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Kapuscinski: guia para

artigo internacional
uma análise crítica das
notícias sobre conflitos
internacionais
Dolors Palau Sampio
Doutora em Jornalismo pela Universidade Autônoma de Barcelona.
Professora de Jornalismo da Universidade de Valência, Espanha.
E-mail: dolors.palau@uv.es

Resumo: Este artigo propõe, através da Abstract: This paper deals about a critical
obra do jornalista Ryszard Kapuscinski, approach to international conflicts infor-
uma aproximação crítica à cobertura dos mation, according to Ryszard Kapuscinski’s
conflitos internacionais. Após defender uma work. After claiming for a media’s educa-
educação para os meios de comunicação, tion, it proposes the necessity of reflecting
mostra a necessidade de se refletir sobre as on news’ treatment limitations. In conse-
carências e limitações desse tipo de trata- quence, it also incorporates Kapuscinski’s
mento da informação. Para tanto, toma os texts as a model of an hybrid journalism
textos de Kapuscinski como pedra de toque that combines different genres and disci-
de um jornalismo que mescla disciplinas e plines, in order to offer a comprehensive
gêneros, que vai além das cifras inumanas information over the merely statistics data,
e do impacto pontual, para descobrir as discovering the deep and real reasons of
verdadeiras raízes de tais conflitos e dar these conflicts.
voz e rosto às suas realidades humanas.
Keywords: information treatment, conflict,
Palavras-chave: imprensa, cobertura de Third World, literacy and journalism.
conflitos, Terceiro Mundo, jornalismo e
literatura.

Nos anos de 1960 e 1970, Ryszard Kapuscinski (Pinsk, Bielorrússia, 1932/


Varsóvia, Polônia, 2007) cobriu, como correspondente da Agência de Imprensa
Polonesa (Polska Agencja Prasowa), o processo de descolonização do continente
africano; no início da década de 1980, reconstituiu a queda do Xá no Irã, após
a revolução islâmica de Khomeini, e, na de 1990, testemunhou a desintegração
da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas –, em repúblicas inde-
pendentes. Atualmente, os países sobre os quais o jornalista testemunhou, os
conflitos aos quais deu voz e rosto, continuam ocupando ainda as páginas dos
jornais, como se o tempo houvesse passado em vão. República Democrática do Recebido: 04.12.2008
Congo, Uganda, Ruanda, Nigéria, Etiópia, Irã, Chechênia e Cazaquistão, entre Aprovado: 03.02.2009

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outros, surgem esporadicamente na capa dos jornais como protagonistas de lutas


