REVISTA BRASILEIRA DE LITERATURA

03 Notas 04 Entrevistafala de Vik Muniz
Lalo de Almeida/Folha Imagem

34 Fortuna Crítica 5 Quinto ensaio da série
Stéphane Mallarmé em montagem a partir de ilustração de Cárcamo

discute o desconstrutivismo

seus ilusionismos da representação

38 TurismodaLiterário berço A região Provença,
do trovadorismo francês

14

Crítica

Nos 50 anos de Israel, J. Guinsburg analisa a literatura hebraica contemporânea

43 Capa/Dossiê Cem anos sem Stéphane

Mallarmé, homenageado por Manuel Bandeira em texto de 1942

21

Criação

Conto de Lizete Mercadante Machado

64 Do Leitore e-mails Cartas, fax
leitores da CULT

dos

O artista plástico Vik Muniz

de João Alexandre Barbosa sobre Conhecimento proibido, do crítico Roger Shattuck

10 13

Biblioteca Imaginária

Lista das melhores obras em língua inglesa abre debate sobre o cânone do século

30 Leituras CULT os Os destaques entre
lançamentos de livros

Na ponta da língua
As inquietantes e polêmicas flexões do infinitivo verbal

31

Memória em Revista

Excertos de O Brasil continua..., livro de Álvaro Moreira publicado em 1933

O poeta Manuel Bandeira em foto da década de 40
novembro/98 - CULT 1

Reprodução

24 Ensaio parte do texto A segunda

Uma série de coincidências norteia o Dossiê desta edição da
REVISTA BRASILEIRA DE LITERATURA NÚMERO 16 - NOVEMBRO DE 1998

CULT. Ou talvez seja mais apropriado falar em acaso para dar conta das efemérides aqui reunidas: há cem anos, em setembro de 1898, morria Stéphane Mallarmé; há trinta, em outubro de 1968, perdíamos Manuel Bandeira. Os dois poetas, é claro, nunca se conheceram, mas a prosa envolvente de Bandeira dedicou a Mallarmé uma homenagem em forma de conferência, proferida em 1942, ano do centenário de nascimento do poeta francês. É esse texto que a CULT publica no Dossiê, unindo as pontas dos dois centenários mallarmaicos. A trajetória de Mallarmé é uma das mais singulares da história da literatura. Começa pelos primeiros sonetos parnasianos, passa pela fase simbolista e culmina na dilaceração da “visão horrível da obra pura”. A busca do Absoluto, da “obra pura” como uma espécie de religiosidade secular, levou Mallarmé ao que já foi considerado um fracasso de realização poética, Un coup de dés, e aos inúmeros textos inacabados (dentre os quais está Épouser la notion, que a CULT publica nesta edição, com tradução inédita de Júlio Castañon Guimarães). O “fracasso” do Lance de dados, porém, revelou-se profético com relação aos rumos da criação não só literária, mas artística como um todo, no século XX. Mallarmé encarnou (e antecipou) dilemas e novas possibilidades hoje tão próximos: crise do discurso e do alcance da linguagem, conjugação entre palavra e imagem, deslocamento do contexto, interferência dos meios e conseqüente incorporação do acaso e do processo no fazer artístico, dissolução dos limites de gênero – o que se afigurava como uma crise, ou como fim das possibilidades criativas, ainda nos surpreende pela infinidade de caminhos que engendra. Reler Mallarmé ensina que o novo – o que perpetua e reinventa a história – é um imperativo da criação artística.

Diretor Paulo Lemos Gerente-geral Silvana De Angelo Editor e jornalista responsável Manuel da Costa Pinto – MTB 27445 Editor de arte Maurício Domingues Editor-assitente Bruno Zeni Diagramação e arte Rogério Richard José Henrique Fontelles Adriano Montanholi Yuri Fernandes Eduardo Martim do Nascimento Produção editorial Danielle Biancardini Revisão Nilma Guimarães Claudia Padovani Colunistas Cláudio Giordano João Alexandre Barbosa Pasquale Cipro Neto Colaboradores Heitor Ferraz Iury Bueno Ivan Teixeira J. Guinsburg Júlio Castañon Guimarães Len Berg Lizete Mercadante Machado Mônica Cristina Corrêa Rosie Mehoudar Capa Ilustração de Cárcamo Produção gráfica José Vicente De Angelo Fotolitos Unigraph Circulação e assinaturas Rosangela Santorsola Arias Camilla Aparecida Lemme Adilson Roberto Strutsel Dept. comercial/São Paulo Idelcio D. Patricio (diretor) Valéria Silva Elieuza P. Campos Dept. comercial/Rio de Janeiro Milla de Souza (Triunvirato Comunicação, rua México, 31-D, Gr. 1403, tel. 021/533-3121) Distribuição em bancas FERNANDO CHINAGLIA Distrib. S/A Rua Teodoro da Silva, 907 - Rio de Janeiro - RJ CEP 20563-900- Tel/fax (021) 575 7766/6363 e-mail: Contfc@chinaglia.com.br Distribuidor exclusivo para todo o Brasil. Assinaturas e números atrasados Tel. 0800 177899 Departamento financeiro Regiane Mandarino ISSN 1414-7076 CULT – Revista Brasileira de Literatura é uma publicação mensal da Lemos Editorial e Gráficos Ltda. – Rua Rui Barbosa, 70, Bela Vista – São Paulo, SP, CEP 01326-010 tel./fax: (011) 251-4300 e-mail: lemospl@netpoint.com.br

AO LEITOR
B r u n o Z e n i

2

CULT - novembro/98

Kiko Ferrite/Revista Azougue

Filosofia, literatura e psicanálise

Mito e poesia 1

A psicóloga e poeta Maria Rita Kehl

O Centro de Estudos da Cultura, vinculado ao programa de pós-graduação em comunicação e semiótica da PUC-SP, promove este mês um ciclo de palestras sobre o tema Filosofia, literatura e psicanálise. As relações de interdisciplinaridade entre esses campos serão discutidas nos dias 7 e 21 de novembro na PUC-SP por Bento Prado Júnior, Berta Waldman, Leda Tenório da Motta, Arthur Nestrovski, Cleusa Rios Passos e Maria Rita Kehl, entre outros. Os debates serão encerrados com a leitura de dois textos inéditos de Modesto Carone. Informações sobre a programação com Márcio Seligmann-Silva, pelo tel. 011/813-4531.
Bienal de Poesia

A Secretaria de Cultura de Belo Horizonte promove de 3 a 13 de novembro a I Bienal Internacional de Poesia, que vai discutir as correntes poéticas deste século. Com debates, leituras e espetáculos multimídia em diversos pontos da cidade, participam os poetas brasileiros Décio Pignatari, Augusto de Campos, Sebastião Uchoa Leite e Antonio Risério, os franceses Claude Royet-Jounod e Emmanuel Hocquard, e o ensaísta italiano Alfonso Berardinelli. Informações sobre programação e locais dos eventos pelos tels. 031/277-4261, 2774870 e 277-4873.
Confraria dos Bibliófilos

N O T A S

O IEA (Instituto de Estudos Avançados da USP) promove nos dias 4 e 5 de novembro, das 9h às 13h, no Centro de Estudos Japoneses, o encontro “Mitopoéticas: Da Rússia às Américas”, com conferências e debates sobre a importância dos mitos e das narrativas arquetípicas para o pensamento e para a literatura contemporâneos. A primeira parte do programa (dia 4) vai homenagear o lingüista russo Eleazar Meletínski, que completa 80 anos em 1998. Sua obra será analisada por Serguei Nekhliudov (“Novas tendências das ciências humanas na Rússia”), Jerusa Pires Ferreira (“Meletínski e as poéticas da oralidade”), Aurora F. Bernardini (“Meletínski, Campbell e a universalidade dos mitos”), Paulo Bezerra (“Meletínski uma poética histórica da narrativa), Arlete Cavaliere e Homero de Andrade (“Os arquétipos literários”) e Boris Scnaiderman (“O contexto cultural de Meletínski”), entre outros.
Mito e poesia 2

Paulo Couto

Ilustração para Juca mulato, na edição da Confraria dos Bibliófilos do Brasil

A Confraria dos Bibliófilos do Brasil (CBB) está lançando edições artesanais de clássicos da literatura brasileira em tiragens limitadas. Dois livros já foram lançados: O quinze, de Rachel de Queiroz, e o conto A hora e a vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa, com gravuras de Poty Lazzarotto. O próximo lançamento é o poema Juca mulato, de Menotti Del Picchia, com gravuras de Paulo Couto. A CBB prepara também obras de Herman Lima e Câmara Cascudo. Para se filiar à Confraria é necessário adquirir as obras editadas, que custam R$ 130,00. Informações com o presidente da CBB, José Salles Neto, Caixa Postal 8631, CEP 70312-970, Brasília, DF, tel. 061/368-1792.

A segunda parte do encontro (dia 5) será dedicada às mitopoéticas das Américas, com participação de Gordon Brotherson, Carlos Serrano, Lúcia Santaella, Betty Mindlin e Sérgio Medeiros, entre outros. Após o encerramento das atividades acadêmicas, acontece às 14h o lançamento do livro Arquétipos literários, de Meletínski (Ateliê Editorial), e às 15h o espetáculo teatral Ka, baseado em obra homônima de Khlébnikov, com direção de Renato Cohen. Informações sobre o encontro “Mitopoéticas” podem ser obtidas no IEA (tels. 011/818-4442 e 818-3919).
Lançamento

A escritora paulista Vera Albers, autora do romance Deformação (editora Perspectiva), está lançando o livro de contos Surtos urbanos, pela editora 34. Faz parte de Surtos urbanos, segundo livro da autora, o conto “Parque Dom Pedro” (seção Criação, CULT nº 12). O lançamento acontece no próximo dia 19 de novembro, a partir das 18h30 na Livraria Cultura, av. Paulista, 2073, São Paulo, SP, tel. 011/285-4033.
novembro/98 3

ASSINATURAS

CULT DISQUE CULT 0800.177899

novembro/98 Lalo de Almeida/Folha Imagem entrevista V I K M U N I Z .4 CULT .

Tal desconstrução do modelo pictórico e fotográfico possui não apenas implicações estéticas. um artista que. mas também um forte significado político – como pode ser visto nas obras expostas na Bienal. LEN BERG novembro/98 .CULT 5 . que vai até o dia 13 de dezembro. realiza uma prospecção en abîme dos ilusionismos da representação. A frase é ambígua. É esse espaço que lhes dá forma” – diz o artista plástico Vik Muniz. suas lacunas – e corresponde às ambivalências do trabalho de Vik. no livro Seeing is believing. recém-lançado nos EUA (leia texto na página 9 ). e na entrevista com Vik publicada a seguir. Prefiro trabalhar no espaço que separa uma definição de outra. ao fotografar desenhos feitos sobre fotografias.“Nunca fui muito chegado a definições. cujos trabalhos estão expostos no núcleo de Arte Contemporânea Brasileira da XXIV Bienal de São Paulo. pois indica como o artista aguça e conforma o olhar crítico justamente ao trabalhar com suas fraturas.

não é mais desenho. É a profana união dessas duas coisas que dá ao meu trabalho um caráter contemporâneo. Diante da pintura de uma janela. É essa separação da imagem que nos põe em contato com os mecanismos da construção da realidade. não é escultura mas depende dela. Você pode comentar? Vik Muniz Trabalho com a idéia de representação. CULT Seu trabalho não é apenas fotografia. A função do elemento ilusório na arte passa a ser a de uma reflexão sobre a visão. vejo a paisagem. É uma instalação? V . Em mais de uma mostra estavam os pedestais vazios.novembro/98 . as próprias definições que separam a vida de suas cópias. Prefiro trabalhar no espaço que separa uma definição de outra. Bonetti já observava que quase todos os seus trabalhos questionam a arte enquanto uma entidade separada da vida. na percepção do espectador. Eu me vejo como um artista plástico supertradicionalista e um fotógrafo ainda mais. M . Existe um hermetismo no meu trabalho que faz com que eu sempre procure estar entre essas duas coisas. sinto que vejo uma paisagem. D.Fotos/Galeria Camargo Vilaça CULT No San Francisco Examiner. É esse espaço que lhes dá forma. Sem título de 1998. encontra sua força maior quando se altera. Diante de uma janela. em 1990. Nunca fui muito chegado a definições. essa tautologia já está implícita. obra do artista plástico Vik Muniz 6 CULT . CULT Sugar children é um novo caminho? Ou apenas uma variante dos trabalhos anteriores? Elas podem ser vistas como um comentário sobre a condição humana. mesmo sendo uma cópia separada da vida. O que importa frisar é que a arte representativa.

quando na realidade ele vê uma foto de um desenho de uma foto. Meu principal interesse nessa série foi dar uma identidade material à sintaxe da fotografia. Ela se torna transparente e nessa transparência é que esconde sua estrutura como artifício. nos indicam que existem formas em que vários significados podem coexistir. Um comentário se torna político por força de sua intepretação. CULT Como se dá esse processo perceptivo – a ilusão da fotografia – que você chamou de “curto-circuito semântico”? V. A relação entre a câmera e o objeto fotografado continua fiel aos modelos estabelecidos nas séries anteriores: existe uma relação extremamente intuitiva e pessoal na escolha e no tratamento dos temas.M. O que fez de Sugar children um trabalho político tem mais a ver com os clichês sobre a maneira como crianças do Terceiro Mundo são representadas do que com minhas próprias intenções em relação às crianças. trocando cada pontinho de retícula por um grão de açúcar.M. Esses curto-circuitos oferecem a ele uma oportunidade Balanço. ou teoria da forma. Meu trabalho tenta devolver ambigüidade à fotografia por meio de um duplo negativo ilusionístico. mas também que somos capazes de computar um significado de cada vez. O espectador pensa que vê uma foto. O cubo de Necker ou o vaso de Rubin.CULT 7 . por exemplo. A fotografia parece escapar dessa ambigüidade em função de sua fina sintaxe e precisão. Um dos grandes desenvolvimentos em psicologia da percepção e lingüística foi a criação do conceito de formas ambíguas pela Gestalt. obra realizada por Vik Muniz em 1995 novembro/98 . chegando ao extremo de até poder escolher entre um e outro através de uma mudança de atenção.V.

CULT O espectador percebe o curto-circuito. que dá a essas mensagens os seus significados. Esses artistas dirigem seus trabalhos ao intelecto no sentido amplo. seja também respeitada pelos mais sofisticados críticos? Isso acontece porque ela tem uma estrutura formal completamente voltada ao prazer dos sentidos.M. Essas idéias podem ser interpretadas do ponto de vista filosófico ou de puro entretenimento. Há um outro samba de João Gilberto. que se você decidir trocar a letra pela teoria da relatividade de Einstein. Há até aquele samba irônico. CULT Mas a arte contemporânea continua divorciada do espectador comum. Mas é também capaz de transmitir uma profundidade intelectual muito grande. que. imagine nas artes plásticas. gravado por João Gilberto. Apreciar o prazer formal da teoria é privilégio de alguns. Existem mensagens e também a condição formal. de atualizar sua atitude em relação à realidade. que fala da madame que não gosta de samba. 6000 yards (light house). cristalizar e reduzir.Na imagem da esquerda. Len Berg jornalista e crítico de arte 8 CULT . Muito dela existe em função dessa separação. Não é lindo que a música popular brasileira. por força de receber sempre o mesmo tipo de sinais.novembro/98 . de 1997. embora sendo “popular”. V. Se isso acontece na música. continuará bom e a teoria melhor ainda. À direita. mas também a pessoas que nunca tiveram uma educação artística. ou depende de uma percepção mais “treinada”? V. Oba-lá-lá. não a uma faixa especializada da cultura. que por sua vez se transforma continuamente. Meu trabalho quer estimular idéias em todo aquele que tiver um olho. Eleven eggs. Elitismo só serve para separar. está saturada de vícios e maneirismos. A música brasileira vive ensinando coisas.M. para gostar de samba é só ter ouvidos. de 1995. Sempre admirei artistas cuja obra tivesse appeal não somente sobre determinado grupo de amantes da arte.

e podem ser apreciados também com o lançamento do livro Seeing is believing (“Ver é crer”).Jogos semânticos com humor e inteligência As cinco enormes fotos de crianças abandonadas. no Caribe. mas é difícil explicar porque se gosta do sabor de alguma coisa. jogos semânticos em que humor e inteligência desafiam. e fotografados depois de meticulosamente cobertos por açúcar granulado. Goya – ou desenhos sobre areia – como fez Joseph Beuys um dia – existem mais. fotos que “tomam como ponto de partida um interesse sobre a estrutura de imagens ‘políticas’”. pois eles “falam mais sobre a natureza da representação”. cujo rosto inconfundível é não só prontamente identificado mas traz à tona de imediato a história da psicanálise. à maneira de Marcel Duchamp. na XXIV Bienal de Arte de São Paulo. o desenho e as peças representam e sempre vão representar a armação estrutural onde o meu trabalho fotográfico se desenvolve”. do artista plástico paulistano Vik Muniz. Uma vez clicados. plástico em lugar de papel – mas também o retrato do pai da psicanálise. em meio a fax e ligações telefônicas. em poses clássicas. perfeccionisticamente removido até devolver a imagem das crianças. e Mark Alice Durand. Aí Vik fotografou o “desenho”. como em séries anteriores. Ele comenta sobre Sigmund (retrato de Freud em grandes dimensões. os “desenhos” foram destruídos. Elas integram o que Vik. tel. que começou em Nova York e terminou em São Paulo. o espectador a participar do ato criador. curador da mostra no ICP. foi. disse Vik em entrevista à CULT. ou Crianças de acúcar. assinalavam sua ausência – atentavam na realidade para o fato de que a ele interessa mais o registro fotográfico de suas peças. instintos e sensações. disse Vik à CULT nesta entrevista. (LEN BERG) novembro/98 . citando Vik: “Os retratos com chocolate começaram com o material e evoluíram para uma busca de temas apropriados. lenta. na revista Artforum. “A destruição dos modelos após a fotografia justifica a essência do ato fotográfico em sua relação com o tempo e enfatiza o caráter performático do meu trabalho”. Nem suas esculturas em arame ou as imagens urdidas com fios de costura – nelas ele copiou pinturas de Corot. que vêm sendo realizadas por Vik nesta década. um comentário erutido sobre o vocabulário da pintura renascentista do século XVIII. . Foi o crítico Andy Grundberg que publicou. Brotaram de uma série anterior.” Diluição de fronteiras entre técnicas distintas. para dar ‘sentido’ a emoções. acrescentando que “a escultura. sobre fotos “originais”. As fotos realçam os traços corporais. uma das boas incursões pelo trabalho de Vik na imprensa americana. Sigmund não é apenas uma fascinante tradução de procedimentos e materiais – alfinete em lugar de caneta. A psicanálise foi criada para lidar com problemas dessa natureza. Suas mostras de fotografias – em que pedestais vazios. ou Conseqüências. Seeing is believing traz textos de Charles Stainback. xarope em lugar de tinta. – US$ 80 À venda na Galeria Camargo Vilaça (São Paulo). denominou Aftermath. Parte desse rescaldo urbano. em Nova York. radicado em Nova York desde 1983. sobre uma mesa de luz. que Vik lambeu depois de fotografar): “Por certo.” Diz mais. “coletado depois de um baile de carnaval”. são o resultado de uma performance. na abertura de sua exposição no International Center for Photography. Valentina. aliados a citações bem sacadas da história da arte – são elementos constitutivos da produção de Vik Muniz. instantâneos sacados em férias na ilha de Saint Kitts. com direito a manipulação de lixo. então. da série “Pictures of chocolate”). 011/813-5594. inaugurada em setembro. que entrevista longamente o fotógrafo. fax 210-7390. até que se esboçassem rostos de negros caribenhos. reservados aos objetos fotografados mas destruídos. dando ao espectador a possibilidade de compreender como uma determinada obra se relaciona ao resto do trabalho como um todo”. “Este livro traça uma linha que conecta a confusa diversidade da minha produção. Todo mundo que conheço gosta de chocolate. the fastest (1996. Freud tinha tudo a ver porque a peça lidava obviamente com desejo e representação. Sugar children.CULT 9 De cima para baixo: Sigmund (1997. varredura de rua. uma descoberta que marcou este século. série “Sugar children”) e Baudelaire (1998) Seeing is believing Charles Stainback e outros Arena Books (EUA) 180 págs. desenhado com xarope de chocolate sobre uma superfície plástica. Nem Conseqüências nem Crianças de açúcar sobreviveram após o ato fotográfico.

(Diga-se. E o maior interesse. editado e introduzido por John Gross – que é autor de um importante e curioso volume de ensaios. na literatura do século XX. buscando. Um exemplo disso é a lista dos cem melhores romances em língua inglesa do século XX. hoje parte da poderosa Random House. por isso. com um título estapafúrdio. aparece em sexto lugar. W. vistos de hoje. Wyndham Lewis. certamente. por O coração da matéria!) Mas se o leitor desejar uma orientação crítica por entre aquilo que se fez. sem coerência que tenha sido o New York Times o primeiro jornal a publicá-la. esta é muito discutível e o leitor pode ficar se perguntando. especializada em publicar clássicos da literatura daquela língua desde 1917. preparada por um grupo de escritores reunidos sob a égide da Modern Library. Lawrence. Ezra Pound. fazendo. Farrell. e não é. Rainer Maria Rilke e Franz Kafka. há um livro que reputo essencial. Como todas as listas desse tipo. comecem a aparecer os vários resumos daquilo que o século XX foi capaz de oferecer à tradição literária. Yeats. de James Joyce. Wallace Stevens. de F. Robert Musil. Refiro-me a The modern movement: A TLS companion (The University of Chicago Press) – que reúne textos publicados no Times Literary Supplement desde a sua criação. tenha que incluir o inexpressivo e enxundioso James T. constituem.H. cujo primeiro capítulo é um rico texto sobre o nascimento da resenha crítica em jornais e revistas (“The rise of the reviewer”). e Admirável mundo novo. Virginia Woolf. assim como de dois volumes antológicos para a Oxford University Press (The Oxford book of aphorisms e The Oxford book of essays). a tradição moderna por excelência. de From here to eternity. A study of the idiosyncratic and the humane in modern literature (The Macmillan Company). A própria estrutura do livro já indica este sentido de escolha operada pelo tempo: são quatro partes. Thomas Mann. como nos autores que são objeto das resenhas e que. T. ou mesmo o notável e dostoievskiano romance de Ralph Ellison. Yeats). não são muitas as literaturas nacionais que podem oferecer um conjunto de obras tão significativas dentro da literatura do século XX. em 1902 (uma carta de W.B. Jorge Luis Borges e Konstantinos Kaváfis. trata de Marianne Moore. uma lista crítica e serve antes como orientação para um leitor médio que é visado pela Random 10 CULT . por assim dizer. para completar o número redondo dos cem. de The Studs Lonigan trilogy. pelo menos. . pelo menos em língua inglesa.O cânone do século João Alexandre Barbosa É possível que.B. do mesmo Joyce. em que a primeira. figura em primeiro lugar e que os outros quatro primeiros são O grande Gatsby. ou o lacrimoso James Jones. este volume contém aquilo que de mais importante foi publicado no suplemento londrino. sobre a literatura a que se pode chamar de moderna na área angloamericana ou mesmo mais largamente européia e com repercussão nos países de língua inglesa. de Aldous Huxley. com ela. Lolita. retomar as vendagens espantosas da Modern Library. Auden. se não chega aos cem por cento. De fato. sejam textos completos ou excertos de ensaios. intitulada Twelve writers reviewed. Italo Svevo. De qualquer modo. além de ter sido o editor do próprio Times Literary Supplement entre 1974 e 1981 –. D. The heart of Italo Svevo Ezra Pound the matter. está não apenas nos próprios textos ou nos excertos publicados. Marcel Proust. a segunda. entre parênteses. The sound and the fury. ainda que.novembro/98 House. Eliot. de Vladimir Nabokov. por outro lado. quando se traduziu o romance de Graham Greene. intitulado The rise and fall of the man of letters. até 1989 (um poema de Seamus Heaney). está muito perto disso o número das obras já traduzidas no Brasil e uma. a partir de agora. Invisible man. Não é. está apenas em décimo nono na lista. James Joyce. com que a livraria virtual Amazon.com logo abrisse um site especializado nas cem obras listadas.H. e por onde se nota que o Ulisses. que é o quadragésimo da lista.S. que. Retrato do artista quando jovem. Scott Fitzgerald. International focus. coleta textos sobre W. Anna Akhmatova. para o leitor de hoje. por que o grande livro de William Faulkner. por exemplo.

são. quando é feita de uma literatura muito diversa em método e pensamento. que aponta nomes como Proust. de fato. fragmentos de resenhas mais abrangentes. das sumárias observações feitas por Arthur Clutton-Brock. concorrendo mesmo com os autores fundadores do modernismo angloamericano) Com exceção de Auden. Entretanto. A TLS treasury. aponta para aquilo que será parte da herança crítica sobre o poeta: o peso concedido seja à língua de que se traduz. mas resenhas curtas. num texto de síntese da evolução do poeta. em 1915.S. Eliot. uma tradução literal de algo estranho e bom pode surpreender nossa língua com novas belezas. cuja fortuna crítica é representada.B. F. de línguas francesa e alemã. tema do livroThe modern movement. contudo. Fraser. As palavras são Inglês e dão-nos o sentido. seja à língua para a qual se traduz. Lewis e Lawrence. quando começa a publicar os seus poemas. Yeats.inglesa do século XX reacende a discussão sobre as principais obras de nosso tempo. recentemente traduzido de modo quase inacreditável por Augusto de Campos para o português.” novembro/98 . de 1958. resenhas fragmentárias que apenas indiciam a recepção inicial. um dos pioneiros. é tarefa do leitor não ficar aborrecido ou surpreso com um uso estranho da língua se é um uso próprio ao sentido. sem dúvida. desde já. sobre The translations of Ezra Pound. os onze textos sobre Ezra Pound. a tarefa do escritor é moldar a língua a novos propósitos. e. Hugh Walpole. intitulado The poet as translator. aqueles que constituem o cerne do modernismo angloamericano e a abertura com Yeats faz justiça à sua enorme influência sobre aqueles que vieram depois. se explica pelo fato de que aqueles quatro autores foram sempre os que. o que parece óbvio. está precisamente em Marcel Proust W. Auden. é um conjunto. além disso. por Joseph Hone. ‘não sejam Inglês’. Além disso. de 1960. Desse modo. Woolf. Mann. Pound escolheu o método correto para essas traduções e não nos incomodamos que elas. cujo maior interesse. (A razão de Proust. com exceção do texto de G. por textos publicados nos anos 30. não dizer algo novo tal como seus predecessores disseram algo velho. E quem se interessa pelo poeta e pela poesia certamente vai encontrar matéria para reflexão nos textos coletados. organizado por John Gross. sugestivamente intitulado Yeats in youth and maturity. T. em geral perplexa. Eliot and Virginia Woolf review…. Se convidamos um estranho de gênio para nosso meio. mas Joyce. traz resenhas ou poemas de W.B.S. Thrones: 96-109 de los cantares. com freqüência. quando. todavia. com proveito.CULT 11 Xilogravura de João Leite Lista dos cem melhores romances de língua . W. até The variorum edition of the poems of W. de cinco e três resenhas dos dois autores. Pound e Eliot. do poeta. sobretudo a partir dos anos 20. sobretudo. teremos mais prazer com ele e aprenderemos mais dele se ele for ele mesmo.S. T. passando por resenhas sobre The tower. Ezra Pound. sobre Pavannes and divagations. respectivamente. Wyndham Lewis. onde seria mais normal que estivessem. Gavin Ewart e Seamus Heaney. ao escrever. Yeats. os autores de língua inglesa reunidos na primeira parte são. como herdeiros de um projeto de pesquisa no universo da língua inglesa de que o grande irlandês foi.B. Assim. De maneira semelhante. que não se possa extrair. sobre Cathay: Translations by Ezra Pound. Reveries over childhood and youth. não queremos fazê-lo se comportar apenas como nós mesmos. Yeats é matéria de oito textos que abordam desde o remoto Responsabilities and other poems. e sobre The collected poems of W. Deste modo. respectivamente. diz Clutton-Brock: “Existe uma forte superstição entre nós de que uma tradução deve sempre parecer Inglês. por exemplo. de 1928 e 1934. ou mesmo Auden. Rilke e Kafka aparecerem na primeira parte e não na segunda. e não apenas os poetas. de 1953. uma ou outra observação para a leitura dele. Flint. Yeats. O que não significa. Yeats apontar para os inícios de uma fortuna crítica que não parou de crescer. pensamos que Mr. Joyce e Rilke a terceira. É o caso. e a última parte. de 1916. mais freqüentemente tiveram resenhas nas páginas do Suplemento. Wallace Stevens.B. desde aquele de 1912 que trata de Ripostes até o escrito por Christine Brooke-Rose. Não são textos de grande densidade crítica.S. não será absolutamente uma tradução se parecer Inglês.H.

