Você está na página 1de 6

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOIFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

ELIPSANDO LACUNAS
Convivas reminiscentes dos capítulo II e LIX de Dom Casmurro de
Machado de Assis

Reginaldo Jurandyr de Matos

Trabalho apresentado ao
Prof. Dr. Marcos Flaminio Peres
no âmbito da disciplina Literatura Brasileira IV

São Paulo
2013
Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido


contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,


muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade

(…)
tudo marcha com uma alma imprevista...
ASSIS, 2008: 142
Apenas diamante corta diamante. Explorar mina tão preciosa e funda não
prescinde equipamento de ponta; do mesmo modo, a ficção machadiana equipara-se a
outro gigante à sua altura: Kafka, obrigando-nos a utilizar instrumentos da Literatura
Comparada, da Estilística e em alguma medida, da Filosofia da Linguagem.
Walter Benjamin enxerga na ficção kafkiana uma elipse de focos afastados. Em
uma ponta, a tradição mística; no outro extremo, a experiência do cosmopolita
moderno (Benjamin 1993, 101). (Bem nítida essa constatação, em contos como Árvores,
Desista! e na primeira parte da Metamorfose….) Do mesmo modo, Antonio Candido vê
“os tormentos do homem e as iniquidades do mundo” (Candido, 2004, p. 23) emergirem
da ficção machadiana “sob um aspecto nu e sem retórica, agravados pela
imparcialidade estilística”, porque cultivando “livremente o elíptico, o incompleto, o
fragmentário” (Candido, 2004, p. 22, grifos meus).
Estes dois artistas do drama humano, separados geográfica e linguisticamente, mas
unidos temporal e estilisticamente, estão focados sob a lupa de dois mestres, já
apresentados: Benjamin e Candido; ambos descortinam essa elipse.
Ao ler o capítulo II de Dom Casmurro de Machado de Assis, enxergo não apenas
a imagem geométrica. Não é à toa a escolha das palavras. Ἐλλείπω, em grego antigo, é
“faltar, permitir a lacuna” e deriva de ἔλλειμμα (lacuna, falta); suas formas aorista e
futura (ἐνέλειψα, ἐλλείψω) permitiram a elipse que chegou até nós, próxima ao sentido
estilístico, da figura de linguagem que dá ideia de supressão ou lacuna.

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a
adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o
rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem
consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é
tudo. ASSIS, 2008: 14, grifos meus

Machado concentra no verbo faltar um centro de gravidade onde o sujeito eu orbita;


primeiro, elipsado, à esquerda. Depois, rotaciona o sujeito em torno do verbo e eu parece
querer sair pela tangente, à direita, numa elipse gravitacional:

me faltassem os outros

mas falto eu

O Eu orbitando a falta, a lacuna. O narrador de Dom Casmurro está pondo em prática


sua técnica, seu etilo, que consiste em
sugerir o todo pelo fragmento, a estrutura pela elipse, a emoção pela ironia e a
grandeza pela banalidade. CANDIDO, 2004: 22, grifos meus

Quando a estrutura (a base fundamental) é sugerida, não imposta, através de elipse,


temos todo o constructo a partir do lacunar; a obra literária aparece como código cujo
significado simbólico exige outros contextos e experiências de perda; Benjamin enxergou isso
no aspecto teatral na produção artística de Kafka:
(…) toda a obra de Kafka expõe um código de gestos, que não tem, de modo algum,
significado simbólico seguro por si para o autor; antes são relacionados sempre
novamente a outros contextos e ordenações experimentais. (Benjamin 1985 p. 146)

Kafka tece uma memória narrativo-experimental, em que imagens deformadas ou


oníricas mesclam-se a gestos não concatenados contrapostas à linguagem. Também o narrador
casmurro confessa primar o esquecimento. Quando diz que não gosta muito convivas, (latim:
convīva, “quem come junto”), usa o recurso da reminiscência para reforçar o distanciamento.
Repete o artigo indeterminado, usa pronome indefinido e deixa ambíguo o sentido real da
palavra antigo:

Um antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa memória. A vida é cheia de tais
convivas, e eu sou acaso um deles, conquanto a prova de ter a memória fraca seja
exatamente não me acudir agora o nome de tal antigo; mas era um antigo, e basta.
ASSIS, 2008: 142, grifos meus

