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A arte marcial e o lado espiritual

Parte I

Há uma ligação ou entrelaçamento profundos entre a prática da arte marcial e o desenvolvimento


espiritual?

Uma resposta positiva a isso é uma constatação que não traz muita novidade para boa parte dos alunos,
praticantes, professores ou mestres. Na verdade, pode-se afirmar, com algum grau de certeza, que muitos
iniciaram a prática por terem lido ou sido informados que as artes marciais eram, também, um caminho
espiritual.

Mas, talvez, alguns praticantes não respondam positivamente a essa questão. Ou tenham dúvidas sobre
isso. Pode ser que estejam buscando esse desenvolvimento espiritual e ainda não tenha tido nenhum
vislumbre de alguma convergência entre treino marcial e prática espiritual ou pode ser também que
estejam esperando algum tipo de evento mágico, fenômeno místico, milagre ou iluminação súbita.

Minha própria opinião é de que os caminhos marcial e espiritual estão muito entrelaçados.

Ao iniciarmos o treinamento estamos iniciando uma jornada que, possivelmente, começou muito antes.

O caminho do treinamento é uma “aventura”. Não uma aventura no sentido dos romances baratos ou de
um bom filme no cinema.

É uma aventura no sentido em que repete os passos do que os antropólogos e psicanalistas chamam de “A
Jornada do Herói”.

Como nos mitos clássicos ou nos contos de fada, a jornada seguirá um roteiro básico cujas variações
dependerão da personalidade do praticante, da cultura onde está inserido, seu passado, da arte que
escolhe, do mestre que encontra, etc.

Apesar das variações, para nós que seguimos o caminho há fases e ciclos (pois podem ser necessárias várias
jornadas, dependendo da meta) que são comuns a todos os caminhantes. A duração exata de cada fase, o
ritmo e o número de ciclos, os detalhes de cada jornada (ou jornadas) serão diferentes, mas alguns pontos
comuns nos conectam.

As fases da Jornada.

A jornada começa com “O Chamado”. Em nossas vidas, em algum ponto, por algum motivo, nos sentiremos
atraídos pelo caminho marcial. Dos motivos mais fúteis e egoístas aos mais espiritualizados, em algum
momento sentiremos a motivação de começar. Esse é o chamado.

Uma vez escutada a “voz” do chamado (que não é sobrenatural e sim a voz interior), passaremos a olhar
em volta com mais atenção. Talvez nem saibamos exatamente o que queremos ou o que estamos
procurando. Mas persiste a sensação de insatisfação, de vazio, de que falta algo...

A segunda fase refere-se ao “Encontro”. Nossa atenção foi despertada pelo chamado, isso nos coloca em
uma determinada faixa de sintonia e, em algum momento, encontraremos um “guia”. Nos contos de fada
ou nos mitos, esse guia é geralmente um personagem sobrenatural, um deus, um feiticeiro, uma fada, etc.

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Mas pode também ser um ancião, um guerreiro veterano, alguém que já percorreu o mesmo caminho, que
já tentou a mesma aventura, etc.

Trata-se de alguém que nos contará sobre a aventura que nos aguarda, que nos aconselhará e que nos dará
alguma informação importante, ensinamento, amuleto, ferramenta ou encantamento que será decisivo no
percurso e nos perigos que virão.

Nas Artes marciais, essa figura do “guia”, é a figura do mestre. O mestre não é sobrenatural, muito embora
possa parecer assim às vezes, especialmente para os novatos. É alguém que já percorre o caminho há
muito tempo antes de você. Alguém que um dia escutou o “chamado”, procurou e encontrou um “guia”.
Ele aceitou o chamado, encontrou um guia e começou a jornada. Foi tão longe, já viu e aprendeu tanto,
passou por tantas aventuras (talvez várias jornadas) que começou a escutar outro chamado. O chamado de
ajudar a guiar outros no mesmo caminho.

Quando ouvimos a “voz” e encontramos o “guia” chega um momento crucial. Se houver sintonia e empatia
com o guia/mestre, se você aceitar o roteiro que ele lhe apresenta, você dará um passo decisivo e
atravessará o “portal”.

Essa sintonia com o mestre (se acontecer) não é gratuita ou mera coincidência (isso existe?). Já ouviram o
ditado: “Quando o discípulo está pronto o mestre aparece”?

Uma vez que escutamos o ”chamado”, encontramos um “guia” e sentimos empatia/sintonia/confiança o


bastante nele para pararmos e escutarmos, ele nos contará sobre a “jornada”, nos dará as ferramentas e
ensinamentos necessários e nos apontará o “portal” de entrada para a aventura. Possivelmente ele passará
algum tempo conosco. Apontará os primeiros passos do caminho, mostrará os pontos de referências mais
distantes e, possivelmente, permanecerá um passo atrás vigiando e pronto para dar um conselho ou um
empurrãozinho em caso de necessidade. Mas ele não o tomará pela mão e o guiará paternalmente. Ele
sabe que o caminho deve ser percorrido por você, na solidão do seu coração.

Por que o caminho, assim como a voz, não são externos a você. A voz é a sua voz interior. O chamado é
uma inquietação interna e a jornada não será uma jornada por um caminho externo. Será uma jornada
interior, de autoconhecimento.

Os anos de treinamento e disciplina que seguirão, servirão para que você tome conhecimento com clareza
de quem você é, do seu lugar no mundo. Suas façanhas ou aventuras, embora possam, eventualmente,
deixar marcas externas e afetar a vida de outros ou da sociedade, serão aventuras internas, onde você
aprenderá a conhecer e controlar seus medos e fraquezas. Os combates que travará serão, em última
análise, combates contra você mesmo. Você, quem sabe, conseguirá vencer a si mesmo e emergirá
vitorioso não sobre monstros míticos, mas sim sobre medos, fraquezas, angústias, traumas e tudo que se
interpõe entre sua vida antes do chamado e a realização plena de seu potencial.

O chamado era a inquietação e a angústia da possibilidade de nunca realizar esse potencial. Se o “herói”
percorre a jornada interior e emerge vencedor, ele torna-se senhor de si mesmo. Conhecedor do caminho
e, talvez, se receber o chamado, um guia para os que virão depois.

O herói parte na jornada em busca da vitória. Vitória sobre si mesmo. Os primeiros passos, de escutar o
chamado, encontrar o mestre, aceitar o ensinamento e, por fim, atravessar o portal, envolvem vencer o

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medo do desconhecido e do inesperado. A esses primeiros medos e desafios, outros seguirão ao longo do
caminho...

Após a aventura ele emergirá mudado. Ele mudou a si mesmo e não o mundo. Ele buscou o “reino”. Talvez,
ao iniciar a busca, tenha partido atrás de poderes miraculosos ou alguma outra ilusão qualquer. Por fim ele
descobrirá que o que busca estava em si mesmo, pois, afinal, como disse o Mestre Jesus:

“Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou Lá está!
Porque o Reino de Deus está dentro de vós."

Não é o mundo que muda. É o caminhante que muda:

“Antes do Zen, as montanhas eram apenas montanhas, os rios apenas rios, as árvores
apenas árvores.”

“Depois do Zen, as montanhas deixaram de ser montanhas, os rios deixaram de ser rios,
as árvores deixaram de ser árvores.”

“Mas quando sobreveio a iluminação, as montanhas voltaram a ser montanhas, os rios


apenas rios, as árvores apenas árvores.”

Após buscar dentro de si mesmo:

“Seguir o caminho é esvaziar a mente.”

“Saber um pouco menos a cada dia.”

“Até que, ao final da jornada, você e o caminho sejam um só.”

“Como sempre foram!”

Falamos acima sobre as coisas grandiosas e, no momento, abstratas do caminho.

Mas o real percurso não é um “conto de fadas”, a magia e os sortilégios são uma boa metáfora, mas o
caminho se percorre andando. Aqui e agora. A jornada interior exige determinação, dedicação,
desprendimento e disciplina.

A disciplina por vezes é vista como um jugo, uma prisão. No entanto ao percorrer o caminho, talvez seja a
ferramenta principal.

A verdadeira disciplina, escolhida voluntariamente, ao invés de oprimir, liberta.

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E assim, como podem ver, considero que a arte marcial e o caminho espiritual estão mutuamente
entrelaçados.

Entrelaçados a tal ponto que o lado espiritual por vezes permanece oculto mesmo estando lá, ao alcance da
mão e à vista de todos, em pequenas coisas do dia a dia do treinamento e que, por não estarmos prestando
atenção ou por não estarmos preparados para ver ou devidamente sintonizados, deixamos passar ao largo,
sem percebermos.

Olhamos e não vemos. Talvez por temos uma ideia errônea de como essa experiência espiritual ou mística
poderia se manifestar. Esperamos grandes coisas, grandes revelações, cerimônias elaboradas, discurso
religioso, enquanto que muito do verdadeiramente importante está lá, bem à vista e ao alcance da mão.

Na verdade, acho que todo o treinamento é estruturado de forma ao mesmo tempo prática e espiritual. Ao
praticarmos estaremos trabalhando não apenas o lado físico, mas também o lado mental, o lado
emocional, o lado intuitivo e, claro, o lado espiritual.

Gostaria, nesse texto, de chamar a atenção para alguns aspectos do treinamento que normalmente
deixamos passar despercebidos. É claro que certas coisas nos passam despercebidas porque ainda não
estamos prontos para ver. Algumas delas, já vimos e sentimos, mas não percebemos o seu significado ou
alcance e, claro, algumas ainda estão fora do nosso alcance e precisaremos treinar ainda por muitos anos
para vivenciar em sua plenitude.

E alguns aspectos talvez permaneçam ocultos para sempre. Afinal, é uma jornada, um caminho. Como em
qualquer jornada, algumas coisas são vistas por todos, mesmo os turistas acidentais e os que desejam
apenas diversão e ver os pontos turísticos de que já ouviram falar. Outras só são vistas pelos que prestam
muita atenção e que estão procurando algo mais que a superfície e a aparência. Eventualmente, certas
coisas serão percebidas quase que acidentalmente ou serão descartadas como meras coincidências ou
ilusões de ótica.

Tentarei falar sobre a experiência que se esconde por trás da aparência simples do cotidiano do treino. Este
texto não pretende ser um guia para algum tipo de experiência mística e/ou espiritual. Até porque a
verdadeira experiência mística não pode ser ensinada. Textos sobre isso geralmente têm significado pleno
apenas para quem já experimentou essa experiência mística em primeira mão, pois aí, nesse caso, trata-se
de uma experiência compartilhada. Também não falarei do caso geral, como se fosse uma abstração.
Muitas vezes citarei minha experiência e meu entendimento, mas não farei isso porque quero impressionar
como meu entendimento e compreensão. Faço assim por não ver outra maneira de tratar de tais assuntos.
A experiência mística/espiritual me parece algo por demais pessoal, pelo menos no nível que compreendo,
para poder ser tratada de um ponto de vista abstrato e genérico. Peço paciência aos leitores pelas diversas
digressões pessoais, mas, para tentar expressar com palavras aquilo que é, por natureza, evanescente e
inefável, meu único recurso é apresentar minha própria experiência e esperar que o leitor que percorre o
mesmo caminho perceba, por afinidade ou por analogia, aquilo que tento descrever.

Baseando-se nessa experiência comum, que é o treinamento da arte marcial, convido o leitor a rever e
explorar comigo vários aspectos do treinamento.

Vamos, portanto, começar pelo começo!

A entrada (atravessando o portal).


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Existem várias palavras em japonês para designar aquele que aprende: seito (aluno), gakusei (estudante),
deshi (discípulo), minarai (aprendiz).

Recentemente aprendi um termo que me pareceu muito interessante, pois diz muito sobre essa dimensão
espiritual.

Existe o termo monjin. Monjin é a palavra para designar alguém que “atravessou o portal”, alguém que
“cruzou o limiar”.

A palavra me parece bem apropriada porque, afinal, a primeira coisa que usualmente você faz numa sessão
de treinamento é chegar ao Dojô.

Mas, além do óbvio, o “cruzar o portal” tem um significado mais profundo.

Aquele que vem para treinar, veio um dia pela primeira vez. Veio com alguma motivação, com várias
expectativas e com vários preconceitos.

Ele veio buscando algo...

Algo ou várias coisas ocorreram na sua vida e ele foi motivado a ir visitar o Dojô. Pode ter sido apenas uma
mera coincidência (isso existe?), pode ter visto um filme ou ouvido falar da arte ali praticada ou do mestre
que ali ensina, pode ter sido levado por um conhecido que já pratica ou praticou ali. Também pode ter sido
motivado por algo que ocorreu na sua infância, por medo da violência, por vontade de sentir-se forte e
seguro e tantos outros motivos possíveis ou combinações desses.

Mas o fato é que houve um chamado. E ele atendeu.

E atravessou o portal.

Pode não ter se dado conta do ato decisivo. Pode ser que ele fique pouco tempo, pode ser que treine por
alguns anos e depois pare ou pode ser que pratique ali por anos e anos a fio. Quem sabe, pode ser que
nunca mais vá embora...

Cada Dojô tem uma vibração particular. É um ambiente único, cuja assinatura é composta pela vibração do
mestre, do local, da sala propriamente dita e dos outros alunos que ali praticam.

Os mestres dizem que todo aquele que vem ao Dojô está procurando por algo. Pode ser que ele nem saiba
ou tenha exata certeza do que procura, mas se ele estiver na vibração correta, se estiver sintonizado, se
houver ressonância com o Dojô, ele ficará.

Não apenas passará pela porta. Ele cruzará o portal definitivamente e, mesmo que as mudanças sejam
pequenas, sua vida não será mais a mesma.

Quando ele cruza o portal, ele aceita o chamado.

E não é só sua vida que mudará, por pouco que seja, mudará também a do mestre e também a do Dojô.
Como disse a Monja Coen, no seu iluminado prefácio à “Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”:

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“(...) Mestre e discípulo se completam, se fazem mestre e discípulo. E o
discípulo é o mestre do mestre, pois o ensina a ensinar. O mestre é o
discípulo do discípulo, pois aprende a compreender e orientar. Mestre é
mestre. Silêncio e precisão absolutos. Discípulo é discípulo. Dúvidas e
questionamentos. Finalmente fundidos. Aonde quer que o discípulo vá, o
mestre estará junto. Gratidão incomensurável. Um tanto do discípulo
também fica impregnado no Mestre, que se transforma e se adapta a cada
circunstância”.

Dentro do Dojô.

Também não é tão incomum ouvir dizer que o treinamento é uma forma de meditação e/ou Yoga em
movimento.

Será que isso é dito apenas como um clichê?

Quando você entra na área de treinamento propriamente dita, a etiqueta pede que os calçados sejam
retirados. Isso é material no sentido de evitar sujar o tatame, mas, claro, o fundamento não é só esse.
Afinal, você bem que poderia entrar descalço, mas com os pés sujos.

Na verdade, o significado profundo começa antes, quando você chega ao Dojô. Em geral, você chega à
porta, cumprimenta na direção da parede principal do Dojô e se dirige aos vestiários. Lá você realiza algo
que é, ao mesmo tempo, material, mas que comporta um simbolismo mental, emocional e espiritual. Você
se despe das roupas do dia-a-dia e coloca seu uniforme de treino. Isso é material no sentido de colocar uma
roupa que resiste melhor ao treinamento e poupa suas roupas cotidianas do desgaste do treinamento. Em
geral o uniforme será mais adequado aos movimentos que serão realizados.

Mas, ao se despir, espera-se que você deixe lá no vestiário as preocupações do dia-a-dia, junto com suas
roupas (e seu aparelho celular).

Você sai de lá com seus chinelos ou sapatos e se dirige à área de treino. Seus chinelos são a última peça
física do mundo exterior que você carrega. Aí, para entrar no tatame, você deixa os chinelos na borda. E
não deixa de qualquer jeito, deixa-os com as pontas voltadas para fora, para o sentido oposto ao qual você
entra na área de treino. Diz-se que esse costume iniciou com os guerreiros antigos, que, com sua atitude
vigilante e precavida, deixavam os calçados prontos para ser calçados o mais rápido possível em caso de
emergência. Se o guerreiro precisasse deixar a área de treino às presas, numa emergência, ele não queria
perder o mínimo tempo tendo que se abaixar para virá-los e colocá-los na posição correta antes de calçá-
los. Isso é a dimensão racional ou utilitária desse comportamento. Você faz algo com um motivo definido,
por uma razão.

Os mestres enxergam um significado mais profundo nisso. Os chinelos ou sapatos são o seu último
pertence, seu último vínculo material com o mundo externo. Você está usando suas roupas cerimoniais
para entrar numa área cerimonial. Seus chinelos (materiais) ficam de fora. E ficam numa posição especial,
simbólica. Ficam apontando para fora.

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No mundo material, você anda para frente, raramente anda de costas, diretamente para trás. Quando
precisa andar para trás, você normalmente se vira e muda de direção. Para frente, com os pés apontando
para frente, é o racional. A inversão disso, colocar os chinelos apontando para fora, no sentido oposto ao
da entrada é, simbolicamente, um reconhecimento de que você está entrando em um ambiente
diferenciado, onde a razão pura, positivista e cartesiana do seu dia-a-dia será constantemente questionada.
Você está entrando em um local onde a fé, a intuição e a emoção serão um fator mais preponderante que a
razão.

E depois vem a cerimônia de abertura, em que todos se alinham, cumprimentam o mestre, os


antepassados, o fundador da arte, etc. Há também, em geral, uma sessão de meditação inicial, chamada
“mokuso”.

Esse aspecto inicial, pré-treino propriamente dito, reflete um dos aspectos mais importantes da Arte
Marcial. Um aspecto a que, talvez, cada vez menos se valorize. Mas esse é o primeiro ponto que distingue a
prática da arte marcial com finalidade além do puramente físico ou utilitário de um esporte de competição
ou de luta corporal.
Trata-se de Rei. Cortesia.

Cortesia e boas maneiras

Já foi dito e repetido que as artes marciais começam e terminam com Rei (Cortesia).

Mas que o mero ato de cumprimentar e ser gentil com o outro, Reigi mostra a nossa reverência a uma
dimensão superior que, espera-se, o treino marcial possua.

Rei é, de certa forma, uma demonstração de sincera humildade diante de um sentido mais elevado que a
prática pode ter.

Em um Dojô cumprimenta-se sempre.

Há uma reverência quando se entra na área de treino propriamente dita, simbolizando a nossa
compreensão de que aquele espaço é destinado a fins mais elevados do que servir de espaço para a prática
de ginástica.

Cumprimenta-se em direção a um retrato, caligrafia ou qualquer outra lembrança/relíquia do fundador da


arte que se pratica, simbolizando nosso agradecimento e reconhecimento para com aquele que
primeiramente traçou aquele caminho que agora trilhamos e, indiretamente, a todos que vieram antes
dele, que o ensinaram ou que o desafiaram de algum modo, pois prepararam o caminho para ele e,
finalmente, o cumprimento também é dirigido a todos os que estão ali representados indiretamente e que
trouxeram a arte desde o fundador ao nosso mestre.

Cumprimenta-se o mestre. O motivo é óbvio, afinal, é ele que nos guia e ensina. Mas, fosse apenas por isso,
um simples aperto de mão sincero seria o suficiente. Em Budô esse cumprimento ao mestre tem um
significado maior e, por isso, uma reverência profunda deve ser feita. Não apenas na forma, ao curvar-se,
mas na essência, com coração em profundo agradecimento por nos aceitar como discípulos.

Descrever assim esses pequenos atos de cortesia pode parecer um exagero ou mesmo muito poético. Uma
mistificação talvez.

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Eu realmente acho que, se o discípulo não sente, no seu coração, que o ambiente onde se treina, o
fundador da arte ou o mestre que transmite não merecem uma reverência profunda e sincera, é porque,
de alguma maneira falta simpatia, no sentido amplo da palavra ou ressonância e harmonia com aquele
ambiente.

Quando falo em ambiente, uso um sentido amplo da palavra. Há o ambiente físico da sala em si, a foto do
fundador e a presença física do mestre. Isso é o concreto. Mas não se cumprimenta apenas essa dimensão
material. Além do concreto, há o simbólico. O cumprimento é direcionado ao simbolismo e à significância
por trás e além das presenças físicas. Cumprimenta-se ou curva-se em humildade diante da transcendência,
da dimensão além do material.

Idealmente, a sala não é apenas uma sala comum, de paredes de concreto. É um local onde se pratica o
caminho.

Os ícones ou imagens do fundador ou de algum ou vários membros da linhagem que trouxeram o caminho
até o mestre simbolizam a continuidade através do tempo e a reverência diante dos ancestrais. Não
ancestrais no sentido biológico. Ancestrais no sentido espiritual.

O mestre, idealmente, serve como modelo aos discípulos de uma dimensão ou realização superiores. Um
exemplo de algo maior. Uma inspiração. O mestre será o modelo e também o referencial do progresso de
cada um.

Também, claro, cumprimenta-se aos colegas de treino. Há, ou deveria haver, um sentido de simpatia ou de
ressonância entre os praticantes que estão ali reunidos para seguir o mesmo caminho. Não se trata apenas
de um reconhecimento entre “companheiros de armas”, um sentimento entre membros da mesma
corporação militar. Em um Dojô, idealmente, os mais antigos orientam e acolhem os mais novos e, nesse
sentido, é claro o porquê de os mais novos mostrarem a devida reverência. Mas, espera-se que os mais
velhos demonstrem igual ou maior reconhecimento aos mais jovens, que são, afinal de contas, o símbolo
da continuidade do Dojô pelas próximas gerações.

Além disso, durante o treino, quando praticarem mutuamente, alternando-se nos papéis de atacante e
defensor, uke e nage, cada um, ao seu tempo, colocará sua vida ou, no mínimo, sua integridade física a
mercê do outro. Às vezes alterna-se nos papéis sem pensar profundamente sobre isso. Mas, a cada
repetição das técnicas, ao menos simbolicamente, sua vida estará nas mãos do outro.

Antes de iniciar o treino propriamente dito, costuma haver uma pequena cerimônia também relacionada
com Reigi.

Cada arte, cada Dojô e mesmo cada mestre procederão de forma diferente nesse momento. Em alguns
locais, haverá uma grande sessão de meditação, em outros apenas um cumprimento coletivo simples em
direção ao retrato do mestre fundador e entre alunos e mestre. Várias elaborações são possíveis e, sempre
há um significado mais profundo por trás dos menores detalhes, além da aparência...

A meditação antes do cumprimento coletivo tem um sentido complementar ao que discutimos sobre trocar
as roupas comuns do dia a dia pelo traje (cerimonial) de treino e deixar os calçados na borda da área de
treino, com as pontas viradas para fora. A meditação é um momento para se desconectar do ficou lá fora e,
ao mesmo tempo, começar a vibrar em ressonância com o ambiente de treino. Esvaziar a mente, tanto
quanto possível, do mundo exterior e, ao mesmo tempo, ocupá-la com os assuntos do Dojô.
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Em locais mais tradicionais, o ritual inicial de cumprimento tem marcada influência Xintoísta. Se por um
lado a meditação é uma influência budista, do Zen em particular, o cumprimento com as reverências em
posição seiza (de joelhos, sentado sobre os calcanhares) e o bater de palmas é parte do simbolismo Xintô, a
religião ancestral do Japão.

Cada mestre atribuirá significação diferente às reverências e palmas, especialmente, quantas serão
realizadas.

De modo geral, uma interpretação bem simples considerará as reverências como uma demonstração de
respeito e humildade e as palmas como uma invocação.

Duas palmas e duas reverências significam, de modo geral, um cumprimento e reconhecimento do papel
dos ancestrais (o fundador e toda a linhagem, que carregou a arte ao longo do tempo até o mestre atual) e
uma invocação da proteção desses ancestrais e das divindades associadas à arte e à escola.

Três palmas e três reverências, significam, de modo geral, simplificando, uma reverência ao “Grande
Universo”, com suas três dimensões materiais ou aos seus elementos constituintes, simbolizados por Terra,
Água e Fogo (no sentido Alquímico ou esotérico). Nessa consideração ao “Grande Universo” ou à Natureza,
estão incluídos o campo material, simbolizado pelas dimensões, o campo espiritual, simbolizado pelos
antepassados e, para aqueles que têm crença religiosa, a Divindade. As palmas simbolizam uma
invocação/reverência/homenagem/dedicação. Seja invocação ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, para os
Cristãos, seja ao Buda, ao Dharma e à Sangha para os budistas, e assim por diante.