” Por outro lado. Anthony Burgess. desde as primeiras traduções para o inglês de suas obras. Professor titular de teoria literária e literatura comparada. é a grande e inestimável contribuição de todo o volume. Arnold Bennet. Que biblioteca do século XX estará completa se não incluir Um homem sem qualidades. Na verdade. e que trata do aparecimento do primeiro volume de Em busca do tempo perdido. ao mesmo tempo em que ratifica o seu lugar numa biblioteca do século XX. não plágios. ou ainda os poemas de Kaváfis e a obra de Borges? Clóvis Ferreira/AE João Alexandre Barbosa é um dos maiores críticos literários do país.” São exemplos que. Letras e Ciências Humanas da USP. talvez. em 1923. acentuando o modo pelo qual o narrador deixa passar ao leitor o sentido das apreensões da consciência bem de acordo com teorias até então recentes acerca do espaço e do tempo. com competência.M. de Svevo? Para não falar nos poemas de Akhmatova ou de Kaváfis. ou mesmo estudados. entretanto. à repercussão internacional de alguns autores. autor de A metáfora crítica. sua obra marca uma época. “Proust and the modern consciousness”. A biblioteca imaginária (Ateliê Editorial). Arthur Waley e Virgina Woolf). Roy Fuller. Aldous Huxley. de Italo Svevo. escritos por Thom Gunn. dos anos 20. Ernst Kaiser. é notável a recepção imediata que foi dada. segundo Murry. no entanto. estão Clive Bell.D. o fundamento para o XXI. Anna Akhmatova. também podem ser fisgados nos textos que concernem aos demais escritores de língua inglesa que compõem a primeira parte do livro. já pode ir organizando a sua biblioteca para o século XX. Pound serão finalmente valorizadas. talvez. presidente da Edusp e Pró-reitor de Cultura da mesma universidade. No que diz respeito. sobressaindo textos como os de Erich Heller ou Michael Hamburger sobre o primeiro. logo percebeu em Proust “uma das grandes 12 CULT . As ilusões da modernidade (pela Perspectiva). de Robert Musil. será obrigatória a presença de um Guimarães Rosa. acrescentando: “O sentimento comum a muitos de seus leitores é o de que. a Thomas Mann. 30 e 40. de Musil.Mas é na resenha citada de G. E. já traduzidos. Ainda este ano. foi diretor da Faculdade de Filosofia. ainda maior. John Sturrock e Henry Gifford. cuja tradução para o inglês já nos anos 60 é objeto do texto incluído? Se o leitor acrescentar a todos esses autores um ou outro de sua preferência que não tenha comparecido (e se ele não esquecer a literatura brasileira. da mesma maneira. dos mesmos anos. Rilke ou Kafka. . mas insiste em seu modo de recepção pelo público leitor inglês que. Lytton Strachey. Mais interessante. International focus.S. Wallace Stevens. sem dúvida. Fraser que se encontra. A maior singularidade dessa primeira parte está.S. Jorge Luis Borges e Konstantinos Kaváfis. John Bayley. conforme aconselham ou sugerem os sentimentos de fim de século. Opus 60 (Livraria Duas Cidades) e A leitura do intervalo (Iluminuras). de Mary Duclaux. Forster. ou os de Alec Randall. o melhor juízo acerca do trabalho de tradução de Pound: “É como uma adição durável e uma influência sobre a poesia original na língua inglesa deste século que as traduções de Mr. Eliot e James Joyce (e neste último caso. Edwin Muir e Anthony Powell sobre Kafka. de um Carlos Drummond de Andrade ou de um João Cabral). também pela Ateliê. A consciência de Zeno. São poemas. no Brasil? Ou a obra de Borges. Joseph Conrad. às vezes. que será. a leitura da segunda parte do livro. ou A consciência de Zeno. Na verdade.novembro/98 figuras da literatura moderna”. A imitação da forma. seja aquela escrita. de 1913. nas resenhas que dizem respeito aos quatro escritores estrangeiros e chega a ser espantoso que Marcel Proust tenha um número de resenhas somente menor àquele dedicado a T. sobre Rilke e. João Alexandre assina mensalmente esta seção da CULT. não obstante o que há de fragmentário nos textos das resenhas incluídas. do próprio Randall e de R. Italo Svevo. Roger Fry. perdendo apenas por uma!). Robert Musil. cujo nome foi inspirado no título de seu mais recente livro. Desde o primeiro texto coletado. que é precedido por um “Tribute to Marcel Proust” assinado por numerosos escritores ingleses quando da morte do grande escritor (dentre os mais conhecidos. afirmase a extraodinária importância da obra proustiana e o próprio título da resenha indicia o futuro discurso crítico a seu respeito: “Art or life?”. por John Middleton Murry. onde há uma curiosa nota de comparação literária quando a autora lembra Henry James para pensar na presença da infância na literatura. o texto de Murry é precioso na medida em que não apenas medita sobre a própria construção da obra de Proust. Que biblioteca do século XX estará aproximadamente completa se não incluir Um homem sem qualidades. com competência. de alguma forma. Charques. ali estão textos integrais sobre Marianne Moore. o crítico lançará a coletânea de ensaios Entre livros.

e eu querendo querer-te sem ter fim.. no antológico poema “O quereres”. em locuções verbais. o infinitivo não deve ser flexionado – afinal.. a decisão sobre o infinitivo é mesmo pessoal. novembro/98 . que não perdoava um infinitivo: “Precisamos lutarmos para podermos vencermos os jogos que vamos disputarmos para conseguirmos nos classificarmos”. Quando se diz “Os jogadores correram para ouvir as instruções do técnico”. a flexão do infinitivo é obrigatória. No texto. eu sou obus. para eles fazerem). Quando se flexiona.e conjugar o verbo no infinito”. o teu querer e o teu estar. Em textos literários. Dizia o mestre que. como fez Vinicius de Moraes num belo poema que termina justamente com algo parecido com “. No entanto. do Diário do Grande ABC e de O Globo. Até a próxima. Como se vê. da TV Cultura.” No final do poema.. Também se diz “verbo no infinito”. Será errado flexionar o infinitivo nesses casos? O professor Celso Cunha tinha uma ótima explicação para isso. é meramente gramatical. consultor e colunista da Folha de S. Já em textos jornalísticos. É óbvio que.. no caso. para nós fazermos. ou seja. manifestou bela visão do problema. já se flexiona o verbo principal. é preciso que haja um motivo muito particular para que seja necessário enfatizar o agente. Lembro-me também de um grande supermercado de São Paulo. A flexão. por gentileza. A flexão (“ouvirem”) seria mais do que inútil.. às vezes. querer-te mal. Às vezes. Paulo. Não é preciso muito esforço para entender o porquê disso. manifestar o pensamento de quem fala no poema. hoje treinador.. autor da coluna Ao pé da letra. a apresentar o infinitivo pessoal (para eu fazer. já que seu sujeito (“deputados”) é diferente do sujeito do verbo da oração anterior (“presidente” – sujeito de “fez”). várias situações podem justificar essa necessidade. não parece haver nenhuma razão estilística que torne ultranecessário enfatizar que eram os jogadores – e não sabe Deus quem – que queriam ouvir as instruções do treinador. enfatiza-se o agente – “os deputados”. já que seu sujeito (“os deputados”) é o mesmo do verbo anterior (“fizeram”). às vezes se torna necessária. quando não se flexiona o infinitivo. nesses casos. em textos literários é comum a flexão do infinitivo que participa de locuções quando muito distante do auxiliar. é o emprego do verbo no infinitivo. Melhor não lhe revelar o nome. E ainda faz brincadeira com a língua ao dizer “infinitivamente pessoal”. Mesmo assim. que continua mais aberto do que nunca. Bem a ti: mal ao quereres assim. em que de cinco em cinco minutos se ouvia algo como “Queiram.”. Caetano mostra as contradições do comportamento humano (“Onde queres revólver. por clareza.. misturando elementos gramaticais com os da personalidade humana. Pasquale Cipro Neto professor do Sistema Anglo de Ensino. Infinitivamente pessoal. sou coqueiro (.) e. ou seja. no caso. Caetano Veloso. Numa frase como “O presidente fez o possível para os deputados aceitarem a proposta”. Na verdade. se enfatiza a ação – a de comparecer. Pretendo apenas clarear o que pode ser clareado. Um forte abraço. Lembro-me de um ex-jogador de futebol. a flexão do infinitivo não é necessária. numa demonstração de pleno domínio do instrumento lingüístico..CULT 13 . diz: “O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual faz-me querer-te bem. Não pretendo aqui fechar a questão ou ditar normas cabais a respeito. sem dúvida. Caetano se vale justamente do infinitivo pessoal substantivado (“o quereres”. o teu modo de querer e o de estar) para. “o estares”. quando se diz “Os deputados fizeram o possível para comparecer”. onde queres coqueiro. idealizador e apresentador do programa Nossa língua portuguesa. é pouco provável que isso ocorra. Também não era o caso do futebolista. Dizem que o português é a única língua – ou uma das poucas – a flexionar o infinitivo. comparecerem ao local. Gramáticos e gramáticos já trataram do assunto. Agora vamos ao que conta. Certamente não era essa a situação do locutor do supermercado: auxiliar (“queiram”) e infinitivo (“comparecerem”) estavam muito próximos.”.INFINITIVAMENTE PESSOAL Pasquale Cipro Neto Uma das questões mais polêmicas da língua portuguesa.

”.A LITER ATUR A HEBR AICA NO ESTADO DE ISR AEL No ano em que o Estado de Israel completa 50 anos. consubstancia não só os anseios pessoais da mais alta expressão da musa hebraica na Espanha moura. Guinsburg A que. mas que em sua existência israelense realizou a aspiração milenar de retorno às raízes históricas. Era o chão de acesso à fonte de onde derivava uma parte fundamental de suas forças vitais e onde contava beber um dia o elixir da juventude. a sua literatura. manteve-se apegada a esse passado-futuro. lançado entre a lembrança histórica e a esperança escatológica. Desde a destruição do Segundo Templo.novembro/98 J. que faz eco ao salmista de “Junto aos rios da Babilônia. respondendo aos desafios do presente com uma arte que representa o caráter vertiginoso e multifacetado da modernidade pós uma peregrinação de dois milênios. da nostalgia do passado e da idéia de redenção. em quase todas as fases de sua atribulada trajetória. a realização dessa busca e desse sonho. Como a planta que brota da decomposição de suas sementes. a criação literária hebraica em Sion espalmou-se em direção própria. o ensaísta J. resolvendo o angustioso dilema que levara Iehudá Halevi a exclamar: “Meu coração está no Oriente enquanto eu resido no extremo Ocidente!”. acompanhando o povo judeu pelos quatro cantos do mundo. como todo o problema de uma literatura 14 CULT . sem dúvida. em essência. jamais conseguiu desfazer-se.. Guinsburg escreve sobre uma literatura que jamais conseguiu desfazer-se do sentimento de exílio. Mas.. a literatura hebraica retornou à sua terra de origem. sob o . que hoje cresce com todo o vigor de uma existência normalizada. Israel moderno é. de modo nenhum se tornou um mero reflexo daquelas raízes. do sentimento de exílio e da nostalgia de um passado que era a própria condição de subsistência e o único penhor de futura redenção. Essa frase.

outra. no plano da história. Há quem veja neste fenômeno. da cultura ou da mentalidade de grupos de escritores tidos como representativos e designados como tendência. resultou numa produção narrativa no conto e no romance que diz da vida e do espírito de Israel atual. * Para dar ao leitor uma idéia algo mais particularizada do que seja esta produção literária do gênio hebreu na Terra da Promissão e quais os desdobramentos de sua criação ficcional.Ilustrações de Iury Bueno influxo da realidade do solo em que se baseia. Ionatan Ratosch. Mas. Se se tomar por base. geração. pertencem às duas últimas correntes. A anterior. Tampouco foi possível encontrar na bibliografia específica uma nomeação mais expressiva para a leva de escritores que se apresenta a partir dos novembro/98 . Sob este ângulo. nem por isso se pode deixar de notar a abundância. aqui como lá. na prosa e na poesia. o qual. que se poderia chamar a dos Pais e que incorpora algumas das figuras seminais das letras neo-hebraicas na Terra Prometida. poder-se-ia falar de três tendências básicas da exegese. semelhante empreendimento constitui sempre uma redução a conceitos e denominações cujos objetos. que em todos os domínios se lhe apresentam. é preciso naturalmente recorrer a conceituações e divisões de que se valem as abordagens críticas em suas tentativas de enfeixá-las e distribuí-las na diacronia e na sincronia. Não há por que rejeitar in limine esse parentesco. na invenção poética. de caráter histórico e sociologizante. estética e/ou cultural segundo feitios determinantes. uma terceira. Pode-se falar. certa simplificação didática que pode eventualmente corresponder a um ou outro e até a vários traços pertinentes a algum tipo de comunhão literária. Eu diria que dois dos principais expoentes da crítica israelense mais recente. os números da população e os das obras impressas. Lea Goldberg. que aliás não definem nenhuma novidade especial. aqueles espécimes que a indústria cultural e as mídias oferecem às massas em forma de livros. também pelos parâmetros do chamado primeiro mundo.CULT 15 . de sua escritura na ficção romanesca mais ambiciosa e. o gosto pela arte do verso tem ficado cada vez mais restrito a grupos especializados. nos estilos e nas estratégias poéticas da linguagem criativa. apesar de suas notórias divergências de concepção. mas para situá-las mediante um dado pragmático de referência no tempo. sem dúvida. e. um índice dos mais elevados. fazem apelo à literatura poética. No caso de Israel. em nomear as duas das três gerações de autores nascidos em solo israelense como sendo a da Terra e a do Estado. Uri Tzvi Greenberg. no curso de suas andanças históricas. por exemplo. principalmente. há sempre uma arbitrariedade ou. Mais do que em outras formas de expressão artística. Schmuel Iossef Agnon. coincidem. mesmo porque. Dvora Baron. escola. onda. os ressemantiza com os sentidos da vivência atual. entre outras substantivações caracterizadoras. De outro lado. Natan Alterman. no Ocidente. inclusive qualitativa. como. que seriam neste caso a dos Avós – é um conjunto que foge ao nosso foco do momento. assim como analistas filiados à primeira postura. por sua vez. na moderna literatura israelense articulam-se as representações mais significativas dessa nova experiência judaica. igualmente. corrente. não só em termos da região. um traço de suas afinidades com o mundo leste-europeu. Sem pretender analisar o quanto ambas são responsáveis por este fenômeno. Avram Schlonski. numa rica produção israelense no campo das letras. Cito-os apenas para aduzir que. é certo que o estro hebreu desenvolveu também. para não mencionar Haim Nachman Bialik (1873-1934) e Saul Tchernikhovski (1875-1943). de um modo geral. sem exagero. da psicologia. não para conceituá-las. por este ou aquele lado. ter-se-á. em que ecos muito antigos ressoam no discurso da contemporaneidade. pode-se imaginar que o hebraico está entre aqueles idiomas que. sem contar a literatura dramática. se se quiser. que é a de nosso tempo. se recusam a tal sujeição. ambos. como este o é. Uma. da sociedade. provavelmente. nesse pequeno país. Mas cumpre não esquecer o poderoso impulso que o leitor israelense recebe da tradição literária hebraica e da própria língua bíblica. homens de todos os dias e de todos os países em seu país. de um modo particular. Mas não vou analisar aqui a natureza de suas colocações. Haim Hazaz. Gershon Shaked e Dan Miron. que trabalha na intersecção de estrutura e sociedade. violenta e inovadora. e na especial popularidade que a poesia goza entre os israelenses. Mas. que é a de uma nação e uma sociedade com características sem par em seu passado. tratados nos cadinhos da moderna estética literária e. que colhe os seus critérios nos procedimentos. por suas formas de estruturação e pelas cargas semânticas que neles se depositaram ao longo do tempo. como foram Iossef Haim Brenner. e a de uma luz. É claro que se incluem aí. um forte veio narrativo e estilos epicizados de linguagem que. na fala de seus interlocutores israelenses.

de Rifka Berezin. de uma pequena recolha Primavera em fogo (seleção de J. pode-se dizer que predominam. Isto. do Palmach. que anteriormente ocupava grande parte do cenário das letras e projetava-se como a sua expressão mais inspirada. com a do homem moderno em sua projeção universal. Amós Oz. Aron Megued. se não totalmente desconhecidos. identificados com uma certa idealidade da terra e do homem. Como os prosadores. embora não abandonem a luta pelos ideais da reimplantação no solo pátrio e da criação de um novo tipo de homem judeu. 1952) e de duas coletâneas mais abrangentes. de maneira indelével. Ioschua. pode-se apelar para o hoje tão abusado “pós-moderno”. Hanokh Bartov. Guinsburg. não de sua mensagem. A. de fato. É então que Haim Guri. nesse grupo. que se expressa também com técnicas do fluxo de consciência. sua dicção desce dos cimos românticos e se desfaz da impostação e das simbolizações altiloqüentes. Izahar não deixa de transparecer esta atração pela interioridade. independentemente do efeito que tais procedimentos possam ter nos universos ficcionais constituídos e do que 16 CULT . Mas não só neles. se a busca é de algum cabide denominativo para pendurar nele a nossa desorientação. outra das designações correntes da geração do Estado. a marca do realismo. este timbre.. que tenha havido agora uma solução de continuidade criativa e uma incompatibilidade estética no que tange à produção poética. repudiam a retórica altissonante da “sionistada” e heroificam as suas personagens e os motivos de suas ações a partir de um foco interior. Benjamin Galai. uma publicada em 1967 sob o título de Nova e velha pátria (org. ao menos pouco familiares. Igal Mossinsohn. Benjamin Tamuz e Iehudá Aezrakhi que fazem soar notas onde se podem captar ecos de Schnitzler e até do surrealismo. desde logo. porque mesmo em Schamir. mas certamente de suas sugestões de leitura e do universo de valores que propõem – positivos. e de Dan Pagis. envolvendo-se num “eu” que guarda nas dobras de seus versos as representações do nacional e coletivo. Aharon Appelfeld. o sabra. em que pese o fato de serem articuladas preferencialmente em pauta lírica ou mesmo intimista. S. nesta mesma plêiade encontrar-se-á um outro segmento que. A eles cabe acrescentar os nomes de Aba Kovner. mesmo se se levar em conta que vários expoentes do ciclo aqui indicado como inaugural foram objeto de traduções esparsas em revistas de pouca circulação. Mosché Schamir. No conjunto. Perspectiva) e outra em 1983. Amália Kahana Carmon e outros mais. Schakham e. Fato que talvez tenha a ver com o caráter inteiramente individualizado ou irredutível a denominadores comuns. do discurso livre indireto. as vozes do “nós”. E o fato é tão marcante que no correr dos anos. de J. em particular nas duas últimas décadas. em escritura original. parecem carregar. Entretanto. desloca do primeiro plano a poesia. do auto-sacrifício e da luta pela independência. Guinsburg. os nomes e as obras que compõem tanto a primeira geração de escritores propriamente israelenses quanto a que a sucede nos anos 60. Isto não significa. por Rifka Berezin e seu grupo da FFLCH da USP. Izahar (nome literário de Izahar Smilanski). com o nome de A geração da Terra (org. porém. 1978). quando despontam. B. entre outros. sobretudo. em sua linguagem. temas e modos narrativos. Símbolo. Natan Schakham. diferenciando-se de tudo o que os precedera por uma objetividade e um despojamento que. embora a arte de cada um seja bastante singularizada. se apresenta com viés impressionista e lírico. veio a ser apresentada pela primeira vez em livro. É o caso de Itzhak Oren. a partir dos anos 40. onde. ainda hoje. uma amostragem significativa de sua produção. Quanto à “Nova Onda”. Ed. da Haganá. Summus Editorial). . ficcionistas de têmpera com uma abordagem e uma linguagem que lhes recorta um perfil próprio para além das letras hebraicas. um dos comandantes do gueto de Vilno. Ao contrário. um pouco mais velho. Hilel e Amir Guilboa. começam a publicar seus poemas.novembro/98 Aron Megued Para o público brasileiro. marcantes e abarcantes de sua produção e de seus perfis literários. o fluxo do verso hebraico não esmoreceu. Vale assinalar que este é também o momento em que a prosa de ficção ganha maior relevo junto ao público leitor israelense e. tanto quanto antes. de uma subjetividade que não se pretende ideológica. com O novo conto israelense (Ed.Fotos/Divulgação Mosché Schamir anos 80 deste século. pela saga das renúncias pessoais na vida coletiva. Foi em seu contexto que o nosso leitor teve acesso a narradores como A. dos grupos de companheiros. até certo ponto. na medida em que nos seus relatos a problemática específica de seu universo humano no espaço de sua identidade nacional e cultural cruza-se. este cepo de criação sobretudo romanesca vem se poderia chamar. Pretendeu-se que a geração da Terra trazia estampada. ocasionalmente veiculada em português na imprensa judaica local. na forma de uma vinculação simbiótica com as modalidades peculiares assumidas pelo esforço de construção nacional.. E. continuam sendo.

