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ANCESTRALIDADE E HISTORICIDADE EM DE ÁGUA DE BARRELA, DE

ELIANA ALVES CRUZ

Maria Inês Freitas de Amorim (UERJ)1

Resumo: No romance Água de Barrela, a escritora Eliana Alves Cruz reconta a história de sua
família desde seus antepassados em África, sequestrados e trazidos para o Brasil como
escravizados, passando pelo fim do período de cativeiro até chegar os dias atuais. A autora
descreve como seus familiares lutaram para garantirem condições de vida, reflete sobre o que
significa liberdade e apresenta suas perspectivas de eventos históricos que marcaram a história
do país. O presente trabalho busca analisar a relação entre ancestralidade e historiografia,
evidenciando a leitura que a narrativa do romance realiza da perspectiva subjetiva dessas
personagens sobre a narrativa histórica.
Palavras-chave: Literatura Brasileira; Ancestralidade; Resistência; Água de Barrela.

Tá tudo do avesso, faiamos no berço


Nosso final feliz tem a ver com o começo
Somente o começo, somente o começo
Pro plantio ser livre a colheita é o preço
A vida é uma canção infantil, veja você mesmo
Somos Pinóquios plantando mentiras e botando a culpa no Gepeto
Precisamos voltar pra casa
(Canção Infantil, Cesar MC)

A escravidão no Brasil durou mais de três séculos. Segundo os registros


históricos, os primeiros tumbeiros trazendo escravizados para o país são da década de
1560 em Pernambuco, sendo que oficialmente o início do tráfico é datado de 1550. O
período que compreende 1831 e 1856 é considerado como o “Tráfico clandestino”. O
fim do tráfico clandestino é fixado pelos historiadores em 1850, com a assinatura da Lei
Eusébio de Queiroz. Entretanto, ilegalmente, há registros de navios que aportaram entre
1851 e 1856, trazendo, só nesse período, mais de 6900 africanos para o cativeiro.
Não há números precisos, mas estima-se que vieram para o Brasil entre 1500 e
1850 4,8 milhões de africados escravizados. Somados a estes números, acrescentam-se
milhares que morreram durantes as travessias, totalizando somas assustadoras de
pessoas que foram capturadas, sequestradas e vendidas como mercadorias
(ALENCASTRO, 2018, p.57-60).

1 Graduada em Comunicação Social – Jornalismo (UFV) e Letras (UFF), Mestre em Teoria da Literatura
e Literatura Comparada (UERJ), Doutoranda em Literatura Brasileira (UERJ). Contato:
mariainesfamorim@gmail.com.
O Brasil é o país das Américas onde mais africanos vieram trazidos como
escravizados. Ao chegarem, eram batizados com nomes cristãos, selecionados de acordo
com suas características corporais e vendidos. E nesse processo há uma tentativa de
apagamento de suas histórias, de seus laços de afeto, de sua identidade cultural, de suas
individualidades, ou seja, de todas as características que os constituíam enquanto
pessoas para serem concebidos como ferramentas de trabalho.
Mais de um século após o fim da escravidão no país, o último das Américas a
garantir legalmente a abolição, ainda são perceptíveis as marcas deixadas, refletidas
racismo estrutural que alicerça a sociedade brasileira. Uma das formas na qual essa
estrutura racista fica evidente é como o silenciamento das narrativas dos escravizados é
apresentada pela História Oficial e pelo apagamento das personagens negras, sobretudo
de mulheres negras, que lutaram pela liberdade.
Se por um lado há o apagamento, por outro há esforços, principalmente de
descendentes de escravizados, para que outras narrativas sejam apresentadas e
legitimadas. O movimento negro, pesquisadores, professores universitários, ativistas são
alguns atores que juntos formam forças que conduzem nessa direção. Outra força
importante para se repensar sobre o passado é a Literatura. Autoras contemporâneas
produzem narrativas que buscam resgatar a perspectivas dos escravizados sobre o
passado escravagista. Em seus textos busca-se evidenciar a violência e a crueldade pelo
que passaram milhares de pessoas, para que as práticas não sejam relativizadas ou
esquecidas, mas, ao mesmo tempo, apresentam a luta para encontrarem formas de
sobreviver.
Refletindo sobre a escrita de mulheres negras contemporâneas, Salgueiro (2004,
p.113)
(…) as mulheres afro-brasileiras vêm escrevendo e publicando de forma
organizada há alguns anos, representando um grupo de traços próprios. (…)
Em poemas, contos, romances e ensaios demonstradores de rara sensibilidade
no domínio da palavra, tal literatura aponta, em vários sentidos, assim como
na Afro-América, para uma geração em busca da identidade perdida,
traduzindo mais uma vez a hoje tão debatida quest for selfhood.

