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PENÉLOPE NO PINDORAMA: SOBRE A RECEPÇÃO DA ODISSEIA

NA POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

Bernardo Lins Brandão


Univ. Federal do Paraná

Abstract - According to the literary critic Gustavo Silveira Ribeiro, we live today an
important time for Brazilian poetry, with a growing interest of readers and publishers. It
is a diversified scene, crossed by intersections and tensions, in which the Greek and
Roman classic writers have a role as inspiration, paradigm for imitation and target for
contradiction. In this text, I'll analyze the reception of classic authors in the
contemporary Brazilian poetry through the image of Penelope and her odissey of
waiting in poems by Hugo Langone (Rio de Janeiro) and Ana Martins Marques (Belo
Horizonte).
Keywords - Classics’ reception, Homer, contemporary Brazilian poetry, Hugo
Langone, Ana Martins Marques.

1.Introdução
De acordo com o crítico literário Gustavo Silveira Ribeiro, em uma entrevista ao blog
Escamandro, publicada posteriormente como posfácio de sua coletânea de poesia
brasileira contemporânea A Extração dos dias,1 vivemos no Brasil de hoje um período
de vitalidade poética, no que diz respeito à qualidade do que se escreve, no crescente
interesse de leitores e editores, e no número cada vez maior de autores. Trata-se de uma
produção vasta, cuja divulgação foi facilitada pela internet (especialmente por blogs e
revistas online como a Modo de usar, Mallarmagens, Escamandro, Germina), que não
pode ser enquadrada em algumas poucas tendências estilísticas e temáticas. Nas
palavras de Guilherme Gontijo Flores, em sua entrevista ao blog Enfermaria 6,2 “arrisco
dizer que vivemos um momento impressionante, sobretudo na poesia brasileira, com
uma potência de poéticas muito diversas e, ao mesmo tempo, capazes de conviverem
como há muito tempo não víamos”.
Quanto à crítica literária, Ribeiro continua, ainda que persista em alguns casos a
tendência de julgar a produção poética nacional a partir dos valores artísticos do
modernismo de S. Paulo, o que explicaria parcialmente certa resistência à poesia
contemporânea, por outro lado, em geral, “a pluralidade de poéticas possíveis” e de

1
(2017) 208-9.
2
(2017). Disponível em http://www.enfermaria6.com/blog/2017/1/28/s-existe-cultura-plural-e-no-plural-
sergio-maciel-entrevista-guilherme-gontijo-flores
abordagens de leitura é bem aceita pela crítica. As mais variadas demandas e esperanças
acerca da poesia, Ribeiro afirma, hoje se misturam, sem que nenhuma delas possa
“circunscrever o que é ou deve ser um bom poema, um poema pelo qual se anseia, que
se faz necessário e comum, mesmo que surpreendente”.3
Em meio a essa pluralidade de vozes, tendências e influências, a recepção da
poesia clássica tem um lugar importante. Referências a mitos, obras e autores da
Antiguidade são recorrentes na produção de muitos de nossos poetas atuais, aparecendo
das mais diversas maneiras: como inspiração, alusão, paródia, contraposição, etc. Desde
a fundação da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos em 1985, a área passou por um
notável período de expansão na universidade brasileira, em uma “saudável contramão”,
para usar a expressão de Paulo Martins, 4 da tendência de encolhimento em diversas
partes do mundo. Além disso, nos últimos anos, tem se destacado um crescente interesse
pela tradução poética de textos antigos, alguns dos quais chegaram a ganhar importantes
prêmios literários, como a Odisseia de Trajano Vieira, vencedor do Jabuti de 2012, e os
Fragmentos Completos de Safo de Gontijo Flores, vencedor do prêmio da APCA de
2017, entre outros. Esse estado de coisas influenciou diretamente parte da produção
poética contemporânea: alguns poetas da nova geração são também classicistas, como
Érico Nogueira e Guilherme Gontijo Flores. No entanto, essa não é a única explicação:
deve haver, dizia Fernando Pessoa como Ricardo Reis 5, no mais pequeno poema de um
poeta, qualquer coisa por onde se note que existiu Homero. Isso é verdade também no
Brasil de hoje.

