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Psicoterapia

PSICOTERAPIA: Visão introdutória

André Luiz Moraes Ramos


Centro Universitário de Barra Mansa
Centro Universitário Salesiano de São Paulo - Lorena

Sabe-se que o controle exercido pelas agências religiosas e governamentais, bem como
o exercido pelo grupo, pela família, empregadores, sócios e etc., restringe e pune o comporta-
mento do indivíduo. Quando este controle é excessivo ou inconsistente, ele gera subprodutos
tais como: fuga, revolta, raiva, resistência passiva, medo, ansiedade, depressão, ira e raiva. A
Psicoterapia é uma agência especial que se preocupa com estes problemas, ao proporcionar ao
cliente uma audiência não punitiva (Skinner, 2000/1953).
Ao propor uma visão introdutória, este artigo aborda os seguintes temas relacionados à
psicoterapia: a conceituação, os objetivos do processo terapêutico, as características da psico-
terapia, de quem procura terapia, as características do terapeuta e finaliza com a eficácia da
abordagem terapêutica.

O conceito de psicoterapia

De acordo com Cordioli (2008), há transtorno mental, pode-se afirmar, con-


controvérsias sobre até que ponto a psicote- forme fez Cordioli (2008), que a psicotera-
rapia se distingue de outras relações huma- pia é uma atividade eminentemente colabo-
nas, nas quais uma pessoa ajuda outra a rativa entre paciente e terapeuta, que en-
resolver problemas pessoais. volve uma interação face a face.
Psicoterapia é um termo genérico Por conta disto, outras formas de
usado para as várias técnicas terapêuticas ajuda, como a biblioterapia (difundida
empregadas para melhorar as funções psi- principalmente através de livros de auto-
cológicas e o ajustamento da vida do indi- ajuda: como resolver tal problema...), tra-
víduo (Huffman, Vernoy e Vernoy, 2003). tamentos através do computador (como a
Há um consenso, segundo Strupp exposição virtual), a conversa de amigos ou
(mencionado por Cordioli, 2008, p.21), de o aconselhamento por telefone (como o
que realizado pelo Centro de Valorização da
a psicoterapia é um método de tra- Vida – CVV) ou virtual, quando utilizadas
tamento mediante o qual um profis- fora de um contexto interpessoal e de uma
sional treinado, valendo-se de meios relação profissional, não são consideradas
psicológicos, especialmente a comu- psicoterapia no sentido estrito. Métodos
nicação verbal e a relação terapêuti- baseados em crenças religiosas (rituais de
ca, realiza, deliberadamente, uma cura e libertação, rituais mágicos, como
variedade de intervenções, com o in- bênçãos, trabalhos de macumba, curandei-
tuito de influenciar um cliente ou pa- rismo, etc.) também são excluídos, mesmo
ciente, auxiliando-o a modificar pro- que provoquem alívio de sintomas.
blemas de natureza emocional, cog- Neste sentido mais estrito, psicote-
nitiva e comportamental, já que ele o rapia refere-se apenas às terapias usadas
procurou com essa finalidade. por profissionais de saúde mental. Nos Es-
Como o tratamento envolve um tados Unidos, psicólogos, psiquiatras, en-
profissional treinado e um paciente ou cli- fermeiras psiquiátricas, assistentes sociais,
ente portador de um problema, queixa ou profissionais de aconselhamento e mem-
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bros do clero. No Brasil, no entanto, esta doenças mentais, tais como DSM
atuação é restrita a médicos e psicólogos ou CID) ao problema presente.
(Huffman, Vernoy e Vernoy, 2003). 2. Propor uma provável etiologia
(causa do problema) e identificar as
prováveis origens e funções atingi-
Objetivos do processo psicoterapêutico das pelos sintomas.
O processo terapêutico pode envol- 3. Fazer um prognóstico, ou estimati-
ver, segundo Gerrig e Zimbardo (2005), va, do rumo que o problema irá to-
quatro tarefas ou objetivos principais: mar, com e sem tratamento.
1. Chegar a um diagnóstico sobre o 4. Prescrever e aplicar alguma forma
que está acontecendo de errado com de tratamento, uma terapia voltada
o cliente, determinando, se possível, a minimizar ou eliminar os sinto-
uma denominação psiquiátrica ade- mas problemáticos e, talvez, suas
quada (através da classificação de fontes.

