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SUMO ANTOLOGIA 2019.

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antologia

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Sumo
Organização: Cristiana Seixas

Coleção Biblioterapia

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Adriana Gandelman

O Pescador de Copacabana

Todo final de tarde era assim. Ele caminhava por aquela longa faixa
de areia que divide o calçadão de Copacabana e a beira do mar. Carre-
gava sua vara de pescar com a mão direita e, na esquerda, um balde azul
desbotado e uma pequena caixa com os acessórios necessários: as iscas,
os pesos, as carretilhas, as linhas e os anzóis. Depois de escolher cuida-
dosamente o melhor lugar para se instalar, fazia as últimas verificações e
lançava distante aquele pequeno ponto de interrogação invertido no ar,
aguardando a resposta que o mar lhe traria. Só aí estava pronto para se
entregar àquele exercício silencioso de paciência.
E era então que sua mente começava a divagar. Navio sem rumo.
Viagem ao desconhecido. Sabia por onde começava aquela jornada, mas
nunca onde terminaria.
Ainda se lembrava da primeira vez que seu pai o havia levado para
pescar. Era um final de tarde na primavera. Tinha acabado de completar
oito anos e o pai avaliou que já era grande o suficiente para empunhar sua
primeira vara de pesca. A emoção de poder estar ali, sozinho com aquele
pai normalmente tão calado e retraído, não cabia em palavras. Filho de
português, aprendeu a ser duro e esconder seus sentimentos, o que lhe
rendeu na vida adulta a impressão de ser um sujeito bastante insensível,
com coração de pedra.
Ele lhe ensinou tudo o que sabia: os nomes dos peixes da região, qual
a isca adequada para cada um, o tipo de linha e anzol a serem usados, o
horário ideal para encontrá-los, enfim, tudo o que conhecia sobre pesca
aprendeu com aquele velho pai. Seu exemplo, seu modelo, sua segurança.
Aprendeu também que tudo o que pescava deveria ser consumido.
Assim, depois de ficar horas a fio com a vara em compasso de espera, sem-
pre conseguia encher aquele balde azul desbotado de tainhas, manjubas,
cororocas ou, no mínimo, uma meia dúzia de sardinhas entremeadas a
muitas histórias, que naquele tempo ainda não haviam silenciado. Tanto
os peixes quanto os relatos eram igualmente saboreados com grande pra-
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zer por sua mãe, que os aguardava pacientemente para preparar a refeição
e reunir-se com eles à mesa.
Sempre foi um menino só. Virou um adulto só. A notícia que recebeu
certo dia na sua adolescência, criaria uma cicatriz permanente.
Saber que seu verdadeiro pai era um sujeito de paradeiro desconhe-
cido e não aquele com quem tinha compartilhado sua vida inteira, aquele
que lhe tinha ensinado a andar de bicicleta e a desvendar os segredos da
pesca, tomou-o de surpresa. O chão sumiu debaixo de seus pés e suas re-
ferências desapareceram entre as ondas do pensamento.
Mais tarde, quando seu pai faleceu e ele já era adulto, chorou a dor de
perder esse único pai que conheceu. Mas assim como as lágrimas um dia
secam, seu coração também secou.
Quando a saudade era muito forte, ia pescar. Naquele ritual de prepa-
ração e espera encontrava uma paz momentânea. O silêncio e a quietude
sempre foram os melhores amigos daquele filho único que se acostumou
a brincar sozinho e a sofrer calado.
Passaram-se muitos anos e aquele jeito de levar a vida ficou impresso
em sua alma. Uma desavisada quase conseguiu fisgá-lo até o altar, mas a
verdade é que o mar de Copacabana continuava sendo a rara e singular
companhia de que ele precisava. Seu coração seguia ermo e inabitado.
Foi numa tarde dessas, com o sol quente de janeiro já caindo e os
pombos passeando soberanos pela areia, que eles se conheceram. Sua
vida seria sacudida por esse vento fortuito e sorrateiro chamado Pedro.
Tinha oito anos e olhava fascinado para aqueles apetrechos todos. Quis
aproximar-se, mas a vergonha e uma certa cerimônia impediam-no. Fi-
cou fazendo desenhos na areia com os dedos dos pés, mantendo-se a uma
distância segura. O pescador fitou-o com curiosidade por um tempo, mas
logo se voltou para suas linhas e anzóis.
Quase todo final de semana a cena se repetia, até que um dia Pedro
aproximou-se mais e perguntou o nome dos peixes que estavam dentro
do balde. O pescador olhou-o cauteloso, mas respondeu. Eram tainhas,
peixes típicos de superfície. Começaram a conversar a partir daí. Muitas
semanas seguiram-se, com longas prosas e aulas despretensiosas de pes-
caria.
Foi com grande surpresa que Pedro o viu chegar um dia com duas va-
ras de pesca na mão direita. Uma era enorme, que ele já conhecia. A outra
era bem menor, do tamanho de uma criança. De uma criança de oito anos,
talvez. Pedro aproximou-se devagar, com os olhos brilhando. Quando a
vara foi entregue na sua mão, ele não podia acreditar! Passou os dedos por
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ela com cuidado, como querendo certificar-se de que era realmente de
verdade. E, juntos, foram pescar pela primeira vez.
Foi uma experiência diferente. Pedro não era mais um mero espec-
tador. O silêncio habitual era cortado por suas perguntas curiosas e pe-
los gritos de animação quando a linha puxava. O mar ajudou e trouxe
bastante alimento. O pescador sorria diante da excitação de seu pequeno
companheiro e sentiu que poderia ficar ali por horas.
Quando escureceu, o balde estava cheio. Os peixes estavam todos
misturados. Já não se sabia mais quem havia pescado o quê. E assim es-
tariam, a partir daquele momento, a vida dos dois pescadores: completa-
mente enredadas.
Naquele dia Pedro voltou para casa com uma nova vara de pescar e
um punhado de peixes.
O pescador voltou com o coração alagado e com um punhado de es-
peranças dentro de um balde azul desbotado.

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Ana Clara das Vestes

Vestes rasgadas, veste de mim

Me peguei caminhando pela rua com a mesma roupa de quase 10


anos atrás e, veja, foi hoje que me reconheci mais à vontade do que há 10
anos, com a roupa do dia.
Poucos minutos antes, o tempo já havia se desencaixado dos pontei-
ros quando meu filho insistiu que eu subisse naquela espinha de peixe
da pracinha (sabe aquele brinquedo em arco, enorme pra ele, não tanto
pra mim?) e nós ficamos ali em cima revezando lugar, traçando linhas
imaginárias de pendura-encosta-escorrega e era essa a nossa conversa. Eu
pequenando, ele engrandecendo, um na direção do outro...
Será que, de fora, quem passava pensava eu ter perdido a noção do
ridículo? Será que, de fora, alguém que passava chegava a ver a gente – pra
quem nem havia ‘de fora’ – ali?
Estávamos os dois de camisa vermelha e, na nossa mistura daquela
bagunça, viramos um ser de quatro braços, quatro pernas, nosso tronco
em um sem limite de contornos.
Na volta pra casa, ele já lá na frente de patinete marcando a separação
desejada, me peguei com a mesma roupa de quase 10 anos atrás, e tive
a certeza de que nunca serei uma pessoa na moda pelo fato de que meu
relógio volta e meia se descompassa do tempo.
Observei com calma o short nas coxas em movimento – agora com
um novo rasgo, feito pelo pé do moleque buscando apoio na queda – me
dando dicas da minha história. O jeans surrado já não é daquela calça azul
que me encantou há uma década, mas me cabe tão melhor nesse amarelar
puído!
Lembrei as vezes em que reparei as costas das minhas mãos brilhando
como tomate quase maduro – a presença do tempo se imprimindo nesse
tecido de pele que me cobre...
Eu nunca fui mesmo uma pessoa na moda... perdoem-me os olhos
que se doem e quem por meus atrasos espera!
Dia a dia, ainda mais depois de virar mãe, sigo rasgando lentamente
roupas antigas na tentativa de me vestir de mim mesma.
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Ana Margarida Pereira Pinto

Diário de Bordo

12ª Lua - O chamado

É ao som do toque ritmado de instrumentos indígenas e vozes de


crianças do povo guarani, movida por uma premência de verter-me no
papel, como um rio que transborda numa época de cheia; como a lua,
no plenilúnio, quando nasce ao pôr do sol com toda a sua força atrativa;
como uma cachoeira que escorre volumosa buscando rolar toda pedra;
sentindo-me aquecida como que em torno de uma fogueira (imaginada,
mas não menos presente), onde o fogo crepita e as labaredas consomem a
madeira fazendo o milagre da transformação, é assim que escrevo.
Escrevo por mim, para você que está lendo este diário de bordo e tal-
vez para mais alguns que o encontrem por aí. Aprendi que o que escre-
vo não é só meu, assim como o que sinto. É preciso compartilhar. Por
necessidade. Necessidade incontrolável, que se represada faz adoecer. Há
tanto a compartilhar, há tanto tempo... Lanço as palavras ao papel, como
garrafas com mensagens ao mar. Que sejam levadas para onde têm que ir.
Estou na décima segunda lua da viagem. O que move um bando de
pessoas a se debruçar sobre o conceito de cooperação é um desígnio quase
insondável e inexplicável para os humanos que ainda “não avivaram sua
chama”.
Estou neste barco, embora muitas vezes tenha vontade de pular fora,
voltar à terra firme, ao conforto de um mundo sem inquietações. Mas
tenho uma estrela que me aponta um rumo e a ela fui consagrada. Trago
acesa a chama da procura, da in-quiet-ação, do melhor a ser dito e feito.
De buscar o melhor, o especial, o sagrado, em mim, no outro, no mundo.
Embarquei sem me preparar, sem conhecimentos prévios sobre a tri-
pulação, sem muita clareza dos objetivos daquela viagem e seus ritos de
passagem, mas confiante no que eu vislumbrava – um mundo em coope-
ração a ser retomado.
Chego aqui, depois de doze luas, com o coração batendo como um
tambor no peito. Aprendi que tudo que pulsa, ressoa, tem que transbor-
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dar. E nesta lua eu transbordei a síntese de todos os ensinamentos reco-
lhidos até agora. Não o que decorei analiticamente ou escrevi nos meus
apontamentos, mas tudo que o meu coração havia assimilado, o que eu
havia guardado de-cor, no coração.
O que mais pulsa agora é a certeza de que a Beleza está sempre perto,
ao alcance de um olhar que vê por trás do aparente; que a cooperação é
um estado natural de ser e estar e que amar e ser amado, origem e destino
de todo humano, é viver em Beleza e cooperação.
Porque é assim que me sinto depois de ter saído desta “tenda do suor”
que o bando, ao qual me reuni para fazer esta viagem, vivenciou em com-
-um.
O bando que há doze luas busca ser grupo, suportou o olhar, se res-
ponsabilizou pelo cuidado, honrou o sonho, viveu o milagre, celebrou
tudo isso e se transformou em tribo. Sete passos em cooperação para um
oásis, trilhados a partir de um chamado.
Fomos chamados, e somos chamados desde sempre, a nos ouvir, falar
o que vem de nossas profundezas, a estarmos em círculo, conectados com
o centro, onde as partes viram o todo.
Fomos chamados a olhar o outro (e a nós mesmos), no que ele “está
sendo” e nas inúmeras possibilidades de ser, com “olhos de ver” e com o
julgamento em suspensão. Num instante, o outro está num estado que eu
já estive antes ou estarei daqui a pouco. Tudo passa... E eu acolho tudo que
vem e deixo ir, sem bloquear o fluxo.
Fomos chamados a alimentar a chama que queima em nós. Gente é
pra brilhar!
Fomos chamados a honrar a Beleza, olhando além da miséria pessoal
e social, atravessando-a e encontrando a nossa humanidade e a nossa co-
mum-unidade, lugar onde ela, a Beleza, mora.
Fomos chamados a cuidar e sermos cuidados, atentos a perceber que
nem sempre o que eu quero dar pro outro, ou acho que lhe é necessário,
é o que ele precisa. Superando a necessidade de que haja um cuidador
e um “cuidadoso”, transfigurando quem cuida e quem é cuidado numa
totalidade de cura.
Fomos chamados a crer/perceber/receber que todo o círculo tem a
água para a sede do grupo. É preciso dar espaço para o grupo usar os
recursos disponíveis. Nós não estamos juntos, nós somos juntos. E o “so-
mos juntos” surge quando amamos sem precisar de “crachá”, identifica-
ção, qualificação, só consentimento: “sim, amo!”.
Ah, e ainda aprendi a importância de contar e recontar minhas lendas
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pessoais e praticar a escuta das lendas do outro; que todo sonho genuíno
é um sonho inclusivo e que não há nada melhor do que cooperar para
construir sonhos.
Ao final da lunação, o que resta é um sentimento de preenchimento,
totalidade. Compassividade, amorosidade, traduzidos em aceitação, auto-
-aceitação. Um pranto de lavar a alma. E gratidão, muita gratidão, pelos
ensinamentos compartilhados, pelas permissões que me deram e que eu
me dei, pela guiança do mestre-facilitador e de meus mestres espirituais.
Uma certeza de que o trabalho a ser feito para ser cooperação e promover
a cooperação no mundo é botar a chama para brilhar; fogo atrai fogo.
Resta um canto:

Vem energia de cura,


Quero te receber e te recebo.
Meu corpo é teu vaso,
Meus braços, tua forma de alcançar o
mundo,
Meu coração a tua voz.

Resta, ainda, uma certeza que cresce a cada lua: para ser cooperação
no mundo, tenho que ser cooperação comigo, não isto antes daquilo, mas,
dialeticamente entrelaçados, aquilo e isto.
Reúno tudo que pulsa e me pergunto como me sinto, agora... Sinto-
-me como uma força da natureza, reconectada com meus ritmos, verten-
do o meu melhor a cada momento, buscando a voz que vem do coração,
centro do meu íntimo e porta de conexão com o Universo.
Que eu possa me manter sempre íntegra durante toda a viagem!

PS: com certeza este diário vai me relembrar os caminhos quando me


sentir perdida.

(Profundo agradecimento à Turma I


da Pedagogia da Cooperação no Rio de Janeiro
que foi espaço/tempo para esta jornada.
Eterno respeito ao mestre da 12ª Lua Edgard Gouveia Júnior
e a todos os outros que nos guiaram por muitas luas)

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Ana Maria Ferreira Azevedo

Um passatempo despretensioso e agradável...

O primeiro contato que ela teve com o mundo das coleções foi quan-
do dirigiu um elogio a um filatelista. Ele exibia um belo acervo de selos
comentando cada item minuciosamente – quando, como e por que com-
prou, quem deu etc. Ela demonstrou tanta atenção e boa educação em
ouvir todas as explicações que acabou tornando-se herdeira desse espólio
quando o velho colecionador morreu.
Pronto, de posse daquela coleção, ela passou a reunir selos também.
E foram anos a fio nessa atividade. Mas o conjunto não evoluiu muito, os
novos itens não agregaram valor, e numa arrumação ela decidiu desfazer-
-se de tudo. Afinal de contas, aquilo tinha sido só um presente.
Certa vez, um grande amigo lhe disse: “Trouxe um copinho para a sua
coleção”. Que coleção? Sem perceber, ela tinha reunido um conjunto de
mini copos de vários lugares do mundo. Os três primeiros também eram
provenientes de um espólio – deixado pelo pai. “Chega!”, pensou. Nas úl-
timas viagens parou de procurar por esse tipo de souvenir.
Mas não eram só selos e copinhos. Uma verdadeira manada adornava
a casa. O primeiro elefante era um regalo. Quem lhe deu disse que trazia
boa sorte e que deveria ficar de costas para a porta. A partir dele, ela se
tornou uma verdadeira caçadora por elefantinhos de enfeite: com tromba
levantada, de madeira, com dentes, prateado, de gesso, etc. O único requi-
sito era o tamanho. Ela queria manter um determinado padrão.
Na viagem mais recente, ela conheceu o Museo Arenas de Coleccio-
nes, na Colônia de Sacramento, no Uruguai. Diante do que viu lá, achou
melhor encerrar a busca por elefantes para o acervo. Naquele momento,
percebeu que, definitivamente, a carreira de colecionadora estava acaba-
da. Não tinha menor talento para a atividade. Era somente um passatem-
po despretensioso e agradável.
Como de costume, gosta de ornar a parede do corredor de casa com
fotos das viagens que faz e dos acontecimentos da vida. E mais uma vez
se deu conta de que tem uma infinidade de porta-retratos de vários tama-
nhos, formatos, cores, texturas e de inúmeras procedências. Cada um de-
les estampa momentos singulares. Às vezes, sem perceber que a felicidade
está ali retratada, passa distraidamente sem registrar.
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Sem assunto, sem personagens e sem cenário...