Assim, reinterpretar uma identidade perdida pelos anos de escravidão, visibilizar


narrativas que indiquem o sofrimento e a luta de um povo é parte importante da escrita
das autoras negro-brasileiras, que aliam em seu fazer literário o engajamento para que as
histórias ancestrais sejam apresentadas. É um movimento de resgatar o passado para se
entender o presente e buscar a construção de um futuro menos opressivo e desigual.
Uma dessas autoras é Eliana Alves Cruz, que reconta partes e fatos marcantes da
História do Brasil a partir da perspectiva das vozes silenciadas, sobretudo de mulheres
negras.
Eliana Alves Cruz nasceu na cidade do Rio de Janeiro, é jornalista e autora dos
romances O Crime do Cais do Valongo (2018) e de Água de Barrela (2015), além de
ser autora na coletânea Cadernos Negros 39 (poesias) e 40 (contos) do Quilomboje
Literatura. Sobre a sua escrita, em entrevista concedida a Raphael Montes no programa
Trilha de Letras da TV Brasil, exibido em 25 de setembro de 2018, a autora afirma que
“Temos sequelas muito graves do que foi feito. A gente evita olhar. A gente evita
encarar. Então, esse romance [Crime do Cais do Valongo] é uma ficção, obviamente,
mas está na hora da gente trazer para a nossa literatura as nossas histórias”. Trazer
elementos da realidade aos seus romances é parte do fazer ficcional da autora.
Água de Barrela é uma obra que representa a importância de representar o
passado, na qual a autora reconta momentos da História do Brasil a partir da perspectiva
dos seus familiares. A autora resgata a história de sua família a partir de pesquisas em
arquivos, visitando locais onde aconteceram os fatos narrados, ouvindo histórias de seus
antepassados, lendo cartas e anotações. A autora ouviu os relatos de diversos membros
da família, principalmente de Nunu, tia-avó de Eliana Alves Cruz que sofria de
esquizofrenia. Segundo a autora, ao final do romance:
Percebi que ela, na verdade, vive quase que 90 por cento do seu tempo entre
os anos de 1920 e 1940, quando era criança e jovem. Fala com os pais, avós,
parentes e conhecidos como se estivessem vivos e é capaz de descrever
cenários com uma riqueza de detalhes impressionante para uma idosa de mais
de 90 anos, que passou por eletrochoques e medicações pesadas a vida toda.
(…) Comecei a conversar como se também estivesse vivendo lá, como se
estivesse convivendo com todos eles. Bingo! Ao longo de muito tempo
conquistando sua confiança, abriu-se o baú de Nunu. (CRUZ, 2018, p.309)

A obra foi o romance vencedor da edição de 2015 do Prêmio Oliveira Silveira,


oferecido pelo Ministério da Cultura, por meio da Fundação Palmares, com o objetivo
de incentivar produções literárias que valorizem e dessem visibilidade às manifestações
culturais da população afro-brasileira. Em 2018 o romance ganhou uma nova edição
pela editora Malê.
Segundo Eliana Alves Cruz, em entrevista ao programa Ciência e Letras, de 16
de março de 2017, a palavra barrela para a sua família foi sempre sinônimo de trabalho
e de esforço. Sua avó, lavadeira, sempre dizia que sustentou sua família com os “cobres
da barrela”. Barrela é um alvejante caseiro que garante alvura às roupas, e a escolha do
título vem do contraste entre o branco das roupas com o negro das peles, e também por
representar tudo que sua família fez para se constituir e ser o que é hoje, como expresso
em trecho do romance “Uma fina ironia. De quem teria sido aquela ideia de vestir todos
de branco? Gostara bastante, pois as peles negras faziam um belo contraste. Preto e
braco… tinha vivido intensamente esse mundo bicolor” (CRUZ, 2019, p.16).
Nas primeiras páginas do romance, a autora descreve a festa do centenário de
sua bisavó, Damiana, nascida em 27 de setembro de 1888, “quatro meses e quatorze
dias após a promulgação da Lei Áurea” (Ibid). Ao observar sua bisavó em meio a
celebração, a autora reflete sobre a história de sua família. De uma passado de
escravidão para um presente de liberdade e de conquistas.
A narrativa sobre o passado da família se inicia em 1849, com a captura de Akin
Sangokunle e trazido para o Brasil como escravizado ao lado da cunhada Ewa, que
estava grávida do seu irmão Gowon, morto antes de chegar ao tumbeiro. Eles foram
capturados no Reino de Oió, no oeste africano. A autora descreve a vida no lugar, a
relação com outros povos, as tradições e crenças, assim como revela características
desses personagens, seus sonhos e metas.
As lágrimas dos dois não tiveram tempo de rolar pela face, e os gritos de Ewà
Oluwa nem chegaram a ecoar. Foram capturados, amarrados e obrigados a
segui-los numa exaustiva jornada. Três dias depois, os fulanis os venderam
para traficantes do Daomé, que se juntaram com homens que Akin achou
‘pelo avesso’, pois tinham a pele muito clara e avermelhada (CRUZ, 2018,
p.23)

