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Introdução à Ciência Política:

Teoria, Instituições e Atores Políticos

4 Instituições Políticas Brasileiras

Tópico 1 Brasil, uma breve história constitucional


Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional
Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-
-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de
uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia
social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução
pacífica das controvérsias, PROMULGAMOS, sob a proteção de Deus, a
seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.
(Brasil, s/d)

Este é o Preâmbulo de nossa Carta Magna, a Constituição Brasileira de 1988, que


ganhou o título de “Constituição Cidadã” por ser a mais liberal e democrática que o
país já teve (Carvalho, 2008). No seu Artigo 1º estabelece o Brasil como uma “República
Federativa” formada pela “união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Fede-
ral”, constituindo-se em um “Estado Democrático de Direito” e tendo por fundamentos: a
Soberania, a Cidadania, a Dignidade da Pessoa Humana, os Valores Sociais do Trabalho
e da Livre Iniciativa e o Pluralismo Político. No Parágrafo único deste artigo lê-se : “Todo
o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente,
nos termos desta Constituição.”
No Artigo Segundo são determinados os três poderes que constituem a União: o Poder
Legislativo, o Poder Executivo e o Poder Judiciário; definidos como “independentes e
harmônicos entre si”. A República Federativa do Brasil tem como objetivos fundamentais:
I) construir uma sociedade livre, justa e solidária; II) garantir o desenvolvimento nacional;
III) erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
IV) promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quais-
quer outras formas de discriminação.
30 Introdução à Ciência Política

Em sua história o Brasil já havia conhecido seis constituições. A primeira delas, ainda no
Brasil Império - a Constituição de 1824 - foi elaborada por um Conselho de Estado formado
por dez membros e presidido pelo imperador D. Pedro I. Foi uma constituição outorgada,
ou seja, concedida pela magnanimidade do Imperador, não emanava da representação do
povo. Após a Independência, em 1822, o Brasil torna-se “Império do Brasil” e seu governo
é apresentado como “monárquico hereditário, constitucional e representativo”. A Consti-
tuição de 1824 incorpora a divisão dos poderes políticos em quatro: o Poder Legislativo,
o Poder Moderador (do imperador, é um resíduo do Absolutismo), o Poder Executivo e o
Poder Judiciário. Os representantes da nação são o Imperador e a Assembleia Geral.
A Constituição de 1824 regeu o país até o fim da Monarquia, após a Proclamação
da República, em 1889. Nasce então a Primeira República, regida pela Constituição da
República dos Estados Unidos do Brasil, promulgada em 1891. Diz seu Artigo 1º “A Nação
brasileira adota como forma de Governo, sob o regime representativo, a República Fede-
rativa, proclamada a 15 de novembro de 1889, e constitui-se, por união perpétua e indis-
solúvel das suas antigas Províncias, em Estados Unidos do Brasil.” Constituição de caráter
republicano estabelece sistema de governo Presidencialista. Manteve-se a separação dos
poderes em Legislativo, Executivo e Judiciário, eliminando-se as instituições monárquicas,
inclusive o Poder Moderador. Com forma de estado Federativa, as províncias, tornadas
estados e distrito federal, passaram a ser unidades federativas da Nação, dirigidas por
governadores, denominados presidentes. Adota o sistema de duas casas legislativas: esta-

