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A lei 10.

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As constantes reivindicações do movimento negro, no que tange à educação,


proporcionaram no dia 9 de janeiro de 2003 a obrigatoriedade do ensino de História
e Cultura Afro-brasileira. Essa obrigatoriedade se estabeleceu através da criação da
Lei 10.639/2003, que altera a Lei 9.394/96 (lei de Diretrizes e Bases - LDB) nos
incisos 26A e 79.

Explanar essa temática é de suma importância, principalmente no ensino básico,


para que a juventude já na mais tenra idade possa começar a desmistificar a visão
ainda deveras colonial e eurocêntrica disseminada nos ambientes da educação
formal de nosso país. Porém, infelizmente, até os dias atuais caímos na grande
questão em torno dessa lei, que já possui 16 anos: A ausência de docentes
qualificados para ministrarem aulas que cumpram o que determina a lei. Além disso,
há poucos materiais didáticos distribuídos na rede pública que disponham métodos
para profissionais e instituições da educação para readequação dessa nova diretriz
da LDB, resultando em uma deficiência e negligência por parte do Estado na
efetivação de referências da cultura africana e afro-brasileira nos espaços de
formação educacional no Brasil.

A sociedade brasileira passou por diversos processos racistas através de leis e


movimentos político-culturais, a exemplo do famoso Mito da Democracia Racial,
corrente ideológica nascida nas primeiras décadas do século XX, proposto pela elite
intelectual e tendo como máximo expoente o sociólogo Gilberto Freyre (1900 -
1987), onde as relações raciais no Brasil teriam sido consentidas e harmoniosas
durante a colonização e regime escravocrata, e por consequência, a miscigenação
contribuiu para "civilizar o país". Tal discurso justificaria ao fim que não há
preconceito de raça/cor no Brasil, e consequentemente a discriminação contra
pessoas e instituições negras se findou no momento da Abolição da Escravatura.

Este foi um grande desafio para o movimento negro durante grande parte do século
XX, porque a partir do momento da adesão da farsa do mito da Democracia Racial,
não existem mais discriminações raciais, então lutar pelo quê?

Sabemos que é um grande equívoco esse discurso da negação do racismo, não se


sustentando diante das incontestáveis provas cotidianas que a sociedade brasileira
dá sobre essa questão. Os alarmantes números de assassinatos sumários de
jovens negros, os impedimentos de acesso e permanência de pessoas negras a
espaços ainda entendidos como destinados exclusivamente à camada mais branca
da sociedade. Enfim, aos diversos constrangimentos, proibições, violências e
negação de direitos que a população negra sofre e cuja principal, e muitas vezes
única, razão se dá pela sua constituição racial, por serem pessoas negras. Além
disso, há também vasta produção científico-acadêmica que descreve
detalhadamente a íntima relação do nascimento do país e sua trajetória com o
fenômeno do racismo, tendo com a economia em torno da escravidão a principal
força motriz dinâmica social do Brasil, em grande parte dos 519 anos de sua
existência.

A própria constituição federal mostra que existe o racismo em seu artigo 5º:

“A Constituição Federal de 1988, no seu art. 5° inciso XLII,


determina que “a prática do racismo constitui crime inafiançável e
imprescritível, sujeito de reclusão nos termos da lei”

Apesar de ser uma constituição recente, está constituição denuncia a existência da


discriminação racial no território brasileiro ao ponto de especificar as penalidades ao
qual implicam sua prática. Sua menção quanto fenômeno que deve ser
criminalizado. Entretanto, são raros os casos de pessoas praticantes do racismo
que de fato tenham sido condenadas dentro dos termos da lei no que rege à
constituição, diante de todo um conjunto de práticas de subterfúgio e negação do
ato, resultantes do que o pesquisador Kabengele Munanga denomina de Racismo
Velado. Esse racismo velado é um dos instrumentos, que aliado ao mito da
Democracia Racial, torna tão difícil o combate ao racismo, já que a própria
sociedade brasileira foi forjada nas últimas décadas no exercício de ignorar e
subestimar todos os episódios dessa discriminação.

O movimento negro se organiza num cenário nacional imerso no mito da


democracia racial e racismo velado, ao mesmo tempo que tem de combater práticas
explícitas ou veladas de segregação racial. A prática do racismo não existe somente
no Brasil. Podemos citar a exemplo os Estados Unidos da América, onde o racismo
tem outros contornos por conta da formação da nação e por haver lá um predomínio
numérico de brancos, o modelo de racismo estadunidense é denominado de “one
drope rulle” (uma gota de sangue), porque basta haver alguma ascendência negra e
traços mínimos para que possa ser alvo do racismo.
Diferente do Brasil, onde a discriminação se dá acima de tudo por conta da
aparência, o que é denominado por Racismo de Marca. Para falarmos da África,
peguemos do mundialmente conhecido Apartheid na África do Sul, onde havia um
gritante processo de separatismo populacional, segregação nos espaços, onde até
mesmo dadas partes da cidade eram destinados exclusivamente aos brancos, aos
descendentes dos colonizadores, e razão para a luta no país, tendo como grande
liderança dessa luta Nelson Mandela (1918 – 2013).

