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1. INTRODUÇÃO.

Ética a Nicômaco é a principal obra de ética de Aristóteles. Nela se expõe sua concepção
teleológica e eudaimonista de racionalidade prática, sua concepção da virtude como mediania
e suas considerações acerca do papel do hábito e da prudência na Ética. É considerada a mais
amadurecida e representativa do pensamento aristotélico.

O título da obra advém do nome de seu filho, e também discípulo, Nicômaco. Supõe-se que a
obra resulte dasanotações de aula deste e publicadas pelos discípulos de Aristóteles depois da
morte prematura, em combate, de Nicômaco.

No presente trabalho, apresentamos os resumos sobre o quinto e o sexto mandamento


nomeadamente Viver a Justiça e valer-se da razão segundo Aristoteles.

Aristóteles inicia suas aulas sobre ética, conforme as anotações de seu filho, discutindo as
idéias de seu mestre Platão. E, embora vá diferir deste em muitos pontos – passando de um
idealismo para um realismo, se assim se pode falar, - a idéia fundamental de Aristóteles é,
tanto quanto para Platão, o Bem Supremo. E esse bem supremo é ainda e sempre a felicidade.

2. VIVER A JUSTIÇA.
Aristóteles e a Justiça (V Século A.C.) Grécia – Atenas Justiça como máxima virtude (areté)
e, como toda virtude, um justo meio (mesótes), não inata, mas alcançável pela educação
(paidéia), pelo viver ético (éthos) e escolhida pela reta razão (ortós logos) dentro de um
Estado político (pólis), em que a noção de felicidade (eudaimonía) é algo absolutamente
humano.

No período Clássico (Grécia Antiga), pode- se dizer que Sócrates formulou problemas
(ironia), Platão arquitetou (ideal) e Aristóteles dedicou-se à aplicação da Ética e da Justiça a
partir do possível, ou seja, do prático.

Para Aristóteles, o justo nos faz viver conforme as leis e a equidade. O injusto nos leva à
ilegalidade e à desigualdade. Justo é tudo aquilo que é capaz de criar ou salvaguardar, em sua
totalidade ou em parte, a felicidade individual e comunitária. Noutras palavras, a Justiça é,
em si mesma, a felicidade individual e comunitária. Ela não é meio e, sim, um fim.

A felicidade, como condição de vida, apenas decorre de um viver justo, independentemente


das circunstâncias. A lei prescreve, inclusive, a cada pessoa, portar-se de forma valente e
forte.
Prescreve a sociabilidade: manda, por exemplo, não agredir nem falar mal de ninguém.
A Justiça, assim entendida, é uma virtude completa.

2.1 TIPOS DE JUSTIÇA

2.1.1 JUSTIÇA DISTRIBUTIVA


Ao elaborar um pensamento, através de uma medida geral, considerada comovirtude, o
Aristóteles também formula uma teoria da Justiça, como medida axiológica para o
Estado e o Direito, uma forma particular desta medida, que pode ser relacionada a todas as
virtudes relativas à comunidade e à política, por intermédio de uma igualdade proporcional.
Leva em consideração a desigualdade de méritos.

A Justiça Distributiva é explicada, na Ética a Nicômaco, como aquela que se aplica na


repartição das honras e dos bens da comunidade, segundo a noção de que cada um de acordo
com os seus méritos.
Partindo daí, podemos observar claramente a presença da Justiça distributiva nos dias atuais,
como o princípio geral das igualdades das relações jurídicas e da justa repartição de bens.

Aristóteles observa que a sociedade, na prática, não é feita de iguais apenas. O pressuposto
teórico da igualdade (isonomia) seria válido se todos fossem iguais. Na realidade fática
(histórica), a sociedade é constituída por iguais e desiguais.

Assim, se as pessoas não são iguais, não terão igualdade na maneira como são tratadas. Daí
vêm as disputas e contendas, quando as pessoas, em pé de igualdade, não obtêm partes iguais,
ou quando, em pé de desigualdade, obtêm um tratamento igual. Para resolver o problema
prático da adequada aplicação da Justiça, Aristóteles recorre ao principio da igualdade
proporcional\. Deste modo, podemos afirmar que o justo é o proporcional e o injusto é o que
quebra a proporcionalidade.

