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Sumário

Título original: EI Estado eu eI centro de Ia nn.ndintizaciôn:


Ia sociedad civil y el asunto d~! poder

Revisão: Dulcinéia Pavan


Revisão da tradução: Carl~ Cecília Campos Ferre ira
Introdução: o retorno ao Estado e
Projeto gráfico, diagramação e capa: Z4P Desion
ao problema do poder. 9
Imagem da capa:]aime Osorio
Impressão e acabamento: Cromosetc
Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP) PRIMEIRA PARTE
Osório. Jaime. ESTADO, PODER POLÍTICO E CLASSES SOCIAIS
083e O Estado no centro da mundializaçáo: a sociedade
civil e o tema do poder! Jaime Osório . tradução [dei I
Fern.andO Correa Prado.-.2. ed. rev. e ampl. -São Paulo
. Expressão Popular. 2019
I I. O Estado como questão política 17
357 p .. 11., fots , maps. 11. O Estado e a reprodução societária 7l
Título original
mundialización:la
EI Estado en ei centro de Ia
sociedad civil y el asunto dei poder
I lII. Política e poder político , 89
ISBN 978-85-7743-360-5 IV As classes sociais no capitalismo 109
1. Estado (Política) 2. Classes sociais 3. Política e 1I
Anexo: A ruptura entre economia e política
poder. 4. Sociedade civii. 5. Globatiz acâo. 6. Poder I
(Ciências sociais). I. Títu!o - no mundo do capital _ 143

COU 320.01 I
I SEGUNDA PARTE
Bibliotecária: Eliane fvt S. .Jovancv.ch eRa 91'1250
ESTADO E DEMOCRACIA NA MUNDIALIZACÃO
V Mundialização, imperialismo e Estado-nação : ~161
VI. O Estado no centro da mundialização _ 179
Todos os direitos reservados.
VII. O Estado no capitalismo dependente 205
Nenhuma parte desse livro pode ser utilizada
VIII. A transição para a democracia na América Latina 239
ou reproduzida sem a autorização da editora.
IX. A ingovernabilidade da democracia: crítica
P edição: outubro de 2014 a um discurso conservador 285
2" edição revista e ampliada.junho de 2019
TERCEIRA PARTE
ESTADO, SOCIEDADE CIVIL E PODER POLÍTICO
EXPRESSÃO POPULAR
X. As fronteiras entre o Estado e a sociedade civil 307
Rua Abolição, 201 - Bela Vista
XI. A sociedade civil e a questão do poder e
CEP 01319-010 - São Paulo - SP
Te!: (11) 3112-0941/3105-9500
da revolução : 325
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Bibliografia 345
www.cxpressaopopular.corn.br
VII. O ESTADO NO
CAPITALISMO DEPENDENTE

Introdução
Nas próximas páginas buscaremos destacar as particulari-
dades do Estado no capitalismo dependente, revelar algumas
de suas características em diferentes momentos do processo
econômico/político da região, como no período da industria-
lização, com suas diferentes etapas, e a posterior instauração
do Estado de contrainsurgência ..

Particularidades do Estado no capitalismo dependente


Além das fissuras próprias de um Estado de classes, o
Estado no capitalismo dependente está atravessado por pelo
menos dois processos que definem suas particularidades e que,
a um só tempo, redefinem as fissuras próprias do Estado capi-
talista. O primeiro processo se refere à condição dependente
das formações sociais em que se constitui. O segundo se refere
ao significado da particular modalidade de exploração no
capitalismo dependente - a superexploraçáo -, que determina
as relações entre classes, frações e setores.

205
T
!

o ESTADO NO CAPITALISMO DEPENDENTE JAIME OSORIO

Estados subsoberanos conotações anti-imperialistas e, ao mesmo tempo, anticapita-


O Estado no capitalismo dependente implica uma con- lista e popular' .
densação das relações de poder .e dominação, bem como Os processos de monopolização nos mais diversos
da construcão de uma comunidáde num espaço específico setores econômicos
. - oriundos do efeito da associacão
,

do sistema' mundial capitalista. :Ele é caracterizado pelas subordinad~ com o capital estrangeiro ou então pelos
relacões restritas de soberania fre~te a formações econômí- investimentos diretos de capital - provocam uma redu-
co-s'ociais e regiões que apresentàm exercícios mais plenos zida expansão das classes, frações e setores das classes
em termos de soberanias - na medida em que são Estados dominantes: A debilidade na estrutura de tais classes e a
desenvolvidos, centrais e imperialistas. Este exercício desi- acumulação de contradições do sistema mundial capitalista
gual da soberania no interior do sistema mundial capitalista nas zonas periféricas e dependentes- - o que implica debili-
é uma característica estrutural, processo que se acentua dades estruturais do Estado e do sistema de dominação no
ou se atenua em diferentes períodos históricos, mas que capitalismo dependente - são compensadas pelo peso das
provoca no Estado do capitalismo dependente relações de dimensões autoritárias do Estado e do governo, mesmo sob
feições democráticas, e pela internalização no - epor parte
subsoberania.
Entre outras coisas, a dimensão subsoberana do Es- do - Estado dependente das relações de poder de Estados e
tado do capitalismo dependente implica a subordinação/ capitais centrais e imperialistas.
associação do capital e das classes dominantes locais frente A debilidade estrutural das classes dominantes e a su-
ao capital e às classes soberanas do mundo desenvolvido e bordinação dependente exige que o Estado do capitalismo
imperialista, situação que .não deve ser interpretada como dependente opere como uma relação social condensada de
um obstáculo, mas, ao contrário, como uma condição de enorme relevância. A debilidade produtiva do capitalismo
vida das classes dominantes locais, o que não exclui pos- dependente tem seu correlato no forte intervencionismo es-
síveis conflitos. tatal, como força para impulsionar os projetos hegemônicos,
Este duplo processo provoca o enfraquecimento ou a mesmo em situações em que a política econômica e o discurso
ausência nas classes dominantes do capitalismo dependente predominante pretendam apontar para o fim da intervenção
_ pelo menos em seus setores mais poderosos - de projetos estatal. A matriz Estadocêntrica é de particular importância na
autônomos de desenvolvimento e de projetos nacionais.
Seus projetos operam em condições de subordinação - e
I Teoricamenre é possível imaginar a possibilidade de que nesse processo político
associação - aos capitais desenvolvidos e imperialistas que sejam rna ntidas alianças táticas com setores burgueses hoje subordinados
dentro do bloco no poder, mas o caráter e o sentido daquele processo
predominam em diversos momentos históricos. Esta situa-
necessariamenre devem ser populares.
ção está na base do fato de que, no capitalismo dependente, 2 Lenin sintetizava esta situação com a noção de "elos débeis da cadeia
todo projeto político soberano deve necessariamente assumir imperialista".

