas
sempre penso melhor, e entendo que a amizade de Sarah me
fez e continua me fazendo uma pessoa melhor, em vários
sentidos. Faz com que eu entenda melhor a mim mesmo e,
como já disse, as mulheres, em geral.
Apesar disso, o que garante que não vamos acabar nos
beijando um dia desses, depois de algumas doses de bebida e
algumas tomadas de cu recebidas da vida?
Afinal, alguns beijos despretensiosos entre dois bons
amigos não podem ser capazes de colocar tudo a perder.
Ou será que podem?
SOBRE UM POETA LOUCO

UM POETA LOUCO é um projeto que teve início em


dois mil e catorze, no Instagram, estendendo-se, em seguida,
para o Facebook e, algum tempo depois, para o Twitter. Hoje,
o projeto possui mais de um milhão de seguidores em seus
perfis oficiais, com suas criações sendo amplamente curtidas,
comentadas e compartilhadas todos os dias por milhares de
pessoas.
A ideia para a criação surgiu devido ao meu
descontentamento em observar a enorme quantidade de
poemas, frases e pensamentos clichês e cansativos encontrados
diariamente na internet. Dessa forma, o projeto nasceu tendo
como principal objetivo o fornecimento de um conteúdo
diferente, sincero, bem-humorado e sem papas na língua,
visando aproximar-se com mais verdade, simplicidade e
objetividade dos sentimentos e acontecimentos envolvendo o
cotidiano e os relacionamentos de todos nós.
Devido ao estilo agressivo, irônico, sarcástico, áspero
e politicamente incorreto, o projeto enfrentou grande
resistência após seu início, antes de, enfim, começar a
conquistar muitos seguidores.
Atualmente, o conteúdo de UM POETA LOUCO pode
ser encontrado nas redes sociais através da hashtag
#umpoetalouco e nos perfis oficiais @umpoetalouco no
Facebook, Instagram e Twitter.
Sempre seguindo a proposta original, permaneço
criando conteúdo com boas doses de sinceridade, humor e
loucura.
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