Esse cerimonial geralmente encerra-se por um cumprimento formal ao mestre.

E aí vem o aquecimento...

O aquecimento.

A prática de uma arte marcial implica em alguma atividade física. Sendo uma “arte da guerra”, o
treinamento implicará, em maior ou menor grau, dependendo da arte e do professor, em algum exercício
físico.

O exercício físico, em geral, começa com algum tipo de preparação para a ação.

E aí entra o “aquecimento” e toda uma variedade de exercícios preparatórios que não são, em princípio, a
arte em si, mas, sim, uma espécie de preliminar ao treino.

Se você pergunta aos alunos para que serve o aquecimento, a resposta óbvia será: “para preparar os
músculos e articulações para a atividade”.

Assim, nossa visão tipicamente dualista, divide a atividade do treino em duas partes: aquilo que vem antes
do treino e prepara para ele e o treino propriamente dito.

Mas, se analisarmos com cuidado, veremos que não é bem assim...

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Em geral (mas nem sempre, claro) executa-se um aquecimento padrão antes das técnicas propriamente
ditas. É claro que essa atividade preliminar tem o objetivo de preparar o corpo para a atividade que seguirá.
No entanto, achar que o aquecimento é apenas uma preliminar é enxergar apenas o que está na superfície.

O fato de haver um aquecimento padrão, especialmente se for o mesmo aquecimento, a mesma rotina de
exercícios, na mesma ordem, em todas as aulas, além do alcance óbvio de preparação física, tem um
caráter de autoconhecimento.

É comum que os alunos pensem que os exercícios preparatórios que os professores repetem a cada aula
tenham sido escolhidos por serem os melhores (mais eficientes) para o tipo de atividade que se realizará a
seguir. Especialmente se a tradição do Dojô ou da arte diz que aqueles exercícios vêm do próprio fundador
da arte ou mesmo da antiguidade longínqua (por vezes mítica).

Os alunos praticam esses exercícios então por acharem que são os melhores e com certa reverência por
uma tradição que lhes é atribuída.

Ora, do ponto de vista puramente científico da Educação física moderna, muitos dos exercícios que
fazemos antes de uma aula de Karatê ou de Aikidô, por exemplo, não são de forma alguma, os melhores
(mais eficientes do ponto de vista científico) para a atividade à qual o corpo será submetido. Possivelmente
um especialista em educação física apontará, inclusive, que alguns exercícios são contraproducentes ou até
mesmo potencialmente danosos do ponto de vista de eficiência máxima e/ou da saúde do praticante.

Esse é o ponto de vista físico, material.

Certamente alguns exercícios poderiam ser substituídos, melhorados, acrescentados. O professor pode ter
maior ou menor consciência disso, mas, com certeza, ele sabe que ao menos algumas coisas poderiam ser
melhoradas ou experimentadas. Então, porque ele não o faz?

Uma rotina fixa de aquecimento tem vários aspectos além do meramente físico.

Pense no aquecimento como uma conversa com o seu próprio corpo.

Enquanto você se aquece ou alonga-se, se prestar atenção, estará fazendo contato e reconhecendo cada
músculo (ou grupo muscular), cada articulação, cada tendão. À medida que você percorre o corpo, da
ponta dos dedos do pé até a cabeça (ou na ordem inversa) você está “conversando” com cada instância.
Você está verificando se está tudo ok, se há alguma dor, alguma contratura, alguma distensão. O
aquecimento é hora de sentir o corpo. Hora de sentir se o treino anterior deixou alguma sequela, se alguma
parte está precisando de mais atenção, se alguma coisa está doendo cronicamente e avaliar se isso é efeito
de treinamento errado ou incompleto nas sessões anteriores. Enfim, o aquecimento é um momento de
revisão.

E é, portanto, um momento de recolhimento de autoconhecimento.

Não é à toa que muitos mestres ou academias insistem em uma rotina pré-determinada, que é sempre
repetida, a cada aula.

Isso tem um motivo simples, além de toda alegação de tradicionalismo ou de eficiência. A sequência é
sempre a mesma porque se torna em última instância, um ritual.

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Fazer a mesma sequência facilita essa “conversa” e reconhecimento do próprio corpo. Se você faz sempre
os mesmos exercícios e na mesma ordem, você vai percorrer o mesmo caminho (seu corpo) a cada vez. Se
você estiver devidamente atento (concentrado no ritual), a conversa vai se aprofundando e você, a cada
vez, conhecerá melhor cada músculo, cada nervo e cada tendão.

Com o tempo, você começará a perceber os efeitos (bons ou ruins) do treinamento propriamente dito. Esse
conhecimento permitirá, à medida que sua experiência aumenta, que você suplemente ou enfatize certos
aspectos do treino, ou mesmo que elimine ou minimize certas práticas.

O aquecimento tradicional é, assim, um ritual para o conhecimento do próprio corpo. Como toda prática de
autoconhecimento, é, além do meramente físico, uma prática transcendental.

A primeira premissa do verdadeiro misticismo não é “Conhece a ti mesmo”?

Assim, para o praticante, o aquecimento com uma série de exercícios repetidos sempre na mesma ordem,
pode ser algo tedioso (ou pouco produtivo se ele for mais cerebral e se preocupar com o melhor modo, o
mais eficiente e mais científico) ou pode ser uma verdadeira experiência de autoconhecimento.
Autoconhecimento talvez em um nível mais básico, porque cuida primariamente do conhecimento do
corpo físico, das estruturas materiais.

Pode parecer um autoconhecimento apenas em nível físico. Mas o treino comporta muitos níveis de
profundidade. Basta somarmos o fator tempo e perceberemos como isso pode se aprofundar.

Se você pratica há muitos anos, passará por várias fases em relação ao “mero” aquecimento de todos os
dias.

No início será apenas o aquecimento, meramente uma ginástica. Depois, você começará a perceber que o
aquecimento te dá um tempo para avaliar os resultados do treinamento, descobrir deficiências e planejar
suplementações. Nesse estágio você começa a conhecer o seu corpo melhor e a entender suas
necessidades.

Mais adiante você perceberá que a repetição da mesma série a cada aula permitirá que a conversa seja
mais fácil. Nesse ponto, seus músculos a articulações começarão a parecer com velhos conhecidos. Você vai
mudando de exercício, na sequência, e vai voltando a atenção para outras partes do corpo. Você vai
reencontrar seu velho joelho (Olá, joelho, como está hoje? Um pouco de dor na lateral? Ora, o que andou
fazendo para que isso acontecesse? Foi aquele exercício de saltos que fizemos ontem? Ou aquela técnica
que envolve se ajoelhar e atingir o oponente por baixo que treinamos anteontem?) e assim por diante...

O fato de o aquecimento manter um padrão permite que você possa imediatamente comparar sua
experiência com o treino de ontem, quando fez o mesmo exercício de aquecimento, com o treino do mês
passado, com o treino do ano passado e assim por diante...

Percebem bem esse ponto?

O tempo adiciona um fator extra. Como você refaz a mesma conversa a cada vez, ela vai se aprofundando e
ganhando uma nova dimensão, uma dimensão histórica pessoal. É possível que você comece a perceber os
ritmos que estão subjacentes.

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Há um ritmo marcado pelas estações, pois a reação do seu corpo ao exercício varia quando varia o clima,
como você pode facilmente perceber ao tentar se exercitar num dia muito frio e comparar isso com o
exercitar em um dia de verão. Há o ritmo relacionado ao horário, pois fazer os exercícios de manhã, quando
se acorda, é bem diferente de fazê-los à noite, ou na hora do almoço, por exemplo. E há ainda o ritmo de
longo prazo, pois com o passar do tempo, você envelhece e, claro, isso altera a prática física diretamente.

A conexão com os vários ritmos, tanto os biológicos quanto os sazonais te conecta com a natureza. A
conexão com os ritmos não poderá ser sentida/compreendida sem que se passem muitos anos. Além de
você conhecer a si mesmo, conhecerá a si mesmo com relação ao mundo natural, em relação aos ritmos da
natureza.

Fica muito mais fácil que você compreenda/sinta esses ritmos com os exercícios de aquecimento sendo
executados como um ritual. Uma vez que você não precisa se preocupar com a sequência e nem com quais
exercícios fará, pois isso é pré-determinado como em todo ritual, poderá concentrar sua atenção nos
ritmos e sensações.

O aquecimento ainda tem outra motivação fundamental. Sintonizar sua mente com o treinamento.

Toda essa fase inicial tem, além dos objetivos citados acima, quando falei no aquecimento, uma função
maior: a de fornecer um intervalo entre a saída do mundo cotidiano e uma adaptação para que o
praticante tenha tempo entrar em sintonia consigo mesmo, com o ambiente, com o mestre e com os
companheiros de treino. Todos passam, a cada aula, pela mesma sequência de eventos, cada um no seu
papel, e, assim, essa experiência passa a ser mais que movimentos vazios ou ginástica.

Essa preparação passa a ser um ritual.

A prática de movimentos básicos (Kihon).

Os movimentos básicos do Budô, em geral, são designados coletivamente como Kihon.

Há variações de nomenclatura entre artes diferentes e até entre escolas diferentes da mesma arte, mas a
ideia geral é a mesma: trata-se de exercícios ou práticas, individuais ou com parceiro, em que certos
elementos estruturais da arte são praticados repetitivamente.

No caso do Karatê, por exemplo, há uma variedade de Kihon possíveis, dependendo do estilo, mas,
basicamente, praticamos individualmente os movimentos mais simples da arte: soco alto, soco médio, soco
baixo, chute frontal, chute lateral, chute rodado, defesa alta, defesa média (2 ou 3 tipos dependendo da
escola) e defesa baixa. Isso é feito em diversas bases (posições de perna e posturas do corpo) diferentes,
inicialmente no mesmo lugar (Kihon estático) e depois em movimento (semelhante a um exercício militar
de ordem unida, onde se avança diretamente para frente certo número de passos em uma base
previamente escolhida efetuando os movimentos e depois recua-se, voltando à posição inicial). Isso é feito
em forma solo e também com parceiro (quando um avança realizando os ataques, o outro recua
executando as defesas e depois invertem as posições).

No karatê Goju Ryu e em alguns estilos okinawanos existe um Kihon especial chamado Sanchin (“três
conflitos”) praticado especificamente para trabalhar a respiração.

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No Aikidô, ato contínuo ao aquecimento, praticamos irimi, tenkan e kaiten (tai-sabaki ou deslocamento de
corpo), shomen-uchi, yokomen-uchi e hara-tsuki (atemi ou ataques) individualmente e em seguida com
parceiro e ukemi (as quedas).

No Jodô Shinto Musô Ryu praticamos ukemi com a espada (manobra de recepção e amortecimento de
golpes), os doze cortes básicos com o bastão, individualmente e com parceiro.

E assim por diante...

No processo de elaboração dos Kihon, uma grande dose de conhecimento foi necessária ao longo dos
tempos. Imagine conhecer tão bem todo o conjunto da arte e todas as variações, implicações e
ramificações que você é capaz de selecionar alguns movimentos e elaborar algumas rotinas simples que são
o núcleo desnudo da arte. O cerne, as bases estruturais sobre as quais tudo que será aprendido depois
deve repousar. É preciso um conhecimento fenomenal da arte e das mentes dos alunos.

Na nossa analogia simbólica com os mitos antigos, lendas e contos de fadas, os Kihon são justamente o
amuleto, espada mágica, encantamento, reza, ensinados pelo mestre quando encontra o herói que ouviu o
chamado e que deverão ser usados em algum momento crítico (ou vários) da aventura.

O Kihon é a técnica pura, sem tática ou estratégia. Sem “ideologia”, digamos assim. Um soco é um soco e
pronto. Um tai-sabaki é um jogo de pernas e pronto (por analogia com o boxe inglês). Cortes com o bastão
ou com a espada são apenas cortes e pronto.

Isso é a superfície.

Há vários níveis de profundidade aí. Não fosse assim, os mestres não insistiriam tanto no Kihon. Não é
apenas um treino de fundamentos, puramente físico, como nos esportes em geral.

Vejamos o que dizem alguns mestres:

De Tadashi Nakamura, fundador do Karatê Seido Juku:

“Nigiri San Nen, Tachi San Nen, Tsuki San Nen”

Significando:

Fechar a mão/formar o punho (nigiri) corretamente: três anos, postura correta do corpo (tachi): três anos,
executar o soco corretamente (tsuki): três anos. Ou seja, nove anos para a mais básica das coisas no Karatê.

De Morihei Ueshiba, fundador do Aikidô:

“Aikidô é 90% atemi.”

De José Martins, Mestre de Aikidô, 6º Dan:

O kaiten (movimento básico, tai-sabaki) é 50% do Aikidô.

De Tsuneo Nishioka, Mestre de Jodô, Menkyo Kaiden:

“Honte Uchi, Gyakute Uchi, Hiki Otoshi uchi (os três primeiros movimentos básicos
do Jodô), são 50% do Jodô.”

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Os mestres dão uma importância especial ao Kihon. Se você observar bem a aula de um mestre, perceberá,
em geral, que ele ensina, no dia a dia, preferencialmente movimentos básicos. Aulas com técnicas especiais
e espetaculares são raras. Geralmente quem conhece mais a arte se preocupa, quase exageradamente,
com Kihon, Kihon e mais Kihon.

Não é assim com os sábios ou mestres dos mitos? Eles falam sobre dragões, serpentes, todo tipo de
obstáculo, sobre o tesouro, sobre recompensas, sobre donzelas belíssimas, mas sempre dão ênfase
especial em algum amuleto, varinha de condão, arma mágica, encantamento, palavra secreta, oráculo, etc.
Quando chega o momento de revelar isso, sempre há uma pausa solene, mil recomendações, confirmação,
repetição, etc. Algum ritual do qual o herói não esquecerá (espera-se).

Se esquecer o Kihon, não importa o tempo de prática ou o grau de proficiência atingido, haverá punição. O
praticante que esquece o Kihon (pratica pouco) fatalmente sentirá falta disso quando se deparar com um
momento crítico e possivelmente será derrotado, do mesmo modo que o herói da jornada mítica será
severamente punido por não executar alguma das instruções básicas do mestre.

Sob a tutela de um bom mestre, o Kihon será sempre praticado. Por mais que os alunos possam achar
tedioso, dia a pós dia, aula após aula, ele insistirá na repetição até que o movimento básico se torne uma
segunda natureza do indivíduo.

Esse é o motivo primário pelo qual muitas vezes se reconhece de quem um praticante é discípulo por um
simples soco ou corte de espada. Se ele praticou o Kihon tanto quanto o mestre quis e mostrou, copiando e
imitando o mestre, quando ele executa um movimento simples, mesmo que dentro de uma sequência ou
encadeamento complexos, você reconhecerá a assinatura do mestre.

Existe um termo japonês para designar o treinamento, especialmente o treinamento de técnicas básicas:
Tanren.

Literalmente, Tan quer dizer 10 vezes, Ren quer dizer 1.000 vezes. Assim Tanren quer dizer “repetir 10.000
vezes”.

Extraordinário não é? Imagine praticar uma vez por dia, todos os dias...

Dez mil vezes quer dizer quase 30 anos de prática!

Para um exercício básico?

Primeiramente trata-se de uma constatação simples, racional e, portanto, do campo da mente:

As bases, os fundamentos e princípios básicos são o alicerce. Se pensarmos na arte como uma construção,
o que será mais importante? O alicerce ou o acabamento?

As técnicas básicas são uma materialização dos princípios fundamentais que regem a arte. Foram
cuidadosamente selecionadas e são repetidas vezes sem conta para que um objetivo mais profundo seja
atendido um dia: discípulo e técnica tornem-se um só!

Há também outro princípio que torna a técnica básica tão importante. É ela que, no sentido cultural,
carrega a tradição da arte.

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Uma analogia simples explicita esse conceito. Nas sociedades onde existe escrita, o processo de
alfabetização (técnica básicas de escrita e leitura) segue uma regra básica mais ou menos universal: ao
iniciante o conjunto de caracteres ensinado é cuidadosamente padronizado quanto à forma.

Observe nossa própria cultura. Nossas crianças aprendem o alfabeto primeiro aprendendo a reconhecer e
escrever as letras ditas “de fôrma” e não as letras cursivas.

Superficialmente, o objetivo final, do ponto de vista de ensinar a representar as palavras e conceitos


usando o alfabeto, é que o aluno “domine” a escrita e escreva usando o seu próprio estilo de letra
(cursivo). É importante que, no final, ele se aproprie do processo e escreva com sua própria letra. No
entanto, ele começa com as letras “quadradas”, “de fôrma”. As proporções são ensinadas, os traços, a
ordem em que são traçados, os ângulos entre eles, as relações de tamanho entre maiúsculas e minúsculas,
etc.

Por vezes esse treino é tão repetitivo (especialmente para os alunos que têm letra feia e/ou coordenação
motora ruim) que chega-se a usar os famosos “cadernos de caligrafia”.

Porque essa insistência em letra de fôrma? Não é tradicional demais e tolhe a liberdade do aluno?

O motivo é simples. Se o professor mostrasse as letras ao aluno usando a sua própria letra (cursiva), os
alunos aprenderiam a escrever daquele jeito.

Sabemos todos, por experiência própria, que a nossa letra vai se modificando ao longo dos anos e, por
vezes, após muito tempo, está completamente diferente da original (aquela que aprendemos e
executávamos quando éramos iniciantes).

Se, quando esses alunos, eventualmente, tornarem-se professores, eles também ensinarem a sua versão de
cada letra, podemos imaginar que em 4 ou 5 gerações (talvez menos) as letras ensinadas e aprendidas
estariam completamente diferentes das que ensinou o primeiro professor.

Por isso a insistência na letra de fôrma (e no Kihon). O professor pode escrever com uma letra cursiva feia,
bonita, legível ou ilegível. Mas, quando vai ensinar o básico para os alunos da alfabetização ele precisa
“voltar atrás” e ensinar a velha letra de fôrma.

Caso ele não faça isso, ao longo de algumas poucas gerações de alunos, a forma das letras se perderá e,
com elas, toda uma cultura, significados e princípios associados a elas.

Por isso tanta prática de Kihon. É o caderno de caligrafia da arte marcial.

É o início do aprendizado da forma.

Nos anos que seguirão ao ensino primário, o aluno aprenderá a se expressar corretamente usando a
escrita. Logo, espera-se, o conteúdo do que ele escreve será mais importante do que a forma das letras.
Talvez até ele escreva tão bem que vire um poeta e talvez até ganhe o prêmio Nobel de Literatura. Esse
talento (essa coisa abstrata, essa não-forma) se expressará através da forma (letras). Mesmo que a letra
cursiva dele tenha se tornado tão ilegível que só ele consiga ler, de certa forma, a base, o alicerce está lá,
nas letras de fôrma do primário.

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Perceberam a importância e o longo alcance do Kihon? Com apenas 26 letras podemos escrever (em
princípio) todos os poemas que já foram escritos e que um dia ainda serão. Com apenas algumas técnicas
básicas, todas as estratégias, táticas e técnicas da arte marcial ganharão expressão concreta no mundo
físico.

Musashi apresenta uma analogia que estende ainda mais o alcance do Kihon:

“Golpear o aço mil vezes para forjar a espada. Golpear dez mil vezes para polir e
afiar a lâmina.”

A lâmina não é outra coisa que o próprio praticante. O iniciante é o ferro bruto que, depois de 1.000 vezes
golpeado (por si mesmo) começará a tomar uma forma com um propósito (espada). Uma vez que tenha se
tornado uma espada (tenha adquirido um propósito prático), para se tornar utilizável (agir no mundo),
precisará praticar (afiar e polir) muito mais, num processo que não terá fim (ou a lâmina enferruja e perde
o gume).

Portanto, também no Kihon há o lado físico e superficial, que se refere à forma das técnicas, há o lado
mental/racional que se refere à escolha das técnicas mais adequadas para o futuro aprendizado, há o lado
emocional, de combater o sentimento de tédio por tanta repetição e, por fim, há o lado espiritual, de forjar
um espírito com uma determinação excepcional.

Determinação que será decisiva para enfrentar as provações do caminho.

E disciplina. E desprendimento e dedicação.

É isso que a prática do Kihon pretende forjar. Do prático e concreto (alicerce para as técnicas) para as
amplas, subjetivas e abstratas qualidades espirituais.

Mais decisiva que a habilidade, velocidade, força ou as técnicas propriamente ditas. Conforme Masutatsu
Oyama (fundador do Karatê Kyokushin):

“No Karatê, o elemento espiritual, que permite ao corpo mover-se em completa


liberdade, é mais importante que a força ou as técnicas.”

Por conta disso o treino de Kihon envolve repetições sem conta, várias vezes na mesma sessão e ao longo
de muitas e muitas (todas?) sessões de treino. Para que o corpo possa mover-se com completa liberdade e
que um soco ou chute, uma queda, um giro, uma esquiva, um corte de espada, simplesmente aconteçam
quando necessários, sem que o praticante precise parar, raciocinar e pensar antes de executar. Para que o
golpe aconteça sem premeditação, simplesmente porque ele é o complemento ideal para a situação de
ataque-defesa é preciso que a prática de algum modo desvincule a mente racional da execução.

Assim, a repetição quase hipnótica dos movimentos do Kihon se assemelha, em certa medida, ao transe
dos dançarinos sagrados de muitas culturas. Por exemplo, os dervixes da Índia, que dançam girando em
torno de si mesmos por horas a fio.

Lembro-me de ocasiões em que meu mestre de Karatê solicitou a execução de um movimento e continuou
contando as repetições por um tempo indefinido. A única solução que já encontrei nesses casos é esquecer
o professor, esquecer a contagem e, por fim, esquecer o próprio corpo. Chega um ponto que você fica
apenas repetindo em sua mente: “Mais uma vez, mais uma vez,...”. Ou você faz isso ou, se pensar na

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contagem, lembrar o tanto que está exausto, etc. você simplesmente pára, pois a mente racional te
convence que você não aguenta mais.

O mesmo já ocorreu na aula de Aikidô. Certa vez, me lembro bem, fizemos o movimento do Kihon chamado
Kaiten em posição ajoelhada por tantas repetições que o único jeito foi entrar no transe “mais uma vez,
mais uma vez,...” e continuar.

Porque comparo isso a um transe? Simplesmente porque quando isso acontece e o cansaço físico pelas
repetições ameaça te deixar inconsciente, você entra nesse estado e aí, por vezes, mesmo quando o
professor manda a turma parar, você nem ouve e continua. Se ele não te cutucar de algum modo, você
ainda fica um tempo indefinido fazendo depois que os outros pararam e, às vezes, demora a se dar conta e
parar/acordar.

O objetivo é tornar isso um reflexo.

Quando se fala que deve treinar até que você se torne a técnica, estamos dizendo que pela repetição, a
execução da técnica deve tornar-se uma espécie de segunda natureza. Um ato reflexo.

Assim como quando o médico martela o ponto certo no seu joelho ocorre um chute involuntário, o Kihon
destina-se a tornar um soco, um chute, uma esquiva, uma entrada, um giro, uma queda num movimento
que ocorre involuntariamente no caso de necessidade/emergência.

É desenvolvimento da reflexologia.

“O progresso vem para aquele que treina e treina”.

“Depositar sua confiança em técnicas secretas [ou ensinamentos esotéricos


apenas, negligenciando o treinamento] não vai levá-lo a lugar algum” (Morihei
Ueshiba).

O Kata

Pratica-se aquecimento, Kihon e também Kata.

O que é o Kata?

Literalmente, Kata significa fôrma ou molde.

Aqui muitos praticantes torcem o nariz e mostram insatisfação...

Para alguns, geralmente iniciantes, que não foram ainda apresentados ao verdadeiro significado do Kata,
trata-se de uma perda de tempo com a execução cega de coreografias inúteis que poderiam muito bem ser
substituídas por métodos mais modernos e eficientes de treinamento. Para outros, mais avançados, mas
ainda com uma visão incompleta, o Kata é uma espécie de beco sem saída, repetição estéril e disciplina
limitadora da criatividade.

Mas o Kata, como todas as outras coisas do caminho, apresenta muitos níveis de profundidade.

Por vezes, os significados por trás dos movimentos apresentam ensinamentos que, apesar de estarem
perfeitamente à vista, estão ocultos e permanecerão assim até que o discípulo os desvende por si mesmo,

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como em toda disciplina esotérica. E, quando desvendar, será apenas para perceber que, há ainda outras
camadas por baixo. E assim por diante até que, no fim, chega-se ao núcleo e, além do núcleo, ao vazio.