Características da psicoterapia

Estudos sobre psicoterapia indicam em diversas culturas, identificou seis carac-


a existência de fatores que estariam presen- terísticas universais:
tes em todas as psicoterapias, conhecidos 1. Nomear o problema: um passo im-
como fatores não-específicos (Isolan, Pheu- portante para a melhora do funcio-
la e Cordioli, 2008). namento psicológico é a classifica-
Mesmo considerando que exista ção do problema. As pessoas sen-
uma variedade de modelos e concepções, tem-se melhores só em saber que
Frank (mencionado por Cordioli, 2008) outras pessoas experimentam os
apresenta três elementos que seriam co- mesmos problemas que os seus e
muns a todas as psicoterapias: que o terapeuta possui experiência
1. A psicoterapia ocorre num contexto com esse tipo de problema em par-
de uma relação de confiança emo- ticular;
cionalmente carregada em relação 2. Qualidades do terapeuta: os clien-
ao terapeuta; tes devem sentir que o terapeuta é
2. A psicoterapia ocorre em um con- cuidadoso, competente, acessível e
texto terapêutico, no qual o paciente preocupado em encontrar soluções
acredita que o terapeuta irá ajudá-lo para seu problema;
e acredita que este objetivo será al- 3. Estabelecer credibilidade: testemu-
cançado; nhos verbais e símbolos de status
3. Existe um racional, um esquema (como diplomas na parede) deter-
conceitual (teoria) ou um mito que minam a credibilidade do terapeuta.
provê uma explicação plausível pa- Entre os curandeiros nativos, no lu-
ra o desconforto (sintoma ou pro- gar de diplomas, a credibilidade
blema) e um procedimento ou ritual pode ser determinada pelo fato de
para ajudar o paciente a resolvê-lo ter servido como aprendiz de um
(técnica). curandeiro venerado;
4. Colocar o problema dentro de um
Brislin (apud Huffman, Vernoy e quadro familiar: se o cliente acredi-
Vernoy, 2003), ao estudar as psicoterapias ta que espíritos do mal estão cau-
sando os transtornos psicológicos, o

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terapeuta irá direcionar o tratamen- Moro e Lachal (2008) definem a psico-


to para esses espíritos. De forma terapia em função de quatro elementos: os
equivalente, se o cliente acredita na meios (relativos às técnicas utilizadas pelas
importância das experiências preco- diferentes abordagens), o objeto (os confli-
ces da infância e na importância do tos da vida interior do paciente ou de suas
inconsciente, a psicanálise será o relações com o seu meio ambiente), a fun-
provável tratamento escolhido; ção (desempenhada pelo psicoterapeuta) e
5. Utilizar técnicas que promovam o objetivo da psicoterapia (que implica em
alívio: em todas as culturas, a tera- um processo de mudança).
pia envolve ação. O cliente ou o te- Por sua vez, Isolan, Pheula e Cordioli
rapeuta precisa fazer alguma coisa. (2008) apresentam os seguintes fatores
Além disso, o que eles fizerem de- como responsáveis pela mudança em psico-
ve-se encaixar nas expectativas do terapia:
cliente. Por exemplo, as pessoas 1. uma relação intensa de confiança e
que acreditam que espíritos do mal emocionalmente carregada com a
as estão possuindo esperam que o pessoa que ajuda;
curandeiro execute a cerimônia para 2. uma teoria explicativa das causas
exorcizar os demônios. Nos mode- dos problemas do paciente;
los ocidentais, os clientes esperam 3. o acesso a novas informações sobre
revelar seus sentimentos e pensa- a natureza dos problemas e alterna-
mentos e fornecer informações so- tivas de como lidar com eles;
bre seu passado. Essas terapias 4. o aumento da esperança de auxílio
verbais também podem ter compo- em virtude das qualidades e capaci-
nentes biológicos ou comportamen- dades do terapeuta;
tais; no entanto, as pessoas que pro- 5. a possibilidade de realizar com su-
curam terapia geralmente esperam cesso novas experiências de vida,
falar sobre seus problemas; acarretando um aumento na auto-
6. Um momento e um espaço especi- confiança;
ais: o fato de a terapia ocorrer à 6. a oportunidade para expressar emo-
parte das experiências do dia-a-dia ções pessoais.
da pessoa parece ser um aspecto
importante em qualquer terapia. As Tentando explicar como as psicote-
pessoas aparentemente precisam re- rapias agem, Cordioli e Giglio (2008) divi-
servar um momento especial e ir a diram os fatores responsáveis pela mudan-
um lugar especial para concentrar- ça em três grandes grupos:
se em seus problemas. 1. As técnicas utilizadas: específicas
de cada modelo e que englobariam
Apesar da grande diversidade entre as as diferentes intervenções do tera-
psicoterapias, Gleitman, Reisberg e Gross peuta, bem como a forma como são
(2009) relatam alguns elementos que são estruturadas e conduzidas as ses-
comuns a todas as modalidades, a saber: sões;
efeito do relacionamento terapeuta- 2. A relação paciente-terapeuta: en-
paciente, a aprendizagem interpessoal de- globando os fenômenos transferen-
corrente da relação, tranquilização emoci- ciais, a aliança terapêutica, o víncu-
onal para a redução das ansiedades, auto- lo afetivo com o terapeuta, além da
conhecimento e técnicas sobrepostas que identificação com a pessoa do tera-
podem caracterizar o ecletismo técnico ou peuta, o apoio do terapeuta como
a terapia multimodal. forma de aceitação incondicional do
paciente e a catarse capaz de produ-

