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A bondade entre a barbárie nos

testemunhos do Holocausto
Kindness between the barbarisms in Holocaust testimonies

márcio barra valente


Graduado em Psicologia pela Universidade da Amazônia (UNAMA) e mestre em Psicologia Social pela
Universidade Federal de Pernambuco. Professor da Universidade da Amazônia, Belém, Pará, Brasil.

resumo Neste artigo objetiva-se investigar a bondade a partir abstract The main purpose of this article is to investigate
da literatura do Holocausto, a fim de, primeiramente, resgatar, the acts of kindness registered in the Holocaust literature
de forma sistemática, episódios nos quais homens e mulheres, in order to, firstly, rescue systematically episodes in which
não judeus, ajudaram a salvar judeus do extermínio nazista; e, non-Jews helped to save Jews from Nazi extermination;
posteriormente, argumentar que a bondade constitui-se como and then argue that acts of kindness constitute an
elemento essencial para compreensão da condição humana. essential element for the understanding of the human
Tendo esta finalidade, buscou-se, nos estudos sobre condition. With this purpose, the research sought in
testemunho, o esclarecimento acerca da categoria testemunho studies on testimony the clarification about the witness
e uma compreensão ética do Holocausto como singularidade category and an ethical understanding of the Holocaust as
universal. Ademais, os diários, autobiografias, cartas e outros a universal singularity. Moreover, diaries, autobiographies,
textos, escritos pelos sobreviventes, foram assumidos como os letters and other texts written by survivors were assumed
dados empíricos sobre os quais o presente estudo foi to be the empirical data on which this study was founded.
alicerçado. Argumenta-se que o compromisso com a memória It is argued that the commitment to the memory of
da bondade em meio à barbárie pode ajudar o homem (e as goodness in the midst of barbarism can help man (and the
gerações novas e futuras) a resistir às políticas de separação new and future generations) to resist the separation and
e qualificação, pautadas na competição e inimizade, qualification policies, guided by the competition and
prevenindo assim novos Holocaustos e a Shoah, assim como enmity, thereby preventing new Holocaust and Shoah, as
a salvar no homem a ideia da condição humana como well as to save the idea of t​​he human condition as an
abertura e responsabilidade pelo Outro. openness and accountability by the Other.

palavras-chave Holocausto; Literatura do Holocausto; keywords Holocaust; Holocaust Literature; Testimony;


Testemunho; Ética; Bondade. Ethics; Kindness.

Introdução
O presente artigo tem como objetivo investigar a bondade a partir da
literatura do Holocausto, compreendendo diários, cartas, autobiografias e outros tex-
tos, escritos por pessoas vítimas dos regimes nazista e comunista. Tendo esta finalida-
de, buscou-se um diálogo com os estudos sobre testemunho de forma a estabelecer
uma reflexão acerca do Holocausto e da própria categoria do testemunho. Os relatos
dos sobreviventes sobre o horror vivido, por vezes, revelam também o gesto de pessoas
que se compadeceram com os judeus (e outras minorias) e os livraram do extermínio.
Tais relatos servem como dados empíricos para este estudo, cuja relevância se alicerça
na recuperação da memória da bondade em meio ao Holocausto e no argumento de
que a bondade constitui-se como elemento essencial para uma compreensão da con-
dição humana, orientanda conforme a possibilidade concreta de homens e mulheres
constituírem relações dialógicas autênticas mesmo em meio à barbárie.

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Segundo Bernardo Lewgoy (2010), o Holocaus- (AGAMBEN, 2008). Por isso, o testemunho indi-
to é uma singularidade universal, pois é uma tra- vidual da tragédia permanece não se vinculando
gédia judaica, e de outras minorias, em diferentes satisfatoriamente ao trauma coletivo.
escalas, tida como irrepresentável em sua absoluta Segundo Primo Levi (2004), no campo de Aus-
excepcionalidade e especificidade. Essa despropor- chwitz havia uma violência inútil, distinta daque-
ção entre a experiência vivida e a narrativa possí- la que homens e mulheres conheciam, pois não
vel é comum nos relatos dos sobreviventes. Joseph obedecia somente aos parâmetros habituais de ser
Nichthauser (2003, p. 15-16), afirma que “não exis- usada para controlar e punir comportamentos. Ela
tem palavras exatas para descrever tudo o que nos- existia não para modelar as pessoas às regras, mas
sos olhos viram e que nossos ouvidos escutaram. servia a um único propósito: fazer o mal ao outro,
[...] isto é apenas uma tentativa de esclarecer os instaurando entre os presos a impossibilidade de
leitores sobre a realidade daqueles anos terríveis”. distinguir amigos de inimigos, regras de sanções.
Já Robert Antelme (2013, p. 9) discursa que “desde De certo modo, tratava-se da violência em sua for-
os primeiros dias, parecia impossível superar a dis- ma mais precisa e pura em um estado de exceção.
tância que descobríamos entre a linguagem de que Apesar disso, Levi considerava que ela não era uma
dispúnhamos e essa experiência que, na maior par- invenção dos campos simplesmente, nem restrita
te dos casos, ainda opera em nossos corpos”. a eles, mas sim um sintoma da febre sofrida pela
Para Giorgio Agamben (2008), a decisão de nar- civilização ocidental: a escabrosa recusa à realida-
rar o vivido nos campos das testemunhas do Ho- de e o delírio da onipotência convertidos em arro-
locausto originalmente tem a ver com uma postu- gância e desprezo absoluto às leis, à vida e à exis-
ra ética de denunciar ao mundo o horror vivido tência humana.
nos campos de concentração e de recordar as pes- Por isso, após ter contato com a literatura do
soas (familiares, amigos, conterrâneos, conheci- Holocausto, “é perigoso manter a ingenuidade so-
dos, etc.) que foram mortas. No entanto, durante bre a humanidade que, ao lado de sua poderosa
o processo dessa narrativa, as testemunhas se de- criatividade, é marcada também por poderosas for-
param com algo em suas experiências que não po- ças destrutivas” (Slavutzky, 2009). Nessa lite-
deria ser expresso absolutamente. O autor chama ratura, abundam os relatos sobre o medo de su-
essa desproporção de “aporia de Auschwitz”, sen- cumbir ao desespero e à desesperança em meio à
do ela decorrente do fato de que, nos campos, a fome ininterrupta, ao aniquilamento demasiada-
realidade extrema ou limite excedia aos elementos mente lento, à solidão profunda, à degradação mo-
fatuais invocados à representação. ral e ao desejo de morrer.
Agamben (2008) afirma que os campos eram Não obstante, por meio da mesma literatura do
exatamente o lugar em que o estado de exceção Holocausto, embora não em todo o conjunto de
coincidia, de maneira perfeita, com o próprio co- textos, tem-se contato também com outra história.
tidiano, de modo que a realidade neles se tornava Essa história não é nem grandiosa ou mesmo épi-
indiscernível e indescritível. Por exemplo, a mor- ca, pois é uma história construída de detalhes, eri-
te como possibilidade mais próxima, insuperável gida daquilo que é ínfimo – de maneira tal, que se
e limite do homem nos campos de extermínio foi duvida até que realmente aconteça ou que ainda
transformada em supérflua, burocrática e comum possa vir a acontecer. É uma história daquilo que