1. Destacam-se, em es- armadas, atos terroristas e escassez de alimentos; porém, com fre­quência, apa-
panhol, os seguintes tí-
tulos El Sha (O Xá); El recem reduzidos à frieza dos dados, traduzidos sob a forma de cifras inumanas
Emperador (Ed. bras.: O que só fazem alimentar os estereótipos, estigmatizar as pessoas e impermeabi-
Imperador: a queda de
um autocrata. Tradução: lizar as consciências de leitores e espectadores do hemisfério norte-ocidental.
Tomasz Barcinski. São Entretanto, ante essa espetacularização de impacto, desativadora, que se impôs
Paulo: Companhia das
Letras, 2005. 200 p.); La na imprensa, a qual busca tão só a emoção do momento e anula a reflexão,
guerra del fútbol (Ed. existem também, no campo do jornalismo, olhares compreensivos sobre os
bras.: A guerra do fu-
tebol. 1. ed. São Paulo: conflitos do mundo. Um deles é o olhar de Kapuscinski, empenhado em trazer
Companhia das Letras,
2008. 280 p.); El Imperio
à luz as raízes profundas que alimentam esses conflitos, sem esquecer que, por
( Ed. bras.: Imperium. trás dos números, ocultam-se realidades humanas.
Tradução: Ana Lúcia Mi-
kosz, Kenneth Hacynski
A obra de Kapuscinski1 constitui uma referência, um modelo de jornalismo
da Nóbrega. São Paulo: ético, responsável e intencional diante do distanciamento supostamente objeti-
Companhia das Letras,
1994. 320 p.); Ébano vo, comprometido em romper as fronteiras de uma mentalidade eurocêntrica
(Ed. bras.: Ébano: minha para dar conta do outro, a partir da complexidade de suas circunstâncias. Um
vida na África. Tradução:
Tomasz Barcinski. São jornalismo documentado e analítico, consciente, que renuncia ao tratamento
Paulo: Companhia das epidérmico, tecido, além do mais, com o vime da melhor literatura, o da palavra
Letras, 2002. 360 p.); Un
día más con vida o Viajes precisa. Nesse sentido, o trabalho do jornalista polonês torna-se interessante
con Heródoto (Ed. bras.: como material didático, não apenas pela transversalidade curricular que permi-
Minhas viagens com He-
ródoto: entre a história e te, como também pela variedade de propostas pedagógicas que pode inspirar.
o jornalismo. Tradução:
Tomasz Barcinski. São
Paulo: Companhia das
Letras, 2006. 312 p.); além
de coletâneas de artigos
A necessidade de educar para
(Lapidarium IV); reflexões
(Los cinco sentidos del
os meios de comunicação
periodista – estar, ver,
oír, compartir, pensar), em
A preocupação da escola com os meios de comunicação foi aumentando à
coedição com o Fondo medida que tais meios – principalmente a televisão – ganhavam peso e tempo
de Cultura Económica e
Fundación para un Nuevo
no processo de socialização, em detrimento de uma instituição escolar que
Periodismo Iberoamerica- não só “não é a única que intervém no processo de educação, como ainda,
no (Ciudad do México,
2004. 90 p.); e o livro- com frequência, nem sequer é ‘a mais influente’”2. A necessidade de estudar os
-entrevista Los cínicos no meios de comunicação de massa em distintas etapas da educação começou a se
sirven para este oficio
(Ed. port.: Os cínicos manifestar há quatro décadas, mas somente em meados de 1980 foi outorgado
não servem para este à escola o papel de desenvolver os modos de interpretação e as ferramentas
ofício. Tradução: Sandra
Escobar. Lisboa: Relógio de pensamento que permitissem ao aluno selecionar, analisar e dar sentido à
d’Água, 2008). informação recebida3.
2. SANCHO, J. M. Medios Area Moreira recorre a três suposições que sustentam a integração curri-
de comunicación, socie-
dad de la información, cular da educação para os meios de comunicação: a poderosa influência dos
aprendizaje y comprensi- meios na configuração de valores e atitudes, a escassa atenção das escolas a esse
ón: piezas para un rompe-
cabezas. In: BALLESTA, J.; fenômeno e a contribuição à formação democrática dos cidadãos4. As propostas
SANCHO, J. Maria; AREA
MOREIRA, M. Los medios
lançadas nos últimos tempos incidem sobre estes aspectos, conscientes de que
de comunicación en el os meios de comunicação são um espaço e um motor de poder em escala mundial e
currículum (Os meios de
comunicação no currículo).
que apenas mediante uma atitude crítica e seletiva, configurada desde os primeiros
Múrcia: KR, 1998. p. 19. anos de educação, será possível colocar a nosso serviço as funções de tais meios5.
3. Ibid., p. 37. Domingo vai além e fala em “alfabetizar criticamente”6 na linguagem dos meios

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de comunicação, superando as atrações exacerbadas e as fobias que podem


suscitar as tecnologias da comunicação.
O desafio é desenvolver estratégias motivadoras para envolver os alunos
nos processos de análise dos valores, intenções e estratégias de comunicação,
que os transformam em agentes da própria educação e não mais em meros
objetos dela. Por este ponto de vista, Domingo sustenta que o valor pedagógi-
co não é intrínseco aos meios de comunicação, já que é dado pelo contexto
metodológico: como objeto de estudo, para conhecer seu funcionamento;
como suporte de informação e recurso didático, para aprender com a mídia,
e como meio de expressão e criação7. A isso se deve acrescentar uma quarta
linha: seu uso como material linguístico, através da observação ou análise de
suas características textuais8.
Area Moreira afirma que a opção de formação mais promissora é a in-
trodução do uso crítico dos meios de comunicação como tema transversal em
todo o currículo, posto que isto possibilitaria a superação das limitações das
disciplinas tradicionais, ao passo que conecta a aprendizagem em sala de aula
com a experiência cotidiana dos alunos9.