Quando se estuda o Kata, geralmente há a distinção básica entre omote e ura.

Esses termos merecem uma explicação mais detalhada.

Há o significado superficial: omote quer dizer, “pela frente”, “o lado da frente”, “frontalmente”, etc. Ura
quer dizer “por trás”, “atrás”, etc.

Um significado mais profundo pode ser retirado da etimologia dos termos: o caractere (kanji) para omote
representa o lado ensolarado da montanha enquanto que o caractere para ura simboliza o lado oposto (e,
portanto, escuro, escondido) da montanha.

Observe que a profundidade do significado já começa a se revelar aí. O sol nasce e ilumina parte da
montanha. Outra parte permanece escura. Mas o sol se move durante o dia e, pode ser que, ao final, a
parte escura seja aquela que outrora estava iluminada e vice-versa.

Isso tudo vai depender da orientação da montanha e do ponto de vista de quem observa. Pode ser que
certas partes sempre permaneçam ocultas. Pode ser que algumas, embora não fiquem na escuridão
completa, também nunca fiquem completamente iluminadas.

E assim é também com o conceito de kata. Por trás do significado direto, e aparentemente limitante, de
“molde” ou “fôrma”, o caractere para kata representa a sombra que se forma no interior de um ambiente
quando a luz entra por uma janela com grades.

As sombras formam um padrão que depende do padrão da grade. No entanto, mudam de posição e
alongam-se à medida que a posição do sol muda e, mais importante, o padrão também muda, dependendo
do ponto de vista do observador.

Há um padrão, mas ele não é, de modo algum, fixo ou imutável.

Com esses conceitos em mente, vamos falar do kata de um ponto de vista um pouco mais específico.

Basicamente encontraremos dois tipos de kata: formas “solo” como no Karatê-dô ou no Iaidô e formas a
serem praticadas com parceiro como é o caso dos vários estilos de Kenjutsu (englobando aí, de um modo
geral, o Jodô). Por fim, temos o modo de praticar característico do Aikidô que, num sentido lato, pode
também ser considerado como kata.

Vamos tratar primeiro das formas “solo” até porque aqui, se por um lado a prática parece mais distante da
realidade e do concreto do que nunca (afinal, o que é uma luta onde não há adversários?), veremos que, na
realidade, as oportunidades de auto-aperfeiçoamento físico, mental, emocional e espiritual acabam por se
revelar de forma muito pura.

Um kata difere do Kihon num ponto principal. Enquanto no Kihon a preocupação é a repetição da técnica
pura de forma a torná-la um ato reflexo, no kata, embora também se pratique a técnica e haja a intenção
de torna-la um reflexo, o objetivo principal é ensinar “estratégia”.

Estratégia e tática. Hyohô como preferia chamar Musashi ao invés de usar os termos que considerava mais
limitantes, técnica de esgrima/sabre (Kenjutsu).
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Os kata, que diferem mais ou menos, de escola para escola, foram criados por seus fundadores ou
incorporados pelos seus sucessores históricos. São combinações de técnicas básicas. Encadeamentos mais
ou menos difíceis, mas não seriam mais do que uma forma avançada de Kihon se não fosse pela introdução
do conceito de “estratégia”.

Dentre todas as técnicas básicas possíveis e de suas incontáveis permutas e combinações, os fundadores e
ancestrais da escola escolheram apenas algumas determinadas e as combinaram em determinadas
sequências, com variações peculiares de velocidade, ritmo e fluidez. A escolha da sequência particular de
movimentos que constituem o kata e do ritmo ou cadência em que são executados é determinada pela
estratégia ou “ideologia” da escola.

Como exemplo particular, mas que ilustra bem como essas escolhas são feitas, tratarei do estilo Goju-Ryu
de Karatê-dô. A escolha recai não por achar que nesse estilo em particular haja uma estruturação ideal em
que os kata correspondam exatamente à estratégia adotada pela escola. Trata-se apena de eu estar mais
familiarizado com os detalhes e implicações globais dos kata, por ser o estilo que eu pratico.

Goju-Ryu pode ser traduzido literalmente como “escola (Ryu) de técnica dura/bruta (GO) e de técnica
flexível/suave (Ju)”. Foi fundada em Okinawa, nos anos de 1920, por Chojun Miyagi, a partir dos
ensinamentos do mestre Kanryo Higaonna, também okinawano, que aprendeu rudimentos da arte de
combate com mãos vazias nativa de Okinawa e estudou por cerca de 20 anos na China, combinando
finalmente o conteúdo de sua ilha natal com os ensinamentos dos “kung-fu” chinês.

O significado óbvio do nome Goju é de que treinamos técnicas que usam uma abordagem “dura” ou
externa, baseadas em força e velocidade e também técnicas em que se usa flexibilidade e suavidade para
subjugar o adversário. Esse é o significado superficial ou omote.

Numa segunda instância, a estratégia geral da escola é responder a ataques duros do adversário usando
flexibilidade e suavidade (esquivas, evasões, projeções, redirecionamento, etc.) e, por outro lado, que
respondamos a ataques usando princípios mais maleáveis (tentativas de imobilização, projeção,
agarramento, etc.) com atemi decisivos e devastadores (incapacitar ao atingir pontos vulneráveis do corpo
usando mãos, punhos, pés, cotovelos, cabeça, joelhos, calcanhares, etc.).

Desse modo os kata são estruturados de modo a que a sequência de técnicas, ritmos, deslocamentos
atenda essa premissa: revidar o duro/forte com suavidade/flexibilidade e vice-versa.

Reparem na correlação direta entre os opostos GO e JU por um lado e YIN e YANG por outro.

Como não é possível treinar respostas para todos os ataques possíveis e imagináveis, os fundadores
selecionaram combinações possíveis (ou meramente acadêmicas em alguns casos) com o objetivo de
permitir ao estudante absorver pela prática repetitiva e internalizar esse modo de agir: responder ao YIN
com YANG e vice-versa.

Percebam a mudança de foco: agora não se está primordialmente preocupado com a execução da técnica
em si, mas em forjar um modo de agir. O objetivo agora é mais global. Espera-se que o estudante, partindo
da execução de algumas respostas encadeadas que ilustram esse princípio estratégico, possa se acostumar
a agir assim sempre. Não usar uma técnica qualquer do seu repertório contra um ataque, abstraindo a
natureza deste. Mas sim, reagindo da maneira que essa escola, seu fundador e sucessores consideraram
melhor: YIN x YANG e YANG x YIN.
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Esse é um dos objetivos principais. O discípulo aprenderá a coreografia (sequência de técnicas e ritmos) do
kata inicialmente de forma puramente mecânica. Nesse ponto inicial, o processo de imitação dos
movimentos do mestre é essencial.

A maioria dos discípulos pára de se desenvolver aí, na parte mecânica ou física. Uma vez aprendida a
coreografia por imitação do mestre, o discípulo não consegue ver além dos movimentos físicos e sua
prática, por mais perfeita do ponto de vista puramente físico, lhe parece estéril e apenas repetição
figurativa e inflexível (morta) de uma coreografia que não pode, em princípio, fornecer respostas a todas as
situações “reais” do combate.

Mas essa é a superfície, a primeira camada.

Quando o mestre percebe que a coreografia foi aprendida, ele começa a mostrar a aplicação prática de
cada movimento (o significado). Nesse processo de reaprendizagem, o discípulo repassará a sequência
aprendida, passo a passo, imaginando os atacantes e realizando os movimentos como respostas aos
ataques e táticas do adversário virtual.

No início esse adversário virtual será uma figura sem rosto. Ele é apenas o atacante, uma figura abstrata.
Logo ele começará a tomar forma definida, na mente do praticante.

Inicialmente, ao treinar o kata em vários ritmos diferentes, o praticante selecionará um adversário


idealizado que chamaremos de o “outro”. Esse outro normalmente tomará a forma de algum colega
especialmente bom naquele ataque particular, um rival em potencial, seja pela atenção do mestre, seja
pela atenção da turma, algum desafeto, etc.

A execução do Kata melhora e passa-se ao próximo patamar.

Num segundo momento, o outro tomará a forma do mestre. O mestre é o ideal, pois foi tentando imitá-lo o
melhor possível que o discípulo aprendeu. O mestre é o melhor nos diversos tipos de ataque e que sempre
acerta e vence quando quer. O mestre é quem, com suas correções intermináveis, nunca acha que a
execução do kata está boa o bastante. Assim, o mestre, essa figura de pai ao mesmo tempo considerada
digna de imitação e ideal da forma, é também a figura limitadora/disciplinadora (do ponto de vista
psicanalítico), que impõe uma disciplina absurda e não deixa o discípulo ir adiante. Nesse momento o
progresso do discípulo se espelhará nessa vontade de agradar e, ao mesmo tempo, superar o mestre.

A execução do Kata melhora e passa-se ao próximo patamar.

Mais adiante, o praticante começa a imaginar a si mesmo como o atacante. Ora, isso é bastante racional se
pensarmos assim: quem melhor que eu mesmo poderia ser completamente imprevisível para mim? Se eu
conheço meus pensamentos, pontos fracos e fortes, quem teria mais facilidade para me vencer do que eu
mesmo?

O combate ritual que é o kata passa a ser uma luta consigo mesmo. Para superar-se

A execução do Kata melhora e passa-se ao próximo patamar.

Nesse ponto, a mente fica serena e afasta-se do comando ativo da execução. Por vezes, o próprio
praticante surpreende-se a o perceber que já executou o kata e voltou à posição inicial.

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O adversário deixou de existir...

Por um lado espera-se instilar no discípulo a estratégia do estilo. Por outro lado, a execução e repetição,
vezes sem conta, passando pelos estágios que descrevemos de um modo geral objetiva chegar ao ponto de
não-mente, em que a execução ocorre livre das rédeas da razão.

Há alguns pontos que vale mencionar.

Primeiramente vale lembrar: cada kata inicia-se com um movimento defensivo. Nunca parte-se para o
ataque primeiramente. O primeiro movimento ofensivo é do oponente. Segundo Funakoshi (fundador do
estilo Shotokan de Karatê):

Karate ni sente nashi

Significando que o praticante de Karatê não agride. Essa é uma diretiva moral: o Karatê é uma arte de
defesa pessoal e deve ser usado tão-somente como último recurso para defesa da integridade própria (ou
dos familiares) ou para defesa do bem estar social.

Tem o seu componente racional, pois é também uma diretiva estratégica. Deve-se esperar até o último
instante para só reagir no momento certo e com a resposta mais adequada.

E, claro, tem o seu aspecto espiritual/emocional. Esperar conscientemente até o último momento exige
serenidade mental e espiritual. Não se precipitar exige confiança completa no reflexo aprendido e, ao
mesmo tempo, significa não desembainhar a espada e mostrar seus recursos indiscriminadamente. É o
domínio do tempo na relação com o outro e, por fim, consigo mesmo.

Em segundo lugar, a maioria (mas não todos) os kata (refiro-me às formas solo do Karatê) são planejados
para iniciar e terminar no mesmo lugar. Além da óbvia referência ao círculo e, portanto à perfeição, há
realmente pontos técnicos sutis envolvidos.

Há os kata mais modernos, formalizados do Séc. XIX em diante, que procuram ser simétricos. A cada passo
para frente, corresponde um passo com o mesmo alcance para trás, a uma ida para a direita corresponde
uma ida para a esquerda, se certa sequência é feita numa direção, em seguida é feita no sentido contrário,
se for executado um soco com a mão direita, haverá o movimento correspondente com a mão esquerda,
etc. Nesse tipo de kata, terminar no mesmo local, significa que as medidas exatas dos movimentos (ângulo
e alcance) foram executadas com simetria: lado esquerdo igual ao direito.

Já os mais antigos (chamados Koryu-Kata), não são exatamente simétricos. Às vezes há mais movimentos
para a direita do que para a esquerda, um dos lados do corpo é mais trabalhado, etc. Foram criados
originalmente para uso em combate ou diretamente a partir da experiência em combate, sem
preocupações estéticas ou esotéricas.

Dito de modo geral, se você se contenta em mover os pés seguindo exatamente a medida e ângulo ideais
de cada base/postura, você não vai terminar no mesmo lugar. Terminará, por exemplo, mais à frente se o
kata é primariamente ofensivo ou um pouco mais atrás se o kata tem mais técnicas defensivas. Mais para a
direita se o lado direito é favorecido (ou vice-versa) e assim por diante.

Mesmo assim, o mestre insiste, quase irracionalmente, que você termine no mesmo lugar.

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Depois de muita prática e de considerar que quando atacante ataca com um lado do corpo o movimento
pode ser mais longo do que quando ataca com o outro, por exemplo, vão levá-lo a modificar sutilmente a
sua própria movimentação de forma a compensar as assimetrias da coreografia e fazer o movimento
convergir para o ponto inicial. As modificações que você introduz assim, fazendo por vezes o mesmo
movimento com alcance a ângulos ligeiramente diferentes quando executa do lado direito ou esquerdo,
para frente ou para trás, ensinam sutilmente que, para a estratégia ser vitoriosa, a assimetria (que
simboliza a imprevisibilidade) é fundamental.

Isso é o aspecto ura. Para quem observa a execução do kata, nada disso é notado. Você simplesmente
termina no mesmo lugar e parece que tudo foi executado certinho, cada movimento com a forma e
angulação exatamente como prevista no manual (conforme praticada no Kihon). No entanto, do ponto de
vista interno, várias adaptações foram feitas para que tudo corresse de acordo com o “esperado”.

Nos kata de vários estilos, mas de forma especialmente notória no Goju-Ryu, há variações de ritmo muito
pronunciadas durante a execução. Muitas vezes um longo encadeamento de técnicas é executado em ritmo
bastante lento, coordenado com uma respiração abdominal profunda (como no Tai Chi Chuan) e, de
repente, explode-se em movimento rápido e uma sequência é executada com toda velocidade. O contrário
também ocorre e, de repente, uma sequência rápida subitamente transforma-se em movimento suave e
lento.

Novamente aqui há o omote e o ura.

O significado superficial é didático. A mudança para um ritmo mais lento muitas vezes tem motivo simples:
aqueles movimentos considerados cruciais são executados mais lentamente para melhor fixação na
memória.

Mas, novamente, isso é apenas parte da história. Há o aspecto ura a se considerar.

Desse ponto de vista, uma sequência lenta e suave no meio de duas sequências rápidas tem o efeito e
clarear e serenar a mente. No meio do combate cerrado, tenso e rápido, o espírito permanece tranqüilo e
se move suavemente, quase que desapegado do corpo. Embora no comando, o espírito não se deixa levar
pela “adrenalina” do momento. É um simbolismo e um treinamento para a mente/espírito inamovível
(fudoshin). A tranquilidade no meio do caos.

Até aqui falamos do kata solo, conforme é executado no Karatê-dô e, guardadas as devidas proporções e
particularidades, no Iaidô.

Mas há também o kata praticado com adversário.

Nesse caso, há os dois lados da coreografia: a do atacante (ukete, ou simplesmente uke) e a do defensor
(shite, ou nage).

O princípio norteador básico da prática do kata permanece. O foco é ensinar estratégia.

Agora, há um parceiro real e concreto. Embora no Karatê-dô exista a prática do Bunkai, onde o kata é
“quebrado” em partes componentes e pratica-se com um parceiro efetivamente executando os ataques
enquanto o defensor executa o kata, a prática do kata dois a dois é uma especialidade da esgrima ou
Kenjutsu (incluindo, nesse caso, o Jodô).

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Nas artes de espada o kata executado com parceiro é a forma de treinamento original, por oposição ao
Karatê-dô okinawano, aonde primeiro vem a prática solo e depois a prática pareada.

Além das motivações já citadas no caso dos kata de Karatê-dô, a prática do kata entre dois espadachins, ou
de um espadachim contra um oponente armado com um bastão, tem primeiramente uma motivação de
segurança. Sem a coreografia predeterminada, o risco de lesões seria muito grande, pois um bastão ou uma
espada de madeira se manejados adequadamente e/ou atingindo um ponto vulnerável do corpo podem ser
tão mortais quanto os golpes de uma arma “real”, de aço, com lâmina.

Assim, prática do kata com parceiro além de ensinar estratégia focaliza em ensinar a relação espacial entre
os oponentes (chamada de maai) em japonês.

Quando se pratica um kata de espada contra um oponente também armado, o foco fica no domínio do
espaço ou território. Procura-se estar sempre na melhor posição para cortar e, ao mesmo tempo, na
melhor posição para não ser cortado.

E no controle. Os golpes têm que ser executados com velocidade, força e intenção, como se fosse para
cortar realmente, mas os cortes devem ser contidos no último instante, a uma polegada do alvo. Isso se
chama sun-dome (um “sun” é uma medida antiga, equivalente a uma polegada, enquanto o termo “dome”
tem o significado de parar/interromper a arma).

Quando se pratica com parceiro, além do óbvio, que é ter um oponente real por oposição ao kata solo,
onde não há oponente e, na prática, todo o controle está com aquele que executa o kata, introduz-se, a
questão de responsabilidade para com o outro. E de desapego. E de desprendimento.

Quando se executa o kata com parceiro, alguém tem que perder. Oferecer-se, voluntariamente, para o
papel de perdedor tem um caráter de superação do ego. É muito fácil e interessante fazer o papel do que
vence. Mas, para fazer o papel do que perde, é necessário “engolir” o ego e “lutar para perder”.

Aquele que se oferece para perder põe sua integridade em risco (por mais calculado e combinado que seja,
acidentes acontecem). Arriscar a própria vida para que o outro possa se aperfeiçoar não é possível sem
uma grande dose de desprendimento.

Fazer o papel do perdedor exige qualidades que são mais emocionais (superação do medo) e espirituais
(desapego e desprendimento) do que técnicas.

Na prática há alternância de papéis. Isso tem um significado mais profundo que o simples revezamento em
busca da eficiência, da troca de favores. Ao se alternar ora no papel de vencedor, ora no papel de
perdedor, o praticante “medita” sobre a vida “real”, onde não se pode vencer (ou perder) sempre.

Segundo Tsuneo Nishioka, Menkyo Kaiden (grau mais elevado) em Jodô:

“Quando um observador externo observa um kata, parece que o Uchidachi


(espadachim) perde e o Shidachi (o que porta o bastão) vence”. Isso é
intencional. No entanto, há muito mais que isso. Uchidachi deve possuir o
espírito de um pai verdadeiramente dedicado. Uchidachi guia o Shidachi
provendo um verdadeiro ataque; isso permite ao Shidachi aprender a

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movimentação correta do corpo, distância de combate, [estado de] espírito
adequado e percepção de oportunidade. Um espírito correto é tão necessário
quanto uma técnica correta para o Uchidachi (...)”

“(...) Se o Uchidachi é o pai ou mestre, então o Shidachi é a criança ou discípulo


(...)”

"(...) É a repetição das técnicas nesse relacionamento pai/filho,


mestre/discípulo que permite o aprimoramento do espírito através da técnica
(...)”

Embora a prática de Aikidô não seja considerada por alguns estudiosos e praticantes como kata de um
ponto de vista estrito, acho que podemos considerar a prática padrão como kata do seguinte ponto de
vista: a execução dos golpes é combinada como no kata de espada, mas, claro, o grau de liberdade da
execução propriamente dita é bem maior que no caso das artes de espada.

Não poderia ser diferente: tecnicamente o treino com armas precisa ser bem mais rígido quanto à forma
para evitar acidentes. No treino com mãos vazias, como no Bunkai (aplicação) dos kata de Karatê ou na
prática de Aikidô, um eventual contato não previsto tem potencial muito menor de causar danos. Por vezes
é até desejável que haja um pouco de contato para que o praticante acostume-se e não seja surpreendido
e tenha um “branco” (paralisia mental) numa eventual situação de defesa pessoal em que leve um soco ou
chute por exemplo.

No caso específico do Aikidô a “estratégia” ou “ideologia” também são diferentes. O praticante deve
aprender a se amoldar não apenas à técnica que está praticando. Ele deve se amoldar ao atacante. Como o
objetivo é receber o ataque, assumir o centro de gravidade do movimento, redirecionar e “convencer” sem
causar dano, o transcorrer da aplicação do movimento real é sempre muito fluida e os detalhes exatos
dependem muito das diferenças físicas entre os dois (peso, força, envergadura, etc.) e do contexto (rápido,
lento, etc.). Por isso alguns não consideram uma técnica de Aikidô como Kata.

Mas, do nosso ponto de vista, a técnica de Aikidô tem tudo que o kata tem: mais importante que o
movimento físico em si, ou a situação de partida, a técnica é um veículo para ensinar a “estratégia” da arte
e, nesse sentido, claro, é um kata e, com as devidas diferenças nos detalhes, aplica-se o que discutimos
mais acima relativamente ao kata de Karatê ou de Jodô.

Embora ao realizar uma técnica de Aikidô, dificilmente se consiga fazer duas vezes do mesmo jeito, existe
um núcleo ou essência que permanece o mesmo, independente do tamanho dos adversários ou outras
circunstâncias externas. O kata vivo e eternamente mutante do Aikidô difere do kata aparentemente fixo
do Karatê ou do Jodô apenas na aparência.

Imagine que você normalmente pratica Karatê ou Jodô em um Dojô típico, com piso de madeira.

Agora vá ao jardim e realize os mesmos kata na grama irregular. Descalço, com tênis, usando um coturno
militar. Pratique de manhã, ao nascer do sol. Ou à noite. Com os olhos fechados, de frente para o nascente,
etc...

Em cada uma dessas maneiras será um pouco (ou muito diferente).


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É o mesmo kata, mas será diferente.

A mesma “estratégia” aplicada em um terreno diferente.

Porque a imutabilidade e a rigidez são apenas aparentes.

Finalmente gostaria de discutir sobre o aspecto aparentemente rígido do kata. O lado coreografia do kata
costuma “assustar” e “espantar” os praticantes por verem apenas o superficial da repetição rígida e cega.
Farei uma analogia, que talvez pareça inusitada, mas que exemplifica bem como vejo a prática e, a meu ver,
realça bem os aspectos que vão além do meramente técnico e funcional.

O Zen e a arte de passear com cães.

Cinco vezes por semana eu pratico Karatê, das 6h às 8h. Pratico sozinho, em um dos pátios da minha casa.
Em geral, prefiro o pátio descoberto, que fica no lado leste do terreno. Além de permitir treinar ao ar livre,
tenho sempre, quando a estação e o clima permitem, a agradável sensação de ser surpreendido pela
alvorada em algum momento do treino. Como treino sozinho, pratico Kihon e Kata.

Quanto a isso não há nada de especial. Milhares de praticantes de Karatê pelo mundo afora procedem de
maneira similar todos os dias. Não é sobre esses Kata que quero falar.

Ao invés de falar sobre a forma do Kata ou sobre as técnicas, gostaria de falar sobre a essência da prática.

Os mestres de Okinawa e do Japão costumam afirmar que o Karatê e o Zen não são coisas separadas, mas,
sim, complementares. Alguns chegam a afirmar que o Kata é o Zen em movimento.

Quando encerro o treino, por volta das 8h, é a hora de ir à padaria buscar o pão quentinho para o café da
manhã. Esse passeio tem um caráter especial e o considero também como um Kata.

Vou sempre acompanhado. Eu, Morena e Pity. Deixem-me apresentá-las:

Morena é minha cachorrinha mais velha. Tem cerca de 17 anos. Mas é também a maior e mais forte, pois é,
embora sem pedigree, uma rotweiller (ou descendente direta). Apesar das aparências, é muito dócil e
praticamente ignora os humanos que encontramos pelo caminho (exceto se alguém correr e/ou gritar em
minha direção, o que ativa automaticamente seu instinto de guarda). Fosse apenas pelas pessoas, ela
poderia ir ao passeio sem guia ou coleira, pois sempre anda devagar (já foi atropelada e fraturou o quadril e
fêmur, quando vivia nas ruas, antes que eu a adotasse) e fica perto de mim. No entanto, ela tem muito
ciúme de outros cães, basta algum vir em minha direção que ela imediatamente parte para o ataque.
Também não gosta de motocicletas (e motociclistas) e nem de gatos (os da rua, pois nem se importa com
os que moram conosco).

