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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL-REI

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, POLÍTICAS E JURÍDICAS


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

JORGE RODRIGO DA CUNHA

DOMICÍLIO: LÓCUS DE AÇÃO E PARTICIPAÇÃO FEMININA (VILA


DE SÃO JOSÉ – 1795 - 1831)

SÃO JOÃO DEL-REI


2010
JORGE RODRIGO DA CUNHA

DOMICÍLIO: LÓCUS DE AÇÃO E PARTICIPAÇÃO FEMININA (VILA


DE SÃO JOSÉ – 1795 - 1831)

Dissertação apresentada ao curso de Pós-Graduação Stricto


Sensu em História, na linha de pesquisa Cultura e Identidade,
do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e Jurídicas, da
Universidade Federal de São João del-Rei, para a obtenção do
título de Mestre em História.

Orientadora: Prof.ª Dr.ª Maria Leônia Chaves de Resende

SÃO JOÃO DEL-REI


2010
Cunha, Jorge Rodrigo da
C972d Domicílio: lócus de ação e participação feminina (Vila de São
José – 1795-1831) [manuscrito] / Jorge Rodrigo da Cunha .– 2010.
172f.; il.

Orientadora: Maria Leônidas Chaves de Resende.

Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de São João


del-Rei, Departamento de Ciências Sociais, Política e Jurídicas.

Referências: f. 158-172.

1. Família – Vila de São José – História – Séc. XIX – Teses.


2. Mulheres – Vila de São José – Condições sociais – Teses.
3. Mulheres – Vila de São José – História – Séc. XIX – Teses.
4.Família – Vila de São José – História – Séc. XIX – Teses.
I. Universidade Federal de São João del Rei. Departamento de
Ciências Sociais, Política e Jurídicas. II. Título.

CDU: 981.5”1795/1831”
JORGE RODRIGO DA CUNHA

DOMICÍLIO: LÓCUS DE AÇÃO E PARTICIPAÇÃO FEMININA (VILA


DE SÃO JOSÉ – 1795 - 1831)

Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em História, do


Departamento de Ciências Sociais, Políticas e Jurídicas, da Universidade Federal de São João
del-Rei, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em História.

Aprovada em _______ de _______________ de _______.

Banca Examinadora

___________________________________________________________________
Prof.ª Dr.ª Maria Leônia Chaves de Resende – UFSJ – Orientadora

___________________________________________________________________
Prof. Dr. Luciano Raposo Figueiredo – UFF

___________________________________________________________________
Prof. Dr. Marcos Ferreira de Andrade – UFSJ

___________________________________________________________________
Prof.ª Dr.ª Silvia Maria Jardim Brügger - UFSJ

SÃO JOÃO DEL-REI


2010
As minhas avós, Maria Izolina e
Maria Bernardina (in memoriam).
AGRADECIMENTO

Primeiramente, quero agradecer a obra de Deus em minha vida e por ter colocado
pessoas certas em meu caminho que contribuíram substancialmente durante o período do
Curso de Mestrado, algumas por escolha Dele, “ficaram para trás”, mas presentes em meu
coração e nas minhas lembranças. Foi Ele que me deu força nos momentos mais difíceis,
quando nas noites frias de São João, recluso em meu quarto, cansado do trabalho, à frente do
computador por diversas vezes pensei em desistir.

Aos mortais, quero agradecer à amiga e companheira de república Lidiane, por ter me
acompanhado nesta jornada, convivendo e suportando todo o meu período de “TPM”
(comparo o período de escrita a TPM). À Suelen sempre pronta para ouvir e proporcionar
deliciosos jantares e vinhos como se fosse uma válvula de escape. Denise pelo seu
companheirismo e incentivo. Não podia deixar de mencionar alguns nomes que também me
deram muitas forças, as vizinhas e amigas, Leidiane e Ana, os amigos e companheiros já de
algumas datas: Carlinhos, pelos comentários e sugestões, Felipe, Alice e Zélia, sempre
prontos a ajudar. Em especial, a Clarice pelo exemplo de força e superação.

Aos diretores do Presídio Regional de São João del-Rei que me possibilitaram


ausenta-se do trabalho nos dias de aulas para cumprir a carga horária exigida pelo curso.
Lembrando das pessoas de Diovane Cardoso (in memoriam), Givanildo, Eduardo, Luciana
Aparecida, Ronald Bauer, Charles Wilson, Giordano e todos os funcionários do PRSJDR, em
especial, os amigos João, Marcos e Daniel cúmplices de algumas sonecas no local de trabalho
para recompensar as madrugadas em que estive estudando.

À equipe do Iphan – São João del-Rei/MG – não apenas por permitir o acesso a
documentação, mas pela cordialidade, prontidão e auxílio técnico durante todo o período em
que pesquisei nas dependências da instituição, em particular, ao estagiário Rafael, aluno do
curso de História UFSJ. À Renata que ajudou em parte na leitura e coleta de dados dos
testamentos e inventários post-mortem. Ao professor Tiburcio pela revisão do texto.

À professora e também orientadora Leônia Resende que foi peça fundamental para
conclusão do trabalho. Não apenas pelas orientações e indicações relevantes, mas pelo seu
companheirismo, carinho e por ter acreditado, sobretudo, em meu trabalho. Não podia deixar
de lembrar que quando todo céu parecia cair sobre minha cabeça, teve conselhos e sugestões
vi
pertinentes, entre eles quando tive que tomar a árdua decisão de sair do emprego para dedicar
aos estudos. Fica aqui também o meu agradecimento a Reuni pela bolsa de estudo durante os
oito meses finais do curso.

Com mesmo sentimento, sou grato a todos os professores dos DECIS e do Programa
do Curso de Mestrado da UFSJ que por meio de seus ensinamentos, ainda, é possível
alimentar o sonho de um ensino público de qualidade. Não poderia deixar de citar os
professores: João Paulo; Danilo; Wlamir; Luz; Moisés; Ivan; Afonso; Cássia, que fizeram
parte da minha formação acadêmica. O meu muito obrigado também aos secretários, Ailton e
Luciana, do Programa de Mestrado que sempre estiveram prontos para nos atender.

Tenho que indicar o meu reconhecimento e agradecimento todo particular a Banca de


Defesa, que foi também a Banca de Qualificação, por reservar parte do tempo e estar presente
aqui. O professor Luciano Figueiredo que aceitou prontamente o convite da professora Leônia
para compor a banca e também pelas orientações e sugestões. O professo Marco Andrade
pelas orientações e por ter aceitado o convite. A professora Silvia Brügger como suplente,
mas também pelos seus ensinamentos desde os tempos da graduação.

Carinhosamente, quero agradecer à Dani por sua companhia, tolerância e momentos


maravilhosos que levarei em meu coração para sempre, dona Dalila por me acolher em sua
casa nos períodos em que estive em São João e pelo exemplo de força e superação. Aos
amigos da primeira turma de História da UFSJ e in memoriam quero, ainda, lembrar do amigo
“jown” que sempre quando estava triste e desanimado me dava exemplos de superação e
alegria todas às manhãs.

Por último, deixo para agradecer as pessoas mais especiais da minha vida que amo
tanto e razão de tudo isso: minha família. Sem eles não seria possível a conclusão desse
trabalho. Meus pais, Jorge e Dica, que foram exemplos de força, dedicação e superação,
principalmente na reta final. Minha irmã “ia”, meu sobrinho Pedro e meu cunhado Wallace
que sempre acreditaram em mim e por ter orado em favor da minha vida.

E, por fim, a conclusão do curso pode ser para alguns, como ouvi ironicamente de
muitos, uma perda de tempo, e isso ouvi de pessoas que estão inseridas no próprio mundo
acadêmico, mas com certeza depois de olhar para trás e perceber todo caminho trilhado, só
tenho a dizer que os sentimentos de realização e superação, sobressaem.

vii
“O homem é assombrado pela vastidão da eternidade,
então perguntamos a nós mesmos: irão nossos atos ecoar
através dos séculos, estranhos ouvirão nossos nomes
muito depois de termos partido e imaginarão quem fomos,
o quanto lutamos bravamente, o quanto amamos
intensamente?...”

( Ilíada– Homero)
viii
RESUMO:

O presente trabalho trata de questões relativas à família mineira na virada do século XVIII e
início do XIX, especialmente no que diz respeito às mulheres chefes de domicílios na vila de
São José del Rei, atual cidade de Tiradentes. A partir da quantificação das mulheres chefes de
família nos anos de 1795 e 1831/32, mediante o exame de alguns inventários e testamentos
dessas e frente ao decréscimo populacional da vila, sobretudo pela evasão masculina,
buscamos analisar as configurações e situações familiares nesses domicílios em relação ao
grupo social, estado civil, ocupação e composição geral dos arranjos domésticos, levando em
consideração a presença ou não de escravos e agregados. Propomos, ainda, resgatar elementos
do cotidiano, das relações sociais e do papel que as mulheres exerciam na sociedade são-
joseense. Paralelamente aos valores e normas vigentes que estabeleciam a submissão e
desvalorização social feminina, as mulheres souberam recriar práticas e utilizar do próprio
universo doméstico para estabelecer seus projetos de vida, sendo a chefia do domicílio mais
uma das suas atribuições. Para tanto, entendemos que a família, independentemente do sexo
do seu chefe e não necessariamente fundada no sacramento religioso, se constituía, além da
base do sistema econômico, numa rede de relações sociais que ultrapassava os limites dos
laços consangüíneos, como por exemplo, os laços de parentela, de vizinhança e de
solidariedade mútua.

Palavras-Chaves: Família; Mulheres Chefes de Domicílios; Século XIX.

ix
ABSTRACT:

This paper deals with issues related to the family of Minas Gerais in the turn of the eighteenth
and early nineteenth centuries, especially concerning the women head of households in the
village of São José del Rei, the current city of Tiradentes. From the quantification of the
female head of households in the years 1795 and 1831/32, through the examination of some
of those women’s inventories and wills, and facing the village population decrease, especially
by the men’s evasion, we try to analyze the settings and familiar situations in these domiciles
in relation to the social group, marital status, occupation and general composition of the
domestic arrangements, taking into account the presence or absence of slaves and aggregates.
We also propose to recover elements from the daily life, social relations and from the role that
women played in the “são-joseense” society. In parallel with the values and norms in form
which settled the feminine submission and social devaluation, women knew how to recreate
practices and to make use of the domiciliary universe itself to establish their life projects, and
to be the head of a household was one more of their duties. For this, regardless the sex of its
head, and not necessarily established on a religious sacrament, we understand that the family,
besides the economic system basis, constituted itself in a network of social relations that went
beyond the limits of blood ties, such as ties of kinship, neighborhood and mutual solidarity.

Keywords: Family; Female head of households; Nineteenth century.

x
SUMÁRIO

Agradecimentos ...................................................................................................................... vi
Resumo .................................................................................................................................... ix
Abstract .................................................................................................................................... x
Lista de tabelas ........................................................................................................................ 1
Lista de figuras ........................................................................................................................ 2
Lista de abreviaturas .............................................................................................................. 3
Introdução ................................................................................................................................ 4
Capítulo 1 - A vila de São José no contexto das Gerais ..................................................... 11
1.1 - Minas Gerais na virada do século XVIII e início do século XIX ................................... 11
1.2 - A vila de São José ........................................................................................................... 18
1.2.1 - Esvaziamento urbano .................................................................................................. 22
1.2.2 - A população da vila de São José ................................................................................. 31
1.3 - Chefia feminina: vários fatores ....................................................................................... 36
1.3.1 - Chefia feminina e patriarcalismo ................................................................................ 39

Capítulo 2 - Sentido de família: casamento e outras possibilidades ................................. 50


2.1 – Casar: contrair possibilidades e selar alianças ............................................................... 51
2.2 – Concubinato: uma relação não antagônica ao casamento .............................................. 56
2.3 – Estado conjugal das mulheres chefes de domicílio ........................................................ 65
2.3.1 - O solteirismo entre as mulheres chefes ....................................................................... 71

Capítulo 3 - Domicílio: local de convívio e atuação feminina ........................................... 82


3.1 – Família: o mesmo que domicílio? .................................................................................. 83
3.2 – Aspectos domiciliares .................................................................................................... 85
3.2.1 – Os quintais ................................................................................................................... 89
3.3 – Trabalho feminino .......................................................................................................... 91
3.3.1 – Ocupações das mulheres chefe de família da vila de São José ................................... 94
3.3.2 – Presença de escravos nos domicílios chefiados por mulheres de São José ................ 99
3.3.3 – Trabalho familiar e a presença de agregados ............................................................ 106
3.3.4 – Na rua e no balcão ......................................................................................................111
3.3.5 – Produção têxtil e olhar de Saint-Hilaire: mulher, domicílio e indústria têxtil
doméstica .....................................................................................................................................
............115
Capítulo 4 - Vivência e atuação feminina ......................................................................... 124
4.1 – Sucessão do patrimônio ............................................................................................... 127
4.2 – Preocupação com o momento da morte ....................................................................... 138
4.3 – Objetos pessoais ........................................................................................................... 146

Considerações finais ............................................................................................................ 154

Fontes ....................................................................................................................................157

Referências bibliográficas ...................................................................................................158


LISTA DE TABELAS

Capítulo 1

Tabela 01 - Ocupações: população da vila de São José, 1831/32 .......................................... 28


Tabela 02 - População segundo sexo, cor e idade, vila de São José, 1795 ............................ 33
Tabela 03 - População segundo sexo, condição e idade, vila de São José, 1831/32 .............. 34

Capítulo 2

Tabela 04 - Estado conjugal das mulheres chefes de famílias da vila de São José, nos anos de
1795 e 1831/32 ........................................................................................................................ 66
Tabela 05 - Discriminação dos bens da falecida Luiza Maria da Assunção .......................... 68
Tabela 06 - Mulheres chefes solteiras com filhos em seus domicílios, vila de São José, em
1795 ......................................................................................................................................... 77

Capítulo 3

Tabela 07 - Ocupação das mulheres chefes de domicílio, vila de São José em 1831/32 ....... 95
Tabela 08 - Faixa etária e estado conjugal das mulheres chefes de família por cor da pele, na
vila de São José nos anos de 1795 e 1831/32 ......................................................................... 97
Tabela 09 - Mulheres chefes de famílias que viviam sozinhas, em companhia de crianças (0 a
10 anos) ou de escravo, na vila de São José nos anos de 1795 e 1831/32 .............................. 98
Tabela 10 - Posse de escravos nos domicílios chefiados por mulheres na vila de São José no
ano de 1795 ........................................................................................................................... 100
Tabela 11 - Posse de escravos nos domicílios chefiados por mulheres, vila São José
1831/32 .........................................................................................................................................
....... 101
Tabela 12 - Faixa etária dos escravos nos domicílios chefiados por mulheres, vila de São José
nos anos de 1795 e 1831/32 .................................................................................................. 104

Capítulo 4

Tabela 13 - Bens inventários do marido de Thereza Ignácia de Jesus, alferes José Antônio
Álvares .................................................................................................................................. 133
Tabela 14 - Bens inventariados D. Bernarda Francisca de Faria ......................................... 135
Tabela 15 - Composição dos bens encontrados no cômodo comercial da viúva Maria
Custódia de Almeida ............................................................................................................. 152

1
LISTA DE FIGURAS

Capítulo 3

Figura 01 - Fluxograma do domicílio de Anna Maria de Jesus em 1795 ............................ 110

Capítulo 4

Figura 02 - Esboço da décima predial de 1826 – vila de São José ...................................... 131

2
RELAÇÃO DE ABREVIATURA

ACMT - Arquivo da Câmara Municipal de Tiradentes.

IHG - Instituto Histórico e Geográfico

IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

RAPM - Revista do Arquivo Público Mineiro

3
INTRODUÇÃO

O imaginário da sociedade brasileira na primeira metade do século XIX reportava ao


sexo feminino como a imagem do mal e da redenção, respectivamente, a origem do pecado e
a figura da Virgem Maria. Prevaleciam as ideias contraditórias e ambíguas em relação à
mulher que, ao mesmo tempo, inspiravam poetas e escritores. Embora as contradições possam
significar algum avanço, a imagem que predominou em relação à mulher foi aquela ligada à
desclassificação social, inferioridade biológica e reclusão doméstica. Tal concepção viria da
tradição da cultura ocidental cristã que serviu de modelo para que reinos e nações europeias
desenvolvessem suas leis, assim, foi com Portugal e, posteriormente, por ser sua Colônia, com
o Brasil. Juristas, pensadores leigos e eclesiásticos defenderam, ao longo do tempo, a
insuficiência da mulher. Seja nos escritos do Antigo Testamento, na filosofia ou no direito
romano clássico, a subordinação feminina era explicada por questões sociais, religiosas e
fatores intrínsecos a fisiologia da mulher, bem como pelo desregramento do sexo.1

É inadequado hoje falar-se de uma história da mulher. Não existe um marco que possa
delimitar o início das pesquisas históricas. Toda temática tem suas contribuições e debilidades
em relação aos estudos sobre a presença feminina.2 Com o decorrer dos anos, os estudos
históricos, biográficos, antropológicos e sociológicos demonstraram as mulheres na sua
diversidade seja por um viés social, cultural, étnico, político, econômico, seja religioso.

O que ocorreu para o desenvolvimento da história das mulheres, não necessariamente


nessa ordem, foi o aprimoramento das pesquisas, a incorporação de novas temáticas, o
surgimento de novos problemas, a valorização de objetos de estudos e grupos sociais antes

1
HESPANHA, António Manuel. “O estatuto jurídico da mulher na época da expansão”. In: Oceanos, n. 21,
1995, pp. 8-16.
2
A história econômica vislumbra a mulher improdutiva, e a social lembra o estudo das classes sem atentar para
os conflitos existentes na oposição dos sexos. Há de se indicar o positivismo restrito à história política e aos
documentos oficiais, maiormente produzidos por homens. Nesse sentido, não desvalorizavam apenas a presença
feminina, mas o cotidiano de forma geral. A história cultural ou das mentalidades trata o “homem em geral, tão
assexuado quanto à humanidade”. PERROT, Michele. Os excluídos da história: operários, mulheres e
prisioneiros, 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1992, pp. 178-185. Outros estudos sobre o foco da história social se
remetem às mulheres enquanto categoria homogênea, havendo, portanto, uma essência comum a todas as
mulheres. Em grande medida, a mulher não era incorporada de imediato nas perspectivas históricas, por
exemplo, elas não eram o foco de estudo da Escola dos Annales; no entanto, suas análises contribuíram
posteriormente para o estudo das mulheres. SOIHET, Rachel. “História das mulheres”. In: CARDOSO, Ciro
Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (orgs.). Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro:
Campus, 1997, p. 277.
esquecidos, a interdisciplinaridade e a ampliação do conceito de fonte. Essas transformações
foram acompanhadas pelo “despertar de um ideal feminino” ligado às lutas por melhores
condições trabalhistas e profissionais, movimento já presente nas décadas de 1940 e
intensificado na década de 1970, principalmente na Europa Ocidental e Estados Unidos.3

No campo da pesquisa histórica, a história cultural e a história social contribuíram para


a valorização de grupos sociais antes renegados como os operários, camponeses e as pessoas
comuns. O dialogo com outras disciplinas – literatura, sociologia, psicologia e antropologia –
e as abordagens que apreciavam o cotidiano e as manifestações sociais favoreceram os
estudos referentes à formação das identidades coletivas, temas centrais que proporcionaram
indiretamente o aperfeiçoamento das análises sobre as mulheres.

O sociólogo Gilberto Freyre, estudioso da sociedade colonial brasileira, foi um dos


primeiros a salientar a figura feminina, sobretudo, ao que se refere às relações domésticas. 4
Apesar de o autor aparentemente corroborar a ideia da submissão feminina aos valores
patriarcais, seus escritos chamaram a atenção para a mulher não apenas como “instrumento de
trabalho, mas como elemento de formação da família” brasileira.5 Mais do que uma questão
de gênero,6 a oposição homem X mulher, na obra de Freyre, diz respeito à distinção dos
grupos sociais que compunham a sociedade no Brasil. O autor não deixa de mencionar e
ressaltar as mulheres que assumiam a posição de senhoras de engenho e aquelas que

3
Sobre a história das mulheres, ler SOIHET, Rachel. “História das mulheres”.
4
O autor contrapunha as mulheres abastadas às mulheres pobres. As primeiras, chamadas de donas, deveriam se
conservar no interior das moradas, quando pouco eram vistas nas varandas ou janelas vendo a vida passar pela
rua. Quando se arriscavam a sair às ruas corriam o risco de serem confundidas com mulheres da rua, daí a
imagem da mulher reclusa ao ambiente familiar. Por outro lado, Freyre demonstra que as mulheres das camadas
mais pobres deveriam “conquistar” o espaço público e interagir no vai e vem das ruas com homens e com outras
mulheres na mesma situação, a fim de garantir a sobrevivência, ora desempenhando atividades especializadas,
ora se prostituindo; as escravas deveriam servir a seus senhores desempenhando uma serie de atividades ou
atendendo aos seus desejos sexuais. FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos: decadência do patriarcado
rural e desenvolvimento do urbano. 5. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio- INL, 1977, p. XLII.
5
FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. 11. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1961, p. 23.
6
Falar sobre a historia das mulheres é se remeter ao conceito de gênero. Para Rachel Soihet, o conceito “se
torna, inclusive, uma maneira de indicar as ‘construções sociais’ – a criação inteiramente social das ideias sobre
os papéis próprios dos homens e das mulheres”. O importante da posição da autora é a irrelevância de se
compreender a relação e as disputas entre homem e mulher de forma separada ou autônoma sem nenhuma
correlação. Nesse sentido, a questão das contradições dos sexos não se explica pela oposição homem X mulher,
mas passa a ser no campo da discussão social e histórica, deixando de lado, por exemplo, preceitos e
determinações de caráter biológico. No entanto, existem criticas e riscos a esse modelo, sobretudo, pela questão
de que o conceito seja associado apenas aos estudos que abordam a questão da mulher e, com isso, o risco de
imputar à mulher nos usos e nos costumes, de tal modo a intitulá-la como um ser isolado do contexto histórico.
SOIHET, Rachel. “História das mulheres”, p. 279; PERROT, Michele. Os excluídos da Historia: operários,
mulheres e prisioneiros, pp. 178-187.
5
administravam fazendas e escravos ou participavam de motins e guerras, todas demonstrando
grande energia social e a capacidade de ação feminina.7

No Brasil, os primeiros trabalhos dedicados à historia das mulheres se pautaram em


analisar as vivências das mulheres dos grupos não abastados, salientando as experiências e o
modo como elas se posicionaram e se relacionaram com espaço em que viveram.8 Em Minas,
de uma posição coadjuvante na história, a partir das últimas décadas do século passado,
trabalhos no campo da história demográfica favoreceram o estudo sobre a atuação das
mulheres mineiras no século XIX, principalmente por detectar altos números de fogos
chefiados por mulheres.9 Pautados nas diversas formas da família mineira e na contraposição
senhor X escravo, esses trabalhos comprovaram, ao invés da imagem de passividade, a
presença feminina e sua ação, revelaram mulheres ricas, pobres, brancas, pardas, crioulas,
libertas, escravas, africanas, donas, viúvas, casadas e solteiras. Em face, das possibilidades da
história social, os estudos alargaram os focos de análise, a fim de compreender a vida e o
cotidiano dessas mulheres.

Contudo, ainda são necessárias análises mais aprofundadas de recortes regionais com
o desígnio de compor o cenário e objetivar a participação das mulheres na configuração da
dinâmica da sociedade mineira oitocentista. Para tanto, adotamos como objeto de investigação
as mulheres chefes de domicílio da vila de São José.

A vila de São José estava inserida na comarca do Rio das Mortes, considerada uma das
regiões mais desenvolvida e dinâmica, e tem como pano de fundo as Minas Gerais da virada
do século XVIII e início do XIX. O recorte histórico investigado se limita entre anos de 1795
e a década de 1830. Os limites temporais correspondem aos anos de realização de duas listas
nominais referentes à vila de São José, adotadas como fontes demográficas e ponto de partida
para o estudo, respectivamente, o Rol dos Confessados,10 que arrolou os indivíduos em idade

7
FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano, p.
95.
8
Nesse sentido, temos o trabalho importante como o da historiadora Maria Odila da Silva Dias, que analisa as
mulheres pobres, chefes de família, da cidade de São Paulo, nas primeiras décadas do século XIX. A autora
demonstra que mesmo vivendo num ambiente precário e desempenhando atividades desqualificadas socialmente,
essas mulheres foram capazes de estabelecerem estratégias de sobrevivência que compunham redes de
solidariedade e de vizinhanças que garantiam a sobrevivência, em alguns casos, a de todos os membros da
família a incluir os agregados. DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e poder em São Paulo no século
XIX. São Paulo: Brasiliense, 1995.
9
RAMOS, Donald. “A mulher e a família em Vila Rica do Ouro Preto: 1754-1838”. In: História e população:
estudos sobre a América Latina. São Paulo: ABEP. 1990; COSTA, Iraci Del Nero da. Vila Rica: população
(1719-1820). São Paulo: IPE/USP, 1979.
6
de se confessar na Matriz de Santo Antônio, as Listas Nominativas,11 similarmente, listou os
moradores da vila. Contudo, em alguns momentos ultrapassamos esse marco temporal,
percorrendo datas ao longo do século XIX, devido ao fato de analisarmos alguns inventários e
testamentos que dizem respeito às mulheres chefes de famílias.

Apesar do caráter distinto das duas listas adotadas aqui, as fontes têm em comum a
tentativa de identificar os moradores da vila em momentos diferentes, incluindo informações
importantes sobre os indivíduos e seus respectivos fogos ou domicílios. O Rol de
Confessados abrange a paróquia de Santo Antônio da vila de São José, que era composta além
da vila pelas freguesias de Passatempo, Bichinho, Lage, Desterro, Padre Gaspar, Oliveira,
Cláudio, Japão, São João Baptista. Não obstante, nos restringirmos aos dados referentes à
vila. A documentação traz listadas todas as pessoas livres e escravas que se confessaram
durante o ano de 1795, excluídas as crianças com menos de 07 anos.

As Listas Nominativas são documentos elaborados por distritos de paz e tem como
perspectiva realizar uma espécie de censo provincial. 12 Como o Rol, trazem a relação nominal
dos indivíduos listados em cada fogo, com algumas características pessoais e domiciliares
como data, nome do distrito, número do quarteirão, número do fogo, o nome dos moradores, a
idade, o estado civil, a qualidade (distinção pela cor da pele), a condição (livre ou escrava), a
ocupação, a presença ou não de dependentes e a posse de cativos, que representava uma
referência à detenção de riqueza.

De modo complementar, a partir do levantamento dos nomes das mulheres chefes de


famílias da vila de São José, nos dois períodos de 1795 e 1830, buscamos localizar
inventários e testamentos em que elas aparecem como inventariadas ou inventariantes.
Entretanto, em alguns casos, por falta de informação, tais como ausência de sobrenome,
homônimos ou mesmo discordância dos nomes não foi possível localizar um número extenso
de documentos envolvendo essas mulheres. Ao todo foram utilizados 20 documentos
10
“Rol dos Confessados desta Freguezia de S. Antonio da Villa de S. Joze, Comarca do Rio das Mortes, deste
prezente anno de 1795”. Banco de dados do Microsoft Access organizado pelos prof’s. Dr’s. Clotilde Paiva e
Douglas Libby; original IHG Tiradentes/MG.
11
“Listas Nominativas dos Habitantes da Vila de São José del Rei; 1831”. Banco de dados do Microsoft Access
organizado por equipe de pesquisadores do CEDEPLAR-UFMG, sob a coordenação da Profª. Drª. Clotilde
Paiva; original Arquivo Público Mineiro.
12
A abrangência das Listas Nominativas para Minas Gerais é de 59% do total de distritos de paz da província,
tendo uma cobertura de 242 localidades, registrando 413.286 pessoas, das quais 217.827 eram homens e
195.459, mulheres. Nesses dados, encontramos 63.983 domicílios, dos quais 17.375 eram chefiados por
mulheres, 27% da amostra. Sobre aspectos e detalhamento das Listas Nominativas de 1831/32, ver PAIVA,
Clotilde de Andrade. População e economia nas Minas Gerais do Século XIX. Tese (Doutorado em História).
USP, São Paulo, 1996, pp. 54-75.
7
envolvendo as mulheres chefes de família. Vale ainda lembrar que os dados demográficos
dizem respeito a momentos específicos de vida desses indivíduos e que pela grande
mobilidade geográfica do século XIX, esses podem ter mudado para outras regiões.

Quando possível, até mesmo para suprir em alguns casos a carência ou


incompatibilidade de nomes e sobrenomes, cruzamos os nomes das listas nominais com as
informações dos Livros de Casamentos da Freguesia de Sto. Antônio da Vila de São José,
1782-1860, organizado pelo Professor Dr. Afonso de Alencastro G. Filho. Recorremos
também ao banco de dados da Câmara de Tiradentes - ACMT - Arquivo da Câmara
Municipal de Tiradentes - e ao Banco de Dados do Arquivo Eclesiástico – Documentos
Avulsos e Códices – das Paróquias e Capelas Filiais da Diocese de São João del-Rei (Minas
Gerais – Séculos XVIII-XIX), sendo o último organizado pela Professora Drª. Maria Leônia
Chaves de Resende.

Os inventários post-mortem são processos judiciais destinados à legalização da


transferência dos bens, ou seja, envolve o processo de partilhas da herança. Os documentos
trazem ainda o nome do inventariado, a data do óbito, o estado civil do falecido, o nome do
cônjuge (quando casado), a filiação e os nomes, estado civil, idade, grau de parentesco, entre
outras informações dos herdeiros. Já os testamentos nos revelam a disposição dos bens e da
fortuna da família. Trazem, ao mesmo tempo, informações pessoais referentes ao testador,
bem como as concernentes a sua vida religiosa.

A utilização dessas fontes se deve, principalmente, por trazerem informações sociais,


econômicas, culturais, religiosas, políticas e administrativas. Do mesmo modo, tratam da
questão de sucessão dos bens, da herança e dos legados deixados, além de nos revelarem
questões familiares e nos permitirem conhecer acerca das estratégias de sobrevivências. Os
inventários e testamentos analisados encontram-se no Arquivo do IPHAN de São João del-
Rei.

O primeiro contato com as mulheres chefes de família especificamente na vila de São


José foi por meio das Listas Nominativas, os dados demográficos revelaram um alto número
de domicílios chefiados por mulheres na vila, exatamente 43% das unidades. Diante das
transformações econômicas ocorridas em Minas Gerais, nas primeiras décadas do século XIX,
decidimos retroceder 35 anos para verificar os dados do Rol dos Confessados para vislumbrar
se o alto número de fogos chefiados por mulheres era uma característica momentânea da vila
ou uma característica que tinha ligações históricas com épocas passadas. Os dados
8
encontrados foram próximos aos da década de 1830, 39% dos domicílios da vila eram
representados por mulheres. Sendo assim, a vila se nos revelou como uma das maiores
concentração de domicílios encabeçados por mulheres da comarca do Rio das Mortes.

A partir daí surgiu uma pergunta orientada pela premissa de que por muitos anos a
historiografia fez uma história dos homens. O que dizer desses altos números, deixá-los para
trás? Diante de tal argumentação, resolvemos nos aventurar pelas ruas, vilelas e becos da vila
de São José, tendo em vista conhecer essas mulheres que se apresentavam à frente de seus
domicílios.

Nosso trabalho se envereda pelo viés da historia social13 não apenas na oposição à
história factual centrada na ação de grandes homens, mas do ponto de vista da formulação de
novos problemas e paradigmas. No sentido thompsoniano ou da “história vista por baixo”,
essas mulheres compunham os grupos das pessoas comuns, não somente pela submissão ao
sexo masculino, mas pela posição secundária que assumiam dentro da sociedade. Para isso,
basta analisar a legislação, o acesso ao ensino, a literatura, a participação na política e a visão
de servidão proposta pela Igreja para situar a mulher colonial e imperial.

Para tanto, utilizamos a demografia enquanto perspectiva central para uma visão mais
abrangente da questão e da vila de São José. Sob a ótica da história da família ou histórias das
famílias14 verificamos os arranjos familiares, a concepção de família, as relações e estratégicas
do grupo das mulheres chefes de domicílios.

Subdividimos o trabalho em quatro capítulos, todos focando e se relacionando aos


aspectos acima mencionados. O primeiro capítulo apresenta algumas características do
cenário socioeconômico de Minas Gerais, circunscrevendo a comarca do Rio das Mortes e a
região da vila de São José. Vale posicionar que a sociedade mineira escravista não se
destacava apenas pela atividade mineradora, ainda presente nos oitocentos, mas pelo seu
dinamismo econômico delineado pela produção agrícola e o vasto número de atividades
manuais e mecânicas, entre elas a indústria têxtil doméstica tão difundida nas Gerais, cenário
completado pela estreita ligação comercial com a cidade do Rio de Janeiro. Ao se abordar a
vila, procuramos privilegiar aspectos demográficos e econômicos na tentativa de revelar o
13
Para compreender a formulação do termo historia social e o seu uso enquanto problemática e metodologia, ver
CASTRO, Hebe. “História social”. In: CARDOSO, Ciro Flamarion e VAINFAS, Ronaldo (orgs.). Domínios da
história: ensaio de teoria e metodologia.
14
Segundo Sheila Faria, apesar de ser possível apontar elementos comuns, predominou no Mundo Ocidental
Cristão a diversidade de formas familiares. FARIA, Sheila S. de Castro. “História da família e demografia
histórica”. Ibidem.
9
dinamismo de São José, com objetivo de perceber a forma em que essas mulheres estavam
inseridas e agiam enquanto agentes históricos.

Tendo em mente a importância da família para a configuração da sociedade colonial e


imperial brasileira e diante do alto número de fogos chefiados por mulheres, decidimos, então,
no segundo capítulo, voltar a nossa análise para a questão do significado que a família tinha
no período. Impossível fugir à regra, foi necessário, nesse sentido, tratar dos significados das
relações de casamento e concubinato para a sociedade, com o intuito de perceber se aquelas
mulheres, independentemente de estarem casadas ou não, estabeleciam projetos por meio das
relações familiares.

Diante da seguinte pergunta: com que recursos essas mulheres garantiam o sustento de
suas famílias? Buscamos, no terceiro capítulo, mediante a abrangência do termo domicílio
para a sociedade oitocentista, a relação que as mulheres-chefes tiveram no uso do espaço
físico, o domicílio. Em alguns casos, o espaço correspondia concomitantemente ao espaço da
morada e do trabalho, destaque para sobreposição do trabalho familiar e escravo. A partir daí
só, já seria possível destacar a sua complexa estrutura. No entanto, em seu interior
sobressaiam também as relações interpessoais de cumplicidades e dependência mútua entre os
moradores (ampliando, assim, o sentido de família), tais como a relação entre chefes de
família, familiares, parentes, escravos e agregados sem relação de parentesco. Há exemplos
em que a família englobava de uma só vez todas essas relações. Para o “sucesso” da
empreitada familiar deveria haver a participação e a conivência de todos os envolvidos para a
execução das tarefas diárias e das atividades econômicas, quando essas aconteciam no interior
da própria unidade domiciliar.

E, por fim, o quarto capítulo se dedica em resgatar experiências vivenciadas por


algumas das mulheres listadas como chefes de famílias, presentes nas duas listas nominais. A
escolha foi arbitrária no sentido de ter favorecido aqueles casos em que foi possível ajuntar
um número maior de fontes envolvendo as “personagens”. Sobretudo, a análise privilegia as
informações dos inventários que envolvem essas mulheres, sendo que, em alguns casos, elas
não aparecem inventariadas, mas sim como inventariantes.

10
CAPÍTULO 1

A VILA DE SÃO JOSÉ NO CONTEXTO DAS GERAIS

1.1 - MINAS GERAIS NA VIRADA DO SÉCULO XVIII E INÍCIO DO SÉCULO XIX

Para se entender o cotidiano das mulheres chefes de famílias da vila de São José, neste
período, é preciso contextualizar e situar o ambiente socioeconômico da sociedade em que
viveram, sobretudo, para se aproximar o mais possível das suas relações estabelecidas não só
com o meio social, mas na utilização do espaço físico ou, em outras palavras, determinar a
maneira como elas relacionavam-se com o ambiente e conseguiam estabelecer suas estratégias
de sobrevivência.

Para isso, serão analisados, neste capítulo, alguns aspectos socioeconômicos e


populacionais, respectivamente, da província de Minas Gerais, da comarca do Rio das Mortes
e da vila de São José, exercício necessário para apontar a importância econômica da vila no
cenário das Gerais nas primeiras décadas do século XIX, o que vem contrariar a visão de que
a região das minas teria sido polo de atração econômica apenas nos tempos de auge da
mineração e sofrido de forma geral forte retração econômica nas últimas décadas do século
XVIII.1

Desde as décadas de 1980/90, vários trabalhos buscaram reinterpretar a economia


mineira, em especial a dinâmica e complexidade de seu mercado interno, contrapondo-se à
hipótese de que, com o declínio da produção mineradora, havia ocorrido a decadência da
economia mineira. As conclusões mais sólidas apontam que o que ocorreu foi que a atividade
mineradora deixou de ser a atividade econômica principal de Minas, dividindo o espaço com
outras atividades que já existiam anteriormente como a pecuária, a agricultura de
abastecimento e um pujante setor de transformação.2
1
Entre os autores que defendem a ideia de decadência econômica em Minas, temos FURTADO, Celso.
Formação econômica do Brasil. 18. ed. São Paulo: Nacional, 1982. IGLÉSIA, Francisco. Trajetória política
do Brasil (1500-1964). São Paulo: Cia das Letras, 1993.
2
Nesse sentido, ver MARTINS, Roberto Borges. “Minas e o tráfico de escravos no século XIX, outra vez”. In:
História & perspectivas. Uberlândia, n. 11, 1994. MARTINS, Roberto Borges. A economia escravista de
Minas Gerais no século XIX. Belo Horizonte: CEDEPLAR/ UFMG, 1980. MARTINS, Roberto Borges.
“Minas Gerais, século XIX: tráfico e apego à escravidão numa economia não-exportadora”. In: Estudos
Econômicos, v. 13, n. 1, 1983. LIBBY, Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma economia
escravista: Minas Gerais no século XIX. São Paulo: Brasiliense, 1988. SLENES, Robert W. “Os múltiplos de
porcos e diamantes: a economia escravista e Minas Gerais no século XIX", In: Cadernos IFCH/UNICAMP, n.
Mesmo no auge da mineração, a economia minera não se restringia apenas à produção
mineradora e seus expoentes sociais: escravos e mineradores. Affonso Ávila aponta a
diversidade social da capitania de Minas Gerais, que se definiria por “uma vida urbana ativa e
diversificada, com variado comércio, ofícios qualificados e prestigiosos veículos de
representação laico-religiosa dos diferentes grupos sociais ou camadas raciais”.3 A sociedade
mineira seria marcada, por um lado, pelos grandes comerciantes, clérigos e funcionários
públicos e, do outro, pelos pequenos comerciantes, artesãos, pequenos proprietários, não
proprietários e trabalhadores livres de ambos os sexos. Ao mesmo tempo, nas mediações das
áreas auríferas se desenvolviam as atividades ligadas à agricultura e a pecuária. 4 Não se
produzia somente para o consumo, sendo o excedente destinado para o abastecimento das
minas e centros urbanos e, na passagem para o século XIX, para o comércio intraprovincial
com a Praça do Rio de Janeiro.5 No decorrer dos anos, essas atividades, subsidiárias durante a
mineração, se alargaram e se aperfeiçoaram, dando outro contorno à economia mineira dos
oitocentos. Para descrever essa substituição gradual da razão de ser da economia escravista
mineira, Libby utiliza-se do conceito de “economia em acomodação evolutiva”. Segundo ele,
as atividades de transformações, entre elas siderurgia e a indústria têxtil, bem como a
agropecuária, coexistiram com a mineração e, no decorrer do processo de contração da
extração de metais preciosos, ganham formas mais expressivas no cenário econômico das
Minas Gerais.6

O nosso recorte cronológico que corresponde aos anos de 1795, ano do Rol dos
Confessados e o início da década de 1830, anos das Listas Nominativas, insere-se no contexto
do processo de transformação das estruturas coloniais e, paralelamente, da crise do sistema
colonial no Brasil (1780-1830).

17, 1985.
3
ÁVILA, Affonso. “Inconfidência: projeto de nação possível”. In: O Lúdico e as projeções do barroco II:
áurea idade da áurea terra. 3. ed. atualizada e ampliada. São Paulo: Perspectiva, 1994. Apud SILVA, Wlamir.
Liberais e povo: a construção da hegemonia liberal-moderna na Província de Minas Gerais (1830-1834). São
Paulo: Hucitec, 2009, p. 49.
4
A agricultura era notória desde o início da formação das primeiras vilas mineiras devido à necessidade de
abastecimento das áreas urbanas mineradoras. MAXWELL, Kenneth R. A devassa da devassa – a
Inconfidência Mineira: Brasil-Portugal 1750-1808. 3. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1995, pp. 108-112; ver
introdução GRAÇA FILHO, Afonso de Alencastro. A Princesa do Oeste e o mito da decadência de Minas
Gerais: São João del-Rei (1831-1888). São Paulo: Annablume, 2002.
5
MAXWELL, Kenneth R. A devassa da devassa – a Inconfidência Mineira: Brasil-Portugal 1750-1808, p.
109.
6
LIBBY, Douglas C. Transformação e trabalho em uma economia escravista: Minas Gerais no século XIX,
pp. 14-48.
12
Nesse período, o Brasil passou por intensas transformações econômicas e sociais, que
se iniciaram com as reformas pombalinas, numa perspectiva de se reverter o estado de crise
do reino português e promover a integração e o desenvolvimento da indústria, agricultura e
comércio e se intensificaram com a vinda da Família Real para o Brasil em 1808, de tal modo
que, para Portugal garantir o domínio, era necessário se investir na máquina burocrática, na
diversificação do mercado interno colonial, na criação de vias de escoamento da produção até
os portos e na própria defesa do território.7

Nesse sentido, ocorre o fato de a expansão da agricultura em Minas Gerais encontrar-


se relacionada à própria política governamental de D. João VI, entre 1808 a 1820, que teria
continuidade com a política imperial, incluindo-se entre elas a política de povoamento e
interiorização do território brasileiro.8 O governo deveria tornar a economia capaz de “encarar
na globalidade a proteção ao campo, ao comércio marítimo e a indústria”.9 Para tanto, o
Estado incentivou o trabalho agrícola, garantindo, por exemplo, a posse de terra aos pequenos
produtores rurais, melhorias no escoamento da produção por rios, pela abertura de novas
estradas e melhoria das já existentes, sobretudo, avanços que tinham como justificativa a
estruturação de uma nova sociedade em prol da “causa pública”. Em 1808, o governo fixou o
Alvará de 21 de Janeiro, que proibia que os lavradores de cana e os donos de engenho
sofressem em decorrência de dívidas repressões fiscais.10 É importante não esquecer que,
nesse novo panorama econômico que se estabeleceu no Brasil, principalmente ao que se
refere à agricultura e à pecuária, Minas teve uma importância fundamental devido à estreita
ligação comercial com o Rio de Janeiro.

Nesse processo de estruturação da sociedade brasileira, lançado na virada do século


XVIII, que de certa forma não deixa de estar relacionado ao incentivo e expansão da
agricultura em Minas Gerais, está a criação de novos distritos, vilas e comarcas, com objetivo
7
NOVAIS, Fernando A. “As dimensões da Independência”. In: MOTA, C. G. (Org.). 1822 Dimensões. São
Paulo: Perspectiva, 1972, p. 23.
8
Maria Odila Silva Dias entende a formação da nação brasileira como resultado da interiorização da corte
portuguesa no Brasil e das relações inerentes desse acontecimento. Segundo a autora, teria havido uma
acomodação entre as partes portuguesas e brasileiras na defesa de proposições convergentes a um único ideal,
qual seja transformar a colônia na nova metrópole do Reino, colocando em prática um fato que, indiretamente, já
estava ocorrendo desde a chegada da família real, em 1808. Nesse sentido, o Estado adotou medidas que
visavam promover o desenvolvimento político, administrativo, econômico e social do Brasil. DIAS, Maria Odila
Leite da Silva. A interiorização da Metrópole e outros Estudos. São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2005.
9
SERRÃO, Joaquim Veríssimo. História de Portugal: a instauração do liberalismo. 3. ed. Lisboa: Verbo, 1994,
p. 182.
10
Ibidem, p. 181.
13
de estimular a aproximação das províncias antes dispersas, aumentando, assim, a
comunicação e a interação regional,11 e de incrementar a rede de intercâmbio comercial e,
concomitantemente, a defesa do território e o estímulo ao consumo interno e à exportação.
Não obstante, por meio da criação de novas vilas, conjugada ao trabalho agrícola, o Estado
tentava evitar o ócio e a mendicidade entre a população. Em síntese, sobre as transformações
econômicas e sociais ocorridas no período, José Arruda afirma que

o período de 1780-1830 é vital para que se possa compreender a trajetória brasileira.


Nublado pela experiência vitoriosa do ouro e do café, remetem a segundo plano a
produção de subsistência, a história do abastecimento, a dinâmica da economia
mercantil de subsistência, a força da diversificação econômica, que é a marca
indelével do período e, a partir da qual, pode-se entender a emergência de um
patamar mínimo de integração do Brasil no mercado mundial, ou seja, um mínimo
de articulação interna entre diferentes regiões e zonas produtivas brasileiras; a
existência de diferentes relações de produção e variados padrões de acumulação nas
regiões brasileiras; a emergência de um centro dinâmico capaz de integrar o
conjunto e mesmo se auto-reproduzir, como é o caso de Minas Gerais.12
Não menos importante nesse processo de dinamização da economia mineira, ao lado
da economia de abastecimento e, ao mesmo tempo, se relacionando com ela, encontra-se o
desenvolvimento das atividades manuais, destaque para a metalurgia, indústria têxtil
doméstica e as atividades de mineração. Vale ressaltar que a extração de metais preciosos
ainda exercia forte influência econômica em algumas localidades mineiras oitocentistas,
inclusive a vila de São José.13 No mesmo sentido, “no âmbito desse mercado de
abastecimento, surgia e consolidava-se um leque de atividades e de níveis produtivos e
comerciais, envolvendo variados agrupamentos de trabalhadores, tipos de propriedade ou
posse, produtos e mercados”.14 Diante disso, a economia mineira se apresentava pelo seu
dinamismo econômico e por envolver vários setores da sociedade, homens e mulheres de
diferentes condições sociais.

11
A esse respeito, em 1799, sobre a premissa do “crescimento econômico e demográfico e a defesa dos
interesses de alguns ‘homens bons’” foi criada a vila de Campanha. ANDRADE, Marcos Ferreira. Elites
regionais e a formação do Estado Imperial Brasileiro: Minas Gerais-Campanha da Princesa (1799-1850). Rio
de Janeiro: Arquivo Nacional, 2008, p. 34.
12
ARRUDA, José Jobson de Andrade. “O sentido da colônia: revisitando a crise do antigo sistema colonial no
Brasil (1780-1830)”. In: TENGARRINHA, José. (org.). História de Portugal. Bauru: Unesp/Edusc, 2000, p.
182.
13
Ver terceiro capítulo LIBBY, Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma economia escravista:
Minas Gerais no século XIX.
14
SILVA, Wlamir. Liberais e povo: a construção da hegemonia liberal-moderna na Província de Minas Gerais
(1830-1834), p. 53.
14
No século XIX, Minas Gerais concentrou o maior contingente de escravos do Brasil, 15
16
além de ser uma das regiões que mais importou escravos africanos nessa época,
característica que se estenderia até as últimas décadas que antecederiam a abolição da
escravatura. Como aponta o historiador Roberto Martins, a crescente demanda por escravos
não se vincularia à “evolução de um único produto, setor ou região”; o numeroso contingente
de escravos nativos e africanos era absorvido por vários setores econômicos que existiam nas
Gerais, entre eles a mineração, a agropecuária, a indústria têxtil e a fabricação de ferro.17
Atividades que contribuíram para a dinamização da economia e, sobretudo, na aquisição de
novos escravos.18

Diferentemente das áreas de exportação/monocultura (plantation),19 houve em Minas a


ascendência dos pequenos e médios proprietários.20 Por outro lado - na região da Comarca da
Morte e também do Sul de Minas - verifica-se uma concentração maior de cativos na mão de
poucos proprietários, sobretudo, aquelas unidades escravistas ligadas tanto ao abastecimento
interno quanto ao comércio com o Rio de Janeiro.21 Nesse sentido, Graça Filho indica a
estreita relação existente entre os pequenos/médios proprietários e os grandes fazendeiros,
pendendo a balança a favor dos últimos:

15
MARTINS, Roberto Borges. “Minas e o tráfico de escravos no século XIX, outra vez”, p. 99
16
Sobre o tráfico de escravos, tem-se a certeza de que Minas absorvia grande parte dos cativos desembarcados
no porto do Rio de Janeiro e que foram reenviados para outros lugares. Pouco se conhece sobre a importação de
cativos por Minas no XVIII. FRAGOSO, João L. R.; FERREIRA, Roberto Guedes. “Alegrias e artimanhas de
uma fonte seriada. Os códices 390, 421 e 425: despachos de escravos e passaportes da Intendência de Polícia da
Corte, 1819-1833”. In: BOTELHO, Tarcísio R. e outros (orgs.). História quantitativa e serial no Brasil: um
balanço. Goiânia: Anpuh, 2001.
17
Martins destaca que os altos índices de importação de escravos em Minas Gerais ocorreu após o fim do “ciclo
do ouro” e antes do “ciclo do café”, momento em que Minas passava pelo processo de dinamismo e predomínio
da diversidade econômica. MARTINS, Roberto Borges. “Minas e o tráfico de escravos no século XIX, outra
vez”, pp. 107-112.
18
LIBBY, Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma economia escravista: Minas Gerais no século
XIX, p. 183.
19
Diferentemente dos latifúndios monocultores do litoral, em muitos casos, as fazendas mineiras agregavam ao
engenho de açúcar as atividades de mineração, agricultura, pecuária e algumas atividades manuais. MAXWELL,
Kenneth R. A devassa da devassa – a Inconfidência Mineira: Brasil-Portugal 1750-1808, pp. 110-111.
20
LIBBY, Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma economia escravista: Minas Gerais no século
XIX, p. 98.
21
Sobre o assunto, ver GRAÇA FILHO, Afonso de Alencastro. A Princesa do Oeste e o mito da decadência
de Minas Gerais: São João del-Rei (1831-1888); BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e
sociedade (São João del-Rei – séculos XVIII e XIX); PINTO, Fábio Carlos Vieira. Família Escrava em São José
del Rei: aspectos demográficos e identitários (1830-1850). 149p. Dissertação (Mestrado em História). UFSJ, São
João del Rei, 2010; ANDRADE, Marcos Ferreira. Elites regionais e a formação do Estado Imperial
Brasileiro: Minas Gerais-Campanha da Princesa (1799-1850).
15
a paisagem agrícola que perdurou até a Abolição foi a das grandes fazendas com
base no trabalho escravo, mais dinâmica e consumidora de braços, ao lado das
pequenas lavouras de posseiros, agregados e sitiantes. Estas, pouco capitalizadas e
com predomínio do trabalho familiar invariavelmente recorriam aos créditos e ao
esquema de comercialização dos negociantes e grandes fazendeiros.22
Já os pequenos e médios proprietários, organizados em unidades familiares, estavam
presentes tanto no meio rural como nas vilas urbanas. O número pequeno de escravos
permitia a sua inclusão no sistema escravista, mas dificilmente desobrigava os membros da
família da produção. O trabalho nesses domicílios englobava uma série de tarefas que iam
desde as lidas caseiras ao cultivo de alimentos, para a subsistência e ocasionalmente para a
comercialização do excedente, a criação de animais, ofícios mecânicos e a produção de panos
e fios.23

Neste contexto há de se inserir a importância da mão de obra livre no cenário de


dinamização da economia mineira. O perfil dessa parcela da população não se definiria
apenas pela diversidade social – entre mulheres e homens brancos pobres e população livre,
de cor – mas também pela variedade de atividades que foram de suma importância para
organicidade da sociedade mineira – artesãos, jornaleiros, biscateiros, lavadeiras, cozinheiras,
tecedeiras, rendeiras, costureiras, doceiras, vendedoras, parteiras, prestadores de serviços
eventuais e, entre outros, trabalhadores e trabalhadoras.

A pulverização da posse de escravos, ou seja, a grande presença, sobretudo, dos


pequenos proprietários de escravos na sociedade mineira, acrescida da grande parcela da
população despossuída de escravos, mas, por outro lado, com certa participação no cenário
econômico, principalmente na prestação de serviço, teria seu amálgama social na relação,
mesmo que distinta, de todos os setores da sociedade com a escravidão.24

O dinamismo socioeconômico mineiro do início do século XIX não se desdobrou


apenas nos âmbitos social e econômico. É possível notar seu viés no cenário político. As
reformas pombalinas, a chegada da Corte, a Independência e o período regencial trouxeram
mudanças significativas na estrutura política e burocrático-administrativas do Brasil em torno
do fortalecimento e legitimação do poder central e na “proliferação e a especialização de

22
GRAÇA FILHO, Afonso de Alencastro. A Princesa do Oeste e o mito da decadência de Minas Gerais: São
João del-Rei (1831-1888), p. 309.
23
Ibidem, pp. 82-83.
24
SILVA, Wlamir. Liberais e povo: a construção da hegemonia liberal-moderna na Província de Minas Gerais
(1830-1834), p. 71
16
cargos e funções e a criação de novas instituições e instâncias jurídicas, políticas e
administrativas”.25 O processo de consolidação do poder estatal realizou-se por meio de
constantes lutas e negociações entre agentes e grupos sociais específicos ligados às elites
econômicas, políticas e letradas. Vale ressaltar que o processo se deu de diferentes formas ao
longo do território brasileiro.

