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SINOPSE

Em um continente à beira da guerra, duas bruxas têm seu destino em suas mãos.

As jovens bruxas Safiya e Iseult têm o hábito de encontrar problemas. Depois de


colidir com um poderoso Mestre da Guilda e seu implacável guarda-costas
Bloodwitch, as amigas são forçadas a fugir de casa.

Safi deve evitar a captura a todo custo, pois ela é uma Truthwitch rara, capaz de
discernir a verdade das mentiras. Muitos matariam por sua magia, então Safi
deve mantê-la escondida - para que não seja usada na luta entre impérios. E os
verdadeiros poderes de Iseult estão ocultos até dela.

Em um encontro casual na corte, Safi conhece o príncipe Merik e faz dele um


aliado relutante. No entanto, sua ajuda pode não desacelerar o Bloodwitch
agora quente nos calcanhares das meninas. Tudo que Safi e Iseult querem é sua
liberdade, mas o perigo está à frente. Com a guerra chegando, tratados
quebrando e um contágio mágico varrendo a terra, as bruxas terão que lutar
contra Imperadores e mercenários. Para alguns, nada pode impedi-los de
colocar as mãos em um Truthwitch.
PARA MEU FILHOTES, SARAH
1
Tudo estava terrivelmente errado.

Nenhum dos planos apressados de Safiya fon Hasstrel para este assalto
estava se desdobrando como deveria.

Primeiro, a carruagem negra com o padrão ouro reluzente não era o alvo
que Safi e Iseult estavam esperando. Pior, esta carruagem amaldiçoada estava
protegida por oito filas de guardas da cidade, piscando o sol do meio-dia de seus
olhos.

Em segundo lugar, não havia absolutamente nenhum lugar para Safi e


Iseult irem. Em cima do afloramento de calcário, a estrada poeirenta abaixo era
o único caminho para a cidade de Veñaza. E assim como esse impulso de rocha
cinzenta dava para a estrada, a estrada não dava para nada além do mar azul-
turquesa. Eram setenta pés de precipício golpeado por ondas ásperas e até
mesmo ventos mais ásperos.

E terceiro - o verdadeiro chute nos rins - assim que os guardas


marchassem sobre a armadilha enterrada das garotas, os fogos dentro
explodiriam... Bem, então aqueles guardas estariam vasculhando cada
centímetro do penhasco.

— Portões do inferno, Iz. — Safi abaixou sua luneta. — Há quatro guardas


em cada fileira. Oito vezes quatro faz... — Seu rosto amassou. Quinze, dezesseis,
dezessete ...
— São trinta e dois. — Disse Iseult brandamente.

— Trinta e dois guardas condenados três vezes, com trinta e duas malditas
bestas.

Iseult apenas assentiu e afastou o capuz de sua capa marrom. O sol


iluminou seu rosto. Ela era o contraste perfeito para Safi: o cabelo da meia-noite
até o trigo de Safi, a pele da lua até o bronzeado de Safi e os olhos cor de avelã
para o azul de Safi.

Olhos castanhos que agora deslizavam para Safi quando Iseult arrancou a
luneta.

— Odeio dizer 'eu te avisei'.

— Então não faça isso.

— Mas... — Concluiu Iseult. — Tudo o que ele disse a você na noite passada
foi uma mentira. Ele certamente não estava interessado em um simples jogo de
cartas. — Iseult assinalou dois dedos enluvados. — Ele não estava saindo da
cidade esta manhã pela estrada do norte. E eu aposto... — Um terceiro dedo
desfraldado — Que seu nome nem era Caden.

Caden. Se… Não, quando Safi encontrasse aquele Trapaceiro Acinzentado,


ela iria quebrar todos os ossos em seu perfeito rosto enrugado.

Safi gemeu e bateu a cabeça contra a rocha. Ela perdeu todo o seu dinheiro
para ele. Não apenas um pouco, mas todo.

Na noite anterior, havia sido a primeira vez que Safi apostara todas as
economias dela - e de Iseult - em um jogo de cartas. Não era como se ela alguma
vez tivesse perdido, pois, como diz o ditado, você não pode enganar um
Truthwitch.

Além disso, os ganhos de uma rodada única do jogo tarô de maior valor na
Cidade de Veñaza teriam comprado para Safi e Iseult um lugar só delas. Chega
de morar em um sótão para Iseult, e nunca mais o quarto de hóspedes do Mestre
da Guilda para Safi.

Mas, assim como Lady Destino queria, Iseult não tinha conseguido se
juntar a Safi no jogo - sua herança a baniu da alta sociedade onde o jogo tinha
acontecido. E sem a sua irmã de linha ao seu lado, Safi estava propensa a...
erros.

Particularmente, os erros da variedade que te deixavam de queixo caído e


boca franzida que envolvia Safi com elogios que, de alguma forma, passavam
direto por sua magia. Na verdade, ela não sentiu um osso deitado no corpo do
Trapaceiro, quando coletou seus ganhos do banco interno... Ou quando ele
havia enganchado o braço dele no dela e a guiado para a noite quente... Ou
quando se inclinou para um beijo casto mas descontroladamente inebriante na
bochecha.

Eu nunca mais jogarei de novo, ela jurou, seu calcanhar batendo no


calcário. E eu nunca mais vou flertar.

— Se vamos correr para isso. — Disse Iseult, interrompendo os


pensamentos de Safi. — Então precisamos fazer isso antes que os guardas
atinjam nossa armadilha.
— Não me diga. — Safi olhou para sua irmã de ligação, que observava os
guardas pela luneta. O vento chutou os cabelos escuros de Iseult, levantando os
pedaços finos que haviam caído de sua trança. Uma gaivota distante gritou seu
desagradável arroio, o seu scr-scree, o scr-scree!

Safi odiava gaivotas; elas sempre cagavam na cabeça dela.

— Mais guardas. — Iseult murmurou, as ondas quase abafando suas


palavras. Mas então ela disse mais alto: — Mais vinte guardas vindos do norte.

Por um momento, a respiração de Safi sufocou. Agora, mesmo que ela e


Iseult pudessem de alguma forma enfrentar os trinta e dois guardas que
acompanhavam a carruagem, os outros vinte guardas estariam em cima delas
antes que pudessem escapar.

Os pulmões de Safi voltaram à vida com uma vingança. Cada maldição que
ela já aprendeu saiu de sua língua.

— Nos restam duas opções. — Interrompeu Iseult, voltando para o lado de


Safi.

— Nós nos entregamos ...

— Sobre o cadáver apodrecido da minha avó. — Safi cuspiu.

— Ou tentamos alcançar os guardas antes que eles ativem a armadilha.


Então tudo o que temos a fazer é desbravar nosso caminho.

Safi olhou para Iseult. Como sempre, o rosto de sua irmã de linha era
impassível. Em branco. A única parte dela que mostrava estresse era o nariz
comprido, que se contorcia a cada segundo.

— Quando terminarmos, — Acrescentou Iseult, puxando o capuz para o


lugar e lançando o rosto na escuridão. — seguiremos o plano habitual. Agora se
apresse.

Safi não precisava dizer para se apressar - obviamente ela se apressaria -


mas reprimiu sua resposta. Iseult estava, mais uma vez, salvando suas peles.

Além disso, se Safi tivesse que ouvir mais uma vez eu te disse, ela
estrangularia sua irmã e deixaria sua carcaça para os caranguejos eremitas.

Os pés de Iseult atingiram a estrada arenosa e, quando Safi desceu


agilmente a seu lado, a poeira caiu em torno de suas botas - e a inspiração a
atingiu.

— Espere, Iz. — Em uma agitação de movimento, Safi tirou a capa. Então,


com um golpe rápido de sua faca, ela cortou o capô. — De saia e lenço. Nós
seremos menos ameaçadoras como camponesas.

Os olhos de Iseult se estreitaram. Então ela caiu na estrada. — Mas então


nossos rostos fiarão visíveis. Esfregue o máximo de sujeira possível. —
Enquanto Iseult esfregava o rosto, transformando-o em um marrom lamacento,
Safi enrolou o capuz sobre o cabelo e envolveu a capa em volta da cintura. Uma
vez que ela colocou o manto marrom em seu cinto, tomando cuidado para
esconder suas bainhas por baixo, também jogou terra e lama em suas
bochechas.

Em menos de um minuto, as duas garotas estavam prontas. Safi examinou


Iseult rapidamente... mas o disfarce era bom. Bom o suficiente. A sua irmã de
linha parecia uma camponesa desesperada, precisando de um banho.

Com Iseult logo atrás, Safi se lançou rapidamente ao redor do canto de


pedra calcária, sua respiração apertada... Então exalou bruscamente, seu ritmo
nunca diminuindo. Os guardas ainda estavam a trinta passos dos foguetes
enterrados.

Safi lançou uma onda desastrada em direção a um guarda bigodudo. Ele


levantou a mão e os outros guardas pararam abruptamente. Então, um por um,
a besta de cada guarda se nivelou nas garotas.

Safi fingiu não notar, e quando chegou à pilha de pedras cinzentas que
marcavam a armadilha, limpou-a com o menor pulo. Atrás dela, Iseult fez o
mesmo salto quase imperceptível.

Então o homem de bigode - claramente o líder - levantou sua própria besta.


— Pare!

Safi concordou, deixando seus pés se arrastarem até parar - enquanto


cobria o máximo de terreno possível. — Onga? — Ela perguntou, a palavra
arithuaniana para sim. Afinal, se fossem camponeses, poderiam ser
camponeses imigrantes.

— Você fala Dalmotti? — Perguntou o líder, olhando primeiro para Safi.


Então para Iseult.

Iseult chegou a uma parada desajeitada ao lado de Safiya. — Nós falamoss.


Um pouquinho. — Foi facilmente a pior tentativa de sotaque aritianense que
Safiya já ouvira da boca de Iseult.

— Estamos... em apuros? — Safi levantou as mãos em um gesto


universalmente submisso. — Nós só vamos para Veñaza.

Iseult soltou uma tosse dramática e Safi quis estrangulá-la. Não admira que
Iz sempre tenha sido a estrategista e Safi a distração. Sua irmã era horrível em
atuar.

— Queremos ver um curandeiro da cidade. — Safi se apressou em dizer


antes que Iseult conseguisse outra tosse inacreditável. — Caso ela tenha a peste.
Nossa mãe morreu com isso, você vê, e ohhhh, como ela tossiu naqueles últimos
dias. Havia muito sangue ...

— Praga? — O guarda interrompeu.

— Oh, sim. — Safi acenou com a cabeça conscientemente. — Minha irmã


está muito doente.

Iseult soltou outra tosse - mas essa foi tão convincente que Safi de fato se
encolheu ... e depois mancou para ela. — Oh, você precisa de um curandeiro.
Vem. Deixe sua irmã ajudá-la.

O guarda voltou-se para seus homens, dispensando as meninas, já gritando


ordens:

— De volta à formação! Retomar a marcha!

Cascalho esmagado; passos batidos. As garotas se arrastaram para a frente,


passando guardas com narizes enrugados. Ninguém queria a “peste” de Iseult.
Safi estava apenas rebocando Iseult pela carruagem negra quando a porta
se abriu. Um velho flácido inclinou o tronco coberto de escarlate do lado de fora.
Suas rugas tremiam ao vento.

Era o líder da Guilda do Ouro, um homem chamado Yotiluzzi, que Safi tinha
visto de longe - no estabelecimento da noite anterior, nada menos.

O velho Mestre da Guilda claramente não reconheceu Safi, entretanto, e


depois de um olhar superficial, ergueu sua voz severa. — Aeduan! Tire essa
sujeira estrangeira da minha frente!

Uma figura de branco espreitava ao redor da roda traseira da carruagem.


Sua capa ondulou e, embora um capuz protegesse seu rosto, não havia como
esconder o cano da faca em seu peito ou a espada em sua cintura.

Ele era um monge Carawen - um mercenário treinado para matar desde a


infância.

Safi congelou, e sem pensar, afastou o braço de Iseult, que se contorceu


silenciosamente atrás dela. Os guardas alcançariam a armadilha das meninas a
qualquer momento, e essa era a posição deles.

Fase um. Completa.

— Arithuanas. — Disse o monge. Sua voz era áspera, mas não pela idade, e
sim pela falta de utilização. — De que aldeia? — Ele deu um passo em direção a
Safi.

Ela teve que lutar contra o desejo de se encolher. Sua magia estava de
repente explodindo de desconforto - uma sensação desagradável, como se a
pele estivesse sendo arranhada na parte de trás do seu pescoço.

E não foram suas palavras que chamaram a magia de Safi. Foi sua presença.
Este monge era jovem, mas havia algo de errado nele. Algo muito implacável -
muito perigoso - para ser confiável.

Ele puxou o capuz, revelando um rosto pálido e cabelos castanhos curtos.


Então, quando o monge cheirou o ar perto da cabeça de Safi, o redemoinho
girou em torno de suas pupilas.

O estômago de Safi se transformou em pedra.

Bloodwitch.

Este monge era um Bloodwitch no cio. Uma criatura dos mitos, um ser que
podia sentir o cheiro do sangue de uma pessoa - de sua própria magia - e a
localizar em continentes inteiros. Se ele ficasse muito próximo de Safi ou Iseult,
ele entraria em suas mentes, profundo...

— Pop-pop-pop!

A pólvora explodiu dentro dos fogos. Os guardas haviam acertado a


armadilha.

Safi agiu instantaneamente - assim como o monge. Sua espada saiu da


bainha; sua faca apareceu. Ela cortou a borda de sua lâmina, afastando-a de
lado.

Ele se recuperou e se lançou. Safi deu um passo para trás. Seus golpes
atingiram Iseult, mas em um único movimento fluido, Iseult se ajoelhou - e Safi
rolou de lado sobre as costas.

Fase dois. Completa.

Era como as garotas lutavam. Como elas viviam.

Safi se soltou de sua sacudida e retirou sua espada quando as foices lunares
de Iseult se soltaram. Bem atrás deles, mais explosões soaram. Gritos se
levantaram, cavalos chutavam e relinchavam.

Iseult girou para o peito do monge. Ele pulou para trás e para a roda da
carruagem. No entanto, onde Safi esperava um momento de distração, ela só
conseguiu que o monge mergulhasse de cima.

Ele era bom. O melhor lutador que ela já enfrentou.

Mas Safi e Iseult eram ainda melhores.

Safi saiu do alcance quando Iseult entrou no caminho do monge. Em um


borrão de aço girando, suas foices cortaram seus braços, seu peito, seu intestino
- e então, como um tornado, ela passou.

E Safi estava esperando. Observando o que não podia ser real e, no entanto,
era evidente: cada corte no corpo do monge estava se curando diante de seus
olhos.

Não havia dúvida agora - esse monge era um Bloodwitch maldito três
vezes, direto dos pesadelos mais sombrios de Safi. Então ela fez a única coisa
que podia conjurar: jogou a faca diretamente no peito do monge.
Ela bateu em sua caixa torácica e ficou profundamente enraizada em seu
coração. Ele tropeçou para frente, batendo os joelhos - e seus olhos vermelhos
se encontraram com os de Safi. Seus lábios se curvaram para trás. Com um
grunhido, ele arrancou a faca do peito. A ferida jorrou ...

E começou a curar.

Mas Safi não teve tempo para outro feitiço. Os guardas estavam voltando.
O Mestre da Guilda gritava de dentro de sua carruagem, e os cavalos corriam
em um galope frenético.

Iseult disparou na frente de Safi, suas foices voando rápido e batendo duas
flechas no ar. Então, por um breve momento, a carruagem bloqueou as garotas
dos guardas. Somente o Bloodwitch podia vê-las e, embora pegasse suas facas,
ele era muito lento. Muito drenado pela magia de cura.

No entanto, ele sorria - sorria - como se soubesse algo que Safi não sabia.
Como se ele pudesse e quisesse caçá-la para fazê-la pagar por isso.

— Vamos! — Iseult puxou o braço de Safi, puxando-a em direção ao


penhasco.

Tudo isso era parte do plano. Pelo menos isso elas tinham praticado tantas
vezes que podiam fazê-lo com os olhos fechados.

Assim que os primeiros tiros da besta bateram na estrada atrás delas, as


garotas alcançaram uma pedra na altura da cintura no lado do oceano da
estrada e colocaram suas lâminas de volta nas bainhas.

Então, em dois saltos, Safi e Iseult estavam sobre a rocha. Do outro lado, o
penhasco corria direto para as ondas brancas e trovejantes.

Duas cordas esperavam, afixadas em uma estaca, afundadas na terra. Com


muito mais velocidade e força do que foi planejado para esta fuga, Safi pegou
sua corda, enganchou o pé em um loop no final, agarrou um nó no nível da
cabeça ...

E pulou.

2
O ar passou zunindo pelas orelhas e pelo nariz de Safi enquanto ela saltava
para as ondas brancas... para longe do penhasco de setenta pés...

Até que Safi chegasse ao final da corda. Com um puxão agudo que se
estilhaçou por seu corpo machucando suas mãos, ela voou para o penhasco
coberto de cracas.

Isso ia doer.

Ela bateu com um estrondo, os dentes batendo em sua língua. Dor chiou
pelo seu corpo. A pedra calcária cortou seus braços, rosto e pernas. Ela estalou
as mãos para segurar no penhasco, quando Iseult bateu nas rochas ao lado dela.

— Fogo. — Resmungou Safi. A palavra desencadeou a magia e a corda


desapareceu no rugido das ondas do oceano - mas o comando atingiu sua
marca. Em um lampejo de chamas brancas que disparavam mais rápido do que
os olhos podiam ver, suas cordas se acenderam ...

E desintegraram. Como cinzas ao vento. Algumas partículas se fixaram nos


lenços das meninas, nos ombros.

— Flechas! — Iseult rugiu, achatando-se contra a rocha enquanto os


parafusos passavam. Alguns deslizaram para fora das rochas, algumas
afundaram em ondas.

Um cortou a saia de Safi. Então ela conseguiu cavar os dedos nas


rachaduras, agarrar-se a fenda e correr para os lados. Seus músculos tremeram
e se esforçaram até que finalmente ela e Iseult se abaixaram sob uma leve
saliência. Até que finalmente puderam parar e deixar as flechas caírem
inofensivamente ao redor delas.

As pedras estavam molhadas, as cracas destruídas e a água na altura dos


tornozelos das meninas. Gotas salgadas as golpeavam repetidamente. Até que
finalmente as flechas pararam de cair.

— Eles estão vindo? — Safi esbarrou em Iseult.

Iseult sacudiu a cabeça. — Ainda estão lá. Eu posso sentir sua magia
esperando.

Safi piscou, tentando tirar o sal de seus olhos. — Nós vamos ter que nadar,
não é? Ela esfregou o rosto em seu ombro; isso não ajudou. — Acha que pode
chegar ao farol? — As duas garotas eram excelentes nadadoras - mas força de
nada adiantaria em ondas que podiam espancar um golfinho.

— Não temos escolha. — Disse Iseult, olhando para Safi com uma
ferocidade que sempre a fazia se sentir mais forte. — Podemos jogar nossas
saias para a esquerda e, enquanto os guardas atiram, saímos à direita.

Safi assentiu e, com uma careta, inclinou o corpo para poder tirar a saia.
Assim que as duas garotas soltaram as saias marrons, o braço de Iseult recuou.

— Pronta? — Ela perguntou.

— Sim. — Safi respondeu tirando a saia, e Iseult logo atrás.

E então as duas garotas se afastaram da face da rocha e afundaram sob as


ondas.
***

Enquanto o general Midenzi se soltava da túnica encharcada do mar, botas,


calças e finalmente roupa de baixo, tudo doía. Cada camada descascada
revelava dez novas fatias do calcário e cracas, e cada explosão na fenda, fazia
com que percebesse mais dez.