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dos e distrito federal são representados por três senadores e a representação da população
na Câmara de Deputados será proporcional às populações dos respectivos estados – um
representante para cada 70 mil habitantes -, assegurando-se ao menos quatro deputados
provenientes de cada estado. O poder executivo é exercido pelo Presidente da República,
com mandato de 4 anos, eleito diretamente pelo povo. Serão eleitores e elegíveis somente
os cidadãos maiores de 21 anos e alfabetizados, excluindo-se ainda: os militares de baixa
patente e religiosos sujeitos a votos de obediência.
Em julho de 1934 a Assembleia Nacional Constituinte, eleita no ano anterior, durante o
governo provisório de Getúlio Vargas, no poder desde a Revolução de 1930, publica uma
nova carta constitucional. Dizia o Artigo 1º da “CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DOS
ESTADOS UNIDOS DO BRASIL”: “A Nação brasileira, constituída pela união perpétua
e indissolúvel dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios em Estados Unidos do
Brasil, mantém como forma de Governo, sob o regime representativo, a República Fede-
rativa proclamada em 15 de novembro de 1889.” E definia nos dois artigos seguintes que
“Todos os poderes emanam do povo e em nome dele são exercidos” e que “São órgãos da
soberania nacional, dentro dos limites constitucionais, os Poderes Legislativo, Executivo
e Judiciário, independentes e coordenados entre si”. Tinha um teor claramente promotor
do desenvolvimento, sustentando medidas voltadas tanto ao desenvolvimento econômico
quanto social. Do ponto de vista eleitoral permitiu que se estendesse o direito de voto às
mulheres, mas também fez com que o cargo de Presidente da República tivesse prazo
estendido para mais quatro anos.
Antes que esse prazo expirasse, Getúlio Vargas, alegando um grave risco à normali-
dade institucional, outorgou a Constituição do Estado Novo, em novembro de 1937. O
Preâmbulo da quarta carta constitucional do país dizia: “O PRESIDENTE DA REPÚBLICA
DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL, ATENDENDO às legitimas aspirações do povo
brasileiro à paz política e social, profundamente perturbada por conhecidos fatores de
desordem, resultantes da crescente agravação dos dissídios partidários, que, uma, notória
Tema 4 Instituições Políticas Brasileiras 31

propaganda demagógica procura desnaturar em luta de classes, e da extremação, de con-


flitos ideológicos, tendentes, pelo seu desenvolvimento natural, resolver-se em termos de
violência, colocando a Nação sob a funesta iminência da guerra civil; ATENDENDO ao
estado de apreensão criado no País pela infiltração comunista, que se torna dia a dia mais
extensa e mais profunda, exigindo remédios, de caráter radical e permanente; ATENDEN-
DO a que, sob as instituições anteriores, não dispunha, o Estado de meios normais de
preservação e de defesa da paz, da segurança e do bem-estar do povo; COM O APOIO
das forças armadas e cedendo às inspirações da opinião nacional, umas e outras justifi-
cadamente apreensivas diante dos perigos que ameaçam a nossa unidade e da rapidez
com que se vem processando a decomposição das nossas instituições civis e políticas;
RESOLVE assegurar à Nação a sua unidade, o respeito à sua honra e à sua independência,
e ao povo brasileiro, sob um regime de paz política e social, as condições necessárias à
sua segurança, ao seu bem-estar e à sua prosperidade DECRETANDO” a Constituição
dos Estados Unidos do Brasil. O país mantém-se uma república federativa, com grande
concentração de poder autoritário no Executivo, o qual no caso de governadores e pre-
feitos é usualmente indicado pelo nível executivo superior. Esta carta vigora até o final da
2ª Grande Guerra, quando Getúlio é deposto.
A Constituição de 1946, a quinta de nossa história, marca o início de um período demo-
crático. Promulgada por uma Assembleia Constituinte, estabelece em seu Artigo 1º que os
“Estados Unidos do Brasil mantêm, sob o regime representativo, a Federação e a Repúbli-