Uma folha em branco...


Nenhuma dica, pergunta, ideia, tema… Então, o que escrever?
Sem inspiração, fui arrumar gavetas… Nesse folhear de cartões, mi-
mos e badulaques, me deparei com uma cartinha de uma Irmã Paula, de
São Paulo. Custei a me situar, mas, ao ler o conteúdo, minha lembrança
foi avivada. Cenário exposto, personagens reais e um mote. Havia, enfim,
uma história para contar.
O aeroporto de Lisboa estava lotado. “Passageiros com bilhetes pro-
mocionais não embarcariam”, avisou a companhia aérea. Era o quinto dia
consecutivo nessa torturante situação. Já tinha até alugado um escaninho
para acomodar a bagagem para facilitar a locomoção. Não tínhamos di-
reito a hospedagem ou alimentação por causa do overbooking. E lá íamos
nós, eu e minha tia, de volta para a casa dela, onde eu estivera hospeda-
da, para mais horas de espera. Quem sabe, no dia seguinte teríamos mais
sorte?
Resignada, uma senhora com hábito de freira acomodou-se num
canto do saguão do aeroporto. A cumplicidade na troca de olhares en-
tre tia e sobrinha não deixou dúvidas: acolheríamos aquela senhora no
nosso pouso, no bairro do Chiado. Deixamos a sua mala no escaninho e
a pusemos no autocarro e no elétrico conosco. Ela foi recebida com um
banho quentinho, um caldo verde acompanhado de uma broinha de mi-
lho e pôde desfrutar de uma boa noite de sono. E pronto: tia, sobrinha e
a religiosa desconhecida já estariam revigoradas para mais uma tentativa
de retornar ao Brasil.
De volta ao aeroporto, a amável freira conseguiu embarcar no voo
seguinte. Eu ainda faria esse ritual mais duas vezes, conseguindo então
viajar no oitavo dia.
Nesse vai e vem, durante uma semana, entre aeroporto e a casa da tia,
pude conviver intensamente com uma senhora bondosa, amorosa e de
bom coração. Isso é a vida: cheia de possibilidades e olhares e com muitas
histórias para contar.

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Ana Santinho Soares

#Ilhéuscomvocê

Barramares
docemar
seusalnaminhaboca

Almavoa
ventoleva
meusolhospousamnocoqueiro

Cançãoazul
notassalgadas
susurrandonoouvido

Marisianoar
cheirodesol
dourandoapelemorna

Corpoflutua
libertodesi
nemsintoareianospés

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Emoção costurada

Ela foi educada para ser forte e rígida.


Sua emoção foi costurada com uma linha resistente e com pontos ci-
rúrgicos que uniam a borda da extensa ferida na sua pele.
Os pontos poderiam ser retirados no tempo certo para que a cicatriz
ficasse imperceptível. Mas eles foram ficando e franzindo a pele ao redor.
Ela sabia que retirá-los, tardiamente, significava sangrar.
Pensou que nesse momento de vida seria insanidade libertar a emo-
ção contida.
Sua racionalidade a afastava de ideias imprudentes.
Ela tinha medo da loucura.
Sempre se manteve afastada de tudo o que considerava estranho,
anormal, louco, demente ou perigoso. Como se fosse uma doença conta-
giosa. E foi ficando encurtada, atrofiada, apática e quase sem voz.
Para curar-se, ela sabe que precisa sangrar e contemplar o mundo que
tanto a assusta.
Sabe que tirar os pontos tardiamente dói. Mas, continuar com a emo-
ção costurada não é mais possível.

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Buscar palavras

Busco palavras
que amenizem a dor.
Palavras que soem bem.
Doces, mas não enjoadas.
Vestidas com cores alegres.
Que brinquem de esconder.
Aqueçam no frio,
Refresquem no calor.
Não gritem, sussurrem.
Sei que elas moram em mim,
Mas não acham a porta.

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Angela Puppim

O Beijo

Lânguidos lábios
Colados aos pequenos lábios meus
Saliva de ti
Orvalho de mim
Plenitude.

Laços

Nós
Sem nós
Escultura de corpos
Enlaçados
Moldados na frágil argila
Delicadas tramas.

Eclipse

Corpos colados
projetados um sobre o outro
luz e sombra
efêmero instante.

Mulher

És verbo
És a raiz, o começo e o eterno
Nasce, floresce e dá frutos
Suas sementes se deitarão na terra
berço de nosso existir.
Plenitude e transcendência,
Raiz forte com um quê de eternidade!

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Vida

Raízes encrustadas entre pedras


Duro semear
Possível pela flexibilidade do querer existir
Hoje caule enrugado
Debruçada à beira do abismo
Galhos em braços estendidos verdejados
Entregue ao balanço do vento
A pedra dando linha ao voo
Céu azul de esparsas nuvens.

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Mosaico

Restos
Pedaços
Cacos
Lembranças de infância
Bolas de gude
Pedras do caminho
Árvore desfolhada
Raízes fortes
Rio de sentimentos
Em correnteza
Fluindo
Imperfeição
Leveza
Vida dividida
Vida vivida!

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Carmen Luiza

O Sumo da Vida

Sem arabescos que contornem os ângulos, as cores desmaiadas re-


fletem-se nas paredes de vidro do lugar. Chão frio, gélido corredor onde
múltiplos passos alternam-se, desviam, estancam frente ao totem de pre-
tensão humana e, quase numa reverência, todos, igualmente, curvam-se
ante o poder da criatura de aparência metálica.
Um dia como outro qualquer, exceto pela indisposição das criaturas
metálicas. Cada pessoa posta em seu cerimonial estampava frustração,
semblante carregado de raiva a desvanecer-se em dúvida desenhada nos
olhares. Um a um entreolhavam-se atônitos. Alguns solidários logo se
prontificavam a ajudar a desvendar o mistério, sem sucesso. Perplexidade
lida facilmente em cada rosto ocupava todo o ar do recinto, até que uma
senhora solta um brado de vitória e agita no ar, sorridente, o resultado de
sua ação bem sucedida: — Consegui! Esta aqui está funcionando!
Em marcha ensaiada naturalmente, todos formaram fila ante a criatu-
ra em questão e, com renovada paciência, aguardavam a vez.
Rangeu a pesada porta da entrada e por ela passou um distinto cava-
lheiro bem trajado em bermudas de linho branco, camisa em colarinho
esportivo d'um amarelo claro e agradável, sorriso luminoso a combinar
com os cabelos bem arrumados. Veio adentrando par e passo apoiado em
sua bengala de cabo de madrepérola. Percorreu cada centímetro ao longo
da fila posicionada e a cada um ultrapassado ofertou seu cumprimento
cordial. Alcançando a primeira pessoa daquela sinuosa arrumação, diri-
giu-lhe a palavra:
— Com licença, você me permite passar à frente para utilizar o caixa
eletrônico?
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Ao que prontamente assenti, com gentileza:
— Claro que sim. Disponha!
Enquanto o distinto cavalheiro dominava a criatura metálica, desviei
o olhar fixando-o nos rostos que me precediam na formação impávida.
Reconheci a pressa em cada gesto contido numa atitude de reprovação a
mim. Ignorei. Um, dois, três minutos passavam indiferentes aos rumores
entredentes, quando o cavalheiro deu por finalizada sua demanda e, vi-
rando-se para a assistência acidentalmente presente, perguntou em voz
firme:
— Quantos anos vocês me dão?
Mais olhares casuais rompidos por duas tentativas débeis de adivi-
nhação. Uns oitenta, disse um. Acho que oitenta e cinco, disse outra. Ele
refutou com movimento de cabeça e declarou:
— Tenho noventa e oito anos bem vividos. Vi muita vida e muita
morte, mas, não me rendi às tristezas do caminho; sigo sorvendo o mais
doce dos sumos, o néctar da vida, aprendendo sempre.
Somente os ruídos de alguns celulares preenchiam o local. A fila des-
manchou-se em roda. Um círculo perfeito e entusiasmado cercou o emis-
sor da boa nova. Cumprimentos, votos de saúde e longevidade, pedidos
de receita do bem viver, felicitações, tapinhas nas costas e similares brin-
daram o cavalheiro da feliz figura. Agradecendo com gestos e sorrisos,
deu-nos adeus, dizendo:
— Preciso levar este dinheiro pra minha mulher. Ela vai gastar tudi-
nho!

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Christyanne Bueno

JOAQUINA , menina que rima

Joaquina vivia inspirada noite e dia.


Menina de alma leve e coração viajante,
Andava com os pés quase no chão
e a cabeça fazia morada na imaginação.
Joaquina era pura criação.

Suas ideias iluminavam qualquer prosa.


Pensamentos brilhavam a cada acordar.
No balanço levava seus sonhos para passear.
Num eterno brincar observava o tempo lhe ensinar.
Joaquina era pura poesia.

Joaquina adorava brincar de casinha, bonecas e escolinha.


Não sabia dançar até conhecer a liberdade e sair a rodopiar...
Fazia rimas com a vida e brincava com os livros.
Inventava amigos para não se sentir sozinha.
Joaquina era pura melodia!

Tristeza velada, para o mundo acenava com risadas,


Bordava escritos por onde passava...
Rastros de esperança rabiscava pelo caminho.
Acolhida pelas rodas contava histórias e abraçava vidas.
Joaquina era pura fantasia!

Joaquina, menina de choro fácil.


Boa companhia nos dias sem vida.
Carregava no olhar palavra amiga.
Colecionava mudanças e despedidas.
Joaquina era pura solidão.

Joaquina, não era uma menina


Assim tão engraçada, mas seu nariz vermelho
Transformava tudo em piada.
Vivia domingos em estado de graça.
Joaquina era pura mentira.

Ninguém sabia quem era Joaquina, a não ser ela mesma.


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PARA...TY na FLIP

Dormi Paraty, acordei poesia.


Paraty patrimônio cultural da humanidade
Para...ty & para mim,
um universo sem fim de possibilidades
Ancestralidade e reencontros.
Arte por toda parte.
Ar... respiro de literatura.
Lugar habitado de beleza,
Suspenso no tempo de silêncio e poesia
Natureza que faz juras.
Vida, liberdade e cultura.
Sagrado presente do visível e indizível
No mar de gente navegam muitos habitantes
em comunhão e cura.
Eterniza os sonhos lidos, momentos vividos,
autógrafos grifados no meu coração.
Gratidão por caminhar nesse chão!
História que carrega solidão e arrasta multidão.
Terra da cachaça Gabriela,
perfeita para um caso de amor com Jorge Amado
e tantos outros autores.
Embriagada por esse céu de sonhadores.
Alimento minha alma.
Corpo marcado com promessa de breve retorno.
Para...ty & para mim
Para todos.

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Cristiana Seixas

Órbita

Há mundos mágicos
que circulam em meus internos,
e que esperam
a visita em quietude.
Acima da linha d’água:
múltiplos tentáculos,
que ceifados se multiplicam e
me sufocam em pesados nadas.
Transgrido
empunhando a espada esferográfica
no intervalo roubado
do que pulsa no instante.
Cosmogonia poética,
em enigma de reverso.
Ciscos subvertem o olhar
em cacos espelhados
na presença alongada nos ínfimos.
Suspensão do fardo, do tempo,
da matéria, do sentido e do medo.
Respiro no devir.
Há paraísos paralelos,
fissuras e elos
acessados pelo sonho.
É onde ponho
o que ainda vai nascer.

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Sumo

Sumo,
afasto-me do rumo,
para alargar
trilhas do olhar.
Assumo espaço,
em busca do extrato,
da expressão,
solto palavras,
angústias e fantasias,
ex pressão.
No caldo aéreo do sumo,
aprumo o sonhar.
Caos experimental,
óleo essencial,
em fluxo, fogo e ar.
A escrita extrai o néctar das ideias.
Sumo é lume
que incandeia
o caminhar.

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Cynthia Azevedo

Ainda não entramos


na velocidade de cruzeiro,
cruzamos mares amargos
águas pra lá de altas
o barco franzino ressente
a luta opaca ingrata
a ceifar as estrelas
o vasto deserto de água
fatigado amainou,
revoaram as asas brancas
que insistiam em anunciar
sorte à vista
sucumbia a imensidade do céu ao mar
em vagas mornas.
Viver é buscar uma enxurrada de metáforas
entre as fissuras.

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II

Colho palavras dia após dia


em minhas andanças
impertinentes,
me aliar a elas
é meu ofício, minha vocação,
impiedosa ilusão
vigio quando se aglomeram
travessas às avessas
se lambem, se cheiram
para se transformar

Colho palavras noite afora


em minhas heranças
tomo as que se camuflam
às claras
vigio quando arranjam sutis
frases oblíquas
me aliar a elas
é meu ofício, meu exercício,
deliciosa ilusão.

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Daline Rodrigues Gerber

Metáfora Ancestral

Colocou a mão sobre meus olhos e disse


"Eu vou chorar por você, e então

haverá tempo para recuperar suas forças e seguir"


Sabia tudo sobre mim.
Oxóssi uniu-se a meu pai, Oxalufã,
Minha mãezinha Oxum a oferecer seu abraço d'água.

E ela, minha mãe, dentro mim

é todo o passado, todo o futuro, todo o presente...


Mas ainda não me descobri potente.
O pulmão tem uma dor pungente.
É assim o andar da mata: sofre, mas segue em frente.

E tem também essa dor da separação...

Natureza matando natureza. Negação de amor.

Nãos. Confrontos. Ausências. Arrogâncias.


O homem mata morrendo, mas a mata renascerá.

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Auto-mídia

É árido demais
Não tem flor para nascer
Nem trevo, nem poesia
Nem um grandessíssimo nada
Só telas hipnotizantes que capturam olhares
Corpos-objetos, chipados, recrutados
Águas de informações dentro de copos
Como remédios, ansiolíticos
Maias, ilusões, ideias compartimentadas
Separação de joios e trigos, guerras
Vazios existenciais
Buracos dentro de todos os peitos
Auto-mutilações emocionantes
Nesse mundo ressecado, butoh:
Um espetáculo, gravidez de sofrimentos,
Fake news verdadeiros e honestos
Anéis malditos de Smigol, Gollum, Hobbit...
Todos os sinônimos do mundo para defender
Um argumento...

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Das impermanências

A tristeza é um importante estado impermanente.


Deita sobre os nossos ombros sem entender por quê.
Sem entender, quer chorar em paz
e que ninguém explique o que ainda não é hora para entender!
Chora, chora, chora e choramos com ela.
Até que uma borboleta distraia o choro,
depois um dançarino corajoso venha saltitante fazer o que não ousamos,
depois vem alguém gargalhando.
Merda! Aí a gente gargalha também, sem explicação,
num baita contraste com aquela seriedade anterior quase identitária...
Porque a alegria é também um importante estado impermanente.
E o ciclo recomeça.

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Deborah Rosa

Convite Recusado

Não me convide para ser o que eu não sou.