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zir o alívio da tensão do paciente, ções que visam modificar o ambien-


os quais seriam os fatores não- te social ou familiar no qual o paci-
específicos, comuns a praticamente ente vive (o sistema), em suas for-
todas as terapias. mas de interagir com os outros in-
3. Fatores sociais (interpessoais), divíduos, ou, ainda, utilizam os
grupais ou sistêmicos: em maior ou chamados fatores grupais como in-
menor grau, as diferentes modali- gredientes terapêuticos.
dades de psicoterapia procuram ob-
ter mudanças por meio de interven-

Quem procura psicoterapia

O sofrimento psíquico é o principal mas mais comuns que se apresentam são


fator que determina a procura por um tra- ansiedade e depressão (Narrow e colabora-
tamento psicológico, sendo que este sofri- dores, citados por Weiten, 2002).
mento pode ser determinado por um pro- Especificamente em relação às
blema, queixa ou transtorno mental. Renner áreas de atuação, Huffman, Vernoy e Ver-
et. al. (2012) afirmam que a psicoterapia, noy (2003) afirmam que a maioria dos te-
como um tratamento especializado, ajuda rapeutas trabalha com seus clientes cinco
uma pessoa (chamada de cliente ou de pa- áreas em psicoterapia:
ciente) a superar dificuldades e transtornos 1. Transtornos do pensamento: indiví-
psicológicos, a resolver problemas de vida duos perturbados tipicamente de-
ou obter crescimento pessoal, produzindo senvolvem algum grau de confusão
uma mudança psicológica. mental, padrões de pensamento des-
Isolan, Pheula e Cordioli (2008) trutivos, ou bloqueio na compreen-
destacam que é necessário que o paciente são de seus problemas;
apresente algum grau de sofrimento psíqui- 2. Transtornos das emoções: as pesso-
co que cause prejuízo em seu funcionamen- as que procuram terapia geralmente
to mental. Todavia, um elevado grau de sofrem intenso desconforto emoci-
sofrimento é diretamente associado com a onal. Ao encorajar a livre expressão
intensidade da psicopatologia, o que pode dos sentimentos e ao proporcionar
comprometer a aliança terapêutica, como um ambiente de acolhimento e su-
no caso de pacientes com diagnóstico de porte, os terapeutas ajudam seus
psicose e de transtorno borderline que clientes a substituir os sentimentos
apresentam limitada capacidade de lidar de desespero ou incompetência por
com estresses agudos e têm dificuldade de esperança e autoconfiança;
estabelecer vínculo com o terapeuta. 3. Transtornos do comportamento: in-
As pessoas levam à terapia uma divíduos perturbados frequentemen-
complexa variedade de problemas huma- te exibem comportamentos proble-
nos: ansiedade, depressão, relações inter- máticos. Os terapeutas ajudam seus
pessoais insatisfatórias, hábitos problemá- clientes a eliminarem comporta-
ticos, autocontrole ruim, baixa autoestima, mentos inadequados e os orientam
conflitos conjugais, dúvidas existenciais, para um tipo de vida mais satisfató-
sensação de vazio e sentimentos de estag- rio;
nação pessoal. A terapia é procurada por 4. Dificuldades interpessoais e nas si-
aqueles que se sentem perturbados, mas a tuações de vida: os terapeutas aju-
natureza e a gravidade desse problema va- dam seus clientes a melhorar seu re-
riam de um para o outro. Os dois proble- lacionamento com a família, com