Para Minas, temos trabalhos como o do professor Wlamir Silva, que recupera os
debates e as reflexões políticas do início da década de 1830. Não menos importantes, as
formas como as elites dirigentes mineiras reuniram forças sociais – econômicas e culturais – e
utilizaram meios pedagógicos, tais como jornais e associações, para formarem agrupamentos
num primeiro momento e, posteriormente, organizações políticas. Nesse bojo Minas seria
“um referencial dos caminhos da formação do Estado imperial, no processo de Independência
e no período das regências”.26

No mesmo sentido de reestruturação político-administrativa e consolidação do poder


estatal, Ivan Vellasco destaca o processo de reorganização e reestruturação do sistema
judiciário no Brasil. Baseando-se em fontes criminais da comarca do Rio das Mortes, o autor
apresenta o processo de construção da máquina judiciária num processo de negociação da
ordem e controle da violência privada, ao longo do século XIX. Nessa perspectiva, o trabalho
não valoriza apenas a atuação dos grupos dominantes (elites econômicas e políticas), na (re)
formulação do aparato jurídico e na construção do sentido de nação, mas o uso da justiça por
grupos desfavorecidos ou dominados, entre eles o das mulheres. Assim sendo, mesmo sem
participação no processo de formulação da máquina administrativa e num sentido mais amplo
da construção do Estado, as mulheres, escravos, libertos e homens pobres souberam em vários
momentos se posicionar e utilizar da justiça enquanto sistema de resistência e negociação.27

25
MARTINS, Maria Fernanda. “Os tempos de mudança: elites, poder e redes familiares no Brasil, séculos XVIII
e XIX” In: FRAGOSO, J.; ALMEIDA, C.;SAMPAIO, A. (orgs.) Conquistadores e negociantes. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 406.
26
SILVA, Wlamir. Liberais e povo: a construção da hegemonia liberal-moderna na Província de Minas Gerais
(1830-1834), p. 70.
27
VELLASCO, Ivan de A. As seduções da ordem: violência, criminalidade e administração da justiça em
Minas Gerais, século 19. Bauru/São Paulo: EDUSC/ ANPOCS, 2004.
17
1.2 - A VILA DE SÃO JOSÉ

Geograficamente, a vila de São José está inserida na região da comarca do Rio das
Mortes,28 campo das Vertentes, que no final do século XVII e início do século XVIII fazia
parte do trajeto que ligava São Paulo às Minas Gerais: o chamado Caminho Velho.29 Ao longo
desse caminho, quase que obrigatório para a passagem de muitos tropeiros e aventureiros em
busca de riqueza,30 formaram-se os primeiros povoados, arraiais, freguesias e,
subsequentemente, algumas das primeiras vilas mineiras, uma delas a de São José.31

A localização favorável da região contribuiu para transformar a comarca num


importante entreposto comercial, destacando-se como região importadora de escravos e
abastecedora de alimentos. Mesmo na época em que a produção de ouro diminuiu na região,
ela continuou sendo um dos principais polos de abastecimento alimentar de Minas,32
consolidando-se, nas primeiras décadas do século XIX, como exportadora de gênero
alimentício e de víveres tanto para o mercado intraprovincial como para o abastecimento da
cidade do Rio de Janeiro.33 Destaca-se, nesse sentido, a proeminência mercantil da vila de São
João no comércio com a Corte,34 e, em nível local, a produção doméstica de manufaturas,

28
O nome da comarca é proveniente do Rio das Mortes, que corta a região. No começo do século XIX, essa
comarca dividia-se em sete termos: as vilas de São João del-Rei, cabeça da comarca, São José, Barbacena, São
Bento de Tamanduá, Campanha da Princesa, Baependi e São Carlos do Jacuí. Ao longo do século XIX, a
comarca sofreu várias alterações em sua configuração. Sobre o assunto e as alterações jurídico-administrativas
da comarca do Rio das Mortes no decorrer do século XIX ver primeiro capítulo GRAÇA FILHO, Afonso de
Alencastro. A Princesa do Oeste e o mito da decadência de Minas Gerais: São João del-Rei (1831-1888).
Sobre os limites da Comarca no século XIX ver MATOS, Raimundo José da Cunha. Corografia histórica da
Província de Minas Gerais (1837). Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1981, pp. 113-157.
29
Com o desenvolvimento da exploração do ouro abriu-se o Caminho Novo de Parati, que também cortava a
região da comarca do Rio das Mortes, atingindo a região central de Minas. Com a abertura do Caminho Novo
houve o aumento comercial com a cidade do Rio de Janeiro. Contudo, mesmo com a abertura deste trajeto, o
Caminho Velho continuou sendo um dos principais caminhos de abastecimento do sul de Minas.
30
No capítulo VI, do livro História Geral da Civilização, intitulado Metais e Pedras Preciosas, Sérgio Buarque de
Holanda analisa vários fatores ligados às primeiras descobertas de metais e pedras preciosas em Minas Gerais;
entre eles estão o empenho dos primeiros bandeirantes, as fases iniciais e de expansão das bandeiras paulistas em
busca de riqueza. HOLANDA, Sergio Buarque de (Dir.). A época colonial, V.2: administração, economia,
sociedade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001 (Historia geral da civilização brasileira).
31
O nome da vila de São José del Rei do Rio das Mortes é em homenagem ao filho do rei D. João V, D. José. A
localidade foi elevada a vila no ano de 1718. Sobre a origem da vila de São José ver BARBOSA, Waldemar A.
Dicionário histórico-geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia, 1995, p. 458. MATOS, Raimundo
José da Cunha. Corografia histórica da Província de Minas Gerais (1837).
32
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Metais e pedras preciosas. In: Historia geral da civilização brasileira. São
Paulo: Difel, 1985, v. 2, p. 307.
33
FRAGOSO, João Luís Ribeiro. Homem de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do
Rio de Janeiro (1790-1830). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1990.
34
GRAÇA FILHO, Afonso de Alencastro. A Princesa do Oeste e o mito da decadência de Minas Gerais: São
João del-Rei (1831-1888).
18
entre elas as atividades ligadas à produção têxtil, que foram as principais atividades
desempenhadas pelas mulheres chefes de famílias de São José.35

A formação da vila de São José está ligada à intensa atividade de mineração na região
do Rio das Mortes, o que atraiu ondas sucessivas de imigrantes. Porém, o ouro não era
abundante em toda a região, e outros fatores também foram importantes para a ocupação do
lugar. Libby e Paiva chamam a atenção para o fato de que foram os solos férteis da região e a
“crescente demanda por alimentos básicos vinda dos distritos mineradores vizinhos que
atraíram colonizadores à freguesia”, pelo menos para os seus distritos não mineradores.36

Apesar de se localizar na região que mais produziu ouro no século XVIII onde a
priori, era de se esperar mais provável estado de estagnação econômica com declínio da
extração aurífera, notam-se em S. José claras indicações de uma tendência oposta, por
exemplo, o aumento do número de escravos e do número de pequenos proprietários, o que
revela o dinamismo econômico da região, a multiplicidade de ocupações observadas na
década de 1830 e a diversidade produtiva, que ia desde artigos primários, como a produção de
algodão, a uma variedade de gêneros alimentícios, como milho, feijão, arroz, frutas e
derivados do leite e da cana de açúcar, a manufaturados, como têxteis e ferragens; produtos
destinados ao comércio local e a outras regiões mineiras e mesmo ao comércio com o Rio de
Janeiro e São Paulo.

Botelho, pesquisando as listas fiscais dos quintos reais que cobriam grande parte do
território mineiro, analisa aspectos da posse de escravo na década de 1720, das principais
vilas mineiras - Vila Rica, Sabará, São José, Pitangui, São João del-Rei, Vila do Carmo e a
Vila do Príncipe. Detendo-se no levantamento feito para São José, o autor encontra duas listas
para os anos de 1722 e 1723. No que se refere circunscritamente ao espaço da vila de São
José, foram listados 721 escravos para 115 proprietários. Ampliando a análise para o termo da
vila, ele encontra o expressivo número de 3.357 cativos em 1722 e 3.961 em 1723, para 494
proprietários. Como se sabe que a mineração esteve praticamente concentrada no núcleo da
vila, o emprego de grande parte dessa escravaria deveria se dar na produção de mantimentos.
Além disso, essa análise destaca tanto a vila de São José quanto os arraiais que compunham o
35
Sobre as atividades econômicas desempenhadas pelas mulheres chefes de domicílios da vila de São José, ler
terceiro capítulo.
36
LIBBY, Douglas Cole; PAIVA, Clotilde Andrade. “Alforrias e forros em uma freguesia mineira: São José d’El
Rey em 1795”. In: Revista Brasileira de Estudos de População, v. 17, n. 1/2, 2000, p. 20.
19
termo da vila como uma das principais regiões econômicas e importadoras de escravos da
capitania nas primeiras décadas do século XVIII e ainda que estes escravos constituíam-se na
mão de obra quase exclusiva para a região neste período.37

Já para a segunda metade deste século, Brügger demonstra a capacidade de importar


escravos da região do Rio das Mortes. No ano de 1766, a maioria dos escravos estava inserida
nas atividades agrárias: as 978 roças arroladas na região do Rio das Mortes contavam com
9.266 escravos, enquanto as 370 lavras, com 5.976 escravos,38 revelando, portanto, a grande
importância que as atividades agrárias de subsistência tiveram no cenário econômico da
região. Contudo, é claro que não se pode negar a importância da mineração nessa época, uma
vez que era alta a concentração de escravos na mineração no período.39

Alencastro e Libby reafirmam, em A Economia do Império Brasileiro, que a crise de


metais preciosos em Minas Gerais não implicou o fim da atividade de extração. 40 Do mesmo
modo, Libby e Grimaldi afirmam a ideia de que nas primeiras décadas do século XIX teria
ocorrido em algumas regiões mineiras o segundo “boom” da mineração, o que atraiu
associações estrangeiras especializadas na exploração aurífera. Esses empreendimentos
contribuíram para o dinamismo da economia mineira, pois, além de trazerem novas técnicas
de exploração, desenvolveram um importante mercado de aluguel de reposição de mão de
obra escrava, destaque para o empreendimento da britânica Saint John d’El Rey Mining
Company, que explorou a Mina de Morro Velho.41 A própria vila de São José foi palco de
atuação de empreendimentos estrangeiros na área da mineração.42

37
BOTELHO, Tarcísio Rodrigues. “População e escravidão nas Minas Gerais, c. 1720”. In: XII ANAIS DO
ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESTUDOS DE POPULAÇÃO - ABEP, 2000. Anais...
38
A autora analisa um quadro feito em 1766, no qual consta o número de escravos das roças e das lavras das
comarcas da Capitânia de Minas Gerais. Conforme indicação da autora: AHU, Cx. 93, doc. 58, cód. 13.665.
Microfilme, rolo 84, CD-ROM nº 27. Resumo Geral de Roças, Lavras, Fazendas e Escravos da Capitania de
Minas Gerais, extraído em o ano de 1766, por Luiz Diogo Lobo da Silva, Governador e Capitão General da dita
Capitania. BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del-Rei – séculos
XVIII e XIX), p. 32.
39
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: Família e Sociedade (São João Del Rei – Séculos XVIII
e XIX), p. 32.
40
FILHO, Afonso de Alencastro Graça, LIBBY, Douglas Cole. A economia do Império brasileiro. São Paulo:
Atual, 2004.
41
LIBBY, Douglas Cole; GRIMALDI Márcia. “Equilíbrio e estabilidade: economia e comportamento
demográfico num regime escravista, Minas Gerais no século XIX”. IV ANAIS DO ENCONTRO DA
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESTUDOS DE POPULAÇÃO – ABEP, 1998. Anais...
42
LIBBY, Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma economia escravista: Minas Gerais no século
XIX, pp. 272-273.
20
Os trabalhos de Botelho, Brügger e os estudos conjuntos de Libby com Alencastro e
Grimaldi, apesar de trabalharem com recortes e objetos de estudos diferentes, nos revelam a
importância e a dinâmica econômica da região da comarca do Rio das Mortes.

Focando-se, ainda, a análise na localidade do Rio das Mortes, no mesmo período,


nota-se que se tratava da região mais populosa da capitania e de um intenso comércio com o
Rio de Janeiro. A população da comarca, entre os anos de 1776 e 1821, passou de 83 mil
habitantes para cerca de 214 mil. Nesse espaço de tempo, a população de Minas cresceu 61%,
enquanto na comarca do Rio das Mortes o índice foi de 158%, número que evidencia, além de
dinamismo econômico, deslocamento demográfico em direção à comarca; percebe-se também
o acréscimo da importação de escravos na região.43 Para Maxwell, o movimento da população
para o sul de Minas representava as mudanças e adaptações da economia mineira, bem como
reflete “a queda do papel dominante da mineração e a crescente importância das atividades
agrícolas e pastoris”.44

No censo provincial da década de 1830, a vila de São José, segundo a classificação de


Clotilde Paiva, compunha a chamada Região Intermediária de Pitangui/Tamanduá. Esta
região era a mais povoada de Minas Gerais, e onde se encontrava o maior número de vilas e
de aglomerados urbanos.45 As atividades econômicas da região eram múltiplas e bastante
diversificadas e se baseavam principalmente na agropecuária e na produção de gêneros de
abastecimento, sendo que dois produtos se destacavam em nível provincial: suínos e tabaco;
outros, como ouro, toucinho, bovinos, algodão atendiam ao consumo interno e, na
comercialização do excedente com as regiões vizinhas e intraprovinciais, o escoamento era
realizado num complexo sistema de transporte que transpassava as regiões serranas até chegar
ao Rio de Janeiro, sendo que o percurso era feito por mulas e bois e por pequenas rotas
fluviais.46

43
MAXWELL, Kenneth R. A devassa da devassa – a Inconfidência Mineira: Brasil-Portugal 1750-1808, p.
110. FLORENTINO, Manolo. Em costas negras: uma história do tráfico entre a África e o Rio de Janeiro: São
Paulo: Companhia das Letras, 1997, p.39.
44
MAXWELL, Kenneth R. A devassa da devassa – a Inconfidência Mineira: Brasil-Portugal 1750-1808, p.
110.
45
Para saber sobre a região, ver PAIVA, Clotilde de Andrade. População e economia nas Minas Gerais do
Século XIX. Tese (Doutorado em História). USP, São Paulo, 1996.
46
MAXWELL, Kenneth R. A devassa da devassa – a Inconfidência Mineira: Brasil-Portugal 1750-1808, p.
112. Sobre o comércio e escoamento dos produtos das regiões mineradora ver FRAGOSO, João;
FLORENTINO, Manolo; FARIA, Sheila de Castro. A economia colonial brasileira: (séculos XVI-XIX). São
Paulo: Atual, 1998, (Discutindo a historia do Brasil).
21
O relatório enviado pela câmara local ao Conselho Geral da Província em 1826
informa a respeito da diversidade de produtos que existiam na vila e em seus arredores, o
potencial da região em produzir riqueza, a tendência a atividades rurais e a ligação mercantil
com o Rio de Janeiro:

a cultura em uso comum e a plantação de milho, feijão, arroz, e outros alguns


legumes menos consideráveis: criação do gado vacum, cavalar e lanígero, e de
porcos (...) tem vários engenhos de cana em que se fabrica o açúcar, aguardente e
melado. (...) Deste Termo há grande exportação de carnes de porco salgadas e
frescas, de gado vacum, e cavalar, e carneiros que se conduzem não só para as
Povoações da província, como para Corte do Rio de Janeiro.47

1.2.1 - Esvaziamento Urbano

Maria Campos comenta que, nas primeiras décadas do século XIX, a vila de São José
sofreu um esvaziamento urbano provocado pelo deslocamento da população para o meio
rural. As elites locais de São José deixaram suas casas na vila para morarem na área rural. 48 A
autora, através da análise do “mapa populacional” de 1826 elaborado pela Câmara, aponta que
no ano corrente haveria na vila 1.193 habitantes, entre livres e cativos, prevalecendo a
população “não branca”, 82% dos habitantes. Já se baseando na Corografia Histórica de
Cunha Matos, ela destaca que em 1837 a vila de São José possuía 158 fogos e 760 almas.49

Porém, há de se questionarem esses números, pois, dentro deste intervalo de quase 10


anos, as Listas Nominativas de 1831/32 registram 3.057 habitantes. Apesar de acreditar que
houve na vila o refluxo populacional, se comparando os dados apontados pela autora com as
Listas, indicaríamos que ocorreu um aumento populacional de 1826 para os primeiros anos da
década de 1830, e anos depois uma drástica queda populacional entre os anos de 1831/32 e
1837. Diante disso, os dados não são claros e se tornam confusos e inadequados para atestar a
queda populacional da vila. Convém lembrar que

os constantes remanejamentos dos distritos que formavam os termos e comarcas,


ocorridos durante o século XIX, podem acarretar numa distorção significativa dos
números populacionais, quando trabalhados sem o cuidado de determinarmos o
conjunto que integrava um município. 50

47
RAPM (Revista do Arquivo Público Mineiro) 1897, op. cit., p. 46-47. Apud CAMPOS, Maria Augusta do
Amaral. A marcha da civilização: as vilas oitocentistas de São João del Rei e São José do Rio das Mortes.
Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Minas Gerias, 1999, pp. 130-131.
48
CAMPOS, Maria Augusta do Amaral. A marcha da civilização: as vilas oitocentistas de São João del-Rei e
São José do Rio das Mortes, p. 131.
49
MATOS, Raimundo José da Cunha. Corografia histórica da Província de Minas Gerais (1837), p. 126.
22
Para certificar o refluxo decidimos comparar o Rol de Confessados, de 1795, da matriz
de Santo Antônio, vila de São José, que lista 4.005 indivíduos entre livres e cativos, com as
Listas Nominativas que registram 3.057 indivíduos; portanto, num intervalo de 36 anos, a
população da vila refluiu mais de 1.000 habitantes, uma vez que foram excluídas do Rol as
crianças com menos de 07 anos de idade.

À primeira vista, as causas desse refluxo populacional são atribuídas à queda da


extração de minerais, como em parte fez Maria Amaral.51 No entanto, devemos relativizar
esse reducionismo. Na verdade, acreditamos que os dados encontrados para a vila de São José
corroboram a ideia do processo de ruralização que algumas vilas mineiras vivenciaram na
virada do século XVIII, ou seja, o processo está ligado ao redimensionamento das atividades
econômicas, marcado pela saída dos moradores das áreas urbanas para as regiões
agropastoris.52 O alargamento das atividades rurais não significava necessariamente o
aniquilamento do mundo urbano. A proposta de Alexandre Cunha é esclarecedora a esse
respeito, o autor afirma que o processo de ruralização não pode ser definido apenas pela
supremacia e isolamento da vida rural sobre a citadina, mas igualmente pela influência mútua
dos dois meios:

a ruralização, por sua vez, não seria resultado somente do desenvolvimento do


campo com relativa autonomização de circuitos de realização econômica, mas
também, de uma relação nova e específica com os espaços citadinos intermediários
que ao começo do século XIX expandem seu número nas áreas mais dinâmicas da
economia de base agropecuária, cumprindo funções de entrepostos e centro de
serviços e articulando a teia econômica. Núcleos citadinos em expansão, rede de
cidades adensando-se, mas, no entanto, sem representar um reforço de um processo
urbano de produção coletiva e social do espaço, bem como sem reforçar a própria
vida urbana nesses núcleos. 53
A nosso ver, temos que levar em conta, ainda, que a vila de São José se localizava
relativamente próxima às vilas de São João, a qual, desde a primeira metade do século XVIII,
se tornara um importante entreposto comercial na região, e Barbacena, outra vila que se
destacava pelo importante comércio. Com isso, aqueles produtores rurais de regiões
50
GRAÇA FILHO, Afonso de Alencastro. A Princesa do Oeste e o mito da decadência de Minas Gerais: São
João del-Rei (1831-1888), p. 43.
51
Ver segundo capítulo CAMPOS, Maria Augusta do Amaral. A marcha da civilização: as vilas oitocentistas
de São João del-Rei e São José do Rio das Mortes.
52
Esse processo de redimensionamento da economia não ocorreu apenas na vila de São José, Clotilde Paiva
salienta que o fenômeno foi comum às regiões de ocupação antiga que tiveram ligação direta com o “boom da
mineração”. PAIVA, Clotilde. População e Economia nas Minas Gerais do Século XIX, p. 133.
53
CUNHA, Alexandre Mendes. “Espaço, paisagem e população: dinâmicas espaciais e movimentos da
população na leitura das vilas do ouro em Minas Gerais ao começo do século XIX”. In: Revista brasileira de
história, São Paulo, v. 27, n. 53, 2007, p. 127.
23
adjacentes à vila de São José que produziam excedentes podiam vender seus produtos
diretamente a São João, sem a atuação de S. José enquanto entreposto comercial. Assim, São
José veria algumas atividades tipicamente urbanas, como as comerciais, sobrepujadas pelas
vilas vizinhas.

Outra característica apontada pela autora que se deve questionar é o predomínio da


pobreza e do abandono da vila. Baseando-se em relatos de viajantes,54 a autora salienta que
durante a semana as casas da vila ficavam fechadas, dando a aparência de abandono, sendo
apenas nos finais de semanas e em dias de missas e festejos religiosos que os proprietários e
os moradores das áreas vizinhas iam para a vila.55 Paralelamente, ocorre o incentivo por parte
da Câmara Municipal em promover o desenvolvimento rural nas proximidades da vila.56 Para
certificar o estado de pobreza, a autora cita que, em 1848, São José perde o status de vila e é
incorporada à cidade de São João.57 No entanto, será que a perda do status de vila se refere
mesmo ao ambiente de pobreza ou diz mais a respeito de questões políticas que envolviam a
região? Acrescenta, ainda, que o estado de pobreza e a falta de trabalho transformavam a vila
num ambiente de vadios e de prostitutas,58 apontando a desqualificação social das mulheres.

No entanto, essa não foi apenas uma característica de São José. Vários relatórios de
vilas mineiras certificavam a presença de prostitutas e vadios, sendo a maioria escravos, ex-
escravos e seus descendentes. Os escravos não eram vistos apenas como mão de obra. Os
ajuntamentos de negros e forros representavam para as autoridades coloniais e metropolitanas
problemas desde o início do século XVIII e se perpetuou ao longo do século XIX. Fugas,
roubos, rebeliões, motins, assassinatos e desacatos incomodavam os grupos que compunham a
alta sociedade e colocavam em perigo a ordem. Além de serem indivíduos indesejáveis

54
Relatos de viajantes atestam a aparente decadência da vila São José em contraposição ao momento de auge da
mineração. Contudo, como alertado por Marcos Andrade, devemos utilizar as descrições dos viajantes de forma
crítica, aproximando-as de outras fontes, não esquecendo, por exemplo, a visão eurocêntrica e pessoal dos
viajantes. O autor menciona o “olhar” de Saint-Hilaire, que variava conforme ao tratamento e hospitalidade com
que era recebido nas vilas. ANDRADE, Marcos Ferreira. Elites regionais e a formação do Estado Imperial
Brasileiro: Minas Gerais-Campanha da Princesa (1799-1850), p. 120. Sobre os autores que atestam a
decadência da vila de São José ver POHL, Johann Emanuel. Viagem no interior do Brasil. Belo Horizonte:
Itatiaia, São Paulo: EDUSP, 1976, p. 88; SPIX, J.B. von, MARTIUS, C. F. P. von. Viagem pelo Brasil. 1817 –
1820. 3. ed. São Paulo: Melhoramentos, Brasília: INL, 1976, pp. 172-173; RUGENDAS, João Maurício.
Viagem pitoresca através do Brasil. 8. ed. Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, EDUSP, 1979, p. 31.
55
CAMPOS, Maria Augusta do Amaral. A marcha da civilização: as vilas oitocentistas de São João del-Rei e
São José do Rio das Mortes, p. 142.
56
Ibidem, p. 140.
57
Ibidem, p. 154.
58
Ibidem, p. 142.
24
socialmente por esses atos de vadiagem, havia o temor, por parte dos grupos mais abastados,
da ascensão social desses indivíduos e da concorrência por privilégios. O aumento do número
da população livre de cor, propiciada pela miscigenação entre brancos e negros e a concessão
de alforrias, colocava em risco a hegemonia das elites brancas.59 Portanto, até que ponto esses
relatórios confirmam o ambiente de pobreza das vilas mineiras?

Dessa forma, devemos relativizar esse estado de abandono e de pobreza da vila de São
José reinserindo a no contexto mais amplo de dinamismo de seu termo. Nesse sentido,
analisando a economia da comarca do Rio das Mortes durante o período em tela, nota-se que a
economia da região se definiria pela multiplicidade e da complexidade econômica. Trabalhos
como o do professor Graça Filho demonstram a importância dos pequenos proprietários
agrícolas na economia da comarca do Rio das Mortes, no período de 1750 a 1850. 60 Apesar de
haver o deslocamento de parte da população da vila para as áreas rurais próximas, como
demonstraram Libby e Graça Filho,61 o núcleo urbano do município provavelmente deve ter
continuado desempenhando a função de centro de serviços e de produção manufatureira,
ainda que as atividades comerciais fossem reduzidas.

Embora fique evidente que houve, sim, o deslocamento de parte da população da vila
para as regiões rurais próximas a São José, como demonstra o cotejamento dos dados do Rol
dos Confessados e das Listas Nominativas, cabe perguntar se esse refluxo populacional reflete
mesmo o abandono e o ambiente de pobreza da vila. Através das Listas toma-se o
conhecimento de que na vila se desenvolvia uma série de “atividades de transformação”,62
sendo listadas mais de 40 diferentes ocupações, muitas delas exercidas por mulheres chefes de
fogo. Logo, valorizar apenas a supremacia econômica das atividades agropecuárias na região
torna-se arriscado, pois isso viria menosprezar o dinamismo e, assim, desvalorizar as outras
atividades econômicas que coexistiam na vila.63
59
PAIVA, Eduardo França. Libertos no Brasil: africanos e mestiços nas Minas Gerais do século XVIII. 1999,
s/n.
60
GRAÇA FILHO, Afonso de Alencastro. Formas de acumulação de capital numa economia escravista de
abastecimento: a Comarca do Rio das Mortes de Minas Gerais, 1750-1850. s/n.
61
LIBBY, Douglas Cole Libby; GRAÇA FILHO, Afonso de Alencastro. “Reconstruindo a liberdade: Alforrias e
forros na freguesia de São José do Rio das Mortes, 1750-1850.” In: Vária História, n. 30, UFMG, julho/2003.
62
Termo usado por Douglas Cole Libby para definir as atividades produtivas (siderurgia, produção têxtil e a
mineração) que transformavam a matéria prima em produtos. LIBBY, Douglas Cole. Transformação e
trabalho em uma economia escravista: Minas Gerais no século XIX.
63
Segundo Clotilde Paiva, nas primeiras décadas do século XIX, na região da qual a vila de São José fazia parte,
Intermediária Pitangui, ao lado da atividade de mineração, ainda presente na região, coexistiram atividades como
a agropecuária, manufaturas (tecido, ferro, barro e entre outras) e comerciais ligadas ao comercio interno, sendo
25
Em 1831/32, a vila de São José contava com 2.299 indivíduos, homens e mulheres,
com idade igual ou acima dos 10 anos, destes, 563 possuem referência à ocupação
desempenhada. Analisando aqueles com ocupação declarada, a vila mantinha a maior parte da
população voltada para as atividades manuais e mecânicas nos setores de tecido, couro,
madeira, metais, barro, edificações, fibras e pedras e metais preciosos. Entre a população
masculina destacam-se as ocupações de sapateiro, 43 casos, seguindo-se as de carpinteiro e
alfaiate, respectivamente, com 29 e 28 casos. Entre as mulheres, a atividade que predominou
foi a das fiandeiras, 118 casos, seguida pelas costureiras, 68 casos. Apesar de serem na
maioria atividades secundárias socialmente, elas representam bem o dinamismo da vila
enquanto centro de serviços e produção de manufaturados (ver Tabela 01).

Com relação à população masculina, a ocupação que concentrou maior contingente foi
o grupo dos que “vive da mineração”, com 99 casos. Ligado ainda à atividade mineradora
encontramos 19 ourives e um diretor de mineração, provavelmente da companhia inglesa que
se instalou em São José,64 Roberto Henrique Millivard, branco, 26 anos, casado com
Bilizandra Emilia, branca, 15 anos; compõe o domicílio do diretor: José, 02 anos, branco,
Juvencio Martinianno, 18 anos, branco, solteiro; consta ainda no domicílio um grande número
de escravos africanos, sendo 137 homens e 42 mulheres, totalizando 179 cativos africanos,
além dos pardos Manoel Joaquim, 25 anos, solteiro, Joaquim Francisco, 22 anos, solteiro e
Francisco Joaquim, 20 anos, solteiro.65

O que mais nos chamou a atenção foi que nenhum dos domicílios da vila de São José
presentes nas Listas Nominativas foi listado com ligação direta à Agricultura. Somente o
domicílio de Carlos Daniel Strauch, 27 anos, branco, solteiro, voltado para a Agroindústria
canavieira. Ocorre que apenas Carlos é listado em seu fogo o que não nos permite precisar as
características de seu domicílio, embora possamos levantar a hipótese de que o engenho de
Carlos contava com o trabalho não escravo. Contudo, isso não quer dizer que não existisse
nenhum domicílio na vila vinculado à Agricultura; pode não ter havido a preocupação do

que essas atividades foram capazes de produzir riquezas, indicada pela presença de escravos. PAIVA, Clotilde.
População e economia nas Minas Gerais do século XIX, p. 133.
64
LIBBY, Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma economia escravista: Minas Gerais no século
XIX, pp. 272-273.
65
“Lista Nominativa dos Habitantes da vila de São José del Rei; 1831/32”.
26
coletor dos dados com relação aos domicílios ligados a essa atividade, uma vez que havia o
entendimento de que as atividades agrícolas se davam nas regiões rurais próximas à vila.66

66
Ibidem.
27
Tabela 01
Ocupações: população da vila de São José, 1831/32
Atividades Setor Ocupação Homens Mulheres
Fiandeira e tecedeira Rendeira - 06
Tecedeira - 04
Fiandeiras - 118
Tecido Costureira - 68
Oficio de Alfaiate 28 -
Couro Sapateiro 43 -
Seleiro 01 -
Madeira Carpinteiro 29 -
Manuais Entalhador 02 -
e Pedras e metais Preciosos Ourives 19 -
Mecânica Caldeiro 02 -
Metais Jornalista 12 -
Ferreiro 14 -
Edificações Pedreiro 11 -
Pintor 03 -
Barro Oleiro 03 -
Fibras Taipeiro 01 -
Artesanais e Ma- Barbeiro 01 -
nufatureiras Cabeleiro 01 -
Mineração Vive de Mineração 99 01
Diretor 01 -
Negócio de Vendas 04 01
Boticário 01 -
Comércio Caixeiro 05 -
e Exceto Tropas Traficantes 01 -
Transportes Negociante de Comércio 01 -
Mascate 04 -
Taberneiro 01 -
Capelão 01 -
Capitão Reformado 01 -
Clérigo 06 -
Criado 02 01
Ensina Ler 02 -
Escrivão 03 -
Função Pública Estudo 03 -
Coronel Pago 01 -
Livreiro 01 -
Oficial de Justiça 01 -
Sacristão 01 -
Sargento-Mor pago 02 -
Secretário 01 -
Soldado 01 -
Solicitador 02 -
Função Pública Tabelião 01 -
Tenente-Coronel 01 -
Médico 01 -
Função Pública Parteira - 01
Padeiro - 01
Assalariado Feitor 02 -
Continua

28
Assalariado Jornaleiro 12 -
Vive de sua agência 01 01
Serviço Domésti- Serviço Doméstico 15 02
co
Agro. Canaviei- Engenho 01 -
ra
Não Ocupado Músico ou em estudo 08 -
Vive de Esmola - 01
Total 357 205
Fonte: “Lista Nominativa dos Habitantes da vila de São José del Rei; 1831/32”. [Banco de Dados -
CEDEPLAR/UFMG]
Semelhantemente aos municípios de São João del-Rei e Campanha, houve entre as
mulheres da vila de São José o predomínio das atividades de fiação e tecelagem, prevalecendo
o grupo das fiandeiras, 118 casos, seguido pelas costureiras, 68 casos. Nota-se que o número
de fiandeiras é desproporcional ao das rendeiras, 06 casos, e tecedeiras, 04 casos, o que pode
indicar que a produção de fios na vila era maior do que a necessidade, portanto, poderia
exportar parte da produção de fios para outras regiões mineiras, por exemplo, para São João,
uma vez que a vila vizinha mantinha estreita relação comercial de algodão em rama e tecidos
grosseiros com o Rio de Janeiro.67

Entre outros fogos, o domicílio de Francisca da Silva, 66 anos, crioula, viúva do


crioulo Miguel Alves Batista, é representativo ao que se refere à indústria têxtil doméstica na
vila de São José. Os cincos moradores, incluindo Francisca, esta em idade avançada,
desempenhavam atividades manuais e mecânicas no setor de tecido. Francisca mais as outras
duas moradoras foram listadas como fiandeiras: são elas a agregada Maria dos Santos, 36
anos, crioula, solteira, e a filha de Francisca, Catharina Baptista, 52 anos, crioula, casada com
o alfaiate Annastácio José de Lima,68 ou seja, genro de Francisca, 61 anos, crioulo. Essa
configuração indica a colaboração e a participação de toda a família desempenhando
atividades no mesmo ramo, o que também acena para uma estratégia de união de força de
trabalho familiar para garantir a sobrevivência do grupo.

As atividades artesanais presentes nas Listas para a vila de São José, entre elas a
fiação, a tecelagem, estas predominantemente femininas, a arte em cerâmica, couro e madeira,
contribuíram para a dinâmica econômica da região enquanto empregavam uma parcela

67
GRAÇA FILHO, Afonso de Alencastro. A Princesa do Oeste e o mito da decadência de Minas Gerais: São
João del-Rei (1831-1888), p. 46.
68
Livros de Casamentos da Freguesia de Sto. Antônio da Vila de São José, 1782-1860; Cód. 1209, livro 24,
folha 165, data 27/11/1802.
29
significativa dos braços livres e escravos da vila. O emprego de escravos nas atividades
desenvolvidas na vila é outro aspecto que indica seu dinamismo; estes não eram apenas
absorvidos pela demanda das regiões rurais ligadas à agropecuária e ao crescente mercado de
gênero alimentício interno e intraprovincial, mas também por uma diversidade de atividades
ligadas ao artesanato e à extração aurífera ainda presente na região.

Contudo, nas Listas Nominativas foram mencionadas apenas as atividades de 47


escravos, um número reduzido frente ao total da população escrava da vila que era de 1.171
cativos, mas que, ao mesmo tempo, revela indícios da participação escrava na economia e
quais setores econômicos estavam inseridos: 15 fiandeiras, 11 sapateiros, seis costureiras,
cinco carpinteiros, quatro alfaiates, três ferreiros, um caldeiro, um jornalista (trabalho por
jornal) e um pedreiro. Percebe-se que prevaleciam entre as ocupações declaradas as atividades
manuais tipicamente urbanas e o predomínio das fiandeiras demonstra a relevância da
participação feminina na configuração do cenário econômico da vila.

A produção de excedentes tanto na vila como nas áreas vizinha representava uma
oportunidade de comercialização e um incentivo à aquisição de novos escravos. Nesse
sentido, temos como exemplo o domicílio de Ignácia Simplicia, 50 anos, branca, viúva,
costureira. Compunham o domicílio de Ignácia os agregados, sem referência de parentesco
com a chefe do fogo, João Bertoldo, 24 anos, branco, solteiro, músico; Joaquim, 11 anos,
branco, solteiro e as costureiras Mariana, 19 anos, branca, solteira, Joanna, 30 anos, parda,
solteira, e Joaquina Florencia, 40 anos, parda, solteira. Além dos agregados, foram listados 10
escravos, quatro deles com ocupação declarada, os outros seis escravos eram crianças; as
costureiras Luzia, 30 anos, parda, solteira, Pudoncianna, 29 anos, parda, solteira e a parda
Francisca, 29 anos, solteira; e o caldeiro José, 24 anos, pardo, solteiro. É interessante lembrar
que as três escravas têm a mesma profissão não só da chefe, mas das outras mulheres livres do
domicílio, o que faz pensar sobre a proximidade entre as moradoras e as escravas. O domicílio
de Ignácia é apenas mais um exemplo que evidencia que os escravos foram absorvidos por
várias ocupações.

A economia da vila de São José se definia pelo seu caráter múltiplo e dinâmico, com
fortes disposições urbanas complementares à paisagem rural, indicada pelos sítios, chácaras,
fazendas e arraiais ao seu redor. Portanto, não existia um produto ou uma atividade especifica
que a definisse, mas sim a interação que nela acontecia de dois espaços, o urbano e o rural.
30
Mesmo o termo de São José constituindo-se num importante núcleo econômico na região,
devido à atividade agropecuária nele desenvolvida, o espaço específico da vila estava longe
de ser um núcleo urbano significativo, embora tivesse um papel importante no abastecimento
das demandas rurais. Não diferentemente do cenário de Minas do início do século XIX, a vila
se caracterizava pela sua pequena dimensão, prevalecendo em seu cotidiano atividades
produtivas às quais o escravismo se associava ao trabalho livre, e que tinham razão de ser no
abastecimento interno e de regiões vizinhas.69

1.2.2 - A População da Vila de São José

Não obstante, a pequena dimensão da vila de São José, predominava em seu cotidiano
o dinamismo econômico, indicado pelas várias ocupações declaradas nas Listas Nominativas.
E, nesse ponto, várias mulheres aparecem exercendo algum tipo de atividade. Diante disso,
entendemos, portanto, que as mulheres – livres, libertas e escravas – foram essenciais para o
caráter dinâmico da vila. Se ainda restam dúvidas sobre a atuação feminina, os dados
demográficos indicam a presença marcante delas, principalmente, entre a população livre. Por
outro lado, a presença masculina foi maior entre a população escrava.

Essa característica não foi algo exclusivo de São José, mas das regiões de Diamantina,
Mineradora Central Oeste, Sudeste e Intermediária de Pitangui-Tamanduá, sendo S. José
integrante da última região. Além de serem regiões de ocupações antigas, tinham em comum
o fato de terem vivenciado diretamente o primeiro “boom minerador” das Gerais, seja na
extração de minerais seja no fornecimento de alimento para as regiões mineradoras. Vale
lembrar que o predomínio de mulheres entre os indivíduos livres nessas regiões não era
sinônimo de incapacidade econômica; pelo contrário, essas localidades são consideradas as
que tinham maior grau de desenvolvimento entre as 17 regiões econômicas de Minas Gerais
no século XIX. 70

Para refletir sobre aspectos demográficos na vila de São José, iniciamos visitando os
dados do censo eclesiástico de 1795, correspondente à vila. Esse censo é organizado por
fogos/domicílios. O primeiro nome do fogo é referente ao chefe/cabeça, seguido dos outros

69
LIBBY, Douglas Cole; PAIVA, Clotilde Andrade. “Alforrias e forros em uma freguesia mineira: São José d’El
Rey em 1795”, p. 20.
70
PAIVA, Clotilde. População e economia nas Minas Gerais do século XIX, p. 132.
31
membros da família, esposa, quando casado, filhos, parentes, agregados e o número e o nome
dos escravos. O Rol também informa o sexo, a idade, a paróquia, o sobrenome, se o indivíduo
era crismado ou não, se era livre, forro, escravo ou quartado, 71 a nacionalidade, o estado civil,
em alguns casos, o título e muito raro a atividade econômica desempenhada.

Segundo as informações do Rol, a população entre homens e mulheres, livres e


cativos, da vila era de 4.005 indivíduos. Deste total, 2.492 ou 62% eram homens, sendo 262
brancos e 2.230 de cor. As mulheres correspondiam a 38% da população, prevalecendo
também às mulheres de cor: apenas 184 das mulheres eram brancas e 1.328 tinham o passado
ligado à escravidão, num total de 1.514 mulheres. Nota-se que predomina a população de cor,
correspondendo a 89%. A população livre correspondia a 1.874 indivíduos, 47% da
população, sendo 973 mulheres e 901 homens; desse total, 635 eram forros, predominando as
mulheres, 331 casos. As mulheres concentraram maior contingente entre a população livre de
cor. Os escravos superavam os livres, chegando à cifra de 2.126 indivíduos, percentagem de
53%, sendo 1.588 homens e 538 mulheres. No que se refere à idade, o censo eclesiástico nos
informa que a maioria da população se encontrava em idade produtiva, de 11 a 45 anos (ver
Tabela 02).

71
O termo quartado se refere aquele escravo em processo de compra de liberdade. Era acordado entre o senhor e
o cativo um valor, que poderia ser pago em parcelas anuais ou semestrais em um período de quatro a seis anos,
referente à compra da carta de alforria. Durante esse período, o escravo poderia viver longe do julgo senhorial, a
fim de conseguir juntar pecúlio para o pagamento das prestações. Sobre os processos de compras e concessões
de cartas de alforrias ver segundo capítulo PAIVA, Eduardo França. Escravidão e universo cultural na
Colônia: Minas Gerais, 1716-1789. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001.
32
Tabela 02
População segundo sexo, cor e idade, vila de São José, 1795
Homens Mulheres
Idade Livres Escravos Livres Escravos
Brancos Cor Nativos Africanos Brancos Cor Nativos Africanos
07 – 10 24 66 33 - 24 67 38 -
11 – 15 25 101 56 09 23 87 50 08
16 – 20 17 79 72 40 24 67 55 07
21 – 25 27 62 65 107 22 78 60 27
26 – 30 15 61 53 150 13 71 32 34
31 – 35 18 51 45 240 09 84 47 35
36 – 40 15 23 23 100 11 54 14 14
41 – 45 20 59 20 221 20 108 20 34
46 -50 19 26 12 77 11 48 08 08
51 – 55 18 37 22 122 14 41 06 12
56 – 60 15 18 - 26 06 11 03 04
+ 60 47 57 14 72 08 71 07 12
S/I* 02 02 04 05 02 03 02 01
Total 262 642 419 1169 187 790 342 196
* Sem Identificação
Fonte: “Rol dos Confessados desta Freguezia de S. Antonio da Villa de S. Joze, Comarca do Rio das Mortes,
deste prezente anno de 1795”. Banco de Dados. Original: IHGT, Tiradentes, MG
Agora, pautando-se nos dados das Listas Nominativas de 1831/32, percebe-se que a
vila de São José contava, no início da década de 1830, com 3.057 habitantes, entre livres e
escravos, que se distribuíam da seguinte forma: 1.548 homens (51%) e 1.509 mulheres (49%).
Entre os habitantes da vila, 1.886 eram livres, correspondendo a 62% da população, sendo
837 homens e 1.049 mulheres, novamente as mulheres predominavam entre os livres. Dentre
a população livre, 1.400 (74%) eram de cor, superando não só a população branca, mas
também a população escrava, 1.171.72 Predominavam as mulheres, que representavam quase
43% (810 casos) do total da amostra (ver Tabela 03).

72
Segundo Paiva, esta seria uma característica demografia de algumas regiões de Minas Gerais no decorrer do
século XIX, a população de cor (forros e nascidos livres) superior à população escrava. Sobre as características
demográficas de Minas para o período ver quarto capítulo PAIVA, Clotilde. População e economia nas Minas
Gerais do século XIX.
33
Tabela 03
População segundo sexo, condição e idade, vila de São José del Rei 1831/32
Homens Mulheres
Idade Livres Escravos Livres Escravos
Brancos Cor Nativos Africanos Brancos Cor Nativos Africanos
01 – 05 33 68 47 - 30 87 44 -
06 – 10 30 103 49 04 36 84 38 01
11 – 15 21 55 31 30 23 59 32 13
16 – 20 22 50 35 50 30 74 43 24
21 – 25 24 42 27 35 25 60 37 17
26 – 30 30 43 34 61 21 93 38 18
31 – 35 15 28 14 05 08 33 19 08
36 – 40 15 38 22 23 11 105 23 09
41 – 45 10 27 10 07 08 22 09 02
46 -50 14 47 15 25 13 67 10 08
51 – 55 07 14 02 03 08 16 02 02
56 – 60 11 38 10 24 09 52 10 03
+ 60 15 37 04 08 17 58 05 02
S/I - - - 136 - - - 43
Total 247 590 300 411 239 810 310 150
Fonte: ver tabela 01.
Diferentemente do Rol dos Confessados, as Listas não trazem, para a vila de São José,
nenhuma indicação aos forros. Mas somos levados a pensar que muitos desses indivíduos
eram libertos, principalmente os africanos, pois, quando não há nenhuma indicação à
condição de cativo, esses indivíduos foram considerados livres. Para melhor visualização da
população da vila de São José na década de 1831/32 esses africanos livres foram inseridos no
grupo dos livres de cor.73

Ao que se refere aos grupos etários, percebe-se que a vila era formada principalmente
por jovens, a grande maioria dos habitantes, 345 indivíduos tinham de 06-10 anos de idade,
seguida pelos de 11-15 anos, com 264 casos. Os números começam a cair por volta dos 41-45
anos. O interessante apontar que a maior parte das mulheres estava em idade produtiva de 11-
45 anos, principalmente, entre as mulheres livres, grupo ao qual as mulheres chefes de
domicílio faziam parte (ver Tabela 03).

73
Vale mencionar que, cruzando os dados das Listas Nominativas com os “Livros de Casamentos da Freguesia
de Sto. Antônio da vila de São José, 1782-1860” foi possível diagnosticar referências que levaram a testificar a
condição de forro de algumas mulheres chefes de domicílios da vila de São José, como, por exemplo, o
domicílio de Izabel Ignacia da Rocha, 70 anos, crioula, forra, viúva do Alferes Manoel da Costa, moradora da
vila de São José.
34
Cabe, aqui, abrir uns parênteses e dizer que, entre os termos utilizados, para designar a
população de cor da vila, encontramos brancos, crioulos, cabras, pardos, africanos e pretos, o
registro da designação de cada indivíduo, pode indicar o pensamento da época em classificar
o indivíduo a partir da cor da pele e sua condição social. 74 Os brancos representavam a
minoria da população. Em contrapartida, os dados demonstram a representatividade da
população escrava e de cor nascida livre na vila. É interessante atentar para estas designações:
os termos “negro”, “pardo”, “mulato”, entre outros, no período escravista brasileiro para
designar a população de cor, encontradas também em São José, tinham um sentido diferente
do que temos hoje. Esses termos são indicações imprecisas e complexas, estavam ligados à
distinção social, representavam mais do que a cor da pele ou origem racial, diziam a respeito à
condição jurídica, posição social, ocupação de cargos administrativos, escolaridade e prestígio
familiar.75 Assim, num determinado período, o individuo poderia ser definido como pardo e
anos depois, ocorrendo uma espécie de clareamento social, o mesmo individuo ser
classificado como branco. O escravo descendente de branco era ‘pardo’, o termo ‘crioulo’ se
referia aos escravos ou forros nascidos no Brasil, já o termo ‘preto’ se referia aos africanos
cativos ou não, apenas os ‘brancos’ “tinham sua condição jurídica evidente”.76

Comparando-se os dois censos, observando é claro, que o intervalo das duas listas
demográficas estudadas reserva uma distância cronológica significativa, sobretudo, marcada
por transformações sociais, econômicas e políticas da sociedade mineira, fica evidente que,
além do declínio populacional de 4.005 indivíduos, em 1795, para 3.057, em 1831/32, houve
também retração do número de homens na vila, que caiu de 62% da população para 51%,
confirmando a hipótese de que a vila sofreu um declínio populacional, uma vez que os
homens migravam mais do que as mulheres. A população de cor decaiu de 89%, em 1795,
para 84%, nos primeiros anos da década 1830, um recuo pequeno, mas que pode apontar que,
no decorrer do século XIX, havia mais a preocupação com relação à condição livre/escravo do
que com a origem do indivíduo. Há de se destacar que a população livre aumentou entre os
dois censos, passando de 47% para 62% do total da população, predominando entre a
74
LIBBY, Douglas Cole; PAIVA, Clotilde Andrade. “Alforrias e forros em uma freguesia mineira: São José d’El
Rey em 1795”, p. 23.
75
FARIA, Sheila de Castro. “Fortuna e família em Bananal no século XIX”. In: Castro, Hebe Maria Matos de;
Schmor Eduardo. Resgate: uma janela para o Oitocentos. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995, p. 82.
76
FARIA, Sheila S. de Castro. “Cotidiano do negro no Brasil escravista”. In: José Andrés-Gallego. (org.). Tres
Grandes Cuestiones de la Historia de Iberoamérica. Madrid: Fundación Mapfre Tavera - Fundación Ignacio
Larremendi, 2005, s/n.
35
população livre as mulheres de cor, o que pode indicar indiretamente a hipótese de que o
número de cartas de alforrias foi maior entre as mulheres do que entre os homens.77

Em 1795, 52% da população livre se referiam às mulheres, na década de 1830, a


percentagem sobe para 56% da população livre. De acordo com Clotilde Paiva, o predomínio
de mulheres entre a população livre está ligado ao processo migratório, dito anteriormente, e o
redimensionamento das atividades produtivas. Nesse sentindo, as mulheres não
acompanharam a saída dos homens da vila passivamente, como veremos nos capítulos
seguintes; elas foram capazes de assumir responsabilidades para garantir suas sobrevivências
e, em alguns casos, de seus familiares, sendo que algumas experimentaram a ascensão
econômica indicada, por exemplo, pela propriedade de escravos, assunto que será
desenvolvido no terceiro capítulo. Esses números evidenciam a presença da mulher na vila de
São José, e uma das formas de demonstrar a atuação feminina é quantificar aquelas que eram
responsáveis por seus domicílios.

1.3 - CHEFIA FEMININA: VÁRIOS FATORES

A chefia feminina foi um fenômeno presente em várias regiões do Brasil, tanto no


meio urbano como no meio rural. Existiam várias circunstâncias em que a mulher poderia as-
sumir a responsabilidade do domicílio: como na morte do marido, na ausência momentânea
do companheiro, no abandono, no pedido de divórcio, na própria opção pelo não casamento e
na diferença de idade entre o casal.

A chefia feminina não foi algo exclusivo no Brasil, tendo ocorrido também nos países
da América Espanhola. Sandra Olivero não apenas reconhece a atuação das mulheres chefes
de famílias – solteiras, casadas ou viúvas – na sociedade de Bueno Aires, mas o papel
desempenhado pelas mulheres nas famílias presididas por homens.78 De acordo com a autora,
mesmo em famílias encabeçadas por homens as mulheres desempenhavam funções, tarefas e
compunham as estratégias familiares enquanto sujeitos históricos. Já em relação às famílias
chefiadas por mulheres, a autora destaca que, mesmo existindo a heterogeneidade entre estas

77
LIBBY, Douglas Cole; PAIVA, Clotilde Andrade. “Alforrias e forros em uma freguesia mineira: São José d’El
Rey em 1795”, p. 31.
78
OLIVERO, Sandra. “Hogares femeninos en el Buenos Aires colonial”. Nuevo mundo mundos nuevos [En
línea], Coloquios, 2008, s/n.
36
famílias em relação, por exemplo, à idade, ao estado civil, à composição e ao tamanho dos
domicílios, havia entre as mulheres chefes redes de solidariedades que as auxiliavam em suas
sobrevivências, principalmente, entre as camadas mais pobres da sociedade.

Maria Odila Silva Dias enfatiza que, na época da Independência, quase 40% dos
moradores da cidade de São Paulo eram mulheres sós, chefes de famílias. 79 Em sua análise, a
autora indica que de 35% a 40% dessas mulheres “assumiam o papel de provedoras do
sustento de suas famílias; como chefes de fogo, declaravam viver do seu próprio trabalho”.80
As atividades desempenhadas por elas eram de caráter informal, sendo as menos lucrativas e
rentáveis. Entre essas atividades estão às ligadas ao comércio de gêneros alimentícios,
toucinho, fumo, aguardente, ovos, entre outros produtos.81 A autora aponta que o fenômeno da
chefia feminina não pode ser avaliado como um fato isolado, mas sim vinculado ao próprio
sistema colonial, ligado a aspectos sociais e econômicos e destaca ainda a proliferação da
pobreza, principalmente no meio urbano, e das relações consensuais.82

Em estudo comparativo de várias regiões brasileiras, Eni Samara aponta que, na pro-
víncia de São Paulo, em 1827, 29% das mulheres eram chefes de família e, em 1836, a per-
centagem se elevou para 37%; em Goiás, no ano de 1818, encontrou 17% de mulheres chefes,
e na Bahia, em 1835, a percentagem era de 33%.83 De acordo com a autora, o estar à frente de
um domicílio, para essas mulheres, poderia significar o prover o sustento da família. Para tan-
to, elas ocupavam diversas atividades a fim de garantir a sobrevivência, não só a sua, mas a de
seus dependentes e, muitas vezes, a de pessoas sem ligações consanguíneas. A autora esclare-
ce que o fenômeno pode ser explicado tanto pelas dificuldades econômicas como pela mobili-
dade espacial da população masculina em busca de melhores condições de vida. Segundo Sa-
mara, o fenômeno na cidade de São Paulo está relacionado ao processo ambíguo marcado pela
concentração de riqueza na mão de poucos e a proliferação da pobreza entre a maioria da po-
pulação, causado, sobretudo, pela urbanização por que a cidade passou no decorrer do século
XIX, uma vez que estas mulheres ocupavam os setores menos abastados da sociedade. 84

79
DIAS, Maria Odila. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX, p. 30.
80
Ibidem, p. 53.
81
Ibidem, p. 77.
82
Ibidem, p. 32.
83
SAMARA, Eni de Mesquita. “Mulheres chefes de domicílio: uma análise comparativa no Brasil do século
XIX. In: História, São Paulo, v.12, 1993, pp.49-61.
84
Ibidem, pp. 50-51.
37
O estudo pioneiro de Donald Ramos tem conclusões no mesmo sentido que as da
historiadora Eni Samara. Para tanto, relaciona o fenômeno das mulheres chefes de domicílios
em Vila Rica ao período de transição e diversificação da economia mineira provocada pela
queda da produção aurífera. Em sua análise, no ano de 1804, 45% dos domicílios eram
chefiados por mulheres, já no ano de 1838, o índice corresponde a 46,5% dos domicílios. O
autor destaca o processo de migração da população masculina das áreas urbanas mineradoras
para as áreas rurais em busca de melhorias. E isso teria intensificado o aumento do número de
domicílios chefiados por mulheres.85 Consta, ainda, que a maioria das mulheres chefes era
solteira e pertencia às camadas mais pobres da população. Assim, a grande parte destas
mulheres não conseguia arcar com o dote, prática que consistia em as mulheres receberam
antes do casamento bens e propriedades de seus familiares, que era importante nas estratégias
familiares e de alianças entre as classes abastadas.