Este antigo farol em ruínas era eficaz para se esconder, mas era
inescapável até a maré vazar. Por enquanto, a água do lado de fora estava bem
acima do peito de Iseult, e esperançosamente essa profundidade - assim como
as ondas quebrando entre aqui e a costa pantanosa - impediria o Bloodwitch de
segui-las.

O interior do farol não era maior do que o quarto do sótão de Iseult sobre
a cafeteria de Mathew. A luz do sol entrava pelas janelas escuras de algas e o
vento arrastava a espuma do mar pela porta em arco.

— Sinto muito. — Disse Safi, sua voz abafada quando se contorcia de sua
túnica encharcada. Tirando sua blusa e a jogando no peitoril da janela. A pele
geralmente bronzeada de Safi estava pálida sob suas sardas.

— Não se desculpe. — Iseult reuniu suas próprias roupas descartadas. —


Fui eu que te disse sobre o jogo de cartas em primeiro lugar.

— Isso é verdade. — Safi respondeu, sua voz tremendo quando pulou em


um pé e tentou remover as calças - com as botas ainda nos pés. Ela sempre fazia
isso, e incomodava a opinião de Iseult de que uma garota de dezoito anos ainda
poderia ser impaciente demais para se despir adequadamente. — Mas, —
Acrescentou Safi. — fui eu quem queria os quartos mais agradáveis. Se
tivéssemos comprado aquele lugar há duas semanas ...

— Então teríamos ratos para companheiros de quarto. — Iseult


interrompeu. Ela se arrastou até o trecho de chão mais ensolarado e livre de
água. — Você estava certa em querer um lugar diferente. Custaria mais, mas
valeria a pena.

— Teria sido perfeito. — Com um grunhido alto, Safi finalmente se livrou


de suas calças.

— Não haverá um lugar nosso agora, Iz. Aposto que todos os guardas da
cidade de Veñaza estão procurando por nós. Sem mencionar o ... — Por um
momento, Safi olhou para as botas. Então, em um movimento frenético,
arrancou a direita. — Como também o Bloodwitch.

Sangue. Bruxo. Sangue. Bruxo. As palavras pulsaram através do tempo em


seu coração. Em tempo para o sangue dela.

Iseult nunca tinha visto um Bloodwitch antes ... ou alguém com uma magia
ligada ao Vazio. Voidwitches eram apenas histórias assustadoras depois de
tudo - elas não eram reais. Eles não guardavam Mestres de Guildas e tentavam
te ferir com espadas.

Depois de torcer as calças e alisar cada dobra em um peitoril da janela,


Iseult se arrastou até uma bolsa de couro na parte de trás do farol. Ela e Safi
sempre guardavam um kit de emergência aqui antes de um assalto, apenas no
caso do pior cenário se desdobrar.

Não que tivessem realizado muitos assaltos antes. Só de vez em quando,


para os bastardos que mereciam isso.

Como aqueles dois aprendizes que arruinaram um dos carregamentos de


seda do Mestre Alix e tentaram culpar Safi.

Ou aqueles bandidos que invadiram a loja de Mathew enquanto ele estava


fora e roubaram seus talheres de prata.

Depois, houve aquelas quatro ocasiões separadas em que os jogos de


cartas de tarô terminaram em brigas e moedas perdidas. A justiça tinha sido
exigida, é claro - para não mencionar a recuperação dos bens roubados.

O encontro de hoje, porém, foi a primeira vez que a bolsa de emergência


era realmente necessária.

Depois de vasculhar as roupas de reposição e uma bolsa de água, Iseult


encontrou dois trapos e uma banheira de lanolina. Então pegou as armas
descartadas das meninas e voltou para Safi. — Vamos limpar nossas lâminas e
criar um plano. Temos que voltar para a cidade de alguma forma.

Safi arrancou sua segunda bota antes de aceitar sua espada e faca. Ambas
se sentaram de pernas cruzadas no chão áspero, e Iseult afundou no familiar
cheiro de curral da graxa. No movimento cuidadoso de limpar suas foices.

— Como eram Os Threads do Bloodwitch? — Perguntou Safi baixinho.

— Não percebi. — Iseult murmurou. — Tudo aconteceu tão rápido. — Ela


esfregou com mais força o aço, protegendo suas lindas lâminas de Marstoki -
presentes do Heart-Thread de Mathew, Habim - contra a ferrugem.

Um silêncio se estendeu pelas ruínas de pedra. Os únicos sons eram o


rangido de tecido de aço e o eterno colapso das ondas de Jadansi.

Iseult sabia que ela parecia imperturbável enquanto limpava, mas estava
absolutamente certa de que seus Threads se entrelaçavam com os mesmos tons
assustados que os de Safi.

Iseult era uma Threadwitch1, o que significava que ela não podia ver seus
threads - ou as de qualquer outro Threadwitch.

Quando sua magia se manifestou aos nove anos de idade, o coração de


Iseult pareceu se esvair. Ela estava desmoronando sob o peso de um milhão de
linhas, nenhuma das quais eram dela. Onde quer que ela olhasse, ela via os
Threads que construíam, os Threads que prendiam e os Threads que se
quebravam. No entanto, ela nunca poderia ver os seus próprios ou como ela
tecia o mundo.

Então, assim como todo Nomatsi Threadwitch fazia, Iseult aprendera a


manter o corpo frio quando deveria estar quente. Manter os dedos firmes
quando eles deveriam estar tremendo. Ignorar as emoções que levavam a todas
as outras.

— Eu acho, — Disse Safi, espalhando os pensamentos de Iseult. — que o

1 Bruxa de linha.
Bloodwitch sabe que sou uma Truthwitch2.

O esfregar de Iseult se deteve. — Por que... — Sua voz era plana como o aço
em suas mãos. — você acha isso?

— Por causa do jeito que ele sorriu para mim. — Safi estremeceu. — Ele
cheirou a minha magia, assim como as histórias dizem, e agora ele pode me
caçar.

— O que significa que ele poderia estar nos rastreando agora. — Frio
correu pelas costas de Iseult. Sacudiu em seus ombros. Ela vasculhou sua
lâmina com mais força.

Normalmente, o ato de limpar ajudava-a a encontrar paz. Ajudava seus


pensamentos a desacelerar e sua praticidade subiu à superfície. Ela era a tática
natural, enquanto Safi era quem tinha as primeiras faíscas de uma ideia.

Inicie, complete.

Exceto que nenhuma solução chegou ao Iseult agora. Ela e Safi podiam se
deitar e evitar os guardas da cidade por algumas semanas, mas não podiam se
esconder de um Bloodwitch.

Especialmente se aquele Bloodwitch soubesse o que Safi era - e pudesse


vendê-la ao maior lance.

Quando uma pessoa se posicionava diretamente diante de Safi, ela podia


dizer a verdade da mentira, a realidade do engano. E até onde Iseult aprendera

2 Bruxa que pode reconhecer a verdade e a mentira.


em suas sessões de tutoria com Mathew, a última Truthwitch registrada
morrera há um século - decapitada por um imperador Marstoki por se aliar a
uma rainha cartorrana.

Se a magia de Safi se tornasse de conhecimento público, ela seria usada


como uma ferramenta política ...

Ou eliminada como uma ameaça política.

O poder de Safi era valioso e muito raro. Foi por isso que, durante toda a
sua vida, ela manteve seu segredo mágico. Como Iseult, ela era uma herege: uma
bruxa não registrada. A parte de trás da mão direita de Safi era sem adornos e
nenhuma tatuagem com a Marca da Bruxa proclamava seus poderes. No
entanto, um dia desses, alguém que não fosse um dos amigos mais próximos de
Safi, descobriria o que ela era e, quando esse dia chegasse, soldados invadiriam
o quarto de hóspedes do Sindicato dos Silks e arrastariam Safi acorrentada.

Logo, as lâminas das garotas estavam limpas e embainhadas, e Safi olhava


para Iseult com um de seus olhares mais duros e contemplativos.

— Nem pense nisso. — Ordenou Iseult.

— Talvez tenhamos que fugir da cidade, Iz. Deixar o Império Dalmotti


inteiramente.

Iseult revirou os lábios salgados, tentando não franzir a testa. Tentando


não sentir.

O pensamento de abandonar Veñaza... Iseult não podia fazer isso. A capital


do Império Dalmotti era sua casa. As pessoas no Distrito do Wharf do Norte
pararam de notar sua pele pálida de Nomatsi ou seus olhos angulados.

E levou seis anos e meio para esculpir esse nicho.

— Por enquanto. — Disse Iseult em voz baixa. — Vamos nos preocupar


em entrar na cidade sem sermos vistas, e vamos rezar também para que o
Bloodwitch não tenha sentido a verdade em seu sangue. Ou a sua magia.

Safi bufou um suspiro cansado e aninhou-se em um raio de sol. Isso fez sua
pele brilhar, seu cabelo luminescente. — Para quem devo orar?

Iseult coçou o nariz, grata por mudar o assunto. — Quase fomos mortas
por um monge Carawen, então por que não orar aos Poços de Origem?

Safi sentiu um pequeno tremor. — Se essa pessoa reza para os Poços de


Origem, então não quero. Que tal aquele deus nubrevano? Qual o nome dele?

— Noden.

— Esse mesmo. — Safi apertou as mãos contra o peito e olhou para o teto.
— Noden, deus das ondas de Nubrevnan.

— Acho que de todas as ondas, Safi. E tudo mais também.

Safi revirou os olhos. — Deus de todas as ondas e tudo mais, você pode por
favor garantir que ninguém venha atrás de nós? Especialmente... ele. Apenas
mantenha -o longe. E se você pudesse manter os guardas da cidade de Veñaza
longe também, seria legal.

— Esta é facilmente a pior oração que já ouvi. — Declarou Iseult.


— Me deixa, Iz. Eu não terminei ainda. — Safi soltou um suspiro pelo nariz
e então retomou sua oração. — Por favor, devolva todo o nosso dinheiro, antes
que ele ou Habim voltem de sua viagem. E isso é tudo. Muito obrigado, oh Noden
sagrado. — Então, acrescentou apressadamente: — Ah, e por favor, assegure-
se de que o Trapaceiro acinzentado receba exatamente o que merece.

Iseult quase bufou ao último pedido - exceto que uma onda colidiu com o
farol, repentina e áspera contra a pedra. A água salpicou o rosto de Iseult. Ela a
limpou, agitada.

— Por favor, Noden. — Sussurrou, esfregando spray de mar da testa. —


Por favor, apenas nos deixe passar por isso vivas.

3
Alcançar a cafeteria de Mathew onde Iseult vivia se mostrou mais difícil do
que Safi havia previsto. Ela e Iseult estavam exaustas, famintas e feridas pelas
chamas do inferno, por isso mesmo o ato básico de andar fazia Safi querer
gemer. Ou sentar-se. Ou quem sabe aliviar suas dores com um banho quente.

Mas esse banho não iria acontecer tão cedo. Guardas apinhavam-se em
toda a cidade de Veñaza e, quando as meninas entraram no Distrito do Norte do
Cais, já era quase de madrugada. Passaram metade da noite caminhando com
dificuldade do farol até a capital e depois a outra metade da noite atravessando
becos e escalando os jardins da cozinha.

Cada clarão de branco - cada pedaço de roupa balançando, cada vela


rompida ou cortina esfarrapada - tinha levado o estômago de Safi em sua boca.
Mas nunca fora o Bloodwitch, graças aos deuses, e à medida que a noite
começava a desvanecer-se ao amanhecer, apareceu o sinal para o café de
Mathew. Ele saía de uma estrada estreita que se abria na avenida principal do
lado do cais.

CAFÉ REAL MARSTOKI

MELHOR DA CIDADE DE VEÑAZA

Na verdade, não era café Marstoki de verdade - Mathew nem era do


Império de Marstok. Em vez disso, o café era filtrado e sem graça, atendendo,
como Habim sempre dizia, ao "paladar oculto".

O café de Mathew também não era o melhor da cidade. Até mesmo Mathew
admitiria que o sujo buraco na parede do Southern Wharf District tinha um café
muito melhor. Mas aqui em cima, nas bordas do norte da capital, as pessoas não
perambulavam pelo café. Eles vinham para os negócios.

O tipo de negócio que Wordwitches como Mathew se destacavam - o


comércio de rumores e segredos, o planejamento de assaltos e contras. Ele
dirigia cafeterias por todas as Terras Mágicas, e qualquer notícia sobre
qualquer coisa sempre chegava primeiro a Mathew.

Foi o seu dom que fez de Mathew a melhor escolha para tutor de Safi, já
que lhe permitia falar todas as línguas.

Mais importante, no entanto, o irmão de linha de Mathew, Habim, tinha


trabalhado para o tio de Safi durante toda a sua vida - tanto como homem de
armas quanto como um instrutor constantemente descontente. Então, quando
Safi foi enviada para o sul, só fazia sentido Mathew assumir onde Habim havia
parado.

Não que Habim tivesse abandonado completamente o treinamento de Safi.


Ele visitava seu irmão de linha muitas vezes na cidade de Veñaza - e então
passou a tornar a vida de Safi miserável com horas extras de exercícios de
velocidade ou estratégias antigas de batalha.

Safi chegou ao café primeiro e depois de saltar uma poça de esgoto


assustadoramente laranja, ela começou a lançar o feitiço de bloqueio na porta
da frente - uma parcela recente desde o incidente dos talheres roubados. Habim
poderia reclamar com Mathew tudo o que ele queria sobre o custo de um feitiço
de bloqueio com magia de altar, mas até onde Safi podia ver, valia a pena o
dinheiro. A cidade de Veñaza tinha uma taxa de criminalidade pesada - primeiro
porque era um porto e, segundo, porque os Mestres das Guildas abastados eram
muito atraentes para os ladrões sedentos de fome.

É claro que esses mesmos Mestres das Guildas eleitos, também pagaram
por uma extensa e aparentemente interminável coleção de guardas da cidade -
um deles estava parado na boca do beco. Ele se virou, examinando os navios
atracados do Distrito do Norte do Cais.

— Mais rápido. — Iseult murmurou. Ela cutucou as costas de Safi. — O


guarda está virando…

A porta abriu, Iseult empurrou, e Safi tombou na loja escura.

— Por que você está preocupada? — Sussurrou, contornando Iseult. — Os


guardas nos conhecem por aqui!

— Exatamente. — Retrucou Iseult, fechando a porta e as fechaduras. —


Mas, de longe, parecemos duas camponesas invadindo um café fechado.

Safi murmurou um "bom argumento", quando Iseult se adiantou e


sussurrou:

— Desça.

Ao mesmo tempo, vinte e seis mechas enfeitiçadas ganharam vida,


revelando desenhos brilhantes e encaracolados de Marstoki nas paredes, do
teto ao chão. Era exagerado - muitos tapetes de padrões estranhos saltaram em
Safi - mas, como o café, os ocidentais tinham uma certa ideia de como uma loja
Marstoki deveria parecer.

Com o suspiro de alguém finalmente capaz de respirar, Iseult caminhou em


direção à escada em espiral no canto de trás. Safi seguiu. Subindo, primeiro para
o segundo andar, onde Mathew e Habim viviam. Em seguida, para o sótão com
teto inclinado que Iseult chamava de lar, seu espaço cheio com duas camas e
um guarda-roupa.

Havia seis anos e meio agora, que Iseult vivia, estudava e trabalhava aqui.
Depois que fugiu de sua tribo, Mathew foi o único empregador disposto a
contratar e alojar um Nomatsi.

Iseult não se afastara desde então, embora não por falta de vontade.

Um lugar meu.

Safi deve ter ouvido sua irmã de linha dizer isso mil vezes. Cem mil vezes.
E talvez se Safi tivesse crescido dividindo uma cama com a mãe em uma cabana
de um cômodo como Iseult, então ela iria querer um espaço mais amplo, mais
privado e mais pessoal também.

No entanto… Safi arruinou todos os planos de Iseult. Cada moeda das suas
economias se foram, e todos os guardas da cidade de Veñaza estavam
ativamente caçando Safi e Iseult. Era literalmente o pior cenário possível, e
nenhuma mochila de emergência ou um esconderijo em um farol as safaria
dessa bagunça.

Engolindo de volta a náusea, Safi cambaleou até uma janela através da sala
estreita e empurrou-a aberta. Ar quente e saturado de peixes flutuava, familiar
e calmante. Com o sol nascendo no leste, os telhados de barro da cidade de
Veñaza brilhavam como chamas alaranjadas.
Era lindo, tranquilo e deuses abaixo, Safi adorava essa visão. Tendo
crescido em ruínas preciosas no meio das Montanhas Orhin - trancada na ala
leste sempre que tio Eron ficava de mau humor, a vida de Safi no castelo de
Hasstrel foi cheia de janelas quebradas e neve se infiltrando, ventos congelados
e úmidos, deslizando pelas frestas. Onde quer que olhasse, seus olhos
pousariam em esculturas, pinturas ou tapeçarias do bastão da montanha
Hasstrel. Uma criatura grotesca, semelhante a um dragão, com o lema “Amor e
Medo” percorria suas garras.

Mas as pontes e os canais da cidade de Veñaza estavam sempre


ensolarados e cheirando maravilhosamente a peixe podre. A loja de Mathew
estava sempre brilhante e lotada. Os cais sempre cheios de xingamentos
deliciosamente ofensivos dos marinheiros.

Aqui, Safi se sentia aquecida. Aqui, se sentia bem-vinda e, às vezes, até


mesmo desejada.

Safi limpou a garganta. A mão dela caiu do trinco e ela se virou para
encontrar Iseult mudando para um vestido verde oliva.

Iseult baixou a cabeça para o guarda-roupa. — Você pode usar meu vestido
de dia extra.

— Mostrará isso, no entanto. — Safi enrolou uma manga enrijecida de sal


para revelar os arranhões e hematomas apimentando seus braços - todos os
quais seriam visíveis nas mangas curtas.

— Então é uma sorte para você ainda ter... — Iseult afastou duas jaquetas
pretas cortadas do guarda-roupa. — Estas!
Os lábios de Safi se dobraram. As jaquetas eram traje padrão para todos os
aprendizes do Clã - e essas duas em particular eram troféus do primeiro assalto
das meninas.

— Eu ainda mantenho — Declarou Safi. — que deveríamos ter levado mais


do que apenas suas jaquetas ao invés de termos deixado o resto amarrado no
depósito.

— Sim, bem, da próxima vez que alguém arruinar um carregamento de


seda e culpar você, Saf, prometo que vamos levar mais do que apenas suas
jaquetas. — Iseult jogou a lã preta para Safi, que a retirou do ar.

Depois de rasgar as roupas às pressas, Iseult se acomodou na beira da


cama, os lábios apertados para o lado. — Eu estive pensando. — Ela começou
uniformemente. — Se aquele Bloodwitch estiver realmente atrás de nós, então
talvez o Mestre da Guilda da Seda possa te proteger. Ele é seu guardião técnico,
afinal, e você mora em seu quarto de hóspedes.

— Não acho que ele vai abrigar uma fugitiva. — O rosto de Safi se contraiu
com um estremecimento. — Não seria correto arrastar o Mestre da Guilda Alix
para isso de qualquer maneira. Ele sempre foi muito gentil comigo e eu
detestaria recompensá-lo com problemas.