Pity tem cerca de 7 anos. Por oposição à Morena, que sempre se move devagar, é extremamente agitada,
se move muito rápido e detesta que as pessoas se aproximem de nós enquanto passeamos. Basta ela achar
que alguém chegou perto demais para avançar como se quisesse destroçar a pessoa. Por sorte, ela é bem
pequena e não é tão forte assim. Embora pareça um “diabo da Tasmânia” quando alguém se aproxima, ela
é facilmente controlável se eu agir a tempo. Também odeia gatos, mas, diferente da Morena, adora
contato com outros cães. Toda vez que encontra outro cachorro, faz a maior festa: pula e brinca numa
grande felicidade. Mesmo os cachorros mais tímidos se aproximam e acabam brincando um pouco com ela.

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O que isso tem a ver com Kata? A relação, espero, logo ficará clara.

Como num Kata, nosso trajeto (Embusen) é sempre o mesmo e, assim também, nosso objetivo superficial
(Omote): buscar o pão.

Também, como num Kata, há um objetivo mais profundo e uma estratégia a ser
treinada/aprendida/absorvida: meu objetivo ao levá-las comigo transcende o superficial, que é “ir buscar o
pão” ou simplesmente “levar os cachorros para passear”.

Para mim são membros da família. São minhas crianças...

O objetivo do nosso kata é que elas tenham um passeio agradável.

Isso pode parecer simples, mas o meu conceito de passeio agradável para um cachorro é de que ele possa
se divertir: além de caminhar, quero que elas possam ver e cheirar o mundo, saborear o passeio e a
liberdade que ele representa já que passarão o resto do dia presas em casa (não ficarão em correntes ou
canis, pois têm liberdade para entrar e sair de casa a qualquer momento e um grande quintal à disposição,
mas isso, claro, não é a mesma liberdade que tem um cachorro de rua, livre para ir e vir ao sabor do vento).

Assim, saborear é a palavra-chave.

Para isso tomo as seguintes providências: elas não usam coleiras comuns, que apertam o pescoço. Usam
peitorais. As guias são especiais, têm 5 metros de comprimento máximo e são retráteis. Essa é parte física.
Manusear as guias adequadamente, travar, liberar, tensionar, recolher, trocar de mãos, girar, etc.
pertencem ao domínio da técnica (Waza) e destreza (Jutsu).

Do meu lado vem a parte emocional/psicológica/espiritual: a minha atitude é a de que possam saborear o
passeio e isso quer dizer que procuro interferir o mínimo possível.

Minha missão não é puxá-las (ou arrastá-las) até a padaria e depois voltar. Meu trabalho é, controlando o
comprimento e tensão das guias, direcioná-las (guiá-las) SUAVEMENTE ao longo do caminho.

Tenho que me preocupar com a segurança das pessoas, cachorros e gatos no trajeto. Devo me preocupar
também com a segurança delas, pois vamos pela calçada, próximo a pistas movimentadas.

No entanto e mais importante, como o objetivo do kata é que elas saboreiem o passeio, devo controlar o
ritmo das duas (pois Morena anda bem devagar e Pity está sempre correndo), e devo me abster de
controlá-las através de puxões, safanões, gritos, tapas, etc.

O controle deve ser apenas com conversa suave, gestos, olhares, carinho, movimento e expressão corporal.

Se eu controlá-las pela força ou no grito, o passeio não será natural. E, pior que tudo, estarei dando mau
exemplo de como cuidar e passear com cachorros. E meu desejo é que todos os cachorros sejam bem
tratados. Por isso meu exemplo é importante. Espero que as outras pessoas que têm cachorros vejam,
sintam a nossa integração e aprendam conosco.

Assim, todas as manhãs, com Yin na mão direita e Yang na mão esquerda, iniciamos nosso kata.

Antes de abrir o portão e sairmos para a rua, uma abraço em cada uma delas, pois todo Kata começa com
cortesia e reverência (Rei).

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Daí em diante o conjunto formado por nós é, para todos os efeitos, uma entidade única. Penso nelas como
sendo o corpo e eu como sendo a mente.

Parte de mim (Pity) quer ir rápido, parte de mim quer ir devagar (Morena).

Eu, a mente, tenho que controlar o ritmo para que uma parte do corpo não seja puxada e a outra não seja
arrastada. Isso é Hyoshi (cadência, ritmo).

Devo também controlar o alcance de meus movimentos, pois meus “braços e pernas” podem se alongar
por cinco metros. Isso é Maai (espaço-tempo).

Devo ficar alerta aos obstáculos e percalços físicos do caminho como buracos, meios-fios irregulares, etc.
devo ficar alerta para que a Pity não avance nas pessoas que aparecem nem a Morena nos cachorros que
cruzam nosso caminho. Devo também deixar que a Pity brinque com os cachorros que simpatizarem com
ela e evitar que a Morena os ataque. Isso é Zanshin (vigilância, o espírito que permanece).

Tenho que ter alguma destreza nas mãos para receber o pão, pagar, pegar o troco, comprar o jornal e
carregar tudo tendo as duas mãos ocupadas com as guias. E, claro, durante todo o percurso tenho que
trocar as guias de mão rapidamente sempre que elas se movem trocando de lado para evitar que as guias
se entrelacem. Isso é Waza (técnica) e Jutsu (destreza).

E, mais que tudo, como desejo que o passeio seja divertido do ponto de vista delas, minha mente deve
permanecer serena. Muitas situações ocorrerão para eu perder a paciência, com elas ou com as pessoas no
caminho. Eu posso estar com pressa num certo dia, mal-humorado, com sono, cansado, preocupado. Nada
disso pode importar ou interferir. Isso é Fudoshin (a mente inamovível)

É o passeio DELAS e EU não posso atrapalhar.

Para executar o kata corretamente e o passeio ser harmonioso, o mais natural possível, é necessário que eu
praticamente me anule (o ego) ou alternativamente, que eu consiga ser um com elas (Aiki). Mente (Shin),
intenção (Ki) e corpo (Tai) em harmonia. Mente serena para permanecer alerta aos perigos (zanshin) e
poder expressar/controlar ritmo (Hyoshi), distância (Maai) e técnica (Waza).

Mente serena é Fudoshin (a “mente inamovível”).

Se a mente não estiver serena, inevitavelmente eu vou perder a paciência com as travessuras que qualquer
criança comete e vou, no mínimo, ralhar com elas.

Quando iniciamos, procuro colocar minha respiração no mesmo diapasão de quando treino karatê, Aikidô
ou Jodô. No Karatê chamamos isso de Ibuki, é a respiração da prática do zazen.

É assim que considero o treino de kata. Cada kata, seja de Karatê, Aikidô ou Jodô é uma coisa viva e
dinâmica e não uma coreografia morta. Do mais simples ao mais complexo, encaro todos assim.

No caso ideal, enquanto o passeio transcorre, tento manter a respiração assim, lenta, abdominal, profunda.
Procuro até mesmo contar quantas respirações no trajeto. É claro, que nesse quesito, sempre falho.

Assim como, a cada dia, falho em alguma coisa. Às vezes me irrito com uma delas, às vezes deixo que elas
avancem além do que é seguro, me distraio ao atravessar a rua, etc.

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Mas tenho fé que é possível. E esperança que o passeio do dia seguinte será ainda mais perfeito.

Ou quase...

O importante que elas cheguem felizes em casa e que estejam ansiosas e entusiasmadas para ir
novamente, no dia seguinte. Isso quer dizer que o kata foi bom e perfeito naquele dia.

O Kata inicia no portão de casa e termina ali. Termina onde começou.

Entramos e fecho o portão. Elas me olham com um maravilhoso olhar de contentamento. Olhando nos
olhos delas não haverá dúvida ou intervalo para responder o famoso Koan: “Um cão tem a natureza do
Buda?”

Elas param e sentam ao meu lado, esperando alguma coisa...

O que falta? Tirar as guias e peitorais?

Hora do abraço!

Um abraço para iniciar e um abraço para terminar.

Assim é o Kata. Começa com Rei e termina com Rei.

Embora seja o mesmo Kata, cada dia é diferente, assim também é cada execução do Kata. E assim também
será cada vez que for necessário usar a arte marcial em alguma ocasião da vida (não só em combate).

O perfeito, o ideal, existe ou existiu (talvez) apenas na mente de quem criou o kata. Quem criou,
provavelmente estava passando adiante uma experiência de combate, de vida e morte.

Ele aplicou, talvez espontaneamente, sem pensar, aquela técnica, aquela tática, aquela estratégia pela
primeira vez. E sobreviveu. Talvez machucado, quem sabe. Mas sobreviveu e codificou isso num kata para
passar o conhecimento adiante.

Assim, um evento que foi perfeito para o que sobreviveu (perfeito justamente porque sobreviveu), tornou-
se conhecimento para ser passado adiante, para a próxima geração até você, que executa o kata nesse
momento.

Podemos procurar fazer cada vez melhor a cada repetição do kata, mas se não tivermos consciência disso,
degeneraremos no perfeccionismo neurótico e sairemos do caminho (ou estacionaremos).

Esse é o espírito de quem percorre o caminho. A perfeição, embora impossível, é um ideal a ser perseguido.

Mesmo que você nunca vá conseguir um passeio “perfeito” você ainda continua praticando, esperando
fazer melhor a cada vez. Não para que seja perfeito por si mesmo. Mas para saborear, de novo e de novo, a
união entre a mente serena e inamovível e o corpo vivo, dinâmico e móvel.

União que sempre existiu e que você redescobre um pouco a cada vez que pratica.

Quando você consegue isso, o passeio é realmente “divertido”. Os cachorros ficam felizes e eu, eu me sinto
muito bem, sereno e satisfeito. Pleno. Em estado de graça.

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Sensação de graça que vem, em última análise, de algo muito simples: tentar realizar com perfeição
(dedicação) qualquer tarefa que se apresenta acaba por ser uma recompensa em si mesma.

Porque dedicar-se e tentar realizar com perfeição cada ato, transcende o meramente físico.

É uma ORAÇÃO.

Uma oração de agradecimento pela tarefa e por ter à disposição os meios para realizá-la: corpo, mente e
espírito. Seu agradecimento por estar vivo para realizar algo.

O cansaço, os pulmões ardendo, o coração batendo mais forte, as dores musculares são dádivas.
Amplificam a sensação de estar vivo.

É assim que me sinto após a execução de cada Kata. Bem-aventurado. Vivo.

Pois cada Kata é uma aventura. Uma viagem. Uma oração.

Um Kata deve ser Zen em movimento.

Um passeio com os cães É Zen em movimento.

O combate.

Ao falar sobre Kihon e kata, em vários momentos dei a entender que a luta final é do praticante consigo,
que a superação buscada está em vencer a si mesmo e, talvez, num nível mais elevado, não ter mais
adversário.

Para alguém que “escuta o chamado” e começa a praticar, pode ser que uma das motivações seja
justamente o combate. A busca por ser eficiente no enfrentamento de outros.

Esse é um caso comum para aqueles que têm interesse profissional na prática, como militares, policiais e
seguranças particulares. Também é o caso de muitas pessoas que, por sofrerem violência física ou ameaça
de violência, buscam uma maneira de se defender.

A motivação inicial é, portanto, utilitária e prática. Há um problema para se resolver e busca-se uma
solução que produza resultados práticos.

As artes que conhecemos hoje, não importa quão elevados os seus ideais morais e espirituais, começaram
como uma resposta da criatividade humana ao problema do enfrentamento.

Assim, num primeiro momento, a motivação das artes marciais foi puramente prática e de cunho utilitário
e isso corresponde à dimensão física do combate.

Inicialmente, não havia técnicas e nem sistema estruturado de Kihon e kata. Aprendia-se a combater indo
ao campo de batalha.

Aqueles que sobreviviam podiam voltar e analisar retrospectivamente o que tinham feito e funcionado e o
que tinham visto não funcionar nas mãos dos adversários que vencera. Eventualmente poderiam praticar e
repetir algum “lance” que funcionara bem com algum amigo, algum familiar ou membro do mesmo

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exército ou clã. Mesmo numa conversa informal entre veteranos de combate, tomando saquê, num fim de
tarde, poderia ser ocasião para aprender e trocar experiências.

Esse acúmulo e troca de experiências foi a origem dos Kihon.

Mais tarde, com a necessidade de estruturação de métodos de treinamento visando tornar o exército mais
eficiente, veio a inclusão da estratégia, o que levou à formação dos kata

Esse primeiro momento, em que o Japão vivia um longo período de guerras internas, foi fértil para a coleta
de experiências. Assim, quanto mais veterano um soldado, de quantos mais combates houvesse
participado, mais conhecimento e experiência acumularia. As artes que conhecemos hoje começaram
como arte da guerra (caso mais comum nas artes que tratam do manuseio de armas como espada, lança,
arco e flecha) ou como defesa pessoal (Caso das artes de mãos vazias ou usando armas pequenas, como
Karatê, Jiu-Jitsu, Judô, Aikidô).

O caso do Karatê de Okinawa, especificamente, é o da evolução de uma técnica de combate individual com
fins de garantir segurança pessoal em enfrentamentos contra um ou vários (poucos) adversários.

Já nas outras artes japonesas propriamente ditas, mesmo as que são hoje praticadas quase exclusivamente
com as mãos vazias, a origem geralmente é o campo de batalha, ou no caso de algumas mais recentes (séc.
XVII em diante) do aprimoramento a partir de duelos.

Na atualidade, algumas artes marciais incluem o combate no treinamento.

O combate livre, sem combinação prévia alguma e sem regras de conduta praticamente não existe nos
Dojô.

É uma questão eminentemente prática. Lutas usando todos os recursos possíveis e sem regras de conduta
ou supervisão poderiam facilmente degenerar em acidentes graves e na diminuição progressiva do número
de praticantes pelo simples fato que alguns se machucariam seriamente o bastante para não poder
continuar praticando.

Sendo assim, em que pese a moda recente dos UFC, MMA, K1, etc. Em geral, não existe o combate “real”,
sem limitações, dentro da prática comum. Mesmo os lutadores de MMA não praticam lutando até finalizar
todos os dias (assim como o s maratonistas não correm uma maratona todos os dias para se preparar).

Há sempre, em cada arte, em cada Dojô, os que ficam, por um motivo ou outro, insatisfeitos com a prática
apenas baseada em Kihon e kata (solo ou com parceiro).

Em geral, o argumento é que a prática pré-determinada é naturalmente limitante e tolhe a expressão do


praticante, que fica acostumado apenas a um conjunto limitado de situações, condições e respostas.

Embora, pelo que conversamos acima, seja possível contra argumentar, pois o treino de kata conduzido
com a atitude correta está longe da estagnação, o treino de combate tem o seu lugar no treino de arte
marcial mesmo que hoje em dia a preocupação primordial não seja com o uso em campo de batalha ou
exclusivamente com defesa pessoal.

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O primeiro ponto é prático: algumas pessoas realmente procuram a arte marcial por necessidades
profissionais, como militares e policiais. Nesses casos, os praticantes esperam ao menos alguma dose de
“realidade” (no sentido de confrontação) nos treinos.

Mas, mesmo que não seja por motivos profissionais, o combate tem sua importância também para o
desenvolvimento mental, psicológico, emocional e espiritual.

Mesmo os militares, policiais e seguranças que procuram a “realidade” do combate têm interesse
específico no que se refere a desenvolvimento mental, psicológico e emocional mais do que na técnica em
si. Afinal, lidar com situações de conflito sem combinação pré-determinada para desenvolver coragem e
controle emocional em situações de estresse é uma coisa importante nas suas respectivas atividades.

Por outro lado, há os praticantes preocupados primariamente com questões mentais, psicológicas,
emocionais e espirituais e que apresentam uma atitude contrária à realização e participação em combates.

No extremo dos que querem a “realidade”, encontraremos também os “caçadores de emoção” e “viciados
em adrenalina” ou aqueles que simplesmente têm uma índole violenta, seja por motivos psicológicos ou
espirituais.

Entre esses dois extremos, encontraremos toda uma gama de opiniões diversas sobre a prática de combate
livre e sua importância no desenvolvimento integral do praticante.

Já fiz anteriormente uma analogia entre Kihon e aprendizado da escrita. As técnicas praticadas no Kihon
seriam o equivalente das letras de “fôrma” que são as primeiras que aprendemos. Vimos que há um bom
motivo nessa padronização (que não deixa de ser também uma supressão do ego, pois, de certa forma,
exclui a possibilidade de individualidade e criatividade).

Claro que espera-se que o aluno, como tempo desenvolva a própria letra e escreva de maneira mais natural
e fluida e, inclusive, que use a escrita para expressar a própria criatividade.

Nesse processo de aprimoramento em direção à prática pessoal própria, livre e criativa, entra o kata (seja
solo ou com parceiro) e o desenvolvimento e os aspectos que tratamos acima quando falamos do kata.

O combate, seja chamado de kumitê, randori, jyu-waza, shiai, etc., tem o seu papel nesse desenvolvimento.

O combate é, ao mesmo tempo, o berço e o teste da validade das técnicas e estratégias e, também, o
momento do praticante testar o que aprendeu e se colocar à prova.

Tendo em vista a prática moderna, quando falamos em combate, o primeiro ponto a considerar é ético.

Ao praticar o combate com o outro, uma dose de controle e responsabilidade com o outro são necessárias.
A quantidade e natureza desse controle dependerão da arte, da escola e da personalidade do mestre, mas,
de um modo geral, não haverá combate “sem restrições” ou o número de alunos diminuiria pelo menos em
metade após cada aula.

Então, haverá regras tanto limitando as técnicas que podem ser usadas quanto a intensidade com que
poderão ser aplicadas por questões de segurança.

Como há limitações, em qualquer arte onde se pratique o combate passa pelo aprendizado e incorporação
das regras que garantirão essa limitação. Aprender as regras, concordar com elas e aplicá-las
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escrupulosamente é o equivalente à observância das leis por parte dos cidadãos. Assim como o
desenvolvimento de uma cidadania plena passa pelo respeito e cumprimento das leis e normas de conduta
sociais, a observância das regras de combate constitui-se num valor moral e ético por si mesmo. Aprender a
respeitar as regras da coletividade mesmo quando elas se sobrepõem ao nosso desejo pessoal é um
primeiro passo em direção ao controle do ego.

E também, em direção ao Cavalheirismo.

Além da questão ética da obediência às regras, surge, paralelamente, questão do controle.

Conto uma pequena história, que me foi contada por um faixa-preta mais antigo do meu Dojô de Karatê
que certa vez assistiu um combate esportivo de Karatê (Shiai Kumitê) em que o mestre de nosso mestre era
o árbitro:

Era uma luta entre um faixa-roxa e um faixa-preta.

Pela regra da época, os golpes no rosto eram permitidos desde que fossem parados a
cerca de uma polegada do alvo (sun-dome). Não podiam, portanto tocar. O golpe
deveria ser dado com força, velocidade e todas as outras qualidades ideais de um
golpe de Karatê, mas o contato estava proibido. Contatos no corpo (peito, abdome),
eram permitidos desde que fossem leves. Esse é o conceito de sun-dome que
falamos acima quando discutimos os kata de espada. O golpe deveria ser dado como
se fosse para acertar, deveria vazar a guarda do oponente, mas, no último instante, a
uma polegada do alvo, deveria ser parado.

Ora, durante o desenrolar da luta, o faixa-preta atingiu o rosto do faixa-roxa. Apesar


de o toque ter sido leve, a luta foi parada e ele recebeu a advertência prevista no
regulamento (pontos foram dados ao ofendido).

Continuando a luta, foi a vez do faixa-roxa cometer um erro e atingir o rosto do


outro.

Nesse caso, a luta foi parada e o faixa-roxa recebeu o ponto correspondente.

Ao fim da luta, o mestre foi questionado por conta dessa questão. Porque havia, na
mesma situação, punido um e premiado o outro?

A resposta foi simples:

“Um faixa-preta deveria ter controle maior e não atingir um menos graduado
ilegalmente, por outro lado, um faixa-roxa não tem obrigação de ter tanto controle
assim e, claro, o faixa-preta deveria ter conseguido defender!”

Vemos, portanto, que nessa questão envolvendo o combate esportivo, entram em jogo a questão da
habilidade de controlar a execução e, ao mesmo tempo, a responsabilidade moral que um praticante
deveria ter em não ferir o outro.

O fato de as regras terem sido aceitas por ambos é que permite o combate. Se um dos combatentes
deliberadamente executa uma ação ilegal, ele está, pela ordem, desrespeitando um acordo prévio entre as

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partes, colocando em risco seu oponente, que não está esperando aquela ação e que, pelo fato de ser
proibida, provavelmente o foi por um bom motivo.

Regras assim existem no Karatê, no Judô e no Kendô, que têm uma faceta manifestamente esportiva. Há
um regulamento estrito norteando os combates esportivos. Dentro dessas artes encontraremos outras
abordagens do combate.

Há escolas de Karatê onde os combates são regulados por regras que permitem desde o “não-contato” até
a luta buscando nocautear o outro. Gostaria de enfatizar que mesmo nas escolas cuja abordagem permite o
contato total e, portanto, o nocaute, há regras claras sobre quais técnicas podem ou não ser utilizadas,
além de regulamentações específicas sobre não atingir um adversário caído, em certos pontos do corpo,
etc.

O mesmo ocorre no Kendô. Embora haja a versão esportiva “oficial”, algumas escolas praticam ainda no
formato Gekkiken (Kendô pré-moderno, de antes da Segunda Guerra Mundial) em que eram permitidos
golpes com o corpo, rasteiras, arremessos, golpes nas pernas, etc.

O mesmo pode ser dito do Judô, onde há a regra oficial de competição e os treinos de randori de cada
Dojô, que permitirão o uso de técnicas não-oficiais, não interromperão a luta até um ippon ou rendição,
etc.

O fato de haver o enfrentamento, e mesmo a competição esportiva em alguns casos, leva a outro ponto
importante a se considerar. Esse ponto envolve fundamentos éticos e emocionais. Trata-se da questão da
vitória e da derrota.

Ora, quando falamos em combate ou luta esportiva, é natural que o senso comum pense em vitória ou
derrota. Afinal, um dos fundamentos de haver regras é justamente decidir quem venceu o confronto.

De um ponto de vista puramente ético, a questão da vitória ou derrota é um grande empecilho. Se há uma
posição privilegiada, um vencedor, então surge o desejo da vitória. Esse desejo pode fazer com que um dos
contendores procure sobrepor o seu desejo individual de vencer à observância estrita das regras e procure
trapacear. Do mesmo modo, como último recurso para não perder, um dos competidores pode recorrer a
técnicas ou comportamentos “proibidos”.

Trata-se de uma questão emocional ao mesmo tempo simples e complexa. Simples na sua motivação, mas
complexa nas suas ramificações.

Ora, a motivação é simples. Vencer é um alimento para o ego e perder é, por outro lado, detestável.

As ramificações são mais complexas. Em vários momentos acima, afirmamos que a prática da arte marcial é
uma busca para vencer a si mesmo. De que forma o combate, que pode servir para enaltecer o ego, pode
ser uma ferramenta nessa busca de superação interior?

Trata-se de uma perversão do espírito original do combate e mesmo da competição esportiva.

Dentro da perspectiva do esporte, o combate é uma oportunidade para aprender fair-play e, daí, uma
atitude cavalheiresca.

33
O combate, visto corretamente dentro da perspectiva geral do Budô, é apenas mais uma forma de
treinamento. Não um objetivo em si.

Treina-se o combate não com o objetivo de formar campeões, mas porque ele é uma ferramenta de
aprendizado. Quando se combate, fica-se frente a frente com o imprevisto e com uma força não
cooperante que deve ser dominada ou controlada. Ao mesmo tempo, procura-se não ser dominado ou
controlado pela força contrária.

Nesse contexto, perder ou vencer são apenas resultados de situações que ocorrem durante esse treino,
chamado combate e, em ambos os casos, deveriam ser um parâmetro para o praticante avaliar seu
desempenho. Não apenas contar seu resultado em relação ao outro, mas suas reações frente ao
inesperado, à dor física, à tentativa de imposição de um ritmo pelo outro, à possibilidade ou realidade da
derrota, sua capacidade de aplicar as técnicas e estratégias e, especialmente, seu senso ético e seu controle
emocional.

Perder ou vencer são apenas parte do treinamento.

O praticante deveria incorporar isso a cada vez que treina o kata e reveza-se no papel do que “vence” e do
que “perde”. Perder ou vencer, quando se considera apenas os objetivos do treinamento e não a satisfação
do ego, são apenas faces da mesma moeda. Aprende-se vencendo e aprende-se perdendo.