Neste momento, é necessário assinalar que o alto número de chefia feminina na vila de
São José se assemelha às conclusões estabelecidas por Donaldo Ramos. Fica nítido que em
São José, tal como em Vila Rica, o início do século XIX é marcado pelo fenômeno de diversi-
ficação econômica após a queda da produção aurífera e pelo deslocamento de parte da popula-
ção masculina do meio urbano para as áreas rurais, propiciando, portanto, o aumento do nú-
mero de domicílios chefiados por mulheres solteiras e pobres, uma vez que as mulheres se
deslocavam menos do que os homens e que no meio urbano encontravam ambiente mais favo-
rável para seus projetos de vida.86 No entanto, essa característica de que no meio urbano as
mulheres encontravam ambiente mais propício para estabelecer seus projetos de vida, não
amenizava as dificuldades de suas vidas, pois elas travavam cotidianamente lutas para garantir
a sobrevivência. Excluídas dos poderes formais, tinham a força do trabalho e a sedução do
corpo como mecanismos para driblar a pobreza e artifícios para a sobrevivência.

Do mesmo modo, acreditamos que não existia um fator específico que ocasionasse o
fenômeno da chefia feminina. Algumas mulheres recebiam heranças de seus pais e adminis-
travam os bens das famílias. Outras requeriam por meios judiciais o direito de poderem admi-
nistrar os bens da família e se tornavam chefes de domicílios. Foi o caso de Ana Maria de Je-

85
RAMOS, Donald, “A mulher e a família em Vila Rica do Ouro Preto: 1754-1838”. In: Congresso sobre a
história da população na América Latina, 1989, Ouro Preto. São Paulo: Fundação SEADE, 1990, p. 155.
86
RAMOS, Donald. União consensual e a família no século XIX – Minas Gerais, Brasil. Estudos Econômicos,
São Paulo, v.20, n.3, set./dez. 1990, p.403.
38
sus, moradora do termo da cidade de Mariana, filha de José de Pugas Valadares e de Luísa de
Souza, que aparece em um documento solicitando junto ao Juízo de Órfão sua emancipação
“e poder desse modo habilitar-se a administração dos bens da sua legitima”.87 Em outro docu-
mento, a mesma solicita “mercê de carta de suprimento de idade, por já não ser menor e poder
administrar o que ficou de seu pai”.88 Infelizmente, não é possível indicar se a personagem
acima citada conseguiu mercê e assumiu a gerência dos bens da família. Por outro lado, atra-
vés desse exemplo, pode-se demonstrar a atuação da mulher, mesmo sendo menor de idade,
utilizando-se da legalidade para alcançar seus propósitos e preservar os bens da família.

Como visto, existiam várias circunstâncias que contribuíam para sua existência, até
mesmo porque cada uma delas teve a sua própria história de vida. Sobretudo, a finalidade de
se resgatar o papel dessas mulheres em Minas Gerais ou em qualquer outra região do Brasil é
de demonstrar, que apesar de toda imposição dos valores patriarcais, elas souberam utilizar-se
de mecanismos e instrumentos ligados à família para se posicionarem à frente de seus domicí-
lios e administrarem suas unidades familiares.

1.3.1 – Chefia feminina e Patriarcalismo

Sobre o caráter civilizatório da sociedade brasileira, seja no meio rural ou urbano,


Gilberto Freyre aponta o que ele chama de família “cristocêntrica” como sendo a unidade
civilizada e civilizadora de nós brasileiros, em meio a diferentes aspectos regionais, tendo
emanado dela características da economia colonial e imperial como também o Estado e a
Igreja a utilizaram como projeto de ocupação/interiorização do território brasileiro e
propagação de seus interesses. Dentre suas características está a maneira familial ou
patriarcal,89 embora não se deva esquecer as peculiaridades de cada região brasileira, modo

87
BOSCHI, Caio C. (Coord.). Inventario dos manuscritos avulsos relativos a Minas Gerais existentes no
Arquivo Historico Ultramarino (Lisboa). Belo Horizonte: Fundacao Joao Pinheiro, 1998. [s.p.]. (Colecao
Mineiriana. Serie obras de referencia). 5481 - A755, 9,9. AHV – Cons. Ultra – Brasil/MG – Cx. XX, Doc. XX.
88
BOSCHI, Caio C. (Coord.). Ibidem, 6105 A760, 20,5. AHV – Cons. Ultra – Brasil/MG – Cx. 76, Doc. 10.
89
Freire, examinando a sociedade pernambucana no período colonial, entendia "a grande família" como a família
extensa constituída do casal, da prole, dos parentes, dos agregados e escravos, mesmo reconhecendo outras
formas de famílias alternativas como as parapatriarcais, a semipatriarcais e a antipatriarcais. O Autor destaca que
o modelo da “família patriarcal” conformou os padrões da colonização e das relações sociais da sociedade
brasileira. Diante disso, a família não é apenas a esfera afetiva. Ela exercia um papel relevante na vida social,
econômica e política da sociedade escravista brasileira, de tal modo que a família se estendia e ocupava onde o
poder do Estado se fazia ausente. FREYRE, Gilberto. (1998). Casa-grande & senzala. 34. ed. Rio de Janeiro:
Record, s/d..
39
esse que esteve presente nas sociedades açucareira do Nordeste, na das Minas Gerais, da
região sul pastoril do Brasil e mesmo no processo das bandeiras paulistas e na ocupação da
extensa área amazônica. Portanto, os elementos e valores patriarcais se desenvolveram tanto
no meio rural como no meio urbano ou no constante contato e interação dos dois meios, uma
predisposição da sociedade brasileira chamada pelo autor de “rurbanidade”,90 contexto bem
semelhante ao encontrado na vila de São José.

A família aqui será considerada enquanto reunião de pessoas, independente de


relações consaguíneas, participando de um amplo universo de relações de sociabilidade e de
representações sociais, como, por exemplo, o sobrenome herdado e a igualdade dos herdeiros.
Nesse sentido, pode-se afirmar que a herança familiar não é apenas algo material, mas
também simbólica e é aí que se remete a ideia de patriarcalismo como universo de valores e
símbolos.91 Era a partir da família que se configurava o direito legal, a transmissão dos bens e
propriedades, ou seja, em torno da preleção da família é que se estabelecia e reconhecia o
valor social da escrita do inventário e testamento. Do mesmo modo, os herdeiros deveriam ser
capazes de administrar os bens da família. Também pela ótica familiar se davam as estratégias
matrimoniais, já que os bons casamentos complementavam a atuação da família.

Freyre compreende a questão da chefia feminina em termos patriarcais e afirma ser um


“sistema em que a mulher mais de uma vez tornou-se sociologicamente homem para efeitos
de dirigir casa, chefiar família, administrar fazenda”, 92 ou seja, se refere à capacidade e às ve-
zes adaptação da mulher em se imputar às tarefas normalmente masculinas. No regime pa-
triarcal, o homem teria sobre a mulher a liberdade e o direito de explorá-la, tendo a mulher a
obrigação de atender aos pedidos masculinos, parir e cuidar dos filhos. Por outro lado, o ho-
mem domina a ação social em contraposição ao espaço doméstico destinado à servidão da
mulher. Sobre essa perspectiva, a submissão da mulher no regime patriarcal é resultado do de-
senvolvimento do sistema escravocrata brasileiro, no qual predomina o “domínio exclusivo de
90
Ver prefácio à terceira edição FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos: decadência do patriarcado rural e
desenvolvimento do urbano.
91
O uso da noção de patriarcalismo enquanto universo de valores e símbolos, a partir da proposta de Freyre, foi
utilizado por Sheila Faria, Ronaldo Vainfas e subseqüente por Silvia Brügger. Sheila de Castro. Colônia em
movimento: fortuna e família no cotidiano colonial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998; VAINFAS, Ronaldo.
Trópico dos pecados: moral, sexualidade e Inquisição no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997;
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del-Rei - séculos XVIII e
XIX).
92
FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano, p.
133.
40
uma classe, de uma raça e de um sexo”.93 A lógica patriarcal e a diferenciação social pautada
na raça e no sexo estariam, portanto, associadas na ótica freyriana.94

De acordo com o Rol dos Confessados, são listados na vila de São José, em 1795, 719
domicílios. Desses, 438 eram chefiados por homens, e 281 por mulheres, correspondendo a
39% dos domicílios. Entre as chefes prevalecem às mulheres de cor, com 251 casos ou 89%
dos domicílios; as brancas representam 30 casos, quase 10% dos domicílios. Também entre os
homens predominam os homens de cor, totalizando 295 domicílios.

Das 281 chefes de cor que encabeçavam seus fogos, 221 eram forras,
aproximadamente 79% dos domicílios chefiados por mulheres, sendo 129 delas de origem
africana. Entre outros casos está a forra Antônia Cardoza, viúva, 75 anos, de nacionalidade
angola, que vivia sozinha em seu domicílio.95

Na década de 1830 são listados na vila 497 domicílios e um total de 3.057 habitantes.
Dos fogos arrolados, 283 eram chefiados por homens (57%) e 214, por mulheres (43%). Entre
as mulheres, 17% (36 casos) eram brancas e 83% (178 casos) eram de cor. Nos domicílios
chefiados por homens, também prevalecem os chefes livres de cor: 70% (199 casos). As
designações encontradas para as chefes de cor foram: 93 pardas; 67 crioulas; 11 cabras e 07
africanas. Nota-se um número considerável de pardas; porém, como dito anteriormente, as
Listas Nominativas não oferecem para a vila de São José nenhuma indicação de que essas
mulheres fossem forras ou nascidas livres. Na verdade, o importante é reconhecer a
descendência africana dessas mulheres, pois somos levados a considerar que muitas delas
fossem libertas, o que era claramente o caso das africanas.

É importante considerar que o predomínio dos domicílios chefiados por indivíduos de


cor, em ambos os censos, pode ser explicado tanto pela presença marcante da mão de obra
escrava na vila, desde o início da ocupação da região, acompanhada de altos índices de
alforrias, pela miscigenação entre brancos e negros, e também pela hipótese de que a região
foi atrativa para a população livre de cor. A migração para outras regiões significava para a
população liberta um exercício da própria liberdade conquistada, a reafirmação da condição
de livre e a capacidade de buscar novos laços dentro da sociedade escravista em oposição ao
93
Ibidem, p. 96.
94
Ibidem, p. 103.
95
“Rol dos Confessados desta Freguezia de S. Antonio da Villa de S. Joze, Comarca do Rio das Mortes, deste
prezente anno de 1795”.
41
passado escravo, entre eles laços de amizades e familiares. Portanto, muitos desses indivíduos
poderiam ser provenientes de outras regiões. Conforme havia o estabelecimento de laços na
nova localidade, diminuía a tendência de o indivíduo se mover.96

A presença marcante de domicílios chefiado por mulheres na vila de São José, 43%
dos domicílios, no início da década de 1830, contrasta com a média de Minas Gerais de 27%
aferida para o mesmo período. Entretanto, se a análise for pautada no termo de São José, área
predominantemente rural, incluindo-se a vila, o índice de chefia feminina cai para 30% de um
total de 3.978 domicílios, índice próximo da média mineira; e, abstraindo-se os dados da vila
da análise, o índice se aproxima mais da média, chegando a 28%. Já o índice referente a vila,
por outro lado, se aproxima das cidades de São Paulo (40% dos domicílios) e Ouro Preto
(45% dos domicílios), áreas predominantemente urbanas nas primeiras décadas dos
oitocentos.

Para explicar o alto índice diagnosticado para a vila, optamos pela posição da autora
Sheila de Castro Faria, que aponta que o número de unidades chefiadas por mulheres foi
maior no meio urbano do que no meio rural. Ao analisar a região agrária do distrito dos
Campos dos Goitacases, em 1785, a autora afirma que, das 1.488 unidades domésticas, 13,3%
eram chefiadas por mulheres, índice bem próximo das freguesias agrárias de São Paulo e
Minas Gerais. Contudo, abaixo dos índices encontrados para algumas regiões urbanas
paulistas e mineiras que ultrapassavam os 40% dos domicílios.97 Dessa forma, concordamos
com a ideia de que no meio urbano as mulheres encontravam e dispunham de maior
autonomia e de condições mais dinâmicas para estabelecer suas estratégias de sobrevivência,
o que não acontecia no meio rural. Isso provavelmente se dava pelo fato de que o trabalho
agrícola necessitava de condições mais específicas de mão de obra e divisão do trabalho.

À primeira vista, o alto índice de domicílios chefiados por mulheres na vila de São
José tende a corroborar com os trabalhos que questionam a família patriarcal, focada na figura
masculina do chefe de família, seguido da esposa, dos filhos legítimos, dos agregados, dos
filhos ilegítimos, dos afilhados, bem como dos escravos e da vasta clientela.98 No mesmo
96
MATTOS, Hebe Maria. Das cores do silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista, Brasil
Século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998, pp. 45-49. Sobre processo de mobilidade geográfica, entre
outros, FARIA, Sheila de Castro. Colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial.
97
FARIA, Sheila de Castro. Colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial, p. 53.
98
Estudos posteriores à década de 1980 questionaram a configuração da família patriarcal, sobretudo a proposta
por Gilberto Freire. Ver CORRÊA, Mariza. “Repensando a família patriarcal brasileira: notas para o estudo das
42
sentido, a chefia feminina tende a confirmar a ausência dos laços patriarcais em Minas Gerais
dos séculos XVIII e XIX.99

Uma das explicações para a ausência dos traços patriarcais em Minas justifica-se pela
instabilidade e pela característica itinerante da própria sociedade que estava constantemente
em busca de riqueza e de melhores condições de vida, principalmente entre a população
masculina. Luciano Figueiredo destaca que a própria conformação da sociedade mineira dos
setecentos impossibilitou a predominância do patriarcalismo100 e, em contrapartida, houve o
predomínio das relações esporádicas e não sancionadas pela Igreja entre a população
mineira.101

Laura de Mello e Souza, ao caracterizar a ausência dos elementos patriarcais em terras


mineiras, aponta o espírito aventureiro dos homens que vieram para Minas em busca de
riquezas como fator que favoreceu a desvalorização dos vínculos familiares e a ausência do
patriarcalismo. Desse modo, a autora justifica que “os elementos que para cá se dirigiram
eram solteiros e desenraizados, e muitos se ressentiram da falta de mulheres brancas. Aos
poucos, foram se formando famílias ilegais, à margem do vínculo do matrimônio”.102

Entende-se que os trabalhos que contestam o conceito de patriarcalismo em terras


mineiras favoreceram os estudos acerca das relações familiares brasileiras dos séculos XVIII
e XIX, principalmente por identificar a diversidade de organizações familiares e dar voz

formas de organização familiar no Brasil”. In: CORRÊA, M. (Org.). Colcha de retalhos: estudos sobre a família
no Brasil. 2° ed. Campinas: Unicamp, 1993; SAMARA, Eni de Mesquita. “Tendências atuais da história da
família no Brasil”. In: ALMEIDA, A. M. et al. (org.). Pensando a família no Brasil: da colônia à modernidade.
Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, Editora da UFRRJ, 1987.
99
Entre outros autores ver SOUZA, Laura de Mello e. Desclassificados do ouro: a pobreza mineira no século
XVIII. Rio de Janeiro: Graal, 1990; FIGUEIREDO, Luciano Raposo. Barrocas famílias: vida Familiar em
Minas Gerais no século XVIII. São Paulo: Hucitec. 1997.
100
Entre as características apontadas pelo autor estão a falta de mulheres brancas, a intensa incorporação da
população de origem africana e o caráter urbano da sociedade mineira. Ver primeiro capítulo FIGUEIREDO,
Luciano Raposo. Barrocas famílias: vida familiar em Minas Gerais no século XVIII.
101
Ibidem, p. 24.
102
SOUZA, Laura de Mello e. Desclassificados do ouro: a pobreza mineira no século XVIII, p. 113.
43
àqueles indivíduos que viviam à margem da sociedade como, por exemplo, as mulheres e a
maioria da população pobre.103 Contudo, para este trabalho não se pretende utilizar o conceito
de patriarcalismo de forma genérica, ou seja, aplicá-lo à realidade de São José e dizer se a
sociedade era patriarcal ou não, como muitos autores fizeram para outras regiões,104
principalmente porque a ampliação e a aplicação do conceito a demais regiões brasileira é a
principal crítica ao conceito. Do mesmo modo, o número de indivíduos que compunham a
família, ou seja, se ela era mais ou menos extensa, é uma característica de pouca importância
para a proposta de Freyre.105

Faria ressalta o interesse dos autores que buscaram explicar a família brasileira por
meio do patriarcalismo,106 pois queriam apreender o povo brasileiro e achavam que “a origem
do caráter do brasileiro” estava no alto das casas-grandes ou, em outras palavras, na sua
formação patriarcal. Portanto, não estavam interessados em definir a atuação nem vislumbrar
as outras organizações familiares dos vários outros grupos sociais que compunham a
sociedade brasileira.107 A autora, ao analisar as especificidades do Sudeste em relação às
configurações das famílias, nomeadamente centros urbanos em São Paulo e as vilas
mineradoras em Minas, fins do século XVIII e início do século XIX, evidencia que a
mobilidade espacial da sociedade em busca de riqueza e de melhores condições de vida
impedia o predomínio das uniões duradoras nos moldes da Igreja Católica. Assim, a maioria
da população tendia a não “constituir famílias do tipo patriarcal e, mesmo extensas, pelo
menos de maneira predominante”.108 Todavia, a autora faz a ressalva de que “pelo menos por
hora, não se pode colocar de lado o patriarcalismo”,109 isto é, o conceito não pode ser
vislumbrado apenas pela variável do econômico/produtiva, restrito às casas-grandes, mas
também no universo das representações sociais.

Brügger menciona a discordância entre a proposta de Freyre e o uso do conceito por


parte de autores como, por exemplo, Oliveira Vianna, que confusamente relacionou o
103
FARIA, Sheila de Castro. Colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial, p. 47.
104
Citamos como exemplo Antonio Cândido que analisa o conceito de patriarcalismo de uma maneira geral e o
estende as regiões Centro e Sul do Brasil. CÂNDIDO, Antônio. The Brazilian Family. In: SMITH, T. (Org.).
Brazil. Portrait of Half a Continent. New York: Marchant General, 1951.
105
VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos pecados: moral, sexualidade e Inquisição no Brasil, p. 118.
106
Entre os principais autores estão Gilberto Freyre, Antônio Candido, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado
Júnior.
107
FARIA, Sheila de Castro. Colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial, pp. 47-49.
108
Ibidem, p. 50.
109
Ibidem, p. 49.
44
conceito a ideia de “clã parental”.110 Diante do uso e das interpretações inadequadas do
conceito, a autora sugere o uso do termo “familismo” ao invés do uso do conceito
patriarcalismo, entendendo-o enquanto sistema de valores e representações sociais. Para
confirmar a presença de elementos patriarcais em Minas Gerais, setecentista e oitocentista,
autora analisa vários elementos. Sem negar as peculiaridades da sociedade mineira, como as
provenientes da relação com o Estado português estabelecida em decorrência da extração de
metais preciosos, a autora demonstra vínculos familiares em processos de interiorização e
ocupação da colônia como as bandeiras.111 No mesmo sentido, aponta os laços familiares na
relação de reciprocidade e de dependência – troca de favores, concessão de cargos,
matrimônio e compadrio – entre o Estado português, grupo de pessoas instituídas de poder
pela Coroa Portuguesa e as elites locais como modo de inserção no cenário da colônia:

pensando, portanto, a arquitetura política do Império Português sob este prisma,


creio que não há motivos para não se afirmar a existência, também em Minas, do
patriarcalismo, ainda mais quando se pensa na importância das relações familiares
para a constituição das alianças e das “amizades desiguais”. Por outro lado, esta
perspectiva nos leva a perceber o acesso às instâncias de poder não apenas como
concessão real, mas como conquista daqueles que buscavam alcançá-las, fosse
através das alianças com esferas de poder em Portugal, fosse a partir da força de sua
influência no nível local.112
Contudo, é empiricamente difícil afirmar o predomínio do patriarcalismo nos
domicílios de chefia feminina, mas apenas denotar a possibilidade de sua existência, pois o
que fica claro é a diversidade de formas da família mineira, sobretudo quando a análise se
pauta em dados demográficos. Não restam dúvidas de que o Rol dos Confessados e as Listas
Nominativas demonstram em números uma variedade de formas familiares. Mas no campo
das representações sociais, quais eram os significados da família para os grupos pobres?113 A
diversidade de arranjos familiares, porém, indica que a família mineira teve vários
significados, ou seja, a noção de família variava conforme os grupos sociais, raciais e

110
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del-Rei - séculos XVIII e
XIX), p. 48.
111
Ibidem, p. 54.
112
Ibidem, pp. 62-63.
113
Segundo Sheila de Castro Faria, apesar de não existirem parâmetros definidos, sobretudo, os critérios para
classificar a pobreza estão ligados à condição do indivíduo de não possuir bens e por viver do seu trabalho. Na
sua maioria, a população pobre se refere aos forros e seus descendentes, embora não seja algo inerente ao grupo,
ou seja, ser pobre independe da origem étnica e/ou social do individuo, pois muitos livres de cor “conseguiam
juntar pecúlio suficiente para se distanciar da classificação de despossuído, embora nem sempre o conseguissem,
no que se refere a status social”. FARIA, Sheila de Castro. Colônia em movimento: fortuna e família no
cotidiano colonial, p. 102.
45
jurídicos à qual estava vinculada, não necessariamente nos moldes do casamento religioso.114
Portanto, o patriarcalismo enquanto sistema de valores não exclui a existência de outras
formas de representações familiares ou vice-versa.

Conforme as Listas Nominativas, compunham o domicílio da forra Isabel Inácia Luz,


70 anos, crioula, viúva do Alferes Manoel da Costa, moradora da vila de São José: seu filho
Francisco Inácio Costa, crioulo, carpinteiro, 34 anos, João Onofre, crioulo, carpinteiro, 36
anos, e Antônio da Costa, crioulo, alfaiate, 32 anos. Infelizmente, não se pode indicar
precisamente se os outros membros da família eram filhos ou não de Isabel. Diante da
configuração do domicílio, surge então a pergunta: numa sociedade patriarcal onde a figura
masculina exerce grande significado, por que seu filho Francisco, maior de idade, com
profissão declarada, não se declarou chefe do domicílio em vez de sua mãe, já idosa?
Inicialmente, a chefia pode ser explicada porque, com a morte do cônjuge, Isabel assumiu a
gerência do domicílio. No entanto, é interessante considerar que Isabel já estava em idade
avançada e improdutiva, sem profissão declarada; nitidamente, seu domicílio se tratava de
uma família humilde e sem posse de escravos, portanto, a posse de bens não a fazia chefe.
Imaginar-se-ia que ela dependeria da ajuda dos membros do domicílio que tinham profissão
declarada e em idade produtiva para auxiliarem ou mesmo garantirem sua sobrevivência.
Entretanto, apesar de sua situação adversa, a experiência e um provável “prestigio social” que
adquiriu ao longo dos anos, além da identificação pela comunidade local dela com aquele
domicílio, a colocavam à frente de sua família.

Ao analisar o papel das mulheres chefes de famílias, percebe-se que elas mantinham
laços de dependência mútua e de solidariedade no meio em que viviam. Vários exemplos na
documentação indicam que muitas dessas mulheres dependiam da ajuda de outras pessoas,
como de um padrinho, afilhado ou mesmo de seus filhos e escravos para sobreviver; no
entanto, mesmo assim se declaravam e eram reconhecidas como cabeças de suas unidades
familiarres. Em 1795, das 281 mulheres chefes de domicílios, 62 delas tinham 60 anos ou
mais. Já na década de 1830, das 214 chefes de domicílios 67 (31%) estavam com ou acima
dos 60 anos de idade; entre elas, 37 viviam em companhia de agregado(s); 12, com
agregado(s) e escravo(s); 11 viviam sozinhas, e sete, em companhia apenas de escravo(s).
Apesar de não existirem dados precisos com relação aos padrões de mortalidade para os

114
Ibidem, pp. 50-52.
46
séculos XVIII e XIX, o indivíduo acima dos 46 anos pode ser considerado velho.115 Logo,
acredita-se que o indivíduo acima dos 60 anos, mesmo declarando a sua profissão, como
fizeram algumas dessas mulheres, certamente precisava de alguma ajuda para garantir sua
sobrevivência. Podemos supor que as mulheres que viviam com cativos, em parte, recebiam o
sustento provindo do trabalho escravo. E as que viviam sozinhas? Será que não necessitavam
da ajuda de alguém? Nesse caso, podemos presumir que elas não viviam fundamentalmente
sozinhas, uma vez que poderiam apadrinhar outras pessoas, contar com parentes e mesmo
amigos entre os vizinhos, fortificando seus laços de convivência. Como destaca Mary Del
Piore, as mulheres paulistas que foram abandonadas por seus maridos migrantes em busca de
riquezas viviam da “rotina do comércio de gêneros, da prestação de serviços, as mulheres
tentavam romper as barreiras da pobreza e do isolamento, valendo-se para isso do círculo de
comadres e vizinhas”.116 No mesmo sentido, Sheila Faria enfatiza que as mulheres eram
menos migrantes que os homens e optavam por morar, até mesmo por uma questão de
necessidade, próximo dos seus parentes.117

Diante disso, pretende-se buscar no conceito de patriarcalismo não o sentido de


família legitimada pela Igreja, mas sim o conjunto de valores e práticas que orientavam a ação
social dos indivíduos posicionando a família ao centro das relações sociais.118 Nesse sentido, a
pessoa se via muito mais como membro da família do que como individuo.119 Como situa
Sheila Faria, o sentido de se pertencer a uma família independia do grau de parentesco dos
membros e poderia ultrapassar os laços consanguíneos e os limites do próprio domicílio,
correspondendo às alianças estabelecidas com membros de outras famílias, incluindo as
alianças políticas, as redes de sociabilidade e de sobrevivência e as relações de compadrio.120

115
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del-Rei - séculos XVIII e
XIX), p. 82. Maria Luiza Marcílio, analisando a região paulista de Ubatuba, em 1801, aponta que 153 pessoas
em cada 1.000 chegavam aos 40 anos de idade, e 98, aos 50 anos. MARCÍLIO, Maria Luiza. “Caiçara: terra e
população”. In: Estudo de demografia histórica e da história social de Ubatuba. São Paulo:
Paulinas/CEDHAL, 1986, p. 178.
116
DEL PRIORI, Mary. Ao sul do corpo: condição feminina, maternidades e mentalidades no Brasil Colônia.
Rio de Janeiro/Brasília: José Olympio/Edunb, 1993, p. 61.
117
FARIA, Sheila de Castro. Colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial, p. 41.
118
Ver VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos pecados: moral, sexualidade e inquisição no Brasil; BRÜGGER,
Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del-Rei - séculos XVIII e XIX).
119
FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano, p.
133.
120
FARIA, Sheila de Castro. Colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial, p. 41.
47
Mesmo para aqueles indivíduos que viviam nas chamadas “famílias alternativas”, por
exemplo, os fogos de chefia feminina, eram submetidos ao poder e aos valores patriarcais, ou
seja, tentavam reproduzir ou tinham sua existência pensada em termos de valores
patriarcais:121 “agiam socialmente a partir dos códigos culturais correntes naquela sociedade,
mesmo que reinterpretados a partir de suas posições sociais específicas”.122 Assim, o que está
em xeque no conceito não é fundamentalmente o sexo do chefe da família, mas a
representação do poder familiar na construção das relações sociais.123

Não obstante, a decisão de posicionar a família no centro da formação da sociedade


não exclui a diversidade de formas de arranjo familiar, nem a importância e atuação de outras
instituições no processo de formação da sociedade mineira, por exemplo, a Igreja e o
Estado.124

Dessa maneira, consideramos que mesmo aquelas mulheres de famílias empobrecidas,


sem a posse de escravos, sem viverem relações conjugais nos padrões da Igreja – sendo a
maior parte delas mulheres solteiras – constituíam laços familiares. Nessa direção, a forma
como utilizamos a noção de patriarcalismo nos remete ao sentido de família,
independentemente do sexo do chefe, como centro da ação social dos vários segmentos da
sociedade escravista brasileira. O próprio Freyre denota a capacidade da mulher de exercer o
“mando patriarcal quase com o mesmo vigor dos homens. Às vezes com maior energia do que
os maridos já mortos ou ainda vivos, porém dominados, excepcionalmente, por elas”.125 Não
diferentemente do que os homens, essas mulheres agiam em nome de suas famílias. Diante
disso, é possível reconhecer que essas mulheres traçavam projetos e agiam a partir das
expectativas de suas famílias.

Assim, ao invés de afirmar o estado de abandono e decadência da vila de São José,


pelo menos nas primeiras décadas do século XIX, devemos reinserir a vila no contexto das
Gerais, pois só assim entenderemos o processo de reordenação de suas atividades econômica

121
VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos pecados: moral, sexualidade e inquisição no Brasil, p. 118.
122
MATTOS, Hebe Maria. Das cores do silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista, Brasil
Século XIX, p. 35.
123
Ver o primeiro capítulo BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João
del-Rei - séculos XVIII e XIX).
124
Ver prefácio à terceira edição FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos: decadência do patriarcado rural e
desenvolvimento do urbano.
125
FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano, p.
95.
48
e de esvaziamento urbano. Paralelamente, ao mundo rural que se estabeleceu aos arredores da
vila, é oportuno indicar que, além das atividades de mineração, ainda presente na região,
ocorreram na vila outras atividades que absorviam mão de obra escrava e trabalho livre como,
por exemplo, as atividades manuais e mecânicas. Ao mesmo tempo, sua economia era capaz
de produzir riqueza indicado pela presença de escravos nativos e africanos. Frente ao processo
de transformação do cenário econômico e social de São José, as mulheres – brancas, libertas,
escravas ou nascidas livres – tiveram grande contribuição para o seu dinamismo,
desempenhando uma variedade de ocupações, destaque as ligadas à indústria têxtil doméstica.
Tendo em vista, ainda, a migração masculina, mulheres solteiras, casadas e viúvas foram
capazes de assumir a responsabilidade de seus domicílios e ditar o ritmo de suas vidas.

49
CAPÍTULO 2

SENTIDO DE FAMÍLIA: CASAMENTO E OUTRAS POSSIBILIDADES

Machado de Assis, em A Melhor das Noivas, conto publicado em 1877, retrata a


oportunidade de ascensão que o casamento representava para a sociedade do século XIX.1 Ao
escrever a respeito de duas viúvas, Dona Joana e Dona Lucinda, destinadas a conquistar o
“amor” do viúvo João Barbosa, magistrado, que herdara do pai e do tio um vasto patrimônio.

D. Joana era uma viúva de 48 anos que há dez anos cuidava da vida do septuagenário
João Batista, e isso ela fazia da melhor maneira: preparava-lhe o café da manhã, “escolhia as
diversões, lia-lhe os jornais, contava-lhe as anedotas do quarteirão, tomava-lhe ponto às
meias, inventava guisados que melhor pudessem ajudá-lo a carregar a cruz da vida”. No
entanto, toda essa lealdade ao viúvo tinha seus interesses específicos: a viúva dedicada
“esperava ser contemplada nas últimas disposições de João Barbosa; e valia a pena, em seu
entender, afrontar os ditos do mundo para receber no fim de alguns anos uma dúzia de
apólices ou uma casa ou alguma coisa equivalente”.

A outra, D. Lucinda, viúva de um oficial da marinha, 32 anos, sempre amou e sonhou


com a vida suntuosa e as cobiças das grandezas sociais, porém teve que “contentar-se com
uma posição medíocre”. E quando conheceu João Batista vislumbrou a esperança de
consolidar seus sonhos, ainda mais com seu pedido de casamento.

Mesmo que tivesse interesse na fortuna de João Barbosa, D. Joana nunca almejou ser
sua esposa, apesar de todas as afirmativas de João de que nada mudaria com o seu inesperado
casamento, ela se via prejudicada. Os dias que sucederam à notícia de casamento, D. Joana
destinou-se a conquistar o “amor” de João: “daí em diante começou uma luta entre as duas
mulheres de quem era campo e objeto o coração de João Barbosa. Uma tratava de demolir a
influência da outra; os dois interesses esgrimiam com todas as armas que tinham à mão”.

Após constantes brigas entre as duas e um ataque de reumatismo que acabou por
deixar João Barbosa de cama por alguns dias sob os cuidados e paparicos de D. Joana, ele
1
Em vários momentos em sua obra Machado de Assis descreve assuntos familiares. O casamento, o adultério e
as alianças matrimoniais são temas relacionados ao amor, aos interesses pessoais e à família na obra machadiana.
Diante dessa perspectiva, existe a possibilidade, por meio da obra de Machado de Assis, de se vislumbrar por
outra ótica a atuação e a participação da mulher na sociedade brasileira como mãe, esposa, viúva ou adulterina.
percebeu que ela seria a esposa ideal: sem perder tempo, não tardou em pedi-la em casamento.
No dia do casamento, atrasado o noivo, a futura esposa se apressou em buscá-lo, quando
encontrou João Barbosa sentado em seu gabinete com um sorriso de bem-aventurança;
“aproximou-se, rodeou a mesa, olhou-o de frente. — Vamos ou não? João Barbosa
continuava a sorrir e a fitá-la. Ela aproximou-se e recuou espavorida. A morte o tomara; era a
melhor das noivas”.2

Observa-se no conto que o casamento é assinalado como uma espécie de “necessidade


social” ou mesmo satisfação econômica, ligado por interesses sociais e econômicos. O texto,
além disso, deixa transparecer alguns critérios que poderiam motivar a escolha do cônjuge,
exemplificado por meio dos interesses econômicos e das estratégias que cada viúva formulou
em torno do que o casamento representava para suas vidas e, sobretudo, naquelas
circunstâncias. O escritor também indica a força do poder afetivo da mulher sobre o homem e
a “necessidade” de se ter uma companheira mesmo na velhice. Assim, ainda que existisse
toda imposição da sociedade da época em definir a submissão feminina, 3 deve-se questionar
tal fragilidade, bem como o “esquecimento” que a historiografia cunhou ao longo de muitos
anos sobre o papel das mulheres. Portanto, seja pela força da sedução ou pela escolha de se
casar ou não, as mulheres traçavam estratégias de sobrevivência e de ascensão social.

Pretende-se neste capítulo apreender se o casamento era necessário para se constituir


família para as mulheres chefes de domicílio da vila de São José ou se, além do sacramento
religioso, existiam outras formas de se constituir família.

2.1 - CASAR: CONTRAIR POSSIBILIDADES E SELAR ALIANÇAS

Na sociedade escravista brasileira, o casamento consistia numa união sancionada pela


Igreja e reconhecida legalmente pela coroa. O Estado vislumbrava por meio do matrimônio
religioso o mecanismo possível, mesmo que não eficaz, de atender às necessidades de povoar,
ocupar, garantir a posse do território e expandir a produção. Não diferentemente, a Igreja, por
meio da união indissolúvel entre homens e mulheres, tinha como objetivo difundir o
catolicismo e extinguir a condição de pecado dos fiéis, por exemplo, o adultério e a

2
ASSIS, Machado de. A melhor das noivas. Publicado originalmente em Jornal das Famílias - 1877.
3
A mulher, principalmente a branca, vivia limitada à autoridade do pai, do marido e dos próprios irmãos, reclusa
ao ambiente familiar, sem direito à educação e à participação política.
51
poligamia.4 Entre os problemas enfrentados em instituir a família legítima era lidar com a
escassez de mulheres brancas. Para tanto, proibiu-se a construção de conventos e
recolhimentos na Colônia 5 e paralelamente se dificultou a ida de mulheres para a metrópole. 6
No Brasil, a legislação e regulamentação do matrimonio religioso e os assuntos ligados à
família eram tratados pelas Constituição Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707).7

A partir das perspectivas de organicidade social, deveres e direitos dos cônjuges, o


casamento atendia aos seguintes itens: a procriação em contraposição ao prazer e aos desejos
da carne; a educação dos filhos, a fidelidade recíproca e a comunhão espiritual do casal, “uma
só carne, um só corpo”8, e o compartilhamento e usufruto dos bens familiares. A família
instituída nos moldes do matrimônio religioso era comparada à própria estrutura da Igreja, ou
seja, era idealizada como sendo a grande família de Cristo conduzida pelo amor e
representativa da integridade familiar, representada pela figura e excelência de Deus Pai. 9

Em meio a esses princípios, a mulher era tida como "agente dos projetos do Estado e
da Igreja dentro da família".10 Daí a ideia de que a mulher deveria se casar; ser a esposa
virtuosa, humilde e obediente ao marido. Em alguns casos, o uso da força por parte do esposo
era uma ação legítima para se manter o equilíbrio familiar.11 Aparentemente, o discurso da

4
Poligamia: multiplicidade simultânea de mulheres para um marido ou de maridos para uma mulher (poliandria).
Sobre as finalidades do casamento ver VAINFAS, Ronaldo. Trópicos dos pecados: moral, sexualidade e
inquisição no Brasil Colonial.
5
Apesar das proibições, ao longo do século XVIII, as mulheres mineiras tiveram duas instituições educacionais
formais, os recolhimentos de Nossa Senhora da Conceição de Monte Alegre de Macaúbas e o de Santa Ana,
chamado Casa das Lágrimas. O primeiro era direcionado a atender as mulheres das famílias abastadas e o
segundo se caracterizava pela pobreza. FURTADO, Júnia Ferreira. “As mulheres nas Minas do ouro e dos
diamantes”. In: RESENDE, Maria Efigênia Lage de; VILLALTA, Luiz Carlos. (orgs.). História de Minas
Gerais: as Minas setecentistas, vol. 2. Belo Horizonte: Autêntica; Companhia do Tempo, 2007, p. 496.
6
Sobre outras dificuldades enfrentadas pelo Estado e Igreja em difundir o casamento, especialmente, nas Minas
Gerais setecentistas, ver FIGUEIREDO, Luciano Raposo. Barrocas famílias: vida familiar em Minas Gerais no
século XVIII.
7
O processo de conformação e controle da sociedade não foi algo exclusivo do Brasil colonial e imperial,
remete-se a estruturação da sociedade européia ocidental. Não se buscava apenas definir o projeto de família,
mas exercer o controle sobre a vida dos fiéis nos planos terrestre e espiritual. Com o Concílio de Trento (1545-
1563), foram institucionalizadas novas regras e rituais para o casamento, passando a ter valor público e
institucional. De tal modo, que somente era considerado válido a união celebrada pela “Igreja perante o pároco e
testemunhas, precedido pela publicação de três banhos (proclamas ou pregões) e seguido do registro nos livros
paroquiais”. GOLDSCHMIDT, Eliana M. R. Convivendo com o pecado na sociedade colonial paulista (1719-
1822). São Paulo: Annablume/Fapesp, 1998, p.33.
8
Ef 5,25-28
9
HESPANHA, António Manuel. “Carne de uma só carne: para uma compreensão dos fundamentos histórico-
antropológicos da família na época moderna”. In: Análise Social, vol. xxviii(123-124), 1993 (4.°-5.°), pp. 953-
954.
10
DEL PRIORE, Mary. “As atitudes da Igreja em face da mulher no Brasil Colônia”. MARCÍLIO, Maria Luiza
(Org.). Família, mulher, sexualidade e Igreja na história do Brasil. São Paulo: Loyola, 1993, p. 171.
11
Ibidem, p. 177.
52
Igreja instituía a igualdade entre os cônjuges, contudo, na prática os valores estabeleciam
hierarquias sociais. A esposa que era pega na prática do adultério não feria apenas o princípio
da fidelidade do matrimonio religioso, desonrava e colocava em xeque a paternidade dos
filhos. Por outro lado, pela premissa de que o ato sexual no casamento era para fins de
procriação, o homem buscava no adultério a satisfação da carne fora do casamento. 12 Brügger
diz que haveria “infidelidade” no casamento nos casos em que o homem comprometesse o
patrimônio familiar, a autora liga os pedidos de divórcios por adultério aos fatores de ordem
econômica.13

O casamento em si representava segurança e conferia certo reconhecimento social


mesmo para população escrava e liberta, devido a sua legalidade.14 Apesar das resistências
principalmente com relação ao casamento, de acordo com Furtado, o discurso da Igreja
impunha ao senhor o compromisso de permitir aos escravos o acesso ao batizado e ao
casamento religioso, com o risco de sofrerem punições. Eduardo Paiva acrescenta que a
formação de família e de núcleos parentais entre os escravos significava estratégias tanto para
os proprietários como para os cativos.15 A união entre escravos de um mesmo plantel era vista
por alguns proprietários como uma forma de diminuir os gastos com aquisição de novos
cativos devido à reprodução natural e promover a fidelidade e a estabilidade entre o grupo, a
fim de evitar, por exemplo, fugas e a concessão de alforrias. 16 Por outro lado, os escravos não
agiam passivamente, mas foram capazes de, por meio do sacramento religioso, estabelecer
estratégias familiares que diziam muito sobre valores africanos, relações de parentesco e
solidariedades intergrupais, a família significou para os escravos um espaço de autonomia.17

No restrito mercado matrimonial, as alianças entre as famílias ou mesmo os


casamentos entre parentes acabavam por colocar jovens mulheres na condição de obediência e
indisponíveis para outras formas de escolhas de casamento, entre elas o de sentimento mútuo

12
HESPANHA, António Manuel. “Carne de uma só carne: para uma compreensão dos fundamentos histórico-
antropológicos da família na época moderna”, p. 954.
13
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. “Casamento e concubinato: uma análise dos significados das práticas
matrimoniais na América Portuguesa”. In: Revista de História, Porto Alegre: UNISINOS, v. 8, n. 9, 2004, p.
182.
14
FARIA, Sheila de Castro. Colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial, p.323.
15
PAIVA, Eduardo França. Escravidão e universo cultural na Colônia: Minas Gerais, 1716-1789, p. 150.
16
FURTADO, Júnia Ferreira. "Introdução: cotidiano e vida privada". In: RESENDE, Maria Efigênia Lage de,
VILLALTA, Luiz Carlos (Orgs.). História de Minas Gerais: as Minas setecentistas, Vol. 2. Belo Horizonte:
Autêntica; Companhia do Tempo, 2007, p. 488.
17
SLENES, Robert W. Na senzala, uma flor: esperanças e recordações na formação da Família Escrava – Brasil
Sudeste, século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. SLENES, Robert Wayne Andrew. Malungu, ngoma
vem!: África coberta e descoberta no Brasil. In: Revista USP, São Paulo, v. 12, 1992, p. 49.
53
entre os noivos. Cabia ao pai arranjar o casamento da filha. Em contrapartida, ela tinha que
aceitar o futuro marido, muitas vezes desconhecido, sobretudo com o intuito de preservar o
status da família.18 Freyre aponta que em parte os senhores das famílias abastadas mandavam
suas filhas para os conventos para salvaguardarem o patrimônio e garantir a branquidade da
família. Para resolver o problema do casamento entre desiguais e com isso não colocar em
risco o projeto familiar, alguns, como a parte da elite de Pernambuco, São Paulo, Minas
Gerais e de outras regiões brasileiras, optavam pelo casamento entre primos ou tios com
sobrinhas, o chamado casamento endogâmico.19 Ao mesmo tempo, nem todos os casamentos
entre parentes significavam estratégias de preservação patrimonial. Tem que se pensar que o
convívio entre parentes mais próximos criava entre eles afetos que acabavam em estabelecer
uniões entre tio e sobrinha e primos.20

O casamento era um grande acontecimento que envolvia toda família. O pai da noiva
se habituava em adiantar a parte da herança da filha, o dote. Grosso modo, o dote seria o
adiantamento de parte da herança feita pelos pais ao filho (a). A dotação foi apenas mais uma
das várias espécies de doações que poderiam ser feitas pelos pais em vida aos filhos, sendo
mais comum a concessão do dote as filhas.21 Entre as formas de doações previstas, temos os
gastos com a educação dos filhos. Nesse caso, o consentimento era visto não como um
benefício pessoal, mas sim um investimento familiar. O dote era mais comum nos momentos
de se estabelecerem as estratégias familiares e tinha como finalidade conseguir alianças
matrimoniais mais vantajosas, ou seja, os valores ou bens eram firmados entre as famílias e

18
O casamento estava ligado à manutenção do status quo, representava um consórcio ou um projeto familiar
ligado por interesses socioeconômicos e/ou políticos com o objetivo de satisfazer as partes envolvidas. No sertão
do Nordeste, principalmente entre as famílias abastadas, o casamento também significava acordo entre famílias e
o perpetuamento do poder oligárquico local. FALCI, Miridan Knox. “As mulheres do sertão nordestino”. DEL
PRIORE, Mary (org.). Historia das mulheres no Brasil. 2. ed. São Paulo: Contexto, 1997, p. 256.
19
A endogamia entre as elites tinha a finalidade de se evitar o fracionamento das fortunas, era uma forma de
estratégia matrimonial comum no Brasil Colônia e Império. Sobre a presença da endogamia patriarcal em Minas
Gerais, ver quarto capítulo ANDRADE, Marcos Ferreira. Elites regionais e a formação do Estado Imperial
brasileiro: Minas Gerais-Campanha da Princesa (1799-1850). BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas
patriarcal: família e sociedade (São João del Rei - séculos XVIII e XIX). Sobre o assunto ver também FARIA,
Sheila S. de Castro. Colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial.
20
LEWKOWICZ, Ida. "Concubinato e casamentos nas Minas setecentistas". In: RESENDE, Maria Efigênia
Lage de; VILLALTA, Luiz Carlos (Orgs.). História de Minas Gerais: as Minas setecentistas, Vol. 2. Belo
Horizonte: Autêntica; Companhia do Tempo, 2007, p. 536.
21
Afonso de Alencastro Graça Filho, analisando a prática dos dotes entre as elites de São João del-Rei no
período de 1831 a 1888, destaca que não haveria distinções entre os sexos na hora da concessão dos dotes.
GRAÇA FILHO, Afonso de Alencastro. A Princesa do Oeste e o mito da decadência de Minas Gerais: São
João Del Rei (1831-1888), p. 143..
54
repassados ao novo casal para que esses tivessem as condições necessárias para iniciar uma
nova família.22

Dispor se de bens era uma maneira de se posicionar melhor no mercado matrimonial.


As concessões faziam parte dos projetos familiares e variavam conforme a situação
econômica da família. Não se restringia apenas às elites, famílias mestiças que
experimentavam a ascensão econômica utilizavam o dote como forma para conseguir bons
casamentos e com isso promoverem a “limpeza do sangue”.23 Vale lembrar que a prática não
era igualitária entre os herdeiros, poderia haver vantagens na hora da concessão do
benefício.24 A dotação ainda tinha o seu caráter de caridade; havia o costume de dotar
25
parentes, afilhadas e moças órfãs. Avôs, tios e padrinhos ofertavam com doações –
concedendo escravos, vacas, bezerros, quantias em dinheiro, dentre outros bens – o que
acabava por fortificar os laços de parentescos e de gratidão.

Apesar de não existirem precisamente impedimentos legais que não permitissem o


casamento entre pessoas de condições sociais diferentes,26 o casamento entre desiguais era
contestados, socialmente, por exemplo, quando o homem contraía matrimônio com mulher de
cor e de condição jurídica contrária à sua, ficavam ele e seus descendentes impedidos de
concorrer a cargos burocráticos;27 no entanto, “os casamentos consensuais ou sacramentados
28
entre brancos e negras foram freqüentes nas Minas”. O casamento e, por vez, relações de
concubinato entre desiguais significava a inserção na ordem social local, por meio das
relações pessoais e familiares, no caso dos escravos, a tentativa de se aproximar da
liberdade.29

Recorrendo ao banco de dados de casamento da Matriz de Santo Antônio da vila de


São José, têm-se 24 casos de casamentos entre desiguais entre os anos de 1785 a 1859: seis
22
NAZZARI, Muriel. O desaparecimento do dote: mulheres, famílias e mudança social em São Paulo, Brasil,
1600-1900. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 59.
23
FURTADO, Júnia Ferreira. “As mulheres nas Minas do ouro e dos diamantes”, p. 489.
24
A concessão de dote ou outro tipo de doação a um dos filhos não queria dizer que os demais filhos deveriam
ser apreciados também com algum tipo de doação no mesmo valor; às vezes o filho só seria contemplado com
sua parte da herança apenas na hora da morte de um seus dos progenitores. BRÜGGER, Silvia Maria Jardim.
Minas patriarcal: família e sociedade (São João del-Rei - séculos XVIII e XIX), p. 175.
25
FURTADO, Júnia Ferreira. “As mulheres nas Minas do ouro e dos diamantes”, p. 490.
26
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. “Casamento e concubinato: uma análise dos significados das práticas
matrimoniais na América Portuguesa”, p. 179.
27
VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos pecados: moral, sexualidade e Inquisição no Brasil, p. 84.
28
PAIVA, Eduardo França. Escravos e Libertos nas Minas Gerais do século XVIII: estratégias de resistências
através dos testamentos. São Paulo: ANNABLUME, 1995, p. 174.
29
MATTOS, Hebe Maria. Das cores do silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista, Brasil
Século XIX, p. 52.
55
homens forros (01 quartado) se casaram com escravas. Em 08 casos, houve o casamento de
escravo com pessoa livre; 10 mulheres forras casaram-se com escravos; em um caso, a noiva
Sebastiana Costa Sousa, moradora da Freguesia da vila de São José, libertou o noivo, Pedro
Silva, brasileiro, propriedade de Sebastiana Costa Silva, ao se receberem em matrimônio,
demonstrando as vontades contrárias às determinações sociais que condenavam o casamento
entre desiguais. 30

O casamento, além de ocorrer dentro de grupos sociais restritos, maiormente, entre as


elites brancas, atendia aos interesses das partes envolvidas. Como bem lembra Brügger, a
“igualdade de condição jurídica não bastava para nortear as opções matrimoniais”,31 acima
das igualdades jurídicas (cor/condição), o casamento se fazia pela transmissão de herança e
pelo firmamento de alianças familiares. Portanto, para se ter acesso ao casamento, era
necessário ter certas condições e ser igual, ou seja, “ter o que trocar. Assim, as uniões
matrimoniais selavam alianças entre grupos familiares que tinham algo a se oferecer,
reciprocamente, fosse prestígio social, riqueza, acesso a redes de poder”.32 Nesse sentido, por
ocuparem e serem maioria nas elites da sociedade oitocentistas é que os brancos teriam
maiores chances de aceitação social e maiores facilidades de conseguirem estabelecer alianças
matrimoniais do que a população pobre.33 Embora os critérios fossem menos seletivos entre a
população pobre, também se levava em conta o estrato social e étnico do futuro cônjuge.
Entretanto, existiam entre a população aqueles indivíduos que optavam pelo celibato ou
escolhiam viver em uniões consensuais, contrariando e resistindo ao projeto da Igreja em
constituir a família sacramentada.34

2.2 - CONCUBINATO: UMA RELAÇÃO NÃO ANTAGÔNICA AO CASAMENTO

A palavra concubinato tem sua origem no Império Romano. O termo se relacionava


com dois tipos de relações o concubinat que era permitido, porém sem valor e direito de
casamento, envolvia relações de homens com mulheres inferiores, por exemplo, as escravas.
O stuprum se referia às relações com moças de famílias ou viúvas. Frente à heterogeneidade

30
Livros de Casamentos da Freguesia de Sto. Antônio da Vila de São José, 1782-1860.
31
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del-Rei - séculos XVIII e
XIX), p. 226.
32
Idem.
33
FARIA, Sheila de Castro. Colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial, p. 103.
34
SAMARA, Eni de Mesquita. “Estratégias matrimoniais no Brasil do século XIX.” Revista Brasileira de
História, SP, vol.8, nº 15.
56
social de Roma e com o passar do tempo, o concubinat foi considerado um casamento
juridicamente legal e permitido entre as classes subalternas e grupos estrangeiros que viviam
nos limites do Império.35

Apenas com a consolidação do cristianismo na Europa e por meio dos Concílios,


deliberação eclesiástica sobre aspectos da vida dos fieis, que o concubinato passou a ter sua
legalidade questionada. Neste sentido, as proeminências de Santo Agostinho, sobre casamento
e relação sexual com fins apenas de procriação, serviram de fundamentos para se contrapor o
36
concubinato enquanto situação legal, passando a ser contestado pelas leis divinas e afirmar
a mulher numa posição negativa e sujeita as ordens do marido.37

Para a Igreja Católica, o concubinato era o espaço para fornicação, relação considerada
grave para os solteiros e gravíssima para os casados. O Concílio de Trento (1545-1563)
classificava o concubinato como pecado carnal e contra o sacramento religioso (casamento),
crime versus a moral da Igreja posto a excomunhão “se não houvesse arrependimento e
emenda dos pares, depois de ser feita a admoestação".38

No Brasil, as Constituições Primeiras da Bahia, em 1707, seguem o caminho trilhado


na Europa e definem concubinato como sendo uma relação ilícita e de condição de pecado
carnal. Durante o século XVI, os termos concubinato e mancebia eram usados para
caracterizar os tratos que colonos portugueses tinham com índias, negras e mestiças.39 A partir
do século XVII, o termo professava os significados de não casamento e de desqualificação
social. Em geral, a prática se diferenciava das outras relações consensuais, uma vez que o
“andar concubinado”40 se definiria mais pela “durabilidade e publicidade do que pela
coabitação” da relação.41 Tradicionalmente são citados como fatores que contribuíam para o
predomínio das relações ilícitas: as diferenças e condições sociais, a disparidade entre os
sexos, a necessidade de se migrar em busca de melhores condições de vida, as práticas

35
Sobre a origem e polissemia da palavra concubinato, ver primeiro capítulo TORRES LONDOÑO, Fernando.
A outra família: concubinato, Igreja e escândalo na colônia. História Social - USP, São Paulo: Loyola, 1999.
36
"El Matrimonio y la concupiscencia". In: Obras completas de San Agustín. Madrid, Biblioteca de Autores
Cristianos, 1984, vol. XXXV, caps. XVII e XXIII. Apud TORRES LONDOÑO, Fernando. A outra família:
concubinato, Igreja e escândalo na colônia, p. 23.
37
Sobre a posição negativa e a desvalorização social da mulher na cultura ocidental cristã, vista por pensadores e
juristas, ver HESPANHA, António Manuel. “O estatuto jurídico da mulher na Época da Expansão”.
38
TORRES LONDOÑO, Fernando. A outra família: concubinato, Igreja e escândalo na colônia, p. 23.
39
Ibidem, p. 28.
40
Expressão comum nas documentações das devassas eclesiásticas para designar aqueles que viviam em situação
de concubinato.
41
VAINFAS, Ronaldo. Trópicos dos pecados: moral, sexualidade e inquisição no Brasil Colonial, p. 73.
57
matrifocais entre os escravos, a autonomia das mulheres forras, somadas à burocracia e aos
altos valores cobrados para a celebração do casamento religioso.