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ca. Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido”. Da União participam os
estados, o distrito federal e os territórios e se mantém a autonomia municipal. E os elei-
tores, cujo voto é obrigatório, são todos os cidadãos maiores de 18 anos, exceto os não
alfabetizados e, novamente, os militares de mais baixa patente. O sufrágio é universal e
direto. Como se sabe, essa experiência democrática acaba em 1964, com um movimento
autoritário que deu início a um novo período ditatorial, entre 1964 e 1985.
A sexta Constituição brasileira entra em vigor em março de 1967 e consolida a amplia-
ção, adotada desde 1964, do poder do Presidente da República e de todo o poder execu-
tivo frente aos demais poderes de Estado, ao mesmo tempo em que enfraquece o princípio
federativo, por ter reduzido a autonomia política de estados e municípios.
Com a Constituição de 1988 retomamos historicamente o processo democrático no país
com a volta da eleição direta para Presidente da República, o que não acontecia desde
1960. Como afirma o historiador José Murilo de Carvalho (2008: 199), na Constituição de
1988 os “direitos políticos adquiriram amplitude nunca antes atingida”.
Em 1985, tivera início o período da história nacional denominado Nova República,
com a chegada à presidência de um civil escolhido em Colégio Eleitoral após uma ampla
mobilização social pelas “Diretas Já”. Foi durante esse governo civil que se realizaram as
eleições para a composição de um Congresso Constituinte, já que as propostas de que se
compusesse uma Assembleia Constituinte foram vencidas. Assim, o povo brasileiro foi às
urnas em Novembro de 1986 para escolher os deputados e senadores que acumulariam
as funções congressistas e constituintes.
32 Introdução à Ciência Política

Tópico 2 Brasil, uma República


Federativa Presidencialista
A Constituição de 1988 estabelece uma República Federativa Presidencialista. O país,
que já foi uma monarquia, hoje apresenta forma de governo republicana com regime
representativo. Embora tenha sido parlamentarista em dois períodos de sua história, adota
hoje o sistema de governo presidencialista, reunindo na mesma pessoa a chefia de estado
e a chefia de governo. Assegura a Constituição que além do povo exercer o poder por
intermédio de representantes eleitos, também o fará de forma direta, nos termos por ela
determinada. Finalmente, reconhece autonomia a estados e municípios, configurando
assim forma federativa de Estado.
A autoridade política é exercida por três poderes. O poder legislativo federal é bicame-
ral, ou seja, é composto no plano nacional por duas casas legislativas com atribuições
próprias, e juntas formam o Congresso Nacional. No Senado Federal se fazem representar
os estados federativos, cada um deles com três cadeiras e mandato de oito anos, e na
Câmara dos Deputados se encontra a representação proporcional – entre oito e setenta
deputados - da população de cada estado e mandato de quatro anos. Em cada estado
da Federação, a população se faz representar pelos deputados estaduais nas respectivas

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assembleias legislativas e em cada município, pelos vereadores, nas câmaras municipais.
Em cada nível federativo, o representante do poder executivo – presidente, governador
ou prefeito - é eleito pelo voto direto majoritário e compõe um ministério ou secretariado
para seu governo. Eleitos para mandato de quatro anos, podem ser reeleitos por mais um
período de governo.
Ao poder judiciário é assegurada autonomia administrativa e financeira, o que consti-
tui um grande avanço organizacional desse poder em sua autonomia frente aos demais
poderes. Importante situação que decorre da Constituição de 1988 foi a transformação,
na prática, do Supremo Tribunal Federal (STF) em um guardião constitucional, ao conferir
ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) o caráter de uniformização jurisprudencial da legis-
lação federal. Além disso, em 2004, A Emenda Constitucional n. 45, ao criar o Conselho
Nacional de Justiça (CNJ), fez dele um importante instrumento de transparência do poder
Judiciário, compondo-o com representantes da magistratura, do ministério público, da
advocacia e da sociedade civil e encarregando-o de realizar a supervisão da atuação
administrativa e financeira do Judiciário.
Em suas funções executivas e legislativas os entes federativos são providos com compe-
tências ora exclusivas, ora comuns, ora concorrentes, conforme tais competências sejam
respectivamente responsabilidade exclusiva de um determinado ente, ou responsabilida-
de comum a mais de um ente, ou em que as responsabilidades de cada ente se comple-
mentam, de maneira concorrente ou cooperativa.
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Vejamos a situação dos municípios, que foram alçados à condição de entes fede-
rativos. Entre suas competências há questões de ordem:
a. tributária - impostos como IPTU, ISS -;
b. legislativa – sobre desapropriação de imóveis, licitação de contratos -;
c. financeira - gestão de recursos públicos, patrimônio, rendas, tributos, competên-
cia hoje regulada pela Lei de Responsabilidade Fiscal -;
d. administrativa - administração autônoma de bens e serviços -;
e. relacionada à elaboração e execução de políticas e serviços públicos como em:
e1. educação - implementação da educação em nível pré-escolar e fundamen-
tal, em cooperação e com apoio técnico e financeiro da União e do estado,
e obedecendo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB);
e2. saúde - com apoio técnico e financeiro do estado e da União por meio do
Sistema Único de Saúde (SUS), mas com autonomia para a definição de
prioridades a depender das características e necessidades locais;
e3. em outras áreas como Política Urbana, Saneamento Básico, Cultura,
Ambiente, Agricultura.