206 207
· ri
,

JAIME OSORIO
o ESTADO NO CAPITALISMO DEPENDENTE

latentes e muitos outros manifestos. A reprodução do capital


história político-econômica da região, tanto de forma aberta
sustentada na superexploração gera agudas fraturas sociais:
como de modos mais ou menos encobertos.
ilhas de riqueza no meio de um mar de pobreza, trabalhadores
esgotados. prematuramente, miséria e desemprego. Tudo isso
As determinações do Estado pela superexpLoração
tende a cr~ar condições para potencializar os enfrentarnentos
O fato da reprodução capitalista no capitalismo depen-
sociais e a-luta de classes.
dente estar baseada fundamentálmente na superexploração da
Assim: a ordem social se torna possível sobre a base de um
força de trabalho} provoca diversas consequências em termos
exercício férreo do poder político, o que requer um Estado no
estatais nessas formações sociais e nessas regiões. A superex-
qual os mecanismos coercitivos operam de forma recorrente.
ploração gera processos produtivos que tendencialmente igno-
Nessas condições, o Estado no capitalismo dependente
ram as necessidades da maioria da população trabalhadora,
tem sérios problemas para gerar um sentido de comunidade.
direcionando a produção para mercados estrangeiros e/ou
Frente à profundidade das fraturas sociais provenientes da
para estreitas camadas sociais que conformam os reduzidos
reprodução do capital- em que são mais poderosas as tendên-
_ embora poderosos - mercados internos, gerados em meio à
cias à desintegração do que à integração -, serão a religião e os
aguda concentração da riqueza. Tais processos ganham formas
hábitos e costumes mantidos pelos povos originários - onde
variadas de acordo com os padrões de reprodução do capital
ainda existam e tenham peso na vida social - que operarão
imperantes nos diferentes períodos hlsrórícos".
no sentido de conformar comunidades.
A limitada expansão da estrutura produtiva no capitalis-
mo dependente reduz a massa de trabalhadores empregados,
propiciando, em contraste, a tendência ao aumento da popu-
o aparato de Estado no capitalismo dependente
Se em qualquer aparato de Estado capitalista as máximas
lacão trabalhadora subempreaada ou desempregada, processos
, b
autoridades, tendencialmente, aparecem como um comando
esses que alentam, por sua vez, o aumento da intensidade do
acima da sociedade, tal característica se acentua no aparato de
trabalho e das jornadas de trabalho dos trabalhadores ativos.
Estado do capitalismo dependente. Isso obedece a um duplo
Se o capitalismo é um sistema com dimensões civiliza-
processo. Frente à barbárie generalizada que a reprodução
tórias, são as dimensões da barbárie, porém, que tendem a
do capital tende a gerar na sociedade, e frente ao sentimento
prevalecer no capitalismo dependente. Sociedades atravessadas
de fragilidade social que se impõe sobre os indivíduos - de-
por esses processos geram altos níveis de conflito social, alguns

Sobre este tema, ver Ruy Mauro Marini, Dialéctica de Ia dependência. México:
vastados por forças que não conhecem nem controlam -, as
autoridades estatais e o aparato de Estado ernerzern
b
como um
II
refúgio nos quais - e com os quais - seria possível se proteger.

I
Era, 1973. (Ed. bras.: João Pedro Stedile e Roberta Traspadini (orgs.). Ruy
Mauro Marini: uida e obra. São Paulo: Expressão Popular, 2005. Fenômenos políticos como o caudilhismo e de lideran-
Sobre o tema, ver de Cada Ferreiri, Jaime Osorio e Mathias Luce (orgs.), ças populistas, tão comuns na história política regional, são
Padrão de reprodução do capital. São Paulo: Boitempo, 2012. 1
l
I
208
2°9
I
JAIME OSORIO
o ESTADO NO CAPITALISMO DEPENDENTE

das, bem como os setores produtivos que geravam os maiores


frutos dessa situação, com suas variantes de direita ou então
excedentes, tais como o petróleo, o cobre, entre outros).
inclinados à esquerda. Por outro lado, o aumento das funções e das instituicões
Neste mesmo sentido se encontra a tendência à despoliti-
necessárias para esse modelo proporcionou também o cresci-
zaçâo da população (e dos cidadãos) e a ideia de que a política
mento do emprego estatal e da demanda interna, fator de vital
é uma atividade reservada para setores especiais, dotado~ de
importância para incentivar o mercado do incipiente setor
qualidades carismáticas, de preparação, de experiência e de
industrial, justificados pelas teorias keynesianas (com varian-
conhecimento. tes cepalinas em alguns casos) que sustentavam as políticas
Em um mundo social com enormes carências sociais é em
econômicas em geral.
que o aparato de Estado tendencialmente se constitui,c~mo
Essas duas funções do Estado desenvolvimentista no
uma grande instituição que reparte doações e beneflclOs e
âmbito econômico permitem revelar o modelo econômico
concede auxílio - não como direito dos cidadãos, mas como
que era impulsionado e frente ao qual essas tarefas estatais
dádivas daqueles que mandam -, o aparato de Estado e suas
eram não apenas pertinentes, mas indispensáveis. Estamos
autoridades são vistos como se estivessem acima da sociedade,
falando do início e/ou consolidação do chamado modelo de
como encarnação de um poder que, por dádivas e auxílios,
industrialização na América Latina, um processo que - dian-
permitiria mitigar o despotismo cotidiano do capital, deposi-
te da debilidade da fração burguesa industrial na região e as
tando esperanças numa autoridade protetora.
reticências de investimento do capital estrangeiro no ainda
Como um acréscimo de maiores dividendos políticos, tudo
fraco setor secundário - tinha nos investimentos estatais um
isso permite que as autoridades estatais ganhem reconheci-
elemento fundamental para o êxito da tarefa iniciada.
mento e obediência; numa palavra: legitimidade ..
A forma e a magnitude que o aparato de Estado assumiu
Analisemos agora algumas etapas e características signifi-
e as funções que este passou a cumprir expressavam o fim do
cativas do capitalismo dependente latino-americano.
antigo modelo econômico, bem como a emergência em seu seio
de novos interesses sociais. Em primeiro lugar, os interesses de
o Estado desenvolvimentista uma precária fração burguesa. Mas os interesses sociais repre-
O Estado desenvolvimentista latino-americano assumiu
sentados no Estado industrializante não eram alheios às classes
formas extensas. Dentro de suas funções é possível destacar,
e às frações beneficiárias do antigo modelo exportador. Não se
por um lado, os investimentos em setores que ainda não eram
pode esquecer que, salvo no caso mexicano com a Revolucáo
rentáveis para os empresários locais ou estrangeiros (grandes
de 1910 e os processos que lhe seguiram - particularmente
empresas industriais ligadas à produção de aço, por exempl~,
sob o governo de Lázaro Cárdenas, no qual foram afetados
e de serviços, como energia elétrica, água e educação) ou entao
importantes segmentos dos proprietários fundiários - e no caso
aquelas atividades que, pela sua magnitude ou papel estratégi-
da Bolívia em 1952, no resto da América Latina não houve
co, ficaram nas mãos estatais (infraestrutura portuária, estra-

210
211
I
1
o ESTADONOCAPITALISMO
DEPENDENTE
JAIMEOSORIO

processos de reforma agrária até meados dos anos 196? I,s~o


necessárias para o projeto de industrialização. Não foi, por-
coloca em evidência o poderio político que a classe propnetana
tanto, um produto alheio a essas necessidades. Ao contrário,
fundiária mantinha na região, mas revela também um aspecto
obedecia à racionalidade econômica e política desse projeto.
econômico específico: a industrialização encontrará recursos
. . Vários fatores se conjugam para o enfraquecimento e pos-
para seu avanço nas-rendas provenientes das exportações .de
.tenor esgotamento do Estado desenvolvimentista. Alguns 'se
matérias-primas e alimentos, ou seja, na manutenção da anuga
referem às transformações econômicas derivadas da erneraên-
economia exportadora (mas agora subordinada ao novo projeto
eia, durante os anos 1950 e 1960, de novos ramos produt:vos
econômico), que, apesar de seu declínio, seguia suprindo de
- como o automotriz, o eletrônico, o petroquímico etc. _, nos
recursos monetários duros, de modo que para a própria bur-
quais o capital estrangeiro acaba se tornando forte e predomi-
zuesia industrial era interessante que diminuíssem - mas não
I:J
nante, aproveitando-se da infraestrutura gestada na região nos
fossem destruídas - as bases de sustentação daqueles setores
das classes dominantes.
anos anteriores e dos bens de capital que a Ir Guerra Mundial
tinha tornado obsoletos, principalmente nos Estados Unidos,
Neste sentido, o bloco no poder se reacomoda em termos
após a aplicação dos avanços bélicos na indústria. Em pouco
da divisão interna do poder, sob a crescente hegemonia da
tempo tudo isso abrirá passagem para a projeção de novos
fração burguesa industrial, tendo no poder estatal su~ principal
ramos no mercado interno de alto poder de consumo, num
arma para impor seu projeto econômico e societ~no. ..
primeiro momento, para posteriormente agregar sua projeção
O projeto dessa fração burguesa encontrou aliados SOCIaIS para mercados externos.
importantes no interior das classes dominadas que tiveram um
Essas mudanças econômicas, que vão acompanhadas de
papel importante na acumulação de forças necessárias para o
alianças entre certas camadas da burguesia industrial local
novo projeto: primeiramente, em amplos setores da pequena
com o capital estrangeiro, propiciam o surgimento de fortes
burguesia tanto proprietária como não proprietária que viram
divisões sociais e políticas no interior das classes dominantes
no processo de industrialização e nas ofertas de maior abertura ,
com a emergência de urna fração do grande capital (industrial,
política espaços para um melhor posicionarnenro na nova so-
agrícola, comercial e financeiro, que podemos caracterizar
ciedade; e também nas velhas e novas camadas da população
como burguesia dinâmica) tendente a colocar em questão as
operária, com a gestàção de novos empregos na indústria ~ nos
bases de uma industrializaçáo estendida e diversificada, que