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evidencia a omissão das multidões e tramas políti- to de abertura e responsabilidade de uma pessoa
cas dos grandes com seus programas de governan- para outra pessoa (BUBER, 2007). Argumenta-se,
ça, ciências e tecnologias, e não obedece às antro- assim, que a bondade é capaz de testemunhar a
pologias duráveis, expectativas socioculturais ine- possibilidade efetiva de homens e mulheres se co-
vitáveis, condições materiais determinantes. É uma locarem em relações dialógicas autênticas mesmo
história de um detalhe intermitente: a bondade. em um estado de exceção (AGAMBEN, 2008).
A noção de bondade pode ser descrita como a Entre os sobreviventes, há aqueles que contam
ajuda de um homem a outro homem. Vassili Gros- em suas memórias sobre pessoas que os salvaram
sman (2013) afirma que é precisamente a bondade a partir de gestos de coragem aparentemente pou-
– ou melhor, a sua potência – que constitui o ho- co conscientes das improbabilidades e dos perigos.
mem como um ser humano, “é ela que distingue Gestos estes advindos nem sempre de parentes (pais,
o ser humano dos outros seres, é o que de supremo mães, irmãos, etc.) ou de alguém com os mesmos
foi conseguido pelo espírito humano” (GROSS- vínculos ideológicos, identitários ou religiosos.
MAN, 2013, p. 410). Além disso, para o autor, a Eram gestos advindos de pessoas das quais menos
bondade ocorre sem testemunhas, é absurda, pe- se poderia esperar uma ação generosa, conside-
quena e sem raciocínio, e por vezes habita fora do rando as expectativas socioculturais e situações de
bem religioso e social. perigo extremo impostas pela guerra.
Segundo Tzvetan Todorov (2002), Grossman Entre esses benfeitores corajosos estavam uma
é um dos grandes escritores do século XX cuja mulher polonesa cristã que gozava de conforto e
obra faz uma extraordinária análise da sociedade privilégios, mas se arriscou para salvar crianças
totalitária. Neste sentido, sua origem judaica e na- judias presas no gueto (Mieszkowska, 2013);
cionalidade soviética, em certa medida, propor- o homem desconhecido que serviu leite ao sobre-
cionaram-lhe ser uma testemunha singular dos vivente em agonia (laks, 2003); a mulher cam-
horrores infligidos pelos regimes nazista e comu- ponesa que escondeu judeus em sua casa, colocan-
nista às pessoas que destoavam de seus parâme- do seus familiares e a si mesma em risco de morte
tros “superiores”. Grossman trabalhou também (Bauman, 2005); o jovem alemão ingressado na
como repórter por mais de mil dias nas frentes de Juventude Hitlerista que se desculpa ao amigo de
batalha da Segunda Guerra Mundial (GROSSMAN, infância, judeu, pelo seu povo (Nichthauser,
2008), sendo considerado “a testemunha mais ob- 2003); o supervisor alemão que arrisca a própria
servadora e honesta das linhas de frente soviética vida para esconder um judeu cego (petres, 2013);
entre 1941 e 1945” (Beevor; Vinogradova, o funcionário alemão que impediu que uma mãe
2008, p. 07). judia e sua filha fossem levadas para Auschwitz
Para Todorov (2002), o elogio da bondade do (GRUNWALD-SPIER, 2011); e o soldado da SS que
autor foi forjado na guerra, saiu do fogo dos fornos se recusou a matar uma mulher judia, desobede-
crematórios, a fim de lembrar ao homem aquilo cendo a seu superior (Pemper, 2013).
que é humano nele, ou seja, sua capacidade de aju- Não se está afirmando que todos os sobrevi-
dar o próximo, em especial, quando ele se encon- ventes testemunharam gestos de bondade como
tra em sofrimento. Deste modo, em outros termos, os acima descritos, nem que esses foram corriquei-
a bondade pode ser entendida como um movimen- ros, programados ou contínuos. Qualquer revisio-

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nismo histórico deste tipo não é somente um equí- A autora argumenta que a todas as pessoas que
voco, mesmo mascarado de intenções aparente- salvaram judeus da matança nazista, conhecidas
mente nobres, e deve ser interpretado como ato de e desconhecidas, deve-se o respeito e a admiração
má-fé (VIDAL-NAQUET, 1988; LEWGOY, 2011). por seu resgate de vidas em meio à barbárie, seus
Além disso, entre os sobreviventes, aqueles que sentimentos de solidariedade e de compaixão, as-
descrevem gestos semelhantes nem sempre os in- sim como sua postura político-ideológica demo-
terpretam como bondade; por vezes, declaram-nos crática. Para Lewin (2011), faz-se necessário recu-
como mais um evento absurdo, estranho ou ma- perar historicamente as realizações dos salvadores
quiavélico nascido nos campos (LEVI, 1988). durante os tempos sombrios do Holocausto. De
As testemunhas da bondade sofreram horro- alguma maneira, é preciso que se estabeleça um
res, sendo obrigadas a morrer e nascer a cada compromisso com sua memória, pois eles também
campo para o qual eram arrastadas e forçadas a precisam ser lembrados e celebrados pelo que fi-
aceitar quaisquer condições para sobreviver. Ape- zeram e escolheram não fazer. Ao salvarem os ju-
sar disso, elas também testemunharam que ain- deus perseguidos, arriscaram suas vidas e a de seus
da existiam pessoas que se importavam, que se familiares, quando poderiam não apenas ter sido
identificavam com elas e que consideravam seus indiferentes, mas também poderiam ter se bene-
sofrimentos como uma causa justa pela qual ar- ficiado com as perseguições.
riscaram suas próprias vidas, enquanto as mul- Este artigo assume o compromisso referido pe-
tidões viravam os olhos e os grandes silenciavam. la autora em relação à recuperação histórica dos
Sem dúvida, a sobrevivência de alguns se con- feitos dos salvadores, expressando a crença de que,
funde com o testemunho do compromisso de um por meio deles, pode-se testemunhar o que há de
coração aberto até a morte. Embora os gestos de mais humano no homem: sua capacidade de aju-
bondade permaneçam dispersos nas memórias dar o Outro. Essa mensagem, presente em cada
de alguns sobreviventes, não se pode deixá-los gesto de bondade, é importante para que se possa
passar despercebidos. enfrentar eticamente os dilemas existenciais, cul-
Helena Lewin (2011) declara que o número de turais e políticos pelos quais passam as sociedades
judeus salvos por não judeus durante o Holocaus- contemporâneas. Por meio da literatura do Holo-
to é impreciso, pois alguns judeus morreram de- causto, chegar-se-á não somente à história dos hor-
pois da guerra ou durante ela, não tendo sido pos- rores vividos pelos sobreviventes, mas também à
sível obter testemunhas ou saber o nome desses história da bondade.
salvadores. Além disso, muitos dentre aqueles que
ficaram conhecidos preferiram o anonimato, mes- Holocausto: algumas lições e dilemas
mo depois da guerra, afirmando que seu compor-
tamento não tinha nada de incomum, dizendo que A investigação da bondade a partir da literatura
“é dever do homem salvar seu semelhante” ou “nós do Holocausto implica que se façam algumas re-
fizemos o que tinha que ser feito”. O inquietante flexões acerca deste evento singular e universal
silêncio da maioria dos europeus, que não reagi- (LEWGOY, 2011). Desta maneira, não se preten-
ram à brutalidade vigente contra os judeus e ou- de desenvolver uma pesquisa para sacralizar nem
tras minorias, evidencia o contrário. banalizar o Holocausto, mas para enfatizar que

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o evento expõe dilemas da sociedade ainda sem sim como cidadãos anônimos que sabiam e que
respostas, em maior ou menor grau, tratando do não falaram a respeito da situação em questão, ou
empobrecimento da própria condição humana: a então que não sabiam pois, de algum modo, não
dialogicidade. discutiram tal assunto com aqueles que tinham
O historiador Francisco Carlos Teixeira da Sil- conhecimento sobre os saques aos estabelecimen-
va (2005) destaca que uma das características bá- tos, a formação dos guetos, a presença de mão de
sicas do fascismo é “a desconfiança perante o ou- obra escrava nas fábricas e as deportações dos ju-
tro, o diferente, e a possiblidade da violência como deus (LEVI, 2004).
resposta a qualquer desafio, inclusive ao desconhe- Esta lição é ilustrada pelas palavras do sobre-
cido ou simplesmente novo” (Teixeira da Sil- vivente Nichthauser (2003, p. 107): “em todas as
va, 2005, p. 16). Todorov (2002) também analisa janelas, os poloneses já nos olhavam. [...] Com uma
os regimes fascistas e totalitários e os estados de indiferença total, nos lançavam olhares e iam em-
exceção, afirmando que ambos se assemelham pe- bora sem comentários, substituídos logo por ou-
la ideologia da vida como guerra ininterrupta. Por- tros curiosos”. De modo semelhante, Levi (2004,
tanto, neles não existe espaço legítimo para a alte- p. 156) ressalta a participação dos alemães anôni-
ridade e a pluralidade. mos que sabiam: “os ferroviários dos comboios, os
Nos termos da filosofia de Martin Buber (2007), donos de armazém, os milhares de trabalhadores
o homem é alvo da palavra do Outro (homem, na- alemães das fábricas e das minas em que se exte-
tureza, mundo), cujo ouvir realmente implica uma nuavam até morrer os operários-escravos”, a fim
abertura à palavra como apelo incondicionalmen- de argumentar que a grande culpa deles, embora
te dirigido a ele, assim como uma responsabilida- não de todos, foi precisamente não terem tido co-
de genuína por ela sob a forma de um deslocamen- ragem de falar. Não importava se a omissão pode-
to que arranca o homem de sua condição atual. ria ser explicada por falta de escrúpulos, ambição
Não seria errado nem exagerado concluir que, nos profissional, medo de represálias ou servidão vo-
regimes fascistas e totalitários, nos quais se hege- luntária; o que importava é que nada fizeram.
moniza a desconfiança perante o Outro, diminui- A outra lição diz respeito à cegueira moral. Zyg-
-se a possibilidade dos homens acolherem o mun- munt Bauman (1998) afirma que o gigantesco apa-
do como palavras que lhes são dirigidas e aguar- rato de governança do Estado nazista (ao mesmo
dam respostas. Nestes regimes, paradoxalmente, tempo político, administrativo, econômico e in-
homens e mulheres estão vinculados uns aos ou- dustrial) implantou artificialmente mecanismos
tros pela omissão, desconfiança e sobrevivência; que empobreceram os laços de fraternidade e so-
em certa medida, e até certo ponto, precisam as- lidariedade entre as pessoas. Instalou-se uma es-
sumir aquilo que lhes acontece como uma parte pécie de cegueira moral que cresceu entre as pes-
dos eventos do mundo que não lhes dizem respei- soas, colocando antigos vizinhos, colegas de tra-
to (BUBER, 2007). balho, amigos de infância uns contra os outros, e
Uma primeira lição é concernente ao fato de impondo um verdadeiro regime de guerra total.
terem participado do referido extermínio, em maior O diferente era o inimigo.
ou menor grau de intensidade, figuras como Hein- Helen Lewis (2013) conta sobre o dia em que
rich Himmler, Joseph Goebbels e Adolf Hitler, as- sua empregada começou a comportar-se de modo