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amigos e com colegas de trabalho. 1. As mulheres são diagnosticadas e


Também os ajudam a eliminar ou tratadas em decorrência de proble-
minimizar as fontes de estresse em mas mentais em maiores propor-
suas vidas, tais como exigências de ções do que os homens. Será que
trabalho ou conflitos familiares; elas adoecem mais, estão mais dis-
5. Distúrbios biomédicos: pessoas postas a admitir seus problemas ou
problemáticas algumas vezes apre- será que as categorias diagnósticas
sentam distúrbios biológicos que de doença mental apresentam um
causam diretamente ou contribuem viés em favor dos homens?
para as dificuldades psicológicas 2. Sabe-se que a pobreza é um fator
(por exemplo, desequilíbrios quími- causador de estresse e, devido à
cos que levam à depressão). maior sensibilidade feminina, a po-
breza acaba se tornando um fenô-
Dependendo do treinamento indivi- meno de sofrimento para a mulher;
dual do terapeuta e de sua abordagem teó- 3. Os múltiplos papéis assumidos pe-
rica, assim como das necessidades do clien- las mulheres, tais como mãe, espo-
te uma ou mais, dentre essas cinco áreas, sa, dona-de-casa, profissional, estu-
poderão ser mais enfatizadas. dante, etc., geram demandas confli-
A capacidade de estabelecer um tantes, que freqüentemente são res-
vínculo e uma aliança de trabalho com o ponsáveis pelo desenvolvimento do
terapeuta é, segundo Isolan, Pheula e Cor- estresse.
dioli (2008), um outro fator relacionado ao 4. O processo de envelhecimento traz
paciente que é fundamental para o bom preocupações especiais para as mu-
andamento de uma psicoterapia. Como lheres. Elas vivem mais do que os
característica pessoal, exige-se do paciente homens, mas tendem a ser mais po-
que ele tenha interesse em falar com a ou- bres, ter um nível menor de instru-
tra pessoa, em ser ouvido, valorizado e ção e sofrer problemas de saúde
compreendido, que tenha uma expectativa mais sérios.
positiva em relação ao curso do tratamento. 5. Violência contra a mulher, incluin-
Há um mal prognóstico para a intervenção do estupro, incesto, perseguição se-
terapêutica com pacientes que combinam xual, produzem um efeito extrema-
pouca motivação, baixa tolerância à ansie- mente negativo na saúde mental da
dade e déficits nas relações interpessoais, mulher, o que pode acarretar de-
além daqueles com traços de psicopatia e pressão, insônia, transtornos de es-
narcisismo. tresse pós-traumático, transtornos
Há certo consenso de que o paciente alimentares e outros problemas.
que irá aproveitar ou que irá fazer mudan-
ças em psicoterapia é caracterizado por um Um cliente em tratamento não tem
sofrimento psíquico suficiente para motivá- necessariamente um transtorno identificá-
lo ao tratamento e pela capacidade de esta- vel. Alguns procuram ajuda profissional
belecer um vínculo e uma aliança de traba- para problemas do dia-a-dia (decisões de
lho com o terapeuta. carreira, por exemplo) ou sentimentos va-
O Instituto Nacional de Saúde Men- gos de descontentamento (Strupp, citado
tal dos Estados Unidos (citado por por Weiten, 2002). Dessa forma, terapia
Huffman, Vernoy e Vernoy, 2003) identifi- inclui tanto esforços para fornecer o cres-
cou cinco principais áreas de preocupação cimento pessoal dos clientes como inter-
para o atendimento de clientes do sexo fe- venções profissionais para transtornos
minino: mentais. As pessoas variam consideravel-

