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Silvio Kurzlop

Mudando o Amanhã

2ª Edição

Capa:
Detalhe do afresco pintado por Michelangelo em 1508
no teto da Capela Sistina, Roma.

Revisão:
Fátima Maria Casselato
(Professora de Língua Portuguesa)
Otávio Schimieguel
(Professor de Língua Portuguesa Literatura)
3

Ilustrações:
Silvio Kurzlop

Todos os direitos reservados de acordo com a legisla-


ção em vigor.
Depósito legal número 228.572 Biblioteca Nacional

In memoriam
Paulo Henrique Brito

Para Bruna, Lucas, Daniel e Gabriel.


“Razão do meu viver”.

E para Rosi
“Minha vida”.
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Capítulo 1

Onde eu iria parar seguindo aquele velho maluco?

─ Vai demorar muito? ─ perguntei ao amigo que


estava imóvel ao meu lado.
Por alguns instantes achei que o velho Agenor
não me ouvira. Ele estava sentado com as pernas esti-
cadas e suas mãos desapareciam nos bolsos da alinha-
da jaqueta com as golas levantadas a encobrir metade
do seu rosto.
─ Tenha paciência, Marcelo ─ respondeu final-
mente o velho.
Paciência? A resposta dele serviu apenas como
combustível para a fogueira de ansiedade que o misté-
rio e as horas de espera haviam incendiado em minha
mente. Eu sabia que algo realmente importante estava
para acontecer. O velho sempre usava estranhos méto-
dos para me ensinar.
Depois daquelas horas todas, sentado ao lado de
Agenor no banco preferido de uma praça curitibana,
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acabei mergulhando naquela profunda melancolia que


me atormentava, já nem lembro mais há quanto tempo.
Era uma fria tarde cinzenta de outono. A rua ain-
da molhada pela insistente garoa fina que caíra até há
pouco.
Sem ter o que fazer, fiquei observando o movi-
mento incessante de pedestres desatentos, como zum-
bis, dançando numa sinistra coreografia, sem se olha-
rem e sem se tocarem, cada um amargando a própria
solidão, mesmo em meio à multidão.
Eu já sentira inúmeras vezes essa melancolia. Um
espaço vazio, uma falta angustiante, como uma sauda-
de enfadonha corroendo dolorosamente o peito, difi-
cultando a respiração. Mas saudades do quê?
Conheci Agenor um ano antes, embrenhado em
uma floresta na Serra do Mar, acampado ao lado de
uma imponente cachoeira de difícil acesso. Naquela
ocasião, eu não poderia sequer imaginar os eventos e
experiências que aquele velho iria provocar.
Depois daquele acampamento, estabelecemos
uma sólida, porém estranha amizade. Agenor havia me
desafiado a colocar em prática alguns conceitos, dos
quais ele falava paciente e repetidamente, com a pro-
messa de que, se eu seguisse os seus conselhos, me
tornaria rico.
O que no começo aparentava ser uma excêntrica
brincadeira, aos poucos foi me envolvendo, me encan-
tando, ou para ser mais sincero, eu fui fisgado pela co-
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biça, pois descobri que o velho, além de misterioso, era


também muito rico.
Mas, por mais que me empenhasse em aplicar os
seus ensinamentos, nada mudava, eu continuava po-
bre.
Nos últimos dois meses, Agenor ficara ainda mais
estranho. Amarrou uma ridícula fita vermelha no meu
pulso e se negava a dar maiores explicações sobre os
seus abstratos conceitos.
─ Você insiste em raciocinar ─ disse-me o velho
naquela ocasião.

Um leve toque em meu braço me desperta das


lembranças. Agenor, com o rosto parcialmente escon-
dido nas golas levantadas de sua jaqueta, indica com o
olhar uma cena que se desenrola bem à nossa frente,
do outro lado da rua.
Um mendigo junta seus apetrechos que se espar-
ramaram pelo asfalto, depois de um tombo bêbado e
desajeitado.
Uma caminhonete, dessas modernas, cheia de a-
cessórios ostentando riqueza, tenta passar, mas não
consegue.
Olhando o mendigo ajoelhado guardando suas
tralhas, não consegui deixar de sentir pena. Solidário,
tentei levantar para ajudar, mas Agenor com firmeza
me segura pelo braço, apontando para a caminhonete.
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Só neste instante percebi que o motorista era mui-


to jovem. Um rapaz que não deveria sequer ter idade
para dirigir e que gesticulava de forma arrogante com
a sua namorada.
Em determinado momento, o jovem motorista,
com a autoridade de quem sempre teve muito dinheiro
e com a desvirtuada sensação de que o resto do mundo
existe só para lhe servir, estica a cabeça para fora da
janela do seu símbolo de status motorizado e, irritado
com a espera, grita:
─ Seu monte de estrume! Tire essa porcaria da
frente que eu quero passar.
O mendigo, que continuava a recolher suas coisas,
tão corajoso quanto bêbado, respondeu com sarcasmo
certeiro:
─ Vá trocar suas fraldas seu moleque.
A garota que estava no carro não se conteve e sor-
riu.
O jovem motorista, que tentava há poucos instan-
tes se mostrar mais homem para impressionar sua a-
companhante, foi atingido em cheio na ferida aberta
em seu orgulho.
Como podia ficar ele impassível a uma provoca-
ção dessas?
A sua raiva extrapolou os limites do aceitável ao
ver o sorriso no rosto de sua namorada e as gargalha-
das de escárnio dos pedestres que paravam para assis-
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tir.
Possuído pela cólera, seguindo um estímulo im-
ponderado, o rapaz apanhou sob o banco um chicote e
descendo do carro atacou o mendigo, que se encolheu
tentando proteger o rosto com os braços.

O primeiro golpe estralou no ombro deixando


uma marca próximo ao pescoço.

Eu havia me identificado com aquele pobre coita-


do. E aquela marca vermelha parecia latejar em minha
própria carne.

A exagerada atitude do moleque foi de tal manei-


ra inusitada, que demorei alguns instantes para reagir.

Levantei-me de supetão e atravessei a rua para de-


fender o mendigo. Mas Agenor me alcançou seguran-
do com força o meu braço, impedindo-me de ajudar.

Uma nova chicotada fustigou o mendigo.

Agora, mais de perto, pude perceber que o chicote


era feito com um pedaço de cabo-de-aço, que assobiava
ao cortar o ar, antecipando o sofrimento. O arrepiante
som do estralo do chicote nas costas do mendigo era
abafado por seus gritos desesperados:

─ Não, pelo amor de Deus...

Curiosos, ávidos por violência, se acotovelavam à


nossa volta formando um círculo. Uma arena imaginá-
ria foi instalada no meio da rua. Cada um procurando
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o melhor lugar para assistir a desordenada tentativa


embriagada do indigente de se defender.

─ Ajudem! Façam alguma coisa! Chamem a polí-


cia ─ gritou uma velha e indignada senhora.
Porém, a platéia deste espetáculo bizarro, incons-
ciente e insensível pelo próprio sofrimento diário, a-
nestesiada pela mesmice de sua rotina mecânica, assis-
tia a tudo reagindo lentamente e sem emoções.
─ Ai... Eu não fiz nada... Pare...
Tento me desvencilhar de Agenor para socorrer o
açoitado, mas o velho, com rapidez e força, agarra
meus dois braços por trás, me imobilizando.
O chicote subia e descia, zumbindo pavoroso,
descarregando a raiva do moleque, enquanto dilacera-
va a dignidade do mendigo.
─ Tenha piedade... Chega...
Os fios de aço, que estavam irregulares na ponta
do chicote, faziam pequenos rasgos na camisa do po-
bre coitado que, além da sujeira acumulada, ficava a-
gora também manchada de sangue.
─ Por tudo que é mais sagrado, pare...
Estimulado pela brutal violência, meu corpo fica
trêmulo com o excesso de adrenalina a circular nas
veias, acelerada pelo coração descompassado. A im-
possibilidade de intervir me causou tontura e náuseas.
Era como se eu pudesse sentir a dor e a humilhação do
mendigo.
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─ Por misericórdia, pare...


O rapaz estava totalmente descontrolado, possuí-
do por uma raiva predadora e descomunal. A garota
agarrada a sua jaqueta, tentava em vão fazê-lo parar.
Chorando ela implorava, mas não conseguia dissuadi-
lo.
─ Tenha compaixão, chega...
A velha senhora encarava a multidão de covardes
e continuava gritando, apertando a sua bolsa como se
fosse o pescoço daquele rapazinho endiabrado.
─ Isso é um absurdo. Alguém, pelo amor de Deus,
faça alguma coisa.
Insensível às súplicas da garota, aos gritos da ve-
lhinha e aos agonizantes gemidos do mendigo, o rapaz
continuava a chicotear a ousadia petulante daquele
atrevido.
─ Ai, eu não agüento mais...
Eu travava os meus dentes, cada vez que o chicote
assobiava cortando o ar, e me encolhia esperando os
golpes que pareciam doer em meu próprio corpo.
Lágrimas contornavam as rugas no rosto da velhi-
nha, que estampava em seu semblante todo o assom-
bro e o pavor daquela cena.
─ Isso é desumano...
Por que Agenor não me deixava ajudar?
Repentina e inesperadamente, o mendigo urra de
forma animalesca e levanta-se num salto, cerrando os
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punhos, afrontando o seu algoz.


Assustado com o estrondoso e aterrador trovão ir-
rompido da boca de sua presa, o rapaz, com os olhos
arregalados e com gestos hesitantes, desfere ainda o
derradeiro golpe que explode no rosto da vítima, onde
aparece instantaneamente um vergão avermelhado.
O rapaz, como se somente naquele instante tives-
se acordado e percebido o exagero de sua atitude, dá
um passo para trás um tanto desconcertado.
A velha senhora pára de gritar. Um enorme sus-
pense mantém esbugalhados os olhos da pequena
multidão. O berro do mendigo parecia ter silenciado o
mundo.
Atônito, o rapaz percebe a expressão de fera no
olhar do mendigo, que lhe encara tornando a gritar fu-
riosamente como se já não sentisse mais a dor.
Gritando enlouquecido, com os olhos injetados
de um ódio selvagem, com as veias a lhe saltar do pes-
coço e com os dentes à mostra, o mendigo estufa o pei-
to e, com a coragem que tirou nem ele sabe de onde,
aproveita-se do torpor letárgico do moleque para arre-
batar-lhe o chicote.
E eis que as posições se invertem. Caça vira caça-
dor. A vítima supera o carrasco.
Foi tentando se defender e agindo de forma pu-
ramente instintiva que o mendigo conseguiu tomar o
chicote das mãos de seu agressor.
O jovem presunçoso não esperava que aquele far-
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rapo humano tivesse o atrevimento de reagir.


O mendigo, finalmente ereto, percebeu que era
mais alto e mais forte do que aquele fedelho. Foi mui-
to fácil arrancar o pedaço de cabo-de-aço das mãos do
moleque e com a mesma fúria retribuir os golpes.
Sentindo a dor das chibatadas, toda a arrogância
do rapaz cai no asfalto junto com o seu corpo enrosca-
do fugindo da dor.
─ Isso! Assim mesmo! Bem feito! ─ recomeça a
gritar a velhinha, vibrando e esmurrando a própria
bolsa.
A garota se afasta alguns passos, mantendo os o-
lhos fixos naquela inusitada cena. Parando de chorar,
ela contempla o castigo de seu namorado sem interfe-
rir, talvez por achá-lo merecido.
Depois de uma breve seqüência de chicotadas
frenéticas, o mendigo cessa a punição, joga o chicote
sobre o rapaz e, com a ajuda da velhinha, agarra às
pressas os seus pertences e desaparece, misturando-se
aos pedestres que aos poucos dispersam, finalizado o
espetáculo, voltando à sua monotonia autômata.
A garota ajuda o seu namorado a se levantar, con-
solando-o como a um menino, e o conduz de volta a
caminhonete.
Eu ali parado, com Agenor a me segurar o braço,
ainda aturdido com o que acabara de presenciar.
A arena imaginária se desfez. A praça retomara
sua cadenciada rotina, mas o eco daquele trovão ainda
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ressoava em minha mente.


Assim que consegui regressar ao meu habitual ra-
ciocínio, explodi em perguntas:
─ Era isso que você queria que eu visse? Como é
que você sabia que isso aconteceria? Qual a relação do
que aconteceu aqui com o que você quer me ensinar?
─ Cale-se! Pare de raciocinar ─ retruca Agenor sa-
cudindo-me pelos braços. ─ Não pense, procure “sen-
tir”.
─ Sentir o quê? ─ perguntei já ficando desespera-
do com aquele mistério todo.
Visivelmente decepcionado, o velho caminha em
direção ao seu carro estacionado logo à frente.
─ Não estou entendendo nada. Eu preciso de uma
pista, me ajude ─ gritei ainda parado no meio da rua.
─ Se você prometer ficar calado pode vir junto ─
respondeu Agenor, já entrando no carro.
Como Agenor pôde prever aquilo tudo? O que ele
pretendia me ensinar? Onde eu iria parar seguindo
aquele velho maluco?
Minha curiosidade não me deixou outra opção:
Resignado, entro no carro como um peixe mordendo a
isca.
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Capítulo 2

O amanhã ainda não tem forma.

Após dirigir por alguns minutos sem dizer uma


palavra, Agenor estaciona o carro próximo ao mirante
de uma represa transformada em parque nos arredores
da belíssima cidade de Curitiba.
Depois de um dia inteiro nublado e com garoas
esparsas, finalmente vejo o sol, escondido acanhado
por trás de densas nuvens, quase debruçado no hori-
zonte. Alguns raios esquivos refletiam, tingindo o céu
com tonalidades de vermelho.
O mirante do Passaúna é uma estrutura metálica
erguida na encosta de um morro, com uma escadaria
que conduz a uma plataforma elevada.
Apoiados na mureta de proteção do mirante, Age-
nor e eu ficamos calados contemplando a paisagem:
Um enorme lago artificial formado num vale por uma
represa, com caminhos tortuosos cheios de pontes con-
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tornando toda a extensão das margens.


─ Concentre-se apenas em seus sentimentos ─
ordenou o irredutível Agenor, quando tentei iniciar
uma conversa.
Uma fresta de sol no horizonte, com o céu quase
todo nublado, despertou a imagem de uma luz no final
de um imenso túnel.
O silêncio imposto pelo velho acalmou aos pou-
cos o frenesi causado pelo incidente com o mendigo e
conseguiu trazer de volta aquela melancolia do começo
da tarde.
Tentando seguir as instruções de Agenor, avaliei
quais poderiam ser as raízes dessa tristeza. Um pen-
samento puxando outro, num entrelaçado de senti-
mentos confusos e acabei por relembrar episódios a-
margos ocorridos ao longo de minha difícil vida.
Recordei do último natal, quando meu filho pe-
diu inocentemente ao Papai Noel da loja de brinque-
dos uma bicicleta que ele namorava na vitrine. Infe-
lizmente eu não pude comprá-la, porque era necessário
estabelecer prioridades e, definitivamente, comida era
mais importante.
Lembrei do sentimento de impotência ao ver meu
filho ardendo em febre, enfrentando horas angustian-
tes nas filas do Posto de Saúde Pública e eu, o respon-
sável, de mãos atadas pela falta de dinheiro.
Sofri duplamente ao experimentar o que meu pai
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sentiu quando eu, ainda criança, pedia coisas que não


se encaixavam no parco orçamento familiar.
Meu pai... Quanta saudade!
Uma recordação puxando outra e voltei àquele
momento crucial. Sentia-me novamente um garoto de
doze anos, olhando minha mãe ajoelhada rezando ao
lado do meu pai doente.
Ainda consigo ouvir os gritos suplicantes de mi-
nha irmãzinha, enquanto meu pai desistia da vida, a-
fundado naquela maldita cama que o aprisionara du-
rante tantos anos.
Com o coração pequeno, esmagado pelas lem-
branças expostas como feridas pelo abominável senti-
mento de autopiedade, as lágrimas do garoto que eu
fui um dia começaram a rolar pelo meu rosto, agora
adulto, distraído a contemplar o lago.
Estava tão profundamente envolvido nesse maso-
quismo mental, que não percebi Agenor sorrindo, o-
lhando-me com ares de triunfo.
─ Não, pelo amor de Deus, chega! ─ gritou o ve-
lho imitando com perfeição teatral o mendigo daquela
tarde.
Eu, que ainda remoía em minhas lembranças o so-
frimento e as humilhações que suportei na vida, infli-
gidas pela pobreza, encarei o velho buscando explica-
ções.
Agenor estava muito agitado. Olhava curioso pro-
curando alguma coisa em meus olhos. E eu cada vez
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mais confuso.
─ Tenha piedade, eu não agüento mais ─ insiste
Agenor gesticulando como o mendigo a se encolher,
com a voz em falsete e um largo sorriso escancarado no
rosto.
Comecei a compreender porque me identifiquei
tanto com o mendigo: Na maior parte de minha vida
reagi como um indigente, sempre reclamando da misé-
ria.
─ Você está pedindo esmolas para a vida, por isso
não reclame e contente-se com as migalhas ─ falou A-
genor solenemente.
Subitamente comecei a entender o que o velho
tentava me mostrar esse tempo todo.
Era mais do que entender, parecia que meu corpo
todo assimilava, de uma só vez, tudo que Agenor ten-
tara me ensinar nos últimos meses. Compreendi que
fora passivo a vida inteira. Como uma marionete, sem-
pre manipulado pelas circunstâncias. Jogado de um
lado para outro pelos ventos da miséria e do medo da
pobreza.
─ Você se entrega a um autoflagelo, usando o di-
nheiro como chicote, sendo o seu próprio carrasco ─
disse o velho.
─ Que absurdo, eu nunca procurei o sofrimento.
─ Quem não procura melhorar de forma conscien-
te, é arrastado inconscientemente, levado pelos infor-
túnios da vida ─ falou Agenor de forma séria e pausa-
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da.

─ Eu sempre trabalhei duro tentando melhorar de


vida.

─ Besteira! Você trabalha porque a sociedade as-


sim estabeleceu, porque se sente obrigado.
─ Isso não é verdade. Eu gosto do que faço e estou
realmente me esforçando para realizar os meus sonhos.
─ Engane a si mesmo. Você também disse que
admira quem fala outros idiomas, mas nunca se esfor-
çou verdadeiramente para aprender outra língua. Fa-
lou-me do quanto acha bonito poder tocar bem um ins-
trumento musical, do seu sonho de tocar violão, mas
nunca se aplicou de forma séria e decidida neste senti-
do.
─ Mas não estamos falando de ir para a escola a-
prender música ou língua estrangeira...

─ A conversa é sobre força de vontade ─ continu-


ou o velho, sem me deixar falar. ─ São necessárias am-
bição e determinação para chegar a algum lugar. Saber
aonde quer ir, tendo um sonho definido, acreditando
nele, defendendo-o com unhas e dentes...

Conforme o velho discursava, meu ânimo se alte-


rava. Senti um calor emanando do centro do meu cor-
po. Era como se eu estivesse aumentando de tamanho.

─ Dê força para o seu sonho, alimente-o com garra


e persistência, ele vai crescendo, criando vida própria.
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Chegará a um ponto em que a sua obstinação o tornará


tão forte que derrubará qualquer obstáculo que atra-
vesse seu caminho. E o que era só uma idéia no começo
se tornará realidade pela sua força de vontade.
─ Depende de você dominar ou ser subjugado pe-
lo dinheiro ─ falou Agenor esperando minha reação.

Fui tomado por uma agradável sensação de poder.

─ Claro que prefiro dominar o dinheiro.

─ Não Marcelo. Pare de raciocinar. Tente “sentir”


─ protestou Agenor. E com um gesto mostrando o es-
tômago completou: ─ Começa aqui. É como se nascesse
em suas entranhas e fosse crescendo até explodir na
sua garganta.

Lembrei da inusitada cena que presenciei na pra-


ça naquela mesma tarde. A expressão do mendigo
quando reagiu instintivamente tomando o chicote das
mãos do seu agressor. Agora eu finalmente entendia: A
cada humilhação causada por dificuldades financeiras
no passado, reagi com lamentações: “Por favor, pare.
Tenha piedade. Pelo amor de Deus, eu não agüento
mais”.

─ Todo ser humano possui, inclusive aquele


mendigo, uma força interior latente, pronta para se
manifestar. Você vai usar essa força agora? Ou preten-
de continuar a se encolher e passar a vida sofrendo?

Envergonhado, sequei minhas lágrimas com as


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mangas da camisa.

─ Chegou o momento de dar um basta à mazela e


à mendicância, agarrando o chicote do conformismo,
do indesejado hábito inconsciente de se justificar re-
clamando, e conquistar o dinheiro, como símbolo da
alforria. Arrebentar com determinação os grilhões da
pobreza assumida, exigindo a real liberdade: O direito
a uma qualidade de vida digna e decente ─ falou Age-
nor enfaticamente.
Agarrado à mureta de proteção, apertando o ferro
como se tivesse força para amassá-lo, com todos os
músculos retesados e com os dentes travados, tal qual
criança a segurar o choro, eu senti brotar um grito.
─ O seu ontem já passou, não tem mais jeito. O
seu hoje é a colheita do que você plantou, é muito difí-
cil mudar instantaneamente. Mas o seu amanhã ainda
não tem forma, só depende de você ─ concluiu o velho.
Tudo que o velho Agenor me ensinara em todos
aqueles meses, de repente fazia sentido. A verdadeira
mudança não ocorre no cérebro. Podemos pensar, tra-
çar planos, sonhar, mas para transformar tudo isso em
realidade é necessário uma mudança mais profunda,
uma mudança de atitude.
Eu precisava sentir, e não apenas pensar.
O velho Agenor, com o olhar brilhante, fazia si-
nais com as mãos, me incitando a externar os meus
sentimentos.
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Um enorme desejo de gritar se formou no meu ín-


timo, explodindo em seguida garganta afora. Um berro
sobrenatural que arrepiou todos os pêlos do meu corpo
e ecoou no lago à nossa frente, que refletia os últimos
raios avermelhados de um sol agonizando no meio das
nuvens.
Gritei como uma fera que arreganha os dentes,
com a boca esgarçada, com as veias do pescoço salta-
das, sentindo meu corpo vibrando a emoção de saber
que eu também tinha direito a toda fartura do univer-
so. Era um grito assustador, exorcizando um passado
de fracassos e lamentações.
Agora eu entendia a força que se apoderou do
mendigo quando reagiu naquela tarde. Parecia mágica.
Eu me sentia com poder para fazer o que bem enten-
desse com o meu destino daquele momento em diante.
Colocando um braço sobre o meu ombro, Agenor
sussurra em meu ouvido, como quem conta um segre-
do:
─ Guarde esse momento com carinho, lembre-se
sempre dessa sensação, ela pode te levar aonde você
quiser.
Talvez eu nunca consiga traduzir em palavras to-
do o impacto que as estranhas lições de Agenor cau-
saram em minha vida. Mas posso tentar narrar como
tudo aconteceu, desde o começo...
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Capítulo 3

Na cachoeira só existe um bom lugar para acampar... e


esse é o prêmio para quem vence a “corrida”.