Conhecer os meios de comunicação


e seu funcionamento
A primeira condição para a realização de uma leitura crítica dos meios de 4. AREA, M. La educación
para los medios de comu-
comunicação é conhecer as suas características formais, isto é, alfabetizar os nicación en el currículum
estudantes – neste caso – no domínio da linguagem da imprensa escrita. Isso escolar (A educação para
os meios de comunicação
implica introduzir as chaves para o entendimento dos mecanismos de pesquisa, no currículo escolar). In:
seleção e hierarquização das informações, bem como a plasmação destas na su- BALLESTA, J.; SANCHO,
J. Maria; AREA MOREIRA,
perfície da publicação – algo fundamental em uma seção como a internacional, M. Los medios..., cit., p.
49-52.
em que a falta de cobertura da mídia condena muitos países à invisibilidade,
da qual, frequentemente, apenas surgem quando ocorre uma catástrofe. Para 5. CASSANY, D.; LUNA,
M.; SANZ, G. Ensenyar
tanto, em uma aproximação do geral ao particular, é necessário compreender llengua (Ensinar língua).
Barcelona: Graó, 1993.
a distribuição do jornal em seções, em características e funções dos gêneros p. 521.
que estão presentes nelas e como estão configuradas, desde a confecção das 6 DOMINGO, J. Educar
manchetes até a extensão do texto, passando pela estrutura deste ou a presença ciudadanos críticos con
los medios de comuni-
de fotografias. Um segundo nível de leitura comparada ou em profundidade cación (Educar cidadãos
exigiria o detalhamento das fontes de informação, o léxico empregado ou os críticos com os meios de
comunicação), Comuni-
elementos que refletem uma interpretação mais ou menos explícita. car, n. 21, p. 104, 2003.
Entretanto, como aponta Area Moreira10, não basta um enfoque gramaticalista, 7. Ibid.
que ensine a identificar o que é uma notícia e um artigo opinativo, tampouco é 8. CASSANY, D.; LUNA,
suficiente um enfoque centrado na tecnologia ou nas dimensões técnico-materiais, M.; SANZ, G. Ensenyar
llengua, cit., p. 528.
no manejo dos equipamentos – que muitas vezes tem dominado a educação
9. AREA, La educación
para os meios audiovisuais; é antes necessária a complementaridade de ambos para los medios…, cit.,
os enfoques, através de uma abordagem de caráter socioideológico, destinada a p. 53-55.
identificar e explicitar as mensagens difundidas. Portanto, uma educação para 10. Ibid., p. 59-62.

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os meios de comunicação deveria ser implantada de acordo com um modelo