Resgatar a violência que foi a escravidão é a forma de entender todo o processo


de opressões que constituem as relações contemporâneas, uma vez que “Qualquer relato
histórico do surgimento do terror moderno precisa tratar da escravidão que pode ser
considerada uma das primeiras manifestações da experimentação do biopoder”
(MBEMBE, 2018, p.27). A escravidão dos povos africanos para o trabalho compulsório
pelos europeus é um marco da dominação dos corpos, ao transformar pessoas livres em
mercadorias.
Após a captura, Akin, rebatizado como Firmino, e Ewa, como Helena, são
trasportados para a Fortaleza São João Baptista de Ajudá, na cidade de Uidá – hoje
República do Benin – e trazidos para a Bahia. Sobre o tráfico, a narradora apresenta em
trecho a reflexão
O tráfico de escravos da África para o Brasil já estava proibido, mas quem é
que cumpria a lei? Os ingleses forçaram a situação aprovando neste ano
[1849] a Bill Aberdeen, mas o engraçado é que, embora as autoridades
dissessem que queriam ver o tráfico extinto, o comércio de escravizados
ainda era um dos negócios mais lucrativos para a maioria, inclusive para eles
próprios. (CRUZ, 2018, p. 19)

Ao longo do romance, a autora realiza diversos questionamentos sobre os fatos


históricos, enfatizando como foi o impacto dos eventos para a sua família, como a
Guerra do Paraguai, a assinatura da Lei Áurea, a Proclamação da República, o
Bombardeio de Salvador de 1912 e Revolução de 1930. A narradora apresenta, por
exemplo, a participação de Firmino na Guerra do Paraguai, descrevendo a violência e os
horrores da batalha. Também apresenta os conflitos existentes entre os soldados do sul
do país e os negros baianos, expressando a hostilidade que permeava as relações. Os
soldados, ao retornarem, pouco recebiam pelo o que vivenciado e abaixo do que foi
prometido: “A guerra chegara ao fim para ele com aquela ferida que custaria a curar e
que o deixaria para sempre com dores devido a uma fratura mal tratada. Esse foi o preço
pelo soldo que recebeu e pela liberdade finalmente conseguida” (CRUZ, 2019, p.98).
Mesmo recebendo a Carta de Alforria, Firmino demora a receber o seu soldo e,
machucado, tem dificuldade de juntar dinheiro para retornar ao Recôncavo Bahiano. No
Rio de Janeiro, desempenha trabalhos que eram evitados por todos, como o de
“tigreiro”, ou seja, de transportar os barris onde os excrementos eram depositados. A
autora apresenta a dificuldade vivenciada por todos os “Voluntários da Pátria”, que
sofreram muito na guerra e continuaram em dificuldade com o seu fim.
O modo como os escravizados precisavam se portar também permeia a narrativa,
na qual a narradora enfatiza a importância de se aprender a língua dos “senhores” ou
seguir ritos religiosos cristãos, enfatizando que certas atitudes representavam a
diferença entre “viver” e “morrer”.
Ao longo da narrativa, é possível perceber a força das mulheres que construíram
a trajetória familiar. Há a representação da força de luta de todos, entretanto, há uma
ênfase nas ações das mulheres, protagonistas da história. A autora apresenta reflexões
sobre o papel da mulher negra, que, como afirma Davis (2016, p.17):
“Proporcionalmente, as mulheres negras sempre trabalharam mais fora de casa do que
as irmãs brancas”. No romance, é possível perceber essa relação na passagem:
“Damiana vivia a prática das teorias da jovem Lili [ativista sufragete]. Ali não havia
tempo para tanta conversa e convencimento. Era preciso sobreviver” (CRUZ, 2018,
p.234).
Outro impacto que as mulheres têm na narrativa é a ênfase dada ao papel da
leitura e da educação. Apesar da luta e do esforço para se seguir uma educação formal,
a narradora apresenta o preconceito racial presente nas escolas. Martha, por exemplo,
tem como meta proporcionar educação às filhas, pois acreditava que com a formação
possibilitaria a elas mais oportunidades de um futuro mais digno. Entretanto, só
consegue matricular uma das filhas, a mais velha. E mesmo matriculada na vaga
destinada aquelas que “nasceram sob a Lei do Ventre Livre”, Damiana precisou
trabalhar na escola, o que comprometeu seu processo de aprendizagem:
Damiana recebeu no Colégio Nossa Senhora da Salette um verniz de
educação. Quando saiu, tinha noções de francês e de piano, sabia ler
razoavelmente bem e tinha uma bonita letra. A moça talvez pudesse ter sido
uma aluna brilhante se não tivesse que recolher, junto com outras alunas na
mesma condição que ela, tudo o que as mais abastadas sujavam (CRUZ,
2019, p.186)