I
servicos, favorecendo sua aproximação com os novos projetos
caracterizou o processo em sua primeira etapa, para privilegiar
de desenvolvimento e, em maior ou menor medida, com os
uma industrializaçáo seletiva e concentrada, na qual os novos
,. acordos e alianças políticas que fortalecem tais projetos.
ramos industriais passariam a ocupar um lucar central'
I
Fundamentalmente, a forma e as funções do Estado de- • I:J •

senvolvimentista estiveram diretamente


sociais que o hegemonizaram,
ligadas aos interesses
bem como às tarefas e alianças Ruy Mauro Marini faz uma lúcida exposição desse processo em "EI ciclo
del capital en Ia economía dependieme", rexro que compõe o livro de Úcsula
I
212
213
JAIME OSORlO
o ESTADO NO CAPITALISMO DEPENDENTE

exportadoras que buscam aproveitar suas vantagens naturais


o avanço desse novo projeto gera o impulso de políticas
e produtivas para competir no mercado mundial.
econômicas que fortalecem os segmentos sociais de alto
poder de consumo no plano local e, posteri~rmente, g.era
apoios para se lançar à conquista de merca~q~ no exten~r,
o Estado contrainsurgente
O fim do projeto de industrialização diversificada e a orien-
processos que começam a debilitar as pOSlç?eS da f~açao
tação do processo para uma industrializacão cada vez mais
burguesa mais tradicional e dos setores sociai~ assalanados
seletiva - prenúncio da especialização produtiva exportadora
vinculados ao mercado interno. Os primeiros pactos de
posterior - marcou o esgotamento das possibilidades do capital
integração da região começam a ganhar vida precisamente
latino-americano manter as amplas alianças de classes com os
nesses momentos.
setores dominados, em particular com a pequena burguesia
Todas essas mudanças acabam colocando em questão as
e o proletariado industrial, estabelecidas na primeira fase
aliancas sociais e políticas que sustentavam o velho Estado,
daquele projeto. Os mercados da nova reprodução passam a
de modo que aqueles setores sociais dominados que sobre-
ser buscados em mercados externos e na somatória dos altos
viviam dessas alianças aparecem agora como um estorvo.
mercados internos de cada economia e com isso se colocam
Isso dá início - com maior ou menor rapidez nos diversos
em marcha projetos integracionistas. Neste processo, o capital
países da região - a rupturas pela via de contenções salariais,
mais dinâmico, crescentemente hegemônico, deverá romper
fechamento de antigas instituições do aparato estatal, cortes
acordos com amplos setores assalariados.
de funcionários do Estado e toda a gama de medidas levadas
O problema para levar a cabo essa tarefa é que o próprio
a cabo no último quarto do século XX e que implicaram na
processo de industrialização tinha fortalecido a população
expulsão do consumo de amplas camadas sociais. Não foi
operária - devido à expansão do setor secundário -, bem como
alheio a essas rupturas o fechamento dos espaços políticos
a pequena burguesia assalariada do setor público - pelo peso e
com a instauração de regimes militares ou de governos civis
diversificação das atividades estatais no impulso à industriali-
autoritários na maioria dos países da região.
zação - e também no setor privado. Todos esses agrupamentos
Esses processos se agudizam mais ainda após o abandono
assalariados não apenas haviam crescido em número, mas
do projeto industrializante voltado para o mercado interno, em
também em suas organizações sindicais e participação em
todas suas variantes, e a abertura para a conformação de um
partidos políticos, em um período da história regional- anos
novo padrão de reprodução, baseado na criação de economias
1950 e 1960 - em que se multiplicou o ativismo popular em
prol de melhores condições de vida, ao qual se somaram os
Oswald (coord.), Mercado y dependência. México: Nueva lmagen, 1979.
protestos e as manifestações dos novos pobres urbanos por
(Ed. bras.: texto publicado em português no livro ~e Carla Ferrel~a, Jalm~
Osorio e Mathias Luce (orgs.). Padrão de reproduçao do capital. Sao Paulo. serviços básicos e por espaços na vida econômica, política e
. 2012 (N T)) Também em Ruy Mauro Marini, EI reform!5mo y
B oltempo, .' .. institucional.
Ia contrarrevolttción. Estudios sobre Chile. México: Era, 1976.

215
214
1~-~f'
> ; JAIME OSORIO
o ESTADO NO CAPITALISMO DEPENDENTE

. . Fazer frente a essa marcha implicaria destacamentos espe-


A ruptura daquelas alianças - com o disciplinamento das
ClaISd~s Forças Armadas preparados para a guerra interna. É
classes populares para as novas condições de vida e de trabalho
~es~~ l~gica que el~s começam a se multiplicar na região. Não
que implicavam perdas de empregos, de salários e de diversas e difícil estabelecer.a complementariedade dessa nova doutri-
assistências sociais - e a desarticulação de suas organizações, na com as necessidades do capital dinâmico, estreitamente
que foram desmobilizadas e obrigadas ~ se sujeitar aos novos associado ao estrangeiro, que tratava de romper as aliancas
despotismos do capital levaram ao estabelecimento de um políticas com amplos setores populares e de disciplina~' o
novo tipo de Estado: o Estado de contrainsurgência. campo popular para a reprodução de capital e para a marcha
Tal denominado tem como origem o fato de que os e/ou reconversão dos novos projetos do capital.
Estados latino-americanos adotaram a doutrina de contrain- Em muitas sociedades da região, a emerzência dos Estados
surgência imperante nas escolas militares estadunidenses d . b
e ,contralllsurgência tomou a forma de ditaduras militares,
ocupadas na formação de militares latino-americanos, por apos os golpes militares que implicaram maiores ou menores
onde passaram diversas gerações de suboficiais e oficiais, hoje graus de violência sobre a população civil. No Brasil, em 1964
em posições de alto escalão no seio das Forças Armadas da deu~s~ início a esse processo, que se seguiu posteriormente n~
região. Bolívia (1971), no Chile (1973), no Uruguai (1973), no Peru
O núcleo dessa doutrina pode ser sintetizado em poucas (1975) e na Argentina (1976), cobrindo praticamente toda a
linhas: no contexto da guerra fria, os Estados ocidentais parte sul da América Latina.
e democráticos sofreriam ofensivas do comunismo tanto As ditaduras militares entronizadas nesse período apre-
externas quanto internas, pela via da preparação de quadros sentam substanciais diferenças com a presença de milit~res
comunistas e ativistas no exte~ior que retornariam para se n.a história regional prévia. A mais importante delas é que
inserir nas sociedades e a partir dela levar a cabo as tarefas
sao as Fo~·ç.asArmadas, enquanto instituição, que aplicam os
insurgentes, recrutando para tantO diversos setores sociais, golpes militares, e não oficiais que conseguem apoio c.e seto-
como estudantes, dirigentes sindicais, militantes partidários
res militares para chegar ao governo. Há também a presença
e mesmo a população em geral, gerando desestabilização de uma doutrina militar - a doutrina de contrainsurzência
e permitindo que o comunismo ganhasse posições. Em .r b
-, o que urunca os corpos militares que assumiram a direcão
poucas palavras, a guerra já não é mais externa, mas, ao do ~~arato de Estado como parte de um projeto milit;r e
contrário, é fundamentalmente interna: o inimigo teria se político: a guerra interna contra o comunismo. Por último
incrustado no seio de nossas sociedades. À luz dessa dou- as novas ditaduras estabelecem um alto grau de coordenacã~
trina, a leirura sobre as mobilizações populares e sobre o em matéri~ de inteligência e de repressão, tornando os ap;ra-
ativismo em geral era a de que estaria em curso a marcha [OsrepreSSIVOSperseguidores de qualquer sujeito qualificado
ascendente da insurgência interna fomentada pelo comu- como subversivo, independentemente de sua nacionalidade.
nismo internacional.