Conheci o velho Agenor no verão passado, na


mesma época em que perdi meu emprego.
Fiquei tão conturbado e a pressão chegou a tal ex-
tremo, que tive de apelar para minha válvula de escape
preferida: aproveitar o fim de semana para pegar o
trem que liga Curitiba à Paranaguá, descer no meio do
caminho, e acampar em plena floresta, no coração da
Serra do Mar.
Sentei no último vagão do trem, como sempre, pa-
ra ficar longe do barulho e da fumaça da locomotiva.
Na janela esquerda é claro, onde a visão da paisagem é
privilegiada.
O barulho cadenciado do trem e a preguiça mati-
nal estabelecem uma tranqüilidade harmoniosa na
primeira hora da viagem, quebrada pelo alvoroço dos
passageiros assim que passamos a terceira estação.
Era fácil identificar entre os passageiros, os que
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faziam a viagem pela primeira vez. Ficavam eufóricos


de encantamento com a deslumbrante paisagem ao re-
dor daqueles trilhos que se esgueiram por entre mor-
ros, ora passando por pontes metálicas centenárias, ora
sumindo pelos inúmeros túneis do caminho.
Estava na hora de iniciar o ritual: guardar todos os
apetrechos na mochila, deixando o cantil bem à mão.
Verificar se estava tudo bem preso. Era vital para o su-
cesso da caminhada que as mãos ficassem livres.
Ainda faltavam duas estações para chegar, mas
como sempre eu percorria todos os vagões até chegar
ao que ficava ligado à locomotiva, para poder descer
do trem o mais próximo possível da pequena estrada
que dava acesso ao rio. Isso aumentava as minhas
chances de vencer a “corrida”. É que na cachoeira para
onde eu estava indo, só existe um bom lugar para a-
campar, uma pequena plataforma de pedra, num local
alto com vista privilegiada, e esse era o prêmio para
quem chegava primeiro.
Caminhar no trem em movimento é prazeroso, ba-
lançando ao matraquear ritmado dos trilhos. Os estalos
crescem aos poucos, vindos do vagão da frente, resso-
ando mais alto sob os meus pés e se perdendo nos va-
gões traseiros, enquanto uma nova série recomeça lá
na frente. Mas andar assim requer um pouco de habi-
lidade, para evitar bater com a pesada mochila nas ca-
beças dos outros passageiros.
Quando passei pelo penúltimo vagão cumprimen-
tei o Índio, um conhecido de outras viagens, que rece-
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bera este apelido pela fama de ser um profundo co-


nhecedor daquela região da floresta. Na realidade, ele
é que me ensinara o caminho para a cachoeira que ía-
mos. Além de sua namorada, três rapazes o acompa-
nhavam, com ansiedade e euforia estampadas em suas
fisionomias, deixando transparecer tratar-se de nova-
tos naqueles caminhos.
Índio não conseguiu disfarçar sua decepção
quando me viu. É que desta vez eu estava sozinho e ele
tinha como âncora uma linda menina de aparência frá-
gil. Eu já podia me considerar dono da plataforma.
Com a garota a lhe atrasar a caminhada, ele teria que
acampar em outro lugar, tendo a bela companhia como
prêmio de consolação.

Capítulo 4

Escorreguei na pedra lisa e mergulhei na água fria.

A primeira parte do percurso a pé foi fácil vencer,


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meia hora de caminhada morro abaixo por uma pe-


quena e precária estrada e pronto, lá estava eu na mar-
gem do primeiro rio que teria de atravessar.
Essa era a parte mais difícil. O rio não era muito
largo: no máximo vinte metros. Nem muito fundo: es-
colhendo o local certo para atravessar, nem molharia a
mochila. O problema era a correnteza.
Águas transparentes passando ligeiro por entre
pedras de todos os tamanhos, formando véus brancos
majestosos, quase encobertos pelas enormes árvores
que se debruçavam sobre o rio, a partir das margens
fechadas por densa vegetação.
De pé sobre uma enorme pedra, avaliei por ins-
tantes o desafio à minha frente. Nunca havia atraves-
sado este rio sozinho. Em grupo é fácil, é só fazer uma
corrente humana dando as mãos, alguém sempre vai
estar apoiado em alguma pedra, facilitando a passa-
gem.
Resolvi arriscar. Escolhi o que parecia ser o me-
lhor local e fui à luta. Na metade da travessia deparei
com um obstáculo que parecia intransponível. Um es-
paço de mais ou menos três metros me separava da
parte mais rasa do rio. Mesmo assim, imprudente, to-
mei impulso e tentei atravessar direto. E fui mesmo
direto... ao fundo.
Brigando com a correnteza, escorreguei na pedra
lisa e mergulhei na água fria. Desequilibrado pelo pe-
so da mochila, eu fui arrastado rio abaixo só parando
26

após dolorosa joelhada em uma pedra, uns quinze me-


tros depois. Saí do rio vergonhosamente encharcado e
mancando.
27

Capítulo 5

Caminhei apressado, contornando uma grande pedra e,


estupefato, não pude acreditar no que vi.

Do rio maior até a cachoeira foram quase duas ho-


ras de caminhada, num estafante sobe e desce por tri-
lhas que ziguezagueava mato adentro. Havia trechos
onde era necessária uma escalada, me agarrando a ár-
vores e cipós para vencer morros íngremes.
O barulho da água avisava antecipadamente
quando um dos sete pequenos rios do caminho se a-
proximava, eram os momentos de descanso e de se re-
frescar. A floresta, por vezes tão úmida e fechada, com
tantas árvores altas, que só era possível saber que ha-
via um sol lá em cima, pelo calor sufocante. Os ruídos
da mata, ora musicais, ora assustadores, tratavam de
lembrar que eu não estava sozinho. O passo apertado
pela teimosia de chegar à frente manteve a roupa mo-
lhada pelo suor durante todo o percurso.
Essa cachoeira é realmente especial. Todo o so-
frimento do fatigante trajeto é esquecido já nos pri-
28

meiros instantes da chegada. Ao tirar das costas a mo-


chila com os quase quinze quilos de itens necessários
para acampar por um final de semana, eu sinto uma
agradável tontura. Fico ali parado na entrada desse lu-
gar imponente, boquiaberto como da primeira vez que
ali estive.
À minha frente um rio de água límpida rasgando
a rocha. À direita o Salto dos Macacos, uma cachoeira
de cinqüenta metros de altura, caindo sobre uma ram-
pa de pedra que termina num fosso, local preferido
pelos visitantes para se escorregarem sentados pedra
abaixo mergulhando na água fria e transparente. Deste
ponto até o Salto do Redondo, que fica cinqüenta me-
tros à esquerda, existem, além de pequenos saltos,
quatro piscinas naturais. Tudo isso cravado no que pa-
recia ser uma única e gigantesca rocha, com árvores
altas e mata fechada nas duas margens.
Tudo tão grande e majestoso, que me sinto pe-
queno ali parado esvaziando o cantil sobre meu rosto
inclinado para trás, tentando lavar o suor e o cansaço,
quando ouço o barulho de metal caindo.
O local não era silencioso; ao contrário, a batalha
incessante das águas com as pedras produz uma es-
trondosa e contínua sinfonia. Mas o barulho de metal
batendo na rocha se destaca por contraste.
Caminhei apressado contornando uma grande
pedra e, estupefato, não pude acreditar no que vi. Um
velho com quase três vezes a minha idade armando
uma barraca na “minha” plataforma.
29

Mas como? Eu fizera tudo certo. Imprimi um rit-


mo de caminhada tão forte que no último trecho, a su-
bida do morro, eu avistei o grupo do Índio subindo
atrás e, pela distância, calculei uma vantagem de no
mínimo quinze minutos.
Só tem um trem passando naquela estação, e eu
estava nele. Desci antes que parasse totalmente e ca-
minhei por quase três horas, desmanchando em suor.
Era impossível para aquele velho chegar à minha fren-
te.
Não contive a curiosidade, me aproximei e assim
que consegui “quebrar o gelo” com as apresentações,
apertos de mãos e comentários sobre o tempo, eu fui
logo ao que me perturbava perguntando:
─ Que trilha você pegou para chegar aqui tão rá-
pido?
─ Atravessei o rio maior lá embaixo onde tem a-
quela pedra grande ─ respondeu ele com naturalidade.
─ Achei que iria chegar primeiro ─ falei justifi-
cando minha curiosidade.
─ Percebi que não tinha ninguém aqui em cima,
logo que atravessei o rio.
─ Além de atleta você também é adivinho?
─ Não. Só observador ─ explicou ele. ─ Notei que
havia muitas teias de aranha pelo caminho, foi fácil
concluir que eu estava na frente.
30

Gostei do raciocínio dele, eu mesmo já havia sen-


tido aquelas teias batendo no rosto em outras ocasiões.
Por que eu nunca cheguei a essa conclusão se a lógica
era tão simples?
Os gritos e assobios de comemoração do grupo
que acabava de chegar, interromperam nossa conversa.
Um incontido entusiasmo arremessou os três rapazes
com roupa e tudo na água fresca, enquanto Índio e a
sua namorada se aproximaram nos cumprimentando.
Apresentei ao velho o meu colega de acampamen-
to que acabava de chegar e, gentilmente, tirava a mo-
chila de sua acompanhante.
─ Temos um novo campeão ─ brincou Índio aper-
tando a mão de Agenor.
O velho ficou a nos olhar sem nada entender.
─ Você ficou com a plataforma ─ expliquei apon-
tando para a barraca, ainda sem me conformar com a
derrota.
─ Peguei o lugar de alguém? ─ perguntou Agenor
com um malicioso sorriso de quem compreendera mi-
nha frustração.
─ O troféu é de quem chega primeiro ─ respon-
deu Índio. Depois, virando-se para mim, complemen-
ta: ─ Marcelo, para nós resta cortar alguns galhos para
forrar aquela clareira encharcada, que é o lugar dos
perdedores.
Havia um tom de vitória na voz de Índio. Desta
31

vez eu era mesmo o perdedor. Ele pelo menos iria ter


com quem passar a noite.
32

Capítulo 6

Alguns pássaros voavam em torno dele, tão próximos


que se esticasse o braço poderia tocá-los.

O tempo naquela floresta atlântica era muito ins-


tável e, apesar do sol brilhar pela manhã, cho-
veu durante a tarde toda.
Preso na barraca, sozinho e sem ter o que fazer, eu
não consegui relaxar. Com os problemas que pensei ter
deixado em Curitiba insistindo em me perseguir numa
tortura mental angustiante.
Era atormentado persistentemente pela imagem
do chefe de pessoal com aquela polidez toda, falando
de crise e contenção de despesas, de critérios adotados
e que eu, infelizmente, era o mais novo na empresa.
Não adiantaria suplicar, falar das necessidades ou da
minha competência, a decisão já estava tomada: fui
despedido.
A angústia tornava rarefeito o ar úmido e com
cheiro de nylon da barraca. O barulho da chuva de-
formava meus pensamentos com imagens mescladas
de pesadelos recorrentes. Como eu iria comprar comi-
da para os meus filhos? É difícil para um desemprega-
do manter a dignidade. O tamborilar dos pingos da
chuva no nylon da barraca pareciam amplificados.
33

Lembrei do meu pai morrendo. Sentia-me nova-


mente com doze anos de idade. Meu pai em seu leito
de morte. Era o barulho da chuva? Ou seriam gemidos,
rezas e lamentações? Uma cruz de prata manchada de
sangue na palma de minha mão. Minha irmãzinha
chorando. Os pingos da chuva pareciam intermináveis,
como as rezas de minha mãe. O pesadelo se repetia.
Fugi para a floresta do mesmo jeito que arremessei a
pequena cruz contra a parede. Queria parar de pensar,
fugir da responsabilidade, livrar-me dos problemas.
De nada adiantou fugir para a floresta, a sensação
de derrota veio na bagagem tornando meu fardo ainda
mais pesado.
A chuva parou quando a noite já estava chegando.
Combinamos por iniciativa de Índio, fazermos uma
fogueira. Com a intenção de encontrar madeira seca,
nos espalhamos pelos arredores antes que a escuridão
chegasse.
Encontrei Agenor sentado encostado a um pare-
dão de pedras. Alguns pássaros voavam em torno dele,
tão próximos que se esticasse o braço poderia tocá-los.
Esse estranho velho estava envolto em uma atmosfera
de mistério. Cada vez que eu o olhava, uma inquieta-
ção me tomava.
34

Capítulo 7

De que adianta decorar todo o livro de regras, se você


não vive de acordo com elas?

Sentados em círculo, os três rapazes a garota e eu,


observávamos Índio tentando sem sucesso, atear fogo
àqueles gravetos meio úmidos, recolhidos em mutirão.
─ Seu Agenor, o senhor não teria um pouco de ál-
cool para nos emprestar? ─ perguntou Índio ao velho
que se aproximava emergindo da escuridão da noite
que caíra rapidamente.
─ Não tenho, mas posso acender o fogo se a moça
emprestar o repelente ─ respondeu Agenor apontando
para a namorada de Índio, que aplicava um spray con-
tra mosquitos nas pernas.
O velho acendeu um fósforo e colocou sobre uma
das pedras que circundavam os gravetos. Percebendo a
expectativa e a curiosidade de todos, Agenor movi-
mentava-se com gestos lentos e calculados. Direcionou
a lata de repelente contra o palito de fósforo aceso e
apertou o gatilho.
O lança-chamas improvisado rasgou a escuridão
da noite sem estrelas, com uma labareda intermitente,
35

iluminando o espanto e a alegria nos rostos daquela


pequena platéia. Com um gesto simples, mas enge-
nhoso, o velho deixou de ser um intruso, conquistando
um lugar em volta da recém acesa fogueira.
A conversa manteve-se animada por horas. Cala-
do eu observava, sem conseguir prestar atenção, dis-
perso em pensamentos sombrios do futuro de incerte-
zas financeiras que me aguardava.
─ Não é verdade, Marcelo, que você não acredita
em Deus? ─ perguntou Índio à “queima-roupa”.
Demorei a entender, eu não sabia sobre o que fa-
lavam. O silêncio e a expectativa do grupo a me enca-
rar como se eu fosse um herege, forçaram-me a res-
ponder.
─ Deus foi inventado para amenizar o terror que o
homem tem da morte ─ respondi contrariado.
Eu não gostava de discutir esse assunto, e o Índio
sabia disso, mas fazia questão de me provocar sempre
que tinha uma oportunidade.
─ Quer dizer então que você não freqüenta ne-
nhuma igreja? ─ perguntou Índio com um sorriso irô-
nico de quem já sabia o que eu iria responder.
─ As religiões são apenas muletas que servem de
apoio aos desesperançados.
A garota escandalizada e boquiaberta parecia não
acreditar no que acabara de ouvir. O Índio sorria satis-
feito com o resultado de suas provocações. O velho,
36

sempre tranqüilo, encostou-se para trás procurando


visualizar a cena como um todo.
Os outros três rapazes, chocados e indignados,
começaram a falar ao mesmo tempo, ofendidos com o
meu comentário. Um deles se salientou, desandando a
citar a Bíblia com número de versículo e tudo, deixan-
do transparecer além da revolta, todo o seu fanatismo
religioso.
Assim que a ostensiva pregação diminuiu, argu-
mentei falando com vigorosa rispidez:
─ De que adianta ao crítico de futebol decorar to-
das as regras, avaliar a melhor opção de ataque, se me-
ter de forma pretensiosa a organizar o time, atormentar
arrogantemente a vida dos jogadores com palpites e
estatísticas mirabolantes, se ele mesmo é um tremendo
“perna-de-pau”, não joga nada?
Essa aparente mudança de assunto fez o silêncio
imperar novamente. Era possível até ouvir a madeira
estalando enquanto ardia no fogo. Fiquei alguns ins-
tantes olhando as fisionomias distorcidas pela ilumi-
nação da fogueira.
─ Vamos esclarecer ─ disse eu. ─ De que adianta
você decorar todo o livro de regras e citar a Bíblia de
memória, com o número e o parágrafo da lei, se você
não vive de acordo com elas? Sempre discutindo com o
seu semelhante, só tratando como “irmão” àquele que
compactua com seu credo. Reza em um momento e no
seguinte está olhando e desejando a mulher do vizi-
37

nho.
Desta vez falei mais compassado, frisando bem
cada palavra, e disse a última frase encarando o jovem
fanático, que flagrei esta manhã olhando furtivamente
a namorada do Índio tomando banho de sol.
Agora era o velho que sorria e Índio estava sério.
Esperavam que os três jovens revidassem para conti-
nuar a discussão. Mas o orador da turma estava mudo.
O que eu acabara de falar embaralhara seus pensamen-
tos.
A chuva recomeçou apagando a fogueira, esfrian-
do os ânimos e colocando um ponto final naquela dis-
cussão constrangedora.

Capítulo 8

Cruzei aquela linha riscada no chão...

Acordei na manhã seguinte com o barulho dos


meus vizinhos arrumando suas coisas, levantando a-
campamento.
38

─ Por que ir embora tão cedo? ─ perguntei ao Ín-


dio. ─ O trem só passa às cinco da tarde.
─ Choveu a noite toda, o rio deve estar cheio, vai
dar trabalho atravessar ─ respondeu Índio sem parar
de desmontar a barraca.
Resolvi ir até a plataforma perguntar a Agenor à
que horas ele pretendia partir.
─ Vou descer à tarde ─ respondeu ele, tomando
café tranqüilamente sentado em frente a sua barraca.
Expliquei ao velho a preocupação do Índio.
─ Fique calmo. Sente-se e tome um café. Eu tam-
bém retorno hoje para Curitiba e você vai comigo.
Mesmo incomodado com o autoritarismo do ve-
lho, resolvi aceitar o café.
Índio, ao se despedir, insistiu para que fôssemos
juntos, argumentou que tinha uma corda que facilita-
ria a travessia do rio.
─ Não se preocupe ─ falou Agenor. ─ Não vai
chover mais, e até à tarde o nível do rio deverá baixar
um pouco, ficaremos bem, façam boa viagem.

Conversamos por horas, sentados ali naquela pla-


taforma, até que Agenor tocou novamente naquele po-
lêmico assunto.
39

─ Você não é ateu!


─ Eu é que sei das coisas em que acredito ─ falei
me defendendo.
─ É necessário muito mais convicção para defen-
der este ponto de vista radical.
─ Ontem, quando calei os amigos do Índio naque-
la discussão, você também não contra-argumentou ─
falei tentando ser mais incisivo.
─ O que você mostrou ontem foi a sua amargura.
Você não é ateu.
Agora já era demais, levantei contrariado.
─ Detesto discutir esse assunto, ainda mais quan-
do tentam me impor opiniões.
O velho levantou calmamente, esticou braços e
pernas, os ossos estalaram como se estivessem se en-
caixando.
─ Não me importo com a sua crença. Mas posso
resolver a sua revolta.
─ Não sou revoltado, só estou numa fase ruim
com problemas financeiros.
─ Posso lhe dar todas as informações necessárias
para você ganhar dinheiro.
Olhei desconfiado para Agenor. O que estaria ele
tentando me propor?
─ Você sabe tocar algum instrumento musical? ─
40

perguntou ele.
─ Não. Sempre quis aprender a tocar violão, mas
nunca tive tempo de me dedicar ─ respondi estra-
nhando a mudança de assunto.
─ E você fala alguma outra língua além do portu-
guês?
─ Não.
Agora além de curioso, eu ficava também preocu-
pado com o rumo da conversa. Se fosse algum empre-
go que ele tentava me arrumar, pensei, eu acabara de
perder por falta de qualificação. Quase não domino o
português, como iria falar um idioma estrangeiro?
─ Ganhar dinheiro é tão fácil quanto aprender a
tocar violão ou falar fluentemente outra língua.
Fiquei calado sem entender direito o que ele aca-
bara de dizer.
─ É necessário, em primeiro lugar, que você esteja
realmente disposto a se dedicar ─ continuou a falar
Agenor. ─ Depois é só você entender como funcionam
as leis que regem o assunto, que técnicas foram desen-
volvidas e mais utilizadas para atingir os mesmos ob-
jetivos que você almeja. E, por fim, é só persistir com
determinação, praticando por tempo suficiente para:
Dominando as palavras e seus segredos, se tornar um
poliglota. Ou, conhecendo as partituras e seus acordes,
virar músico. Ou ainda, aprender a controlar seus pen-
samentos e sentimentos que focalizados e direciona-
41

dos, vão lhe trazer sucesso e riquezas.


Eu olhava para Agenor tentando perceber se exis-
tia alguma proposta real no que ele me falava. Um si-
lêncio incômodo se instalou. Ele aguardando alguma
pergunta ou comentário meu, e eu esperando alguma
coisa mais concreta para poder me pronunciar. Agenor
quebrou o impasse. Falando devagar e com ênfase e-
xagerada perguntou:
─ Marcelo, você quer que eu lhe ensine a ganhar
dinheiro?
Apesar do tom sério do velho, nada respondi a-
chando tratar-se de alguma brincadeira.
─ Vou ser mais claro. Estou disposto a lhe ensinar
algumas técnicas que irão deixá-lo preparado para rea-
lizar seus sonhos ─ enquanto falava ele procurava al-
guma coisa no chão. ─ Com seus métodos você chegou
até aqui. Você é livre para decidir. Se continuar ado-
tando as atitudes que sempre tomou, continuará ob-
tendo os mesmos resultados. É, no mínimo, burrice
esperar algo diferente.
Encontrando o que procurava, ele se abaixa e risca
bem na minha frente, com uma pedra argilosa, uma
linha reta de uns dois metros.
─ Se você quiser, eu posso lhe ensinar métodos
diferentes e novos procedimentos.
─ Quero ─ respondi desconfiado.
─ Do lado de cá, com disposição e a atitude corre-
42

ta, sua vida poderá mudar. Você só precisa aprender a


confiar e dar o primeiro passo ─ disse o velho.
Agenor deu dois passos para trás, jogou fora a pe-
dra, esfregou uma mão na outra limpando o pó do giz
improvisado e esticou a mão direita oferecendo-a em
cumprimento.
Olhei para a linha sob meus pés e para a mão da-
quele estranho. Ali estava a proposta concreta que eu
esperava. Mas era tão estranha e misteriosa que titube-
ei por um instante. Senti um frio no estômago. Mas o
desespero da minha situação, e o sorriso tranqüilo da-
quele velho senhor me fizeram dar um passo à frente,
cruzando aquela linha riscada no chão, e agarrar a mão
daquela intrigante oportunidade que a vida me ofere-
cia.
─ Parabéns ─ me cumprimentou o velho, e olhan-
do para o relógio completou: ─ A partir deste domingo,
duas e meia da tarde, sua vida começa a mudar.
─ O quê? Duas e meia? Nós vamos perder o trem
─ gritei alarmado e saí correndo para desmontar a bar-
raca.
43

Capítulo 9

Se continuar adotando as atitudes que sempre tomou,


continuará obtendo os mesmos resultados.