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mente em sua disposição para procurar meros motivos. Alguns não têm consciên-
psicoterapia. cia de que ela está disponível, e outros
Infelizmente, muitos dos que neces- acreditam que ela sempre é cara. O maior
sitam de terapia não a recebem (Pekarik, bloqueio é que para muitos estar numa te-
citado em Weiten, 2002). Os que poderiam rapia é admitir uma fraqueza pessoal.
beneficiar-se dela não a procuram por inú-

As características do terapeuta

Rogers, mencionado por Isolan, Uma boa teoria é capaz de apresentar a


Pheula e Cordioli (2008), sugeriu que a estrutura dos fenômenos, fornece uma con-
empatia, o calor humano e a autenticidade ceituação, diz como se fazem o diagnóstico
seriam as condições necessárias e suficien- e prognóstico, explica as suas causas e suas
tes para a mudança terapêutica. Essas três consequências e oferece uma modalidade
condições podem ser traduzidas em com- de tratamento, No Brasil, há um posicio-
portamentos concretos do terapeuta, que namento muitas vezes dogmático em rela-
depois podem ser avaliados e relacionados ção à abordagem teórica adotada pelo tera-
com o resultado da terapia. peuta, de modo que seguir uma teoria rigi-
Estes autores definem empatia co- damente é sinal de competência e compro-
mo o entendimento do ponto de vista do misso profissional, pois indica que ele está
paciente e a sua visão de mundo, podendo embasado em um corpo teórico.
ser expressa de muitas maneiras, como, por Em relação ao método, a formação
exemplo, repetindo o que o paciente disse do terapeuta deve incluir o domínio dos
em palavras diferentes ou formulando per- recursos que lhe permitirão promover o
guntas sobre o que ele falou. O calor hu- desenvolvimento do processo terapêutico.
mano, por sua vez, envolve a atitude de A técnica terapêutica, determinada pela
aceitação, respeito, afirmação, apoio, com- abordagem teórica adotada, fornece as es-
paixão, carinho e elogios por parte do tera- tratégias de intervenção, informando como
peuta. Enquanto que a autenticidade inclui deve ser a relação terapeuta-cliente, como
a coerência, a transparência e a sinceridade, conduzir a sessão terapêutica, o que fazer e
e envolveria tanto uma autoconsciência por como fazer, apontando o que é e o que não
parte do terapeuta quanto uma disposição é adequado para cada situação.
para compartilhar esta consciência. Weiten (2002) dá algumas orienta-
Nem todo cliente se sente à vontade ções para que uma pessoa interessada em
para perguntar aos seus prováveis terapeu- fazer terapia possa escolher adequadamente
tas sobre treinamentos realizados, tempo de seu psicoterapeuta.
experiência, o tipo de abordagem adotada, 1. procure cordialidade pessoal e pre-
etc. Porém são perguntas pertinentes e a ocupação sincera. Tente julgar se
imensa maioria dos terapeutas fornecerá será capaz de conversar com ele de
estas informações de modo natural. maneira franca e não defensiva.
A formação teórica e metodológica 2. procure empatia e entendimento. A
também é importante para a prática tera- pessoa é capaz de apreciar seu pon-
pêutica. to de vista?
Um esquema conceitual que funci- 3. procure autoconfiança. Terapeutas
one como um quadro teórico de referência seguros transmitirão competência, e
permitirá ao terapeuta interpretar os conte- não tentarão intimidá-lo com o jar-
údos apresentados pelo cliente na terapia. gão profissional ou gabar-se a res-