2. A presença da Odisséia na literatura brasileira contemporânea


Falar em Homero é falar da mais famosa das viagens da literatura grega, o retorno de
Odisseu à Ítaca. E, de fato, a Odisseia é um ponto de partida fecundo para pensarmos a
recepção da literatura clássica no Brasil contemporâneo. Para usarmos como amostra a
poesia publicada na revista e blog Modo de Usar, vemos ali fazerem referência ao épico
poemas de Jussara Salazar (“Deus ex-machina”),6 Salgado Maranhão (“Tão lúdica é a
fundura do desejo”),7 Flávio Morgado (“De Alexandria”),8 Maria Bogado (“Sudoeste”),9
3
(2017) 215-6.
4
(2008) 165.
5
(1966) 393.
6
Em 29 de novembro de 2017.
7
Em 19 de novembro de 2017. http://revistamododeusar.blogspot.com/2017/11/modo-5-oito-poetas-
negros-contemporaneos.html
8
Em 23 de julho de 2016. http://revistamododeusar.blogspot.com/2016/07/flavio-morgado.html
9
Em 27 de dezembro de 2015. http://revistamododeusar.blogspot.com/2015/12/maria-bogado.html
Oswaldo Martins (“Bêbada desimitação de Homero”),10 Jeanne Callegari
(“Penélope”),11 entre outros.12
Gostaria de me deter aqui em alguns poemas que procuram se referir à Odisseia
a partir da perspectiva específica: a de Penélope, que considero ser uma das personagens
mais inquietantes do épico. Central para a trama (afinal, em última análise, conta-se ali
a história da fidelidade entre os esposos em meio a perigos e seduções), sendo a única
figura humana a ter a métis comparável à de Odisseu, suas aparições são, entretanto,
sempre bastante elusivas. Suas motivações e o que de fato ela sabe nas diversas
situações pelas quais passa (em especial enquanto Odisseu se encontra em Ítaca

10
Em 29 de novembro de 2016. http://revistamododeusar.blogspot.com/2016/11/oswaldo-martins.html
11
3 de abril de 2014. http://revistamododeusar.blogspot.com/2014/04/jeanne-callegari.html
12
Eis alguns desses poemas:

Jeanne Callegari, “Penélope”


a mão direita escreve
a esquerda apaga

Oswaldo Martins, “bêbada desimitação de Homero”


as embarcações partem das areias secas
à frente o busto da tragédia que anuncia
o silêncio duro das sereias

quem com elas tange ondas de oceânico sal


quem sobre o branco dos olhos de poseidon
quem nas miríades do cemitério marinho

as embarcações secas
o busto de peixes carcomido
a água silenciada no abismo

eis o simulacro e o delírio dos ébrios


da linguagem solta, e dos vitupérios
eis a mão que mergulha e decepa

Salgado Maranhão, “Tão lúdica é a fundura do desejo”