De acordo com Eliana Goldschmidt, existiam vários tipos de concubinato.42 A relação


poderia envolver indivíduos do mesmo segmento social ou não. O estado civil, se o individuo
era solteiro, casado ou viúvo, não era barreira, já que grande foi o número de histórias
envolvendo indivíduos casados em relações extraconjugais; nem mesmo as diferenças
culturais foram impedimentos para a existência do concubinato. Entre os tipos de
concubinagens estão por promessa de casamento, como o próprio nome diz, havia entre os
amancebados a promessa de casamento, sendo a iniciativa feita pelo homem, podendo ser a
jura "registrada em cartório" ou mesmo oral. O concubinato adulterino tinha como
característica o descumprimento dos preceitos do matrimônio religioso. Nesse caso, o
envolvido levava uma vida amorosa paralela ao casamento; os exemplos extremos aconteciam
quando o marido zelava pela amante e deixava ao descaso a esposa e filhos.
Tendenciosamente, a aproximação e o convívio diário entre parentes eram as justificativas
para explicar o concubinato incestuoso, pois além da contestação social, as penas dadas ao
envolvidos eram mais severas em comparação com as outras espécies de concubinato. Por
fim, havia o amancebamento de clérigos que iam a priori contra os dogmas da igreja, porém,
em algumas circunstâncias, havia o consentimento da sociedade local com a relação à vida
amorosa dos padres.43

Apesar de toda a legislação imposta pela Igreja e pelo Estado em estabelecer a família
unida pelos laços sagrados, a historiografia referente ao tema tem mostrado predomínio das
relações ilícitas em Minas Gerais entre os séculos XVIII e XIX, refletidas nos altos números
de domicílios chefiados por mulheres, acompanhado pelo alto índice de filhos ilegítimos.44 A
ascendência das relações consensuais entre a sociedade mineira demonstra a fragilidade e a
ineficiência do projeto normatizador da Igreja Católica. Desde o período colonial, o Estado e
a Igreja enfrentaram grandes dificuldades para divulgar o casamento entre a população

42
Sobre a definição dos vários tipos de concubinato, ver o quarto capítulo GOLDSCHMIDT, Eliana Maria Rea.
Convivendo com o pecado na sociedade colonial paulista (1719-1822).
43
Vários padres foram denunciados nas devassas eclesiásticas por viverem em estado de concubinato; entre as
envolvidas estavam escravas, libertas e índias. Em alguns casos, a própria Igreja fazia “vista grossa à ida
desregrada e indisciplinada do clero”. Ver RESENDE, Maria Leônia Chaves de. “Devassas gentílicas: inquisição
dos índios na Minas Gerais colonial”. RESENDE, Maria Leônia Chaves; BRÜGGER, Silvia Maria Jardim
(orgs.). Caminhos gerais: estudos históricos sobre Minas (séc. XVIII – XIX) – São João del-Rei: UFSJ, 2005,
pp. 17-18.
44
A esse respeito, ver RAMOS, Donald. “A mulher e a família em Vila Rica do Ouro Preto: 1754-1838”.
58
mineira. Classicamente, os estudos historiográficos têm atribuído esse fracasso ao caráter
itinerante da população em busca de riquezas e de melhores condições de vida, famílias
separadas pela imensidão do oceano e da própria colônia, a pobreza e a falta de mulheres
brancas.

Segundo Londoño,45 o concubinato era a violação mais reconhecida e presente na


sociedade, por conseguinte, a mais denunciada nas Visitas Diocesanas.46 Contudo, Silvia
Brügger ressalta que não se pode dizer que toda denúncia era uma reprovação ao concubinato,
pois havia dois tipos de testemunhas: as indicadas e as que se apresentavam espontaneamente.
Muitas vezes, indivíduos que eram denunciantes em outras circunstâncias tinham sido
denunciados por causa da mesma prática. Neste sentido é que as Visitas Diocesanas poderiam
ser a oportunidade para se prejudicar as pessoas envolvidas em denúncias. O termo
concubinato poderia ser atribuído a qualquer relação entre homem e mulher, fora do
casamento: "houve pessoas apontadas como se estivessem vivendo em concubinato apenas
pelo fato de terem sido vistas juntas".47 Tinham em comum o desprestígio social,
especialmente, enraizado no discurso da Igreja Católica.48 Assim, não necessariamente as
denúncias representavam por si só uma reprovação ao concubinato, poderia ser a utilização do
discurso eclesiástico para outros fins, o pessoal. De tal modo que, assim sendo, deve-se tomar
cuidado para não vislumbrar o número de denúncias contra concubinos como prova concreta
de condenação social a essa prática.49 Nesse sentido, Londoño afirma que

o concubinato e as relações fora do casamento foram se impondo com espaços de


relacionamento sexual e afetivo. Eram alternativas individuais para a sobrevivência
e mais um meio de reprodução da população. No marco de uma sociedade
construída sobre a escravidão e o colonialismo, a complementação do casamento-
aliança com as relações extramatrimoniais e de concubinato, extensões do
casamento, parecem 'necessárias’. 50

45
LONDOÑO, Fernando Torres. A outra família: concubinato, Igreja e escândalo na Colônia, p. 182.
46
Por meio das Visitas Diocesanas a Igreja perseguia os concubinários, amancebados, as prostitutas e os
desviantes da moral cristã. As Visitas Diocesanas ou as chamadas Pequenas Inquisições, como ficaram
conhecidas, tinham como objetivo “fiscalizar a vida dos fregueses. Sua intenção era contundente: desterrar ‘os
vícios, erros, abusos e escândalos’ fazendo ‘muitos serviços a Deus e a Nossa Senhora, em grande bem espiritual
e temporal de suas ovelhas’. Dentro desse espírito, reafirmava seu principal objetivo: manter a vigilância sobre
os paroquianos, apontando os abusos e definindo as punições dos infratores”. GOLDSCHMIDT, Eliana Maria
Rea. Convivendo com o pecado na sociedade colonial paulista (1719-1822), p.85.
47
TORRES LONDOÑO, Fernando. A outra família: concubinato, Igreja e escândalo na colônia, p. 29.
48
FIGUEIREDO, Luciano. O avesso da memória: cotidiano e trabalho da mulher em Minas Gerais no século
XVIII. pp. 125-132.
49
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. “Casamento e concubinato: uma análise dos significados das práticas
matrimoniais na América Portuguesa”, p. 184.
50
TORRES LONDOÑO, Fernando. A outra família: concubinato, Igreja e escândalo na colônia, p. 29.
59
Para Maria Beatriz Nizza da Silva, o concubinato era uma relação oposta e
concorrente ao matrimônio religioso, ou seja, uma espécie de casamento informal. Nos
escritos da autora, o concubinato era “a resultante de obstáculos econômicos à celebração do
casamento”, os altos custos processuais tornavam o casamento algo exclusivo para aqueles
que possuíam recursos financeiros. Ao mesmo tempo, os trâmites burocráticos faziam com
que os grupos de pessoas menos favorecidos, entre eles índios, libertos, africanos e seus
descendentes, preferissem o concubinato ao casamento formal.51 Haveria, portanto, uma
desvalorização do sacramento religioso por parte desses.

Contrapondo-se a essa visão, Brügger, ao analisar os significados atribuídos aos dois


termos, salienta que as práticas foram instituições distintas com funções e objetivos próprios:
“o casamento era, acima de tudo, um arranjo familiar calcado em interesses de ordem
socioeconômica e/ou política”, exteriorizados por meio das alianças familiares e selados pela
benção da Igreja. Por outro lado, a prática do concubinato

abria espaço para a satisfação de interesses pessoais, inclusive os de cunho afetivo e


sexual. É claro que se podem encontrar situações de relações não sancionadas pela
Igreja, que longe estavam de atender exclusivamente aos interesses pessoais, mas
que também podiam satisfazer à unidade familiar como um todo.52
No sentido de constituir vínculos familiares, Luciano Figueiredo relaciona a chefia
feminina às práticas de uniões consensuais e ao concubinato. Para explicar os núcleos
familiares incompletos em comparação ao modelo da família patriarcal tradicional, o autor
utiliza-se do termo “família fracionada”, o mesmo que família fragmentada. A adoção dessa
estratégia familiar era a forma de resistência contra a moral dominante, ou seja, o jeito de se
escapar das denúncias e da justiça eclesiástica: os envolvidos se separavam em residências
distintas. Mesmo não se tratando de famílias legalizadas, o fracionamento não excluía os
projetos familiares estáveis, os laços afetivos e amorosos dos envolvidos e nem os rituais
familiares e as ajudas financeiras. É a estabilidade do relacionamento e não o caráter
esporádico da relação que definiria a “família fragmentada”. Nessas circunstâncias não
ocorria a presença da figura masculina representando o chefe de família; por outro lado,
haveria nesses domicílios a redefinição das funções: a mulher assumindo e desempenhando o
papel de chefe.53 Segundo o autor, essas mulheres não apenas se posicionavam à frente da

51
SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Sistema de casamento no Brasil Colonial. São Paulo: EDUSP, 1984, p. 55.
52
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. “Casamento e concubinato: uma análise dos significados das práticas
matrimoniais na América Portuguesa”, pp. 174-175.
53
FIGUEIREDO, Luciano. O avesso da memória: cotidiano e trabalho da mulher em Minas Gerais no século
XVIII, p. 125.
60
família, mas também garantiam a sobrevivência do domicílio, composto por agregados, e por
meio do trabalho, principalmente ligado à atividade comercial local, elas garantiam a
independência familiar:

a família fracionada aparece como a mais perfeita síntese desse amplo processo
cultural: casais abriam mão da coabitação para manter a união sem perigo da
exclusão religiosa. O sentimento amoroso na cultura popular resistiu ancorado nesse
modelo de família para preservar o afeto e protegê-lo da repressão dispersiva das
instituições da cultura dominante.54
Londoño atribui ao concubinato o título de família que ia além dos interesses
patrimoniais, não no sentido de recorrer diretamente com o casamento religioso, mas no
sentido de responder aos "desejos imediatos, necessidades individuais, afetos e paixões ou à
luta pela sobrevivência; que se articulam em torno de vínculos por vezes efêmeros e
episódios, por vezes duradouros e estáveis".55 Para tanto, o autor relaciona a chefia feminina,
nas vilas mineira e em São Paulo, ao concubinato. Num ambiente marcado pela pobreza essas
mulheres eram entregues à “sorte” e não se ausentavam do trabalho, muitas recorriam à
prostituição para garantir o sustento.56

Assim, haveria a concorrência entre casamento e concubinato apenas no discurso


eclesiástico. Prova disso encontra-se no empenho da Igreja em difundir o matrimônio e, ao
mesmo tempo, combater as uniões consensuais. Em que pese às diferenças de abordagem,
todavia, como se mostrou nos estudos de Brügger, Figueiredo e Londoño, na vivência do
cotidiano o casamento não excluía o concubinato nem o concubinato excluía o casamento.
Apesar de ser uma característica pressuposta ao casamento, em ambos os casos, haveria a
chance de se constituírem laços e projetos familiares.

A história de vida da parda forra Ana Maria de Oliveira demonstra as complexas rela-
ções entre casamento e concubinato na sociedade mineira. Ana Maria aparece no censo eclesi-
ástico de 1795 como sendo a responsável pelo seu domicílio. Por esta fonte sabemos que, en-
tão, era solteira e tinha 43 anos. Nessa época, moravam em sua companhia, além dos quatro
escravos, os filhos Joaquim e Maria, que na ocasião tinham, respectivamente, 18 e 13 anos de
idade, ambos sem referência ao sobrenome e indicados como pardos.

54
FIGUEIREDO, Luciano. “Mulheres nas Minas Gerais”. Del Priore, Mary (org.). Historia das mulheres no
Brasil. 2. ed. São Paulo: Contexto, 1997, p. 184.
55
TORRES LONDOÑO, Fernando. A outra família: concubinato, Igreja e escândalo na colônia, p. 61.
56
Segundo Londoño, em muitos casos ficava difícil separar o meretrício da prática do concubinato. Sobre o
assunto ver o terceiro capitulo TORRES LONDOÑO, Fernando. A outra família: concubinato, Igreja e
escândalo na colônia.
61
Em 14 de outubro de 1805, Ana Maria contraiu casamento com o Capitão Manoel
Lobo e Castro, português natural do Arcebispado de Braga. Pode-se supor que o capitão tenha
enfrentado os valores morais da época e se casado com a forra Ana Maria sabendo que ela era
mãe solteira e forra ou que ele não resistiu aos encantos da ex-escrava. 57 Porém, no registro do
casamento de Maria, filha de Ana Maria de Oliveira, constata-se que o capitão Manoel Lobo
foi declarado como sendo o seu pai.58

O capitão aparece no mesmo censo eclesiástico como sendo o responsável pelo seu
domicílio, 58 anos, solteiro, e o que nos mais chamou a atenção foi o vasto número de escra-
vos que se encontravam em seu poder totalizando, 101 escravos, o segundo maior plantel de
escravo na vila de São José, porém nem todos os escravos eram de propriedade do capitão; to-
davia mesmo não sendo proprietário de todos os escravos, pode-se supor que ele seria um dos
homens mais importantes da região. Além dos escravos, aparece em seu domicílio o agregado
Francisco Ferreira Duarte, 71 anos, branco, solteiro.

A partir daí, a análise da trajetória de vida da forra Ana Maria, em cujo inventário
aberto em 1823 recebe o tratamento de “dona”, fica mais clara.59 Provavelmente, para a socie-
dade local, o capitão vivia em relação consensual com a forra, o que vem a se confirmar no
registro de casamento. Fica a pergunta: por que só no ano de 1805 os dois, já em idade avan-
çada, selaram a união perante a Igreja Católica? De acordo com o documento, o capitão se en-
contrava enfermo; diante do perigo da morte, o casal solicitou ao vigário local o pedido de
dispensa dos procedimentos pré-nupciais. Para tanto, como justificativa, apresentaram o certi-
ficado de enfermidade do noivo, a dispensa foi concedida e o casamento se realizou na pró-
pria casa do capitão.60

Pensando na estabilidade da relação dos dois, o casamento era a maneira de se garantir


o direito de propriedade de Ana Maria e dos filhos, uma preocupação religiosa ou a soma das
duas, pois por meio do matrimonio religioso punha-se fim à vida pecaminosa de que tinham
consciência e, ao mesmo tempo, garantiam a salvação eterna. Mas ainda temos que indagar se

57
Gilberto Freyre destaca que a falta de mulheres brancas na Colônia não era o único fator que motivava a
relação entre colonos portugueses e mulheres índias ou negras, mas haveria certa preferência dos colonos por
essas mulheres, tida como exóticas. FREYRE, Gilberto. Casa-grande e senzala: formação da família brasileira
sob o regime da economia patriarcal. 51. ed. São Paulo: Global, 2006, pp. 530-532.
58
Livros de Casamentos da Freguesia de Sto. Antônio da Vila de São José, 1782-1860.
59
IPHAN/SJDR, inventário de Ana Maria de Oliveira, 1823, caixa 287.
60
Ibidem.
62
tratava de uma forma de expressar o sentimento “amoroso”61 que o português sentia pela for-
ra. Vale aqui lembrar que o casamento entre desiguais era reprovado socialmente. Nesse caso,
o casamento, em épocas anteriores, poderia colocar a perder o prestígio e a posição social
conquistada pelo português que, por sinal, era bastante extensa. Por outro lado, frente à morte
haveria, portanto, um “peso de consciência” do capitão e o reconhecimento da importância
que a companheira tivera ao seu lado mesmo não estando casados.

Não se pode indicar o início da relação entre os dois. Contudo, fica claro na documen-
tação que a relação do casal já era antiga. Conforme consta no registro de casamento, viviam
perante a sociedade uma vida de casados: “por viver de portas adentro com a noiva com quem
tem dois filhos”.62 Furtado aponta que, em vários exemplos, as relações de concubinatos eram
“estáveis e duradouras e acabavam sendo informalmente aceitas” pela comunidade.63 Outro
indicativo da durabilidade da relação é que, no ano 1795, o filho mais velho do casal tinha 18
anos.

A relação da forra Ana Maria com o capitão Manoel Lobo e Castro se aproxima do
conceito de “família fragmentada”, proposto pelo professor Luciano Figueiredo: como os dois
aparecem no Rol dos Confessados vivendo em domicílios separados, poderiam viver assim
para escapar, por exemplo, das devassas eclesiásticas, mas, ao mesmo tempo, estavam ligados
por afeto. Supostamente, Ana Maria mantinha seu domicílio com a ajuda financeira do capi-
tão. Os escravos listados em seu fogo poderiam ser um indicativo da ajuda financeira do
amante. Nesse sentido, ocorre, ainda, a especulação de que tenha sido o capitão que tenha
comprado ou ajudado em parte Ana Maria adquirir a sua carta de alforria. As evidências da
união estável do casal não terminam por aqui.

Nesse panorama, destaca-se que, conforme o censo eclesiástico de 1795, os filhos do


casal são declarados como sendo pardos um indicativo do passado escravo da mãe e, pela fal-
ta de sobrenome apresentado no Rol, pode-se pensar que o capitão não reconhecera e não
dava nenhuma assistência à concubina e aos seus dois filhos ou que a ajuda financeira se dava
em segredo. Contudo, conforme o inventário de Ana Maria, além de receber o título de dona,
61
O termo "amoroso" aqui empregado não se deriva precisamente da palavra "amor", mas das complexas
relações ilícitas entre homens livres e escravas e mulheres livres de cor, que envolviam desejos, prazeres e
interesses pessoais e sociais distintos. Para explicar essas intricadas relações, Adriana Alves utiliza-se do
conceito de Cultura Sexual, sobre o assunto ver ALVES, Adriana Dantas Reis. As mulheres negras por cima o
caso de Luzia Jeje: escravidão, família e mobilidade social - Bahia, c. 1780 - c. 1830. Tese de doutorado. Niterói:
UFF, 2010.
62
Livros de Casamentos da Freguesia de Sto. Antônio da Vila de São José, 1782-1860.
63
FURTADO, Júnia Ferreira. “As mulheres nas Minas do ouro e dos diamantes”, p. 501.
63
o que sugere a sua ascensão social e econômica, anos posteriores a filha do casal também re-
cebera o título de dona, ocorrendo supostamente o branqueamento da linhagem familiar da
ex-escrava Ana Maria.

Acreditamos, ainda, que, mesmo antes de selada a união entre os dois e o fato de habi-
tarem, em algum momento de suas vidas, em domicílios separados, não tenha faltado ao por-
tuguês a preocupação de “criar e educar” os filhos, o que era uma responsabilidade dos pais:
“a forma de relacionamento e o cuidado com a criação dos filhos eram elementos importantes
para caracterizar a paternidade ou a maternidade. Estes sinais é que tornavam visíveis à socie-
dade os vínculos que uniam pais e filhos”.64 No restrito mercado matrimonial a filha Maria
Severina de Castro casa-se jovem, com aproximadamente 19 anos, em 1801, com o Capitão
José Esteves de São Francisco, antes mesmo do casamento de seus pais em 1805.65 Pela pa-
tente do noivo pode-se pensar que se tratava de uma família abastada. Nesse sentido, a influ-
ência, o prestígio social do pai e o dote recebido pela filha no valor de 1:216$350 66 foram de
grande relevância para o firmamento das alianças matrimoniais entre as duas famílias, bem
como o financiamento do casamento, que envolvia a compra do vestido, cerimônia, festa, en-
tre outros gastos.

Lembrando, ainda, que a educação dos filhos era de responsabilidade dos pais e que,
para tanto, demandaria investimento em dinheiro. Vale aqui destacar que o filho mais velho
do casal Joaquim José Lobo chegara a ser Reverendo Vigário de Carrancas, o que exigia in-
vestimento e anos de dedicação em estudo. Pelo fato de ser letrado, haveria por parte do por-
tuguês a preocupação em pagar todas as despesas do filho com educação, até pelo fato de que
o investimento em educação não era visto apenas como um “benefício pessoal, mas como res-
pondendo aos interesses da família como um todo”.67

Desse modo, mesmo vivendo por anos fora do padrão da família católica, vivendo em
domicílios separados ou coabitando na mesma residência, o casal Cap. Manoel Lobo e Castro
e a forra Ana Maria de Oliveira constituíram e estabeleceram laços familiares e projetos que
visavam à família. Portanto, o exemplo descrito acima demonstra que, longe de concorrer di-
retamente com o casamento, o concubinato estava ligado à própria dinâmica da sociedade, na
64
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del Rei - séculos XVIII e
XIX), p. 156.
65
Livros de Casamentos da Freguesia de Sto. Antônio da Vila de São José, 1782-1860.
66
IPHAN/SJDR, Inventário do Capitão Manoel Lobo de Castro, São José, 1805, Caixa 504.
67
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del-Rei - séculos XVIII e
XIX), p. 175.
64
qual os sentimentos de afeto se confrontavam, em alguns casos, com os interesses sociais e
econômicos dos envolvidos. Sobretudo, esses exemplos ajudam a entender um pouco sobre a
lógica da sociedade mineira e dos domicílios chefiados por mulheres.

2.3 - ESTADO CONJUGAL DAS MULHERES CHEFES DE DOMICÍLIO

Os dados do Rol dos Confessados realizado em 1795 indicam que a taxa de nupciali-
dade na vila era baixa, considerando a população livre e forra maior de 12 anos, apenas 32%
dos homens e 39% das mulheres eram casados ou viúvos. Entre os indivíduos chefes de domi-
cílios, dos 438 domicílios chefiados por homens, 51% deles eram casados ou viúvos. Já entre
as mulheres a situação era diferente. Predominavam as solteiras com 180 casos (64%), após as
viúvas, 59 casos (21%), das casadas, 33 casos (12%) e em 09 casos (3%) não houve referência
ao estado civil. Somando-se as casadas e as viúvas 33% das mulheres chefes já haviam tido
experiência com casamento em algum momento de suas vidas. No entanto, prevaleciam as
solteiras, que correspondiam a 64% das mulheres chefes de domicílios.

Analisando separadamente os grupos das brancas e das mulheres de cor, encontramos


os seguintes números: no grupo das brancas temos 18 viúvas, 08 solteiras e 04 casadas, totali-
zando 30 casos, entre as mulheres de cor encontramos 172 solteiras, 41 viúvas, 29 casadas e
09 casos sem referência ao estado conjugal da cabeça do domicílio, totalizando 251 casos. Se
somarmos, no grupo das brancas, as viúvas e as casadas, 67% delas haviam tido experiência
com o sacramento religioso, enquanto que o índice das mulheres chefes de cor não chega aos
28%. Nitidamente, o casamento era mais fácil entre as mulheres brancas (ver Tabela 04).

Sss

Sss

Sss

65
Tabela 04
Estado conjugal das mulheres chefes de famílias da vila de São José, nos anos de 1795 e
1831/32
Estado Civil
Ano Designação Não De- Total
Solteiras % Casadas % Viúvas % %
clarado
Mulheres de Cor 172 61 29 10 41 14,5 09 3,5 251
1795
Brancas 08 3 04 1,5 18 6,5 - - 30
Total 180 64 31 11,5 59 21 09 3,5 281
Mulheres de Cor 117 54,5 08 4 52 24 01 0,5 178
1831/32
Brancas 18 8,5 01 0,5 17 8 - - 36
Total 135 63 09 4,5 69 32 01 0,5 214
Fonte: ver tabelas 01 e 02.
Em comparação com os dados da virada do século XVIII, a taxa de nupcialidade, entre
a população branca e livre de cor, na década de 1830, continuou baixa, tendo um pequeno au-
mento na percentagem com relação à população masculina: 39% das mulheres e 43% dos ho-
mens eram casados ou viúvos. Entre os domicílios de chefia masculina sobressaiam os casa-
dos com 192 casos (68%), em seguida, os solteiros, 72 casos (25%), e viúvos, 19 casos (7%).
Semelhante ao Rol dos Confessados, prevalece também nos primeiros anos da década de
1830, entre os domicílios chefiados por mulheres, as solteiras com 63%, as viúvas 32,5%, ca-
sadas 4% e, por fim, 0,5% não traz referência ao estado conjugal. Ao somarmos a percenta-
gem das casadas e das viúvas, quase 37% das mulheres haviam se casado, ou seja, vislumbra-
vam no casamento uma possibilidade para suas vidas. Contudo, fica claro que o solteirismo
era uma característica da vila de São José e não apenas dos domicílios chefiados por mulhe-
res.

Se analisarmos separadamente o estado matrimonial das brancas e das mulheres de


cor, encontramos para as brancas os seguintes dados: 50% eram solteiras, 47% eram viúvas e
3% eram casadas. Já entre as mulheres de cor, temos índices mais expressivos de solteiras:
66%, seguidas pelas viúvas 29% e, por fim, com quase 4,5% eram casadas. Em um caso o es-
tado conjugal não foi mencionado.

Na vila de S. José, tanto no censo eclesiástico como nas Listas Nominativas, predomi-
navam entre os fogos chefiados por mulheres as solteiras. Em apenas um caso, entre as casa-
das, foi possível apontar a presença do marido ocupando o domicílio: Purcidonia Maria, fian-
deira, 45 anos, casada com Joaquim Purcidonio, músico, 20 anos. O que pode explicar a de-
claração de Purcidonia como sendo chefe de seu domicílio, mesmo na presença do marido, é a

66
diferença de idade: 25 anos mais velha. Nos demais domicílios chefiados por mulheres casa-
das não foi possível diagnosticar a presença do esposo compondo o domicílio nem o motivo
da separação. Essas se declaravam casadas, mesmo pelo fato de que seus maridos poderiam
ter migrado para outras regiões em busca de melhores condições de vida ou estavam a traba-
lho/viagem em outras localidades, e elas se consideravam ligadas legalmente a eles.

Em outro caso, o inventário de Luiza Maria da Assunção, foi possível detectar que
mesmo vivendo em companhia do marido, Bernardo da Silva Senne, ela foi apontada como
sendo o "cabeça do casal". Aparentemente, no decorrer da configuração do documento não
houve nenhuma indicação de alguma deficiência física ou metal do marido que pudesse
atribuir a Luiza a chefia familiar. O casal gerou oito filhos: D. Ana Luisa, casada com
Antônio Marques de Mello, D. Joana Bernardina, casada com José Antônio da Silveira,
Antônio da Silva Senne, Vicente Francisco Silva, José Bonifácio da Silva, Manoel Justino da
Silva, Luis Joaquim da Silva e Francisco de Paula Senne. Entre os substantivos encontrados
no inventário para caracterizar Luiza Maria estão "mulher, mãe e sogra".68 Num primeiro
momento, os substantivos podem parecer simples, sem muito significado, mas podem indicar
grandes atribuições às mulheres oitocentistas. Além de ser a responsável pelo seu domicilio,
Luiza ainda era mãe e sogra e nesse sentido é que ela exercia grande influência em toda a
família, a incluir os lares de suas filhas. E esse simbolismo era reconhecido também pelos
seus genros.

Vamos abrir parênteses para analisar alguns aspectos do domicílio de Luiza Maria da
Assunção, a fim de perceber o ambiente em que se dava a chefia familiar. O casal possuía sete
escravos, Vicente, 28 anos, crioulo; Adão, 20 anos, crioulo; Albino, 09 anos, crioulo; Theodo-
ro, de 14 anos, crioulo; Generoza, 16 anos, crioula; Margarida, 25 anos, crioula e Dorothea
(Doente), 42 anos, crioula. Os escravos representavam 44,37% dos bens da família (ver Tabe-
la 05).

Os bens imóveis representavam 41% dos bens do casal. Entre eles uma sorte de terras
"composta de campos e capoeira” onde ficava situada a casa. A morada do casal foi avaliada
separada das terras, algumas descrições são feitas em relação à casa da família, como a cober-
tura de telha, a presença de paiol, cozinha e curtume cobertos de capim. Havia ainda o quintal
e a indicação de “poucos arredores” e um monjolo velho. Além das terras e da morada de ca-
sas são avaliados outra sorte de terras de cultura, localizada além do Ribeirão chamado de
68
IPHAN/SJDR, inventário de Luiza Maria da Assunção, vila de São José, 1833, caixa 608.
67
“sertão” e um pedaço de capoeirão que ficava por cima das terras que foram do finado Pauli-
no Montes.69

Tabela 05
Discriminação dos bens da falecida Luiza Maria da Assunção
Natureza/Bens Valores Porcentagem
Bens Imóveis 2:227$000 41%
Escravos 2:410$000 44,37%
Animais 625$000 11,51%
Objetos Pessoais 45$860 0,84%
Instrumento de Trabalho 43$760 0,81%
Dinheiro em Giro de Negócio 80$000 1,47%
Total 5:431$620 100%
Dívidas Passivas (-) 183$790 (-) 3,38%
Liquido 5:247,83 96,62%
Fonte: IPHAN/SJDR, inventário de Luiza Maria da Assunção, vila de São José, 1833, caixa 608.
A análise dos imóveis e a presença de animais vacuns indicam a ligação do domicílio
com o meio rural. No entanto, não é possível indicar quais produtos se produziam. Nas di-
mensões da propriedade poderia se plantar para o consumo ou para a comercialização do ex-
cedente. Os instrumentos de trabalho também indicam a ligação com o meio rural: três foices,
duas enxadas, duas enxadas inferiores e um carro velho com seus arreios. Chama ainda a aten-
ção, entre os instrumentos de trabalho, o aparelho de ferrar com uma pequena bigorna e um
tear. A atividade agrícola poderia ser a principal atividade do domicílio. Contudo, o aparelho
de ferrar e o tear nos direcionam para a prática das atividades manuais que poderiam ser um
complemento ou economia de gastos como, por exemplo, com o conserto das ferramentas e
roupa de escravos.

Como visto, predominava a diversidade de atividades no domicílio encabeçado por


Luiza Maria da Assunção. O casal possuía ainda dinheiro em giro de negócio, no valor de
80$000. Os objetos pessoais demonstram a rusticidade do domicílio; foram listados poucos
pertences, entre eles objetos de prata, estanho, armário, mesa e banco. Havia potencialmente
no domicílio a associação do trabalho escravo com o trabalho familiar, uma vez que nenhum
filho homem do casal foi mencionado como menor de idade e nem o estado civil deles foi de-
clarado. Assim, existia grande chance de eles morarem junto aos seus pais e ajudarem no de-
sempenho das atividades e no andamento das atividades diárias.

69
IPHAN/SJDR, inventário de Luiza Maria da Assunção, vila de São José, 1833, caixa 608.
68
É nesse ambiente dinâmico, com o predomínio do universo agrário, mas com a possi-
bilidade da existência das atividades manuais, que Luiza Maria da Assunção era reconhecida
por seus familiares e também pela comunidade local como chefe de sua unidade familiar. E
era por meio da administração dos bens e na gerência do trabalho dos escravos que virtual-
mente vinha o sustento de sua família.

Apesar do caráter excepcional, fica claro que a chefia feminina com o marido presente
era possível.70 Sendo assim, supõe-se que essas, mesmo na presença do marido, estavam man-
tendo ou tendo participação ativa na administração dos domicílios.

Saint-Hilaire, em sua segunda viagem a Minas Gerais, antes de chegar à vila de


Barbacena, deixa exemplo de momento em que a mulher casada poderia assumir a chefia do
domicílio, o que poderia se assemelhar aos casos das mulheres casadas com marido ausente
encontrados na vila de São José, entretanto, como mencionado anteriormente não é possível
indicar por meio dos dados demográficos os motivos da ausência dos cônjuges:

(...) ontem à noite enviou-me a dona da casa um prato de ótimos morangos e esta
manhã conversamos um momento. Disse-me que o marido fora buscar, com a tropa,
algodão no Araxá, para o levar ao Rio de Janeiro. Não estaria de volta antes de sete
meses.71
Nesse caso, ocorre a ausência momentânea do marido, não representando, portanto,
um rompimento de fato do relacionamento, e sim uma separação provisória. A partir do deslo-
camento do marido, o que parece ser uma situação constante na vida dos tropeiros, em decor-
rência de trabalho, a “dona de casa” em questão assumia a chefia, tratando da “gerencia” do
domicílio, recebendo e hospedando visitantes, assumindo as funções e posição de chefe do
domicílio.

Os homens eram mais itinerantes do que as mulheres. O homem casado, quando se


mudava em busca de melhores condições de vida, deixava para trás a esposa e os filhos e, se
porventura conseguisse a estabilidade, havia a chance de buscar a família para morarem jun-
tos na nova localidade; em outras circunstâncias, o marido abandonava os familiares, mesmo

70
Silvia Brügger cita dois casos de mulheres casadas chefes de famílias com a presença do marido na vila de São
João, sendo que cada caso teve a sua especificidade. No primeiro, a autora destaca a possibilidade de existir a
invalidez física ou mental do cônjuge, por isso a declaração da esposa com sendo a chefe do domicílio. No
segundo caso, a diferença de idade entre o casal, a mulher 25 anos mais velha do que o marido, e a possível
experiência dela como gerenciadora familiar anteriormente teria contribuído para que a esposa se declarasse
chefe do domicílio. BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del-Rei -
séculos XVIII e XIX), pp. 94-95.
71
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo (1822).
São Paulo: USP, 1974, p. 38.
69
alcançando a estabilidade, deixando para trás esposa e filhos, a qual deveria, na maioria das
vezes, arcar com as economias da casa. Até entre os casais sem filhos não era comum o deslo-
camento de toda família.72

A identificação da presença de viúvas como chefe de domicílios reforça a


possibilidade de a mulher assumir a responsabilidade e a tarefa de salvaguardar os bens da
família, além de confirmar que o casamento era um meio que beneficiava a acumulação de
riqueza, o que não exclui, é claro, as possibilidades de as viúvas de acumularem riqueza após
a morte dos maridos.73 Em São José, encontramos casos como o da dona Bernarda Francisca
de Faria. Viúva do Guarda-mor Manoel José Parreiras, assumiu a chefia do seu domicílio
após a morte do marido, tendo o seu patrimônio avaliado em 30:517$100.74 Analisaremos o
seu caso mais detalhadamente no quarto capítulo. Para o momento, vale indicar que a postura
de dona Bernarda se enquadra no perfil daquelas mulheres que após a morte do marido
assumiam a gerência de seus domicílios, dando continuidade a empreitada familiar.

De acordo com Furtado, apesar de não ser uma regra, era, principalmente no estado de
viuvez, que as mulheres das famílias abastadas conseguiam a autonomia. Atitudes como a da
viúva Bernarda, de administrar e assumir a responsabilidade os bens familiares, foram
comuns em Minas Gerais. No caso de Bernarda, ela teve um facilitador, que foi o caso de não
possuir filhos, pois de acordo com a legislação vigente, diferentemente dos viúvos, as
mulheres deveriam “recorrer à justiça, via Juízo dos Órfãos e Ausentes, para legitimar a
condição de tutoras de seus filhos menores” e assim poderem gerenciar seus bens. 75

Algumas viúvas que herdavam dos seus maridos bens como também entre as casadas
de marido ausente, que ficaram na administração dos bens da família, poderiam levar uma
vida teoricamente mais fácil em comparação às solteiras, não ficando obrigadas, por exemplo,
a exercerem trabalhos manuais e domésticos. A partir do prestígio social do casamento, as
mulheres casadas e viúvas chefes de famílias podem ter encontrado condições mais
apropriadas para estabelecer suas estratégias de sobrevivência, por exemplo, por meio de
núcleos parentais; como dito anteriormente, o casamento não era apenas a união entre os
cônjuges, mas sim alianças entre as famílias dos nubentes. Assim, essas encontravam nas
72
FARIA, Sheila S. de Castro. Colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial, p. 380.
TORRES LONDOÑO, Fernando. A outra família: concubinato, Igreja e escândalo na colônia, p. 60.
73
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del-Rei - séculos XVIII e
XIX), p. 92.
74
IPHAN/SJDR, inventário de D. Bernarda Francisca de Faria, Vila de São José, 1852, caixa 82.
75
FURTADO, Júnia Ferreira. “As mulheres nas Minas do ouro e dos diamantes”, p. 491.
70
relações de parentescos a forma de diminuir gastos, o que poderia representar melhores
condições de vida.

Ao mesmo tempo, várias viúvas tiveram o título de “senhora de engenho”,76


demonstrando a capacidade e a assunção de funções vistas por muito tempo como exclusivas
dos homens. No entanto, nem todas as mulheres que se tornavam viúvas foram apreciadas
com bens e, logo, necessitavam de ajuda para sustentarem suas famílias. Catarina Maria,
viúva de Manuel dos Santos Roldão, solicitou “uma terça diária para sustento da sua
família”.77 Outras não estavam aptas a gerenciar suas famílias e, nesses casos, era necessária a
ajuda financeira e nomeação de administradores para gerenciarem os bens da família. O
decreto de D. Maria I, de 1779, é bem ilustrativo a esse respeito: “que se apóie a viúva de
João de Souza Lisboa com cinqüenta mil réis por mês assim como nomeando Eusébio Luís de
Oliveira para administração da casa de negócio do dito João Lisboa”. 78

2.3.1 - O Solteirismo Entre As Mulheres Chefes

Na vila de São José, como em São João (58,57%) 79 e Vila Rica (83%),80 prevaleceu
entre as mulheres chefes de fogos o grupo das solteiras. Portanto, o predomínio de domicílios
chefiados por mulheres solteiras, maiormente entre as mulheres de cor, não foi algo exclusivo
de São José, mas de outras regiões mineiras, principalmente no meio urbano.

Antes de analisar a questão do predomínio do solteirismo entre as mulheres chefes de


domicílios é importante lembrar que o solteirismo era uma característica demográfica da pró-
pria vila e não apenas dos domicílios encabeçados por mulheres, o que pode indicar que o ca-
samento não era tão necessário para os projetos de vida ou que ali não existiam boas opções
para estabelecer alianças matrimoniais, uma vez que o casamento era motivado por interesses
pessoais ou familiares. Do mesmo modo, é necessário frisar que os dados dos dois censos
adotados aqui são dados que dizem respeito a momentos específicos, portanto várias dessas
76
BACELLAR, Carlos de Almeida Prado. A mulher em São Paulo Colonial. Espacio, Tiempo y Forma, Serie
IV, Ha. Moderna, t.3, 1990, p. 370.
77
BOSCHI, Caio C. (Coord.). Inventario dos manuscritos avulsos relativos a Minas Gerais existentes no
Arquivo Historico Ultramarino (Lisboa), 10432, A794, 16,12. AHV – Cons. Ultra – Brasil/MG – Cx. 139,
Doc.: 45.
78
Ibidem, 8890, 1779, 27,5. AHV – Cons. Ultra – Brasil/MG – Cx. 114, Doc.: 51.
79
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del Rei - séculos XVIII e
XIX), p. 82.
80
RAMOS, Donald. “Marriage and the family in colonial Vila Rica”. In: Hispanic America Historical Review,
Maio 1975, pp.200-225
71
mulheres declaradas solteiras poderiam ter-se casado em anos posteriores. Foi o que ocorreu,
por exemplo, com Luciana Joaquina de Jesus, brasileira, parda, sem profissão declarada, lista-
da em 1831/32 como solteira e vivia sozinha em seu domicílio; casou-se, no ano de 1842, na
Matriz de Santo Antônio, com Francisco Inácio Costa, crioulo, os dois em idade já avançada
para se casar, aproximadamente, ela com 45 anos e ele com 44 anos. Diante da circunstância
de que os dois casaram em idade avançada e Luciana há anos à frente de seu domicílio, viven-
do sozinha, podemos pensar num casamento onde existia sentimento mútuo entre os cônju-
ges.81

Dois pontos são interessantes nessa análise, a primeira, é que, nas Listas Nominativas
Francisco Inácio Costa aparece ocupando o domicílio chefiado por sua mãe, Isabel Inácia
Luz, crioula, forra, viúva do Alferes Manoel da Costa Cunha. O segundo é que a situação de
chefe de domicílio para Luciana foi comum em sua vida. De acordo com o documento, ela foi
declarada chefe de seu domicílio e, supostamente, com o casamento Luciana deixava de ser a
responsável, assumindo a chefia seu marido; contudo, não é possível fazer nenhuma afirmati-
va a esse respeito. Temos que lembrar que Francisco compunha, em 1831/32, o domicílio de
sua mãe, Isabel Inácia, que, mesmo em idade avançada, foi listada como chefe do domicílio, e
não o seu filho maior de idade e de profissão declarada, portanto, novamente deve-se frisar
que a chefia familiar não era essencialmente uma questão de gênero. Em seu inventário, data-
do de 1868, é diagnosticado que Luciana morreu viúva de Francisco, infelizmente, não foi
possível precisar o ano da morte do marido e, de maneira suposta, nesse intervalo de tempo,
teria novamente Luciana, mesmo morando sozinha e já em idade avançada, assumido a chefia
de seu domicílio, já que a mesma tinha experiência no assunto.

Uma das explicações para os altos números de domicílios chefiados por mulheres sol-
teiras, principalmente entre as mulheres de cor, sobretudo, influenciada pelos relatos dos via-
jantes estrangeiros, seria elucidada em parte pela desvalorização do sacramento religioso, ex-
plicado pela possível promiscuidade inerente à população de cor, que estaria destinada a viver
em relações instáveis, portanto, incapaz de constituir família.82 O predomínio também das re-
lações consensuais entre a população indígena e descendentes, explicado, em parte, pela con-
testação do casamento entre desiguais, era apontado pela Igreja e colonos da época como um

81
Livros de Casamentos da Freguesia de Sto. Antônio da Vila de São José, 1782-1860.
82
A esse respeito, ver COSTA, Emília Viotti da. Da senzala à colônia. 4. ed. São Paulo: UNESP, 1998.
72
modo de vida dos gentios. Maria Leônia de Resende, ao comentar a questão dos índios, desta-
ca que

não é fortuito que seja quase sempre explicado como uma reminiscência de práticas
poligâmica dos nativos, como que sugerir o senso comum e o discurso da Igreja à
época. No entanto, se tal versão não pode ser tomada de tudo como inverdade (até
porque não temos fontes dados nas fontes), acabava por reforçar ainda mais a ani-
mosidade para com as populações indígenas.83
A autora segue dizendo que o processo de segregação social enfrentada pelos grupos
indígenas, em parte, motivada pela animosidade, supostamente favoreceu a aproximação e o
convívio, aumentando, assim, as relações afetivas entre grupos indígenas.

Diante da premissa da desvalorização do casamento por parte da população pobre,


surgem algumas perguntas: o que então explicaria as relações consensuais entre a população
abastada quando o indivíduo era casado? Nesses casos não ocorreria também a suposta falta
de compromisso entre os cônjuges?

Ao contrário da população pobre, em muitos casos, as relações consensuais entre as


famílias abastadas se tornaram “públicas” somente na hora da morte do envolvido, quando o
mesmo, em testamento, reconhecia o filho ilegítimo e concedia alforria a suas mancebias e
filhos ou, em casos como o do Capitão Lopes Siqueira, morador da Freguesia de Nossa
Senhora do Pilar de São João del-Rei, casado com Ana Fonseca Coutinho,84 pai de 14 filhos
legítimos, assumiu em seu testamento a preocupação com sua suposta filha ilegítima
financiando gasto de seu casamento, indicando a existência da relação não sancionada pela
Igreja:

em minha casa criei uma filha de minha escrava Maria Angola, a qual filha se chama
Maria, casada com Tomé Gomes Figueira, para cujo casamento concorri com
vestuário e gastos, que feita a conta chegou a três mil cruzados, o que lhe tenho dado
sem saber se é ou não minha filha.85
Diante do exemplo, surgem então outras perguntas: será que a esposa do Capitão
apenas soube da relação do marido com sua escrava somente no momento em que juntos
redigiram o testamento da família? Ou ela compartilhava do segredo juntamente com o
83
RESENDE, Maria Leônia Chaves de. “Devassas gentílicas: inquisição dos índios na Minas Gerais colonial”, p.
24.
84
Antes de se casar com Ana Fonseca Coutinho, o capitão Lopes Siqueira foi denunciado na devassa eclesiástica
de 1730 por andar em situação de concubinagem com a bastarda Tereza. Na ocasião, confessou a acusação e
prometeu emenda, sendo condenado apenas a pagar as custa do termo de culpa. AEM Livro de Devassas
Eclesiásticas, Termos de Culpa, 1730. Apud BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. “Casamento e concubinato: uma
análise dos significados das práticas matrimoniais na América Portuguesa”, p. 166.
85
MRSJDR, Cx. 320. Inventário de João Lopes Siqueira, anexado ao de sua mulher Ana Fonseca Coutinho.
Apud BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. “Casamento e concubinato: uma análise dos significados das práticas
matrimoniais na América Portuguesa”, p. 167.
73
marido, pois a publicidade de tal relação poderia colocar a perder as alianças matrimoniais do
casal?

A partir de tais perguntas, tentaremos melhor expor os fatores que se ligariam ao esta-
do de solteiro dessas mulheres. Para tanto, aproximaremos em alguns momentos do texto o
solteirismo da questão do concubinato, uma vez que o estado de solteirismo não significa que
essas mulheres viviam abstinência sexual, pois várias dessas mulheres eram mães solteiras.

De acordo com Samara, o índice de solteirismo é

(...) explicável em parte pelas dificuldades econômicas, pelo alto custo do casamen-
to, pela falta de pretendentes e pela morosidade dos processos nupciais. Além disso,
os homens se queixavam dos deveres e obrigações que eram impostos pelos casa-
mentos e preferiam viver solteiros ou mesmo concubinados.86
Para Luciano Figueiredo, como Samara, os altos custos do sacramento religioso
impediam que a maioria da população pobre contraísse o matrimônio legal: a “burocracia
necessária ao casamento acabava por torná-lo extremamente caro e por isso, inacessível”.87 O
autor salienta, ainda, uma possível confusão no discurso da Igreja que, devido aos elevados
preços cobrados, se tornava inoperante na tarefa de difundir o casamento entre a população,
ocorrendo, portanto, um confronto entre o discurso moralista da Igreja católica e o dinamismo
do cotidiano da população mineira, ou seja, havia, de um lado, a norma e, do outro, a
impossibilidade de se controlar o viver das pessoas, principalmente da maioria pobre da
população:

(...) o rigor institucional da Igreja para administração desse sacramento,


curiosamente, acabava por jogá-la num insolúvel paradoxo. Se lançava mão de
vários instrumentos coercitivos para inserir na vida familiar da população, por outro
lado, não criava mecanismos apropriados para que a população sem recursos vivesse
sob a conjugalidade cristã. Ao deixar de atender, com a generalização do casamento,
às demandas de grande parte da população, a Igreja evidentemente acabou por
condenar o projeto de disseminar famílias legítimas.88
Apesar disso, não se acredita que os altos custos e nem a morosidade dos processos
nupciais indicados por Samara sejam os únicos fatores que influenciavam para o alto índice
de solteirismo, embora pudesse ter a sua parcela, pois, como indicado por Vainfas, seria difí-
cil imaginar que a Igreja criasse impedimentos para dificultar a celebração do matrimônio re-
ligioso, sabendo que a maioria da população vivia em situação precária. 89 Nesse sentido,

86
SAMARA, Eni de Mesquita. “Mulheres chefes de domicílio: uma análise comparativa no Brasil do século
XIX, p. 53.
87
FIGUEIREDO, Luciano Raposo. Barrocas famílias: vida Familiar em Minas Gerais no século XVIII, p. 36.
88
Ibidem, p. 37.
89
VAINFAS, Ronaldo. Trópicos dos pecados: moral, sexualidade e inquisição no Brasil Colonial, pp. 92-93.
74
pode-se dizer que a pobreza não era impedimento para o indivíduo não se casar. Mesmo al-
guns impedimentos canônicos, como o incesto por parentela, eram contornados com facilida-
de com penitências, orações e comprometimento de ir às missas. Já para os que se declaravam
viver em pobreza, os valores pecuniários poderiam ser substituídos por prestação de serviços
à comunidade.90

Dessa forma, não significa dizer que a parte da população pobre que deixava de se
casar desvalorizava o matrimônio religioso em valorização das relações consensuais,
principalmente, por uma justificativa econômica:

amancebavam-se por falta de opção, por viverem, em sua grande maioria, num
mundo instável e precário, onde o estar concubinado era contingência da
desclassificação, resultado de não ter bens ou ofício, da fome e da falta de recursos,
não para pagar a cerimônia de casamento, mas para almejar uma vida conjugal
minimamente alicerçada sendo os costumes sociais e a ética oficial ou que
escolheram qualquer forma de união oposta ao sacramento católico.91
Contrário à ideia de que existia uma promiscuidade nata à população de cor em
contrapor casamento e concubinato, preferindo viver em estado de libertinagem, vale apena
voltar a lembrar, que Slenes demonstra que os escravos e seus descendentes foram capazes,
por meio de estratégias de sobrevivências especificas, de formar laços comunitários e de
definir projetos familiares coesos.92

Analisando o banco de dados de casamento da Matriz de Santo Antônio, vila de São


José, entre os anos de 1785 a 1859, têm-se 123 casamentos envolvendo escravos, sendo 99
entre escravos, e 24 casos, sendo um do nubente escravo. Em 16 casos um dos nubentes era
viúvo. Já entre forros e quartados, de um total de 13 denominações de procedências
diferentes, ocorreram 79 casamentos.93

Segundo o censo eclesiástico de 1795, dos 2.007 escravos com idade acima dos 12
anos, 116 tiveram experiências de casamento, ou seja, eram casados ou viúvos, sendo 58
mulheres e 58 homens. Na década de 1830, da população escrava acima dos 12 anos de idade,
124 eram casados, e 15 viúvos, ou seja, 18% tiveram experiência em relação ao casamento
religioso, enquanto que, entre a população livre acima dos 13 anos, 40% eram casados ou
viúvos. Apesar das limitações que a população escrava enfrentava para constituir o

90
FARIA, Sheila de Castro. Colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial, pp. 58-61.
91
VAINFAS, Ronaldo. Trópicos dos pecados: moral, sexualidade e inquisição no Brasil Colonial, p. 94.
92
SLENES, Robert W. Na senzala, uma flor: esperanças e recordações na formação da Família Escrava – Brasil
Sudeste, século XIX.
93
Livros de Casamentos da Freguesia de Sto. Antônio da Vila de São José, 1782-1860.
75
matrimônio religioso, algumas impostas pelos próprios senhores,94 os dados, ao invés de
demonstrarem desvalorização, nos sugerem que, entre a população escrava,
consequentemente, os livres de cor foram capazes de constituir família nos moldes da Igreja
Católica e, no caso do segundo casamento, a busca pelo estado de casado ou mesmo um
indicativo de coerção da Igreja.

Infelizmente, através das Listas Nominativas e Rol dos Confessados, para a vila de
São José não foi possível indicar quantas mulheres chefes de domicílios viviam em uniões
consensuais, por falta de informações precisas que garantissem se elas tinham ou não compa-
nheiros ocupando o mesmo domicílio. Uma característica possível de apontar se estas mulhe-
res tinham uma vida sexual ativa é através do número de filhos que viviam junto delas em
seus fogos, porém nas Listas, não há referência precisa aos filhos dessas mulheres. Por outro
lado, encontramos documentos que deixam alguns indícios do envolvimento dessas mulheres
em relações não sancionadas pela Igreja em algum momento de suas vidas. O testamento de
Gertrudes Caetana de Faria, datado de 1855, é um exemplo dessa afirmativa: filha do Cap.
Matheus José de Faria e Bárbara Francisca de Jesus, ditou o seu testamento a Francisco Antô-
nio dos Passos, declarando que era

solteira e neste estado por minha fragilidade humana, concebi e pari um menino que
criei como enjeitado e como tal foi batizado com o nome de Joaquim e hoje é conhe-
cido como Joaquim José Parreira, pois sempre morou e viveu em minha companhia
em minha Fazenda do Ribeirão do Mosquito.95
Ainda que Gertrudes tenha criado seu filho como enjeitado e não tenha assumido
publicamente a maternidade, tendenciosamente, pelo fato de que seu pai era um homem de
prestígio social e isso poderia comprometer sua imagem, no decorrer do documento percebe-
se a preocupação dela em deixar seus bens para seus familiares. Entre os testamenteiros estão
seu filho Joaquim José Parreira, seu neto também José Joaquim Parreira e Cândido José de
Souza, casado com sua neta Maria da Glória. Entre suas declarações, a testadora testifica ter
deixado para sua neta Maria da Glória seis escravos no valor de 600$000, e para seu neto José
Joaquim ter deixado, há tempo, a crioula Bárbara avaliada em 300$000.