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peito daquilo que poderão fazer por argumentos, eles citam que a utilização de
você. procedimentos específicos e o treinamento
4. Quando tudo for dito e feito, você do profissional (acrescento ainda: um qua-
deverá gostar de seu terapeuta. Ca- dro teórico de referência que ajuda a com-
so contrário, será difícil estabelecer preender a queixa do cliente), representam
o necessário entendimento. uma vantagem do psicoterapeuta habilido-
so sobre a tia sábia, sendo que ambos são
Um intrigante questionamento apre- capazes de desenvolver e manter um rela-
sentado por Gleitman, Reisberg e Gross cionamento que ajuda o cliente, proporcio-
(2009) é de que uma tia sábia, um médico nando uma pessoa em quem ele pode con-
compreensivo ou um padre piedoso podem fiar, que dê conselhos sobre questões pro-
apresentar as características acima citadas e blemáticas, que o escute e que fomentem a
proporcionar os mesmos benefícios da psi- esperança de que ele melhorará. .
coterapia. Não se pode negar que encontrar Beutler e colaboradores (apud Iso-
um ouvinte compreensivo e compassivo, lan, Pheula e Cordioli, 2008) afirmam que
um aliado, uma fonte de esperança, não é o poder dos bons terapeutas é maior do que
algo ruim para a pessoa que está necessita- qualquer contribuição terapêutica de suas
da de alguém que a ajude com seus pro- teorias. Para eles, os melhores terapeutas,
blemas psicológicos. A psicoterapia, de além de formarem uma boa relação tera-
certo modo, veio para preencher um vácuo pêutica, são aqueles que proporcionam um
social, pois as tias sábias estão em falta, tratamento condizente com as expectativas
nem todo mundo tem um membro da igreja e preferências dos pacientes, são criativos e
como confidente e, hoje, os médicos aten- percebem novas formas de lidarem com os
dem apressadamente nos serviços públicos problemas dos pacientes, além de serem
ou nos planos de saúde. Como contra- pessoalmente bem integrados.

Eficácia da abordagem terapêutica

Outra questão importante refere-se que passaram por psicanálise ou outros


à abordagem teórica do terapeuta. A psico- tipos de terapia baseada em insight (que
terapia é considerada efetiva se a melhora visam a compreensão das relações entre os
do cliente, após a terapia, é maior do que sintomas atuais e as origens passadas). Se-
qualquer melhora que ocorra sem a terapia, gundo Eysenck, cerca de dois terços dos
durante o mesmo período (Atkinson, At- pacientes com problemas neuróticos se
kinson, Smith e Bem, 1995). recuperariam espontaneamente dentro de
Em 1952, o terapeuta britânico dois anos a partir do início do problema.
Hans Eysenck causou furor ao declarar que Para piorar a situação, um problema
a psicoterapia simplesmente não funciona importante, na avaliação da psicoterapia, é
(Gerrig e Zimbardo, 2005) e que as pessoas a medição do resultado. Como saberemos
entrariam em remissão espontânea, recupe- se uma pessoa foi ajudada pela terapia?
ração sem tratamento, se simplesmente Nem sempre podemos confiar na
fossem deixadas em paz (Renner et. al., avaliação do próprio sujeito. Tem sido ob-
2012). Ele analisou publicações disponíveis servado na prática clínica um fenômeno
que informavam os efeitos de várias terapi- denominado olá-adeus (Atkinson, Atkin-
as e concluiu que os pacientes que não re- son, Smith e Bem, 1995). No início da te-
ceberam qualquer tratamento tinham uma rapia (olá), os clientes tendem a exagerar
taxa de recuperação tão alta quanto aqueles sua infelicidade e os seus problemas; e ao

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final do tratamento (adeus), eles costumam eficácia da psicoterapia. Várias revisões de