Dai deriva a ideia de tratar os iguais, igualmente; os desiguais, desigualmente. A ideia de


tratar os iguais, igualmente, e os desiguais, desigualmente, está no cerne da estrutura de
concepção e funcionamento da Constituição (Carta Magna) dos Estados contemporâneos.

2.1.2 JUSTIÇA CORRETIVA OU REPARATIVA

A espécie Corretiva ou Reparativa é a segunda prevista na Ética a Nicômaco e está divida em


Comutativa e Judicial. A Justiça Corretiva ou Reparativa resulta de um "princípio
corretivo ou reparativo" frente às relações privadas, sejam elas voluntárias ou
involuntárias, as primeiras, contratuais, e as últimas delituosas.

O princípio da igualdade é encarado de forma diversa, cuidando somente de medir os ganhos


e perdas de modo impessoal, as coisas e as ações são levadas em conta pelo seu valor objeti-
vo, e não mais pela qualidade das pessoas.
Esta ideia de Justiça fica centrada no ponto intermediário, no meio termo entre a vantagem e
o dano, ou na correspondente entre o delito e a pena. Em resumo, todas as relações de troca,
sejam penais ou civis, são objetos dessa figura Corretiva ou Reparativa.

Portanto, a Justiça Corretiva ou Reparativa ordena as relações dos membros entre si mesmos.
3. VALER-SE DA RAZÃO.

Nosso filósofo começa por dizer que toda arte e todo saber, todas as nossas escolhas e tudo o
que fazemos visam a algum bem. Não é sem razão, portanto, que já foi dito que o bem é
aquilo a que todas as coisas tendem. 

À procura da felicidade. A espécie humana, mostra a experiência, observa ele, vive à procura
da felicidade. O homem, como a mulher, almeja uma vida feliz no sentido pleno da
expressão, o que, de acordo com cada indivíduo, vai, consequentemente, resultar no pleno
desenvolvimento e exercício de suas capacidades, em compatibilidade com sua vida em
sociedade. Entretanto, o ser humano pode enganar-se a respeito do verdadeiro bem. 

Viver segundo a razão. O bem de todo ser, diz Aristóteles, está em agir segundo a função que
lhe é própria. A vida vegetativa é a função própria da planta, assim como a vida sensitiva é a
função própria do animal. Ambas são comuns também ao ser humano, mas nem a vida
vegetativa nem a sensitiva são a função própria do homem, e sim a atividade racional. Viver,
pensar, sentir e agir segundo a razão – eis em que consiste o bem, vale dizer, a virtude, a
felicidade. 

Cumpre, porém, que o homem comece, desde logo, a querer, realmente, agir de modo
racional; que repita a ação boa, de modo a fazer dela um hábito. “Um ato virtuoso não faz a
virtude, assim como uma andorinha só não faz verão. A virtude é o hábito do bem.”   

O bem consiste também, diz Aristóteles, em proporcionar ao espírito, por meio da prática
habitual de virtudes, a serenidade de que necessita para seu equilíbrio psíquico e sua
felicidade neste mundo.

  

O justo meio. “A autoindulgência e a autoconfiança desenfreadas nos levarão ao perpétuo


conflito com os outros e, de todo modo, são prejudiciais ao nosso caráter – mas a inibição
também o é”. Esse breve extrato é de um texto em que Aristóteles apresenta sua doutrina do
“justo meio”, segundo a qual a virtude é o meio-termo entre dois extremos, sendo cada um
deles um vício. Desse modo, exemplifica ele, entre a covardia e a temeridade está a coragem;
entre a sovinice e o esbanjamento, a poupança; entre a vaidade e a auto-humilhação, o amor-
próprio; entre a desfaçatez e a timidez, a modéstia. “A meta é ser sempre uma personalidade
equilibrada”, preconiza ele.

De acordo com Aristóteles, há dois gêneros de virtudes: as da vida prática e a virtude


suprema. Entre as da vida prática, ele recomenda sobretudo a justiça e a amizade.