Não me convide para viver a tua vida
Não me convide para amarrar e azedar com você.
Não me convide para desprezar pessoas.
Não me convide à desumanização
Não me convide para o mau humor
Não me convide para o não amar
Não me convide para explodir, não preciso de convite para isto, acredite.
Me convide sim, a melhorar
Me convide para desassossegar a alma.
Me convide para sorrir ou até para chorar contigo (se outro jeito não
tiver), prometo ser boa companhia de choro.
Me convide para abraçar, muito.
Me convide para acolher, não para pulverizar. Exceto se for algo bom e
cheiroso.
Me convide para uma vida de sentidos.
Me convide para ser, essência.
Se não tiver convite melhor para me fazer, o convite já está recusado. Não
tenho tempo para maus convites. Só para os que a alma conclama.
Por favor, leve um conselho carinhoso e economize o nosso tempo. Não
manifeste o que já não foi aceito antes mesmo da verbalização do seu
pensamento.

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Denise Nogueira

Pela Metade

Por que choras, mulher? Lágrimas escorrem pintando seu rosto, um rosto
pela metade. Olhando assim, partida ao meio, vejo metade da dor, metade
do amor, metade da dúvida, metade... somente metade. Mas se olhar bem
para o que existe, e pouco importa a outra parte, vejo um olho fechado
encontrando a paz no silêncio, na inteireza, a parte que nunca faltou. Já
que somos luz e sombra, dia e noite, nascemos e morremos todos os dias,
aceito todas as partes que me cabem. Hoje eu decreto que a metade som-
bra pode passear livremente pelo jardim sem ser incomodada. Hoje, eu
decreto que porque aceito o lado triste, passarão a existir em dobro as gar-
galhadas de menina. Hoje, eu decreto que de olhos bem abertos crescerão
o dobro dos sonhos, o dobro do amor e da alegria. Decreto que a metade
luz seja em dobro intensa, forte e feliz.

(referência ao quadro “Lágrimas de Ouro” de Gustav Klimt)

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A casa do meu avô

Depois de voar sobre as nuvens, de viajar por estradas bem retas e


depois bem tortas, pálidas e cobertas de pó, chegamos à casa do meu avô.
Era um dia frio, as nuvens cobriam o céu cinzento quando vi lá longe uma
construção forte, pesada e cheia de músculos. Era como as outras na al-
deia, todas na mesma cor, com as pedras encaixadas perfeitamente entre
si e serpenteadas por um delicado risco branco. Aquele caminho branqui-
nho encheu de alegria os meus olhos de menina sonhando que desenhar
nas paredes era uma brincadeira comum por ali.
Ouvi longas histórias sobre esse avô que eu ainda não conhecia, e a
casa construída por ele há muitos anos. Na minha imaginação havia cria-
do dezenas de casas e de avôs como quem desenha, rabisca, começa de
novo. Agora estávamos ali, diante do portão azul com letras brancas, eram
as letras iniciais do nome do meu avô. Cruzamos o pequeno pátio, colo-
caram-me no chão, ajeitaram meu vestido e bateram na porta. As casas
daquela rua eram parecidas, mas não iguais porque só uma tragou o ar
e lagueou os olhos do meu pai quando a porta se abriu. Era um misto de
alegria, saudade, curiosidade e muita surpresa.
Lá dentro estavam guardados um pedacinho do céu e do mar nas
paredes de madeira pintadas de azul. Tudo era perfeito naquele cenário.
Quadros e fotografias presos no alto das paredes a mirar o tempo e as
gerações que passavam. Parecia que todos ainda moravam ali. Os móveis
cobertos de paninhos e rendas singelas muito bem feitas. Uma mesa gran-
de e forte como são os móveis rústicos que vivem nas casas antigas. As
camas de ferro cobertas com mantas grossas e, caprichosamente, forradas
com as longas noites de inverno da minha tia. Tudo parecia ter nascido
junto com a casa.
Minha primeira visão depois que a porta se abriu foi a de meu avô.
Um homem sorrindo com a alma e que trazia nos olhos a delicadeza em
seus azuis. Era o azul de dentro que ele espelhava lá fora. O tempo cria
raízes em nós e ele estava perfeitamente enquadrado naquela moldura.
Uma agitação tomou conta de toda a família e eu continuava vidrada nos
olhos de meu avô. Queria voltar no tempo e poder mergulhar mais fundo
naquele mar.
Enquanto andava, abrindo portas, bisbilhotando os quatro cantos
da casa, descobri uma escada que levava ao sótão. O lugar era um pouco
assustador, um canto quase esquecido, com objetos estranhos e curiosos
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simplesmente depositados ali. Móveis sem paninhos, sem ordem, mas lá
eu poderia brincar do que mais gostava: imaginar, falar com as mãos, dan-
çar sem ninguém me atrapalhar. Lá eu poderia sonhar em paz. Quantas
histórias aquelas paredes já não teriam escutado...
Volto para a sala e o cheiro da casa me invade. Pelas frestas do assoalho
marcado pelas brasas podia sentir a presença dos animais que moravam
no porão. Esta é uma bela casa cheia de histórias de muitas cores além do
azul. Nela ainda vive a guardiã, tricotando e bordando suas memórias.

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Dionéia Tozzi

Desejo

Da alma latente
Forjei palavras
Há tanto abafadas

Da boca sedenta
Soltei os gritos
Desafiados

Das mãos que oferecem,


Recebi o toque
Há muito esperado

Com olhos faróis


Apontei caminhos
Nunca trilhados

Nos pés que persistem,


achei a marcha
para o inesperado

Da escuta guardada
Colhi os ecos
de cantos sagrados

Do corpo vivido
Libertei a força
do passo adiado

Do coração pulsante
Ouvi o chamado
Do meu Ser Alado!

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Vida

Acordou encantamento e respirou um novo dia.


Lançou um olhar no infinito e sorveu a luz.
Quantos caminhos a trouxeram aqui?
Quantos mundos ainda cabem nela?
O tempo passou e a marcou com graça e força.
Da vida, o peso largou pelo caminho
E o melhor guardou em si.
Entardeceu, com a leveza de novos tempos.
No ciclo infinito do Ser, anoiteceu esperança
E despertou AMOR!

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Elzinéia Oliveira

São tantas demandas e tantos fatos que, às vezes, eu sumo! Sumo: via-
jando, ficando comigo mesma e outras possibilidades. Sumo - não de for-
ma egoísta - mas por ser eu, a prioridade para ter sanidade a fim de viver e
conviver nesse mundo, pois depois de tudo que a vida "espremeu" de mim
como um suco, o sumo será de paz e frutos dos momentos que eu sumi.

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Fabiana Corrêa

O dia

O dia em que encontrar


Um baobá
Abraçarei seu corpo
Com braços que me faltam
Sentirei sua casca
Abrasar meu peito
Imprimir minha pele
Acomodar minha alma

O dia em que encontrar


Um baobá
Ajoelharei às suas raízes
Chorarei minha prece
Cantarei meu sonho

O dia em que encontrar


Um baobá
Serei uma
Serei dia e baobá.

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Nau

Nau ancorada
Perde balanço do mar
Sem revolta de vento
Inflando velas

Acuada,
Permanece
Não beija vento
Nem cumpre destino navegante
Faz-se vida abreviada
Aprisionada em sonho de sereia
Salgando o pranto
Em noite de maré seca

Ancorada,
Submerge
Em amarga maresia
Corrói-se em destino tímido
Travado no passado
Que não vence o tempo

Vela desfraldada ao vento


Faz da nau tempo navegante
Rompendo cabos e ondas
Vence tempestade
Em noite de lua ausente
Acha sol no rumo
do horizonte

Nau com alma de vela


Faz-se em balanço do mar.

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Fabíola Barcelos

Plantando versos na calçada

ela caminha
pelas ruas
fotografando detalhes
com os olhos

ela adora
ser surpreendida
pela beleza de uma flor
que brota entre as pedras

ela se veste
daquilo que acredita
seu corpo é livro
sua roupas são poemas

ela gosta
de ser lida
e dividir com os outros
a poesia
que carrega em si

ela colhe
poemas
por onde passa

ela semeia
poesia
pelo caminho

ela é
livro
leve
livre

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*

a menina-rascunho
que fui
deve estar orgulhosa
da mulher-palavra
que escolhi
me tornar

em constante construção
escrevo a minha história

apago da memória o que


não me serve mais
guardo em envelopes
as lembranças que me constituem
rasgo algumas páginas
grifo trechos que me marcaram

escrevo, me leio
me reescrevo, sou lida

através das palavras


me conheço e me reinvento
me construo diariamente
porque eu não sou
eu estou acontecendo.

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esconder palavras
num poema
onde não se leia
as entrelinhas
*
há verdades
que só podem ser ditas
num poema
*
há sempre
um poema guardado
numa folha em branco
*
poesia
espelho
onde vemos
nosso avesso
*
quando uma palavra
salva o dia
uns chamam de coincidência
eu chamo de poesia
*
não escondo de mim
as minhas sombras
acolho cada uma delas
e permito que façam companhia
nesses dias escuros
sobrevivo pela luz de um poema
me encontro nas palavras
e minha solidão
não está mais sozinha
*
falar poemas
em voz baixa
até que a insônia
adormeça.
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Fátima Pereira

Borboletas

Não sei exatamente por quê, mas se tivesse que ser outra coisa, seria
uma borboleta.
Esse pequeno ser sempre me fascinou. Pena que ultimamente não se
encontrem tantas por aí, os jardins há muito cederam espaço ao cimento,
o colorido das flores se traduz em pinturas de telas. O mundo ficou cada
vez mais cinzento.
Mesmo assim, ainda vejo borboletas. Muito menos agora do que em
criança. Ainda posso vê-las voando por aqui. Cada vez mais raras e menos
variadas. Até isso o tempo afetou.
No jardim da nossa casa antiga, a casa da Vó Maria, havia borbole-
tas de todas as cores, tamanhos, variedades. Um verdadeiro bailado sobre
as flores daquele jardim mágico, o jardim da infância perdida. Como no
poema do Vinícius, brancas… amarelas… azuis… pretas… as belas bor-
boletas…
As pretas, dizia minha vó, traziam um aviso: alguém morreu. Por se-
rem mais difíceis de se ver, aquelas borboletas pretas e grandes, majes-
tosas e opulentas traziam um aviso. Por que dar esse fardo para um ser
tão magnífico? Talvez uma crença antiga, talvez fosse apenas invenção da
minha vó.
Se eu tivesse que ser outra coisa, seria borboleta.
Não me imagino sendo outra coisa. Porque esses pequenos seres têm
asas. Adoro voar, ao menos na imaginação. Porque são belas. Tão simples
e tão complexas ao mesmo tempo, como eu. Porque precisam de pouco
para viver, água, sol, flor, cor... Eu preciso de mais, preciso de amor, além
de tudo.
Borboletas voam felizes sem apegarem-se a nada, apenas cumprem o
seu papel trivial. Simplesmente fazem o que precisa ser feito.
Eu...
Perco-me em tantas paragens, às vezes fico sem sul, perco meu norte,
já não sei para onde ir, onde parar... muito menos onde pousar.
Borboletas são criação divina, sabem qual é sua sina.
Eu...
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Recrio-me todos os dias, questiono-me, procuro-me e às vezes nem
me acho... E quando penso que tudo está certo, acontece algo que me tira
o chão. Ainda assim, a vida continua, já que estamos aqui só de passagem.
E a vida é feita em ciclos... a morte é apenas uma mudança de ciclo, uma
transformação.
Se eu fosse uma borboleta, seria tão mais simples...
Talvez eu seja uma borboleta.
Já que a vida é feita em ciclos, o que é mais representativo disso que
essa pequena criatura? O símbolo de transformação profunda. Da saída
do casulo para transformar-se num novo ser. Mais belo, livre, muito mais
feliz (acho que as borboletas nem sabem o que é felicidade, mas isso im-
porta?).
Nada fica impune. A dor da transformação é necessária para essa nova
vida. Abandonar o passado, correr o risco de não conhecer o que virá. As
pessoas, assim como as borboletas, também passam muito tempo dentro
do casulo, esperando o momento certo para sair.
Um dia...
Quando chegar a hora... não dá para esperar... não dá para escapar...
E aquela pequena lagarta feia e sem graça vira uma linda borbole-
ta, pronta para seguir sua sorte, de livre voar por lugares distantes, talvez
pousar em algum coração fértil...
Acontece com todo mundo, ao menos deveria acontecer: descobrir
o novo, sem ter medo de ser feliz, sem pensar se deveria, ou no que os
outros vão dizer. Sem pensar no que virá depois.
Apenas voar por caminhos desconhecidos. Talvez um deles leve à fe-
licidade. Como saber, se não arriscar?
Mas se eu fosse borboleta, a vida seria tão mais simples...

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Mulher

Porque sou mulher


Posso ser louca, insana, arredia
Minha alma. muitas almas
Sou a Sofia dos gregos
A Joana dos desesperados

A bruxa queimada em Salamanca


Beata na visão de Fátima
A filha do profeta à beira da fonte
Madre Teresa dos pobres
Uma Chica da Silva...

Porque sou mulher


Posso ser fada, gueixa, cigana
Ruína. construção, cataclisma
Maria Madalena
A Marília de Dirceu
A ativista Flora Tristán
Olga lutando pela liberdade
Florbela morta de amor
Julieta tola e apaixonada
Chiquinha Gonzaga...

Porque sou mulher


Posso predizer o futuro
Quebrar as regras
Ter um lado secreto
Outro iluminado
Impenetrável aos olhos desatentos.
Posso ser menina
Ingênua, tímida
Com a sabedoria
De uma anciã milenar...

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Porque sou mulher
Posso ser todas as coisas
De rainha a plebeia
De Afrodite a sem-terra
Uma deusa, uma simples mortal!

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Flavia Santhos

Eu estou…

De onde estou, eu posso ver o mar de águas calmas, verdejantes, na


qual suas ondas quebram mostrando toda sua potência,
De onde estou, eu consigo respirar um ar puro, abraçar o tronco da
árvore mais antiga e ainda ouvir nossas estórias,
De onde estou, eu posso me curar, lavar minha alma, ouvir o canto
dos pássaros e sentir o universo guiando meus passos ao infinito,
De onde estou, eu consigo voar e atingir o pico mais alto, de lá vejo
lindas montanhas, mares, e sinto o frio das alturas misturado ao calor do
sentir a vida,
De onde estou, eu mergulho fundo em mim, vejo meus órgãos in-
tactos, trabalhando arduamente para que esta máquina chamada corpo
possa me sustentar,
De onde estou, vejo a lua e acompanho todas as suas estações, cada
uma com seu charme e sabedoria, nos ensinando como é bom vivê-las
pausadamente,
De onde estou, eu vivo intensamente cada momento, choro, sorrio,
sinto raiva, mas também me alegro com as facetas da vida,
Eu estou em mim, de olhos fechados em meus momentos mais pre-
ciosos, eu posso estar em qualquer lugar, basta apenas imaginar.

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Helô Vilas Boas

Arrumação

Arrumar gavetas requer tempo.


Gavetas internas, então, nem se diga!
Pendurar no varal os sentimentos mofados.
Qual será o sol que arranca mofo interno? Não sei.
Mas tenho que agir rápido,
Sentir esse cheiro que já incomoda,
não dá para ignorar e nem disfarçar.
Então, resta respirar fundo, criar coragem
e mandar os fungos para longe.
Não dá mais para se conformar em viver nesse descompasso,
com minha voz presa na garganta.
Para construir o novo tenho que ouvir a voz do coração.
Esquecer velhas razões, equilibrar as sensações,
os sentimentos, soltar o grito abafado até aqui.
Ainda que tenha que perder a pose!
Se é para perder, que seja o medo.
A certeza é uma só:
Depois do enfrentamento virá o alivio, a leveza,
o olhar na direção certa, o reencontro.
Minha força vem da certeza que a transformação
trará a felicidade da conquista dos que não desistem,
fazem acontecer e tornam os sonhos possíveis.
Em frente!

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Tempo

O tempo foi passando e levando e nunca esperando.