Esse antigo é o protótipo da reminiscência, memória lacunar em Machado. Em Kafka,


a memória social e histórica de Gregor Samsa, na Metamorfose, é apagada pelo imprevisto-
absurdo. Todas as lembranças de Gregor parecem doloridas apesar de aliviarem: despertador,
chefe, dívida dos pais ainda não paga com seu trabalho. Gregor nunca adoeceu em cinco anos
de trabalho, e agora, devido à sua transformação em inseto, era obrigado a ficar a sós consigo
mesmo. Encontramos aí a “normalidade social dos fatos e a sua anormalidade essencial”
(Candido, 2004, p. 23, grifos meus). A normalidade social do indivíduo Franz Kafka da
Primeira Guerra Mundial (cujos escritos posteriormente se disseminaram nos campos de
concentração) confronta a realidade da guerra. Enquanto em certas passagens o narrado
parece “entretecido por anjos”, a imagem nos prepara “para suprimir os habitantes deste
planeta em massas consideráveis”. Kafka molda o gestual dramatúrgico da experiência
linguagem-imagem lacunar da supressão (Benjamin 1993, 105). Lembrando e parodiando
os vermes de Brás Cubas, um antigo reside na memória como uma traça. Apesar de
minúscula, vai furando e abrindo seu caminho na madeira grossa (às vezes na nossa pele) e
deixa sua marca, sua “história”. Benjamin entendeu assim:

A memória é a mais épica de todas as faculdades. Somente uma memória abrangente


permite à poesia épica apropriar-se do curso das coisas, por um lado, e resignar-se, por
outro lado, com o desaparecimento dessas coisas, com o poder da morte. (Benjamin 1985
p. 210)
A anormalidade essencial em Machado é o esquecimento.

Não, não, a minha memória não é boa. Ao contrário, é comparável a alguém que tivesse
vivido por hospedarias, sem guardar delas nem caras nem nomes, e somente raras
circunstâncias. A quem passe a vida na mesma casa de família, com os seus eternos
móveis e costumes, pessoa e afeições, é que se lhe grava tudo pela continuidade e
repetição. Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que
vestiram! Eu não atino com a das que enfiei ontem. Juro só que não eram amarelas
porque execro essa cor; mas isso mesmo pode ser olvido e confusão. ASSIS, 2008: 141.

As lembranças ligam o homem ao processo civilizatório, da história construída sobre


glórias do passado, apesar de “tumulares” (a palavra grega μνῆμα tem um sentido primário de
tumba, túmulo, depois, urna da cremação, daí emblema lapidar e só então “lembrança”). A
normalidade social dos fatos percebe quando “os destinos e os acontecimentos se organizam
segundo uma espécie de encantamento gratuito” geram os “conflitos essenciais do homem
consigo mesmo, com os outros homens”, (Candido, 2004, p. 32, grifos meus). Pois

tudo marcha com uma alma imprevista. ASSIS, 2008: 142

A semiótica peirciana discrimina ícone (signo similar à sua imagem, a “representação”,


− em grego εἰκόνας, o desenho, a imagem patente) do símbolo, signo abstraído do representado,
“con-venção”, em grego σύμβολον, a senha, a autorização intuída ou evocada (lembrada!) para
entrada, o sinal latente.
A partir daí depreende-se que na ficção machadiana (ecoada em Kafka) a falha ou
lacuna serve de ícone para o simbólico que realmente importa: a busca do Ser, da identidade
perdida, qual um alferes procurando sua alma num espelho, um velho casmurro procurando
sua essência perdida na reminiscência de um passado morto, mas que continua assombrando.

É que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas
alheias; assim podes também preencher as minhas. ASSIS, 2008: 142, grifos meus

Fora de uma narrativa lacunar, elíptica, encontra-se tudo. Retomando o que já vimos
no capítulo II: “falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo”. Esta lacuna é tudo. O que é tudo? Tudo
é esta lacuna; como se dissesse: “Não tenho a mim mesmo, em meu ser há uma elipse, uma
fenda, um rasgo, abertura, (ferida?), um ícone, protótipo de meu ser, sou apenas um esboço; na
lacuna sulcada de minha forma encontrei o símbolo, a senha e a senda para trilhar além do
que não acho. Como minha memória é o pior conviva que posso ter, chamo à mesa quem se
aproxima de minha arte, lacunas podem ser preenchidas, meta nelas o que quiser, é a
cumplicidade que nos une, leitor amigo, e nos autoriza a tanto. Espero ter agradado, se não,
sou bom em lançar moedas. Cara ou coroa?”
Bibliografia

de ANDRADE, Carlos Drummond. Claro Enigma. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1951.

ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. São Paulo: Saraiva, 2008.

BENJAMIN, Walter. Benjamin über Kafka. Texte, Briefzeugnisse, Aufzeichnungen.


Herausgegeben von Hermann Schweppenhäuser. Suhrkamp, Frankfurt am Main, 1992.

______________.Carta a Gershom Scholem. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Revista


Novos Estudos, CEBRAP N° 35, março de 1993, pp. 100-106.

______________.Magia e Técnica, Arte e Política. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. Brasiliense,


São Paulo, 1985.

CANDIDO, Antonio. Esquema Machado de Assis. In: Vários Escritos. 4ª ed. reorganizada pelo
autor. São Paulo: Duas Cidades/Ouro sobre Azul: 2004.

__________________ e CASTELLO, José Aderaldo. Presença da literatura brasileira. Vol. I. São


Paulo/Rio de Janeiro: Difel: 1977, p. 204-5.