— Tudo bem. — Iseult disse, sua expressão imutável. — Meu próximo


plano envolve os Hell-Bards. Eles estão na cidade de Veñaza para a cimeira da
trégua, certo? Para proteger o império cartorrano? Talvez você pudesse pedir
ajuda a eles, já que seu tio costumava ser um deles - e duvido que até mesmo os
guardas de Dalmotti sejam estúpidos o suficiente para cruzar um Hell-Bard.
O estremecimento de Safi só se aprofundou com essa ideia. — Tio Eron foi
desonrosamente dispensado do Hell-Bard, Iz. Toda a Brigada agora o odeia, e o
Imperador Henrick o odeia ainda mais. — Bufou, um som desdenhoso que
deslizou pelas paredes e sacudiu em sua barriga. — Para piorar, o Imperador
está procurando qualquer desculpa para entregar meu título a um de seus
bajuladores viscosos. Tenho certeza de que segurar um Mestre da Guilda é
motivo suficiente para isso.

Durante a maior parte da infância de Safi, seu tio a treinou como um


soldado e a tratou como uma pessoa também — sempre que estivera sóbrio o
suficiente para prestar atenção, pelo menos. Mas quando Safi completou doze
anos, o Imperador Henrick decidiu que era hora de Safi vir à capital cartorrana
para sua educação. O que ela sabe sobre os principais agricultores ou a
organização de uma colheita? Henrick berrou para o tio Eron, enquanto Safi
esperara, pequena e silenciosa, atrás dele. Que experiência Safiya tem
administrando uma casa ou coletando dízimos?

Foi com essa última preocupação — o pagamento de taxas exorbitantes em


Cartorran - que o Imperador Henrick estava mais preocupado. Com toda a
nobreza enrolada em seus dedos cobertos de anéis, ele queria garantir que Safi
também os enredasse.

Mas a tentativa de Henrick de prender mais uma domna leal se desfez, pois
o tio Eron não havia enviado Safi para estudar em Praga com todos os outros
jovens nobres. Em vez disso, Eron a despachou para o sul, para os Mestre da
Guildas e tutores da cidade de Veñaza.

Foi a primeira e última vez que Safi sentiu alguma coisa como gratidão por
seu tio.

— Nesse caso, — Iseult disse, tom final e ombros flácidos. — acho que
teremos que sair da cidade. Podemos nos esconder em algum lugar até que tudo
isso acabe.

Safi mordeu o lábio. Iseult fazia com que parecesse tão fácil “esconder-se
em algum lugar, mas a realidade era que a clara ascendência Nomatsi de Iseult
fazia dela um alvo onde quer que fosse.

A única vez que as meninas tentaram deixar Veñaza, visitar um amigo


próximo, elas mal conseguiram voltar para casa.

É claro que os três homens da taverna que decidiram atacar Iseult nunca
voltaram para casa. Pelo menos não com os fêmures intactos.

Safi pisou no guarda-roupa e abriu-o, fingindo que o cabo era o nariz do


trapaceiro Traidor. Se ela alguma vez ... vir aquele bastardo de novo, ela iria
quebrar todos os ossos do corpo dele.

— Nossa melhor aposta — Prosseguiu Iseult. — será o Distrito de Southern


Wharf. Os navios comerciais de Dalmotti estão atracados lá, e podemos
conseguir passagem em troca de trabalho. Você precisa de alguma coisa do
Mestre da Guilda Alix?

No aperto de cabeça de Safi, Iseult continuou. — Certo. Então vamos deixar


um bilhete para Habim e Mathew explicando tudo. Então … eu acho que nós
vamos … embora...

Safi ficou em silêncio enquanto ela rebocava um vestido dourado. Sua


garganta estava apertada demais para palavras. Seu estômago girando com
muita força.

Foi então que, quando Safi prendeu os dez milhões de botões de madeira e
Iseult amarrou um lenço cinza claro ao redor de sua cabeça, uma batida
explodiu pela loja.

— Policia de Veñaza! — Veio uma voz abafada. — Abram! Nós vimos vocês
entrarem!

Iseult suspirou - um som de tão longo sofrimento.

— Eu sei. — Safi rosnou, deslizando o último botão no lugar. — Você me


disse isso.

— Só enquanto você está ciente.

— Quando você vai me deixar esquecer?

Os lábios de Iseult se contorceram com um sorriso, mas foi uma falsa


tentativa - e Safi não precisou da sua magia para ver isso.

Enquanto as garotas puxavam suas jaquetas de aprendizes, o guarda


começou a gritar de novo. — Abra! Há apenas uma maneira de entrar ou sair
desta loja!

— Não acredito! — Safi inseriu.

— Não hesitaremos em usar a força!

— E nem nós vamos. — Com um aceno de cabeça da sua irmã, Safi correu
para a cama de Iseult. Então as duas arrastaram o catre em direção à porta. Pés
de madeira gemeram, e logo o soltaram para formar uma barricada — uma que
sabiam funcionar bem, pois não era a primeira vez que Safi e Iseult eram
forçadas a fugir.

Embora sempre tivessem sido Mathew e Habim berrando do outro lado.


Não guardas armados.

Momentos depois, Safi e Iseult ficaram paradas na janela, respirando


rápido e ouvindo a porta da frente se quebrar. Quando a loja inteira tremeu e
vidro quebrou.

Encolhendo-se, Safi subiu no telhado. Primeiro perdera todo o dinheiro e


agora arruinara a loja de Mathew. Talvez ... talvez fosse uma coisa boa que seus
professores estivessem fora da cidade a negócios. Pelo menos ela não teria que
enfrentar Mathew ou Habim tão cedo.

Iseult esgueirou-se ao lado de Safi, a bolsa de emergência nas costas dela


cheia com suprimentos. As armas de Iseult encaixavam-se nas bainhas da
panturrilha por baixo da saia, mas Safi só podia guardar sua faca na bota. Sua
espada - sua bela espada de aço dobrada - estava ficando para trás.

— Para onde? — Safi perguntou, sabendo que sua irmã de linha tinha uma
rota girando por trás daqueles olhos brilhantes.

— Vamos para o interior, como se estivéssemos indo para o Mestre da


Guilda Alix e depois para o sul.

— Telhados?
— Enquanto pudermos. Você lidera o caminho.

Safi assentiu bruscamente antes de começar a correr — a oeste, em direção


ao coração interno da cidade de Veñaza e, quando chegou à beira do telhado de
Mathew, saltou para o próximo declive de telhas.

Ela pulou para baixo. Os pombos explodiram para cima, as asas batendo
para sair do caminho, e então Iseult saltou ao lado dela.

Mas Safi já estava se movendo, já voando para o telhado seguinte. E o


seguinte, continuando com o Iseult logo atrás.

***

Iseult esgueirou-se pela rua de paralelepípedos, Safi dois passos à frente.


As garotas haviam se desviado do interior da cafeteria, cruzando canais e
voltando por cima de pontes para evitar os guardas da cidade. Felizmente, o
tráfego da manhã havia começado - uma multidão abundante de carros
carregados de frutas, burros, cabras e pessoas de todas as raças e
nacionalidades. Threads com cores tão variadas quanto as peles de seus donos
giravam preguiçosamente pelo calor.

Safi pulou na frente de um carrinho de suínos, deixando Iseult para


persegui-la. Então foi em torno de um mendigo, passando por um grupo de
puristas gritando sobre os pecados da magia, diretamente através de um
rebanho de ovelhas infelizes antes que chegassem a uma massa entupida de
tráfego imóvel. À sua frente, linhas rodopiavam com uma fúria vermelha.

Iseult imaginou se suas próprias linhas eram tão vermelhas. As meninas


estavam tão perto do Distrito do Cais do Sul que Iseult podia ver as centenas de
navios de vela branca ancorados à frente.

Mas abraçou a frustração. Outras emoções — as que ela não queria nomear
e que nenhuma Threadwitch decente permitia à superfície — estremeceram em
seu peito. Estase, ela disse a si mesma, assim como sua mãe a ensinou anos
atrás. Estase nas pontas dos dedos e nos dedos dos pés.

Logo, as linhas do tráfego cintilaram azuis. A cor movia-se como uma cobra
sobre um lago, como se as multidões estivessem aprendendo, uma por uma, o
motivo desse engarrafamento.

De volta à realidade, a cor movida até que finalmente uma velha perto das
garotas gritou: — O que? Um bloqueio à frente? Mas vou sentir falta dos
caranguejos mais frescos!

O intestino de Iseult ficou gelado, e os Threads de Safi brilharam com medo


na cor cinza.

— Portões do inferno. — Ela sussurrou. — E agora, Iz?

— Mais problemas, eu acho. — Com um grunhido e mudando de seu peso,


Iseult tirou um grosso rolo cinza de sua mochila. — Vamos parecer duas
aprendizes muito estudiosas se estivermos carregando livros. Você pode dar
uma breve história sobre a autonomia de Dalmotti.

— Fique atrás de mim. — Safi murmurou, embora aceitasse o enorme livro.


Em seguida, Iseult tirou um livro azul encadernado, intitulado Guia Ilustrado
para o Monastério Carawen.

— Oh, agora eu vejo por que você tem estes. — Safi ergueu as sobrancelhas,
desafiando Iseult a discutir. — Eles não são para disfarçar nada. Você
simplesmente não queria deixar para trás seu livro favorito.

— E? — Iseult fungou desdenhosamente. — Significa que você não quer


carregá-lo?

— Não é isso. Vou mantê-lo. — Safi estalou o queixo alto. — Apenas


prometa que vai me deixar fazer toda a ação assim que chegarmos aos guardas.

— Afaste-se, Saf. — Sorrindo para si mesma, Iseult puxou sua echarpe para
baixo. Estava encharcado de suor, mas ainda sombreava seu rosto e sua pele.
Então ajustou as luvas até que não fosse visível nem um centímetro do pulso.
Todo o foco seria em Safi e iria ficar em Safi.

Pois, como Mathew sempre disse, com a mão direita, dê a uma pessoa o
que ela espera - e, com a mão esquerda, corte a sua bolsa. Safi sempre tocava a
mão direita distraída - e ela era boa nisso - enquanto Iseult espreitava nas
sombras, pronta para reivindicar qualquer bolsa que precisasse ser cortada.

Quando Iseult se acomodou em uma espera fervente, ela rangeu de volta a


capa grossa de seu livro. Desde que um monge a ajudou quando era pequena,
Iseult tinha sido um pouco ... bem, obcecada era a palavra que Safi sempre
usava. Mas não foi apenas a gratidão que a deixou fascinada pelos Carawens -
eram suas vestes puras, brilhantes e seus brincos de opala. Seu treinamento
mortal e votos sagrados.
A vida no mosteiro de Carawen parecia tão simples. Tão contida. Não
importava a herança, era possível aderir e ter aceitação instantânea. Respeito
instantâneo.

Era uma sensação que Iseult mal podia imaginar, ainda que seu coração
batesse faminto toda vez que pensava nisso.

As páginas do livro se abriram para no número trinta e sete - onde uma


pite de bronze brilhava para ela. Ela havia colocado a moeda ali para marcar
sua última página, e seu leão alado parecia quase rir dela.

A primeira moeda em direção à nossa nova vida, pensou Iseult. Então seus
olhos cintilaram sobre o script ornamentado de Dalmotti na página. Descrições
e imagens de diferentes monges de Carawen rolaram sobre ele, o primeiro dos
quais era o Monge Mercenário, sua ilustração, de todas as facas, espada e
expressão de pedra.

Parecia exatamente como o Bloodwitch.

Sangue. Bruxa. Sangue. Bruxa.

O gelo se acumulava na barriga de Iseult, com a lembrança de seus olhos


vermelhos, os dentes à mostra. Gelo ... e algo oco. Mais pesado.

Desapontamento, ela finalmente identificou, pois parecia tão errado que


um monstro como ele pudesse entrar nas fileiras do monastério.

Iseult olhou a legenda sob a ilustração, como se isso pudesse oferecer


alguma explicação. No entanto, tudo o que ela leu foi: Treinado para lutar no
exterior em nome do Cahr Awen.
A respiração de Iseult escorregou com a palavra - Cahr Awen - e seu peito
se esticou. Como uma menina, ela passou horas, subindo em árvores e fingindo
que era um dos Cahr Awen - uma das duas bruxas nascidas da Roda da Origem
que poderia limpar até mesmo os males mais escuros.

Mas assim como muitas das fontes que alimentam a Roda estiveram
mortas durante séculos, nenhum novo Cahr Awen nasceu em quase quinhentos
anos - e as fantasias de Iseult acabaram inevitavelmente com gangues de
crianças da aldeia. Eles enxameariam qualquer árvore em que ela tivesse
entrado, gritando maldições e odiando o que eles tivessem aprendido com seus
pais. Um Threadwitch que não pode fazer linhas de pedras não pertence aqui!

Iseult sempre soubera naqueles momentos - enquanto abraçava um galho


de árvore e rezava para que sua mãe a encontrasse logo - que o Cahr Awen não
passava de uma linda história.

Engolindo em seco, Iseult deixou de lado aquelas lembranças. Este dia já


estava ruim o suficiente; não havia necessidade de desenterrar velhas misérias
também. Além do mais, ela e Safi estavam quase com os guardas agora, e a lição
mais antiga de Habim estava sussurrando no fundo de sua mente.

Avalie seus oponentes. Ele sempre dizia. Analise seu terreno. Escolha seus
campos de batalha quando puder.

— Fila única! — Gritaram os guardas. — Qualquer arma deve estar a


mostra, onde podemos vê-las!

Iseult fechou o livro com um vento de ar mofado. Dez guardas, ela contou.
Espalhavam-se do outro lado da estrada com carrinhos empilhados atrás deles
para bloquear a multidão. Bestas. Machados. Se este pequeno interrogatório
não desse certo, então não havia como as garotas lutarem.

— Tudo bem. — Resmungou Safi. — É a nossa vez. Mantenha seu rosto


escondido.

Iseult fez o que ordenou e afundou-se em posição atrás de Safi, que


marchava imperiosamente até o primeiro guarda de cara azeda.

— Qual é o significado disso? — As palavras de Safi soaram claras e


cortadas sobre o barulho constante do tráfego. — Estamos agora atrasadas para
nosso encontro com o Mestre da Guilda do Trigo. Você sabe como é seu
temperamento?

O rosto do guarda se fixou em um olhar furioso - mas seus Threads


brilharam com grande interesse. — Nomes.

— Safiya. E esta é minha dama de companhia, Iseult.

Embora a expressão do guarda permanecesse não impressionada, seus


Threads flamejaram com mais interesse. Ele se afastou, fazendo sinal para um
segundo guarda se aproximar, e Iseult teve que morder a língua para não
advertir Safi.

— Eu exijo saber para que serve esse ataque! — Safi gritou para o novo
guarda, um homem gigante.

— Estamos procurando por duas meninas. — Ele rugiu. — São procuradas


por um roubo na estrada. Suponho que você não tenha alguma arma em você?
— Eu pareço o tipo de garota que carrega uma arma?

— Então não se importará se nós revistarmos você.

Para crédito de Safi, nenhum medo em seus Threads apareceu em seu


rosto, e ela apenas ergueu o queixo mais alto. — Eu certamente me importo, e
se você tocar em minha pessoa, vou me certificar que seja expulso
imediatamente. Todos vocês! — Ela estendeu o livro, e o primeiro guarda se
encolheu. — Amanhã, você estará nas ruas, desejando não ter mexido com um
aprendiz de Mestre da Guilda...

Safi não conseguiu terminar sua ameaça, pois naquele momento uma
gaivota gritou por cima ... e uma gosma branca caiu no ombro dela.

Seus Threads brilharam em uma surpresa turquesa. — Não. — Ela


respirou, os olhos arregalados. — Não.

Os olhos dos guardas também se arregalaram, seus Threads agora


brilhando em um rosa vertiginoso.

Eles começaram a rir. Então começaram a apontar, e até Iseult teve que
levar uma mão enluvada à boca. Não ria, não ria...

Ela começou a rir, e os Threads de Safi brilharam em fúria vermelha. — Por


quê? — Ela gritou para Iseult. Então aos guardas: — Por que sempre eu? Há
milhares de ombros para uma gaivota, mas eles sempre me escolhem!

Os guardas estavam dobrados agora e o segundo levantou uma mão fraca.


— Vai. Apenas … vá. — Lágrimas escorriam de seus olhos - o que só serviu para
fazer Safi rosnar quando passou. — Por que você não faz algo útil com o seu
tempo? Em vez de rir de garotas em perigo, vá lutar contra o crime ou algo
assim!

Então Safi passou pelo posto de controle e correu para os navios de


comércio de cascos grossos mais próximos - com Iseult nos calcanhares e rindo
o tempo todo.

4
Os dedos de Merik Nihar se curvaram ao redor da faca de manteiga. A
domna cartorrana do outro lado da ampla mesa de jantar de carvalho tinha um
queixo peludo com gordura de galinha escorrendo.

Como se sentisse o olhar de Merik, a domna levantou um guardanapo bege


e limpou os lábios enrugados e o queixo enrugado.

Merik a odiava - assim como odiava todos os outros diplomatas aqui. Ele
poderia ter passado anos dominando o famoso temperamento de sua família,
mas tudo o que seria necessário nesse momento era mais um grão. Mais um
grão de sal e o oceano inundaria.

Ao longo da longa sala de jantar, vozes zumbiam em pelo menos dez


idiomas diferentes. A Cimeira da Trégua Continental começaria amanhã para
discutir a Grande Guerra e o fim da Trégua dos 20 Anos. Esta Assembleia trouxe
centenas de diplomatas das terras das bruxas para a cidade de Veñaza.

Dalmotti pode ser o menor dos três impérios, mas era o mais poderoso do
comércio. E como estava bem situado entre o Império de Marstok, a leste, e o
Império Cartorran, a oeste, era o lugar perfeito para essas negociações
internacionais.

Merik estava aqui para representar Nubrevna, sua terra natal. Na verdade,
havia chegado três semanas antes, na esperança de abrir um novo comércio -
ou talvez restabelecer antigas conexões da Corporação. Mas foi uma completa
perda de tempo.

Os olhos de Merik passaram da velha nobre para a enorme extensão de


vidro atrás dela. Os jardins do palácio do Doge brilhavam para além, inundando
a sala com um brilho esverdeado e o cheiro de jasmim suspenso. Como líder
eleito do Conselho Dalmotti, o Doge não tinha família - nenhum Mestre da
Guildas em Dalmotti fazia isso, uma vez que as famílias os distraiam de sua
devoção às Guildas - então não era como se ele precisasse de um jardim que
pudesse conter doze dos navios de Merik.

— Está admirando a parede de vidro? — Perguntou o líder ruivo da


Corporação de Seda, sentado à direita de Merik. — É uma façanha das nossas
Earthwitches. É tudo um painel, você sabe.

— Realmente uma façanha. — Merik disse, embora seu tom sugerisse o


contrário. — Embora me pergunto, Mestre da Guilda Alix, se você já considerou
uma ocupação mais útil para seus Earthwitches.

O Mestre da Guilda tossiu levemente. — Nossas bruxas são indivíduos


altamente especializados. Por que insistir que um Earthwitch que é bom com
solo só trabalhe em uma fazenda?

— Mas há uma diferença entre um Soilwitch que só pode trabalhar com


solo e um Earthwitch que escolhe trabalhar apenas com solo. Ou com areia
derretida no copo. — Merik recostou-se na cadeira. — Veja você mesmo, Mestre
da Guilda Alix. Você é um Earthwitch, eu presumo? Provavelmente sua magia
se estende aos animais, mas certamente não é exclusiva de apenas bichos-da-
seda.

— Ah, mas não sou um Earthwitch em tudo. — Alix virou a mão


ligeiramente, revelando sua Witchmark: um círculo para Aether e uma linha
tracejada que significava sua especialidade em arte. — Sou alfaiate profissional.
Minha mágica está em trazer o espírito de uma pessoa para a vida através das
roupas.

