Você está na página 1de 8

09/05/2020 Acórdão do Tribunal da Relação de Évora

Acórdãos TRE Acórdão do Tribunal da Relação de


Évora
Processo: 1055/19.0T8STR.E1
Relator: CONCEIÇÃO FERREIRA
Descritores: DIVÓRCIO SEM CONSENTIMENTO DO OUTRO CÔNJUGE
COMUNHÃO CONJUGAL
Data do Acordão: 27-02-2020
Votação: UNANIMIDADE
Texto Integral: S
Sumário: 1 - Dada a importância atualmente atribuída aos afetos para o bem-estar das pessoas,
passou a considerar-se que em caso de persistente desentendimento no casamento, os
cônjuges não devem ser obrigados a manter o vínculo a qualquer preço.
2 - E sempre que a modalidade do mútuo acordo não seja possível e não haja
consentimento de uma das partes, a lei procura assentar em causas objetivas a
demonstração da rutura da vida em comum e a vontade de não a continuar.
Decisão Texto Integral: Apelação n.º 1055/19.0T8STR.E1 (2ª Secção Cível)

ACORDAM OS JUÍZES DA SECÇÃO CÍVEL DO TRIBUNAL DA


RELAÇÃO DE ÉVORA

No Tribunal Judicial da Comarca de Santarém (Juízo de Família


e Menores de Tomar - Juiz 2) (…) instaurou contra (…) ação
especial de divórcio sem consentimento do outro cônjuge,
pedindo se decrete o divórcio entre ambos.
Como sustentação do peticionado, alega, em síntese:
- A. e R. contraíram casamento recíproco em 3 de Setembro de
1994;
- Presentemente, apesar de viverem na mesma casa há vários
anos que não existe comunhão de vida entre ambos;
- O R. destituiu a autora da gerência da empresa, da qual são
sócios, retirou-lhe ordenado, cancelou os seus cartões, relativos
à empresa e levantou saldos das contas bancárias, deixando-a,
em consequência, sem meios económicos para sustentar a
família.
Realizou-se tentativa de conciliação, não se tendo logrado uma
reconciliação ou um acordo para o divórcio por mútuo
consentimento.
Em contestação, o R. afirmou que o casal vive na mesma casa
e fazem vida normal, assegura todas as despesas do agregado
familiar e entrega € 400,00 à A. todos os meses.
Procedeu-se a audiência final, sendo proferida sentença que
julgou a ação procedente e, em consequência, decretou a
dissolução do casamento entre autora e réu.

Não se conformando com a decisão, foi interposto pelo réu o


presente recurso de apelação no qual apresentou alegações,
terminando por formular as seguintes conclusões, que se
passam a transcrever:
“A - Os factos dados como provados são insuficientes para decretar o
divórcio entre as partes;
B - Para preenchimento da cláusula geral da alínea d) do artigo 1781º do
www.dgsi.pt/jtre.nsf/134973db04f39bf2802579bf005f080b/491187f9fdd27ac780258535002fb3bf?OpenDocument 1/8
09/05/2020 Acórdão do Tribunal da Relação de Évora

Código Civil, é necessário que os factos apurados sejam graves, de forma


reiterada e que só por si sejam impeditivos da vida em comum;
C - A destituição de gerência e a oferta de um contrato de trabalho não
são demonstrativos de qualquer falta de confiança entre o casal, nem se
apurou em concreto a que se deveu, sendo que o Juiz a quo acrescentou a
interpretação sem apoio em qualquer facto provado ou instrumental.
D - Houve violação da interpretação do artigo 1781º do Código Civil, que
devia ser interpretado no sentido de ser considerada uma exigência maior
dos factos provados demonstrativos da rutura da vida em comum.
E - Os factos provados que só por si seriam motivo de divórcio, a falta de
coabitação de cama e mesa, não podem operar por não ter decorrido o
prazo de um ano imposto por Lei.”
+

Foram apresentadas contra-alegações, nelas se pugnando pela


confirmação do julgado.