De um ponto de vista puramente prático, podemos considerar o seguinte: melhor perder um combate em
treinamento ou numa competição do que perder numa situação de combate real, seja numa situação de
defesa pessoal nas ruas, seja numa situação profissional, no caso de policiais, soldados ou guarda-costas.

Perder ou vencer subsidiam o praticante com ensinamentos práticos valiosíssimos.

Na verdade, arrisco dizer que, perder, mais do que vencer, nos fornece aprendizados mais valiosos e
abrangentes.

Por experiência própria, tendo participado de competições de Karatê dos 13 aos 30 anos, uma das coisas
que percebo, retrospectivamente, é que os maiores aprendizados em termos de essência da prática vieram
de algumas lutas que perdi.

Já narrei um desses casos no texto “Zanshin”.

Outra dessas derrotas me levou a procurar o Aikidô:

No Karatê, cheguei à faixa-preta aos 15 anos de idade.

Até aquele momento, todos os outros faixa-pretas do Dojô eram adultos. Alguns,
muito antigos, eram até mais antigos que o mestre e tinham sido alunos do mestre
dele.

Um mestre que dava muita ênfase ao combate e que, infelizmente, não conseguiu
mostrar a todos os discípulos que o combate contra o outro não era um fim em si
mesmo.

Muitos dos mais antigos não aceitaram bem um faixa-preta “garoto”.

34
E por conta disso eu paguei o preço. Lembro-me de um praticante, particularmente
forte e, digamos, “bruto”, que vivia me testando.

Não perdia uma oportunidade de lutar comigo e me dar uma lição. Colocar-me no
meu lugar. Vencer e machucar para mostrar que eu não era bom nem digno o
bastante de ser faixa-preta como ele.

Combatemos várias vezes. Apanhei várias vezes.

Certa noite. De tão acostumado a perder, relaxei. Fiquei apenas gerenciando a


movimentação e tentando não me arriscar. Resolvi só me defender e não tentar
retaliar. De repente, o irresponsável atacou com uma sequência particularmente
perigosa. Se tivesse me atingido teria me machucado de verdade.

Algo aconteceu. Meu corpo se moveu um pouco para o lado e minha perna esquerda
subiu em um chute circular. A mandíbula dele foi atingida em cheio. A maioria dos
faixa-pretas que conheço teria caído (eu teria caído). Ele ficou abalado, mas não
pediu para parar. Apenas ficou fugindo e se esquivando até a ordem de parar.

E sumiu por um mês.

Inicialmente fiquei contentíssimo.

Lembro-me de quando ele voltou ao Dojô e ficou de fora, apenas assistindo a aula,
com cara de deprimido.

Com o ego inflado, fui até ele e perguntei se não iria treinar.

Foi quando ele me respondeu: “Na última vez que lutamos, você trincou minha
mandíbula. Passei três semanas sem poder mastigar.”

Aquilo me atingiu de forma que nunca poderia esperar. A vitória ruiu a meus pés e se
transformou em derrota. Eu ficara contente por ter machucado alguém.

Depois desse dia perdi o gosto pela luta competitiva. Eu tinha vinte anos.

Outro caso de derrota serve para ilustrar a atitude de fair-play e também a atitude de um verdadeiro
mestre em relação ao combate:

Participei de vários torneios quando adolescente. Meu mestre era um dos


juízes mais respeitados da federação. Tecnicamente seu julgamento era
considerado ótimo, suas decisões raramente eram contestadas. Do ponto de
vista ético, era conhecido por ser imparcial.

Mas nem tão imparcial assim...

Lembro-me que detestava quando ele era árbitro de uma luta minha. Era
quase certeza de derrota.

Certa vez, após uma luta, um dos competidores que assistira ao combate e que
não sabia que ele era meu mestre, comentou comigo:
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- Essa luta foi um absurdo. O juiz te roubou o tempo todo. Você acertou o
outro várias vezes e ele não marcou nada. Bastou ele te acertar, mesmo mal,
que ele marcou ponto. Deve se o professor dele!

Nesse dia, confesso que fiquei particularmente irritado. Questionei o mestre


quando voltávamos para casa. A resposta foi inesperada.

- Se eu não marquei os seus toques, foi porque foram de má qualidade. Não foi
assim que ensinei. Você poderia ter feito melhor.

-Mas e os toques dele, que foram piores que os meus?

- Ele não é meu aluno. Não é responsabilidade minha. Se ele não luta direito e
mesmo assim ganha porque as regras permitem, só estará enganando a si
mesmo. Ou sendo enganado pelo mestre dele. Mas você é meu aluno. Eu
ensinei do jeito certo e você fez “mais ou menos”.

Quando o foco sai da disputa pessoal, de satisfação do ego, perder fornece uma oportunidade única de
avaliar todo o processo de treinamento. Não apenas as técnicas e estratégias, mas uma avaliação também
da sua própria atitude emocional.

Mais importante ainda, é preciso aprender a não se deixar enfeitiçar pelas vitórias e sucessos. Quem perde
sempre se questiona, mas quem vence, tende a se tornar condescendente consigo mesmo e, nesse caso, a
vitória pode se converter em derrota, pois acaba convertendo-se em obstáculo ao progresso.

Nesse ponto a orientação do mestre é fundamental. Ele deve estar pronto para perceber quando o
discípulo está se deixando abater pelas derrotas e, mais importante, quando está caminhando para tornar-
se arrogante por conta do sucesso efêmero.

Lembro-me de quando venci pela primeira vez o campeonato de karatê do DF na categoria juvenil (tinha 15
anos e era recém-faixa-preta). Quando voltávamos para casa, meu professor, ao invés de elogiar, me disse:

“Você sabe por que você não luta bem”?

“Porque você é egoísta!”

“Você quer atingir o outro, mas não quer ser atingido!”

“Para conseguir atingir o outro, é necessário se arriscar e oferecer a si mesmo


como alvo.“

“Só quando você se abandona e parte para o ataque, não se importando se vai
ser ou não atingido no processo, é que o seu golpe é realmente pleno.”

A sua atitude diante da aparente dualidade de vencer o outro ou perder para ele pode levá-lo a duas
situações. Se o ego está muito ativo, você se apegará à questão específica de vencer e “subir ao pódio” e
passará boa parte de sua vida procurando vencer até que, em algum momento tenha que se aposentar
melancolicamente porque o físico já não pode mais superar os outros mais jovens. Por outro lado, quando
suprime-se o ego, aparece a verdadeira questão do combate: vencer o medo.

36
Trata-se, pois, de uma questão muito mais emocional do que física. Temos medo de perder, mas, na
verdade, o medo de perder é um reflexo geral de outros medos, como o de ser ridicularizado, não ser
aceito, não ser bem visto pelos outros, etc.

E o medo, o verdadeiro inimigo, está dentro de você e não é parte do outro.

Quando se pratica o combate para aprender, seja perdendo ou vencendo, com uma atitude de aproveitar e
saborear a experiência, vitória ou derrota deixam de existir. Sobram apenas elementos de aprendizado e
dados de feedback para orientar o treinamento.

Certo mestre disse:

“Você não deve se vangloriar e ficar contente por vencer um combate”. Não
deve se orgulhar.

“Porque se fizer isso, terá também que se envergonhar quando perder.”

Uma vez superado o ego, uma simplicidade cristalina emerge. Você combate e aprende. Você combate e
defronta-se a cada vez, com suas limitações. Limitações de ordem física, técnica, tática e estratégica, claro.
Mas, também, e mais importante, você é confrontado diretamente com seus medos.

O medo é o maior fator limitante da liberdade.

Para superar o medo, o combate deve ser encarado como mais um treinamento a que se submete. Se a
preocupação primária de vencer ou perder é ultrapassada, pode-se finalmente ver o verdadeiro inimigo. O
medo que há dentro de você.

Vencer o medo ou, pelo menos, lutar abertamente contra ele, significa encarar a essência do que o
treinamento pode proporcionar. O grau de liberdade espiritual alcançado dependerá da capacidade obtida
de controlar e, finalmente, de superar, o medo.

A mesquinharia de vencer ou perder é um reflexo do ego infantil, que busca apenas a própria e imediata
satisfação. Ultrapassado o ego, a verdadeira questão de vida ou morte surge claramente. Superar os medos
e obter a verdadeira liberdade que advém daí é a verdadeira vitória.

É claro que isso não é obtido nos estágios iniciais do treinamento. Na verdade, é um ideal, que talvez leve
uma vida para ser atingido. Ou nunca seja.

A natureza não faz saltos. O que foi dito acima não quer dizer que você vai combater com a atitude certa e,
finalmente chegará a um ponto em que superará o ego e tudo estará resolvido.

Esse estágio inicial, por sermos humanos e, portanto, seres que falham, é, de certa forma, um estágio
perpétuo da condição humana. Se você relaxar a vigilância, o ego aparece, pois embora possa ser
controlado, nunca poderá ser completamente suprimido ou extinto, pois faz parte de você.

Talvez você chegue ao ponto de controlá-lo tão bem, que ele deixará de ser relevante...

Você estará no comando. Talvez...

Falamos em estágios. Pense nisso de maneira ampla. Você não vai atingir o final de um estágio e
simplesmente passar para o outro. As coisas não são tão simples. Talvez você avance por outros níveis e
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ainda carregue por muito tempo as características do primeiro nível e, quando estiver no nível N+1,
possivelmente carregará ainda características do nível N, do nível N-1 e assim por diante.

Mas é o primeiro passo. Lutar contra o outro para descobrir que é você que tem que ser vencido. A
persistência nessa meta poderá nos levar ao próximo estágio. Quando você conseguir perceber que vitória
ou derrota são irrelevantes no combate de Budô, começará a vislumbrar o próximo nível.

No caso do Judô, Kendô ou Karatê, as características e considerações que traçamos acima se aplicam
razoavelmente bem e, independente da arte, podemos abstrair os detalhes e considerá-las como gerais.

Nas artes Koryu (estilo antigo), especialmente as com armas, como no Jodô e outros estilos antigos de
espada, lança, naginata, etc., o combate livre, nos moldes do Budô moderno, por razões práticas, é evitado.
Não se usa proteções e as “armas”, embora de madeira, podem fazer estragos consideráveis no corpo
humano e, inclusive, matar. Treina-se apenas kata. Mas a intensidade com que o kata é treinado,
especialmente por praticantes avançados e experientes, não deixa a desejar, em termos emocionais, ao
combate propriamente dito. O mínimo erro, quando um kata é executado em velocidade, por praticantes
que sabem manejar as armas, pode levar a acidentes graves. Assim, embora os combates sejam
combinados, chega-se a treinar com tal intensidade que um erro de distância ou ritmo, um mínimo vacilo,
pode trazer consequências tão ou mais dolorosas que um combate de Karatê ou Judô.

Vencer e perder, nessas condições passa a ter um significado mais amplo. Conseguir ajustar espaço, tempo,
posicionamento, ritmo corretamente, não importando se você é “o que perde” ou “o que ganha” na
execução do kata exige todas as qualidades discutidas acima e, ao mesmo tempo, dá margem a todas as
reflexões que elencamos acima na mente do praticante.

No combate em Aikidô, a abordagem costuma ser diferente. Não existe competição oficialmente e o Jyu-
Waza tem por modelo e ideal um tipo de combate que identificarei com o último nível dessa busca através
do combate “o combate pela ausência”.

No Aikidô, por não haver ênfase na luta competitiva como um estágio inicial, algumas vivências serão
perdidas. Em compensação, algumas armadilhas serão evitadas também. Como não há campeões e nem
derrotados, o risco de ser dominado pelo ego e virar um “competidor profissional” é, em princípio, evitado.
O ego será suprimido e controlado por outros caminhos. O treino repetitivo do kata, a alternância de
papéis, a ênfase na conexão e condução da força contrária e em evitar o choque tratarão do ego com
outros remédios. Homeopáticos talvez, mas, nem por isso, menos eficientes.

O modelo do Aikidô, de um modo peculiar a essa arte, procura cortar caminho direto até a essência do
combate. Falaremos desse estágio mais adiante, no devido tempo.

O combate pelo Ki

Um segundo nível do combate é a chamada “ofensiva pelo ki” (Kizeme).

Uma vez ultrapassado o domínio puramente físico, mental e emocional do enfrentamento, chega-se ao
nível em que o praticante procura, ao invés de trocar golpes, atacar, contra-atacar, etc. Consegue dominar
o espaço (maai) e o ritmo do combate (hyoshi) impondo sua vontade e intenção ao outro.

Curiosamente, para que isso possa ocorrer no plano material e ser observado objetivamente, é necessário
que os adversários não sejam tão díspares tecnicamente.
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Um adversário com pouco preparo não conseguirá sentir o ki dominante do outro e insistirá no
enfrentamento. Não será convencido de que não há brechas a aproveitar, de que o ritmo está dado pelo
outro e atacará. O que só pode levar a uma derrota fragorosa.

Um exemplo dessa progressão é contado por Miyamoto Musashi:

“Pratiquei o caminho da estratégia desde minha juventude e, com a idade de 13


anos, me bati pela primeira vez em duelo”. Meu adversário chamava-se Arima Kihei,
adepto da escola Shinto Ryu, e o venci. Com a idade de 16 anos, venci um adepto
chamado Akiyama, originário da província de Tajima. Aos 25 anos subi para Kyoto e
me bati em duelo com numerosos adeptos de escolas célebres, mas nunca fui
derrotado.

Depois viajei muitas senhorias e regiões, para me bater contra adeptos de outras
escolas. Combati mais de sessenta vezes e nunca fui vencido. Tudo isso se passou
entre meus 13 e meus 28 ou 29 anos.

Por volta dos 30 anos, comecei a refletir e percebi que, se eu vencera, não fora por
ter chegado à etapa final da estratégia. Talvez minhas disposições naturais para o
caminho tenham me impedido de me afastar dos princípios universais, talvez a meus
adversários faltasse competência em estratégia...

Continuei a treinar e a buscar, do amanhecer ao anoitecer, uma razão mais profunda.


Chegado aos cinquenta anos, naturalmente encontrei o verdadeiro caminho da
estratégia.

“Depois desse dia, vivo sem precisar pesquisar e me aprofundar mais no caminho.
Quando aplico a essência da estratégia ao caminho de diferentes artes e artesanatos,
não preciso mais de mestre em nenhum domínio (...)”

O combate entre Musô Gonnosuke e Miyamoto Musashi.

O primeiro caso histórico a citar levou a criação do Shinto Musô Ryu Jodô e é um exemplo típico do que
seria um combate pelo ki:

Musô Gonnosuke era um samurai que percorria o Japão em Musha-Shugyo


(peregrinação de treino). Usava um grande bastão (Bo) com núcleo de ferro e
reforçado com anéis de metal como sua arma favorita. Tendo atingido o nível
máximo do estilo de esgrima Shinto Ryu (Menkyo Kaiden), saiu em
peregrinação para enfrentar duelos e atingir um nível ainda mais profundo de
entendimento.

Até que encontrou Miyamoto Musashi.

Musashi era famoso à época. Tendo vencido seu primeiro duelo aos 13 anos de
idade (contra um espadachim adulto e experiente, que passou por sua aldeia
natal em busca de desafios) e derrotado todos os herdeiros da famosa escola
Yoshioka de Kyoto, seria um desafio ideal para um praticante mais jovem e
ambicioso para construir sua própria reputação enfrentar.
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Conta-se que Gonnosuke encontrou Musashi e o provocou para o combate.

Musashi permaneceu impassível, ignorando os modos rudes do jovem


desafiante e desconversou. Irritado, Gonnosuke teria partido para o ataque
sem nem mesmo cumprimentar.

Musashi, usando duas espadas de madeira e cruzando-as à sua frente, na


guarda denominada Juji-Dome, simplesmente se ergueu e começou a andar na
direção do desafiante. Confuso, Gonnosuke ficou sem alternativa de ataque,
pois não percebia aberturas e, completamente dominado pelo espírito
(Intenção/Ki) de Musashi, recuou até ficar de costas para o muro e foi obrigado
a admitir a derrota e se render sem ter tido sequer a oportunidade de golpear.

Esse é um combate carregado de simbolismo para a história do Budô. Embora Gonnosuke já tivesse um
nível alto, tecnicamente falando, ainda estava despreparado para um enfrentamento exclusivamente pelo
Ki. Mas receptivo o bastante para perceber e admitir o domínio do outro e não insistir de forma suicida em
atacar de qualquer maneira.

Esse é um ponto sutil do combate em Budô. O praticante pode permanecer para sempre preso apenas ao
domínio físico do combate, preocupado apenas com vitória ou derrota, em uma vida de competição, busca
pelo pódio e, finalmente, de negação do inevitável declínio da capacidade física e consequente depressão
diante da realidade do envelhecimento e da decadência do corpo físico.

Ou pode, à medida que combate e compete no plano material, ir percebendo progressivamente, que há
outro nível a ser alcançado. Ao longo de sua carreira de lutador ele terá vários vislumbres do combate pelo
Ki. Inicialmente essas ocasiões ocorrerão como que por acidente. Um golpe executado com maestria, uma
vitória arrancada das garras da derrota graças a um instante iluminado e um golpe perfeito, etc.

Em geral, se há apenas vitórias, é mais difícil perceber. Se você sempre (ou quase sempre) ganha, tende a
considerar a vitória como um mérito seu, de suas qualidades especiais ou da qualidade do seu treinamento.

Mas há também as derrotas, como no caso de Gonnosuke.

Gonnosuke estava já preparado o bastante para entender que estava sendo dominado de uma maneira
diferente, que transcendia o meramente físico. Isso porque ele mesmo já havia combatido muitas e muitas
vezes e nunca tinha sido derrotado. Na certa, já tinha esbarrado em momentos de inspiração especiais e
tinha vencido alguns duelos usando o ki. Mas isso ainda era fortuito e acidental. A sua busca estava
direcionada a se tornar tão bom que essa inspiração estivesse sempre com ele. E então, ao atacar Musashi,
ele se deparou com aquela sensação fugaz tornada permanente e concreta em uma pessoa.

Se não estivesse preparado para ver, teria atacado imprudentemente e morrido.

Como já tinha lutado tantas vezes no nível físico (nível do ter, nível material) e já tinha vislumbrado
relances de um nível mais elevado (nível do ser, espiritual) ele pôde reconhecer a derrota. E ter esperança.

A partir do aprendido nesse combate, isolou-se e, depois de muita pesquisa, criou o método do Jodô, que
hoje chamamos de Shinto Musô Ryu Jodô. E entrou para a história, tornando-se, de certa forma, imortal,
pois seu ensinamento, que nasceu de uma derrota e tornou-se vitória para o espírito, permanece conosco,
que praticamos seu ensinamento.
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O caso de Gonnosuke não é único na história registrada das artes marciais.

O combate entre Matsumura e Ason.

Em Okinawa, no Séc. XIX, o mestre Matsumura deixou registrado mais um exemplo.

Sokon Matsumura era o capitão da guarda palaciana e guarda-costas do Rei de


Okinawa. Tal era a confiança em seu caráter e habilidades que ele serviu nesse
posto como guarda-costas de três reis consecutivos. Durante sua vida viajou à
China (Beijing) algumas vezes como escolta das missões oficiais do governo de
Okinawa, especialmente daquelas que levavam tributos ao Imperador Chinês. No
seu status de enviado especial e adido militar, pôde ter acesso às academias de
treinamento dos oficiais chineses e aprendeu Kung-Fu.

Assim, além dos métodos mais tradicionais de combate de Okinawa, aprendeu


Kung Fu e também esgrima do estilo Jigen-Ryu, que era praticado pelos samurai
do Clã Satsuma (extremo sul do Japão) já que Okinawa também pagava tributos a
esse feudo.

Certa feita, Matsumura, que instruía particularmente o rei na arte do Karatê, no


seu zêlo como mestre, corrigiu duramente seu aluno (i.e. lhe deu uma surra) e foi
suspenso de suas funções (praticamente expulso do palácio).

Durante esse período em que foi afastado, envolveu-se em um duelo que também
se tornou um modelo de combate pelo Ki:

Seu desafiante era um plebeu que ganhava a vida como comerciante e artesão.
Famoso nas redondezas pela grande força física (era conhecido como Ason
“ombros de dois andares”), agilidade e também como combatente temível na arte
do Karatê.

Matsumura foi à loja de Ason e o outro, mais jovem e impetuoso, na ânsia de se


medir com o artista marcial mais famoso de Okinawa e plenamente convencido
de suas chances, acabou sendo arrogante e desrespeitoso com um membro da
nobreza e, ainda por cima, guarda pessoal do rei.

Combinaram o duelo para o dia seguinte, de madrugada.

Ao se encontrarem em local deserto, postaram-se frente a frente. Ason mal


cumprimentou e assumiu uma postura de combate. Matsumura permaneceu
impassível, apenas olhando para o outro, relaxadamente.

Ason começou a se aproximar e, de repente, sentindo algo errado, estacou e não


conseguiu mais avançar. Ficaram assim, parados frente a frente, por um longo
tempo. Por fim, Ason, num ímpeto, soltou um magnífico kiai, um grito de guerra
de quem decide que chegou a hora do ataque. Mas suas pernas e braços não se
mexeram. Sentiu-se preso, imobilizado pelos olhos de Matsumura (olhos de vida e
morte, como contaria depois).

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Depois de mais um tempo, afastou-se cautelosamente e sentou-se no chão.

Confessou que não entendia, que ficara simplesmente paralisado.

Pediu desculpas, posicionou-se novamente e disse que, mesmo sabendo que


morreria, por questão de honra, tinha que terminara o que começara. Avançou
para um último e desesperado ataque...

Matsumura soltou um kiai que foi como o rugido de um leão. Ason caiu de joelhos
e desistiu.

Essa história foi contada pelo próprio Ason que, muitos anos depois ainda contava
sobre o fato, mostrando um respeito quase religioso por Matsumura (o fato foi
registrado e chegou a nós por intermédio de Gichin Funakoshi, aluno de Itosu que,
por sua vez , fora aluno de Matsumura e incluiu a descrição desse combate em
“Karatê, o meu modo de vida”).

Embora tal domínio seja raro de perceber no mundo moderno, especialmente entre praticantes de alto
nível, há bons exemplos e um deles, ilustra bem essa questão do combate pelo Ki e os paradoxos que isso
impõe à análise racional.

Escutemos Ogawa Chutarô, 9º Dan de Kendô, em uma entrevista concedida em 1987, contando sobre um
combate que marcou a história do Kendô no início do séc. XX (Tradução minha de um capítulo de
“Miyamoto Musashi, Maître du Sabre Japonais do XVII éme Siècle” de Kenji Tokitsu):

Quando eu tinha 27 anos, assisti no Butokuden de Kyoto, a um combate entre dois


célebres mestres: Takano Sazaburô e Naitô Takaharu. (nota: considerados entre os
maiores mestres modernos).

As pontas de seus shinai apenas tocavam-se ligeiramente. Ambos afrontaram-se


inicialmente em guarda média (chudan). Depois Mestre Takano, saudando
ligeiramente com a cabeça, passou a uma guarda alta (jodan), levantando seu shinai
acima da cabeça. Essa guarda jodan era magnífica... Mestre Naitô manteve seu shinai
em guarda chudan, apontando para os olhos do adversário. Nessa posição, ele
continuou a lançar se Ki ofensivo enquanto que Mestre Takano lançava também seu
Ki a partir da guarda jodan. Os espectadores não faziam nenhum barulho e a sala
estava silenciosa como um campo banhado pelo orvalho ao alvorecer.

O combate continuou silenciosamente...

Trinta segundos, depois um minuto se passou.

De repente, com um barulho seco, o shinai de Mestre Takano atingiu o pulso de


Mestre Naitô, que permaneceu impassível, sem ser, de modo algum, perturbado pelo
golpe. Mestre Takano recolocou-se em guarda Jodan, Mestre Naitô continua na
guarda Chudan. Após fintar golpear novamente o pulso, mestre Takano golpeou a
cabeça e depois continuou a golpear cinco vezes na cabeça e pulso. A cada vez o
barulho seco ressoava pela sala, mas mestre Naitô permanecia imperturbável, como
se os ataques de Mestre Takano sequer existissem. Após um instante, o juiz fez sinal
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de encerrar o combate e os dois mestres separaram-se. Mestre Naitô não tinha
aplicado um único golpe.