— É claro. — Merik respondeu categoricamente. O Mestre da Guilda


acabara de provar o argumento de Merik - não que o homem parecesse notar.
Por que desperdiçar uma habilidade mágica com arte na moda? Em um único
tipo de tecido? O próprio alfaiate de Merik fizera um excelente trabalho com o
terno de linho que ele usava agora – sem a necessidade de qualquer mágica.
Um longo casaco cinza-prateado cobria uma camisa creme, e embora
ambas as peças tivessem mais botões do que deveria ser permitido, Merik
gostou do terno. Suas calças pretas justas estavam enfiadas em botas novas e
rangentes, e o cinto largo em seus quadris era mais do que mera decoração.
Assim que Merik estivesse de volta ao navio, ele reformaria seu sabre e pistolas.

Sentindo claramente o desprazer de Merik, o Aliado da Aliança voltou sua


atenção para a nobre do outro lado. — O que você diz sobre o casamento
pendente do Imperador Henrick, minha senhora?

A carranca de Merik se aprofundou. Tudo o que pareciam interessados em


discutir naquele almoço eram fofocas e frivolidades. Havia um homem na antiga
República da Arithuania - aquela terra selvagem e anárquica ao norte - que
estava unindo facções invasoras e chamando a si mesmo de "rei", mas esses
diplomatas imperiais se importavam?

De modo nenhum.

Havia rumores de que a Brigada Infernal estava pressionando as bruxas


para o serviço, mas nenhum desses doms ou domnas parecia achar essa notícia
alarmante. Então Merik supôs que não eram seus filhos ou filhas que seriam
forçados a se alistar.

O olhar furioso de Merik voltou ao seu prato. Foi raspado limpo. Até os
ossos haviam sido jogados no guardanapo. O caldo de osso, afinal, era fácil de
fazer e podia alimentar os marinheiros por dias. Vários dos outros hóspedes do
almoço notaram - Merik não tinha exatamente escondido quando usou a seda
bege para arrancar os ossos de seu prato.
Merik ficou tentado a perguntar a seus vizinhos mais próximos se ele
poderia ter seus ossos de galinha, a maioria dos quais ainda intocados e
rodeados de grãos verdes. Os marinheiros não desperdiçavam comida - não
quando nunca sabiam se pegariam outro peixe ou se veriam a terra novamente.

E especialmente não quando sua terra natal estava morrendo de fome.

— Almirante. — Disse um nobre gordo à esquerda de Merik. — Como está


a saúde do rei Serafim? Ouvi dizer que sua doença debilitante estava em seus
estágios finais.

— Então você ouviu errado. — Respondeu Merik, sua voz perigosamente


fria para qualquer um que conhecesse a raiva da família Nihar. — Meu pai está
melhorando. Obrigado... qual é o seu nome?

As bochechas do homem balançaram. — Dom Phillip fon Grieg. — Ele colou


em um sorriso falso. — Grieg é uma das maiores propriedades do Império
Cartorrano - com certeza você sabe disso. Ou … não? Suponho que um
nubrevano não precisaria da geografia cartorrana.

Merik apenas sorriu para isso. É claro que sabia onde ficavam as
propriedades de Grieg, mas deixou o dom pensar que ele ignorava as
especificidades de Cartorran.

— Tenho três filhos na Brigada Hell-Bard. — Prosseguiu o dom, com os


dedos grossos e cheios de salsicha pegando uma taça de vinho. — O imperador
prometeu a cada um deles uma participação própria no futuro próximo.

— Não me diga. — Merik teve o cuidado de manter seu rosto impassível,


mas, em sua cabeça, estava rugindo sua fúria. A Brigada dos Hell-Bard - aquele
contingente de elite de combatentes implacáveis encarregados de “limpar”
Cartorra de bruxas e hereges elementares - era uma das principais razões pelas
quais Merik odiava Cartorranos.

Afinal, Merik era um bruxo elementar, como quase todas as pessoas nas
Witchlands que ele se importava.

Quando Dom fon Grieg tomou um gole de sua taça, uma corrente de vinho
caro de Dalmotti escorreu pelos lados de sua boca. Era um desperdício.
Repugnante. A fúria de Merik cresceu... cresceu... e cresceu.

Até que foi o grão final de sal, e Merik sucumbiu ao dilúvio.

Com uma inspiração rouca e aguda, puxou o ar da sala para si mesmo.


Então ele bufou.

O vento explodiu no dom. O cálice do homem se inclinou e vinho salpicou


seu rosto, seus cabelos, suas roupas. Até voou para a janela - espalhando
gotículas vermelhas pelo vidro.

O silêncio desceu. Por meio segundo, Merik considerou o que deveria fazer
agora. Um pedido de desculpas estava claramente fora de questão, e uma
ameaça parecia dramática demais. Então os olhos de Merik ficaram presos no
prato não-clareado do Mestre da Guilda Alix. Sem pensar duas vezes, Merik
ficou de pé e lançou um olhar tempestuoso sobre os rostos nobres que agora o
fitavam. Para os servos de olhos arregalados pairando nas portas e sombras.

Então, Merik pegou o guardanapo do colo do Mestre da Guilda. — Você não


irá comer isso, vai? — Merik não esperou por uma resposta. Ele apenas
murmurou: — Ótimo, porque minha tripulação certamente o fará. — E
começou a recolher os ossos, os feijões verdes e até os pedaços finais de repolho
cozido. Depois de apertar o guardanapo de seda, ele enfiou-o no bolso do colete
junto com seus próprios ossos guardados.

Então se virou para o Doge Dalmotti piscando, e declarou: — Obrigado por


sua hospitalidade, meu senhor.

E com nada mais do que uma saudação zombeteira, Merik Nihar, príncipe
de Nubrevna e Almirante da Marinha de Nubrevnan, marchou do almoço, da
sala de jantar e finalmente do palácio do Doge.

E enquanto andava, ele começou a planejar.

***

Quando Merik chegou ao extremo sul do distrito de Southern Wharf, sinos


longínquos ecoavam na décima quinta hora e a maré estava baixa. O calor do
dia havia afundado nos paralelepípedos, deixando uma temperatura escaldante
para se enroscar nas ruas.

Quando Merik tentou pular uma poça de apenas Noden sabia o que, suas
pernas falharam e suas novas botas pegaram a borda da sujeita. A água
enegrecida espirrou, carregando consigo o fedor pesado de peixe velho - e
Merik lutou contra o desejo de socar a vitrine mais próxima da loja. Não era
culpa da cidade que seus Mestre da Guildas fossem bufões.
Nos dezenove anos e quatro meses desde que a Trégua dos 20 Anos
interrompeu a guerra nas Witchlands, os três impérios - Cartorra, Marstok e
Dalmotti - haviam esmagado com sucesso a casa de Merik por meio da
diplomacia. A cada ano, menos uma caravana comercial passava por seu país e
uma de exportação a menos de Nubrevnan havia encontrado um comprador.

Nubrevna não era a única pequena nação a sofrer. Supostamente, a Grande


Guerra havia começado, todos aqueles séculos atrás, como uma disputa sobre
quem possuía os Cinco Poços de Origem. Naqueles dias, eram os Poços que
escolhiam os governantes - algo a ver com os Doze Paladinos... Embora, como
era possível que doze cavaleiros ou uma primavera inanimada pudessem
escolher um rei, Merik nunca havia entendido direito.

Agora tudo era coisa de lenda, com o passar das décadas e dos séculos, três
impérios surgiram do caos da Grande Guerra - e cada império queria a mesma
coisa: mais. Mais bruxarias, mais safras, mais portos.

Então, existiam três impérios maciços contra um punhado de nações


minúsculas e ferozes, que lentamente conseguiram a vantagem, pois as guerras
custam dinheiro e até os impérios podem acabar.

Paz, o Imperador de Cartorrana proclamou. Paz por vinte anos e depois


renegociação. Soou perfeito.

Muito perfeito.

O que pessoas como a mãe de Merik não perceberam quando escreveram


seus nomes na Trégua de 20 Anos foi que quando o Imperador Henrick disse
“paz”, ele realmente quis dizer “pausa”. E quando disse “renegociação”, ele quis
dizer “garantia que outras nações caíam abaixo de nós quando nossos exércitos
retomam sua marcha”.

Então agora, enquanto Merik observava os exércitos de Dalmotti vindo do


oeste, os Bruxos Marstoki se reunindo no leste, e três marinhas imperiais
flutuando lentamente em direção à costa de sua terra natal, parecia que Merik
- e todos em Nubrevna - estavam se afogando. Eles estavam afundando sob as
ondas, observando a luz do sol desaparecer, até que não restaria nada além dos
Hagfishes3 de Noden e um último suspiro de água.

Mas os nubrevanos ainda não estavam aleijados.

Merik tinha mais uma reunião, esta com a Guilda de Ouro. Se Merik
pudesse apenas abrir uma linha de comércio, então sentia que certas outras
Guildas seguiriam.

Quando finalmente Merik chegou ao seu navio de guerra, uma fragata de


três mastros com um arco acentuado e semelhante a um bico, distintivo dos
navios da Marinha Nubrevnan, ele a encontrou calma na maré baixa. Suas velas
estavam enroladas, seus remos empilhados e a bandeira de Nubrevnan, com
seu fundo preto e íris de barba - um brilho vívido de azul no centro da bandeira
- voando languidamente na brisa da tarde.

Enquanto Merik marchava pelo corredor para o Jana, seu temperamento


se acalmou um pouco - apenas para ser substituído pela ansiedade de enrijecer
os ombros e a repentina necessidade de verificar se a camisa dele estava bem

3 Hagfishes: um vertebrado marinho primitivo sem mandíbula, distante das lampreias, com um corpo
esbelto e enegrecido, uma boca semelhante a uma fenda cercada por barbilhões e uma língua áspera usada para
se alimentar de peixes mortos ou moribundos;
arrumada.

Este era o navio do pai de Merik; metade dos homens era da tripulação do
rei Serafim; e apesar de três meses com Merik no comando, esses homens não
estavam interessados em ter Merik por perto.

Uma imponente figura de cabelos grisalhos voou pelo convés principal em


direção a Merik. Esquivou-se de vários marinheiros, esticou as pernas
compridas sobre um caixote e depois fez uma reverência rígida diante do seu
príncipe. Era o irmão de Merik, Kullen Ikray, que também era o primeiro
imediato no Jana.

— Você voltou cedo. — Disse Kullen. Quando se levantou, Merik não


perdeu as manchas vermelhas nas bochechas pálidas de Kullen, ou o leve
engate em sua respiração. Isso significava a possibilidade de um ataque de
respiração.

— Você está doente? — Merik perguntou, com cuidado para manter a voz
baixa.

Kullen fingiu não ouvir, embora o ar ao redor deles gelasse. Um sinal certo
de que ele queria abandonar o assunto.

À primeira vista, nada sobre o Fio de Merik parecia particularmente


adequado para a vida no mar: ele era alto demais para caber confortavelmente
nas camadas inferiores, sua pele clara queimava com uma facilidade
vergonhosa e ele não gostava de esgrima. Para não mencionar, suas grossas
sobrancelhas brancas mostravam expressão demais para qualquer marinheiro
respeitável.
Mas, por Noden, se Kullen não conseguisse controlar um vento.

Diferente de Merik, a magia elementar de Kullen não era exclusiva das


correntes de ar - ele era um Airwitch4 completo, capaz de controlar os pulmões
de um homem, capaz de dominar o calor e as tempestades, e uma vez, ele até
parou um furacão totalmente. Bruxos como Merik eram bastante comuns e com
vários graus de domínio sobre o vento, mas, na medida em que Merik sabia,
Kullen era a única pessoa viva com controle total sobre todos os aspectos do ar.

No entanto, não era a magia de Kullen que Merik mais valorizava. Era sua
mente, afiada como unhas, e sua estabilidade, constante como a maré para o
mar.

— Como foi o almoço? — Kullen perguntou, o ar ao redor dele aquecendo


enquanto mostrava seu habitual sorriso aterrorizante. Ele não era muito bom
em sorrir.

— Foi uma perda de tempo. — Respondeu Merik. Ele marchou sobre o


convés, os saltos da bota batendo no carvalho. Marinheiros pararam para
saudar, seus punhos martelando seus corações. Merik assentiu distraidamente
para cada um.

Então se lembrou de algo no bolso. Ele retirou os guardanapos e entregou-


os a Kullen.

Várias respirações passaram. — Você trouxe as sobras?

— Eu estava fazendo um ponto. — Merik murmurou, e seus passos

4 Bruxo com o poder de manipular o ar.


cortaram mais forte.

— Um ponto estúpido que errou o alvo. Há alguma palavra de Lovats?

— Sim, mas... — Kullen apressou-se a acrescentar, levantando as mãos. —


...não tinha nada a ver com a saúde do rei. Tudo o que ouvi foi que ele ainda está
confinado à cama.

Frustração recaiu nos ombros de Merik. Ele não tinha ouvido nenhum
detalhe sobre a doença de seu pai em semanas. — E minha tia? Ela está de volta
do curandeiro?

— Sim.

— Bom. — Merik assentiu, pelo menos satisfeito com isso. — Envie tia
Evrane para minha cabine. Eu quero perguntar a ela sobre a Guilda de Ouro ...
— Ele parou, os pés se detendo.

— O que está acontecendo? Você só me olha assim quando algo está


errado.

— De fato. — Reconheceu Kullen, coçando a nuca. Seus olhos se voltaram


para o enorme tambor de vento no tombadilho. Um novo recruta - cujo nome
Merik nunca poderia se lembrar - estava limpando os dois malhos do tambor.
O malho mágico, por produzir explosões de vento como canhões. O malho
padrão, para mensagens e batidas.

— Devemos discutir isso em particular. — Kullen finalmente terminou. —


É sobre sua irmã. Algo ... chegou para ela.
Merik sufocou um juramento e seus ombros se elevaram mais alto. Desde
que Serafin nomeara Merik como o enviado nubrevano da Cimeira da Trégua, o
que também significava que era temporariamente Almirante da Marinha Real,
seu pai tentara mil maneiras diferentes de tomar o controle de longe.

Merik pisou em sua cabine, passos ecoando nas vigas do teto caiados
enquanto apontava para a cama aparafusada no canto direito.

Enquanto isso, Kullen foi para a longa mesa de mapas e contabilidade no


centro da sala. Também era aparafusada, e uma borda de três polegadas
impedia que os papéis voassem durante mares revoltos.

A luz do sol atravessava as janelas ao redor, refletindo na coleção de


espadas do Rei Serafin, meticulosamente exibida na parede dos fundos, o lugar
perfeito para Merik acidentalmente tocar em alguém enquanto dormia e deixar
impressões digitais permanentes.

No momento, este navio estava a cargo de Merik, mas ele não tinha ilusões
de que ficaria assim. Durante os tempos de guerra, a rainha governou a terra e
o rei governou os mares. Assim, o Jana era o navio de seu pai, em homenagem
à Rainha morta, e seria o navio de Serafin novamente quando se curasse.

Se ele curasse - e ele precisava. Caso contrário, Vivia era a próxima na fila
para o trono... e isso não era algo que Merik queria imaginar ainda. Ou lidar com
isso. Vivia não era o tipo de pessoa contente apenas com terra ou mar
dominantes. Ela queria o controle de ambos, e não fazia nenhum esforço para
fingir o contrário.

Merik se ajoelhou ao lado de seu único item pessoal no navio: um baú,


amarrado firmemente à parede. Depois de um rápido remexer, ele encontrou
uma camisa limpa e seu uniforme azul-almirante. Ele queria sair de seu traje o
mais rápido possível, pois não havia nada melhor para esvaziar o ego de um
homem, como um babado no colarinho.

Depois que os dedos de Merik abriram os dez milhões de botões em sua


camisa, ele se juntou a Kullen na mesa.

Kullen havia aberto um mapa do Mar de Jadansi, o deslizamento do oceano


que dividia o Império Dalmotti. — Isto é o que chegou para Vivia. — Ele
desembrulhou um navio em miniatura que parecia idêntico aos navios da
Associação Dalmotti. Deslizou pelo mapa, trancando-se sobre a cidade de
Veñaza. — Obviamente, é mágico, provavelmente mudará para onde seu navio
correspondente navegar. — Os olhos de Kullen se voltaram para os de Merik.
— De acordo com o escravo que o entregou, o navio correspondente é do
Sindicato do Trigo.

— E por que, — Merik começou, desistindo de seus botões e apenas


arrancando a camisa sobre a cabeça. — Vivia se importa com um navio
comercial? — Ele a jogou em sua mala e colocou as mãos na mesa. Sua Marca
de Bruxo desbotada, se esticou em um diamante desequilibrado. — O que ela
espera que façamos com isso?

— Raposas. — Disse Kullen, e a sala ficou gelada.

— Raposas. — Merik repetiu, a palavra batendo sem significado em seu


crânio. Então, de repente, se encaixou - e ele entrou em ação, girando para o
tronco. — Essa é a coisa mais estúpida que já ouvi dela, e olhe que já disse
muitas coisas estúpidas em sua vida. Diga ao Hermin para entrar em contato
com o Voicewitch5 de Vivia. Agora. Quero falar com ela no próximo toque do
sino.

— Ok. —Os passos de Kullen soaram quando Merik arrancou a primeira


camiseta que seus dedos tocaram. Ele puxou-a quando a porta da cabine se
abriu ... e então fechou.

Com aquele som, Merik rangeu os dentes e lutou para manter seu
temperamento. Trancado.

Isso era tão típico de Vivia, então por que Merik deveria estar surpreso ou
com raiva?

Há algum tempo, as raposas tinham sido piratas Nubrevnan. Suas táticas


baseavam-se em pequenas meias-galés. Eram mais rasas que o Jana, com dois
mastros e remos que lhes permitiam deslizar entre as barras de areia e as ilhas
de barreira com facilidade - e permitiam que eles emboscassem navios maiores.

Mas o padrão da Raposa - uma raposa serpenteante enrolada em torno da


íris barbada, não voara dos mastros em séculos. Não precisava, uma vez que
Nubrevna possuía uma verdadeira marinha própria.

Enquanto Merik estava lá tentando imaginar qualquer tipo de discussão


que sua irmã pudesse escutar, alguma coisa piscou do lado de fora da janela
mais próxima. No entanto, a não ser as ondas que se acumulavam contra o
limite máximo e um navio mercante balançando ao lado, não havia nada

5 Bruxos capazes de se comunicar à distância, por telepatia.


incomum.

Exceto... não era maré alta.

Merik correu para a janela. Esta era a cidade de Veñaza - uma cidade de
pântanos - e havia apenas duas coisas que trariam uma onda antinatural: um
terremoto.

Ou mágica.

E havia apenas uma razão para uma bruxa convocar as ondas para um cais.

Destruição.

Merik correu para a porta. — Kullen! — Ele rugiu quando seus pés
atingiram o convés principal. As ondas já estavam mais altas e o Jana começou
a balançar.

Dois navios ao norte, um marinheiro desequilibrado cambaleou pela


prancha de um navio comercial em direção à rua de paralelepípedos. Ele coçava
furiosamente os antebraços, o pescoço - e mesmo a essa distância, Merik podia
ver as pústulas negras borbulhando na pele do homem. Logo sua magia
alcançaria seu ponto de ruptura e ele se deleitaria com a vida humana mais
próxima.

As ondas varreram mais alto, mais fortes - convocadas pelo bruxo que se
partia. Embora várias pessoas tenham notado o homem e gritado seu terror, a
maioria não podia ver as ondas, não podia ouvir os gritos. Eles estavam
inconscientes e desprotegidos.
Então Merik fez a única coisa que conseguiu pensar. Ele gritou mais uma
vez por Kullen, e reuniu sua magia, para que o levantasse alto e o levasse para
longe.