Não se pretende. pois não há como deixar de concordar com Dan Miron. A opção pela individuação passa pelo emprego das técnicas que. despolarizam figuras.CULT 17 . Do ponto de vista dos recursos de construção e da economia formal. é certo. à paisana. a marcação pelo ritmo e. a poesia de Iehuda Amichai se apresenta desde o princípio em tom menor. o uso da métrica e das rimas acentuadas permitem-lhe desenvolver uma escritura epigramática e também analítica que permeia as suas frases de ironia e reflexão e que lhe dão a fluência da língua falada com a musicalidade de versos simbolistas ou. sem se propor a abri-las. a paródia e o absurdo vasam em linguagem coloquial. mesmo porque alguns dos partícipes do novo ciclo começaram a publicar já na década de 50 e se muitos dos poetas do primeiro grupo jamais pertenceram à Palmach. chega às portas do transcendente. mesmo. antes privilegiadas. neo-simbolistas. fazendo-as girar satírica ou grotescamente em torno dos espectros de sua unidade ou inteireza – de sua organicidade perdida. Todavia. contrapor aqui criticamente a geração do Estado à da Terra ou do Palmach. I. na geração da Terra ou. e encarece um temário profano e corriqueiro. não obstante o estranhamento imagístico assim suscitado e seu efetivo descompromisso mimético com eventuais modelos no mundo real. quando seu estro enérgico e cheio de fé em si mesmo leva ao extremo. A. um dos nomes exponenciais do segundo. por fragmentação e colagem. uma poesia em essência do viver humano. mais na dicção poética inglesa e americana do que na russa. acentua-se nos seus autores e nas suas obras a estreita desvinculação ideológica ou programática. Na poesia. seja em novembro/98 . quanto uma modificação de estado de ânimo. nos anos 60. algumas das técnicas preferenciais do poetar moderno. os problemas da vida e do espírito do homem moderno. o processo iniciado anteriormente faz-se mais sensível: um real deslocamento de eixos. como as palavras aparentemente banais. que falam do despoetizado quotidiano na sua relação com a vida e a morte. quando vê nessa divisão mero jargão jornalístico. o que pesa aqui não é tanto uma reorientação de linhas de influência. pois. é em Natan Zach que se há de encontrá-lo. como vimos. Ao mesmo tempo. mas que vai desembocar e se espraiar no terceiro grupo. para o Holocausto e. Assim. foi membro dessa tropa de elite e lutou em várias de suas mais duras batalhas na Guerra da Independência. B. porém. se o traço de sensibilização líricoimpressionista das personagens e dos cenários se acentua em seu âmbito. nem por isso se desfaz o laço narrativo com a memória histórica. que refuga o verso ritual e épico das grandes questões nacionais e públicas e se exprime na preferência pelo poema curto. numa dinâmica que é de ambas. assume também a clara feição de uma mudança na esfera das atrações eletivas e das afinidades de gosto que se fixam. seja em nível político. de outra parte. ao contrário. pois não só as imagens são descoladas de sua capa familiar e deixam entrever o seu corte irônico. Natan Schakham Contudo. transferese do social e coletivo para o existencial e pessoal. alemã e francesa. onde o lirismo. é que. pelo absurdo e pela paródia existenciais. com o amor e a guerra. retrocedendo da proximidade temporal de eventos como a Guerra da Inde- Benjamin Tamuz pendência ou a dos Seis Dias. ele já figurava. O estranho. bem para trás nos longes da Diáspora e da trajetória judaica. se se pode falar de um projeto poético desta ou nesta geração. qual elocução corriqueira do homem comum a comentar coisas pouco dramáticas. David Avidan. como a aliteração. Schabtai e notadamente a de Amós Oz (a maior parte das quais em versão de Nancy Rozenchan) são divulgadas cada vez mais em vernáculo. É verdade que esta é recuada. não há como distinguir por um caráter inconfundível esta segunda “Onda”. Izahar atraindo a atenção de editores no Brasil e as obras de Ioram Kaniuk. Na verdade. ela evidencia que se trata de um conjunto de romancistas dotado de poder de ressonância intrínseco e não meramente de um efeito gerado pelo montante prestígio internacional do autor de Meu Michel. de situações circunscritas e personalizadas. que por certo está aí presente. seja em nível estilístico. seja expresso em teoria do poema. resulta inclusive da conjugação de um certo prosaísmo coloquial carregado de elementos verbais da atualidade tecnólogica e comunicacional com um certo fundo clássico. O toque surreal. alguns de seus integrantes evoluíram nitidamente em tal direção. agora. dos anos 80. paisagens e situações.S. em rima livre ou verso branco. convertem-se sem gestos maiores em estranhos e pungentes desmascaramentos poéticos dos chavões institucionais. mas permanece como uma espécie de fonte viva da epicidade e do substrato traumático de experiência vivida. das opiniões consagradas e das gloriolas militares. A ênfase. nos padrões culturais e nos parâmetros literários. Ioschua. Entretanto. mas essa clave não subsiste tão logo o ato de recepção se completa. Por limitada que possa ser tal comunicação. com a nova leva de criadores. quando não. ao mesmo passo que tenta libertar seu ego das limitações do tempo e do espaço. segundo alguns.

Iehudit Katzir. numa enquete promovida pelo jornal israelense Iediot Aharonot. Orli Castel-Bloom. tanto na linguagem como nas idéias. nos vemos impossibilitados de fazê-lo no tocante aos escritores dos anos 70 e. Trata-se de uma produção variada e pluralista. o que corresponde à década de 80 é um intento alucinado.] A narrativa jovem sofreu na década de 80 a influência de uma corrente pós-modernista que. Nurit Govrin. reivindica uma poesia da imediatidade concreta e existencial. seria preciso somar vários outros. o âmbito. transformou sua perplexidade em politizada militância literária em prol da esquerda em Israel. [. fora do âmbito literário. Elas são de professores universitários. se possa encarar como uma quarta tendência que se incorpora aos três estilos clássicos da prosa. aos três poetas acima invocados. algo como procurar interromper a corrente de um rio.novembro/98 Ioram Kaniuk indica a ausência de grupos seletos na narrativa ou um congelamento interno. e poetas como Meir Wiseltier. não tanto por um exame de consciência na meia-luz de um confessionário da subjetividade. a problemática e as características que o debate crítico. no presente contexto. na ordenação ora adotada. vem atribuindo ao que se constituiria. escrita com a inflexão áspera e incisiva do hebraico israelense.. na década de 80. o debate comedido sobre os problemas da literatura. Obras superficiais e banais concitam a atenção pública. A idéia de best seller popular e a repercussão nos meios de difusão... o caos é absoluto. a assim apelidada geração do Estado.. Na prosa. 80. Narradores como Iaakov Schabtai. [. sobretudo. não haveria como encompridar o nosso rol em chamadas individuais. Gabriel Moked.. as tendências contraditórias de realismo e fantasia levaram a uma perda da pauta do que é conto e do que é romance e qual deve ser a relação com a realidade”.. – tentou-se fazer ecoar aqui algumas das vozes e das posturas neste confronto. Iair Hurvitz. obras de 30 autores de todas as idades no começo da década e os 65 volumes de prosa produzidos por 60 autores ao final da mesma década [. iniciada pela meditação apolítica acerca do banal na condição humana. quanto por uma lúcida operação crítica a incidir ironicamente sobre a razão de ser. tendo ela perdido o seu papel de guia espiritual que desempenhou na primeira metade de nosso século. numa espécie de terceira onda de sua literatura – um vagalhão com muita água da primeira e da segunda.”. Com esse enfoque. Verifica-se também o abandono dos grandes temas sempre em voga na prosa aqui enumerados como citação para um eventual futuro encontro com o leitor brasileiro. do verso bem-feito e do efeito cerimonial.]. é visto como o marco histórico e o manifesto estético da nova contra a velha poeticidade. Em sua agenda criativa. não há um modelo de escritura prevalente. 1959. O signo dominante deste decênio é a ausência de uma linha uniforme. na qual todas as guardas continuam ativas e fecundas. desalento e descrença que se tecem como sombras projetadas. discerniram-se interessantes tendências dentro da prosa que não mais eram fruto de um determinado interesse público. como Dahlia Ravikovitch ou Pinkhas Sadeh.] Mas o signo característico dos anos 80 é o desenvolvimento de tendências e não uma coleção de escritores. É evidente que. Maia Bejerano.. Savion Liebrecht. “a tentativa de recortar. por exemplo. registra-se uma lírica perpassada de tensão. por seu turno. dentro da continuidade da literatura. declara: “Marca a década de 80 o surpreendente volume quantitativo da literatura hebraica em todos os gêneros. do mesmo modo que. Na opinião de Menakhem Peri. sem nenhuma demarcação. Comprovam esta abundância os 35 textos de prosa dignos de nota.. por igual razão.. Mas a fim de não deixar no vazio.] Na poesia.” Para Ortzion Bartaná.. obras revolucionárias não a obtêm e seus autores se vêem impossibilitados de salientar sua originalidade. tendências que talvez venham a moldar a narrativa dos anos 90. “a literatura israelense da década de 80 vai sendo criada dentro de uma confusão que encobre um total desmoronamento dos sistemas. a obra de Natan Zach deu relevo a uma produção poética que. Lea Aialon apenas serão 18 CULT . escritores e críticos militantes que. na qual se registra uma troca de guarda geracional. Ao contrário. Iona Walach. durante todo o curso dos anos 80. se pronunciaram a respeito das propensões e das perspectivas atuais da produção literária da nação hebraica.. detecta-se o estabelecimento de uma igualdade quantitativa entre ambos os sexos de autores.. assinala que “a comercialização e as relações públicas substituíram. Mas isso não .. Rejeitando os valores da “bela arte” e da arte bela. Pela primeira vez. Itzhak Orpaz.. para que se pudesse ter um elenco minimamente representativo do segundo grupo na ordem cronológica.Amália Kahana Carmon texto de poesia. da reticência sensibilista e da ênfase exclamativa. Mas. em Israel. tomaram o lugar da avaliação da qualidade intrínseca da obra. [. Seu ataque polêmico contra Alterman. talvez.

Sem ajuizar a qualidade dos escritores de ofício e novatos. organizada por Dan Miron e vertida por vários tradutores. Porém. uma vertente destacada da criação literária contemporânea nas diferentes feições de sua modernidade estética. nesse sentido. quer de poemas esparsos de alguns dos mais representativos criadores do novo espírito da invenção poética hebraica em Israel moderno.CULT 19 . entre outros ISRAEL EM TRADUÇÃO A produção poética israelense foi transposta para o português esporadicamente.. em livros como Bereshit: A cena da origem (1990) e Qohelet/Oque-sabe (1993). Bruno Schultz) que penetraram na consciência dos escritores hebreus através de excelentes traduções”.. ao ver desta crítica. na “tradição expressionista-simbolista”. da crítica. García Márquez. Isto não significa que a linha dos anos 60 e 70. de modo que. no outro. e o constante ocupar-se do próprio processo de escrever: literatura sobre literatura. velho. professor de estética teatral da ECAUSP e autor de Aventuras de uma língua errante – Ensaios de literatura e teatro ídiche (Perspectiva). de uma escritura predominantemente religiosa à laicidade crítico-beletrística da Hascalá (“Ilustração”). que não obriga à crença em Deus. se desenvolve uma literatura que alcança essa dimensão pelo aferrar-se ao aqui-agora. bastante ridícula. organizada e traduzida por Cecília Meireles..” * Como se vê. a literatura fantástica cuja essência está na dimensão trascendente [. como Nancy Rozenchan. Merece destaque ainda o trabalho que Haroldo de Campos vem realizando nesse terreno. Esse império é sintetizado pelo crítico. com isso. ele encontra nas obras narrativas e poéticas. enquanto a de 80 lhe parece ser a do “surgimento e desenvolvimento do grotesco”. Gershon Shaked. novembro/98 . ainda que o materialismo abstrato. funcionário ou prostituta.. edificando.” Hilel Barzel entende que “a literatura hebraica da década de 80 deva ser lembrada como a da época na qual se registrou uma mudança significativa: a passagem do estilo abstrato-simbolista e extremamente imaginário para uma variante que vai em busca da realidade revelada [.] Dois movimentos aparentemente contraditórios penetram nas diversas tendências. “a década se caracterizou pela ousadia da experimentação... Guinsburg e. escrevendo sobre a década de 70. do Iluminismo aos padrões artísticos da literatura européia do séculos XIX e XX – em responder aos desafios da atualidade com uma arte correspondente ao seu caráter vertiginoso Iaakov Schabtai e multifacetado.] e. que reflete o domínio do grotesto em nossa vida”. a saber.]. Rifka Berezin etc. dá lugar a uma postura grotesca. embora o legado de Agnon continue exercendo forte impacto. e depois. cuja seqüela é o crescente temor apocalíptico. somou-se Quatro mil anos de poesia (1969). O idioma vertical que luta por ater-se às fontes clássicas é substituído pelo idioma horizontal que emula o modo de falar e expressar-se das diversas vozes. [. não tenha perdido vigor e tenha ganho inclusive variedade e transcendência. mas também se empenhou – em um novo salto. nos cinqüenta anos de sua existência israelense. a resumiu como sendo a da vivência “em gris”. Aí se perfila uma tendência para inverter as normas do materialismo agônico que compreende também a substituição de seus elementos religiosos por uma postura metafísica geral. Em sua visão. como o que a levou. A uma primeira coletânea Poesia em Israel (1962). conforme a relação do transcendente metafísico com a dimensão real-física. a abordagem é cada vez mais a do homem na sua qualidade de homem e menos a de atalaia da Casa de Israel”. e mesmo na dramaturgia. Natan Zach a vitalização da dimensão política. criança. Em um extremo. tenham deixado de marcar presença. que origina o grotesco artístico na literatura que. em grande parte ao valor que o novo contexto atribui a tal atividade. psiquiatra ou soldado. de Zulmira Ribeiro Tavares e J.” Segundo Ruth Carton Blum. a era do grotesco. mas “a linha grotesca é dominante”. mais recentemente. pelo colorido de vozes. por sua vez. editor. uma “chave comum. Corrupção grotesca na vida. A que atribuir esse resultado? Sem dúvida. como era a sua aspiração milenar. que predominou anteriormente. cabe considerá-la como um fruto não só legítimo mas profundamente representativo do Estado hebreu.Amós Oz israelense. nos seguintes termos: “Em suma. com transcriações quer do legado poético bíblico. fenômeno devido ao acesso a influentes literaturas estrangeiras (Faulkner. da sociedade que o constrói e da cultura do povo de Israel. distinguem-se na década “duas tendências cardiais. J. nos fins do século XVIII. Guinsburg crítico literário. a edição de Poesia moderna de Israel em Poesia sempre (1997). pais e filhos. a literatura hebraica não só prosseguiu no seu intento de reimplantar-se no habitat de suas raízes históricas.

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Lizete Mercadante Machado MULHERES CONTO novembro/98 .CULT 21 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ .

Pega a pinça. Ou de dar uma porrada na Ritinha. Droga. O endereço da revista C U LT é R u a R u i B a r b o s a . Vai até a janela. Acende outro cigarro. – Lá em Minas. c o m . Um carro diminui a marcha no semáforo. – Continua andando ao lado. – Jingolbel. Vestiu-se de Papai Noel e tive de aturar minha filhinha daqui minha filhinha dali. Pronto. Cara de quem chorou ou dormiu demais. acende um cigarro. Lembra a vez que o rapa levou a Ritinha. É a Ritinha de novo. Procurar os gringos. Decide pôr a mini de cetim negro. Dói. dei em árvore – responde mal-humorado. Um bêbado roncando no canto do balcão. tá? Sai para o meio da rua e vai descendo. – Teu ponto não é lá na Consolação? – Já desisti. O frio na barriga. Me deixou a roupa. – Um hollywood – pede a mulher. Conseguiu me estragar a noite. Enquanto espera o troco olha para as duas. sai. Ritinha. na expectativa. quando encarna. – É – responde. Quase meia-noite. – O mau humor começa a voltar. – Quantos anos tem seu filho? – Sete. A luz ilumina todos os poros do rosto ainda sem maquiagem. Antes de sair lança um último olhar ao espelho. – Ninguém até agora? – pergunta para quebrar o silêncio que já vai pesando. as outras nem vieram. Deve ser sozinha. A fenda na altura da coxa. depois mandei pra Minas. Encosta-se no poste. – Ri. sonhei que era do Roberto Carlos. Pega a bolsinha de strass. que sou viúva. Bela. A mulher do hollywood recolhe o troco. A revista CULT publica mensalmente a seção CRIAÇÃO – um espaço destinado a poemas. É só a Ritinha. Melhor rodear o Hilton.. tá? – diz irritado. Burra. – Você não tem família? – pergunta. – Pra sua casa pra quê? – assusta-se. Querem esquecer e vêm. nenhum movimento. jingolbelllll – acompanha com o falsete bem acentuado. Os originais – contendo no máximo 150 linhas de 70 caracteres – serão avaliados e selecionados pela equipe da revista CULT. C E P 0 1 3 2 6 . Não dói? Pára um segundo. lá no Mappin. mora com a minha mãe. sabe. Não é de michê. – Quando você era pequeno tua mãe te chamava como? De Chico? Merda! Mas a Ritinha. Continuam andando. depois a sombra. Os trabalhos e os dados biográficos do autor (incluindo endereço e telefone para contato) podem ser enviados via e-mail ou pelo correio (neste caso.. Vou tomar um conhaque e ir embora. escova-a mais do que necessário. vai arrancando um a um os pêlos que apontam. Pagam bem. – Não. Não tem movimento hoje. mal lhe chega ao ombro. Como ele mesmo. pondo uma nota no balcão. E não consigo me livrar dessa putinha! Ela sempre gruda desse jeito. o gesto cortado ao meio. Empresários a negócios. Saco. Parece cilada. os originais impressos devem obrigatoriamente ser acompanhados pelo texto em disquete. né? Saí hoje mais pra andar. meu bem. a pinça no ar. Achou que ia ser até bom. sempre dá encrenca. O saco vai ser ouvir a ladainha. Ritinha ri. S ã o P a u l o . eu no colo dele que nem bebê. Movimento hoje só com os gringos. pensa. coitada.. Espalha a base. Começa a sentir uma desesperada vontade de beber. – Outro conhaque – pede. fazendo pose. Natallonge-de-casa-os-filhos-uma-data-como-essa-ea-puta-que-pariu. Mas acabou indo pagar a fiança. e . Por causa do Roberto Carlos. Minha mãe pensa que eu trabalho em casa de família. Mais ninguém. – Meu filho – Ritinha repete. mulher! Você não dá folga não? – Mas tem algo morno na voz. – Não é triste estar sozinho no Natal? A Ritinha não se manca! – Desgruda um pouco. Pelancuda e despencada estou fodida. – Ninguém. Preciso cuidar da pele. – Olha.novembro/98 . Tira a peruca da cabeça de pau. Pode ver nas salas em frente grupos conversando. exagera no rebolado. Miudinha. Não ia agüentar aquelas quatro paredes. – Como é seu nome de verdade? – Francisco. Vou andar. Lá vem fossa. A Ritinha fica com o olhar parado. Mas o olhar é de vidro. Fez sete agora em dezembro. Comprei um robô pra ele. Ajusta-a e afasta-se do espelho. – Natal. percebe que é uma mulher. – Merda – resmunga. olhando-se de todos os ângulos. – Meu filho chama Roberto. A Ritinha se cala. ousada. pensa. – É. tá Ritinha? Ritinha nem ouve. Entra uma mulher. Vira-se. – Jesus. E começa a chorar. se vê. Não vou conseguir escapar. pinheiros. A Solange queria que eu fosse com ela num baile da Moóca. Tive de dar fingindo que era criança. Chegam bêbados. aliás. Mulher é foda! Aí franze a testa. contos e textos literários inéditos. Ritinha nem liga. Anda. olha os prédios iluminados. Às vezes a dor volta inteira. Ela é tão péfrio. meu irmão vai usar agora pra fazer o Natal dos meninos. Esses vêm. Como deve ser. aquela sensação de peso apertando-lhe a cabeça.Acende a lâmpada sobre o espelho do banheiro. desmentindo a dura. Transpassa.0 1 0 . Lá em Bom Repouso o pessoal pensa que o pai dele morreu. A Ritinha já destampou de novo: – Passar o Natal longe da família é foda. Belíssima. nasci da terra. Fragmentos de música. lá em cima: – Cadê Papai Noeeeelllll? Passos. levantando bem o joelho. b r 22 CULT . Valoriza. o batom. O ponto está deserto. – Lá tem um bar aberto – aponta a Ritinha. bebendo aos poucos. Caminha junto. Suspira. Passos. – Daqui a pouco melhora – tenta consolar. – Se descobrisse. – Lá pelas duas. o rímel. Acelera os movimentos. Um bêbado põe a cara na janela. Ritinha comenta: – Essa daí tá na maior fossa. • Como previa. tem de admitir.m a i l : l e m o s p l @ n e t p o i n t . tentando decidir que roupa usar. – Não enche. O ano passado ganhei a maior grana de um doutor. Queria só ver a cara do meu filho.. essa puta. – Vamos pra minha casa? – pergunta Ritinha de repente. três. acho que me matava. Merda. – Tá uma merda – ela vem dizendo. acende umas luzinhas. presos num quarto de hotel. A Ritinha conseguiu. gravado no formato Word). Arruma-se. fala. – Diana – ela pergunta de repente. – Tou aqui mas a cabeça tá em casa – continua a Ritinha. Fica bonitinha quando ri. vai aproximar-se. a mesa posta da ceia. Foram. mas detesto sair com a Solange. Já nem dói mais. Quando fiquei grávida. Liga o rádio. S P. – Dois conhaques – pede. – Não tem mais bar aberto nesta merda – resmunga. mesmo. pensa. Burra que é. pensa. 7 0 . sabe? Tenho um filho lá. É demais.

Cada vez que ouço. – Tá olhando o quê. a droga do filho. me deixa – Ritinha choraminga. o quê? Pára de repente. me faz cócegas. Retorna à maquilagem. se quisesse – diz ela. Resolve urinar. que até que não fica feio. sem nenhum falsete na voz. não tá? – Ritinha implacável. mas está mal pra caralho. Ritinha. – Diana. – A voz sai mais mansa. Você. Relaxa. – Ah. mostra os seios. A luz fraca do banheiro vai sumindo. Levanta-se e fica em silêncio. piora. – Ouvi o dia inteiro. lisinha. não acredita. como querendo e não podendo. ô múmia? – Teus olhos – diz a Ritinha. no site “O caixote” (www. Cruza as mãos sob a cabeça. o corpo começa a tremer. O Roberto. Lá pelas três a gente sai de novo. – Você me machucou – reclama ela. A saia sobe. tá um lixo. não vê? Ritinha ri. Amanhã mudo de ponto. Claro que é. – Você mija em pé? – Não. mesmo. – Você seria um homem bonito. tira a peruca. mulher. indeciso.– Vamos. A Ritinha na porta. trabalha há 12 anos como editora e é autora do livro de poemas Anjos clandestinos. Conhaque vagabundo. Ritinha de novo com aquele olhar longe. Você olha igual o Roberto. – Quer que ajude? – pergunta a Ritinha. pára. – Não – consola. Diana! Tem conhaque. Fica aí toda nhemnhemnhem porque o filho. Larga meu pulso. – Deixa – diz. Silêncio. – Ele tem esse jeito de encarar. Calcinha vermelha. o conto “Mulheres”. – Você até que fica bonitinha quando ri – ouve-se falando. sem entrar no jogo. sabe? Putinha! Merda de putinha! De novo. publicado em 1982. Merda. Larga a Ritinha. Bonitinha. – Senta aqui no bidê. – Tá bem. – Mas não quero! – berra. sua puta! Odeio essa fungação de meu-filho-Bom-Repouso-minhamãe-pensa. conversa. a Ritinha tirando o sapato e abrindo a janela. rindo. O menino. todos cheirozinhos. segurando o pulso da outra. Acho que é medo. que desaba na almofada. – Ia ficar melhor que eu. Enfrentar a mãe. as perguntas. Força o falsete. Inventar. estou acostumada. engravatadinhos. não é bater perna na calçada. estendendo a mão. – Ela se estica na almofada. enchendo o copo. Quase como um rapaz. – O que você tem. Só pode. – E sorri. Ritinha encolhe os ombros. aproximando-se. – Está aí dando uma de durona. E a mãe é essa Ritinha. Lizete Mercadante Machado nasceu em São José dos Campos (SP). Ritinha vai passando o pincel. é melhor. – Não adianta esquentar.. Ritinha. Nenhuma resposta. – O quê? – pergunta a Ritinha. como os outros? – ela pergunta. Vai mulher. mulher! Você está hor-ro-roo-sa com esse rímel escorrendo! A Ritinha continua olhando. – Você é tão boa – diz a Ritinha. a gente bebe. A Ritinha paga o táxi. seu trabalho literário pode ser visto na Internet. A sensação na boca do estômago. Vamos.br/ocaixote). – Você tem seios lindos. – Pára. Vamos pra rua. o filho. me diz? Qual? Essa e as outras noites. chega! Pára com essa merda de uma vez! – Sente escorrer algo pela face. choro. Obedece. – Vem cá – murmura. todo esse lixo. Desde os cinco anos que não vê a mãe.. Ritinha! – Você tá mal da cabeça. meio triste. senta ao lado dela. nem se mexe. decide. anda! Ritinha nem se abala. meio estrábico. antes de rasgar a última máscara. – Pára. Mas o frio na barriga é outra coisa. esses. Quis um gesto de tocar-lhe a cabeça. Bota o copo na mesinha. esfregando o ombro. – Deixa assim – repete. – Tá bem. mas em vez disso topa. • Quando se vê na sala.. Essa daí. músculos retesados. em 1986. – Sou muito magra. me deixa. percebendo a força que fazia. Caralho! Que vim fazer aqui? Ritinha já vai colocando o CD do Roberto. inventar. voando. nota. – Não sei. Ritinha começa a abotoar a blusa. contar mundos e fundos da minha ‘patroa’ aqui de São Paulo. Pelo menos a gente não cansa de tanto rodar calçada. Você acha que eu tenho o peito caído? – Abre a blusa. E começa a chorar de novo. e não vai vê-lo? Há quanto tempo não vai? – Dois anos – responde a Ritinha. – Ritinha. – Está agarrando Ritinha. Igual falar com pedra. pensa. erguendo os olhos. depois de um silêncio abafado. arrancar grana desses porcos. – Não te entendo. Porcaria de luz. Freada brusca na rua. Natal? Saco! Qual a diferença. Ritinha olha bem dentro dos seus olhos. A blusa ainda aberta. pensativa. O som dos foguetes. – Não. baixando a cabeça.com. É o conhaque. Amanhã vou pro Morumbi. os soluços ainda soando na sala. Rios pretos de rímel. – Por que não foi passar o Natal lá? – interrompe. mexendo na bolsa. Porra. – Teus olhos. Mas a Ritinha já está com o blush na mão. vai ao banheiro. levanta mais o joelho.. aproximandose. – O Roberto Carlos? Credo! Isola! – Levanta a mão traçando um longo vôo que vai terminar alisando o cetim negro. Devia era dar uma porrada nessa cara de sonsa. dando as costas a Ritinha. Levanta. Faz um muxoxo.. – Como uma irmã pra mim. Agora já é efeito do conhaque. mas impediu-se a tempo. Ouve foguetes. né? – Não estou! – Está berrando. Interrompe a pintura. mas nem tenta parar.. – Por que não bota uma lâmpada fosforescente nesta droga de banheiro? – grita. Ritinha.. compenetrada. Sirenes. – Anda. pega outro cigarro. novembro/98 . Sabe que está berrando. saco! Ritinha soluça mais alto. Pequenos.abordo. porque lembro o Robertinho lá em Bom Repouso. – Odeio você. esses. vai dar a maior ressaca.. – Por que você não põe silicone no busto. recebeu menção honrosa no concurso Mulheres entre Linhas. Indecifrável.. a sirene. descobrindo uma coxa morena. Sacode a outra pelos ombros. da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. anda! Vai retocar essa cara. – Pára! – corta. Ritinha! Pára com essa conversa mole! Vamos trabalhar. publicado nestas páginas. puxando de novo aquele pulso frágil. Conhece bem essa história. eu. – Saco! Porra! Pára com isso. pensa.CULT 23 . Acho que não tava a fim de encheção.. olhando. – Não.. vá! Não vai dar movimento nenhum. Pega os cosméticos. meu filho.. a maquilagem borrando dois seios pequenos como os de um rapaz.