217
o ESTADO NO CAPITALISMO DEPENDENTE
JAIME OSORIO

Em geral essas novas ditaduras militares tendem a fechar


ter~o~,disciplinar a população: tais foram alguns dos principais
os parlamentos, anular os partidos políticos, submeter ,o po-
objetivos dos Estados de contrainsurgência.
der judicial, estabelecer um férreo controle ~o~re os ~~lOS de
comunicação e executar políticas de exterrmruo de dirigentes ~ratava-se de uma violência com um sentidp político
preCISO:gerar uma "paz social" que tornasse possível o esta-
políticos, estudantes, sindicalistas e de todos aq~el~s c.atalo-
belecimento de novas modalidades de reprodução do capital
gados como subversivos, fazendo uso de uma violência q~e
com altos custos para as condições de vida e de trabalho da
busca não apenas conter, mas também submeter a populaçao
ampla maioria da população. Uma paz social que perduraria
civil pelo medo e pelo pavor. .
por décadas, enquanto os capitais locais criassem as condicões
Esses últimos aspectos levarão alguns autores a qualificar
de Sua reconversão dentro de uma nova divisão internaci~nal
tais ditaduras como fascistas, enquanto outros optarão pela
do trabalho, em que a região voltaria a ser grande abastecedora
denominação de Estados de Quarto Poder", dando ênfase
de matérias-primas e alimentos para o mercado mundial e
ao novo papel das Forças Armadas como poder no interior
produtora de partes e/ou montadora de produtos sob a forma
dos três poderes clássicos do Estado.
de maquila. Em Outras palavras, uma paz para a conformacão
Em outras sociedades latino-americanas, embora não
tenha havido golpes militares, a presença do Estado de con- de ~m nov~ \ad~ão de reprodução - exportador _ que rep~o-
dUZlsse a dmamlCa das economias dependentes em roda Sua
trainsurgência ganhou forma sob governos civis. Contudo, as
ferocidade com uma estrutura produtiva orientada a ianorar
Forcas Armadas assumiram também nesses casos seu novo
~s nec~ssidades do grosso da população, a não integr:-la ou
pap~l na guerra interna com destacamentos especiais e co~
mtegra-la apenas marginalmente ao mercado e a redobrar os
" ofens'ivas que em muitos casos não tiveram tanta repercussao
mecanismos de superexploração.
midiática como naqueles em que houve golpes militares.
Também nesses casos, contudo, as Forças Armadas tiveram Nesse caminho, romper com as alianças sociais e políticas
geradas nas primeiras décadas da industrialização era uma ne-
um novo papel dentro do Estado.
cessidade iniludível. O Estado de Contrainsuraência foi a forma
Destruir as organizações políticas e sindicais, matar suas
política para realizar aquelas fraturas que mais tarde se estenderão
liderancas e seus dirigentes, implementar políticas de terra-
sob ,a dinâmica do mercado e as políticas neoliberais que acom-
-arrasada sobre vastos contingentes da população civil, gerar
panharam as novas formas de reprodução do capital na reaíão.
6 Ver pane desse debate e as posições em disputa ~,mPio Gar:ía, Agustín Cueva, . <? início e a cristalização do novo modelo expor~ador
Ruy Mauro Marini, Theotônio dos Santos, La ~ueStlOn dei Fascismo en ImplIcaram profundos reajustes políticos que necessariamente
América Latina", em Cuadernos Políticos, n. 18, México, outubro-dezembro
de 1978. Ver também de Ruy Mauro Marini, "La lucha por Ia democracia en
deveriam se expressar no Estado, sendo em geral segmentos
América Latina", em Cuadernos Políticos, n. 44, México, julh?-~ezem~ro de d~ ~ra~de capital financeiro, industrial, comercial e agrário
1985. (A coleção completa da revista Cuadernos Políticos esta disponível na
dmamlcos, privilegiadamente aliados ao capital estranae:ro.
seguinte pâgina: <hnp:l/www.cuadernospoliticos.unam.mx> N.T.). .I, b 1 ,
que hegemonizaram esse processo.

218
219
o ESTADO NO CAPITALISMO DEPENDENTE
JAIME OSORIO

A disputa pelo Estado que esse processo implicou não f~i


Em conjunto com esse processo foram realizadas reformas
uma questão menor. Somente nele se cristaliza a he~e~ollla
trabalhi~tas, em geral marcadas pela tendência à desintegração
política e a definição dos projetos e modelos econormcos .e
ou ato~Ização de sindicatos e de Outros mecanismos de defesa
políticos que prevalecem. Somente o Estado tem ~ capaCl-
existentes no campo do trabalho, o que permitiu um drástico
dade de apresentar interesses- sociais limitados como Interesses
aumento da superexploração, oculta em cat~gorias como "fle-
societários de toda a comunidade, ou seja, como projeto de
xibilidade das leis trabalhistas" ou "emprego precário'", Com
todos. Foi através dele, portanto, que a nova grande burgue-
isso, cresceu a camada da população em nível de pobreza. Nas
sia latino-americana conseguiu impor seu novo padrão de
novas condições, pobreza já não é sinônimo de desemprego,
reprodução e readequar a sociedade para o exercício de sua
como nas décadas passadas: mesmo com emprego é possível
dominacáo. A centralidade do Estado foi um elemento fun-
ser pobre na nova situação.
dament~l para fortalecer econômica e politicamente os setores
que o hegemonizaram. . .
A centralidade do Estado dependente
O poder econômico desse setor do capital fOI ampliado
Para realizar as mudanças econômicas e politicas que de
pelos processos de privatização. Um número elevado de em-
forma sucinta esboçamos, o Estado teve um papel central.
presas estatais passou para mãos privadas, vendidas .em geral
Não é casual que muitas transformações que engendraram o
a preços irrisórios? A isso se soma a abertura de serviços esta-
novo modelo exportador tenham sido realizadas sob Estados
tais como a saúde, educação e moradia, e particularmente do
ditatoriais ou autoritários e que, apesar das múltiplas consultas
controle dos fundos de pensão, para que se tornassem meros
eleit~rai.s realizadas após a queda desses regimes, os grupos
negócios" . Tudo isso concedeu um potencial econômico ao
economlCOS que começaram a se tornar fortes na etapa anterior'
grande capital latino-americano como nunca antes.
tenham se fortalecido ou mantido seu poderio, acentuando
a polarização da sociedade e tornando a América Latina a
Em 1998, ano em que as privatizações nas economias latino-american~s
já tinham percorrido um longo caminho, capitais locais associados as região que apresenta os maiores índices de desigualdadelO. A
multinacionais, atraídas pelos baixos preços, mvesnrarn a Cifra recorde de
56 bilhões de dólares na compra de empresas na regiáo. Dessa quantia, 47
bilhões de dólares foram destinados à compra de companhias ~raslletras. Ver 9 De acordo com um estudo realizado em 1998 no Chile, "em 1992, 15,6%
James Petras, "EI fin dei mito de Ia globalización", Rebeliôn, 2) de março de dos empregados assalariados trabalhavam sem contrato de trabalho assinado
1999. Em 1994, este númeto aumentou para 20,3% e em 1996 para 22 "0'" H :
M dI ,.),0. ver.
Somente a título de exemplo, basta considerar o papel desse proces~o no caso 1 ag a ena Ech~verrÍa e Verónica Uribe. Condiciones de trabajo en sistemas
chileno. "Em julho de 1995 os ativos dos fundos de pensáo nesse paIS chegam de subcontrataczon, OI!, Santiago, 1998, p. 3. Isso petmitiu que no Chile o
a aproximadamente 26 bilhões de dólares, cifra superior a 40% do Produto emprego crescesse nos ultJmos anos da déc~da de 1990, mas foi um aumento
Geográfico Bruro (PGB) e no ano 2000 esses fundos represe~tariam 80% ~o do emprego precário, que tem como uma de suas características a remuneraçáo
dos novos assalanados abaixo da linha da pobreza •
PGB". Ver [uan Arancibia, "La reforma del sistema de penslOnes y el ahorro 10

interno", em Saúl Osorio e Berenice Ramírez (coords.), Segundad o msegundad Sobre es~e pOnto, ver Adolfofigueroa, "Equidad, inversión extranjeta y
social: los riesgos de la reforma. México: Triana Editores/Unam, 1997, p. 191. competltlvIdad internacIOnal, Revista de !a Cepa!, n. 68, Santiaao azosto
de 1998. e ' '"