Chegamos ao rio principal depois de uma cami-


nhada rápida e desgastante.
─ Que horas são? ─ perguntei a Agenor.
─ Quatro e meia ─ respondeu ele, que havia tira-
do a mochila e estava dentro do rio, com água pelos
joelhos, lavando tranqüilamente o rosto com as mãos
em concha.
Era espantoso que alguém com aquela idade ti-
vesse condicionamento físico para resistir a uma cami-
nhada tão forçada.
─ Se não perdermos tempo com a travessia, con-
seguiremos chegar à estação a tempo de pegar o trem ─
disse eu, tentando apressá-lo.
─ Chega de correria. Tire a mochila e relaxe.
─ Está louco! Se perdermos este trem, o outro é só
44

amanhã à tarde.
Ele saiu do rio parando bem à minha frente me
encarando. A água a escorrer pelo seu rosto com ex-
pressão séria e olhar firme. Fiquei paralisado, não con-
seguia raciocinar direito, meus pensamentos ficaram
confusos.
─ Você fez a sua escolha ─ disse o velho, ─ deu o
primeiro passo. Agora é preciso que mude a sua atitu-
de e aprenda a confiar.
─ Eu não tenho comida para ficar mais um dia.
─ Lá vem você com medo de passar fome. O com-
promisso que você assumiu lá em cima não foi comigo,
foi com você mesmo. Aprenda a confiar na sua intui-
ção.
─ Que intuição? Eu nem acredito nisso. Sempre
sigo o meu raciocínio, e ele me diz que se não conse-
guir pegar aquele trem hoje, eu terei de acampar aqui
novamente e passar fome até amanhã.
─ Você poderia estar comodamente sentado na es-
tação com seus amigos, comendo um saboroso sanduí-
che e tomando um refrigerante bem gelado ─ falou
Agenor, dando uma pausa para torturar-me com a i-
déia. ─ Mas a sua intuição o fez deixar que eles partis-
sem, e optar por ficar com um velho que mal conhece.
Foi por isso que lhe fiz aquela proposta lá em cima na
cachoeira. Mas você é livre para escolher.
Dizendo isso, o velho se afastou caminhando pela
45

margem do rio até uma pedra maior, onde sentou cal-


mamente.
Fiquei ali parado por instantes. Depois caminhei
devagar por dentro da água até o ponto em que havia
caído no dia anterior. Parei novamente sem saber o
que fazer. O nível do rio estava mais alto e se tentasse
atravessar sozinho, certamente a correnteza me derru-
baria. Olhei para Agenor que estava tranqüilamente
sentado em uma pedra assistindo meu conflito.
─ Vou precisar de ajuda ─ falei, tentando superar
o meu constrangimento.
Agenor pareceu ponderar a situação durante al-
guns perturbadores segundos silenciosos.
Finalmente, falando devagar, o velho começou a
me orientar.
─ Primeiro respire fundo, relaxe e olhe para o
movimento da água. Coloque sua mão na correnteza e
sinta sua força. Desça devagar para a parte mais funda,
segure-se nessa pedra maior, ao seu lado.
Sem ter nenhuma outra opção, segui sem pensar
as orientações detalhadas de Agenor. A correnteza es-
tava muito mais forte do que no dia em que caí, mas
por alguma estranha razão eu estava tranqüilo e confi-
ante.
─ Abaixe-se um pouco, sinta a água bater em seu
corpo ─ falou o velho se levantando em sua pedra. ─
Imagine o rio como um ser vivo e respeite a sua força.
46

Meu corpo estremecia com o impacto do turbilhão


da água apressada. O estrondoso barulho passava a
nítida impressão que o rio estava realmente vivo.
─ Calma, não se afobe ─ aconselhava-me Agenor,
agora aos gritos. ─ Use a força do rio para atravessar.
Procure manter-se em pé. Solte-se dessa pedra e sem se
debater deixe a água te levar para o outro lado.
Não me pareceu muito lógico entrar naquele es-
trepitoso turbilhão, mas sem pensar muito, soltei da
pedra.
Fui arrastado pela vibrante violência das águas,
mas surpreendentemente calmo consegui, deixei a á-
gua me levar sentindo os meus pés tocarem nas pedras
do fundo do rio.
O velho tinha razão: eu, no dia anterior “briguei”
com o rio. E quanto mais força eu fazia para firmar
meus pés no fundo, mais fácil ficava para a correnteza
me derrubar.
Agora, seguindo os conselhos de Agenor, eu me
entreguei à força do rio, que me conduziu. Era como se
eu estivesse dançando com as águas. Quando menos
esperava fiquei de frente com uma grande pedra, foi só
me agarrar a ela, subir e pronto, estava do outro lado.
Gritei eufórico, sem conter minha alegria, por tão
facilmente vencer o rio que me derrubara no dia ante-
rior. Em pé sobre essa pedra, com a água escorrendo da
minha roupa encharcada, fiquei por um longo instante
olhando para aquele velho sobre a outra pedra a uns
47

quinze metros.
A sensação de alegria pelo sucesso da travessia
logo se dissipou.
Durante minha vida toda, tive sempre que brigar
sozinho. Aprendi a confiar somente na minha capaci-
dade de raciocínio e discernimento, talvez por isso te-
nha crescido assim meio amargo e rabugento. Agora
que a vida colocou um completo estranho a me ofere-
cer ajuda, eu lhe dei as costas.
Olho para o outro lado e vejo um trecho raso do
rio. Era só terminar de atravessá-lo, subir alguns minu-
tos pela estrada e estaria na estação a tempo de pegar o
trem, que me levaria de volta à minha difícil, porém
conhecida realidade.
Lembrei do que Agenor falou na cachoeira: “Se
continuar adotando as atitudes que sempre tomou,
continuará obtendo os mesmos resultados”.
Agindo por impulso, entrei novamente na corren-
teza e fiz o caminho contrário. Dançando mais uma vez
com a água, voltei para a outra margem do rio.
Aproximando-me de Agenor, subo na pedra ti-
rando a mochila.
─ Desculpe-me ─ digo simplesmente.
Após me olhar por alguns instantes, ele me abraça
forte.
Um sentimento que eu não conhecia me invadiu o
48

peito. Como se eu vivera até ali fingindo não precisar


de ninguém. A sensação de desamparo daqueles anos
todos que passei enfrentando sozinho os problemas,
me caiu sobre os ombros.
A angústia apertou um nó em minha garganta, fa-
zendo brotar lágrimas destiladas daquela sensação de
pequenez e abandono. Fugindo deste doloroso senti-
mento apertei mais aquele abraço, tentando prolongar
o aconchego tranqüilo que Agenor me propiciou.
Inebriado desfrutei de uma impressão de paz, se-
gurança e serenidade, que minha família e amigos por
mais que se esforçassem, nunca conseguiram me pas-
sar.
Ficamos sentados naquela pedra por quase uma
hora. Ouvindo ao longe o trem chegar e partir, pensei:
talvez, pela primeira vez desde a minha infância, con-
seguia ficar absolutamente calmo e sereno, mesmo sem
ter a menor idéia do que poderia acontecer comigo nas
próximas horas.
49

Capítulo 10

Então foi essa a mágica que você usou para chegar até a
cachoeira na minha frente?

Atravessamos finalmente o rio, com a facilidade


de quem conhece suas regras. Eu já havia caminhado
alguns metros estrada acima, quando percebi que A-
genor não me acompanhava.
─ O que você vai fazer lá em cima se não tem mais
trem hoje? ─ perguntou o velho a rir.
Meu raciocínio estava lento, entorpecido pela for-
ça emotiva dos últimos acontecimentos. A pergunta de
Agenor detonou uma seqüência de pensamentos e
perguntas, trazendo rapidamente à tona minha insegu-
ra realidade. Como eu sairia daquele lugar? Se não
conseguisse voltar hoje, onde acamparia? Como arran-
jaria comida para mais um dia?
─ Venha comigo ─ convidou-me Agenor descen-
do a pequena estrada.
Mesmo que ele não me convidasse eu o teria se-
guido, não tinha outra escolha. Após alguns minutos
de caminhada, avisto destoante da paisagem, um belo
50

e luxuoso carro estacionado na sombra de uma enorme


árvore. Ao aproximarmos, ouço o barulho característico
do alarme sendo desligado. Percebendo na mão de A-
genor o molho de chaves com o controle remoto, des-
cubro o ardil, me sentindo traído.
─ Então foi essa a mágica que você usou para che-
gar até a cachoeira na minha frente? ─ perguntei abor-
recido.
─ Quem não acreditava em Deus, agora está cren-
do até em magia? ─ perguntou Agenor debochando.
Embaraçado pelo hábil jogo de palavras, fiquei
sem resposta.
─ Tudo que as pessoas não conseguem explicar,
chamam de mágica, mas sempre existe uma regra, um
truque por trás de todas as coisas aparentemente inex-
plicáveis. A verdadeira magia consiste em descobrir
quais são esses truques e leis que movem o mundo ─
falou Agenor guardando nossas mochilas em seu carro.
Mesmo sabendo que em uma hora estaria são,
salvo e sem fome em Curitiba, entrei no carro decep-
cionado. O que parecia misterioso e encantado era na
realidade apenas um truque.
─ Como explica os pássaros voando tão próximos
a você lá na cachoeira? ─ perguntei, lembrando o es-
tranho episódio que não consegui entender.
─ Se você não estivesse tão concentrado olhando o
seu próprio umbigo, teria percebido que naquele pa-
51

redão existem vários ninhos, qualquer um que consiga


ficar sentado lá sem assustar os pássaros, poderá ter a
mesma experiência.
Seu jeito de falar calmo, porém indelicado, calou-
me durante boa parte da viagem. A pequena estrada
nos levou até uma rodovia, passamos por uma ponte
metálica, subindo a Serra do Mar pela encantadora Es-
trada da Graciosa.
52

Capítulo 11

Pare! Chega de fugir.

─ Não tem a poesia do trem, mas é muito mais rá-


pido ─ quebrou o silêncio Agenor, referindo-se ao car-
ro.
─ Por que você não disse antes que era assim que
voltaríamos para Curitiba?
─ Você não perguntou ─ respondeu o velho rindo.
─ E o mistério era necessário para lhe ensinar a usar e a
confiar na sua intuição.
─ Falando nisso, quando é que você vai começar a
me ensinar como ganhar dinheiro? ─ perguntei distra-
ído.
Agenor freou bruscamente o carro, o barulho de-
sesperado dos pneus ecoou na estrada deserta. Não es-
tivesse eu com o cinto de segurança, teria batido a ca-
beça no pára-brisa.
53

A expressão do velho me assustou. Achei que me


mandaria descer do carro e ir embora a pé.
─ O que eu fiz de errado? ─ perguntei tentando
ganhar tempo.
Agenor nada respondeu. Olhava-me como se pu-
desse enxergar através de meu corpo. Com uma ex-
pressão sisuda mordia seu lábio inferior, remoendo
seus pensamentos.
Quando eu já nem lembrava mais o que havia
perguntado, ele responde:
─ Tudo! Você fez tudo errado. Veio para a cacho-
eira fugindo dos problemas, correu o tempo todo ten-
tando evitar a derrota, não apreciou em nenhum mo-
mento a viagem remoendo sua desgraça, se desesperou
tentando escapar da fome...
Ele falava devagar com voz suave, mas me senti
acuado com a força da verdade em suas palavras.
─ Arisco, com seus monstros a lhe perseguir, você
está em tão debandada correria que provavelmente
não ouviu sequer uma palavra do que eu disse ─ con-
cluiu Agenor.
Chocado com o poder de síntese do velho, fiquei
ali parado sem conseguir esboçar nenhuma reação, di-
ante do esquelético resumo da minha rotineira e difícil
existência.
Eu nunca havia imaginado desta forma, mas a
descrição se encaixava perfeitamente: O grande mons-
54

tro da fome a me perseguir. E eu com a responsabili-


dade de não deixar faltar nada para minha família, ca-
da vez mais desesperado, correndo atrás de soluções
mirabolantes, conseguindo crédito de um lado para
pagar contas de outro, num frenesi alucinado, sem
tempo de pensar, de ver a vida passar e de descansar.
Com a pressão agravada e aumentada por ser despedi-
do do emprego, fujo para a Serra, acuado e arisco, sen-
tindo o inevitável bote certeiro do, por mim inventado,
monstro predador.
─ Pare! Chega de fugir ─ grita Agenor me assus-
tando.
O susto estancou aquele jorro de pensamentos
desenfreados. Apesar da tristeza que me inundou, mi-
nha mente estava serena.
─ Ou você vive para buscar a felicidade, ou passa
a vida fugindo da dor. De uma vez por todas, faça a
sua escolha. Não existe nenhuma outra opção ─ falou
Agenor.
O barulho insistente de uma buzina lembrava
que estávamos parados no meio da estrada. Agenor
retomou a viagem em silêncio.
A exposição quase visceral de meus sentimentos
mais profundos me forçou a ponderar sobre minha
habitual atitude frente aos problemas.
Alguma coisa deveria estar errada. Sempre dedi-
cado, tornara-me um bom fotógrafo. Mas, apesar de
profissional respeitado, por mais que eu trabalhasse
55

duro, o esmero e a aplicação não eram reconhecidos


financeiramente. A competência propagada em fartos
elogios não saciava a fome de meus filhos.
Enquanto Agenor dirigia atento, preocupado com
aquelas curvas forradas com paralelepípedos, eu, ab-
sorto em pensamentos, admirava a paisagem sob a luz
difusa do final de tarde, filtrada por uma densa nebli-
na.
Uma hora mais tarde, depois de descer do carro de
Agenor à beira da rodovia, eu caminhava novamente
pelas ruas do bairro onde morava. Tudo parecia abso-
lutamente igual, mas “eu” já não era mais o mesmo. A
amargura de ontem tornava-se passado. Crescia em
meu peito uma vontade esperançosa de mudar o meu
amanhã.
56

Capítulo 12

É disso que você precisa.

Apesar de Agenor ter prometido me ajudar, a úni-


ca informação que ele me deixou depois do acampa-
mento foi um número de telefone. E só depois de de-
zenas de infrutíferas tentativas, é que eu consegui fi-
nalmente marcar um novo encontro.
Sentado em um dos bancos, percebo enquanto
aguardo que a Praça Santos Andrade fica ainda mais
verde e bonita com o esplendor ensolarado daquela
manhã. Aquela era sem dúvida a minha praça curiti-
bana preferida. De um lado o majestoso prédio antigo
da Universidade Federal e, no lado oposto, o imponen-
te Teatro Guaíra.
Elegante e pontual, Agenor aproxima-se num ali-
nhado casaco, combinando com o frio que anunciava
um rigoroso inverno. Cumprimentou-me com um fir-
me aperto de mão, olhando fixo em meus olhos, inspi-
rando confiança com um sorriso amigável.
A sua pouca estatura era compensada por uma
forte presença, com gestos firmes e decididos, sem ser
57

espalhafatoso e não perdendo a cordial e costumeira


serenidade.
A ansiedade gerada na expectativa e ampliada na
demora misturou meus pensamentos e embaralhou as
perguntas formuladas mentalmente naqueles três lon-
gos meses que se passaram desde o primeiro encontro
na cachoeira.
Estabanado e carente de sutileza, eu pedi empres-
tado uma soma em dinheiro para montar um estúdio
fotográfico, planejado cuidadosa e detalhadamente
enquanto sobrevivia do minguado salário desemprego.
Sem se importar com os detalhes técnicos da ex-
planação que eu fazia, do empreendedor e rentável
negócio de vídeo e fotos, Agenor risca com um giz que
pegou em seu bolso, um estranho desenho no chão da
praça.

─ É disso que você precisa ─ fala o velho admi-


rando seu esquisito desenho.
Por mais que olhasse, eu não conseguia vislum-
brar qualquer lógica naquele amontoado de rabiscos.
Deveria ser importante, afinal de contas Agenor pre-
meditou, trazendo em seu bolso um giz exclusivamen-
58

te para aquele fim.


─ Vamos caminhar um pouco ─ falou enfim o ve-
lho, percebendo meu embaraço em não decifrar o seu
confuso e enigmático esboço.

Caminhava a seu lado cabisbaixo e irritado com


minha inabilidade: Além de ter feito aquele desastroso
pedido de empréstimo, não consegui entender o que
ele tentou mostrar com seu misterioso e indecifrável
desenho.
Observava aborrecido o mundo em que vivia.
Presenciei um garoto invadir uma loja, roubar algumas
mercadorias e sair correndo.
Desviamos da mendiga, que todo dia pedia esmo-
las naquela galeria, entoando sempre a mesma ladai-
nha.
Atravessamos uma manifestação, com grevistas
munidos de faixas e cartazes traduzindo sua revolta,
gritando indignadas frases repetidas em alto-falantes
barulhentos. Lembrei de quantas vezes participei de
movimentos como este, desgastei-me sem obter a justi-
ça que exigia.
Justiça? Que estranha palavra, neste mundo de va-
lores distorcidos.
─ Tem alguém aí? ─ perguntou ironicamente A-
genor, dando leves cascudos em minha cabeça, como
se estivesse batendo em uma porta. Sorri encabulado,
59

despertando de meu sonambulismo.


─ A visão que você tem do mundo é filtrada pelo
que experimentou até aqui ─ começa a falar o velho
sem parar de andar. ─ A leitura que faz das coisas que
acontecem à sua volta, é fortemente baseada no que
você sente. Se o sentimento predominante em seu co-
ração for amargura, o mundo em que vive será amargo.
Sua atenção estará focalizada, procurando coisas que
confirmem a idéia que você tem da realidade.
Tive vontade de pedir ao velho que repetisse o
que acabara de falar. Soava simples, mas parecia tão
profundo e sensato que precisava de mais tempo para
refletir.
─ Olhe para cima sem parar de andar ─ ordenou
Agenor, segurando meu braço.
Acostumado a andar sempre olhando para frente,
estranhei esse novo ponto de vista. Admirado, consta-
tei que não conhecia de fato a beleza da Rua Quinze a
partir dos três metros de altura. As belíssimas fachadas
históricas com janelas em arcos de madeiras entalha-
das e sacadas com ferros artisticamente retorcidos.
Só agora percebo que a bela melodia ouvida ao
fundo, enquanto andávamos, era extraída magistral-
mente de um violino, por um músico solitário na saca-
da do segundo andar. Os prédios emolduravam um
céu profundamente azul, complementando o quadro,
como uma pintura sobre tela cuidadosamente elabora-
da.
60

Caminhando assim, amparado e guiado por Age-


nor, distraído a contemplar aquele mundo que não co-
nhecia, meus pensamentos diminuíram de intensida-
de. Eu estava agradavelmente tranqüilo quando o ve-
lho largou meu braço e comecei a andar normalmente.
Na volta, entrando na mesma galeria, senti uma
estranha tontura. Apesar de continuar caminhando
normalmente, tive a sensação de estar pisando em nu-
vens, e o mundo todo passou a andar mais devagar.
Percebi, por trás da face suja e dos cabelos des-
penteados da mendiga, um sorriso meigo. Com um bri-
lho nos olhos ela abençoava os caridosos que a ajuda-
vam, que por sua vez aliviavam suas consciências com
algumas moedas. Desta vez não fiquei irritado, tam-
bém não tive pena dela, simplesmente a aceitei como
alguém que tinha o direito de estar ali, e tentar tam-
bém a sua maneira aprender alguma coisa.
Escondido debaixo da escada, o menino delin-
qüente repartia a comida, fruto do roubo, com duas
meninas, que certamente viam nele a imagem de um
herói protetor. Que futuro o aguardaria? Que tipo de
lição conseguiria ele aprender de tão duras aulas?
Notei um largo sorriso no rosto de Agenor que
caminhava a meu lado. Quando entrei na galeria pas-
sei momentaneamente a ver o mundo de forma muito
diferente. Senti meu corpo expandir, como se eu fosse
pura energia, e fizesse parte de tudo que ali estava. Ao
me aproximar da saída, vendo os raios de sol lá fora,
voltei a sentir meus pés no chão, retornando para a rea-
61

lidade.
Realidade?
Aquela sensação de ser parte de tudo, entender
tudo, aceitar tudo, passou. Mas jamais vai se apagar da
minha mente. Tento lembrar-me daquela situação co-
mo sendo a realidade. A força do sentimento de comu-
nhão com o universo fez o resto da minha vida parecer
um sonho num sono profundo.
Retornando ao local onde Agenor rabiscou o chão,
perplexo percebi instantaneamente a palavra “sonho”
a saltar do meio do desenho. O que parecia impossível
decifrar a princípio, tornara-se agora claro e transpa-
rente, não importando o lado que eu olhasse.

─ O que você quer? ─ perguntou Agenor.