II.
Falo da paisagem nutriz em teu lábio,
do que em ti amora. Não do centeio
que a terra custa a doar. Tenho a fome
de Ulisses chegando a Ítaca. Dá-me
esse arbusto que acorda os mortos;
dá-me esse pão cheirando a luas.
O poema quer fecundar-te. O poema
quer habitar as coisas preenchidas
de espanto (essa flor impassível
em teu ventre) e não há lenha
para sua chama.
disfarçado: teria ela o reconhecido antes que ele se revelasse?) são tema de discussão
entre os estudiosos.13
Se a recepção literária se faz pela apropriação das palavras dos poetas, mas
também por seus silêncios e lacunas, que são como que um convite para que os autores
posteriores as preencham, talvez seja pelo silêncio de Penélope que escritores, desde as
Heroides de Ovídio, referem-se às aventuras da Odisseia a partir de sua perspectiva. Em
nosso contexto contemporâneo, no qual a consciência do silêncio do feminino na
tradição ocidental, entendido como silenciamento, se torna particularmente aguda, a voz
de Penélope se faz então especialmente ouvida,14 por exemplo, no livro Viajes de
Penelope (1980) da escritora cubana Juana Rosa Pita e na Penelopiad (2005) de
Margaret Atwood. Também na literatura brasileira, Penélope se faz presente, por
exemplo, em romances como o Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969) de
Clarice Lispector e A doce canção de Caetana de Nelida Pinon,15 mas também na
poesia, por exemplo, na produção de Myriam Fraga, 16 Jeanne Callegari,17 Hugo
Langone e Ana Martins Marques. Meu foco aqui serão estes dois últimos autores,
particularmente Marques, na série de seis poemas intitulados “Penélope”.

3.Penélope nos poemas de Hugo Langone


Em “Qual um historiador”, presente no livro Do nascer ao por um sol, uma perfeita
oferenda (2015), de Hugo Langone, Penélope aparece ao lado de outras personagens
famosas da Antiguidade, às margens do mar:

“Qual um historiador”
 
Não se sabe que é cruel o mar
Até que se prostrem Penélope
Dido, Mônica, às suas margens
Até que se prostrem onde o mar toca a costa
E azul nenhum vale a terra firme
Que talvez florirá hoje, amanhã
13
A respeito desse vasto tema, cf. por exemplo, Page (1955), 126; Kirk (1962); Austin (1975); Doherty
(1995), 32-54 e Zerba (2009).
14
Renaux (2009) 139 fala do “lugar e autoridade da posição masculina, tão aparente na natureza patriarcal
da mitologia grega e concretizada na poesia homérica”, em especial no episódio do enforcamento de doze
escravas a mando de Odisseu.
15
Sobre Penélope nos dois romances, cf. Dumith (2012).
16
“Penélope”, publicado em Poesia Reunida, 2008 e, anteriormente, em As purificações ou o sinal de
Talião, 1981.
17
Com um brevíssimo poema, “Penélope”, publicado na Modo de usar
(http://revistamododeusar.blogspot.com/2014/04/jeanne-callegari.html ): a mão direita escreve / a
esquerda apaga.
Em mil anos.