O tempo passa simplesmente, mesmo se você está com fome,
com frio, com sono, triste ou perdido.
Ele não espera mesmo, não se comove por coisa alguma.
Daí você tem que se acostumar que não é
mais aquela cheia de entusiasmo
que aguentava todos os trancos.
Mas também sabe que é possível
ficar satisfeita, se não der importância demais à perfeição.
E o tempo pode se tornar seu amigo
se você não se importar tanto com ele.
Se você perceber que não é mais a mesma, mas ninguém também o é.
Que a nova cara no espelho não exige nada
a não ser a alegria de estar junto.
E assim é possível ir adiante sem perder a certeza de
que sempre vale a pena.
Principalmente se ao seu lado
tem um companheiro de toda uma vida.
Que continuará te amando apesar de, ainda que...
Isso faz tão bem que você esquece que
já foram tantos anos... Tanto tempo!
Achegue-se que vou contar um segredo, em segredo.
O que importa é ser feliz!

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Som

Que ruído é esse?


Um burburinho?
Um turbilhão?
É só a indecisão, que causa estragos.
A insegurança de não encontrar respostas.
Olhar sem ver, ter um coração de pedra,
esperar um amanhã que não chega, ouvir o que pede a alma.
Desistir de buscar? Nunca!
Implorar que o tempo volte, não dá.
Gritar para que pare? Também não.
Tudo se resume em encontrar os porquês certos.
Insistir na certeza que o amanhã trará novo motivo,
nova possibilidade.
Tudo continua pulsando.
Escute bem, o barulho é constante.
Construir leva tempo, é preciso reunir todos os recursos.
Não quero só uma morada, quero conquistas
que me deixem viver como que encantada.
Repita a intenção, encha-se de emoção,
e aprenda de vez a lição.
Sua voz ecoa, tine e transforma.
Só a liberdade agora!

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Hilário Francisconi

No inferno

De início, o susto fora muito grande. Afinal, não é comum despertar-


mos às portas do inferno! Sei, porque o Capeta estava lá, vermelho como
“reza” a tradição, com o seu tridente afiado e a postos, sobre a cabeça um
par de chifres pontiagudos.
Também me pareceu o tinhoso deveras acabrunhado. Sentado sobre
uma pequena pedra ígnea, o anjo rebelde não inspirava a mínima rebel-
dia. Ao contrário, cabisbaixo e exibindo o seu garfo inofensivo estendido
no solo fumegante, o rabudo suspirava. Daí a passar o susto e perder o
medo foi um pulo, mas, pudesse eu programar minhas viagens não estaria
ali por nada deste mundo.
O diabrete, erguendo a cabeça com vagar, fitou-me bastante sério. E
diante d’O Coisa à Toa a fixar no fundo de meus olhos o seu olhar luciferi-
no, confesso, sem nenhum constrangimento, que o susto voltara acompa-
nhado de todos os meus arrepios.
Cabe aqui uma explicação: por tratar-se de um Anjo, embora “caído”,
não era de admirar que ele soubesse de magias, segredos e poderes outros
do universo, todos devidamente outorgados pelo Pai de anjos e demônios.
E foi assim que Ele me viu.
— O que você quer? – Perguntou-me logo o coisa-ruim.
Estremeci e gaguejei:
— Na-nada, não, Príncipe. Estou apenas de passagem.
— Por que me chama de Príncipe?
— Bem, é que está nos livros.... Nas escrituras sagradas... Almas pe-
nadas…
— Sei, sei. Esqueça isso. Olhe para dentro – disse, apontando para
o gigantesco portão que, escancarado, deixava à mostra um salão intei-
ramente vazio e mergulhado no mais profundo silêncio. Decorado com
todos os matizes de vermelho, aquela visão contrariava por completo as
expectativas do que eu imaginava fosse o inferno.
— Mas Príncipe, quer dizer, Senhor, onde estão as almas que vêm
para o calor das profundezas?
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— Sente-se aí – disse-me, imperativo, o manfarrico. — Acontece que
fui vítima de uma trapaça! Quando Deus inaugurou a alma nos homens e
me fez cair por desobediência, Ele me prometeu um lugar onde eu pudes-
se receber as almas pecadoras. Como vê, fui enganado. Jamais consegui
inaugurar os salões que vocês chamam de Inferno…
— Então não há almas pecadoras? – Intervim.
— Há bilhões sobre a face da Terra, meu caro!... E muito mais outras
que de lá saíram e retornaram sem uma única e rápida passagem por aqui.
— Não entendo, Príncipe, isto é, senhor Anjo. Os livros que conhe-
cemos…
— Lá vem você novamente com as escrituras sagradas! – interrom-
peu-me o diabrete. — Vejo que você ignora os interesses humanos.
Eu insisti:
— Senhor Anjo, na Idade Média, quero dizer, conforme a noção que
os homens têm sobre o tempo, o famoso poeta Alighieri...
— Sei. O Dante.
— Pois é. Dante Alighieri descreveu o Inferno com todos os deta-
lhes…
— Quem sabe dos detalhes do Inferno sou eu, não acha?
— Sim, eu compreendo, mas quatorze anos consumiram bom pedaço
da vida do poeta até que ele terminasse a sua Divina Comédia. Somente
a primeira parte, a que diz respeito à Sua área, Anjo, contém quatro mil,
setecentos e vinte versos…
— Total desperdício – sentenciou o mofino.
— Como ousa? – eu o encarei.
— Cuidado com o que diz, fragílimo ser da superfície! – devolveu-me
com voz cavernosa.
— Então os nove níveis circulares de que tratou Dante e onde deve-
riam penar as almas que pecaram são uma farsa? – indaguei, surpreso.
— Como disse, sou a única vítima.
— Ora, então para onde se encaminham os transgressores?
— Para onde? Para lugar nenhum!
— Como assim?...
— Ora, não percebes? – continuou o belzebu, passando a utilizar a
segunda pessoa do verbo, talvez por mais persuasiva. — As batalhas fúteis
que fazem correr pelas sarjetas o sangue da humanidade, como correm
os rios enlameados, não estão aqui embaixo, mas em cima! Não está aqui
embaixo, ó ser da superfície, a carnificina animalesca promovida pelo teu
semelhante, como assim procede o irracional na selva! O poder do fogo
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de tuas bombas incendiárias que ardem nas cidades e levam, junto, crian-
ças e anciãos não está embaixo, como imaginas seja a causticante chama
do inferno, mas em cima! A fome e a angústia geradas pela ganância de-
senfreada dos teus irmãos que pregaram na cruz o filho enviado pelo teu
Deus não estão embaixo, estão em cima! Ó, inocente ser da superfície, o
Inferno não está embaixo, está em cima! ...
E como não suportasse mais ouvir, deixei o Príncipe a discursar para
os seus salões vazios e despertei na superfície, inteiramente convencido de
sua dialética e temeroso de mim mesmo…

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Inês Drummond

Encontro

Do seu terraço,
Emoldurado pelo universo,
Absorve a chegada da noite
Diluída na escuridão infinita.
Agasalhada
Na rede-concha,
Sonha
Mistérios do céu.
Viajante de si mesma,
Confessa-se
Ao som do vento
Ampliando a imensidão.
Grades enferrujadas
Caem no tempo,
O espaço é o todo.
Chega o astro-rei
Rasgando o éden
Em colorações do perdão,
Iluminando o firmamento.
No silêncio encharcado
De seiva da vida
Sorri,
Brotando primaveras.

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Passiflora

Em frente a sua casa há um asfalto que cobre a rua e vários prédios


que bloqueiam a visão do horizonte. Num quadrado de terra, rodeado
de cimento, uma árvore já cansada de sucessivas podas e cortes parece
sucumbir. Foi praticamente lacerada para a passagem de uma grande
quantidade de fios, que se ligam aos postes e às necessidades de uma ci-
dade moderna. Ao seu redor, musgos, trepadeiras e diversas florezinhas
crescem. Até as orquídeas, consideradas as mais nobres, florescem. Todas
buscam alimento e força da combalida árvore. Mas, o que a fez parar foi
a visão espetaculosa de uma flor de maracujá, conhecida também como
“flor da paixão”, da família Passiflora, flora que acalma.
Penso que, alguém, displicentemente, passou e jogou algumas se-
mentes ali, onde fizeram morada. Dormiram por um tempo necessário,
brotando com força e decisão. Cresceram enroscando-se em todo tron-
co e tomaram os céus, espalhando-se em frondosa copa, de onde surgem
vários frutos ovoides, lisos e brilhantes, como em uma verde coroação.
Avançaram na fiação de energia, atravessaram a rua e ganharam espaço.
Olhando para o alto, vejo os frutos ainda novos, mas que já guardam den-
tro de si inúmeras sementes com o seu segredo doce-azedo. O maracuja-
zeiro parece não se importar com falta de intimidade do asfalto e com as
outras árvores vizinhas, infrutíferas. Apenas reina com seus aromáticos e
brilhantes penduricalhos.
Muitos não veem, pois, muitas vezes, os olhos cansados são cegos
para o que está à frente, são alheios para certas realidades de quem já dei-
xou de sonhar. Terão que reaprender a contemplar a beleza apresentada
aos olhos já acostumados a tantas repetições e horrores, descobrir a flor
miraculosa que pacifica, o fruto que ilumina.
Ela encontrou a flor e o fruto. Viu verdes folhagens ganhando espaço
em meio a tanta artificialidade. Sentiu-se próxima do pequeno pedaço de
terra, onde cabe o mundo, que dá flores em meio ao cimento, frutos em
meio a tantos ambientes estéreis. A vida teima em existir, em reinar ao
caos. Raízes fincam na terra e ganham os céus, como nós fincamos as nos-
sas na vida, na estrada, dando frutos.

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Jacqueline Assunção

Whatsapp. Para o ser

Vai curtir o crepúsculo da tarde, a chegada da noite, pois o hoje deve ser
degustado como um copo com água quando estamos sedentas de sede,
devagar e sem desperdício... Ama, brinca, abraça hoje, não poupa nada,
amanhã tem mais, mais hoje não mais. Beijosssss azuis de mar.

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FRIDA #reverber@

Ideias são asas, para além do tempo, moram na alma, lá onde só Deus al-
cança, onde nasce meu olhar "temprano" azul da cor do mar e #reverber@.
Meu olhar é plantado na lua, no sol, na luz #reverber@
O sal lava meu olhar num abraço alviçareiro ao mar, onde é profundo
#reverber@
E o fogo? Na beleza da Folgueira queima até às fuligens da inveja.
#reverber@
A dor? Foge na aurora da ARTE, exorcisa o olhar de eterno criar...Frida!
Frida sabe...#reverber@ e REVERBERA.

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Jordana Riquiri

Ciclo

Todo mês sinto meu corpo mudar.


Todo mês sinto meus hormônios pulsarem.
Tudo em mim é diferente a cada ciclo.
Quando aguardo uma alma: esse ciclo é suspenso
No ciclo, minha respiração muda, minha tolerância também muda.
GRITO
FALO ALTO
BRADO!
EXPONHO!
ME EXPONHO
Não tolero o menor insulto.
E depois...
Um forte vermelho
Uma sensação de alívio
Dói — ainda dói...
Esse vermelho da terra
O retorno...
A terra também sangra
As árvores também sangram quando são ceifadas!
São constantes ciclos
Os ciclos dentro de ciclos.

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Medo

De ser substituída
De ser mulher, parindo ou não!
De ser destituída do mundo do trabalho...
Tive medo...
Da solidão
Da reclusão
Do ostracismo
Aprendi ...
Que guardo talentos escondidos
Que sou maior que minhas ocupações
Que prosperidade é gratidão
Me ocupo de tudo que eu quiser
Aprendi a viver...
Avanço sobre mim mesma
Avanço nos meus ideais
E o trabalho, os gatos, a casa que não varri, o cachorro que não tomou
banho, as roupas sujas?
Tudo isso pode esperar!
Quando a vida precisa pulsar!
Quando o grito precisa sair da garganta!
Quando preciso socorrer um atropelado!
Quando tudo pede urgência
É preciso paciência!
Comigo, contido, com todos/as
Haja paciência!
Paz + ciência?
Será?
Paz consciente?
Esperar é dureza!

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José Augusto Vaz Sampaio Bisneto

O Colecionador

A vida toda eu colecionei coisas, de selos, moedas e figurinhas até


livros. Mas a coleção que eu mais gosto é a de ideais. Vou falar de algumas
das minhas preciosidades, as minhas figurinhas carimbadas desta longa
coleção.
Quando jovem, tinha a impressão de que a ciência resolveria todos os
problemas do mundo, a medicina curaria todas as doenças, a economia
acabaria com a pobreza, a administração organizaria tudo a contento e vai
aí por diante. Até hoje guardo esta ideia com grande carinho.
Na minha adolescência heroica eu adquiri a ilusão da democracia. Eu
viveria na sociedade ideal, onde não haveria tantas desigualdades e reina-
ria a fraternidade entre os homens. Guardo esta ilusão com muita paixão
dentro de mim.
Depois adquiri a macrobiótica. Eu tinha a ilusão de que pela alimen-
tação equilibrada e pura eu teria um espírito livre e saudável. Afinal, a
gente é o que come e até hoje eu como arroz integral.
Na mesma época, eu adquiri a paixão pela psicoterapia. Esta prome-
tia uma vida sem medo, os nossos temores se dissipariam no fluir das
palavras, das identificações projetivas, e eu nunca mais sofreria de dores
espirituais, de amores mal sucedidos, de lembranças amargas. Este é um
dos meus ideais preferidos.
Cheio de energia, eu adquiri a ilusão de fazer cooper: a ginástica aeró-
bica. Esta tudo curaria: problemas cardíacos se dissipariam no resfolegar
das corridas, tensões se aliviariam no exercitar dos músculos, a cabeça se
acalmaria. Quantas maratonas eu disputei. Foi muito bom!
Uma última lembrança que queria contar dentro de uma lista quase
interminável de ideais da minha coleção é o Zen Budismo. Com o Zen eu
teria uma transcendência desta vida cotidiana apequenada e mesquinha e
seria o deus de mim mesmo. Como é doce esta minha ilusão.
Até hoje eu tenho impulso de colecionar, e também guardo algumas
antigas coleções, mas certamente a que eu levo comigo para todos os can-
tos é a coleção de ideais.

Rio, 25/07/2019
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Lília Arruda Lobianco

Mudança

Muda
Dança
Grito a mudança

Mudo
a dança

Danço o mudar.

Mudar-se dentro de si

Removo a casca da velha casa


Revolvo a terra no velho vaso
Trago muda e novo Sol
Planto novas sementes
nas estações do meu tempo

Mudança plantada:
Regar-se
Adubar-se
Ensolarar-se.

Danço. Desloco. Desarrumo.


Fico somente
Com o que mantém meu prumo

Danço. Planto. Arrumo.


Fico somente
Com o sumo
de quem eu sou.

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Lourdes Maria

Rugas

Rugas aparecem no espelho


Olho pra trás para conferir o que foi feito
Busco a juventude, tento deixar a vida como está, plena.
Quem disse que aqui temos controle pelo que está por vir?
Rugas no espelho dizem o que vivemos, não adianta tirá-las.
Não diminui a dor das perdas
Não traz de volta os sonhos.
Rugas aparecem no espelho
Cruéis e implacáveis.
Insuportável existência!
Olhar o que passou e sentir saudade do que não fiz.

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Sumo

Sumo da fruta mancha a pele, sumo da dor mancha a alma.


Sumo em mim mesma à procura de quem sou, fui ou serei
Me perco mais vezes do que me acho.
Quando penso que me achei, me vejo perdida (novamente) em tantos
pensamentos e perguntas,
Agonizo
Desespero
Espero e
Sigo
Me acho, me perco, no riso e no choro, desamparo!
Escrevo e leio, sobrevivência
Pinto e bordo, existência
Canto e danço, resistência
Em sumo
Sou pergunta sem resposta
Alma sem corpo
Dor sem ferida
Apenas sou!
e sumo em mim mesma.

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Balé

A menina quis ser bailarina


Tinha que ser magrinha
E não perder o compasso!!

Ela gostava mesmo


Era de dançar,
Bailar, sonhar
Fora do passo!!