Há uma ampla reflexão sobre acessibilidade e oportunidades. A educação é um


caminho para a emancipação e a liberdade, visando proporcionar a si a aos seus
familiares melhores condições de vida. Entretanto, essa possibilidade é prejudicada pela
desigualdade, por um sistema que impede que meninas negras e pobres tenham as
mesmas condições de aprendizado que meninas brancas e ricas.
Paralela a história de sua família, a narradora também conta a trajetória dos
Tosta, os “Reis do Massepê”, “Nobreza do Recôncavo”, donos do Engenho Natividade,
para onde Firmino e Helena foram mandados e onde vários personagens trabalharam. A
família de origem portuguesa era dona de muitas terras, e ao longo do tempo, os Tosta
também passam a desempenhar outras funções, seguindo uma estrutura de poder, onde
mudam as nomenclaturas, mas os nomes daqueles em posição de comando permanecem
os mesmos, conforme é apresentado no trecho
A corte do massapé, como qualquer outra história da humanidade, fazia de
tudo para não escapar nenhum mísero grão dos seus domínios para quem
estivesse de fora de seu apertado círculo. Os nomes se repetiam de pai para
filho, para sobrinho, para netos e bisnetos, de forma concêntrica e repetitiva,
para que não pairasse nenhuma dúvida de que são todos da mesma parentela.
As farinhas todas as mesmas num mesmo saco brasonado. (CRUZ, 2019,
p.33)

Um dos Tosta citado pela autora é Manuel Vieira Tosta, que além de dono de
terras foi militar e exerceu diversos cargos políticos e foi um dos responsáveis por
sufocar a Sabinada, movimento liderado por Francisco Sabino Vieira, que pretendia
decretar a República Bahiense. Tostinha é apresentado como um homem violento,
ganancioso: “Manuel Tosta regressou para a Bahia com 23 anos, em 1830, mas já com
todas as ideias formadas e sedimentadas sobre quem mandava, quem devia ser mandado
e quanto valia o peso de cada negro em ouro” (Ibid, p.41).
Ao comparar a trajetória de sua família com a da família Tosta, a narradora traça
um panorama das diferenças sociais do Brasil, as diferentes formas de relação de poder
e de como há uma estrutura estabelecida para que os mesmos nomes permaneçam a
desempenhar funções de comando. As gerações avançam, mas as estruturas
permanecem muito semelhantes, com atores semelhantes. Dessa forma, ao apresentar a
perspectiva da história a partir daqueles que não detém o poder, a autora traz um
caminho para se pensar sobre aqueles nomes que são apresentados como heróis, como
Manuel Tosta.
Ao resgatar a história de sua família, a autora, além de resgatar a história do
país, valoriza sua ancestralidade. Desbravar sobre o passado é uma forma de manter
viva a memória daqueles que vieram antes e de ser voz daqueles que foram silenciados.
Nesse movimento reside a expressão da afetividade, uma vez que o afeto também é uma
força sociopolítica.
Segundo hooks (2010, s/p): “A escravidão criou no povo negro uma noção de
intimidade ligada ao sentido prático de sua realidade. Um escravo que não fosse capaz
de reprimir ou conter suas emoções, talvez não conseguisse sobreviver”. Por isso, a
valorização dos laços de afeto atua, também, como um instrumento de luta, pois
“Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com
outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do
amor. O amor cura” (HOOKS, 2010, s/p).
Para hooks (2010), a dificuldade do processo de amar do povo negro, seja o
amor-próprio, seja em relação ao outro, remonta o período escravocrata. A experiência
dos antepassados ao se relacionar afetivamente representava dor e separação: filhos
sendo vendidos e apartados das mães, amigos se distanciando, casais experienciando
suas uniões desaparecerem. Rejeitar o amor era encarado como uma forma de
sobrevivência.
Com o fim da escravidão, o condicionamento dessa rejeição permanece, uma
vez que séculos de desumanização dos corpos negros e, consequentemente, as
limitações em se exercer livremente a afetividade permanecem entranhados. Amar não
era algo a ser sentido livremente, mas evitado como forma de sobrevivência. Logo, com
a luta por ser livre e por se fazer sujeito em uma sociedade em que a liberdade é negada,
amar representa um ato de resistência. Uma vez que ser livre perpassa por ter plena
possibilidade de expressar os sentimentos. Amar tem a ver com valorizar, em se saber
indivíduo e lutar pela expressar dessa individualidade.
A ancestralidade atua como a relação de laços de parentesco consanguíneo, mas
também como uma expressão da cosmovisão africana, uma vez que
(...) a ancestralidade torna-se o signo da resistência afrodescendente.
Protagoniza a construção histórico-cultural do negro no Brasil e gesta,
ademais, um novo projeto sociopolítico fundamentado nos princípios da
inclusão social, no respeito às diferenças, na convivência sustentável do
Homem com o Meio ambiente, no respeito à experiência dos mais velhos, na
complementação dos gêneros, na diversidade, na resolução dos conflitos, na
vida comunitária entre outros. Tributária da experiência tradicional africana,
a ancestralidade converte-se em categoria analítica para interpretar as várias
esferas da vida do negro brasileiro. Retroalimentada pela tradição, ela é um
signo que perpassa as manifestações culturais dos negros no Brasil,
esparramando sua dinâmica para qualquer grupo racial que queira assumir os
valores africanos. Passa, assim, a configurar-se como uma epistemologia que
permite engendrar estruturas sociais capazes de confrontar o modo único de
organizar a vida e a produção no mundo contemporâneo (OLIVEIRA, 2009,
p.03-4)