a exagerar seu bem estar, seja para agradar metanálises sobre estudos publicados, veri-
o terapeuta, seja para se convencerem de ficaram que pessoas tratadas com psicote-
que o dinheiro foi bem gasto. rapia estão, em média, 80% melhor se
A avaliação do terapeuta sobre a comparadas com pessoas não-tratados (Iso-
efetividade do tratamento também não po- lan, Pheula e Cordioli, 2008), sendo que
de ser sempre considerada como um crité- para os casos de transtorno de personalida-
rio efetivo. O terapeuta possui um interesse de a melhora obtida com a psicoterapia era
intrínseco em declarar que o seu cliente sete vezes maior do que a obtida com a
está melhor. Há casos em que as mudanças evolução natural da doença (Cordioli,
observadas no consultório não são genera- 2008).
lizadas para situações da vida real (Atkin- Com base nestes dados, pode-se
son, Atkinson, Smith e Bem, 1995). refutar a hipótese da remissão espontânea
Os pesquisadores, então, puseram- dos sintomas, proposta por Eysenck, que
se a formular metodologias mais precisas defendia que os efeitos da psicoterapia não
para avaliar a eficácia da terapia. O desen- seriam maiores do que os obtidos com a
volvimento de uma nova técnica estatística simples passagem do tempo.
chamada metanálise (Huffman, Vernoy e Superada esta discussão sobre a
Vernoy, 2003), e um maior rigor quanto a eficácia da psicoterapia (Isolan, Pheula e
grupos de controle e à avaliação do efeito Cordioli, 2008), você poderia esperar que
da remissão espontânea do sintoma, permi- as diversas abordagens à terapia variassem
tiu que todos esses estudos e outros seme- em termos de eficácia. Entretanto, isso não
lhantes pudessem ser agrupados em médias é o que os pesquisadores encontraram na
gerais, produzindo um resultado abrangente maioria das vezes. Depois de revisarem
(Gerrig e Zimbardo, 2005). muitos estudos sobre a eficácia terapêutica,
Os estudos de metanálise, em vez Smith e Glass (citados em Weiten, 2002) e
de comparar os resultados isolados da tera- Smith, Glass e Miller (citados em Renner
pia para cada sujeito a ela submetido, in- et. al, 2012) apresentam dados muito pró-
vestigaram resultados de pesquisas sobre a ximos.

Eclética 68

Comportamental 79

Cognitiva 87

Humanista 76

Psicanálise 80

0 20 40 60 80 100

Figura 1: Estimativa da eficácia de várias abordagens psicoterápicas.

Estes dados, de acordo com Gleit- nizou uma corrida entre diferentes criaturas
man, Reisberg e Gross (2009), sustentam a e, no fim da disputa, concluiu que todos
conclusão denominada o veredicto do pás- venceram e todos devem ganhar prêmios.
saro Dodô, em referência ao pássaro dodô Mas estas descobertas são um pou-
de Alice no País das Maravilhas, que orga- co enganosas e controversas, como atestam

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Diniz Neto e Feres-Carneiro (2005), ao tempos de acompanhamento posteriores,