Duarte Companhia das Letras 376 págs. está presente nos mitos de Prometeu. como no caso da escritora Mme. – R$ 31. O tema dos limites de nossa curiosidade reaparece em Dante. Pandora. de La Fayette (no século XVII) e da poeta Emily Dickinson – a partir da qual o ensaísta continua sua análise do livro de Shattuck. formulada por Roger Shattuck. N 24 CULT . explorando suas contradições nas obras de Emily Dickinson. apontando os equívocos da reabilitação de Sade e abordando as implicações éticas de experiências nas áreas da energia nuclear e da biologia Conhecimento proibido Roger Shattuck Tradução de S.00 a primeira parte deste ensaio (publicada na CULT nº 15). de La Fayette – que tem por eixo narrativo a resistência da jovem Princesa aos sentimentos experimentados em relação a um homem fora de seu casamento – Shattuck usa também. o conceito de ascetismo. E. João Alexandre Barbosa mostrou que a noção de “conhecimento proibido”. de Mme.Oslimitesdacuriosidade João Alexandre Barbosa Ensaio Segunda Parte Patricia Lambert/Divulgação Na segunda parte de seu ensaio sobre o livro Conhecimento proibido. o termo utilizado é o de sublimação: ambos os exemplos “não falam de sobrepujar limites e restrições no que diz respeito à experiência. em Montaigne.novembro/98 . Para o outro exemplo de positividade das limitações. aos sentimentos e à experiência se transforme num valor positivo. até o ponto em que a renúncia ao conhecimento. • Para o caso do romance La Princesse de Clèves. João Alexandre Barbosa analisa a forma como Roger Shattuck discute os mitos literários e científicos que tematizam a noção de limite do saber humano. mas de acolhê-los e tirar partido deles”. Melville e Camus. como termo de descrição. Adão e Eva – nos quais a ambição humana de conquistar um saber absoluto do mundo é punida pelos deuses. ele fala de esteticismo de Emily Dickinson. compreendendo os dois. em Pascal e na releitura da Bíblia por Milton.

do casamento proposto pelo Juiz da Suprema Corte de Massachusetts. em parte. possui algo de semelhante com relação ao assédio do Duque de Namours no caso da Princesa de Clèves. ao fazer a sua leitura a partir de uma tradução literal de cada uma das palavras utilizadas no texto (ficando. o campo de atuação da norte-americana era muito mais estreito: a sua poesia só seria admissível se deixasse passar. Nesse sentido. ou não. criando ecos não apenas de significantes.Emily Dickinson. como ainda transformando o lirismo subjetivo em agudos momentos de reflexão objetiva. a sua leitura inicial inclina-se demasiadamente para o lado da clareza do texto. quando entre levantar e anular parece estar a tensão primordial do texto!). ou poética. na segunda. não foi suficientemente abordado por Shattuck. Roger Shattuck. de Emerson. é a imagem: tradução sempre aproximativa da experiência pessoal que se traduziu em literatura. iguala as abstinências das duas. é uma história que compete ao leitor elucidar trazendo para o jogo da linguagem dickinsoniana a sua própria experiência. entretanto. mas na correspondência trocada com poucos amigos –. sobretudo. Emily Dickinson é incluída por Shattuck nos prazeres da abstinência. a meu ver. porque ela implica precisamente não buscar ir além daquilo que foi possível dizer nos limites da linguagem do poema. O que fica. conseguida pela paráfrase.CULT 25 . curiosamente. a meu ver. Emily Dickinson convivendo com os rigores de uma educação puritana para a qual a leitura que transcendesse os limites das continuadas interpretações bíblicas era vista. mencionada pelo crítico. sem comentário uma em cada uma das estrofes: os verbos lift. é precisamente daquilo que é dito de modo oblíquo e enviesado que o poema extrai a sua extraordinária força de sentido. como queria a poeta. é diversa da de Mme. Sendo assim. Embora haja. dizendo de outro modo. Há. sobretudo em se tratando de uma mulher. corre o risco de desencaminhar o leitor. Nem mesmo a recusa. intitulado “Um epicurista em O banquete da temperança”. novembro/98 . para usar o termo adotado por Shattuck. Otis Lord. de La Fayette existindo num ambiente cortesão em que a literatura era parte de uma educação de requinte. um elemento que distancia ainda mais as duas escritoras e que. Que a experiência que fica do texto seja também de autolimitação é outra história. na primeira. como quer Shattuck. algo daquela tensão intelectual e meditativa que a própria poeta lia nos textos. que. no caso da poeta trata-se. uma recuperação no último item do capítulo. por sob o lirismo pessoal. No caso de Emily Dickinson. Refiro-me à formação em meios sociais inteiramente distintos das duas: Mme. a recusa é antes uma maneira de conservar intocável a esfera pessoal da realização poética que ela pressentia ameaçada se baixasse a guarda de sua intimidade. não apenas propiciando um modo muito particular de escrita – que está não somente nos poemas. Ou ainda. Como se vivendo de e para a fabricação de seus curtos textos. de limitações. a sua abstinência. a sua relação com a experiência do mundo fosse sempre uma renovada forma de inquietação pessoal e solitária. mas de significados. na verdade. de fato. autora do poema A Charm Pela leitura miúda e detalhada do poema A Charm1 e por algumas observações acerca de sua correspondência. quando. a poeta consegue comunicar os mais sutis jogos que vão articulando os sentidos e a inteligibilidade deles pelo poema. Ou seja: entre não levantar o véu (The Lady dare not lift her Veil) e posicionar-se de tal modo que seja anulado o desejo (Lest Interview – annul a want). na verdade. às vezes grandiloqüentes e enviesados. a realização maior cabe à própria instauração da imagem que é o poema (That Image – satisfies –). e annul. Nesse sentido. ou melhor. A leitura efetuada por Shattuck do poema A Charm termina apontando para este difícil equilíbrio em que se parece manter o texto dickinsoniano: cutucando com vara curta os mais escondidos valores semânticos da língua inglesa. como aventura arriscada de formação espiritual. Na verdade. de La Fayette: se na romancista ela decorre de uma escolha pessoal e pensada de recusa de uma experiência contrária às bienséances da época. a abstinência de Emily Dickinson é de ordem estética. ainda que a sua intenção parafrástica fosse exatamente o contrário. o rigor e a discrição com que cercou a sua existência pessoal fez de Emily Dickinson um caso exemplar de entrega total à poesia. de uma eleição estética.

uma gloriosa explosão de intensidade lírica. texto de um manuscrito deixado inédito por Melville. o que. mas pelo leitor. no demais. chama de “mistério da iniqüidade”. é vincular essa neutralidade ao próprio estilo do romance. como se entre a representação que ocorre na obra e sua recepção pelo leitor não estivesse precisamente todo o trabalho de sua construção. artificialmente natural. Uma coisa. entretanto. entretanto. outra coisa é fazer. quando de sua morte em 1891. como o faz Shattuck. Entre os rigores da lei marcial e as motivações subjetivas. instaura-se um campo de dúvidas.” Agora. o que me parece ainda mais estranho. de 1942. sem que. em nenhum momento. num rompante de raiva ao se ver acusado de motim por outro. problema a ser indefinidamente discutido a partir do romance. recorrendo à Bíblia. o leitor tem a possibilidade de julgar a partir do veredito a que chega o tribunal instalado pelo Capitão Vere. os valores do bem e do mal sendo permanentemente trocados pelo que. condenando-se Billy ao enforcamento. e O estrangeiro. que. Shattuck opera um desvio de leitura tão danoso quanto qualquer outro de uma interpretação mecanicista ou ingenuamente biográfica. Visto contra este panorama monótono. através do exame das obras Billy Budd. marinheiro (Uma narrativa interior). trata-se do julgamento e da condenação de um marinheiro. Para o Capitão Vere. Trata-se de uma enorme diferença. no caso da narrativa de Camus. para Shattuck. à diferença daquilo que ocorria na leitura de Emily Dickinson. Meursault claramente perde a consciência e a memória. A cena do crime combina os crescendos de um ato gratuito e uma epifania. Segue-se o julgamento e a sentença de morte é proferida. No primeiro texto. o assassinato semiritualístico que ocorre na praia suscita em Meursault.novembro/98 goria realista”. E. que presidiu o julgamento e a condenação de acordo com as leis marciais. ainda segundo Shattuck. dando razão ao subtítulo do livro: uma narrativa interior. e somente publicado em 1924. na presença do Capitão Vere.” Mas se na narrativa de Melville.O americano Herman Melville Por enfatizar em excesso a experiência como motivação poética. atente para que um homicídio foi cometido e confessado. parece ser o julgamento do personagem. não pelos três juízes e pelo júri. o subtítulo da narrativa de Melville cabe “como uma luva” no texto camusiano. Quer dizer: por ser “interior”. faz sentido com relação aos propósitos básicos do ensaio. sem a qual o mesmo leitor não chegaria àquela. num determinado trecho da obra. Billy Budd. embora coerente. Diz Roger Shattuck: “Camus criou para a maior parte de seus episódios um estilo frio. dedicado à leitura de Melville e Camus. Claggart. e a narração divagante e por vezes odiosamente íntegra do promotor sobre o comportamento criminoso de Meursault”. como . aparentemente sincero. condenando o escritor e sua obra por não se posicionarem quanto à culpabilidade do personagem. “o lugar do Capitão Vere é ocupado não por uma personagem. É o que parece ocorrer também no capítulo seguinte. sobre como os terríveis acontecimentos ocorreram. chão. Ao apreender aquele momento. a este cabendo tão somente a aplicação de seu resultado. Suas atitudes e comportamento posteriores permanecem misteriosos. a escrita de Camus. protegendo Meursault de possíveis acusações de cinismo e de indiferença pelo assassínio do árabe. indecisões e incertezas que transformam a sentença de morte naquilo que o próprio Shattuck chama de “ale26 CULT . agride o acusador e termina por matá-lo. muitos eventos importantes permanecem ocultos até mesmo para o narrador desconhecido. O leitor tem de decidir entre o relato interior de Meursault. uma confusão de ordem moral e estética. O termo não se refere a nenhuma forma de onisciência narrativa. não há certeza quanto à culpabilidade de Billy ou à pureza de Claggart. segundo Shattuck. sem que tivesse nenhuma culpa. Diz Shattuck: “O fato de Billy Budd penetrar em estados de espírito que não são expressos pode muito bem ser o que Melville quis designar com o enigmático subtítulo que escreveu a lápis na margem do manuscrito: ‘Uma narrativa interior’. porque jamais temos um relato completo do que aconteceu após o crime ou das circunstâncias em que ele foi preso. induz o leitor a absolvê-lo. Por isso. nem sequer refletindo sobre a existência de uma outra vida humana que foi destruída por seu ato.

o crítico. fugindo à pecha de “política e intelectualmente reacionário”. percorrendo as várias fases que vão da ciência pura à aplicada.CULT 27 . Diz ela: “Num sentido primário […] os físicos conheceram o pecado”. intitulado “A explosão do conhecimento: ciência e tecnologia”. da segunda parte do livro. mas uma derivada: a experiência do leitor que. embora o crítico conceda em ver o romance de Camus como uma parábola. em que resume a sua posição no que se refere aos conceitos de conhecimento proibido e conhecimento aberto. um dos responsáveis pelo chamado The Human Genome Project. o livro não pudesse acrescentar. os vários momentos de pesquisa e utilização da energia nuclear. E. o princípio de conhecimento aberto e a livre circulação de idéias se estabeleceram tão firmemente no Ocidente que qualquer reserva a esse respeito é em geral considerada política ou intelectualmente reacionária. considerações práticas. de Walter Gilbert. New Mexico. de J. legais. cujo conhecimento resultou das pesquisas do DNA. esse traço torna-se ainda mais claro no pequeno capítulo final desta primeira parte do livro. por um lado. que. o da clonagem da ovelha Dolly. buscando marcar a sua eqüidistância e. terminando não apenas por compreender e perdoar o assassinato por ele cometido como. A lição moral – a de que não pode ser chamada humana uma existência que não assuma um mínimo de responsabilidade por si mesma. é um belo exemplo da habilidade de Shattuck em realizar sínteses significativas e esclarecedoras. é expressão do momento de dúvida e inquietação. No entanto. apontam para formas perigosas de transgressão nos limites da proibição do conhecimento. e ainda é. não é apenas a experiência do criador que é enfatizada. é a recuperação de seus valores propriamente estético-estruturais.” Por não reconhecer o intervalo que está entre a representação da obra e sua apreensão pelo leitor. ao fim e ao cabo. caindo na armadilha do autor. o que parece muito mais grave. Diz ele: “Hoje. portanto. aos cinco casos de limites à pesquisa científica explorados por Shattuck. seja na leitura que Shattuck realiza da obra do Marquês de Sade. cujo sentido vai se revelando aos poucos aos que lêem com cuidado. uma peça literária com uma didática sutil. do qual resultou a explosão da primeira bomba em Alamogordo. que passam a sentir empatia por um criminoso. Robert Oppenheimer. por outro. isto é. isto é. vista a possibilidade que se abre para o conhecimento a partir de tais pesquisas: “[O Projeto Genoma] é o graal da genética humana […] a resposta final ao mandamento: Conhece-te a ti mesmo”. cujas conseqüências éticas e morais foram. o principal articulador do Projeto Manhattan. buscando assinalar os momentos de inquietação e de dúvida e também de euforia que marcaram essas mesmas fases. por suas ações e pelos outros – é esquecida com demasiada facilidade. novembro/98 .O argelino Albert Camus ficou assinalado. por louvar o modo de sua expressão. Aliás. ao que parece menos evidente do que no caso de Melville. as experiências nas áreas da biologia molecular e da engenharia genética. é indicadora da euforia com que foi. pelo mapeamento do código genético humano. são e ainda serão muito discutidas quer pela comunidade científica. por intermédio do que Shattuck chama de empatia. Sendo assim. As duas epígrafes utilizadas para o capítulo dão bem conta desta oscilação: a primeira. morais e mistas. tomando por eixo de reflexão. e com isso a parábola sai pela culatra. deixa passar aquele ranço moralista sobre o qual se montava a minha desconfiança desde o início de sua leitura e que se confirma pela releitura da obra. tendo sido publicado alguns meses antes. ultrapassa os limites da moral e compactua com o personagem. mesmo sem querer. quer pela sociedade de modo geral. a segunda. e. pois os cinco casos de limites estudados por Shattuck. Mas a narrativa interior sutilmente seduz muitos leitores. prudentes.” Não só as estórias anteriores: os Casos concretos. intitulado “Interlúdio: Recapitulação”. as histórias examinadas nos capítulos precedentes demonstram de diversas formas que o princípio de conhecimento aberto nem sempre suplantou o princípio do conhecimento proibido. o seu julgamento final da obra é decepcionante: “É impossível não considerar essa novela em miniatura como uma parábola. seja no caso das pesquisas e aplicações nas áreas científicas e tecnológicas. É pena que. o primeiro capítulo desta segunda parte.

De fato. é ainda a mesma: o que fazer com Sade? Que ele fazia parte dos “infernos” das bibliotecas é fato corriqueiro. somente um autor merece dois verbetes completos: o Marquês de Sade”.R. e dos casos concretos bastante diversos do Lebensborn de Himmler e do Projeto Manhattan. quer a sua rasura radical que ocorreria caso a questão de Beauvoir recebesse uma resposta positiva. mas uma prova de fogo para a sua habilidade em discutir. trata-se de escolher uma maneira adequada de situar o autor no universo de nossas experiências culturais. Paulhan. o espectro de inquietações eufóricas e disfóricas motivadas pelas pesquisas científicas e tecnológicas. Porque. os dois capítulos seguintes são. acentuando a sua estranheza – para a qual parecem convergir as linhas essenciais de discussão sobre o conhecimento proibido. à medida que a ciência explode em certos campos. Apesar da história de Ulisses e as sereias. narrando aspectos decisivos de sua vida e de sua obra. as implicações morais de uma obra. é bem possível que um juramento criterioso por parte dos cientistas ajude a impedir que nos comportemos como o Aprendiz de Feiticeiro. com a qual iniciou o processo de reabilitação do escritor. a pergunta. o quinto item é o centro da leitura de Shattuck: uma análise minuciosa de alguns textos da obra de Sade. algumas notas biográficas com as circunstâncias históricas. Camus. logo de início. através dos quais vai marcando. desde o citado Apollinaire. . “em nove séculos de literatura.” Mas é para o sétimo capítulo – aquele mesmo ao qual se dirige a advertência de 28 CULT . Foucault. que dá título ao item. no sexto item. o processo de sua recepção. Que hoje se tenha que usar o pretérito imperfeito é a novidade. Oppenheimer abrangem. depois de mais de dois séculos de sua existência. O livremercado pode não ser o melhor guia para o desenvolvimento do conhecimento. E os últimos parágrafos do capítulo são. pelo fato de que. ao mesmo tempo. Bataille. “O divino Marquês”. Nesta era de libertação e permissibilidade. na mais recente e revisionista história da literatura francesa. sobretudo. todo o processo de releitura a que foi submetida a sua obra. por assim dizer. temos necessidade de inspecionar esse crescimento desproporcionado. aos pudibundos leitores. retomando a famosa questão proposta por Simone de Beauvoir. até a consagração atual nas referidas edição e história literária (“Reabilitação de um profeta”). usando como título do capítulo a mesma frase que Apollinaire utilizou para nomear o seu ensaio introdutório à antologia das obras do Marquês de Sade de 1909. de assassínios perpetrados sob a aparente ou comprovada inspiração das obras do Marquês (“O caso dos assassinos nos pântanos” e “O sermão de Ted Bundy”). os equívocos da reabilitação do autor (“Um passeio com Sade”). em seguida. a ‘pesquisa pura’ é um mito moderno. aquela organizada por Dennis Hollier e publicada em 1989 pela Harvard University Press. da Gallimard. confirmada por sua edição na prestigiosa coleção Pléiade.novembro/98 Shattuck e para o qual chamei. Mas os agentes humanos que buscam esse conhecimento jamais foram capazes de afastar-se de sua aplicação a nossas vidas ou de controlá-la. Enquanto pensamos nessas questões dilacerantes. finalmente. como lembra o próprio Shattuck. a meu ver desnecessária. não podemos nos esquecer da história de Ícaro e da ‘Esfinge’ de Bacon. por assim dizer. no âmbito da criação literária. tornando-se uma empresa impulsionada tanto pelo comércio e preocupações bélicas como pela curiosidade. provas da realidade pela narração de dois casos famosos. na verdade. e fazendo. um reconhecimento do que há de irreversível nas descobertas científicas e uma meditação sobre suas aplicabilidades: “O conhecimento daquilo que nossas muitas ciências descobrem não é proibido em si mesmo e por si mesmo. ou. O planejamento estatal nem sempre trouxe mais vantagens. nos Estados Unidos. de fato. no último item.Ilustração computadorizada de uma cadeia de ácido desoxirribonucléico (DNA) J. passando por Klossowski. a atenção do possível leitor. Barthes. discute as teses de inclusão ou exclusão da obra do Marquês do cânone da cultura e da literatura (“Devemos queimar Sade?”) e. Portanto. tendo anteriormente recusado quer a sua consagração. sociais e políticas de sua existência (“O caso Sade”). o texto de Shattuck é não apenas uma excelente introdução a Sade. sem exclusão daqueles mais explicitamente perversos – o que ocasiona mais uma advertência.2 Os sete itens do capítulo “O divino Marquês” são de uma organização exemplar: em primeiro lugar.

da caridade e missão cristãs. devemos rotular suas obras cuidadosamente: veneno potencial. Mais do que isso. Em todas as suas principais obras. a erudição precisa e adequada com que cerca o seu objeto e. ocorre a lembrança de Nietzsche. “Os escritos de Sade fazem-nos enfrentar a tentativa extrema da cultura ocidental de arrancar as restrições da civilização a fim de regressar à barbárie. os juízos serenos e objetivos com que lê a tradição crítica já existente sobre Sade. a leitura e a releitura terminaram impondo a primeira. é exemplar: “O divino marquês representa um conhecimento proibido que não podemos proibir. o olho por olho e a máxima de que poder é justiça. a ética da transgressão perdeu as cenas de tortura e destruição sexual explícitas. o modo pelo qual desenvolve os seus argumentos. resultar precisamente do conhecimento que se obtém de um extremo de ilimitação e não é por acaso que. como que acentuando a presença do Marquês num aspecto fundamental de nossa cultura.O Marquês de Sade Georges Bataille É um capítulo decisivo para o julgamento dessa obra de Shattuck: a sua organização. enfim. Paris. a leitura de Sade é também uma prova de fogo para toda a sua discussão anterior acerca do conhecimento proibido. oferecendo ao leitor elementos de sobra para uma reflexão de bom tamanho. poluidor de nosso ambiente moral e intelectual. A conclusão de Shattuck para este capítulo. e que poderia ser a do livro. Mas são generosos. da filosofia grega com sua visão trágica. Notas: 1 Eis o texto do poema lido por Shattuck: A Charm invests a face Imperfectly beheld – The Lady dare not lift her Veil For fear it be dispelled – But peers beyond her mesh – And wishes – and denies – Lest Interview – annul a want – That Image –satisfies – (Encanto veste um rosto/ Não mais do que entrevisto –/ Erguer o véu não ousa a dama/ Por medo que lhe fuja –// Mas olha além da trama –/ Deseja – e logo nega –/ Teme que a vista anule a falta –/Que a imagem satisfaz) 2 A edição francesa da obra de Hollier é de quatro anos depois. Não obstante. Mas nos parecerá menos admirável se o lermos por inteiro e juntarmos suas idéias niilistas sobre egoísmo e poder com as cenas sinistras das quais gotejam sangue e fezes. Sade sempre foi o professor e o evangelista. Os seus excessos são também parte de uma condição que. inclui a curiosidade e. Ele sabia como eram ‘importantes essas imagens para o desenvolvimento da alma’ e como ‘agarrar sem medo o coração humano e representar imensas divagações (Justine)’. De la littérature française. os seus limites. para ele. A necessidade de ler o autor do século XVIII parece. na perseguição inquisitorial. continuamos chamando de humana. como disse. alguma monumental aberração e lição objetiva. quer se queira ou não. novembro/98 . dão prova de sua iluminadora perspicácia em repropor o exame de uma obra tão polêmica quanto a do Marquês. pois os demais são expli- citações. Bordas. Procura reviver a Lei de Talião.” Poderia ser o capítulo final do livro. parece dizer Shattuck: deve-se ler o Marquês como a qualquer outro autor extremado.CULT 29 . que nos faça admirá-lo. Talvez haja alguma ‘grandeza’ na absoluta atrocidade da obra de Sade. Conseqüentemente. E essa condição. Entre a admiração e a desconfiança do início. o que é terrivelmente difícil de aceitar. ou mesmo redundâncias. Não temos indícios de que Nietzsche tenha lido alguma vez o divino marquês. Sade visualiza uma rejeição completa das leis e profecia hebraicas. ainda nos limites. no entanto. o filósofo do Super-homem oferece um produto modificado que atrai a muitos: Sade sem orgasmo. sem cair na idolatria nem. e de todos os princípios de justiça e democracia equânimes. transformando-se em um atraente Valhala da filosofia lírica.” Não se deve queimar Sade. de argumentos já desenvolvidos. Diz ele: “Em Nietzsche. por outro lado. já nos últimos parágrafos do item quinto.

