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CANCIONEIRO DE LAMPIÃO

MORREU ONTEM EM SÃO PAULO, NAOMI MUNAKATA (1955), uma das


principais regentes do Brasil. vítima do coronavirus. Começo a escrever este texto
ouvindo o Cancioneiro de Lampião (1980), composta por Marlos Nobre e , na versão
que escuto, regido por Munakata . O encontro das vozes nos apresenta um Brasil que
sonhamos, um Brasil da delicadeza, da aposta na arte, na cultura, no encontro, na
história, na memória, na solidariedade, no respeito, na esperança. ” Olê muié rendera...”
o som do nordeste, trazendo o ar do SERTÃO que inunda o Brasil e que devemos nos
orgulhar, sobretudo pela força de resistência da história de um povo construída diante
de tantas adversidades. Eu,particularmente, sei destas adversidades, pois sou filho de
um cearense que com 15 anos teve que deixar o Ceará para lutar por uma vida melhor.
Ouvir esta música conduzida por Munakata, conecta-me com os fios desta história, um
tecido da vida que vamos inventando, sem saber ao certo, onde chegaremos.
Travessias... Naomi nasceu em Hiroshima , ainda sob a sombra de uma bomba atômica.
Com dois anos atravessou o oceano de navio vindo com seu pai, também regente,
Motoi Munakata. Durante a travessia seu pai montou um coral com os passageiros e,
assim, trouxe a semente da música para sua filha e para nosso país. Isto se chama
transmissão. A cada perda dolorosa como esta aumenta nossa responsabilidade com
tudo o que nos conecta com a VIDA. Estamos todos contaminados, intoxicados com o
desprezo pela vida em cada ato e palavra deste capitão reformado que envergonha
nossa história. O vírus desafia todas as nações do mundo, revelando de forma cristalina
o quanto as estratégias de combate contra ele mostram os valores que estão em causa.
Por aqui, o capitão, nos chama para o sacrifício da vida , incentivando, convocando as
pessoas a saírem às ruas e voltar a trabalhar, contrariando as politicas de todas as nações
do mundo e as indicações da OMS (Organização Mundial da Saúde) para que
busquemos, neste momento, o isolamento social da forma mais radical possível. Os
profissionais de saúde que estão nas UTIS lotadas pelo mundo tem feito alertas
preocupantes para que sigamos este caminho. A fala do capitão colocou milhares de
pessoas na rua que estavam cumprindo voluntariamente a quarentena, pois seguem a
risca o que ele diz, mesmo se a direção for o abismo. Este país tem uma história de
abismos, de desigualdades, de violências. Sem uma memória deste passado não teremos
nenhuma chance. Por sorte, todos os governadores e centenas de prefeitos, tem atuado
na direção contrária, pois como escreveu Byung Chul Han, “ o vírus não pode substituir
a razão”.

Ontem no dia em que o Brasil perde Munakata, na mesma tarde, em Brasília ouvimos
do capitão a seguinte declaração quando o repórter compara a situação do Brasil com a
dos Estados Unidos no combate ao coronavirus. Ele diz:

"Eu acho que não, não vamos chegar a esse ponto [tantos casos quanto os Estados
Unidos], até porque o brasileiro tem que ser estudado. O cara não pega nada. Eu vi um
cara ali pulando no esgoto, sai, mergulha... Tá certo?! E não acontece nada com ele".

Para os incrédulos segue o vídeo desta declaração:


https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/03/26/brasileiro-pula-em-esgoto-e-nao-acontece-
nada-diz-bolsonaro-em-alusao-a-infeccao-pelo-coronavirus.ghtml
Quanto desprezo pela vida! Mais do que nunca precisamos nos proteger destas
intoxicações de palavras e buscar estratégias de sobrevivência e resistência. Uma delas
tem sido esta resposta maciça de ficarmos em casa. Nem todos podem, mas o quanto
mais conseguirmos mais chance teremos de evitar o pior. É a hora também de sermos
solidários e pensarmos naqueles que tem que pular o esgoto. Há muitas redes solidárias
que se espalham pelo Brasil. Entre em uma delas, em algum momento, colabore. Este
gesto fará história. A urgência do momento intoxicou o meu texto em homenagem a
Munakata. Não queria falar aqui em gente “pulando esgoto e que não pega nada”. Mas
acho que homenageá-la é continuar batendo na mesma tecla. #fiqueemcasa. Este é o ato
político do momento. Temos que ter a coragem de estar a altura do desafio
compartilhado e preservar a vida. Assim teremos todos a chance, neste outro dia que
virá, de sairmos a rua para celebrar a vida e para protestar contra este desastre que
desgoverna esta nação.

Mas voltemos, um pouco a delicadeza que nos ajuda a respirar, gesto que vamos
precisar cultivar em nosso refúgio, buscando as preciosidades que a cultura deste pais
produziu, na literatura, no cinema, na música, na arte, na dança. Deixo a gravação do
Cancioneiro de Lampião com o Coral Jovem de São Paulo e regido por Munakata.
Ouvi-la será nossa homenagem e ela. Escutem no link abaixo

https://www.youtube.com/watch?v=KLYnFt9n8vk

Cancioneiro de lampião