220
221
JAIME OSORIO
o ESTADO NO CAPITALISMO DEPENDENTE

- em detrimento deste. Entre suas expressões mais agudas se


hegemonia do grande capital latino-americano não foi alterada
encon:~a a imposição de ditaduras militares em grande parte
após as mudanças nas formas de dominação com as chamadas da reglao sul da América Latina, em particular com o golpe
democratizações. ' contra o governo de Salvador Allende no Chile, o estabeleci-
:O novo papel do mercado, regido pelo poderio dos grupos .
mento do governo encabeçado pelo general'.Augusto Pinochet
ma:nopólicos, gerou novos exercícios da política, que parece '.
e a acelerada aplicação de políticas econômicas neoliberais.
deslocada ou relegada a segundo plano diante dos condicio- :
, ' Também. é precis~ mencionar a implernentaçâo de po-
nainentoS de oferta e demanda. Mas esse deslocamento é: líticas estatais contramsurgentes na maioria das sociedades
altamente funcional para as necessidades políticas do grande la~ino-americanas; o crescente avanço das políticas neolibe-
capital local e internacional, ou seja, trata-se de um movimento rais em outras regiões, reforçadas pelos governos de Ronald
cuja finalidade é não apenas econômica, mas particularmente Reagan nos Estados Unidos e de Margaret 1hatcher na Crã-
política, supostamente transferindo a tomada de decisões para -Bretanha - neste último caso após uma prolongada greve
um território aparentemente neutrO - o mercado - onde o e a derrota de poderosos sindicatos mineiros de carvão -'
capital hegemônico tem melhores condições para levar adiante a queda da União Soviética e a desintegração do chamado
seus projetos. campo socialista; a constante perda de direitos sociais que
A "mão invisível" que regeria o mercado foi uma parte colocará fim ao Estado de bem-estar na Europa Ocidental
central do discurso ideológico (apoiado em paradigmas e n.os Estados Unidos, bem como seus arremedos no capi-
neoclássicos) empregado pelos dominantes para justificar talismo dependente latino-americano; transformacões nos
de classe e para ocultar
a sujeição sobre out ros interesses processos de trabalho e aprofundamento da prec~rização
novas modalidades de ingerência estatal em seu benefício. dos empregos; crescente peso do Banco Mundial, do Fundo
O suposto abandono da política (ou da politicagem) para
Mo~etário Internacional e do Banco Central Europeu no
I '1
í abrir passaaem para a racionalidade da economia - defen-
i I b . r d sentido de promover políticas de ajuste, com duros golpes
I i' dida pela tecnocraCla - era na verdade uma nova rorma e nos níveis de renda, de emprego e na seguridade social da
fazer política, mas agora dirigida para dar conta de outros população assalariada mundial.
I 1\ \', interesses sociais. É neste quadro de uma severa derrota do mundo do
\,

L trabalho que o capital põe em marcha novas divisões

t'
.~ Mudanças na correlação de forças entre classes internacionais do trabalho, novas revoluções científico-
-tecnológicas, junto à redução dos salários, incrementos

\
1\'
l"
Severas derrotas do mundo do trabalho
Desde a década de 1970, vivenciamos uma série de pro-
cesses que expressam e aceleram a mudança na correlação de
forças em escala mundial e regional entre capital e trabalho
das jor~adas de trabalho e instabiÚdade dos empregos,
como formulas para resolver a tendência de longa duração
à queda da taxa de lucro.
H li; ,

I
: \~;
r H
,
222
1
223
-
JAIME OSORIO
o ESTADO NO CAPITALISMO DEPENDENTE

p~VOSindígenas, operários, desempregados, funcionários pú-


Seus efeitos no Estado dependente latino-americano
blicos, professores etc. A América Latina viveu nesse tempo um
Na América Latina, a derrota do mundo do trabalho
dos períodos mais convulsivos, com expressões em renúncias
implicou a emergência de um novo padrão de reproduç~o. do
e destituições de autoridades presidenciais e uma alta instabi-
capital- o padrão de especialização produtiva -, com polmcas
li~ade. institucional, como resultado da aplicação das políticas
econômicas neoliberais, que estimularam a venda de empresas
privatizadoras e de ajuste contrárias aos interesses da maioria
públicas ao capital privado nacional e estrangeiro, a r.etirad~ ~e
da população, gerando crescentes rnobilizacôes.
direitos vinculados à seguridade social, fortes perdas salanals
Uma das expressões dessa rápida rearriculação popular foi
e o aumento do desemprego, além de reformas trabalhistas
a ascensão ao governo de forças políticas criadas recentemente
que enfraqueceram os sindicatos, de aumento das jornadas de
co~t~árias a~ av~n?o da,s políticas neoliberais e que exigia~
trabalho e da deterioração geral das condições de trabalho.
polltlc.as mais proxlmas as necessidades dos setores populares.
N o terreno político, a última década do século XX é um
~udo ISSOacontecia entre protestos e mobilizações massivas.
período dominado pela chamada transição à democracia na
E nesse bojo que a América Latina termina a primeira década
América Latina, com a passagem de governos militares ou de
do novo século com pelo menos três governos populares - o
o-overnos civis autoritários para governos civis emanados de
de Hugo Chávez na Venezuela, de Evo Morales na Bolívia
~onsultas eleitorais, após mudanças e reformas para acelerar a
e de Rafael Correa no Equador -, assim definidos pela base
formacão de novos partidos políticos ou permitir a legalização
social de apoio que os sustenta e pelas políticas e programas
de antigas organizações, com a criação de censos eleit~rais,
que colocam em marcha.
bem como de organismos encarregados de velar pela eqUldade
Junto aos chamados governos populares conformam-se
formal entre as campanhas. também governos progressistas, que, sem a radicalidade das
Esta mudança - que implicava passar de súdito (menor de
mobilizações e reivindicações que deram vida àqueles, absor-
idade político) a cidadão (um sujeito político maior de idade) -
vem demandas para limitar as agressivas ofensivas dos capitais
tinha como pano de fundo a busca por pane das autoridades
hegemônicos - nem sempre com resultados claros neste aspecto
político-estatais de uma nova modalidade de legitim~dade.
- e colocam em marcha, por sua vez, numerosos programas
Diante do desmonte das políticas sociais, no auge neolíberal.
sociais em favor dos setores mais pobres, de setores operários
; as autoridades buscavam agora o reconhecimento do mandato
s.
e da pequena burguesia assalariada.
político por parte da sociedade, tornando-a responsável pelas
.. Tudo isso é favorecido pelo excepcional momento que
ít í·
\' decisões oolíucas- VIVIamas exportações latino-americanas de matérias-primas
XX, mas com maior clareza e força
Desde o fim do século
1 r~ c. no comeco do século XXI, houve uma rápida recomposição
e alimentos no mercado mundial durante a primeira década
do século XXI, particularmente estimuladas pela demanda
i de divers~s setores sociais frente à repressão empregada para
da China, economia que vivia naqueles anos uma enorme
l aplicar as novas políticas, envolvendo estudantes, mineradores,

Ii
225

r,
I .....
t·;·
224

1
o ESTADO NO CAPITALISMO DEPENDENTE JAIME OSORlO

~ t mbérn pela demanda de pecas industriais diri- enfraquecimento dos governos progressistas e dos governos
expansao, e a '
zidas aos Estados Unidos. . populares. Sem desconhecer a importância desses elementos,
t:> Além dos casos mais emblemáticos de governos desse tlpO considero que não se deu suficiente peso às razões internas ~m
. c omo os encabecados
- taIS ., por Luiz Inácio Lula da Silva, no .relação ao que tais governos fizeram e deixaram de fazer no
Brasil e por Néstor é Cristina Kirchner, na Argentina -, em sentido de alimentar suas fragilidades.
rerrnos diversos uma série de outras forças e lideranças com . Para o caso dos chamados governos progressistas, e em
graus muito diferentes no aspecto progressista triunfam n~ particular para os casos do Brasil e da Argentina, um tema
Paraguai, no Uruguai, no Chile., em ~o~duras, no Pan~~a central reside no predomínio de projetos políticos que privile-
! e em EI Salvador, o que permitiu a cnaçao de um~ polmca giaram a conciliação de classes, isto é, que visavam promover