A elaboração da Constituição de 1988 se deu em meio a um intenso processo de mobi-


lização das forças sociais com vistas à redemocratização do país e desmonte de uma

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institucionalidade autoritária e administração centralizada. A descentralização política
das decisões e da execução das políticas públicas inscreveu-se fortemente na Constitui-
ção Cidadã. Isso ficou evidente nos mecanismos institucionais de transferência de poder e
execução administrativa aos níveis subnacionais – estados e municípios. Esse processo se
estendeu a vastas áreas sociais como a da saúde, da educação fundamental, da assistência
social, da habitação e do saneamento básico, fortalecendo a inserção e participação de
estados e municípios no cenário político democratizante. O próprio Estado brasileiro sai
favorecido pela transformação de um modelo centralizado de gestão de políticas públicas
rumo a um modo descentralizado e participativo.
Os princípios de descentralização e participação estão presentes em quase todas as
políticas públicas no país. Além de favorecer o processo de democratização da sociedade
brasileira, fortalece o próprio caráter republicano dos governos, pois traz para dentro das
arenas decisórias amplos segmentos da sociedade organizada, preenchendo com ele-
mentos daí provenientes os diversos espaços público-estatais e modificando, com sua
participação os processos de formulação de políticas e de condução da gestão pública.
34 Introdução à Ciência Política

Como exemplo dessa afirmação vale mencionar a instituição, pós-Constituição


de 1988, do Sistema Único de Saúde - SUS.
Concebido internamente ao conceito de Seguridade Social, em contraposição ao seu
modelo anterior de financiamento - Seguro Social -, esse sistema de saúde leva a cida-
dania ao seu patamar jamais antes adotado no país, já que assegura cobertura universal
dos serviços e integralidade da atenção à saúde. Entre seus princípios organizativos
figura a descentralização da execução das ações e corresponsabilização dos três entes
federativos pelo seu financiamento, além de prever uma organização técnica funda-
mentada na regionalização geográfica e na hierarquização, segundo a complexidade
do atendimento, da rede de serviços a ser colocada à disposição do cidadão. Com a
Constituição de 1988 a participação social passou a ser um princípio organizacional
do sistema de saúde, já que representantes dos usuários de serviços, dos profissionais
de saúde e dos gestores devem participar da formulação das políticas e programas e da
fiscalização da execução das mesmas. São milhares de cidadãos que hoje integram os
conselhos participativos de saúde, em todo o território nacional. Além disso, o sistema,
ao adotar o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e a Estratégia de Saúde
da Família (ESF) como postos avançados da reformulação do modelo de atenção à saú-
de, trouxeram outros milhares de cidadãos, emanados de suas respectivas comunidades
de bairros, a participar como profissionais do sistema de saúde.