Não entendi direito o que ele queria. Fiquei com
medo de falar novamente do empréstimo. Preferi ficar
calado.
─ Não basta querer viajar, você tem que escolher
para onde quer ir. Definir uma meta, traçar um cami-
nho, ter um objetivo na vida ─ falou firme Agenor.
62

─ Eu quero viver mais tranqüilo ─ respondi fi-


nalmente, só agora entendendo a pergunta.
─ O cérebro não aceita uma ordem genérica. Seja
mais específico. Escolha algo tangível, uma casa ou a-
partamento, um carro, uma viagem, qualquer coisa que
sirva como prêmio ou incentivo para você continuar
lutando.
Calado e pensativo tentei visualizar algo, mas e-
ram tantas as coisas que sempre quis que eu não soube
o que falar.
─ Feche os olhos e imagine um homem de quem
pudesse se orgulhar ─ continuou falando Agenor. ─
Alguém com todas as virtudes que conseguir lembrar:
Justo e respeitável, bom pai e marido perfeito. Agora
abra os olhos e olhe para você mesmo. Perceba hones-
tamente seus defeitos e carências. Trace um caminho
do que você é hoje, até aquele homem digno em que
pode se transformar. Tome uma atitude. Decida de
uma vez por todas, tornar-se alguém de quem você
possa sentir orgulho. Este sim é um desafio digno de
uma vida.
Talvez a tranqüilidade que sempre busquei, esti-
vesse bem mais próxima do que imaginava. Precisava
aprender a olhar o mundo de forma diferente. Ter a
coragem de enfrentar e tentar transformar as minhas
limitações. Assumir a responsabilidade das coisas que
acontecem comigo. Mudar a atitude sempre negativa
ao enfrentar os desafios que a vida me oferece. E como
resultado de meu próprio esforço, conseguirei aos
63

poucos transformar a minha realidade.


A experiência que eu vivenciei naquela galeria,
conseguiu mostrar a precariedade da minha consciên-
cia travada, e quanto eu ainda precisava aprender. Mas
quem seria aquele velho? E por que ele resolveu me
ajudar?

Capítulo 13

Como é que eu vou começar um empreendimento que me


deixará rico, apenas com uma máquina fotográfica?

A partir daquela manhã na praça, ficou mais fácil


encontrar Agenor. A experiência que tive na galeria
despertou o interesse dele, que deixou de ser tão ocu-
pado, encontrando algumas horas livres quase toda
semana para conversarmos.
Refiz meus planos do estúdio fotográfico. Levan-
tei custos, avaliei o mercado, contabilizei margem de
64

lucro, relacionei os equipamentos necessários para


começar, coloquei tudo datilografado em um vistoso e
pormenorizado projeto.
Com a munição apropriada resolvi voltar a atacar.
Preferia tê-lo encontrado no escritório ou na casa
dele, ou na pior das hipóteses numa lanchonete, onde
tivesse pelo menos uma mesa, para lhe mostrar meu
elaborado projeto. Mas ele insistiu para que nossa
conversa fosse no Parque Barigüi, que estava lotado.
Parecia que todos os moradores da região resolveram
vir ao parque ao mesmo tempo. Apesar do frio, aquele
domingo amanhecera belo, com um céu azul e o sol
extremamente brilhante.
Sentados na grama, tentava mostrar a Agenor os
detalhes do meu plano cuidadosamente datilografado.
O vento parecia não concordar com meu intento. Tanto
tempo de ensaio para acabar encenando aquele patéti-
co espetáculo.
O velho nem prestou atenção. Enquanto eu dis-
cursava, algumas folhas foram levadas pelo vento; as
que sobraram, meio amassadas e misturadas já não
importavam mais, pois eu falava sozinho, enquanto
Agenor distraído olhava algumas crianças andando de
bicicleta.
Parece que a disposição abnegada de Agenor em
me ajudar, desaparecia rapidamente sempre que eu lhe
pedia dinheiro emprestado. Não conseguia entender
sua atitude arredia. Se ele era rico, um pequeno em-
65

préstimo não lhe custaria nada e facilitaria muito meu


começo.
─ Você só precisa de uma máquina fotográfica e a
disposição para lutar ─ disse finalmente o velho me
entregando alguns livros que ensinavam como se obter
sucesso financeiro.
─ Como é que eu vou começar um empreendi-
mento que me deixará rico, apenas com uma máquina
fotográfica?
─ O que importa é a disposição em realizar o seu
desejo, e não o que você tem nas mãos. A idéia inicial
é só uma semente. A sua vontade e determinação o fa-
rão cavar o solo com as mãos, se for necessário, plan-
tando o seu sonho com entusiasmo e regando-o com
persistência. Quando os frutos começarem a brotar e
você colher o sucesso em forma de dinheiro, poderá
ampliar seus negócios com todos os equipamentos e
acessórios que idealizou.
─ Se fosse assim tão simples: ler alguns livros e
enriquecer, todo mundo já estaria rico ─ resmunguei
enquanto folheava os livros.
─ É possível aprender qualquer coisa através dos
livros, mas você precisa realmente querer para atingir
os seus objetivos. A força de vontade é o segredo.
Desanimado, concluí finalmente que não arranca-
ria de Agenor nenhum centavo, a título de empréstimo
para começar meu estúdio fotográfico. Estava sozinho
como sempre, teria que ser por minha conta.
66

─ O senhor pode cuidar da minha bicicleta, tio? ─


perguntou-me um menino que se aproximou, largando
sua bicicleta bem à nossa frente.
Magro e aparentando não ter mais de doze anos, o
garoto começou a mexer em outra pequena bicicleta,
de uma menina de cinco ou seis anos que o acompa-
nhava.
Após retirar as rodinhas de apoio, usadas por
quem ainda não consegue se equilibrar em duas rodas,
o menino passou a ensinar a garota, que deveria ser
sua irmã, a andar de bicicleta.
Esgotado nosso assunto, Agenor e eu, calados,
contemplávamos o esforço do menino ajudando a irmã
na tentativa de dominar a força da gravidade, que in-
sistia em puxá-la para os lados.
Agarrado ao banco da bicicleta, correndo numa
incômoda posição, o garoto equilibrava a menina fa-
zendo malabarismos. Falava o tempo todo dando ins-
truções. Quando achou o momento oportuno, arriscou
e largou acreditando na habilidade da irmã, que con-
segue andar sozinha alguns metros, até a bicicleta
pender para o lado direito, caindo e derrubando a ga-
rota a rolar na grama macia, que absorve o impacto da
queda deixando ferir apenas o seu orgulho.
Com um fundo musical muito original, propicia-
do por um grupo de capoeiristas às nossas costas, to-
cando berimbau e pandeiro, observávamos o empenho
67

e a dedicação carinhosa do garoto, que gesticulando


muito convenceu a assustada irmã, a fazer outra tenta-
tiva.
─ Parece tão difícil aprender a andar de bicicleta,
mas uma vez que se consegue, não esquecemos nunca
mais ─ comentei.
─ A regra é simples, é só virar o guidão na direção
em que a bicicleta vai cair ─ falou Agenor gesticulan-
do.
Que raciocínio simples e objetivo. Se alguém ti-
vesse me falado isso quando eu estava aprendendo,
não teria caído tantas vezes. Sem pensar muito levan-
tei chamando o garoto, para lhe ensinar o “truque” que
acabara de descobrir.
─ O que você pensa que está fazendo? ─ brigou
Agenor puxando-me bruscamente pelo braço. ─ Você
vai estragar tudo. O que está acontecendo aqui ficará
marcado para sempre na vida dessas crianças. É impor-
tante que o garoto consiga ensinar a irmã sozinho, isso
aumentará sua auto-estima estabelecendo um vínculo
ainda mais forte entre os dois.
O garoto, que ouvira meu chamado, ficou por ins-
tantes a nos observar. Não obtendo resposta voltou ao
seu desafio, correndo desengonçado atrás da pequena
bicicleta, segurando a falta de equilíbrio da irmã.
Novamente ele experimenta, e largando o banco
deixa a irmã pedalando sozinha, até seu pequeno cor-
po pender insistente para o lado. Desta vez, mais expe-
68

riente, a menina salta abandonando a indomada bici-


cleta que cai barulhenta.
Desolada, a garota senta-se na grama olhando a
roda da bicicleta ainda a girar.
O irmão, com os ombros caídos e olhar triste, vol-
ta caminhando devagar, até onde Agenor e eu estamos
sentados e, apanhando as rodinhas, demonstra que de-
sistiu da luta.
─ Você está indo muito bem ─ falou Agenor ao
garoto. ─ Agora só falta você dizer à sua irmã para vi-
rar o guidão para o lado que ela for cair.
O menino olhava atento ao velho, imaginando por
instantes, o efeito do que ele acabara de falar. Fixou o
olhar em seguida na irmã sentada ao lado de sua bici-
cleta, finalmente olhou para as rodinhas em suas mãos.
Naqueles breves segundos o garoto teve que to-
mar uma pequena decisão, que certamente influencia-
ria sua postura perante os desafios que a vida lhe faria
no futuro.
Largando as rodinhas na grama, o menino corre
reanimado com a nova possibilidade de ver a irmã pe-
dalando sozinha.
Agenor, que há poucos instantes me proibira de
interferir, me olha encolhendo os ombros e apertando
os lábios, tentando se justificar pela intervenção que
acabara de fazer.
Após explicar para a irmã com gestos exagerados
69

o que aprendera, o garoto retoma seu lugar agarrado ao


banco. Falando muito ele correu atrás da bicicleta por
alguns minutos, até largar novamente a menina, que
saiu cambaleante tentando aplicar a nova lição.
Quando se descobre a regra, fica muito mais fácil.
A menina pedalava com o medo a lhe arregalar os o-
lhos, sem acreditar que havia conseguido enfim vencer
a implacável força da gravidade.
Eufórico o menino gritava, ainda orientando sua
irmã, contorcendo seu corpo magro como se pudesse,
mesmo à distância, ajudar a equilibrar a bicicleta.
Ao perceber que a irmã não cairia mais, exultante
e com a voz aguda de quem ainda não passara pela
puberdade, o garoto grita, e dando um soco no ar gira
num pé só.
A alegria da vitória das crianças era contagiante.
Emocionado presenciei a iluminada e tocante cena. A
menina largando a subjugada bicicleta e correndo para
o irmão, que estava ajoelhado na grama com os braços
abertos, prontos para aconchegá-la no abraço dos ven-
cedores.
Com a liberdade conquistada pela menina, mais a
emoção de ver a união dos dois sendo reforçada na-
quele abraço, somada ao sentimento de vitória do ga-
roto, foi como se o mundo girasse mais devagar, en-
quanto durou aquele afago carinhoso.
Depois de lançar um olhar de cumplicidade e gra-
tidão para Agenor, o garoto apanhou as rodinhas à
70

nossa frente e as jogou no cesto de lixo do parque, co-


mo quem se livra de um par de algemas, que tirava a
liberdade da irmã. Esta radical e convicta atitude evi-
denciou com clareza, que daquele menino cresceria um
grande homem.
─ Quanto você acha que vale o que o menino esta
sentindo agora? ─ perguntou Agenor, enquanto os
dois irmãos se afastavam pedalando.
Olhei para o velho sem responder, tentando ante-
cipar onde ele queria chegar. Percebendo meu silêncio
ele continuou a falar:
─ Quando você persiste lutando até conseguir
vencer, a recompensa é a sensação de poder, que lhe
fará ousar desafios maiores, obtendo mais força, que o
motivará a sonhar ainda mais alto... ─ Agenor fazia
gestos com a mão, estimulando-me a imaginar a conti-
nuidade do seu raciocínio. ─ Este sentimento de auto-
confiança acaba sempre desencadeando uma seqüência
de eventos positivos.
Estava ainda absorvendo o que o velho acabara de
dizer, quando ele tornou a perguntar levantando-se:
─ Você seria capaz de tirar este sentimento daque-
le garoto?
Nada respondi. Agora compreendia os seus moti-
vos para não me emprestar dinheiro.
─ A dificuldade da batalha enaltecerá sua vitória,
você ficará mais forte e autoconfiante ─ falou Agenor
71

esticando a mão, ajudando-me a levantar. ─ O que es-


tou lhe oferecendo vale muito mais que dinheiro. Pode
mudar sua vida, se estiver disposto a enfrentar a luta.
Enquanto caminhávamos devagar e em silêncio
pelo parque, fiquei imaginando aonde Agenor poderia
ter aprendido a manipular desse jeito as situações à
sua volta.
Naqueles poucos minutos em que ficamos senta-
dos ali na grama, ele conseguiu “tocar” no destino da-
quele menino com uma única frase. E ainda aproveitou
para deixar até transparente de tão claro as suas razões
para não me emprestar dinheiro.

Capítulo 14
72

Por que Agenor invadira aquele prédio? E se alguém nos


pegasse ali?

Seguindo as orientações de Agenor, e tentando


aplicar o conhecimento adquirido nos livros, trabalhei
durante semanas contando apenas com o equipamento
disponível: Uma pesada máquina fotográfica russa,
que apesar de não dispor de recursos automáticos, era
eficiente e com uma boa qualidade de fotos.
Plantei cuidadosamente as sementes, distribuindo
propaganda fotocopiada. Visitei os cartórios e igrejas
da vizinhança, na expectativa de encontrar casamentos
e batizados agendados, tentando arranjar possíveis fu-
turos clientes.
Reguei persistente, barganhando, oferecendo van-
tagens, baixando o preço, até que aos poucos os resul-
tados começaram a florescer. Mas os problemas, con-
tratempos e obstáculos, como ervas daninhas, cresciam
mais que os lucros.
Agenor indagara sobre meus progressos, enquan-
to jantávamos num restaurante vegetariano próximo ao
centro da cidade.
Descambei a reclamar da falta de equipamentos
adequados e da concorrência desesperada, que achata-
vam a margem de lucro. O esforço e a correria não e-
73

ram compensados pelo retorno financeiro. Acusei o


rapaz do cartório de receber propinas ao indicar clien-
tes ao meu concorrente. Reclamei do protecionismo do
padre, que sempre indicava uma fotógrafa amiga sua,
para fazer as fotos dos casamentos e batizados da igre-
ja.
Agenor saboreava tranqüilamente a sobremesa,
indiferente às lamentações indignadas que me desa-
nimaram a ponto de perder o apetite.
─ Que mediocridade! ─ murmurou o velho balan-
çando a cabeça desaprovando minha atitude.
─ Medíocre? Eu? ─ relutei. O desânimo me deixa-
ra frágil, e o seu comentário me magoara.
─ É medíocre quem se acostumou a ver somente
crises em lugar de oportunidades ─ replicou Agenor. ─
Você se economiza e não quer se comprometer. Não
acredita na sua capacidade de vencer obstáculos. Me-
díocre é quem ocupa o tempo falando mal dos outros,
é quem só vê os erros, as desgraças e as doenças. Você
tem medo do sucesso. É também um sinal claro de me-
diocridade colocar nos outros a culpa pelo seu fracas-
so.
─ Não precisa me atacar desse jeito.
─ É medíocre também quem não aceita crítica ─
arrematou o velho, desferindo o golpe de misericórdia
em quem já estava vencido. Ressentido e magoado,
calei.
74

─ Você pode ficar aí encolhido, ofendido e desa-


lentado. Ou se levantar otimista e decidido a se com-
prometer realmente com seus planos. Consciente de
que o seu sucesso depende só de você, e não da bon-
dade dos outros. Acredite. Esteja disposto a melhorar,
aprender e crescer. Tenha entusiasmo pelo que faz.
O discurso inflamado do velho, apesar de coeren-
te, não conseguiu me elevar do marasmo em que mer-
gulhei. Permaneci cabisbaixo e calado. A noite pareceu
tornar-se ainda mais fria e escura que antes.

Enquanto andávamos, na saída do restaurante,


notei uma brusca mudança no comportamento de A-
genor. Preocupado e atento, ele olhava em volta o tem-
po todo. O carro estava estacionado quase em frente ao
prédio, mas o velho pegou um caminho diferente dan-
do a volta na quadra.
Agenor às vezes me assustava. Não sabia quase
nada a seu respeito. Não compreendia suas razões para
querer me ajudar.
Ao contornarmos uma esquina, o velho agarrando
meu braço me forçou a correr com ele até uma constru-
ção inacabada, cercada por grandes tábuas. Segurando
com as duas mãos uma das tábuas e usando o pé como
apoio, ele conseguiu abrir um espaço por onde entra-
mos.
A rápida corrida fez meu coração disparar e a res-
piração ficar ofegante. Antes que eu pudesse tomar
75

fôlego para perguntar alguma coisa, Agenor com um


sinal enérgico me mandara calar.
Estávamos num prédio em construção. O forte
cheiro de cimento, misturado ao ar frio e úmido daque-
la noite, e as ferramentas espalhadas pela obra indica-
vam que aquele edifício não estava abandonado, deve-
ria ter alguém tomando conta.
A luz do luar, apesar de fraca, permitiu que eu
percebesse tratar-se de uma estrutura com dois blocos
interligados. Um enorme esqueleto de concreto com
cinco andares, com vigas, colunas, lajes e escadas, mas
ainda desprovido de paredes.
Agenor, depois de caminhar cuidadosamente em-
brenhando-se através da semi-escuridão, subiu pelas
escadas sinalizando para que eu o seguisse.
Fiquei paralisado vendo o velho sumir para o an-
dar superior. Agora percebi que não fora a corrida que
disparou meu coração, foi o medo. A respiração tor-
nou-se ainda mais difícil. Por que Agenor invadira a-
quele prédio? E se alguém nos pegasse ali? Empurrado
pela curiosidade o segui.
O medo aguça os sentidos. Os sons dos meus pas-
sos ecoavam pelas sombras, despertando vultos assus-
tadores em minha imaginação. Eu podia ouvir cada
grão de areia esmagado pelos meus sapatos. O coração
batia feito um bumbo dentro da minha cabeça.
Encontrei o velho a me esperar no terceiro andar.
─ Como você chegou até aí? ─ perguntei a Agenor
76

que estava no outro bloco, construído a uns oito me-


tros do edifício em que eu estava. As duas estruturas
eram interligadas por vigas de concreto com um palmo
de largura.
─ Venha, é fácil ─ falou Agenor apontando para a
viga.
Agarrado a uma das colunas, olhei atentamente
para todos os lados, tentando descobrir como o velho
conseguira atravessar. Não pude crer que ele tivesse
passado para o outro lado se equilibrando naquela vi-
ga. Estávamos a mais de dez metros do chão.
─ Vamos, se eu consegui você também consegue
─ insistiu Agenor.
Sem largar a coluna, coloquei um pé na viga, mas
fiquei tonto só de olhar para baixo. Insisti procurando
a melhor forma. Avaliei com cuidado, mas a imagem
de uma queda não me saía da cabeça. A vertigem colou
firmemente minha mão na coluna. Finalmente desisti,
dei um passo atrás e desafiei Agenor:
─ Eu não o vi atravessar. Você pode ter chegado
até aí por outro caminho, e agora está tentando me en-
ganar.
Agenor ficou parado e pensativo por alguns ins-
tantes.
Não consegui ver daquela distância com a ilumi-
nação precária, mas tive a certeza de que o velho mor-
dia seu lábio inferior, como sempre fazia antes de dar
uma bronca.
77

De repente, Agenor agarrou a coluna a seu lado e


com gestos exagerados me imitou, fingindo tentar a-
travessar sem conseguir, como se a coluna o estivesse
segurando. Mesmo nervoso não contive o riso de suas
palhaçadas.
Com um sorriso largo, Agenor finalmente enfiou
as mãos nos bolsos e atravessou a viga, com o vento a
balançar seu casaco. Caminhou com a tranqüilidade de
quem passeia na calçada.
Meu riso, que evoluíra à gargalhada, graças ao seu
desempenho naquela mímica perfeita, desapareceu
instantaneamente. Boquiaberto e incrédulo vi Agenor
atravessar aquela viga tão facilmente que fiquei en-
vergonhado.
─ Sente-se aqui, vamos esperar ─ falou ele, sen-
tando-se no chão, encostado à coluna.
─ Esperar o quê?
─ O seu medo passar ─ respondeu ele sorrindo.

Capítulo 15
78

Meu pai colocou em minha mão uma pequena cruz de


prata.

Ficamos calados por alguns minutos sentados na-


quela construção inacabada, sentindo o vento gelado
da madrugada. Tentei imaginar o que estaria ele ten-
tando me ensinar. Seus métodos eram sempre muito
estranhos.
─ Marcelo, aproveite o tempo que temos para fa-
lar de seu pai ─ falou Agenor.
Ele já havia me perguntado sobre meu pai em ou-
tra ocasião, e eu mudara de assunto. Mesmo não a-
chando conveniente mexer naquela ferida, mantida
aberta por tristes e persistentes lembranças, resolvi fa-
lar:
─ Meu pai desperdiçou sua vida rezando para um
Deus que nunca lhe ajudou.
─ É por isso que você se diz ateu?
─ Prefiro acreditar nas coisas que eu possa ver e
entender.
─ A realidade assume, por vezes, proporções tão
duras e amargas, que nos agarramos a devaneios e fan-
tasias para torná-la mais coerente e suportável ─ falou
o velho.
79

─ Não é devaneio crer somente no que pode ser


comprovado.
─ A terra sempre foi redonda, mesmo quando não
podíamos comprovar.
─ Mas foi a sua “religião” que queimou os pri-
meiros homens que descobriram que a terra era re-
donda.
─ Quem disse que eu sou religioso?
Não consegui responder. Na verdade eu mal sabia
“quem” era Agenor. Talvez tenha imaginado que ele
era uma pessoa religiosa pela sua disposição em me
ajudar.
Agenor ficou um longo momento olhando para o
vazio escuro daquela madrugada fria. Seu semblante
transparecia uma profunda angústia que nada combi-
nava com o seu comportamento sempre equilibrado,
apesar de misterioso.
─ Falávamos sobre seu pai ─ falou finalmente
Agenor, tentando recomeçar a conversa.
─ Falar de meu pai sempre me entristece. Eu ain-
da era um menino quando tudo aconteceu. Já se passa-
ram tantos anos e eu não consigo esquecer.
─ Não adianta tentar esquecer, é necessário acei-
tar. Compreender é o único remédio capaz de aliviar a
dor da perda que traumatiza. Só com a mente serena
será possível desfrutar da saudade prazerosa dos mo-
mentos de felicidade, que você viveu junto com seu
80

pai ─ falou Agenor.