I L.i .t
exterior com dimensões regionais disputando maior ~u:o-
nomia frente aos Estados Unidos, com acordos comerciais e
financeiros intrarreglOnaIs
• . 11
.
programas para melhorar as condições de vida particularmente
situadas na pobreza, elevar salários, gerar empregos (com aber-
tura de novas universidades, por exemplo), e outras políticas
sociais que beneficiaram camadas da classe trabalhadora e da
1\> . Razões do esuotamento político
Não se ;ode desconhecer o papel que tiveram os Estados
pequena burguesia assalariada, ao mesmo tempo mantendo,
quando não aumentando, importantes privilégios das frações
f. e os capitais do mundo desenvolvido, aliados ao~ ~etores das e setores mais poderosos do capital, com projetos tímidos ou
! classes dominantes locais, em sua busca por debllltar, qu~~- mesmo nulos em capacidade de reter sequer uma pane de seus
I do não defenestrar, os processos políticos gestados na reglao volumosos lucros.
i !; naquele período. A destituição dos presidentes de H~nduras e
~ l' Esses projetos políricos não poderiam gerar outro efeito
do Paraguai e da presidenta do Brasil, em tempos dIferentes, senão fragilizar os governos no curto e médio prazo, devido à
não são alheias ao que foi anteriormente apontado, e o mesmo dificuldade de conciliar interesses divergentes de classe frente
vale para as manobras golpistas na Bolívia, na Venezuela e no a demandas e pressões sociais contraditórias. Esta é razão por
Equador. . . trás da perda de apoios sofrida pelos governos progressistas
Igualmente importante e muito enf~~tlza.do fOI o ~m ~o de diferentes matizes, que acabaram se agudizando quando
excepcional período econômico que a reglao viveu na pn.meua a capacidade de sustentar a conciliação se reduziu diante da
década deste século como elemento-chave para expl icar o queda na entrada de divisas captadas pelas exportações.
Se à política de conciliação se somam as denúncias por
II
' . C I' bia o Peru e o Chile, os
Processos dos quais se excluem o M eXiCO,a o om .' .. corrupçâo", é compreensível a desmohilização e distancia-
dois rimeiros pela presença de forças tradicionais ou direitísras nos governos
e o ~hile pela forte dependência comercial com os Estados Unidos ness~:
anos e por manter distância de experiências que possam lembrar os anos 11 Não se trata de que não tenha havido corrupçáo: mas a ofensiva midiárica local
Unidade Popular, apesar de que lideranças tenham chegado ao governo. e internacional para rrarar o tema mosrra que a cruzada contra a corrupção

226 227
o ESTADO NO CAPITALISMO DEPENDENTE JAIME OSORIO

rnento dos setores populares quando o Congresso destituiu a sociais acabam sendo delimitadas a esses tempos e espaços, o
presidenta Dilma Rousseff no Brasil, ou frente à derrota elei- que provoca desgaste, esgotamentos e recuos.
toral das forças kirchneristas nas eleições presidenciais na Ar- Em tais condições; os setores dominantes desenvolvem
gentina. Posteriormente se geraram importantes mobilizações uma guerra de desgaste, já que a própria institucionalidade
e protestos, mas não foram capazes de ocult~r o sintomático imperante e o aparato de·.Estado consistem em travas à marcha
recuo e a desmobilização iniciais. de processos e projetos de ruptura. Ninguém pode ignorar
Os chamados governos populares, apesar de diferenças o tanto que foi realizado por aqueles governos. A pergunta-
importantes, compartilham, por sua vez, debilidades substan- -chave, porém, é: não contavam com força social suficiente
ciais da própria concepção do que tais governos consideram para tarefas maiores? Pois não alcançar metas maiores pode
representar e expressar". Existe o erro comum de assumir a ter como consequência que muito do conseguido se perca com
vitória eleitoral como conquista do poder político, ou mesmo novas autoridades no governo. É o que acontece atualmente no
como parte de um processo que vai nesta direção, e que se Equador, após o triunfo de Lenin Moreno, com seu distancia-
alcançará na medida em que se mantenham essas vitórias e mento de Rafael Correa e suas ofensivas contra as conquistas
se avance posições no aparato de Estado. Em algum momen- da chamada revolução cidadã.
to - supõe-se - se produzirá um ponto de bifurcação. E isso Atados à rota estabelecida, o desgaste político dos gover-
ocorrerá sem necessidade de romper com a institucionalidade nos populares aparece como um caminho previsível. É neste
quadro que incide a queda dos preços das exportações e os
irnperante'".
Essa ideia matriz acaba condicionando tudo, na medida em recursos dos governos, mas não é esta a razão de fundo de
que o acúmulo de força social dos dominados deve finalmente suas debilidades. .
se expressar no terreno eleitoral e nos tempos estabelecidos Com os recuos e as desmobilizações geradas na região,
pela disputa eleitoral, devendo então percorrer os canais como resultado dos problemas presentes nos governos progres-
instirucionais. Desse modo, as dinâmicas dos movimentos sistas e populares, não surpreende o avanço eleitoral e político
das forças da direita, que se aproveitaram dos espaços abertos
ou passíveis de serem tomados, da desazrezacão
b b ,
e atornizacâo
,

de amplos setores que formavam a anterior força disponível e


carregou suas tintas contra os governos populares e progressistas na regiáo
da desorientação existente em amplos setores sociais.
(Romano, 2018).
lJ Aqui é preciso excluir o Equador, onde a idéia de construir o socialismo náo
teve maior audiência. Crise da democracia liberal representativa e de seu arremedo
14 O reformismo neogramsciano reinterpreta a guerra de posições formulada por
Gramsci, postura que ganhou força nas décadas dos golpes militares na região, na América Latina
particularmente refletida na obra de Porrantiero (1977). Nos recentes, essa No mundo desenvolvido, particularmente na Europa
leitura encontra na obra de Álvaro García Linera uma. importante retomada,
reracada com "o último" Poulantzas (García Linera, 2015).
Central e nos Estados Unidos, o triunfo da grande burguesia

228 229
-
o ESTADO NO CAPITALISMO DEPENDENTE JAIME OSORIO

produtiva e financeira, com seus golpes sobre o mundo do social e da vida para a ampla maioria da classe trabalhadora _
trabalho, fez com que em pouco tempo se apresentasse a cri- process~ este que ainda prossegue e que faz da precarização a
se da democracia liberal representativa, a forma de governo normalIdade, no bojo de um novo reordenamento do sistema
arnadurecida após a Segunda Guerra. As bases que tornaram mundial capitalista. .
esta forma possível foram resultado de importantes mudanças A esses elementos soma-se em todo o sistema a expansão
nos processos de reprodução do capital, do exponencial avanço da ac.umu.lação ~or meio de atividades ilegais e a mu]riplicação
1

j da produtividade e da geração de novos e diversos valores de do dinheIro sujo, possibilitando que suas fromeiras com a
uso. Nesse contexto, potencializar o consumo da classe traba- reprodução legal do capital se tornem cada vez mais difusasl5.