Ao lado de Penélope e Dido, personagens épicos, o poema menciona Mônica,


mãe de Agostinho. É que também ela, figura real, transformou-se em símbolo literário
nas Confissões de seu filho. Monica, ao meu ver, é a chave para a leitura do texto: na
passagem das Confissões em que Agostinho a abandona, no norte da África, para
estabelecer uma escola de retórica em Roma (5.8), a cena é construída a partir da
evocação do abandono de Dido por Enéias no livro IV da Eneida.18 Poderíamos dizer
que essa evocação indicaria que o lamento de Mônica é análogo ao de Dido, mas o que
está em jogo é mais do que isso: por meio da alusão ao texto de Virgílio, o lamento de
Mônica ganha inteligibilidade a partir das lágrimas de Dido. Se, em uma passagem
anterior (1.13), Agostinho se lamenta de, durante seus estudos, ter chorado pela morte
que Dido infligiu a si mesma por amor, esquecendo-se de lamentar o próprio estado
decaído, aqui o tormento de Dido descrito na Eneida é a imagem estruturante pela qual
ele pode rememorar a tristeza de sua mãe e o recurso retórico pelo qual ele pode torná-la
memorável.
Tendo em mente que Agostinho, escrevendo no fim do séc. IV d.C., já tem
Virgílio como um clássico, isso nos manifesta o poder que, para o bispo de Hipona, os
grandes poetas do passado detinham19 em iluminar a experiência humana. Mas também
o próprio Virgílio, escrevendo no I a.C., concebendo a Eneida como imitatio da Ilíada e
da Odisseia (o seu primeiro verso arma virumque cano manifesta ), olha para Homero
como um clássico, como o seu mestre no lógos, aquele que lhe ensinou, entre outras
coisas, como cruel é o mar. Mônica, nas Confissões, é retratada a partir da imagem de
Dido, mas a própria Dido, na Eneida, é construída em contraste com Penélope:
enquanto uma é abandonada por um herói que deve seguir sua missão divina, a outra,
após longa espera, finalmente acolhe de volta o marido, que, para o retorno, teve que
recusar a proposta de imortalidade de uma deusa, Calipso, em nome da humanidade que
gostaria de ter, plena, de volta.
Temos, assim, no poema de Langone, a recepção de uma tradição de recepção.
Esse é o seu sentido: o poder dos clássicos em iluminar nossa vida, tal como Penélope
iluminou a experiência da Dido de Virgílio e Dido, da Mônica das Confissões. Não se
sabe que é cruel o mar até que a poesia encontre palavras para expressá-lo. Nesse
18
Cf. Ramage (1970).
19
De acordo com Ramage (1970) 60, a Eneida forneceu a linguagem pela qual Agostinho pôde traduzir
em verdadeiro alimento as instruções dos místicos.
sentido, o poema convida o leitor a tornar translúcida a sua própria experiência do mar
(entendido em seu sentido literal ou simbólico, imagem daquilo que não é firme, que é
arriscado e desconhecido) a partir da tradição clássica. Em outras palavras, o clássico
aparece aqui como fonte de inteligibilidade e Penélope, assim, assume um papel central:
sendo a primeira dessa série de mulheres, a única das três cuja experiência não foi
modelada por uma figura literária anteriormente ali nomeada, 20 é ela que, em última
análise, nos ensina sobre o mar e os perigos de uma jornada marítima.

4.Penélope na poesia de Ana Martins Marques


Penélope é uma figura recorrente na obra de Ana Martins Marques. Em seu primeiro
livro, A vida submarina (2009), há uma série de seis poemas, numerados, intitulados
“Penélope”. Por sua vez, na Arte das armadilhas (2011), existe também um poema com
esse título e outros em que ela aparece ou é evocada. Se, no “Qual um historiador” de
Langone, Penélope é um foco de inteligibilidade, o primeiro elemento de uma série de
símbolos poéticos que nos ensinam a dizer o mundo, na série “Penélope” de Marques,
ela é uma perspectiva narrativa, outra que a tradição, uma voz silenciada que
subitamente ganha voz. Eis o primeiro poema (2009: 89):

“Penélope” (I)

O que o dia tece a noite esquece.

O que o dia traça a noite esgarça.

De dia, tramas, de noite, traças.

De dia, sedas, de noite, perdas.