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ameaçador. Ela trabalhava para a autora havia anos, tragédia judaica: dos mais de 20 milhões mortos,
e existia entre ambas certa amizade. Entretanto, aproximadamente seis milhões eram judeus. Além
numa manhã, a empregada começou a falar-lhe disso, mesmo quando o exército nazista estava à
sobre famílias judias que deram seus bens às suas beira da ruína provocada pela aproximação da
empregadas e que as que se recusaram foram de- União Soviética e pelas investidas dos aliados, a
nunciadas às autoridades nazistas. Konrad Char- política sistemática de eliminação da população
matz (1976) relata que, durante o desmantelamen- judaica não foi interrompida (Marrus, 2003).
to do gueto, avistou, entre os soldados da SS, um Entretanto, não é menos inquestionável que outras
conhecido seu, um homem simpático aos judeus minorias também foram atingidas além da judai-
e crítico às leis antissemitas e ao nazismo. No de- ca: ciganos, homossexuais, testemunhas de Jeová,
sespero da situação, aproximou-se do conhecido idosos, deficientes, assim como comunistas, elites
e pediu-lhe que o deixasse buscar um agasalho. De e minorias nacionais dos países invadidos; vaga-
acordo com seu relato, “desaparecera a figura bo- bundos, prostitutas, alcoólatras, infectados por
nachona que eu conhecera. [...] ameaçando-me com doenças contagiosas, dentre outros (MARRUS,
a coronha de sua arma berrou com voz relutante: 2003; PEZZETTI, 2010).
‘Vê se somes daqui, senão te mato como um cão!’” É importante ressaltar que Bauman não está
(Charmatz, 1976, p. 52). em sintonia com o revisionismo recente a respeito
Nos relatos sobre o Holocausto, fica evidente do Holocausto, para o qual, através da suposta ten-
que os laços de fraternidade e solidariedade se afrou- tativa de reconhecimento de vítimas esquecidas,
xaram, por vezes radicalmente, quando a sobrevi- resgata “o velho clichê mitológico da conspiração
vência tornou-se a única motivação. Não se sabe judaico-sionista” (Lewgoy, 2011, p. 50). Segun-
se o regime político nazista racionalmente plane- do Lewgoy (2011), a negação do Holocausto do re-
jou despertar nas pessoas o que poderia existir de visionismo antigo, embora ainda persistente, re-
pior nelas, seja nas relações entre alemães e judeus, torna camuflada no pretenso “resgate” da memória
seja entre os próprios judeus. Nas palavras de Bru- de outras minorias como ciganos, homossexuais,
no Bettelheim (1989, p. 279), “nos campos a pessoa mulheres e comunistas exterminados pelo nazis-
era forçada [...] a assistir à destruição de outros, mo, tendo como contraponto o argumento de que
sentindo [...] que deveria ter intervido, sentindo- teriam sido ofuscadas ou excluídas das tentativas
-se culpada por não tê-lo feito e [...] feliz por não de relembrar o significado especificamente judai-
ter sido ela a morrer”. Por sua vez, nas palavras de co do Holocausto.
Janina Bauman (2005, p. 63): “eu me tornava mais Pelo contrário, Bauman (1998) esforça-se para
e mais acostumada aos horrores do dia a dia. Nas lembrar às sociedades contemporâneas que o Ho-
ruas os cadáveres de pessoas mortas de inanição locausto não foi uma tragédia ocorrida com os
ou pelos tiros dos nazistas não me chocavam mais. judeus e apenas com os judeus, de modo que, no
Passava por eles [...] sem prestar muita atenção”. que concerne a todos os demais, caberia lamentar,
A terceira lição diz respeito ao problema da re- ter compaixão e se desculpar. O evento limite diz
presentação e ritualização da memória e do signi- respeito à humanidade moderna, pois “nasceu e
ficado do Holocausto. Bauman (1998) afirma que foi executado na nossa sociedade moderna e ra-
é inquestionável que o Holocausto foi, de fato, uma cional, em nosso alto estágio de civilização e no

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auge do desenvolvimento cultural humano” (Bau- ra Todorov, o Holocausto é um evento no qual o


man, 1988, p. 12). Não reconhecer seu significa- universal e o particular devem ser sustentados a
do específico e universal pode conduzir tanto ao fim de que sejam apreendidas suas lições.
processo de autocura da memória histórica, afas- Por sua vez, a banalização do Holocausto no
tando qualquer responsabilidade da consciência presente é igualmente infértil. Todorov (2002) ci-
das sociedades modernas, quanto a uma diluição ta uma notícia do jornal francês Le Monde, de 21
da tragédia judaica na miséria de uma indistinta de janeiro de 1988, na qual se afirma que um site
experiência humana. americano apresenta Ehud Barak, chefe do estado
Para Bauman (1998), a mensagem do Holocaus- maior militar e décimo primeiro ministro israe-
to precisa ser interpretada pelas sociedades, a fim lense, com os traços de Hitler, uniforme nazista e
de que elas possam aprender com ele a repensar o dizer “vou concluir o trabalho, mein Fuhrer”. A
seus modos de vida: o funcionamento das insti- partir dessa notícia, Todorov argumenta que, quan-
tuições democráticas que exercem a segurança, a do os intelectuais, as mídias e os membros dos es-
qualidade para a população da política econômica tados utilizam-se do termo nazista como sinônimo
e a operacionalização da assistência social, as re- de infame ou comparam Saddam Hussein a Hitler,
lações entre as leis e o desejo dos indivíduos, a par- as lições de Auschwitz se perdem, pois um mal tão
ticipação popular e do estado, e os valores com os extremo como o Holocausto se transforma rapi-
quais são julgadas como legítimas e ilegítimas as damente em arma retórica e, quando isso aconte-
condutas morais e éticas presentes nas relações in- ce, “nós renunciamos a qualquer relação com sua
terpessoais e intrapessoais. identidade e, o que é bem mais grave, arriscamo-­
Todorov (2002) também procura refletir sobre nos a nos equivocar inteiramente sobre o sentido
o Holocausto como um acontecimento que pode dos fatos novos” (TODOROV, 2002, p. 193).
ajudar a repensar a existência atual, seja o adven- A quarta lição relaciona-se diretamente com a
to ininterrupto da democratização e da justiça, as anterior, compreendendo o campo ético da repre-
relações entre países, seja a questão da liberdade sentação do Holocausto. Conforme Lewgoy (2011),
como princípio basilar e agonístico da vida indi- os debates acerca do significado deste evento li-
vidual. Por isso, reconhece como perigosa a sacra- mite comumente estão enredados nos seguintes
lização do passado e a respectiva banalização do esquemas: embora exista o reconhecimento da es-
passado pelo presente. pecificidade judaica (e de outras minorias, em di-
A sacralização e a banalização não se explicam ferentes escalas) no extermínio nazista, há tam-
por si mesmas, afinal, o uso da memória não serve bém ora uma tentativa de assimilá-lo na indistin-
apenas às boas causas. Através dele pode-se invo- ção dos horrores de guerra, realizando uma espé-
car a vitimização, a vingança ou a fixação da ima- cie de universalismo, ora de estabelecê-lo no con-
gem negativa de uns e positiva de outros ou ainda texto dos anos de 1930 e 1940. Sendo limitado
desviar a atenção das relações entre os valores atuais local e historicamente, o extermínio judeu seria
e as barbaridades contemporâneas. A sacralização mais um num catálogo de atrocidades que não o
do Holocausto não pode se confundir com a afir- tornaria diverso de Ruanda, Bósnia ou Armênia.
mação de sua singularidade, nem sua universali- Existe ainda a associação entre o excepcionalismo
dade deve ofuscar seu impacto no povo judeu. Pa- judaico e isolamento judaico.

