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Universidade Independente de Angola

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Turma: A1 e B1

Sala: L. B4/ B.2.3

Lição nº 3 e 4

Sumário: O princípio da tipicidade e a sua abolição

O Direito romano clássico não consagrava tão amplamente a autonomia da vontade


como o Direito moderno. A autonomia dos sujeitos tinha aí menor importância, pois
que nem todos os actos de significação social e com fim prático útil, actos de auto-
regulamentação de interesses, eram levantados ao nível de negócios jurídicos, muitos
ficavam sem protecção do Direito.

O contrato não existia como figura geral, de limitada extensão. Só eram possíveis
certas categorias de contratos, taxativamente determinados pelo Direito objectivo: este
estabelecia modelos fixos, e a tais modelos tinham de cingir os interessados.

Muitas vezes o sujeito lançava mão de negócios jurídicos abstractos, fórmulas


susceptíveis de variados conteúdos económicos, quer dizer, actos por cujo intermédio se
podia alcançar mais de um fim prático, como a stipulatio );
mas os negócios desta espécie eram em número limitado. E quando não fosse possível
vazar na forma de um negócio jurídico abstracto, o acto social em vista, ou existia para
este no quadro das normas jurídicas um modelo que se ajustasse (por exemplo, a partir
de certa altura, a compra e venda, a locação, etc.) ou o acto permanecia abandonado a
si mesmo, sem a tutela do Direito e portanto sem eficácia jurídica. Numa palavra, só
eram negócios jurídicos os actos que revestissem o formalismo dos negócios abstractos

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e os que, pelo seu conteúdo e causa, estivessem em harmonia com algum dos tipos de
negócios causais também taxativamente fixados.

Sabe-se que existiam quatro classes de contratos, os verbais, os literais, os reais e os


consensuais. Os verbais e os literais eram abstratos, exigia-se para eles certa forma,
mas podiam realizar funções económicas diversas, os outros tinha natureza causal, a
cada um correspondia uma função específica.

Os contratos verbais eram aqueles cuja celebração se fazia oralmente. Os literais os


que se faziam por escrito.

Os contratos reais eram aqueles em cuja celebração se requeria, como meio de o


realizar, a entrega de uma coisa (datio rei).

Consensuais, finalmente, diziam-se os contratos para que se não exigia certa forma
como meio válido de exteriorização da vontade, nem tão pouco a entrega de uma coisa;
por este último traço diferiam dos contratos reais, por aquele tanto dos verbais como
dos literais. O consentimento, a harmónica vontade dos contraentes bastava, desde
que clara e livremente expressa, sem necessidade de forma especial nem datio rei.
Também se admitiam apenas quatro contratos consensuais: a venda, a locação, a
sociedade e o mandato.

Ora bem, todo o acordo que não se enquadrasse neste sistema não era contrato, não
produzia efeitos jurídicos. Então como ultrapassar o problema?

Ideou-se uma doutrina engenhosa, o pactum geminatum (pacto geminado). O nudum


pactum (simples pacto), não era fonte de obrigações propriamente ditas, obrigações
civis, mas dava origem a obrigações naturais, e estas, como se sabe, caracterizam-se
por duplo traço: o devedor não pode ser forçado a cumprir, mas se voluntariamente
cumpre, não tem direito de repetição, significa isto que não pode pedir restituição do
que pagou.

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Ora, se celebrado o primeiro acordo, as partes fizessem outro em sua confirmação
(pactum geminatum), a obrigação natural derivada do primeiro tornar-se-ia civil, o
credor ficava com a possibilidade de judicialmente exigir o seu cumprimento. Por este
caminho indirecto conseguia-se o resultado em vista, dar plena eficácia jurídica ao
simples acordo inominado de vontades.

O Direito natural foi mais ousado e deu o passo decisivo. Com o seu respeito pela
vontade humana (para ele, valor supremo) entendeu que a vontade não precisava
destes artifícios e podia, límpida e directamente, gerar efeitos jurídicos. Estava
consumada a evolução. Estava formado o princípio moderno de que todo o acordo
plurilateral de vontades, desde que tenham um fim social lícito, conquanto esse fim
não seja típico, é um contrato. É o que decorre do artigo 405.º do CC.

Novas categorais de contratos

O contrato, de fonte de obrigações alargou-se a outros domínios, tornou-se uma figura


geral sem limitações impostas pelo princípio romano da tipicidade absoluta, e além
disso, por força de modificadas condições económicas, sociais, políticas, enriqueceu-se
com novas formas, dantes insuspeitadas, que extraordinariamente se têm
desenvolvido (contratos de adesão, contrato-tipo, contratos colectivos, contratos a favor
de terceiro).

Para doutrina tradicional, cada contrato era sempre ou presumia-se o resultado de


livre discussão entre as partes, supunha o equilíbrio económico e social dos
contraentes, que em pé de igualdade manifestavam vontades igualmente fortes e
depois de luta chegavam a acordo. Mas a sociedade moderna fornece-nos variados
exemplos de contratos cuja formação é muito diversa, porque uma das partes, a mais
poderosa pela sua organização, necessitando de imprimir uniformidade a todos os
contratos do mesmo tipo em que intervém, estabelece um modelo que impõe, e os

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outros limitam-se a dizer “sim” ou “não”, ou aceitam sem modificações, celebrando o
contrato por simples adesão à vontade que ele exprime, ou o rejeitam em bloco, e então
o contrato não se forma. São chamados contratos de adesão, como os de transporte por
caminho-de-ferro, por mar ou por via aérea, de seguro, etc.

Também, por vezes, certos interessados ou categorias de interessados regulam


contratualmente o conteúdo de futuros contratos. Para haver maior uniformidade e
certeza, e evitar futuros arbítrios, estabelecem por acordo as directrizes a que deverão
obedecer os contratos que venham celebrar. Esse acordo é um contrato-tipo, modelo
com que terão de se formar todas as futuras convenções.

Os contratos a favor de terceiros criam obrigações de que o sujeito activo é a terceira


pessoa, assim um seguro de vida, um contrato de albergaria.

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