A identidade afro-diaspórica é constituída a partir de construção em movimento


contínuo. Ser negro no Brasil significa, majoritariamente, significa ter uma
ancestralidade negada, por não saber ao certo de onde seus antepassados vieram, como
se deu a travessia e quais os valores culturais que cultivavam. Por isso, resgatar
elementos que constituem a cosmovisão africana é uma estratégia de resistência a uma
cosmovisão imposta. Não é possível um retorno à vivência em África antes da captura,
mas é possível, a partir de práticas dialógicas, construir elementos e práticas de
valorização e resgate de um passado “arrancado”.
Pela cosmovisão africana o tempo não é constituído a partir de uma linearidade
fixa, como a visão eurocêntrica, mas por movimentos circulares, nos quais há um eterno
devir dos acontecimentos. Dessa forma, a noção de continuidade da trajetória familiar é
algo bastante presente na construção narrativa. Os ancestrais deixaram o seu legado que
permanece vivo naqueles que vieram depois, como é apresentado na passagem:
A história continuou e está prosseguindo através de todos nós, pessoas
comuns, mas que têm em suas mãos os pedaços miúdos da vida. Eu, meus
irmãos Paulo Vicente, Adriana - que, acredito eu firmemente, não por acaso é
juíza federal – e Bárbara, meus primos Pedro Henrique e Andreia, meus
filhos e os filhos deles… O que aconteceu depois e o que está acontecendo
agora? Seriam necessários outros livros, pois essas são outras águas, outras
‘barrelas.’ (CRUZ, 2018, p.305)

A noção de continuidade a partir do resgate do passado, de buscar outras


histórias a partir de diversas perspectivas faz com que o leitor tenha uma visão mais
ampla sobre a História. A Literatura não rivaliza com a História, mas busca, a partir da
poética da ficcionalidade, estabelecer reflexões ao representar novas abordagens sobre
os fatos.
Em Água de Barrela, Eliana Alves Cruz constrói uma narrativa que resgata
partes do passado que são silenciados por uma narrativa hegemônica. A narrativa
literária da autora é baseada em sua ancestralidade e, assim, resgata essas vozes e
amplifica suas histórias, traçando um caminho importante para se (re)descobrir o
passado do Brasil e, consequentemente, entender certas amarras que persistem.
Referências
ALENCASTRO, Luiz Felipe. África, números do tráfico atlântico. In: SCHWAECZ,
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MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da


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OLIVEIRA, Eduardo. Epistemologia da Ancestralidade. Entrelugares: Revista de


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SALGUEIRO, Maria Aparecida Andrade. Escritoras negras contemporâneas: estudo


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