Durante esse combate, a cada vez que Mestre Takano queria golpear no pulso ou
cabeça, Mestre Naitô projetava seu Ki. Se Mestre Takano houvesse golpeado após
colocar Mestre Naitô em situação defensiva após projetar sua vontade de atacar,
seus golpes teriam sido considerados válidos. Mas, a cada vez que Mestre Takano
quis atacar, Mestre Naitô anulou seu Ki de ataque com seu próprio Ki. Foi por isso
que todos seus golpes falharam, muito embora tenham atingido o adversário. Não
havia nenhum vazio nem na guarda nem no espírito de Mestre Naitô.

Mestre Takano golpeou lá, onde não havia nenhum vazio. Ele simplesmente golpeou
e seu golpe simplesmente tocou. É tudo.

Se golpeamos a bel-prazer, sem poder criar um vazio no adversário, este golpe não
tem eficácia e não se constitui num verdadeiro golpe.

Do mesmo modo, se golpeamos num momento indevido, como no caso desse


combate, aquele que golpeou é que perdeu em qualidade. Este é um ponto difícil do
Kendô.

Sobre essa luta ainda há um comentário muito pertinente de Sôsuke Nakano, 10º Dan:

O Combate entre Naitô e Takano foi um combate entre o Kiai e a Técnica. Takano
gerenciou seu combate com suas técnicas, enquanto que Naitô combateu com o Ki.
Foi um combate-modelo magnífico, além de toda descrição. Eu fui atingido em cheio
de constatar que a distância é tão grande entre o combate com a plenitude do Ki e o
combate com as técnicas.

Finalmente, para entendermos melhor a lição desse combate, é preciso que se diga que Takano, embora
em guarda Jodan, que se assume normalmente em Kendô quando se considera o adversário inferior
tecnicamente, desde o início recuou e, mesmo enquanto golpeava, golpeou recuando.

A projeção de Ki de Naitô não deixou a Takano alternativa, senão golpear.

Ele não golpeou por encontrar uma brecha ou por tática ou estratégia, mas foi “obrigado” a isso pela
projeção de Naitô.

Quando o juiz parou o combate, Takano havia recuado praticamente até os limites da sala.

Esse é o combate pelo Ki!

Os dois primeiros exemplos de combate pelo Ki perdem-se um pouco na lenda, pois, por muito antigos, e
por tratar-se de mestres que deixaram muitos discípulos e mesmo várias linhagens, sempre se corre o risco
de a admiração por uma pessoa excepcional ter, ao menos em parte, levado a alguma mistificação na
transmissão dos fatos ao longo o séculos.

Nosso terceiro exemplo trata de um caso mais recente, que ocorreu na presença de testemunhas
qualificadas, algumas delas praticantes do mesmo nível dos duelistas.

43
Mesmo assim, fica a impressão de casos um tanto quanto etéreos, distantes da realidade do cotidiano e
muito afastados do ambiente de um Dojô moderno e do treino de todos os dias.

Mas mesmo assim é possível ver exemplos disso no dia a dia.

Lembro-me de várias vezes, ao longo de quase 30 anos de treino, ter enfrentado meu mestre de Karatê em
combate. Sempre costumo dizer que lutar com ele é como receber uma passagem de turismo para
conhecer o Dojô. Enquanto lutamos, ele consegue me fazer recuar por todo o perímetro da sala. Mesmo
quando golpeio, e muitas vezes consigo acertar bons golpes, tenho a sensação de estar recuando e sendo
guiado para onde ele quer.

Acerto apenas quando ele quer que eu acerte e, ao mesmo tempo, ele sempre consegue encontrar brechas
na minha defesa e falhas nas minhas táticas.

Não é que eu nunca consiga acertá-lo. É claro que às vezes consigo, mas, mesmo quando ele é atingido, fica
a impressão de que ele é quem está no controle.

Também nesse caso, o leitor pode ter a impressão de que há certa mistificação por conta da admiração. E,
claro, o fato também sempre pode ser justificado por eu ser um lutador muito inferior. Não nego isso.

Mas o que dizer quando o observo lutando com os outros alunos? Ou então quando ele luta com um deles
especificamente, que foi vice-campeão no Torneio Mundial de Okinawa. É a mesma coisa. Embora no
último caso, a luta seja bem mais acirrada, no fim, a impressão global é bem clara: embora sejamos mais
rápidos e maiores, no fim, nós é que somos conduzidos.

Curiosamente, na véspera do meu exame de 4º Dan, tivemos uma aula com o mestre dele, que tinha vindo
para nos examinar. Em certo momento o Shihan pediu que meu mestre se postasse à frente dele e o
atacasse. Embora não tenha havido uma troca de golpes demorada, apenas duas tentativas, pude perceber
claramente o mestre conduzindo o discípulo, o Shihan conduzindo o Sensei, do mesmo jeito que sempre
ocorre conosco quando lutamos.

Outro caso me parece digno de nota. Treinando Aikidô com meu mestre, lembro que uma das técnicas que
ele gostava de demonstrar especificamente comigo era hara-tsuki-Koryu-ho. Talvez pelo meu tamanho e
pelo jeito de atacar, mais focalizado, rápido e forte do que dos outros alunos, que não praticam Karatê,
quando ele queria demonstrar realmente que “o Aikidô funciona”, ele me chamava e pedia que atacasse o
mais rápido e forte possível.

Lembro-me dele movendo-se em irimi, no último instante, de tal maneira que minha mão ainda roçava o
alvo...

E então, quando ele chegava bem próximo, como consequência da entrada em irimi, havia um pequeno e
súbito movimento de quadril e então, o impacto...

Sempre me sentia como se me chocasse contra uma parede. Como se eu viesse correndo e, de repente,
desse de cara com uma parede de tijolos.

Na maioria das vezes, isso era demonstrado como um kata, de forma combinada.

Mas isso aconteceu também algumas vezes quando fazíamos ataque-livre.

Apesar da tremenda pancada e do tombo pior ainda, por estranho que possa parecer, era um prazer atacar
e ser derrubado assim. Eu sempre me levantava com mais entusiasmo e atacava mais forte ainda.

Era um prazer ver que isso era possível. Eu, com 40 quilos a mais e 40 anos de menos, me chocando com
ele e ricocheteando...

44
Especialmente quando era ataque livre!

Era como ver uma coisa extraordinária, do tipo que pensamos existir apenas nos livros.

Como disse Musashi (Go Rin no Sho, 3º Livro, O livro do fogo):

“Isso é o que eu chamo de O CORPO DE UMA ROCHA“.

“Aquele atingiu a maestria no caminho da estratégia pode tornar-se


subitamente como uma grande rocha. Então ele não receberá nenhum
golpe de sabre e nada poderá movê-lo (...)”

Mas o combate usando o ki ainda não parece ser o ponto final.

É claro que, usando o ki para dominar o adversário ainda está marcada a dicotomia eu e o outro.

Se pensarmos em termos de ondas, ao vencer pelo ki, um dos contendores consegue vibrar com tal
intensidade que a onda produzida pelo adversário é praticamente “abafada”. O perfil de onda resultante da
interferência das duas ondas é praticamente o mesmo que o da onda gerada pelo contendor que venceu
pelo ki. Esse “abafamento” quase completo da vibração do outro é a vitória incontestável de uma
vontade/intenção/ki sobre a outra. Mas, como temos ainda o domínio de um sobre o outro, ainda temos a
divisão entre o indivíduo e o mundo.

Para entendermos como seria o estágio final do combate, consideremos uma história, dessa vez
provavelmente fictícia, mas que ilustra perfeitamente o princípio final e a essência do combate como
caminho para o autoconhecimento:

No alto de uma montanha estavam meditando, praticando Zazen, Musashi e o


monge Takuan.

De repente, uma serpente de espécie venenosíssima e muito agressiva se


aproxima. A serpente vai em direção aos dois...

Nenhum dos dois se move.

Musashi abre os olhos, mas não se move. Apenas observa. Em repouso


absoluto, mas pronto para agir, se necessário.

Ao chegar a certa distância, a serpente de repente pára e, como se


amedrontada, muda de direção.

Move-se em direção a Takuan.

O monge abre os olhos e acompanha a cena.

Imperturbada a serpente passa por sobre as pernas de Takuan, segue seu


caminho e desaparece na floresta.

Esse pequeno conto ilustra a diferença entre o que vimos até aqui, do combate em nível físico, técnico e
tático e pela projeção e sobreposição do Ki, com o “combate pela ausência”.

45
Não estar lá.

Shoji Nishio, aluno de Morihei Ueshiba, 8º Dan de Aikidô, graduado em Karatê (5º Dan), Judô (6º Dan),
Iaidô (7º Dan) e Jodô, chegou ao Aikidô por indicação de seu mestre de Karatê.

Certo dia, Toyasu Sodeyama (instrutor no Dojô de Yasuhiro Konishi, fundador do estilo Shindo Jinen Ryu de
Karatê) disse:

“Você precisa conhecer alguém”. Hoje fui ao Dojô Ueshiba observar o Aikidô.
Percebendo que eu estava cético, o Mestre me convidou a atacá-lo da maneira
que quisesse.

Foi como atacar um fantasma. Por mais que eu tentasse atingi-lo, ele
simplesmente não estava lá. Persegui-o por toda a extensão do dojô até
desistir, sem conseguir tocá-lo ao menos uma vez...”

Curioso, Nishio foi ao Ueshiba Dojô para conhecer tal mestre. Tornou-se seu discípulo pelo resto de sua
vida.

Nesse tipo de combate, ao invés da “pressão insuportável”, do peso da projeção do ki do outro, o


adversário simplesmente não tem em que (ou quem) acertar.

Quando falamos do combate pelo ki, nossos exemplos mostraram a superioridade de um sobre o outro,
tornada patente de forma tão evidente que o outro não tem o que fazer senão desistir, ou atacar e chocar-
se com uma parede.

Ainda resta ali, naquele que projeta o ki, no momento do combate, um último resquício do ego.

Ele ainda está lá. É ele que projeta sua vontade e, deliberadamente, com seu kiai, anula a intenção do
outro.

Por sua própria vontade pode escolher entre poupar ou destruir o outro. Pode escolher ajudar e ensinar,
permitindo que o outro, que ainda está no nível físico, o enfrente e, controlando sua vontade, mostrar-lhe
o próximo passo no caminho.

É a caridade.

Para compreendermos esse ponto, cito o comentário, contido no mesmo livro de Kenji Tokitsu, de um
mestre de Kendô 9º Dan, sobre o torneio de 1987:

“No torneio dos 8º Dan, não houve nenhum bom combate esse ano. No
entanto, o Mestre A, conseguiu gerenciar muito bem o combate. Com seu Ki,
ele pôde fazer recuar cerca de 5 ou 6 metros um adversário de nível igual. Isso
é muito difícil de realizar. Mas ele ainda não compreendeu o essencial do
Kendô, pois ele ainda golpeou no final. Não seria necessário cortar, já que,
dominando o outro através do Ki, ele já tinha sido capaz de fazer o adversário
recuar tanto.

Se foi possível fazer o adversário recuar até aquele ponto, não seria necessário
golpear, pois o resultado já era evidente.

Se, mesmo assim, golpeia-se, isso implica em crueldade.

Que sentido pode ter o ato de golpear, após ter conduzido e imobilizado seu
adversário pela projeção do Ki?”

46
Resta, portanto, um degrau mesmo para quem já atingiu esse ponto.

Esse degrau, ilustrado pelo pequeno conto de Takuan e Musashi, ou pela descrição da visita do mestre de
Karatê a Morihei Ueshiba, significa atingir o Vazio. Além dos contrários e opostos, simplesmente ser.

Ueshiba parece o exemplo mais bem documentado e comentado desse tipo de combatente.

Essa história começa no verão de 1925, quando recebeu, em sua casa-dojô,


a visita de um oficial da Marinha Imperial, especialista em Kendô.

A visita, inicialmente amigável, degenerou em desentendimento. Foram ao


jardim para um combate.

O oficial com sua espada, Ueshiba declinou de usar uma arma e lutou com
as mãos vazias.

O oficial atacou e atacou, sempre acertando o vazio. A cada ataque,


Ueshiba deixava de estar onde o corte ocorreria e postava-se a uma
distância em que poderia facilmente encerrar o combate.

Finalmente, cansado de atacar o vazio, o oficial desistiu e admitiu a derrota.

Foi-se embora sem entender o que ocorrera.

Ueshiba resolveu ir ao poço para refrescar-se e, nesse momento atingiu a


iluminação.

O que há por trás disso?

Como um combate de vida ou morte pode levar alguém a um estado de êxtase místico, que religiosos
perseguem por anos e anos?

Será que, em essência, o caminho do guerreiro e o caminho do Buda são o mesmo?

A minha interpretação desse momento crucial, o momento do nascimento do Aikidô, é a seguinte:

Ueshiba vinha de anos de treinamento, em várias artes marciais.

Praticara Judô e varais formas de Budô clássico com armas ou sem. Finalmente conhecera Sokaku Takeda, o
mestre do Daitô Ryu Aiki Jujitsu, um mestre na arte de vencer pela projeção do Ki.

Paralelamente a isso, buscara respostas para as questões da vida no budismo Tendai e, em depressão pela
morte do pai, refugiara-se na doutrina da Seita Neo-Shintoísta Omoto.

Seu desejo de praticar artes marciais surgira desde cedo, ao ver seu pai ser atacado e agredido por
arruaceiros contratados por adversários políticos. Desejara ser forte e invencível para proteger o pai que
tanto amava e respeitava.

Não conseguira escolher uma carreira e ser independente. Tentara ser comerciante, tentara ser militar e,
por fim, partira para as regiões pouco desbravadas e geladas do norte Japão em um projeto de colonização
apoiado por seu pai e com recursos levantados junto a sua família.

Sua mente estava longe, onde ele não podia encontrar e pacificar. Inquieto seguia sua vida dedicando-se
furiosamente ao trabalho da colônia e ao treinamento marcial. Buscando um sentido...

Na colônia, conhecera Sokaku Takeda e teve, talvez, os primeiros vislumbres de uma arte marcial além do
físico.
47
Finalmente, com as notícias de agravamento súbito do estado de saúde do pai, o único marco de
estabilidade da sua vida, largou a colônia e, no caminho de volta para casa, conheceu a religião Omoto e
resolveu ficar por uns dias na sede da seita para orar pela recuperação do pai.

Nesse meio tempo recebeu a notícia da morte do pai.

Apegou-se à religião e ao treinamento severo em Budô com uma dedicação maníaca. Talvez a única
maneira de consolar-se.

Viajou pela China e Mongólia com o líder da religião Omoto em uma “aventura” em busca de uma sede
para o estabelecimento de uma religião internacional, que uniria todas as outras. Foram perseguidos por
bandidos, emboscados por senhores da guerra locais e, finalmente capturados pelo governo chinês,
julgados como espiões e condenados à morte.

Foram salvos do pelotão de fuzilamento no último instante, por intervenção do governo japonês.

Ainda sem um objetivo fixado na vida, pelo conselho do líder da Omoto, resolveu tornar-se professor de
Budô.

Nesse momento da história, o Japão vivia um período de grande turbulência política, um intenso
sentimento ultranacionalista e imperialista, fomentado pelos militares após as vitórias sobre a Rússia e
China, tomava conta do país, que se armava e militarizava.

É nesse momento de turbulência externa e interna que o oficial esgrimista encontrou Ueshiba.

Um órfão de 42 anos, ex-combatente na guerra contra a Rússia, recém-escapado do pelotão de


fuzilamento, com um futuro incerto em um país que se modernizava rapidamente e se encaminhava para a
guerra com outras nações.

Ueshiba era, nesse momento, uma pessoa angustiada. Estava tecnicamente bem treinado e começara a
vislumbrar a possibilidade de uma arte cujo objetivo não fosse vencer, ferir ou matar, mas, sim, unir e
convencer.

Na sua mente, ainda como uma especulação, era possível uma arte absoluta, em que a vitória estivesse
assegurada desde o início, em que o combate nem sequer fosse necessário. Uma arte marcial
completamente espiritual.

Sendo ele também ultranacionalista, mas, em seu pensamento, discordante do discurso dominante de
domínio do resto da Ásia pela força bruta, no estilo colonialista ocidental, podemos imaginar sobre o que
ele o oficial discutiram. Política e artes marciais. E estratégia.

Imagino Ueshiba argumentando que, assim como na arte marcial individual, haveria um estágio de
maestria na estratégia militar em que se poderia vencer sem atacar, dominar e subjugar pela força ou pela
técnica.

Um estágio que ele já vislumbrara, mas ainda não atingira concretamente. Uma atitude superior que se
poderia usar para vencer sem lutar, que o Japão deveria usar para unificar a Ásia sem se valer do poderio
militar e da força das armas para subjugar e oprimir.

Obviamente esse discurso só poderia soar para o oficial como um falatório sem sentido.

Especulações de um praticante de arte marcial que não praticava nenhum dos estilos consagrados pelos
séculos de tradição e cuja fama emergente lhe parecia completamente desmerecida e que, ainda por cima,
ousava, com seu discurso semirreligioso e místico, questionar as diretrizes políticas da nação. Uma
verdadeira heresia.

48
Desentenderam-se e o oficial o desafiou a duelar. “Se existe essa arte de lutar sem lutar, mostre-me” ele
deve ter dito.

Imagino o dilema de Ueshiba.

Se ele vencesse usando a técnica ou o Ki, estaria contradizendo aquilo em que queria acreditar, se ele
perdesse, estaria dando razão ao outro de que aquilo em que acreditava possível, uma arte marcial
espiritual, era possível apenas como utopia e não como algo concreto.

Ele não podia vencer pela técnica, que se esforçara por anos para dominar e nem pela ofensiva do Ki, pois
ambos implicavam em combater e vencer sobrepujando o outro. Vencer pelo ter.

Ele também não podia se sacrificar e simplesmente se deixar vencer para mostrar que a violência não era o
caminho. Isso seria um ensinamento ruim para o oficial, que acreditaria ainda mais na vitória pela violência
e imposição.

Como vencer sem vencer? Como lutar sem lutar? Ele deve ter pensado no caminho até o jardim, enquanto
se preparavam e quando se cumprimentaram para iniciar o combate.

Decidiu seguir um caminho de fé. Deixou de lado a espada e resolveu combater com as mãos vazias.

Seu adversário avançou. E cortou.

Imaginemos o tempo congelado, com a lâmina a uma polegada de sua cabeça


e ele ainda pensando: Como vencer sem vencer? Como lutar sem lutar?

Era o momento crítico, de vida e morte. Ou se deixava abater para provar sua
convicção pacifista ou reagia e destruía o adversário.

“E se eu simplesmente me juntar com ele? E se eu me mover para onde ele


não pode jamais cortar, para junto dele mesmo? E se eu me tornar um com
ele? Ao invés de projetar o ki para destruí-lo, sintonizar com a vibração dele de
forma a estar sempre no mesmo diapasão?”

Tudo isso em uma fração de segundo.

Nosso congelamento artificial do tempo cessa, a espada percorre a polegada


final e não encontra nada. Apenas o vazio.

Ele não está lá.

Ele agora se move com o espadachim. Para onde ele vai, se recua ou avança,
ele está lá, colado e inseparável como uma sombra.

Como cortar sua sombra sem ser cortado?

Esse se tornou o dilema do espadachim. Quando golpear se tornou claramente


improdutivo e perigoso, pois só restava a si mesmo para cortar, o homem
desistiu.

Assim veio a iluminação. O que podemos pensar e especular e até escrever


num texto como esse ocorreu num átimo de segundo, num instante atemporal
na cabeça do mestre.

No intervalo entre dois instantes, ele pensou, acreditou, decidiu, esvaziou a


mente e se anulou.
49
Tornou-se o vazio.

Livre das amarras do ego ele agora podia se mover em completa liberdade.
Simplesmente acompanhar os ataques do adversário, completamente
indiferente ao medo e às preocupações. Completamente desprendido de si
mesmo e do resultado do combate.

Sem ter em que acertar, apenas uma sombra sem ego para cortar, o
espadachim não podia fazer nada senão desistir.

Toda a experiência de anos de treinamento, o medo da morte no campo de


batalha e diante do pelotão de fuzilamento, a tristeza pela morte do pai, a
angústia por ter de criar uma família sem uma profissão ou um emprego
tradicionais, o turbilhão político, a ameaça de guerra, tudo esquecido e
resolvido em um instante.

O ego finalmente silenciado e apaziguado.

Sob o fio da espada, no momento da morte, de matar ou morrer, tudo que é


mundano colocado no seu devido lugar, só restando a visão clara e
desobstruída.

Apenas existir, estar lá ou não estar, conforme a situação. Sem desejo de


vitória ou medo da derrota.

Simplesmente ser.

Esse é o combate pelo vazio. Essa foi a iluminação do Mestre Ueshiba.

Tornar-se um com o outro. Ou melhor, redescobrir que se é um com o outro e com o universo. Encontrar a
si mesmo apenas para se descobrir parte do todo.

Não pela especulação ou pela filosofia. Não pela prece ou pela oração. Mas pela ação concreta nesse
mundo, pela descoberta em si mesmo da centelha divina que há em cada um e em todas as coisas,
descobrir-se parte do todo pela visão direta e não por uma indicação da razão.

Sob o fio da espada, no momento da vida ou da morte.

No mundo moderno é muito difícil um praticante ter acesso a uma experiência desse tipo. Não estou
dizendo que não aconteça, mas pela sua própria natureza, um evento desse tipo tem, necessariamente,
que ser raro.

Não se vê, obviamente, praticantes que atingiram esse nível por aí, em qualquer lugar.

Participar de um combate assim, então, seria algo, de fato, extraordinário.

Algum tempo atrás pude ter o vislumbre de uma experiência assim. Não de minha parte, claro. Acho que
ainda precisarei de muitos anos de treinamento e, muito provavelmente, de muitas outras vidas para isso.

Cerca de um mês antes de meu Mestre de Aikidô ser internado pela última vez,
quando ele já estava bastante debilitado pela reincidência de tumores,
quimioterapia, internação recente, etc., tivemos nosso último treino.

Claro que, naquele momento nenhum de nós sabia que seria o nosso último
treino e, muito menos que seria a última vez que ele praticaria.

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Naquele dia eu comemorava 18 anos de prática de Aikidô. Estava, claro,
contente e queria comemorar. Queria, ao menos, treinar naquele dia para
marcar a data.

Como era uma quarta-feira, não haveria treino regular naquela noite no dojô.
Liguei para alguns colegas com quem costumo treinar em “horários
alternativos”, mas nenhum podia treinar naquele dia.

Então me ocorreu que eu poderia convidar o Mestre. O que poderia ser mais
adequado? Meu primeiro treino, 18 anos antes, tinha sido com ele. Lembrei-
me de como eu o atacara para testá-lo e de como ele me projetara tão
facilmente que me cativara tão imediatamente que eu decidira ser seu aluno
ainda no chão, antes de me levantar. Que melhor maneira de comemorar do
que ser derrubado por ele novamente naquele dia?

Eu sabia, claro, que ele estava com a saúde debilitada e não poderia treinar
“pesado”. Pensei em apenas encontrá-lo e pedir que me derrubasse algumas
vezes, para marcar a ocasião.

Liguei para ele e perguntei se poderia me encontrar para treinar um pouco no


dojô, à noite. Não expliquei o porquê.

Como ele disse que não poderia, pois tinha que ficar em casa, perguntei se
poderia ir visitá-lo.

Com a concordância, ao terminar o expediente no trabalho, me desloquei para


a casa dele.

Quando cheguei lá, conversamos no escritório/biblioteca, onde ele estava ao


computador, escrevendo um texto para uma palestra, e aí eu expliquei o
motivo da minha visita. Era meu aniversário e eu gostaria de ser derrubado por
ele naquele dia para comemorar o meu primeiro dia de treino, o dia em que
ele me derrubara pela primeira vez.

Ele imediatamente se animou, concordou e fomos para o jardim.

Ele se alongou um pouco, nos postamos frente a frente no gramado baixo e ele
disse:

- Vamos fazer ataque livre!

Cumprimentei e ataquei. Tendo em vista que ele estava muito frágil, comecei a
atacar com velocidade e nos alvos corretos, mas retirando a força dos ataques.
Os ataques seriam na velocidade normal, mas, com os braços relaxados eu
estava preparado para parar o golpe e não tocar (sun-dome), caso ele errasse
alguma defesa ou esquiva e eu conseguisse “vazar” a guarda dele.