Momentos depois, em uma rajada de ar, Merik levantou voo.

5
O temperamento de Safi estava à beira de explodir, com a merda de gaivota
sobre o ombro dela, o calor da tarde opressiva, e o fato de que nenhum dos seis
navios nesta doca precisava de novos trabalhadores (especialmente aqueles
vestidos como aprendizes da Guilda.)

Iseult deslizou à frente, já no final do cais e juntando-se às multidões.


Mesmo a essa distância, Safi podia ver Iseult se remexendo no cachecol e nas
luvas enquanto examinava alguma coisa na água escura.

Com as sobrancelhas levantadas, Safi direcionou o próprio olhar para as


ondas salobras. Havia uma carga no ar, que arrepiou o cabelo em seus braços e
enviou um frio na sua espinha...

Então sua Comutadora da Verdade explodiu - uma sensação de


revestimento e raspagem no pescoço que anunciava o erro. Uma enorme
injustiça.
A magia de alguém estava se partindo. Criando um Clivado.

Safi já havia sentido uma vez antes - seu poder inchado como se também
pudesse se partir. Qualquer um com magia poderia sentir isso chegando, sentir
o mundo saindo de sua ordem mágica. É claro que, se você não tivesse magia,
como a maioria dessas pessoas que desce pela doca, então você poderia estar
morto também.

Um grito separou os ouvidos de Safi como um trovão. Iseult. Já no meio do


caminho, rugindo para as pessoas "protejam-se!", Safi mergulhou para a frente,
enrolou o queixo no peito e rolou. Quando seu corpo caiu sobre a madeira, ela
agarrou a adaga em sua bota. Não garantiria uma defesa contra uma espada,
mas ainda era afiada.

E ainda poderia estripar um homem, se necessário.

Quando o impulso levou Safi a seus pés, ela arrastou a faca para baixo, e
em um golpe rápido, rasgou suas saias. Então estava correndo mais uma vez, as
pernas livres para bombear o mais alto que precisava, sua faca na mão.

As ondas se curvaram mais alto. Mais difíceis. Raios de poder ralavam


contra a pele de Safi como mil mentiras contadas de uma só vez.

A magia do homem atacante deveria estar conectada à água, e agora os


navios de comércio estavam arfando, subindo... rangendo, rangendo... e depois
batendo contra o píer.

Safi chegou ao cais de pedra. Em um instante, ela observou a cena: um


Tidewitch6 quebrado, sua pele ondulando com o óleo da magia purulenta e o
sangue negro como piche, vazando de um corte no peito.

A apenas alguns passos de distância, Iseult estava baixa em sua postura -


suas saias rasgadas também. Essa é minha garota, Safi pensou.

E para a esquerda, voando pelo ar com toda a graça de um morcego


inexperiente e de asas quebradas, havia uma espécie de Airwitch 7. Suas mãos
estavam fora enquanto ele chamava o vento para carregá-lo.

Safi teve apenas dois pensamentos: quem é o responsável do Nubrevnan


Windwitch8? E: Ele deveria realmente aprender como abotoar uma camisa.

Então o homem sem camisa pousou diretamente em seu caminho.

Ela gritou o mais alto que pôde, mas tudo o que conseguiu foi um olhar
alarmado antes de atirar a faca de lado e bater em seu corpo. Eles caíram no
chão, e o jovem empurrou-a, gritando: — Fique para trás! Eu vou lidar com isso!

Safi o ignorou, ele era claramente um idiota, e, em mais tempo do que


deveria, se desvencilhou do Nubrevnan e pegou sua adaga.

Ela girou em direção ao Tidewitch, assim que Iseult se aproximou, um


redemoinho de aço destinado a atrair os olhos, mas que não estava tendo efeito.
O Tidewitch não saiu do caminho. As foices de Iseult bateram em seu estômago

6 Esta Waterwitchery permite que uma pessoa controle a água líquida. É altamente valorizado para marinhas / transporte.

7 A categoria Airwitch inclui: *Bruxos com bruxaria conectadas ao Airwitch. *Subconecta os tipos de bruxas do Airwitch. *Itens

criados especificamente por um Airwitch usando principalmente suas bruxas. *Bruxas cuja magia é Airwitch ou seus subconjuntos.
8
Windwitch : parte da Airwitchery, essa mágica permite que a pessoa controle as correntes de ar ao seu redor. É altamente
valorizado para marinhas / transporte.
e mais sangue negro se espalhou.

Órgãos enegrecidos caíram também.

Então a água irrompeu na rua. Os navios bateram contra as pedras em um


rangido ensurdecedor de madeira. Uma segunda onda bateu, e logo atrás, uma
terceira.

— Kullen! — O Nubrevnan berrou atrás de Safi. — Segure a água!

Em uma explosão de magia que atravessou o corpo de Safi, o ar se afunilou


em direção às ondas invasoras.

O vento mágico atingiu a água; ondas tombaram e espumaram para trás.

Mas o Clivado não se importou. Seus olhos enegrecidos haviam se agarrado


a Safi agora. Suas mãos manchadas de sangue arranharam e ele correu em
direção a ela como uma rajada.

Safi saltou para um chute voador. Seu calcanhar bateu em suas costelas;
Ele caiu para a frente à direita quando Iseult girou em um chute de gancho. Sua
bota bateu no queixo do homem, mudou o ângulo de sua queda.

Ele bateu nos paralelepípedos. Pústulas negras estouraram por toda a sua
pele, salpicando a rua com seu sangue.

Mas ele ainda estava vivo, ainda consciente. Com um rugido como um
furacão, lutou para ficar em pé.

Foi quando o homem nubrevano decidiu reaparecer. Ele se aproximou do


atacante, e o pânico de Safi queimou sua garganta. — O que você está fazendo?

— Disse a você que iria lidar com isso! — Ele gritou. Então seus braços se
lançaram para trás e, em uma onda de energia que se espalhou pelos pulmões
de Safi, suas mãos em concha atingiram as orelhas do marinheiro atacante. O ar
explodiu no cérebro do homem. Seus olhos enegrecidos rolaram para trás.

O Clivado caiu na rua. Morto.

***

Iseult afastou as saias e enfiou as foices da lua de volta nas bainhas ocultas
da panturrilha. Perto dali, Dalmottis faziam sinais frenéticos com os dois dedos
nos olhos. Era um sinal para afastar o mal - pedir a seus deuses que
protegessem suas almas. Alguns apontavam seus movimentos para o morto
atacante, mas mais do que alguns apontavam o gesto para Iseult.

Como se ela tivesse algum interesse em reivindicar suas almas.

Ela, no entanto, tinha interesse em não ser atacada e espancada hoje, então,
torcendo-se em direção ao Tidewitch morto, reajustou seu lenço de cabeça, e
agradeceu a Mãe da Lua que não havia sido removida na luta.

Ela também agradeceu a deusa que ninguém mais havia lembrado. Uma tal
explosão poderosa de magia poderia facilmente enviar outras bruxas à beira -
uma beira da qual não havia retorno.
Embora ninguém soubesse o que fazia uma pessoa se apegar, Iseult lera
teorias que relacionavam a corrupção aos cinco Poços de Origem espalhados
pelas Bruxas. Cada Poço estava ligado a um dos cinco elementos: Éter, Terra,
Água, Vento ou Fogo. Embora as pessoas falassem de um elemento do Vazio - e
de Invasores do Vazio como aquele Bloodwitch, não havia registro de um Vazio
Real.

Talvez um Vazio Bom estivesse lá fora, mas fora esquecido há muito tempo.
As molas que o haviam alimentado estavam secas. As árvores que haviam
florescido durante todo o ano estavam murchas com cascas dessecadas. Tal
estagnação certamente havia acontecido com a Terra, o Vento e os Poços de
Água, e talvez eles também um dia se perderiam na história.

Não importava o destino dos Poços, porém, os estudiosos não acham que
fosse mera coincidência que as únicas feitiçarias a se apegar fossem aquelas
ligadas à Terra, ao Vento ou à Água. E se os monges de Carawen fossem
acreditados, então somente o retorno do Cahr Awen poderia curar os Poços
mortos ou os Clivados.

Bem, Iseult não achou que isso iria acontecer tão cedo. Não havia retorno
do Cahr Awen, e não tinha como escapar de todos esses olhares odiosos.

Uma vez que Iseult teve certeza de que seu cabelo estava suficientemente
coberto, seu rosto suficientemente sombreado e suas mangas suficientemente
baixas para esconder sua pele pálida, pegou os Threads de Safi para que
pudesse encontrar sua irmã de linha entre a multidão.

Mas seus olhos e sua magia pegaram alguma coisa. Tópicos como ela nunca
tinha visto antes. Diretamente ao lado dela... no Clivado.

Seu olhar deslizou para o corpo do homem morto. Sangue enegrecido... e


talvez algo mais escorresse de suas orelhas, entre os paralelepípedos. As
pústulas em seu corpo irromperam - um pouco daquele spray oleoso estava nas
saias cortadas de Iseult e no corpete suado.

E ainda, embora o homem estivesse indubitavelmente morto, ainda havia


três Threads se contorcendo em seu peito. Como vermes, eles deslizavam e se
enrolavam para dentro. Threads Curtos. Os threads que quebravam.

Não deveria ter sido possível - a mãe de Iseult sempre lhe dissera que os
mortos não tinham Threads, e em todas as cerimônias de funerais Nomatsi que
Iseult havia frequentado quando criança, nunca tinha visto Threads em um
cadáver.

Quanto mais tempo Iseult estava boquiaberta, mais as multidões se


aproximavam. Espectadores curiosos sobre o corpo estavam por toda parte, e
Iseult teve que apertar os olhos para ver através de seus Threads. Para conter
todas as emoções ao seu redor.

Então um fio vermelho e furioso passou perto - e com isso veio um


grunhido esfiapado. — Quem diabos você acha que é? Nós tínhamos isso sob
controle.

— Sob controle? — Retrucou uma voz masculina com um sotaque agudo.


— Eu apenas salvei suas vidas!

— Você está clivada? — Exclamou Safi, e Iseult estremeceu com a pobre


escolha de palavras. Mas claro, Safi estava exalando sua dor. Seu terror. Seus
Threads explosivos. Ela sempre ficava assim quando algo ruim, realmente ruim
acontecia. Corria de suas emoções tão rápido quanto suas pernas a levariam ou
as batia em submissão.

Quando finalmente Iseult apareceu ao lado de sua irmã, foi bem a tempo
de ver Safi agarrar um punhado da camisa desabotoada do jovem.

— É assim que todos os nubrevanos se vestem? — Safi pegou o outro lado


de sua camisa. — Estes vão dentro destes.

Para seu crédito, o Nubrevnan não se mexeu. Seu rosto simplesmente


corou como um escarlate selvagem, assim como seus Threads e seus lábios
apertaram com força.

— Eu sei — Ele gritou. — como um botão funciona! — Ele bateu os pulsos


de Safi para longe. — E não preciso de conselhos de uma mulher com merda de
pássaro em seu ombro.

Oh não, pensou Iseult, seus lábios se abrindo para avisar ...

Dedos apertaram o braço de Iseult. Antes que ela pudesse levantar a mão
e tirar o pulso de seu agarrador, a pessoa levantou seu braço e empurrou-o
contra suas costas.

E um Thread vermelho argiloso pulsava na visão de Iseult. Era um tom


familiar de aborrecimento que falava de anos suportando as birras de Safi, o
que significava que Habim havia chegado.

O homem Marstoki empurrou o pulso de Iseult mais para suas costas e


rosnou:

— Ande, Iseult. Para aquele beco dos gatos ali.

— Você pode me deixar ir. — Disse ela, voz sem tom. Ela só podia ver
Habim pelo canto dos olhos. Ele usava o uniforme cinza e azul da família
Hasstrel.

— Voidwitch9 ?! Você me chamou de Voidwitch?! Falo Nubrevnan, seu


burro de cavalo! — O resto dos gritos sanguinários de Safi estavam em
Nubrevnan, e engolidos pela multidão.

Iseult odiava quando os Threads de Safi ficavam tão brilhantes que


brilhavam sobre todo o resto, cauterizando os olhos de Iseult, em seu coração.
Mas Habim não diminuiu a velocidade ao guiar Iseult em torno de um mendigo
de uma perna cantando “Eridysi Lament”. Então eles alcançaram um espaço
estreito entre uma taverna sombria e uma loja de segunda mão ainda mais
sombria. Iseult cambaleou para dentro. Suas botas chutaram através das poças
invisíveis e o fedor de mijo de gato queimou em seu crânio.

Ela sacudiu o pulso e se virou para seu mentor. Esse comportamento não
era típico do gentil Habim. Ele era um homem mortal, certamente, havia servido
Eron fon Hasstrel por duas décadas como homem de armas, mas Habim
também era de fala mansa e cuidadosa. Legal e no controle de seu
temperamento.

Pelo menos ele era normalmente.

9
Voidwitch é um tipo de magia que envolve todos os aspectos do 'vazio'. Acredita-se que a origem do vazio esteja ausente ou
inexistente porque não se acredita que os comutadores de vácuo sejam reais.
— O que — Ele começou, marchando para Iseult. — você estava fazendo?
Puxando suas armas assim? Portões do inferno, Iseult, você deveria ter fugido.

— Aquela coisa do Tidewitch... — Começou a dizer, mas Habim só se


aproximou mais. Ele não era um homem alto, e seus olhos estavam no mesmo
nível do de Iseult nos últimos três anos.

Agora mesmo, aqueles olhos costurados à linha estavam arredondados


com sua ira, e seus Threads brilhavam com um vermelho irado. — Qualquer
Clivado é problema dos guardas da cidade — e os guardas agora são o seu
problema. Roubando na estrada, Iseult?

Sua respiração engatou. — Como você descobriu?

— Há bloqueios por toda parte. Mathew e eu pegamos um a caminho da


cidade, apenas para descobrir que os guardas estão procurando por duas
garotas, uma com uma espada e outra com foices lunares. Quantas pessoas você
acha que lutam com foices lunares, Iseult? Aquelas — Habim apontou para suas
bainhas— são óbvias. Como um Nomatsi, você não tem proteção legal neste
país, e simplesmente carregar uma arma em público fará com que seja
enforcada. — Habim girou nos calcanhares para marchar três degraus. Então
voltou três etapas. — Pense, Iseult! Pense!

Iseult comprimiu os lábios. Estase. Estase nas pontas dos dedos e nos
dedos dos pés.

Ao longe, ela podia apenas ouvir o crescente rolo de caixas que significava
que os guardas da cidade de Veñaza estavam a caminho. Eles decapitariam o
corpo do Tidewitch como exigido por lei para todos os cadáveres clivados.
— V-você terminou de gritar comigo? — Ela perguntou finalmente, sua
velha gagueira agarrando sua língua. Distorcendo as palavras dela. — Porque
eu preciso voltar para Safi, e não precisamos sair da cidade.

As narinas de Habim tremularam com uma inspiração profunda, e Iseult


observou enquanto ele afastava suas emoções. Quando as linhas de seu rosto se
suavizaram e seus Threads ficaram calmos. — Você não pode voltar para Safi.
De fato, você não sairá deste beco pela maneira como entrou. O Mestre da
Guilda Yotiluzzi tem um Bloodwitch à sua disposição, e essa criatura é direta do
Vazio sem misericórdia ou medo. — Habim sacudiu a cabeça, e as primeiras
sugestões de medo cinza se entrelaçaram em seus Threads.

O que só fez a garganta de Iseult se entupir mais. Habim nunca teve medo.

Sangue. Bruxa. Sangue. Bruxa.

— O tio de Safi está na cidade — Prosseguiu Habim — para a Cimeira da


Trégua, então...

— Dom fon Hasstrel está aqui? — O queixo de Iseult se afrouxou. Habim


poderia ter dito mil coisas, mas nenhuma a teria surpreendido mais. Ela
conheceu Eron com cicatrizes de batalha duas vezes no passado, e sua
inebriação desleixada instantaneamente verificou todas as histórias e
reclamações de Safi.

— É preciso que toda a nobreza cartorrana esteja aqui. — Explicou Habim,


voltando à distância de três passos. Esquerda. Certo. — Henrick tem um grande
anúncio para fazer e, como de costume, está usando essa cúpula como palco.
Iseult mal estava escutando. — Toda a nobreza inclui Safi?

A expressão de Habim se suavizou. Seus Threads cintilaram em uma


delicada ternura de pêssego. — Isso inclui Safi. O que significa que ela
atualmente tem seu tio - e uma corte inteira de doms e domnas - para protegê-
la do Bloodwitch de Yotiluzzi. Mas você…

Habim não precisou dizer o resto. Safi tinha seu título para protegê-la e
Iseult tinha sua herança para condená-la.

As mãos de Iseult se levantaram e esfregaram as bochechas e têmporas.


Mas os dedos dela eram apenas uma sensação distante de pressão em sua pele,
assim como a multidão era um zumbido pulsante, o chocalhar dos tambores dos
guardas era um assobio baixo.

— Então o que posso fazer? — Ela perguntou finalmente. — Eu não posso


pagar a passagem em um barco, e mesmo se pudesse, não tenho para onde ir.

Habim acenou para o final do beco. — Há uma pousada chamada The


Hawthorn Canal a alguns quarteirões de distância. Eu aluguei um quarto e um
cavalo lá. Você passará a noite e amanhã, ao pôr do sol, poderá viajar para a
pousada irmã do Canal Hawthorn, no lado norte. Mathew e eu estaremos
esperando por você. Enquanto isso, lidaremos com o Bloodwitch.

— Por que apenas uma noite, no entanto? O que poderia acontecer em uma
noite?

Por um longo suspiro, Habim olhou tão atentamente como se ele pudesse
ler as Threads de Iseult. Como se pudesse procurá-la por verdade ou mentiras.
— Safi nasceu um domna. Você tem que lembrar disso, Iseult. Todo o
treinamento dela foi para essa coisa. Esta noite, ela é necessária na Cimeira da
Trégua. Henrick exigiu abertamente sua presença, o que significa que ela não
pode recusar, e isso significa que você não pode ficar em seu caminho.

Com essas palavras simples — você não pode ficar em seu caminho — a
respiração de Iseult endureceu em seus pulmões. Apesar de tudo, Safi poderia
ter perdido suas economias e, um Bloodwitch poderia estar seguindo na trilha,
Iseult ainda acreditava que tudo acabaria. Que este rosnado no tear iria de
alguma forma desvendar, e a vida voltaria ao normal em algumas semanas.

Mas isso... isso parecia o fim. Safi teria que ser um domna, claro e simples,
e não havia espaço para Iseult naquela vida.

Perda, ela pensou vagamente enquanto tentava identificar o sentimento


em seu peito. Isso deve ser uma perda.

— Já lhe disse isso antes. — Habim falou rispidamente. Seu olhar subiu e
desceu como um general inspecionando um soldado. — Cem vezes, eu te disse,
Iseult, mas você nunca me escutou. Você nunca acreditou. Por que Mathew e eu
encorajamos sua amizade com Safi? Por que decidimos treiná-la ao lado dela?

Iseult espremeu o ar de seu peito, desejando que os pensamentos e a


vergonha se dissipassem. — Porque — Ela recitou. — ninguém pode proteger
Safi como sua família de linha.

— Exatamente. Os laços familiares são inquebráveis, e você sabe disso


melhor do que qualquer outra pessoa. No dia em que você salvou a vida de Safi
seis anos atrás, você e ela foram unidas como Threadsisters. Até hoje você
morreria por Safi, assim como ela morreria por você. Então faça isso por ela,
Iseult. Esconda-se esta noite, deixe que Mathew e eu lidemos com o Bloodwitch
e depois voltemos para o lado de Safi amanhã.