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Magda Hruza Alqueres

Sumo, sumimos todos

A essência do que somos


Ou o que pensamos que somos?
O mistério que nos envolve,
A carícia que nos toca,
Somos mais do que estamos

Dos momentos extraímos o que pensamos,


Do que pensamos construímos,
Do que construímos
Deixamos lembranças.

Lembranças de nossa essência,


Semente do que colherão,
Plantas que se renovarão,
Frutos que alimentarão.

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A inconsistência do estar

“Tá difícil”, diz a voz no vagão do trem. Ouço com interesse mas não
me mexo. E a conversa vai fluindo com os queixumes que já ouvi antes
e que ecoam nos últimos tempos em todos os espaços. A dificuldade no
entendimento, a dificuldade na decisão, a dificuldade na compreensão e a
facilidade de resumo. A simplicidade do falar e a ineficácia do agir. Somos
assim. Velozes em julgar. Pensamentos perversos que o rosto deixa trans-
parecer. Sorriso irônico com ar de arrogante superioridade. “Por que não
decide logo? É tão simples.” Espectadores do dia a dia que o compartilha-
mento do espaço coletivo permite ver e ouvir. Uma estação e mais alguém
entra. Uma conversa se inicia e você vai perdendo a paciência. Mas não
reage. Sente que há um entorpecimento mas seus dedos crispam-se e você
emite sua opinião sem se importar. Alguns olham, a maioria finge que
não percebeu o que ocorreu. Raramente nos confrontamos com a sombra
do nosso eu. Por diversas razões entendemos que é melhor com ela não
dialogar. Deixá-la quieta em estado de repouso e silêncio. E a dinâmica
do viver? Produz movimentos oscilantes que vão, qual poça de água em
dia de chuva fina, produzindo gotas que se vão unindo e eis que um lago
profundo forma-se. Sua sombra está lá, você a vê de quando em vez. Ela se
comporta e não se aventura em chegar às margens. A sua essência parece
outra, você parece outra. Todos te rotulam com facilidade e eis que um
colóquio de sombras faz-se necessário. Algumas relutam mas sempre uma
assume a liderança e, em sintonia, vão descobrindo-se. A sensação de não
pertencimento vai se descortinando e a plateia não a recepciona. Insistir
ou desistir? Dúvidas, não mais. Desistir é sinônimo de derrota? As limita-
ções não se confundem com os limites internos que não são expostos. Ah!
O querer que não é o desejar. O olhar que não precisa de visão. O silêncio
qual escudo. A força silenciosa do existir. O existir ou o estar. O ser sem-
pre. A sombra senta ao seu lado e balbucia pequenos comentários e depois
mergulha e, lentamente, vai recolher-se. Você, na certeza do estar. Outra
estação. Tudo rápido. Mais palavras chegam a você. Não quer ouvir. Fecha
os olhos. Sumir dentro de si mesmo. Já nada mais se ouve. Com esforço a
música me embala. Ih! Minha estação chegou.

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Márcia Rodrigues

O Jardim Secreto

D. Mariana sempre foi uma mulher ativa, batalhadora que levava a


vida cuidando dos afazeres da casa, dos filhos, do marido e de quem pre-
cisasse da sua ajuda. Sobrava pouco espaço para cuidar de si. Nos últimos
tempos, andava triste, desanimada, com muitos problemas no seu dia a
dia.
Num belo domingo de sol radiante, resolveu, então, parar um pouco
suas atividades. Escolheu uma revista pra ler e se distrair, pois estava can-
sada de tantas tarefas para realizar. Sentou em sua cadeira de balanço na
varanda da casa, que há muito tempo nem visitava e foi folheando a revis-
ta. No decorrer da leitura, se deparou com uma frase que tocou fundo seu
coração. O texto dizia: “não procure pelas borboletas, cuide de seu jardim
que elas virão até você!”
D. Mariana parou e ficou pensando, refletindo sobre aqueles dizeres e
se perguntando: será que eu cuido bem do meu jardim interno? Que flores
eu gostaria de ter no meu jardim? Teriam muitas flores? Teriam árvores?
E os pássaros, as borboletas, visitariam meu jardim? Como eu cuidaria
desse jardim? Como seria meu jardim? O que ele me traria?
E viajou nesse pensamento em busca do seu próprio jardim, o seu jar-
dim secreto, aquele lugar que lhe traria paz de espírito e serenidade sem-
pre que precisasse, onde poderia se refugiar para renovar suas energias.
Pensando assim, se sentiu bem melhor porque decidiu, naquele mo-
mento, que iria construir o seu verdadeiro e único jardim secreto, para
ser bem cuidado, regado diariamente e onde as borboletas mais belas e
coloridas pudessem chegar para fazer parte.

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Maria Cristina da Costa

Como ouvir quem não fala?

Quando entrei no quarto, depois de tantos anos, fiquei surpresa. Ela


estava tão magra, parecia abatida, mas havia um quê de vida pulsando no
seu olhar com tanta força que nada mais me chamava atenção.
A vida estava para além do corpo que ainda estava ali.
Já não falava com a boca há alguns anos, não andava, alguém andava
por ela, alguém fazia as vezes das suas mãos, dos seus quereres, dos seus
ouvidos, da sua pele, mas da sua boca... essa não! Ela falava com sua voz
muda e forte!
Os olhos falavam mais do que a boca, a testa falava, o rosto falava,
tudo era muito vivo e falante!
A cada palavra minha a fala dela brotava ou murchava, porque ela
também “desfalava”. Quando não gostava de alguma coisa sua testa logo
respondia.
No início do nosso reencontro, já havia passado anos desde a última
vez que eu a vira, ela me olhava com curiosidade. Não sei se sua memória
não me trazia à sua presença ou se era a dúvida do que, depois de tanto
tempo, eu estaria fazendo ali!
Pedi permissão para me sentar ao seu lado, ela ficou me olhando,
olhando... então, eu disse que estava ali para podermos conversar um pou-
co sobre sua história, sobre as histórias que eu trazia, e porque também
queria muito estar junto com ela mais uma vez, mais outras vezes.
Mexer na bolsa e tirar os livros, tirar a caixinha das histórias, des-
pertou ainda mais sua curiosidade, seus olhos de criança que foram cha-
mados para esse momento, perguntavam-se o que era aquilo tudo? Seus
olhos passeavam interessados e curiosos entre os objetos e os meus olhos.
Tantos coloridos objetos desconhecidos e pareciam tão encantados!
Falamos muitas coisas nessa hora, da minha alegria de estar ali, do
meu carinho por ela, e ela me respondia com um dos olhares mais bonitos
e reflexivos que já vi, um longa conversa sem sons e recheada do mais
puro sentimento, aquele que está no mais recôndito de nossos corações.
Acho que nem tem nome, nem adjetivos, advérbio, substantivos! É o que
É!
Descobri que falar com os olhos é mais profundo e gratificante, é um
encontro inesquecível e deixa marcas na alma.
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O mais lindo engano

Ele todo garboso, querendo fazer bonito. Elegante, cuidadoso, cheio


de si.
Ela toda charmosa, carregava um buquê de flores que havia recebido
pelo Dia Internacional da Mulher. No seu salto alto, tailleur bem talhado,
cabelo bem arrumado, maquiagem impecável. Por tudo havia se prepara-
do com cuidado para o encontro.
Ele seguro e resoluto chegava à recepção do hotel que iria deixar a
mala antes de partir para o jantar esperado.
Era uma linda noite, o calor forte, o terno, a gravata, tudo um incô-
modo, mas nada o abalava.
Resoluto, adentrou o hotel e dirigiu-se à recepção. A reserva estava
feita, era só deixar a mala e finalmente seguir para o jantar no restaurante
onde a vista era a mais linda de toda a orla, era a mais linda vista!
Ela aguarda discretamente e observa seu jeito envergonhado. Não era
aquele o hotel. Seguramente se enganou. Ou quem sabe a secretária! De-
veria ser o outro perto daquele.
Saíram conversando, e ele garboso puxando a mala, afinal não podia
aparentar derrota nem “deixar cair a peteca”, era a primeira vez desse en-
contro e precisava causar ainda a melhor impressão!
Outra vez a cena repete-se em outra recepção, e mais uma vez a cena
é completa. E assim foi por alguns hotéis.
Ela, ainda discreta, mas com vontade de rir já buscava uma poltrona e
sentava-se enquanto ele se dirigia à recepção.
O suor começava a fazer parte da cena e ela já não tinha tanta segu-
rança no salto alto das calçadas de pedras portuguesas. As flores antes tão
lindas e frescas, começavam a murchar...
Finalmente o hotel certo. Tudo resolvido e seguiram para o restauran-
te com a vista mais linda de toda a orla. E quando lá chegaram olharam
para a mais linda vista, a mais linda orla. E, quando se olharam... viram a
mais linda história nascendo mais imensa, profunda e forte do que todo o
mar daquela linda vista da orla!

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O paradoxo, o Vulcão e a Neve

A viagem era dos sonhos, uma paisagem que não imaginava como
seria ver!
Vulcões, geleiras, uma geografia muito desconhecida daquela que já
se tornava familiar da pequena aldeia no interior de Portugal, terra dos
seus pais, onde tudo era muito pequeno e antigo. Pedras nas ruas, nas
construções das casas, nas pequenas tabernas, nos tanques coletivos onde
antes se lavava as roupas, um rio caudaloso e longo, de margem estreita e
água transparente. Mas lá não havia vulcões nem geleiras!
Dessa vez a viagem levava-a para o contraste, o paradoxo e similitude
entre a magnitude do calor e a magnitude do gelo! As cores deveriam ser
diferentes, tudo deveria ser muito diferente e muito grandioso, e como
seria chegar perto de um e de outro?
Mas... aqueles vulcões que iriam visitar já estavam há anos sem ativi-
dade, e as geleiras estavam derretendo-se, e no caminho entre um e outro
a estação do ano não previa nada além de um sol brando e ameno. Então
era chegar às paisagens e deleitar-se, parecia que tudo estava previsto no
plano de viagem. A natureza estava prevista e sob controle, comprada jun-
to com o pacote da viagem!
Seguiam de carro até o mais perto possível do vulcão adormecido e
para apreciar a grandiosidade e a beleza de Vossa Senhoria, o Vulcão!
Só que a natureza, essa senhora soberba e generosa, convidou-nos a
uma outra experiência. E de repente na subida para o vulcão ela começou
a manifestar-se bem devagarinho, um floco, outro floco e mais um pouco
de subida a neve caía, caía em abundância, tingia o carro de branco, os
vidros e pneus!
Não, não, felizmente não estava previsto no roteiro, ela entrou no ca-
minho dos viajantes e mudou o roteiro da viagem, não dava para seguir
sem equipamento adequado.
O que importava o vulcão e sua magnitude adormecida ?
A neve, essa sim estava viva, cobria o carro, cheia da sua cor branca,
forte, ela era a magnânima, com sua textura fluida. Ela enchia as mãos,
escorria pelos cabelos, juntava-se aos risos e sorrisos, tornava os sapatos
inapropriados, a roupa molhada, e misturava-se às lágrimas que brotavam
dos olhos que, pela primeira vez, eram apresentados a Vossa Senhoria, a
Neve!
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Marthâ Schùltz

A última mensagem: “uma Crônica pra você”

Domingo, 07 de abril de 2019. Era uma noite chuvosa. Quando saí


para encontrar-me com uma pessoa que havia conversado num site de re-
lacionamento. A princípio, fiquei um pouco insegura, já que havia troca-
do apenas algumas informações que mais deixaram dúvidas e que desper-
taram curiosidade do que, propriamente, esclareciam de quem se tratava.
Vários pensamentos passaram pela minha cabeça como, por exemplo, se
eu deveria ir ao encontro dele. Fiquei um pouco preocupada porque nun-
ca se sabe quem está do outro lado da tela do computador, muito menos a
índole da pessoa. No entanto, pensei que se fosse num lugar público, seria
mais seguro e não haveria problema algum. E foi assim que eu aceitei o
convite e marcamos num restaurante. Surgia naquele momento uma es-
perança de enveredar pelas coisas do coração, dando uma oportunidade
a mim mesma de encontrar alguém com quem pudesse desfrutar de mo-
mentos agradáveis e, quem sabe, estreitar laços para um relacionamento
mais sério e duradouro. Sim, poderia ser uma oportunidade de esbarrar
com uma pessoa que tivesse o mesmo interesse. Foi com esse pensamento
otimista que resolvi ir ao encontro dele.
Cheguei primeiro no lugar combinado. Foi proposital porque, talvez,
eu pudesse sair do restaurante sem mesmo ser notada caso aparecesse
uma pessoa totalmente diferente daquela com quem eu tinha conversado
online. Não seria uma questão da aparência em si. Até porque o que é belo
é bem subjetivo. Como disse Iolanda Cabral, “A beleza está nos olhos de
quem vê”. Nesse caso denotaria a princípio, a meu ver, que talvez não fosse
uma pessoa muito confiável. Por isso, sentei-me num lugar estratégico, de
onde eu poderia retirar-me sem ser vista caso isso acontecesse. Sentei-me
à mesa que estava numa posição em que eu podia ver a porta de modo que
era possível também observar quem chegava ao restaurante.
A sensação de esperar por uma pessoa que talvez reacendesse a cha-
ma que há muito estava adormecida foi um refrigério para a alma, como
a chuva que caía naquela noite. O olhar não desviava da porta para não
perder o momento em que ele chegasse. Parecia uma adolescente à espe-
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ra do seu amado. Em meio a esses pensamentos, com o olhar fitado em
direção à porta, eis que de repente ele chegou. Foi um momento mágico
que eu tive ao ver aquela cena. Era um homem alto, forte, que esboçava
um belo sorriso. E estava um pouco diferente da foto do perfil, mas, não
menos lindo, ao contrário, causou surpresa, fazendo-me lembrar do livro
O mundo no Black Power de Tayó. Sim, ele era dono de um lindo cabelo
Black Power! Meus olhos registravam todos os detalhes. Mas, era diferen-
te da foto. Então, perguntei: Por que você não coloca uma foto recente em
seu perfil? E ele respondeu que não tinha nenhum motivo em especial,
apenas não tinha o costume de mudar de foto por não ter muita familia-
ridade com a tecnologia.
Começamos a conversar a fim de nos conhecer, saber de nossas afi-
nidades e objetivos, bem como de interesses incomuns. Aquela converva
inicial que a maioria das pessoas tem quando se encontram por meio de
um site de relacionamento. A conversa fluía de modo agradável e eu es-
tava bem otimista com aquele primeiro encontro. Enquanto ele falava, o
meu olhar fitava-o e suas palavras agradavam-me, bem como suas ideias
e valores bons que, inicialmente, demonstravam ser de suma importân-
cia para ele. Como por exemplos, sinceridade, confiança, honestidade e
a importância de honrar com a palavra. Uma pessoa que aparentava ter
maturidade, confiante e que, sobretudo, sabia o que queria. Portanto, tudo
que eu precisava fazer naquele momento era aproveitar aquela companhia
agradável. Ele é lindo, eu pensava. Os gestos dele ao relatar sobre sua vida
despertaram um sentimento de ternura, relembrando um conto escrito
por Rubem Alves que descreve como este sentimento fora despertado, ao
observar uma criança dormindo. Um gesto simples e delicado nos desper-
ta ternura e, nesse momento, eu pude compreender exatamente a mensa-
gem contida na Crônica de Rubem Alves ao observar aquela cena.
Conversamos por um longo tempo até que nossos olhares cruzaram-
se de tal forma que um desejo de beijar-nos nos envolveu e não nos
contivemos. Para a minha idade pareceu estranho, senti-me como
uma adolescente, mas ao mesmo tempo foi revitalizador. Ah! Carlos
Drummond de Andrade tinha razão quando escreveu: “O mundo é grande
e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no
colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.” Voltei
para casa com uma sensação muito boa, com a esperança de reencontrá-lo
novamente, quem sabe. Não demorou e foi exatamente o que aconteceu.
Encontramo-nos novamente e, como da primeira vez, foi bem agradável,
divertido e eu diria até bem romântico. A partir desse dia, começamos a
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encontrar-nos com mais frequência e percebemos que tínhamos muitas
afinidades, interesses comuns, entendíamo-nos bem e já começávamos a
fazer planos juntos.
Estava tudo sincronizado, sentíamo-nos muito bem juntos. O que de
fato eu não conseguia mensurar com explicações racionais para tanta afi-
nidade, parafraseando Blaise Pascal, quando diz que o coração tem razões
que a própria razão desconhece. É isso. Sim, há coisas para as quais não se
tem explicação. Como em tão pouco tempo podíamos sentir tudo aqui-
lo e viver tão intensamente? Eu estava bastante empolgada, assim como
ele também. Estávamos admirados por encontrarmo-nos numa época de
nossas vidas prestes a desacreditar que pudéssemos ainda viver um rela-
cionamento pautado no respeito, confiança e reciprocidade. Éramos mui-
to atenciosos um com o outro. Ambos gostávamos de ir à praia, cinema
e até andar de bicicleta. Ah! Houve um fim de semana que resolvemos
dar uma volta por toda extensão da orla andando de bicicleta. Foi bem
divertido, fazia muito tempo que não sentia aquele vento e a sensação de
liberdade que um passeio assim pode nos proporcionar.
Num outro fim de semana, fomos à praia e rimos demais das piadas
que um contava para o outro, enquanto bebíamos água de coco admi-
rando a beleza do mar. Houve uma noite em que dançamos e cantamos,
bebemos vinho e confesso que tomei mais que o habitual, não a ponto de
ficar embriagada, mas leve. Sempre tínhamos essa sensação mesmo quan-
do não tomávamos vinho.
Considerando que vivemos numa sociedade do superficial, do efême-
ro onde tudo é rápido e passageiro, estávamos com muita sorte. Já come-
morávamos alguns meses e tudo estava bem. Será mesmo? Sim... Até eu
ouvir o toque de recebimento de uma mensagem no WhatsApp:

“Bom dia. Muito obrigado


por tudo e pelo carinho.
Deixei a sua chave na
portaria.”