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O autor afirma, a respeito do significado do quer relativização da tragédia judaica, assim como
Holocausto, que não se trata de tomar uma posi- de outras populações, pretensamente sustentada
ção nesse debate, “mas de educar as novas gerações em objetivismos ou universalismos revisionistas,
para a tolerância e o diálogo entre diferentes, pre- não tem outra finalidade se não ofender a memo-
venindo assim, a ocorrência de novos Holocaus- ria das vítimas, atingindo diretamente a todos os
tos” (LEwgoy, 2011, p. 51). Segundo Lewgoy, a que por elas sentem simpatia ou identificação
singularidade universal deste evento está justamen- (LEWGOY, 2011).
te na comunicação entre o drama judaico e a res- Uma prática educativa de preservação, respei-
ponsabilidade ética da questão humana. Assim, o to e diálogo com os sofrimentos das minorias pre-
ponto central não é determinar qual minoria foi cisa assumir o desafio de sustentar a presença do
mais exterminada, remetendo um perigoso exer- Outro em sua singularidade e, ao mesmo tempo,
cício de comparação e competição, mas “como em sua condição humana. Nesse sentido, uma éti-
transmitir pedagogicamente essa singularidade ca ancorada na noção de próximo, do Outro como
universal do Holocausto com exatidão fatual, uti- único, absolutamente distinto da minha comuni-
lizando as convenções culturais disponíveis na dade política e ainda assim alguém a quem estou
ciência, na literatura e na arte, a escala e a densi- profundamente ligado e devo me responsabilizar,
dade humana de uma tragédia sem precedentes” elimina as questões sobre igualdade e desigualda-
(LEWGOY, 2011, p. 51). de, as quais, quase sempre, ocultam a comparação,
É bom lembrar, conforme assinala Lewgoy, que competição e inimizade e, por vezes, existem ape-
o termo Holocausto, assinalado como sacrifício nas para produzir separação e isolamento. Kátia
pelo fogo, é de origem grega, ligado à tradução da Mendonça (2013, p. 65) afirma que “a noção de se-
Bíblia Hebraica. Por usa vez, o termo Shoah, em paração entre os homens quase sempre está na ba-
hebraico, discorda dessa acepção vagamente teo- se das lutas pelos direitos de minorias, de maiorias,
lógica, na qual o sacrifício possuiria uma signifi- de segmentos sociais diversos”; no entanto, a lógi-
cação religiosa de expiação de uma suposta culpa ca do próximo se ancora na fraternidade, ao con-
judaica (Stivelman; Stivelman, 2001; KATZ, trário da igualdade, cuja reivindicação quase sem-
2007; Finguerman, 2012), e aponta para o sen- pre, embora apareça vinculada à primeira, opera
tido de calamidade sem sentido ou precedentes, em uma lógica separatista.
contido no extermínio de indesejáveis durante os
tempos sombrios do nazismo. Essa política semân- A literatura do Holocausto: o testemunho
tica é importante como parte do reconhecimento
do Holocausto não como uma questão judaica ou A questão do testemunho tem sido paulatinamen-
alemã, mas uma tragédia de significado universal. te mais estudada a partir da década de 1970. Não
Desse modo, é crucial o investimento em me- obstante, Marcio Seligmann-Silva (2009) afirma
mórias interculturais sobre Holocausto e outros que não se deve falar de uma “literatura de teste-
extermínios semelhantes, no qual as dores das di- munho”, já que ela não é um gênero literário, em-
ferentes minorias (como judeus, comunistas, ciga- bora reconheça que a expressão é utilizada no con-
nos, ruandeses, mulheres, homossexuais, armê- texto anglo-saxão, mas sim de uma face da litera-
nios, índios) possam entrar em comunhão. Qual- tura que nasce diretamente ligada às catástrofes

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Kindness between the barbarisms in Holocaust testimonies

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do século XX, tais como as duas guerras mundiais, passa a incluir outra cena caracterizada de modo
a proliferação de ditaduras, a ameaça nuclear, en- mais individual, sendo a escrita do sobrevivente
tre outras, e que, por isso, impôs à história da lite- acerca da sua experiência na Shoah, ou seja, o re-
ratura um posicionamento crítico e compromis- gistro do testemunho no sentido de superstes. O
sado com o real. Uma face da literatura conside- termo se refere ao momento de perlaboração, no
rada de “alto teor testemunhal” (Seligmann-­ sentido da psicanálise freudiana, no qual ocorre a
Silva, 2007, p. 03). tentativa (por vezes infrutífera) do sujeito de re-
Porém, esse “real” não deve ser confundido com cordar e elaborar uma situação traumática. Selig-
a “realidade” no sentido de representação ou des- mann-Silva afirma que, quando houve um afasta-
crição exata, e sim compreendido na chave psica- mento da primeira cena com sua suposta capaci-
nalítica freudiana do trauma, ou seja, como even- dade de transmissão objetiva da realidade dos cam-
to ou acontecimento que justamente resiste a qual- pos, a memória assumiu um caráter individual e
quer forma de representação. Seligmann-Silva (2009) deu-se o tensionamento do “dever de testemunho”.
explica que o conceito de testemunho concentra A linguagem assumiu seus elementos linguísticos,
em si uma série de questionamentos sobre as fron- mediais, a fim de possibilitar àquele que recorda a
teiras entre o literário, o fictício e o descritivo. Ele elaboração do seu passado de dor como sobrevi-
também ancora uma ética da escrita, isto é, todo vente (Seligmann-Silva, 2007).
sujeito que se manifesta na narrativa fala a partir Neste sentido, é importante a seguinte afirma-
de seu ponto de vista, que não pode ser subtraído ção de Seligmann-Silva (2007, p. 02): “o trabalho
– nem o mundo pode ser reduzido à sua narração. escritural ou literário é parte de qualquer escrita,
Além disso, o conceito se tornou importante de- esteja o escritor consciente ou não deste fato. [...]
vido à sua capacidade de possibilitar que se pense não podemos pensar, falar ou escrever sem auxilio
um espaço para a escuta (e leitura) da voz (e escri- da imaginação”. O autor ressalta que o sujeito cria
ta) daqueles que outrora não tinham direito a ela, estruturas narrativas, plots e metáforas que tor-
isto é, as chamadas “minorias”. nam seus relatos versões únicas, sendo que tal pro-
Acerca do estudo sobre o testemunho da Shoah, cesso não diminui o valor do relato testemunhal.
Seligmann-Silva (2009) afirma que ele nasceu pri- Por isso, ele argumenta que “devemos aprender a
meiramente como uma cena de tribunal, no qual ver os próprios textos que nascem da catástrofe
cumpria um papel de justiça histórica e de docu- como eventos complexos que devem ser encarados
mento para a história. Essa foi a razão principal em todos os seus estratos: estéticos, testemunhais,
da produção dos testemunhos no imediato pós- individuais, coletivos, mnemônicos e históricos
-guerra; por isso, o autor denomina este registro etc.” (Seligmann-Silva, 2007, p. 02).
de testemunho como testis, no sentido etimológi- Assim, qualquer tentativa de estabelecer uma
co do termo, que indica um “terceiro” em uma ce- tipologia rigorosa da produção literária sobre o
na de litígio entre dois partidos. Além disso, a lin- testemunho está fadada ao fracasso, embora isso
guagem neles é tratada de modo instrumental, a não impeça o estabelecimento de diferenciações e
fim de evitar questões estilísticas e literárias (Se- parâmetros de categorização necessários à orga-
ligmann-Silva, 2007). nização do estudo do fenômeno do testemunho.
Posteriormente, o estudo sobre o testemunho Seligmann-Silva propõe uma tipologia eficiente em

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virtude de não estar fundada na frágil fronteira que convoca suas lembranças acerca do que viu ou
entre obras “objetivas” e “literárias”. Ele opta, en- ouviu a fim de dar sentido ao seu sofrimento, cons-
tão, por uma diferenciação mais histórica dos au- tituir uma identidade coletiva ou testemunhar a
tores, separando-os entre “testemunhas primárias”, favor ou contra alguém, mas também como gesto
ou seja, sobreviventes que narram experiências vi- de bondade. Nesse sentido, são fecundas as con-
vidas em “primeira mão”, e “secundárias”, isto é, tribuições filosóficas de Paul Ricoeur (2008) sobre
terceiros que relatam sobre pessoas que não sobre- o testemunho, para quem o testemunho não pode
viveram. No entanto, não existe uma diferença qua- estar restrito ao exemplo ou ao signo, porque re-
litativa entre eles, pois assinalar uma separação quer a densidade da experiência. Para o autor, o
precisa entre relato puramente factual e ficcional vocábulo designa não meramente o relato meticu-
é impossível. Ademais, algumas obras “secundá- loso de uma pessoa sobre o que viu, “mas se aplica
rias” são mais antigas do que algumas primárias, às palavras, obras, ações, vida, que, enquanto tais,
que por vezes foram escritas sessenta anos depois testemunham, no coração da experiência e da his-
do evento visualizado. Isso evidência a complexi- tória, uma intenção, uma inspiração, uma ideia
dade do testemunho. que vai além da história” (RICOEUR, 2008, p. 109).
Neste artigo, todos os relatos de sobreviventes Além disso, quem realiza um testemunho o faz em
são testemunhos primários, sejam por eles escritos favor de alguém e, ao fazê-lo, expõe-se a algo que
(CHArmatz, 1976; Bettelheim, 1989; Levi, pode ser sua própria morte. Por isso, Ricoeur (2008)
1988; Bauman, 2005; Nichthauser, 2003; afirma que existe uma relação intrínseca entre tes-
Rajchman, 2010; Pemper, 2013; Lewis, 2013; temunho e autossacrifício.
Leyson, 2014), sejam por eles narrados a um es- O testemunho implica uma exposição que con-
critor profissional (Laks, 2003; NIssim, 2004; siste num acontecimento concreto, no sentido es-
GRUNWALD-SPIER, 2011; Peters, 2013). Esta trito da palavra, inserido no mundo comum aos
preferência se explica não pelo fato de existir uma homens e na sequência temporal de suas vidas. O
preocupação em caracterizar o teor testemunhal ato de testemunhar cobra um preço àquele que o
das obras investigadas ou se seriam mais fidedig- encarna, habilita-o a morrer pelo que assume. Ri-
nas ou coerentes, afinal, não se investiga a relação coeur (2008) argumenta que, a partir do autossa-
entre o testemunho da história como testis e o tes- crifício, desdobra-se no testemunho um sentido
temunho da experiência como superstes (Selig- absoluto. Não apenas porque ele é um compromis-
mann-Silva, 2007), e sim, porque, pela recupe- so até a morte nem só em razão da testemunha ser
ração histórica da bondade, é possível verificar co- a pessoa que se identifica com a causa justa detes-
mo a experiência da bondade atua sobre aqueles tada pela multidão e pelos grandes, mas, em espe-
que a compartilham. Ademais, acerca dos sobre- cial, porque ela exige uma transformação pessoal
viventes, é importante ressaltar que não importam ou movimento interior. A expressão “interior” é
suas idades quando estiveram nos campos, guetos usada não como metáfora da subjetividade e afins,
ou esconderijos, ou se são ou não judeus, ou ho- mas sim para ressaltar que existe um trabalho que
mens, ou mulheres. somente e exclusivamente a pessoa pode realizar.
Além disso, por fim, o testemunho não é inter- A transformação de si é o que habilita o homem
pretado só como um relato feito por uma pessoa ao ato testemunhal.