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Tópico 3 Brasil. Sistema representativo:
eleições e partidos
A Constituição de 1988 determina formas de exercício direto da participação popular
mediante os mecanismos de plebiscito, referendo e iniciativa popular. Mas é em torno
do sufrágio universal que se construiu um amplo conjunto de instituições denominado
sistema de democracia representativa. Antes de focalizar o sistema representativo vamos
fazer uma breve incursão na história política do país e recuperar alguns princípios demo-
cráticos que exerceram influência sobre o atual sistema representativo.
Houve duas experiências democráticas no país, as quais vieram influenciar nosso sis-
tema democrático representativo. Na primeira, entre 1946 e 1964, havia eleições diretas
para Presidente da República, senadores, deputados federais, governadores, deputados
estaduais, prefeitos e vereadores.
Em dezembro de 1945 ocorreram eleições legislativas para a escolha de uma assembleia
constituinte e eleições para Presidência da República, em que o General Eurico Gaspar
Dutra saiu vitorioso, com 55% dos votos; e foi empossado no mesmo ano em que se pro-
mulgava a nova constituição, 1946. Reorganizaram-se partidos políticos nacionais, com
ampla expectativa de liberdade, ainda que a amplitude da liberdade associativa tenha se
mostrado breve, já que o Partido Comunista Brasileiro teve sua legenda cassada já em
1947. Getúlio Vargas, ditador no período 1937–1945, voltou ao cargo de Presidente da
República por meio de eleições em 1950, concorrendo na legenda do Partido Trabalhista
Brasileiro – PTB –, tendo obtido 48% dos votos válidos. A oposição a Vargas foi liderada
principalmente pelo partido da União Democrática Nacional – UDN. O fim do governo
Vargas, com seu trágico suicídio, expressa a extrema complexidade desse período, em
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que, como assevera Carvalho (2008), a primeira experiência democrática conheceu um


período politicamente conturbado, com golpes e contragolpes.
Realizadas a novas eleições presidenciais em 1955, as tentativas que se seguiram, de
impedir a posse do candidato eleito com 36% dos votos – 500 mil a mais que Juarez Távora,
candidato da UDN, e 700 mil a mais que o terceiro colocado –, foram frustradas. Então,
Juscelino Kubitschek assumiu a Presidência da República, apoiada sua candidatura por uma
aliança entre o Partido Social Democrático – PSD – e o PTB, o qual participou do governo
com João Goulart, no cargo de Vice-Presidente.
Jânio Quadros, pelo voto, sucedeu Juscelino Kubitschek, tomando posse em 1961 e renun-
ciando, em meio a nova crise política, em agosto do mesmo ano. Uma junta de governo
o substituiu enquanto os ministérios militares entabulavam o impedimento da posse do
Vice-Presidente, novamente João Goulart, que se encontrava em viagem internacional na
ocasião da renúncia de Jânio. Desencadeou-se, em reação a essa iniciativa, o movimento
pela legalidade constitucional que determinava a posse do vice em caso de vacância da
presidência. O movimento assegurou um acordo político, em que a posse de Jango ocorre-
ria concomitante à adoção do sistema parlamentarista. O acordo previa um futuro plebisci-
to em que a população seria consultada sobre a permanência do sistema parlamentarista.
Plebiscito, ocorrido em Janeiro de 1963 – 9,5 milhões, de um total de 12,7 milhões de
votos, foram favoráveis ao presidencialismo –, definiu-se pelo retorno do presidencialismo
e, portanto, João Goulart voltou a reunir as chefias de Estado e de governo.

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Nesse período o voto era obrigatório, secreto e direto, estendia-se a todo cidadão, homens
e mulheres com mais de 18 anos, exceto os não alfabetizados. O período se encerrou com
o movimento militar de 1964 que instaurou um regime autoritário que perdurou até 1985.
No regime autoritário que se seguiu, e perdurou por 21 anos, diferentemente de regimes
dessa natureza em outros países, manteve-se o funcionamento do Congresso e a realiza-
ção de eleições, contudo restritas: não se votava diretamente para Presidente da República
e uma parte do Senado era indicada pelo chefe do Poder Executivo; havia eleições para as
cadeiras do legislativo – vereadores, deputados estaduais, deputados federais e uma parte
dos senadores – e eleições indiretas para governador e presidente, escolhidos nos colégios
de suas jurisdições respectivas: assembleias legislativas e Congresso Nacional. Porém, nas
capitais e grandes cidades do país a escolha do prefeito cabia ao governador do estado.
Em 1984, o “Movimento das Diretas Já” mobilizou milhões de pessoas em todo o país
com o intuito de restabelecer as eleições para Presidente. Em 1985, sob regime demo-
crático, iniciaram-se os preparativos para uma nova ordem institucional e a realização
daquelas eleições, que vieram a ocorrer em 1989.
Nas eleições diretas de 1989, Fernando Collor de Mello foi eleito Presidente da Repúbli-
ca, mas cumpriu pouco mais de metade do seu mandato, uma vez que tendo sofrido um
processo de impugnação de mandato (impeachment) – instrumento previsto institucio-
nalmente, dentro da normalidade constitucional –, para o qual também concorreu uma
grande movimentação social, Collor de Mello renunciou antes de ser condenado pelo
Senado, e tornou-se inelegível por 8 anos.
Em nossa primeira experiência democrática, nas eleições presidencias os eleitores tota-
lizavam 12,5 milhões e havia 12 partidos nacionais ativos. Nas eleições de 2011, que
elegeram Dilma Roussef como a primeira mulher à Presidência os eleitores totalizavam
135,8 milhões de cidadãos e havia 29 partidos registrados em todo o país.
36 Introdução à Ciência Política