— O que teria acontecido? – eu pensei...


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Estava tudo caminhando bem, aparentemente não havia nenhum
motivo para afastar-se repentinamente. E foi o que perguntei em resposta
à mensagem dele. No entanto, não obtive retorno e naquele momento
entendi que aquela fora a última mensagem.
No intuito de compreender o que havia acontecido, comecei a anali-
sar a sociedade atual e o meu próprio comportamento. Talvez as idealiza-
ções de um relacionamento em bases mais sinceras e profundas não este-
jam tão em voga em nossos dias. Talvez eu tenha me enganado ou ainda
criado expectativas. No entanto, ao me deparar com o livro Amor Líquido:
sobre a fragilidade dos laços humanos, pude elucidar algumas indagações
acerca do ocorrido. Realmente, a “Era da modernidade líquida” em que
vivemos traz consigo uma misteriosa fragilidade dos “laços humanos” e,
eis que me encontro numa situação exatamente descrita pelo sociólogo
Zygmunt Bauman. O mais importante é a conquista, dominar o território,
massagear o ego e quando decidimos que não queremos mais continuar
com aquela pessoa basta escrever uma dúzia de palavras, clicar e enviar no
WhatsApp e tudo estará resolvido: DELETE/FIM.
Relacionamentos começam e terminam, alguns são curtos e outros
duram uma vida, creio não ser o tempo o mais importante. No entanto, a
forma como encontramos de conhecer-nos e/ou nos relacionarmos na era
moderna, sim, creio que são válidos e permitem que ampliemos nossas
relações sociais. Mas, em casos como este talvez não estejam em conso-
nância com o discurso em defesa de determinados valores, quando nos
encontramos e estabelecemos um vínculo no mundo real com alguém.
Concordo com o pensamento de Bauman quando diz que em “nossa
cultura consumista” os relacionamentos “amorosos” são tratados como
mercadorias: não gostou ou apresentou algum defeito, devolve, troca por
outro. Isto é, as pessoas são descartáveis à medida que não correspondem
aos nossos anseios, “um prejuízo a ser eliminado” já que o meu sossego e a
minha paz podem ser tirados com esse relacionamento. Nesse ponto, che-
go a uma conclusão que realmente torna-se verdadeiramente necessário
dar maior atenção ao amor próprio, “tomado como modelo do amor ao
próximo” e incluo aqui o respeito que é inerente ao amor maior e profun-
do em sua totalidade.
Que em tempos de WhatsApp não percamos a coragem de olharmos
nos olhos do outro e, do mesmo modo, ao marcarmos um encontro, ini-
cialmente termos a coragem de, ao despedirmo-nos, explicarmos o que
pode ter havido, caso necessário, e dizermos a verdade, mesmo que não
seja aquilo que se deseja ouvir.
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Norma Emiliano

O poetar e/ou escrever tem o poder de salvar, de ajudar a alma a libertar-se


das dores, amenizar e/ou alegrar o dia dos que mergulham em palavras.

A força da poética

Quando me entrego à poesia


As palavras se unem
Formando a travessia

Surgem memórias queridas


Danças antigas em vários ritmos
Cadências de lembranças.

No ontem, o hoje
De muitos tons
Incorporados ao meu ser

Para além vai o barco


Navegante de mares
Que me encantam
E me intimidam.

Poesia vicejante
Canteiro adubado
Do sumus da vida.

Assim me esparramo
Das dores contidas
Em múltiplas máscaras.

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Há sombras sorrateiras que nos desviam dos reais desejos e conduzem-nos
por caminhos desalentadores e impedem a plenitude do SER.

O descortinar das dores

Perscrutar a alma
Desenterrar ossos
Encrustados no tempo
Nas curvas da indecisão.
Olhar sem medo
O mal pressentido
Que atormenta e
Desestabiliza o sentir

Entre as mágoas e dúvidas


As angústias encurtam a respiração
Aceleram o coração
E quem sabe? Impedem
A entrada da luz.

Urge! Abrir a clareira


Para expandir a consciência
Trazer com clareza
O revés que cega
E trava a espontaneidade
Do SER.

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Norma Schwab

Água e sal

Eu espano as minhas penas oclusivas ou constritivas,


Bobocas, bandidas, impulsivas...
Ora fricativas,
feridas, vencidas...
Ora laterais,
Aladas, molhadas...
Ora vibrantes,
Iradas, errantes...
Com orgasmos simples ou múltiplos...
E elas escorrem pela face feito um gozo, líquido e cristalino...
Salgadas, amantes...
E vão...
Limpando canais lacrimais...
Desmanchando pedras laríngeas...
E voam feito fumaça!...
Sem rumo pelos ares...
Ecoam através dos ventos...
Levando os meus lamentos,
Minhas dores, meus tormentos...
Bilabiais,
Labiodentais,
Linguodentais,
Alveolares,
Palatais e
Velares...
Transparentes ou veladas...
O sangue ferve nas veias,
O rosto, em brasa, exala o calor da combustão
De zonas abissais...
E em liquefeita transmutação
Atravessam as cordas guturais...
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Acessam túneis
Zonas de escape e prazer do dizer que não fala
Ou fala e não diz...
Paradoxalmente
Salientes e barulhentas,
Caladas e silenciosas...
Explodem pelos ares
Surdas ou sonoras... Pê, Bê, Tê, Dê e todo o ABC...
Livram a congestão dos canais
Orais ou nasais...
Numa alquimia interior
Viram unguentos cicatrizantes...
Bálsamo curador...
Sopro sagrado de minhas entranhas!

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Rastro

Anda, apressa-te, corre!


Senão irás perder a chance
De ver-me purgar a dor
Que em mim escurece.
Aproveite,
O tempo urge...
Eu não falho,
Recupero!
Se anoiteço,
Logo amanheço...
Não temo temporal;
Do raio faço espada,
Do trovão melodia...
Ainda que do lamento,
Nasça um "blue" ou um fado;
Teço acordes com fios da teia,
Transformo sofrimento em alimento,
Da lágrima faço adubo,
Que nutre minh’alma,
E faz brotar a força visceral...
E por instinto, uivo bem alto,
Sacudo a poeira,
Transmuto-me em água fervente,
Derreto o gelo,
Evaporo!
Anda, apressa-te, corre!
Senão sentirás apenas o calor de minha ausência
E verás apenas o rastro de minhas pegadas...

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Na calada da noite

Eu sou a arca perdida,


Encerro segredos...
Eu sou o graal,
Conquiste-me!

Eu sou a esfinge...
Decifre-me!

Porto a pirâmide invertida,


Sou mãe e donzela ancestral.
Sou a donzela raptada Core,
Sou Ártemis, a Diana caçadora
E já flechei o infinito.
Sou Afrodite, a Vênus sedutora
E trago a maçã do amor no peito.
Sou Sedna ...
Sou lua...
Sou azul...
Sou tríplice...
Um quarto-crescente,
Lua Cheia,
Também, às vezes, minguante.
Sou cíclica, sou yin,
Sou poeira do universo,
Sou mãe, fui filha, serei avó.
Sou luz e serei pó.

Sou mulher...
Tenho a magia da amante
Mesclada a uma ingenuidade debutante.
Sou filha da Deusa Dana,
De Ísis ou de Pachamama.
Sou eterna aprendiz, caminhante.
Sofri, amei e pari,
Dei flores, frutos e folhas.
Por trás da vida envidraçada,
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Ulisses, herói guerreiro troiano,
Navega em seu mundo,
Afagado por belas ninfas e sereias.
Eu teço a minha mortalha.
É hora de preparar o manto,
Esperando a ceifadora derradeira...
Mas feito Penélope,
Na calada da noite, desmancho...
Sou do lago,
Senhora...
Sou atemporal!
Creio no eterno retorno.
Eu me rendo!
Troco a noite pelo dia,
Que se cumpra a profecia.

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Regina Abrunhosa

Contraste

Estou a cá
nação amiga
atenta ao movimento do respiro
invejo a calmaria
da paisagem que inunda
os espaços internos do meu ser.
Polens caem
numa dança que o vento inventa
e cobrem a relva enevada
num ciclo que se renova em prazos.
A iluminura do tempo
reflete a leveza da liberdade
onde o rio sobrepõe ao mar
numa geografia de terra e água
que se estreita numa visão real.
O pulsar da vida de repente se desloca
e te faz lembrar
que o tempo expira
e da margem que tens que atravessar
outro mundo te aguarda.

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Bagunça

A ordem é o prazer da razão:


mas a desordem é a delícia da imaginação.
Paul Claudel

Desleixo
sem eixo
sem lei
escreve.
Poeta não tem hora
tem momentos
tem lampejos
qualquer papel rasgado
liberta o pensar
e o espaço do poeta
Vira entulho.

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Regina Helena Dias

A escritora dormiu.
As palavras se estocavam debruçadas umas nas outras, esperando.
A escritora via o sol, sentia a brisa, olhava a lua.
E nada escrevia.
Chegava o Natal, o Carnaval, a Páscoa...
Nada.
Lápis, caneta, papel, tablet, computador, máquina de escrever(?!), cadê?
As palavras estavam revoltadas, ensaiavam uma rebelião.
A escritora continuava dormindo, à sono solto.
Chega de poesia!
Então vamos à prosa.
Chega de prosa!
A escritora ouvia delações, reclamações, discussões.
Tudo inútil.
Silêncio.
Psiu. Fiquem quietos, a escritora está dormindo.
As palavras se desmancharam em letras perdidas.
Se uniam em línguas desconhecidas.
Enlouqueciam esquecidas.
Acorda escritora, acorda!
Gritavam, gemiam, choravam, sussurravam.
Um olho piscou, um braço espreguiçou...
As palavras se abraçaram:
A escritora A C O R D O U!

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*

Estou com a cara na janela, olhos fechados, sentindo este friozinho de


Teresópolis.
Lembrança afetiva.
Frio na infância, só lá.
Meia, luva, touca, pulôver. Tudo bem colorido.
A água gelada congelava os dedos, e o rosto era lavado com as pontinhas
esfregando a remela dos olhos. Pronto. Banho tomado.
Tinha chocolate quente. Doces húngaros. Hortênsias azuis, roxas, rosas.
Pêssegos e amoras.
Taberna Alpina com waffles e geleia de morangos.
Aquele jeitinho europeu que se via nos livros infantis.
Pessoas de olhos azuis, pele alva e língua enrolada.
Subíamos a serra quase todo fim de semana.
Saíamos do sol praiano de Copacabana, num nevoeiro que chamávamos
de Russo,um gigante que morava naqueles precipícios da estrada, e que
papai chamava pelo caminho:
— Olá, Seu Russo? Tudo bem?
— Siiiiimmmm – ele respondia com voz rouca e assustadora
Assim íamos entrando num mundo de contos de fadas, de sonhos
inesquecíveis, rindo felizes com as aventuras que viveríamos, cheios de
carinho, amigos, brincadeiras, família, sopinha quente e mingau.

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Sandra Barros

Ser Múltipla

Múltipla de histórias
Todas batem em meu peito, deixam suas marcas
E voam para seu pouso
Múltipla de palavras
Eu as vejo percorrendo meu corpo até seu destino
Múltipla de sentimentos e emoções
Eles torcem e retorcem meu coração e aquecem minha alma
Múltipla de desejos
Quero, sonho, fantasio e realizo a partir de sua invocação
Múltipla de afetos
Amo, amo muito, amo com paixão daquelas bem vermelhas
E costuro toda essa multiplicidade
Com linhas de um enorme querer e curiosidade sobre o universo.

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Verbo, substantivo ou objeto

Onde anda minha esperança?


Hoje estou frágil
Sem vontade de cantar
Queria encostar e ver o mundo passar
Como um passageiro de um ônibus sem rumo.
Não sou dada a derrotas
Mas confesso que hoje quero e preciso da bandeira branca.
Desejo só o vento em meu rosto durante a viagem
Misturado com lágrimas de tristeza
Quero e preciso me sentir sem sangue, sem vida
Só sentir o vento e o nó na garganta
Hoje quero e preciso desistir de sentir, mover, fazer e agir e ser verbo
Quero hoje ser substantivo ou mesmo objeto
Para só estar.
Hoje quero não querer
Amanhã?
Vamos ver!

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Nós

Preciso pausar com você


Achar um lugar e brincar de concha
Sumidos do mundo externo
Achados no mundo terno
Preciso pausar com você
Me perder em você
Achar você em mim
Amanhecer, entardecer e anoitecer você
Preciso pausar com você
Olhar para o nada
Fazer só o querer
Querer só o prazer
Quero pausar com você
Achar um mundo nosso
Deitar, amar
Deixar acontecer
Dar boas gargalhadas
Sem importar
O que possa parecer
Pausemos nós
Fiquemos sós
Depois…
Voltamos cheios de sol
Para brilhar com os nossos.

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Sergio Guillermo Hormazabal Rodriguez

Tempo e espaço

Perdi-me no tempo
Senti-me perdido no espaço
Espaço, tempo
Tempo e espaço

Sentimento e pensamento
Era toda confusão,
Só tu eras clara,
Clara como essa luz que vi

E que... me perturbou.
Será que nunca mais terei paz?
Até te encontrar!
E saber quem és!

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Encontro

Te encontrei!
Finalmente, depois do tempo
Antes do fim, e
Antes do começo.
Era agora, no presente...
No futuro
Amor de sempre!

Como foi?
Foi na morte, um ser querido
Que se foi.
Nos encontramos, falamos
Um pedaço de papel
Junto com a tristeza do instante,
O desejo e a lembrança!
Nos encontramos!