Ademais, nesse contexto sempre foi prevalecido a cultura europeia branca mesmo
que no contexto de discurso de democracia racial, pois a partir do momento em que
se é referido em quase todos os materiais didáticos ao negro apenas no que
concerne à escravidão, o branco europeu estava sempre ocupando os espaços de
poder, no que tange a educação por exemplo, nesta perspectiva Kabengele
Munanga diz que:

A ignorância em relação à história antiga dos negros, as diferenças


culturais, os preconceitos étnicos entre duas raças que se
confrontam pela primeira vez, tudo isso, mais as necessidades
econômicas de exploração, predispuseram o espírito europeu a
desfigurar completamente a personalidade moral do negro e suas
aptidões intelectuais. O negro torna-se, então, sinônimo de ser
primitivo, inferior, dotado de uma mentalidade pré-lógica
(MUNANGA, 1986, p. 9).

Nesse contexto, é importante frisarmos que assuntos de grande importância para a


entendermos a formação e constituição da sociedade brasileira como o racismo
nem mesmo são tratados com a devida importância e profundidade na sala de aula,
e infelizmente até os dias atuais é uma prática comum. Outro caso são as muitas
ocorrências de racismo que são colocados pelas autoridades como injúria racial,
diminuindo assim o peso para quem os pratique, já que o crime de racismo é
inafiançável.

A lei 10.639/03 dá margem para ampla discussão nas mais diversas várias áreas do
conhecimento, assuntos esses que contribuem para o processo de entendimento da
cultura africana e afro-brasileira, mas infelizmente muitos autores (as) negros (as)
continuam invisibilizados. A hegemonia dos discutidos historiográficos feitos por
pessoas brancas, e consequentemente eurocêntricas, mostra também que os
próprios educadores negros que se dispõem a debater e produzir materiais em torno
da lei sofrem racismo epistémico.

As escolas no tange à educação religiosa tratam apenas de uma religião advinda de


exclusivamente de perspectiva eurocêntrica, em vista que o colonialismo e
imperialismo colocaram muitas vezes apenas a Igreja (igreja católica apostólica
romana) como a salvadora ou até mesmo a única e verdadeira, e por outro lado, a
demonização das religiões de matrizes africanas só aumentava, ao passo que tudo
que era advinda do continente africano ou até mesmo uma religião que tenha traços
ancestrais africanos era demoníaco e a igreja católica só reforçava esse discurso
mesmo que indiretamente, mostrando apenas a verdade dela e impedindo o livre
arbítrio das demais.

Até os dias de hoje, é notado que a perseguição religiosa seguindo do racismo, é


uma prática inegável pois é perceptível a exemplo dos terreiros de candomblé que
são destruídos muitas vezes, como mostra em uma pesquisa feita pela Comissão
de Combate à Intolerância Religiosa no Rio de Janeiro (CCIR)

“Dados compilados pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio


de Janeiro (CCIR) mostram que mais de 70% de 1.014 casos de ofensas,
abusos e atos violentos registrados no Estado entre 2012 e 2015 são contra
praticantes de religiões de matrizes africanas.”

Mas como educadores o que faremos? Neste ponto, a discussão é o primeiro passo
para que as pessoas possam entender que é através do respeito devem ser tratodo
todas as religiões, outra ponto é mostrar que a liberdade religiosa é para todos, e
que a intolerância é crime de cunho racista também.

Portanto, a lei 10.639 ela possibilita um contanto maior com a cultura afro-brasileira,
cultura que é constante alvo de discriminações, mas como educadores nosso papel
é buscar mecanismos para a valorização da cultura africana e afro-brasileira e
desmitificar a visão eurocêntrica dos alunos, a lei foi um ponto inicial para isso,
através dela abranger a discursão de racismo, racismo religioso e quais os
mecanismos para a luta é de extrema importância, além disso o reconhecimento de
autores negros que nunca ou foram poucos trabalhados em sala de aula mostra que
existem autores negros e negras na historiografia, e como diz o comunicador e
ativista social Marcus Mosiah Garvey: “Um povo que não sabe de sua própria
história é como uma árvore sem raízes.”

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160120_intolerancia_religioes_afri
canas_jp_rm