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Intermitências da bondade manecem despercebidos nas memórias de alguns


sobreviventes ou não constam nos registros oficiais
Os relatos dos sobreviventes sobre a tragédia ju- e que, por falta de provas e testemunhos orais, não
daica e de outras minorias, eternizados em formas puderam ser reconhecidos institucionalmente.
de diários, cartas, autobiografias e outros textos, Agnes Grunwald-Spier (2011) sobreviveu ao
também revelam gestos de pessoas que se identi- Holocausto. Ela era apenas um bebê de colo cuja
ficaram com eles e os salvaram do extermínio. Pa- mãe apertava ao peito a fim de proteger enquanto
ra tanto elas precisaram assumir os riscos de mor- não gozava de nenhuma proteção para si mesma.
te individual e de seus familiares. Para Lewin (2011), Após o desmantelamento do gueto onde viviam,
ao ajudarem judeus em meio à barbárie e à indi- foram conduzidas pelos nazistas aos trens cujo des-
ferença generalizada, os salvadores denotaram com- tino era Auschwitz. Entretanto, ambas não embar-
paixão, solidariedade, fraternidade e uma postura caram, assim como todas as outras mulheres que
político-ideológica democrática. Provavelmente, traziam crianças consigo. Sem qualquer justifica-
agiram mais ou menos conscientes da importân- tiva, foram mandadas para suas casas por um fun-
cia de seus gestos, uma vez que aqueles que fica- cionário encarregado da tarefa. Sua mãe lhe con-
ram conhecidos quando questionados a respeito tou inúmeras vezes sobre este acontecimento de-
das motivações de seus atos, respondiam: “qual- cisivo e decidido por um homem desconhecido e
quer pessoa faria o mesmo”. improvável.
Infelizmente, a história do século XX, conside- A sobrevivente afirma que cresceu ouvindo sua
rado “a era das catástrofes” (Hobsbawm, 1997, mãe contar a história do funcionário, sem jamais
p. 75), comprova que nem todas as pessoas fizeram compreender realmente o que o motivou a fazer o
o que deveria ter sido feito quando algumas mi- que fez. Durante décadas, tentou descobrir seu no-
norias, maiorias ou segmentos sociais lutaram e me e paradeiro, porém não obteve sucesso. Para
combateram reivindicando não somente uma se- Grunwald-Spier, este homem desconhecido agiu
paração entre os homens, mas também, a partir de maneira diferente da maioria, sendo ou simpá-
dela, a organização dos homens como amigos e tico à política antijudaica ou apenas um funcioná-
inimigos, vidas qualificadas e vidas desqualifica- rio alfandegário cumpridor da função, pois, quan-
das, humanos e inumanos (AGAMBEN, 2013). Por do interviu salvando mulheres e crianças judias,
isso, as realizações dos salvadores devem ser res- escolheu assumir algum risco para si próprio.
gatadas historicamente, lembradas ou pinçadas en- Assim, Grunwald-Spier, impactada pelo esta-
tre as memórias do Holocausto, seja de judeus, se- nho gesto do funcionário, declara, “é assustador
ja de outras populações. pensar que, não fosse a atitude dele, eu teria sido,
Lewin (2011) exorta que se investiguem as his- ao chegar a Auschwitz, atirada nas chamas com
tórias de salvamento, pois elas podem oferecer ao outros bebês” (Grunwald-Spier, 2011, p. 15).
mundo, além das vidas que foram preservadas e se A autora cresceu à sombra do salvamento; por isso,
multiplicaram em outras, uma esperança em face dedicou parte da sua vida investigando as dramá-
da amarga constatação do aparecimento do mal ticas histórias dos heróis anônimos que decidiram
extremo. É preciso afirmar um compromisso com arriscar suas vidas para salvar os judeus do Shoah.
seus exemplos, mesmo com aqueles que ainda per- Talvez tenha encontrado na celebração da memó-

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ria de outros heróis uma forma de retribuir a bon- Rajchman foi um dos poucos sobreviventes do
dade do seu herói sem nome e desconhecido. Não campo de Treblinka, embora tenha dado, por meio
obstante, não menos merecedor de agradecimento. de suas memórias, o testemunho do inferno e daqui-
Chil Rajchman (2010) esteve no coração do cam- lo que existe de pior no homem; de certo modo, apa-
po de extermínio de Treblinka e pôde relatar, em rentando não se dar conta disso, também testemu-
suas memórias, o desespero de ter sido obrigado a nha através delas o que pode existir de mais humano
fazer parte do funcionamento da máquina exter- no homem. Muitos não tiveram o mesmo privilégio.
minadora nazista. Sob a tutela dos chicotes dos Max Edelman (nascido Moshe), sobrevivente
soldados da SS, foi forçado a trabalhar, cortou os do Holocausto, relata, em sua biografia, que um
cabelos das pessoas que eram conduzidas às câ- dia caminhava pelo pátio do campo de concentra-
maras de gás; extraiu os dentes de ouro dos cadá- ção quando foi surpreendido por dois guardas que
veres e carregou-os até as valas que serviam para pularam sobre ele e o espancaram demoradamen-
alimentar as chamas. Apesar das condições brutais te. Edelman não havia infringido nenhum regu-
do campo, os concentrados conseguiram se orga- lamento, como sempre, e estava misturado na mul-
nizar em uma rebelião contra os nazistas e seus tidão, como sempre, enfim, duas atitudes que apren-
asseclas. Muitos escaparam, embora poucos tenham deu serem essenciais para sobreviver. Apesar dos
sobrevivido para testemunhar sobre o “inferno esforços acabou sendo alvo da violência inútil, tão
chamado Treblinka” (GROSSMAN, 2008, p. 374). disseminada pelos campos (LEVI, 2004).
Entre aqueles que fugiram, estava Rajchman, O espancamento sofrido por Edelman foi gra-
e, sobre isso, ele relata que, após caminhar alguns ve, custando-lhe a própria visão. Quando os he-
quilômetros, avistou um homem. Manteve o per- matomas melhoram, percebeu que não enxergava
curso, não procurou se esconder, estando cansado mais. Ele entrou em pânico, não apenas por que
demais e não mais se importando com o que acon- estava totalmente cego, sendo incapaz de trabalhar
teceria consigo. Quando eles se encontram, Rajch- e cuidar de si próprio, mas porque sabia o destino
man pergunta ao homem sobre o caminho para dos doentes e deficientes no campo de Flossenbürg:
Varsóvia. Porém, o homem que estava vestido co- o crematório.
mo um camponês pergunta se ele era um dos que Em meio ao desespero, seus irmãos decidiram
fugiram de Treblinka. Rajchman relata não ter sen- pedir ajuda ao supervisor do barracão, um alemão
tido nem medo nem acusação na indagação, mas chamado de Erich, não judeu, comunista e prisio-
compaixão. Por isso, responde afirmativamente e neiro político. Apesar de o julgarem rígido, Erich
pede ajuda ao camponês. Este não a nega e conduz mostrava-se hábil na arte da sobrevivência e justo;
o fugitivo à sua casa. Lá uma cena comovente acon- entretanto, na verdade, não tinham a quem recor-
tece. “Quando entrei em sua casa, vejo uma mu- rer. Depois de uma conversa breve, o supervisor
lher com um bebê nos braços. Aperto o bebê no se dirigiu a Edelman, “volte e suba no último an-
meu peito e beijo-o. Ela me olha, estupefata, e eu dar do beliche. [...] Fique estirado nessa parte mais
lhe digo: cara senhora, faz um ano que não vejo alta quando os homens saírem para trabalho [...]
uma criança viva. Choramos juntos” (Rajchman, Os guardas não saberão que você está aqui, e se
2010, p. 142). Os moradores lhe deram o que co- alguém se lembrar de você, achará que está em ou-
mer e vestir e o abrigaram. tra unidade” (Peters, 2013, p. 77).