De dia, malhas,

de noite, falhas

20
É claro que a Penélope de Homero é também o fruto de uma tradição, a multissecular tradição oral dos
aedos gregos. No entanto, é uma figura fundadora da tradição literária escrita do Ocidente e, de qualquer
forma, a primeira a ser nomeada na série das três mulheres citadas no poema de Langone.
O poema, que se inspira na trama concebida por Penélope para adiar o seu
segundo casamento, a trama da mortalha de Laertes, que ela tecia durante o dia e
desfazia durante a noite, estrutura-se justamente nessa oposição entre dia e noite. Como
observa Pietrani,21 enquanto as palavras ligadas ao dia fazem parte do campo semântico
do tecer, as palavras da noite se encontram no campo semântico da “desconstrução, do
destecido, do destexto”. A alternância entre dias e noites sugere a passagem dos dias,
consumidos na espera por Odisseu, enquanto o verso final, que fala das falhas da noite,
manifesta o quão precária é a sua situação.
Mas, além do jogo de oposições, o poema é também marcado por ambiguidades.
Tanto as palavras do par tramas / traças quanto de malhas / falhas podem ser lidas
como verbos ou substantivos. Além disso, a palavra tramas, tomada como substantivo,
pode indicar a trama do tecido, mas também trama enquanto enredo ou, ainda, enquanto
maquinação, expressão da métis. Por sua vez, traças significaria tanto riscas,
delineados, bem como o inseto que desgasta tecidos e papeis, e que é o símbolo por
excelência do poder corrosivo do tempo. Do mesmo modo, a palavra malhas, tomada
como verbo, encontra-se tanto ao redor do campo semântico do tecer, fazer malhas,
quanto do dizer: malhar enquanto falar mal de alguém.22
A partir dessas ambiguidades, o poema se abre à multiplicidade de leituras.
Pensando as tramas e traças, malhas e falhas como palavras que se encontram na esfera
semântica do lógos, o poema, seguindo uma tradição interpretativa da Odisseia, torna-
se um texto sobre a própria atividade literária, da leitura, da escrita e da crítica, que,
entre dias e noites, se compõe de falhas e tentativas. Por outro lado, devemos notar que
o nome de Penélope aparece apenas no título, o que pode sinalizar tanto que o poema
fala sobre ela quanto que ela não é mais que uma figura inspiradora que, no entanto, por
uma astúcia da mimese, para falar como José Guilherme Merquior, na qual “a
representação do singular logra significação universal”,23 sua condição passa a
representar a própria condição humana, marcada por tramas e traças, sedas e perdas,
malhas e falhas.
Formalmente, essas ambiguidades são também significativas. Se lemos essas
palavras como substantivos, o poema aparece como uma descrição poética de um estado
de coisas, em terceira pessoa. Mas, se as entendemos como verbos de segunda pessoa, o
poema se torna uma interpelação: é o poeta que fala a um interlocutor, que lhe conta a
21
(2015) 306.
22
(2015) 306.
23
Merquior (1997) 8.
respeito de suas tramas e traçados, críticas e falhas. A identidade do interlocutor
também é aberta: será uma figura anônima, o próprio poeta a falar para si mesmo, o
leitor ou, ainda, Penélope? Considerando a última opção, o poema de Marques faria o
movimento contrário ao de Langone. Enquanto neste estamos a ouvir Homero, naquele,
somos nós, no presente, que nos dirigimos a ele, que contamos a Penélope, personagem
sua, o que ela está a fazer.

“Penélope” (II)

A trama do dia
na urdidura da noite

ou a trama da noite na urdidura do dia

enquanto teço:
a fidelidade por um fio.

O poema24 continua a se estruturar a partir da polaridade dia e noite, sugerindo,


mais uma vez, a passagem dos dias. Mas, no lugar de oposição, encontramos
complementaridade: tal como trama e urdidura, o dia e a noite. Segundo Manzoni, 25
“pensar o dia ou a noite como urdidura enquanto o outro define o fio da trama,
converte-se em uma forma de situar dia e noite (e suas atividades de tecer e destecer),
não como oposição, mas como um mútuo atravessamento”. O que parece estar em jogo
aqui, novamente a partir da astúcia da mimese, é a complementaridade entre a urdidura
das circunstâncias e a trama que tecemos a partir delas, noite após dia. É a partir desse
entrelaçamento que Penélope vive o momento presente, que tece, fio a fio, a sua
fidelidade, sob constante ameaça. Mas estará se referindo a Penélope o verbo tecer, que
aqui aparece em primeira pessoa? É Penélope que, silenciada na Odisseia, está aqui a
falar sobre a sua vida interior? Nesse caso, teríamos um poema construído a partir dos
silêncios de Homero. Não é essa, entretanto, a única possibilidade. O sujeito do verbo
teço pode ser tanto o próprio poeta quanto cada um de nós (seríamos todos Penélope
então). No primeiro caso, o poema falaria sobre a difícil relação entre poesia e vida. No
segundo, sobre a tarefa de sermos fiéis às nossas tramas e circunstâncias.