I lhadora passou a ser uma necessidade vital para o capitalismo


desenvolvido, com a finalidade de gerar mercados para realizar
o mais-valor, o que possibilitou aumentos dos salários, novas
Nesse terreno minado, a classe reinante e a classe política não
escapara~ da dec~m~osição irnperanre, afiançando o amálgama
de operaçoe,s ~egaIse Ilegais, favorecendo processos de corrupção
I r conquistas sociais e programas de maior seguridade social. de toda especre, nos quais se veern envolvidos desde altos postos

i
t
1 }
O chamado Estado de Bem-Estar começava a tomar corpo.
Mas há também razões políticas sumamente relevantes
do aparato estatal até funcionários de todos os níveis.
Tudo isso alimemou uma desconfiança crescente em re-
t nesse giro civilizatório do capital no mundo desenvolvido. A lação aos funcionários que administram o aparato do Estado
I
Segunda Guerra implicou um avanço inesperado do socialismo e aos dirigentes políticos, propiciando a crise de leaitimidade
i, real em termos territoriais. Uma parte nada desprezível da Eu- do comando político, mais uma das expressões da crise da
I '
I ropa Oriental passou a integrar a União Soviética, ao mesmo forma de governo. A todo esse processo se soma a deterioração
tempo que na China a revolução dava um salto significativo quando não sua fratura completa, da ponte que estabelecia~
em seu poder, com a primeira explosáo atômica em 1964. os parti~os políticos como instância de representação, o que
Frente a essas ameaças, as classes dominantes da Europa tendenClalmente os converte em espaços de grupos de poder,
Ocidental e dos Estados Unidos tiveram que promover progra- de buroc~a~as e ~uncionários cada vez mais preocupados com
mas sociais e aumentar a renda de sua população trabalhadora, seus negocios feitos com recursos públicos.
sobre bases que eram compatíveis com a reprodução capitalista, . Não há uma instância sequer da democracia liberal represen-
buscando reduzir os perigos de que a classe trabalhadora fosse tativa e.do arremedo de democracia na América Latina que não
atraída pelos discursos da revolução e do socialismo. Mas esse tenha SIdo golpeada e enfraquecida, estimulando o desencanto
período chegou ao seu fim com a aguda guerra de classes que
o capital desatou nas últimas quatro ou cinco décadas em '5 Pr,oduçáO e venda de drogas e entorpecentes de todo tipo tráfico de órzáos
todo o mundo, a partir da queda da taxa de lucro e o poste- ~rafico de pessoas, ?e armament?: ?e material para fissã~ nuclear, lav:gerr:
i e dinheiro em at1v~dades imobilíárias, massivas operações fraudulentas pela
rior derrocarnenro do campo socialista, impulsionando uma
7ternet, aproprraçao de Informação nas redes sociais e sua venda: tais são
radical deterioração das condições de trabalho, da seguridade a gumas das novas atividades de acumulação de capital.

230 231
xc:;

o ESTADO NO CAPITALISMO DEPENDENTE


JAIME OSORIO

com a política por parte de camadas crescentes da população. Isso


Uma das razões que explicam a força com que se instala
se faz presente também na crise político-estatal das sociedades do
essa nova forma de governo na segunda década do século XXI,
capitalismo dependente. Mas nestas sociedades, a ~igor, ~ão se
e que já apresenta antecedentes na década prévia, tem relação
pode falar de crise da democracia liberal representauva, pOISesta
com o novo estágio de desenvolvimento da fração burguesa
forma:de governo apresentou-se apenas como arremedo e sombras
produtora e exportadora de matérias-pri~as, alimentos e
na região. E muitas das características da crise político-estatal da
peças vinculadas à indústria auromotriz, eletrônica e para as
democracia liberal representativa alcançam maior agudeza na or-
montadoras e maquiladoras, bem como da fração bancária
ganização política do capitalismo dependente, como a cor~upção
e financeira, ambas em estreita vinculação com capitais es-
de funcionários públicos e a difusa fronteira entre classe reinante,
trangeiros, resultado da enorme expansão de suas atividades
classe política e aqueles setores do capital que se reproduze~ em
e lucros na primeira década do século atual.
operações ilegais. Odebrecht se tornou justamente o pa~adlgma
O Estado de segurança do grande capital com verniz
de corrupção e degradação de setores do grande capital e de
eleitoral também é resultado das disputas daquelas frações e
altos funcionários públicos na região, neste caso, para ganhar
do capital internacional investido na região COntra as políti-
substanciosas licitações públicas. A essa corrupção se associa a
cas sociais dos governos populares e progressistas, o que leva
impunidade do alto escalão do aparato de Estado.
o conjunto do capital a redobrar seus esforços no sentido de
recuperar a gestão do aparato de Estado, buscando pôr fim
o Estado de segurança do grande capital
àqueles governos e reforçar na região políticas de segurança,
com verniz eleitoral
concebidas num sentido amplo, não apenas para fazer frente
A crise do arremedo de democracia na região - a destitui-
!, ção dos presidentes de Honduras (2009), Paraguai (2012) e
ao crime organizado ou à delinquência:, mas, sobretudo, para
L combater as forças sociais, organizações e lideranças que
I Brasil (2016) por meio de golpes brancos -, a crise dos governos
I, questionam as políticas do capital. Trata-se, portanto, de uma
I
I', populares da Venezuela e da Bolívia - cada ~ez mais.pre~sio-
resposta às exigências econômicas e políticas do capital, o que
I nados por mobilizações internas e pelo cerco InternaClOnal- e
vem acarretando novas derrotas ao mundo do trabalho e aos
1 inclusive a ascensão de Mauricio Macri à presidência da Ar-
setores populares.
I gentina - em um processo de investida midiática, econômica e
J
i
I Nesta nova forma de governo as consultas eleitorais se
judicial contra o governo anterior (Beinstein, 2018) - colo~a~
I em evidência que o período aberto com a chamada transiçao
mantêm, mas através de procedimentos mais controlados
em relação às forças que delas participam, aos/às candidatos/
L à democracia chegou ao fim na região e que assistimos a uma
reconfiguração das formas de governo que surgiram com
aquele processo, colocando então em marcha uma nov~ forma:
as e aos resultadosl6, para reduzir os· perigos de surpresas,

o Estado de segurança do grande capital com vernzz eleitoral. 16 A segurança eleiroral reforça a tendência à realização de rodo tipo de
manobras e fraudes, como a compra de VOtos, enganos cibernéticos ou

232
233
JAIME OSORIO
o ESTADO NO CAPITALISMO DEPENDE TE

o peso da imprensa e da televisão próximas aos interesses


como Os governos populares ou mesmo progressistas. Isso sociais que tratam de estabelecer e prevalecer.
requer que se acabe com a credibilidade das organizações Neste contexto, e como resposta à carência de oportuni-
que ameaçam a "paz social" e eleitoral desejada pelos gran- dades de emprego, destacam-se as bondades do autoempreen-
des capitais, ou mesmo que se extingam tais organizações. dedorism~, de passar de trabalhador para "sócio" de alguma
Também se requer destruir - quando não eliminar" - as
marca, ,;a:s. c<'!:;n0,os motoristas de Uber ou entregadores, em
lideranças sociais e políticas que possam encabeçar respostas que os SOClOSnao apenas não recebem salários nem direitos
de massas. A eliminação de Lula da Silva das urnas na eleição trabalhistas, mas ainda pagam certa porcentagem de sua renda
para presidência do Brasil é parte dessa nova lógica, assim para continuar fazendo parte do negócio.
como a destituição de presidentes; de igual forma pode-se A nova forma de governo apresenta muitos pontos em
interpretar a poderosa ofensiva midiática de desprestígio comum com o Estado de contrainsurgência 18, tais como:
que se espalhou contra Cristina Fernández, não apenas para perseguir ou eliminar quem critica as políticas em curso
derrotá-ia eleitoralmente, mas para destruí-ia como opção ou denunciam a corrupção, a impunidade e os abusos de
em futuras disputas. autoridades civis ou militares'": estabelecer novas leis para
No Estado de segurança do grande capital com verniz a se.g~r.ança pública"; promover a reorganização das forças
eleitoral, busca-se alcançar maior controle da sociedade por policiais, de aparelhos de inteligência e de segurança e das
mecanismos através dos quais se aumenta a percepção da
insegurança pública; pelo incremento do medo diante de su-
postoS inimigos da paz social e dos valores da "comunidade";
pela desqualificação e repressão da resistência social. Todos
esses procedimentos buscam desarticular as organizações 18 Esta c~tegoria foi formulada por Ruy Mauro Marini no debate sobre "La
cue~tlOn de! fascismo en América Latina", transcrito na revista Cuadernos
populares e desmobilizar a sociedade, tirando-lhe a iniciativa Pofmcos, n. 18, Ediciones Era, México, ocrubre-diciembre, 1978, p. 21-29.
e justificando a vigilância e a intervenção policial e militar. Ha recente t,radução ao português deste texto na Revista de Estudos e Pesquisas
sobre as Américas, v.12, n. 3, 2018.
Para isso é necessário que parte da imprensa e dos meios de 19 Aqu~ se insere a elevada quantidade de jornalistas mexicanos assassinados
comunicação, particularmente os públicos, sofram ataques nos últirnos anos. Também o recente assassinato no Brasil (14 de março de
2018~ da vereadora do Psol: Marieye Franco, forre opositora da presença
que limitem suas atividades, ao mesmo tempo que se reforça
de militares no RIO de Janeiro e critica dos crimes das forcas de sezu ra nca
nas favelas. . "'.
a simples manipulação das urnas e das recontagens. A reeleição de Juan 20 Ao final de 2017 foi aprovada, no México, uma nova Lei de Segurança Interna,
Orlando Hernández como presidente de Honduras, após uma escandalosa qu~ outorga maior presença e capacidade de operação às Forcas Armadas
fraude nas eleições de 2017, é exemplo dessa velha história nas novas :pos a Intervenção do. p_oderexecutivo nos estados e municípi~s. A nova lei:
condições. hProvada com a,oposlçao de orgamsmos locais e internacionais de direitos
17 Fórmula contrainsurgente que o Estado colombiano aplicou de forma efetiva uma~os, devera ser sancionada pela Suprema Corre de Justiça, por decisão
nas últimas décadas, assassinando dirigéntes sindicais operários e camponeses, d o enrao presidente Pena Nieto.
lideranças sociais e dirigentes guerrilheiros que passaram à vida institucional.