Já os dados constantes do censo eclesiástico são elucidativos a esse respeito. Das 180
mulheres chefes solteiras, 63 viviam em seus domicílios em companhia de seus filhos. A ex-
94
Os senhores proprietários de escravos dificultavam, por exemplo, o casamento de seus cativos fora da posse.
Analisando os casamentos entre escravos, realizados na Matriz da vila de São José, dos 99 casamentos entre
escravos, apenas 06 foram de proprietários diferentes. Idem.
95
IPHAN/SJDR, testamento de Gertrudes Caetana de Faria, vila de São José, 1867, caixa 149.

76
plicação é que esses sejam frutos de relações consensuais. Entre elas está a parda Ana Maria
de Oliveira, que vivia nesse período em companhia dos seus dois filhos, antes do casamento
com o Capitão Manoel Lobo e Castro. O que interessa aqui é reconsiderar a possibilidade de
as relações não sacramentadas pela Igreja serem possíveis entre os domicílios de chefia femi-
nina. Vale considerar que no Rol dos Confessados estão excluídas as crianças abaixo dos 07
anos de idade, portanto, o número de “mães solteiras” na vila poderia ser maior.

Em relação à condição dessas mulheres, 58 delas eram forras, 03 livres e 02 em pro-


cesso de compra de liberdade (quartada). Nenhuma branca foi listada como mãe solteira. Apa-
rentemente, as mulheres de cor tinham maiores dificuldades para contrair matrimônio. O que
não necessariamente afirma que elas viviam em estado de celibato e nem exclui a chance de
elas manterem laços familiares mais estáveis através, por exemplo, da “família fragmentada”
ou do concubinato. É interessante sublinhar que matrimônio religioso era mais comum entre a
população branca, porém, não se acredita que existisse uma exclusividade social.

Dos 63 domicílios chefiados por mães solteiras, em 60 casos havia a presença de fi-
lhos com idade acima ou igual 10 anos. Nesses casos os filhos poderiam significar um com-
plemento, como forma de mão de obra, para garantir a sobrevivência do domicílio. Em 37
destes domicílios havia apenas a presença da mãe e dos filhos, em dois casos ocorria a presen-
ça de netos, em outros dois domicílios a chefe vivia sozinha com o filho abaixo dos 10 anos,
nesses casos os filhos ainda não era diretamente uma ajuda para o domicílio, mas podendo au-
xiliar em pequenas atividades (ver Tabela 06).

Tabela 06
Mulheres chefes solteiras com filhos em seus domicílios, vila de São José, em 1795
Idade Mulheres Chefes Solteiras com Filhos
Menor de 10 anos 03
Menor de 10 anos e com ou maior de 10 anos 05
Com ou maior de 10 anos 55
Total 63
Fonte: ver tabela 02.
Não obstante, a suposta “exclusividade” do casamento religioso à elite branca também
não é correta para explicar os altos números de solteiras entre a população de cor. Por
exemplo, os costumes matrifocais que algumas nações africanas vivenciavam. Segundo Sheila

77
de Castro Faria, os domicílios chefiados por mulheres forras apresentavam estrutura familiar
muito parecida, majoritariamente por mulheres solteiras.96

Na vila de São José, no ano de 1795, encontramos 18 domicílios composto apenas por
mulheres, 06 composto por mulheres e escravas, 01 com crianças a baixo dos 10 anos de
idade, 02 domicílios compostos por mulheres com presença de escravas, sendo a maioria
delas mulheres forras. Na década de 1830, encontramos 48 domicílios de mulheres de cor
compostos apenas por mulheres; em algumas dessas unidades familiares havia a presença de
crianças de 01 a 10 anos de idade. Mesmo existindo entre essas mulheres de cor a presença de
brasileiras filhas de africanas, tem que se pensar que suas primeiras experiências sociais e de
vida familiar ocorreram em seus domicílios ou mesmo em senzalas delineadas por normas e
valores africanos.97 Sheila Faria destaca que muitas dessas mulheres não optavam pelo
casamento e escolhiam viver com outras mulheres, em muitos casos, apenas com a companhia
de suas escravas, formando domicílios exclusivamente femininos. Vale ressaltar que não
necessariamente essas vivências caracterizavam relações homossexuais se aproximavam de
outras mulheres para juntarem forças para superarem as adversidades do cotidiano. Nesses
casos, o estado de solteiro significava a escolha pelo não casamento, escolha que poderia
fazer parte do ambiente cultural de suas terras de origem e não uma contestação social do
matrimônio religioso, ou seja, o predomínio de domicílios chefiados por mulheres solteiras,
sobretudo, entre o grupo das mulheres de cor, ia muito além dos fatores econômicos e da
possível promiscuidade atribuída ao grupo.98

Tendo em vista que o casamento traz a ideia de alianças e interesses mútuos entre os
nubentes, o predomínio de solteiras pode ser explicado em parte por que essas mulheres não
encontraram homens que correspondessem às suas expectativas e, portanto, escolhiam viver
em estado de solteiras.

Aspectos da vida da ex-escrava africana Josefa Gonçalves de Matos, origem da Costa


da Mina, demonstram como essas mulheres agiam para proteger seus bens, frutos de suas
96
FARIA, Sheila de Castro. “Sinhás pretas: acumulação de pecúlio e transmissão de bens de mulheres forras no
sudeste escravista (séc. XVIII-XIX)”. In: SILVA, Francisco C. T. da; MATTOS, Hebe Maria; FRANGOSO,
João Luiz Ribeiro (Orgs.). Escritos sobre História e educação: homenagem à Maria Yedda Leite Linhares. Rio
de Janeiro: Mauad/FAPERJ, 2001, p. 290.
97
Apesar da imensidão oceânica entre o continente africano e o americano, práticas e normas africanas se
transpuseram e aqui se reproduziram e adaptaram a nova realidade, em grande medida, pela oralidade. Ao
mesmo tempo, perpetuavam elementos da tradição africana. SLENES, Robert W. Na Senzala, uma flor:
esperanças e recordações na formação da Família Escrava – Brasil Sudeste, século XIX, p. 73.
98
FARIA, Sheila de Castro. “Sinhás pretas: acumulação de pecúlio e transmissão de bens de mulheres forras no
sudeste escravista (séc. XVIII-XIX)”, pp. 289-293.
78
agências. Na ocasião, Josefa não apenas comprou o escravo Eusébio Monteiro Crioulo de
propriedade de Manoel Monteiro, mas com ele contraiu núpcias. Contudo, em seu testamento,
datado de 1777, ao justificar o seu estado de divorciada, menciona que frente às inúmeras
atitudes inadequadas a vida marital do seu esposo, recorreu aos meios legais para conseguir o
divórcio, a fim de proteger além de sua integridade física os seus bens, uma vez que o seu ex-
marido colocava tudo a perder em vícios e adultério:

[...] depois de liberta contraí matrimônio com Eusébio Monteiro Crioulo que
comprei a Manoel Monteiro com tão má sorte que contraiu vários empenhos
estragando meus bens em vícios e adultério com más mulheres e vida licenciosa
tratando-me com rigor e pancadas, injúrias de sorte que gravando-me os bens com
empenhos tem dois que me tirou fizemos divórcio por autoridade ordinária e
avaliados os bens, e conta aos empenhos fizemos contrato por obrigação de que o
que fizemos bens pagaria os empenhos, e mais não se comunicaríamos sendo casal e
não querendo [...] ficar com os empenhos em poder dele os tomei a meu cargo de
quem sempre tenho vivido oprimida, e atropelada para dar conta de mim e sendo o
divórcio no ano de mil setecentos e cinquenta e três como já e também alguns
tempos dantes até este presente tempo nunca fez vida marital comigo nem em todo
este tempo houveram entre nós atos conjugais porque logo ausentando-se como já
antes em ausências andava nunca mais me buscou nem a minha casa nem me
socorreu nas gravíssimas enfermidades que tenho padecido de muitos anos padeço
pondo-me por minhas muitas vezes próxima da morte, e nunca me tendo trazendo
cousa alguma de bens para o casal antes extraindo dele roubando empenhando
destruindo os meus bens que com trabalho, e minha indústria adquiri sempre até o
presente [não] possuía bens alguns por herança que nunca tive.99
Mesmo que a ex-escrava tenha experimentado o casamento, a sua atitude mostra como
essas mulheres insatisfeitas agiam para resguardar as suas conquistas materiais. Outras, ao
contrário, de Josefa, não se arriscavam a colocar em risco seus bens e optavam em viver em
estado de solteiras, o que evidencia também a autonomia dessas mulheres. Assim,

“a quantidade expressiva de mulheres que não casaram, entretanto, faz-me pensar


que o celibato e a não procriação foram escolhas pessoais. Preferiam uma vida com
uma ‘família’ escolhida por elas, entre escravas e crias que alforriavam, no intuito
de repetirem a forma de vida que lhes ensinavam e que consideravam adequadas”.100
Ou como observado por Vanda Lucia Praxedes, entre as variáveis para o alto índice de
mulheres chefes solteiras em Minas Gerais foram aquelas que estabeleceram relações
consensuais com padres e sacerdotes, impedidas de casarem legalmente viveram como
concubinas, em alguns casos, constituindo laços familiares coesos e duradouros.101 Vale voltar
99
Livro de Registro de Testamentos n. 2. Arquivo do Museu Histórico de São João del-Rei, testamento de Josefa
Gonçalves de Matos, 1777, Apud PRIMO, Bárbara Deslandes. Aspectos culturais e ascensão econômica de
mulheres forras em são João Del Rey: séculos XVIII e XIX. 157p. Dissertação (Mestrado em História). UFF:
Niterói, 2010.
100
FARIA, Sheila S. de Castro. “Sinhás pretas: acumulação de pecúlio e transmissão de bens de mulheres forras
no sudeste escravista (séc. XVIII-XIX)”, p. 304.
101
PRAXEDES, Vanda Lucia. “Donas da casa e dos seus: mulheres chefes de domicílios em Minas Gerais (1770
– 1870) – algumas considerações”. In: ANAIS DO XIII SEMINÁRIO SOBRE A ECONOMIA MINEIRA,
agosto de 2008, Diamantina, CEDEPLAR-UFMG. Anais..., p. 06-09.
79
aos escritos de Machado de Assis e lembrar que enquanto os interesses de D. Joana não se
viam ameaçados pela noticia de casamento, continuava ela a cuidar da melhor maneira da
vida de João Barbosa e após isso se sentindo prejudicada passou o casamento a ser uma
estratégia objetivada também por ela, com o desígnio de garantir benefícios.

Hebe Mattos relaciona a existência de domicílios de mulheres sós à realidade do meio


urbano ligado ao processo de migração dessas mulheres que, sem dispor de relações
familiares, migravam para outras regiões.102 Brügger acrescenta que, no meio urbano, “as
mulheres solteiras encontravam meios mais propícios para garantir sua sobrevivência ou que,
ali, talvez o casamento fosse menos necessário para seus projetos de vida”.103

Referindo-se à vila de São José, percebem-se alguns fatores que se aproximam das
propostas das autoras e que, de certa forma, contribuíram para o predomínio do estado de
solteiro entre as mulheres chefes de domicílios. Nesse sentido, temos que lembrar que a vila
estava passando por um processo de migração masculina e que predominavam entre a
população livre as mulheres de cor, e supostamente, seus limites poderiam estar sendo, ao
mesmo tempo, uma região atrativa para as mulheres estabelecerem seus projetos de vida. Vale
mencionar que muitas dessas mulheres declararam ter ocupações e, de certa forma,
contribuíam para o dinamismo econômico da vila. Como veremos no próximo capítulo,
muitas das mulheres listadas como responsáveis por seus domicílios desempenhavam algum
tipo de atividade e muitas delas eram mulheres solteiras.

Como sugerido por Brügger, elas encontravam um ambiente mais propício na vila para
estabelecer seus projetos de vida. Segundo Slenes, as mulheres escravas tinham um poder de
barganha e de escolha maior do que os homens para estabelecer uniões familiares.104 Feitas as
devidas proporções, acreditamos que em parte a hipótese levantada pelo autor, ao que se
refere o poder de negociação e de escolha das mulheres escravas, também pode condizer à
realidade das mulheres de cor chefes domicílios de S. José; portanto, procuravam conduzir
suas vidas a partir de suas expectativas. Assim sendo, a resposta para o predomínio de
mulheres solteiras não está na oposição das relações casamentos e concubinato, pois como
visto existiam fatores sociais e culturais determinantes para o predomínio do número de
102
MATTOS, Hebe Maria. Das cores do silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista, Brasil
Século XIX, p. 62.
103
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del Rei - séculos XVIII e
XIX), p. 82.
104
SLENES, Robert W. Na senzala, uma flor: esperanças e recordações na formação da família escrava – Brasil
Sudeste, século XIX, p. 73.
80
solteiras e, ainda, não podemos desconsiderar que elas eram motivadas por paixões, desejos,
ressentimentos, dores, alegrias e interesses pessoais.

Os objetivos do concubinato e casamento eram distintos. Consequentemente, não


significa dizer que aqueles que viviam em concubinato tinham uma vida pecaminosa, o “estar
em concubinato” era muito além do que uma opção em relação à vida sexual; era o resultado
da instabilidade social e de aspectos culturais que atuavam na vida desses indivíduos. Apesar
de todo discurso de inferioridade em torno da figura feminina, tinham aquelas que por
motivos sociais, culturais ou religiosos optavam pelo estado de “solteirisse” e geriam sozinhas
ou contavam com a ajuda dos amantes para manter seus fogos, bem como aquelas que, por
ausência momentânea ou definitiva do cônjuge, assumiam a responsabilidade ou mesmo na
presença do marido se declaravam chefes e conduziam suas unidades. Nesse sentido, poderia
citar várias histórias de chefia feminina, ao longo do século XIX, mas o importante é apontar
que essas mulheres poderiam assumir o papel de provedoras numa sociedade onde a figura do
chefe, independentemente do sexo, exercia forte influência nas relações sociais.

81
CAPÍTULO 3

DOMICÍLIO: LOCAL DE CONVÍVIO E ATUAÇÃO FEMININA

Sem direito a voto e proibida de ocupar cargos públicos, o domicílio representava o


espaço de atuação e convívio da mulher no século XIX, não no sentido de restrição, mas a
partir da ideia de que a maioria das atividades desempenhadas por elas apontavam para os
limites dos domicílios, isso se dava tanto no preparo dos alimentos para serem vendidos nas
ruas quanto no desempenho de atividades especializadas, tais como rendeiras e costureiras.1
Essa não foi uma característica apenas da sociedade brasileira. Apesar de serem sociedades
distintas, cada qual com suas especificidades culturais, sociais, econômicas e históricas, de
um lado, a França burguesa do início do século XIX, vivenciando o processo de
industrialização e consolidação do capitalismo; do outro, o Brasil, ainda nas amarras da
escravidão, com tímido trabalho não escravo.

Não diferente no Brasil, a mulher na França ocupava uma posição periférica e


marginal na sociedade, uma característica que se poder dizer da cultura judaica cristã, 2 vista,
por ora, como o sexo do mal, e outrora como o sexo frágil e delicado, por contemporâneos da
época. Perrot frisa que, em meio a essas características aparentemente desfavoráveis, é
possível através de uma análise minuciosa incluir e valorizar a participação histórica feminina
no âmbito dos poderes, sendo que a faculdade se exprime, predominantemente, no domínio da
família por meio das lidas domésticas, exteriorizada na atuação das mães e das donas de casa.
Na França, as mulheres ocupavam, ainda que de forma temporária e por questões familiares, o
trabalho assalariado, a fim de auxiliar e de se conseguir rendimento extra em prol da família,
quase sempre no desempenho de tarefas desqualificadas socialmente.3

Nesse sentido, pode-se considerar que a sociedade parisiense era, por ocasião,
estruturada a partir da relação de poderes entre homens e mulheres e que a harmonia do lar e,
consequentemente, da sociedade francesa, estava no equilíbrio e na divisão social de cada
sexo, tendo cada um “seus papéis, suas tarefas, seus espaços, seu lugar quase
1
Atuação feminina na sociedade oitocentista da cidade do Rio de Janeiro por meio do espaço doméstico é
indicada no trabalho do historiador EL-KAREH, Almir Chaiban. “Comida quente, mulher ausente: produção
doméstica e comercialização de alimentos preparados no Rio de Janeiro no século XIX”. In: Caderno Espaço
Feminino, v. 19, n. 01, 2008.
2
HESPANHA, Antônio Manuel. “O estatuto jurídico da mulher na Época da Expansão”.
3
PERROT, Michele. Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros, p. 178.
predeterminados”.4 Nessa perspectiva, a mulher burguesa e operária da França foi soberana
em suas decisões, seja no momento da compra dos alimentos e utensílios para casa ou no
desempenho enquanto operária das indústrias têxteis e das tarefas domésticas. Contudo, não
se pode pensar que as divisões sociais fossem tão rígidas de tal modo a segregar a atuação dos
sexos, por exemplo, os trabalhos caseiros numa família onde havia a necessidade da
contribuição de todos para a prosperidade da unidade, não impedindo que o homem ajudasse
ou alternasse com a mulher no desempenho dos serviços doméstico.5

Dessa forma, entendemos que, por meio da análise do ambiente familiar, é possível
apreender elementos e aspectos do cotidiano, relacionados às atividades econômicas, trabalho
familiar e associação ao trabalho escravo, relações e laços de convivência e de dependência
mútua entre moradores. Ao mesmo tempo, definir o domicílio não é uma tarefa fácil, por não
se tratar simplesmente da contraposição dos termos público X privado. Apesar dessa
dificuldade aparente de estabelecer as linhas divisórias dos dois meios, não impede de
abordamos algumas relações que se davam no interior dos domicílios e em suas mediações.

3.1 – FAMÍLIA: O MESMO QUE DOMICÍLIO?

No que diz respeito ao estudo das organizações familiares no Brasil colônia e império,
a família é ponderada como a instituição que configurou as relações sociais e definiu as
normas de conduta, mediando as relações entre indivíduo e sociedade. 6 Diferentemente da
França, no Brasil o discurso em torno da família não estava sobreposto ao mundo das ideias e
de sua representação social; pelo contrário, se ligava e se entrelaçava aos aspectos religiosos e
de seu uso para fins pessoais e políticos.7

Segundo Ida Lewkowicz, a família oitocentista seria uma associação de indivíduos, na


maioria das vezes, ligados por laços de parentesco e solidariedade, compartilhando recursos
essenciais e obrigações mútuas. Em meio a essas relações de convivência, o domicílio se
apresenta como o espaço de convívio e de interação.8
4
Ibidem, p. 178.
5
Ibidem, ver Parte 2.
6
FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala, p. 30.
7
A historiadora francesa Perrot considera a família o “átomo da sociedade civil”, em seu ambiente emergem as
primeiras experiências das crianças e dos futuros cidadãos. Daí se explica o interesse do Estado francês em
formular e disseminar as ideias de cidadania e civilidade por meio da família. PERROT, Michelle. “Funções da
família”. In: PERROT, Michelle (org.). História da vida privada 4: da Revolução Francesa à Primeira Guerra.
São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 105.
8
LEWKOWICZ, Ida. “Espaço urbano, família e domicílio”. In: Termo de Mariana – História e
Documentação. Mariana: UFOP, 1998, p. 92.
83
Leila Algranti, em seu estudo acerca da família colonial, pondera certa complexidade
na definição do termo família. A família teve várias formas e a cada circunstância poderia
assumir uma configuração diferente. Havia situações em que a unidade se restringia à família
nuclear mais um ou dois escravos ou ainda a presença de parentes e agregados. Além disso,
podia envolver relações mais complexas, como eram os casos dos padres que viviam em
companhia de suas escravas e concubinas. Ainda ocorriam exemplos em que mulheres
solteiras viviam apenas em companhia dos filhos pequenos, casadas abandonadas pelos
maridos ou lares em que a esposa habitava o mesmo domicílio da concubina do marido e, em
alguns casos, cuidava dos filhos ilegítimos como se fossem seus filhos.9

De acordo com Clotilde Paiva, o termo fogo foi o mais usado nas Listas Nominativas.
Entretanto, em muitos momentos nos documentos se encontra referência tanto ao termo
família como ao domicílio, de tal modo que a autora conclui que no século XIX os termos
fogo e domicílio faziam referência à mesma realidade, maiormente, o espaço físico. Ao
mesmo tempo, entende-se que a definição de família está além da presença das relações
consanguíneas, ou seja, o sentido de família abrange a “presença de pessoas ligadas por
relações de parentescos, juntamente com agregados e escravos dentro de uma mesma
unidade”.10

Diante dessas definições, optamos por entender domicílio enquanto espaço de


sociabilidade doméstica, ou seja, espaço de convivência e de intimidade mútua entre os
envolvidos. Para se constituir um domicílio três elementos eram de extrema importância para
a manutenção da unidade doméstica, principalmente para as moradas encabeçadas por
mulheres. O primeiro era a “solidariedade familiar, que se multiplicava, principalmente entre
os membros da família nuclear, em particular nos grupos menos enriquecidos”.11 O segundo,
as relações de compadrios que, em vários casos, representava uma necessidade mútua entre os
envolvidos. E, por fim, as relações de vizinhança. Esses elementos representavam peças
essenciais para as unidades domésticas:

deve-se lembrar que a população da época não contava com instâncias públicas que
garantissem um mínimo que fosse de amparo para a criação de filhos, doença,
invalidez ou velhice. Tinha certamente de contar com as alianças estabelecidas
dentro dos grupos de parentesco, consangüíneo e ritual, e da vizinhança. 12

9
ALGRANTI, Leila Mezan. “Famílias e vida doméstica”. In: MELLO E SOUZA, Laura dE (Org.). História da
vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América portuguesa. 3. ed. São Paulo: Companhia das
Letras, 1997, p. 87.
10
PAIVA, Clotilde de Andrade. População e economia nas Minas Gerais do século XIX, p. 59.
11
FARIA, Sheila S. de Castro. Colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial, 1998, p. 384.
12
Ibidem, p. 385.
84
É nesse sentido que Sheila de Castro Faria diz que a família, não necessariamente
consanguínea, foi fundamental para a configuração da economia colonial, pois dentro dos
limites dos domicílios se dava e convergia grande parte das relações de produções, seja no
meio agrário seja no meio urbano. De lá muitas famílias pobres, e mesmo aquelas fora dos
padrões da Igreja Católica, conseguiam o sustento e estabeleciam projetos de vida, do mesmo
modo, é na família também que se definia a posição social do indivíduo e se reconhecia o seu
status. 13

Não existia, portanto, uma configuração precisa para os domicílios do século XIX, ele
podia abranger não só a unidade conjugal mais a prole, os empregados e os laços de
solidariedade e de co-parentesco, o que alargava o sentido de família. Dessa forma,
acreditamos que a família, não se restringia apenas aos laços consangüíneos, era de extrema
importância na ordenação e na configuração das relações sociais, econômicas e políticas, que
se davam, sobretudo, no interior do domicílio. Nesse sentido, não seria diferente com as
mulheres declaradas chefes de famílias.14

3.2 – ASPECTOS DOMICILIARES

À medida que avança o século XIX, nas vilas mineiras, entre as famílias abastadas
enraizadas e hierarquizadas por vínculos políticos e econômicos, nota-se a presença de vários
sobrados, casarões e a presença marcante de uma variedade de móveis e utensílios domésticos
que juntos indicam, além do conforto da casa, o poder econômico, social e político da família.
Sem nos aprofundar na análise, o uso das repartições das casas era de forma padronizada. Nos
sobrados, por exemplo, o térreo poderia ser destinado ao empreendimento comercial da
família ou mesmo à habitação de escravos, quando não havia a existência de senzala, e a parte
superior reservada à morada da família.

Predomina na sociedade mineira da primeira metade dos oitocentos, mesmo entre as


famílias opulentas, a rusticidade e a simplicidade do ambiente doméstico. 15 Saint-Hilaire, ao
se hospedar em casa de um grande negociante de gado da comarca do Rio das Mortes,
assinala a precariedade e a carência de móveis da casa: “Tive, por conseguinte, ocasião de ver

13
Ibidem, p. 21.
14
PAIVA, Eduardo França. Escravos e libertos nas Minas Gerais do século XVIII: estratégias de resistências
através dos testamentos, p. 191.
15
ANDRADE, Marcos Ferreira. Elites regionais e a formação do Estado Imperial Brasileiro: Minas Gerais
-Campanha da Princesa (1799-1850), p. 128.
85
o interior e achei-o igual ao da maioria das habitações desta comarca, quer dizer, quase nu. Na
sala, apenas uma mesa e um banco, e nos quartos duas armações de camas de madeiras”.16

Os móveis e objetos pessoais deixados por Maria Ferreira de Resende ao seu segundo
marido Joaquim Dias de Carvalho indicam a escassez de mobiliário entre as famílias
mineiras, embora Maria possuísse certo poder aquisitivo e cabedal. Era proprietária de seis
escravos, avaliados em 1:370$000, uma “morada de casas” na região do Mosquito e metade
de uma “casas” no arraial do Córrego, somada às duas propriedades a quantia de 330$000.
Entre os bens listados estavam 14 oitavas e meia de ouro em cadeias de relógio, seis colheres,
seis garfos de prata, seis ditas de chá e uma de açúcar, uma libra de prata velha, três tachos,
candeeiro pequeno de arame, três libras de metal em bacia, um relógio de parede, uma
espingarda, um ferro de engomar, um capote de pano inferior, quatro memórias francesas,
uma bicha de ouro, dois catres de madeira branca com sua armação inferior, três bancos, um
armário pequeno com sua gaveta, seis tamboretes velhos, um oratório, uma caixa grande, duas
ditas frasqueiras, uma viola com sua caixa, uma dúzia de pratos brancos, um bule branco com
seis xícaras e pires, duas garrafas brancas, dois vestidos de seda usado, quatro lenços de seda
usado e uma sela ordinária.17

Entre a população pobre, as casas eram construções simples feitas de taipas,18 cobertas
por palhas ou sapé; no interior não havia muitas variedades de objetos domésticos e nem o
uso sistemático das repartições, pois na maioria das vezes existiam apenas dois cômodos. Em
parte, a precariedade e a falta de posses se explicam pela própria transitoriedade da população
pobre que frequentemente mudava de localidade, portanto, não era vantajoso adquirir bens e
nem investir nas moradas.

Luciana Joaquina de Jesus, moradora da vila de São José, era proprietária apenas da
metade de uma casa no Largo das Mercês e de uma vaca, vendida a Francisco Barbosa da
Silva. Nenhuma outra posse ou objeto forram discriminados em seu inventário, demonstrando
a simplicidade e a situação precária de seu domicílio.19

As casas ou domicílios dos séculos XVIII e XIX, principalmente entre a população


pobre e no meio urbano, em certas circunstâncias podiam abranger o espaço do privado e do
público. Os termos usados para designar as moradas eram utilizados na maioria das vezes no
16
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo (1822), p.
36.
17
IPHAN/SJDR, inventário de Maria Ferreira de Resende, vila de São José, 1834, caixa 423.
18
Embaralhado de tábuas ou madeiras amarradas com cipó cobertas por barro.
19
IPHAN/SJDR, inventário de Luciana Joaquina de Jesus, Vila de São José, 1868, caixa 608.
86
plural, pois se referia ao local de convívio. O espaço de habitação podia ao mesmo tempo ser
local de trabalho como as vendas, produção manual em pequena escala, cultivo de hortaliças e
da prática de prostituição, ou mesmo espaço destinado a pequenas práticas médicas, por
exemplo, os partos. Do mesmo modo, era o ambiente de lazer e interação social e cultural:

nas casas, onde certos cômodos eram transformados em vendas de secos e


molhados, situação mais comum entre as forras, a esfera do privado acabava sendo
incorporada pela esfera do público. Nestes casos, as portas abriam-se aos infratores
em fuga, aos revoltosos em potencial, aos prazeres libidinosos e a outras demandas
da comunidade eram transformados de esconderijo e onde se produzia. Era o espaço,
principalmente, das famílias não abastadas, de habitação, de trabalho. Em algumas
casas, mais do que em outras, não ocorreu a separação estanque entre o teto protetor,
a fonte de proventos e o palco de divertimentos, prazeres e angústias coletivas.
Talvez existia aí uma certa resistência de tradições africanas, adaptadas ao universo
colonial.20
Nesse universo, o papel do chefe do domicílio era de extrema importância, pois era o
responsável “pela manutenção da família e da casa, coordenando o trabalho da escravaria e
auferindo os lucros daí provenientes”.21 A maior parte das relações entre os familiares se dava
no ambiente doméstico. O domicílio era considerado a unidade básica da cidade, o controle
ou, em outras palavras, a chefia doméstica era comparado ao governo e a hierarquização dos
membros da família à relação entre rei e súditos. Grosso modo, a gestão e a consonância das
relações que se davam no interior da morada eram similares ao governo dos reis. Dessa forma,
o chefe do domicílio era uma espécie de provedor da sobrevivência de todos.22

Muitas vezes, o espaço doméstico, principalmente entre as famílias pobres, era


ocupado concomitantemente por senhores e escravos, sobretudo, na execução dos trabalhos
manuais.23 O convívio era intrínseco dividiam não só o espaço do trabalho, mas a alimentação
e o espaço para se dormir: os escravos que “não dispunham de uma senzala ou galpão,
esticavam à noite suas esteiras em qualquer lugar, inclusive na cozinha, próximas ao fogão”.24
Segundo Faria, a tendência geral do século XIX foi contrária a do século anterior, quando
mesmo entre os proprietários de escravos mais pobres, instalaram senzalas para seus escravos.
No entanto, a autora frisa que também ocorreu a coabitação de senhores e escravos no mesmo

20
PAIVA, Eduardo França. Escravos e libertos nas Minas Gerais do século XVIII: estratégias de resistências
através dos testamentos, p. 192.
21
Ibidem p. 192.
22
HESPANHA, António Manuel. “Carne de uma só carne: para uma compreensão dos fundamentos histórico-
antropológicos da família na época moderna”, p. 954.
23
As senzalas foram mais comuns entre os grandes proprietários ricos. Entre os outros proprietários foi mais
comum senhor e escravo dividirem o mesmo teto. PAIVA, Eduardo França. Escravos e libertos nas Minas
Gerais do século XVIII: estratégias de resistências através dos testamentos, p. 188.
24
ALGRANTI, Leila Mezan. “Famílias e vida doméstica”, p. 95.
87
espaço, principalmente “nos locais onde a pobreza diferenciou muito pouco os grupos sociais
ou, mesmo, nos de fronteiras agrícola em expansão”.25

Além disso, era espaço de contato e de interação social. Serviam de espaço para
ensinamentos e aprendizados e ofícios, crendices, práticas e religiões que iam desde as danças
africanas, capoeira, a invocação de demônios, a feitiçaria e ao exercício de curandeirismo.26

Nesse sentido, a partir do uso do espaço dos domicílios, a vida no meio urbano
propiciou a aproximação de uma diversidade cultural muito grande nas vilas mineiras, não
apenas a aproximação senhores e escravo, todavia em relação à população livre pobre,
constituída de trabalhadores, prestadores de serviços e homens e mulheres forras. Esse
confuso ambiente fazia com que o domicílio, num sentido mais amplo, se tornasse espaço
misto de convívio interétnico e de manifestações culturais coletivas, todos poderiam
participar, independentemente do seu estrato social, portanto, mesmo que de forma passageira
e momentânea, esses encontros eram os momentos em que se amenizavam as desigualdades,
conflitos sociais e as diferenças culturais entre os indivíduos, exemplos são os batuques, como
mencionado pelo professor Luciano Figueiredo:

as danças coletivas ou populares, ou ‘batuques’, como ficaram conhecidas, sem hora


nem local definido, acessível a qualquer um e dispensado instrumento musical mais
aperfeiçoado, ganhariam especial destaque no lazer que envolvia as camadas
empobrecidas. Aproveitando-se de um instante de folga entre tantos outros de
trabalho durante o dia, dos domingos e dias santos ou acobertados das rondas
policiais noturnas em vendas, tavernas ou domicílios, através dos batuques, homens
e mulheres pobres divertiam-se, embebedavam-se e brigavam, mas, em geral,
fixavam neste congraçamento laços de solidariedade.27
Todavia, em grande parte eram as mulheres que controlavam as tabernas e as vendas
que em certas circunstâncias eram também espaço de morada e, ao mesmo tempo, destinados
aos batuques. Luciano Figueiredo, citando inúmeros exemplos em relação às vendas e
domicílios femininos que recebiam os batuques,28 chama a atenção para o fato de que as
mulheres, além de serem excluídas socialmente, eram impedidas de participar “mais
ativamente das festas realizadas nas igrejas, proibidas inclusive de cantar nos coros
organizados para tais momentos, as restrições seriam compensadas por sua enorme presença

25
Ibidem, p. 373.
26
FIGUEIREDO, Luciano Raposo. O avesso da memória: cotidiano e trabalho da mulher em Minas Gerais no
século XVIII, p. 180.
27
FIGUEIREDO, Luciano Raposo. O avesso da memória: cotidiano e trabalho da mulher em Minas Gerais no
século XVIII, p. 171.
28
Ver o capítulo intitulado: “Poder, resistência e trabalho”. FIGUEIREDO, Luciano Raposo. O avesso da
memória: cotidiano e trabalho da mulher em Minas Gerais no século XVIII.
88
nos batuques”.29 Nesse sentido, entendemos o domicílio enquanto espaço de atuação das
mulheres que, quando abriam seus domicílios ou permitiam em suas vendas as reuniões ou
batuques, também se inseriam e se sentiam parte do grupo e, assim, esqueciam, ainda que
temporariamente, o estado de opressão e de exclusão social ao qual eram submetidas.

Sendo assim, a morada era um lugar complexo não só pelo uso das construções, mas
pelo espaço de convivência múltipla, explicado pela heterogeneidade da sociedade mineira e
exteriorizado na proximidade existente entre senhor, escravo e população livre. Dificilmente
espaço de privacidade para os moradores.30 Não era apenas o local de viver e trabalhar como
também espaço de encontros, entretenimentos e articulações sociais. Nele se passava a maior
parte do dia. Nas famílias abastadas se discutia política e problemas da comunidade e, ao
mesmo tempo, se ensinava a ler/escrever e se articulava também a ocupação de cargos
administrativos. Na própria morada se preparavam os remédios e atendiam os doentes.

3.2.1 – Os Quintais

Numa sociedade tipicamente urbana, onde a dependência do individuo em relação ao


comércio e à prestação de serviço era grande, o domicílio mineiro concedia aos moradores
elementos necessários e uma vasta possibilidade para a prática de atividades econômicas que
se ampliava conforme o tamanho do quintal. Nas dimensões do domicílio se plantava horta,
pomar e ervas medicinais, extraiam-se sementes e raízes, colhia-se o alimento, cuidava-se de
porcos, galinhas e, em alguns casos, cavalos e vacas. Sobretudo, o espaço era destinado ao
trabalho e inter relação do homem com a natureza. Na vila de São José, os quintais das casas,
com suas “árvores verdejantes”, juntamente com a Serra de São José, davam à vila o ar
bucólico e rural.31 E apesar de ser a parte externa da morada, o quintal incluía vários
ambientes que eram vitais para o andamento das atividades diárias.

Entre os bens da costureira Ana Francisca das Chagas encontrava-se uma pequena
morada em ruínas e a referência a uma pequena horta;32 a descrição indica a importância do
local. Nos limites da morada de casas de sobrado da viúva Dona Bernanda Francisca de Faria

29
FIGUEIREDO, Luciano Raposo. O avesso da memória: cotidiano e trabalho da mulher em Minas Gerais no
século XVIII, p.175.
30
FARIA, Sheila S. de Castro. Colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial, p. 389.
31
CAMPOS, Maria Augusta do Amaral. A marcha da civilização: as vilas oitocentistas de São João del-Rei e
São José do Rio das Mortes, p. 126.
32
IPHAN/SJDR, inventário de Ana Francisca das Chagas, São José, 1866, caixa 637.
89
encontrava-se um engenho de cana,33 ermida, paiol, dois moinhos, senzalas, casas de despejo,
todas cobertas de telha, quintais cercados de pedra e um pequeno pasto.34 Poderíamos, ainda,
listar como parte integrante do quintal o jardim, o pomar e o viveiro. Os muros de pedras ou
as cercas de taipas que cercavam os quintais concediam aparente tranquilidade, comodidade e
intimidade,35 bem como definia os limites da propriedade.

É interessante pensar que no meio urbano o uso da terra era mais restrito do que no
meio rural, portanto, o uso das dimensões do quintal tinha que ser de forma sistemática, cada
espaço era utilizado e escolhido da melhor maneira, a escolha do pomar levava em conta a
posição e a radiação do sol ao longo do ano. Mesmo diante de uma porção de terra reduzida,
havia o espaço para se cultivarem ervas medicinais e outro para o pomar e criação de animais
domésticos. Nem as pequenas dimensões impediam que parte da colheita de frutas e
hortaliças fosse comercializada ou trocada por outros produtos entre a população local. Vale
lembrar que essa rede de comercialização e troca intensificava as relações de vizinhanças,
uma vez que por meio da barganha os moradores não necessitavam plantar uma variedade de
plantas e frutos.

Nas extensões do quintal, debaixo de uma cobertura ou ao ar livre, eram instalados os


mecanismos de produção caseira. Logo, por fatores estruturais, era viável a alocação da tenda
de ferreiro na parte externa da casa ou em algum local específico fora das dependências da
casa.36 Fora do recinto da morada se limpavam e preparavam alguns ingredientes para o
preparo nos fogões a lenha. Eram construídas na parte externa as chamadas “cozinhas fora e
cozinhas suja” para o preparo de doces, bolos, guisados e cozidos.37 Em alguns casos, a
própria cerca do quintal era usada para o preparo de comida como era com a folha do Ora-
pro-nobis (Pereskia aculeata), que no latim "rogai por nós". Comum na região de São José
até os dias atuais, conhecido como "carne dos pobres pelo seu grande valor nutricional, e, ao
mesmo tempo, de fácil preparo (refogado ou crua) era utilizado como cerca viva e, ainda,

33
Engenhos, senzalas, casas de despejos, paióis, entre outras construções, eram benfeitorias essenciais para o
funcionamento das atividades corriqueiras das unidades domiciliares. Sobre a importância dessas construções
ver terceiro capítulo ANDRADE, Marcos Ferreira. Elites regionais e a formação do Estado Imperial
Brasileiro: Minas Gerais-Campanha da Princesa (1799-1850), p. 122.
34
IPHAN/SJDR, inventário Bernarda Francisca de Faria, Vila de São José, 1852, caixa 82.
35
VAN HOLTHE, Jan Maurício Oliveira. “Quintais urbanos de Salvador: realidades, usos e vivências no século
XIX”. In: Cadernos PPG-AU, Bahia: UFBA, v. 2, n. 1, 2003, p. 67.
36
Os instrumentos ou aparelhagem que não cabiam dentro de casa ou “que trouxessem algum risco à segurança
do imóvel e de seus habitantes” eram instalados ou guardados na parte externa da casa. Ibidem, p. 64.
37
ALGRANTI, Leila Mezan. “Famílias e vida doméstica”.
90
poderia fazer parte da alimentação da sociedade são-joseense, principalmente, entre as
famílias pobres em substituição a carne.38

A descrição do uso do quintal, tanto entre os ricos como entre os grupos sociais mais
humildes, foge à descrição dos inventários. No entanto, existem indícios que demonstram que
o local era uma soma significativa para a sobrevivência das mulheres chefes de família da vila
de São José. Ali, por exemplo, a florista e costureira Ana Francisca das Chagas plantava e
colhia suas flores e rosas para depois serem vendidas ocasionalmente em festas, procissões e
funerais ou mesmo sentadas em uma cadeira ao lado de fora da morada se aquecendo aos
raios do sol; nos dias frios costurava ou fazia pequenos reparos nas roupas de sua clientela.
Em outros casos, a plantação de hortas, pomares e alguns grãos, poderiam assegurar parte do
sustento familiar ou o acréscimo na renda familiar com as vendas dos produtos; o mesmo
acontecia com a criação e abatimento de animais como galinhas e porcos. Em algumas
circunstâncias, a existência de poços de águas nos quintais poderia significar economia de
tempo para outras atividades domésticas ou mesmo renda extra, com a venda de baldes de
água para os vizinhos.39 Diante da ideia de que o quintal era parte congruente ao domicilio,
entendemos que grande parte das atividades desempenhadas pelas mulheres chefes de
domicílios se dava no uso do espaço do quintal. Diante dessa perspectiva, analisaremos nos
tópicos a seguir as atividades desempenhadas pelas mulheres chefes de família da vila de São
José.

3.3 – TRABALHO FEMININO

Desde o início do período colonial, as mulheres foram exploradas como mão de obra;
inicialmente, as indígenas e, posteriormente, as escravas africanas e as nascidas no Brasil. As
mulheres livres de cor e as brancas pobres também compunham a força braçal. Porém, pela
falta de mulheres na colônia, coube às brancas o papel social de esposa. Daí a expressão da
época "branca para casar, negra para trabalhar".

Na virada do século XVIII, as atividades eram definidas a partir do sexo. Aos homens
eram destinadas as atividades como ferreiro, latoeiro, sapateiro, pedreiro, carpinteiro, oleiro,

38
ASSUMPÇÃO, Patrícia Soutto Mayor; Barbosa, Clesio. Terra de Minas culturas e sabores. Belo Horizonte:
Prax, 2005.
39
VAN HOLTHE, Jan Maurício Oliveira. “Quintais urbanos de Salvador: realidades, usos e vivências no século
XIX”, p. 66.
91
seleiro, ourives, caldeiros.40 Já entre mulheres, as atividades mais desempenhadas foram
aquelas ligadas à indústria têxtil doméstica (fiandeiras, rendeiras e costureiras), as tarefas
domésticas e ao pequeno comércio (quitandeiras), paralelamente, e às vezes, associada a essas
atividades, a prática da prostituição.41 Vale salientar que o exercício da prostituição se
apresentava para grande parte das mulheres libertas como uma das possibilidades mais viável
de sobrevivência, às vezes, a única forma de ganhos mais expressivos. A prostituição foi
comum, porém dificilmente era listada nos recenseamento como atividade econômica.42

Miridan Falci comenta que, por meio do trabalho de costureiras, rendeiras, lavadeiras
e roceiras, as mulheres pobres do Nordeste brasileiro garantiam seus sustentos.43 Em Minas
Gerais, mulheres de diferentes condições sociais tinham na produção têxtil caseira a forma de
se inserir na economia local.44 A priori atribuíam essas atividades às mulheres por uma
questão de que essas não necessitariam de força física, porém, mais do que uma limitação
física, as mulheres não tinham reconhecimento social. Eram excluídas socialmente e
impedidas de desempenhar funções políticas e de ocupar cargos públicos.45

Nem mesmo diante do penoso e forçoso trabalho na mineração as escravas foram


isentas, trabalhavam ao lado dos escravos carregando as gamelas com cascalho para serem
lavados. Eduardo Paiva, além de confirmar a atuação feminina como força braçal nas regiões
mineradoras, acrescenta que, apesar de ser um tema pouco explorado pela historiografia, em
algumas circunstâncias, africanas e mestiças dominavam técnicas de mineração e fundição,
esse era o caso, por exemplo, das mulheres oriundas da Costa da Mina. Ao mesmo tempo, o
autor destacar que as negras de tabuleiros foram peças importantes no fornecimento de
alimento para as regiões mineradoras. Havia ainda aquelas forras que experimentaram a
ascensão econômica e se envolveram diretamente com as atividades minerais.46
40
FIGUEIREDO, Luciano. O avesso da memória: cotidiano e trabalho da mulher em Minas Gerais no século
XVIII, p. 187.
41
VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002, p. 594.
42
Vale indicar, que o pesquisador Carlos de Almeida Bacellar aponta a descrição de um domicílio exclusivo de
prostitutas na vila de Sorocaba em 1771. BACELLAR, Carlos de Almeida Prado. A mulher em São Paulo
Colonial, p. 383.
43
FALCI, Miridan Knox. “As mulheres do sertão nordestino”, p. 250.
44
A esse respeito temos trabalhos que focam a vila de São João e o Distrito Capela de Lage, termo de São José,
ver, respectivamente, RESENDE, Adriano Valério. A presença feminina nas Minas Gerais na primeira
metade do século XIX. Monografia (especialização em História). São João del-Rei: FUNREI, 2000;
RESENDE, Ana Paula Mendonça de. Entre fios e panos: mulheres nas Minas Gerais (a produção doméstica
têxtil no Distrito da Lage - 1808/1850). Monografia (especialização em História). São João del-Rei: FUNREI,
2001.
45
FIGUEIREDO, Luciano. O avesso da memória: cotidiano e trabalho da mulher em Minas Gerais no século
XVIII, p. 187.
46
Para uma maior visualização da atuação feminina nas regiões mineradoras ver PAIVA, Eduardo França.
Bateias, carumbés, tabuleiros: mineração africana e mestiçagem no Novo Mundo. In: PAIVA, Eduardo França &
92
Apesar de terem sido em números pequenos em comparação aos homens ao
recebimento de sesmaria, houve mulheres proprietárias de terras com ligação direta à
produção de gêneros alimentícios e a pecuária.47

Tendo em vista, desmistificar a ideia de que as senhoras cariocas eram preguiçosas e


também a imagem de que só as mulheres dos grupos empobrecidos trabalhavam, Almir El-
Kareh analisa o contexto socioeconômico da cidade do Rio de Janeiro na primeira metade do
século XIX. Contrário à representação do ócio, sobretudo influenciado pelos relatos de
viajantes estrangeiros, o autor valoriza a participação das senhoras no processo inicial de
aprendizagem dos filhos, principalmente pela falta de escolas, antes da vinda da Família Real
para o Brasil. Essas educavam as filhas na forma como se deveriam ser portar diante da
perspectiva do casamento, ou seja, a educação feminina “era voltada para o casamento, para
as atividades que deveriam desempenhar enquanto mães e esposas”.48 Somente no decorrer do
século XIX, com a criação de escolas e a presença dos educadores de ambos os sexos que iam
até às casas dos alunos, é que as senhoras perderam espaço na educação dos filhos. E não é só
isso, as senhoras também se empenhavam nas tarefas domésticas (cozinhar, lavar, lavar e
passar roupa), na prática de fiar, tecer e costurar, seja no auxílio ou no controle do trabalho
dos escravos, por exemplo, o preparo dos quitutes, doces e salgados que seriam vendidos nas
ruas pelas escravas.49

O trabalho doméstico se fazia pela sua invisibilidade social, não no sentido de


desqualificação social ou econômica, mas porque várias mulheres escolhiam trabalhar em
suas casas, em alguns casos organizando o trabalho e contando com a ajuda de escrava(s) para
se ausentarem dos preconceitos da época e manterem a "dignidade honrada pelo ócio". O
contrário não acontecia com as mulheres escravas que saiam às ruas para venderem os
produtos produzidos no interior dos domicílios. Essas senhoras não controlavam apenas a
produção caseira, mas também estabeleciam as estratégias de vendas, o percurso e os
melhores horários para a venda dos quitutes, visando aumentarem a lucratividade.

ANASTASIA, Carla Maria Junho. (orgs.). O trabalho mestiço: maneiras de pensar e formas de viver – séculos
XVI a XIX. São Paulo/Belo Horizonte: Annablume/PPGH-UFMG, 2002.
47
FIGUEIREDO, Luciano. “Mulheres nas Minas Gerais”, pp. 142-144.
48
ALGRANTI, Leila Mezan. “Famílias e vida doméstica”, p. 120.
49
EL-KAREH, Almir Chaiban. “Comida quente, mulher ausente: produção doméstica e comercialização de
alimentos preparados no Rio de Janeiro no século XIX”, p. 92.
93
3.3.1 – Ocupações das Mulheres Chefe de Família da Vila de São José

Como visto no primeiro capítulo, o cenário econômico da vila de São José é marcado
pela diversidade econômica, com grande contribuição feminina. Não resta dúvida de que o
trabalho fazia parte da vida dessas mulheres, uma vez que entendemos, principalmente, que
entre as mulheres dos grupos empobrecidos, como também nos casos das solteiras, casadas e
viúvas que viviam sozinhas, que em muitos casos era por meio do trabalho ou na gerência das
atividades que se davam no interior dos domicílios que elas garantiam a sobrevivência.

É importante mencionar de antemão que adotamos como base inicial para a nossa
análise os dados das Listas Nominativas. Diferentemente, o Rol dos Confessados não
apresenta referência a atividade dos “recenseados”. Em seguida, conjugamos os dados das
Listas com os inventários que apresentam indícios das atividades ligadas ao domicílio e,
consequentemente, às mulheres chefes de família.

Devem-se ressaltar as dificuldades que é trabalhar com as informações contidas nas


Listas Nominativas referentes à ocupação, já que nem todos os indivíduos têm discriminado
sua atividade, o que torna mais complicado entender a atuação das mulheres chefes de
família. No entanto, apesar das limitações, a fonte nos permite perceber indícios da presença e
a forma como alguns domicílios se organizavam em torno de algumas atividades. Insta
ressaltar que a documentação apresenta “uma extensa lista de diferentes termos usados para
nomear as ocupações cuja interpretação é bastante delicada”.50 Diante disso, adotamos como
referência para nortear nosso trabalho a classificação utilizada por Clotilde Paiva para as
atividades presentes no censo de 1831/32.51

Dos 214 domicílios chefiados por mulheres na vila de São José, em 52 há alusão à
atividade desempenhada pela responsável. Destas, 48 com ligação à produção doméstica
têxtil: 26 fiandeiras, 17 costureiras, três tecedeiras e duas rendeiras. As demais atividades são:
duas vive de negócio e uma vive de venda (ambas atividades ligadas ao comércio e transporte,
exceto tropas), uma parteira,52 uma vive de esmola e uma vive de mineração. Embora os

50
PAIVA, CLOTILDE. População e economia nas Minas Gerais do século XIX, p. 61.
51
Têm-se os seguintes setores ocupacionais analisados e definidos por Clotilde Paiva, “Agricultura
(agroindústria, agroindústria canavieira), Agropecuária (abate e preparação de carnes) Atividades agrícolas em
geral. Extrativismo, Mineração (faiscação), Atividades artesanais e manufatureiras, Atividades manuais e
mecânicas (madeiras, metais, couro, barro, fibras, tecidos, fiação e tecelagem, edificações, pedras e metais
preciosos). Comércio (tropas), Assalariados, Serviço doméstico, Funções públicas, Não ocupados. Outros e
Rentistas”. População e economia nas Minas Gerais do Século XIX, p. 63.
52
O trabalho das mulheres parteiras era legalizado pelas câmaras municipais, quando era concedido às mulheres
hábeis a exercer a função de parteiras as "cartas de exame". FIGUEIREDO, Luciano. “Mulheres nas Minas
Gerais”, pp. 142-143.
94
dados acima não representem fielmente o número de mulheres no desempenho de tais
atividades, pois acreditamos que o número seja mais expressivo, por outro lado, os números
podem indicar vestígios da existência das ocupações entre as mulheres chefes (ver Tabela 07).

Tabela 07
Ocupação das mulheres chefes de domicílio, vila de São José em 1831/32
Ocupações Brancas De cor
Fiandeiras 04 22
Costureira 08 09
Tecedeira 01 02
Rendeira 01 01
Parteira - 01
Vive de Esmola - 01
Negócio e Vendas 01 02
Vive de Mineração 01 -
Total 16 38
Fonte: ver tabela 01.
Carlos de Almeida Bacellar, ao avaliar a posição das mulheres chefes de família das
cidades de Itu e Sorocaba, durante o século XVIII e início do século XIX, enfatiza que, apesar
de as brancas formarem o grupo das mais ricas, a cor não era elemento que ausentasse essas
mulheres de ocuparem atividades ditas inferiores. Muitas mulheres brancas eram obrigadas a
lutar pela própria sobrevivência e, às vezes, as dos seus dependentes.53 Ao observarmos a
Tabela 07, verificamos que também em São José, como nos municípios de Itu e Sorocaba,
independentemente da cor, as mulheres ocupavam atividades ditas desvalorizadas
socialmente.

O trabalho de fiar, tecer, costurar e o de fazer renda, mesmo em se tratando de nível


doméstico, eram de extrema importância para a economia local, pois era mediante a atividade
desempenhada por essas mulheres que, muitas das vezes, vinha o sustento dos seus domicílios
ou a forma de conseguir algum tipo de ganho que viesse auxiliar e contribuir para a renda do
domicílio. Segundo Libby, o predomínio da mão de obra feminina, principalmente entre as
viúvas e solteiras, na produção caseira de tecidos se explica em parte por que essa seria uma
das poucas opções de sobrevivência que “não podiam contar com amparo do elemento
masculino” 54, o autor acrescenta que as casadas poderiam optar por outras atividades como a

53
BACELLAR, Carlos de Almeida Prado. A mulher em São Paulo Colonial, pp. 371-372.
54
LIBBY, Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma economia escravista: Minas Gerais no século
XIX, p. 250.
95
agricultura e comércio. Contudo, não acreditamos que essa seria uma regra, pois, como
demonstrado por Luciano Figueiredo, as atividades comerciais se apresentavam como uma
boa alternativa de sobrevivência para as solteiras, maiormente para as mulheres de cor.55
Sheila Faria, ao estudar o universo dos indivíduos alforriados, ressalta que era por meio das
práticas comerciais que as mulheres conseguiam as melhores formas de juntar pecúlio. 56

Para verificar a chance das mulheres chefes de domicílio estarem à frente


economicamente de suas unidades, é importante verificar se estavam em idade produtiva. Para
tanto, subdividimos a faixa etária em três grupos: as de 17 a 45 anos,57 de 45 a 59 anos e as
acima de 60 anos. O primeiro grupo corresponde à fase adulta e ativa da mulher, o segundo e
o terceiro, às fases idosas, sendo a segunda uma fase intermediária, e a terceira, uma maior
necessidade com relação à dependência de ajuda de outros indivíduos, podendo ser parentes
ou não.

Em 1795, observa-se o predomínio do grupo das mulheres adultas em idade produtiva


e ativa, representando 53% das mulheres chefes. Ao que se refere às mulheres brancas, em
todas as faixas etárias, sobressaíram às viúvas. Já entre as mulheres de cor, prevaleceram as
solteiras, destaque para a faixa etária de 17-45 anos.