O autor analisa as relações entre verossimilhança e veracidade no discurso do narrador memorialista de Nava. : R$ 18. e outros estudos sobre poetas como Cruz e Sousa.00 : A borra do café : Mario Benedetti : Ari Roitman e Paulina Wacht : Record : 192 págs. a cargo da historiadora Maria Helena P. mantinha relações com grandes capitalistas e negociantes do império e anotava seus sonhos e aspirações cifradamente em tupi. Cohen. pessoas e imagens que marcaram sua infância e formaram sua poética.00 BIOGRAFIA PSICOLOGIA : : : : : : Brecht no teatro brasileiro Kathrin Sartingen José Pedro Antunes Hucitec 338 págs. Os poetas do grupo. um garoto que percorre com a família os bairros da Montevidéu dos anos 40. do trabalho e da rua. que passou 20 anos exilado em Madri depois do golpe que instaurou uma ditadura militar em seu país. da escola. desenraizado e andarilho do eu poético do escritor mineiro. estabelecendo uma leitura cognitiva da psicanálise. teve acesso aos arquivos da família Dogdson (a quem pertence o espólio de Carroll. acerca do papel das editoras universitárias e de sua trajetória como autor e editor. a liberdade pessoal. Benedetti transfere seus momentos líricos de memória para o protagonista Claudio. retoma criticamente a tradicional dicotomia afeto/cognição. Para ele. revelam uma personalidade complexa. a literatura e a astronomia. escritores como Juan Rulfo. Coletânea de ensaios e escritos do jornalista e roteirista de cinema catarinense Salim Miguel.00 : Diário íntimo : José Vieira Couto de Magalhães : Cia. era representado pela busca de ordem. construindo um retrato itinerante. professor das Universidades de Leeds e Varsóvia. texto clássico de Freud que segundo Bauman é um marco na análise sociológica da modernidade. Ancorado na narrativa poética cara ao escritor. na década de 70. interpreta peças brasileiras dos anos 60 e 70 e discute a idéia de aceitação de uma cultura “estranha” na literatura deste século. como Reinaldo Jardim e Mauro Gama. sobre a permanência do livro e novas tendências literárias. do psicólogo e psicanalista italiano Antonio Imbasciati. Em A borra do café. reunido na década de 60 em torno da revista de mesmo nome. lavra (1962) e A linguagem virtual (1976). O título remete ao O mal-estar na civilização. Afeto e representação.00 Estudo do sociólogo de origem polonesa Zygmunt Bauman. Variações sobre o livro (e temas correlatos).00 : : : : : : : : : : : Afeto e representação Antonio Imbasciati Neide Luzia de Rezende Editora 34 224 págs. afeto e representação são a forma do ser configurar uma experiência. R$ 60. duas manifestações coincidentes no início da formação mental. transformando as palavras em “elementos vivos”. A autora morou durante alguns anos no Brasil. romancista. Segundo a tese de Joaquim Alves de Aguiar. a esses espaços corresponderiam quatro fases da vida do escritor: a infância. tendo estagiado no Instituto Goethe de São Paulo e lecionado Literatura Comparada na Universidade Estadual de Campinas. como o autor prefere chamar a coletânea. O livro especula sobre as razões de sua gagueira. Mais novo romance de Mario Benedetti. a juventude e a maturidade. professor da Universidade de Nova York. cujo principal valor. Um estudo sobre Pedro Nava examina o discurso memorialista do autor mineiro. Lavra.00 TEATRO : Título 30 CULT .: O mal-estar da pósmodernidade : Zygmunt Bauman : Mauro e Cláudia Gama : Jorge Zahar : 272 págs. faziam oposição ao “apriorismo mecanicista”. o romance constrói o reencontro de Benedetti com lugares. Novo livro de poemas de Mário Chamie. sua mania de ordem e sua suposta preferência sexual por menininhas. R$ 22. palestras proferidas no Brasil e no exterior. elaborando a mais completa biografia de Carroll já publicada. O general José Vieira Couto de Magalhães foi uma das figuras públicas mais atuantes do Brasil da segunda metade do século passado. Imbasciati questiona princípios sagrados da psicanálise e de sua dissociação com a psicologia. a adolescência. Para uma psicanálise dos processos cognitivos. desejo e esforço individual.00 ENSAIO : : : : : Variações sobre o livro Salim Miguel Editora da UFSCar 112 págs. mas agora travestido de espontaneidade. : R$ 26 . apropriando-se de termos e conceitos semiológicos. O estudo de Kathrin Sartingen avalia em que medida as encenações de Brecht influenciaram diretores e grupos brasileiros. De acordo com Bauman.50 : : : : : Caravana contrária Mário Chamie Geração Editorial 204 págs. Mário Chamie é autor de Espaço inaugural (1955). R$ 15. agrupa textos publicados na imprensa de Florianópolis e de outros estados. poeta e ensaísta uruguaio. das Letras : 246 págs. um dos fundadores e principal teórico do grupo Praxis. : R$ 18. R$ 30. R$ 11. a liberdade pessoal ainda é o valor supremo. surgida de uma dissidência do movimento concretista. que participara da Guerra do Paraguai. Espaços da memória. diários e documentos deixados por Lewis Carroll. R$18. Brecht no teatro brasileiro analisa a recepção do teatro do dramaturgo alemão em terras brasileiras. POESIA MEMÓRIA ROMANCE SOCIOLOGIA : : : : : Espaços da memória Joaquim Alves de Aguiar Edusp 220 págs.00 Lewis Carrol Raffaela de Filippis Record 672 pág. depois de 65 anos da publicação do texto freudiano. T. Esta biografia do autor de Alice no País das Maravilhas é resultado de mais de 30 anos de pesquisa em cartas. Machado. O biógrafo Morton N. dividindo-o em quatro espaços de realização: da casa. Originalmente uma tese de doutoramento apresentada na Alemanha. cujo verdadeiro nome era Charles Luttwidge Dodgson). Apontando a impossibilidade de haver afeto sem sentido cognitivo e vice-versa. tendo contribuído com áreas tão diversas como a política. A descoberta e a organização deste Diário íntimo. beleza e limpeza.novembro/98 : Autor : Tradutor : Editora : Número de páginas : Preço .

. poucos se lembrarão hoje do acadêmico Álvaro da Silva Moreira (1888-1969). Para-Todo..CULT 31 . –. Justamente (embora com parcas informações) incluído no Pequeno novembro/98 . 1987. Fon-Fon. etc. A Ilustração Brasileira. 3ª ed.). Dele lembramos aqui o livro O Brasil continua. além de agitador cultural. editado em 1933. poeta simbolista e modernista e ativo colaborador de nossas revistas da primeira metade do século – O Malho..dicionário de literatura brasileira (Cultrix.

Desde então. abordou a retórica de Aristóteles e Quintiliano. as Obras poéticas de Basílio da Gama (Edusp) e Poesias de Olavo Bilac (Martins Fontes) – e dirige a coleção “Clássicos para o vestibular”. Como toda verdade metafísica. a desconstrução tem encontrado muita ressonância nos Estados Unidos. questionando a concepção metafísica de centros unificadores do mundo Série destaca as principais tendências da crítica literária “Fortuna Crítica” é uma série de seis artigos de Ivan Teixeira sobre as principais correntes da crítica literária. em 1966. comentar. pois possui valor absoluto e independe das contingências do todo. publicado no número 12 da CULT (julho).F O R T U N A C R Í T I C A Ivan Teixeira 5 DESCONSTRUTIVISMO filósofo francês Jacques Derrida. Hillis Miller. que hoje integra o volume A escritura e a diferença. Derrida é ao mesmo tempo herdeiro e crítico do estruturalismo. 34 CULT .novembro/98 Reprodução Desenvolvida a partir das formulações do O lingüista e filósofo Jacques Derrida O movimento da desconstrução. deve ser desprezada na análise da estrutura de que participa. O centro não é uma . em diferentes graus. de Paul de Man. co-autor do material didático do Anglo Vestibulares de São Paulo (onde lecionou literatura brasileira durante mais de 20 anos) e autor de Apresentação de Machado de Assis (Martins Fontes) e Mecenato pombalino e poesia neoclássica (a sair pela Edusp). a desconstrução atribui aos significados a condição de construções culturais. a noção de centro deve ser posta em questão. quando o filósofo leu o ensaio “A estrutura. o centro é uma entidade metafísica. explica-se por sua condição coordenadora. Enquanto elemento interno. J. o centro encontra-se ao mesmo tempo dentro e fora da estrutura. enquanto elemento externo. o segundo texto (agosto) foi sobre o formalismo russo. criticar e desenvolver os pressupostos do filósofo francês. assumindo diferentes matizes conforme o autor que se inspire nos fundamentos de Derrida. explica-se por não participar do jogo e dos riscos do movimento inerente à idéia de estrutura. Assim se explicam alguns trabalhos dos integrantes da Escola de Yale. é apenas uma das diversas tendências do pensamento crítico do chamado pós-estruturalismo. o signo e o jogo no discurso das ciências humanas”. o quarto (outubro) apresentou o estruturalismo. centro é tudo o que preside a ordenação dos elementos de um sistema. dentre as quais se contam também as formulações de Michel Foucault e as do new historicism. Na próxima edição. representado sobretudo pelo filósofo francês Jacques Derrida. da Ateliê Editorial. Para o filósofo. preocupada em divulgar. Ivan Teixeira é professor do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA-USP. Tem-se dedicado a edições comentadas de clássicos – entre eles. proposto por Stephen Greemblatt no início dos anos oitenta. Geoffrey Hartman e Harold Bloom. Começa por questionar a noção de centro no conceito de estrutura. mas que não participa da mobilidade das unidades que coordena. O primeiro. será analisado o new historicism. o terceiro (setembro) estudou o new criticism. como é o caso. Nesse sentido. Em rigor. A desconstrução passou a tomar corpo como movimento crítico depois da célebre conferência proferida por Derrida na Johns Hopkins University.

CULT 35 . consciência. Outra desconstrução importante operada pelo pensamento de Derrida consiste no questionamento da ascendência da fala sobre a escrita. e assim por diante. essa ciência tomava exclusivamente a Europa como origem para qualquer generalização acerca do homem. responsável pela noção da superioridade da Europa sobre os demais continentes. homem. e não como construtos de ordem cultural. determinado pela idéia de presença. Para ele. Eis o que Derrida chama a “metafísica da presença”. Derrida coloca-se contra a concepção logocêntrica do pensamento metafísico. o filósofo julga que só se conhece Deus por se tratar de um construto diferente de diabo. Por essa perspectiva. um dos maiores críticos literários dos Estados Unidos. eu. que o filósofo pretende desconsnovembro/98 .realidade. que acaba por implicar a superioridade do presente sobre o passado. de finalidade. característica básica do pensamento metafísico. cuja tradição se origina. Da mesma forma. verdade – noções responsáveis pela idéia de centro unificador do mundo. essencialmente vinculada ao princípio de valor e de significado absoluto. O pensamento metafísico atribui valor intrínseco aos elementos que compõem essas dualidades. O analista deve desconstruir esse construto. Aplica a todos os significados a condição de construções culturais. Os estudos de Lévi-Strauss provocaram um deslocamento desse foco de atenção: o interesse das pesquisas desviou-se da Europa para culturas consideradas primitivas. espírito/corpo. na época João Carlos Volatão/Folha Imagem Harold Bloom. Todavia. A esse pensamento essencialista e transcendental Derrida chama de “logocentrismo”. Toda a filosofia ocidental partilha da idéia de centro. pode-se supor também que a percepção de uma montanha só se torna possível por contrastar com a idéia de planície ou de depressão. Na prática. entendendo-as a partir do relativismo da função distintiva do conceito saussuriano de fonema. de essência. que foi interpretada desde sempre como mera reprodução artificiosa do ato natural da fala. por questionar a noção de totalidade do humano. Isto é. antes de LéviStrauss. Assim. A noção de centro preside o próprio conceito do ser. Observa que. de que trata a geometria. Freud e Heidegger. porque já Luís Antônio Verney divulgava. de origem. Como se vê. natureza/ cultura. assim como o significante vaca se torna perceptível apenas por contrastar com faca. Tal descentramento estabeleceu uma crise na história da metafísica. isso contribuía para a hegemonia do pensamento metafísico. concebida exclusivamente com base no etnocentrismo europeu. Além disso. pela ruptura com os significados universais. da natureza sobre a cultura. homem/mulher. Derrida não reconhece significado essencial nos elementos desses pares. a natureza só é percebida por se distinguir da cultura. a oposição fala/escrita gera outra dualidade supostamente verdadeira: presença/ ausência. Antes disso. como Deus. fala/escrita. mas uma construção do pensamento ocidental. O filósofo denomina essa hierarquia de “fonocentrismo”. A Europa era tomada como cultura de referência por princípio. as verdades do etnocentrismo apresentavam-se como dados da natureza. o princípio de que o conhecimento das formas corpóreas depende da percepção da superfície das coisas. entendendo-a como um aspecto do logocentrismo. Derrida privilegia a etnologia na formação do discurso das ciências humanas. o valor do centro é sempre afirmado pelo não-valor de seu oposto: Deus/diabo. Foi a partir do homem europeu que se formularam todas as conclusões universalizantes (metafísicas) sobre o que se entende por cultura ocidental. segundo Derrida. Nega qualquer verdade transcendental. em que se fundamenta quase toda a filosofia européia. A história do Ocidente seria uma sucessão de centros inquestionáveis. como também por ser considerada a matriz da escrita. sobretudo a partir da análise de mitos sulamericanos. ao desconstruir a noção de etnocentrismo. realçando a necessidade de uma linguagem crítica no discurso das ciências humanas. país em que a desconstrução encontra ressonância assumindo diferentes matizes conforme o autor que se inspire em seus fundamentos da Ilustração portuguesa. não só por pressupor a presença do falante. transcendência. escolhendo um enfoque que aborde a estrutura por um ângulo até então secundário na ordem geral das coisas. O pensamento metafísico sempre considerou a fala como elemento mais importante desse par. Fala-se aqui em teoria geométrica do conhecimento. em Nietzsche. inteligível/sensível etc. Lévi-Strauss estaria. Derrida é responsável pelo esboço de uma espécie de teoria geométrica do conhecimento.

pois o signo também retarda continuamente a idéia de presença. A diferença essencial entre eles é que o primeiro se caracteriza por uma propriedade positiva: é sonoro. O neologismo do filósofo deriva de différer. a origem total do ser. do qual nascem as diferenças geradoras do sentido. Fundam-se principalmente em análises de pensadores como Platão. Rousseau. Observe-se a idéia do bem. Diferenciar pressupõe a geometria dos corpos. também constituída por elementos contrastivos. e não de essências isoladas: é sintagmático. por depender do de mentira. não só representaria um estágio agudo do exercício crítico no discurso das ciências humanas. como a seguinte.novembro/98 a natureza da consciência humana. segundo a qual não existe origem absoluta para o significado. assim como o sentido de Deus depende da noção de diabo. Marx e LéviStrauss. adiar implica temporalidade. Trata-se de um código matricial abstrato. Não só para se contrapor ao termo francês différence como também para complementá-lo. a lingüística tradicional tende a atribuir ao fonema /b/ o privilégio do centro. invertendo a hierarquia desses pares antitéticos. Esse princípio não só implica a inversão dos elementos que constituem as relações binárias. Evidentemente. caso não houvesse o princípio da Queda. que se confunde com a noção de linguagem. tanto quanto a escrita. a linha de força do pensamento derridiano consiste na teoria da diferença. Mas qual a vantagem desse tipo de desconstrução para a filosofia da linguagem? Pela perspectiva de Derrida. O princípio de que o significado decorre de relações possibilita ao teórico a formulação da idéia de suplementaridade. que utiliza fundamentos do historicismo de Michel Foucault os significados e o respectivo sistema de signos. em que um significado continuamente se refere a outro significado e a toda a rede de significados da língua. e não ao domínio das entidades naturais. contém necessariamente um pouco de seu oposto. Derrida considera essa conclusão uma construção metafísica. A partir daí. Como se vê. Husserl. Este decorre de relações. como também – e principalmente – revelaria 36 CULT . Ao contrário. O vocábulo différance foi inventado para caracterizar esse processo de geração do sentido. porque essas palavras possuem grafias distintas e uma só pronúncia. que consiste no pressuposto de que os termos dos pares do pensamento metafísico se complementam mutuamente. Esclarece que. tanto na língua falada quanto na escrita. Pertencem à ordem dos signos. Sabe-se que decorre de Deus. e não propriamente para obras literárias. As práticas de Derrida orientaram-se sobretudo para sistemas de interpretação. A maior conseqüência dessa desconstrução é a ratificação de uma idéia consagrada pela lingüística estrutural. a fala obedece a um código preestabelecido. A noção do mal vem em segundo lugar e completa a plenitude de Deus. elaborada a partir de sugestões de Charles E. Freud. Bressler e Jonathan Culler: (1) descobrir as . Observem-se os fonemas /b/ e /p/: ambos são bilabiais explosivos. resultante de uma interpretação radical da lingüística de Saussure. que tanto pode significar diferenciar quanto adiar. ao passo que o segundo. o homem estaria forjando a própria consciência. e não exclusiva. Nietzsche.truir. ao criar Milton Michida/AE Há uma nova espécie de desconstrução em andamento no ensaísmo brasileiro. processo também designado de suplementaridade do signo. que ele denomina “arquiescritura”. o filósofo deteve-se também em textos ou concepções artísticas. afirmando que a propriedade positiva do primeiro decorre da condição negativa do segundo. ao mesmo tempo que suplementa e contamina a idéia de bem: pois. Por causa de sua condição positiva. jamais paradigmático. Essa perspectiva não admite um centro exterior responsável pela geração dos significados a serem captados pelo espírito humano e “depois” veiculados pela linguagem. Nesse sentido. Desenvolvendo criticamente a teoria do signo saussuriano. Derrida criou o vocábulo différance. espacialidade. seria impensável o conceito de bem. como é o caso de seus estudos sobre Antonin Artaud e Mallarmé. os sistematizadores da nova teoria estabeleceram alguns passos para a abordagem desconstrucionista do texto literário. o conceito de verdade. pois o signo se explica pela configuração de seu contrário. mas também permite conceber esses elementos numa dimensão de antítese inclusiva. Trata-se de um trocadilho grafo-sonoro. Vem daí que as antíteses conceituais do pensamento metafísico não passam de construtos culturais. representada pelos textos de João Adolfo Hansen (acima). por uma propriedade negativa: é surdo.

Foucault entende por episteme o padrão que unifica a diversidade de discursos de uma época. 1994. Francisco Alves. Oxford University Press. em franco progresso em outros setores da produção cultural brasileira. os fundamentos já não decorrem de Derrida. 1973. Boa parte dos chamados estilos de época não passam de discursos atuais voltados para a anulação da diversidade de práticas do passado. (5) a partir das novas relações binárias. Prentice Hall. Derrida foi muito bemrecebido a partir dos anos 70. • Literary theory: a very short introduction. de Jacques Derrida. A partir daí. por exemplo. • On deconstruction: theory and criticism after structuralism. • Gramatologia. que há uma nova espécie de desconstrução em andamento no ensaísmo brasileiro. mas do historicismo de Michel Foucault. supondo-se o princípio de que o significado é sempre móvel. (2) comentar os valores. de Jonathan Culler. Routledge. Tradução de Maria Beatriz Marques Nizza da Silva. Registre-se. Luciana Whitaker/Folha Imagem • A escritura e a diferença. Cornell University Press. recusa-se a leitura sincrônica das formas literárias. representada sobretudo pelos textos de João Adolfo Hansen. Paralelamente. elaborado por alunos da PUCRJ. London. No Brasil. London/New York. 1992. e (6) deixar em aberto a interpretação do texto. de Raman Selden e Peter Widdowson. de John Lechte. Desta vez. Ithaca. Perspectiva. New York. o presente é que se apropria do passado como forma de legitimação do ponto de vista segundo o qual se emitem os juízos. com o conceito de escola literária. que conduz ao abandono de certas generalizações que procuram unificar a diversidade da história a partir de categorias do presente. 1997. New Jersey. • Critical theory & practice: A coursebook. de Jacques Derrida. Oxford/New York. 1976. Rio de Janeiro. para quem cada época possui uma episteme específica e intransferível. organizado por Silviano Santiago (ao lado). que faculta a apreensão da diversidade sem desconsiderar a unidade específica de cada período. sob a supervisão de Silviano Santiago. Em função disso. Englewood Cliffs. por exemplo.CULT 37 Nota-se que as idéias de Derrida foram bem-recebidas no Brasil pelo aparecimento do Glossário de Derrida. supervisão de Silviano Santiago. com o propósito de rever alguns aspectos da teoria formulada por Antonio Candido na Formação da literatura brasileira. múltiplo e ilimitado. Harvester Wheatsheaf. Uma possível alternativa contra essas supostas formas anacrônicas de leitura tem sido o estudo das poéticas. 1971. o passado não atua sobre o presente. • A reader’s guide to contemporary literary theory. São Paulo. Bressler. New York/London. reinaugura-se o esforço pela reconstrução das formas mentais do passado: redesenha-se o espaço da arqueologia. os conceitos e as idéias que subjazem a essas operações. Nesse sentido. • Glossário de Derrida. (3) subverter as operações binárias existentes no texto. Haroldo de Campos aplicou princípios do filósofo francês em seu O seqüestro do barroco na literatura brasileira: O caso Gregório de Matos.B I B L I O G R A F I A operações binárias que estruturam o texto. o útil Glossário de Derrida. por fim. Tal estudo pressupõe o conceito de história literária como a contínua reapropriação dos diversos discursos do homem. novembro/98 . É o que se observa. a produção de um autor passou a ser entendida como a apropriação singular dos discursos coletivos de seu tempo. 1993. São Paulo. Tradução de Miriam Schnaiderman e Renato Janine Ribeiro. de Charles E. de Jonathan Culler. de Keith Green e Jill Lebihan. admitir a hipótese de uma terceira saída e de outros níveis de significação. 1997. 1996. como deixa ver. e pela aplicação de princípios desconstrutivistas por Haroldo de Campos . • Literary criticism: An introduction to theory and practice. • Fifty key contemporary thinkers: From structuralism to postmodernity. Perspectiva. (4) desconstruir as concepções implícitas no texto.

de Daudet 3 8 CULT .Fotos/Reprodução O moinho que deu origem às narrativas de Les lettres de mon moulin.novembro/98 .

a 280 metros de altitude. a Provença mantém uma singularidade cultural e lingüística dentro do território francês. porém. especialmente no que se refere à língua e à literatura. as línguas derivadas do occitan (langue d’oc) perderam terreno para o francien que. Por ali passou o trovador Fouquet de Marselha (1180-1231). Limitada ao sul pelo Mediterrâneo. Ao longo dos séculos. Terra de trovadores. Petrarca. Marcel Pagnol e Jean Giono Mônica Cristina Corrêa o sudeste da França. o mundo do Midi. Aliás. Jean Giono Fotos/Reprodução N Frédéric Mistral Alphonse Daudet Marcel Pagnol novembro/98 . repleta de germanismos. falado inicialmente apenas na Île de France (região de Paris). desde a época merovíngea. bauxita) do local. no ano de 1909 ergueu-se uma estátua a Frédéric Mistral. outro poeta italiano teria sido influenciado – desta vez. que guardou durante séculos uma tradição consideravelmente diferente daquela do norte do país. Tão particular se tornou essa paisagem que há até uma lenda contando que Dante Alighieri teria se inspirado em seu exotismo para escrever os círculos do Inferno. Mas a vida de Baux terminou com a demolição do castelo e da cidade. pode-se visitar ali as ruínas do castelo medieval. muitos deles reunidos e protegidos em Les Baux-de-Provence. pela mágica paisagem provençal. se impôs. Com efeito. a região provençal não tem claras. apesar da notável produção artística medieval – pois a Provença foi o grande berço do Trovadorismo –. as fronteiras com seus arredores. apaixonou-se por toda a vida. em Arles. o sul da França foi marcado pelos domínios da langue d’oc (do latim hoc como “sim”) que. do ponto de vista da tradição.Berço do trovadorismo. falada no norte do país. ou seja. A Provença foi uma das primeiras regiões a ser romanizada na Gália. com intervalos. homenagem e reconhecimento de seu imenso trabalho na conservação de um mundo que estaria fadado ao esquecimento e à destruição pela violência da industrialização e pela invasão de imigrantes. dedicando-se a destruir a sociedade que o acolhera. Convidado por seu amigo Philippe de Cabassol. que encontrara a jovem Laura na cidade de Avignon em 1327. de 1337 a 1353 em Fontaine de Vaucluse. se opôs ao francien ou langue d’oïl (contração de hoc e il do latim hoc ille). veridicamente –. Frédéric Mistral. ao norte de maneira um pouco incerta e contígua a Côte d’Azur. eternizada na obra de escritores como Alphonse Daudet. que era a língua da corte. comandada pelo rei Luís XIII – preocupado com sua insubmissão. ao contrário. Hoje. onde se instalara uma poderosa família feudal no século X. Petrarca viveu. aos poucos. Esse mundo – imortalizado na obra poética de Mistral – é o provençal. a Provença registra grande número de poetas desse gênero (mais de cem).CULT 3 9 . homem de letras. que em 1205 foi eleito bispo inquisidor e passou a semear o terror na região. que se acreditava descendente de um dos reis magos. Baltazar. no território compreendido pelo que é hoje a França. as quais se confundem com a formação rochosa (baux. e desde então sofreu contínuas modificações históricas. durante séculos.