235
234
o ESTADO O CAPITALISMO DEPENDENTE
JAIME OSORIO

Forças Armadas" e sua maior presença nas ruas e cidades+,


no, também se busca alcançar outras metas para avançar nos
utilizar novos sistemas de controle e vigilância da oposi-
projetos do grande capital local e transnacional, como acelerar
çã023; e também firmar novos acordos com os aparelhos de
a marcha das políticas de ajuste com novas contrarreformas
inteligência e de segurança e com as Forças Arma~as dos
como as trabalhistas e da previdência; prosseguir com a venda
Estados Unidos.
de bens e recursos públicos a capitais privados; e construir
Além de impedir a repetição de experiências come? as dos
novos acordos regionais com outros mercados, para ampliar
governos populares e progressistas, com a nova forma de gover-
os campos de ação do grande capital exportador da região.
Os passos para configurar a nova forma de governo segu-
21 Por solícítacão do presidente Macri em março de 2018, o Ministério de Defesa ramente gerarão rechaço de amplos setores da população pela
da Araenti~a criará uma unidade especial- a Força de Movimentação Rápida
forma como afeta suas condições de vida, pela militarização
I (Fue1~a de Despliegue Rápido - FDR), conformada pelos três ramos das Forças
t " Armadas, para apoiar as forças de segurança na luta contra o narcotráfico eo das ruas e cidades, pela criminalização dos movimemos so-
i~ L
\:
cuidado
mapuches
dos recursos naturais,
nas zonas de bosque
tema que remete à presença
do sul do país, entre elas o grupo
de organizações
Resistência
ciais e suas direções e pela sequela de morte de civis, acusados
geralmente de participar de grupos delinquentes, sem que
1 Ancestral Mapuche (RAM), que reivindica seu direito às terras que ocupa e

1
onde ocorreram enfremamemos em 2017. O pOntO relevante dessa decisão tribunais civis possam aceder aos processos. De forma mais
I é que permite operações das Forças Armadas dentro do território, o que não
ocorria desde as ditaduras militares nos anos 1980 (Beinstein, 2018). Nesta
acelerada em alguns casos, de modo mais lento em outros
~
I mesma linha, em outubro de 2017, o governo brasileiro aprovou a criação essa nova forma de governo se concretiza no conjunto da re~
j \
1 de um Ministério Extraordinário de Segurança Pública, que reúne todas as
gião, expressando as diversas dimensões que a caracterizam.
forcas da ordem, sob o comando do até então Ministro de Defesa. Tribunais
e c~rregedotias militares investigarão as morres de civis durante as operações O aumento da violência estatal será uma condi cão necessária
armadas. . para que alcance formas m~duras, ainda mais s~ se considera
22 Em 16 de fevereiro de 2018, Michel Temer declarou a "intervenção federal"
no estado do Rio de Janeiro, entregando a um general o comando sobre os que os movimentos populares da região foram golpeados e em
militares e forças policiais. . muitos casos postos na defensiva, mas de modo algum estão
23 Em 2017, foi informado que os aparelhos de inteligência do Estado mexicano totalmente desarticulados.
espiavam jornalistas críticos, í nflltrando-se em seus celulares através de
mensagem SMS com o sistema Pegasus, adquirido de Israel, que permite que
a cârnera e o microfone fiquem sob com role da segurança estatal. No Chile, Nota final
como pane da Operação Furacão [Huracán], iniciada em setembro de 2017:
os Carabineros [denominação da força de segurança pública chilena - N.T.J Ao avanço do Estado de segurança do grande capital com
detiveram oito dirizenres mapuches acusados de queimar igrejas e caminhões em verniz eleitoral e à degradação em geral da vida pública soma-se a
LaAraucanía. Mais tarde se descobriu que a Unidade de Inteligência Operativa
Especializada dos Carabineros não apenas espionou jornalistas de diversos meios crise de projetos alternativos ao capitalismo, o que aumenta ain-
de comunicação que acompanhavam o caso - que se prolongou por meses+. da mais a desorientação política e a falta de perspecríva futura.
como também "plantou" conversas nos celulares dos detidos, para oferecer
como prova de culpabilidade e pertencimento a uma organização subversiva e
O enfrentamento a esses processos não se dará com sau-
criminosa. Em março de 2018, o Diretor Geral dos Carabineros e o Diretor de dosismo de tempos passados. Os Estados de Bem-Estar Social
Inteligência da instituição, que conheciam a montagem, tiveram querenunciar.
no mundo desenvolvido e suas políticas sociais e de seguridade

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o ESTADO NO CAPITALISMO DEPENDENTE

social responderam a um momento da reprodução capitalista e VIII. A TRANSIÇÃO PARA A


da luta de classes que já não há como repetir. Seus arremedos
DEMOCRACIA NA AMÉRICA LATINA
no capitalismo dependente também já esgotaram sua história,
da mesma forma que QS arremedos à democracia. Nada fáceis
são os tempos atuais para a velha topeira da história. Mas a
América Latina é um: elo fraco da corrente de dominação
imperialista, que de modo regular nos surpreende por sua
capacidade de recuperação, gerando respostas às novas formas
de dominação.
O triunfo e ascensão de Andrés Manuel López Obrador à
presidência do México, ao final de 2018, bem como a ofensiva
do governo de Donald Trump e da direita internacional e re-
Introdução
gional orientada a uma nova modalidade de golpe de Estado
. Na sociologia política há duas questões centrais para des-
contra o governo de Nicolás Maduro na Venezuela, no início
tnnchar a constituição e o exercício do poder político em um
de 2019, criam novos cenários na situação política regionaL
momento histórico determinado. Sua formulação, mas não sua
resposta, é simples: quem detém opoder político e como o exerce?
A.imbricação destas questões é indispensável para alcançar
uma Justa avaliação dos temas apontados. Do contrário caso
se pri~il.egie uma das questões, sérios problemas podem ;urgir
na análise. Ao considerar apenas a segunda questão, pode-se
acabar ignorando os problemas referentes a quem forma o
bloc~ no poder e como se conforma a hegemonia estatal; ao
considerar apenas a primeira questão, abandona-se o tema das
formas de governo.
Aqui reside uma das principais limitações da chamada
teoria da transição
. - ou consolidação - demo craitilea, que
teve forte difusão nas análises políticas da América Latina
nas últimas décadas do século XXI. O interesse fundamen-

i Um dosh marcos
Wh' d dessa
. . teoria foi o trabalho de G .,O'Donnell P. Sc h"i mrtter e L .
ite ea , Transiciones desde un gobierno autoritario. Buenos Aires: Paidós,

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