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O Ócio

Estava sentado comodamente no chão, encostado numa árvore fron-


dosa que me protegia do sol forte das 11 horas, olhando as folhas verdes
de diferentes matizes e tamanhos, absorvido no nada, no tudo, dentro de
mim. Meditando, não sei em quê, nem sei se era meditação ou lassidão da
vida. No local alguém passeava falando alto com um grupo de seis jovens
que pareciam muito interessados nas palavras de Sócrates sobre Ética. Eu
os ouvia longe, mas claro nas suas escutas e comentários que eu nada en-
tendia.
Ética, dizia o mestre “é o comportamento individual dentro da fideli-
dade íntima de cada indivíduo, que cumpre consigo as crenças e valores
mais profundos.” Essa ética acho que eu entendia, eu fazia o que queria e
acreditava: nada..., praticava o ócio e a meditação transcendental preconi-
zada pelos sábios orientais.
Vi um filme francês uma vez que falava de um trio de fazendeiros
formado por um casal idoso, um filho adolescente e um cachorro poodle
branco que pegava o pão e o jornal na vila próxima. O pai maltratava o
filho com trabalho excessivo, mas o filho obedecia sem reclamar ainda que
odiasse o trabalho agrícola.... Um dia os pais morreram e o filho com os
vizinhos levaram o casal ao cemitério da vila.
Depois disso a vila nunca mais soube do filho, só viam o cachorro
pegando pão e jornal na venda do Sr. Silva.
Até que os vizinhos preocupados foram visitá-lo e encontraram-no
deitado na cama do casal lendo o jornal e do teto pendurados comida e
pão num sistema de trilho em rodízio. Não fazia nada. Esqueci de relatar
que estava de bermudas, sem camisa, cabelo “cai como quiser”, jornais
pelo chão e roupa espalhada pela cama. Os vizinhos criticaram o que vi-
ram!
Senti-me representado por esse individuo na cama!
Claro que isso não é a realidade, é ficção, utopia como a ética que nin-
guém pratica, mas todos defendemos. Ética minha, sua, dos políticos, do
vizinho, dos amigos... e aqui vale a digressão sobre “amigos”. Amigos da
cerveja da sexta feira, dos amigos da praia, dos amigos do Bloco de carna-
val, e de meu Amigo da Alma, aquele que é quase nosso irmão.
A ética do fazendeiro era “deixa fazer o que quero com o que tenho, e
assim sou feliz!” Respeitem minhas escolhas e minha Liberdade!!!
Continuo meditando!
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Silvia Fortes

Cotidiano

Trem cheio. Mais uma estação.


Uns saem... outros entram…
A jovem mulher está de pé com uma criança no colo.
Fingem não a ver. Quem quer perder o lugar?
O vendedor ambulante anuncia no megafone: “Tem moça com bebê no
colo, aê!”
Silêncio no trem.
Um cavalheiro oferece o seu lugar. A mãe caminha sorridente até o assento.
Senta-se a meu lado.
Percebo que tem mais duas crianças, entre sete e nove anos de idade.
Tentam ocupar a mesma cadeira que a mãe e o irmão. Recebo pisadas e
quase sentam no meu colo.
Resolvo brincar com o bebê a fim de descontrair a viagem, pois, a esta
altura meu humor já está abalado.
Para que fui brincar? A criança quase arranca meu brinco!
A brincadeira perde a graça.
Sorrio para amenizar a situação. Não adianta. A mãe deu-lhe um tapa que
também doeu em mim.
Os filhos maiores levam beliscões a cada pergunta sobre a viagem.
Mãe impaciente. Crianças cheias de energia.
Respiro aliviada quando após duas estações ela anuncia que irão descer.
Confesso que quase fiz o sinal da cruz.

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Cumplicidade

Corria para a rua sempre que começava a chover


Pingos grossos,
Temporal!

Brincar na lama,
cavar buracos,
abrir caminhos…

Onde aqueles caminhos poderiam levar?

A água escorre e a menina se perde em pensamentos.


Cria personagens, habita em castelos.
Sonhos molhados
Sorri ao ver a água barrenta descer o morro…

Água, terra, sonhos e risos se misturam


Sonhos de menina que não pensa no depois.

Para a criança, tudo é agora!


Pensa que a vida adulta deve ser chata,
porque eles não sabem brincar com o temporal.

Rua vazia.

Só a menina, o barro e a chuva


num momento que se torna eterno.

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Sônia Regina

Deixa

Passa, sempre passa


Deixa doer, deixa.
Lágrima cai e lava,
Liberta e limpa.

Deixa doer, deixa,


É dor de desalento,
É dor de libertação,
Não do corpo,
Não da carne,
É da alma.
Que na forja se transforma,
Concebe frutos,
Permite colheita.

Deixa doer, deixa,


A dor que machuca, que tira a paz,
Que corrói em cinza, em dia nublado em prenúncio de inverno

Deixa doer, deixa.


A dor abre ferida e cicatriza,
O tempo cura, cura tantas...
Essa é mais uma...
Deixa doer... deixa!

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Uma rosa no jardim de Maria

Itapetinga, sertão baiano; mês de janeiro, num dia seco de verão, claro
e luminoso de um lindo amarelo dourado com contrastes de azul, dum
céu de brigadeiro. A casinha simples, de família pequena, vida mingua-
da e regrada em tudo; lá fora, a imensidão da natureza; ao redor da casa
muito verde e um jardim cuidadoso de pequenas variedades, chega Rosa,
menina em botão de flor, não era esse somente o seu nome, mas desse ela
mais gostava. Cresceu sob a rigidez de sua mãe, mulher que parecia estar
sempre infeliz, o nome de Rosa era em altos brados, ordenando os cui-
dados da casa e do irmão menor enquanto a mãe ia para a lida com o pai
de Rosa, homem de bom coração, sempre solidário e de olhar meigo; seu
defeito, trabalhador sem ambições que nunca progrediu materialmente na
vida, mas cantava a alegria de viver nas Festas dos Santos Reis, tradição
das festas religiosas naquela região.
Rosa amadureceu em flor ainda menina, quando aos nove anos, sua
mãe já não mais bradava para os cuidados da casa, pois lá ela não mais
estava, numa época em que parir em casa era coisa natural e à Nossa Se-
nhora do Parto cada mulher entregava-se aos nove meses de gestação. As
parteiras tinham o dom de trazer à vida e muitas vezes a incumbência de
enxugar as lágrimas da partida ou das partidas, porque às vezes eram dois
a partir. E assim ficou Rosa e seus dois irmãos menores, todos foram viver
com o avô paterno, homem bom, mas não menos cuidadoso na educação
rígida. O que faltava?... quase tudo, o maior de tudo, a presença da mãe,
que naquele tempo, o acolher era presença, mesmo com ausência de afeto.
O pai um dia casou-se e a família tentou recompor-se, menos Rosa se
sentiu acolhida no novo seio e aos quinze anos prometida a um homem
desconhecido, muito mais velho, conhece Isaías, noivo de outra, mas que
vê em Rosa uma flor de moça e abandona o outro jardim. Isaías e Rosa
agora unidos pela lei do matrimônio, mulher em corpo ainda debutante
tem seu primeiro filho. Vida difícil já começou para Rosa, morando com
a família do marido, gente que maltratou, até negar comida e cuidados no
resguardo foram capazes. Que falta lhe fazia a presença materna e Rosa
chorava. Marido pouco presente em amor e calor, filhos que foram che-
gando e Rosa se viu longe do pai, menos um pouco sofreu com a ajuda do
seu irmão que um dia pequena ela cuidou.
E a trajetória de Rosa prossegue. Entre madureza e tristeza, em jardim
alheio, malcuidada, Rosa não perfuma, nem embeleza, murcha!! Mur-
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chou muitas vezes, mas a terra de onde Rosa veio, suas origens, seus an-
tepassados não negaram a Rosa a força de mãos hábeis, e garra de mulher
de que busca na labuta a vontade do viver, Rosa não é Clarice, mas se fosse
diria Apesar de...
Foi então que Rosa se valeu do nome de batismo para se fazer guer-
reira JOANA, agora mais do que nunca JOANA ROSA. A luta segue na
sementeira da vida de nove filhos, um marido, uma morte quase anun-
ciada e uma traição. A quase morte e a traição chegaram juntas. Joana em
um trabalho de parto lembrou a sua mãe, no choro de um dia e uma noite,
latejou à espera do outro filho nascer, gêmeos que nasceram com intervalo
de 24 horas, aí sim, ela encarou a morte, mas todos foram salvos, a Nossa
Senhora do Parto rendeu agradecimentos por toda a vida. E a traição lhe
causou feridas indeléveis em um coração que passou a sofrer e a adoecer.
Joana Rosa, mulher forte, não desiste da caminhada. Apesar das pe-
dras no caminho, Joana sempre acreditou na vida e teve uma palavra de
descrédito do que a medicina diz: Doutor, os médicos não sabem de nada,
quem sabe da minha vida é Deus e eu não tenho nenhuma doença em meu
coração. A fé, a fé cura, salva, mas a natureza segue seu rumo certeiro e res-
peitoso ao ciclo da vida. Joana Rosa passa a ter constantes conversas com
essa Natureza que também é mãe e ambas contemplam sabedorias e como
num acordo secreto, vivem quase em harmonia.
Essa mesma Natureza vai trabalhando os ciclos naturais da vida, as
estações vão agindo como manda o figurino. Joana Rosa se revigora com
a idade e aos 89 anos celebra em todos os tons e aromas seus anos de vida,
tons róseos em sua maneira de vestir, os cuidados com a pele ainda com
suavidade das pétalas de rosa branca, os aromas dos bons perfumes de
todas as flores, e o prazer de ouvir elogios pela sua aparência jovial, ele-
gante... e sorri. Seu coração guarda lembranças de um passado cinza, um
tanto amargo, mas ela resiste ao fel do que lá ficou e se alegra ao dizer que
gosta muito de seu nome — Rosa—, pois adora flores e em especial rosas,
pois um dia, talvez tenha sido uma jardineira cuidadosa do florido jardim
da Virgem Maria.
E eu não duvido, pois se sábado é considerado o dia de Nossa Senho-
ra, foi num sábado de céu em pétalas azuis que Joana Rosa partiu para
fazer parte da Legião de Maria e selou aqui nesse plano sua longa jornada
como JOANA ROSA, JOANA ROSA DE JESUS. Minha mãe!

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Verônica Falcão

Meta linguagem

Quando se quer escrever, escreve-se sem medo


Cabeça ou pensamento: útero a gerar?
Quando se quer escrever, imagina a palavra
E, rapidamente, retira a sua roupa, admira-a assim: nua!
A palavra não tem vergonha, é legítima, sincera
Rodopia diante do poeta e se mostra inteira
A palavra não quer sorteio, não segue paradigmas
É liberta, libertina, aceita todas as propostas
Não compete com outra, apenas se assume
Entra em sua própria vaga.
A palavra é democrática
Está em todos, pertence a todos
E todos a utilizam
Simultaneamente
É onisciente e onipresente
Aponta, critica, atesta, burla, irrita, ofende
Escreve o burguês, escreve o mendigo
A altivez de um burguês bandido
A sutileza de um ingênuo mendigo
Não espera nada e quer tudo
Acompanhante de um grupo de amigos
Companheira de um solitário, esquecido
Soberana, reina em segredo sobre todos
Permite-se usar, dizer, desdizer, mal dizer
Registra-se, permite-se registrar
Sem medo
Defronta-se com o leitor, como estiver
Séria, sóbria ou dissimulada, nunca vazia
Mesmo nos escritos de infância
Lateja, incha, diminui
Não vive das intenções do escritor
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A palavra é por si só
Um poema a ser lido.
Lê-se o que está escrito:
Com a alma de um burguês ou a liberdade de um mendigo?
Quando se quer escrever
Não se possui a palavra, é ela quem possui o escritor
Vem a ideia de um cosmos particular, misterioso
A brisa de um instante se instaura no ser-poeta
De repente, tudo para
E, dentro, ouve-se o farfalhar do vento
Lá vem a palavra!
E ela quer sair, arrebentar, se espreme
O poeta precisa parir!
E os braços canalizam sua passagem
E as mãos a entregam ao mundo: eis o (re)nascimento
Fênix
Pulso
Fôlego
Palavra.

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Biografias

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Cristiana Seixas
Cristiana Seixas é contínua buscadora de sopros
sensíveis de cuidado. Em suas andanças, encon-
trou a psicologia, a biblioterapia, a arteterapia, a
dança circular, a constelação familiar e continua
procurando. Seu lugar sagrado é entre mandalas,
de livros e pessoas, em convite de pausas, respiros,
leituras, escutas, trocas e danças. Anda cavalgando o sonho e inventando
o chão para ver a biblioterapia florescer no país, com apoio da Bibliofamí-
lia: alunos e mestres na arte de cuidar com literatura.
Órbita - página 31
Sumo - página 32

Adriana Gandelman
Adriana é filha do Verão. Cresceu na praia do Le-
blon à base de biscoito Globo e água de coco. Po-
dia ser vista catando tatuí na beira da água, lendo
na areia ou pegando onda e jacaré. Queria ser mé-
dica ou professora de bailarina. Hoje ela cuida de
corações e mentes e rodopia feliz entre seus livros.
O pescador de Copacabana - página 07

Ana Clara das Vestes

Formada em Letras pela UFRJ, quando criança,


gostava de ler gibi e, no final da adolescência, Clari-
ce Lispector tornou-se minha grande companheira
de cabeceira. Foi durante o registro de uma das ex-
periências de minha vida de mãe – em que conto
sobre a relação do meu filho, naquela época, de cin-
co anos, com um de seus livros prediletos – que me encorajei a publicar o
meu primeiro, Dois dinossauros e uma duna imensa, pela Semente Editorial.
Vestes rasgadas, veste de mim - página 11

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Ana Margarida Pereira Pinto

Amargarida - mulher, mãe, buscadora. Coleciona-


dora de histórias desde que se entende por gente,
aliás, foram as histórias que a salvaram em muitos
momentos de sua vida. Busca o constante aperfei-
çoamento para exercer a Biblioterapia como forma
de cuidado e resistência. Por necessidade própria,
facilita processos de comunicação que promovam a empatia e a compai-
xão. Gosta de ler, cantar e rezar, como formas de amar. Escreve por pulsão
de vida e morte. De vez em quando engarrafa o que escreve e joga ao mar.
Diário de Bordo: 12ª Lua - O chamado - página 13

Ana Maria Ferreira Azevedo


Multifacetada, hoje transita na música, na dança,
na contação de histórias, na costura, nas viagens,
na leitura, no artesanato, na prosa... e assim segue
Ana Maria, carioca, 60 anos, nutricionista faminta
por novos caminhos da vida.

Um passatempo despretensioso e agradável... - página 17


Sem assunto, sem personagens e sem cenário... - página 18

Ana Santinho Soares

Nasceu em 1960 e atualmente vive em Niterói. Car-


diologista, esposa, mãe, canceriana e apaixonada
pela vida. Ama ler e escrever, sendo o tema preferido
de suas produções o ser humano e seus sentimentos.
Enquanto a família, a casa e o trabalho a amarram à
terra, a leitura e a escrita lhe permitem voar.