Sistema de representação política


Como um Estado de Direito e uma Democracia Representativa o Brasil conta com um
sistema de representação política baseado no princípio da delegação de poderes a um con-
junto de cidadãos que irão exercer a política diretamente nas arenas do Poder Executivo e do
Poder Legislativo. Quando nos referimos a um sistema de representação política, isso quer
dizer que as decisões que concernem à comunidade política não são tomadas diretamente
pelos cidadãos, que apesar de constitucionalmente deterem o poder político, não o exercem.
A representação política se assenta, por sua vez, nas eleições desses representantes, e
por isso também falamos em um sistema eleitoral. Além disso, nossos representantes estão
vinculados a siglas partidárias, a partidos que funcionam no interior de um sistema parti-
dário. A Nação brasileira partilha com dezenas de outras nações o modelo representativo,
assim como o princípio da elegibilidade dos representantes políticos, mas seus sistemas
eleitoral e partidário possuem regras e critérios específicos.
É importante também não esquecer que tais sistemas, além de expressarem dissonâncias
entre países diversos, suscitam experiências históricas concretas, como é o caso de meca-
nismos de fraudes eleitorais. Em nossa primeira experiência democrática, por exemplo,
lembra Carvalho (2008: 146 e147):
As práticas eleitorais ainda estavam longe da perfeição, apesar da justiça espe-
cializada. A fraude era facilitada por não haver cédula oficial para votar. Os pró-
prios candidatos distribuíam suas cédulas. Isso permitia muita irregularidade.

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O eleitor com menos preparo podia ser facilmente enganado com a troca ou
anulação de cédulas por cabos eleitorais. Coronéis mantinham várias práticas
antigas de compra de voto e coerção de eleitores. A seu mando, cabos eleito-
rais ainda levavam os eleitores em bandos para a sede do município e os man-
tinham em ‘currais', sob vigilância constante, até o momento do voto. Os cabos
eleitorais entregavam aos eleitores envelopes fechados com as cédulas de seus
candidatos, para evitar trocas. O pagamento podia ser em dinheiro, bens ou
favores. Por via das dúvidas, o pagamento em dinheiro era muitas vezes feito
da seguinte maneira: metade da cédula era entregue antes da votação e a outra
metade depois. O mesmo se fazia com sapatos: um pé antes, outro depois.
Hoje, como se sabe, o voto é eletrônico, e com a introdução da informatização no ato
do voto e na sua contabilização, parecem ter se superado tais constrangimentos.
Segundo Nicolau (2008: 10), “o sistema eleitoral é o conjunto de regras que define como
em uma determinada eleição o eleitor pode fazer suas escolhas e como os votos são con-
tabilizados para serem transformados em mandatos (cadeiras no Legislativo ou chefia do
Executivo)”. Usualmente desconhecemos ou temos pouca consciência dessas regras, e
também pouca ou nenhuma noção do que tais regras fazem com os nossos votos. Ao
abordarmos o funcionamento do sistema eleitoral, temos que lembrar que existem diversos
outros aspectos e momentos importantes do processo eleitoral, sobre os quais deveríamos
refletir. As campanhas eleitorais envolvem acesso aos meios de comunicação, propaganda
eleitoral com regras de participação para cada partido, gastos de campanha, pesquisas de
opinião realizadas em geral por instituições privadas de pesquisa, entre outros aspectos.
Demasiadas questões que deveriam ser conhecidas e entendidas pela população.
Em nosso sistema eleitoral, a seção e a zona eleitoral são as divisões ou unidades ter-
ritoriais básicas consideradas das eleições – informações, aliás, que constam do Título
de Eleitor. Isso não deve ser confundido com as unidades de contabilização de nossos
votos, os chamados distritos eleitorais: o estado, para as eleições de governador, deputado
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federal, deputado estadual e senador; o município, para prefeitos e vereadores; e, enfim,