Uma pausa. Então Iseult assentiu gravemente. Deixe de ser uma tola
fantasiosa. Ela repreendeu a si mesma, exatamente como sua mãe sempre fez.
Este não era o fim, e Iseult deveria ter sido inteligente o suficiente para ver isso
imediatamente.

— Dê-me suas foices. — Ordenou Habim. — Eu vou te devolvê-las para


amanhã.

— Elas são minhas únicas armas.

— Sim, mas você é Nomatsi. Se for parada em outro bloqueio... não


podemos arriscar.

Iseult esfregou asperamente o nariz e depois murmurou: — Tudo bem. —


Antes de soltar as lâminas premiadas, quase infantilmente, ela as empurrou
para Habim. Seus Threads cintilavam com um azul triste enquanto se movia
mais fundo no beco e abria uma sacola de lona encerada das sombras. Ele
retirou um cobertor preto áspero.

— Este é de fibra de salamandra. — Ele colocou sobre a cabeça e os ombros


de Iseult e prendeu-a com um alfinete simples. — Enquanto você usar isso, o
Bloodwitch não vai sentir seu cheiro. Não o remova até estarmos juntos amanhã
à noite.

Iseult assentiu; o tecido rígido resistiu ao movimento. E a Mãe Lua a salvou,


estava quente.

Habim então enfiou a mão no bolso e tirou um saco de moedas estridentes.


— Isso deve cobrir o custo da pousada e de um cavalo.

Depois de aceitar as moedas, Iseult virou-se para uma porta em ruínas. Os


sons de facas e panelas fervendo deslizaram pela madeira, mas a mão dela
parou na maçaneta enferrujada.

Isso parecia errado.

Que tipo de Threadsister10 seria se deixasse Safi sem um adeus, ou pelo


menos um plano de backup para aqueles inevitáveis cenários de pior caso?

— Você pode dar uma mensagem a Safi? — Iseult perguntou, mantendo


suas palavras calmas. No aceno de Habim, ela continuou. — Diga a Safi que sinto
muito ter que ir e que é melhor que ela não perca meu livro favorito. E ... oh. —
Iseult ergueu as sobrancelhas, fingindo uma reflexão tardia. — Por favor, diga
a ela para não cortar sua garganta, já que tenho certeza que ela vai tentar uma
vez que descubra que você me mandou embora.

— Vou dizer a ela. — Disse Habim, voz e threads solenes. — Agora se


apresse. Aquele Bloodwitch está sem dúvida a caminho agora.

Iseult inclinou a cabeça uma vez, um soldado para o general, antes de abrir
a porta e entrar na cozinha cheia de vapor e cheia de gente.

10 Irmã de linhas.
6
Quando a caixa se aproximou, a ira de Safi aumentou cada vez mais. A única
razão pela qual não perseguiu o Nubrevnan enquanto ele caminhava em
direção ao seu navio (com a camisa ainda desabotoada) era porque o homem
mais alto e mais pálido que ela já tinha visto, marchava ao lado dele ... E porque
Safi havia perdido Iseult.

Mas sua busca frenética pela sua irmã foi interrompida quando os passos
e as batidas do guarda se aproximaram. Quando as multidões ao longo do cais
ficaram em silêncio.

Uma fatia, uma pancada... um respingo.

Por um longo momento, os únicos sons eram os pombos, a brisa e as ondas


calmas.

Então um soluço estrangulado - alguém que conhecia o homem morto,


talvez - cortou o silêncio como uma faca serrilhada. Isso ecoou nos ouvidos de
Safi. Agitou em sua caixa torácica. Um acorde menor para preencher um buraco
deixado para trás.

Uma mão pousou no bíceps de Safi. Habim — Por aqui, Safi. Há uma
carruagem ...

— Eu preciso encontrar Iseult. — Disse ela, imóvel e sem piscar


— Ela está em um lugar seguro. — A expressão de Habim era sombria, mas
isso não era nada incomum. — Eu prometo. — Acrescentou ele, e a magia de
Safi sussurrou: Verdade. Um ronronar quente em seu peito.

Então, rígida como o mastro de um navio, Safi seguiu Habim para uma
carruagem coberta e indefinida. Uma vez que ela estava sentada dentro, ele
fechou a porta e puxou uma pesada cortina preta sobre a janela. Então, em tons
curtos, Habim explicou como ele e Mathew haviam reconhecido as garotas por
suas armas e logo depois encontraram a loja destruída de Mathew.

A vergonha subiu pelo pescoço de Safi enquanto ouvia. Mathew era mais
do que apenas seu tutor. Ele era da família e agora os erros de Safi haviam
arruinado sua casa.

No entanto, quando Habim mencionou o envio de Iseult a uma estalagem -


sozinha, desprotegida -, todo o horror da tarde foi engolido por uma raiva de
sacudir o crânio. Safi mergulhou para a porta...

Habim a segurou em um estrangulamento antes que ela pudesse torcer a


maçaneta. — Se você abrir a porta, — Ele rosnou. — o Bloodwitch vai sentir seu
cheiro. Se você mantiver fechada, no entanto, o monge não poderá te rastrear.
Aquela cortina é feita de fibra de salamandra, Safi, e Iseult está usando um
manto do mesmo tecido agora.

Safi congelou, sua visão embaçando por falta de ar e as cicatrizes das costas
da mão direita de Habim borrando. Não podia acreditar que Iseult
simplesmente se afastou sem lutar. Deixando Safi para trás…

Não fazia sentido, mas a magia de Safi gritava em suas costelas que era
verdade.

Após concordar com a cabeça, Habim a soltou, e ela desabou em seu


assento. Habim sempre foi o mais forte dos seus mentores. Um alarme soou,
acordando o resto do mundo, e isso o deixou sem paciência para a
impulsividade de Safi.

— Sobre esse seu assalto, Safi. — A voz suave de Habim de alguma forma
encheu cada espaço da carruagem. — Só você seria tão imprudente, e então
Iseult a seguiu como sempre faz.

Safi não argumentou com isso - era inegavelmente verdade. O jogo de


cartas poderia ter sido ideia de Iseult, mas todas as decisões ruins, haviam sido
tomadas por Safi.

— Esse erro... — Continuou Habim. — complicou, possivelmente arruinou,


vinte anos de planejamento. Agora, com Eron aqui, estamos fazendo o que
podemos para salvar a situação.

Safi endureceu. — Tio Eron está aqui?

Enquanto Habim oferecia alguma história sobre Henrick convocar toda a


nobreza de Cartorrana para um grande anúncio, Safi se forçou a imitar Habim.
Para se acomodar e relaxar. Ela precisava pensar em tudo como Iseult fazia,
precisava analisar seus oponentes e seu terreno...

Mas analisar e estratégia não eram seus pontos fortes. Toda vez que
tentava organizar as peças do dia, elas se separavam e eram muito mais difíceis
de remontar. O único pensamento que poderia raciocinar era que tio Eron está
aqui. Na cidade de Veñaza. Ela não o via há dois anos; e esperava que nunca
mais vê-lo. Só de pensar em Eron, lembrava-a de que, apesar de tudo o que ela
construíra em Veñaza City, havia outra vida diferente esperando por ela em
Hasstrel.

Safi precisava de Iseult agora, confiava nela para manter sua mente focada
e clara. Atuar, correr e lutar, essas eram as únicas coisas que Safi fazia bem.

Seus dedos coçaram para a porta. Os dedos dos pés se curvaram em


antecipação quando chegou com uma lentidão dolorosa para o trinco.

— Não toque nisso. — Habim entoou. — O que você faria de qualquer


maneira, Safi? Fugir?

— Encontraria Iseult. — Disse baixinho, seus dedos ainda pairando. — E


depois fugiria.

— O que permitiria que o Bloodwitch te encontrasse. — Ele replicou. —


Enquanto você ficar com seu tio, você estará segura.

— Porque ele fez um trabalho muito bom protegendo meus pais. — As


palavras rosnaram antes que Safi pudesse detê-las. No entanto, onde ela
esperava uma rápida retaliação de Habim, só houve silêncio.

Então, um pedregoso: — Hell-Bards protegem sua família, sim, mas o


Império deve vir primeiro. Nesse caso, dezoito anos atrás, o Império veio
primeiro.

— É por isso que o Imperador Henrick dispensou-o desonrosamente? Ele


deu ao tio Eron a tarefa vergonhosa de ser meu regente e babá por gratidão?
Habim não se envolveu. De fato, sua expressão não vacilou. Esta não foi a
primeira vez que Safi pressionou Habim sobre o passado de seu tio, e não foi a
primeira vez que ele também fez silêncio frio.

— Você vai para casa, para o Mestre da Guilda Alix. — Habim disse
finalmente, inclinando a borda da cortina e olhando para fora. — Você deveria
ter ido para ele em primeiro lugar, ele pode mantê-la segura do Bloodwitch.

— Como eu deveria saber isso? — Safi finalmente retirou os dedos do


trinco e sentou-se em sua altura total. — Eu pensei que estava fazendo a coisa
certa ao não trazer problemas para a porta dele.

— Que atencioso de sua parte. Da próxima vez, porém, tente confiar nos
homens encarregados da sua segurança.

— Iseult também me mantém segura. — Disse Safi. — No entanto, observe


que você a mandou embora.

Mais uma vez, Habim ignorou a isca de Safi. Em vez disso, ele inclinou o
queixo para observá-la do alto dos olhos. — Falando de Iseult, ela pede que você
por favor não corte minha garganta. E também pede desculpas por sair e pede
que você não perca seu livro.

— Iseult… se desculpou? — Isso não era típico dela, pelo menos não
quando isso era tão claramente culpa de Safi.

O que significava que havia uma mensagem escondida aqui.

Era um jogo que as garotas haviam jogado ao longo dos anos. Um que
Mathew havia ensinado a elas - Dizer uma coisa, mas que significava outra, e foi
muito divertido durante as horas mais aborrecidas das lições de história de
Mathew.

Não era divertido agora.

Não corte a garganta de Habim - o que significava esperar. Fazer como


Habim ordenou. Bem. Safi obedeceria por agora. Mas o livro... Ela não podia
adivinhar essa parte da mensagem.

— As minhas coisas. — Disse Safi devagar. — Estão em um saco no porto.

— Eu já peguei. O motorista está segurando. — Outro olhar furtivo atrás


da cortina antes de Habim bater no telhado.

A carruagem fez uma parada e Habim ofereceu a Safi um inflexível: —


Fique longe de problemas, por favor. — Então passou pela porta e se derreteu
na cacofonia do tráfego da tarde.

Sentindo que seus punhos não estavam apertados o suficiente, Safi entrou
na cidade. Cascos de cavalos, rodas de carruagem e saltos de botas
extravagantes afogavam seus dentes frustrados. A casa de Alix era uma mansão
de muitas colunas cercada por uma selva de rosas e jasmim. Como todos os
Mestre da Guildas de Dalmotti, ele morava no canto mais rico da cidade: o Canal
Leste.

Safi tinha um quarto lá dentro e o jovem Alix sempre fora gentil com ela.
Mas essa propriedade luxuosa e labiríntica nunca foi sua casa, não da maneira
que o quarto do sótão de Iseult sempre foi.

Não do jeito que os novos quartos das garotas seriam.


Por vários momentos, Safi ficou no portão de ferro e pensou em sair
correndo. Sua garganta queimava com fome de velocidade. Mas ela sabia que
não poderia encontrar Iseult - não sem arriscar o Bloodwitch.

Deuses abaixo, tudo estava desmoronando, e era tudo culpa de Safi. Ela
havia caído nos encantos do Trapaceiro Cinzento. Então Safi sugeriu o assalto.

Era sempre assim: Safi iniciava algo sobre a cabeça dela, e outra pessoa
limpava a bagunça. Aquele alguém tinha sido Iseult por seis anos... mas quantas
bagunças Safi teria que fazer antes que Iseult tivesse o suficiente? Um dia
desses, Iseult desistiria dela como todos os outros. Safi apenas orou,
desesperadamente, rezou violentamente, que não fosse hoje.

Não era, porém, do feitio dela. Ou Iseult não teria deixado uma mensagem
com Habim ou lhe dito para encontrar o livro. Bem, Safi só seria capaz de
estudar a mensagem codificada de Iseult se entrasse na mansão de Alix como
ordenada.

Então, com os nós dos dedos estalando contra as coxas, ela marchou até o
portão e tocou a campainha.

***

Apesar das flores e potes de incenso na casa do Mestre da Guilda da Seda,


o cheiro que vinha do canal próximo sempre dominava o nariz de Safi. Não
havia como escapar, e quando olhou pela janela do seu segundo quarto, ela
bateu os dedos no tapete azul-celeste. Um frenético contra-ataque ao coração
dela.

Belos vestidos de seda estavam cobertos na grande cama de dossel que ela
raramente dormia. Não era a primeira vez que o Mestre da Guilda Alix
preparava vestidos para Safi, embora estes fossem muito melhores do que
qualquer coisa que ela já tivesse recebido antes.

Passos batiam atrás dela. Mathew. Safi sabia. Quando se virou para seu
tutor, descobriu que o rosto fino e sardento era uma máscara de linhas duras,
os cabelos ruivos brilhando à luz da tarde.

Mathew e Habim não poderiam ter sido mais diferentes - na aparência ou


na personalidade - e dos dois, Safi sempre preferiu Mathew. Talvez porque
soubesse que Mathew a considerava mais do que Habim. Eles eram espíritos
afins, ela e Mathew. Mais inclinados a agir do que a pensar, a rir do que a franzir
a testa.

Mesmo sem o seu Wordwitchery11, Mathew era um mestre criminoso, um


vigarista do mais alto calibre. Habim havia ensinado Safi a usar seu corpo como
arma, mas foi Mathew quem a ensinou a usar sua mente. Suas palavras. E apesar
de Safi nunca ter entendido por que Mathew insistiu que aprendesse suas
habilidades de confiança, ela sempre teve muito medo de perguntar, apenas no
caso dele decidir parar.

Como Habim, Mathew atualmente usava a pintura cinza e azul dos

11
Um Wordwitch é um tipo de bruxa que pode usar palavras para convencer / manipular pessoas e contar mentiras. Ele também
permite que os Wordwitches mais fortes “sigam as palavras” - eles podem detectar rumores e histórias e eliminá-los, assim como um
predador pode rastrear suas presas. Este é um Aetherwitchery raro.
Hasstrels, mas ao contrário de Habim, Mathew não era um servo do tio de Safi.

— Suas coisas. — Mathew jogou uma bolsa familiar na cama, e Safi não fez
nenhum movimento para recuperá-la, embora a olhasse, verificando a forma
dos livros de Iseult...

Lá estava: um canto azul surgiu do topo.

— Minha loja está destruída. — A forma esguia de Mathew se aproximou


de Safi, bloqueando sua visão do livro, ou de qualquer outra coisa além de seus
olhos verdes e brilhantes. — Uma porta quebrada, janelas quebradas. Que
chamas do inferno te possuíram para assaltar um Mestre da Guilda?

Safi molhou os lábios. — Foi um acidente. A carruagem errada atingiu


nossa armadilha.

— Ah. — Os ombros de Mathew relaxaram. Então, de repente, ele se


aproximou e segurou o queixo de Safi, como fizera mil vezes nos últimos seis
anos. Ele torceu a cabeça para a esquerda, para a direita, procurando cortes ou
hematomas ou qualquer sinal de que ela pudesse começar a chorar. Mas estava
ilesa e as lágrimas estavam muito longe.

A mão de Mathew caiu. Ele balançou para trás um único passo. — Estou
feliz que você esteja ilesa.

Com essa única frase, a respiração de Safi saiu e ela lançou os braços ao
redor de seu pescoço. — Sinto muito. — Ela murmurou em sua lapela, com o
bastão da montanha Hasstrel infeliz bordado nele. — Eu sinto muito pela sua
loja.
— Pelo menos você está viva e segura.

Safi se libertou, desejando que Habim também visse dessa maneira.

— Seu tio precisa de você hoje à noite. — Mathew continuou, caminhando


para a cama. Ele tirou um dos vestidos da colcha, a seda pistache cintilando ao
sol da tarde.

Safi olhou para o vestido. Era, para seu aborrecimento, muito bonito e
exatamente o tipo de coisa que ela escolheria para si mesma. — Ele precisa de
mim ou da minha magia?

— Ele precisa de você. — Disse Mathew. — Há um baile hoje à noite, para


iniciar a Cimeira da Trégua. Henrick solicitou especificamente sua presença.

O intestino de Safi virou. — Mas por que? Não estou pronta para ser uma
domna completa ou liderar as terras Hasstrel...

— Não é isso. — Mathew interrompeu, voltando sua atenção para o vestido


em sua mão... então balançando a cabeça com desdém e colocando-a na cama
mais uma vez.

— Você não será necessária dessa forma.

Verdade.

— O fato é que não sabemos por que Henrick te quer aqui, mas Eron
dificilmente poderia recusar.

A magia estremeceu na pele de Safi. Falso. — Não minta para mim. — Disse
baixinho. Letalmente.

Mathew não respondeu, mas ergueu um segundo vestido, este mais grosso
e rosa pálido. Safi mostrou os dentes. — Você não pode mandar minha
Threadsister embora e não explicar o porquê, Mathew.

Mathew segurou o olhar de Safi por várias respirações, parecendo tão


inflexível quanto seu Heart-Thread12. Então sua postura se afrouxou, e um
pedido de desculpas deslizou para a linha de seus ombros. Ele largou o vestido
em um monte. — Há grandes rodas em movimento, Safi. Rodas que seu tio e
muitos outros passaram vinte anos rolando de posição. A Trégua termina em
oito meses e a Grande Guerra será retomada. Nós… não podemos deixar isso
acontecer.

A cabeça de Safi recuou, não era isso que ela esperava. — Como você ou
meu tio poderiam afetar a Grande Guerra?

— Você saberá em breve. — Respondeu Mathew. — Agora, limpe-se e vista


este vestido hoje à noite. — O mais fraco pó de poder revestiu as palavras de
Mathew, e ele segurava um vestido branco prateado, a Witchmark 13 nas costas
de sua mão, um círculo oco para Éter e um roteiro de W para Wordwitchery,
quase parecia brilhar.

As narinas de Safi se abriram. Ela arrancou o vestido fino, o tecido


deslizando por entre os dedos como espuma do mar. — Não desperdice sua
magia em mim. — Algo sobre sua magia anulava a capacidade de persuasão de

12
Companheiro destinado.
13
Uma marca de bruxa é uma tatuagem que uma bruxa recebe em suas mãos se elas tiverem magia suficiente para serem
bruxas. Quanta mágica uma pessoa possui nelas pode ser testada através dos exames de bruxaria que cada império fornece. Em
alguns impérios, não são necessárias marcas de bruxa, mas em outros é necessário.
Mathew.

Mas tudo o que Mathew disse em troca foi — Hmmm. — Como se soubesse
mais do que ela poderia imaginar. Então ele girou elegantemente em direção à
porta.

— Uma empregada chegará em breve para ajudá-la com seu banho. Não se
esqueça de lavar atrás das orelhas e sob as unhas.

Safi mordeu o polegar nas costas de Mathew... mas o ato de desafio parecia
vazio. Sua ira emitia linhas cinzas, e desde a carruagem já estava escorrendo
pelas tábuas do assoalho como o óleo enegrecido do sangue do homem clivado.

Safi jogou o vestido na cama e seus olhos pousaram no canto do livro de


Carawen. Iria consertar essa bagunça que fez. Uma vez que entendesse a
mensagem de Iseult, Safi escolheria seus oponentes, seu tio, o Bloodwitch, os
guardas da cidade, e estimaria seu terreno, a cidade de Veñaza, a bola da
Cimeira da Trégua.