Cumpre apreciar e decidir

O objeto do recurso é delimitado pelas suas conclusões, não


podendo o tribunal superior conhecer de questões que aí não
constem, sem prejuízo daquelas cujo conhecimento é oficioso.

Tendo por alicerce as conclusões, a questão essencial a


apreciar circunscreve-se à verificação da existência de
pressupostos para o decretamento do divórcio entre autora e ré.

Na 1ª instância foi considerada provada a seguinte matéria de


facto:
1) Em 3 de Setembro de 1994, A. e R. casaram entre si, sem convenção
antenupcial;
2) Desde pelo menos Janeiro de 2018 que A. e R. vivem na mesma
casa, mas não dormem no mesmo quarto, por recusa daquela em fazê-
lo;
3) Pelo menos desde Novembro de 2018 que A. e R. não fazem
refeições juntos;
4) Pelo menos desde Janeiro de 2018 que a A. não pretende
restabelecer uma comunhão de vida com o R.;
5) Em 5 de Novembro de 2018, a A. foi destituída da gerência da
sociedade (…), Unipessoal, Lda.
6) Nessa altura, a A. viu cancelados os cartões bancários que detinha
associados a contas bancárias desta empresa;
7) Nessa altura, o R. apresentou à A. um contrato de trabalho por 6
meses para funções de caixeira na loja explorada pela empresa, o que
esta recusou;
8) A partir de 5 Novembro de 2018, a A. deixou de ter fundos nas
contas bancárias co-tituladas pelo casal;
9) O R. suporta todas as despesas com a prestação de crédito bancária
da casa e água, eletricidade, gás, telefone e internet desta;
10) Bem como as despesas com os filhos e a escola destes;
11) E entrega à R. todos os meses a quantia de € 400,00;
www.dgsi.pt/jtre.nsf/134973db04f39bf2802579bf005f080b/491187f9fdd27ac780258535002fb3bf?OpenDocument 2/8
09/05/2020 Acórdão do Tribunal da Relação de Évora

12) Em Fevereiro de 2019, o R. apenas entregou à A. a quantia de €


400,00;
13) A A. tem conta bancária apenas por si titulada;
14) A A. usa carros da empresa acima referida;
15) E vai de férias apenas com os filhos;
16) Esta ação foi intentada em 10-04-2019.

Foram considerados não provados os seguintes factos:


1. Desde pelo Janeiro de 2018 que o R. impede a A. de entrar no
estabelecimento comercial explorado pela sociedade comercial de
ambos;
2. A partir de 5 de Novembro de 2018, a R. deixou de receber
remuneração pela função de gerente.

Conhecendo da questão
A questão essencial que se coloca é a de saber se há
fundamento para ser decretado o divórcio por rutura definitiva do
casamento entre autora e réu.
Estamos em contexto de divórcio sem consentimento, na
terminologia da Lei nº 61/2008, de 31 de Outubro, cuja disciplina
de direito material se contém, primordialmente e ao que mais
aqui importa, nos artºs 1773º, nº 3, 1781º, 1782º e 1785º, todos
do C. Civil, na redação dada pela referida lei.
O divórcio pode ser por mútuo consentimento ou sem
consentimento de um dos cônjuges. O divórcio sem
consentimento de um dos cônjuges é requerido no tribunal por
um dos cônjuges contra o outro, com algum dos fundamentos
previstos no artº 1781º (artº 1773, nºs 1 e 3, do CC).
São fundamentos do divórcio sem consentimento de um dos
cônjuges, inerentes à rutura do casamento, a separação de
facto por um ano consecutivo (a); a alteração das faculdades
mentais do outro cônjuge, quando dure há mais de um ano e,
pela sua gravidade, comprometa a possibilidade de vida em
comum (b); a ausência, sem que do ausente haja noticias, por
tempo não inferior a um ano (c); quaisquer outros factos que,
independentemente da culpa dos cônjuges, mostrem a rutura
definitiva do casamento (d) – artº 1781º, do C Civil.
Entende-se que há separação de facto, para os efeitos da alínea
a) do artº 1781º, quando não existe comunhão de vida entre os
cônjuges e há da parte de ambos, ou de um deles, o propósito
de não a restabelecer – artº 1782º, do C. Civil.
O atual regime jurídico do divórcio, instituído pela Lei nº
61/2008, de 31/10, afastou/eliminou a culpa como fundamento
do divórcio sem o consentimento do outro cônjuge, e veio a
alargar os fundamentos objetivos da rutura conjugal, baseado,
sobretudo, no entendimento de que é difícil atribuir culpa apenas
a um dos cônjuges e que importa evitar que o processo de
divórcio, já de si emocionalmente doloroso, se transforme num
litígio persistente e destrutivo com medição de culpas sempre
difícil senão impossível de efetivar.
www.dgsi.pt/jtre.nsf/134973db04f39bf2802579bf005f080b/491187f9fdd27ac780258535002fb3bf?OpenDocument 3/8
09/05/2020 Acórdão do Tribunal da Relação de Évora