55
FIGUEIREDO, Luciano. O Avesso da memória: cotidiano e trabalho da mulher em Minas Gerais no século
XVIII. .
56
FARIA, Sheila de Castro. “Sinhás pretas: acumulação de pecúlio e transmissão de bens de mulheres forras no
Sudeste escravista (séc. XVIII-XIX)”. In: SILVA, Francisco C. T. da; MATTOS, Hebe Maria; FRANGOSO,
João Luiz Ribeiro (Orgs.). Escritos sobre história e educação: homenagem a Maria Yedda Leite Linhares. Rio
de Janeiro: Mauad/FAPERJ, 2001, pp. 305-309.
57
Analisando os censos, a idade de 17 anos foi a mais baixa entre as mulheres chefes de famílias da vila de São
José.
96
Tabela 08
Faixa etária e estado conjugal das mulheres chefes de família por cor da pele, na vila de São
José nos anos de 1795 e 1831/32

Total

Total
1795 1831
Brancas De Cor Brancas De Cor

Casadas

Casadas

Viúvas

S/I

Casadas

Viúvas

Casadas

Viúvas

S/I
Viúvas

Solteiras

Solteiras

Solteiras
Solteiras

Idade

17 – 45 03 02 06 100 15 16 06 148 09 - 03 62 04 06 01 85

46 – 59 05 02 06 37 08 09 02 69 05 01 08 24 03 21 - 62

60 ou + - - 06 35 04 16 01 62 04 - 06 31 01 25 - 67

Total 08 04 18 172 27 41 09 279 18 01 17 117 08 52 01 214


Fonte: ver tabelas 01 e 02.
O que nos chamou a atenção foi que, ao analisar o grupo das viúvas, percebemos que,
na virada do século XVIII, tanto entre as brancas como entre as mulheres de cor, o estado de
viuvez não significava necessariamente idade avançada nem a incapacidade de exercer
atividade, uma vez que parcela das viúvas estava na faixa etária de 17-45 anos. Por outro lado,
de acordo com as Listas Nominativas, o número de mulheres viúvas se concentrava nos
grupos etários dos idosos. Vale mencionar aqui o trabalho de Raquel Chequer que, a partir da
análise dos pedidos de tutela dos filhos menores feitos ao Rei pelas mulheres viúvas,
especificamente das famílias abastadas, atesta a capacidade das viúvas de administrarem os
bens familiares. Numa posição desfavorável com relação aos valores lusitanos que
estabeleciam a inferioridade e a incapacidade da mulher em gerir os bens da família, que em
alguns casos ajudaram a construir conjuntamente com os seus maridos, essas mulheres se
posicionaram e se utilizaram de meios jurídicos para comprovarem sua capacidade e aptidão
para lidar com os negócios da família após a morte do marido. Para terem o direito à tutela
sobre os bens dos filhos menores e assim evitar a fragmentação da riqueza, a viúva deveria
comprovar não apenas a capacidade de conduzir os negócios, mas também preservar a honra
de suas famílias, ou seja, manter o estado de viúvas.58

Ao contrário do Rol dos Confessados, na década de 1830, compreende-se que a


maioria das mulheres chefe de família encontrava acima dos 45 anos, portanto, eram

58
Oposto às viúvas, os viúvos com filhos menores automaticamente eram tidos como tutores legais dos filhos
menores. O caráter misógino dos valores portugueses permitia que homens sem ligação de parentesco tivessem a
tutela sobre os bens dos filhos órfãos. A esse respeito ver CHEQUER, Raquel Mendes Pinto. Negócios de
família, gerência de viúvas: senhoras administradoras de bens e pessoas (Minas Gerais 1750-1800). Dissertação
(Mestrado em História). UFMG, Belo Horizonte, 2002.
97
consideradas idosas para os padrões da época. Por outro lado, a parcela das que estavam em
idade adulta e produtiva também é considerável. Diante da capacidade em relação à idade, em
ambos os censos, as oportunidades delas desempenhar algum tipo de atividade e de estar
inseridas nas várias alternativas econômicas era muito grande. Prevalecem entre as mulheres
brancas e de cor, nesse intervalo de tempo, as mulheres solteiras com idade entre 20 e 44
anos.

Visando, ainda, evidenciar a capacidade dessas mulheres de proverem o sustento ou a


manutenção de seus domicílios, consideramos aquelas que viviam sozinhas, em companhia
apenas de escravos, em companhia de crianças (0-10 anos) e em companhia de crianças e
escravos (ver Tabela 09).

Tabela 09
Mulheres chefes de famílias que viviam sozinhas, em companhia de crianças (0 a 10 anos) ou
de escravo, na vila de São José nos anos de 1795 e 1831/32
Estado Sozinhas Com Escravo Com Criança Criança e Escravo Total
Conjugal

Solteiras 77 11 04 01 93
1795 Casadas 13 03 02 01 19
Viúvas 12 03 - 01 16
Sem Ref. 06 - - - 06
Total 108 17 06 03 134
Solteiras 30 06 13 03 52
Casadas 03 - 01 - 04
1831/32 Viúvas 03 02 01 - 06
Sem Ref. - - 01 - 01
Total 36 08 16 03 63
Fonte: ver tabelas 01 e 02.
Ao somarmos os números das mulheres chefes que viviam sozinhas e em companhia
de crianças (0 a 10 anos), nos períodos de 1795 e 1831/32, juntas correspondiam,
respectivamente, a 39% e 24% dos domicílios chefiados por mulheres. Ao considerarmos os
casos, principalmente, das solteiras, mesmo as que viviam em companhia de escravos tinham
que exercer algum tipo de atividade ou mesmo gerenciar e atribuir tarefas aos seus escravos.
Fica evidente a capacidade dessas mulheres de prover o sustento de seus fogos e para aquelas
que viviam em companhia de crianças a tarefa de cuidar dos menores. Por outro lado, os
números demonstram que no meio urbano as mulheres encontravam melhores condições para
gerirem suas sobrevivências.

Sendo assim, existia grande chance delas serem provedoras ou dirigentes de seus
domicílios, mesmo considerando que as casadas e as viúvas que viviam sozinhas, em

98
companhia de crianças ou de escravo(s) poderiam ter adquirido algum meio, por exemplo,
através do casamento, que garantisse em parte os seus sustentos. No entanto, temos que
apontar que existia a possibilidade de que grupo poderia contar com algum tipo de
“assistencialismo” que viesse auxiliá-las na sobrevivência, tais como os laços de vizinhança,
solidariedade e compadrios, principalmente, entre aquelas que viviam em companhia de
criança.

Outra questão que corrobora a capacidade das mulheres chefes de família de


exercerem algum tipo de atividade econômica é a presença de escravos em seus domicílios,
uma vez que a aquisição de escravos demandava investimento financeiro. Mesmo
considerando que nos casos das viúvas e das casadas a presença de escravos poderia ser em
decorrência do casamento, não podemos desconsiderar que mesmo nesses casos a presença de
escravos se ligaria à possibilidade dessas mulheres em produzir e acumular riquezas ou
mesmo manter a posse após morte dos maridos.

Diante disso, analisaremos no tópico a seguir a presença de escravos entre os


domicílios chefiados por mulheres na vila de São José.

3.3.2 – Presença de Escravos nos Domicílios Chefiados por Mulheres em São José

Do conjunto dos domicílios na vila de S. José, a maioria não contava com escravos.
Em 1795, 55% do total de 719 domicílios não eram escravistas, entre os de chefia feminina, o
índice era de 66%. A percentagem encontrada para a vila dos fogos sem escravos era maior do
que a encontrada para o Termo de São José, que era de 50% do total de domicílios.

De acordo com as Listas Nominativas dos 497 domicílios, 69% deles não dispunham
de cativos, entre os fogos chefiados por mulheres; dos 214 casos, 75% não tinham a presença
de escravos. O índice geral para a vila é de leve superioridade em comparação com o Termo
de São José, que era de quase 61% dos domicílios, enquanto que a média mineira para as
unidades domésticas que não contavam com escravos, para o mesmo período, era de 67% dos
fogos.59

No tocante à posse de escravo, faz-se necessário definir o tamanho dos plantéis e


visualizar a posse de escravos entre os domicílios chefiados por mulheres. Para tanto,

59
LIBBY, Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma economia escravista: Minas Gerais no século
XIX, p. 97.
99
utilizamos para demonstrar a configuração das escravarias na vila de São José, a definição
empregada por Silvia Brügger: plantel de 01 a 05 e de 06 a 10 escravos foram considerados
pequenas escravarias; de 11 a 15 escravos representam as médias; 16 a 50 e mais de 50
escravos foram considerados como grandes escravarias.60

Em 1795, dos 281 domicílios chefiados por mulheres, 96 possuíam escravos,


percentagem de 34% dos fogos, totalizando 480 escravos e 23% da população escrava da vila.
Deste total, 50,5% dos cativos compunham as pequenas escravarias e 42,3% as grandes
escravarias. Índice que difere da configuração geral da vila que, neste período, tinha 50% da
população escrava nas mãos dos grandes proprietários.

Entre os domicílios que possuíam escravos, 75 deles contavam com até 05 escravos,
correspondendo a 78% das unidades domésticas. Com relação à população escrava nesses
domicílios, 277 eram homens, sendo 168 africanos e 109 nascidos no Brasil; e 203 mulheres
escravas, prevalecendo as nativas, com 133 casos. O predomínio do número de homens
africanos e o baixo número de mulheres africanas (70 casos) nesses domicílios demonstram
além do projeto de ascensão econômica, devido à ampliação da força braçal e a possibilidade
dos homens desempenharem um número maior de atividades econômicas, insere as
proprietárias à lógica do tráfico negreiro, uma vez que o preço do escravo masculino era mais
elevado do que o feminino. (ver a Tabela n° 10)

Tabela 10
Posse de escravos nos domicílios chefiados por mulheres na vila de São José no ano de 1795
Tamanho Brancas De cor
S/I*
Escravaria Solteiro Casado Viúvo Solteiro Casado Viúvo Total
Zero 02 - 04 128 21 27 03 185
01 – 05 04 02 05 40 08 10 06 75
06 – 10 02 01 02 03 - 03 - 11
11 – 15 - 01 02 - - - - 03
16 – 50 01 - 06 - - - - 07
+ de 50 - - - - - - - -
Total 09 04 19 171 29 40 9 281
* Sem Referência.
Fonte: ver tabela 02.
Analisando o estado conjugal e a condição social das mulheres chefes proprietárias de
escravos, em 1795, encontramos entre as brancas, num total de 30 domicílios, 24 deles ou
80% desses domicílios contavam com cativos. Destas, 14 eram viúvas, 06 solteiras e 04

60
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del-Rei - séculos XVIII e
XIX).
100
casadas. Já entre as mulheres de cor, 71 dos domicílios ou 28% possuíam escravos, sendo 44
solteiras, 14 viúvas, 07 casadas e 06 sem referência ao estado conjugal.

No início da década de 1830, o índice de mulheres chefes de domicílios que possuíam


escravos caiu para 25% (54 domicílios). Dos 54 domicílios, 76% contavam com escravarias
pequenas de 01 a 05 escravos. O total de escravos desses domicílios totalizava 325 cativos,
correspondendo a 27% da população escrava da vila. Nesse período, o número de escravos
por tamanho da unidade foi semelhante entre as pequenas e grandes escravarias,
respectivamente, 156 e 157 cativos. As médias escravarias totalizavam apenas 12 cativos. Já
analisando todos os domicílios da vila de São José, verifica-se a concentração de cativos entre
os grandes proprietários, correspondendo a 59% da população escrava ou 690 cativos, o que
confirma a tendência da própria região do Rio das Mortes.61

É interessante notar que a percentagem de unidades que contavam com escravos no


intervalo de tempo, entre os dois censos, caiu; por outro lado, a percentagem do número de
escravos, na década de 1830, aumentou, demonstrando o acréscimo da participação dos
escravos nos fogos de chefia feminina (ver Tabela n° 11).

Tabela 11
Posse de escravos nos domicílios chefiados por mulheres, vila São José 1831/32
Tamanho Brancas De cor
Total
Escravaria Solteira Casada Viúva Solteira Casada Viúva
Zero 12 - 05 98 07 39 161
01 – 05 04 - 06 18 01 12 41
06 – 10 01 01 03 01 01 01 08
11 – 15 - - 01 - - - 01
16 – 50 01 - 01 - - - 02
+ de 50 - - 01 - - - 01
Total 18 01 17 117 09 52 214
Fonte: ver tabela 01.
Percebe-se que, na década de 1830, entre as brancas, num total de 36 domicílios, 57%
possuíam escravos, que 71% das viúvas eram proprietárias, enquanto que 59% das solteiras
não eram proprietárias. Entre as chefes de cor do total de 178 domicílios, apenas 19%
possuíam escravos, prevalecendo também entre as de cor as viúvas como proprietárias, 23%

61
Ver GRAÇA FILHO, Afonso de Alencastro. A Princesa do Oeste e o mito da decadência de Minas Gerais:
São João del-Rei (1831-1888); BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São
João del-Rei – séculos XVIII e XIX); PINTO, Fábio Carlos Vieira. Família Escrava em São José del Rei:
aspectos demográficos e identitários (1830-1850). 149p. Dissertação (Mestrado em História). UFSJ, São João
del Rei, 2010.
101
delas contavam em seus domicílios com a participação de mão de obra escrava; por outro
lado, 55% das solteiras não eram proprietárias.

Nota-se em São José, tanto no censo eclesiástico como nas Listas Nominativas, a
preponderância das pequenas escravarias de 01 a 05 escravos, e essa não era uma
característica apenas dos domicílios chefiados por mulheres, mas também entre os de chefia
masculina; o índice representou em ambos os censos 75% dos proprietários, o que significa
dizer que desde o final do século XVIII havia na vila de São José a concentração de muitos
proprietários de pequenos grupos de escravos, índices que se enquadram no perfil de Minas,
onde “entre 1831 e 1840, cerca de dois terços dos proprietários escravistas de Minas Gerais
possuíam menos de cinco cativos em média. Tal dado é um indício de que, nas pequenas
propriedades, o trabalho escravo coexistia com o familiar”.62

Fica claro que a maioria dos domicílios chefiados por mulheres não contava com a
presença de escravos, contudo, como bem frisou Brügger para seu estudo referente a São João
del-Rei a ausência de escravos na maior parte dos fogos encabeçados por mulheres
correspondia mais a um padrão da sociedade do que a uma questão de gênero, visto que a
maioria dos domicílios chefiados tanto por homens como por mulheres não contavam com a
participação de escravos;63 perfil semelhante ao da sociedade de são-joseense.

Aquelas que dispunham de cativos em suas unidades possuíam as pequenas


escravarias de um a dez escravos. Contudo, separamos dois casos, respectivamente, do Rol
dos Confessados e das Listas Nominativas, em que as mulheres chefes eram grandes
proprietárias de cativos. Em 1795, constam no domicílio da viúva Ana Maria da Conceição 46
escravos, sendo 34 homens e 12 mulheres, entre crianças, adultos e idosos. Já na década de
1830, a também viúva Bernarda Francisca de Faria era, entre todas as mulheres chefes de
domicílios, a que mais escravos possuía: 78 escravos, sendo 42 homens e 36 mulheres, entre
crianças, adultos e idosos. Analisaremos com mais detalhes o domicílio de Bernarda no
quarto capítulo.

Entre os domicílios chefiados por mulheres, as pequenas escravarias – um a dez


escravos – correspondiam a 89,5% das proprietárias na virada do século XVIII; em 1831/32, o
índice sobe para 91%. A predominância de pequenas escravarias nos revela que as
proprietárias estavam ligadas a atividades econômicas que não necessitavam profundamente
62
FRAGOSO, Joao; FLORENTINO, Manolo; FARIA, Sheila de Castro. A economia colonial brasileira:
(séculos XVI-XIX), p. 59.
63
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del Rei - séculos XVIII e
XIX), p. 92.
102
de mão de obra cativa, por exemplo, as atividades domésticas têxteis. Ao mesmo tempo, essas
características refletem o pequeno poder econômico dessas mulheres proprietárias.

A ausência de escravos nesses domicílios aponta para a questão de que a maioria


dessas unidades vivia num ambiente de grande diversidade. Assim vivia Luciana Joaquina de
Jesus, moradora da vila de São José, viúva de Francisco Inácio Costa, que teve apenas um
herdeiro, seu sobrinho Joviano Antônio do Sacramento. Pelo que consta em seu inventário de
1868, Luciana morreu pobre, sozinha, sem filhos e sem escravos, lista apenas a metade de
uma casa no Largo das Mercês, que foi vendida a Anastácio Joaquim da Rocha por 100$.000,
e uma vaca vendida a Francisco Barbosa da Silva por 22$000. Os poucos bens inventariados
foram alienados para liquidar as despesas provenientes de seu enterro e velório. Precisamente,
foram pagos 8$000 ao Vigário José Virgolino, pela missa de corpo presente, encomendação,
cera, meia fábrica e sepultura; 4$000 a Antônio José Veloso pelo caixão; 26$960 e 23$420
reis, respectivamente, às Irmandades de São João Evangelista e Nossa Senhora do Rosário, e
16$300 a Agostinho Moreira Coelho pelos panos e velas, dentre outros materiais destinados
ao velório e enterro, totalizando 78$680.64

Por outro lado, por menor que seja o número de proprietárias e o predomínio dos
pequenos planteis de escravo nesses domicílios, podemos observar a inserção feminina no
cenário econômico e social da vila de São José. A posse de escravo, além de ser um dos
caminhos utilizados para o enriquecimento, era meio também para se estabelecerem
estratégias e distinção social.65 O espaço urbano da vila favorecia a acumulação de recurso e a
aquisição de escravos por parte dessas mulheres, o que poderia auxiliar para aumentar a suas
rendas, uma vez que as proprietárias poderiam alugar seus escravos ou colocá-los para
trabalhar no comércio e viver de suas rendas. Mesmo que essas mulheres não fossem
efetivamente grandes proprietárias, a presença de escravo nessas unidades representava uma
oportunidade de auxílio para suas sobrevivências.

Como visto, era mais comum ter escravo entre as brancas. Por outro lado, os
domicílios encabeçados por mulheres, independentemente, da cor da responsável, que,
proporcionalmente, mais contavam com escravo, eram aqueles chefiados por viúvas. À
primeira vista, somos levados a pensar que a posse de cativos dessas mulheres fosse
proveniente da herança deixada por seus cônjuges, o que parece confirmar que o casamento

64
IPHAN/SJDR, inventário de Luciana Joaquina de Jesus, Vila de São José, 1868, caixa 608.
65
FURTADO, Júnia F. “Pérolas negras: mulheres livres de cor no Distrito Diamantino”. In: Diálogos oceânicos.
Belo Horizonte: UFMG, 2001, p. 116.
103
era um meio que beneficiava a acumulação de riqueza. No entanto, não podemos esquecer, é
claro, a possibilidade das viúvas de acumularem riqueza após a morte dos maridos. Vale
lembrar que algumas mulheres chefes declararam suas ocupações, portanto, indicando suas
contribuições para suas unidades domésticas.

Entre as mulheres proprietárias de cor sobressaíram às solteiras, o que pode indicar


que suas posses possam ser fruto dos seus trabalhos. Assim, não podemos esquecer que
muitas vezes “os proprietários de cativos tenderiam a ser mais caracterizados como ‘brancos’
do que como mestiços”. No mesmo sentido, a indicação quanto à cor da pele “mudava
conforme a condição das pessoas. [...] a propriedade de escravos, nitidamente, também
‘embranquecia’ uma pessoa”.66

Em relação à estrutura etária dos escravos pertencentes às mulheres chefes de famílias,


classificamos três faixas: de 0 a 10 anos, de 11 a 45 anos e de 46 anos ou mais. A primeira
faixa representa o grupo das crianças, porque aos maiores de 10 anos já eram atribuídas
ocupações e tarefas, considerada a fase adulta e a vida produtiva do indivíduo. Já para os
acima dos 46 anos foram considerados velhos, devido às limitações físicas e às condições
precárias em que viviam esses escravos (ver Tabela 12).

Tabela 12
Faixa etária dos escravos nos domicílios chefiados por mulheres, vila de São José nos anos de
1795 e 1831/32
1795 1831/32
Idade/Sexo
Homens Mulheres Total Homens Mulheres Total
0 – 10 anos 10 14 24 30 34 64
11 – 45 anos 210 162 372 97 112 209
46 anos ou + 55 25 80 30 22 52
Sem ident. 03 01 04 - - -
Total 278 202 480 157 168 325
Fonte: ver tabelas 01 e 02.
Como era de se esperar, a população cativa concentrou a maior proporção de
indivíduos na idade adulta e ativa (15 a 45 anos). Vislumbra-se o predomínio de mulheres no
grupo das crianças e dos adultos. Já para o grupo dos idosos, há o predomínio dos homens,
indício que corrobora a hipótese de que as cartas de alforrias foram maioria entre as mulheres.
Existe certa tendência ao equilíbrio entre os sexos em São José, com leve predomínio de
mulheres. Por esse motivo, somos levados a pensar que esse equilíbrio entre os sexos

66
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del Rei - séculos XVIII e
XIX), p. 88.
104
favorecia para que os escravos tivessem maiores chances de encontrar parceiros entre eles.
Podemos dizer que o fluxo de crianças escravas encontradas nos domicílios das mulheres
chefes demonstra uma tendência à reprodução natural (ver Tabela 12).

Analisando o mapa populacional da década de 1830 para a vila de São José,


encontramos 08 atividades específicas desempenhadas pela população escrava, entre elas
estão as fiandeiras, trabalho por jornal (metais), sapateiro, costureira, caldeiro, pedreiro,
carpinteiro e ferreiro. O domínio do saber de determinadas tarefas poderia significar para o
escravo um privilégio em sua relação com o senhor, poderia esse morar fora dos limites do
domicílio do proprietário, ficando apenas encarregado de conceder ao senhor, nos dias
específicos, a quantia estipulada, obtida por meio do seu trabalho. O escravo de ganho que
não tivesse uma atividade especializada era obrigado a desempenhar qualquer tarefa ou
mesmo praticar pequenos roubos para conseguir juntar a quantidade definida, e,
consequentemente, pagar a diária estabelecida pelo seu senhor e se ausentar da punição. Vale
ressaltar que, no caso das escravas de ganho, foi comum entre elas a venda do seu próprio
corpo, ou seja, utilizavam da prostituição para conseguir juntar o montante previamente
estipulado pelo senhor.

A especificação das atividades dos escravos presentes nos domicílios é importante


para a tentativa de se aproximar mais da realidade dessas unidades familiares, uma vez que
esses domicílios mesclavam várias formas de trabalho, inclusive a associação do trabalho
familiar com o trabalho escravo. Nesse sentido, havia grande chance de se ter a participação
de todos os membros do domicílio na prática da mesma atividade, sobretudo se pensarmos
que os escravos auxiliavam suas proprietárias na execução das tarefas rotineiras.

Entre outros exemplos, temos o domicílio da viúva Maria Antônia Thomasia. Mesmo
aos 76 anos, aparece nas Listas Nominativas com a ocupação de costureira; abaixo dela,
aparecem as agregadas Anna Thereza, 39 anos, branca, solteira, e Maria Marcelina, 36 anos,
branca, solteira; além das agregadas foram listadas as escravas Marcelina, parda, 25 anos,
Senhoria, cabra, 25 anos, e Francisca, crioula, 24 anos; com exceção da escrava Francisca,
que aparece com a profissão de fiandeira, todas as outras mulheres do domicílio têm a mesma
profissão da responsável. Podemos supor que Maria Antônia ensinou às demais mulheres a
profissão de costureira e, por estar em idade avançada, acompanhava de perto o desempenho
da atividade das outras moradoras.

105
Todavia, “não se trata de mecanicamente transferir o escravo para o setor econômico
do chefe, mas de conhecer até que ponto a ocupação do chefe pode definir o setor econômico
em que escravo está envolvido”,67 além do que a relação entre senhor escravo abrangia um
vasto leque de afinidade e convivência, e uma delas era o desempenho das atividades “que
visavam à alimentação, ao vestir, à construção e fabricação de equipamentos e utensílios de
uso diário”.68

Faz-se necessário indicar que, mesmo que a posse de escravo fosse um diferenciador
social, isso não aliviava a situação de vida dessas mulheres, pois essas eram, na sua maioria,
mulheres não proprietárias, tanto as solteiras como as casadas e as viúvas enfrentavam
grandes dificuldades financeiras. Para muitas, o trabalho do escravo representava a única
fonte de renda, e isso favorecia a aproximação entre senhora e escravo, principalmente, dentre
as senhoras solitárias que viviam apenas da companhia de seu(s) escravo(s). Em vários casos,
o núcleo familiar era composto por proprietária e escravo(s). Esta característica fazia com que
o contato entre senhora e escravo fosse intenso, fazendo com que as relações de convivência
fossem estreitas devido às lidas do cotidiano, de tal modo, que os laços de convivência
estabelecidos não eram unilaterais, mas sim de dependência mútua.

3.3.3 – Trabalho Familiar e a Presença de Agregados

Como visto anteriormente, predominava entre os domicílios chefiados por mulheres,


nos dois censos, o conjunto das mulheres não proprietárias, seguido, pelo grupo das pequenas
proprietárias de 01 a 05 cativos: em 1795, aproximadamente 66% dos 281 domicílios
chefiados por mulheres na vila não eram proprietárias; em 1831/32, a percentagem das
mulheres que não possuíam escravos subiu para aproximadamente 75% dos domicílios.

Os dados nos sugerem que potencialmente o trabalho realizado nessas unidades se


dava por meio da execução dos próprios moradores, ou seja, as responsáveis tinham como
mecanismo para driblar a condição desfavorável (a ausência de escravos), o trabalho familiar.
Para a vila, encontramos relações significativas que demonstram o vínculo dos membros com
a responsável, o que nos sugere que essas mulheres encontravam nas relações familiares
oportunidades de estabelecerem projetos e, assim, garantir a sobrevivência.69

67
PAIVA, CLOTILDE. População e economia nas Minas Gerais do século XIX, p. 104.
68
ALGRANTI, Leila Mezan. “Famílias e vida doméstica”, p. 143.
69
Sobre o trabalho familiar ver o terceiro capítulo ANDRADE, Marcos Ferreira. Elites regionais e a formação
do Estado Imperial Brasileiro: Minas Gerais-Campanha da Princesa (1799-1850).
106
O trabalho familiar predominou entre as famílias na primeira metade do século XIX.
Embora não fosse uma “regra”, a mão de obra familiar foi de extrema importância,
principalmente para os grupos menos favorecidos; ocorria ainda a chance de enriquecimento,
principalmente pela associação ou complemento do trabalho escravo.70 Portanto, “houve os
que, oriundos do cativeiro, viram seus bens aumentados com o trabalho familiar, chegando
alguns a possuir até mesmo vários escravos e produção significativa direcionada a um amplo
mercado”.71

O trabalho ia desde a produção de alimento para a própria subsistência como também


a prática de atividades manuais, em especial, nos domicílios de chefia feminina até as
atividades ligadas à indústria têxtil doméstica. Para tanto, essa forma de trabalho necessitava
da colaboração de todos os membros, sobretudo porque os recursos eram limitados e,
portanto, carecia da participação dos filhos, genros e, se pensarmos a família num sentido
mais amplo dos agregados e escravos: “a chamada indústria caseira ocupava todos os
habitantes da casa, quer diretamente na execução das tarefas, quer na sua organização”.72

Vivendo em situações especificas próximas à vila, onde havia o predomínio das


atividades rurais, algumas mulheres só tinham na família a chance de minimizar a
adversidade, como é o caso da viúva e forra Maria Alves Fontes, cujo inventário, datado de
1830, indica a possibilidade da co-dependência familiar.73 Moradora da Paragem de Mato
Dentro, subúrbio da vila de São José, Maria era proprietária de uma porção de terras de
capoeiras que totalizavam 25 alqueires, além da “casas de vivendas”. Em 1795, de acordo
com o Rol dos Confessados, compunham o seu domicílio os filhos Luiz, 28 anos, pardo,
solteiro, e Joaquim, 25 anos, pardo, solteiro, mais 07 escravos e a agregada de Maria
Thomazia de Jesus, 85 anos, branca, solteira.

Decorridos 35 anos do censo eclesiástico, morria Maria Alves já em idade avançada,


com aproximadamente 80 anos; presumidamente incapaz de exercer atividades pesadas, não
possuía mais escravos, como em épocas passadas, que garantissem o seu sustento, tinha
70
O trabalho exercido pelos escravos não era inferior, como se pensava, em comparação ao trabalho livre. Pelo
contrário, os escravos contribuíram em vários processos de produção. Hoje se sabe que os escravos que vieram
para Minas Gerais eram em grande parte do interior da África Ocidental, região que já praticava há séculos a
mineração aurífera, ou seja, os escravos traziam consigo experiências e conhecimentos acerca da mineração.
LIBBY, Douglas Cole. "Habilidades, artífices e ofícios na sociedade escravista do Brasil Colonial". In: LIBBY,
Douglas Cole; FURTADO, Júnia Ferreira (Orgs.). Trabalho livre, trabalho escravo: Brasil e Europa, séculos
XVIII e XIX. São Paulo: Annablume, 2006, pp. 57-58.
71
FRAGOSO, Joao; FLORENTINO, Manolo; FARIA, Sheila de Castro. A economia colonial brasileira:
(séculos XVI-XIX), p. 84.
72
ALGRANTI, Leila Mezan. “Famílias e vida doméstica”, p. 143.
73
IPHAN/SJDR, Inventário de Maria Alves Fontes, Sub. da vila de São José, 1830, caixa 91.
107
supostamente a ajuda dos seus netos Joaquim, 18 anos, Manoel, 17 anos, casado e Maria, 16
anos, todos filhos do já falecido Luis Gomes de Carvalho, para tirar das suas terras algum tipo
de economia, uma vez que o seu filho Joaquim Gomes de Carvalho já se encontrava em idade
avançada, com 60 anos.

Tendo em vista, o trabalho infantil, mães como a forra Anna Rodrigues, 35 anos,
crioula, solteira, por questões de necessidade econômica poderia ter que contar com o auxílio
da filha Seminana de apenas 08 anos na realização de pequenas tarefas domésticas. Outras
vislumbravam o cuidado de crianças expostas, o auxílio futuro ou até uma ajuda imediata no
desempenho de pequenas atividades diárias. O domicílio da forra Iffigenia Martins, 35 anos,
solteira, é elucidativo a esse respeito, é que, além de sua filha Antonia, 20 anos, parda,
solteira, habitava em seu domicílio o exposto Joaquim, 11 anos, pardo, livre.

Irmãos, primos, sobrinhos e netos também compunham os domicílios. Habitavam o


domicílio de Cypriana Fernandes Barboza, 49 anos, forra, crioula, solteira, suas irmãs, Clara
Fernandes, 38 anos, forra, crioula, solteira, Ignácia Fernandes Barboza, 34 anos, forra,
crioula, viúva, e seus sobrinhos filhos de Ignácia, Florêncio, 09 anos, livre, cabra e Antônia,
07 anos, livre, cabra, solteira. Além dos parentes, são listados ainda a exposta moradora da
casa de Cypriana, Anna, 13 anos, livre, parda, solteira, e o escravo João, 49 anos, crioulo,
solteiro.

Alguns dos domicílios chefiados por mulheres na vila de São José possuíam agregados
compondo a unidade sem ser necessariamente um parente.74 Em sua perspectiva, o termo
agregado se definiria enquanto indivíduo desafortunado.75 Contudo, estudos têm mostrado
que, em alguns casos, havia agregados proprietários de escravos76 e que não necessariamente
o termo se referia a indivíduos pobres, principalmente se pensarmos que a categoria poderia
também designar a relação entre familiares e parentes.77 Clivados entre os grupos, senhores e

74
Eni Samara, em seu trabalho a respeito dos agregados na região de Itu, na virada do século XVIII, pondera
que, entre homens, mulheres e crianças, o agregado poderia ser um conhecido ou um desconhecido em busca de
ajuda no grupo familiar, por não possuir propriedade ou morada. Neste sentido, por compor a unidade familiar, o
agregado pode ser visto como mão de obra auxiliar no desempenho das atividades. Logo, de grande importância
para a economia doméstica. SAMARA, Eni de Mesquita. O papel do agregado na região de Itu, 1780-1830.
São Paulo: Museu Paulista, 1977, Série História, vol. 6.
75
Ibidem, p. 42.
76
TEIXEIRA. Paulo Eduardo. Açúcar, escravidão e chefes de domicílio: Campinas, 1765 a 1829. XIII
Economic History Congress, 2002, p. 39.
77
ANDRADE, Marcos Ferreira. Elites regionais e a formação do Estado Imperial Brasileiro: Minas Gerais-
Campanha da Princesa (1799-1850), p. 46.
108
escravos, os agregados compunham a parcela da população que não era mão de obra
escrava.78

Conquanto que o agregado ou o convívio entre parentes possa evidenciar certo caráter
temporário, a relação representa estratégia. Maria L. Marcílio sugere que a presença de
agregados era uma maneira de se complementar a força do trabalho familiar, principalmente
para aqueles grupos que não podiam adquirir escravos como forma de complemento da força
de trabalho familiar.79 Cacilda Machado, na mesma perspectiva, frisa que a incorporação de
agregados não foi uma prática apenas dos empobrecidos, mas conforme diminuía o capital
para a aquisição de novos cativos, as elites também se decidiam pelo uso da força de mão de
obra de agregados.80

Por meio das Listas Nominativas, para a vila de São José, não foi possível precisar a
respeito da presença dos agregados, pois não foi diferenciado o parentesco e nem a relação
dos membros com o responsável pelo domicílio, deixando lacunas a esse respeito. No entanto,
em alguns casos foi possível testificar, por exemplo, a presença de filhos compondo o
domicílio da responsável com o cruzamento das informações das Listas com outras fontes
(inventários e bancos de dados de casamento).

Ao contrário, o Rol dos Confessados é elucidativo ao que se refere à categoria dos


agregados, pois traz discriminada a relação dos membros com o responsável pelo domicílio,
de tal modo que escolhemos o censo eclesiástico para demonstrar a presença dos agregados na
vila de São José. Entre os domicílios de chefia feminina foram listados 70 indivíduos como
agregados, distribuídos em 45 domicílios. O termo agregado foi utilizado para designar os
indivíduos sem vínculo de parentesco com o chefe do domicílio.

Na vila de São José, a maioria dos agregados estava em idade produtiva; portanto,
significavam acréscimo na mão de obra para o domicílio, tinha entre 11 a 45 anos, 50 casos,
seguido daqueles com idade acima dos 45 anos, 14 casos, por último, o grupo das crianças
com idade até os 10 anos, 06 casos. Destes, 41 eram mulheres. Uma das explicações para o
predomínio das mulheres é que essas se aproximavam de outras mulheres no sentido de
somarem forças para juntas garantirem recursos necessários para a sobrevivência. No
78
MACHADO, Cacilda. “O patriarcalismo possível: relações de poder em uma região do Brasil escravista em
que o trabalho familiar era a norma”. In: Revista Brasileira de Estudos Populacionais. São Paulo, v. 23, n. 1,
jan./jun, 2006.
79
MARCÍLIO, Maria Luiza. Crescimento demográfico e evolução agrária paulista. 1700-1836. São Paulo:
Hucitec, 2000.
80
MACHADO, Cacilda. “O Patriarcalismo Possível: relações de poder em uma região do Brasil escravista em
que o trabalho familiar era a norma”, p. 183.
109
domicílio de Ursula Maria Rodrigues, 35 anos, forra, cabra, solteira, havia a reunião de sua
filha Jacintha, 20 anos, parda, livre, solteira, e das agregadas Joanna Maria Rodrigues, 37
anos, forra, cabra, solteira, Ana, 19 anos, livre, parda, solteira, e Roza, 10 anos, livre, parda,
solteira, sendo as duas filhas de Joanna.

Encontramos, além disso, entre os domicílios chefiados por mulheres unidades


complexas, como o fogo de Anna Maria de Jesus, branca, casada. Compunha sua unidade
seus filhos João, Alexandre, José e Bernarda, todos brancos e sem o estado civil declarado. Os
escravos Isabel, Congo, José, Angola e José, crioulo, sendo os três escravos de propriedade da
responsável pelo domicílio. Além desses foram listados os agregados Maria da Silva, crioula,
solteira, forra, Barbara da Silva, solteira, crioula, forra e toda a família do casal José Pereira
Monis e Simplícia Maria de Jesus, composta pelos filhos Domingos e Leonel, todos da
família listados como brancos, e os escravos, de propriedade de José e Simplicia, Mariana,
Angola, e José, Congo, ambos solteiros. O fluxograma a seguir exemplifica a configuração do
domicílio de Ana Maria.

Figura 01 - Fluxograma do domicílio de Anna Maria de Jesus em 1795


A n a M . d e Je s u s ,
51 anos M a rid o A u se n te

Jo ã o , 2 9 a n o s Agregados do domicílio
de Ana Maria de Jesus
Escravos
A le x a n d re , 2 2 a n o s Ana Maria de Jesus

Is a b e l, 3 2 a n o s B a rb a ra S ilva
Jo s é , 1 8 a n o s 23 anos
Jo sé , 2 9 a n o s
B e rn a rd a , 1 5 a n o s M a ria S ilv a , 2 1 a n o s

Jo sé , 2 4 a n o s J o s é P. M o n is , S im p lic ia M . J e s u s,
28 anos 28 anos

D o m in g o s, 0 8 a n o s Escravos
José e Simplícia

L e o n e l, 0 7 a n o s M a ria n a , 2 7 a n o s

Jo sé , 2 1 a n o s

Fonte: Arquivo Paroquial de Tiradentes. Rol dos Confessados da Freguesia de São José do Rio das Mortes,
1795.
Apesar de não especificar se há grau de parentescos entre os membros das duas
famílias, a análise permitiu notar que dentro de um mesmo domicílio poderia coexistir mais
de um grupo familiar ou morada, no entanto, apenas um indivíduo era declarado responsável
pela unidade. Não necessariamente nesse caso a presença do casal de agregados José e
Simplícia significava uma relação de necessidade, pois a presença não necessariamente

110
significava uma dependência a priori de mão de obra, mas a oportunidade de somarem forças
em prol da sobrevivência de todos que, nesse caso, poderia envolver o uso comum da terra e
dos escravos.

Verifica-se, portanto, que a categoria dos agregados era um grupo heterogêneo em que
se encontravam famílias cujos membros eram todos listados como agregados, proprietários de
escravo(s), ex-escravos, escravos, pessoas adultas, idosas, bem como crianças e indivíduos
inválidos por deficiência física; esse era o caso do agregado José Álvares, 65 anos, forro,
solteiro, cego morava no domicílio de Damiana Maria de Jesus, 55 anos, forra, crioula,
solteira.

Fica claro que as mulheres listadas como chefes de domicílios em alguns casos
contavam com a presença de escravos, e em outros, com a ajuda de familiares e de agregados,
e havia ainda casos da junção de duas ou das três formas. A importância dessas relações é que
a partir da contribuição de todos os membros é que esses domicílios conseguiam ter meios
para garantir a sobrevivência. Do mesmo modo, em alguns casos, viver no domicílio dessas
mulheres poderia representar uma possibilidade de melhores condições de vida para parentes
ou agregados.

3.3.4 – Na Rua e no Balcão

Nas Gerais, como em outras regiões brasileiras, por exemplo, as cidades de Salvador,
Rio de Janeiro, São Paulo, o pequeno comércio ambulante e as pequenas vendas eram, em sua
maioria, praticados e controlados por mulheres. Desde o início da ocupação das regiões
mineradoras e da formação das primeiras vilas, as “negras de tabuleiro” estavam presentes
tanto no comércio ambulante como nas vendas que alimentavam as vilas e os arraiais
mineiros.

Segundo Luciano Figueiredo, o controle feminino do pequeno comércio no Brasil,


sobretudo, a predominância entre as mulheres de cor, resultou de duas referências culturais. A
primeira remete à influência africana, já que, entre algumas culturas africanas, cabia às
mulheres a distribuição de produtos alimentícios. Em segundo, a divisão sexual de trabalho
vigente em Portugal, onde ficava reservado às mulheres o comércio de quitutes, doces, frutos
e produtos de armarinhos (agulhas).81

81
FIGUEIREDO, Luciano. “Mulheres nas Minas Gerais”, p. 144.
111
Em Minas Gerais, a atividade comercial foi bastante intensa.82 Como já foi dito, as
mulheres controlavam o pequeno comércio a varejo, vendiam gêneros de primeira
necessidade, alguns alimentos eram preparados e vendidos nas ruas, minas e becos das vilas
em busca de recursos.83 Na cidade do Rio de Janeiro, algumas comidas eram preparadas na
própria calçada. Para muitos fregueses essa era a principal refeição do dia, especialmente para
os escravos e libertos que permaneciam nas dimensões da cidade oferecendo seus serviços.84
As quitandeiras e as vendedoras ambulantes controlavam o comercio de bebidas e alimentos,
a venda de quitutes, doces, pastéis, bolos, pão de mel, leite, pão, frutas, fumo e aguardente,
era um excelente negócio para essas mulheres, pois mediante as suas vendas elas podiam
garantir a sobrevivência.85

Apesar da importância para o abastecimento das vilas e especificamente das regiões


mineradoras no período colonial, as vendedoras ambulantes constantemente sofriam por parte
das autoridades locais perseguições que tentavam proibir a comercialização de seus quitutes,
uma vez que a prática era associada ao contrabando de ouro e metais preciosos. 86 Para conter
a atuação das comerciantes, a administração local criou leis que proibiam o comércio
ambulante e a fixação de vendas aos arredores das regiões mineradoras, a fim de diminuir o
contrabando. Além disso, elas eram acusadas também de agenciar a prostituição, incentivar a
embriaguez e a violência. Contudo, os mecanismos criados para conter o comércio ambulante
e as vendas não foram eficazes, devido à volatilidade desse tipo de comércio.87

De modo geral, seja por meio do comércio itinerante ou o controle das pequenas
vendas, extensão das moradas, as mulheres tinham o contado direto com o público. Homens
brancos, ricos e pobres, escravos (os escravos no meio urbano gozava de relativa autonomia),
senhoras, com menos frequencia do que as escravas e mulheres libertas eram os fregueses,
não havia distinção da condição social para usufruir dos produtos vendidos e dos locais,
"reuniam-se nas vendas para beber, consumir gêneros, pouco comum, divertir-se e, por que
82
Sobre as várias facetas do comércio setecentista em Minas Gerais, ver CHAVES, Cláudia Maria das Graças.
Perfeitos negociantes: mercadores das minas setecentistas. São Paulo: Annablume, 1999.
83
FIGUEIREDO, Luciano Raposo. O Avesso da memória: cotidiano e trabalho da mulher em Minas Gerais no
século XVIII, p. 188.
84
EL-KAREH, Almir Chaiban. “Comida quente, mulher ausente: produção doméstica e comercialização de
alimentos preparados no Rio de Janeiro no século XIX”, p. 94.
85
FIGUEIREDO, Luciano. “Mulheres nas Minas Gerais”, p. 146.
86
Sobre o controle e as restrições ao pequeno comércio controlado, maiormente, pelas mulheres, por parte das
autoridades locais mineiras, durante o século XVIII, que em muito expressa os valores do início do século XIX,
em relação ao trabalho feminino ver FIGUEIREDO, Luciano. “Mulheres nas Minas Gerais”.
87
FIGUEIREDO, Luciano Raposo. O Avesso da memória: cotidiano e trabalho da mulher em Minas Gerais no
século XVIII, p. 35. CHAVES, Cláudia Maria das Graças. Perfeitos negociantes: mercadores das minas
setecentistas, p. 56.
112
não, brigar. Por ali passavam oficiais, mecânicos, carpinteiros, pedreiros, alfaiates, ferreiros,
escravos mineradores, homens forros".88

Na vila de São José, uma das áreas de serviço, maiormente, freqüentada por mulheres
trabalhadoras livres e escravas, era a região próxima ao Córrego de Santo Antônio indo até ao
Chafariz, ali as mulheres encontravam água disponível para lavar roupa e armazenar para o
preparo dos alimentos. Outra região onde se concentrava um grande número de mulheres, o
próprio nome já é sugestivo, era o Largo das Forras. Área comercial, ponto de reunião e de
grande circulação de pessoas de diferentes estirpes sociais, recebia as tropas que abasteciam a
vila com diferentes produtos, dali também os tropeiros saiam com o excedente que se
produzia na vila e seus arredores.89 Para as mulheres que viviam do pequeno comércio a
varejo encontravam ali sua clientela e por reunir gente de diferentes condições sociais, o
espaço era oportuno também para os trabalhadores livres (homens e mulheres) oferecerem
seus serviços.

Em comum, essas duas áreas eram locais de contato e interação da sociedade são-
joseense, mormente, frequentadas por mulheres pobres, contudo, independentemente, da
origem, condição, pigmentação da pele, etnia e crenças; trocavam experiências, noticiavam
oralmente os acontecimentos da vila, devido ao intenso convívio e por passarem, em alguns
casos, a maior parte do dia nesses locais, estabeleciam laços de convivência que podiam
auxiliar em suas sobrevivências.

O inventário de Victoriana Maria Antônia pode ser bastante esclarecedor a respeito


das práticas comerciais envolvendo as mulheres na vila. Parda, forra, Vcitoriana, filha
legítima de Manoel José Conceição e Tereza Maria Assunção, viúva do pardo Miguel
Teixeira Vitorino, vivia, de acordo com as Listas Nominativas, de seus negócios. Em 1795,
quatro anos após o seu casamento, Victoriana, com aproximadamente 23 anos, aparece no Rol
dos Confessados morando em companhia do seu marido. Passados 36 anos do censo, agora
viúva, Victoriana era apontada como a responsável pelo seu domicílio, morava agora em
companhia dos seus filhos Joaquim Teophilo, 24 anos, pardo, Paulina Maria, 23 anos,
Ursulina Thereza, 22 anos, José Victorino, 21 anos, pardo, latoeiro, Feliciano Victorino, 35
anos, pardo, pedreiro. Além dos filhos habitava nessa época em seu domicílio o escravo

88
FIGUEIREDO, Luciano. “Mulheres nas Minas Gerais”, p. 146.
89
CAMPOS, Maria Augusta do Amaral. A marcha da civilização: as vilas oitocentistas de São João del Rei e
São José do Rio das Mortes, p. 136.
113
africano Antônio, 14 anos. De acordo com o seu inventário, a viúva tinha ainda outros dois
filhos: Manoel Victoriono de Teixeira e Francisco.90

Os poucos bens inventariados de Victoriana, divididos em partilha amigável entre os


filhos, demonstram a simplicidade do seu lar: apenas uma morada de casas, um rosário de
ouro, três tachos, dois caixões, duas mesas, um catre torneado, cinco bancos, 24 colheres de
latão, pratos de estanhos, 176 garrafas vazias, um barril de aguardente, dois (?) de ferro. O
bem mais valioso encontrado foi o rosário de ouro.91

Pela descrição do documento, o domicílio de Victoriana consistia em uma pequena


morada, onde residia com os filhos e exercia, provavelmente, a atividade comercial. Ali, na
adjacência do próprio domicílio, ela atendia os seus clientes, servindo-os sentados, postos às
mesas alimentos preparados nos tachos e dose de aguardente retirados das garrafas. Por se
tratar de um imóvel simples, sem descrição minuciosa dos cômodos, salas, quartos e cozinha,
possivelmente, Victoriana não recebia apenas os seus fregueses; nas mesas de sua venda era o
espaço ainda de interação familiar, destinado à discussão dos projetos, refeições, reuniões e
trocas de experiências entre os membros de sua família. Reuniam-se na porta com os vizinhos
para o bate-papo de fim de tarde, contar prosa e discutir os acontecimentos da comunidade na
beira da calçada.

O valor do imóvel de Victoriana foi avaliado por apenas 8$514; pelo seu baixo valor,
tratava-se de uma modesta casa, os poucos bens confirmam a simplicidade da morada. Porém
a localização estratégica “na rua que desce para os três cantos” supõe que haveria um trafego
grande de moradores. A localização favorável da casa possibilitava, por meio do ponto
comercial, um contato intenso com a comunidade local, lembrando que a viúva deveria
comprar produtos para sua venda, por exemplo, aguardente para encher as 176 garrafas, e isso
a daria uma gama de conhecimento e contato na região, o que poderia significar
oportunidades para conseguir serviço para seus filhos, uma vez que José e Feliciano eram,
respectivamente, latoeiro e pedreiro e prestavam serviço à vizinhança. Diante do fluxo de
fregueses e a convivência com a comunidade local, seus filhos e filhas poderiam conhecer ali,
por exemplo, suas futuras esposas e maridos.

Apesar de não constar nas Listas Nominativas de 1831/32 nenhuma indicação direta
com a atividade comercial, chamou-nos a atenção o inventário da viúva Maria Custódia de
Almeida, 40 anos, parda. Na década de 1830, Maria é listada como costureira vivendo em
90
IPHAN/SJDR, inventário Vitoriana Maria Antônia, Vila de São José, 1843, caixa 606.
91
IPHAN/SJDR, inventário Vitoriana Maria Antônia, Vila de São José, 1843, caixa 606.
114
companhia de nove escravos, entre adultos e crianças. Conforme seu inventário, Maria
Custódia de Almeida não deixou herdeiros ascendentes, descendentes ou colaterais
conhecidos. Seus bens foram a leilão em praça pública a quem maior lance oferecesse acima
das avaliações, na data de 29 de abril de 1882, cumprindo o Decreto nº 2.433, de
15/07/1859.92

A viúva era proprietária de moradas de casas de sobrado com sótão e quintal, no valor
de 700$000, situado na “Rua de São João Evangelista”, provavelmente a Rua da Igreja São
João Evangelista. No momento da avaliação dos bens da falecida houve a indicação de um
cômodo comercial, possivelmente a parte inferior do sobrado. Os avaliadores tiveram a
preocupação de discriminar os bens do estabelecimento comercial dos que se encontravam no
interior da morada, totalizando a quantia de 37$200, representando 4,54% do monte mor. No
entanto, essa percentagem pode não ser real, pois pode não ter havido, por exemplo, a
preocupação por parte da inventariada de separar os bens da casa dos bens do “cômodo
comercial”. Entre os bens listados no interior do domicílio foram apontadas 122 garrafas.
Analisaremos no quarto capítulo os bens inventariados da viúva Maria Custódia de Almeida.

3.3.5 – Produção Têxtil e Olhar de Saint-Hilaire: Mulher, Domicílio e Indústria Têxtil


Doméstica

A produção artesanal de fios e panos de algodão,93 em nível de produção caseira, era


relativamente comum em boa parte do território brasileiro, entre os séculos XVIII e XIX. A
produção era destinada basicamente ao mercado interno e ao uso doméstico; apesar do caráter
marginal, em comparação as outras atividades econômicas (mineração e comércio), às vezes a
comercialização atingia a escala interprovincial. No nordeste se produziam, por exemplo, as
redes usadas para dormir, pelas camadas mais populares. Nas regiões litorâneas, destaque para
a produção maranhense: os tecidos nativos disputavam espaço com as peças europeias.
Basicamente se produziam vestimentas e tecidos grosseiros, havendo, todavia, em algumas
regiões, tecidos de boa qualidade, como o caso do tecido mineiro de Minas Novas.94

92
Decreto que regula a arrecadação dos bens dos defuntos e ausentes, vagos e do evento.
93
Antes da chegada dos portugueses, algumas tribos indígenas praticavam a fiação e tecelagem, tendo como
matéria prima o algodão.
94
LIBBY, Douglas Cole. “Notas sobre a produção têxtil brasileira no final do século XVIII: novas evidências de
Minas Gerais”. In: Revista Estudos Econômicos. São Paulo, v. 27, n.1, 1997.
115
A partir de relatos de viajantes estrangeiros e da análise do Inventário de Teares de
1796, em resposta ao Alvará de 1785,95 Libby atesta que, ao longo do século XIX, a produção
de caseira de tecidos96 em Minas Gerais se desenvolveu muito eficazmente, tornando-se a
mais desenvolvida do Brasil. A província exportava matéria prima e produtos acabados para
várias regiões – Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, entre outras localidades. Os
proprietários dos teares eram basicamente de famílias pobres; em muitos casos, correspondia
a uma atividade secundária da família e predominantemente feminina, escravas ou não.
Apesar de fazer uma análise minuciosa da indústria têxtil doméstica, o autor desconsidera as
mulheres enquanto agentes econômicos.

Em Minas Gerais, por meio do trabalho autônomo e independente, as mulheres


controlavam o processo de produção até o produto final, por exemplo, o domínio de técnicas e
métodos de fiação e de tintura dos tecidos.97 Os conhecimentos específicos das técnicas de
produção têxtil eram ensinados cotidianamente no próprio ambiente de trabalho entre as
mulheres por meio do "aprender fazendo". Produziam-se, sobretudo, tecidos grosseiros
destinados à fabricação de peças pessoais usadas pelos próprios moradores da unidade
familiar, mas também cobertores e toalhas de ótima qualidade e, sob encomenda, alguns
produtos eram comercializados.