Talvez o velho tivesse razão. Eu precisava real-
mente fechar aquele buraco em meu peito. O silêncio
da noite me inspirou a falar:
─ Sinto falta de meu pai. Era um homem simples.
Não tinha posses, nem tampouco cultura. Mas era jus-
to e honesto. Assumia a responsabilidade pelo que a-
contecia à sua volta. O respeito a Deus antes de qual-
quer coisa, sempre norteou sua vida.
Mas eis que Deus o desamparou quando ele mais
precisava. Com os filhos ainda pequenos, ele caiu en-
fermo e nunca mais levantou. Uma estranha e impla-
cável doença atacou seus pulmões, prendendo-o a uma
cama pelo resto de seus dias. Viu minha mãe gastar o
pouco que tinha em busca da cura que nunca existiu. A
ajuda dos médicos acabou junto com o dinheiro. Tra-
vou sua batalha final em casa, ao lado da família, que
ele não podia mais prover o sustento, onde aguardou
resignado, a morte certa e infalível vir lhe buscar.
A angústia da espera teve seu ápice numa noite
em que fui acordado por minha irmãzinha aos prantos.
─ Marcelo. Papai está muito mal e mandou te
chamar ─ disse ela soluçando.
Vi mamãe ajoelhada ao lado da cama de meu pai
moribundo, segurando a máscara de oxigênio, que jun-
to com os tubos e o cilindro, fora a cruz que carregara
nos últimos meses. Ele, num esforço como se a mão lhe
pesasse cem quilos, acariciava o rosto dela, secando-
81

lhe as lágrimas.
Juntei-me a eles sentando na cama. Ao perceber-
mos que papai iria tentar falar algo, fizemos silêncio.
Minha mãe afastou a máscara que segurava junto ao
rosto dele.
─ Filho, agora é com você. Cuide de sua mãe e ir-
mã.
As palavras vieram separadas pelo visível sofri-
mento ao respirar. A frase, formada assim aos poucos,
lançou uma enorme responsabilidade sobre meus om-
bros. Peso demais para um menino de doze anos.
─ Deus o ajudará ─ disse papai, abrindo minha
mão e colocando nela uma pequena cruz de prata que
sempre o acompanhou.
─ Não pai... ─ foi só o que consegui dizer. Um
choro convulsivo atropelou o resto da frase.
─ Não chore filho, isso só faz aumentar meu pa-
decimento ─ falou meu sofrido pai com muito esforço.
Apertei com todas as minhas forças, aquela cruz
na palma da mão, tentando segurar o choro.
─ Pelo amor de Deus, chega ─ diz meu pai em-
purrando a máscara de oxigênio, que mamãe tentava
recolocar em seu rosto.
Vendo meu pai decidido a desistir da vida, com
seus olhos, apesar de tristes e cansados, revelando toda
sua lucidez e firmeza, não tive coragem de lhe pedir
82

que lutasse mais um pouco.


Aquela realidade escancarada em tão extremada
atitude comprimiu meu coração.
Mamãe, que já estava ajoelhada segurando a mão
dele próxima a seus lábios, começou a rezar murmu-
rando.
Por mais que apertasse a pequena cruz na palma
de minha mão, um gemido intermitente conseguia es-
capar por entre meus dentes travados. Juntava-se ao
choro de minha irmã, à reza de mamãe e à sofrida res-
piração ofegante de meu pai, formando uma triste sin-
fonia.
Não sei quanto tempo durou aquele tormento.
Custaram-me marcas e cicatrizes equivalentes a sécu-
los torturantes. Depois de se debater contorcendo todo
seu corpo já magro, numa agonia desesperadora, meu
pai deu seu último suspiro.
Enquanto um frio arrepiante percorreu minha es-
pinha, marcando na alma a gravidade do momento,
pude ver a vida abandonando seu corpo, esvaindo-se
junto com o pouco ar, que num último e desesperado
esforço ele conseguira inalar.
Mamãe, debruçada sobre seu peito, chorava in-
consolável. Minha pequena irmã gritava desesperada,
colocando a máscara de oxigênio no rosto inerte de pa-
pai.
─ Acorda pai. Não vai dormir agora. Não nos dei-
83

xe. Vamos, você consegue. Você vai melhorar ─ dizia


ela em meio a um choro que dilacerava o coração de
quem assistia.
O gemido que me escapava involuntário, aumen-
tou até virar um berro alucinante. Minha mão tremia
com a força que fazia, descontando na cruz toda minha
amargura.
Num gesto de desespero arremessei, em meio ao
meu grito, a pequena cruz contra a parede. Numa vio-
lenta explosão de revolta, reneguei o Deus de meu pai,
que o arrancara da família sem anestesia, dessa forma
tão sofrida.
─ Não chore, mana. Vou cuidar de você ─ falei a-
braçando minha irmãzinha, enquanto mamãe juntava
do chão a cruz de prata, torta e manchada com meu
sangue, oriundo da ferida aberta na palma de minha
mão.

Enquanto narrava minhas recordações a Agenor,


as palavras se transformavam em névoa branca, provo-
cada pelo vento frio da madrugada, que circulava no
meio das colunas daquela construção vazia e inacaba-
da.
A angústia me envolvera. Não consegui continuar
falando. Minha voz embargou. O choro daquela noite
ainda doía em meu peito. A triste lembrança da tragé-
dia criou um redemoinho à minha volta. Fiquei tonto.
84

─ Vamos. Está muito frio aqui. Precisamos nos


esquentar ─ falou Agenor, levantando-se num salto e
puxando-me pela mão.
O velho começou a fazer uma estranha ginástica,
pulando e batendo as mãos nas pernas e depois acima
da cabeça, com movimentos coordenados.
Mesmo com o velho insistindo para que eu o a-
companhasse, fiquei imobilizado.
Agenor estava patético. Aquela ginástica para a-
fugentar o frio era totalmente desproposital, fora de
hora e sem sentido.
─ Em quinze anos jamais contei essa história a
ninguém. Hoje finalmente resolvi abrir meu coração, e
é assim que você reage? É só isso que tem para me di-
zer? ─ perguntei ao velho desabafando minha mágoa e
decepção.
O semblante de Agenor se transformou rapida-
mente. Com movimentos lentos ele se aproximou tanto
que o seu nariz quase tocou o meu.
─ Essa ferida ainda está aberta ─ disse ele baten-
do em meu peito. ─ A sua realidade se tornou insupor-
tável. Por isso você se apega a fantasias e prefere colo-
car a culpa em Deus.
─ Claro! De que adiantou meu pai ser tão devoto a
Deus durante toda sua vida? Que morte mais estúpida
ele ganhou. O que mais me entristece é a certeza de
que ele precipitou o próprio fim, pois sabia que não
85

tínhamos mais dinheiro para lhe comprar os cilindros


de oxigênio que o mantinham atado à vida por aquelas
mangueiras. Que Deus é esse? ─ perguntei irritado.
Meu tom de voz se alterou sem que eu percebesse. A
revolta esboçada naquele discurso devolveu minhas
forças.
─ Isso! Assim mesmo! Perfeito ─ comemorou o
velho me dando tapinhas nos braços.
Só então percebi a manobra de Agenor. Quando
se levantou para fazer aquela estranha e ridícula ginás-
tica, o que ele queria na verdade era me arrancar da-
quele redemoinho de recordações e tristezas, que me
tontearam consumindo minhas energias.
Muito mais tarde percebi que Agenor tinha razão:
Negar Deus era meu escudo.
─ Venha. Vamos dominar o seu medo ─ disse ele
com pressa em mudar de assunto.
86

Capítulo 16

Os nossos medos tornam a realidade cada vez mais pe-


rigosa.

Atrás das escadas, no andar em que estávamos,


existia uma viga nas mesmas dimensões daquela que
eu não conseguira atravessar. Só que nessa, a laje pré-
moldada já estava encaixada. A diferença entre a viga e
o chão, não era maior que dez centímetros.
Agenor me fez caminhar sobre essa viga, de uma
coluna a outra por dez vezes, enquanto ele contava em
voz alta.

─ Pronto! Agora você pode atravessar ─ falou ele


ao retornarmos para a viga suspensa.
─ Claro que não! Aqui é diferente ─ falei já me
agarrando à coluna, com a vertigem a me tontear.
─ A única diferença está aqui ─ falou o velho en-
costando seu dedo em minha testa ─ Lá você acreditou
ser capaz de atravessar e conseguiu. Tenha fé e conse-
guirá aqui também.
─ Fé é conversa de religião.
─ Tem razão. Algumas pessoas conseguem até mi-
87

lagres através da fé. Mas você não precisa de tudo isso,


é só se apegar com o seu raciocínio lógico: se lá na ou-
tra viga você conseguiu passar dez vezes sem pisar na
laje, significa que seu risco de cair aqui é menor que
dez por cento.
─ Lá atrás não tem nenhum perigo. Passaria cem
vezes se fosse necessário.
─ Ótimo! Você vai repetir em voz alta: “O risco é
menor que um por cento”. Fale quantas vezes for pre-
ciso, até se convencer e atravessar ─ ordenou Agenor.
─ Isso é ridículo.
─ Não importa. Faça! ─ insistiu ele com voz áspe-
ra ─ repita comigo: O risco é menor que um por cento...
O risco é menor que um por cento...
Não quis deixá-lo falando sozinho e, mesmo em-
baraçado, pronunciei as palavras.
Formamos um estranho coro.

Aquela frase repetida assim se assemelhava a


uma oração. Lembrei da facilidade com que atravessei
a outra viga lá nos fundos, que não oferecia perigo por
estar rente ao chão. A imagem de Agenor atravessando
calmamente e com as mãos nos bolsos, ainda era forte
em minha mente. Ele tinha razão, não existia diferença
entre as duas vigas.
As palavras que repetíamos em voz alta, torna-
88

vam-se cada vez mais fortes em sua lógica. O descon-


forto foi cessando e, aos poucos, me acalmei. A coluna
do outro lado já não parecia tão distante. Respirei fun-
do tentando aspirar coragem do ar frio da madrugada
e, finalmente, resolvi arriscar.
Ao dar o primeiro passo meu coração disparou,
senti um nó apertando meu estômago.
─ Isso! Vamos, você consegue, é fácil ─ incentiva-
va o velho.
Empurrado por suas palavras e apoiado no cálculo
que ele me fizera repetir, atravessei finalmente aquela
viga.
Sem a elegância de Agenor é claro. Muito pelo
contrário, arrastava um pé de cada vez, andando meio
de lado, com os braços abertos a me equilibrar.
Meu medo transformara-se em um ser quase pal-
pável, que parecia pretender me derrubar. Murmuran-
do incessantemente a frase de Agenor, eu tentava apa-
gar da mente as terríveis visões de uma possível que-
da.
Agarrei afinal a coluna do outro lado com as mãos
trêmulas e suadas, apesar do frio daquela madrugada.
Não tive tempo para comemorar minha vitória. Vi
Agenor atravessando a viga, imitando meus movimen-
tos. Arrastava os pés, balançando os braços numa cari-
catura circense. Só que em seus gestos exagerados, o
palhaço refletido era eu.
89

Agenor, com sua original representação, trans-


formara-se num espelho vivo. Pude observar naquela
patética cena, meus medos, carências e fraquezas.
Os gestos do velho diziam mais que um incomen-
surável discurso. Sua primorosa encenação permitiu
observar-me despido de meus escudos.
Levei algum tempo para absorver todo o ensina-
mento contido naqueles breves instantes, que ajudari-
am a mudar o meu destino.

─ Você precisa aprender a enfrentar sempre os


seus medos ─ comentou Agenor ao terminar a traves-
sia.
─ Não exagere. Não querer atravessar correndo
riscos desnecessários, não me transforma num covarde
medroso.
─ Todos nós temos medos. Mas só é covarde a-
quele que não os enfrenta ─ explicou Agenor. ─ Temos
medo da fome e da pobreza. Temos medo de amar sem
sermos correspondidos. Temos medo da dor e das do-
enças, de não sermos respeitados, de sofrermos desilu-
sões, de fracassarmos, da solidão e da morte.
─ Você faz parecer que todos os problemas do
90

mundo nascem do medo ─ comentei enquanto seguí-


amos descendo as escadas, procurando na semi-
escuridão o que deveria ser a saída dos fundos daquela
construção.
─ Não, Marcelo. Durante muitos anos eu também
achei que o medo fosse a origem de todos os proble-
mas: O medo da pobreza nos tornando avarentos, o
medo de amar sem ser correspondido esfriando nossos
corações, o medo do fracasso inibindo uns, enquanto o
medo de não ser respeitado transforma outros tantos
em prepotentes orgulhosos.
Naquela época eu ainda não conseguia avaliar o
alcance do impressionante conhecimento de Agenor.
Um verdadeiro filósofo, buscando respostas para todos
os dilemas humanos. Ele ensinava com explicações
simples e experiências diretas, atingindo não só o meu
cérebro, mas também o meu coração.
─ O medo é o fruto que nasce da dúvida. Uma
desconfiança gera insegurança, que pode se tornar co-
letiva e causar até guerras. A dúvida semeia o medo,
que se enraíza na mente e alimentado pela fértil ima-
ginação gera frutos venenosos como o ciúme, a inveja e
o ódio entre outros que são os responsáveis pela dis-
córdia, que causa toda a desgraça humana.
─ Parece exagero valorizar tanto uma simples dú-
vida.
─ Será que Deus existe? Você pode destruir uma
vida, se conseguir semear essa dúvida na mente de
91

uma pessoa religiosa... Como o seu pai, por exemplo ─


falou Agenor com um estranho brilho triste em seu
olhar. Se eu não fosse tão despreparado, teria percebi-
do, naquele momento, a profundidade da sua tristeza.
─ Meu pai não precisou questionar a existência de
Deus para ter a sua vida destruída ─ falei com amargu-
ra.
─ Não faça nenhum movimento brusco ─ sussur-
rou o velho interrompendo nossa caminhada, quando
já estávamos próximos do portão da saída.
Segurando meu braço ele indicou com o olhar al-
go à nossa esquerda. Um rapaz com olhos arregalados,
trajando um uniforme de segurança, que apontava
uma arma com suas mãos trêmulas.
O que mais me afligiu não foi o susto que des-
compassou meu coração, e sim o medo estampado no
rosto do jovem guarda.
─ Como vocês entraram aqui? O que querem? ─
perguntou o espantado rapaz.
Não soube o que fazer ou dizer. Tive receio até de
respirar mais forte, e o medo do guarda causar alguma
tragédia. Ele estava visivelmente assustado e o tremor
de suas mãos poderia disparar a arma acidentalmente.
─ Boa noite guarda. Talvez você possa nos ajudar
─ falou Agenor largando meu braço e tirando a outra
mão do bolso calmamente. ─ Nós entramos pelo outro
lado fugindo de três delinqüentes que nos seguiam.
92

Pretendíamos sair por aqui e chamar a polícia.


Achei que o velho estivesse mentindo, e fiquei
preocupado com o final de nossa aventura, quando o
desconfiado segurança chamou a polícia pelo rádio.
Alguns minutos depois, cinco policiais em duas
viaturas, que espalhavam feixes de luzes colorindo a
madrugada, prenderam três marginais que haviam as-
saltado um casal naquela mesma noite. Na fuga, coli-
diram o carro roubado em um muro, a algumas qua-
dras de onde estávamos. Perambulavam no escuro pe-
las imediações à procura de outras vítimas. Agenor
percebera a presença deles na saída do restaurante, por
isso mudou nosso caminho.
Lembrei-me de tê-los visto de relance na saída do
restaurante. Uma chamativa jaqueta vermelha com ca-
puz, que um dos marginais usava, não consegue passar
despercebida, mesmo à noite. Mas, naquele momento,
eu estava tão contrariado com a discussão durante o
jantar, que não dei atenção a três pedestres bêbados.
As drogas e as bebidas alcoólicas são ingratas. No
princípio encorajam derrubando os escudos psicológi-
cos, mas depois cobram um alto preço: a lucidez.
A mesma embriaguez que no começo da noite
transformara os três impiedosos mal amados com uma
coragem bestial, agora lhes traía reduzindo seus refle-
xos e facilitando o trabalho dos policiais.
Movimentos bruscos, cassetetes, armas em punho,
gritos, mãos na cabeça, algemas e outras tantas trucu-
93

lências, tudo avermelhado pelas luzes das viaturas.


Quando visto pela televisão, a energia do trabalho
da polícia é criticada como uso excessivo da força, mas
visto assim ao vivo, parece mais o medo comum e
normal em qualquer homem, comandando os gestos
exagerados dos policiais que tentam demarcar territó-
rio e se defender como qualquer outro animal.
Alvoroçado e prestativo, o jovem vigilante estava
com o peito estufado pelo orgulho de ter cumprido o
seu dever.
Calado e cabisbaixo eu não me atrevi a fazer ne-
nhum comentário. Não saberia dizer o que me causava
mais vergonha, se não ter percebido antes absoluta-
mente nada do que aconteceu, ou ter acreditado que
Agenor pudesse mentir.
─ Os nossos medos tornam a realidade cada vez
mais perigosa ─ falou Agenor, quando a confusão aca-
bou.
94

Capítulo 17

Quem é você afinal?

Após muitos encontros em praças e parques de


Curitiba, uma forte e inesperada chuva convenceu fi-
nalmente Agenor a convidar-me para conhecer o seu
apartamento.
Enquanto o porteiro anuncia minha chegada a
Agenor pelo interfone, eu, deslocado naquele saguão
luxuoso, tento limpar o barro dos meus sapatos que
ofendiam o imaculado mármore, comum nos prédios
daquele bairro nobre.
Agenor me recebe com sua costumeira simpatia.
Percebi assombrado que o imenso apartamento parecia
ainda maior pela escassez de móveis. Um enorme cru-
cifixo ocupava com destaque o meio da parede da e-
norme sala. A discrepante decoração me deixou sem
palavras. A pouca mobília simples e rústica transfigu-
rava a sala.
Uma enorme estante guardava diversos livros. A
maioria era sobre filosofia, psicologia, misticismo e
religião.
─ Singular o seu apartamento. Sinto-me entrando
95

num mosteiro.
─ O apartamento não é meu ─ diz o velho ─ mas,
minha família insiste em que eu more aqui. Mantenho
essa decoração simples para não esquecer o que real-
mente é importante.
Ensaiei algumas perguntas com o intento de reve-
lar seus indecifráveis mistérios: Você mora sozinho?
Você é ou foi casado? Você tem filhos? Mas o silêncio
sorridente do velho não sucumbiu às minhas diligên-
cias.
─ Minha família é rica, mas eu prefiro viver com
austeridade ─ fala por fim Agenor. E como se com esse
comentário respondesse minhas perguntas, muda de
assunto sem saciar a minha curiosidade.
Estirados num monte de almofadas, conversamos
até o final da tarde, ouvindo a chuva fustigar os vidros
das enormes janelas. Os relâmpagos, vez por outra,
iluminavam a ampla sala.
Discutimos a evolução dos meus negócios a partir
de alguns gráficos que desenhei seguindo os seus con-
selhos. Agenor comentou que minha visão do mundo
estava mudando, ao ver as últimas fotos que tirei. Mas
passamos a maior parte do tempo rindo, enquanto con-
tava ao velho as trapalhadas do rapaz que eu contrata-
ra para me ajudar com a iluminação em minhas foto-
grafias.
96

Quando o barulho da chuva diminuiu, Agenor


ligou um aparelho de som portátil, de onde se ouvia
uma música instrumental suave.
─ Quem é você? ─ perguntou-me o velho.
Em outras épocas eu lhe teria dito meu nome
simplesmente, mas conhecendo Agenor há quase um
ano, preferi ficar em silêncio. Falando de forma suave,
ele pediu para que eu deitasse naquelas almofadas e
fechasse meus olhos.
Durante todos aqueles meses em que Agenor ten-
tava me ensinar a ganhar dinheiro, a maior parte de
nossas conversas eram sobre pensamento positivo, or-
ganização, motivação e outros conceitos que eu lia em
vários livros que ele me emprestava.
Mas o que realmente me impressionava em Age-
nor eram suas estranhas lições, compreendidas não só
com o raciocínio intelectual, mas sim absorvidas pelo
meu corpo todo. Com seu jeito misterioso e seus méto-
dos próprios, o velho conseguia, aos poucos, me trans-
formar em outra pessoa.
Agenor pediu para concentrar minha atenção em
sua voz e seguir o seu comando. A inusitada situação
me deixou acanhado. Deitado naquela enorme sala
com pouca luz, eu vacilei alguns instantes, mas minha
curiosidade acabou me convencendo.
─ Esqueça o resto de seu corpo e se concentre a-
penas em seus pés ─ orientava-me o velho. ─ Imagine
suas formas... Sinta seus dedos... Visualize cada deta-
97

lhe. Relaxe-os o máximo possível, como se você os des-


ligasse do resto de seu corpo... Pergunte a si mesmo:
Você é seu pé?... Agora imagine suas pernas...
A voz suave, quase sussurrada de Agenor me
conduziu a um profundo relaxamento. Mas minha
mente ficava cada vez mais agitada. Era impossível me
imaginar sendo meu pé ou perna. Conseguia seguir
suas instruções e visualizar meu estômago trabalhando
alheio a minha vontade, ou o meu coração como uma
bomba perfeita enviando vida para todas as extremi-
dades do meu corpo, mas meus pensamentos dispara-
vam atordoados, cada vez que o velho me perguntava:
Você é o seu pulmão? Você é o seu braço?
Agenor deve ter levado pelo menos meia hora fa-
lando de todas as partes do meu corpo. Quando ele
chegou à cabeça, pedindo-me para relaxar os músculos
de minha face, meu corpo todo já estava inerte.
─ Quem é você? ─ perguntou novamente o velho.
Minha mente procurava inquieta a resposta àque-
la cruciante questão. Pensar da maneira como Agenor
sugeriu me deixou num embaraçoso impasse: Todo
meu corpo parecia uma série de acessórios, e com cer-
teza apodreceriam quando eu morresse. Mas se “eu”
não era o meu corpo, o que seria então?
A excitação que crescia à medida que eu não en-
contrava a resposta, me deixou tonto.
─ Imagine uma luz envolvendo todo o seu corpo
─ falou Agenor.
98

Consegui imaginar e até sentir com clareza o que


o velho sugeriu. Eu, em forma de luz viajando como
passageiro no meu próprio corpo.
Ampliando a incoerência daquela situação, me
sinto balançar e girar para todos os lados, mesmo sa-
bendo que meu corpo estava imóvel no chão daquele
apartamento. Tal suposto movimento me causou náu-
seas.
─ Quem é você? ─ insistiu Agenor.
Apesar da tontura que me provocava ânsia, eu não
queria mexer um músculo sequer, com receio de que-
brar aquele encantamento.
Experimentava a fantástica sensação de estar fora
do meu corpo físico quando ouvi assustado, Agenor
perguntando aos gritos e me sacudindo pelos ombros:
─ Quem é você, afinal?
Sobressaltado, abri meus olhos, mas não compre-
endi instantaneamente o que vi: a menos de um palmo
de distância um rosto aparentemente estranho, me o-
lhando assustado. A imagem estava embaçada, talvez
por eu ter ficado tanto tempo com os olhos fechados.
Meu coração descompassado me avisava de algum
perigo iminente. Quem estaria ali tão próximo a meu
rosto?
Aos poucos a silhueta desfigurada tomou forma.
Admirado constatei, atrasado, que o estranho assusta-
dor era simplesmente meu rosto amedrontado, refleti-
99

do no espelho que Agenor segurava à minha frente.