à beira de “le chiare. De sua vasta obra. a grande “ação lingüística” de Mistral que lhe valeu o Prêmio Nobel de 1904 e o prestígio internacional. Mistral decidiu-se a criar o seu “último poema” (como definiu). originário de Aix-en-Provence. porém. sofreu grande humilhação por causa de seu falar provençal. ou seja. o também pintor Toulouse Lautrec. cuja claridade se prolonga até dez horas da noite. a produção literária nas línguas derivadas do occitan padeceu de sérios prejuízos quando da imposição do francês como língua nacional (século XIX). Dentre os estrangeiros. ruínas do castelo de Philippe de Cabassol.”. dedicado às tradições e artes de sua terra. o Museu Arlaten. E com os recursos adquiridos pela premiação. cobertas de telhas caneladas. Fredéric Mistral (1830-1914). Provavelmente aconselhado por seu amigo. Situado num antigo palácio do século XVI (sobre os vestígios de um templo romano). com intervalos. Bom número de pintores captou essa luz. As chuvas. Acima. que ali morou. o museu oferece ao visitante uma bela amostra da história dos costumes regionais. fresche e dolci acque. a grande marca ficou por conta de Van Gogh. quando enviado à escola. vento típico que forçou a construção de casas campestres (“mas”) com paredes cegas na fachada norte. Todavia. com casas altas e fechadas. Foi. que o poeta teria buscado refúgio para escrever sua obra lírica dedicada à amada Laura. Um de seus feitos mais importantes – que colaborou para a indicação ao Nobel – foi a fundação. incontestavelmente. nascido e criado na vida rústica dos campos do sul. iluminados por um sol ardente na primavera e no verão. à dir. isto é. o preconceito fez fortalecer seu patriotismo e seu gênio. e aglomerados em ruas estreitas nas cidades. Com objetivos de assegurar o progresso. a unificação lingüística acabou por fazer com que quase desaparecessem as línguas derivadas do occitan. mais violentas do que abundantes. Van Gogh teria ido a Arles ao encontro do sol. da Félibrige. Na região. entre 1337 e 1353. E em suas telas estão pintados os cantos 4 0 CULT . paisagem que inspirou o poeta italiano Petrarca.. sacudidas por alguns fenômenos naturais que tiveram no homem uma resposta artística condizente com a variedade e o colorido local. em cujas telas se apresenta uma Provença agrícola e rupestre. há especialmente Paul Cézanne. Fontaine de Vaucluse. onde reinam as oliveiras. Foi em torno desse deslumbrante fenômeno natural – o término de um imenso rio subterrâneo cujo percurso permanece misterioso –.novembro/98 . sempre castigados pelo mistral. amigo de Petrarca. Apesar da inspiração que tantos encontraram nos domínios da langue d’oc. que viveu certo tempo em Arles. As terras meridionais francesas são.. o poema mais importante é Mireille. em 1854. A essa paisagem somam-se ruínas de monumentos romanos. por exemplo. fazem alternar inundações com períodos de seca. uma escola literária com objetivo de promover um renascimento da cultura provençal.. da belíssima fonte da Sorgue.Acima. vertido para o português pelo poeta Manuel Bandeira com o nome de Miréia e publicado em livro pela Editora Delta em 1962. levando-o à expressão literária em sua língua.

que é uma espécie de Graal. novembro/98 . ou seja. É sobre as rochas escarpadas dessas colinas que os príncipes de Baux tinham o seu castelo. em SaintRémy sur les Antiques são. falésias e vales A cadeia dos Alpilles azulavam. em altas vagas. declives. Romanin e Roque-Martine. esperou os bárbaros. há dois mil anos. que tratavam das questões amorosas as belas castelãs do tempo dos trovadores. romanas ou feudais. É em Montmajour1 que dormem. um tesouro muito secreto.Vales aromáticos e claustros Os dois primeiros parágrafos do primeiro capítulo das Memórias de Mistral resumem com precisão e beleza a paisagem da Provença: “Desde que me lembre. É sob todas essas ruínas. próxima a Arles. um verdadeiro belvedere de glória e de lendas. dourados pelo sol. É nessas grutas do Vale do Inferno. ainda popular em toda a região. Foi ao pé dessa muralha que o benfeitor de Roma. É a cadeia dos Alpilles.CULT 4 1 setembro/98 . 2 Trata-se de uma figura das lendas provençais. uma barreira de montanhas cujos outeiros. que jaz a Cabra de Ouro2. Caio Mário. ” Frédéric Mistral tradução de Mônica Cristina Corrêa As Arenas de Arles A Abadia de Montmajour 1 Grande abadia do século X. vejo diante de meus olhos. pois é por ali que os mouros de Espanha adentraram em Arles. debaixo das lajes do claustro. no sul. de Cordes. mais ou menos claro ou escuro. de manhã à tarde. nossos velhos reis arlesianos. É na inclinação dessa costa que se encontram os destroços do grande aqueduto romano que levava as águas de Vaucluse para dentro das Arenas de Arles: conduto que a gente da terra denominava Ouide di Sarrasin (via dos Sarracenos). É nesses vales aromáticos. em Baux. que erram ainda nossas fadas. atrás das paredes de seu campo. e seus troféus triunfais. lá embaixo.

da cidade nas cores das quatro estações. Sempre irascível, o renomado pintor teve de tratar-se, durante suas crises de loucura, no hospital que hoje é um centro cultural em sua homenagem: L’ Espace Van Gogh. Além da pintura, observa-se que a paisagem e a luminosidade mediterrâneas imprimem um efeito pictórico na obra dos escritores que ali se inspiraram ou nasceram, marcando a literatura da Provença. Alphonse Daudet (1840-1897), por exemplo, após uma infância feliz no Midi, foi forçado a mudar-se devido à ruína de seus pais. Mas deixou aos franceses suas célebres Lettres de mon moulin (1866), narrando aventuras provençais em contos que unem humor e poesia. Bastaria hoje ir a Fontvieille – pequeno distrito próximo a Arles – para conhecer o moinho que deu origem às narrativas de Daudet, para imaginar seus passeios pela região e suas conversas com o moleiro. Enfim, em terra de tantas belezas e tantas proezas, a arte ultrapassou o terreno do pictórico e do literário, cultivando também o cinema. Vários foram os diretores que ali filmaram. Claude Berri adaptou para a tela Jean de Florette e A vingança de Manon, da obra de Marcel Pagnol (1895-1974), escritor pertencente à Academia Francesa desde 1946, que nessa seqüência aponta os problemas de uma sociedade ainda basicamente rural no começo deste século. Da trilogia das memórias de Pagnol, Yves Robert adaptou ainda A glória de meu pai e O castelo de minha mãe, que são o relato despretensioso porém sensível das descobertas do menino Marcel, durante sua infância na Provença. E foi o próprio Marcel Pagnol, que além de escritor se tornou dramaturgo e posteriormente cineasta, a verter para a tela a obra de Daudet (Les lettres de mon moulin) e de outro escritor provençal, Jean Giono (Angèle, Regain, la femme du boulanger). Também pertencente à Academia Francesa, Giono (1895-1970) é um escritor de origem franco-piemontesa, ou seja, da chamada “Haute-Provence” (Alta Provença). Não fossem, pois, tantos artistas a retratar a Provença, pouco restaria de seu mundo, que, se não é à parte, tem características próprias. Desde a Revolução Industrial, a região passou por uma profunda modificação em sua paisagem original – fato que a despersonalizou tanto no que diz respeito à terra quanto às tradições. Mas graças à produção artística, os domínios da langue d’oc são ainda hoje uma invitation au voyage, que podem proporcionar mesmo ao mais desavisado uma síntese da longa vida romana na Europa, e do Medievo à Idade Contemporânea. Trata-se de uma terra peculiar, eternizada na arte e cujo passado se projeta de forma tentacular aos olhos dos transeuntes.
Mônica Cristina Corrêa
mestranda em tradução em língua e literatura francesa na USP

À esq., as ruínas do castelo de Baux-de-Provence, região em que Dante teria se inspirado para escrever os círculos do Inferno. Acima, o Museu Arlaten, “último poema” de Mistral.

4 2 CULT - novembro/98

100 ANOS

sem Mallarmé

Montagem de José Henrique Fontelles sobre ilustração de Cárcamo
novembro/98 - CULT 43

O CENTENÁRIO DE

STÉPHANE
44 CULT - novembro/98

MALLARMÉ

Há cem anos morria Stéphane Mallarmé, poeta que buscou a “obra pura”, incorporou a colaboração do acaso e encarnou o drama da impotência criadora. Leia a seguir a conferência proferida por Manuel Bandeira na Academia Brasileira de Letras em 1942, ano do centenário de nascimento do poeta francês.

por volta de 1882. nevoeiros monumentais “qui emmitoufflent nos cervelles et ont. e a sua iniciação literária na adolescência assumiu o aspecto de uma clausura religiosa. est tout juste impertinent”. pois exprimir pela humana linguagem. Mal saído do liceu de Sens. Tinha então vinte anos e já havia se casado. um interregno de efervescência preparatória. que les riches dames jettent en arrivant. les grands feux! et la bonne aux bras rouges versant les charbons. em que o seu papel não deveria ser outro senão trabalhar com mistério en vue de plus tard ou jamais. un manteau qui colait humide à ses épaules froides. Mallarmé amava os nevoeiros londrinos. onde terminou os estudos. Como fazê-lo? A homenagem mais cara do mestre seria esculpir em soneto um túmulo à maneira dos que ele próprio levantou. com novembro/98 . le matin – alors que le facteur frappait le double coup solennel.Ao lado. disse ele. no seu altivo sonho de absoluto. Onde. à memória de Poe. conquistando assim a independência literária. em versos imperecíveis.CULT 45 . e tendo aprendido o inglês para ler Poe no original. alguma coisa mais tocante que esse triste chapéu batido “que les pauvres bien-aimées regarnissent pour bien des saisons encore”? Em setembro de 63 obtinha Mallarmé o certificado de habilitação ao ensino. se quisesse. Seria para mim demasiada ambição: le pietre serait châtié. para só citar dois críticos que são dois grandes poetas. que recebi do presidente desta casa o encargo de celebrar a passagem do centenário de Mallarmé. recon- Não foi sem grandes perplexidades duzida ao seu ritmo essencial. a fim de fugir principalmente (toda a sua vida e obra foi sobretudo uma evasão do “vomissement impur de la bêtise”). A poesia foi o seu culto. Cito o trecho para mostrar. si souvent traversé cet hierlà. de universal convulsão. em 1966. de Baudelaire e de Verlaine. Temi o desastre numa tentativa de interpretação das palavras magistrais de Valéry e Claudel.”. pour la traduire. la vie d’autrui. julguei-me autorizado à ce genre de méfait. para falar de um homem que no seu tempo deu resolutamente as costas à vida.. Mallarmé fotografado por Nadar. evocava ao calor de seu cachimbo a Londres onde viveu pobremente de lições de francês. là-bas. em qualquer literatura. mas preferiu isolar-se. Singular momento este. quase inacessível. e dois meses depois era nomeado professor no colégio de Tournon. ter conquistado o grande público. como um interregno para o poeta. Essa página em que ele revive os seus dias na Inglaterra é das mais simples e das mais comovidas que escreveu: “Mon tabac sentait une chambre sombre aux meubles de cuir saupoudrés par la poussière du charbon sur lesquels se roulait le maigre chat noir. Os versos de Mallarmé são daqueles que nos introduzem de golpe na cidadela mesma da poesia. no sentido secreto das aparências do mundo era para ele a única tarefa que autenticava a existência terrestre do verdadeiro artista. inseparáveis da cidade.. Manuel Bandeira na Academia Brasileira de Letras. tant ils son déchiquetés par l’air de la mer et les pauvres bien-aimées regarnissent pour bien des saisons encore. une longue robe terne de couleur de la poussière des routes. et le bruit de ces charbons tombant du seau de tôle dans la corbeille de fer. aos que só conhecem Mallarmé pela sua fama de hermetismo. Na página oposta. mas também para aprender a falar o inglês e ensiná-lo num curso. qui me faisait vivre! J’ai revu par les fenêtres ces arbres malades du square désert – j’ai vu le large. Relembrar-lhe a vida exemplar? “Ordonner. grelottant sur le pont du steamer mouillé de bruine et noirci de fumée – avec ma pauvre bien-aimée errante. Trabalhar em quê? Na interpretação do universo. sem outro ganhapão obrigado. partiu para a Inglaterra. muito só. Mas já que o fez a propósito de Rimbaud. considerando a época em que viveu. en habits de voyageuse. a funda ternura existente nesse homem que poderia. porque a esposa não pudera acompanhá-lo e visitava-o de raro em raro. quand ils pénètrent sous la croisée”. Um ano depois de regressar à França. en fragments intelligibles et probables. un de ces chapeaux de paille sans plume et presque sans rubans. une odeur à eux.

Et vers le ciel errant de ton oeil angélique Monte. nascimento de sua filha Geneviève. o mais comovente produzido no século XIX”. Se traîner le soleil jaune d’un long rayon. un coup de dés. e desde aquela noite de Tournon ele poderia dizer que o exprimirá mais tarde na Prose pour des esseintes: Glorie du long désir. sur l’eau morte où la fauve agonie Des feuilles erre au vent et creuse un froid [sillon. o . ou o inverso: atestar um estado de espírito em certo ponto por um sussurro de dúvidas para que delas saia um esplendor definitivo simples. o extenuamento aussitôt que s’allume la lampe du soir. Era a independência literária que desejara. mas aqui e ali já repontavam as “deliciosas. Todavia a visão da obra pura apontou ao poeta o seu caminho.Para Mallarmé. fotografado por Nadar 1. pudicas metáforas” mallarmeanas. e sua iniciação literária assumiu o aspecto de uma clausura religiosa. A poesia foi o seu culto. que Mallarmé só leu para alguns raros amigos e nunca publicou. as manhãs e as tardes perdidas no ofício insulso e fatigante. Idées Tout en moi s’exaltait devoir La famille des iridées Surgir à ce nouveau devoir Em 65. Eram versos onde se traía ainda a influência absorvente de Baudelaire. a única tarefa que autenticava a existência do verdadeiro artista era trabalhar na interpretação do universo e exprimi-lo pela humana linguagem. Fidèle. como disse Valéry. comme dans un jardin [mélancolique. O primeiro processo. para escrever a versão condensada e definitiva do único assunto: l’antagonisme du rêve chez l’homme avec les fatalités à son existence départies par le malheur. a surpresa. jogo d’água com a sua parábola perfeita e aquele sortilégio de dissolver em imagens os elementos esparsos da beleza para reordená-los em seus valores essenciais: Mon âme vers ton front où rêve. “Les fleurs”.700 francos anuais. ô derision! Entretanto. para realizar o Livro a que converge toda a vida. que Mallarmé teve o que chamou “a visão horrível de uma obra pura”. Mas ele não nascera senão para tentar o desastre obscuro. Dessa noite de vigília.novembro/98 Qui mire aux grands bassins sa langueur [infinie Et laisse. “Azur”. dessa iluminação fulminante e dolorosa resultou Igitur. empregado em Don du poème como em L ’après-midi d’un faune (Ces nymphes. jamais. aos 24 anos. da ação consciente do artista – o lance de dados – em luta com o acidental. ô calme [soeur. os seus primeiros poemas – “Les fenêtres”. com o acaso. “o mais belo. Foi em Tournon. un blanc jet d’eau soupire vers [l’Azur! – Vers l’Azur attendri d’Octobre pâle et [pur 46 CULT . quand bien même lancé dans des circonstances éternelles n’abolira le hasard. je les veux perpétuer!). “Brise marine”. o drama da impotência criadora. Começa então seu martírio. Bastaria a Mallarmé persistir a meio de sua personalidade para se revelar. Charles Baudelaire. Un automne jonché de taches de rousseur. a que devemos os quatorze versos de “Don du poème” com o seu maravilhoso alexandrino inicial: Je t’apporte l’enfant d’une nuit d’Idumée! Já aqui vemos aplicado o conceito orquestral de poesia desenvolvido em prosa nas Divagations: através dos véus da ficção. Assim em “Soupir”. em retardos liberados pelo eco. – publicados em L ’artiste ou no primeiro Parnasse começavam a despertar a atenção e a estima das rodas literárias parisienses. desprender o assunto de sua estagnação acumulada ou dissolvida com arte – começar por uma afirmação como um pórtico de acordes convidando a que se componha. mas a que preço! o ramerrão de classes em face de alunos desatentos que o chamavam le bonhomme Mallarmé e chegaram muitas vezes ao desplante dos apupos e das pedradas. que Claudel classifica como um drama. o que de fato era – o primeiro poeta de seu tempo. Trinta anos depois a vitória do herói criança – le hasard vaincu mot par mot – se converte na catás- trofe do velho náufrago: non. cometeu o pecado “de ver o Sonho em sua nudez ideal”.

Mistral. seu ex-aluno de Tournon. com o exame dos menores detalhes: “toilettes”. 1854 Escreve seus primeiros poemas. Mallarmé obtém a nomeação para o liceu Fontanes. ao menos a remoção do funcionário para Besançon. As senhoras aqui presentes gostarão de ouvir. froncé à deux fils avec têtes étroites de chaque côté. As descrições dos vestidos na Dernière Mode têm o sabor de poemas compostos especialmente para lisonjear a imaginação feminina. na qual. je l’ai vue rose. mas aqui e ali já repontavam as deliciosas. Mallarmé despendeu em benefício de suas caras leitoras desconhecidas. No mês de outubro. 1852 Estuda no pensionato dos padres das Écoles Chrétiennes de Passy. Eram versos onde se traía ainda a influência absorvente de Baudelaire.. De scintillations sitôt le septuor. era da própria mão de Mallarmé.. 1858 Depois de terminar o curso secundário. vinhetas desenhadas por Morin. onde a vida se lhe tornou ainda mais dura.Seus primeiros poemas cedo despertaram a atenção e a estima das rodas literárias parisienses. Gras. teve a ilusão de poder evadir-se do ingrato ofício de ensinar inglês em liceus. Roumieux. salvo algumas colaborações literárias. Aubanel. e no texto.. capa azul-turquesa. aqui e ali. mobiliário e até espetáculos e “menus” de jantares. Felizmente um ano depois volta ele ao sul e até 72 assiste em Avignon. onde se promulgavam as leis e verdadeiros princípios da vida estética. A revistazinha definia-se como uma gazeta do mundo e da família. de dar nome Mallarmé. graças ao historiador Seignobos. Durante nove números. Oito páginas de pequeno formato in-folio. e houve um momento mesmo que aquele Hamletprofessor. Roumanille. por ele mesmo novembro/98 . 1853 Seu pai é transferido para a cidade de Sens... de alguns pais de alunos escandalizados com os versos do professor-poeta conseguem.. lançando uma revista – La Dernière Mode. filho do funcionário público Numa Florent Joseph Mallarmé e de Élisabeth Félicie Desmolins. em vários sonetos. de ses très vraies chères abonnées. 1856 Estuda no liceu de Sens como aluno interno. os tesouros de suas delicadezas de poeta. Continua a descrição e acaba estas palavras que esclarecem a origem do costume atual dos Worth e das Schiapparelli. depois Condorcet. senão a demissão.CULT 47 .. longe de seus caros felibres. estou certo. A vinda para a capital encheu-o de grandes esperanças. que aliás o considerava uma espécie de degenerado inofensivo. segundo mais freqüente. estuda retórica e lógica no mesmo liceu. desde o título até os anúncios. Une rose dans les ténèbres. como lhe chamou Remy de Gourmont. comme vous pouvez la voir bleue): le tablier de la première jupe est garni de maint bouillon horizontal. em Paris. rematados por um verso que se diria organizar todo o poema numa constelação de que ele fica sendo a estrela alfa: Ainsi qu’une joyeuse et tutélaire torche. um ou dois grandes exemplos dessa literatura de modas introduzida no domínio da grande arte de um grande poeta: Toilette de dîner (en cachemire. junto à administração. em Paris. Mallarmé em 1896 Vida e obra 1842 Nascimento de Étienne Mallarmé – nome verdadeiro do poeta Stéphane Mallarmé – no dia 18 de março.. jóias. 1847 Morte de sua mãe. pudicas metáforas mallarmeanas. Em 66 as manobras. tudo.

A sua vida era a mais discreta possível: não ia a parte alguma. de volta do liceu. o qual. este bleu-rêve. não obstante os seus pontos de vista e gosto tão requintadamente pessoais. possuía o raro dom generoso da admiração. De fato. qui la prèmiere portera cette toilette.novembro/98 gratuitamente. à beira do Sena e à vista da floresta de Fontainebleau. não possível no teatro. mas ao lado do órgão venerável queria ele também a maliciosa siringe. “mon cher poète impressioniste”. o alexandrino en grande tenue. A este último aspecto é a sua poesia de natureza platônica. distinguindo prontamente em cada um o que era digno de apreço e assinalando-o com tato impecável. da humana paixão que chora (porque não se assoa também? perguntou de uma feita). representa a sua realização mais perfeita. uma casinha onde passava as férias. Nunca disse mal de ninguém nem jamais revidou a campanha de ridículo que lhe moviam na imprensa os que não lhe compreendiam a poesia. para escrever a versão condensada e definitiva do único assunto: o drama da impotência criadora. ao pintor Manet. que costumava visitar Mallarmé nos últimos anos de vida do poeta aos vestidos-modelos: À celle d’entre vous. Em 75 estava concluído “L’après-midi d’un faune”. mas exigindo o teatro. qui enguirlande quelquefois les nuages argentés. que gostava de o chamar. ao lado do alexandrino bem ortodoxo na sua cesura regular.Mallarmé foi. queria. dans le monde. o primeiro poeta de seu tempo. beliscando-lhe afetuosamente a orelha. é assim descrito: On n’a qu’à le vouloir. no esforço . Mesdames. mais tout me fait croire qu’elle va servir à de vagues chantages. exercido em derramamentos. e daquilo a que chamou o dom elocutório. pois o poeta imaginara-o absolutamente cênico. de que podemos colher quase toda a teoria nas páginas de prosa das Divagations. na falta do grande Livro sonhado na memorável noite de Tournon. l’honneur de l’appeler. charme et distinction. e Mallarmé. par son port. Muitos são os poemas de Mallarmé de interpretação difícil senão impossível. Ia algumas vezes à casa de Hugo.. antes com uma discrição que deixava encantados os que dele recebiam uma palavra ou uma linha de louvor. du bleu le plus idéal. de que Igitur permaneceu esboço e Un coup de dés um capítulo que a ele próprio deixava em estado vertiginoso. como um acompanhamento musical feito pelo próprio poeta e não permitindo ao verso oficial comparecer senão nas grandes ocasiões. ce bleu si pâle. a gazeta caiu nas mãos de uma mulher que fez dela uma revista banal. Mas ele não nascera senão para realizar o Livro a que converge toda a vida. grande voz da tradição. uma espécie de jeu courant pianoté autour. Aos 24 anos Mallarmé teve “a visão horrível de uma obra pura”. acquis la célébrité et le prestige! Outro vestido. Je ne sais au juste entre les mains de qui va tomber cette feuille. tinham a preferência entre todos os confrades que admirava. Não tardou a se desfazer a ilusão do cronista estético: Mallarmé foi roubado de sua iniciativa e do seu trabalho. pour se figurer une longe jupe à traîne de reps de soie. Certo purificou-a o poeta de todo elemento estranho ao sentido poético essencial.. não dava colaboração literária senão às pequenas revistas de novos e 48 CULT . cara a quem não aceitava o banimento de nada que tivesse sido belo no passado. Paul Valéry. O alexandrino de L’après-midi marca o rompimento com a técnica oficial parnasiana. Teve verdadeiramente o gênio da amizade. à des mariages et à d’autres combinaisons. instrumento das fugas. avistavase freqüentemente com Banville. lui a. Não que Mallarmé aborrecesse o alexandrino clássico. como disse Valéry. datant de quelques jours (a revista é de 74) veut qu’une robe se nomme de la femme qui. e mesmo da mera realidade dos materiais naturais. Foi nesse mesmo ano de 74 que Mallarmé se instalou no famoso apartamento da rue de Rome e alugou em Valvins. O poema deveria ser dito por Coquelin aîné. Não assim a sua estética e a sua técnica. car un joli usage. Não me parece a poesia mallarmeana tão pura quanto se tem afigurado aos seus críticos. à reflets d’opale. que com Villiers de l’Isle Adam. salvo os concertos dominicais e a visita diária.

Trabalha como funcionário de um cartório em Sens. Mallarmé foi sobretudo sensível ao lado orquestral da música. mas essas bastam. a Música. próximos da instrumentação. Nasce sua filha. e nisto ela é ainda bem parnasiana. diante de uma ruptura dos grandes ritmos literários e sua dispersão em frêmitos articulados. uma arte de rematar a transposição para o livro da sinfonia ou simplesmente retomar-lhe o que nos pertence: pois não é das sonoridades elementares dos metais. 1863 Morte de seu pai. com o seu caráter espiritual. no que consuma. Mas se o conceito de poesia pura exige a autonomia dela em relação às outras artes. A sua técnica de poeta é uma orquestração da linguagem. Françoise Geneviève Stéphanie Mallarmé. complemento superior de cada uma delas na falta do Geneviève Mallarmé. Poderia prolongar as citações. das cordas e das madeiras inegavelmente mas da intelectual palavra em seu apogeu. ou seja. na poesia de Mallarmé. Alguns fragmentos: A Poesia não é senão a expressão musical. de Edgar Allan Poe 1860 Traduz Poe. Esse caráter aproxima-se da espontaneidade da orquestra. Casa-se com Maria Gerhard e volta para a França como professor de inglês no liceu de Tournon. com quem vai para Londres. 1861 Corteja a governanta alemã Maria Gerhard. as palavras se iluminam de reflexos recíprocos como um virtual rastilho de luzes sobre pedrarias. filha do poeta novembro/98 . obra por excelência do poeta. resultar. Seus versos geram protestos dos pais dos alunos de Tournon e Mallarmé é transferido para o liceu de Besançon. buscar. 1866 Publicação de dez poemas no Parnasse contemporain (série de antologias da poesia francesa do século XIX). lançando uma revista – La Dernière Mode. que é autoridade em música. como o conjunto das relações em tudo existentes. ele mesmo o declarou. Precisamente para remediar essas contradições das línguas existe o verso. não se pode falar de pureza em Mallarmé. de subir dos acidentes à noção pura. e a esse ângulo a música nos parece como o limite da poesia. na qual tudo saía de sua própria mão. superaguda. Quem não percebe a face orquestral. espécie de metafísica poética em que a flor. não poderá compreendê-la. com alusão a O corvo. A divina transposição. 1865 Escreve a primeira versão L’après midi d’un faune. Musical não no sentido puramente sonoro ou melodioso. de um estado de alma.Teve a ilusão de poder evadirse do ingrato ofício de ensinar inglês em liceus. 1864 Começa a escrever o drama poético Hérodiade. Neste sentido diz o crítico russo. e musicais.CULT 49 . Mas na infinidade dos idiomas nem sempre o timbre da palavra corresponde à imagem por ela evocada: Mallarmé confessou a sua decepção em face da perversidade que confere a jour timbre escuro.. não poderá sentir a beleza do alexandrino Hilare or de cimbale à des poings irrité. o simbolismo. Água-forte de Gauguin. devia ir do fato ao ideal. por exemplo. Mallarmé se reporta à música. na imanência do conteúdo com a forma. um texto pode ser musical apesar de duro aos ouvidos. se transcendentaliza em l’absente de tous bouquets. Toda vez que define a poesia. e o alexandrino foi principalmente para ele uma combinação de doze timbres. A poesia mallarmeana é essencialmente musical. emo- cionante. mas no sentido definido por Boris de Schloezer. a nuit timbre claro. uma gazeta do mundo e da família.. porque a sua poesia está refeita de elementos plásticos. que deve com plenitude e evidência. e só verá nela a ousadia insólita da imagem.