Por variâncias climáticas ou por inadequação dos solos, algumas regiões mineiras
necessitavam importar o algodão de outras localidades, pois a plantação nem sempre era
aconselhada e viável. O comécio interprovincial era feito por tropas, que levavam o algodão
cru de uma região para outra. Do mesmo modo, os trabalhos de tecer e fiar eram
complementares e poderiam constar de atividades eventuais e sazonais, não sendo executado,
portanto, durante o ano todo, seja pela falta de material, seja pela necessidade de exercer
outros tipos de atividades ou mesmo por uma questão de sobrevivência.98

95
Mesmo que a indústria doméstica não concorresse diretamente com a produção internacional, a presença da
produção têxtil em Minas Gerais e em quase todo o Brasil foi exteriorizada pela regularização do Alvará de
1785, que discutia e proibia a produção têxtil no Brasil colonial. Libby destaca a incapacidade de operar tal lei
devido ao tamanho continental da Colônia; no entanto, houve sim a apreensão de alguns poucos teares na cidade
do Rio de Janeiro e, por exemplo, o Inventário de Teares em Minas Gerais em 1796. LIBBY, Douglas Cole.
“Notas sobre a produção têxtil brasileira no final do século XVIII: novas evidências de Minas Gerais”, pp. 104-
122.
96
Douglas Cole Libby denomina a produção caseira e artesanal de fios e panos em Minas Gerais de “indústria
têxtil doméstica” e tipicamente feminina, em contraposição aos “ofícios” tipicamente masculinos. LIBBY,
Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma economia escravista: Minas Gerais no século XIX.
97
SILVA, Maria Beatriz Nizza da. "Da revolução de 1820 à Independência brasileira". In: SILVA, Maria Beatriz
Nizza da (org.). O Império Luso-brasileiro (1750-1822). Lisboa: Estampa, 1986, p. 132.
98
LIBBY, Douglas Cole. “Notas sobre a produção têxtil brasileira no final do século XVIII: novas evidências de
Minas Gerais”, p. 106.
116
No início do século XVIII, a produção têxtil mineira já se configurava em pequenas
indústrias domésticas, o que foi demonstrado pelo relativo desenvolvimento de técnicas e por
um tímido, mas existente mercado de bens manufaturados, propiciado pelo próprio
isolamento da Província em relação aos portos que repetitivamente dificultavam a chegada e
consumo de produtos europeus.99 O processo de produção – rocas, descaroçamento, teares,
entre outros aspectos – era bastante rudimentar em comparação, por exemplo, com a
siderurgia e a extração aurífera subterrânea, que já esboçavam certo avanço nos processo de
produção, pela incorporação de técnicas estrangeiras.100

Graça Filho nos revela a presença marcante da indústria têxtil doméstica na Comarca
do Rio das Mortes, especificamente no Termo da vila de São José, entre os anos de 1744 a
1850; dos 253 inventários analisados de proprietários de até 10 escravos, aproximadamente
49% possuíam rodas de fiar e/ou teares; para os proprietários de até cinco escravos, o índice
encontrado foi de 44% dos inventários. Não obstante, nesses casos, a atividade têxtil não
fosse a atividade principal, estava vinculada a atividades agrícolas, servindo como uma
espécie de complemento financeiro para as famílias.101

Como visto anteriormente, prevaleciam na vila de São José, entre os domicílios


chefiados por mulheres, aqueles que tinham alguma ligação com a produção têxtil. Somando-
se a atividade desempenhada pelas mulheres chefes com as dos agregados e escravos, nos
domicílios em que não foi listada a ocupação da responsável, chega-se ao número de 57 fogos
ou 27% dos domicílios ligados à produção caseira de tecidos. Essa realidade corrobora a ideia
do professor Libby, que coloca as atividades têxteis entre as atividades transformadoras mais
presentes e em processo de expansão da economia mineira, principalmente da primeira
metade do século XIX.102

Entre os inventários analisados que trazem referências às mulheres chefes de família,


oito fazem menção à posse de pelo menos um tear e entre esses cinco havia pelo menos uma
roda de fiar. Em sete inventários havia a presença de escravas, o que pode supor que se a
chefe não desempenhasse a atividade de tecer ou fiar haveria a chance de as suas escravas
realizarem ou mesmo auxiliarem suas proprietárias em tais atividades. Em cinco domicílios há
99
SILVA, Maria Beatriz Nizza da. "Da revolução de 1820 à Independência brasileira". In: SILVA, Maria Beatriz
Nizza da (org.). O Império Luso-brasileiro (1750-1822). Lisboa: Estampa, 1986, p. 132.
100
LIBBY, Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma economia escravista: Minas Gerais no século
XIX, p. 199.
101
GRAÇA FILHO, Afonso de Alencastro. Formas de acumulação de capital numa economia escravista de
abastecimento: a Comarca do Rio das Mortes de Minas Gerais, 1750-1850. s/n.
102
LIBBY, Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma economia escravista: Minas Gerais no século
XIX, p. 206.
117
referência nas Listas Nominativas de ligação direta com a atividade de tecido – fiandeiras,
costureira, rendeira e alfaiate. Em três, as responsáveis são listadas como fiandeiras (1) e
rendeiras (2).

No inventário de Bernarda Francisca de Faria são registradas oito rodas de fiar e dois
teares, contudo nos dados demográficos para a década de 1830 não há nenhuma referência à
ligação do domicílio com a atividade têxtil. Por outro lado, é plausível a sua presença,
considerando que são listadas 17 escravas entre os 44 escravos inventariados, apesar de não
ser a atividade principal, pois conforme análise do inventário a unidade domiciliar tratava-se
de uma unidade agrária, visualizamos, porém, que o domicílio tinha grande potencial para a
indústria têxtil doméstica.103 Poderia, por exemplo, fabricar as roupas dos escravos.

As atividades têxteis nos revelam também rede de convivência. Libby, ao analisar o


engajamento das mulheres nesta prática, não deixa de frisar a proximidade entre as mulheres
livres e suas escravas. Para tanto, basta lembrar da configuração do domicílio da costureira
Maria Antônia Thomasia, que além de sua ligação, as outras cinco moradoras (destas, três
eram escravas) também desempenhavam atividade ligadas à indústria têxtil doméstica. Para
expressar esse convívio intenso entre esses dois grupos distintos, o autor utiliza o termo
“companheiras”, sendo a casa o espaço comum. O uso do termo não é simplesmente pelo fato
que essas mulheres ocupavam o mesmo recinto, mas, quando estavam em frente das rocas e
teares, era ocasião para trocas de experiências e ensinamentos, sobretudo pela oralidade.104
Infelizmente, essas experiências se perderam no silêncio das falas.

Os relatos dos viajantes são fontes importantes para entender a atuação das mulheres
no período colonial e imperial brasileiro. Contudo, devemos utilizá-las de forma crítica,
aproximando-as de outras fontes. Marcos Andrade adverte que os escritos de Saint-Hilaire
oscilavam conforme a recepção que recebia nos lugares aonde chegava. Do mesmo modo,
devemos considerar a concepção e percepção eurocêntrica dos viajantes.105

Afastadas, maiormente, da documentação oficial, os relatos dos viajantes deixam


transparecer, mesmo que de forma secundária, a presença feminina em vários segmentos da
sociedade escravista brasileira. A justaposição dos relatos com outras fontes como inventários

103
IPHAN/SJDR, inventário de Bernarda Francisca de Faria, Vila de São José, 1852, caixa 82.
104
LIBBY, Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma economia escravista: Minas Gerais no século
XIX, p. 206.
105
ANDRADE, Marcos Ferreira. Elites regionais e a formação do Estado Imperial brasileiro: Minas Gerais-
Campanha da Princesa (1799-1850), p. 120.

118
post-mortem, testamentos, processos cíveis e crimes e igualmente as Listas Nominativas
permite vislumbrar uma perspectiva mais promissora para os estudos que buscam entender o
comportamento das mulheres na sociedade oitocentista, pois, ao longo dos percursos, os
viajantes tiveram contato tanto com os indivíduos das elites como com os grupos mais pobres
da sociedade brasileira, incluindo os diversos grupos indígenas dispersos pelo território
brasileiro.

Algumas das mais fascinantes descrições de viajantes estrangeiros que estiveram no


Brasil estão descritos na segunda viagem de Saint-Hilaire ao Rio de Janeiro, a Minas Gerais e
a São Paulo; nessa dispersa caminhada o viajante não enfrentou apenas os contratempos do
trajeto, mas a diversidade cultural das regiões percorridas, demonstrando as disparidades do
território brasileiro. Nesse contato cultural e, às vezes, egocêntrico, deixou transparecer em
diversas circunstâncias, mesmo que superficial, a presença feminina na sociedade brasileira
dos oitocentos.

Em seu caminho, Saint-Hilaire teve contato com mulheres pobres que mal tinham o
que vestir e com as de famílias abastadas que vestiam roupas que demonstravam opulência e
riqueza. Encontrou mulheres sem profissões, mas também quitandeiras que vendiam seus
produtos à beira da estrada ou aproveitavam o momento das festas religiosas para venderem
seus quitutes e guloseimas. Entre elas estão às mulheres solteiras, amantes, solitárias, esposas,
viúvas, casadas ou de marido ausentes, mulatas, negras e brancas. Chamou-lhe a atenção não
somente o vestuário usado pelas damas ou pelas mulheres pobres, mas também a opressão que
as mulheres sofriam e aquelas que faziam da prostituição o seu modo de vida. Revelou o
espaço da chefia feminina, das filhas, das proprietárias, das mães de famílias e das donas de
casas:

enquanto eu esperava, pus-me a conversar com a dona da casa e perguntei-lhe se não


se aborrecia, só, no meio daquelas montanhas. Disse-me que ali estava havia apenas
um ano, e nunca sentirá um único momento tédio. Os trabalhos caseiros, as galinhas
e os animais domésticos tomam-lhe o tempo todo. Havia, além disto, sempre algo de
novo em seu pequeno lar. Era preciso ora plantar, ora colher; nasciam-lhe criações;
o marido e o filho mais velho saíam para caçar e assim traziam ora um porco-do-
mato, cuja carne, assada, comiam todos, ora um galo selvagem. E com efeito
mostrou-me muitas peles já curtidas de vários destes animais. A esta altura, chegou
o marido que consentiu muito prazerosamente em servir-me de guia. Antes de
sairmos ofereceu-me queijo, farinha e bananas, frutos que só se podem colher à raiz
da serra.106
Esse trecho transcrito é bem elucidativo a respeito da vida familiar e da atuação da
mulher no espaço doméstico. Por se tratar de uma família pobre, o relato confirma a
106
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo (1822),
p. 34.
119
mobilidade espacial da população pobre, uma vez que o casal se estabeleceu naquela região
apenas um ano e nela construiu a pequena casa e cultivou plantação. O interessante é que
nesse caso houve o deslocamento de toda família e não apenas do homem como era mais
comum ocorrer. Como visto, enquanto o marido e o filho mais velho caçavam, ficavam a
cargo da esposa o trabalho doméstico que envolvia as lidas caseiras e os cuidados com os
animais domésticos. E, ao mesmo tempo, a esposa auxiliava na plantação, na colheita e nos
cuidados das criações. Essas tarefas mencionadas não desmerecem a atuação feminina na
sociedade oitocentista, uma vez que as tarefas desempenhadas pela personagem são mais do
que simplesmente performance da mulher no âmbito familiar, mas a luta de uma família pela
sobrevivência onde ambos os sexos eram de extrema importância, e a figura da mulher era
emblemática para o bom funcionamento do domicílio.

Numa outra ocasião, quando percorria a Serra de Carrancas, Saint-Hilaire foi


convidado por uma viúva, proprietária da Fazenda do Retido, a passar a noite em sua fazenda.
Durante a sua estada, em conversa com a filha da proprietária, mãe de dois filhos, o viajante
descreve o modo de se vestir das mulheres da comarca de São João del-Rei:

trazia vestido de chita com grandes ramagens, lenço amarrado à moda de turbante,
ao alto da cabeça, e o peito descoberto segundo o costume da capitania. Trazia ao
pescoço dois ou três colares de ouro, de um dos quais se pendurava enorme relicário
do mesmo metal. Enfim, a um dos ombros trazia, atirada descuidadosamente, uma
capa de pano vermelho, com que envolveu de diferentes maneiras durante a
conversa.107
Agora numa conversa com a proprietária da fazenda, a mesma relata ao viajante que
“possuíra outrora um rebanho de carneiro bastante considerável. Ela própria e a filha
fabricavam diferentes espécies de tecidos”.108 Cuidadosamente, existe a chance de que os
lençóis e panos que envolviam a filha da proprietária tenham sidos produzidos por elas. A
indicação da presença de carneiros pela proprietária sugere a hipótese de que possivelmente
com a ajuda de seus escravos, tosquiavam os animais e fabricavam seus próprios tecidos,
prática, segundo o viajante, comum na região.109 Aliás, deve-se ressaltar que na região
também se plantava algodão, portanto, tanto a produção de algodão como a de lã foram
presentes em Minas Gerais, inclusive nas regiões próximas a São José.

Por meio do relato do viajante é presumível sugerir que a indústria têxtil caseira e
familiar fosse disseminada por grande parte do território mineiro, não ficando restrito apenas

107
Ibidem, p. 50.
108
Segundo a proprietária, seu rebanho de carneiro foi aniquilado por cães de tropeiros que vão de São João ao
Rio de Janeiro. Ibidem, p. 50.
109
Ibidem, p. 52.
120
ao meio urbano. Do mesmo modo, é possível demonstrar o engajamento e a capacidade que as
mulheres tinham de assumir a posição de chefe do domicílio e com isso administrar os bens
supostamente deixados pelo marido, bem como a de acumular riqueza. No dia seguinte,
quando tomava o seu caminho rumo a São Paulo, chamava a atenção do viajante a veemência
com que a proprietária agia diante dos seus escravos.110

A produção têxtil constituía aspecto importante para a economia mineira na primeira


metade do século XIX por existirem ligações comerciais, chegando ao ponto de exportar
produtos manufaturados e matéria prima. Algumas regiões mineiras exportavam produtos
acabados, como cobertores, redes e panos, outras exportavam algodão para diferentes
localidades não produtoras da matéria-prima, ou seja, onde o cultivo do algodão não era tão
bom, e mesmo assim havia a presença da indústria têxtil doméstica.

Nesse sentido, pode-se indicar que a produção de fios e panos não ficou restrita apenas

às regiões urbanas, envolveu também as regiões rurais, principalmente na produção e


comercialização do algodão. A própria região da Comarca do Rio da Morte era exportadora
de algodão para outras regiões mineiras e igualmente para o Rio de Janeiro.111 Saint-Hilaire
cita regiões que plantavam algodão e tropas que levavam a produção de Araxá ao Rio de
Janeiro, não deixa de mencionar, além disso, a prática de tosquiar ovelhas nas proximidades
de São João,112 evidenciando que as duas culturas, lã e algodão, coexistiam nas regiões
mineiras. Constantemente, e não menos importante, o viajante cita as roupas de algodão, ora
em bons estados e em outros apenas em farrapos dos indivíduos que encontrava em seu
caminho.

O processo de desenvolvimento da indústria têxtil doméstica em Minas Gerais está


intrinsecamente relacionado ao parcial isolamento da Província - que teria contribuído já no
início da ocupação do território mineiro para produção doméstica, uma vez que os índios já
cultivavam o algodão e havia a necessidade imediata de produtos têxteis para os
colonizadores e população que se assentava nas regiões mineiras; a expansão da cultura do
algodão e a produção de produtos feitos de lã criaram um ambiente propício para dispersão da

110
Ibidem, p. 51.
111
LIBBY, Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma economia escravista: Minas Gerais no século
XIX, pp. 193-194.
112
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo (1822),
p. 52.
121
atividade no território mineiro.113 Nem as tentativas administrativas em detrimento para frear
o crescimento das atividades têxtil tiveram resultados eficazes para anular a produção
doméstica, por exemplo, o Alvará de 1785.

O autoconsumo dos produtos superava a comercialização que se estabelecia a nível


local, mas chegando também ao comercio intraprovincial e nacional com outras regiões
brasileiras.114 Como bem lembra Libby, a produção de fios e panos fazia parte do cotidiano da
sociedade mineira e absorvia grande quantidade de mão de obra – se configurando numa das
principais atividades de transformação do setor industrial mineiro – principalmente entre as
mulheres que, mesmo de dentro de seus domicílios, contribuíam de forma importantíssima
para a economia mineira, sobretudo na primeira metade do século XIX, quando o pano
mineiro teve “preferência dos consumidores da Província, tanto por sua qualidade quanto por
seus preços competitivos”;115 sendo que na segunda metade do século XIX a produção caseira
sofreu forte impacto, mas não a sua aniquilação, devido à presença de produtos e tecnologia
estrangeira e os primeiros passos da indústria têxtil no Brasil, inclusive em Minas Gerais.116

Embora impedidas de desempenhar funções públicas, ocupar cargos administrativos e


participar das decisões políticas, essas mulheres compunham a sociedade de outra forma, na
gerência de seus domicílios e também a sua presença em outros segmentos, tais como igrejas,
irmandades, festas. Diante da premissa de que a divisão do trabalho se pautava na
diferenciação dos sexos, couberam à mulher as tarefas domésticas restritas aparentemente ao
universo familiar, o que não deixa de ter sua importância, visto seu caráter transformador da
realidade, pois a família era o ambiente das primeiras experiências humanas, seja numa
família pobre ou não. Contudo, às vezes as mulheres extrapolavam os limites do próprio
domicílio, arriscando-se às atividades comerciais de pequeno porte, destaque para a atuação
das quitandeiras e as negras de tabuleiros. Mesmo nesses casos, o espaço da unidade
domiciliar era importante para o desempenho dessas atividades, uma vez que era ali que se
produziam os quitutes, se guardavam os instrumentos de trabalho, plantavam as leguminosas
para serem vendidas ou quando as vendas eram conjugadas às próprias moradas.

113
A indústria têxtil doméstica não foi algo uniforme, variou de região para região. Sobre o assunto ver o quarto
capítulo, LIBBY, Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma economia escravista: Minas Gerais no
século XIX.
114
Estima-se que nos anos de 1827/28 Minas Gerais teria exportado cerca de 2.140.000 metros de tecidos de
algodão, sendo que a produção mineira para o mesmo período girava em torno de 7.440.000. LIBBY, Douglas
Cole. Transformação e trabalho em uma economia escravista: Minas Gerais no século XIX, p. 197.
115
Ibidem, p. 206.
116
Ibidem, pp. 186-187.
122
Neste sentido, percebe-se que o domicílio se constituiu no espaço de morada e
trabalho. Independentemente de ser uma família nos moldes da Igreja Católica, em sua
organização, os papéis de cada um dos moradores eram definidos por parâmetros como a
idade, sexo e posição na hierarquia familiar; os integrantes da família, pais, filhos, por ora,
genros, agregados e escravos, desempenhavam funções e atividades que garantiam a
sobrevivência do grupo, bem como reforçavam os laços de dependência e de solidariedade
entre os moradores. Em especial na vila de São José, verificamos que muitas das mulheres
chefes de família viviam sozinhas, não tinham filhos que pudessem ajudá-las e outras tinham
da união de forças com outros indivíduos a forma de sobreviverem. Assim, entendemos que o
ambiente familiar não assinala a exclusão feminina, mas sim a sua definição enquanto agente
histórico. Nesse sentido, acreditamos que o domicílio seja o “lócus” de ação e participação
feminina, pelo fato de que a sua atuação, mesmo aquelas que desempenhavam atividades nas
dimensões das vilas, aponta para os limites do domicílio, bem como de convívio da família na
sociedade oitocentista.

123
CAPÍTULO 4

VIVÊNCIA E ATUAÇÃO FEMININA

No dia 29 de janeiro de 1828, na casa de Thereza Inácia de Jesus, localizada na rua de


cima ao pé da Matriz de Santo Antônio, região central da vila de São José onde se
concentrava grande parte das elites, a então viúva recebia parentes, rezadeiras e a comunidade
local e próxima para juntos velarem o corpo do seu marido, o alferes José Antônio Álvares.
Sem contar no momento com nenhum filho homem adulto, provavelmente a viúva teve que
resolver todas as pendências e preparativos para o funeral, que geralmente acontecia na
própria residência do falecido. Daí se pode pensar na providência da documentação para o
enterro, mandar fazer o caixão, escolher a roupa para vestir o defunto, que poderia ser uma
roupa pessoal ou uma mortalha de santo, contratar o padre e, além disso, pelo caráter festivo,
mobilização social e ritualidade dos funerais nos séculos XVIII e XIX, contratar músicos,
capinar o quintal, arrumar a casa e preparar comida e bebida para serem servidas aos
visitantes.1

Depois de arrumar o “cenário" deveria, ainda no momento "principal", no interior da


morada, espaço de convívio e intimidade da família, estar ao lado do caixão, na sala,
recebendo os cumprimentos dos visitantes e presenciando a vizinhança sentada nos bancos
conversando sobre a vida alheia, bebendo e comendo a comida preparada com ajuda da
vizinhança, ao fundo ouvindo os sons dos sinos propagando a notícia da morte do
companheiro. E após, todos, em cortejo fúnebre, representando "a última passagem do morto
pelo espaço mundano",2 percorreriam as ruas da vila até o local do enterro, rezando pela alma
do falecido. Entre os presentes poderiam estar o Vigário Antônio de Sales Mattos, Victoriana
da Boa Esperança, Theodora Pereira, Ermerenciana Marques, Antônia Joaquina, Theodora
Moreira, alguns dos vizinhos que possuíam casa na mesma rua do domicílio de Thereza.3
1
Sobre um panorama geral dos ritos fúnebres no Brasil oitocentista ver REIS, João José. “O cotidiano da morte
no Brasil oitocentista”. In: ALENCASTRO, Luiz Felipe de (Org.). História da vida privada no Brasil
Império: a corte e a modernidade nacional. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
2
Ibidem, p. 123.
3
ACMT / Tiradentes, Décima Predial da Vila de São José del Rei, 1826. A morada de Thereza Ignácia de Jesus
se localizava numa das ruas que estava incluída nas décimas urbanas, imposto predial cobrado pela Câmara
local. A cobrança foi uma das heranças portuguesas e comuns às áreas urbanas brasileiras. No caso de São José,
não abrangia toda vila, apenas a região central onde se encontravam as elites locais. Sobre as décimas urbanas
cobradas na primeira metade do século XIX na vila de São José, ver terceiro capítulo em CAMPOS, Maria
Augusta do Amaral. A marcha da civilização: as vilas oitocentistas de São João del-Rei e São José do Rio das
Em 1829, ano posterior à morte do marido, a viúva Thereza Ignácia de Jesus saia de
sua residência e percorria as ruas de pedras escorregadias, por onde passara o cortejo fúnebre
do marido, em direção à Câmara Municipal da vila de S. José portando, a documentação
comprobatória para requerer o ressarcimento de 82$297 procedente dos emolumentos
pendentes do falecido marido, que exercera a função de tabelião da mesma instituição.4

Conduzir uma família não era uma das tarefas mais simples, envolvia vários aspectos
econômicos, sociais e culturais. Algumas mulheres frente à morte dos maridos eram obrigadas
a gerir as atividades diárias, administrar o patrimônio familiar, gerenciar o trabalho dos
escravos, criar os filhos e, em certos casos, os netos. Necessitavam ter um comportamento
digno que não ameaçasse a honra da família e, ao mesmo tempo, fosse condizente com as
condutas sociais. Numa sociedade fortemente ligada aos valores ibéricos e de forte presença
da Igreja Católica, a honra nesse sentido se ligaria à preservação da linhagem familiar e ao
grupo social a que o indivíduo pertencia, e qualquer deslize ou atitude não harmoniosa com os
valores do meio colocaria a perder o prestígio familiar. Portanto, as viúvas deveriam preservar
o patrimônio com o objetivo de possibilitar a perpetuação do projeto familiar.

Thereza era uma entre outras brasileiras, filha legitima de Francisco Garcia Rosa e
Maria Terra, batizada na freguesia da vila de São José, casara, em 1796, com José Antônio
Álvares, brasileiro, alferes, filho legítimo de Manoel Álvares Costa e Tereza Maria Jesus,
batizado na freguesia de Santa Bárbara do Mato Dentro.5 Pelo que tudo indica, o casal viveu
junto até 1828, ano do falecimento do alferes e, concomitantemente, da assunção, por parte da
esposa, à chefia do domicílio. Pelo que consta no inventário do esposo, o casal gerou nove
filhos: Maria Inácia, Tereza Inácia, Ana Álvares, Francisca Álvares, Gertrudes Álvares,
Delfina Álvares, José Antônio Álvares, Senhorinha Álvares e Policena Álvares.6

Para formular o pedido de cobrança, Thereza utilizara como argumento o bem-estar de


sua família. Nas petições feitas pela viúva há a menção de que sua família vivia em estado de
pobreza e de grande necessidade. Em seu discurso, menciona que recorria à justiça para que
fosse cumprida a lei para suavizar suas necessidades e, com isso, tivesse condição de garantir
Mortes. Sobre a implantação da décima predial no Brasil ver “Terceira parte: a cidade e seus construtores”;
CAVALCANTI, Nireu. O Rio de Janeiro setecentista: a vida e a construção da cidade da invasão francesa até a
chegada da Corte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.
4
A viúva Thereza Inácia de Jesus não recorreu aleatoriamente à câmara; supostamente, sabia que a Câmara tinha
considerável poder de decisão a nível local. ACMT/Tiradentes, processo de Thereza Inácia de Jesus, vila de São
José, data 14/10/1829 - 22/04/1845.
5
Livros de Casamentos da Freguesia de Sto. Antônio da Vila de São José, 1782-1860.
6
IPHAN/SJDR, inventário de Luiz Gomes de Carvalho esposo de Thereza Maria de Jesus, vila de São José,
1830, caixa 419.
125
o sustento e a sobrevivência dos oitos filhos, que moravam em seu domicílio, por ter ficado
"sobrecarregada com o peso de sete filhas e um filho, com poucos bens e sem meios de poder
alimentar sua numerosa família”.7

A viúva não agia de forma aleatória “informações – legislação, estratégias vitoriosas e


malogradas, planos e relato de casos – tudo isso circulava sem problemas pelas Minas,
sobretudo pelas ruas, praças e becos da Minas mais urbanizada”.8 Sua ação vai ao encontro da
possibilidade do uso da justiça por mulheres, escravos, libertos e homens livres pobres.
Embora ausentes dos setores dominantes, diferentes de serem seres amorfos, esses grupos
utilizaram-se de meios e negociações que impetravam a “ação e a intervenção da justiça”.9
Como apontado por Eduardo Paiva, em parte, essas experiências eram motivadas pela
“circularidade de informações”. Portanto, nem mesmo o analfabetismo, que não pode ser visto
apenas como um atributo das mulheres, mas sim da maioria da população, impedia que esses
impetrassem na justiça suas reivindicações de direitos. Ainda que nos valores da época a
figura feminina fosse vista como inferior à imagem masculina, mulheres solteiras, casadas ou
viúvas como Thereza, algumas despossuídas de bens, recorriam aos meios legais, leigos ou
eclesiásticos, para que fosse feita justiça.10 No caso, Thereza vislumbrou a tentativa de se
resguardar economicamente, recebendo o pecúlio atrasado do marido, a fim de garantir assim
a administração do seu lar e o sustento de sua família.11

Depois de incessantes pedidos para que fosse realizado o pagamento da quantia que
ficou a dever ao seu falecido marido, somente em 22 de abril 1845, transcorridos 17 anos que
Thereza gerenciava seu domicílio, foi realizado o pagamento e a liquidação de tal dívida pelo
procurador da Câmara, Simplício José da Silva Lima. Quando a quantia de 22$851 foi
repassada à viúva, ela já estava com aproximadamente 73 anos.12

7
ACMT/Tiradentes, processo de Thereza Inácia de Jesus, Vila de São José, data 14/10/1829 - 22/04/1845.
8
PAIVA, Eduardo França, Escravidão e universo cultural na Colônia: Minas Gerais, 1716-1789, p.
81.
9
VELLASCO, Ivan de A. As seduções da ordem: violência, criminalidade e administração da justiça Minas
Gerais, século 19, p. 21.
10
BACELLAR, Carlos de Almeida Prado. A mulher em São Paulo Colonial.
11
A dissertação de mestrado da historiadora Raquel Chequer cita vários casos em que mulheres viúvas recorriam
à justiça para garantir a tutela dos filhos menores e, assim administrar o patrimônio da família. E não eram
tentativas fracassadas, pois várias mulheres foram capazes de gerir suas famílias, algumas ampliaram o
patrimônio familiar. Ver terceiro capítulo CHEQUER, Raquel Mendes Pinto. Negócios de família, gerência de
viúvas: senhoras administradoras de bens e pessoas (Minas Gerais 1750-1800). Dissertação (Mestrado em
História). UFMG, Belo Horizonte, 2002.
12
Não foi possível indicar se o pagamento se referia à última parcela da dívida ou se a quantia paga foi abaixo do
valor inicial requerido. ACMT/Tiradentes, processo de Thereza Inácia de Jesus, vila de São José, data
14/10/1829 - 22/04/1845.
126
Em 1831, de acordo com as Listas Nominativas, antes de receber o valor da quitação
da dívida, dos nove filhos seis foram listados vivendo no domicílio chefiado por Thereza:
Maria, 30 anos, Thereza, 29 anos, Delfina, 20 anos, Senhorinha, 14 anos, Policena, 10 anos,
José, 17 anos. Além dos filhos, foram listadas as crianças: Francisco, 07 anos, branco e José,
01 ano, branco; não foi possível precisar de quem as crianças eram filhos, e ainda uma
escrava chamada Marianna, 70 anos, africana.

Se pensarmos que a viúva declarou no processo seu estado de pobreza, chegando ao da


penúria, a declaração pode ter sido uma forma de impressionar a Câmara local, por outro lado,
temos que lembrar que Thereza era moradora da própria vila e o contato e convivência com os
moradores era grande, todos sabiam da vida de todos, ainda mais que o seu marido ocupava a
função pública de tabelião, isso aumentava mais a chance de a comunidade local saber da
situação verdadeira em que se encontrava a família de Thereza.

4.1 – SUCESSÃO DO PATRIMÔNIO

Ao que se refere ao direito de transmissão de patrimônio no Brasil, durante o século


XIX, continuou tendo como base a legislação das Ordenações Filipinas de 1603,
especificamente as regras contidas no Livro IV. A independência do Brasil não ocasionou a
ruptura com a tradição luso-brasileira; do ponto de vista social, a mulher continuara com a
imagem negativa, devendo ser submissa ao pai ou marido.

Com a morte do marido, de acordo com a legislação, a esposa assumia a


responsabilidade da família, o sistema de partilha reservava à esposa o direito sobre metade
dos bens do casal. A outra parte, pertencente ao falecido, era dividida em três partes, sendo
um terço disposto de acordo com suas disposições testamenteiras. As outras duas partes eram
divididas, sem discriminação de sexo, entre descendentes do falecido, filhos legítimos do
casal e filhos reconhecidos de casamentos ou uniões anteriores; na falta desses, a linha de
sucessão prosseguia com netos, pais e parentes. Já no casamento consagrado por contrato de
arras, não havia a partilha dos bens nesse caso ficavam os nubentes possuidores do valor
declarado dos seus bens no momento do acordo. Sheila Faria diz que os casamentos firmados
por meio do acordo de arras garantiam a proteção da posse dos bens do individuo. A autora
aponta que a prática foi comum entre as mulheres forras que conseguiam juntar pecúlios e,

127
diante das incertezas do casamento, preferiam por meio dos acordos pré-nupciais salvaguardar
a posse de seus bens.13

Para garantir o bem estar dos filhos menores ocorria a fragmentação dos bens da
família; nesse sentido, a guarda dos bens dos menores era repassada a terceiros, processo que
colocava em risco o projeto familiar. Sem a ajudar do marido e com recurso limitado, a
mulher tinha o direito legal sobre a meação e se fosse o seu intuito assumir a administração
completa dos bens da família deveria ser nomeada, pelo juiz de órfãos, tutora dos filhos e a
indicação de fiador. A legislação tinha a mulher como incapaz para gerenciar os bens que em
muitos casos havia ajudado construir ao lado do marido. Em alguns casos, mulheres recorriam
à justiça para comprovar a capacidade de administrar os bens e os negócios da família. Em
outros, os esposos recomendavam que, após morte, o patrimônio familiar deveria ficar sob a
guarda da esposa, ou seja, não duvidavam da capacidade delas para administrarem os
negócios e os interesses familiares, visto que muitas já os auxiliavam em vida, portanto
tinham experiências no assunto. Com intuito de salvaguardar e se evitar a fragmentação das
riquezas, esposos vendiam os bens às esposas.14

Voltando a história de vida da viúva Thereza Inácia de Jesus, o monte-mor do


inventário de seu marido foi de 1:040$950, a meação recebida por ela foi de 502$626; coube a
cada um dos noves herdeiros a quantia de 55$847, o tutor nomeado para os filhos menores do
casal foi Francisco Veloso Carmo.15 Desse modo, com a divisão da herança, haveria o
fracionamento do patrimônio familiar e, ao mesmo tempo, maior dificuldade para Thereza no
árduo processo de administração do seu lar.

Para superar as eventuais limitações, as viúvas tinham o argumento para contornar tais
impedimentos impostos pela lei e assim exercer o controle sobre o patrimônio familiar. Por
exemplo, Thereza Maria de Jesus, depois de ocorrida a partilha dos bens do falecido marido,
Luis Gomes de Carvalho, pediu licença ao Juiz de Órfãos para vender o escravo Joaquim, que
fora dividido igualmente entre os herdeiros Manoel Gomes, casado, Joaquim Gomes, 24 anos
e Maria, solteira, 16 anos, pois segundo a requerente o escravo andava fugido, não querendo
servir a ela e nem aos seus filhos. Nesse caso, o tutor nomeado, Adrião Pereira Lagos, não se
13
FARIA, Sheila S. de Castro. “Sinhás pretas: acumulação de pecúlio e transmissão de bens de mulheres forras
no sudeste escravista (séc. XVIII-XIX)”, p. 299; FARIA, Sheila S. de Castro. “Mulheres forras: riqueza e
estigma social”. Tempo. Niterói: Universidade Federal Fluminense/Departamento de História.v. 5, n. 9,
julho/2000.
14
FARIA, Sheila S. de Castro. Colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial, p. 263.
15
IPHAN/SJDR, inventário de Luiz Gomes de Carvalho esposo de Thereza Maria de Jesus, vila de São José,
1830, caixa 419.
128
opôs à solicitação, requerendo inclusive que a parte da órfã Maria, da venda do escravo, fosse
comprada do Sargento Mor José Teixeira de Carvalho, bem como uma morada de casas na
vila por 150$000. As duas licenças foram concedidas.16

Infelizmente, no caso de Thereza Ignácia de Jesus não foi possível constatar se entrara
na justiça para testificar a sua capacidade de administrar e gerir a sobrevivência de sua
família. Não obstante, suas tentativas incessantes em receber o valor atrasado dos
emolumentos do marido se explicam, por exemplo, pela ideia de que não queria colocar a
perder o direito de administrar o patrimônio familiar e demonstrar que era capaz de assistir a
sobrevivência dos filhos nem infringir a reputação da família perante a sociedade local.17
Nessa perspectiva, empenhou-se em buscar meio que garantisse o sustento de sua família e o
direito de administrar a herança do marido.

Diante disso, temos que pensar qual era a maneira utilizada por ela para conseguir
recurso suficiente que garantisse a sobrevivência de sua família, antes dela conseguir a
compensação do valor.

Seu domicílio poderia contar com algum tipo de auxílio de amigos, da vizinhança, de
parentes próximos ou mesmo de algum outro filho que não morava especificamente em seu
domicílio. Contrapondo as informações do inventário do marido às Listas Nominativas de
1831/32, verificamos que o casal tinha nove filhos, como Thereza declarou que oito deles
dependiam diretamente dela, e podemos, assim, pensar que o nono filho, na verdade uma
filha, contribuía para o sustento de sua mãe e de seus irmãos. Diante disso, o que configurava
uma situação adversa em anos anteriores de ter que sustentar oito filhos, sendo 07 mulheres,
supostamente seria no futuro uma das possibilidades dela conseguir alguma forma de ajuda
para completar o sustento familiar e de auxílio na velhice, uma vez que as alianças familiares
foram vitais para a ampliação dos laços de parentesco. Nesse sentido, incluímos também as
chances de tirarem proveito das relações consensuais.

16
IPHAN/SJDR, inventário de Luiz Gomes de Carvalho esposo de Thereza Maria de Jesus, vila de São José,
1830, caixa 419.
17
Em algumas situações, mulheres viúvas que eram tutoras de seus filhos menores sofriam perseguições de
terceiros, a fim de degenerar suas imagens e a incapacidade de governar as posses da família: “o
desmembramento da herança poderia significar o aproveitamento de recursos financeiros, propiciando assim
vantagens a alguns indivíduos e não somente àqueles pertencentes à unidade familiar do pai falecido”. Diante
dessa situação, as viúvas deveriam, além de comprovar a habilidade de lidar com a gerência do patrimônio que
ficou com a morte do marido, deveriam manter a honra e a dignidade da família. CHEQUER, Raquel Mendes
Pinto. Negócios de família, gerência de viúvas: senhoras administradoras de bens e pessoas (Minas Gerais
1750-1800).
129
Cruzando as informações do banco de dados de casamento da vila de São José,
verificamos que no ano de 1829, na Matriz de Santo Antônio, a quinta filha do falecido José
Antônio Álvares e Thereza Ignácia de Jesus, Gertrudes Columbina Jesus, casava com
Eduardo Gonçalves Mota Ramos, filho legítimo de Joaquim Gonçalves Mota Ramos e
Francisca Paula Mota.18 Como indicado pelas Listas Nominativas, o novo casal continuou
morando na vila de São José e pelas dimensões reduzidas da vila próximo ao domicílio de
Thereza.

Eduardo, pardo, 25 anos, profissão músico, aparece como chefe do domicílio, seguido
pela esposa Gertrudes, branca, 24 anos, da criança Senhoria da Mota, parda, 02 anos,
supostamente filha do casal, e do escravo Francisco, crioulo, 13 anos, mesmo que o
casamento tenha-se dado entre indivíduos de condições sociais diferentes: ela branca e ele
pardo. Temos que lembrar que casamento nesse momento, para a família de Thereza Ignácia
de Jesus, era uma oportunidade ou uma tentativa para se reverter a situação desfavorável, por
exemplo, o escravo que ocupava o domicílio da filha poderia executar trabalhos eventuais nas
propriedades da família ou mesmo a filha e o próprio genro auxiliar em alguma tarefa: “o fato
de os filhos adultos, na maioria dos casos, não habitarem os fogos paternos não significa que
não pudessem residir próximo, às vezes, até na mesma propriedade, e prestar-lhes ajuda, em
caso de necessidade”.19 Embora o casamento entre iguais fosse o mais adequado para os
padrões da sociedade escravista brasileira, em determinadas circunstâncias a condição social
não era suficiente para definir as alianças familiares.20

Segundo Maria Odila Dias, entre as mulheres que se viam frente às dificuldades
cotidianas era comum recorrerem às relações de vizinhanças e ao convívio próximo para
tentarem amenizar a situação adversa. O processo não envolvia apenas mulheres do mesmo
estrato social, abrangia mulheres livres, forras e escravas. Um elemento importante dessa
aproximação é que na maioria das vezes se tratava de uma relação mútua de necessidade, ou
seja, se ajuntavam para somarem forças para garantir a sobrevivência.21

De acordo com a décima predial de 1826,22 o domicílio de Thereza localizava-se na


rua de cima, indicado pelo número 46 (ver Figura 02), nesse período, ainda sob comando do
18
Livros de Casamentos da Freguesia de Sto. Antônio da Vila de São José, 1782-1860.
19
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del Rei - séculos XVIII e
XIX), p. 151.
20
Ibidem, p. 226.
21
DIAS, Maria Odila Leite da silva. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX, p. 74.
22
ACMT / Tiradentes, Décima Predial da vila de São José del Rei, 1826.
130
seu marido,23 tinha como vizinhas próximas as proprietárias Theodora Pereira, Ermerenciana
Marques, Victoriana da Boa Esperança. Ocorre a possibilidade de que essas mulheres tenham
trocado experiências, formando, assim, uma rede de convivência e de solidariedade mútua e,
na ocasião da morte do marido de Thereza, as vizinhas juntaram forças e a auxiliaram para
aliviar em parte a crise, contribuindo dessa forma para a sobrevivência da vizinha e sua
família.24

Figura 02 - Esboço da décima predial de 1826 – vila de São José

Fonte: Décima Predial da Vila de São José del Rei, 1826, ACMT / Tiradentes.
Outro exemplo que demonstra uma possível rede de convivência são as dívidas que
essas mulheres contraiam ou mesmo aquelas que emprestavam dinheiro. Maria Ferreira de
Resende, filha de Manoel da Costa e Ana Felipa Ferreira, casada com Joaquim Dias de
Carvalho, em segundas núpcias, aparece nas Listas Nominativas da vila de São José, como
sendo a responsável pelo seu domicílio. Tinha entre os seis credores três mulheres que lhe
deviam por empréstimo: Maria Felizarda, quantia de 300$000, Joaquina Maria de Jesus,
quantia de 300$000 e Ana Maria de Jesus, quantia de 400$000. Os outros credores eram José

23
A partir da posição que ocupava o marido e a localização do imóvel da família, mesmo que Thereza estivesse
passando por dificuldades econômicas; estava inserida no universo cultural da elite da vila.
24
Na França, a historiadora Perrot aponta os lavadouros do século XIX como local de solidariedade mútua entre
as mulheres parisienses: ali as mulheres trocavam receitas, davam as notícias das cidades e amparavam por meio
de redes de cumplicidade companheiras necessitadas. PERROT, Michele. Os excluídos da Historia: operários,
mulheres e prisioneiros, p. 212.
131
Francisco Lima, quantia de 300$000, o Capitão José Lourenço Dias, a quantia de 11$440 e o
médico Dr. João Zuchia, a quantia de 50$000. Entre os devedores estavam Francisco
Rodrigues da Silva, quantia de 52$000, Joaquim José Parreira, quantia de 30$000 e, por
último, Gertrudes de Faria, quantia de 90$000. Gertrude aparece também, de acordo com as
Listas, como sendo responsável pelo seu domicílio. A relação entre Maria Ferreira e
Gertrudes poderia ser mais estreita, uma vez que as duas eram irmãs da Ordem Terceira de
Nossa Senhora do Carmo. Verifica-se que os maiores valores emprestados ou recebidos eram
maiores entre as mulheres, podendo existir aí um comprometimento mútuo entre elas.

Voltando a nossa personagem inicial, supostamente, o sustento da unidade de Thereza


viria do trabalho dos próprios filhos. De acordo com os dados demográficos do início da
década de 1830, as filhas Maria Inácia e Thereza Inácia foram listadas como rendeiras e o
filho José Antônio Álvares, de apenas 17 anos, como ourives, aquele que trabalha com ouro e
prata. Somam-se, ainda, os outros membros que estavam em idade produtiva - Delfina,
Senhorinha Álvares - e a escrava Maria, apesar da idade avançada. Todos poderiam auxiliar
de alguma maneira no desempenho das atividades do dia a dia. No inventário do marido de
Thereza é listado um escravo de nome Sebastião, 50 anos, nação Angola, porém,
posteriormente, nas Listas Nominativas ele não aparece compondo o domicílio da viúva.
Como veremos na tabela a seguir, os bens imóveis correspondiam à maior parcela dos bens da
família, 81,12% do montante (ver Tabela 13).

132
Tabela 13
Bens inventariados do marido de Thereza Ignácia de Jesus, alferes José Antônio Álvares
Objetos Valor %
Bens Imóveis 840$000 81,12%
Escravos 110$000 10,63%
Móveis 40$000 3,86%
Tecido 7$200 0,69%
Metais 21$030 2,03%
Instrumentos de trabalho 17$325 1,67%
Total 1.035$555 100%
Fonte: IPHAN/SJDR, inventário do Alferes José Antônio Álvares, vila de São José, 1828, caixa 10-09.
Consta na documentação, além da morada de casas na vila cobertas de telhas e
assoalhadas, de sobrado e com seu quintal cercado de taipas com vários arvoredos; uma
chácara no lugar do Cuiabá, subúrbio da vila, com suas casas de vivenda cobertas de telhas
inferiores com um moinho coberto de telha dentro do quintal, cercados de muros de taipa com
várias árvores de espinho e outras plantações, ambas no valor de 400$000, e um terreno no
“Areião” nas proximidades da vila, cercado de taipa e já muito arruinada, no valor de 40$000.
Os bens imóveis do casal indicam uma tendência que ocorrera em São José de que parte da
população era proprietária de pequenas propriedades na zona rural próxima à vila. E nessas
unidades desempenhavam atividades ligadas à agricultura, sendo a maior parte da produção
voltada para subsistência familiar.25

Pela descrição dos bens imóveis e dos instrumentos de trabalho, percebe-se que o
domicílio de Thereza estava sim voltado para o mundo agrário: cinco enxadas entre boas e
más, três machados muito inferiores, uma foice pequena usada, duas (?) de moinhos usados e
duas cavadeiras. No entanto, faltava força braçal para “fazer funcionar”. A própria viúva
reconhece no inventário que a chácara do Cuiabá “está a perder-se por falta de braços e de
quem a administre, vindo pelo desamparo em que se acha, a perder o valor”. 26 Os escravos
listados no inventário, Sebastião e Maria, estavam em idade avançada, respectivamente com
50 e 60 anos. Vale lembrar que Thereza, no ano de abertura do arrolamento, em 1828, tinha
aproximadamente 58 anos, considerada idosa para o período da época. Diante da
predominância feminina no domicílio, parece que as mulheres não se ausentavam do trabalho
já que foram encontrados um tear com seus aparelhos e quatro rodas de fiar. Pode ser que daí
que viria parte do sustento do domicílio.
25
GRAÇA FILHO, Afonso de Alencastro. Formas de acumulação de capital numa economia escravista de
abastecimento: a Comarca do Rio das Mortes de Minas Gerais, 1750-1850.
26
IPHAN/SJDR, inventario de José Antônio Álvares, Vila de São José, 1828, caixa 10-09.

133
Poderia sim, num primeiro momento, faltar a Thereza experiência para administrar os
bens da família. No entanto, temos que pensar que a própria viúva, em idade avançada,
declarava na petição feita à Câmara da vila que provia o sustento da sua extensa família. Seria
difícil sim, até mesmo pela idade avançada, administrar sozinha as duas propriedades, sem a
ajuda de alguém. Sendo assim, não entendemos que faltasse a ela capacidade para administrar
os bens da família, mas mão de obra disponível.

O maior monte-mor encontrado entre as mulheres chefes de família da vila de São


José, nos dois censos, foi o da viúva D. Bernarda Francisca de Faria, no valor de 30:517$100 .
Em 1852, teve inicio o inventário de seus bens. Filha do Capitão Matheos José de Faria e D.
Bárbara Francisca de Faria, Bernarda morreu com aproximadamente 71 anos, na data de
15/11/1851. Foi casada “face da Igreja" com o Guarda-mor Manoel José Parreiras, seu único
marido. O casal não gerou filhos.27

Pela análise dos seus bens, verifica-se que a agropecuária era a principal atividade
econômica de sua unidade. Constatou-se a existência de 22 bois de carro, dois burros de carga
velhos com cangalha, outro mais novo com cangalha, duas vacas paridas e uma novilha. Pelo
que tudo indica, a criação de bovino era mais destinada, por exemplo, para a tração nas roças
ou corte do que para a produção de leite, indicado pelo número grande de bois e pequeno de
vacas. O milho e a plantação de cana-de-açúcar foram os gêneros discriminados no inventário,
no estoque havia uma roça de milho, um canavial para moer “este ano” e outro recente. No
entanto, provavelmente pelo tamanho da unidade agrária, aí produziam outros tipos de
produtos, por exemplo, para completar a alimentação da extensa escravaria.28

O inventário de Bernarda descreve uma situação típica das fazendas mineiras do


século XIX, marcadas pela diversificação das atividades.29 Mantinha, por exemplo, mais de
90% dos bens em imóveis e escravos. Ela era proprietária de uma fazenda denominada
Fazenda Roça Grande, próxima da vila de São José, com 298 alqueires de capoeiras e mata
virgem e 65 alqueires de campos, avaliados em 12:670$000, e de uma “morada de casas de
sobrado”, no valor de 2:000$000, com ermida, paiol, moinho, senzalas, casas de despejo,

27
IPHAN/SJDR, inventário de Bernarda Francisca de Faria, Vila de São José, 1852, caixa 82.
28
Idem.
29
Sobre o caráter diverso das fazendas, particularmente, para a comarca do Rio das Mortes e Sul de Minas, ver
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del-Rei - séculos XVIII e
XIX); GRAÇA FILHO, Afonso de Alencastro. A Princesa do Oeste e o mito da decadência de Minas Gerais:
São João del-Rei (1831-1888); SILVA, Wlamir. Liberais e povo: a construção da hegemonia liberal-moderna na
Província de Minas Gerais (1830-1834); ANDRADE, Marcos Ferreira. Elites regionais e a formação do estado
imperial brasileiro: Minas Gerais - Campanha da Princesa (1799-1850).
134
engenho de cana, já deteriorado, todas cobertas de telha, quintais cercados de pedra e pasto
unido (ver Tabela 14).

Tabela 14
Bens inventariados D. Bernarda Francisca de Faria
Bens Valor %
Imóveis 14:670$000 48,48%
Escravos 13:732$000 45,38%
Animais 508$000 1,68%
Louças 11$000
Cobre 344$400
Prata 110$000 2,54%
Objetos Pessoais 767$300
Móveis 161$700
Tecidos 59$000
Outros 36$800
Instrumentos de Trabalho 304$900 1%
Estoque 280$000 0,92%
Total 30:262$200 100%
Fonte: IPHAN/SJDR, inventário de Bernarda Francisca de Faria, Vila de São José, 1852, caixa 82.
Em meio aos objetos de trabalho, instalações e ferramentas inventariados que indicam
a diversidade das atividades e, consequentemente, da produção da unidade estão 22 enxadas,
13 formas de açúcar, duas alavancas, uma tulha (espécie de celeiro), um coxo pequeno para
guardar melado, um coxo para azedar vinagre, uma pipa velha de 130 barris e outra muita
arruinada de 450 barris.30 Pelo visto, a produção de açúcar e aguardente se fazia em larga
escala.

De acordo com o documento, datado de 1852, foram arrolados 57 escravos, portanto,


houve um decréscimo de 21 escravos, em comparação com o censo demográfico, de 1831/32.
A queda no número de escravos pode significar uma queda no poder aquisitivo ou mesmo a
não preocupação em renovar o plantel de escravo, uma vez que a viúva não tinha herdeiros
diretos, portanto, não haveria a preocupação por parte dela de ampliar suas posses. Os
escravos representavam 45% de sua riqueza, o que tudo indica que nem todos trabalhavam
diretamente com o mundo agrário ou que, nos momento de baixa colheita, desempenhavam
em outro tipo de atividades como, por exemplo, trabalhos manuais (esse era o caso do escravo
Bonifacio sapateiro). Dentre os objetos de trabalho foram encontrados oito rodas de fiar, dois
teares, uma tenda de ferreiro, um banco e roda de tornear, uma ferramenta de carpinteiro e um
banco de carpinteiro, atividades maiormente urbanas.31
30
Idem.
31
Idem.
135
Além da mão de obra escrava havia em seu fogo mulheres e homens que prestavam
serviços em sua casa, esse era o caso de Luciana Isabel de Sousa, Cândida Maria de Jesus,
Alexandre Xavier Ribeiro, administrador da fazenda da finada e Antônio Joaquim Dias,
“tendo se ajustado em casa" da falecida para trabalhar de carpinteiro e jornais.32

O núcleo doméstico de Bernarda é um bom exemplo para demonstrar que as relações


familiares não se restringiam apenas aos laços consanguíneos e matrimoniais. Neste sentido, é
possível demonstrar a relação entre o conceito de patriarcalismo, discutido no primeiro
capítulo, e as relações de compadrio, sobretudo, por perceber claramente a união entre as
famílias.

No que se refere às alianças de compadrio, o momento de se apadrinhar uma criança


era para os pais e padrinhos o de compartilhar responsabilidade e solidariedade em prol da
vida da criança. Neste sentido, os laços podiam envolver membros de uma mesma família,
como por exemplo, avós que apadrinhavam netos, ou não. A escolha das madrinhas era feita
geralmente entre vizinhas com laços consanguíneos, uma espécie de solidariedade no
processo de criação dos filhos, uma segunda mãe para as crianças. O mesmo não acontecia
com os padrinhos, a escolha não era aleatória, levavam em conta mais o ambiente social do
padrinho, na maioria das vezes, um ambiente social diferente do dos pais, já que a atribuição
dos padrinhos se direcionava mais para questão de “pais espirituais das criancinhas”,33 o que
poderia significar oportunidades tanto religiosas como de ganhos materiais futuros.

O indivíduo poderia apadrinhar um grande número de afilhados de diferentes


condições sociais e com isso ampliar a vasta parentela e seu mundo de oportunidades. Como
indicado à condição social das famílias também interferia na relação entre padrinho e
afilhado, diferentemente seria a relação de um padrinho com o seu afilhado escravo e com
outro de uma família abastada e de prestígio social. Por outro lado, o apadrinhamento de um
escravo poderia significar para a família cativa um ganho futuro e reconhecimento social.

Por não ter gerado filhos, a sucessão dos bens de Bernarda foi de acordo com suas
disposições testamentárias e teve como herdeiros: o inventariante e seu compadre, o
Comendador Mateus Furtado de Mendonça, sua afilhada D. Maria Luzia de Mendonça,
Joaquim José Parreiras, os filhos do seu afilhado já falecido Alexandre Gonçalves Parreiras
(filho do Com. Mateus Furtado de Mendonça) José, 15 anos, Alexandre 13 anos, Matheus 11

32
Idem.
33
FARIA, Sheila S. de Castro. Colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial, p. 385.
136
anos, Francisco 10 anos.