Sobre a justiça, que, para Aristóteles, é a maior das virtudes práticas, faço aqui uma breve
citação do mestre: “Sua força sobre as demais reside em sua perfeição, porque quem é justo
projeta-se mais para o outro do que para si mesmo. Em outras palavras, tudo que protege o
conjunto dos indivíduos (a sociedade) é mais importante do que aquilo que protege somente
um dos membros dessa sociedade. Por isso, dos males, a injustiça é o maior, pois destrói o
tecido social”. Ainda sobre a justiça, Aristóteles chega a dizer poeticamente: “Nem a estrela-
d’alva nem a estrela vespertina se igualam à sua maravilhosa beleza”.

A respeito da amizade, à qual dedica nada menos que dois dos dez livros da Ética a
Nicômaco, cite-se, por exemplo, o que ele diz ao fazer uma alusão a um suposto amigo:
“Aquele que, desnorteado, se perdeu e esteve privado de qualquer convívio humano sente, ao
voltar da solidão para as moradas humanas, a que ponto o homem é simpático ao homem”.

A virtude suprema. Acima de toda virtude prática, porém, eleva-se a virtude suprema,
chamada também por Aristóteles de “vida divina”, ou seja, a vida exclusivamente
contemplativa do sábio dedicado ao conhecimento desinteressado, ao pensamento puro, não
utilitário.

Segundo nosso filósofo, a essa virtude, que, sobre ser suprema, é também perfeita,
corresponde, exagera ele, penso eu, uma felicidade igualmente perfeita – independentemente
de qualquer circunstância exterior.

“Se o espírito é algo de divino” (isto é, uma parcela do “Bem Supremo”, como dá a entender
Aristóteles em sua Metafísica), “devemos aplicar-nos, tanto quanto possível, em nos tornar
dignos da imortalidade e nos esforçar por conformar nossa vida ao que há, em nós, de mais
sublime.”
4. CONCLUSÃO.

Aristóteles aprofunda os ensinamentos que retirou de Platão (República), e elabora sua teoria
ética a partir das estruturas morais vigentes na comunidade grega do século V a.C. De um
modo geral, pode-se dizer que a sua teoria apresenta o procedimento do homem prudente
como um valor, cuja opinião dos homens mais velhos, a experiência da vida e os costumes da
cidade são condições objetivas para se filosofar politicamente. Diferentemente de Platão,
Aristóteles humanizou o fim último, ou seja, o fim último foi afirmado no plano terreno. Por
isso, o ético em Aristóteles é entendido a partir do ethos (do costume), da maneira concreta
de viver vigente na sociedade. É exatamente o ethos que funciona como elo entre as esferas
jurídica e política. As ordens jurídica e política pressupõem o ethos

No Livro da Ética a Nicômacos, há um trecho que expressa, de maneira exímia, o intuito, o


propósito, o objeto e o sujeito do estudo da ética: Estou falando da excelência moral, pois é
esta que se relaciona com as emoções e ações, e nestas há excesso, falta e meio termo. Por
exemplo, pode-se sentir medo, confiança, desejos, cólera, piedade, e, de um modo geral,
prazer e sofrimento, demais ou muito pouco, e, em ambos os casos, isto não é bom: mas
experimentar estes sentimentos no momento certo, em relação aos objetos certos e às pessoas
certas, e de maneira certa, é o meio termo e o melhor, e isto é característico da excelência. Há
também, da mesma forma, excesso, falta e meio termo em relação às ações. Ora, a excelência
moral se relaciona com as emoções e as ações, nas quais o excesso é uma forma de erro, tanto
quanto a falta, enquanto o meio termo é louvado como um acerto; ser louvado e estar certo
são características da excelência moral. A excelência moral, portanto, é algo como
eqüidistância, pois, como já vimos, seu alvo é o meio termo. Ademais é possível errar de
várias maneiras, ao passo que só é possível acertar de uma maneira (também por esta razão é
fácil errar e difícil acertar – fácil errar o alvo, e difícil acertar nele); também é por isto que o
excesso e a falta são características da deficiência moral, e o meio termo é uma característica
da excelência moral, pois a bondade é uma só, mas a maldade é múltipla.
5. REFERENCIA BIBLIOGRAFICAS

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. In: Pessanha, José Américo Motta (org.),


Aristóteles. Trad. de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Abril Cultural,
1979.
AUBENQUE, Pierre. A prudência em Aristóteles. São Paulo: Discurso, 2003.