que desenvolvesse os seguintes conceitos:
1) Todos os meios de comunicação são fabricações.
2) Todos os meios de comunicação constroem uma realidade.
3) Os públicos constroem o significado dos meios de comunicação.
4) Os meios de comunicação têm implicações comerciais.
5) Os meios de comunicação contêm mensagens ideológicas e de valores.
6) Os meios de comunicação têm implicações sociais e políticas.
7) Os meios de comunicação possuem uma forma estética única,
intimamente relacionada com seu conteúdo11.
Aparici, por sua vez, defende uma metodologia que integre as perspectivas
anteriores e incorpore uma nova, a da produção: “Teríamos que colocar os alu-
nos em situação de comunicação. Não somente para realizarem uma produção,
mas também para que a analisassem como emissores quanto à forma, o fundo,
os objetivos, o público etc.”12.
Em torno de tais reflexões, foram lançadas várias propostas de trabalho
em sala de aula, seguindo, em grande medida, o rastro das reflexões teóricas
de Masterman13, fundamentalmente a partir dos meios audiovisuais. No caso
da mídia escrita, surgiram propostas, entre outras iniciativas, de oficinas de
11. Ibid., p. 71. jornalismo ou de elaboração de um jornal escolar14, e até aquelas centradas no
12. APARICI, R. La en- tratamento das informações, seja para analisá-las em profundidade, reescrevê-
señanza de los medios -las, seja para estabelecer um debate sobre os temas abordados. É o caso das
(O ensino da mídia). Cua-
dernos de Pedagogía, n. atividades sugeridas por Ventura e Bueno15, destinadas a promover a educação
241, p. 12, 1995. em valores, ou por Bastida e Tribó16, sobre a guerra e o desenvolvimento.
13. MASTERMAN, L. La
enseñanza de los medios
de comunicación (O ensi-
no dos meios de comuni-
cação). Madrid: Ediciones
Uma obra na fronteira entre o jornalismo
de la Torre, 1993. e a literatura
14. MORERA, M. El perió­
dico, un proyecto didácti- Kapuscinski, bacharel em História pela Universidade de Varsóvia e estudante
co, social e individual (O de Jornalismo na Polônia, estreou como correspondente em 1956, na Índia, e
jornal, um projeto didá-
tico, social e individual). durante um quarto de século foi testemunha de exceção dos principais aconte-
Cuadernos de Pedago- cimentos políticos sociais da África, Ásia e América Latina. Desde essa época, o
gía, n. 267, p. 38-41, 1998.
repórter polonês tem transformado sua rica experiência em livros que mesclam
15. V ENTUR A , J. A . ;
BUENO, F. G. Valores, o melhor da literatura e do jornalismo, em relatos de não ficção nos quais se
a través de la prensa apaga a linha que separa gêneros e disciplinas, em textos que se apresentam
(Valores, através da im-
prensa). Cuadernos de como reportagem e crônica, mas também como ensaio, e no qual se fundem
Pedagogía, n. 248, p.
42-46, 1996.
a História e a Sociologia. As razões que motivaram essa escrita são as que dão
sentido à escolha de suas obras como proposta didática:
16. BASTIDA, A.; TRIBÓ,
G. Guerra y subdesarrollo.
O el caso de Somália Conheci os países do Terceiro Mundo como correspondente de uma agência
(Guerra e subdesenvol- polonesa e enviava notícias constantemente. Disse para mim mesmo: isto que eu
vimento ou o caso da estou escrevendo não reflete a realidade. Nas notícias dos jornais operamos entre
Somália). Cuadernos de
Pedagogía, n. 249, p. 600 e 800 palavras. É uma linguagem pobre e superficial, incapaz de refletir o
84-87, 1996. que se escuta e o que se sente. Então comecei a escrever meus livros passo a

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passo, como se fossem um segundo volume de tudo o que havia escrito como
correspondente durante anos. Nesse segundo volume escrevi o que não havia
podido contar no primeiro [...]. Nunca me preocupei em saber qual era o gênero
que eu estava usando para contar o que queria17.