Dada a importância atualmente atribuída aos afetos para o bem-


estar das pessoas, passou a considerar-se que em caso de
persistente desentendimento no casamento os cônjuges não
devem ser obrigados a manter o vínculo a qualquer preço.
E sempre que a modalidade do mútuo acordo não seja possível
e não haja consentimento de uma das partes, a lei procura
assentar em causas objetivas a demonstração da rutura da vida
em comum e a vontade de não a continuar.
Assim, eliminada a modalidade de divórcio por violação culposa
dos deveres conjugais (divórcio-sanção), considerada, em si
mesma, fonte de agravamento de conflitos anteriores, com
prejuízo para os ex-cônjuges e para os filhos, o cônjuge que
quiser divorciar-se e não conseguir atingir um acordo para a
dissolução, terá de seguir o caminho do chamado (divórcio
rutura), por causas objetivas, designadamente a separação de
facto.
Com o regime atualmente vigente foram encurtados para um
ano os prazos de relevância dos fundamentos do divórcio sem
consentimento de um dos cônjuges.
Contudo, porque com o sistema do (divórcio rutura) se pretende
reconhecer os casos em que o vinculo matrimonial se perdeu
independentemente da causa desse fracasso, não há razão
para não admitir a relevância de outros indicadores fidedignos
da falência do casamento.
Daí ter sido acrescentada uma cláusula geral dando relevância
a outros factos que mostram claramente a rutura manifesta do
casamento, independentemente da culpa dos cônjuges e do
decurso de qualquer prazo (alínea d) do artº 1781º, do CC).
No caso dos presentes autos, a autora, pediu o decretamento
do divórcio contra o réu com fundamento no disposto nos artºs
1781º e 1782º, do C. Civil, ou seja, a separação de facto,
consubstanciada no facto de não partilharem cama e mesa há
vários anos e o propósito firme de não restabelecer a comunhão
de vida com o réu.
O Tribunal recorrido, entendeu que os factos provados permitem
considerar verificado o fundamento a que alude o artº 1781º,
alínea d), do C. Civil, expressa na seguinte motivação:
“No caso em apreço, apurou-se, de relevante, que: desde pelo
menos Janeiro de 2018 que A. e R. vivem na mesma casa, mas
não dormem no mesmo quarto, por recusa daquela em fazê-lo;
que pelo menos desde Novembro de 2018 que A. e R. não
fazem refeições juntos; que pelo menos desde Janeiro de 2018
que a A. não pretende restabelecer uma comunhão de vida com
o R.; e que em 5 de Novembro de 2018, a A. foi destituída da
gerência da sociedade (…), Unipessoal, Lda. e nessa altura o R.
apresentou à A. um contrato de trabalho por 6 meses para
funções de caixeira na loja explorada pela empresa, o que esta
recusou.
Os factos de que não dormem no mesmo leito e de que não

www.dgsi.pt/jtre.nsf/134973db04f39bf2802579bf005f080b/491187f9fdd27ac780258535002fb3bf?OpenDocument 4/8
09/05/2020 Acórdão do Tribunal da Relação de Évora