Que soneto? Aquele. Ce blanc vol fermé que tu poses Contre le feu d’un bracelet. essa obra-prima. é linguagem em estado nascente. que gostava de o chamar “mon cher poète impressioniste”. – Non. Cabe lembrar aqui a dife- . ouvindo-o dizer: “Eu sou o pão que desceu do céu”. Une fraîcheur de crépuscule Te viente à chaque battement. fou de naître pour personne. Dont le coup prisonnier recule L’horizon délicatement Vertige! voici que frissonne L’espace comme un grand baiser Qui. Mallarmé se instalou no apartamento da rue de Rome. idioma supremo em que as palavras figurassem materialmente a verdade. A sentença de France: Non. como para todo verdadeiro poeta. Assim ampliar o vaivem do leque no gesto de aproximar e recuar o horizonte. O voto de France foi secundado por Coppée e venceu. cuja incompreensão se assemelha à de certos maus alunos de literatura. A Poesia é que dá o verdadeiro timbre às coisas por meio das imagens. instituía entre as imagens (e raramente exprimia o primeiro termo delas) uma certa relação donde se destacava um terceiro aspecto fusível e encantatório apresentado à adivinhação. como explicou Valéry. ou nas noites de vigília no gabinete da rue de Rome.. fotografado por Nadar. on se moquerait de nous! O mesmo júri condenou um soneto de Verlaine. Degas. estão presentes nesse poema do fauno. incluído depois em Sagesse. em que renovou magistralmente o gênero antigo da égloga. Ne peut jaillir ni s’apaiser. apesar do protesto de Banville. “No entanto”. transparente em seu tema e tão límpida de forma. Pois bem. Para Mallarmé. par un subtil mensonge. No poema feito para sua filha Geneviève a palavra “leque” só aparece no título e seria dispensável: O revêuse.novembro/98 Sens-tu le paradis farouche Ainsi qu’un rire enseveli Se couler du coin de ta bouche Au fond de l’unanime pli! Le sceptre des rivages roses Stagnants sur les soirs d’or. foi recusada pelo leitor de Lemerre para o terceiro fascículo do Parnasse Contemporain. que começa pelo verso famoso: Beauté des femmes. ou em suas horas solitárias na iole de Valvins. Mallarmé jogava com as analogias numa espécie de contraponto. onde o leitor mal dotado de instinto poético se perde na incompreensão do poeta. Nomear o objeto seria a seu ver suprimir três quartas partes do gozo do poema. ce l’est. Sache. motivo de todos os seus devaneios. pintado por Manet.. A mesma incompreensão dos discípulos de Jesus que. a poesia confunde-se com a linguagem. Ao lado. E sabeis quem era esse leitor? Anatole France. Por isso Thibaudet classificou-o na obra do poeta como le morceau des connaisseurs. se puseram a murmurar perplexos: “Duro é este discurso: quem o pode ouvir?” Conta Valéry que certa vez o pintor Degas se queixou a Mallarmé de ter perdido o dia na vã tentativa de escrever um soneto. Imagens que repugnam a tantos. Não ia a parte alguma. Todos esses aspectos.Em 1874. adolescentes mal iniciados à verdade superior da poesia e que riem quando lhes cito a comparação do Cântico dos Cânticos: “O teu cabelo é como o rebanho de cabras que pastam no monte de Gilead”. l’auteur est indigne et les vers sont des plus mauvais qu’on ait vus. À dir. Ia às vezes à casa de Victor Hugo. uma força de sugestão. não é com idéias que se fazem versos: é com palavras”. 50 CULT . pour que je plonge Au pur délice sans chemin. gozo que nasce da felicidade de adivinhar. salvo os concertos dominicais e a visita diária ao pintor Manet. ponderou France.. Tenhoas até demais”. E aqui entramos em outro domínio. Garder mon aile dans ta main. e aquele perpétuo desígnio de transmudar a realidade em sonho. A poesia é um sortilégio. junto à fulgurante console.. pontos capitais da técnica de Mallarmé. e.. retrato de Mallarmé. Victor Hugo. Ao que o mestre respondeu: “Mas. leur faiblesse et ces mains pâles. Essa incomparável jóia de poesia está cheia de imagens audaciosas em sua extrema delicadeza. acrescentou “não são as idéias que me faltam.

mas parecia mais velho. Delthil. a partir de então. Anatole Mallarmé. ou antes o monólogo. Mallarmé e Verlaine foram excluídos do Parnasse. tinha Mallarmé 48 anos. de Poe. Mallarmé começa a sentir em torno de si a veneração de um grupo de moços que o afeiçoam como um ídolo. cuja libertinagem de autor e de homem todos nós conhecemos. 1875 Publica a tradução do poema O corvo. Quando Mauclair principiou a freqüentar as terças-feiras do mestre. e uma esculturazinha em madeira de Gauguin.1867 Leciona no liceu de Avignon. Só então começava a conversação. O poeta. Grandmoujin. Marc. Então moquons-nous d’Anatole France. France. e se retirava logo. um desenho de Manet representando Hamlet. Geneviève. mais tema de luminosos sonetos do que de evasão na sensualidade. silenciosa e sorridente. 1874 Lançamento do jornal La dernière mode. nas paredes uma paisagem de rio de Monet. puritaníssimo diante dos erros de seu desgraçado confrade. 1873 Publica Toast funèbre. Estatura mediana. Capa de edição de La Dernière Mode rença de tratamento dispensada a Verlaine por France e por Mallarmé. 1872 Encontro com Rimbaud. a filha do poeta. traduzido por Mallarmé novembro/98 . O mestre recebia-os às terças-feiras. entrava. ninfa nua agarrada por um fauno. Pigeon e Popelin. onde tiveram entrada D’Artois. Nascimento de seu filho. Dujolier. Se a compreensão não chegou. inteiramente redigido por Mallarmé. Mallarmé. Já ouvistes falar nesses nomes? Não. trazendo o grog para os visitantes. uma água-forte de Whistler. compreendendo fraternalmente a atitude do homem e até exaltando-a como a única numa época em que o poeta está fora da lei: a de aceitar todas as dores e todas as misérias com uma tão soberba crânerie. Quem quiser sentir o encanto dessas noites de intimidade intelectual com o poeta não tem mais que ler as páginas de Camille Mauclair no seu livro Mallarmé chez lui. em 84. 1879 Morte do filho Anatole. 1871 Retorna a Sens. 1883 Verlaine publica o terceiro artigo da série Poètes maudits. de certo. grande. Ilustração de Manet para O corvo. sobre o guarda-louça um gesso de Rodin. uma aquarela de Berthe Morissot e um pastel de flores pintado por Odilon Redon. o retrato de Mallarmé por Manet. com ilustrações de Manet. salvo o leve pecadilho com Méry Laurent. 1876 A versão definitiva de L’après midi d’un faune é publicada com ilustrações de Manet. O próprio Mallarmé vinha abrir a porta aos visitantes e introduzia-os num aposento que era ao mesmo tempo salão e sala de jantar: um fogão de faiança a um canto. porque os amigos e admiradores do poeta se limitavam a lançar-lhe alguma deixa para ouvi-lo discorrer. tão atormentado na sua ingrata labuta de professor que todas as tardes ao voltar do liceu nunca atravessava a ponte sem que o assaltasse a vontade de acabar com a vida atirando-se ao Sena. Marrot. tão puro em sua arte e na sua vida. viveu desconhecido e solitário até que o retrato entusiástico de Verlaine em Les poètes maudits e as páginas de Huysmans em À rebours vieram revelá-lo ao grande público. alguns móveis de nogueira e ao centro uma mesa onde pousava um vaso da China cheio de tabaco. tendo por tema a obra de Mallarmé. Às 10 horas.CULT 51 . todavia.

começou com estas palavras: La plus haute institution puisque la royauté finie et les empires... olhos penetrantes. Viélé Griffin. É verdade que o poeta por seu lado nada fazia para desarmá-la. prezada tão alto que o ato de a nivelar às outras classes do Instituto lhe parecia de mão política e sacrílega. l’autre dimanche. conta Mauclair. Na atitude em que o representa o famoso retrato de Whistler. porém. poema que marca sua ruptura formal com o parnasianismo. par ce midi. pois vulgaire l’est es à quoi on decérne. não possível no teatro. Caricatura de uma edição do poema L’après-midi d’un faune barba e cabelos grisalhos. Oscar Wilde anunciou-se uma noite. de organização de um sistema de incidentes em torno de uma idéia e tendendo não à cadência redonda. o adjetivo qualificativo ou uma simples vírgula como para marcar entre os dois um instante de reflexão. superbe. em 97. Escrever para ele era mobilizar toda a sorte de sugestões fugitivas em torno da idéia e nessa mobilização a sua disposição habitual era refugar a solução imediata com a sua luz crua.. porque era muito friorento. tão inabitual na prosa francesa desde a reforma de Guez de Balzac. Foi essa mocidade que. substancial e concentrada como uma fórmula algébrica. Stuart Merrill. voz melodiosa. estava concluído L’après-midi d’un faune. com súbitas notas agudas. “não nos ensinava. plutôt que tendre le nuage. . a solução vulgar. Eis um bom exemplo da sua sintaxe. lavallière preta e nos ombros. Valéry. que depois veio a casar com Geneviève. de escolha. comprada pronta. Diante da agressão de inteligibilidade. A análise do segredo é aliás fácil: um substantivo. l’Académie. juntou as de uma sintaxe própria. André Fointainas. bigode espesso. que acabara de publicar Les cahiers d’André Walter. rituelle est. ironicamente satisfeito de afastar de sua obra os espíritos superficiais. Sorriso de extraordinário encanto. Mas fazia melhor do que isso: pelo encanto de sua palavra e de sua pessoa punha cada um de nós em estado de poesia”. O que ele escrevia não parece produto do pensamento. de um timbre raro. indispensable. o alemão Stefan George. cada vez se envolvia em névoas mais densas. orelhas de fauno. Às obscuridades naturais resultantes de seu conceito de poesia. às vezes.Em 1875. grave. fecundo em incidentes atentos em se organizar num sistema indeformável à balancement prévu d’inversions. Serrez l’argenterie”. muito afastados. é freqüentíssimo em Mallarmé. o que provocou um petit-bleu do malicioso Whistler com a recomendação cautelosa ao 52 CULT . pas plus. É sua realização mais perfeita. o médico Edouard Bonniot. Imaginara-o absolutamente cênico. mas a um remate agudo com o bico da pena pingando o ponto final. Despojavase por elipse o mais possível dos termos da relação. Gostava de separar. mas exigindo o teatro. Às vezes apareciam estrangeiros de passagem por Paris: o inglês Symonds. Ainsi. “Mallarmé”. Pierre Louÿs. Vestia sempre roupa preta. elevou Mallarmé ao posto de Príncipe dos Poetas.. fumando o seu inseparável cachimbo. précieux. Albert Mockel. Odilon Redon. desarmava a incompreensão. que Remy de Gourmont conta ter visto corar ao receber o primeiro discreto elogio de Mallarmé. que confessou ter sentido diante da obra e da figura do mestre “a progressão fulminante de uma conquista espiritual definitiva”. avec le rien de mystère.. encantados de ver num escrito que nada lhes concerne à primeira vista. mas o próprio pensar em sua origem e evolução dialética.novembro/98 mestre: “Wilde viendra chez vous. le pauvre trumeau. vago com a morte de Verlaine. Quem eram os visitantes? Henri de Régnier. Nada. n’attendez la Chambre représentative. du pays si une autre dure que tarder à nommer paraît irrespectuex. Gide.. um plaid. automnal. suranné. talvez já sintoma da moléstia de laringe que o vitimaria. preferia retorquir que a maioria dos contemporâneos não sabe ler senão os jornais. directe. un caractère immédiat. Falando da Academia Francesa. E outros. Edouard Dujardin. Ao contrário. Este último processo. encostava-se ao fogão e ficava em pé todo o tempo. o dinamarquês Brandes. Este curto período resume todo o processo mallarmeano de composição.

recebe a visita de Paul Valéry. não admitiu nunca outra diversão senão aquelas deliciosas bagatelas por ele chamadas vers de circonstance: para cele- brar festas e aniversários. ricas de expressividade. que permanecerá inacabada. A casa do poeta em Valvins novembro/98 . para enviar um presente – flores ou frutas. e como condenar por ininteligíveis as singularidades do poeta em nome de uma sintaxe oficial que admite o anacoluto? A sintaxe de Mallarmé reagiu contra a sintaxe corrente do século XIX para acentuar os mil cambiantes do ato de pensar. Dans cette main qu’on aime à tendre Je dépose le fruit permis. O austero conceito de arte a que o poeta sacrificou materialmente a sua vida. ou simplement littéraire dans le vieux sens du mot. Outro exemplo: Constater que la notation de vérités ou de sentiments pratiquée avec une justesse presque abstraite. separado de sua regência por uma longa incidência.. Todos esses traços pessoais de sintaxe dificultam a leitura de Mallarmé. de uma ou duas sílabas. do compositor Claude Debussy. não no sentido puramente sonoro ou melodioso. mas na imanência do conteúdo com a forma. 1897 Publicação de Un coup de dés. Aile ancienne. Méry Laurent. mas essa espécie de obscuridade se dissipa com alguma prática do autor. trouve. um retrato. um livro. j’en sais une à jamais offusquée par cet état trop vif. donne-moi L’horizon dans une bouffée. um leque. Sua técnica de poeta é uma orquestração da linguagem. Sofre uma crise respiratória e morre em Valvins no dia 9 de setembro. Um copo de água lhe suscita este cristal do mais puro brilho mallarmeano: Ta lèvre contre le cristal Gorgée à gorgée y compose Le souvenir pourpre et vital De la moins éphémère rose. Mallarmé e Manet visitam Monet em Giverny. e o alexandrino foi para ele uma combinação de doze timbres. moins que votre front.CULT 53 .. 1894 Primeira audição do Prélude à L’après midi d’un faune. termina bruscamente o período: À côté de l’Amérique que vous et moi portons haut dans notre estime (il est. Mallarmé reaparece com uma nova graça nesta quadra: Jadis frôlant avec émoi Ton dos de licorne ou de fée. Algumas dessas quadras são madrigais de uma sutileza jamais excedida: Avec mon souhait le plus tendre. baseado na obra de Mallarmé. Poe.A poesia mallarmeana é essencialmente musical. à la rampe. Comme il sied entre vieux amis. 1889 Mantém um relacionamento amoroso com Méry Laurent. e infelizmente banidas da linguagem escrita em nome de uma clareza tão empobrecedora do mistério poético da palavra. Le mensonge de toute année. amante do poeta 1884 É nomeado professor de inglês no liceu Janson-deSailly. Nesses momentos de détente no seu árduo esforço para o livre ideal. ovos de Páscoa. hélas! comme un pays dans un pays). Mallarmé fazia-o sempre acompanhar de alguns versos onde punha a dupla delicadeza do seu afeto e da sua arte. la vie. o poeta se permite até o sorriso de um trocadilho: 1891 No auge da glória literária. 1898 Retoma o trabalho da Hérodiade. aos quais correspondiam nos séculos anteriores outras tantas formas de construção. A imagem do horizonte no leque de mlle. Afinal a sintaxe é um hábito. Ces vers qui se ressembleront! Prêtez-leur la voix spontanée De dire.

rue Oudinot. Em 85. Rue antique du Bac 110. a de traduzir o fugaz e o súbito em idéia. L ’âge aidant à m’appensantir. que nenhuma deixou de chegar ao destinatário. a quem Mallarmé costumava mandar seus envelopes póeticos Ici même l’humble greffier Atteste la mélancolie Qui le prend d’ortographier Julie autrement que Jolie. qui vit loin des profanes Dans sa maisonnette very Select du 9 Boulevard Lannes. Boulevard Lannes. Auto-retrato de Auguste Renoir. ailles Seule rue. Hôpital Broussais. O seu pedido de aposentadoria é um docu- . Mallarmé preferia retorquir que os contemporâneos não sabem ler senão os jornais. já são autênticos poemas: Ville des Arts. avenue Bugeaud. Pode-se dizer que depois de Hérodiade e de L ’après-midi d’un faune. un des Quarante.novembro/98 Que rêve mon ami Verlaine Ru’ Didot. de Traktir. Pois não é confidência dizer: Facteur qui de l’état émanes C’est au neuf que nous nous plaisons De te lancer. chez Madame Méry Laurent. tanto quanto em vários sonetos. há sempre nelas aquela intenção que Mallarmé pôs em seus poemas mais ambiciosos. onde permaneceu até à sua jubilação em 93. o que sem dúvida deve ter consolado um pouco o poeta da agressão de obscuridade. Às vezes lhe bastam apenas dois versos de oito sílabas para captar o infinito da aurora ou de um rosto feminino: Tends-nous aujourd’hui comme joue Cette rose où l’aube se joue. 11. foi o professor de inglês transferido para o Collège Rollin. Facteur. de que fez confidente a administração dos Correios. Claire de Paris. Por mais óbvio que seja nessas bagatelas o desejo de brincar. près l’Avenue De Clichy. ce gracieux Helleu Peint d’une couleur inconnue Entre le délice et le bleu. douze. em que no fundo ele como que descansava da sua eterna meditação sobre o grande tema único. demandez Afin qu’il foule ma pelouse Monsieur Francois Coppée. Mas os dois endereços seguintes. peint Monsieur Renoir Qui devant une épaule nue Broie autre chose que du noir. Le filet. que não exclui o balancement d’inventions habitual na sua grande arte. por puro sentimento estético. e o poema tipográfico do Coup de dés. Alguns exemplos: Courez. si tu ne vas où c’est 54 CULT . Il faut que toi. Um dia a relação evidente entre o formato dos envelopes e a disposição de uma quadra levou Mallarmé. ma pensée. E enviando uma redezinha de pesca: Je vous rends. Je te lance mon pied vers l’aine.Diante da agressão de inteligibilidade. fulgurantes e sibilinos. Até aqui temos apenas o jogo verbal. les facteurs. por quem o coração do poeta ardeu numa chama. a sua locatária. mais j’y reste pris. de isolar para os olhos um sinal da esparsa beleza geral. isto é. Au cinquante-cinq. À la seule entre les maisons. por mais mallarmeano que fosse o endereço. feitos para pintores queridos. a escrever em versos os endereços das cartas que mandava aos amigos. depois de passar pelo liceu Janson-de-Sailly. e excetuados o soneto do Cisne e o que começa pelo verso Quand l’ombre menaça de la fatale loi. toda a obra poética de Mallarmé são versos de circunstância. E convém que se diga. Leur rire avec la même gamme Sonnera si tu te rendis Chez Monsieur Whistler et Madame. só escrito num impessoal e irônico: Paris. A casa nº 9 do Boulevard Lannes ficou imortalizada em várias quadras. mas o próprio pensar em sua origem e evolução dialética. O que ele escrevia não parece produto do pensamento. para honra dos Correios de França. Chez l’aimable Monsieur Séailles. Estes últimos endereços não levavam o nome da destinatária.

Paris. Paris. A. Minhas senhoras e meus senhores. de Jacques Scherer.. tradução de Dorothée de Bruchard. Perspectiva. Droz. Ed. Annablume. Colléction Idées. Droz. Gallimard. 1974. •Poemas. Paris. Seuil. por mais mallarmeano que fosse o endereço. 1991. Gallimard.J. 1961. no sentido próprio da palavra. Para honra dos correios da França. 33e édition. em 97. Perspectiva. Paris. organizée par Henri Mondor et L. O poeta representa. Bibliothèque de la Pléiade. Decio Pignatari e Haroldo de Campos. •Variété 1 et 2. E vejo mais claro do que antes aquela plumazinha que se salvou da catástrofe do Coup de dés. Paris. Rocher. Ed Experimento. Paris. Paris. •Vingt poèmes de Stéphane Mallarmé. Ed. a simpatia: obra restrita e perfeita. Copyright © Antonio Manuel Bandeira Cardoso Este ensaio foi publicado recentemente na antologia Seleta de prosa (editora Nova Fronteira). Gallimard.. Obras de Mallarmé na França •Oeuvres complètes. Gallimard. org. Ed. 1977. Paris. •O espelho interior. onde há uma arte que encanta par une fidélité à tout ce qui fut une simple et superbe tradition et ni gêne ni ne masque l’avenir. •La religion de Mallarmé. Nizet. Noulet. No dia 9 de setembro de 98 o Mestre morria quase subitamente num espasmo da laringe. je me trouve à cause d’un état maladif que détermine la fatigue de l’enseignement. Un coup de dés. Seuil. lendo-o para um amigo. Mallarmé no Brasil •Mallarmé. Nizet.” Mas o cansaço de Mallarmé não o incapacitava tão-somente para o ensino: incapacitava-o também para a obra sonhada na vigília de Tournon. •Le “Livre” de Mallarmé. e é por isso que tudo acontece realmente nele. Foi lá que concluiu. Paris. Paris. Morria sem realizar o sonho da juventude. 1938. •La dissémination. par H. li tudo o que pude achar sobre ele. perguntou-lhe depois: – Est-ce que cela ne vous parâit tout à fait insensé? N’est-ce pas un acte de démence? É de fato um ato de demência mas o amigo poderia responder-lhe com as palavras de Novalis: “O poeta é verdadeiramente insensato. Paris. •Vie de Mallarmé. mas deixando à posteridade uma obra da natureza daquelas que lhe mereciam. Mondor. Gallimard. sinto que o meu caro amigo. Ed. traduções e ensaio de Mário Faustino.A relação entre o formato dos envelopes e a disposição de uma quadra o levou a escrever em versos os endereços das cartas que mandava aos amigos. mento comovente em sua digna simplicidade: “Après trente ans de service. organização e tradução de José Lino Grünewald. chegando ao fim destas pobres palavras. Éditions du Seuil. Paris. de Paul Valéry. Monaco. fiou demais da minha qualidade de poeta. •Prosas de Mallarmé. Genève. de E. o ilustre Presidente desta casa. O mito solar nos Contos indianos de Mallarmé. o sujeito-objeto: a alma deste mundo”. tão estranho a todos os aspectos que o próprio Mallarmé. Sette Letras. •Vues sur Mallarmé. arrêté dans mes fonctions et incapable de continuer. 1972. Ed. Corti. de ter ouvido o mestre dizer através das fumaças do seu cachimbo as palavras que nos confirmam na dignidade do labor poético. pousar. Guardo a impressão de ter freqüentado um pouco o salãozinho da rue de Rome. de Robert Greer Cohn. de Julia Kristeva. de Lucia Fabrini de Almeida. Austin. misteriosa e eterna no céu da mais alta poesia. novembro/98 . •Grammaire de Mallarmé. Ed. tradução e anotações de Júlio Castañon Guimarães. l969. Les Lettres. •L’entretien infini. Gallimard. •Correspondance. Paris. de Robert Greer Cohn. •La révolution du langage poétique. tradução de Yolanda Steidl de Toledo. 1967. •L’oeuvre de Mallarmé. 1951. nenhuma deixou de chegar ao destinatário. sobre todas. •Contos indianos. de Jacques Derrida. Reli o mestre muitas vezes. Paraula. •Brinde fúnebre e prosa. •L ’univers imaginaire de Mallarmé. •Poesia-Experiência. 1941. que reúne textos de Manuel Bandeira organizados por Júlio Castañon Guimarães Livros sobre Mallarmé fora do Brasil •La métaphore dans l’oeuvre de Stéphane Mallarmé. dom obscuro à glória do grande artista de França. de Henri Mondor. de Maurice Blanchot. quoique je n’aie que cinquante et un ans et demi d’âge. O poeta foge de Paris e se recolhe à solidão da casinha de Valvins. de Jean Pierre Richard. traduções e ensaios de Augusto de Campos. 1988. Mas de toda essa aplicação não pude tirar senão o conforto de viver durante algumas semanas na sombra do morto inesquecível. Paris. Éd. Un coup de dés. pluma certamente caída da gorra de Hamlet. •Propos sur la poésie. 1978. de Deborah Amelia Kirk Aish. de Bertrand Marchal.CULT 55 .G. Nova Fronteira. frémissement vers l’idée.