“Penélope” (III)
24
(2015) 105.
25
(2018) 62.
De dia dedais.
Na noite ninguém (Marques (2009) 125).

O terceiro poema da série ainda se estrutura a partir da polaridade do dia e da


noite. Para Santos e Brandão, “no poema em questão, o dedal protege o dedo de
Penélope não só da agulha, mas de usar uma aliança vinda de um dos pretendentes que
se alojaram no palácio”. Nessa perspectiva, “é o uso desse objeto durante o dia” que
permitiria “que Penélope durma sozinha”.26 Dormir sozinha, nessa leitura, seria o signo
de sua fidelidade. Mas é também o de sua solidão: se de dia, entre seus dedais, ela se
ocupa com a mortalha de Laertes, de noite, não há nada que lhe esconda a ausência do
marido. Devemos nos lembrar que Ninguém é também o nome que Odisseu dá a si
mesmo ao se apresentar a Polifemo, enquanto se encontra encurralado por ele. 27
Pensando assim, ninguém seria, neste segundo verso, também o próprio Odisseu,
sentido à noite por Penélope como ausência.
Para Santos e Brandão,28 nesses três poemas, a escolha vocabular geraria “um
apagamento daquela que desempenha esse trabalho”. São o dia e a noite que
desempenham as ações no primeiro poema, enquanto no segundo e no terceiro, “a trama
e os dedais, objetos inanimados”, seriam o centro. Isso indicaria que “a esposa de
Ulisses é silenciada em sua trama, assim como foi silenciada no poema homérico”. Esse
silêncio vai sendo dissipado nos textos seguintes, mas de maneira gradual. Vejamos o
poema IV:29

“Penélope” (IV)

E ela não disse


já não te pertenço
há muito entreguei meu coração ao sossego
enquanto seu coração balançava em viagem
enquanto eu me consumia
entre os panos da noite
você percorria distâncias insuspeitadas
corpos encantados de mulheres com cujas línguas estranhas eu poderia tecer uma
mortalha
da nossa língua comum.
E ela não disse
no início ainda pensei em você
primeiro como quem arde diante de uma fogueira
apenas extinta
26
(2017) 6018.
27
Odisseia 9.366.
28
(2017) 6019.
29
(2009) 134.
depois como quem visita em lembrança a praia da infância e então como quem
recorda o amplo verão
e depois como quem esquece.
E ela também não disse
a solidão pode ter muitas formas,
tantas quantas são as terras estrangeiras,
e ela é sempre hospitaleira.

Neste poema, “Penélope tem voz, enfim, para contar o que experienciou durante
sua longa espera de vinte anos”,30 mas uma voz que se constrói em negativo: o poema
não fala tanto do que ela disse, mas do que ela deixou de dizer. Para falar com Santos e
Brandão, ele “deixa claro o silenciamento pelo qual a mãe de Telêmaco passou”, sendo
“sobre o silêncio, sobre a fala que Penélope não tem na Odisseia”.31 Encontramos aqui
um outro contraste a estruturar a primeira parte do texto, aquele que existe entre as
viagens de Odisseu e a espera de Penélope, sugerindo, a princípio, uma falta de sintonia
entre os dois: enquanto o coração de Penélope estaria entregue ao sossego, o de Odisseu
balançava em viagem; enquanto ela se consumia na noite, ele atravessava distâncias;
enquanto ela enfrentava noites à só, ele percorria corpos encantados de mulheres de
línguas estranhas, mortalhas da língua comum que unira os esposos.
Esse distanciamento, Penélope não diz, seria causa do amortecimento da
memória. Seria isso, não a pressão dos pretendentes, a causa da fidelidade por um fio?
A memória de Odisseu, que por primeiro ardia, transforma-se em lembrança remota e,
por fim, em esquecimento. No entanto, apesar de tudo, eles se encontram no final. Em
um revés inesperado, é a solidão, experimentada de muitas formas, mas sempre
hospitaleira, que acaba por os unir.