As obras de Kapuscinski não são meras compilações de textos procedentes


de jornais, mas a reescrita daquelas experiências que, liberadas das amarras
expressivas da imprensa (espaço, impessoalidade, funcionalidade...), vieram à
luz através da hibridação de gêneros, da narração literária dos fatos de não
ficção, do relato poético sujeito às normas da referencialidade jornalística. Pre-
cisamente nisso reside seu valor como pedra de toque para a promoção de uma
leitura crítica do tratamento que os meios de comunicação dão aos conflitos
internacionais, como contraponto para conhecer outra forma de jornalismo,
como espelho no qual contrasta o discurso informativo tradicional.
Este artigo propõe, dando um passo além da análise habitual da mídia
no contexto escolar, uma reflexão aprofundada sobre as próprias limitações
expressivas da imprensa, no momento de informar fatos distantes geográfica e
culturalmente, e, ao mesmo tempo, sobre as difusas fronteiras entre jornalismo
e literatura. Bastida, Bordons e Rins18 destacam a capacidade do texto literário
como instrumento para a abordagem das consequências dos conflitos armados,
na medida em que implica um modo de ver as coisas com os olhos do outro.
Todos esses elementos conferem à obra de Kapuscinski um valor agrega-
do como material didático na área de Literatura, já que não somente permite
incorporar ao currículo textos excluídos tradicionalmente do cânone – apesar
de que, neste caso, tenham circulado originalmente como livro –, mas também
porque ela oferece uma referência interessante para analisar os recursos que
intervêm na construção do relato. Os textos propostos unem os ingredientes
necessários para aceder às competências literárias que devem ser adquiridas, 17. Entrevista de Ryszard
Kapuscinski, em El País
de acordo com Bertochi, no Ensino Médio, quais sejam, as de tipo afetivo, Semanal, 5 jan. 2003.
cognitivo, linguístico e metalinguístico19. 18. BASTIDA, A.; BOR-
Os objetivos afetivos, centrados no gosto pela leitura ou na tomada de cons- DONS, G.; RINS, S. Fer
reflexionar sobre els con-
ciência do significado do texto literário – através das sensações experimentadas flictes del món a partir de
la literatura (Para refletir
–, vêm da mão de um dos relatos que, apesar de não estarem entre os que sobre os conflitos do
costumeiramente são lidos pela maioria dos adolescentes, podem ser sedutores mundo a partir da litera-
tura). In: BORDONS, G.;
por seu componente do acaso, do épico, nas ocasiões de risco, inerentes ao DÍAZ-PLAJA, A. (Coor-
trabalho do correspondente em zonas de conflito. Neste caso, o caráter auto- ds.). Ensenyar literatura
a secundària (Ensinar lite-
biográfico das experiências, devidamente introduzido pelos docentes, pode ser ratura no Ensino Médio).
um trunfo a favor do interesse dos alunos. Barcelona: Graó, 2004.
p. 71-94.
Os objetivos cognitivos estão presentes em tudo o que implica a aquisição
19. Apud: LLUCH, G. Del
de habilidades propriamente literárias – previsão, inferência, comparação etc. relat audiovisual al literari
–, mas também, dadas as características da obra, na provisão de conhecimentos (Do relato audiovisual ao
relato literário). In: BOR-
geográficos, históricos e antropológicos, desde a localização dos países até seus DONS, G.; DÍAZ-PLAJA,
A. (Coords.). Ensenyar
condicionantes físicos, sua estrutura social ou sua evolução política ao longo literatura a secundària,
do tempo. cit., p. 140-142.

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Através da narrativa de Kapuscinski, também é possível alcançar os obje-


tivos linguísticos e metalinguísticos propostos, relativos à estrutura do texto e
aos elementos que compõem a construção literária, desde a caracterização dos
personagens e cenários, até a configuração da trama, o tipo de narrador e o
ponto de vista. Essa análise pode ser enriquecida se for abordada sob a ótica
das sinergias entre jornalismo e literatura, de como as ferramentas desta última,
longe de trazer artificialidade, contribuem para que o jornalismo seja capaz de
maior reflexão, de maior precisão na abordagem das realidades expostas, supe-
rando a linguagem pobre e artificial à qual se referia o jornalista. Como indica
Chillón, Kapuscinski cultiva um tipo de jornalismo literário inclassificável, que:
[...] conjuga, em uma simbiose inédita, as técnicas documentais próprias do
jornalismo investigativo, o exercício de observação característico da crônica e a
procura de uma espécie de verdade poética transcendente, mediante procedimentos
de fabulação mais próximos da lenda, do apólogo e do conto que do romance
realista e das limitações inerentes à simples verdade documental20.