E também pode-se dizer que a velha boemia carioca com seus estranhos personagens. Júlio C. de Manuel Bandeira.80 56 CULT .Um café com reunir. Bandeira acabou sendo um desses premiados do céu. A obra de fato saiu no ano passado com o carimbinho do MEC. porém. Seleta de prosa reúne crônicas e ensaios do poeta brasileiro. ela é sem dúvida uma dessas obras que reaparecem para se tornar. de 1958. em um só volume. agora. organizado pelo crítico Júlio Castañon Guimarães e publicado pela Nova Fronteira. Depois de muitos anos longe das livrarias. Os assíduos de Bandeira tinham contato com sua crônica através da velha edição da Editora José Aguilar. é sempre saborosa (basta ler o ensaio “O centenário de Stéphane Mallarmé”. andorinha. pois a prosa de Bandeira. a crônica. por causa da turberculose. como não incluir um índice das crônicas. a melhor crônica. na organização feita por Carlos Drummond de Andrade em Andorinha. tendo uma “sobrevida” invejável – hoje em dia algo quase impensável até mesmo para quem não fuma. não bebe e tem a saúde de um atleta). e do acabamento editorial deixar a desejar. que a CULT publica neste número). e. década de 60 Como homenagem aos 30 anos da morte de Manuel Bandeira. onde muito texto acabou sendo descartado. chega às livrarias. aos 82 anos (para quem acreditava que não passaria dos 19. está novamente ao alcance de qualquer leitor. por fim. Essa nova edição. como o místico Jayme Ovalle. apesar de alguns deslizes de editoração. Guimarães Nova Fronteira 596 pág. ainda preparada pelo próprio poeta. no dia 13 de outubro de 1968. somente das partes. O livro aparece como uma homenagem aos 30 anos de morte do poeta. – R$ 34. na edição posterior. além de iluminar muito de sua poesia. A trinca do Curvelo voltou a se Bandeira no Rio de Janeiro. com alguns de seus ensaios e a íntegra de Itinerário de Pasárgada surgem no livro Seleta de prosa.novembro/98 . incluindo conferência sobre Mallarmé Heitor Ferraz Seleta de prosa Manuel Bandeira org. Mais que na hora. Bandeira morreu na sua adorada Rio de Janeiro.

na enciclopédia Delta Larousse e que agora aparece incluído nessa Seleta. Ele havia sido pronunciado pelo poeta na Academia Brasileira de Letras (Bandeira foi eleito para a cadeira 24. de Drummond. mais do que sobre Mallarmé. Curiosamente. Mas um ganha-pão bastante prazeroso. Para o poeta. “Li tanto e tão seguidamente aquelas deliciosas cantigas. a ser publicada em breve pela Edusp. “A poesia de 1930”. sobre o seu aprendizado da poesia. autor de Resumo do dia (Ateliê Editorial) e A mesma noite (Sette Letras) novembro/98 . leitura obrigatória para qualquer poeta ou escritor. Será preciso dizer mais? Heitor Ferraz jornalista e poeta. de conversa entre amigos.CULT 57 . acaba falando de sua própria visão poética: “Por mais óbvio que seja nessas bagatelas o desejo de brincar.Bandeira novamente. ela é ocupada pelo crítico de teatro Sábato Magaldi). Nessa frase. Outra obra fundamental de Bandeira que pode ser encontrada em Seleta de prosa é o livro autobiográfico Itinerário de Pasárgada. senão mortal”. que havia sido suprimido pelo próprio poeta quando reuniu sua obra para a Editora José Aguilar. já que era nas crônicas que ele repassava suas leituras. No caso de Mário e Bandeira é bastante evidente.” Esse profundo conhecimento do verso também lhe serviu para escrever o brilhante verbete “A versificação em língua portuguesa”. com capa concebida e realizada por Carlos Drummond de Andrade. Pássaro cego. Mário de Andrade analisava o surgimento de quatro livros importantes: Alguma poesia. acabava escrevendo sobre sua relação amorosa e livre com a poesia. Um texto que durante anos circulava pelas universidades em cópias xerocadas. Coisa que o próprio Bandeira foi um dos mestres na literatura brasileira com o seu Mafuá de Malungo. Sobre os modernistas. Não há manobra falsa nesse aparelho admirável de lirismo”. ou seja. Bandeira comenta. fazendo um recorte do que era realmente importante na poesia nacional. Schmidt e o próprio Mário de Remate de males. de Augusto Frederico Schmidt e Poemas. E continua: “Não fosse esse senso de humor e a poesia deste livro seria de uma melancolia intolerável. o texto foi incluído no volume “De poetas e de poesia”. traçava o quadro da ebulição e das discussões modernistas chegando até o concretismo. em que puderam falar livremente sobre as poéticas em andamento. de 1937. mas é mesmo um verdadeiro manual sobre poesia. Ao contar sobre a composição de seus poemas. isto é. incluído nesse novo livro. o surgimento de Alguma poesia. Ele já observa a atuação corrosiva do humor de Drummond. como ele mais de uma vez confidenciou aos seus amigos. esse era seu ganha-pão. Hoje. os mesmos poetas que chamaram a atenção do francês Roger Bastide. passando pelo soneto. Um caso raro dentro da poesia brasileira. E havia até mesmo quem cobrasse boa e alta quantia pelo volume da enciclopédia no qual constava esse texto. uma reflexão de um poeta importante sobre sua formação literária e sobre as correntes poéticas que agiam dentro da poesia brasileira. Nesse ensaio. pelo seu aprendizado do verso livre e até pelas formas das cantigas trovadorescas. de Bandeira. Uma das grandes novidades de Seleta de prosa é o texto de Bandeira sobre Drummond. sempre vazado por seu estilo de conversa-inteligente. publicado originalmente em 1954. Na crônica “Carlos Drummond de Andrade”. há sempre nelas aquela intenção que Mallarmé pôs em seus poemas mais ambiciosos. Só esse exemplo já caracteriza a importância do livro preparado por Castañon Guimarães. também comentando Drummond. a de traduzir o fugaz e o súbito em idéia. Num de seus ensaios mais famosos. de isolar para os olhos um sinal de esparsa beleza geral”. é interessante notar como as escolhas de uma época foram marcantes e determinantes para a história da poesia brasileira. contrabalançando com alguma ternura: “De ordinário ironia e ternura agem na poesia de Carlos Drummond de Andrade como um jogo automático de alavancas de estabilização. publicado pelo MEC em 1954. numa deliciosa prosa de café. Em “Crônicas da província do Brasil”. publicado em 1960. em 1940. Bandeira vai abrindo seu rico baú de ritmos. seus comentários sobre o cotidiano. Libertinagem. “um livro que ficará como um dos mais puros da nossa poesia”. assim como foram Rubem Braga e Otto Lara Resende. Acaba havendo um verdadeiro diálogo de eleição e descarte entre esses textos. sonhava com as ondas do mar de Vigo e com as romarias de San Servando. Depois. deliciando-se mesmo ao comentar os versos de circunstância do poeta francês. E ao falar sobre isso. já que os dois mantiveram uma correspondência intensa e franca. O ensaio “O centenário de Stéphane Mallarmé” que a CULT está publicando também consta nessa nova edição da prosa bandeiriana. encontra-se o estilo franco de Bandeira. que fiquei com a cabeça cheia de ‘velidas’ e ‘mha senhor’ e ‘nula ren’. Bandeira foi um dos grandes mestres da crônica brasileira. que perpassa cada página desse livro. de Murilo Mendes. Bandeira faz um caminho muito parecido. Bandeira. Itinerário é daqueles livros que não só falam sobre a vida do próprio poeta.

Mallarmé pelo pintor impressionista J. um texto narrativo como Les contes indiens. M.A busca do absoluto é tema recorrente de suas correspondências. tornam a sua acurada filosofia menos reconhecível do que pareceria justo? Há um abismo. ora em aforismos que pontuam. léxico etc. quando lemos a sua obra e biografia (alicerçada em boa parte na rica correspondência). O T O D O P O É T I C O A obra em prosa de Mallarmé – que inclui estudos. escrevia o poeta. “Crayonné au théâtre. e no próprio Un coup de dés ou no esboço do Livre. Ao lado. la musique et les lettres”. os Contos indianos e sua correspondência – opera leis do funcionamento da linguagem que acarretam a dissolução dos limites de gênero. “Il y a des lois!”. Que leis são essas que inauguram a dissolução da fronteira entre a prosa e a poesia. en ce qu’on veut. por exemplo. à semelhança do que vemos nos contos de Guimarães Rosa. e a I . propriamente. por outro lado.novembro/98 mpressiona em Mallarmé. entre Mallarmé. Whistler.” Assim. tratados. por necessidade imperativa de descobrir e exercer um desejo essencial. e. pourvu qu’un plaisir s’y réitère. com quem o poeta se correspondia. variations sur un sujet. resultando em textos que conjugam poesia e filosofia Rosie Mehoudar 58 CULT . o que é reiteradamente criado pelo estilo (pontuação. Se a prosa mallarmaica não deixa de ser poesia é porque pesquisa e opera leis do funcionamento da linguagem que atendem a esse desejo e o reevocam (vale lembrar das palavras sobre o verso livre em seu texto “Crise de vers”: “Et envisageons la dissolution maintenant du nombre officiel.) aparece conceitualizado ora nos brilhantes “tratados” de. a partir de Igitur. à l’infini. sintaxe. a agudeza com que penetrou em si mesmo e nas operações do pensamento. Foi tanto poeta quanto filósofo.

Porém. à travers l’espace vacant.//Je n’aime pas ce bruit: cette perfection de ma certitude me gêne: tout est trop clair. mas à sua como que inclusão num fluxo temporal criador. como o tinteiro – novembro/98 . Um trajeto leva-o então não exatamente à derrocada do absoluto.. mais heuresement. ce solitaire habituel de sa propre Pureté. o absoluto torna-se paralisante.) j’entends les pulsations de mon propre coeur. Porém.Mallarmé por Edvard Munch literatura que se apóia no espelho. mon être a souffert. échappant. niant le plaisir que nous voulons prendre: car cet au-delà en est l’agent. é um dos vários escritos que formulam. Dieu” – e críticos como Charles Mauron vêem nessa metáfora um eco do autoritarismo do pai. na reflexão de si concebido como que fora do fluxo de linguagem e que se põe de anteparo entre o sujeito e o mundo. seguidas pelo ofício diurno de professor de inglês gozado pelos alunos e de poucos recursos.. pontualmente perceptível na sucessão dos signos.” Essa carta a Cazalis testemunha um primeiro desfecho da crise de Tournon.. Passagens de Igitur. pour étaler la pièce principale ou rien. je ne demande pas moins à l’écriture et vais prouver ce postulat. en des fêtes à volonté et solitaires. heuresement.. pendant cette longue agonie est inénarrable. ce semble que l’épars frémissement d’une page ne veuille sinon surseoir ou palpite d’impatience. qui fait défaut. que n’obscurcit plus même le reflet du Temps. o poeta evoca sua “lutte terrible avec ce vieux et méchant plumage. Na mesma carta. mesmo no próprio sujeito contemplado. Ora o vazio se fragmenta em centros focais à semelhança de um sentido. par une supercherie.. terrassée. et le moteur dirais-je si je ne répugnais à opérer. par contrecoup. à la possibilité d’autre chose. Nous savons. da natureza também da “coisa”: observe-se o texto acima. texto já de 1894. Incontinent écarter cependant. o absoluto antes atribuído a um Deus externo. que contêm passagens de pura filosofia e poesia. sous un prétexte. le tirant de nous par de l’ennui à l’égard des choses si elles s’établissaient solides et prépondérantes – éperdument les détache jusqu’à s’en remplir et aussi les douer de resplendissement. tout est trop luisant. mon Esprit. captifs d’une formule absolue que. e o tema do desafio da Impotência será recorrente na obra do autor e na sua correspondência. Uma passagem de “La musique et les lettres”. em 1864. le démontage impie de la fiction et conséquemment du mécanisme littéraire. com suas descobertas e impasses – noites sem dormir. e este logo graciosamente nos surpreende como sendo. ou “(. j’aimerais rentrer en mon Ombre incréée et antérieure”. ora – numa reversão repentina – ele é um grande recipiente (espace vacant) para esses signos. accuserait notre inconséquence. Quant à moi.. O nada congrega assim o sentido de continente imaginário cristalino. en public. n’est que ce qui est. um obstáculo à criação. A quoi sert cela A un jeu. cidade em que morou logo que se casou e onde iniciava.. sinalizam as soluções que serão desenvolvidas pela seqüência de sua obra: “Ce simple fait qu’il peut causer l’ombre en soufflant sur la lumière”. (. lemos “car cet au-delà en est l’agent. Mais.. agonia e sensação de enlouquecimento. a escrita do poema Hérodiade. reunida em vários volumes.) A l’égal de créer: la notion d’un objet. le leurre. la clarté montre le désir d’une évasion. et le moteur”. de 1868. on projette. Mallarmé descobre na impessoalidade do pensar e da Idéia. à quelque élévation défendue et de foudre! le conscient manque chez nous de ce qui là-haut éclate. Tout ce que.” Nessa reflexão sobre o desejo. o funcionamento harmônico do paradoxo absoluto/devir. por ângulos diversos. reflete Bertrand Marchal. je vénère comment. Um percurso leva o autor à sua “morte” e descoberta da Idéia pura: “Je viens de passer une année effrayante: ma pensée s’est pensée et est arrivée à une Conception pure. agrega o crítico. je suis parfaitement mort. En vue qu’une attirance supérieure comme d’un vide.CULT 59 . nous avons droit. et la région la plus impure où mon Esprit puisse s’aventurer est l’Eternité. ou forma/ vazio: “Autre chose. certes. um nada.

” O trecho de M. mas essa convergência é assintótica. pour que mon humble vie gardât un sens. À esq. Segue uma passagem dos Contos indianos. l’apport hasardeux extérieur. O rei reassegura à amada apreensiva e com ciúme: “Ne froncez pas ce sourcil. comparável ao Éden (ou absoluto): “A última estrela da constelação.Um mês antes de sua morte. por volta de 1873 “L’ encrier.. au fond. seja na sua concedida transmutação no corpo de cada significante . Le moyen... A convergência de duas dimensões seria alcançada imediata e simultaneamente pela criação desse ponto mesmo. je ne l’aimais pas. é ainda um outro motor da linguagem. O esvaziamento do autor manifestase seja no silêncio-escuta. naquela transmutada. o poeta com essa idade. em busca do essencial. Desenho de Henri Mondor sobre foto de Mallarmé. cristal comme une conscience. o ponto final do pensamento. écarte la lampe” (repare-se um eco aqui do apagar a vela de Igitur). fazendo-a cair numa abstração – da felicidade. reescritura mallarmaica da versão francesa de Mary Summer de histórias clássicas da Índia. do plano físico ao ideal. o vazio (cet au-delà) não é tão diferente do ponto edênico. A unidade de fora atrai a de dentro. de ténèbres relative à ce que quelque chose soit: puis. Porque o vazio reiteradamente aparece como 60 CULT . Je n’aimais pas. Mallarmé respondia a uma pesquisa sobre o “Ideal aos 20 anos”. No silêncio ou vazio marcado pela vírgula. ma volonté des vingt ans survit intacte. Outros semas metonímicos – a cor negra. Em seu livro L’oeuvre de Mallarmé. indiciado pela vírgula. numa quebra surpreendente de registro. infinitamente diferida e cumprida. que significa “coisa” em latim. Summer correspondente é mais curto: “Ne froncez pas le sourcil. Nem um mês antes de sua morte. il en tomberait dans notre bonheur. Lakhsmi e o leitor “olham” como as coisas do espírito funcionam. Mallarmé escrevera: “On ne peut se passer d’Éden”. Um sema metonímico – a linha descendente da sobrancelha franzida e paralisada. um repouso. Greer Cohn aponta para a origem etimológica de rien: rem.” A vírgula depois de sourcil instaura um momento de suspensão.” Num tempo em que a pressão do imediato e o perigo de sermos suas presas alienadas não parecem menores que na época de Mallarmé. à quelque point dernier qui le sacre (precedido de avant de s’arreter). Heureuse ou vaine. que é sua razão de ser e sua morte ao mesmo tempo. qu’on recueille. consiste quotidiennement à épousseter. je me fus fidèle. habitual do cabelo indiano. Tomberait aproveita-se do plano físico da sobrancelha. plutôt. consoante a uma retração no espírito – parece inspirar a metáfora tomberait dans notre bonheur. o imediatismo concreto se aquieta um pouco.” Como pólo de atração (en vue qu’une attirance supérieure comme d’un vide). que no texto de Mallarmé se presta à captação do motor central da fala – existindo como latência no primeiro segmento. além de seu sentido de dissolução. em direção ao qual se dirige a constelação como toda a realidade (. comentado por Greer Cohn. reiteradamente é tirado de “nós” e se dissemina pela prosa mallarmaica. em 1862. avec sa goutte. je refusai avec dédain. Cohn assim comenta o penúltimo verso do poema. je le publie. numa súbita desmaterialização. sous le nom d’expérience.novembro/98 Éden. de ma native illumination.) O ponto supremo (sacre) do ato cinético. je refusai avec dédain. Un coup de dés. Mallarmé respondia à pesquisa de Le Figaro sobre o “Ideal aos 20 anos”: “Suffisamment. É do ponto de vista do bonheur (qui est muet. Tchandra Rajah. Uma contemplação se abre. e o pequenino cil contido em sourcil – fazem eco na metáfora une minute noire. une minute noire: Lakshmi. é precioso seguir o desembaraçamento ou depuração que a sua escrita faz desse imediato. em todos os planos. Mallarmé apreende o desejo do personagem de conservar a propagação da ventura. a captação do desejo do reiamante dá-se mediante o aproveitamento das potencialidades de significação das palavras anteriores. Em carta para René Ghil. Lakshmi. em outra passagem) que emana a fala. Num recuo. Veremos logo mais um pouco de como isso se dá. e o de “coisa”.

Théodore de Banville et l’épuration. suffisante à nos plus beaux rêves. depois de dar instruções minuciosas sobre um ritual. ils s’allument de reflets réciproques comme une virtuelle traînée de feux sur des pierreries.. daí seus achados filosóficos..) “Ainsi lancé de soi le principe qui n’est que le Vers! attire non moins que dégage pour son épanouissement (l’instant qu’ils y brillent et meurent dans une fleur rapide. “L’oeuvre pure implique la disparition élocutoire du poète. par le heurt de leur inégalité mobilisés. ou em muitos. O modo de a escritura em Mallarmé contemplar cada fenômeno e a obra da natureza (“Je crois tout cela écrit dans la nature”) preserva o espaço não-verbal. par les ans. e atualizadas em formas cujas ambigüidades reproduzem a mensagem ao infinito) não se trans- formarem em sistema.. apesar dos paradoxos engraçados). por coerência às próprias leis que descobre (muitas mais que os pontos aqui tocados. o originário: vazio-fonte de todo sujeito (l’enfant est plus près de rien et limpide). le désigne aujourd’hui un être à part. que evita que “um usurpe”. verso pode significar “contrário”.. Preferem a dimensão de ato do teatro – “Dont les représentations seront le vrai culte moderne. ao qual seremos sempre filiados. o “ponto sempre cumprido e diferido” ao qual se refere Greer Cohn. ne le résume avec audacieuse candeur que peut-être cet esprit immédiat ou originel. de son individualité en le vers. car rajeuni dans le sens admirable par quoi l’enfant est plus près de rien et limpide. ostensiblement. E é o que o Verso poético. momento em que todo significado anterior pode se desvanecer (sem abolir-se na memória ou contradizer-se. pour qu’il s’émeuve doucement autour de toi!” Rosie Mehoudar mestre em teoria literária pela USP onde . remplaçant la respiration perceptible en l’ancien souffle lyrique ou la direction personnelle enthousiaste de la phrase. Je n’ai fait. nos Contos indianos. Não se trata de abolir a referência. que baiser l’air qui te contient. mais sache. avec ses paroles inutiles mais dont chacune importe.” Surpreendem-nos. un Livre. sua propagação. Oupahara diz à rainha: “Je ne t’ai rien dit.. que vai Verso. qui cède l’initiative aux mots.)” “Ainsi lancé de soi le principe qui n’est que le Vers!” – quantas ambigüidades aqui! O “princípio” é compreensível também no sentido de o que é.Os achados filosóficos de Mallarmé lembram conceitos desenvolvidos posteriormente por autores como Jacques Lacan (ao lado) desejado e desejante que então acorre – “transforma-se o amador na cousa amada” (Camões). para que o central ou virgem continue a emanar. Aquilo em direção ao qual se vai já está contido no Verso poético (que le Vers!) – festeja conclusiva e simples a exclamação! E o texto logo dirá que os versos só vão de dois em dois. depuis qu’étonna le phénomène poétique.. no poeta. que perde apenas o caráter absoluto. O nada – ou “une âme ou bien notre idée (à savoir la divinité présent à l’esprit de l’homme)” – constitui uma alteridade fundamental em relação a qualquer significado. na semelhança com o que veremos depois em Lacan e numa filosofia que desajola o real como substância última furtável ao devir e promulga a ficção. no devir velado pela “lei misteriosa da Rima”. Assim. autre chose d’abord que l’enthousiame le lève à des ascensions continues (. supérieur et buvant tout seul à une source occulte et éternelle. musical ou essencial cumpre.. e corte latente fundamental no processo da racionalidade. ir em direção a. sur quelque transparence comme d’éther) les milles éléments de beauté pressés d’accourir et de s’ordonner dans leur valeur essentielle. O princípio (em outra acepção) que sai de dentro de nós é tão-somente o da difusão de nosso princípio-origem.. mistério ou céu. defendeu tese sobre Mallarmé novembro/98 . O verso do princípio é o fim: lembrando o Éden. (. explication de l’homme.” (“Crise de vers”) Depura-se em Verso o poeta homenageado nesta passagem de “Crayonné au theâtre”: “Personne. às vezes. Le principe qui n’est – que le Vers!: além de “em direção a”.CULT 61 . fonte.

contendo igual número de esboços de estrofes. o conjunto das anotações de Mallarmé feitas sob o impacto da morte de 1. et. lui – faute d’une dame à sa taille 4. Comment? disait-il Comment? 62 CULT .Poema de Stéphane Mallarmé Épouser la notion O texto de Stéphane Mallarmé Épouser la notion consiste num esboço de provável poema que permaneceu inacabado. Foi editado por Jean-Pierre Richard. Je veux épouser la notion. tous les autres qu’il la voulait vierge – plus que tous les autres vierge à lui seul pas le droit non – à Personne 3. il ne lui faut pas moins qu’épouser la notion il veut tout épouser. que considera impossível estabelecer uma data para o manuscrito.novembro/98 . Este se compõe de dezesseis folhas. qui guette toujours – (c’est moi + toi soi il criait plus fort que 2. A situação desse texto pode ser comparada à do manuscrito de Pour un tombeau d’Anatole. 5. en vain lui faisait-on entendre qu’elle n’existe que si vierge. criait-il je veux elle seule peut satisfaire les vastes élans – en vain le retenait-on. pour ne pas se faire prendre par le juge.

segundo Jean-Pierre Richard. dizia ele quero só ela pode satisfazer os vastos impulsos – em vão o detinham 5.CULT 63 Tradução de Júlio Castañon Guimarães Desposar a noção . só o que lhe falta é desposar a noção quer. em vão se fazia com que entendesse que ela só existe se virgem. desposar tudo – por falta de mulher a sua altura 4. todos os outros que a queria virgem – mais que todos os outros virgem dele só sem o direito não – de Ninguém 3.seu filho e que não chegaram a constituir um texto concluído. que espreita sempre – (é mim + ti si gritava mais alto que 2. As estrofes iniciais aqui apresentadas fazem parte da tradução a ser publicada em breve pela Editora Sette Letras. para não se deixar pegar pelo juiz. constitui “o roteiro de uma espécie de fábula. JÚLIO CASTAÑON GUIMARÃES 1. ao mesmo tempo filosófica e amorosa”. Quero desposar a noção. ele. Épouser la notion. e. Como? dizia ele Como? novembro/98 .

autor do belíssimo romance Um delicado equilíbrio (editora Objetiva). Por que a CULT não publica a íntegra do debate. Deveria ter nomeado Carlito Azevedo. Biblioteca Imaginária. Maria das Graças Ferreira Recife.Cartas para a revista CULT devem ser enviadas para a Lemos Editorial (r. poeta gaúcho Mario Quintana.novembro/98 Zulmira Ribeiro Tavares Antes de mais nada. Paulo. autor que não conheço e acho que muitos leitores no Brasil também desconhecem. Obrigada pela grande matéria! Sou estudante de jornalismo da PUC-SP e estou fazendo uma crítica literária do livro Jóias de família.com. O leitor pode comprar fitas de vídeo dos programas. citada por Haroldo de Campos na entrevista. Luiz Araújo Siqueira Aracaju. Josely Vianna Baptista. tudo emoldurado por um acabamento gráfico digno das “loas” do Elomar. Como pesquisadora de mitos indígenas. matéria que reportava um programa da TV-PUC. Artigos vigorosos. para o e-mail “lemospl@netpoint. Wylka Vidal por e-mail Tem razão o leitor Antonio Fernandes na crítica que me faz na seção Do Leitor do número 15 de CULT. Luiz Carlos Vieira Indaiatuba. 011/864-6816). Quanto a Valéry. ao que parece. João Alexandre Barbosa São Paulo. “Diálogos impertinentes”. Benigno número 13 da CULT. Saudações literárias. Priscila Maranho por e-mail Resposta da redação Ainda não tivemos a oportunidade de publicar matéria sobre essa importante escritora. via correio eletrônico. já que 6 4 6CULT . mas registramos seu interesse e pretendemos tratar do tema numa edição futura. quanto injustiçado. Mensagens via fax podem ser transmitidas pelo tel. CEP 01326-010). no meio das “velhacas velharias” que nos fartam as vistas. a cada edição mais bonita e instigante. conforme sentenciou nosso querido Haroldo de Campos. 70. SP . Ronaldo Bressane por e-mail Mario Quintana Valéry Li recentemente no caderno “Mais!”. informações pertinentes. Rui Barbosa. Só mesmo a providência dos deuses Iorubá e Guarani para presentear o leitor/pesquisador com esse operador da “agoridade”. Continuem assim! Grande abraço. Rohinton Mistry Haroldo de Campos fotografado por Juan Esteves os dois são seus colunistas? Sugiro ainda matéria sobre Valéry. Este último. como afirmava no texto criticado pelo leitor. São Paulo. Preciso saber se há em alguma publi- É com muita alegria que vejo surgir mais uma revista que aborda a literatura. citou frase do poeta Paul Valéry sobre o fazer poético. Aproveito para dar os parabéns pela CULT. do qual participavam dois colaboradores da CULT: os professores Pasquale Cipro Neto e João Alexandre Barbosa. da Folha de S. Cláudia RoquettePinto. SE Biblioteca Imaginária Parabenizo pela excelente qualidade gráfica e editorial da revista e aproveito para sugerir uma reportagem com o escritor indiano Rohinton Mistry.outubro/98 4 CULT . à venda na TVPUC (tel. aproveito a ocasião para solicitar maiores informações sobre o trabalho da professora Josely Viana Batista. agradecemos a sugestão de pauta. de Zulmira Ribeiro Tavares. SP Literatura argentina Resposta da redação “Diálogos impertinentes” é uma série de programas mensais promovidos em convênio pela PUC (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e pela Folha de S. CULT nº 11). Gostaria ainda de sugerir uma seção Dossiê com o tão extraordinário. Haroldo de Campos Parabéns a José Guilherme Rodrigues Ferreira e Manuel da Costa Pinto pela epifânica entrevista-ensaio com o poeta Haroldo de Campos. O especial sobre literatura argentina (CULT nº 14) está fantástico. Paulo – aos quais pertencem os direitos de utilização do material veiculado. Peço que continuem firmes e “em posição de lótus”. Congratulações também a Juan Esteves pelo conjunto de fotos harmoniosas do nosso poeta pós-utópico. Júlio Castañon Guimarães ou Carlos Ávila como exemplos de que.br”. PE cação da revista algo sobre a vida e obra desta autora. gostaria de parabenizar a revista pelo dossiê Albert Camus da CULT nº 13. “quatro ou cinco poetas mais jovens dão prova de que a poesia é rara mas possível” (“A raridade da poesia”. 011/251-4300 e.

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