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Edelman conta que, como Erich era alemão. uma cartografia da bondade pode proporcionar
era considerado confiável pelos oficiais que faziam compreensões a partir da seguinte questão: em que
a contagem diária dos concentrados. Além disso, medida a noção de bondade pode, de fato, contri-
como havia previsto o supervisor, eles nunca su- buir para compreensão da condição humana em
biam até o último andar dos beliches para realizar face da exceção? Embora sua resposta extrapole os
seu trabalho, pois tinham o cuidado de se manter objetivos deste artigo, pode-se, ainda que de modo
à maior distância possível dos insetos. Desta ma- preliminar, definir algumas reflexões importantes.
neira, por meio deste estratagema, Edelman pôde Leon Leyson (2014) afirma ser um sobreviven-
sobreviver até a evacuação do campo. te improvável do Holocausto, já que considera que
O sobrevivente descobriu, depois da guerra, que tudo pesava contra ele: era só um menino, tinha
o seu salvador havia sido morto durante a evacua- 10 anos de idade quando em 1939 o exército ale-
ção. Entretanto, em suas memórias, dedica algu- mão ocupou a Polônia; não sabia fazer nada de
mas reflexões sobre ele: Erich, o alemão que toma- importante, não conhecia pessoas influentes nem
ra uma decisão que lhe salvou a vida, arriscou sua possuía habilidades sociais empáticas para fazê-­
própria sobrevivência sem jamais explicar o por- los se preocuparem com ele. Entretanto, declara:
quê de fazê-lo, sem nem mesmo perguntou o seu “tive a meu favor [...] algo mais forte do que tudo:
nome. Mesmo ciente das consequências de escon- Oskar Schindler achou que a minha vida era im-
der um prisioneiro judeu cego, Erich decidiu pro- portante. Achou que valia a pena me salvar, mes-
tegê-lo. Não obstante, Edelman julga que o super- mo que isso colocasse sua própria vida em risco”
visor fez mais do que literalmente salvá-lo, “tam- (Leyson, 2014, p. 13). À luz desta figura contro-
bém impediu que eu escolhesse o caminho mais versa, escreve suas memórias como retribuição à
fácil, desistindo de viver. – Esperança é a única dádiva recebida: “esta é a história da minha vida
coisa que nos resta – disse Erich – o dia da liber- e de como ela cruzou com a de Oskar Schindler”
tação pode ser amanhã ou depois de amanhã” (Pe- (Leyson, 2014, p. 14).
ters, 2013, p. 77). Do que viveu, o sobrevivente Leyson reconhece que seu salvador foi consi-
aprendeu a lição: o contrário do bem não é o mal derado por seus compatriotas alemães tanto como
como comumente presumimos, mas a indiferença. judeófilo e traidor do país quanto como oportu-
É possível, através da literatura do Holocausto, nista, falsário, interesseiro, malandro, mulheren-
recuperar historicamente uma memória da bon- go e beberrão (nissim, 2004; Crowe, 2007; Pé-
dade. Embora, é claro, para essa finalidade seja rez, 2014). Ele reconhece ainda que muitas das
preciso acolher sua condição dispersa, imprecisa formas de denominá-lo não estão incorretas. Real-
e diminuta frente à grandiloquência da memória mente, Schindler foi mais um entre os muitos em-
do mal. Nem sempre a bondade encontra inúme- presários e empresas enriquecidas à custa da guer-
ras testemunhas, e nem sempre é possível carto- ra, tendo se beneficiado da exploração da mão de
grafar satisfatoriamente suas expressões, motiva- obra escravizada (BLACK, 2001). No entanto, o
ções, exigências, minúcias, rastros e impactos so- nome Schindler incialmente só passou a ter algum
bre as pessoas que a compartilharam, como expe- significado para ele depois que Leyson e seu pai
riência independente, se portadores ou se salvas. foram trabalhar em sua fábrica de esmaltados, o
Essa afirmação faz-se necessária, uma vez que que possibilitou sua sobrevivência. Posteriormen-

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te, Schindler passou a ser considerado como uma via, argumenta o autor, “Schindler parecia não se
figura estranha, cujos comportamentos eram exó- importar” (LEyson, 2014, p. 154).
ticos, impressionantes, enigmáticos e ansiogênicos Não é possível descrever as inúmeras situações
para uma criança judia presa em um campo de que fizerem o sobrevivente mudar sua atitude ar-
concentração e extermínio (LEYSON, 2014). redia diante daquele homem complexo. Não obs-
Durante o expediente da fábrica, Leyson (2014) tante, a respeito dos pequenos atos do empresário,
afirma que viu Schindler aproximar-se de um ju- Leyson, em suas memórias, argumenta da seguin-
deu, dar-lhe um tapa nos ombros, interrompendo te forma: “Esses atos podiam parecer insignifican-
seu trabalho, puxar conversa, sorrir como se apre- tes [...] naqueles anos, porém, na verdade, eles eram
ciasse o momento e, depois de algum tempo, par- tudo menos isso” (Leyson, 2014, p. 157). Para
tir deixando um maço de cigarros. Toda a cena o Leyson (2014), Schindler parecia rebelar-se contra
perturbava, já que não sabia como interpretá-la. a situação de exceção, na qual era norma torturar
Ele já conhecia as leis antissemitas que proibiam e exterminar judeus, não os tratar como seres hu-
relacionamentos daquele tipo entre judeus e ale- manos. Afinal, quem os chamasse pelo nome e não
mães. Além disso, um nazista não tratava um ju- com um rosnado ou xingamento poderia ser pu-
deu como ser humano. Leyson havia aprendido no nido com a prisão ou até mesmo ser executado.
campo que, quando algo do gênero acontecia, logo O autor considera que as experiências com Schin-
se revelava que o gesto fazia parte da complexa dler ajudaram-no a se sentir um ser humano outra
violência gratuita dos nazistas que dispunham dos vez. Mais do que isso, o empresário alemão per-
prisioneiros até para sua diversão. Assim como maneceu para ele como um exemplo de humani-
aprendeu que cigarros poderiam ser trocados por dade em face de um mal extremo autorizado pela
comida, e isso poderia significar não morrer. Ape- lei e pelos valores socioculturais, pois decidiu em-
sar disso, “tomava cuidado com ele [Schindler]. Já penhar-se para salvar inúmeras pessoas apesar dos
tinha aprendido que os seres humanos costuma- riscos implicados. Apesar de tudo que viveu no
vam ser imprevisíveis” (LEyson, 2014, p. 158). campo, ainda era possível acreditar no homem e
Leyson (2014) conta que se sentia constrangi- em sua humanidade. Deste modo, suas experiên-
do quando Schindler passava perto dele enquan- cias foram importantes, em especial depois da guer-
to trabalhava na fábrica. Um dia o empresário lhe ra, quando precisou reaprender a viver e suportar
perguntou quantas peças produzira durante o o peso das perdas e lembranças do Holocausto. Da
turno da noite. Em um misto de desconforto e seguinte maneira conclui suas memórias: “não sou
orgulho, respondeu: ‘doze peças’. O homem de filósofo, mas acredito que Oskar Schindler define
comportamentos indecifráveis ficou olhando pa- o que é heroísmo. Ele prova que uma pessoa pode
ra ele e, de repente, sorriu. Passadas algumas dé- enfrentar o mal e fazer a diferença. Sou prova viva
cadas, Leyson recorda que, naquele dia, estava disso” (Leyson, 2014, p. 225).
fraco, subnutrido e com sono, sendo sua contri- Pode-se afirmar que ele não é apenas uma pro-
buição para o esforço de guerra nazista quase ne- va viva do fato de Schindler ter salvado mais de
nhuma. A mesma função, desempenhada por al- mil judeus da morte certa (nissim, 2004; Cro-
guém mais competente, teria resultado em mais we, 2007; Grunwald-Spier, 2011; PÉREZ,
do que o dobro de peças no mesmo tempo. Toda- 2014), mas também representa um testemunho da