Proposta de trabalho em sala de aula


Se uma das prioridades é a formação crítica e expressiva para a abordagem
da complexidade dos conflitos do Terceiro Mundo, o primeiro passo deverá ser
a familiarização com a seção internacional, na qual aparecem publicadas as
informações a serem analisadas. Portanto, deverá ser feita uma pesquisa e um
esquema dos textos publicados, para ver a presença, em termos quantitativos,
dos diferentes países, os conteúdos que despertam interesse informativo e por
quanto tempo eles mantêm tal interesse. Além disso, é interessante introduzir
uma caracterização dos diversos gêneros que aparecem publicados, isto é, se
se trata de notícias de agências, de crônicas de um correspondente, de repor-
tagens que oferecem uma visão de conjunto ou de artigos opinativos, e de que
modo cada um deles contribui para a configuração da realidade apresentada.
Nesse ponto, será possível identificar uma série de problemas coincidentes nos
vários países que enfrentam conflitos bélicos ou sociais; será possível ainda,
através dos elementos trazidos, estabelecer um termo de comparação entre o
tratamento da imprensa diária de informação geral e aquele que é dado pelo
jornalista polonês.
A segunda fase começaria com a leitura de alguma das obras de Kapuscinski,
apesar de que, dada a estrutura aberta, é admissível optar pela combinação de
20. CHILLÓN, A. Litera- diferentes capítulos, seguindo alguma relação temática ou geográfica. A atenção
tura y periodismo. Una deve centrar-se principalmente em responder a duas questões intimamente liga-
tradición de relaciones
promiscuas (Literatura e das: o que conta o jornalista? E, sobretudo, de que forma ele conta? Se a pergunta
jornalismo: uma tradição
de relações promíscuas).
inicial coloca em questão os pontos de atenção do correspondente, a segunda
Bellaterra: Universitat Au- permite o aprofundamento no tratamento dos gêneros e na fronteira entre
tònoma de Barcelona/
Servei de publicacions.
jornalismo e literatura. Nesse sentido, o objetivo é identificar quais recursos
1999. p. 305. ele utiliza e de que modo estes, distantes do que é habitual no jornalismo de

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informação geral, ajudam a entender melhor uma realidade complexa e des-


conhecida. Em Ébano 21, por exemplo, elementos próprios do discurso literário
tornam-se centrais, como a descrição de ambientes e de personagens, a recriação
de diálogos e situações, ou a apreciação do detalhe, através do olhar direto do
cronista que conhece em primeira mão aquilo que conta e é capaz de incorpo-
rar à voz daqueles que habitualmente não a tem no jornalismo convencional.
Entretanto, longe de transformar seu relato em uma coleção de histórias ou
de impressões soltas, Kapuscinski mostra habilidade em transcender o detalhe
com a capacidade de observação de um antropólogo, com a contextualização
lúcida de um historiador ou a precisão analítica de um ensaísta. Tudo isso para
oferecer uma rica tapeçaria, distante de uma visão esquemática e simplificadora,
que encontramos diariamente na mídia.
A tudo isso se pode somar uma última etapa que transforme o estudante
em narrador dessa realidade que Kapuscinski aborda em suas obras, através
do contato com quem viveu essas experiências em primeira pessoa. Trata-se de
colocar os alunos em situação de comunicação, como diz Aparici22, para escrever
uma reportagem na qual devem estar refletidos a bagagem e os dados reuni-
dos. Com esta proposta, completa-se um ciclo que vai da pesquisa e análise da
informação ao conhecimento direto das realidades midiáticas; da leitura e do
debate teórico à reflexão e plasmação pela escrita na reportagem; da experiên-
cia de pessoas deslocadas por conflitos – que até então careciam, pelo menos
a maioria delas, de voz e rosto – a suas últimas consequências.

Referências bibliográficas
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e subdesenvolvimento ou o caso da Somália). Cuadernos de Pedagogía, n. 249,
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món a partir de la literatura (Para refletir sobre os conflitos do mundo a partir da
literatura). In: BORDONS, G.; DÍAZ-PLAJA, A. (Coords.). Ensenyar literatura a
secundària (Ensinar literatura no Ensino Médio). Barcelona: Graó, 2004. 21. KAPUSCINSKI, Ryszard.
Ébano, cit.
CASSANY, D.; LUNA, M.; SANZ, G. Ensenyar llengua (Ensinar língua). Barcelona: 22. APARICI, La enseñanza
Graó, 1993. de los medios, cit.

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