De início foi um ataque livre normal. Eu atacava rápido, mas de leve, e ele se
movia e executava alguma técnica.

Mas então, de certo ponto em diante ele começou a se movimentar de forma


diferente:

A cada vez que eu me levantava e iniciava um ataque, ele movia-se apenas o


bastante e em uma direção tal que o golpe apenas cortava o ar e ele
51
simplesmente não estava mais na trajetória e sim bem próximo de mim, de
forma que o golpe não podia tocá-lo e, ao mesmo tempo, ele estava tão
próximo, tendo “vazado” a minha guarda com o movimento de corpo, que ele
poderia me atingir facilmente em qualquer área desprotegida.

O movimento em si, em que ele vencia a distância entre o ponto onde meu
ataque tocaria nele até estar tão próximo de mim que eu não poderia golpear
no mesmo movimento era tão natural, tão singelo e, ao mesmo tempo tão
inesperado que eu, ligeiramente desequilibrado pelo golpe que não acertara,
ficava à mercê de um eventual ataque dele.

Quando estava tão perto e eu desequilibrado, ele apenas me tocava com o


ombro ou as palmas da mão em algum ponto que aumentava meu
desequilíbrio.

Eu poderia muito bem não dar o braço a torcer e não cair. Seria possível me
reequilibrar, reposicionando o corpo e, teimando em não aceitar a lógica do
movimento, esboçar uma defesa ou reação.

Mas, como eu disse, seria contra a lógica do momento. O posicionamento dele


era tal que ele poderia causar bastante estrago se quisesse executar uma
técnica de projeção ou um atemi (batida). Se ele fizesse isso, eu teria que cair
para me proteger (esse é o sentido do ukemi ou queda no Aikidô), pois seria a
melhor e mais imediata maneira de escapulir da zona de perigo imediato.

E assim, eu caía apenas com aquele toque sutil, que era quase que apenas uma
indicação de para onde eu deveria cair para me proteger.

Ataquei e caí por cerca de 25 minutos.

Não o acertei nenhuma vez.

Ele também não me acertou. Mas poderia ter feito. Duramente se quisesse.

Apenas aproximava-se e dava um ligeiro toque, como que para atestar meu
desequilíbrio.

O importante é que, quando eu atacava, ele simplesmente não estava lá para


ser atingido.

Eu caía, olhava para cima e vi a um sorriso no rosto dele. Ele estava


saboreando. Como uma criança brincando com um coleguinha maior ou com
um grande cachorro brincalhão.

Finalmente paramos (mais por eu ter me cansado de golpear o vento do que


por ele estar, de algum modo, ofegante).

Afastamo-nos e cumprimentamo-nos formalmente. Depois trocamos um longo


abraço.

Foi uma ótima festa de aniversário. Definitivamente um grande presente.

Ver aquele velhinho frágil, já bem magrinho e debilitado evitar os golpes daquela maneira foi uma grande
honra e uma dádiva.

52
Ter passado por essa experiência, de vê-lo combater “não estando lá”, apenas movendo-se e sorrindo, teve
um valor definitivamente espiritual para mim.

Ao mesmo tempo reforçou minha fé e me deu esperança.

Fé de que é possível.

Esperança de que, com o treinamento e postura adequados, ao longo dos anos, pode-se atingir esse nível.

Derrubar com um sorriso!

Nesse dia, enquanto eu tinha 39 anos de idade, 27 anos de prática de Karatê e 18 anos de prática de Aikidô,
ele contava com 78 anos de idade, 47 anos de prática de Aikidô e não sei quantos anos desde que iniciara o
treinamento em Judô (ele era 2º Dan, 47 anos atrás).

A transmissão.

Na mitologia clássica de muitos povos e também na origem das grandes religiões, o herói ou o
protagonista, recebe o chamado, dá ouvidos, encontra um mestre (ou um auxiliar, ou orientador ou guia
que mostra o caminho, descreve o caminho, fixa o objetivo e dá conselhos e ensinamentos valiosos) e parte
para a “aventura”.

Após passar por muitos perigos e todo tipo de situação que o testará, o tesouro é conseguido, um
conhecimento extraordinário é obtido, consegue-se a mão da princesa, etc.

Essa é uma maneira genérica de considerar os mitos ancestrais, a mitologia e o início das grandes religiões.
De um modo geral, esses temas, com as devidas variações, se repetem em cada uma dessas histórias.

Uma vez vencidas as dificuldades do caminho, obtida a vitória e de posse do tesouro, o herói se vê agora
diante do próximo passo: retornar ao mundo.

Ele partiu. Era um. Voltou outro. O mundo que conhecia não mudou, mas ele mudou. Talvez agora se sinta
como um “estranho no ninho”. Agora, de posse do tesouro, ele tem que escolher entre se isolar na sua
bem-aventurança e afastar-se do mundo para descansar da aventura e, de certa forma, “curtir” seu troféu
ou voltar ao mundo e compartilhar.

Assim aconteceu com os grandes líderes espirituais, fundadores das grandes religiões.

Esse é um ponto comum na história de Sakyamuni, o Buda e Jesus, o Cristo, por exemplo.

O mestre Jesus, foi batizado por João e foi para o deserto para meditar e jejuar. Lá foi tentado pelo Diabo e
tomou consciência de sua missão. Tendo vencido a tentação e compreendido sua missão e seu papel,
“voltou ao mundo” para transmitir a Boa-Nova. Sabemos que, sendo filho de Deus, poderia ter, em
princípio, escolhido voltar para o Pai e ter evitado todo o sofrimento que se seguiu.

Analogamente, o príncipe Sakyamuni, percebeu que havia algo errado no seu mundo, na opulência dos
palácios (o chamado), partiu pelo mundo para tentar “entender”. Retirou-se do mundo, tornou-se iogue,
meditou e jejuou. Por fim, atingiu a iluminação e tornou-se o Buda. Depois disso, bem poderia ter escolhido
ficar lá, sentado em maravilhosa contemplação, mas resolveu “voltar ao mundo” e ensinar o caminho da
libertação do sofrimento para todos os seres.

53
Guardadas as devidas proporções com tão extraordinários personagens, esse também é o caminho do
Budô. Na busca pela vitória de si mesmo, o adepto terá o vislumbre da maestria. Tornando-se ele mesmo
um mestre (ou tentando atingir esse nível), sentirá a necessidade de compartilhar sua experiência.

Até porque essa transmissão, de certa forma, completará o seu treinamento.

Como disse a Monja Coen:

“O discípulo é o Mestre do Mestre, porque o ensina a ensinar.”

Esse compartilhamento é a virtude da Caridade. Não é simplesmente dar algo gratuitamente. Significa
mostrar o caminho e orientar a outros.

Não sendo eu mesmo um mestre, escrevo como discípulo.

O treinamento em Budô é a experiência pessoal de receber o ensinamento diretamente, do próprio


mestre, atacando e sendo derrubado, sendo atacado por ele e derrubando-o. Recebendo as explicações
e/ou dicas junto com o processo do aprendizado direto, “por contato”.

Por mais que se possa aprender em vídeos ou livros, a experiência é limitada no sentido em que, ao
estarmos juntos, no mesmo tatame, há algo “invisível” que torna o aprendizado qualitativamente
diferente.

Segundo Musashi:

“Conhecer aquilo que não existe a partir daquilo que, efetivamente,


existe. Isso é o Vazio.”

A técnica é o concreto. A experiência e a vivência daquele que transmite e que, de algum modo
“contaminam” a técnica são coisa que não têm existência concreta, mas que estão impressas
profundamente na execução.

Também algo que não é concreto é a atitude daquele que recebe o ensinamento. Assim como a técnica
precisa dos dois para se concretizar, é necessária a ligação espiritual entre mestre e discípulo. Toda a
experiência anterior do discípulo e sua atitude naqueles momentos vão influenciar e imprimir sua marca no
resultado final.

A atitude do mestre e a atitude do discípulo no momento criam um tipo de ligação que não pode ser
repetida exatamente em nenhum outro momento e também nunca exatamente com outras duas pessoas.

Não é essa a diferença entre arte e artesanato?

Uma obra de artesanato pode ser repetida pela técnica. Uma obra de arte é única.

Quando se treina junto, além do conhecimento concreto, material, da técnica em si, há um lado intuitivo
que se desenvolve. Quando o mestre mostra diretamente para você, quando executa com você, além do
conhecimento concreto, há o inefável, o implícito. Algo que eu chamaria de “comunicação espiritual”. Não
digo isso num sentido religioso ou sobrenatural. Pelo contrário, me parece extremamente natural. Parte
intrínseca do caminho.

Quando a transmissão é direta, além da técnica, estão envolvidos o sentimento e a transmissão implícita da
experiência que o próprio mestre viveu para aprender aquele mínimo detalhe técnico. E antes dele, a
experiência do mestre dele e assim por diante até um mínimo resquício da experiência daquele que
executou/experimentou aquele detalhe ou aquela técnica pela primeira vez.

54
Não só a experiência para aprender, mas a experiência que cada um teve ensinando e mostrando, uma
geração após a outra, tudo contribui para a transmissão que está sendo realizada naquele momento.

O próprio Musashi, na parte final do primeiro capítulo do Livro dos Cinco Anéis, “O Livro da Terra”, explicita
sua opinião sobre o mesmo ponto:

“(...) Se desejais aprender a Estratégia, devereis meditar sobre o que eu


escrevo e praticar sem cessar, mestre e discípulo juntos de tal modo que o
mestre seja a agulha e o discípulo a linha (...).”

Há o componente visível, real, concreto, que é a técnica em si, como está sendo mostrada naquele
momento, envolvendo aquelas pessoas, naquele ambiente particular. Isso é o que se vê.

Há o componente invisível, que comparo a uma onda ou vibração. Quando um violino toca certa nota, é
emitida uma onda com certa frequência. Se um piano toca a mesma nota, é emitida uma onda com
exatamente a mesma frequência. No entanto os sons são diferentes e um conhecedor distingue facilmente
um do outro. As ondas têm uma qualidade chamada timbre, que se relaciona com a forma da onda.
Embora a frequência (e, portanto a nota seja a mesma), a forma das duas ondas é diferente e, se forem
decompostas em partes componentes, obteremos um conjunto diferente de partes para cada instrumento.
Somadas, ambos os conjuntos de partes produzem a mesma nota.

Dois mestres ensinando a mesma técnica para pessoas diferentes, assim como o mesmo mestre ensinando
para dois alunos diferentes ou mesmo ensinando a mesma técnica para o mesmo aluno em momentos
diferentes podem até produzir a mesma nota (técnica) e/ou tocar a mesma música, mas o timbre será
ligeiramente diferente, pois a vibrações envolvidas nunca serão iguais e, assim, o arranjo não será o
mesmo.

Do mesmo modo, dois maestros podem reger uma orquestra e tocar a mesma sinfonia de Beethoven. A
interação entre o maestro e a orquestra, os detalhes do arranjo e dos ensaios, a acústica da sala, tudo isso
contribuirá para produzir um resultado diferente. Supondo que sejam bons maestros, que estejam regendo
uma boa orquestra e que tudo ocorra como planejado e ensaiado, mesmo assim a música produzida não
será igual. A vibração será diferente.

Musashi cita que o guerreiro deve:

“(...) afiar os dois modos de ver: o modo que consiste em examinar


minunciosamente [observar com atenção] e o modo que consiste em olhar
[ver, sem se prender a pequenos detalhes, de modo geral ou distanciado,
sem apego a minúcias](...)”.

À medida que percorre o caminho a capacidade de observação deve melhorar. O adepto deve melhorar o
seu “ouvido” e conseguir perceber cada vez mais as sutilezas da música. Ele deve ser capaz de captar a
melodia como um todo (ver, no sentido de Musashi) e também perceber os detalhes das notas e pausas
(observar, examinar no sentido de Musashi).

Mesmo que ele ainda não esteja preparado para perceber os detalhes do timbre, ao receber a transmissão
direta, mesmo que ainda só perceba o que pode ser visto, a vibração diferenciada da transmissão direta
ficará impregnada nele (como aquelas músicas que ficam lá no nosso subconsciente), um dia, quando o
ouvido estiver bem treinado e preparado, ele poderá enxergar/escutar o Invisível.

O invisível e o visível existem nas coisas mais simples e triviais, assim como no caminho do guerreiro.

O que é um abraço?

A mecânica é simples. Encostar, envolver com os braços (e ser envolvido) e apertar.


55
No entanto, que diferença num abraço casual e um abraço “especial”.

Duas pessoas se encontram e se abraçam. Imagine que sejam duas pessoas que gostam muito uma da
outra e que uma delas, ou ambas, estejam passando (ou tenham passado) por uma situação muito difícil
ou, então, que não se veem há muito tempo. Nessa situação há um tipo de calor que não tem a ver com as
diferenças de temperatura entre os corpos e o ambiente.

Há algo mais. Uma sensação de conforto e proteção que não são físicas. Isso é o invisível.

Há o invisível em cada ensinamento. Uma vez que é impossível treinar todas as possibilidades de defesas
para todos os possíveis ataques, uma coisa que está nas entrelinhas das técnicas é a Generalidade. Se o
princípio (essência) é transmitido/mostrado (e entendido) corretamente, a partir de uma técnica treinada
passa-se à compreensão de outras situações.

É o desenvolvimento da reflexologia. No Livro da Água, Musashi diz:

“(...) É essencial praticar com diligência afim de que o corpo se torne a


Estratégia (...)”

E, no Livro da Terra:

“(...) A estratégia de um general consiste em aplicar, em larga escala, aquilo


que foi estudado em pequena escala. É a mesma coisa que conceber uma
grande estátua do Buda a partir de um modelo de 30 centímetros. É difícil
de explicá-lo em detalhes [com palavras ou com escrita], mas o princípio [a
essência] da Estratégia é conhecer dez mil coisas a partir de uma única (...)”.

A outra manifestação que me parece digna de nota é o treino coletivo.

Ao início do treino é muito comum que mestre e discípulos reverenciem alguma foto ou pintura ou
caligrafia do mestre fundador da arte, do estilo ou da academia, por exemplo.

Eu mesmo já ouvi o mestre dizer:

“Quando eu estou aqui ensinando, o mestre (o fundador) está aqui


comigo”.

No início isso me parecia uma crença ou fé muito pessoal. Algo que era tão real quanto se acreditasse nisso
e não algo objetivo. Enfim, não era algo em que eu acreditasse literalmente.

Mas hoje eu observo algo interessante. Quando treinamos juntos, vários alunos do mesmo mestre,
especialmente no treino de graduados, onde temos alunos de muitos anos e o mestre às vezes não está
presente, mesmo assim, há uma sensação da presença do mestre. Tanto há a sensação boa quando algo vai
muito bem (como se o mestre estivesse contente) quanto há a sensação ruim, quando algo vai mal (como
quando ocorre um acidente).

Há sensação é mais intensa quando há mais alunos do que quando há poucos.

Embora seja algo que possa ser considerado subjetivo, psicológico e pessoal, as evidências me levam a
considerar isso mais do que algo imaginário.

O primeiro ponto interessante é que, quando há mais alunos a sensação é mais forte.

Sugiro uma explicação para isso.

56
Quando o mestre transmite o ensinamento ele se materializa na execução da técnica pelo discípulo. A cada
coisa aprendida um novo ensinamento se torna material no sentido em que ele faz parte da execução da
técnica.

Pode-se dizer que cada aprendizado carrega de certa forma, a assinatura de quem ensinou.

Isso ocorre com as ondas. Quando um instrumento musical soa uma nota, a forma da onda (o padrão da
vibração) depende diretamente das características físicas do instrumento. Algumas características são
dinâmicas, como a afinação, temperatura ambiente, umidade do ar, altitude, etc.. Outras são parte do
próprio instrumento e dependem da forma exata de cada parte e das relações exatas entre as partes. Cada
instrumento soa diferente, tem uma assinatura, que chamamos de “timbre”.

Em termos de ondas, cada onda pode ser decomposta em ondas componentes. Uma onda pode ser
construída a partir das componentes da seguinte forma: se fizermos soar simultaneamente todas as
componentes, a vibração resultante será exatamente a mesma que a onda original.

A física nos diz que a matéria, embora possa parecer sólida é, na verdade, vibração. As partículas que nos
constituem e ao mundo material são, ao mesmo tempo, ondas. É isso que nos diz a Teoria Quântica.

Assim, o mestre, enquanto indivíduo é também, ao mesmo tempo, um instrumento/onda. Sua vibração, a
manifestação de sua existência no mundo material em relação à matéria que o cerca é única. Uma onda
com timbre/formato/assinatura característicos.

Se tudo o que constitui a pessoa: a parte física, a razão, a crença e a emoção puderem ser consideradas
como vibração, a vibração característica que representa e É aquele indivíduo, pode ser considerada como
uma soma (no sentido ondulatório) de ondas componentes.

Se o próprio ensinamento pode ser visto como vibração, a vibração que é o discípulo ficará um pouco
modificada com a adição dessa nova vibração. Assim, ao final de muitos anos de convívio e tantos
ensinamentos, a vibração que é o discípulo estará muito modificada e quanto mais tiver sido absorvido,
maior será a importância dessas ondas que constituem o ensinamento do mestre na onda total que é o
discípulo.

Ora, quando todos estão treinando juntos, a vibração naquele momento e naquele ambiente será uma
soma “ondulatória” das vibrações individuais de cada praticante. Cada presente emite sua onda.

Se essas vibrações individuais carregam em si a vibração do mestre, a vibração resultante de todas elas
juntas carregará, também, entre a suas ondas constituintes, uma parcela grande da vibração do próprio
mestre, mesmo ele não esteja pessoalmente presente.

Se a vibração dele estiver ali, de certa forma, ele estará ali.

Por isso a sensação agradável de um treino assim, harmônico. Não é à toa que usamos essas palavras para
descrever um treino harmonioso. Ondas em fase (em harmonia) de somam e produzem uma vibração mais
forte. Ondas fora de fase (em desarmonia) se anulam.

Quanto mais os discípulos carregarem o mestre em si, mais o mestre estará presente quando estiverem
treinando juntos, seguindo o Caminho.

Assim ensinou Jesus:

“E onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estarei no MEIO


deles.” (Mt 18:20).

O Vazio de que fala Musashi, é o “meio” que vibra, armazena e transmite (propaga) essas vibrações.

57
Conclusão da 1ª parte

Difícil é fechar um texto assim, tão genérico e, por isso mesmo, tão superficial.

Na verdade, falamos de muitas coisas. De pequenas coisas a coisas grandiosas. Tenho claro para mim, que
o que escrevi acima é uma grande miscelânea, de coisas que li, vi, escutei e vivenciei ao longo de anos de
prática até aqui.

Talvez escrever sobre isso tenha sido uma primeira tentativa de organizar, em um corpus coerente, tantas
coisas que estão relacionadas ao treinamento marcial.

Sei que não poderia esgotar assunto tão profundo com tão pouco texto e com tão pouco conhecimento.

Meu próprio nível técnico e espiritual permite ver e compreender apenas pequenas coisas dentro de um
todo muito maior e, às vezes, conseguir traçar uma relação, ainda que tênue, entre esses pontos.

Como o assunto de modo algum se esgota aqui, gostaria de reforçar minha crença de que há uma
transcendência no mundo material que experimentamos e que os aspectos que podemos perceber ao
longo do caminho marcial são apenas reflexos de um todo muito maior. Assim como na vida há tantas
coisas que têm significado além do concreto que podemos tocar, sentir e observar, o caminho marcial, que
é um microcosmo dentro desse todo, apenas uma pequena parte de nossas vidas, tem, necessariamente,
que refletir essa realidade.

Sinto que o caminho marcial, embora não seja religião em si mesmo, possui, intrinsecamente, o potencial
para nos alertar e fazer sentir o quanto nossa percepção do mundo é limitada e, portanto, pode ter um
papel fundamental na construção de nossa espiritualidade.

Chegamos ao Dojô, pela primeira vez, com uma visão muito parcial e simplista da arte marcial e, com os
anos podemos vir a perceber mais e mais, à medida que nos conhecemos cada vez melhor e,
progressivamente, apendemos a nos vencer.

Quiçá o que aprendemos nesse microcosmo, com as artes que praticamos, com nossos mestres e
companheiros de treino permita percebermos que a “vida real”, além dos limites do Dojô, é muito mais do
que podemos perceber se olharmos apenas superficialmente.

Se a arte marcial nos trouxer essa consciência, muito mais do que nos transformar em campeões,
guerreiros ou seja o que for, coisas que são meros aspectos do “ter”, poderá nos tornar pessoas melhores.
Para nós mesmos e para a sociedade nos elevando ou, pelo menos mostrando a direção, do domínio do
“ser”.

Seguir o caminho pode não ser religião em si mesmo, mas tem o potencial para tornar-nos pessoas
religiosas melhores.

A arte da Guerra é, no fim, a Arte da Paz.

Os dois lados da moeda, Yin e Yang. O início e o fim do círculo Zen.

Por fim, para firmar essa convicção, mais uma vez passo a palavra aos mestres:

58
“Uchidachi [o atacante, o que porta a espada no Jodô] ensina ao Shidachi [o
defensor, o que porta o bastão no Jodô] sacrificando-se a si mesmo; este
auto sacrifício carrega o espírito dos mestres e dos pais [o cuidado amoroso
com os filhos]. O treino do Kata é inútil sem o entendimento disso. É esse
espírito que permite ao shidachi crescer e polir seu espírito. O kata, em
bujutsu, não ensina nem vitória e nem derrota, mas sim como apoiar os
outros e elevá-los a um nível mais alto. Isso é Budô.” Tsuneo Nishioka.
(Menkyo Kaiden em Jodô)

“Não mais precisar atingir os outros. Não mais temer ser atingido pelos
outros. A essência é a Paz sem incidentes.” (Chojun Miyagi)

“O Divino não é algo elevado, lá no alto, sobre nossas cabeças. Está no


Paraíso, está na Terra e está dentro de nós.” (Morihei Ueshiba)

“Quando você se curva profundamente perante o Universo, ele curva-se


para você; quando você chama o nome de Deus, isso ecoa dentro de você.”
(Morihei Ueshiba)

“A Arte da Paz é a religião que não é religião; aperfeiçoa a completa todas


as religiões.” (Morihei Ueshiba).

(Fim da primeira parte)

Anderson Gomes de Oliveira.

Brasília, 22 de junho de 2012.

59
A Arte marcial e o lado espiritual

Parte II.

Introdução

Ao começar a escrever a primeira parte, havia, na minha cabeça, dois objetivos:

1) Mostrar que, no treino de Budô, não existe lado espiritual e lado físico como
coisas separadas. Não existe esse dualismo;

2) Mostrar que no caminho do Budô, não há “ingrediente especial”.

Minha intenção, ao longo da primeira parte, foi a de abordar essas duas premissas de forma
indireta, implícita. Todo o texto acima deveria conter, nas entrelinhas, em alguns pontos mais
explicitamente que em outros, os pontos 1 e 2.

Tentei, na primeira parte, ser, talvez, mais subjetivo. Usei muitas lembranças pessoais, tanto vividas
como lidas, para, de certa forma, insinuar esses dois pontos.

Gostaria agora, de (tentar) clarear, de modo mais explícito, sendo, portanto, mais objetivo,o meu
pensamento sobre esses assuntos.

Quando escrevi o texto, escolhi, de propósito, um título que fala de dualismo. Quando falo “O lado
espiritual”, imediatamente já estou criando uma divisão e um julgamento.

Mas eu queria dar uma ideia de que não há lados, que não há dicotomia.

De certa forma, eu objetivava, ao longo do texto, desconstruir essa aparente dicotomia.

Trata-se de um Koan, um enigma Zen que se apresenta como um paradoxo para a razão.

Gostaria de conseguir ser sucinto como um mestre Zen e criar um Koan que dissesse isso tudo em
três linhas.

Ao invés disso, escrevi mais de cinquenta páginas. (Risos).

Essa discrepância entre objetivo e resultado pode dar uma estimativa (grosseira ainda) do quão
longe está o conhecimento racional e a capacidade literária de transmitir sabedoria ao invés de
conhecimento. O quão longe está a capacidade técnica da maestria.

Talvez ao menos tenha uma boa chance de ser reconhecido pelo Guiness Book como o mais longo
Koan do mundo.

60
1) A prática marcial física é também (e ao mesmo tempo) espiritual e vice-versa.

Cada pequena coisa que fazemos é, ao mesmo tempo física, mental, emocional e espiritual. Não me
parece que exista uma divisão precisa.