O velho desmoronava aos poucos minha dúbia
realidade, e ainda tinha o requinte de mostrar meu as-
sombro refletido.
Afrontado pelo meu próprio olhar, atordoado e
com os reflexos lentos, demorei a perceber que Agenor
ria zombando vitorioso.
─ Marcelo, eu te apresento este completo desco-
nhecido ─ falou o velho ainda a rir, me apontando o
espelho.
Tentei falar, mas não consegui coordenar meus
pensamentos.
─ É melhor não falar nada ─ disse Agenor perce-
bendo o meu dilema. ─ Se tentar converter em pala-
vras a experiência que acabou de viver, toda a força
emotiva que você conquistou se esvairá.
Agenor se retirou por alguns minutos. Meu olhar
tentou acompanhá-lo, mas o magnetismo da cruz no
meio da sala me entorpeceu.
Sozinho olhando o crucifixo na parede daquela
sala, onde a luz do final da tarde já perdia a batalha
para as sombras da noite, tentei controlar um tremor
convulsivo que estremecia meu corpo todo. Não en-
tendia o que tinha acontecido. Talvez o velho tivesse
me hipnotizado.
Todas as coisas em que eu sempre acreditei, fo-
ram questionadas de forma contundente pelo astuto
100

Agenor. O pavor de ver meu mundo racional desabar,


se emaranhava com a exultação de constatar que a rea-
lidade poderia ser muito mais ampla do que jamais
pude imaginar. A sensação de estar fora do meu corpo
físico, mesmo breve, me deixou desconcertado. Não
conseguia desviar o olhar daquela enorme cruz.
Meu esforço em tentar entender o episódio só ser-
via para aumentar a tremedeira. Vencido, desisti de
pensar sobre o ocorrido. A calma voltou aos poucos e o
tremor cessou.

Depois de saborearmos um chá com biscoitos que


Agenor preparou, voltamos a conversar.
Ele me proibiu de falar sobre o acontecimento da-
quela tarde. Explicou que mesmo os poetas não conse-
guem traduzir totalmente os sentimentos em palavras,
tanto que só é capaz de compreender inteiramente um
poema, quem já tenha vivido as emoções sobre as
quais os versos falam. E que se eu tentasse converter
em palavras o que aconteceu comigo, com o tempo a-
creditaria mais na minha pobre descrição vazia, do que
na experiência real.
Com a mente quieta, ouvia as explicações do ve-
lho em silêncio. Ele amarrou em meu pulso direito
uma fita vermelha, e disse que eu deveria lembrar a-
quela sensação “quem sou eu”, cada vez que olhasse
para a pulseira. Falou que eu vivia adormecido e reagia
sempre de forma mecânica a estímulos externos, e que
101

aquela fita no meu pulso seria meu despertador.


Agenor falou que os cachorros e outros animais
podem ser adestrados, justamente por “reagirem” a
estímulos externos. E que cabe ao verdadeiro homem
“agir” pela sua própria força de vontade ao invés de
apenas reagir.
─ Você precisa decidir o que quer da vida, se
comprometer e ir à luta. Não fique esperando a fome
bater em sua porta ─ concluiu Agenor.
Reanimado comecei a falar questionando e ten-
tando entender melhor o que ele acabara de dizer, mas
percebendo meu restabelecimento o velho mudou
bruscamente de assunto, voltando a falar sobre as pe-
ripécias do meu desastrado ajudante. Após rirmos
mais um pouco com as histórias que eu havia contado
sobre meu recém contratado auxiliar, Agenor muda o
tom de voz e com rispidez me censura:
─ Você mal conhece esse rapaz, tenha mais paci-
ência.
─ Não havia maldade nos comentários que eu fiz
─ tento me justificar.
─ Você tem que perdoá-lo, dar tempo para ele
crescer.
Fiquei irritado com as descabidas censuras de A-
genor. Argumentei que me considerava paciente com
todas as pessoas à minha volta, e que acreditava no po-
tencial do rapaz, a quem eu daria o tempo necessário e
102

ensinaria o que fosse possível para torná-lo um bom


fotógrafo. Desabafei enfim a minha mágoa pela errô-
nea interpretação que Agenor dera aos comentários
inocentes que eu fizera naquela tarde.
─ Você seria capaz de perdoá-lo pelas falhas que
ele comete? ─ perguntou o velho.
─ Claro! Ele não tem a intenção de errar.
─ Você daria mais uma chance ao seu auxiliar?
─ Ele é um bom rapaz, justo, honesto e com von-
tade de aprender. Eu lhe darei quantas chances for ne-
cessário, até o seu potencial florescer.
─ E quantas vezes você seria capaz de perdoar, e
quantas novas chances você daria a “este” seu desco-
nhecido? ─ perguntou Agenor, colocando na minha
frente o espelho que ele usara algumas horas antes.
Agenor conseguiu novamente. Eu, desarmado e
sem ação, com a boca aberta, mas sem palavras, fico
imóvel a encarar meu próprio rosto refletido naquele
espelho.
─ Por quantas vezes você foi impaciente e intran-
sigente consigo mesmo durante toda sua vida? ─ per-
guntou-me o velho.
Talvez a amargura tenha afetado minha vida mui-
to mais do que eu imaginava. Aprendi com meu pai a
assumir a responsabilidade. Minha arrogância sempre
rejeitou a ajuda que os outros ofereciam. A teimosia e
a falta de humildade tornaram meu fardo quase insus-
103

tentável.
─ Está na hora de você se aceitar como é. Conce-
der-se o tempo necessário para seu próprio crescimen-
to. Seja mais amável, tolerante e paciente consigo
mesmo, e, principalmente, acredite no ser humano que
você pode vir a se tornar ─ disse o velho.
Uma lágrima cintilava no olho refletido. Eu que
achava a vida injusta, percebo agora que sempre fui
meu próprio carrasco.
─ Você precisa aprender a se gostar, e deixar fluir
o que tem de melhor em seu coração ─ sentenciou A-
genor. ─ Só assim estará preparado para aprender a
amar os outros e ajudá-los também a externar o que
eles têm de melhor.
Quando Agenor tirou o espelho da minha frente,
a cruz continuava lá atrás pendurada imóvel na parede
a me observar.
104

Capítulo 18

Alegrias intensas e tristezas marcantes constituem a


nossa história.

Os princípios e conceitos que constituíam o co-


nhecimento transmitido pacientemente por Agenor,
mudaram aos poucos minha atitude e a maneira de en-
frentar as dificuldades. Mas, apesar de viver muito
mais tranqüilo, meus problemas continuavam os
mesmos.
Não obstante a aparente insatisfação com meu
lento progresso, o insistente Agenor, firme em seu
propósito, dedicava algumas horas toda semana para
me ensinar.
Nunca me ocorreu que existisse uma razão espe-
cial para conversarmos sempre em lugares diferentes,
105

previamente escolhidos por ele, até o dia em que o ve-


lho marcou nosso encontro no maior cemitério da zona
norte da cidade.
─ Preciso quebrar sua rotina. Você é tão mecânico
que já estava se acostumando com os parques e praças
─ justificou Agenor ao notar minha surpresa.
Na entrada do cemitério, enquanto estacionava o
carro, Agenor encontrou alguns amigos que o trataram
com uma simpatia exagerada, quase beirando a vene-
ração.
O carisma de Agenor exercia um incrível fascínio
sobre as pessoas. Lembrei-me de quando visitou mi-
nha casa. Depois de conhecer meus familiares e brin-
car com meus filhos, passou horas conversando com
minha mãe.
Notei naquele dia uma troca de olhares de cum-
plicidade entre os dois, quando Agenor guardou rapi-
damente em seu bolso algo que ganhara de minha
mãe.
“Que homem bom!” Repetia ela extasiada após o
encontro.
Agenor, aos olhos de minha mãe era um homem
comum. Mas o mistério que fazia sobre sua vida pes-
soal me aguçava a curiosidade, transformando-o, em
minha imaginação, em uma interrogação ambulante.
Sentados numa lápide, na parte mais alta do cemi-
tério, conversamos longamente.
106

O vento balançando as árvores, o canto dos pássa-


ros, o cheiro das flores e aquele mar de túmulos e cru-
zes à nossa frente, formavam realmente uma paisagem
fora da minha rotina.

─ Quantas vezes você conseguiu lembrar o que


combinamos? ─ perguntou Agenor apontando a fita
vermelha em meu pulso.

─ Não tive dificuldades em lembrar várias vezes


de me perguntar quem sou eu, mas tal insólita atitude
me pareceu sem finalidade ─ respondi, tentando ar-
rancar mais informações sobre aquele estranho com-
portamento.

Pensativo, Agenor me encarava mordendo seu lá-


bio inferior. Eu já me preparava para levar uma bron-
ca, mas o velho manteve sua serenidade.

─ O que você viveu naquela tarde no meu apar-


tamento, não foi controlado e não pode ser explicado
pelo seu cérebro. Não adianta simplesmente pergun-
tar, você tem que “sentir” a mesma sensação daquele
dia.

Agenor explicou que só vivemos realmente os


momentos carregados de emoções. Alegrias intensas e
tristezas marcantes constituem a nossa história. Na
maior parte do tempo adormecemos e, reagindo numa
rotina mecânica, simplesmente sobrevivemos.
107

─ Tente lembrar-se de algo marcante em seu pas-


sado ─ pediu-me o velho.

Lembrei de um acidente de moto, onde por muita


sorte não me machuquei. Mas Agenor não se conten-
tou com um simples relato, queria saber detalhes. Per-
guntou até as cores do capacete e das roupas que eu
usava no momento da colisão.

Apesar de o acidente ter ocorrido há mais de três


anos, consegui lembrar todos os detalhes. O susto e o
nervosismo permaneciam claros em minha mente. A-
inda conseguia ver o pavor nos olhos do motorista que
me atropelou.

─ O que você fez um dia antes do acidente? ─


perguntou-me Agenor.

Uma lacuna escura se abriu em minha memória.


Por mais que me esforçasse não conseguia lembrar na-
da da véspera do acidente.

─ E o que aconteceu um dia depois? ─ insistiu


perguntando Agenor.

Fechei os olhos tentando visualizar, mas não vis-


lumbrei nenhum resquício sequer de lembranças do
dia posterior ao atropelamento.

─ Você pode empreender esforços para acordar de


108

seu sonambulismo mecânico ─ falou solenemente A-


genor ─ abrir seu coração, viver intensamente todos os
momentos, se emocionar com a vida abundante à sua
volta, sentir arrepios ao receber um doce sorriso de
uma criança... Ou esperar ser atropelado novamente
para ter o que lembrar.

Capítulo 19

Seguindo a intuição, rasguei a receita da felicidade.

Agenor sempre achava um jeito de sacudir mi-


nhas idéias. Às vezes, a conversa até parecia ter uma
direção mais amena, com uma didática comum. Como
no dia em que conversávamos no Jardim Botânico,
disputando espaço com os turistas e suas câmeras fo-
tográficas, e eu reclamei da dificuldade para se viver
109

de forma tranqüila.
─ Construa a sua vida sobre pilares ─ falou Age-
nor.
Ele explicou que para viver tranqüilo é necessário
equilíbrio. Sugeriu considerar a vida como uma cons-
trução, sustentada por quatro pilares: amor, família,
trabalho e religião. O sonho seria o quinto pilar, que
além de estepe serviria também para impulsionar a
pessoa.
Esclareceu que amor deveria ser a grande paixão
de nossa vida, uma mulher que inspire todo nosso ro-
mantismo. Trabalho tem que ser algo feito com prazer.
Família são também os amigos, não só os parentes. Re-
ligião não é só freqüentar uma igreja, é necessário sen-
tir Deus no coração. O sonho não deve ser uma fanta-
sia intangível, e sim algo concreto que sirva de motiva-
ção para a luta diária, e assim que você consiga realizá-
lo, deverá ser substituído por outro. É importante ter
sempre um objetivo na vida.
O velho exemplificou sua teoria me pedindo para
imaginar uma pessoa que centrasse sua existência so-
bre um único pilar. O apaixonado que perdesse sua
companheira cometeria uma loucura. O viciado em
trabalho ficaria neurótico quando desempregado. O
religioso se tornaria um fanático insuportável. Quem
vive somente em função da família, quando ficar sozi-
nho se sentirá rejeitado. Contudo se você perder a
grande paixão de sua vida, mas tiver seu trabalho, seus
amigos e um sonho para realizar, com Deus em seu
110

coração, provavelmente irá superar qualquer trauma.


Entusiasmado resolvi anotar o que parecia ser a
receita da felicidade.
─ O único problema é que se você tivesse essas
informações antes de ser despedido daquele seu em-
prego, não estaria aqui tentando se tornar uma pessoa
melhor ─ falou Agenor.
Fiquei sem ação olhando para o pedaço de papel
onde eu anotara o resumo da teoria recém esplanada.
O velho tinha razão, foi o desespero que me levou a
aceitar seu desafio.
Agenor explicou que todo ser humano é como um
diamante bruto, precisa ser lapidado. Por isso, de nada
adianta se esconder num mosteiro, ou criar uma socie-
dade alternativa no meio da selva ou numa ilha distan-
te. É no contato contínuo que nossos defeitos se esbar-
ram e temos a oportunidade de melhorarmos. Você
pode passar a vida inteira condenando a violência, mas
só quando sua família for atingida é que saberá quanta
raiva carrega em seu coração.
─ As pessoas à nossa volta são nossos espelhos.
Ao invés de criticá-las, deveríamos procurar em nós
mesmos os defeitos que elas refletem ─ discursava o
velho. ─ Os pilares equilibram, mas também podem
servir como amortecedores, reduzindo o impacto dos
choques de consciência que redirecionam nossas vidas.
Quedas violentas trazem também a chance de nos su-
perarmos evoluindo.
111

Olhei para o pedaço de papel e depois para o ve-


lho, tentando achar uma solução para a confusão con-
traditória que Agenor, com seu discurso, estabeleceu
em minha mente.
─ Essa é a melhor parte. Nós somos livres para es-
colher ─ falou Agenor dando uma sonora gargalhada.
Seguindo a intuição, sem entender direito a razão,
rasguei a receita da felicidade.

Capítulo 20

O esplendor luminoso sobreviverá à sua morte física.

No encontro da semana seguinte, a estranha estra-


tégia de Agenor para fugir da rotina, nos levou a almo-
çar sanduíches na lanchonete do parque Tanguá. Um
antigo conjunto de pedreiras transformado numa be-
líssima área de lazer.
Após o almoço, o velho me ajudou a escolher al-
112

gumas fotos para uma exposição que ele conseguira na


agência de um banco em que um amigo seu era geren-
te. Não me traria retorno financeiro, mas uma publici-
dade gratuita sempre era bem vinda.
Agenor tornou a falar sobre a fita vermelha em
meu pulso. Disse que mesmo não entendendo os mo-
tivos, era muito importante que eu seguisse à risca su-
as instruções. Pediu-me para, a partir daquele dia, dar
um pequeno pulo cada vez que eu me perguntasse
“quem sou eu”. E que toda noite antes de dormir, eu
deveria tentar lembrar tudo que fiz durante o dia.
Relutei em aceitar as orientações. Se já era estra-
nho andar com aquela escandalosa pulseira vermelha
perguntando quem sou eu, imagine então dar pulinhos
em público.
─ Use sua criatividade, disfarce, dê um jeito, não
importa como, mas faça! Precisamos te acordar ─ falou
Agenor com energia.
─ Não me incomodo em fazer o que você está pe-
dindo, mas gostaria de entender como isso vai me aju-
dar a ganhar dinheiro ─ falei justificando minhas re-
clamações.
─ O que é necessário saber para ganhar dinheiro,
está nos livros que te emprestei. Agora é preciso des-
pertar e descobrir que você é muito mais do que o seu
corpo físico. Você precisa ampliar a sua consciência,
elevar o seu “nível de ser”.
Agenor explicou que as pessoas se comparam pe-
113

lo que sabem e pelo que possuem. Existem graduações


para medir o nível de saber, do primário à faculdade. E
também podemos identificar alguém pelas suas posses
em várias classes sociais. Mas o que realmente importa
é o nível de ser. De nada adianta morar em mansões,
com certificados das melhores universidades, se a pes-
soa é mesquinha, egoísta, medíocre e não sabe amar.
Um abismo intransponível separava a sabedoria e
a experiência de Agenor da minha limitação e estupi-
dez. Sentia-me reduzido, como se não pudesse enxer-
gar um palmo à frente de minha ignorância. A angús-
tia e a tristeza cresciam pesando em meus ombros caí-
dos.
─ É tão difícil... ─ Não consegui formular a frase,
a depressão turvou meus pensamentos e confiscou mi-
nhas palavras.
Percebendo o meu desânimo, Agenor me convida
para passear pelo parque.
Caminhando devagar, contornamos o lago e en-
tramos por uma passagem subterrânea escavada nas
rochas. As sombras do túnel contrastavam com o sol da
tarde, e a água que escorria das paredes úmidas, se
desprendia do teto em pingos, que despencavam cinti-
lantes, até explodirem em várias gotículas brilhantes,
no chão de uma passarela feita em madeira que termi-
nava dentro do lago, onde paramos encostados nos
troncos de proteção das laterais da plataforma.
A tristeza profunda não me impediu de admirar a
114

queda d’água que se precipitava lá de cima, caindo


rente a um paredão de pedras, até chegar barulhenta ao
nível em que estávamos, quase quarenta metros abai-
xo.
Enquanto eu, absorto, olhava as nuvens brancas
passeando devagar no céu azul, Agenor explicava que
a consciência pode ser definida como uma luz interior.
Em todos os momentos de nossa vida ela nos avisa se
nossas atitudes estão certas ou erradas. O livre arbítrio
nos permite decidir se a ouviremos ou não. Quem ten-
ta abafá-la, infelizmente consegue, e se torna cada vez
mais frio e cruel, vivendo nas sombras, sempre arran-
jando desculpas para justificar os seus erros. Mas se
você escutar a voz de sua consciência, ela falará mais
alto, tornando essa luz cada vez mais resplandecente, e
ficará fácil segui-la, transformando-se numa pessoa
melhor.
Agenor discursava apoiado nos troncos de prote-
ção da plataforma, contemplando o lago. A coerência
em seus argumentos comprimia meu coração. Não pela
lógica do assunto específico, mas pela distância que
existia entre sua sabedoria e meu total despreparo.
─ Por que você perde seu tempo comigo? ─ per-
guntei com a tristeza dificultando minha fala.
Agenor se aproximou e atento procurava alguma
coisa em meus olhos marejados.
─ Porque eu acredito em você.
─ Eu sou tão... despreparado ─ falei tentando ex-
115

primir meu sentimento de inferioridade.


─ Para se tornar um grande atleta você precisa de
aptidões físicas específicas. E algumas profissões exi-
gem capacidades intelectuais especiais que podem ser
medidas por um teste de inteligência. Mas para se tor-
nar uma pessoa melhor, basta somente a sua força de
vontade.
─ Sua ampla visão do mundo e a sabedoria em
suas palavras me fazem sentir tão... pequeno ─ mur-
murei cabisbaixo.
─ Se você realmente confia na minha sabedoria,
preste atenção ─ falou o velho agarrando meu rosto
com as duas mãos e forçando-me a olhar em seus o-
lhos.
─ Eu acredito em você! ─ repetiu Agenor com ên-
fase.
Confiando em Agenor, agarrei-me em suas pala-
vras, como quem agarra uma tábua de salvação no mar
de dúvidas e incertezas em que eu vivia. A angústia
apertou minha garganta, enquanto em meus olhos bri-
lhavam a gratidão, pelo conforto daquela amizade sin-
cera, apesar de misteriosa.
─ Ouça a voz de sua consciência. Alimente a luz
que irradia de seu peito. Chegará o dia em que seu bri-
lho intenso o impedirá de cometer erros. Seu ego será
sobrepujado e o esplendor luminoso sobreviverá à sua
morte física.
116

Capítulo 21

O que existe de melhor no ser humano está no sentimen-


to e não no intelecto.

Na semana seguinte, nos encontramos na Praça


Santos Andrade, que estava muito tranqüila naquela
tarde de sábado. Conversamos longamente, inclusive
sobre o sucesso da exposição de fotos na agência ban-
cária.
Discutíamos sobre o apego à matéria, quando A-
genor tentava me convencer que eu poderia viver me-
lhor se valorizasse menos o dinheiro, o conforto mate-
rial e os prazeres do mundo.
─ Se você nunca experimentou o amargo sabor do
pânico desesperado de não poder saciar a fome de seu
filho, também não está preparado para falar de apego
material ─ falei indignado.
Agenor me olhou franzindo as sobrancelhas, as-
sustado com meu rompante exasperado.
─ Você já sentiu vergonha de encarar o seu filho?
117

─ perguntei tentando justificar meu aborrecimento.


Não considerava prudente afrontar o velho, afinal
de contas foi seguindo seus conselhos que eu conse-
guira chegar até ali. Meu progresso era lento, mas real.
Quando o encontrei eu estava desempregado e sem
perspectiva de futuro, e hoje possuía meu próprio es-
túdio fotográfico.
Sempre ficava apreensivo quando Agenor mordia
seu lábio inferior. Depois de me olhar pensativo por
alguns instantes, ele ordenou que eu o aguardasse e se
retirou.
Aflito, permaneci sentado sozinho no banco da-
quela praça, durante o breve espaço de tempo em que
o velho esteve ausente. Teria ele se ofendido com
meus comentários?
Em todos esses meses eu nunca o afrontei, mas
não podia ficar indiferente, já que para ele era muito
fácil falar sobre desapego à matéria, pois sempre foi
rico. Não vivenciou a agonia da miséria e o martírio da
privação.
Agenor voltou momentos depois com um pacote
nas mãos.
─ É desse que você falou que mais gosta? ─ per-
guntou o velho entregando-me uma barra de chocolate
com frutas cristalizadas.
─ Abra! ─ falou ele percebendo meu embaraço.
A visão daquele delicioso chocolate despertou
118

meu apetite.
─ Agora jogue fora ─ ordenou o velho.
Parei com a boca aberta quando já estava pronto
para abocanhar o presente. Olhei para Agenor sem na-
da entender. Não consegui fechar a boca, que salivava
com o desejo despertado pelo meu chocolate predileto.
─ Vamos, jogue fora ─ insistiu Agenor me apon-
tando um cesto de lixo à nossa direita.
Atordoado com a inesperada e incoerente imposi-
ção do velho, eu fiquei parado e quieto.
─ O que existe de melhor no ser humano está no
sentimento e não no intelecto ─ explicou Agenor. ─
Você precisa superar o apego com a matéria, para co-
nhecer seus sentimentos mais nobres.
─ Eu não consigo entender a razão para esse des-
perdício ─ falei.
─ Para você se conhecer melhor não adianta usar
somente seu raciocínio. Jogue o chocolate no lixo, e
observe o seu sentimento. É em situações extremas que
manifestamos o que realmente somos ─ falou Agenor.
Mesmo contrariado, levantei e caminhei até o ces-
to de lixo. Um enorme desconforto me impedia de jo-
gar o chocolate fora. Agenor assistia meu impasse, sen-
tado no banco da praça, sem falar nada. Se fosse uma
outra coisa qualquer talvez conseguisse, mas desperdi-
çar comida era contra meus princípios.
119

Finalmente desisti. Atravessando a rua entreguei


o chocolate a um garoto, que tentava ganhar alguns
trocados cuidando dos carros que estacionavam.
O largo sorriso de gratidão do menino conseguiu
dissipar o constrangimento criado pela minha derrota
em não conseguir fazer o que Agenor me pediu.
─ Foi um bom começo ─ falou Agenor.