afirmarem que é possível validar modelos, apenas para citar alguns fatores.
mas não escolas, teorias ou métodos tera- Cordioli e Giglio (2008) chegaram
pêuticos em bloco, pois é notável a ausên- às seguintes conclusões gerais sobre os
cia de diferenças significativas de resulta- resultados dos estudos sobre a eficácia da
dos, na maior parte dos estudos meta- psicoterapia:
estatísticos, entre as diversas escolas de 1. A psicoterapia é mais efetiva e rá-
psicoterapia, podendo-se considerar que pida do que as mudanças naturais
não é possível concluir sobre a adequação, dos pacientes sem tratamento;
maior ou menor, de uma dada escola psico- 2. Os pacientes tratados com psicote-
terápicas; além disto, os modelos são testa- rapia alcançam melhores resultados
dos em pacotes fechados, como um conjun- se comparados com os que perma-
to de teorias e técnicas que orientam as necem em lista de espera para se-
intervenções dos terapeutas e que, na práti- rem tratados;
ca clínica, tendem a variar conforme cada 3. Na maioria dos transtornos, a psico-
relação terapêutica. terapia costuma manter seus resul-
Sabe-se que estas estimativas de tados por mais tempo;
metanálises sobre a eficácia global foram 4. Em termos gerais, não foi possível
extraídas de uma média de muitos tipos de determinar a superioridade de um
pacientes e de problemas. Grande parte dos enfoque terapêutico em relação ao
especialistas parece achar que, para certos outro.
tipos de problemas, algumas abordagens
terapêuticas são mais eficazes do que ou- Renner et. al. (2012) reafirmam que
tras. Segundo Seligman (citado por Weiten, não existe uma terapia que seja melhor para
2002) e Gleitman, Reisberg e Gross (2009), todos os problemas, e certos tratamentos
os transtornos de pânico respondem melhor são melhores para tipos específicos de pro-
à terapia cognitiva, bem como os transtor- blemas, embora isso não seja invariável.
nos de humor; já as fobias específicas e os Estes autores alertam, contudo, que a psi-
transtornos obsessivos compulsivos, em coterapia não funciona para todos, pois
função do aumento da ansiedade, são mais 10% das pessoas tratadas não apresentam
suscetíveis ao tratamento comportamental. melhora ou pioram.
Para Beutler e colaboradores (citados por Os estudos sobre dados clínicos rando-
Isolan, Pheula e Cordioli, 2008), pacientes mizados e metanálises apontam, segundo
mais reflexivos, introspectivos e/ou intro- Gleitman, Reisberg e Gross (2009), que
vertidos teriam maior probabilidade de não há dúvidas que a psicoterapia traz be-
responder à psicoterapia de base psicanalí- nefícios, que são mais duradouros do que
tica. os dos tratamentos farmacológicos e, é cla-
Entretanto, não tem sido fácil fazer ro, a psicoterapia não levanta questões so-
comparações entre estudos que se referem bre efeitos colaterais.
a terapias diferentes. Como alertam Gerrig Como atividade humana, a psicoterapia
e Zimbardo (2005), é difícil controlar as é, de acordo com Cordioli (2008), também
diferenças nas experiências de cada tera- uma arte, na medida em que depende das
peuta, a duração das terapias, a precisão do características pessoais do terapeuta, das
diagnóstico inicial, o tipo de transtorno, as habilidades adquiridas em prolongados
diferenças na gravidade e nos tipos de difi- treinamentos e supervisões e do tipo de par
culdades dos pacientes, os tipos de avalia- paciente-terapeuta que se estabelece em
ções de resultados utilizadas, a adequação cada psicoterapia.
entre as expectativas de um paciente e o Para Lazarus (citado por Weiten,
tipo de terapia oferecido, e a duração dos 2002), o ponto-chave é que uma terapia

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eficaz requer habilidade e criatividade e os Além do conhecimento do instru-


terapeutas estão sobre o muro entre a ciên- mento próprio de cada modelo de terapia, o
cia e a arte. A terapia é científica em ter- bom senso e o timming são essenciais para
mos de que as intervenções se baseiam em o uso otimizado de tais recursos. Conclui
extensa teoria e pesquisas empíricas. Mas Cordioli (2008) que utilizar tais recursos é
cada cliente é um ser humano único e o uma arte, e acrescentam Moro e Lachal
terapeuta tem de moldar criativamente um (2008), psicoterapia é a arte de curar pelo
programa de tratamento que ajude esse espírito.
indivíduo.

Considerações finais

Para discutir o exercício da psicote- De certo que o domínio teórico e o


rapia pelos psicólogos e definir parâmetros manejo das técnicas são fatores determi-
mínimos para a atuação da categoria na nantes dos resultados da prática clínica,
área, o Conselho Federal de Psicologia – porém este texto ressalta, entre outros as-
CFP (2009a), definiu 2009 como o ano pectos, a relevância da relação terapêutica
temático da Psicoterapia no Brasil. como ferramenta privilegiada da psicotera-
O CFP (2009b) conceitua a psicote- pia.
rapia como um conjunto de métodos e téc- Neste sentido, para adequada for-
nicas científicas que compõem uma prática mação de profissionais da área clínica, não
diversificada de cunho social, como um se pode desprezar os conhecimentos teóri-
campo interdisciplinar. cos e as estratégias de intervenção terapêu-
Em consonância com o CFP, os te- tica, assim como deve-se, igualmente, in-
mas relacionados à psicoterapia aqui abor- vestir na formação profissional e humana
dados refletem uma visão geral que se apli- do terapeuta, para que se possa colher de
ca, em sua quase totalidade, a qualquer forma efetiva os resultados desejados da
abordagem psicoterapêutica. psicoterapia.

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