fazerem refeições juntos aponta para uma falta de uma


comunhão de vida entre as aqui partes. O R. não logrou
demonstrar matéria suscetível de os desvalorizar, enquanto
claros sinais de separação. Como tal, apenas se pode concluir
pela ausência daquela comunhão (vide ac. TRL de 21-02-2019,
acima referido).
Além disso, a própria circunstância da retirada à A. do cargo de
gerência da sociedade, de que o marido (R.) era sócio único,
aliada à apresentação, pelo R., de um contrato de trabalho, por
6 meses, para funções de caixeira na loja explorada pela
empresa, indicia fortemente uma quebra na comunhão de
interesses do casal e no seu plano de vida em igualdade, como
até aí vigorava, e era pressuposto pelo próprio casamento. Por
outro lado, tentar transformar a esposa, até aí “patroa”, numa
empregada de balcão, a par com as demais funcionárias,
representa uma desconsideração, atentatória do respeito que é
devido ao cônjuge. Também neste particular o R. não
demonstrou matéria apta a comprometer este sinal de rutura.
A ausência de comunhão de leito e de mesa persiste desde,
respetivamente, pelo menos Janeiro de 2018 e Novembro de
2018, sendo propósito da A. não restabelecer esta comunhão
desde Janeiro de 2018. Trata-se de uma cessação de cariz
duradouro, que face ao elemento subjetivo que o acompanha,
dá nota clara da irreversibilidade da quebra da comunhão
conjugal.
A inexistência da comunhão conjugal, constatada objetivamente,
durante certo período, é fundamento suficiente para o divórcio
enquadrado na cláusula geral do artigo 1781.º, alínea d), do
Código Civil, o que é perfeitamente coerente com a conceção do
casamento como plena comunhão de vida (vide, mais uma vez,
Ac.TRL de 21-02-2019, acima referido) (…)
Temos, pois, que deve proceder o pedido, tendo por base o
preenchimento da cláusula geral acima referida, com o
consequente decretar do divórcio entre as partes.”
Não obstante o Julgador “a quo” ter posto em evidência a rutura
da vida conjugal fazendo integrar a realidade factual apurada na
al. d) do artº 1781º do CC, é nossa convicção que a tal realidade
factual permite concluir pela verificação de uma situação de
separação de facto por mais de um ano consecutivo, o que
possibilita, desde logo, a inserção na causa de divórcio a que se
alude na al. a) do referido artigo, descartando, por isso, qualquer
argumentação que o recorrente apresenta (v. conclusão E) no
sentido de não estar provada a rutura do casamento assente em
qualquer outro facto não caraterizado nas alíneas a) a c) do
mesmo artigo.
É indiscutível que a nova lei adotou claramente a ideia do
divórcio-consumação ou divórcio-falência, ao afirmar o princípio
de que a dissolução do casamento pode sempre fundar-se na
rutura definitiva do casamento.

www.dgsi.pt/jtre.nsf/134973db04f39bf2802579bf005f080b/491187f9fdd27ac780258535002fb3bf?OpenDocument 5/8
09/05/2020 Acórdão do Tribunal da Relação de Évora