Tudo que Agenor me ensinou, apesar de seu mé-


todo peculiar, sempre era coerente e lógico. Mas nas
últimas semanas sua excentricidade extrapolou os li-
mites do aceitável. Perguntava sobre o que eu sonhava
durante a noite, sempre querendo saber se eu não tive-
ra experiências estranhas. E aquela bizarra fita verme-
lha, que ele amarrou em meu pulso, a me lembrar que
eu deveria cumprir suas extravagantes e malucas ori-
entações.

Na semana seguinte nos encontramos na mesma


praça, e conversamos sentados no mesmo banco. Foi
neste dia que presenciamos a desesperada e inusitada
luta do mendigo contra o seu agressor.
Depois da nossa conversa e da experiência que ti-
ve no mirante, quando meu grito ecoou no lago, mudei
120

de atitude. A confiança em minhas possibilidades


transformou definitivamente minha vida.
Mas surpreso ouvi Agenor dizer que foi somente
uma coincidência. Que ele não sabia que aquilo iria
acontecer naquela tarde, e que eu deveria continuar
fazendo as estranhas coisas que ele me pediu, até o fi-
nal de semana seguinte, quando iríamos voltar ao Sal-
to dos Macacos.

Capítulo 22

O que Agenor quis dizer com “dois desafios”?

O dia já estava para nascer, mas a sombra da noite


ainda não havia se dissipado quando partimos com
destino ao Salto dos Macacos, onde tudo havia come-
çado.
Menos de uma hora depois, Agenor estacionava o
carro em um dos recantos da charmosa Estrada da Gra-
ciosa, para apreciarmos o nascer do sol.
121

A Graciosa é uma rodovia secular, com o seu cal-


çamento de pedras, construída no caminho que era u-
sado pelos índios, que liga o planalto onde está locali-
zada a cidade de Curitiba, a novecentos metros do ní-
vel do mar, descendo vertiginosa até o litoral, numa
seqüência incrível de curvas e panoramas maravilho-
sos, com churrasqueiras, sanitários, quiosques para
venda de produtos típicos e mirantes descortinando
paisagens espetaculares.
Um cenário perfeito para contar ao velho as boas
novas: durante a semana que passou, um empresário
que visitou a exposição de fotos na agência bancária,
se interessou pelo meu trabalho e me propôs pagar pe-
los direitos autorais, para incluí-las em um banco de
imagens na internet.
Eu ainda estava sob o efeito daquela sensação de
poder que senti, com o grito que dei no mirante do
Passaúna, enquanto negociava um contrato que ante-
cipava exclusividade em futuros trabalhos. Mal pude
crer no valor que ofertaram para cada foto selecionada.
Faria mais dinheiro em uma única fotografia, do
que costumava ganhar cobrindo toda uma festa de ca-
samento. Minha independência financeira finalmente
foi conquistada. A partir de agora eu poderia fazer so-
mente o que gosto e ainda assim ganhar dinheiro com
isso.
Enquanto contava meu sucesso a Agenor, aprovei-
tava a máquina fotográfica de meus sonhos, que aca-
bara de comprar, para fazer fotos daquele belíssimo
122

cenário, pensando nas encomendas que meu novo cli-


ente fez. Foi só quando enfoquei o rosto de Agenor
pela minha objetiva, que percebi seus olhos marejados
brilhando ao sol que raiava amarelando a paisagem.
Eu, que até então falava e fotografava sem parar,
calei abaixando a câmera devagar. Fiquei surpreso com
a emoção estampada nos olhos de Agenor.
─ Parabéns! O primeiro dos dois desafios você
venceu ─ falou o velho visivelmente comovido.
A empolgação pelo sucesso, e a euforia por saber
que não passaria mais privações financeiras, me fize-
ram esquecer por instantes que o mérito pela minha
vitória era de Agenor.
─ Devo tudo a você ─ falei agradecendo.
Uma inquietação agitou novamente meus pensa-
mentos. Por que ele me ajudava? O que eu teria feito
para merecer tanto empenho e dedicação? O que ele
quis dizer com “dois desafios”?
123

Capítulo 23

Hoje o seu despertador terá que funcionar!

Descemos a Serra do Mar pelas intermináveis


curvas da Estrada da Graciosa. Atravessamos a ponte
metálica em Porto de Cima, e seguimos uma pequena
estrada que margeava o rio, até o ponto em que faría-
mos a travessia. Agenor estacionou seu carro, como da
outra vez, na sombra da mesma enorme árvore.
Eu estava preocupado. Nunca atravessei o rio com
tanto frio. Já era quase final do outono, a água deveria
estar gelada.
Agenor voltou a falar sobre a fita vermelha em
meu pulso, enquanto apanhávamos as mochilas, de-
pois que estacionou o carro.
─ Hoje seu despertador terá que funcionar ─ fa-
lou o velho de forma misteriosa.
Resolvemos lanchar antes de atravessar o rio, e
para minha surpresa o velho me proibiu de tomar
qualquer tipo de líquido durante o dia.
─ Cada vez que você sentir sede, olhe para a fita
em seu pulso, pergunte a si mesmo “quem sou eu”, e
dê um pulo como se fosse tentar sair voando ─ instruiu
Agenor.
124

─ Eu não consigo entender onde isso poderá me


levar ─ falei com a intenção de extrair alguma explica-
ção do velho.
─ Você precisa quebrar o seu constante reagir me-
cânico, e descobrir que a realidade não é somente o
que pensa ─ falou Agenor.
─ Morrer de sede não fazia parte de meus planos
─ reclamei.
─ Precisamos fazer isso hoje, por que nem a fita
esta resistindo à sua teimosia ─ falou o velho se refe-
rindo ao precário estado da fita vermelha em meu pul-
so. Desbotada pelo tempo e se desfiando, parecia que
iria se arrebentar a qualquer instante.
Agenor explicou que enquanto dormimos, nossa
mente fica livre e repete nos sonhos o que fazemos
quando estamos acordados. Como eu era muito mecâ-
nico, apegado à rotina, ele precisava primeiro me acor-
dar durante o dia, para depois conseguir despertar mi-
nha consciência durante o sono.
Ele acreditava que se eu repetisse muitas vezes
durante o dia o que me pediu, acabaria despertando no
meio de meu sonho. Mas como nada aconteceu nos úl-
timos meses, Agenor resolveu que deveríamos vir ao
meu lugar preferido, e adicionar um forte desejo como
um novo ingrediente à sua receita. Após um dia inteiro
sem água, minha sede deveria ser grande o suficiente
para me acordar.
Depois de nos abastecermos com sanduíches, que
125

desceram com dificuldade pela minha garganta seca,


atravessamos o rio, por um caminho que eu não conhe-
cia, que ficava a quinhentos metros abaixo do local
onde eu sempre atravessava. Ali o rio bifurcava, for-
mando uma pequena ilha no meio.
A água estava realmente muita gelada, mas o de-
safio foi dividido em duas etapas. Atravessamos o rio
sem dificuldades e molhamos somente nossas pernas.
126

Capítulo 24

A vida é manhosa e não vai lhe pagar o que você pede, e


sim o quanto você acha que vale.

O percurso até a cachoeira foi tranqüilo apesar de


cansativo. Caminhamos sem pressa apreciando o pas-
seio. Pequenas nuvens de neblina no meio das árvores,
rasgadas pelos raios de sol teimosos em furar o blo-
queio da mata fechada, formando belíssimos feixes de
luz a iluminar enormes teias de aranhas com gotas de
orvalho brilhante, que serviam como pano de fundo
para o espetáculo proporcionado por alvoroçadas e co-
loridas borboletas, com graciosos beija-flores, vez por
outra roubando a cena em breves vôos, esbanjando
técnica e perfeição.
A sede cumpriu à risca os planos de Agenor, for-
çando-me a olhar para a fita vermelha várias vezes du-
rante o percurso. Perguntar quem eu era me causava
uma bizarra sensação. Sentia-me deslocado ali no meio
do nada cercado pela floresta, longe da civilização,
com um amigo em quem aprendi a confiar plenamen-
te, mesmo sem sequer saber seu sobrenome. Mas o que
mais me desconcertava era ter que dar aqueles ridícu-
los pulinhos.
127

Apesar do frio, o dia estava ensolarado e com um


céu profundamente azul, tornando ainda mais fantás-
tico o espetáculo daquelas águas e sua eterna luta con-
tra as rochas. Desta vez não houve disputa para ficar
com a plataforma. Quem mais seria excêntrico o bas-
tante para se aventurar naquela floresta com o frio que
fazia?
Enquanto armávamos a barraca, eu, animado com
a nova perspectiva financeira, voltei a falar sobre o
rentável contrato assinado durante a semana que pas-
sou.
─ Tantos meses de luta e a solução surgiu de onde
eu menos esperava. Meu mundo mudou depois da ex-
periência que tive com o mendigo naquela tarde ─ co-
mentei.
─ O mundo continua o mesmo. Sua atitude é que
mudou.
Agenor esclareceu que precisamos ter a postura
correta frente à vida. Se você estiver desesperado, com
a família passando fome e for tentar vender o seu carro
a um comprador experiente, ele perceberá seu desespe-
ro, e o que vai lhe pagar não será o que você pediu, e
sim o mínimo que achar que você aceitará.
─ A experiência daquela tarde mudou sua atitude
e lhe devolveu algo que você nem lembrava que um
dia chegou a possuir: postura ─ falou o velho. ─ A vida
é manhosa, e não vai lhe pagar o que você pede, e sim
o quanto você acha que vale.
128

─ Isso criou um círculo vicioso. Quanto mais de-


sesperado eu ficava, menos a vida me dava ─ falei
compreendendo o raciocínio de Agenor.
─ Exatamente! Mas finalmente você venceu, e ne-
gociou assumindo a atitude correta. Tranqüilo e cons-
ciente, você cobrou da vida o que realmente vale o seu
trabalho. A postura certa permitiu que você recebesse
o que sempre mereceu, mas nunca soube exigir ─ con-
cluiu Agenor.
129

Capítulo 25

Um tribunal interno se instaurou.

A minha sede aumentou muito com o passar do


dia. Olhar o tempo todo para aquela água transparente
e abundante, sem poder beber nenhum gole era uma
tarefa árdua.
Todos os lados para onde eu me virasse, só enxer-
gava água. Mesmo com os olhos fechados, o barulho
insistente e contínuo não me deixava esquecer a sede
torturante. Nos meses em que andei com aquela fita
vermelha em meu pulso, nunca lembrei tantas vezes
de olhar para ela perguntando quem eu era, pulando
desajeitado logo em seguida.
No meio da tarde caminhei até uma das piscinas
que a água formava no meio das rochas, e ajoelhado
lavava meu rosto tentando amenizar a minha sede.
A sensação daquela água fresca escorrendo em
meu rosto era uma tentação irresistível. Com a cabeça
voltada para trás, passava lentamente a língua em
meus lábios, me torturando.
130

Abaixei-me novamente olhando para a água cris-


talina. O pensamento de roubar um pequeno gole me
ocorreu.
Percebi um estranho diálogo em meu cérebro. Um
tribunal interno se instaurou enquanto eu brincava
com as mãos na água.
De um lado meus pensamentos me alertavam:
Você não pode trair a confiança de Agenor. Se você
conseguiu agüentar até agora, tente suportar mais um
pouco.
Enquanto em outro ponto de meu cérebro as justi-
ficativas me incitavam: um gole apenas não irá fazer
mal algum. Ficar o dia todo sem beber nada, pode ser
perigoso para a saúde.
─ Nós sempre sabemos distinguir o certo do erra-
do ─ falou Agenor aparecendo de repente e me assus-
tando. ─ Você pode se esconder e enganar a todos, mas
por mais que se justifique, em seu íntimo sempre sa-
berá quando agiu errado. E mesmo que consiga lesar
os outros, no final é sempre você o maior prejudicado.
131

Capítulo 26

O velho cultivou um assombroso mistério em torno des-


sa experiência.

Quando o sol se escondeu, a escuridão da noite


não conseguiu abraçar totalmente a floresta, porque a
lua refletia sua luz transformando o cenário com um
toque mágico.
Agenor tirou a fita de meu pulso, e a amarrou em
um copo com água, que colocou sobre uma pedra a al-
guns metros de nossa barraca.
Depois, usando um galho de árvore como vassou-
ra, limpou o caminho entre o copo e a barraca.
Sentado em uma pedra com as pernas e os braços
cruzados tentando me proteger do frio, fiquei calado
observando os movimentos calculados do velho, pre-
parando cuidadoso todos os detalhes de algo que pro-
metia ser muito importante.
132

Ansioso, aguardava o desfecho de todo o esforço


em tentar seguir, mesmo sem entender, as estranhas
orientações de Agenor durante todos aqueles meses.
Enigmático e cauteloso, o velho cultivou um as-
sombroso mistério em torno dessa experiência. Sua
insistência e preocupação fizeram com que a fita ver-
melha adquirisse uma importância exagerada.
Agenor misturou um pouco de sal ao resto de á-
gua no cantil, e depois de agitar bem, ordenou que eu
tomasse.
O gosto ruim da água salgada tornou a minha e-
xorbitante sede insuportável.
─ Prepare-se para dormir ─ falou o velho depois
de terminar seus preparativos.
Tentei argumentar que ainda era cedo e eu estava
sem sono, mas Agenor insistiu, e explicou que eu teria
que deitar como se estivesse pronto para dormir, fe-
char os olhos e depois de alguns minutos, tornar a le-
vantar, caminhar até o copo com água, e quando visse a
fita vermelha amarrada nele, eu deveria perguntar
“quem sou eu”, e depois dar um pulo, voltar a deitar e
repetir tudo novamente.
─ Você não deve simplesmente perguntar, tem
que sentir a mesma sensação daquela tarde em meu
apartamento, quando se viu no espelho ─ enfatizou
Agenor.
─ Quantas vezes eu terei que fazer isso?
133

─ Quantas forem necessárias. E como você disse


que está sem sono, vai dar tempo de fazer pelo menos
umas vinte vezes.
Como em tudo que Agenor fazia sempre havia um
propósito, resolvi não questionar e seguir as suas es-
tranhas ordens.
Nas primeiras vezes, meu nervosismo e agitação
atrapalharam um pouco, mas acabei me acalmando.
Tirando a sede quase insuportável, e o constrangimen-
to do pulo, o resto do plano correu bem. Já na terceira
vez que saí da barraca Agenor havia desaparecido. Não
sei por quantas vezes repeti aquele trajeto, mas final-
mente o cansaço venceu meu excitamento e relaxando
acabei dormindo.
134

Capítulo 27

A repetição exacerbada a que Agenor me submeteu surtiu


efeito.

A forte sede não me deixou dormir por muito


tempo. Levantei de madrugada e fui tomar a água que
Agenor deixou sobre a pedra. Ao ver a fita vermelha
amarrada no copo, por força do hábito, perguntei no-
vamente quem eu era.
Um arrepio avassalador estremeceu todo o meu
ser. Notei estupefato e com um assombro maravilhoso,
que eu estava fora do meu corpo físico.
Não se tratava de um simples sonho. Era uma sen-
sação muito mais ampla e abrangente. Eu estava total-
mente consciente, sabia meu nome e o que fazia. Sen-
tia meu corpo deitado na barraca e ao mesmo tempo
em pé sobre a plataforma. Tinha pleno domínio da si-
tuação e podia decidir o que fazer. Eufórico e descon-
trolado, eu gritava minha felicidade ao conferir de per-
to e de forma incontestável, que o mundo era muito
mais que a matéria que eu conhecia.
135

A repetição exacerbada a que Agenor me subme-


teu surtiu efeito. Quando finalmente tentei pular, ex-
plodi de contentamento, e ultrapassando todos os limi-
tes possíveis da alegria que eu conhecia, saí voando.
Não era um simples sonhar que se está voando, e
sim sentir solidamente todas as sensações de um vôo
real. Eu escolhia para onde queria ir e a que velocidade
desejava voar.
Mas minha euforia não me permitiu voar por
muito tempo. A situação fugiu ao meu controle. Em
meio aos vôos rasantes por sobre a floresta enluarada,
meus gritos aumentaram até perceber que na barraca
eu gemia. A sensação de meu corpo físico deitado iner-
te aumentou, e quando menos esperava, acordei.
Imóvel por alguns instantes eu tentei voltar para
aquela estranha situação. Eu queria ver meu corpo físi-
co enquanto estava fora dele. Mas minha excitação e a
alegria descontrolada haviam me despertado. Depois
que a experiência terminou, eu resolvi levantar e ir até
o copo sobre a pedra, para tomar água e acabar com
aquela terrível sede.
Finalmente com o copo na mão, bebo a água em
fartos goles. Sentindo um horrível gosto de sal, cuspo
desesperado a água fora. Irritado com a brincadeira de
mau gosto de Agenor, vou até a barraca para reclamar.
Ao entrar na barraca, eu vejo Agenor sentado com
as pernas cruzadas olhando para alguém deitado a seu
lado.
136

Demorei alguns segundos para perceber que eu,


parado na porta da barraca, olhava para o meu próprio
corpo deitado ao lado do velho.
Um grito alucinado e involuntário me arremessou
de volta ao meu corpo. Acordei “novamente”. O suor
que molhava meu rosto apesar do frio da madrugada, e
um tremor incontrolável indicavam que agora eu esta-
va realmente desperto.
─ Já sei! Você sonhou que estava acordado, e
quando acordou descobriu que estava dormindo ─ fa-
lou o velho dando uma longa gargalhada, enquanto
me entregava o cantil com água fresca.
Esvaziei o cantil de uma única vez, acabando com
a angustiante sede.
─ O que aconteceu? ─ perguntei quase sem con-
trolar um tremor intenso.
─ Você se tornou o “ator” durante alguns minutos
─ respondeu Agenor.
Segundo a visão de Agenor, a consciência, livre
do corpo físico, é como um ator sem representar, é ele
mesmo. Contudo, quando a consciência está presa ao
corpo se torna o personagem, com suas máscaras, fan-
tasias e maquiagens.
Quando estamos acordados conseguimos disfar-
çar nossos defeitos. Dissimulados, nós não dizemos o
que pensamos, nos controlamos refreando nossos im-
pulsos e desejos. Mas separados do corpo, nos torna-
137

mos o que realmente somos.


─ Existem atores virtuosos e completos desempe-
nhando papéis simplórios, e também atores medíocres
e despreparados interpretando personagens poderosos
─ falou Agenor.
De acordo com ele, existe o “ser” por trás das pes-
soas. Conhecemos somente a ponta visível do que re-
almente somos. Para exemplificar, Agenor me pediu
para tentar lembrar de alguém que eu conhecesse que,
mesmo humilde e tendo pouca instrução, fosse uma
pessoa agradável, verdadeira e simpática, e por outro
lado existem os que, com todo o conhecimento e poder
que o dinheiro pode comprar, não conseguem se tornar
pessoas melhores, são intratáveis, arrogantes e mes-
quinhas.
─ O ator sobreviverá a essa vida, melhor ou pior
do que quando nascemos, mas o personagem com cer-
teza irá morrer um dia ─ falou o velho ─ por isso use
somente o tempo necessário com as coisas materiais,
elas ficarão quando o personagem morrer. O que real-
mente importa é você se conhecer e se tornar uma pes-
soa melhor.
Encolhido no canto da barraca, com os braços e
pernas cruzados tentando controlar o tremor em meu
corpo, olhava para o vulto sem conseguir perceber a
expressão no rosto do velho no escuro da madrugada.
Tentei continuar a conversar, mas Agenor me proibiu
de falar. Não consegui dormir. Fui sentar do lado de
fora da barraca, para esperar o dia amanhecer.
138

Capítulo 28

A experiência desta noite foi o segundo desafio?