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possiblidade efetiva de um homem estabelecer com dade de seu pai, assim como de tê-lo matado men-
outro homem uma relação dialógica mesmo dian- tal e psicologicamente em razão das humilhações
te da situação limite (GROSSMAN, 2013; Ricoeur, infligidas, fatos estes que foram comprovados (NIS-
2008): a bondade em face do mal extremo. SIM, 2004).
É preciso ressaltar que o sobrevivente constrói Para Grunwald-Spier (2011), Schindler foi um
suas memórias intencionalmente, movido por um homem de motivações complexas, cuja existência
senso de compromisso dadivoso para com o seu parece desativar as tentativas de categorizá-lo, pois
salvador, o que não significa que por isso elas não faz com que pareçam ora reducionismos, ora for-
possuam valor testemunhal (Seligmann-Sil- mas veladas de preconceitos ideológicos. O fato é
va, 2007). Ele é animado pelo espírito da dádiva, que ele encontrou condições para enriquecer du-
ou seja, pelo estabelecimento de uma relação de rante a guerra, mas sua maneira corrupta de lidar
troca não no sentido simples de mercado, e sim de com os negócios afundou sua vida empresarial no
reconhecimento, aliança, confiança e liberdade, pós-guerra, tanto que precisou ser sustentado fi-
sendo descrita conforme a tríplice regra: dar, re- nanceira e emocionalmente pelos “seus” judeus até
ceber e retribuir (Godbout, 1998). Leyson (2014) o final da vida. “Não obstante, no momento cru-
escreve suas memórias sobre Schindler e seus fei- cial de sua existência foi um benevolente e verda-
tos a fim de retribuir o gesto de salvamento. deiro salvador para seus 1.100 judeus” (Grun-
Outros sobreviventes, como Mietek Pemper wald-Spier, 2011, p. 139). Morreu aos 66 anos
(2013) e Moshe Bejski (NISSIM, 2004), também de idade, vítima de alcoolismo. Não viveu o sufi-
evidenciam o mesmo espírito dadivoso em relação ciente para receber um reconhecimento oficial do
a Schindler. Em suas memórias, procuram glori- Estado de Israel nem para ver seu nome transfor-
ficá-lo, embora sem transformá-lo em santo ou ído- mar-se em um termo genérico para as pessoas que
lo. Eles estavam na “lista de Schindler” e puderam salvaram os judeus no Holocausto ou ainda para
lembrar não somente dos horrores dos fornos cre- gozar de uma fama mundial após o filme A lista
matórios, mas igualmente daquele homem excên- de Schindler (1993), de Steven Spielberg (Grun-
trico que arriscou a vida para salvá-los. A presen- wald-Spier, 2011; NISSIM, 2004).
ça deste espírito deve ser compreendida e respei- O caso de Schindler é realmente peculiar: aus-
tada, a fim de que se possa sustentar um estudo de tríaco, católico, trabalhou como espião para Ale-
caráter crítico sem sucumbir aos cinismos da ra- manha hitlerista, colaborando na invasão da Po-
cionalidade, seja em sua versão moderna, seja em lônia, acontecimento que deflagrou a guerra; era
sua versão pós-moderna (Todorov, 2002; membro do Partido Nazista, enriqueceu explo-
Lewgoy, 2010). rando judeus escravizados, amante desregrado de
Além disso, é importante também ressaltar que todos os prazeres mundanos, beberrão, traía a es-
Schindler não era uma unanimidade mesmo entre posa com inúmeras amantes, provia festas para a
os presentes na lista. Juliusz Winier reconhecia ter elite da SS em troca de favores e privilégios, e era
sido salvo por ele, mas não o tratava como herói, descrito também como megalomaníaco (NISSIM,
pois o reconhecia como um oportunista cuja in- 2004; Crowe, 2007; Grunwald-Spier, 2011;
tenção era salvar a si mesmo. Ademais, acusou o Pemper, 2013; Leyson, 2014; PÉREZ, 2014).
empresário alemão de roubar a fábrica de proprie- Ademais, pode-se afirmar, sem receios, que ele

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não somente fez parte dos cidadãos que se omiti- tuosos agindo despidos de interesses, mas homens
ram diante do sofrimento judeu, por medo ou in- e mulheres comuns, destituídos de excepcionali-
diferença, mas também, através da estreita relação dades e cheios de desfeitos, por vezes imorais, egoís-
com o nazismo, encontrou uma forma de se be- tas e omissos, mas que, na hora decisiva, assumi-
neficiar com ele. ram a responsabilidade pelo Outro (NISSIM, 2004).
Mais do que um homem controverso, Schin- Segundo Lewin (2011), mais de 23.700 nomes
dler era um ex-nazista. Por isso, não recebeu em de homens e mulheres foram registrados como Jus-
vida uma homenagem oficial da Comissão dos Jus- tos nos arquivos oficiais do Yad Vashem, até o ano
tos, cuja concessão foi concedida apenas em 1993, de 2010. Aqueles que foram homenageados oficial-
décadas após sua morte. A referida comissão ini- mente em vida foram convidados a plantar uma
ciou suas atividades baseando-se nas indicações árvore na Alameda dos Justos, visando à comemo-
gerais da Lei de Comemoração dos Mártires e He- ração de suas ações humanitárias. O simbolismo
róis do Holocausto, Yad Vashem, aprovada pelo do plantio das árvores está intimamente associado
parlamento israelense em 1953, cujo objetivo é pre- ao significado de vida que ela representa, especial-
servar a memória das vítimas do massacre nazista, mente, em uma terra árida como a de Israel. Por
através da celebração religiosa e histórica, além de sua vez, Moshe Bejski, o criador do jardim, afirma
manifestar os agradecimentos aos não judeus que que o significado das árvores não era apenas o de
arriscaram suas vidas para salvar judeus do Ho- proporcionar à posteridade judaica um exemplo
locausto, os chamados “Justos entre as Nações” moral, um ato de responsabilidade para com um
(nissim, 2004; Lewin, 2011). judeu perseguido, mas o de transmitir um ensina-
Gabriele Nissim (2004, p. 127) afirma que o mento universal direcionado à humanidade como
justo “é a metáfora do Homem que assume a res- um todo: existe uma esperança na humanidade mes-
ponsabilidade em relação ao Outro, ao próprio se- mo em face dos tempos sombrios (NISSIM, 2004).
melhante, ainda que de etnia, fé ou convicção di- Entre as primeiras pessoas convidadas a plan-
ferentes”. Inicialmente, o título designava “uma tar uma árvore na Alameda dos Justos, estava Schin-
pessoa de elevada moral, que ofereceu empatia, dler, e a notícia da sua homenagem ilustrou os jor-
compaixão e ajuda aos judeus em tempos de gran- nais, desencadeando um verdadeiro escândalo. Ju-
des dificuldades e perseguições” (Lewin, 2011, deus indignados anunciaram publicamente que
p. 20). Esse foi o ponto de partida para o trabalho queimariam a árvore daquele que consideravam
da comissão. Posteriormente, outros parâmetros um ladrão. Assim, inicialmente, a cerimônia foi
foram definidos, e o justo passou a ser descrito co- suspensa; depois, de modo não oficial, ele foi con-
mo uma pessoa concreta e não uma organização vidado a plantar a sua árvore (NISSIM, 2004).
coletiva, não um ente abstrato, que agiu de modo Nissim (2004) afirma que Moshe Bejski tornou-­
a pôr sua vida em risco, sem interesses pessoais, e se amigo de Schindler e sempre foi grato a ele por
não importa se salvou inúmeras vidas ou somente ter sido salvo, tendo sido o “grande artífice de sua
uma única. Não obstante, durante a existência da glória. Construiu-a dia após dia, movido pelo sen-
Comissão dos Justos, a designação foi sendo mo- so de responsabilidade com seu salvador” (NIS-
dificada a partir de casos controversos de conces- SIM, 2004, p. 15). Para o sobrevivente, a polêmica
são. Isto é, quando os justos não eram heróis vir- em torno dele era um sinal da dificuldade da hu-

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manidade em aprender com o Holocausto, pois o de privilégios, valores socioculturais e hábitos ar-
extermínio dos judeus não se efetivou apenas pela raigados, mudar o modo de me relacionar com o
destreza de seus arquitetos, mas também graças à mundo, com o Outro e comigo mesmo?
indiferença e ao conformismo dos espectadores. Aquilo que Bejski queria valorizar a respeito
Afirmava que as pessoas pareciam não entender o de Schindler, assim como a reivindicação do seu
que era a experiência de bater em muitas portas e memorialista acerca de uma capacidade humana
não encontrar ninguém que ajudasse. Assim, de- de “mudar de rumo”, parece se estreitar com as
clarou Bejski à Comissão dos Justos, em 26 de no- considerações expostas acerca da bondade, no sen-
vembro de 1963: “Precisamos tomar uma decisão tido de esta poder se constituir em um instrumen-
logo. Schindler foi capaz de mudar, e exatamente to para a compreensão da condição humana, já
por isso, nós devemos valorizar suas ações excep- que testemunha a possibilidade concreta de um
cionais” (NISSIM, 2004, p. 136). Bejski acreditava homem estabelecer com outros homens relações
que a grandeza das ações de Schindler estava jus- dialógicas autênticas, apesar de seu estado anterior
tamente na metamorfose anterior, na capacidade de omissão e ambição diante do sofrimento alheio
de Schindler de ter se afastado da ganância e in- e do estado de exceção imposto pelo regime nazis-
diferença, depois de ter encontrado nelas benefí- ta, assim como no sentido de entendê-la como mo-
cios. De alguma maneira, parecia prever a morte vimento de abertura e de responsabilidade pelo
iminente do seu herói, que aconteceu em 1974. Outro (BUBER, 2007).
O memorialista do sobrevivente afirma que mui- Schindler, no momento crucial de sua existên-
tas pessoas pareciam não se dar conta de uma ca- cia e da de muitos judeus, pôde perceber o sofri-
racterística fundamental do ser humano: “sua ca- mento deles não como algo que se observa, se con-
pacidade de mudar o rumo, de encontrar em si templa, mas como algo que tem para com ele uma
mesmo motivações superiores, de escutar a voz estreita relação. Para Buber (2007), quando isso
que vem da consciência nos momentos mais dra- acontece, o homem entra em relação propriamen-
máticos” (NISSIM, 2004, p. 135). Por isso, talvez, te com o Outro, toma conhecimento íntimo dele
não podiam entender os argumentos de Bejski, nem enquanto pessoa, em sua diferença e ao mesmo
o próprio Schindler. Em outras palavras, pareciam tempo em sua ligação mais estreita com ele. Por
exigir um Schindler que, desde o início antinazis- isso, quando acolhe a palavra do Outro como ape-
ta, tivesse combatido as leis raciais logo que elas lo incondicional, o homem simultaneamente sen-
foram promulgadas e nem sequer tivesse imagi- te-se realizado e oprimido, já que finalmente as-
nado tomar uma fábrica de propriedade de um ju- sume a responsabilidade pelo Outro como sua
deu. Mas nada aconteceu assim. Schindler não foi condição mais humana (GROSSMAN, 2013), as-
um herói incorruptível. sim descobre a dialogicidade como estrutura fun-
Não obstante, e precisamente por isso, seu ca- damental da subjetividade (LEVINAS, 2010). Mas,
so permite algumas reflexões: o que eu faria se al- ao mesmo tempo, dá-se conta de que ela lhe exige
guém me pedisse ajuda contra uma perseguição nada menos do que a transformação do seu modo
mortal? Teria forças para ajudá-la ou me acomo- de existência atual. Ele precisa modificar-se, a fim
daria na omissão? E se, para ajudá-la, eu tivesse de estar habilitado ao deslocamento em direção
que transformar a mim mesmo, isto é, abrir mão ao Outro.