“Penélope” (V)

A viagem pela espera


é sem retorno.
Quantas vezes a noite teceu a mortalha do dia,

quantas vezes o dia


desteceu sua mortalha?
Quantas vezes ensaiei o retorno –
o rito dos risos,
espelho tenro, cabelos trançados,
casa salgada, coração veloz?
A espera é a flor que eu consigo.
Água do mar, vinho tinto – o mesmo copo.

30
Santos e Brandão (2017) 6019.
31
(2017) 6020.
No poema V,32 Penélope finalmente ganha sua voz. Se entendemos que é ela que
ali fala, percebemos que, tomando os poemas em conjunto, temos um crescendo: a
tímida primeira pessoa do segundo poema é seguido pelos não-ditos do quarto até que,
enfim, ela é capaz de se expressar. E o que ela nos conta é que também sua espera é
viagem, mas, ao contrário da jornada de Odisseu, uma viagem sem retorno. A
permanência do espaço – Penélope não sai de Ítaca – faz contraste com a diferenciação
do tempo. Os dias de solidão não serão recuperados. Quantas vezes a mortalha foi tecida
e destecida? Quantas vezes a expectativa da espera, manifesta no rito dos risos, em
cabelos trançados no coração veloz, não foi frustrada? A única flor nesta jornada, para
ela, é a própria espera, uma espera que tinge com a sua melancolia todas as coisas,
pondo em um mesmo copo o vinho tinto e a água do mar.

“Penélope” (VI)

E então se sentam
lado a lado
para que ela lhe narre
a odisseia da espera (Marques (2009) 142).

Penélope aqui não apenas expressa o que viveu em sua odisseia da espera, mas o
narra a um outro que a ouve, o próprio Odisseu, objeto de suas expectativas, que
finalmente está de volta e que se senta ao seu lado, como um igual e um próximo, para
que ela possa falar. Poderíamos, a primeira vista, pensar que Marques está a inverter a
lógica da Odisseia. Afinal, seria Odisseu o personagem a relatar suas aventuras.
Entretanto, como nota Manzoni33, “mais que uma criação em sentido estrito, os versos
de Penélope VI são, antes, uma paráfrase quase direta da cena que se dá ao final do
vigésimo terceiro livro da Odisseia. Lemos, assim, no texto homérico, no final do
tricentésimo primeiro verso, “prós allílous enéponte”, “narraram um ao outro”(...) as
aventuras e os dissabores do tempo decorrido”. Não se trata, assim, de uma resposta a
Homero, mas de uma escuta atenta. O que Penélope, entretanto diz ao marido? O poema
não nos diz, mas não porque Marques prefira omitir o que foi dito: não seria toda a série
poética o relato, tímido a princípio, acusatório em certo momento e, por fim, efusivo, de
Penélope a Odisseu a respeito de sua jornada da espera?

5.Conclusão

32
(2009) 140.
33
(2018) 64.
Considerando em conjunto os poemas de Langone e Marques, vemos que estamos
diante de duas Penélopes: da primeira, recebemos nossa voz para que possamos nomear
a experiência; por sua vez, à segunda, emprestamos nossa voz para que ela nos narre a
odisseia da espera. Estamos diante de duas atitudes diante de Homero que acredito ser
possível generalizar, de modo a entender parte de nossa recepção dos clássicos:
ouvimos os poetas antigos e, como Virgílio e Agostinho, aprendemos a falar de lugares
distantes e próximos por meio deles. Mas também os interpelamos, nos dirigimos a eles,
os julgamos e emprestamos a eles a nossa voz, de maneira que suas lacunas e silêncios
sejam preenchidos. Ouvindo os antigos poetas, aprendemos, enfim, fazer de nossa
recepção um diálogo.

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