Quando Agenor se levantou, me encontrou senta-


do perto do precipício na parte leste do local onde es-
távamos acampados. Ele se acomodou ao meu lado e
ficamos em silêncio a contemplar a paisagem.
O trem da manhã contornava os morros à nossa
frente. Mal conseguíamos ouvir o seu apito, com o ba-
rulho das águas, que depois de caírem pelo Salto dos
Macacos, escorriam pela rampa de pedra, passavam
por quatro piscinas naturais encravadas nas rochas,
formando pequenos saltos e corredeiras. E depois de
toda essa maratona, despencavam pelo precipício à
nossa direita, caindo por mais de trinta metros for-
mando o majestoso Salto do Redondo.
─ Jogue isso fora! ─ ordenou Agenor se referindo
à fita vermelha que eu segurava pensativo em minhas
139

mãos. ─ Você já se acostumou com ela, não serve mais


como despertador.
─ Mas ela representa um marco em minha vida! ─
argumentei.
─ Cuidado para não confundir a fita com o que
ela representa ─ falou o velho. ─ Ou logo você irá co-
locá-la em um altar e acabará rezando por ela.
Agenor riu da minha expressão de espanto, e de-
pois explicou que as pessoas fazem uso de imagens,
estátuas e amuletos, para reforçar a sua fé, e com o
tempo, depois de muito reverenciá-los, acabam esque-
cendo o que eles representam.
─ Por que eu não consegui controlar a situação
ontem à noite? ─ perguntei ainda olhando para a des-
botada fita em minhas mãos.
─ Nós forçamos a sua entrada em um mundo para
o qual você ainda não estava preparado.
Agenor explicou que a euforia me fez perder o
controle, a sede confundiu minha percepção e final-
mente a irritação me descontrolou, por isso, distraído,
acabei me assustando quando vi meu próprio corpo.
─ Naquele mundo você não pode mentir nem ca-
muflar ou mascarar suas emoções. Por isso precisa des-
sa vida e do corpo físico para dominar o seu ego, e de-
pois de compreender, tentar eliminar os seus defeitos
─ explicou Agenor.
Consternado por um sentimento de impotência
140

me calei.
─ As pessoas vivem baseadas simplesmente na fé.
Você teve uma oportunidade única de constatar pesso-
almente, a possibilidade de a consciência existir fora
do corpo. Use os poucos minutos que durou sua expe-
riência para desviar sua vida na direção certa.
─ E qual é a direção certa?
Agenor olhou firme em meus olhos, e depois de
um longo silêncio respondeu:
─ Você já sabe o caminho. Conversamos sobre is-
so em todos os nossos encontros. Procure conhecer
seus sentimentos, descubra os seus defeitos, aprenda o
máximo que puder, tente ser uma pessoa melhor.
Agenor explicou que o homem alcançou enormes
avanços intelectuais e tecnológicos, mas não evoluiu
como ser humano na mesma proporção. O desenvol-
vimento conquistado aproximou o homem dele mesmo
e o afastou de Deus. Apesar de todo o progresso, con-
tinuamos os mesmos bárbaros de sempre.
─ São muitas informações e às vezes me sinto
perdido ─ reclamei.
─ Siga a voz de sua consciência.
─ Isso parece meio... abstrato.
Agenor tornou a olhar em meus olhos, procuran-
do algo.
─ Se isso lhe parece abstrato, o que afinal é real
141

para você?
─ Minha frágil realidade foi questionada muitas
vezes. Os fragmentos que sobraram não se sustentam
sozinhos. Já não sei mais o que é verdade.
─ A verdade é individual. Cada um tem a sua ─
falou Agenor, distraindo-se a olhar o horizonte.
Joguei a fita na água que passava apressada à nos-
sa direita, despencando precipício abaixo. Misturando-
se à espuma branca, ela sumiu em meio ao barulho da
cachoeira deixando uma incômoda tristeza em seu lu-
gar.
─ A experiência desta noite foi o segundo desafi-
o? ─ perguntei, me referindo ao comentário que Age-
nor fizera no começo de nossa viagem.
─ Não! Ainda não ─ respondeu o misterioso Age-
nor.

Capítulo 29
142

Se eu não conheço toda a verdade, devo tentar seguir


quem está mais próximo dela.

Depois de desarmarmos a barraca, conversamos


sentados na plataforma, usando as mochilas como en-
costo.
─ O que é Deus para você? ─ perguntei ao velho
no meio da nossa conversa.
Agenor se virou me olhando espantado. Um sorri-
so iluminou seu rosto, como se ele tivesse ganhado um
prêmio. Aguardava suas brincadeiras e ironias, como
sempre fazia quando falávamos sobre esse assunto e
eu mostrava minha descrença, mas o velho ficou radi-
ante com minha pergunta.
─ Pai ─ respondeu ele com naturalidade.
A simplicidade de sua resposta me frustrou. Eu
esperava do velho uma explicação complexa e detalha-
da, mais condizente com todo o seu conhecimento. Fi-
quei calado contemplando a água que passava baru-
lhenta e incansável.
─ O seu pai lhe deixou cair várias vezes quando
você, ainda criança, estava aprendendo a andar ─ falou
enfim Agenor. ─ Se você já soubesse falar, reclamaria
perguntando: Pai, por que você não me segurou? Mas
como ainda não sabia se expressar, você simplesmente
chorou.
143

Ouvindo Agenor falar, tentando descrever como


poderia ter sido o momento em que meu pai me ensi-
nou a andar, voltei a sentir aquela saudade melancóli-
ca que tanto me perturbava.
Lembrei do que Agenor falou alguns meses antes
sobre superar o trauma para poder recordar os bons
momentos vividos com meu pai. Mas minha única
lembrança era a agonia da espera de sua morte.
─ Estou certo ─ continuou a falar Agenor ─ de
que seu pai tentou lhe explicar a necessidade dos tom-
bos, mas você, naquele momento, não conseguiu en-
tender. Ele, provavelmente, deve ter lhe aconchegado
em seus braços, esperando que você superasse o medo
de cair, para lhe ajudar a tentar novamente. E de tanto
insistir, você acabou aprendendo a andar.
Mesmo que eu tentasse não conseguiria lembrar
de meu pai me ensinando a andar. Mas recordei da
emoção que tive, quando meu filho deu seus primeiros
passos.
─ Deus dotou o homem de consciência, e em sua
infinita bondade nos concedeu o livre arbítrio ─ falou
Agenor. ─ E mesmo quando cometemos erros atrozes e
hediondos, Ele não nos priva de nossa liberdade. Caí-
mos seguidas vezes, tentando andar com nossas pró-
prias pernas. Por não entendermos seus desígnios,
muitas vezes nos revoltamos: Pai, por que me abando-
nastes? Mesmo sem percebermos, enquanto choramos
desconsolados, Deus nos aconchega em seu colo, até
recuperarmos nossas forças e tentarmos novamente.
144

Uma sensação angustiante de abandono e desam-


paro aumentou a saudade que sentia de meu pai.
─ Se tivéssemos apenas uma pequena parte da
confiança que Deus sempre depositou no homem, a-
creditaríamos mais em nós mesmos e nas nossas pos-
sibilidades, e certamente nos tornaríamos pessoas me-
lhores. ─ Depois desse comentário, Agenor calou-se, e
o seu silêncio reforçou ainda mais o que ele acabara de
falar.
Tentei fazer outras perguntas para continuar a
conversa, mas ele se recusou a responder.
─ Descubra a sua própria verdade ─ disse ele.
─ Eu pensei que a verdade fosse única ─ argu-
mentei.
─ A verdade é uma só, mas nós somos pequenos
demais para entendê-la em sua plenitude.
Agenor explicou que a verdade é como um enor-
me quebra-cabeça. Cada um de nós a enxerga confor-
me os pedaços que conseguiu juntar. Usamos a teoria e
a fé para completar as partes que faltam.
─ Eu sempre usei a teoria, mas foi você que me
ensinou a usar a fé. Se eu não conheço toda a verdade,
devo tentar seguir quem está mais próximo dela ─ co-
mentei.
─ Como assim? ─ perguntou Agenor, franzindo as
sobrancelhas.
145

Expliquei-lhe que quando o conheci, minhas de-


bilitadas teorias não me ajudavam muito. E que mes-
mo não entendendo tudo o que ele dizia, eu resolvi
segui-lo, porque acreditei no seu conhecimento e expe-
riência.
A fisionomia do velho mudou rapidamente. Al-
guma coisa que eu falei o deixou melancólico. Calado,
ele ficou a olhar para o nada.
─ Minha atitude não lhe parece um bom exemplo
de fé? ─ perguntei.
Agenor me encarou com seus olhos refletindo um
inexplicável padecimento, em seguida se levantou em
silêncio e entrou na floresta, subindo a encosta do
morro.
Ele não deveria ter ido longe porque deixou sua
mochila na plataforma. Depois de alguns angustiantes
minutos de espera resolvi ir atrás dele. Subi por uma
pequena, mas íngreme trilha que dava acesso à parte
de cima do salto.

A rápida corrida me deixou ofegante ao chegar.


Eu nunca havia subido até lá. A água cristalina, antes
de despencar por mais de cinqüenta metros formando
o Salto dos Macacos, se dividia contornando uma e-
norme pedra que ficava no meio do rio, próximo à bei-
rada da cachoeira.
Encontrei Agenor sobre essa pedra com os braços
146

abertos e as mãos voltadas para o céu a rezar.


Não sei se foi a beleza e a força daquela cena, ou a
vertigem causada pela altura, mas fiquei maravilhado
e comovido com o que vi.
Criei coragem e atravessei o pequeno trecho es-
corregadio que me separava da pedra, onde o velho
sentou após terminar sua oração.
Sentei a seu lado sentindo-me um simples grão de
areia naquela imensidão verde à nossa frente.
Estávamos no topo daquele mundo. E mesmo sa-
bendo que eu era apenas uma parte infinitamente pe-
quena daquela belíssima paisagem, estava tranqüilo e
radiante de felicidade.
Não me atrevi a quebrar com palavras o encanto
mágico daquele momento.

Capítulo 30
147

Você está pronto para vencer o seu segundo desafio?

Agenor ficou muito arredio nas semanas seguin-


tes. Durante todo o inverno consegui falar com ele a-
penas pelo telefone.
O meu conhecimento não era suficiente para ex-
plicar o que Agenor fez comigo para provocar aquela
fantástica experiência no Salto dos Macacos.
Depois de procurar respostas em muitos livros,
passei a acreditar que ele deve ter juntado ensinamen-
tos de diferentes segmentos místicos e religiosos, para
quebrar minha mecanicidade e desmoronar os meus
conceitos sobre o que é real, me arremessando a um
estado alterado de consciência.
Todos os livros que li serviram apenas para au-
mentar ainda mais o mistério:
Quem seria Agenor afinal?
Mesmo com toda a minha insistência, foi só no
começo da primavera que consegui convencer o velho
a marcar um novo encontro.
Chegando ao endereço que Agenor me deu, esta-
cionei meu carro novo, comprado com o dinheiro que
já não era mais problema em minha vida.
Desorientado, constatei que se tratava de uma i-
greja. Olhei em volta e não encontrei o velho, apesar
de ter visto o seu carro parado bem em frente às esca-
148

darias.
Encostado em meu carro, enquanto esperava Age-
nor, acompanhei o vôo de um pombo e acabei fixando
o olhar na cruz no alto da torre.
Depois de um longo e rigoroso inverno chuvoso,
uma manhã ensolarada de primavera como essa, pare-
cia uma dádiva celestial que combinava com aquela
bela igreja.
─ Bom dia! Você é o Marcelo? ─ ouvi de repente.
Duas freiras baixinhas e risonhas me olhavam es-
perando uma confirmação.
─ Sim! Sou eu. Estou aguardando um amigo ─
respondi retribuindo o sorriso.
─ Nós lhe devemos toda nossa gratidão! ─ falou a
menor delas, segurando minha mão entre as suas, e
inclinando a cabeça para o lado, o que valorizava ainda
mais o doce sorriso e o olhar brilhante daquele simpá-
tico rosto enrugado.
Desconcertado, olhei para a outra freira a seu lado
tentando entender o que acontecia.
─ Agenor nos contou que você salvou a vida dele
─ disse ela.
─ Deve haver um mal entendido, Agenor é que
salvou a minha vida ─ falei tentando esclarecer a situ-
ação.
─ Venha! Você está atrasado.
149

Fui arrastado gentil e lentamente pela freirinha


que insistia em não soltar a minha mão. Subimos a e-
norme escadaria. Enquanto uma das freirinhas tentava
me explicar a história de Agenor, a outra largava frases
desconexas que, apesar de esclarecedoras, aumenta-
vam ainda mais a minha curiosidade.
─ A mente brilhante de Agenor o fez progredir
rapidamente.
─ Sentíamos muito a sua falta...
─ Todos ficavam maravilhados ao ouvir as suas
palavras.
─ Mas ele sempre mandava notícias...
─ Nossa cidade acabou ficando pequena para a
grandeza de suas idéias.
─ Tenho uma coleção de cartões postais...
─ Ele andou pelo mundo todo.
─ Cartões da América... Da África... Da Europa...
─ Um dia a sua religião já não era o suficiente.
─ Eu tenho uma foto dele ao lado do Papa...
─ Agenor abandonou tudo e saiu atrás de mais
conhecimento.
─ Ganhei lindas fotos da Cordilheira dos Andes...
Himalaia... Índia... Tibet...
─ Sumia durante anos, buscando aprender sem-
150

pre.
─ Ele me contava em suas cartas sobre mosteiros...
Peregrinações... Ordens místicas...
─ Até que um conflito com sua fé abalou Agenor.
─ Ele desistiu de tudo...
Subindo a escadaria, fiquei perplexo e meio tonto,
tentando processar em meu cérebro tudo o que acabara
de ouvir.
─ Mas felizmente você conseguiu trazer ele de
volta para nós ─ falou por fim a freirinha, baixando o
tom de voz enquanto entrávamos na igreja.
Uma belíssima música era cantada em coro pela
igreja lotada. O sol forte da manhã turvara meus olhos.
Eu vislumbrei pessoas embaçadas em pé cantando,
enquanto caminhava no corredor central puxado pela
mão da freira.
Quando minha visão se acostumou com a ilumi-
nação do ambiente, e comecei a enxergar com mais cla-
reza, minhas pernas afrouxaram quase sem conseguir
sustentar o meu peso.
A freirinha, notando o que acontecia, largou mi-
nha mão e, depois de me olhar por alguns instantes,
seguiu em frente me deixando no meio da igreja.
Não pude acreditar no que vi. No altar, com os
braços abertos e as mãos voltadas para cima, o padre
vestido de branco era Agenor.
151

A acústica da igreja transformou a música em pu-


ra energia, que envolveu todo o meu ser. A imagem do
padre Agenor no altar mesclou-se em minha mente
com a lembrança dele rezando sobre a pedra no Salto
dos Macacos.
Essa associação desencadeou a visualização de
uma série de imagens em minha memória, que come-
çou com meu pai em seu leito de morte, colocando a
pequena cruz de prata em minha mão, e eu revoltado
com o seu sofrimento a joguei longe.
Lembrei de Agenor sentado na plataforma de pe-
dra, na primeira vez que o vi. Depois recordei sua mão
estendida me oferecendo ajuda para cruzar a linha que
ele riscou no chão, e eu tornando a atravessar o rio para
abraçá-lo.
Enquanto a missa continuava, eu paralisado em
pé no meio do corredor rememorava imagens: a cruz
na parede do apartamento de Agenor, meu espanto re-
fletido no espelho, a fita vermelha em meu pulso, suas
mãos segurando meu rosto quando ele disse que acre-
ditava em mim, seu passeio sobre a viga suspensa na-
quela madrugada, seus olhos brilhantes na emoção da
minha vitória, o meu vôo fora do corpo físico e suas
sábias teorias.
Lembrei também de Agenor perguntando entris-
tecido: “Será que Deus existe? Você pode destruir uma
vida, se conseguir semear essa dúvida na mente de
uma pessoa religiosa”.
152

Compreendi aos poucos que Agenor, quando me


encontrou, também andava perdido e descrente.
Mesmo impossibilitado, pela forte emoção, de a-
companhar os rituais da missa, consegui ouvir parte do
sermão. O padre Agenor falou que há dois mil anos
atrás era muito difícil para o homem viver sem saber
no que acreditar. Mas depois de Jesus Cristo não preci-
saríamos mais discutir qual o caminho certo, bastaria
seguirmos a luz de seus ensinamentos, aprendendo a
amar.
─ Que a dúvida jamais invada minha mente. Que
eu tenha sempre a certeza de que o Senhor é meu pas-
tor e nada me faltará. Que o medo não encontre mora-
dia em meu coração, porque eu tudo posso em Ti Se-
nhor, meu Deus, que me fortalece ─ falava o padre
Agenor com a extrema convicção que conseguira re-
conquistar.
Permaneci o tempo todo parado no meio do cor-
redor. Não participei da missa, mas as rezas e cânticos
me deixaram em completo estado de êxtase. Eu era a-
inda um menino na última vez que entrara em uma
igreja, e agora me sentia uma criança novamente.
Depois da benção final as pessoas ainda demora-
ram a sair. Felizes, queriam cumprimentar o padre A-
genor pelo seu regresso. Aos poucos a igreja se esvazi-
ou e o silêncio imperou.
Com um gesto de sua mão, que fez balançar sua
batina branca, Agenor pediu que eu me aproximasse.
153

Apesar de me sentir muito leve, meus pés tiveram


dificuldades em me levar até o altar onde ele estava.
Conforme me aproximava, a sua imagem parecia
mais majestosa e resplandecente naquela roupa bran-
ca. A luz do sol que entrava por um dos vitrais da igre-
ja, refletia exatamente onde ele estava. Seu brilho se
tornou ainda mais intenso.
Quando finalmente me aproximei, mal conseguia
respirar. Um choro de alegria estava entalado em mi-
nha garganta. O sorriso no rosto dele nunca esteve tão
radiante.
─ Quando Deus o colocou no meu caminho, lá no
salto, como uma ovelha desgarrada, Ele sabia que o
meu instinto de pastor falaria mais alto e eu tentaria
reconduzi-lo ao rebanho ─ falou o padre Agenor com
voz suave.
Os quase quatro meses de afastamento deixaram
uma saudade dolorida em meu peito. Ouvir novamen-
te a sua voz me inspirava a abraçá-lo, mas a vestimenta
que ele usava impunha respeito, e desconcertado eu
não soube o que fazer.
─ No começo, eu pensei que estaria lhe ajudando
a se encontrar, mas quando você disse que me seguia
por pura fé, um clarão divino me mostrou os verdadei-
ros planos de Deus. “Se eu não conheço toda a verda-
de, devo tentar seguir quem está mais próximo dela” ─
falou ele olhando para a cruz no altar.
Eu, que sempre fui tão grato a Agenor, por tudo
154

que ele fez por mim, mal podia crer que algo que eu
falei tivesse força para influenciar a sua vida.
─ Por que você não me falou que era padre?
─ Comecei como um padre. Mas um dia achei que
era pouco. Busquei muito mais. Aprendi muito mais.
Porém, cheguei a um ponto em que nada mais fazia
sentido...
─ E eu, estabanado, dizendo justo para você que a
religião era apenas uma muleta ─ comentei envergo-
nhado.
─ Mas foi você, Marcelo, que me fez perceber que
a religião, a vontade de me “religar” com Deus, é que
me motivou a tentar crescer como ser humano. Você
conhece outra forma para despertar as pessoas?
Não sabia o que responder. Ao falar em religião
eu sempre me lembrava que a maioria das guerras a-
contece por divergências religiosas. Entretanto, se eu
ainda não dei um passo sequer na busca de minha
possível evolução, não posso criticar os que se organi-
zam tentando melhorar o mundo. Não tenho o direito
de sair por aí chutando a “muleta” dos que tentam en-
contrar o caminho.
─ Um dia conseguiremos andar com nossas pró-
prias pernas. Uma alma pura não precisa de livros de
regras e códigos de ética. Mas, por enquanto, ainda
precisamos da religião que serve como um freio para a
maldade humana. Precisamos de uma religião que in-
dique o caminho para o crescimento individual, e não
155

as que manipulam as pessoas com o fanatismo cego.


Percebi nesse instante que tudo que eu havia nar-
rado não era a minha história. Eu ainda nem tinha co-
meçado a minha história. Fui apenas uma pedra no
caminho de Agenor. Que agora voltava resignado às
suas origens, recomeçando e usando todo o seu conhe-
cimento para ajudar pessoas totalmente desprepara-
das... como eu.
─ Como padre eu posso ajudar muito mais. E, afi-
nal, não importam as vestes, crenças ou rituais, e sim a
maneira como se vive. Não somos nem melhores, nem
piores do que os outros. Todos nós temos uma função
nessa enorme engrenagem que é o universo. Apesar de
todo o meu esforço, foi um mendigo que lhe ajudou a
recuperar a sua auto-estima.
O sorriso iluminado no rosto de Agenor, e sua voz
tranquila ampliavam a força de suas palavras.
─ Buscar Deus não é só religião, não é só decorar
regras e impor rituais. Buscar Deus é tentar encontrar a
perfeição. É tentar melhorar como pessoa. É descobrir
qual é o nosso limite de compreensão e ir um pouco
além, ampliando ao máximo a nossa consciência.
Agora eu finalmente começava a entender que
“ganhar dinheiro” era apenas uma isca usada por Age-
nor. A verdadeira intenção dele sempre foi me arrancar
daquela minha atitude amarga e revoltada.
Todos os livros que ele me emprestou, sobre pen-
samento positivo e de como conquistar o sucesso, fala-
156

vam basicamente a mesma coisa: Se você crescer como


ser humano, a tranqüilidade financeira virá como uma
conseqüência.
─ Você está pronto para vencer o seu segundo de-
safio? ─ perguntou o padre Agenor, pegando meu bra-
ço e colocando algo em minha mão.
Quando olhei para o que ele me deu, não conse-
gui mais segurar o choro que por tanto tempo esteve
preso em minha garganta.
Um forte arrepio percorreu todo o meu corpo.
Lembrei do olhar de cumplicidade entre minha mãe e
Agenor.
Finalmente voltou para as minhas mãos, a peque-
na cruz de prata que meu pai tentara me dar em seus
últimos momentos de vida.
─ Você está pronto? ─ Agenor tornou a perguntar,
olhando fixo em meus olhos.
Não consegui mais me conter. E como resposta à
sua pergunta eu o abracei. As sofridas lembranças de
meu pai me fizeram apertar aquele abraço. As lágri-
mas, desta vez, eram mornas de alívio e felicidade.
Senti que finalmente um longo inverno em minha vi-
da chegava ao fim. A revolta e a amargura daqueles
anos todos não faziam mais sentido. Depois de tudo
que Agenor me fizera ver, eu não poderia mais viver
negando Deus.
Entendi finalmente a origem da minha melancoli-
157

a: A angustiante falta e a estranha saudade que corroí-


am o meu peito eram, na verdade, o vazio deixado pela
ausência de Deus em meu coração.
Aliviado olho para a cruz no altar: “Se eu não co-
nheço toda a verdade, devo tentar seguir quem está
mais próximo dela”. Aspirando o ar profundamente
tento encher meus pulmões com a extasiante energia
que pairava na igreja, expirando em seguida, expelin-
do toda a amargura que ocupou durante tempo demais
o meu coração.

Contatos com o autor:


Silvio Kurzlop
Telefone 55 (041) 3606-7968
skurzlop@gmail.com
facebook.com/MudandoOAmanha

ATENÇÃO!
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Este aviso é para aqueles que têm o estranho hábi-


to de ler a última página antes de ler o livro.
O ritmo dramático foi cuidadosamente estabele-
cido para que a leitura seja fluente e agradável.
Descobrir antecipadamente o final da história
comprometerá o prazer da leitura

Recicle o amanhã de um amigo.


Dê um livro de presente.