Então Safi consertaria isso.

7
Iseult entrou na rua atrás do cais como ordenado por Habim. Agachando-
se profundamente sob o capuz áspero, abriu caminho através de cavalos e
carroças, mercadores e lacaios da Corporação, e Threads de todas as sombras e
forças imagináveis. Por fim, avistou uma placa de madeira estampada que
anunciava o Canal Hawthorn.

Iseult reconheceu esse lugar, Safi tinha jogado tarô aqui alguns meses
antes. No entanto, ao contrário da noite passada, ela realmente ganhou.

Um esguicho branco sob a placa chamou a atenção dos olhos de Iseult,


notórios contra a mancha de cores que era uma via pública da cidade de Veñaza.

Era um monge Carawen sem Threads. Nenhum.

As entranhas de Iseult congelaram. Ela parou no meio do caminho,


observando o monge caminhar pela rua, longe dela. Ele estava claramente à
caça. A cada poucos passos, ele parava e a parte de trás do capuz inclinava como
se cheirasse o ar.

Foi sua falta de Threads, no entanto, que manteve Iseult imóvel. Ela pensou
que simplesmente não percebeu os Threads do Bloodwitch na loucura da luta
de ontem, mas não, ele não tinha nenhum.

Que era impossível.

Todo mundo tinha Threads. Fim da história.

— Você quer um tapete? — Perguntou um vendedor, aproximando-se de


Iseult, com todos os mantos manchados de suor e a respiração pesada. — Os
meus são diretamente de Azmir, mas vou te dar um bom negócio.
Iseult levantou a palma da mão. — Afaste-se ou cortarei seus ouvidos e os
alimentarei aos ratos.

Normalmente, essa ameaça servia bem a todos. Normalmente, porém, ela


estava no Distrito de Northern Wharf, onde sua pele de Nomatsi era ignorada.
E normalmente, ela tinha Safi ao seu lado para mostrar os dentes e parecer
adequadamente aterrorizante.

Hoje, Iseult não tinha nenhuma dessas coisas, e ao contrário de Safi, que
teria reagido instantaneamente, e teria corrido à primeira vista do monge,
Iseult só perdeu mais tempo avaliando seu terreno.

Foi nessa pausa de duas respirações que o vendedor de tapetes se


aproximou e apertou os olhos sob o capuz.

Seus Threads resplandeceram em medo cinzento, ódio negro. — Matsi


nojenta. — Ele sussurrou, passando os dedos pelos olhos. Então se lançou,
levantando a voz enquanto tirava o capuz de Iseult. — Afaste-se, Matsi de
merda! Cai fora!

Iseult dificilmente precisava desse segundo comando, e estava finalmente


fazendo o que Safi teria feito desde o começo: ela fugiu.

Ou tentou, mas o tráfego estava parando para cobiçá-la. Para fechar. Em


todos os lugares que virou ou empurrou, ela encontrou os olhos presos em seu
rosto, sua pele, seu cabelo. Ela se afastou das Threads de medo cinza e de
violência de aço.

A comoção atraiu a atenção do Carawen. Ele parou sua jornada. Girou em


direção aos gritos ascendentes da multidão...

E olhou diretamente para Iseult.

O tempo se esticou e a multidão se encolheu, borrando em uma colcha de


Threads e sons. Por uma fração de batimento cardíaco que pareceu a
eternidade, tudo o que Iseult viu foram os olhos do jovem monge. Vermelho
corria pelo azul mais pálido que ela já vira. Como sangue derretendo através do
gelo. Como um fio de coração entrelaçado por Threads azuis de entendimento.
Vagamente, Iseult se perguntou como ela tinha perdido aquela cor azul
impecável no assalto.

Enquanto todos esses pensamentos atravessavam seu cérebro a mil léguas


por segundo, ela se perguntou se esse monge realmente a machucaria como
todos temiam...

Então os lábios do monge se moveram para trás. Ele mostrou os dentes e a


pausa no mundo se fraturou. O tempo inundou para frente, retomou sua
velocidade normal.

E Iseult finalmente partiu, correndo atrás de um cavalo cinza. Ela jogou o


cotovelo com força no traseiro inferior. Ele relinchou. A jovem mulher em suas
costas gritou, e com aquela explosão de vocais estridentes e a súbita e violenta
batida do cavalo, a rua inteira saiu do caminho.

Threads laranjas frenéticos queimavam em torno de Iseult, mas ela mal os


registrava. Já estava empurrando e correndo por um cruzamento a um
quarteirão de distância. Havia uma ponte sobre o canal mais próximo lá. Talvez
se pudesse atravessar o canal, ela poderia despistar o Bloodwitch.
Seus pés se debateram na lama, saltaram sobre mendigos, derraparam ao
redor de carroças, mas depois a meio caminho da ponte, ela olhou para trás - e
desejou não ter feito isso. O Bloodwitch estava definitivamente perseguindo e
ele definitivamente era rápido. As mesmas pessoas que tinham a intenção de
reduzir a velocidade de Iseult agora saíam do seu caminho.

— Mova-se! — Iseult gritou para um purista que pregava ali. Ele não se
moveu, então o acertou no ombro.

Ele e sua placa foram girando como um moinho de vento. Mas funcionou a
favor de Iseult, pois, embora perdesse a velocidade, mesmo tendo sido forçada
a mergulhar sob uma ninhada de passagem levada por quatro homens, parecia
que ela apontava para a esquerda, para a ponte; ouvindo ainda o Purista
gritando para ir atrás dela, através do canal.

Então, não foi embarcou como planejado. Em vez disso, se atirou no


calcanhar e voltou para o tráfego, rezando para que o monge ouvisse o purista
e fosse para a esquerda. Orando desesperadamente que ele não pudesse sentir
o odor de seu sangue através dessas fibras de salamandra.

Ela impingiu seu capuz no lugar e se lançou para frente. Havia outro
cruzamento chegando, um fluxo espesso de tráfego de leste a oeste em direção
a uma segunda ponte. Ela teria que continuar em frente.

Ou não. Assim que correu atrás do carrinho de um lenhador e bateu na


barraca de um queijeiro, ela bateu no ar vazio.

Iseult sacudiu os braços, oscilando em direção a um canal inesperado de


águas verdes e lamacentas, quase tão cheias de gente quanto as ruas.
Um longo carrinho de casco achatado deslizava para baixo de Iseult e, em
meio fôlego, ela absorveu a cena abaixo: Rio raso coberto de redes. Pescadores
olhando-a.

Iseult parou de lutar contra a queda, em vez disso, se inclinou para ela.

Ar correu contra ela. Redes brancas de renda se fecharam rapidamente. E


logo estava no convés, joelhos dobrados, mãos segurando.

Algo cortou sua palma. Um gancho enferrujado, ela percebeu antes de se


levantar. O carrinho listou descontroladamente. O pescador rugiu, mas Iseult já
estava bombeando na direção do próximo barco, uma balsa baixa com um toldo
vermelho de babados.

— Olhe para fora! — Iseult gritou, pulando alto e agarrando a balaustrada.


Ela se levantou quando passageiros de olhos arregalados recuaram. Sangue
manchando os piquetes do corrimão. Fracamente, ela esperava que este golpe
ardente não a tornasse muito mais fácil de seguir para o Bloodwitch.

Ela atravessou a balsa em quatro limites, parecia que todos queriam sair
do barco tanto quanto ela. Ela encostou no corrimão, respirou fundo enquanto
outro carrinho de bebê passava, este coberto pelo peixe cavala do dia.

Iseult pulou. Seus pés esmagaram e de repente ela estava esparramada em


escamas prateadas com um rosto cheio de olhos pegajosos. O pescador
guinchou para ela, mais descontente do que surpreso, e Iseult se ergueu para
encontrar sua barba negra caindo.

Ela passou por ele, acotovelando-o no intestino, bem ao passar por uma
escadaria baixa cheia de pescadores de vara.

Um salto áspero depois e Iseult se agarrou à escada de laje. Nenhum dos


pescadores se ofereceu para ajudar, apenas estremeceram de volta. Um deles a
apunhalou com sua vara de pescar, seus Threads cinza aterrorizado.

Iseult pegou o final do poste. Os Threads do homem ficaram mais


brilhantes, e ele tentou puxar o mastro de volta, mas começou a puxar Iseult em
seu lugar. Obrigada, ela pensou, subindo as escadas. Olhou para trás uma vez e
viu sangue riscado nas pedras. Sua palma estava jorrando muito mais do que a
dor distante justificava.

Ela chegou à rua. O tráfego invadiu o passado e ela lutou por alguma
estratégia. Todos os seus planos estavam caindo nos portões do inferno, mas
certamente Iseult poderia demorar um momento para pensar. Ela era uma
porcaria em correr desordenadamente, era por isso que Safi era a líder nessas
situações. Sem tempo para criar estratégias, Iseult sempre corria para os
cantos.

Mas enquanto estava lá, escorregando ao lado do canal e segurando a mão


sangrando em sua capa, ela teve o momento que precisava.

Estrada larga, ela pensou. Uma artéria principal da cidade, provavelmente


ao longo deste canal todo o caminho. Tráfego organizado em duas direções, e
um homem levando uma égua tigrada selada. Nenhum suor escurecendo os
ombros da égua. Se eu a levar, posso fugir da cidade completamente e me
esconder da noite para o dia com a tribo.

Embora voltar para a casa que ela passara a maior parte da vida evitando
não fosse a solução ideal de Iseult, o povoado de Midenzi era o único lugar que
ela sabia que não a expulsaria à primeira vista de sua pele.

Também era o único lugar em que tinha certeza de que o Bloodwitch,


mesmo que ele a caçasse pela vista e pelo sangue, não poderia segui-la. As terras
ao redor do assentamento estavam cheias de armadilhas que nenhum invasor
podia navegar.

Então, em uma onda de velocidade, Iseult tirou a capa, jogou-a por cima da
cabeça do homem e depois saltou para a sela da égua, rezando o tempo todo
para que as orelhas achatadas da égua fossem um sinal de que ela estava pronta
para cavalgar.

— Eu sinto muito. — Gritou quando o homem se agitou sob o manto de


salamandra.

— Eu vou mandá-la de volta! — Então ela cavou em seus calcanhares e


deixou o homem para trás.

Quando a égua se lançou em um trote rápido pelo tráfego, Iseult lançou seu
olhar através do canal. E encontrou o Bloodwitch a observando. Havia lacunas
nos barcos agora, ele não podia atravessar a água como ela.

Mas podia sorrir para ela, e acenar também. Um lampejo de seus dedos
direitos e depois um toque de sua palma direita.

Ele sabia que a mão dela estava sangrando, e estava dizendo que poderia
seguir. Que seguiria, e provavelmente estaria sorrindo aquele sorriso
aterrorizante todo o caminho.
Iseult tirou o olhar do rosto dele, forçando sua atenção para frente. Quando
pressionou as costas da égua e chutou o cavalo ainda mais rápido, ela rezou
para que a Mãe Lua, Noden ou qualquer outro deus que estivesse vigiando, a
ajudasse a sair desta cidade viva.

***

Merik olhou para o navio miniatura de Dalmotti deslizando sobre o mapa


do mar de Jadansi. Mostrava que o navio comercial correspondente estava
apenas transportando o vento dos portos da cidade de Veñaza, e Merik queria
arremessar a maldita miniatura pela janela.

O Voicewitch do Jana, Hermin, estava sentado na cabeceira da mesa.


Apesar de não ser comum, os Bruxos eram os Aetherwitch mais comuns, e como
podiam encontrar e se comunicar com outros Voicewitches a grandes
distâncias, todos os navios da Marinha Real de Nubrevnan tinham um a bordo
- inclusive Vivia, com quem o Voicewitch Hermin agora estava conectado.

Os olhos de Hermin brilhavam rosados, um sinal de que ele estava batendo


nos Threads da Fenda da Voz, e a luz da tarde cintilou sobre o rosto enrugado.
Vozes distantes, carroças chocantes e cascos entalhados entravam pelas janelas
abertas.

Merik sabia que deveria fechá-los, mas era muito grudento e quente
demais sem a brisa. Além disso, o sebo nas lanternas queimava e fedia, um
cheiro ainda pior do que o esgoto nos canais da cidade de Veñaza.

Mas Merik achava que valia a pena economizar dinheiro com gordura
animal fedorenta em vez de pagar montes de lanternas de fogo de artifício sem
fumaça. E, claro, esse foi um ponto em que ele e Vivia discordaram.

Um de muitos.

— Não acho que você entende, Merry. — Embora Hermin falasse com sua
própria voz grave, era no estilo exato de Vivia, todas as palavras arrastadas e
ênfase condescendente. — As Raposas amedrontam instantaneamente as
marinhas estrangeiras. Içar essa bandeira agora nos dará uma grande
vantagem quando a Grande Guerra recomeçar.

— Exceto. — Merik disse sem inflexão. — Estamos aqui para negociar a


paz. E apesar de eu concordar que as bandeiras da Raposa já foram eficazes
para a intimidação, isso foi há séculos atrás. Antes que os impérios tivessem
marinhas para esmagar as nossas.

Parecia tão exuberante na superfície, atacar navios comerciais para


alimentar os pobres, e os contos das antigas marinhas da Raposa ainda eram
favoritos em sua terra natal. Mas Merik sabia melhor. Roubar dos mais
afortunados ainda acontecia, e prometer evitar a violência era mais fácil do que
realmente se refrear.

— Eu tenho mais uma reunião. — Insistiu Merik. — Com a Guilda de Ouro.

— Que falhará como todas as outras reuniões. Eu pensei que você queria
alimentar seu povo, Merry.
Faíscas acenderam em seu peito. — Nunca — Ele rosnou. — questione meu
desejo de alimentar Nubrevna.

— Afirme o que você quiser, mas quando lhe dou uma maneira de recolher
o alimento, a maneira de ensinar os impérios uma lição, você não aproveita a
chance.

— Porque o que você propõe é pirataria. — Merik achou difícil olhar para
Hermin enquanto o Voicewitch continuava a cantar as palavras de Vivia.

— O que eu proponho é a noite das chances. E lembro-lhe, Merry, que, ao


contrário de você, já participei de reuniões de cúpula antes. E vi como os
impérios nos esmagam abaixo de seus calcanhares. Esta miniatura de
Aetherwitched é um meio de lutar. Tudo o que você tem a fazer é me dizer
quando o navio comercial chegar à costa de Nubrevnan e depois farei todo o
trabalho sujo.

Todo o assassinato, você quer dizer. Levou cada fragmento do frágil


autocontrole de Merik para não jogar isso em Vivia... Mas não fazia sentido. Não
quando dois Voicewitches e cem ligas ficavam entre eles.

Ele revirou os ombros uma vez. Duas vezes. — O que... — Ele finalmente
continuou. — Papai diz sobre isso?

— Nada. — Hermin falou a palavra exatamente como Vivia faria. — Pai


está à beira da morte, e ele permanece tão silencioso quanto quando você foi
embora. Por que ele se levantou para chamá-lo de enviado e almirante, nunca
vou entender... No entanto, parece estar trabalhando a nosso favor, pois temos
uma oportunidade aqui, Merry.
— Que se encaixa muito bem em sua estratégia para um império de sua
preferência, você quer dizer.

Uma pausa. — Justiça deve ser servida, irmãozinho. — Uma borda revestiu
as palavras de Vivia agora. — Ou você esqueceu o que os impérios fizeram em
nossa casa? A Grande Guerra acabou para eles, mas não para nós. O mínimo que
podemos fazer é pagar os impérios em espécie, começando com um pouco de
pirataria nobre.

Com essas palavras, o calor no peito de Merik se lançou para fora. Enrolado
em seus punhos. Se ele estivesse com Vivia, ele deixaria essa tempestade solta,
afinal, ela tinha a mesma raiva fervendo em suas veias.

Quando Merik era menino, seu pai tinha certeza de que Merik era um
bruxo poderoso como sua irmã, que as birras de Merik tinham sido
manifestações de um alto poder interior. Então, aos sete anos de idade, o rei
Serafin forçou Merik a fazer o Exame de Bruxaria.

No entanto, as birras de Merik não tinham sido um sinal de poder. Merik


mal havia sido considerado forte o suficiente para uma Witchmark, e o rei
Serafin mal tinha conseguido esconder sua repugnância diante do Conselho de
Exames.

Naquela mesma manhã, na carruagem de volta para o palácio real e com a


nova tatuagem de diamante de Merik queimando nas costas da mão, Merik
tinha aprendido com detalhes afiados e inflexíveis o quão profundo era o
desgosto de seu pai. Como um príncipe fraco, não tinha nenhum propósito para
sua família. Merik se juntou à sua tia, a exilada Nihar, nas terras da família no
sudoeste.

— Você se esquece. — Hermin disse, ainda articulando Vivia. — Quem


reinará quando o pai morrer. Você pode ter autoridade agora, mas você é
apenas um almirante temporário. Eu serei rainha e almirante quando o sono
aguado finalmente reivindicar o pai.

— Eu sei que você será. — Merik disse suavemente, sua raiva voltando em
face do medo frio.

Vivia como rainha. Vivia como almirante. Vivia enviando nubrevanos como
cordeiros para o abate. Os fazendeiros e os soldados, os mercadores e os
mineiros, os pastores e os padeiros, eles morreriam em espadas cartorranas ou
em chamas de Marstoki. Tudo enquanto Vivia assistia.

E a única solução de Merik era reconstruir o comércio e provar a Vivia que


havia meios pacíficos de manter os nubrevanos alimentados... Esse plano havia
fracassado.

O pior de tudo, porém, era que, mesmo que ele se recusasse a ajudar Vivia
nessa empreitada de pirataria, Merik sabia que ela encontraria outro jeito. De
alguma forma, ela içaria a bandeira da Raposa, e de alguma forma, condenaria
toda a sua terra natal ao inferno de Noden.

Na pausa momentânea, enquanto Merik lutava por alguma solução desse


pesadelo, uma batida soou na porta da cabine.

Ryber, a garota do navio e o Heart Thread de Kullen, enfiou a cabeça para


dentro.
— Almirante? Desculpe interromper, senhor, mas é urgente. Tem um
homem aqui para te ver. Ele diz que o nome dele é fon… — Seu rosto escuro
amassou. — Fon Hasstrel, foi isso. De Cartorra. E ele quer discutir possíveis
trocas com você.

Merik sentiu seu queixo cair. Comércio… com Cartorra. Parecia impossível,
mas a expressão sincera de Ryber não estava mudando.

O próprio Noden estava interferindo em nome de Merik, e Ele agiu


corretamente quando Merik mais precisou.

Merik não iria ignorar um presente como esse, então ele voltou para
Hermin. — Vivia. — Ele chamou. — Eu vou ajudá-la, mas com uma condição.

— Estou ouvindo.

— Se eu puder negociar uma única linha de comércio para Nubrevna, então


você vai parar sua pirataria. Imediatamente.

Uma pausa. Então um lento: — Talvez, Merry. Se você de alguma forma


estabelecer comércio, eu vou... considerar descer a bandeira. Agora me diga:
onde está a miniatura de Dalmotti agora?

Merik não pôde deixar de sorrir, uma coisa astuta, quando olhou para o
mapa. A miniatura estava acabando de sair da beira pantanosa da baía da
cidade de Veñaza.

— Não partiu. — Declarou ele, algo flutuante e esperançoso subindo em


seu peito. — Mas vou informá-la no instante em que acontecer. Hermin... —
Merik bateu as mãos no ombro do Voicewitch. O velho marinheiro se encolheu.
— Você pode terminar a ligação agora. E Ryber? — Merik lançou o olhar para a
porta, sorrindo ainda mais. — Traga este fon Hasstrel imediatamente.