E também não sofre discussão que a previsão mencionada na


alínea d) não comporta o pedido de divórcio apenas por vontade
unilateral e infundamentado de um dos cônjuges, tendo de estar
demonstrados factos que consubstanciem à luz da normalidade
das relações entre duas pessoas, que se verifica uma rutura na
comunhão de vida entre elas.
Assim, o preenchimento do conceito indeterminado de “rutura
definitiva do casamento” implica que não se esteja perante
factos banais e esporádicos, mas é suficiente que se esteja
perante factos que demonstrem o comprometimento
consolidado da vida em comum, permitindo a lei que o causador
dessa rutura possa pedir com base nesses factos o divórcio.
(cfr. Ac. da RP de 14/02/2013, proc. 999/11.1TMPRT.P1, in
www.dgsi.pt).
Acompanhando o que se escreveu no Acórdão do STJ de
09/02/2012, no proc.819/09.7TMPRT.P1.S1, in www.dgsi.pt.,
diremos que “efetivamente, a Lei nº 61/2008, de 31 de Outubro,
limitou-se a aprofundar o modelo moderno de casamento, por
contraposição ao seu modelo tradicional, modelo esse que
“desvaloriza o lado institucional e faz do sentimento dos
cônjuges, ou seja, da sua real ligação afetiva, o verdadeiro
fundamento do casamento”, que passa a ser “tendencialmente”,
ou, no limite, antes que uma “instituição”, “uma simples
associação de duas pessoas, que buscam, através dela, uma e
outra, a sua felicidade e a sua realização pessoal” ideia que
justifica e propugna a dissolução jurídica do vinculo matrimonial
quando independentemente da culpa de qualquer dos cônjuges,
ele se haja já dissolvido de facto, e, sem esperança de retorno,
a possibilidade de vida em comum”.
Na sentença recorrida não se referiu expressamente que a
factualidade provada integrava a previsão da alínea a) do artº
1781º do C. Civil, não obstante se ter feito menção de que “a
circunstância de viverem na mesma casa não impede, só por si,
que se verifique uma separação de facto, pois o que releva é se
existe, em concreto, uma comunhão de vida entre os cônjuges
(Ac. TRL de 21-02-2019, Rel. Pedro Martins, dgsi.pt)”.
No entanto, como afirmámos, essa separação por mais de um
ano consecutivo, à data da propositura da ação (10/04/2019),
existe, uma vez que não obstante as partes viverem na mesma
casa, o certo é que pelo menos desde Janeiro de 2018 que não
dormem no mesmo quarto, por recusa da autora em fazê-lo, que
também desde essa data não pretende restabelecer uma
comunhão de vida com o réu, tendo, também, pelo menos
desde Novembro de 2018, ambos, deixado de fazer refeições
juntos. O facto de deliberadamente a autora a partir de certo
momento se recusar a dormir no mesmo quarto com o réu e de
a partir daí não mais pretender restabelecer a comunhão de vida
com ele é revelador da inexistência de comunhão de vida entre
ambos, quer no aspeto objetivo, traduzido na não comunhão

www.dgsi.pt/jtre.nsf/134973db04f39bf2802579bf005f080b/491187f9fdd27ac780258535002fb3bf?OpenDocument 6/8
09/05/2020 Acórdão do Tribunal da Relação de Évora

reiterada do leito, quer no aspeto subjetivo da parte do cônjuge


mulher, traduzido na firme intenção de não restabelecer a
comunhão, tal como foi dado como provado, situação, que à
data da propositura da ação, já existia há mais de um ano.
Mas mesmo, que não se verificasse uma situação de separação
de facto por mais de um ano consecutivo, diremos que em face
de todo o quadro factual se justifica o entendimento que o
Julgador “a quo” fez da situação e a respetiva integração na al.
d) do artº 1781º do CC.
Pois, nesta perspetiva a questão que se coloca é a de saber se
a rutura definitiva do casamento a que se alude na referida al. d)
pode ser demonstrada através da prova de quaisquer factos,
designadamente de factos passiveis de integrar as previsões
das alíneas a) a c) do referido normativo em interligação com
outros.
Numa visão formalista podíamos ser tentados a considerar que
tendo os factos sido alegados para integrarem a previsão da
alínea a) do artº 1781º (separação de facto há mais de um ano)
e não se provando integralmente essa factualidade,
designadamente por não se ter demonstrado a separação com
essa duração, estava afastada a possibilidade dessa
factualidade ser considerada para integrar a previsão da alínea
d) do mesmo artigo.
No entanto, funcionando a alínea d) como uma “cláusula geral”,
entendemos que não se justifica uma interpretação que
comporte essa exclusão.
Para se aferir se existe ou não uma rutura do casamento, o que
é relevante é que os factos provados sejam graves e reiterados
e demonstrativos que objetivamente e com caracter definitivo
deixou de haver comunhão de vida entre os cônjuges.
Quando essa separação tem a duração de um ano consecutivo,
o legislador presume iruis et de iure que a rutura definitiva do
casamento se consumou, não sendo necessário provar outros
factos mas da não prova do decurso desse prazo não se pode
tirar a ilação oposta, ou seja, que não há rutura definitiva (cfr o
citado Ac. da RP de 14/02/2013).
No caso em apreço tendo em conta os fundamentos explicitados
pelo Julgador “a quo”, reproduzidos supra e o facto de a autora
não ter qualquer propósito de restabelecer a vida com o réu,
devemos concluir pela falência do casamento, aliás, na linha de
pensamento do Projeto de Lei nº 509/X, que na respetiva
Exposição de Motivos, refere expressamente que, de acordo
“com o princípio da liberdade, ninguém deve permanecer
casado contra a sua vontade, incluindo quando considerar que
houve quebra do laço afetivo”.
Verificamos, que a situação de pelo menos desde Janeiro de
2018 não dormirem os cônjuges no mesmo quarto, por recusa
da autora em fazê-lo, que também desde essa data não
pretende restabelecer uma comunhão de vida com o réu, tendo,