Assim como não existe no universo.

As coisas são ondas ou são partículas? Existe matéria ou energia?

A física moderna embaralhou de tal modo os conceitos que não existe mais distinção para nós,
físicos. O mundo simplesmente É.

É matéria e energia ao mesmo tempo.

Ondas e partículas ao mesmo tempo.

Matéria, energia, campos, ondas, partículas, são apenas nomes e conceitos que usamos para
marcar as distinções em nossa mente para que nossa razão possa classificar e julgar as coisas e tentar se
orientar diante do mundo.

Os nomes e conceitos são importantes para que possamos listar, entender as relações entre as
coisas e delas conosco, para podermos organizar nossas ideias e discurso e transmitirmos nossa cultura e
entendimento para as novas gerações.

Mas não têm importância intrínseca. Uma rosa seria uma rosa mesmo que tivesse outro nome.

Uma projeção ou arremesso de Aikidô ainda seria uma projeção ou imobilização mesmo que a arte
não se chamasse Aikidô ou que não chamássemos o que ele efetivamente realiza de imobilização ou
projeção. E assim será se usarmos uma expressão em português ou japonês para designar a mesma técnica.

Todo mundo conhece a famosa equação de Einstein, E=mc2. O significado é, para os físicos, muito
simples: matéria é energia e energia é matéria.

A física quântica diz a mesma coisa: o universo é formado por coisas que são, ao mesmo tempo,
ondas e partículas. Dependendo de como observamos e interagimos com as coisas, é mais conveniente
para entendermos as relações e suas consequências se considerarmos que são ondas ou que são partículas.
Mas isso é tudo. Elas não são ondas ou partículas. Elas são algo que se parece com ondas ou partículas
dependendo de como olhamos para elas.

É tudo contextual.

Nada é absoluto.

Há matéria e há campos separadamente apenas na nossa mente, que precisa separar as coisas para
poder entender.

Quando estudamos física, precisamos aprender mecânica primeiro e depois teoria eletromagnética.
Primeiro aprendemos sobre matéria (partículas) e depois campos (ondas). Não dá para aprender todas as
físicas no mesmo semestre. Aprendemos uma de cada vez porque somos limitados e precisamos estudar
por partes para podermos chegar a ter uma visão geral.

61
Mas, na verdade, não há várias físicas. Há uma física só.

A natureza não faz essa distinção e acredito que Deus também não faça uma distinção entre
material e espiritual.

As coisas são entrelaçadas a tal ponto que a distinção só existe em nossa mente limitada. A
limitação é uma característica da racionalidade humana, não é uma característica do universo e nem de
Deus, que não é limitado. Nós é que dividimos e classificamos as coisas para que nosso cérebro tão limitado
possa, senão entender, pelo menos se orientar (ter referências) pelo mundo.

Deus, me parece, não faz distinções. Ele é completo e uno. Físico, espiritual, emocional e divino.
Tudo ao mesmo tempo.

Assim como tudo que existe e tudo que fazemos, inclusive artes marciais. Não há treino físico e
treino espiritual separados.

Há o treino. A prática. Percorrer o caminho e isso se faz com o corpo e com a mente juntos.
Unificados e não reparados.

Às vezes não percebemos ou vemos isso e por isso fazemos a distinção na nossa mente. Mas a
distinção só existe na nossa mente. Não é uma propriedade da arte marcial ou do caminho.

Não há lados. Como num círculo.

Quantos lados tem um círculo?

Infinitos lados, diria um geômetra.

Ou apenas dois: o de dentro e o de fora, diria a pessoa prática.

Ou poderíamos dizer que o círculo não existe.

Onde alguém já viu um círculo perfeito na natureza?

Existem coisas que têm forma circular e que, por convenção, consideramos circulares, para facilitar
nossos cálculos, qualquer outra tarefa ou observação. Não há círculos perfeitos flutuando por aí, embaixo
das pedras, no alto das montanhas ou no céu.

Círculos são ideias. Eles não existem no mesmo sentido que existe uma parede de concreto ou uma
estrela.

Por isso eu disse, acompanhando Musashi: “O treino é o caminho e o caminho é o treino”. Porque
acho que não há distinção entre treino (lado físico) e caminho (lado espiritual).

Praticar a arte marcial é percorrer o caminho. Percorrer o caminho é praticar a arte marcial.

Há uma história de um dos patriarcas do Zen, o 5º patriarca, Hung-Jen, que, sentindo aproximar-se
o momento de sua morte, desejava nomear seu sucessor.

Ele pediu que cada monge que quisesse se candidatar, escrevesse um pequeno verso na parede do
corredor do templo revelando seu entendimento do Zen.

62
O mais brilhante e inteligente dos discípulos, Shen Xiu, escreveu:

“Nosso corpo é a árvore de Bodhi.”

“E nossa mente um espelho polido”

“[praticando o Zen] cuidadosamente nós o polimos hora após hora”

“De modo a não deixar nenhuma poeira [impureza] assentar”

[Nota: a Árvore de Bodhi é a árvore da iluminação. Segundo a tradição, Sidharta Gautama, o Buda
histórico, ao final de sua jornada em busca da iluminação, sentou-se sob a árvore de Bodhi e jurou
permanecer ali até atingir a iluminação]

Todos os discípulos concordaram que era um belo poema e que não poderia ser batido por
ninguém. A sucessão já estava decidida!

Mas o mestre não estava ainda satisfeito.

Segundo ele:

“Seu poema mostra que você ainda não atingiu [deu-se conta,
concretizou, tornou o conceito de abstrato em real] a Essência da Mente. Apesar
de ter chegado ao Portal da Iluminação, você ainda não adentrou. A busca pela
iluminação suprema com um entendimento como o seu, dificilmente terá
sucesso.”

Outro monge, o noviço Hui Neng, que era faxineiro do templo e analfabeto e, portanto, menos
“espiritualizado”, pois não tinha sequer permissão para participar dos rituais e palestras do patriarca, pediu
que lessem para ele.

Ao saber o que estava escrito, pediu que escrevessem embaixo:

“Não há nenhuma árvore de Bodhi”

“Nem [sequer] nenhuma moldura [suporte] de espelho brilhante [algum]”

“Se tudo é Vazio”

“Aonde poderia a poeira acumular-se?”

63
O monge analfabeto foi escolhido como o próximo patriarca.

Já ouvi dizer a mesma coisa de outros modos. Alguns autores citam que a prática tem o lado
espiritual, o físico e o religioso. Que eles formam um triângulo.

Aparentemente é um ponto de vista diferente. Há ou não há lados distintos?

A divergência só existe se ficarmos concentrados nos lados.

Um triângulo é algo que só “existe” se houver os três lados. Se faltar um, se um deles for mais
importante que os outros, se um deles for negligenciado, não for exatamente uma reta, não existe
triângulo. Nomear os lados e medir comprimentos e ângulos de algo real, que se assemelhe a um triângulo,
é apenas uma conveniência para nossa mente poder visualizar (classificar, fazer uso) melhor. O triângulo é
uma entidade que só é porque os três lados são (e, mesmo assim, um triângulo só é em nossa mente, assim
como as retas perfeitas que o formam são).

O que é importante? O todo (o triângulo) ou as partes (os lados)?

Assim embora a imagem do triângulo aparentemente expresse um ponto de vista diferente, na


verdade, diz a mesma coisa. Um triângulo só existe se houver os três lados. Não há lado mais importante
que os outros e a falta de qualquer um destrói o triângulo.

No fim tudo é uma coisa só, não é mesmo?

Por isso, imagino, é que pessoas mais sábias, que realmente compreendem o que estão falando,
dizem que nada está errado. Que tudo está certo.

Uma coisa é falar. Outra é compreender.

Para quem compreende é a pura verdade!

Para quem não compreende, é mera repetição ou, no máximo, um artigo de fé. Algo que
gostaríamos que fosse...

Qual a imagem correta? A do círculo ou a do triângulo? Ou outra qualquer?

Círculos ou triângulos (ou espirais, ou esferas) são apenas conceitos. Ferramentas para analisar,
julgar, medir. São úteis, mas sua utilidade é limitada. É como um dedo que aponta para uma estrela ou uma
constelação. Uma vez que a estrela é encontrada, o dedo perde a utilidade e se você continuar olhando
para o dedo, perderá a oportunidade de apreciar a imensidão e maravilha do céu.

O treino (e o caminho) é concreto. Algo para ser vivido (com o corpo, a mente, o coração e o
espírito) e não apenas imaginado ou abstraído...

O céu hoje estava lindo de madrugada. Vênus e Júpiter estavam bem nítidos e brilhantes. A Lua
minguante apareceu por volta das 5h30. Apenas um pedacinho, maravilhosamente brilhante...

O céu estava lindo hoje (15 de agosto de 2012)...

Como sempre esteve. E estará lindo amanhã também...

64
2) “Não há ingrediente especial”

Na verdade, o item 2 decorre diretamente do item 1, ao menos para mim.

Alguns de vocês devem ter assistido ao filme “Kung-fu Panda”. No clímax do filme, o vilão consegue
por as mãos no “Pergaminho do Dragão”, um documento que conteria o segredo supremo da arte marcial
e que tornaria quem o lesse, virtualmente invencível.

Quando ele abre o pergaminho, não encontra nada escrito, apenas uma superfície, lisa e brilhante.
E Vazia.

Vazia exceto pelo reflexo de quem olhasse para o pergaminho.

O vilão, embora fosse dono da melhor técnica, não entende.

Po, o panda também havia olhado para o reflexo e não tinha entendido.

Na sua fúria, o vilão pretende destruir a vila que fica na base da montanha. Enquanto ajuda na
evacuação dos moradores, o Panda encontra seu pai, também fugindo.

No pequeno diálogo que se segue, o pai conta a ele o segredo do macarrão preparado no
restaurante da família. O melhor da China, supostamente por conta do ingrediente especial (e secreto) que
o pai usava.

“Na verdade”, disse o pai, “não há ingrediente secreto.”

E o Panda lembra-se de quando ele mesmo preparou macarrão para seus amigos. Todos adoraram
e elogiaram, dizendo que era o melhor que já tinham comido. Naquele instante, embora fosse capaz de
preparar um macarrão tão bom quanto o do pai, ele ainda não compreendia e apenas comenta que eles
estavam achando tão bom porque ainda não tinham provado o macarrão preparado pelo pai, que usava o
“ingrediente especial”.

E aí ele recorda-se do o Pergaminho do Dragão, que supostamente completaria o treino e


“magicamente” o transformaria no Guerreiro Dragão, o maior dos mestres do Kung Fu e lembra-se de ter
visto apenas um pergaminho vazio, no qual se via apenas o próprio reflexo, sem nenhum segredo
esotérico.

Ele subitamente tem uma iluminação. Ele finalmente nota que o macarrão que ele mesmo fazia,
sem usar nenhum “ingrediente especial”, era realmente tão gostoso quanto o preparado pelo pai, usando o
tal “ingrediente especial”.

A iluminação vem: Também no Kung Fu, “Não há ingrediente especial”!

Apenas macarrão. Bem feito. Exatamente como deve ser preparado.

Não é à toa que a tradução literal de Kung Fu não é, como se poderia esperar, “Arte Marcial”.

Kung fu quer dizer “Trabalho Duro”.

Assim como não há segredo final na arte marcial. Apenas treino e mais treino, percorrendo o
caminho como deve ser percorrido.
65
No texto tratei da iluminação mestre Ueshiba, que lhe sobreveio durante um combate de vida ou
morte.

Não consigo achar que o Aikidô “nasceu” naquele momento, pronto e acabado.

Ele já vinha gestando na mente, no corpo, no coração e no espírito do mestre por muitos anos, A
cada trecho do caminho ele teve pequenas iluminações. Uma pedra aqui, uma ali e foi montando uma
parede em mosaico com essas pedras.

A iluminação de que falamos no texto, que sobreveio durante o combate, foi a última pedra que
faltava para completar a parede. A “pedra de toque” para usar um termo bíblico.

Descoberta a pedra, ele se tornou o vazio que antes podia apenas imaginar e convenceu seu
adversário a desistir.

Quando ele descreve o evento da iluminação, ele fala de quando, após a luta, foi se refrescar no
jardim:

“Senti o Universo tremer de repente e um espírito dourado brotou do


chão, velou meu corpo e o transformou num corpo dourado. Ao mesmo tempo,
meu espírito e meu corpo tornaram-se leves. Fui capaz de entender o murmúrio
dos pássaros e tornei-me plenamente consciente do espírito de Deus, o criador do
Universo.”

“Neste instante fui iluminado: a fonte do Budô é o amor de Deus - o


espírito protetor de todos os seres.”

Nesse momento, ele olhou para a parede e viu o desenho do mosaico... Finalmente completo! E ele
chorou... Como poderia não chorar?

“Um fluxo interminável de lágrimas de alegria escorria sobre minhas


faces. A partir de então, tive o sentimento de que o mundo inteiro é meu lar e que
o Sol, a Lua e as estrelas me pertencem.”

Ele quisera, desde o início ser forte. O mais forte. Invencível. Naquele momento de vida e morte,
sob a espada do inimigo ele, talvez pele primeira vez, realmente não se preocupou em vencer, não se
preocupou com nada. Simplesmente não se preocupou.

Ele não parou para pensar se era japonês ou americano, se era Xintoísta ou Budista. Também não
parou para dar um nome (japonês, chinês ou inglês) às técnicas e muito menos considerou se aquilo que
descobrira naquele átimo de segundo era um conceito Xintoísta, se era o Vazio do Zen ou a Bem-
Aventurança dos cristãos.

66
“Libertei-me de todo desejo, não só de potência, fama e riqueza, mas
também do desejo de ser forte. Compreendi: O Budô não consiste em abater o
adversário pela força. Nem tampouco um instrumento para conduzir o mundo à
destruição pelas armas. O verdadeiro Budô consiste em aceitar o espírito do
Universo, em manter a paz no mundo, em produzir, proteger e cultivar
convenientemente todas as coisas natureza. Compreendi: treinar Budô é receber
o amor de Deus que produz, protege e cultiva corretamente todas as coisas da
natureza, e assimilá-lo e utilizá-lo em nosso espírito e nosso corpo.”

Não acho que se possa dizer que as pedras que ele foi colecionando pelo caminho eram físicas ou
espirituais, se eram técnicas, se eram japonesas ou vietnamitas, se eram Budistas, Xintoístas, Cristãs
Ortodoxas ou Judaicas.

Era apenas um caminho. Não havia pedras de dois tipos. Havia pedras. O que ele fazia quando o
percorria era, ao mesmo tempo, físico e espiritual. Não acredito que ele distinguia suas atividades desse
modo: “agora estou fazendo coisa material, agora estou fazendo coisa espiritual”.

Por tudo que ele disse e que ficou registrado, entendo que ele simplesmente não fazia essa
distinção. Se hora ele estava orando e hora estava praticando técnicas, ele via tudo isso como prática.

Quando eu falei sobre a configuração do céu hoje ao alvorecer eu usei a palavra “lindo”.

Um astrônomo profissional provavelmente falaria sobre ângulos, distâncias, brilho e outras


variáveis relevantes para a astronomia. Uma pessoa religiosa usaria outras palavras e, provavelmente
descreveria aquele mesmo céu de modo completamente diferente.

Eu simplesmente olhei para o céu e fui “atingido” pelo espetáculo. Fiquei sem fôlego e sem
entender porque, meus olhos ficaram marejados de lágrimas.

Apenas consegui achar lindo. Não tive outra palavra para descrever. Exatamente quando ouço uma
peça para violino executada por um mestre e simplesmente sinto como se “algo” vibrasse dentro de mim,
ressoando com a música. Consigo apenas fechar os olhos e “saborear” a sensação.

Guardadas as devidas proporções, imagino que essa tenha sido a sensação, estado de espírito do
mestre Ueshiba e de todos os mestres que atingiram (tornaram-se) esse patamar.

Imagino essa sensação de maravilha que me atinge ao olhar o céu estrelado ou ao ouvir uma
música maravilhosa seja apenas um infinitésimo da sensação deles.

Assim como nós (e o mestre Ueshiba), quando percorremos o caminho, encontramos várias pedras
que poderão ser usadas para montar um belo mosaico, muitas vezes escolheremos uma pedra e
desprezaremos outra. Acharemos algumas mais bonitas e interessantes e nem repararemos em outras.
Nossas escolhas vão estar muito ligadas à nossa personalidade, algo que é composto de todas as nossas
experiências desde que nascemos (e talvez de outras vidas, para quem acredita em reencarnação), nossos
estudos, nossa formação religiosa, nossas crenças, nossas antipatias, etc.

67
Por temos uma personalidade, temos ego e fazemos julgamentos. Ao fazermos julgamentos,
estaremos escolhendo algumas pedras e desprezando outras. Quanto mais estivermos livres de
preconcepções, mesmo aquelas religiosas e espiritualmente elevadas ou então aquelas mais
“cientificamente verdadeiras”, mais nossos olhos estarão desimpedidos para ver a natureza real de cada
pedra e avaliar a sua utilidade no mosaico com isenção.

Segundo o ensinamento do sexto patriarca, Hui Neng (de quem falamos acima):

O reino do Buda é nesse mundo

Onde a Iluminação deve ser buscada

Procurar pela iluminação afastando-se do mundo

É tão absurdo quanto procurar chifres em coelhos

Opiniões [tidas como] corretas são designadas [pelo senso comum] como “transcendentais”

Opiniões [tidas como] incorretas são designadas [pelo senso comum] como “mundanas”

Quando todas as opiniões, corretas ou incorretas são descartadas,

Então, a essência de Bodhi [despertar espiritual] resplandece.

Não existe pedra especial!

Todas serão importantes no seu devido tempo e terão um devido local no mosaico.

Devemos prestar atenção em cada uma e construir nosso mosaico com paciência, sem esperar que
uma determinada pedra mágica vá finalizar a parede sem nenhum esforço especial, permitindo cortar
caminho na tarefa de uma vida (ou de várias).

Isso equivale a esperar que uma técnica secreta, uma palavra mágica, um feitiço, uma oração vá
resolver todos os problemas e te levar ao conhecimento final e absoluto.

Fechar os olhos e rezar não vai fazer com que, ao abrir os olhos, você dê de cara com uma parede
prontinha e um mosaico artisticamente construído...

Nem tampouco repetir as técnicas 10.000 vezes pensando apenas em força, velocidade e vitória...

Nenhuma uma prática especial, seja técnica, psicológica ou religiosa, por mais bem feita e
orientada que seja, vai substituir ou suplementar os outros aspectos do treino. O treino em Budô é
holístico. Ele tem todos esses aspectos e um não é, de forma absoluta, em todos os tempos, mais
importante que os outros.

Aquilo que é feito com a correta atitude, correta intenção, correta forma e correto pensamento,
com determinação, disciplina, dedicação e, principalmente desprendimento (inclusive de suas ideias e

68
crenças) é, na verdade, uma oração, seja um ato físico, uma contemplação, uma leitura, uma recitação, um
cântico ou uma prece.

Vamos então, praticar, com a correta intenção, com o cuidado para não deixarmos de perceber o
essencial por preconceito científico, cultural ou religioso e com a mente capaz de maravilhar-se diante do
novo e também daquilo que ela reencontra, pois, como disse Jesus:

“A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isso


vem do Senhor, e é algo maravilhoso para nós”. Mateus 21:42.

Entre outras tantas coisas, o treino correto (talvez seja melhor dizer completo, não é mesmo?) deve
cultivar o que os mestres Zen chamam de “mente de principiante”.

Mestres são mestres, seja no Budô, na música, na Ciência ou na espiritualidade. Em comum, os


verdadeiros mestres têm em si essa capacidade de maravilhar-se. De não tomar por final e definitivo aquilo
que já conhecem ou o que, aos olhos dos outros é desprezível:

“Não sei como pareço aos olhos do mundo, mas eu mesmo vejo-me como
um pobre garoto que brincava na praia e se divertia em encontrar uma pedrinha
mais lisa uma vez por outra, ou uma concha mais bonita do que de costume,
enquanto o grande oceano da verdade se estendia totalmente inexplorado diante
de mim." Sir Isaac Newton (o maior de todos os físicos).

Vamos sangrar, suar e chorar na caminhada. Vamos pisar e tropeçar nas pedras. Vamos nos
admirar das maravilhas e da sabedoria contidas nas pequenas coisas. Vamos saborear a viagem e escolher
(ou ser escolhidos por) belas pedras para o nosso mosaico.

E, também, por que não, vamos rir do caminho!

Pois, como dizia Lao Tsé:

“Se não se puder rir Dele, não é o Tao [Caminho] verdadeiro.”

Anderson Gomes de Oliveira

Brasília, 17 de agosto de 2012.

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Epílogo (22/08/2012).

O texto já estava pronto.

Como mencionei no início da segunda parte, gostaria que o texto original e esse epílogo fossem
como um Koan.

Uma pequena sentença que, em poucas palavras, elucidasse muitas e grandes coisas.

Ao invés disso, ficou enorme.

Ontem à noite, voltava para casa de ônibus e estava lendo o excelente “On Mastering Aikido”, do
mestre Daniel Linden.

E então, ao final de um capítulo, ele inseriu uma pequena piada, que talvez muitos já conheçam. Eu
mesmo já tinha ouvido antes.

Quando li, não pude conter o riso. Inicialmente fiquei perplexo. Depois comecei a rir e ri comigo
mesmo pelo resto da viagem.

Ali estava um Koan. E, com ele, a possibilidade de uma pequena iluminação. Mais uma pedrinha
para o mosaico...

Tudo que eu disse nesse texto (ou quase tudo) está resumido ali. Completo e conciso. Como deve
ser o ensinamento de um mestre (isso dá uma medida, ainda que grosseira, do quanto estou longe dessa
“maestria” e elegância).

Eu quase poderia ter ficado decepcionado comigo mesmo. Afinal, tantas palavras e tantas páginas
e, mesmo assim não conseguindo ser tão claro quanto eu gostaria. Aí vem Daniel Linden e diz tudo isso em
meia página.

Mas, ao contrário, fiquei muito satisfeito.

Isso ilustra uma coisa muito importante. Para chegar a um pequeno satori ou, alternativamente,
conseguir condensar tanto em tão pouco espaço, são necessárias horas e horas, anos e anos, de estudo e
treino. Não há atalho fácil. Treino e mais treino deixarão você no limiar do salto, em equilíbrio instável.
Bastará um pequeno empurrãozinho e aí virá o salto.

Um pequeno salto talvez.

E aí, você atingirá o patamar para, depois de mais e mais treino, o próximo salto. Ad infinitum.

Do mesmo modo que foi necessário escrever um texto de mais de 50 páginas para que o
ensinamento condensado nessa pequena piada me atingisse com toda força (lembre-se, eu já conhecia a
piada).

Quem sabe se eu seria atingido do mesmo modo se não tivesse escrito o texto antes?

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Quem sabe se você, caro leitor ou leitora, seria atingido da mesma maneira se não tivesse lido o
texto até aqui?

Para mim tenho que o significado profundo por trás dessa simples piada passaria quase
despercebido se já não estivéssemos conversando sobre isso há mais de cinquenta páginas.

Por isso preferi não alterar o texto e sim incluir a piada (com adaptações) como um fechamento.

Espero que apreciem, assim como eu apreciei:

Pedrinho estava ajoelhado em um canto da igreja há quase 3 horas.

Finalmente abriu os olhos, levantou as mãos para o céu e começou a


reclamar:

- Senhor, o que mais devo fazer? Estou te pedindo isso há 3 semanas,


todos os dias. Na primeira semana, fiquei aqui, ajoelhado, uma hora a cada dia
pedindo, na segunda semana, fiquei duas horas a cada dia. Nessa semana, que já
é a terceira, fiquei 3 horas a cada dia. Porque não me ouves? POR FAVOR, EU
PRECISO GANHAR NA LOTERIA!

Então, como num daqueles filmes bíblicos antigos, as nuvens se abriram e


surgiu a voz poderosa do Senhor (num tom irritado):

- Pedrinho, és um bom filho e há três semanas que escuto tua oração. Por
achar que mereces e que teu pedido é justo, ele já está na minha lista desde que
teu joelho tocou o chão, no primeiro dia. Mas Eu preciso que Tu Me ajudes!

- Senhor, que queres que eu faça? Pede e atenderei!

- VÊ SE LEVANTA DAÍ E VAI COMPRAR UM BILHETE!!!!!

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