A presença de afiliados e compadre entre os herdeiros foi prática comum nos séculos
XVIII e XIX.34 Nesse caso, não havia aparentemente outro tipo de vínculos, além do
compadrio, que viesse justiçar a concessão. Portanto, D. Bernarda ao testar seu compadre, sua
afilhada e os descendentes do seu afilhado já falecido, evidência a ligação entre as famílias
por meio dos laços do compadrio. A concessão aos filhos do finado Alexandre Gonçalves se
justificava não apenas porque o mesmo era seu afilhado, mas o reconhecimento pelos bons
serviços prestados na administração de sua fazenda:

declaro que as doações que tenho feito ao falecido meu afilhado Alexandre
Gonçalves farão em remuneração dos serviços e zelo com que sempre administrou a
minha casa e fazenda e se alguma dúvida haver para que não valham como doação
entre vivos que valham em beneficio de seus herdeiros como remuneração dos
serviços de seu pai.35
Brügger comenta que os laços de compadrio se estabeleciam por “vínculo de mão-
dupla”, não apenas por fatores financeiros, mas de cuidado, reconhecimento por parte dos
padrinhos e de dedicação e fidelidade dos afilhados que futuramente poderiam executar algum
tipo de trabalho para os padrinhos: “era, provavelmente, a partir deste aspecto simbólico que
afilhados e suas famílias geravam expectativas em relação aos padrinhos, sobretudo no que
dizia respeito à proteção de seus parentes rituais”.36 Em meio a esse ambiente, a autora,
seguindo as alusões de Freyre37 e reafirmando os ensinamentos de Sheila de Castro Faria
sobre as relações patriarcais38, sugere o compadrio, uma aliança espiritual, como instrumento
ligado ao patriarcalismos e a importância dos laços familiares no desenrolar da vida das
pessoas.

É inquestionável o poder que Bernarda ostentava e para tanto contava com a ajuda de
outras pessoas para administrar sua fazenda, o que não é nada de extraordinário até mesmo
pelo grande número de escravos e, ao mesmo tempo, isso não minimiza o seu papel de
representante de seu domicílio. Ela poderia acompanhar e supervisionar de perto o dia a dia
das várias atividades econômicas e domésticas desenvolvidas em seu domicílio, atribuindo
responsabilidades e ordenando trabalho aos escravos e funcionários contratados. Deveria
34
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del Rei - séculos XVIII e
XIX), p. 315.
35
IPHAN/SJDR, inventário Bernarda Francisca de Faria, Vila de São José, 1852, caixa 82.
36
BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del Rei - séculos XVIII e
XIX), p. 324.
37
FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano, p.
133.
38
FARIA, Sheila S. de Castro. Colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial, p. 213.
137
tratar dos negócios financeiros da fazenda, como compra de materiais e utensílios, venda dos
produtos, cobrança e pagamento das dívidas. Entre as suas disposições testamenteiras,
percebe-se que a viúva agia com pulso forte, o que demonstra que ela sabia de seu domínio.
Na ocasião, a viúva frisa que, se por ventura o herdeiro Joaquim José Parreiras, insatisfeito
com sua parte no inventário, no valor de 6:294$000 e por esse motivo agisse de forma
desonesta ou quisesses tirar proveito sobre os outros herdeiros, deveria ficar fora de seu
inventário, sem direito a receber nenhum valor dos seus bens:

mal aconselhado não se contentar com esta minha disposição e quiser intentar
alguma ação a meus herdeiros para haver mais do que por esta verba lhe é dado
ficará por este mesmo fato privado deste beneficio, e a porção que lhe deveria caber
acrescerá aos filhos do dito meu afilhado Alexandre.39
Pelo discurso apresentado, Bernarda conhecia o caráter de Joaquim José e antes
mesmo que ele intentasse alguma ação contrária a sua vontade fez a ressalva em seu
testamento.

4.2 – PREOCUPAÇÃO COM O MOMENTO DA MORTE

As irmandades tinham o reconhecimento social e a legalidade jurídica e eclesiástica, e


apesar do cunho religioso, seu papel ultrapassava os limites da devoção. Espaço de
sociabilidade incrementava o ambiente das vilas e trazia melhorias para as áreas onde se
localizavam.40 Mobilizava a vida dos irmãos com a participação nas celebrações, procissões e
festas religiosas que se realizavam ao longo do ano. Diante das dificuldades financeiras,
tinham as doações, pagamento da anuidade e prestação de serviços, por exemplo, enterros, a
forma de conseguir recursos financeiros para o funcionamento das atividades administrativas,
preparação das festas religiosas41 e contratação de sacerdotes.42
39
IPHAN/SJDR, inventário Bernarda Francisca de Faria, Vila de São José, 1852, caixa 82.
40
CAVALCANTI, Nireu. O Rio de Janeiro setecentista: a vida e a construção da cidade da invasão francesa
até a chegada da Corte, p. 206.
41
A festa religiosa não se resumia na festividade coletiva, era momento de grande articulação social, envolvia
não apenas a irmandade enquanto instituição, mas o empenho e dedicação dos irmãos. Cabia à instituição
organizadora negociar, contratar músicos, confeccionar e reparar as peças religiosas, comprar utensílios e
materiais para a preparação da festividade. Para superar a dificuldade financeira era comum a colaboração de
outras irmandades nos preparativos da festa. Apesar de trabalhar especificamente com os preparativos para a
festividade da Paixão de Cristo pelas Irmandades do Santíssimo Sacramento, Irmandade do Senhor dos Passos,
Ordem Terceira de São Francisco da Penitência e Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, o trabalho da
historiadora Adalgisa Campos é elucidativo a respeito do processo de organização das festas religiosas em Minas
Gerais, durante todo o século XVIII e que se estender ao século XIX. CAMPOS, Adalgisa Arantes. “Mecenato
leigo e diocesano nas Minas setecentistas”. In: História de Minas Gerais: as Minas setecentistas, v 2. Belo
Horizonte: Autêntica; Companhia do Tempo, 2007, pp. 383-425.
42
Sobre o processo de formação e atuação das associações religiosas no cenário das Minas Gerais, ver BOSCHI,
Caio César. Os leigos e o poder: irmandades leigas e política colonizadora em Minas Gerais. São Paulo:
138
Ampliava o espaço de atuação e participação social do indivíduo além do limite da
família, pelo meio de exercícios e papéis sociais definidos e estratificados socialmente, por
exemplo, as irmandades dos pardos não permitiam a participação de membros pretos, porém,
ao mesmo tempo, eram abertas a indivíduos brancos, e esses poderiam ainda compor a mesa
diretora. As irmandades dos pretos, sem muito prestígio social, (Irmandades de Nossa
Senhora do Rosário e São Benedito) aceitavam os brancos e pardos. Restritivamente, as
irmandades dos brancos (ordens terceiras do Carmo e de São Francisco) permitiam somente
aqueles que tivessem “sangue puro” ligado ao poder político e econômico.43 Disputas pela
capela-mor, festas religiosas e posicionamento dos santos padroeiros no interior das igrejas
também eram motivos de pendências e demonstração de poder e reconhecimento social.
Contudo, a relação entre as congregações não era apenas de disputas, havia ainda situações de
reciprocidade, harmonia e cooperação entre as irmandades quando da “construção, reparação
ou na ornamentação de templos onde mais de uma confraria tinha sede”.44

Em alguns casos, mesmo o individuo experimentando a ascensão social, como foi o


caso da parda Dona Maria Custódia de Almeida, moradora da vila de São José, indicado pelo
tratamento “dona”, continuavam ligados à irmandade dos grupos desprestigiados, após o
término do seu inventário pagou à Irmandade de Nossa Senhora de Rosário a quantia de
20$600 referente aos anuais, mesadas e seis missas por sua alma, como regia o compromisso
da Irmandade.

Outro ponto comum em meio a essas relações contraditórias é que a escolha por uma
irmandade se dava a partir das origens sociais dos membros. Diante da intrínseca
estratificação social da sociedade mineira do século XIX, encontramos mulheres chefes de
família da vila de São José compondo ordens religiosas de mais prestígio e distinção social
que usavam critérios rigorosos, tais como étnicos, sociais e econômicos, para selecionar os
irmãos. Entre as integrantes da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo cuja sede ficava
na vila vizinha de São João, temos Maria Ferreira de Resende e Gertrudes Caetana de Faria.45

As irmandades possibilitavam a formação de laços de convivência entre os membros.

ática, 1986. BOSCHI, Caio César. "Irmandades, religiosidade e sociabilidade". In: RESENDE, Maria Efigênia
Lage de; VILLALTA, Luiz Carlos (orgs.). História de Minas Gerais: as Minas setecentistas, V. 2. Belo
Horizonte: Autêntica; Companhia do Tempo, 2007.
43
Sobre a organização das Irmandades, ver CAVALCANTI, Nireu. O Rio de Janeiro setecentista: a vida e a
construção da cidade da invasão francesa até a chegada da Corte, pp. 206-215.
44
BOSCHI, Caio César. "Irmandades, religiosidade e sociabilidade", p. 71.
45
IPHAN/SJDR, Inventário de Maria Ferreira de Resende, Arraial do Córrego Tv. São José, 1834, Cx. 423;
IPHAN/SJDR, Testamento Gertrude Caetana de Farias, São José Del Rei, 1867, Cx. 149.
139
Maria Cardoso nos chama a atenção para o fato de que a “cor e a condição social constituíam
componentes essenciais da configuração identitária dos diversos grupos sociais”.46 Um
exemplo que acena a esse respeito é que entre os integrantes da irmandade São João
Evangelista estavam as mulheres chefes de família moradoras da vila de São José: Ana
Francisca das Chagas, parda, solteira, florista e costureira, vivia em seu domicílio no início da
década de 1830, o pequeno Camilo, branco, de apenas cinco anos e o escravo José, crioulo, 45
anos, tinha como profissão a alfaiataria. Ana morreu sozinha sem deixar herdeiros, seus bens
foram a leilão em praça pública. Luciana Joaquina de Jesus, parda, casou-se, em 1842, com
Francisco Inácio Costa,47 não gerou filhos deixando seus poucos bens para o seu sobrinho
Joviano Antônio do Sacramento. E, por fim, Vitoriana Maria Antônia, parda, viúva, que vivia,
de acordo com as Listas Nominativas, de seus negócios e em companhia de cinco filhos e um
escravo. Além de serem responsáveis pelas suas unidades familiares, essas mulheres tinham
em comum o reconhecimento social de serem pardas.

Por meio das irmandades, negros, pretos, pardos e mestiços tinham a possibilidade de
se organizarem, se reunirem em grupos e estabelecerem um convívio social ativo. Ao mesmo
tempo, havia por parte dos grupos dirigentes48 a tentativa de reiterar as desigualdades,
diferenças e hierarquias sociais. No entanto, se subjugados não agiram de forma passiva,
souberam preceder ao lado dos valores católicos, usando da própria coesão e legalidade do
grupo, revitalizar práticas e manifestações africanas, revelando não só elementos da cultura
africana, mas o sincretismo religioso e a mestiçagem cultural que aqui se iniciara: “reisados e
congados davam novo sentido semântico aos rituais católicos”.49 Vale aqui relacionar essa
ideia ao conceito de “circularidade cultural” analisado por Carlos Ginzburg como “um
relacionamento circular entre a cultura das classes dominantes e a das classes subalternas feito
de influências recíprocas, que se movia de baixo para cima, bem como de cima para baixo”,50
portanto, os produtos culturais são (re) interpretados e modificados tanto pelos produtores
como pelos consumidores. Assim, o processo de construção de uma identidade não é obra
somente, por exemplo, do Estado, tratava-se de uma relação de troca entre vários segmentos
da sociedade.

46
CARDOSO, Maria Tereza Pereira. “Nas malhas da justiça: criminalidade, cor e condição social nas Vilas
Del-Rei”. In: Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre: PUCRS, v. 30, n. 1, 2004, p. 64.
47
Livros de Casamentos da Freguesia de Sto. Antônio da Vila de São José, 1782-1860.
48
Entendemos por grupos dirigentes as elites política, econômica e intelectual.
49
BOSCHI, Caio César. "Irmandades, Religiosidade e Sociabilidade", p. 70.
50
GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela inquisição.
São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 13
140
Entre outros objetivos, as irmandades ocupavam por ora o espaço em que o estado se
ausentava, diante da “impossibilidade de então recorrer ao poder institucional do Estado, os
homens se socorreram na religião”.51 Nesse sentido, era comum nos compromissos das
irmandades,52 além da congregação dos membros em torno de um padroeiro, executarem
ações beneficência, como auxílio aos pobres e necessitados e aos irmãos em dificuldade
financeira e a promessa de assistir os irmãos em momentos críticos, como o da velhice e
doença. Em especial, as irmandades "se obrigavam a zelar pela boa morte de seus membros
durante as várias etapas dos ritos fúnebres, entre outras coisas exigindo em seus
compromissos que os associados acompanhassem os funerais que promoviam".53 Sobretudo,
as ações tinham como objetivo promulgar os valores católicos e promover a salvação da alma.
Outras irmandades tinham propósitos ligados a ofícios e exercício profissionais.54

Chamou-nos a atenção as disposições testamenteiras e os valores gastos com as


despesas dos funerais, o que demonstra a confissão de fé dessas mulheres representada pela
preocupação com a vida religiosa e a busca pela paz eterna expressada no momento da morte.

Os valores religiosos da cultura cristã não representavam a morte como sendo o fim do
corpo físico, mas a oportunidade de reconciliação e aproximação com o mundo espiritual, era
vida eterna para os que alcançavam de imediato o Paraíso, castigo para os que fossem para o
Purgatório e fim para aqueles que fossem diretamente para o inferno.55 De acordo com
Adalgisa Campos, a morte era a ocasião para a tomada de consciência e arrependimento
carnal. Nesse sentido, as concessões e disposições testamenteiras se relacionavam com o
conflituoso “juízo particular“, momento introspectivo do individuo, que “acumula uma série
de juízos parciais cujo conjunto apresenta uma reflexão inicial e imperfeita sobre a sentença
56
que é conferida concomitantemente à morte” e variavam conforme os recursos financeiros
de cada pessoa.

Os gastos com cerimônias e missas57 representavam o momento de passagem do


51
BOSCHI, Caio César. "Irmandades, Religiosidade e Sociabilidade", p. 60.
52
Ser irmão de alguma devoção tinha seus "compromissos", ou seja, seus diretos e seus deveres expressados no
estatuto e regimento da irmandade.
53
REIS, João José. “O cotidiano da morte no Brasil Oitocentista”, p. 124.
54
Sobre os princípios que orientavam a atuação das irmandades na cidade do Rio de Janeiro ver
CAVALCANTI, Nireu. O Rio de Janeiro setecentista: a vida e a construção da cidade da invasão francesa até a
chegada da Corte, pp. 206-214.
55
REIS, João José. “O cotidiano da morte no Brasil oitocentista”, pp. 96-97.
56
CAMPOS, Adalgisa Arantes. “Escatologia, iconografia, e práticas funerárias no barroco das Gerais”. História
de Minas Gerais: as Minas setecentistas, V. 2. Belo Horizonte: Autêntica; Companhia do Tempo, 2007, p. 396.
57
As missas destinadas aos mortos esboçam a relação entre vida/morte e tinham como finalidade livrar as almas
do Purgatório. REIS, João José. “O cotidiano da morte no Brasil oitocentista”, p. 97.
141
mundo terreno para o espiritual e deveriam contar com a compreensão dos vivos: "o
tratamento dispensado ao morto visava integrá-lo o mais breve possível em seu lugar, para
seu próprio bem e a paz dos vivos".58 Não eram apenas as tradições cristãs que engrandeciam
o momento de passagem da vida para morte, os africanos que desembarcaram em portos
brasileiros traziam todo um universo simbólico que também tratava a morte não como o fim
da vida, mas num período de transitoriedade e de estreita ligação com a vida terrena. Devido
às similitudes dos ritos fúnebres católicos e africanos, os rituais da morte eram uma das várias
possibilidades para população africana ou descendente de resgatar e dar continuidade a
práticas africanas.59

A maioria das mulheres chefes de família da vila de São José demonstrou o desejo de
ser enterrada junto às capelas das quais essas mulheres eram irmãs. Maria Ferreira de Resende
aponta a vontade de ser enterrada na Capela de Nossa Senhora do Carmo da qual era irmã.

Principalmente por antever o momento da morte, foram comuns nas vontades


testamentárias as indicações ao amor ao próximo, remorsos e sentimentos piedosos; José Reis
chama esse momento introspectivo de reparação moral.60 Além do arrependimento expresso,
as concessões e as reparações, o testamento era a ocasião para se reconhecer os filhos
renegados, conceder doações aos pobres, às irmandades e confrarias, alforriar os escravos,
pedir missas pelas almas de parentes, escravos e as do purgatório. D. Bernarda Francisca de
Faria declara, em seu testamento, o desejo de ser sepultada na capela local de Santa Rita e a
vontade de ser envolta pelo hábito de São Francisco e com a capa de Nossa Senhora do Monte
do Carmo, peças que remetem ao simbolismo das ordens religiosas de que era irmã e à sua
afirmação social, uma vez que as irmandades eram ordenações de famílias abastadas. Ela
prossegue ordenando a celebração de 400 missas pela sua alma, assim como para parentes,
escravos e almas do purgatório: "pela de meu marido 150, pelas de meus pais 100, por alma
de meus escravos 60, pelas de meus tios 100, pelas de meus irmãos 25 e outras 25 pelas almas
do purgatório". A viúva ainda mandou que fosse repartido em favor dos “pobres mais
necessitados” 30$000 à porta da Igreja. Ao todo foram gastos 300$680 com os preparativos
para o funeral, construção do caixão, missas e assistências.61

Em outras ocasiões, os funerais se transformavam numa espécie de festividade para a

58
Ibidem, p. 96.
59
Ibidem, pp. 98-99.
60
Ibidem, p. 103.
61
IPHAN/SJDR, inventário Bernarda Francisca de Faria, Vila de São José, 1852, caixa 82.
142
comunidade local, assim foi o funerário da viúva D. Maria Custódia de Almeida, quando foi
gasta a quantia de 88$760 para a compra de materiais:

seis metros de alpaca preta, um metro e meio de escumilha, branca lisa, um metro de
escossia fina, dois metros de fita preta cetim larga, um par de meias, um carretel de
linha preta, um novelo de linha fina, um metro de fita cetim, agulhas, um lenço
grande branco de cassa, duas velas de cera, sete metros de alpaca preta fina, seis
metros de morim fino, 30 metros de gatão largo, três metros de cadarço, 500 cravos
dourados, 300 faixas de ferro, três pares de asas de latão para caixão, um metro e
meio de fita larga nobreza, 36 parafusos de ferro uma dúzia de velas selo, duas velas
de cera, uma vela de cera, seis velas de cera.62
Mortalhas, lenços e túnicas de envolver o cadáver, feitas de tecidos brancos foram
usados tanto pelos grupos africanos como pelos brancos. O uso da cor preta, nos funerais no
Rio de Janeiro, significava uma representação às mulheres casadas.63 Nesse caso, a compra de
seis metros de alpaca preta poderia ser para demonstrar o estado de viúves da parda. Pelo
volumoso número de materiais comprados se destinariam tanto para o preparo do corpo e
fabricação e ornamentação do caixão como para a “decoração” do local do velório. Parte do
dinheiro também foi gasta para contratar o sacristão, capinar a horta e a “testa de casa” e
limpar a casa da falecida, local mais provável para o velório.

Sem deixar a indicação de herdeiros em seu inventário, provavelmente os preparativos


fúnebres que abrangiam a preparação dos comes-e-bebes foram realizados pela própria
vizinhança. Entre as bebidas alcoólicas e alimentos comprados para o festejo do velório,
encontramos a indicação de “dois pratos de farinha fina, uma arroba de bacalhau, toucinho,
café, açúcar claro, dois galões de vinho branco-tinto, dois pratos de arroz, um galão de
aguardente”.64

A interação entre senhor e escravo se refletiu, no momento da morte, em grande


quantidade de cartas de alforria concedida por mulheres proprietárias. Acima da gratidão,
atenção, zelo, afeto, obediência e reconhecimento do trabalho prestado pelo cativo, não quer
dizer que esses sentimentos não possam ter existido, as concessões eram resultantes de
acordos firmados no convívio entre senhores e escravos, ou seja, mesmo que os sentimentos
existissem, não eram por si só suficientes para se libertar um escravo.65 Do mesmo modo,

62
IPHAN/SJDR, inventário Maria Custódia de Almeida, São José del Rei, 1882, caixa 427.
63
REIS, João José. “O cotidiano da morte no Brasil oitocentista”, p. 112.
64
IPHAN/SJDR, inventário Maria Custódia de Almeida, São José del Rei, 1882, caixa 427.
65
Sobre os processos de manumissões em Minas Gerais, ver segundo capítulo PAIVA, Eduardo França.
Escravos e libertos nas Minas Gerais do século XVIII: estratégias de resistências através dos testamentos;
PAIVA, Eduardo França. Escravidão e universo cultural na Colônia: Minas Gerais, 1716-1789, pp. 167-216.
143
zelar pela boa alimentação e pela saúde do senhor, pela manutenção da ordem
doméstica, pela conservação dos bens matérias, assim como satisfazer os desejos do
dono e defendê-lo publicamente representou muitas vezes, não a aceitação do
estatuto de inferior, mas a procura de caminhos que levassem ao seu abandono. Nem
sempre a estratégia alcançou êxito, mas, com certeza, muitos escravos deveram a ela
sua libertação.66
Neste sentido, as concessões, além da boa vontade e comoção espiritual dos senhores,
representavam estratégias e conquistas de cada cativo, que, ao mesmo tempo, por redes de
comunicações, “de boca em boca, de exemplo em exemplo, sempre sendo remontadas e
adaptadas às diferentes realidades, sempre ajudadas pela notável mobilidade do meio
urbano”,67 eram tidas por outros escravos como experiências de êxitos e serviam como
modelos a ser seguidos.

Ao lado das manumissões gratuitas existiram as condicionadas, quando ficava o


escravo obrigado a prestar num intervalo de tempo algum tipo de serviço aos filhos, marido,
parentes ou conhecidos, nesses casos ficava evidente o firmamento do acordo entre
proprietários e cativos.68 Nessa perspectiva encontramos em São José, Dona Maria Ferreira de
Resende que ordenou em testamento que o seu escravo Camilo, idade de 11 anos, pardo,
servisse seu marido, Joaquim Dias de Carvalho, por 06 anos e depois fosse declarado forro e
liberto.69

Em Minas Gerais, as taxas de alforrias foram maiores entre as pequenas escravarias,


com maior frequência no meio urbano, em parte essa característica é atribuída ao fato de que,
diferentemente do meio rural, nas vilas mineiras existiam trabalhos específicos e alguns
particulares das áreas urbanas, diferenciados e especializados, eram, ao mesmo tempo,
desqualificados socialmente, recusados pelos brancos ficavam, portanto, a cargo dos escravos,
libertos e brancos pobres. Nesse sentido, era comum que o escravo desempenhasse uma gama
de tarefas especializadas, entre elas as atividades domésticas e manuais – que envolviam a
transformação de ferro, tecido, cobre, couro, barro e madeira – jardineiros, cozinheiros e,
especialmente, escravos de aluguel e de ganho. No caso das mulheres, destaque para as
lavadeiras, cozinheiras e negras de tabuleiros. O conhecimento de uma atividade especializada
poderia render ao escravo um tratamento diferenciado, por exemplo, pode ausentar-se

66
Ibidem, p. 92.
67
Ibidem, p. 212.
68
Ibidem, p. 173.
69
IPHAN/SJDR, Inventário de Maria Ferreira de Resende, Arraial do Córrego Tv. São José, 1834, Cx. 423.
144
temporariamente do domínio senhorial, o que favorecia “estratégias para a formação de
pecúlio” 70 e, hipoteticamente, a compra de sua alforria.

Ao mesmo tempo, o desempenho dessas atividades acabava por propiciar uma relação
mais próxima entre senhor e escravo e aliada ao predomíno das pequenas escravarias, acabava
por aumentar não apenas aproximação e dependência, mas fazia emergir ao lado da
convivência a cumplicidade, demonstrado, por exemplo, nos processos de coartações, quando
era firmado entre senhores e escravos o tempo pré-determinado para que o escravo juntasse
um valor especifico que era próximo ao valor de mercado, para a compra de sua alforria.
Nesse período, o escravo ficava responsável por adquirir recurso para sua alimentação,
vestimenta e saúde, assim, havia, ainda, o risco de o escravo não conseguir juntar pecúlio
suficiente para conseguir sua liberdade. Em meio a essas características, aparentemente
desfavoráveis, vários escravos africanos e nascidos no Brasil souberam utilizar-se dos
mecanismos do próprio sistema escravistas para conseguirem conquistar a liberdade:

as alforrias fazem parte dessa estratégia de dominação social, uma vez que
representavam, para os submetidos, a oportunidade legal de abandonarem essa
condição [...] simultaneamente, incentivaram, entre os escravos, o desenvolvimento
de estratégias que proporcionassem obtê-las. Por isso, não podem ser vistas apenas
como concessões, mas, também, como conquistas de uma massa anônima de agentes
históricos. 71
As concessões foram maiores entre os proprietários que não tinham ou possuíam
poucos filhos, o que não prejudicaria em tanto o projeto familiar. 72 Sem gerar filhos, D.
Bernarda Francisca de Faria, proprietária de um plantel de 46 escravos, beneficiou, em
testamento, 10 escravos com “carta de liberdade”: Bonifacio, sapateiro, e sua mulher
Violanta, Bonifacio, velho, e sua mulher Gertrudes, Helonia, crioula, José, Perpétua, crioula,
Joaquim Machado e sua mulher Margarida e Luzia, crioula. Em situação parecida, D. Maria
Ferreira de Resende, citada anteriormente, tinha como único herdeiro o seu segundo marido
Joaquim Dias de Carvalho.73

Segundo Eduardo Paiva, as mulheres foram mais contempladas com o beneficio das
cartas de alforria, a incluir os processos de coartação, do que os homens. Ainda, entre os casos
de alguns homens jovens temos que vincular suas liberdades a participação feminina, pois
70
PAIVA, Eduardo França. Escravos e libertos nas Minas Gerais do século XVIII: estratégias de resistências
através dos testamentos, p. 82.
71
Ibidem, p. 101.
72
SAMARA, Eni de Mesquita. “Senhoras e escravos na São Paulo do café (1840-1870)”. In: Anos 90. Porto
Alegre, v. 14, n. 25, 2007, p. 53.
73
IPHAN/SJDR, inventário de Bernarda Francisca de Faria, Vila de São José, 1852, caixa 82; IPHAN/SJDR,
Inventário de Maria Ferreira de Resende, Arraial do Córrego Tv. São José, 1834, Cx. 423.
145
muitos dos homens libertos jovem sem condição de juntar pecúlio “se tornaram forros junto
com as respectivas mães e graças a elas”.74 Em outras palavras, as mulheres souberam utilizar-
se das relações cotidianas e, às vezes, da própria sedução do corpo como forma de estratégia
para conseguir aproveito próprio e, assim, conquistar a liberdade. Vale abrir parêntese e dizer
que muitas das mulheres chefes de família da vila de São José eram mulheres libertas,
contudo, para, o momento, não podemos indicar a forma como elas conseguiram suas
liberdades.

4.3 – OBJETOS PESSOAIS

Os vestígios históricos presentes no interior das unidades familiares, nesse caso


indicado pelos inventários, nos permitem ter informações importantes sobre a cultura material
de um grupo familiar,75 sem nos atermos precisamente a uma análise arqueológica, uma vez
que essa empreitada demandaria um estudo especifico para o assunto. Assim, entendemos por
cultura material

as evidências das atividades cotidianas de um dado grupo doméstico em sua


interação com a sociedade como um todo. Para entender tais atividades, relacionadas
à produção e reprodução sociais, consumo e socialização, a partir dos elementos
materiais da cultura, deve-se considerar a existência de uma interação entre
elementos e os grupos domésticos a eles relacionados. Nessa perspectiva, os
artefatos são investigados que o arqueólogo busca compreender através de hipóteses
e inferências que se adequem aos dados levantados por meio da pesquisa
arqueológica e documental.76
Dessa forma, apenas restringindo-nos a análise dos inventários, temos como objetivo
nesse tópico levantar algumas hipóteses, instigando a curiosidade a respeito de alguns indícios
que envolveram o cotidiano das mulheres chefes de domicílios da vila de São José.

Quando nos remetemos aos vestígios, precisamente nos referimos aos bens e
informações encontradas nos inventários. Contudo, as informações analisadas não se
apresentam de forma isolada, mas na interação com o universo cultural da sociedade mineira
dos oitocentos, compartilhando de artefatos e símbolos culturais gerais, pois para
entendermos esses elementos é preciso inseri-los dentro de um contexto histórico específico.
Como bem lembra Eduardo Paiva, o universo cultural é
74
PAIVA, Eduardo França. Escravidão e universo cultural na Colônia: Minas Gerais, 1716-1789, p. 181.
75
A respeito de estudos que se utilizam a chamada cultura material para reconstruir o cotidiano de famílias e/ou
grupos sociais específicos ver terceiro capítulo ANDRADE, Marcos Ferreira. Elites regionais e a formação do
Estado Imperial Brasileiro: Minas Gerais-Campanha da Princesa (1799-1850); SYMANSKI, Luís Cláudio
Pereira. Espaço privado e vida material em Porto Alegre no século XIX. Porto Alegre: Edipucrs, 1998.
76
SYMANSKI, Luís Cláudio Pereira. Espaço privado e vida material em Porto Alegre no século XIX, p. 17.
146
um amplo conjunto de diferentes e diferenças, em movimento constante,
misturando-se, mas também chocando-se, antagonizando-se, superpondo-se, em
ritmos que às vezes são lentos e outras vezes são velozes, de maneira harmoniosa
e/ou conflituosa, dependendo de épocas e de regiões, dos protagonistas e de seus
objetivos nos permite compreender.77
Em meio a esse aspecto conflituoso, compreendemos que a presença, por exemplo, de
louças, talheres, cerâmicas, vidros, quadros, jóias, entre outros objetos, são evidências que nos
ajudam a perceber o universo cultural dessas mulheres.

Entre os pertences inventariados de algumas mulheres encontramos a presença de


ornamentos femininos. Mais que investimentos e adereços corporais para serem exibidos nos
dias festivos, acenam para a ideia de que esses pequenos artefatos eram amuletos ou símbolos
familiares que elucidam práticas culturais e sociais. Tratava-se de uma das parcelas de
riqueza, sendo em alguns casos objetos de maior valor entre os bens inventariados. No caso
do inventário da forra, Vitoriana Maria Antônia, o rosário de ouro, com o peso de vinte e
quatro oitavas de ouro, um símbolo religioso, foi o objeto com o valor mais elevado em seu
arrolamento 98$000. No entanto, o valor simbólico pode ser superior ao financeiro estipulado
pelos avaliadores.78

Em grande medida, esses pequenos objetos tinham significados particulares, remetiam,


por exemplo, aos ancestrais da família e a gerações passadas. Poderiam revelar autoridade,
triunfo e prestígio pessoal, bem como ostentação familiar.

O caso mais emblemático encontrado a esse respeito, entre as mulheres chefes de


família na vila de São José, foi a descrição do inventário da ex-escrava Ana Maria de
Oliveira, viúva do Capitão Manoel Lobo e Castro, que recebera o título de dona. Entre os
bens inventariados estão joias e algumas louças de luxo. Marcos Andrade chama a atenção
para o fato de que as joias “poderiam, ao mesmo tempo, representar um investimento e
também denotar prestígio social, sendo geralmente utilizadas em cerimônias, religiosas,
profanas e civis”.79 Um par de brincos de ouro com ametistas, um par de botões de ouro, um
par de brincos de topázio em prata, um par de brincos de ouro com suas pedras, um rosário
com várias contas de ouro e crucifixo e um cordão de ouro. Pela análise do documento, os
77
PAIVA, Eduardo França. Escravidão e universo cultural na Colônia: Minas Gerais, 1716-1789, p. 32.
78
O trabalho do historiador Eduardo Paiva analisa no terceiro capítulo, subtítulo Fortuna, poder objetos
mágicos: as forras, a América Portuguesa e o trânsito cultural, a trajetória de vida de algumas mulheres forras,
sobretudo na ascensão econômica e na posse de joias-amuletos, ornamentos e tecidos. Práticas culturais que se
remetiam em parte as origens africanas. PAIVA, Eduardo França. Escravidão e universo cultural na Colônia:
Minas Gerais, 1716-1789.
79
ANDRADE, Marcos Ferreira. Elites regionais e a formação do Estado Imperial Brasileiro: Minas Gerais-
Campanha da Princesa (1799-1850), p. 130.
147
adereços foram entregues à filha D. Maria Severina de Castro antes da morte da mãe. Havia,
ainda, objetos utilitários que demonstravam opulência econômica, inserção e a incorporação
de valores da cultura dominante e, ao mesmo tempo, o distanciamento do passado escravo,
alguns deles remetem à origem do marido, que era português: uma caneca de vidro branco
grande, dois copos de vidro grandes e brancos, seis pratos de louça do Porto grandes, 22
pratos de louça do Porto pequenos, oito pires, cinco ????, sua leiteira e duas tigelas, e pratos
grandes e pequenos.80

Nesse caso, as louças portuguesas demonstram não apenas o poder aquisitivo em


adquirir mercadorias de luxo estrangeiras, mas também aponta para o contato cultural entre o
Brasil e o Velho Continente.

Outros itens frequentes na documentação foram os tecidos, tais como lençóis, cobertas
de chita e algodão, toalhas de mão e de mesa, vestidos, colchas e lençóis de sedas. Adereços
como chapéus e leques também foram encontrados.

No caso de Ana Maria, a origem das joias, em parte, pode ser explicada pelo fato de
que o marido as tenha deixado no momento da morte, o que não impede que as peças se
tornassem para a viúva um símbolo da união do casal. No entanto, ocorre, além disso, a
possibilidade de que as peças tenham sido adquiridas pela forra, uma vez que ela
experimentou a ascensão econômica e social, entre os credores do casal estavam algumas
pessoas de poder como o Cap. G. Teixeira de Freitas, Luiz herdeiro do Cap. José Cabral
Tavares, a viúva Cap. José Cabral Tavares, Cap. José Antônio Moreira e os alferes João
Antônio de Campos e Aureliano de A., mesmo que isso tenha se dado por meio da união com
capitão. De acordo com Eduardo Paiva, era comum entre as mulheres libertas que ascenderam
economicamente adquirirem joias, brincos, tecidos e amuletos.81

Os bens da finada foram motivo de contenda familiar, na ocasião da partilha da


herança, com o discurso de se evitar fraude e prejuízo. O filho e inventariante Joaquim José
Lobo, Vigário de Carrancas, foi acusado pelo cunhado Cap. José Esteves de São Francisco,
casado com D. Maria Severina de Castro, de ter tomado para si alguns escravos e agido de má
fé, gastando grande parte da fortuna de 12:921$737 da mãe, referente à meação por
falecimento do marido, em proveito próprio; do total da meação restou a quantia de apenas
3:281$512. O filho, sendo o procurador da mãe, “como tal tudo administrou, cobrou avultadas
80
IPHAN/SJDR, inventário de Ana Maria de Oliveira, 1823, caixa 287.
81
Ver o terceiro capítulo, PAIVA, Eduardo França. Escravidão e Universo Cultural na Colônia: Minas Gerais,
1716-1789.
148
quantias que se deviam, dispôs de vários bens e tudo consumiu, e a pobre mãe muitas vezes se
via na necessidade de pedir dinheiros emprestados para acudir ao preciso da casa”.82

Por outro lado, o filho denunciava o cunhado, Capitão Manoel Lobo e Castro, de ter
vendido uma peça de “ricas joias” pertencentes à falecida mãe numa loja na rua dos ourives,
na cidade do Rio de Janeiro, em viagem que fez a negócio a capital do Brasil no ano de 1823.
A peça era de um adereço de diamantes que se compunha de laço, colar e bracelete de mãos e
os seus diamantes muito grandes com muitas pérolas, “sem ter misturas de outras pedras
estranhas sendo por isso incrível".83

A entrega das joias à filha, antes da morte, se confirma na partilha dos bens quando os
valores dos adereços foram somados a quantia recebida pela herdeira, supostamente, pode ter
sido a estratégia encontrada por Ana Maria de Oliveira para protegê-las, a fim de se evitar,
por exemplo, que o filho as gastasse ou mesmo sua atitude se referia a uma tradição, que
potencialmente se remete ao seu passado, de passar às filhas adereços e objetos pessoais.

Como visto no capítulo anterior, a viúva parda Maria Custódia de Almeida, além de
aparecer nas Listas Nominativas como costureira, possuía um cômodo comercial na parte
térrea do seu sobrado. Ela era uma das várias mulheres que, apesar do passado escravo,
experimentaram certa ascensão econômica. Na década de 1830 vivia em companhia de nove
escravos. Contudo, no final da vida, sem deixar herdeiro e sem a presença de escravos, vivia
sozinha em sua “moradas de casas” de sobrado demonstrando certa decadência em
comparação à ausência de escravos em seu inventário. Como mencionado anteriormente, foi
preciso contratar trabalhadores para capinar a horta e limpar a casa para a realização do
velório.84

Apesar de o inventário não detalhar os cômodos da morada, é possível, por meio da


localização de determinados objetos listados no espaço íntimo da residência, perceber
algumas características da casa, por exemplo, o quarto do oratório, quarto da varanda, sala,
cômodo comercial e mirante. Pelas referências supomos que a estrutura da construção não era
tão modesta, podendo existir outros locais não especificados pelo avaliador. Ao mesmo
tempo, os bens listados são esclarecedores do universo cultural e alguns deles indicativos do
suposto tempo de fortuna e ascensão econômica da parda Maria Custódia de Almeida. 85

82
IPHAN/SJDR, inventário de Ana Maria de Oliveira, 1823, caixa 287.
83
IPHAN/SJDR, inventário de Ana Maria de Oliveira, 1823, caixa 287.
84
IPHAN/SJDR, inventário Maria Custódia de Almeida, São José del Rei, 1882, caixa 427.
85
Idem.
149
Nas salas, local de recepção e convívio, e dormitórios poderiam estar distribuídos os
objetos decorativos: quatro quadros em relevo, dois outros de vidro, cinco ditos menores, um
espelho dourado, um quadro de Don João (quarto), dois castiçais e uma espada.86 Marcos
Andrade, ao analisar os retratos familiares expostos nas salas das fazendas da família
Junqueira, indica que, além do aspecto decorativo e da autorepresentação das famílias da elite,
tinham como finalidade demonstrar a ostentação familiar.87 Embora não se tratasse de um
retrato familiar, os quadros podem dizer respeito à opulência e diferenciação social que, nesse
caso, se remete a tempos passados e o quadro de Don João à ligação política do marido ou
mesmo no sentido de conhecimento da própria Maria Custódia. E, ainda, como elemento
decorativo e de ostentação, porém sobressaindo-se o aspecto religioso: um oratório e um dito
com imagem.

Foram listados poucos utensílios domésticos, apenas uma chaleira nova, 123 garrafas
vazias e 22 frascos; acreditamos que as garrafas e os frascos eram mais ligados ao ambiente
do “cômodo comercial” do que à morada. E três vidros para vidraças. A descrição mais
extensa ficou por conta do mobiliário da casa: uma cômoda grande com gavetas, uma cômoda
menor no quarto, uma mesa marchetada, uma mesa pequena com tampa de abrir, 10 cadeiras
de couro, cinco cadeiras de tabua, dois catre de armação, um catre liso, uma espreguiçadeira,
três mesas pequenas, um dita com duas gavetas na varanda, uma dita no mirante, uma dita no
mesmo lugar, uma caixa grande, uma caixa no quarto do oratório, uma caixa no quarto da
varanda, três caixões no quarto da varanda, um caixão grande, uma armação de prateleira, um
caixão com dois repartimentos, dois bancos, seis bancos na varanda, uma caixa de cama e um
cabide. 88

As peças de vestuário e objetos pessoais listados estão estreitamente relacionados ao


universo feminino: um chapéu de sol, dois chapéus grandes, dois leques, três lenços de seda
da Índia, dois vestidos de seda, duas colchas de seda e uma caixinha com diversos objetos de
pedra. No caso dos vestidos, chapéus, leques e lenços são vestimentas que Maria Custódia não
usava no seu dia a dia atrás do balcão atendendo seus fregueses e sim em momentos e datas
especiais. Há, também, discriminadas uma serra de carpinteiro e uma alavanca, instrumentos

86
Idem.
87
ANDRADE, Marcos Ferreira. Elites regionais e a formação do Estado Imperial Brasileiro: Minas Gerais-
Campanha da Princesa (1799-1850), p. 136.
88
IPHAN/SJDR, inventário Maria Custódia de Almeida, São José del Rei, 1882, caixa 427.
150
profissionais que podem lembrar a época em que o domicílio contava com a força braçal dos
escravos.89

Possuir um estabelecimento comercial poderia significar para o proprietário algum


prestígio na sociedade, um diferenciador social. Não foi possível certificar o momento em que
Maria Custódia iniciou a atividade comercial ou se a desempenhava concomitantemente com
a de costureira, o que era o mais provável; ainda assim, podemos indagar se a atividade
comercial poderia estar relacionada à prática do marido e, posteriormente, por questões
circunstanciais, houve a necessidade de ela assumir o “cômodo comercial”.

Analisando os bens arrolados no “cômodo comercial”, verificamos certa diversidade


entre eles. Uma característica é que estabelecimento possivelmente era uma extensão da
morada, objetos domésticos e mercadorias se confundiam e ocupavam o mesmo espaço. Não
podemos afirmar qual era o ramo de atuação do negócio da viúva, mas podemos fazer
algumas considerações. Supor que se tratava de um estabelecimento que vendia
quinquilharias e utensílios usados para casa, por exemplo, “cinco portais para janelas”. As
duas balanças, a concha e as colherinhas de metal podem indicar que o comércio vendia
produtos ligados à alimentação, que viessem ser produzidos no quintal da propriedade, tais
como hortaliças (ver Tabela 15).

89
Idem.
151
Tabela 15
Composição dos bens encontrados no cômodo comercial da viúva Maria Custódia de Almeida
Objetos Valores em Reis
01 caixão de prateleira 1$000
01 salgadeira 0$200
01 caixa pequena com fechadura 1$000
01 armação do negocio 10$000
01 caixa de relógio de parede 0$500
02 escadas melhores 1$000
01 catre torneado 1$000
08 mesas 4$000
05 portais para janelas 2$000
01 catre pequeno 1$000
01 cômoda pequena para mesa 3$000
02 balanças pequenas 1$000
01 roda de fiar 4$000
01 tear com urdideira 4$000
01 concha e colherinhas de metal 1$000
Total 37$200
Fonte: IPHAN/SJDR, inventário Maria Custódia de Almeida, Vila de São José, 1882, caixa 427.
Entre as dividas da viúva está a compra de tocinho, fubá, açúcar branco, café, arroz,
sal, queijo, chaleira grande estanhada, duas tigelas, três pratos de farinha, farinha de trigo,
além de empréstimo em dinheiro e dois cadernos de papel almaço, totalizando 18$450. Esses
produtos, adquiridos junto a Agostinho Moreira Coelho, poderiam ser revendidos pela viúva e
no caso do caderno anotar as vendas e as dívidas dos fregueses. 90 Ao mesmo tempo, poderia
se tratar de um local que recebia os fregueses em mesas, uma espécie de bar91 ou o misto de
tudo isso, ou seja, um estabelecimento diversificado.

Não foi possível indicar a participação de colaboradores trabalhando no


estabelecimento comercial, que poderiam ser um herdeiro, escravo ou empregado remunerado
e especializado. O estabelecimento poderia também estar inativo, servindo apenas como
depósito para os objetos listados. A indicação de empregado seria interessante para indicar
vínculos entre proprietária e seus auxiliares que, por exemplo, poderiam auxiliá-la no preparo

90
Idem.
91
Luciano Figueiredo, ao analisar as casas comerciais durante o século XVIII em Minas Gerais, em especial
aquelas gerenciadas por mulheres, destaca que se tratava de um misto de bar e armazém. FIGUEIREDO,
Luciano Raposo. O Avesso da memória: cotidiano e trabalho da mulher em Minas Gerais no século XVIII, p.
43.
152
de salgados e de outros alimentos, indicativo pela presença da salgadeira. Infelizmente, não
foi possível encontrar nenhum recibo de pagamento de “salários” ou a cobrança de dívidas
por parte de algum prestador de serviço que tenha trabalhado no estabelecimento comercial.
Portanto, por um momento, ficaremos apenas nas deduções.

Os exemplos descritos neste capítulo são mais do que experiências individuais do uso
do poder, da propriedade e da vida espiritual; a análise pormenor deles nos permite
compreender a ação das mulheres no processo de configuração do universo social e cultural
da sociedade mineira do século XIX. Ausentes do processo de elaboração, por exemplo, do
campo legislativo, religioso e político, souberam, ao mesmo tempo, utilizar-se de mecanismos
legais para garantir seus direitos, sobretudo os outorgados em nome da família. Além dos
limites do domicílio, foram capazes de estabelecer laços de convivência e, em alguns casos,
de dependência mútua entre os envolvidos, tais como de vizinhança e compadrio, relações que
não eram apenas figurativas, mas fundamentais para auxiliá-las no processo de sobrevivência.

153
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Verificamos que a vila de São José não estaria, na virada do século XVIII para o XIX,
vivenciando apenas a migração masculina em direção às regiões rurais próximas da vila e a
presença marcante das mulheres entre a população livre. Em 1795, as mulheres
correspondiam a 52% da população livre, dentre essas, 29% ou 39% dos domicílios da vila
eram encabeçados por mulheres. Já nos primeiros anos da década de 1830, o índice sumiu
para quase 56% dos livres, sendo 20% das mulheres livres ou 43% dos domicílios da vila
eram chefiados por mulheres, prevalecendo nos dois períodos às mulheres livres de cor,
libertas ou não. Mas no seu cotidiano prevalecia a adversidade econômica e social que se
entrelaçavam com preconceitos e, em alguns casos, dificuldades de ordem cultural,
econômica e social, que não eram únicas aqui, mas que transpassaram a imensidão dos mares,
vindos de Portugal.1 Por muito tempo, essas mulheres foram silenciadas pela visão e valores
masculinos. De certo modo, percorremos, sim, um pequeno caminho, restrito à vila de S. José,
contudo, promissor em relação a revelar aspectos ligados à mulher na sociedade mineira
oitocentista.

Não é possível estabelecer um fator comum que impulsionasse a vida dessas mulheres
a assumirem a chefia de seus domicílios nem esse era o nosso interesse inicial por já saber que
o grupo não se definiria pela homogeneidade, mas pela diversidade social; mulheres brancas,
crioulas, cabras, pardas e libertas nativas e africanas, e de diferentes condições econômicas
definiam a heterogeneidade social do grupo. Se, por um lado, existiam as leis e costumes que
imputavam a passividade e fragilidade feminina, por outro lado, seja pelos dados
demográficos, seja pela análise dos inventários, percebemos que a mulher não se limitava aos
fazeres domésticos, mas se propunha a uma variedade de atividades, funções e ocupações,
prevalecendo no cotidiano de São José as atividades têxteis e comerciais.

Aliás, não foram poucas as mulheres que experimentaram a ascensão econômica e


social, basta lembrar a trajetória de vida da ex-escrava Ana Maria de Oliveira. Depois de viver
anos uma relação de concubinato com o Capitão Manoel Lobo e Castro, só no final da vida do
Capitão, os dois já em idade avançada, que os envolvidos legitimaram a união perante a Igreja
Católica. Contudo, a “ilegalidade” da relação não foi impedimento para se constituir laços e
1
FIGUEIREDO, Luciano. “Mulheres nas Minas Gerais”, p. 142.
valores familiares, pois além do reconhecimento da comunidade local frente à união
consensual, o casal garantiu não só um bom casamento para a filha Maria Severina de Castro
com o Capitão José Esteves de São Francisco, mas o financiamento dos estudos do filho
Joaquim José Lobo, que chegou a ser Reverendo Vigário de Carrancas; investimentos (nesse
caso, dote e educação) que iniciaram mesmo antes da celebração da união religiosa dos pais, o
que expressa, além do afeto e auxílio aos filhos, que o casamento por si só não era
necessariamente um elemento definidor da família oitocentista. Portanto, mesmo que em parte
a ascensão econômica e social viesse em grande parte da “reputação” do amante e marido que
era português, não por acaso, análogo a história da Chica da Silva,2 que a ex-escrava recebeu
o título de “dona”, mas por contribuir também para a formação de laços de convivência e
constituição de suas relações familiares.

Sob a perspectiva da história social ponderamos que essas mulheres não foram listadas
como chefes de domicílios de forma aleatória, havia uma representação social para o
responsável do fogo, pois “toda ação humana (e não apenas o hábito ou o costume) é
culturalmente informada para que possa fazer sentido num determinado contexto social”. 3 A
resposta está no próprio contexto da vila de São José.

O cenário socioeconômico de São José, marcado, primeiramente, pelos tempos áureos


da mineração, considerada por muitos como uma das regiões de que mais se extraiu ouro no
século XVIII, e, posteriormente, pelo processo de ruralização e migração masculina para as
áreas de fronteiras agrícolas, foi terreno promissor para a atuação feminina e,
consequentemente, para o aparecimento dos domicílios chefiados por mulheres. Solteiras,
casadas e viúvas não tinham em comum apenas a questão de estarem à frente de seus
domicílios, mas também a participação decisiva para o caráter dinâmico da vila e, ainda, por
ditar os rumos de suas histórias. Para tanto, maiormente, entre as famílias pobres, no entanto,
não restrito a esse segmento da sociedade, fizeram uso do poder familiar e dos limites das
moradas para estabelecer seus projetos e, assim, garantir suas sobrevivências e, às vezes, de
todos os membros da unidade domiciliar.

Voltamos, aqui, a frisar que o domicílio foi o “lócus” de atuação da mulher no século
XIX, de tal modo que propiciou a interação, proximidade e convívio entre os moradores, a
incluir os escravos. Mulheres brancas, de cor e ex-escravas utilizaram-se da posse de escravo
2
FURTADO, Júnia Ferreira. Chica da Silva e o contratador dos diamantes: o ouro lado do mito. São Paulo:
companhia das Letras, 2003.
3
CASTRO, Hebe. “História social”. In: CARDOSO, Ciro Flamarion e VAINFAS, Ronaldo (orgs.). Domínios
da história: ensaio de teoria e metodologia, p. 53.
155
enquanto estratégia e afirmação individual no mundo escravista, o que não era suficiente para
garantir a ascensão social nem ausentá-las do trabalho; pelo contrário, a presença de escravos
nos leva a pensar sobre a divisão de tarefas entre os moradores, as atividades desempenhadas
pelos escravos e as relações íntimas com suas proprietárias e devido às limitações financeiras,
convivendo e ocupando, em alguns casos, o mesmo espaço físico. Ao mesmo tempo nos
direciona a indicar a importância do trabalho familiar para essas unidades, pois os dados
demográficos demonstram que tanto no censo eclesiástico de 1795 como nas Listas
Nominativas de 1831/32 a maioria dos domicílios chefiados por mulheres na vila não contava
com escravos, respectivamente, 66% e 75% das mulheres que estavam à frente de suas
unidades familiares não contavam com escravos, contudo, essa ausência de cativos não era
apenas uma característica dos domicílios encabeçados por mulheres, mas sim um padrão da
sociedade são-joseense. Assim sendo, nesses casos, tinham na união de forças com agregados,
parentais ou não, e nos laços de dependência e proteção, os mecanismos necessários para se
garantir a sobrevivência.

Embora ocupando uma posição secundária, essas mulheres souberam utiliza-se do


espaço da vila para forjarem seus projetos de vidas e de solidariedade, sobretudo, pela
transmissão oral do conhecimento. Em especial, algumas mulheres de cor, descendentes de
africanos, criaram em seus domicílios espaços de contato social e de manifestações africanas,
que davam novas formas ao sistema escravista. Ao contrário da visão da mulher reclusa ao
ambiente familiar, as mulheres viúvas de certo poder aquisitivo, riqueza em parte deixada
pelos maridos, não viram os seus mundos se desfazerem com a morte do marido; pelo
contrário, souberam agir de acordo com as adversidades e ditaram também o rumo de suas
vidas.

156
FONTES

Fontes primárias manuscritas

Inventários post-mortem e Testamentos avulsos da vila de São José Del Rei. Documentos
relacionados às mulheres chefes de família. Escritório Técnico do IPHAN de São João Del
Rei. (20 documentos).

Fontes primárias digitalizadas

“Listas Nominativas dos Habitantes da vila de São José del Rei; 1831”. Banco de dados do
Microsoft Access organizado por equipe de pesquisadores do CEDEPLAR-UFMG, sob a
coordenação da Prof.a Dr.a Clotilde Paiva; original Arquivo Público Mineiro.

“Rol dos Confessados desta Freguezia de S. Antonio da Villa de S. Joze, Comarca do Rio das
Mortes, deste prezente anno de 1795”. Banco de dados do Microsoft Access organizado pelos
prof’s. Dr’s. Clotilde Paiva e Douglas Libby; original IHG Tiradentes/MG.

Livros de Casamentos da Freguesia de Sto. Antônio da Vila de São José, 1782-1860. Banco
de dados do Microsoft Access organizado pelo prof. Dr. Afonso de A. Graça Filho; originais
Arquivo Paroquial da Diocese de São João del Rei.

Banco de dados da Câmara de Tiradentes - ACMT - Arquivo da Câmara Municipal de


Tiradentes.

Banco de Dados do Arquivo Eclesiástico – Documentos Avulsos e Códices – das Paróquias e


Capelas Filiais da Diocese de São João del-Rei (Minas Gerais – Séculos XVIII-XXI),
organizado pela Professora Dr.ª Maria Leônia Chaves de Resende.
BIBLIOGRAFIA

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História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América portuguesa. 3.
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__________. Honradas e devotas: mulheres da colônia. Condição feminina nos conventos e


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EDUNB, 1993.

__________. O feitor ausente: estudos sobre a escravidão urbana no Rio de Janeiro – 1808 –
1822. Rio de Janeiro: Vozes, 1988.

ALVES, Adriana Dantas Reis. As mulheres negras por cima o caso de Luzia Jeje: escravidão,
família e mobilidade social - Bahia, c. 1780 - c. 1830. Tese de doutorado. Niterói: UFF,
2010.

ANDRADE, Marcos Ferreira. Elites regionais e a formação do estado imperial


brasileiro: Minas Gerais - Campanha da Princesa (1799-1850). Rio de Janeiro: Arquivo
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