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O pensamento buberiano possibilita o enten- Deste modo, a possibilidade da bondade no ho-


dimento do duplo movimento como algo não res- mem se empobreceu e converteu-se em uma luta
trito aos santos ou heróis imaculados, porém a interior entre o medo do aniquilamento e a respon-
quaisquer homem e mulher que escolha a relação sabilidade pelo Outro, sendo o resultado desta pe-
com o Outro ao invés da simples tolerância ou in- leja jamais previsto. Não obstante, esta situação sus-
diferença. Deste modo, pode-se entender que Schin- cita alguns questionamentos: como travar essa lu-
dler tomou conhecimento íntimo dos judeus, iden- ta interior? É possível estar preparado para encará-­
tificou-se com o sofrimento alheio, embora pudes- la? Uma compreensão do Holocausto fundamen-
se esquivar-se dele, na hora derradeira, apesar de tada não na competição nem inimizade entre as
todas as contradições e controvérsias, foi perspicaz populações vitimadas, mas na solidariedade e na
e bondoso, habilitou a si mesmo, investindo seus fraternidade, pode proporcionar esclarecimento e
privilégios e sua riqueza no salvamento dos judeus resolutividade para os dilemas éticos e políticos das
(NISSIM, 2004; Crowe, 2007; Grunwald-­ sociedades contemporâneas? Mesmo passados mais
Spier, 2011; Pemper, 2013; Leyson, 2014; PÉ- de cinquenta anos desse evento limite, as democra-
REZ, 2014). As ações de Schindler – condenáveis cias liberais ocidentais ainda estão empobrecidas
e excepcionais –, em certa medida e até certo pon- para lidar com a questão do Outro. Para Todorov
to, dão o testemunho da possibilidade concreta de (2012), a desconfiança perante o estranho, o estran-
que o homem assoberbado pela ganância e acomo- geiro, o diferente, princípio básico dos regimes to-
dado à indiferença ainda pode ser capaz de mudar, talitários, ainda permanece presente nos regimes
transformar-se, contrariando os fatalismos pes- democráticos, na base de algumas lutas por direi-
soais e determinismos históricos e socioculturais tos, sendo uma espécie de inimigo íntimo gerado
(Ricouer, 2007). no próprio sistema político ocidental.
Esta constatação ensina que as respostas para
Uma última lição do Holocausto: os dilemas necessitam ser procuradas não apenas
à guisa de conclusão no plano macro (social e político) nem simples-
mente no plano micro (pessoal, individual), e tam-
O Holocausto não deve ser escutado apenas como bém se faz necessário o desenvolvimento peda-
uma tragédia específica da população judaica e de gógico de formas de pensar, sentir e agir que apro-
outras minorias, mas como o acontecimento li- ximem os dois planos sem fazê-los coincidir. Nes-
mite do século XX diretamente vinculado à ques- se sentido, Moshe Bejski afirma que, para deter
tão humana da responsabilidade ética. Através de a Shoah, era necessário que não somente um nú-
uma razão do Estado ancorada em diferentes mo- mero grandioso de Justos, mas também “uma mul-
dalidades de política antijudaica, instaurou-se com tidão enorme de pessoas, incluindo os patifes, os
sucesso um estado de exceção, proporcionando, egoístas, as prostitutas, os corruptos, os próprios
entre os povos, entre as populações e nas próprias fascistas, não se virassem para o outro lado” (NIS-
pessoas, um estado de desconforto e desconfian- SIM, 2004, p. 166). Por isso, é preciso encontrar,
ça extremos, cuja consciência da mortalidade e na história da cultura ocidental, processos for-
fragilidade freou quase absolutamente uma incia- mativos alternativos àqueles conformados à di-
tiva humanitária. cotomia e hierarquização entre macro e micro e

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consonantes à lógica da separação, inimizade e minuta; deve-se recuperá-la e proclamá-la por meio
isolamento – enfim, processos que ressaltem a de pesquisas, seja dos testemunhos de pessoais vi-
transformação pessoal (plano micro) como parte vas, seja das obras escritas pelos sobreviventes. Pa-
das estratégias da mudança social (plano macro) ra Nissim (2004, p. 301) “os pequenos atos de hu-
(FREITAS, 2009). manidade poderiam reviver como exemplos, como
O plano micro não pode substituir os demais, vestígios para construção de um novo mundo”. A
nem é inferior ou superior a eles. Ele é extraordi- memória da bondade teria um efeito de ajudar o
nariamente distinto, porque se constitui como um homem (e as gerações novas e futuras) a resistir à
antídoto à indiferença, resposta à luta interior en- política de comparação e competição entre as mi-
tre o medo do aniquilamento e a responsabilidade norias exterminadas, pautada na inimizade e no
pelo Outro. Testemunha a existência de um espa- isolamento, assim como de salvar no homem a pró-
ço minúsculo de liberdade no qual o homem é to- pria ideia da condição humana como dialogicida-
talmente soberano. Além disso, ao se fundamentar de, isto é, abertura e responsabilidade pelo Outro,
nas relações face a face – e justamente por isso – é especialmente quando perseguido.
capaz de desencadear experiências cujo plano ma-
cro é incapaz (BUBER, 2007).
Para que o argumento acima não pareça abs-
referências
AFONSO, Rui. Um homem bom. Rio de Janeiro: Casa da
trato em demasia, é preciso recordar que foram as Palavra, 2011.
forças de Estado e militares dos Aliados (Estados
Agamben, Giorgio. O aberto: o homem e o animal.
Unidos, Grã-Bretanha, URSS e os demais países
Tradução de Pedro Mendes. Rio de Janeiro: Civilização
das Nações Unidas) que interromperam o Eixo (Ale- Brasileira, 2013.
manha-Itália-Japão). No plano macro, elas foram
_____. O que resta de Auschwitz. Tradução de Selvino J.
responsáveis pelo fim da guerra e pelo salvamento
Assman. São Paulo: Boitempo, 2008.
de milhares de pessoas (MARRUS, 2003). Também
é importante recordar das pessoas anônimas que
Antelme, Robert. A espécie humana. Tradução de Maria
de Fátima Oliva do Couto. Rio de Janeiro: Record, 2013.
arriscaram suas vidas para salvar judeus e não ju-
deus nesta mesma guerra (Koifman, 2002; Grun- Bauman, Janina. Inverno na manhã. Tradução de Carlos
Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
wald-Spier, 2011; AFONSO, 2011; SCHPUN,
2011; LEWIN, 2011; Mieszkowska, 2013). Bauman, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Tradução
No plano micro, elas foram importantes não de Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
por terem parado a máquina mortífera do nazis- Beevor, Antonny; Vinogradova, Luba. “Introdução” in
mo de que foram contemporâneos ou mesmo por GROSSMAN, Vasily. Um escritor na guerra. Tradução de
terem salvado pessoas, mas porque no estado de Bruno Casotti. São Paulo: Objetiva, 2008.
exceção resistiram ao mal não sendo omissas ao Bettelheim, Bruno. Sobrevivência. Tradução de Heitor
sofrimento alheio. Pelo contrário, elas o ouviram Costa. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
como apelo incondicional e responderam genui- BLack, Edwin. IBM e o Holocausto. Tradução de Cunha
namente por ele (Buber, 2007). Por isso, é preciso Serra. Rio de Janeiro: Campus, 2001.
estabelecer um compromisso com a memória da Buber, Martin. Do diálogo e do dialógico. Tradução de
bondade, apesar de intermitente, imprecisa e di- Marta E. de Souza. São Paulo: Perspectiva, 2007.

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Recebido em 06/02/2015
Revisado em 07/07/2015
Aceito em 13/07/2015

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