www.dgsi.pt/jtre.nsf/134973db04f39bf2802579bf005f080b/491187f9fdd27ac780258535002fb3bf?OpenDocument 7/8
09/05/2020 Acórdão do Tribunal da Relação de Évora

também, pelo menos desde Novembro de 2018 deixado de


fazer refeições juntos, mesmo que se considerasse, que tal
quadro factual, não integrava o fundamento autónomo de
divórcio aludido na al. a) do artº 1781º do CC, não podia deixar
de relevar em conjunto com a atuação do réu no que concerne à
situação de retirar a autora da gerência da sociedade da qual
ambos são sócios, cancelando-lhe os cartões bancários que
detinha associados a contas bancárias da sociedade, exigindo a
sua passagem à situação de mera empregada,
“despromovendo-a” é desprestigiante e demonstrativa da falta
de consideração e respeito que aquele devota a esta, o que,
tudo conjugado, conduz a que estejamos perante uma reiterada
violação do dever de coabitação em todas as suas vertentes,
ressaltando indubitavelmente que os cônjuges deixaram de
assumir em conjunto as responsabilidades inerentes à vida da
família que fundaram, comprometendo a continuidade da vida
em comum.
Além disso, havendo por parte da autora uma vontade
irreversível de colocar um fim ao seu casamento, celebrado há
mais de 24 anos, perante a factualidade provada podemos
concluir que se encontra definitivamente comprometida e sem
esperança de retorno, a possibilidade de vida em comum entre
a autora e réu, deixando o casamento de constituir o centro da
realização pessoal da autora e que deixou de haver afeto entre
os cônjuges, sentimento a valorar em termos de reciprocidade.
Assim, mesmo que não se tivesse por preenchido o requisito da
separação de facto por mais de um ano, sempre teríamos de
concluir que a comunhão de vida entre a autora e o réu estava
posta em crise de forma definitiva, com quebra dos laços
afetivos e, por conseguinte, estaríamos perante uma situação de
rutura definitiva do casamento e não perante um pedido de
divórcio por vontade unilateral discricionária da autora, tendo-se
assim, também, por demonstrado o fundamento de divórcio do
artº 1781º, alínea d), do Código Civil, como foi entendido pelo
Julgador “a quo”.
Nestes termos, irrelevam as conclusões do recorrente sendo de
confirmar a sentença recorrida.

DECISÃO
Pelo exposto, julga-se improcedente a apelação interposta pelo
réu e, em consequência, confirma-se a douta sentença
recorrida.
Custas de parte pelo apelante.
Évora, 27 de Fevereiro de 2020
Maria da Conceição Ferreira
Rui Manuel Duarte Amorim Machado e Moura
Maria Eduarda de Mira Branquinho Canas Mendes

www.dgsi.pt/jtre.nsf/134973db04f39bf2802579bf005f080b/491187f9fdd27ac780258535002fb3bf?OpenDocument 8/8