o país torna-se um único distrito eleitoral quando se tratam das eleições presidenciais.
Para cada distrito eleitoral há um determinando número de cadeiras/representantes, em
função de sua magnitude – a relação entre a fórmula eleitoral e a magnitude do distrito elei-
toral. A Constituição de 1988 determina o uso do sistema majoritário, com dois turnos, para a
eleição do Presidente: os partidos apresentam seus candidatos e se um deles receber mais de
50% dos votos é o eleito; se isso não ocorre, os dois candidatos mais votados voltam a con-
correr e ganha aquele que obtém mais da metade dos votos válidos. Esse sistema também
vale para a eleição de governadores e prefeitos de cidades com mais de 200 mil habitantes,
enquanto para as cidades com uma população menor vale o sistema majoritário simples dos
eleitores, onde se é eleito o que receber um voto a mais que o segundo colocado.
Quanto à representação parlamentar, as eleições são proporcionais, para vereador,
deputado federal e deputado estadual ou distrital. A distribuição das cadeiras depende
da utilização de uma fórmula eleitoral. Para tornar-se um representante parlamentar o
candidato deve atingir uma determinada quota de votos: calcula-se o quociente eleitoral,
dividindo-se o total de votos dos partidos, ou das coligações, mais os votos em branco,
pelo número de cadeiras do distrito. No sistema vigente o eleitor tem tanto a opção de
votar no nome do político, como no do partido, ou legenda. As cadeiras obtidas pelos
partidos, ou pelas coligações entre os partidos, serão ocupadas pelos candidatos mais
votados de cada lista. As coligações entre os partidos supõem uma única lista, e os mais

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votados dessa coligação serão os eleitos (Nicolau e Power, 2007).
Os mecanismos de representação e os sistemas eleitorais e partidários são produtos sofis-
ticados dos Estados Modernos. Embora a representação tenha tornado possível a existência
desses Estados, sua capacidade de expressar a vontade do povo, de permitir que este exerça
o controle sobre os governos e que efetivamente governe por intermédio de representantes
é muito contestada. Some-se a isso um crescente aparente desinteresse das populações em
participar das eleições, dos momentos de escolha ou mesmo de se incumbir da tomada de
decisão sobre questões que seriam de interesse geral. Talvez o desinteresse, ele próprio, já
expresse, não um certo entendimento quanto à pouca importância dos assuntos, e mais um
descrédito quanto ao próprio mecanismo de representação. Seja como for, na atualidade
tem-se debatido muito acerca da crise do sistema representativo por se mostrar limitador
da expressão das demandas do cidadão, especialmente quando se tratam das minorias. Os
mecanismos da democracia direta são invocados nessa ocasião, para, ao lado do sufrágio
universal, acionando as fórmulas de participação popular, como o plebiscito, o referendo e a
iniciativa popular, permitirem consultas diretas aos cidadãos sobre assuntos de interesse geral.

Referências bibliográficas
Brasil. s/d. Constituições. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
Constituicao/principal.htm>. Acesso em 9 mai. 2012.
Carvalho, J. M. Cidadania no Brasil. O longo caminho. 10ª ed. Rio de Janeiro: Civi-
lização Brasileira, 2008.
Nicolau, J. M. Sistemas Eleitorais. 5ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV.
Nicolau J. M., Power, T. (orgs.). Instituições representativas no Brasil: balanço e
reforma. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2007.