#Ilhéuscomvocê - página 19
Emoção costurada - página 20
Buscar palavras - página 21
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Angela Puppim
Angela Maria é mãe de três filhos. Foi economista e,
agora reinventada, é contadora de causos e histórias.
Também conhecida como “a palhaça Pum Pim”, é
entardecidamente escrevinhadora. Seu primeiro li-
vro Escritas libertárias foi publicado em 2017 pela
Editora Cândido, dentro da Coleção Biblioterapia.
O Beijo / Plenitude / Eclipse / Mulher / Vida / Mosaico - página 23

Carmen Luiza
Nascida em Niterói. Professora/ Pedagoga, mãe e
avó, contadora de histórias, escritora, poeta, aman-
te das palavras, eterna aprendiz. Participante em
duas antologias literárias: Natal-poesias: contos e
crônicas e Dois Anos de Blogosfera.
O Sumo da Vida - página 27
Christyanne Bueno
Menina de alma poética, lê para se encontrar, es-
creve para se perder. Sonha grande. Vive para
aprender e morre a cada crescer.
Joaquina, menina que rima - página 29
Para... ty na FLIP - página 30

Cynthia Azevedo
Carioca, apaixonada pela língua portuguesa, come-
çou a gostar de poesia aos nove anos, quando escre-
veu os primeiros versos. É formada em Letras e dedi-
cada aos livros. Em 2016, publicou Poema molhado,
seu primeiro livro. Em 2018, veio o segundo, Agora
não tenho onde me pôr. Diretora da Expressão Edito-
rial, deleita-se nos estudos e nas alegrias das teorias
da literatura e da alma.
I - página 33
II - página 34
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Daline Rodrigues Gerber
Meu nome é Daline Rodrigues Gerber. Aprecio a in-
venção do mundo através da poesia. Além de escre-
ver, sou professora de Português, artista e mais mui-
tas outras coisas. Gosto de acompanhar e aprender
com os movimentos sociais. Indico a todos a prática
das danças circulares. Procuro equilíbrio espiritual e
emocional. E assim vou seguindo minha vida até o
ponto final.
Metáfora ancestral - página 35
Auto-mídia- página 36
Das impermanências - página 37

Deborah Rosa

Poetisa, pintora, cantora, escritora de causos, conta-


dora e cantadora de histórias, coach pessoal. Se dis-
farçou como advogada militante por compreender a
necessidade de se autoconhecer para resgatar os re-
cursos internos e aumentar a capacidade de resolução
de problemas judiciais.
Convite Recusado - página 39

Denise Nogueira
Nasceu às vésperas da primavera. Carioca com alma
de bicho que voa. Desviando aqui e ali ainda está des-
cobrindo o poder das asas. Dá seus voos através do
olhar observador da arquitetura, no prazer da dança
e na alegria de contar histórias para crianças. Deseja
voar mais alto na escrita e no amor.
Pela Metade - página 41
A casa do meu avô - página 42
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Dionéia Tozzi
Psicóloga, Psicanalista, Biblioterapeuta. Buscadora
e contadora de histórias, guardiã de segredos,
captadora de olhares, colhedora de sorrisos,
colecionadora de encantamentos, mediadora de
encontros, curiosa de possibilidades, amante da
vida e do Humano Ser!
Desejo - página 45
Vida - página 46

Elzinéia Oliveira
Eu sou Elzinéia. Busco equilibrar a emoção e a razão
com as atividades que faço como Servidora Públi-
ca, aprendiz na escrita criativa, participante de um
grupo regular de Biodanza e semanal de meditação,
apaixonada por contação de histórias e teatro.
São tantas demandas e tantos fatos... - página 47

Fabiana Corrêa

Fabiana Corrêa cursou Ciências Biológicas para en-


tender a Natureza. Em sala de aula, aprendeu que
a natureza humana carece de horizontes. Hoje tece
histórias e conta bordados, sem esquecer que há
tempo de ser semente e tempo de ser árvore.
A autora tem obras infantojuvenis publicadas,
como História de um Cambucazinho, Sonho de canoa, Quero minha água
de volta, Era uma vez Euclydes - para jovens leitores e Contos de enganar
o tempo, além do livro Contos desatados, destinado ao público adulto e
participação em diferentes antologias.
O dia - página 49
Nau - página 50
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Fabíola Barcelos
É passarinha que voa nas asas da poesia desde
quando conheceu o poeta Manoel de Barros. É
professora, blogueira literária, mediadora de lei-
tura e de Rodas de Biblioterapia e organizadora
do clube de leitura Leia Poesia (@leia.poesia), que
existe desde 2017 em Macaé/RJ. Seu perfil literário
é o Passarinhos no sótão (@passarinhos_no_sotao) que existe desde 2017,
com dicas de literatura para a infância e poesia.
Plantando versos na calçada - página 51
a menina - rascunho que fui - página 52
Poemas diversos - página 53

Fátima Pereira
Sou a Fá, sonhadora por natureza, adoro boas his-
tórias, flores, poemas e borboletas. Até me arrisco
a escrever alguns textos e outros rabiscos. Como
toda boa aquariana, adoro viajar, mesmo que seja
através das histórias e foi essa paixão por livros
que me levou a cursar Letras na universidade.
Borboletas - página 55
Mulher - página 57

Flavia Santhos

Analista de Sistemas, nascida no Rio de Janeiro.


Nos últimos anos, vem se dedicando à área tera-
pêutica, com formação em Terapia Bioxamânicas,
Aromaterapia, Biblioterapia, Reiki, Dançaterapia,
dentre outros. Nas horas vagas dedica-se à leitura,
arte, estudos terapêuticos e um bom mergulho no
mar. Para ela, o mar e a brisa são grandes inspirado-
res da arte, principalmente em seus poemas.
Eu estou... - página 59
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Helô Vilas Boas

Psicóloga clínica, apaixonada por livros, suas his-


tórias e suas palavras mágicas transformadoras.
Entre as técnicas psicoterápicas, tem utilizado a Bi-
blioterapia há muito tempo, alcançando resultados
significativos e surpreendentes. Atua também como
Contadora de Histórias para crianças e adolescentes
em hospitais de SP.
Arrumação - página 61
Tempo - página 62
Som - página 63

H. Francisconi
Hilário Francisconi é licenciado em Língua Portu-
guesa e Literatura Brasileira, jornalista e psicana-
lista clínico. Sua obra compreende crônicas, con-
tos, poemas, ensaios, romance, humor, peças para
teatro, literatura infantil, argumentos com roteiros
para curtas-metragens e assina a coluna “A Psicaná-
lise no Divã” no Jornal Santa Rosa/Niterói.
No inferno - página 65

Inês Drummond
Formada em Letras e Comunicação Visual. Profes-
sora, poeta, desenhista e ilustradora. Apaixonada
pelas palavras e imagens. Publicou os livros Filhas
da terra (2019) pela Editora Cândido e também A
soma das lembranças (2017), Dentro das palavras
(2016) e Des-caminhos (2014), além de diversas
participações em antologias. Em 2018, foi eleita
membro da Academia Niteroiense de Letras.
Encontro - página 69
Passiflora - página 70
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Jacqueline Assunção
Mestra em Gestão de negócios Turísticos pela Uni-
versidade Estadual do Ceará UECE. Especialista
em políticas publicas. Graduada em Artes Plásticas
pelo IFCE e em Filosofia pela UECE. Atua na AS-
SALCE -Associação dos Servidores da Assembleia
Legislativa do Ceará, como Coordenadora de Pro-
grama em Artes, facilitadora do curso “Biblioterapia” e assina coluna do
Informativo também da Assalce. Membro dos voluntariado do Poder Le-
gislativo cearense. Formanda em psicanálise e mãe do Lucas e da Thereza.
Apaixonada pelo mar...
Whatsapp. Para o ser - página 71
FRIDA #reverber@ - página 72

Jordana Riquiri

Poli-Bibliotecária; biblioterapeuta; poli-mãe; poli-


-cidadã; muitas ocupações. Mas, tudo isso e nada
disso diz muito sobre mim, uma poeta incorruptí-
vel, uma palhaça em esconderijo. Muitos talentos,
embora dentro de mim corram flechas na minha
mente. Ah, o canto ecoa em minha alma e na mi-
nha garganta. Sou das águas doces e das águas salgadas. Sou do vento
TAMBÉM. Vou tocando em frente..., pois cada um carrega em si o dom
de ser feliz.
Ciclo - página 73
Medo - página 74

José Augusto Vaz Sampaio Bisneto

A vida toda trabalhei muito e fiz muitas outras coi-


sas. Agora estou aposentado e estou fazendo mais
coisas ainda, sempre levado pela curiosidade e bus-
ca por qualidade de vida. Ah, trabalhei como enge-
nheiro, assistente social e professor.
O colecionador - página 75
132

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Lília Arruda Lobianco

Lília Arruda Lobianco adora aprender. Renovar o


que já aprendeu e aprender com o novo. Marinhei-
ros e Aventureiros é seu primeiro livro publicado.
Mensagem Anônima é seu primeiro texto publicado
em uma antologia. Seu texto “Curumim” foi sele-
cionado pela contadora de histórias Cecília Göpfert
e apresentado pelo grupo Conte Comigo. Seu texto
“Se os murais falassem” foi premiado no concurso literário “Tempo de
Escola” do Colégio Rio de Janeiro. Sua poesia “Voz“ foi aprovada para par-
ticipar de uma antologia poética nacional. Arquiteta e professora, desenha
mandalas e costura bonecas de pano. Tomando coragem pra iniciar sua
trilha na biblioterapia.
Mudança - página 77

Lourdes Maria

Nasceu em Niterói. Professora, pedagoga, conta-


dora de histórias. Pinta, borda e desenha. É através
da Arte, das crianças e do contato com a natureza
que ela viaja sem sair da cidade. Sua inspiração para
escrever aparece em situações do cotidiano, do sen-
timento que surge diante dos fatos. Publicou em
2018, pelas Edições Candinho, o livro Bordadeira.
Rugas - página 79
Sumo - página 80
Balé - página 81
Magda Hruza Alqueres
Sou mais do que já fui, mãe e avó, humana do cão-
panheiro Fred, aprendiz e mestre, aventureira sem
medo, ousada e aliada, crítica e na busca da essência
do que deixamos para quem nos sucede.
Sumo, sumimos todos - página 83
A inconsistência do estar - página 84
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Márcia Rodrigues
Arteterapeuta, pós-graduada em psicologia junguia-
na, biblioterapeuta, contadora de histórias, graduan-
da em psicologia e facilitadora de grupos artetera-
pêuticos. Atua há 10 anos como terapeuta voluntária
do Programa de Extensão UFF- Terapia Expressiva
como veículo de Cuidado Integral no Hospital Uni-
versitário Antônio Pedro. Nasceu em Niterói em
21 de setembro de 1956, onde sempre residiu. Para
acompanhar seu trabalho, acesse:
facebook.com/mrarteterapia
O Jardim Secreto - página 85

Maria Cristina da Costa


Sou do Rio de Janeiro. Conto histórias, leio histórias,
escuto histórias, algumas vezes ressignifico histórias.
O sumo dessas histórias me inspiraram! E assim
estou aqui!
Como ouvir quem não fala? - página 87
O mais lindo engano - página 88
O paradoxo, o Vulcão e a Neve - página 89

Marthâ Schùltz
Professora, licenciada em História e Pedagogia com
especialização em Educação e Gestão Ambiental.
Parte de sua trajetória na Educação foi entre os li-
vros como POSL - Professora Orientadora na Sala
de Leitura na EMEF Prof. Alípio C. Neto na Secre-
taria Municipal de Educação de São Paulo. Atual-
mente é Coordenadora de Polo de Apoio Presencial da Universidade -
Rede UniCEU (Universidades nos Centros Educacionais Unificados) no
Polo UniCEU Cantos do Amanhecer. Aventurando-se pelo mundo da
escrita inspirada pela Biblioterapia.
A última mensagem: “uma Crônica pra você” - página 91
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Norma Emiliano

Natural do Rio de Janeiro, reside em Niterói há 27


anos, onde encontrou a Biblioterapia com Cristiana
Seixas, motivando-se a publicar seus escritos. Gra-
duada em Serviço Social e Psicologia, publicou pela
Editora Cândido o livro Pensando em família: entre-
laços,(2018) e A poética do viver (2019). Participou
das antologias Brumas e Brisas, Vicejantes, organi-
zadas por Cristiana Seixas e POEzine, organizada
por Tânia Ribeiro Roxo (Literatura na Varanda).
A força da poética - página 95
O descortinar das dores - página 96

Norma Schwab
Entendo-me Norma, fêmea, filha de Lourdes, “ a
guerreira”, neta de Leonor, “ a parteira”, bisneta de
Eva Katharina, “a imigrante”. Trago na veia o sangue
de lá, de cá e acolá. Sou Terra, Fogo, Água e Ar. Sou
esposa por escolha, mãe por desejo, avó por graça,
professora por opção, psicóloga por devoção , brin-
cante por alegoria e escrevente por ousadia.
Água e sal - página 97
Rastro - página 99
Na calada da noite - página 100

Regina Abrunhosa

Nasceu em zona rural, onde teceu uma relação


com a natureza. Das histórias ouvidas ao pé do
fogão de lenha, tornou-se contadora de histórias.
Descobriu a escrita como espaço de liberdade e
sem pretensões, tornou-se escritora.
A última mensagem: “uma Crônica pra você” - página 103
Bagunça - página 104
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Regina Helena Dias
De contadora de dinheiro a contadora de histórias.
Devoradora de livros.
Cuidadora de almas.
Use poesia em doses diárias, sem contraindicações!
A escritora dormiu. - página 105
Estou com a cara na janela - página 106

Sandra Barros

Amante das artes e do viver, formada em ouvir.


Companheira , mãe e avó. Autora do livro para
crianças O menino que aprendeu a sentir e inte-
grante da bibliofamília. Cercada por anjos e fadas
que fazem toda a diferença em sua vida!!!
Ser múltipla - página 107
Verbo, substantivo ou objeto - página 108
Nós - página 109

Sergio Guillermo Hormazabal Rodriguez

“El Araucano”. Leitor e contador de histórias com


sotaque especial!, vindo da Engenharia e hoje
aposentado, praticando o viva e deixe viver. Co-
nhecendo e estudando a Biblioterapia aos poucos!
Palestrante espírita, lendo o que pode, atualmente
atualmente o livro Navegando de Rubem Alves e re-
lendo El Principito de Saint-Exupéry..
Tempo e espaço - página 111
Encontro - página 112
O ócio - página 113

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Silvia Fortes
Sou bibliotecária escolar e amo meu ofício! Acre-
dito no poder da literatura para a construção de
pessoas melhores em todos os sentidos. A bibliote-
rapia permite-me trilhar por caminhos nunca antes
imaginados. No meu blog Compartilhando Livros
e Leituras comento sobre livros destinados para
crianças, mas que os adultos também se encantam!
Procure lá no Instagram para trocarmos ideias!
Cotidiano - página 115
Cumplicidade - página 116

Sônia Regina

Sônia Regina R. O. de Novais, descobriu-se rainha


sonhadora por um atrevimento sufocado; mãe
de 3Ms: Marco, Matheus e Milena. Educadora e
atrevida a contar histórias. Vive encantada pelo
mundo das descobertas, principalmente por pes-
soas-luz que iluminam e florescem seu caminho.
Escolheu a “Biblioarteterapia” para celebrar e jus-
tificar o significado de seu nome.
Deixa - página 117
Uma rosa no jardim de Maria - página 118

Verônica Falcão
Professora, Mestre em Literatura Comparada,
aprendiz e sonhadora. Conjuga o verbo desapren-
der e desver. Pelas mãos da Poesia, foi até o Orien-
te Médio, perpassando a Amazônia, o Nordeste e
a Andaluzia. Habitando a palavra sonho, criou o
canal no YouTube Trago um Livro como forma de
democratizar a Literatura e as artes em geral.
Meta linguagem - página 121

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Direção editorial: Jean Cândido Brasileiro
Programação visual: Editora Cândido
Design da capa: Absoluta Criações a partir de imagens do Freepik

Este livro segue as normas do Acordo Ortográfico


da Língua Portuguesa de 1990, adotado no Brasil em 2009.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP

S462s Seixas, Cristiana (org.)


Sumo/ organização de Cristiana Seixas. Série: Coleção Biblioterapia
Vol. 06. Niterói: Editora Cândido, 2019.
140 p.; 19 cm.
ISBN 978-85-45548-35-5
1. Literatura 2. Literatura Brasileira 3. Antologias 4. Biblioterapia
I. Título II. Cristiana Seixas

Esta obra está protegida por direitos autorais de acordo com a Lei 9.610/98.

Impresso no Brasil
2019

Edições Cândido
Rua General Andrade Neves, 63/401
São Domingos
Niterói/RJ

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fale com a cândido

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Este livro foi composto na tipologia Adobe


Devanagari, impresso em papel Polen Soft
80 na cidade de São Paulo, pela Psi7 para
a Editora Cândido, em novembro de 2019.
Depósito Legal em dezembro de 2019.

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