***

Depois do banho, Safi seguiu uma empregada com cabelos cor de café de
volta ao seu quarto, onde a mulher a vestiu com o vestido prateado branco que
Mathew havia escolhido. Então a empregada persuadiu o cabelo de Safi a
formar uma série de cachos que penduravam, balançavam e brilhavam ao
entardecer.

Era estranho ser vestida e servida, Safi não tinha experimentado isso em
mais de sete anos. Seu tio Eron nunca poderia pagar mais do que um punhado
de criados na propriedade de Hasstrel, então a única vez que uma empregada
servira Safi fora durante as viagens anuais a Praga.

Tio Eron pode ter sido um desgraçado Hell-Bard, destituído de patente,


apenas os deuses sabiam o porquê, e então designado como um dom
temporário até que Safi fosse considerada apta a assumir, mas ele ainda pagava
seus dízimos exatamente como Henrick exigia. Todos os anos, Eron e Safi
tinham ido à capital cartorrenha para entregar seus fundos escassos e jurar
fidelidade ao imperador Henrick.

E todos os anos, tinha sido horrível.

Safi sempre foi mais alta que as outras, mais forte, enquanto as outras
garotas sempre sussurravam sobre o tio de Safi e riam de seus antigos vestidos.

No entanto, não era a vergonha que tornou as viagens infelizes. Era o medo.

Medo dos Hell-Bards. O medo que eles veriam Safi pela herege que era,
pela Truthwitch que ela era.

Na verdade, se não fosse pelo príncipe Leopold, ou Polly, como Safi sempre
o chamou, tomando-a sob sua asa cada vez que ela o visitava, tinha certeza de
que os Bichos do Inferno já a teriam pego até agora. Era o trabalho da Brigada
Hell-Bard, afinal, farejar hereges não marcados.

E por ordem da coroa, eram autorizados a decapitar os hereges, se


parecessem perigosos ou não desejassem cooperar.

Polly provavelmente estará lá esta noite, Safi pensou enquanto se


examinava em um espelho estreito ao lado da cama. Fazia oito anos desde a
última vez que fugira com ele para explorar a imensa biblioteca imperial. Ela
não podia imaginar como seus longos e pálidos cílios e cachos dourados se
transformariam em um homem de vinte e um anos de idade.

Safi certamente parecia diferente, e esse vestido pálido acentuava


exatamente isso. O corpete apertado enfatizava a força da cintura e do
abdômen. As mangas compridas ajustadas exibiam seus braços com corda, o
corpete apertado enfatizava as poucas curvas que ela possuía e as saias fluidas
suavizavam seus quadris em uma redondeza feminina. As tranças balançando
trouxeram as curvas de sua mandíbula. O brilho dos olhos dela.

Mestre Alix e sua equipe tinham realmente se superado desta vez.


Quando a criada saiu, depois de colocar uma capa branca deslumbrante
sobre a cama, Safi correu para pegar sua mochila e pegou o livro Carawen de
Iseult. Então ela caminhou até a janela, onde os canais brilhavam como chamas
sob o sol poente.

Uma luz rosada e fina se filtrava na capa azul do livro e, quando Safi o
puxou de volta, as páginas sussurram abertas até o número trinta e sete. Um
leão alado de bronze brilhou para ela, marcando a última página que Iseult
estava lendo.

Safi digitalizou rapidamente o texto, uma lista de divisões de monge em


Carawen.

A porta do quarto abriu. Safi teve tempo suficiente para colocar o livro de
volta na mochila antes de seu tio entrar no quarto.

Dom Eron fon Hasstrel era um homem alto, musculoso e de ossos rígidos
como Safi. No entanto, ao contrário de Safi, seus cabelos de trigo se misturavam
em cinza prateado e ele tinha bolsas roxas sob os olhos vermelhos. Por tudo o
que ele tinha sido um soldado, não era nada além de um bêbado agora.

Eron parou a alguns passos de distância e esfregou o topo da cabeça.


Deixou o cabelo em todos os ângulos. — Pelos Doze! — Ele falou. — Por que
você está tão pálida? Parece que o Vazio te pegou. — Eron ergueu o queixo e
Safi notou apenas a menor oscilação em sua postura. — Você deve estar nervosa
sobre o baile hoje à noite.

— Assim como você. — Disse ela. — Por que mais você estaria tão bêbado
antes do jantar?
Os lábios de Eron se abriram num sorriso, um sorriso surpreendentemente
alerta.

— Ah, a sobrinha que eu lembro. — Ele foi até a janela, fixou o olhar do
lado de fora e começou a brincar com um colar de ouro fino que sempre usava.

Safi mordeu o lábio, odiando que, como de costume, um buraco se abrisse


em seu peito ao ver o tio Eron. Embora seu sangue corresse com o mesmo
Hasstrel azul que ele, ela e seu tio eram estranhos.

E quando Eron estava bêbado, o que ele era mais frequentemente do que
não, a magia de Safi não sentia nada. Nenhuma verdade, nenhuma mentira,
nenhuma reação, como se qualquer pessoa que ele pudesse ser fosse lavada
assim que o vinho começasse a fluir.

Havia e sempre haveria uma parede de pedra e silêncio entre eles.

Nivelando seus ombros, Safi caminhou para o lado de Eron. — Então, por
que estou aqui, tio? Mathew disse que você pretende interferir na Grande
Guerra. Como exatamente você pretende fazer isso?

Uma risada rouca de Eron. — Então Mathew deixou isso escapar, não é?

— Você precisa usar minha magia? — Safi pressionou. — É disso que se


trata? Algum esquema bêbado para recuperar a honra do seu Hell-Bard...

— Não. — A palavra estalou forte. Inflexível. — Este não é um esquema


bêbado, Safiya. Longe disso. — Eron espalmou as mãos no vidro, e as velhas
cicatrizes de queimadura em seus dedos e juntas esticaram-se.
Safi odiava essas cicatrizes. Enquanto crescia, ela olhou para os vários
pênis brancos, um milhão de vezes. Enrolado em torno de um jarro de vinho ou
beliscando o traseiro de uma prostituta. Aquelas cicatrizes eram tudo o que Safi
realmente conhecia do tio, o único vislumbre que ela teve em seu passado, e
sempre que as via, não podia deixar de temer que esse era o futuro que a
aguardava; uma sede insaciável pelo que nunca poderia ser.

Eron queria sua honra.

Safi queria sua liberdade.

Liberdade de seu título e seu tio e os frios salões Hasstrel. Liberdade do


medo dos Hell Bards e decapitações. Liberdade de sua magia e de todo o
Império de Cartorra.

— Você não tem ideia de como é a guerra. — Eron disse, seu tom nebuloso,
como se sua mente também se movesse pelas velhas cicatrizes. — Exércitos
arrasando aldeias, frotas afundando navios, bruxas queimando você com um
único pensamento. Tudo o que você ama é levado embora, Safiya... e abatido.
Mas você aprenderá em breve. Em um detalhe muito vívido, você aprenderá, a
menos que faça o que eu pedir. Depois desta noite, você pode sair para sempre.

Uma pausa encheu a sala, então a mandíbula de Safi afrouxou. — Espere,


posso ir embora?

— Sim. — Eron ofereceu um sorriso quase triste, remexendo-se mais uma


vez no colar. Quando falou de novo, as primeiras faíscas da verdade, de calor
feliz, despertaram no peito de Safi.
— Depois que você fizer seu papel na dança, nobre domna. — Ele começou.
— Depois que fizer isso para todos os impérios verem... Bem, depois disso, você
estará totalmente livre para ir.

Livre para ir. As palavras reverberaram pelo ar como a nota final em uma
sinfonia explosiva.

Safi balançou de volta. Isso era mais do que sua mente podia engolir, mais
do que sua magia podia processar. As palavras de Eron tremeram e queimaram
com a verdade.

— Por que? — Safi começou cuidadosamente, com medo que a palavra


errada apagasse tudo o que seu tio disse. — Você me deixaria ir embora? Eu
deveria ser domna das terras dos Hasstrel.

— Não é bem assim. — Ele levantou um único braço sobre a cabeça e se


inclinou contra o vidro. Tudo sobre sua postura era estranhamente indulgente,
e seu colar, agora removido, pendia entre os dedos. — Títulos não vão importar
em breve, Safiya, e, vamos encarar, nem você nem eu esperávamos que você
realmente liderasse a propriedade. Você não está exatamente preparada para
liderança.

— E você está? — Ela se arrepiou. — Por que estudei toda a minha vida se
esse era o seu plano o tempo todo? Eu poderia ter saído...

— Não era o meu plano. — Ele cortou, os ombros tensos. — Mas as coisas
mudam quando a guerra está no horizonte. Além disso, você se arrepende de
todas as aulas e treinamentos que recebeu? — Sua cabeça inclinou para o lado.
— Seu encontro com o Mestre da Guilda de Ouro quase arruinou tudo o que
planejei, mas consegui salvar a noite. Agora tudo o que você tem a fazer é agir
como uma domna frívola por uma única noite, e então seus deveres serão
cumpridos. Para sempre.

Safi soltou uma risada. — É só isso? Isso é tudo que você quer de mim?
Tudo o que você sempre quis de mim? Perdoe-me se não acredito em você.

Ele deu de ombros com desdém. — Você não precisa acreditar em mim,
mas o que sua magia diz?

A magia de Safi zumbia com a verdade, quente por trás das costelas. No
entanto, ainda achava impossível engolir essa história. Tudo o que sempre quis
foi de repente entregue a ela. E parecia muito, muito bom demais para ser
verdade.

Eron arqueou uma sobrancelha pálida, claramente divertindo-se com a


perplexidade de Safi. — Quando os sinos tocarem a meia-noite, Safiya, o
Bloodwitch não será mais um problema. Então você pode fazer o que quiser e
viver a mesma existência sem ambição que sempre gostou. Embora... — Ele fez
uma pausa, o olhar afiando. Não havia sinal de embriaguez agora. — Se você
quisesse, Safiya, você poderia dobrar e moldar o mundo. Você tem o
treinamento, eu já vi isso. Infelizmente, — Ele estendeu as mãos cheias de
cicatrizes, esticando a corrente esticada. — você parece não ter a iniciativa.

— Se eu não tenho a iniciativa, — Sussurrou Safi, as palavras caindo antes


que ela pudesse detê-las. — foi porque você me fez assim.

— É verdade. — Eron sorriu para ela, uma coisa triste que aqueceu com
honestidade. — Mas não me odeie por isso, Safiya. Me ame. — Seus braços se
abriram de braços cruzados. — E me tema. É o jeito dos Hasstrel, afinal. Agora
termine de se vestir. Saímos no próximo sinal.

Sem outra palavra, Eron passou por Safi e saiu do quarto. Safi observou-o
ir embora. Ela se obrigou a observar seu andar rápido e as costas largas.

Por um momento, se afundou na injustiça por vários segundos


empolgantes. Sem ambição? Sem iniciativa? Talvez isso fosse verdade quando
se tratava de viver em um castelo congelado em meio a um mundo de nobreza
faminta por poder e vigilantes bardos do inferno, mas não quando se tratava de
uma vida com Iseult.

Safi puxou o livro de Carawen mais uma vez e abriu-o. A moeda brilhou
para ela, desabrochando como uma rosa ao pôr do sol. Esta página em
particular era importante, e Safi simplesmente tinha que descobrir por que ...

Ela arrastou o dedo pelas fileiras e divisões dos monges. Monge


Mercenário, Monge Professor, Monge Guardião, Monge Artesanal... Seus dedos
pararam no Monge Curador. Foi um tal monge que encontrou Iseult quando ela
fugiu de sua tribo. Iseult tinha se perdido em uma encruzilhada ao norte da
cidade de Veñaza, e um tipo de monge curador a ajudou a encontrar o caminho.

E aquela antiga encruzilhada estava ao lado do farol que as garotas usavam


agora. Iseult deve estar planejando deixar a cidade de Veñaza completamente e
retornar ao esconderijo habitual.

Safi deixou cair o livro. Sua cabeça recuou. Ela não poderia ir pra lá ainda,
teria que passar hoje à noite primeiro. Ela tinha que tirar esse Bloodwitch da
sua trilha e seu tio com cuidado. Então, sem se preocupar em perseguir mais
uma vez, ela poderia seguir para o norte da cidade e encontrar sua irmã.

Safi exalou bruscamente, a cabeça abaixando e o corpo se deslocando em


direção ao espelho. Eron queria um domna obediente? Bem, Safi poderia dar
isso a ele. Ao longo de sua infância, a nobreza de Cartorrana a viu como uma
coisa quieta e envergonhada, encolhida atrás de seu tio enquanto seus dedos
dos pés batiam e suas pernas saltavam.

Mas Safi não era mais aquela garota, e os Hell-Bards não tinham poder
neste império. Então Safi estufou o peito, satisfeita com a forma como o vestido
enfatizava seus ombros. Como as mangas pararam alto o suficiente para revelar
as palmas das mãos, listradas com tantos calos quanto qualquer soldado.

Safi estava orgulhosa de suas mãos, e ela não podia esperar que os doms e
domnas olhassem para elas com repulsa. Para a nobreza sentir os dedos,
ásperos como arenito, quando dançasse com eles.

Por uma noite, Safi poderia ser Domna de Cartorra. Inferno, ela seria uma
imperatriz no cio se a trouxesse de volta para Iseult e para longe do Bloodwitch.

Depois desta noite, Safiya fon Hasstrel estaria livre.


8
Iseult olhou para a crina escura de sua égua tigrada, uma das mãos sobre
as rédeas e a outra erguida em uma tentativa frustrada de conter o
sangramento de sua ferida.

O canal ao lado dela brilhava laranja com o sol poente, e o fedor da cidade
de Veñaza estava finalmente começando a desvanecer-se de suas narinas —
assim como o calor do dia. Logo, Iseult deixaria completamente esse pântano
úmido e entraria nos prados selvagens que cercavam sua casa Nomatsi.
Mosquitos a enxameavam e as mutucas se banqueteavam.

A inundação do tráfego do posto de controle ao leste da guarda tinha sido


espessa o suficiente para que Iseult saísse da capital sem ser vista. Então, assim
que as estradas se esvaziaram, ela pulou em seu novo cavalo e saiu a galope.

O sangramento na palma da mão não tinha estancado, então ela arrancou


o acabamento de oliva da saia e a envolveu. Cada vez que o sangue encharcava,
ela arrancava mais tecido. Enfaixou a ferida com mais força - e depois segurou
a mão ainda mais alto.

Apenas uma noite, disse a si mesma repetidamente, um refrão trovejando


a tempo do galope de quatro batidas do cavalo, depois o galope de três batidas.
Finalmente, a duas léguas dos limites da cidade, quando a égua estava escura
de suor, Iseult tinha caído para um trote de duas batidas. Uma noite, uma noite.

Sob aquele lembrete percussivo, pulsava uma esperança desesperada de


que Iseult não tivesse, de alguma forma, colocado em perigo Safi, apontando-a
para o velho farol. Planos de fração de segundo não eram seu ponto forte, e era
isso que a mensagem por Habim tinha sido. Casual, apressada.

Por fim, Iseult alcançou um bosque denunciador de amieiros e diminuiu a


marcha da égua antes de escorregar da sela. A parte superior das suas coxas
queimava, e sua parte inferior das costas gemiam. Ela não tinha andado em
semanas, e nem em tal velocidade em meses. Ela ainda podia sentir seus dentes
batendo no galope. Ou talvez esse fosse o zumbido das cigarras nos cervos
brancos.

Embora parecesse que Iseult seguia nada mais que uma trilha de jogo que
serpenteava pela grama, ela sabia pelo que era: uma estrada Nomatsi.

Moveu-se mais devagar agora, tomando cuidado para ler os marcadores


Nomatsi quando apareciam. Um pedaço de pau batendo na sujeira que parecia
quase acidental, significava uma armadilha de urso com garras na próxima
curva do caminho. Um aglomerado de glórias matinais “selvagens” no lado
esquerdo do caminho significava uma bifurcação na estrada à frente, o leste
levaria a uma névoa de Poisonwitch14, a oeste do assentamento.

Seguir este caminho tiraria o Bloodwitch da cauda de Iseult para sempre.


Então, depois de algumas horas dentro das grossas muralhas do assentamento,
Iseult poderia sair mais uma vez para se encontrar com Safi.

Embora o Império Dalmotti tecnicamente permitisse que Nomatsis


vivessem como quisessem, desde que suas caravanas permanecessem a pelo
menos 30 quilômetros de qualquer cidade, eles também eram declarados
“animais”. Eles não tinham proteção legal e ainda tinham muito do ódio por
Dalmotti para enfrentar. Por isso, dizer que os Midenzi não gostavam de
pessoas de fora era um enorme eufemismo. Como uma das únicas tribos
Nomatsi que se estabeleceram e pararam de viajar como nômades, os Midenzi
encontraram um nicho seguro aqui e se agarraram a ele.

As paredes eram grossas, os arqueiros atentos, e se o Bloodwitch pudesse


de alguma forma navegar até ali, encontraria um baú cheio de flechas farpadas
esperando por ele.

No entanto, assim como os Midenzi lutavam para manter os estrangeiros


de fora, eles também lutavam para manter seu próprio povo. Se você deixasse
o assentamento, seria considerado outro, e outro era a única coisa que um
Nomatsi nunca quis ser, nem mesmo Iseult.

Quando os distintivos carvalhos mascararam a borda das paredes do


assentamento finalmente apareceram, negros e ameaçadores na escuridão da
noite, Iseult parou. Esta era sua última chance de fugir. Ela poderia se virar e

14
Uma magia rara que dá à pessoa a capacidade de criar e localizar venenos. Está intimamente ligada à Waterwhitch de cura.
passar o resto de sua vida sem nunca ver a tribo novamente, embora uma vida
curta que poderia ser com o Bloodwitch a caçando.

A lua subia a leste de Iseult, iluminando-a para todos verem. Ela enrolou a
trança e a amarrou sob o lenço de cabeça. As mulheres Nomatsi mantinham o
comprimento do cabelo no queixo; o de Iseult caía na metade das costas. Ela
precisava manter isso oculto.

— Nome. — Uma voz gritou na língua Nomatsi gutural. Um fio de aço hostil
brilhou à esquerda de Iseult, junto com a forma fraca dos arqueiros nas árvores.

Ela levantou as mãos submissamente, esperando que as amarras na palma


da mão não fossem muito óbvias. — Iseult. — Ela respondeu. — Iseult det
Midenzi.

Folhas de carvalho enferrujadas; galhos rangeram. Mais Threads


tremeluziam e moviam-se enquanto os guardas se aproximavam de suas
árvores para conferir, decidir. Os momentos passaram com uma lentidão
dolorosa. O coração de Iseult bateu contra seus pulmões e ecoou em seus
ouvidos enquanto a égua jogava a cabeça para trás. Então estampado. Ela
precisava ser esfregada.

Um grito dividiu o céu noturno.

Dois pardais levantaram voo.

Então veio outro grito de uma garganta que Iseult conhecia, e sentiu como
se estivesse caindo. Mergulhando em algum pico de montanha, perdendo o
estômago enquanto a terra se aproximava rapidamente.
Estase, ela gritou interiormente. Estase nas pontas dos dedos e nos dedos
dos pés!

Ela não encontrou estase, no entanto. Não antes que o raspar do imenso
portão atingisse seus ouvidos. Em seguida, passos martelaram no chão e uma
figura negra veio correndo em direção a ela.

— Iseult! — Sua mãe gritou com lágrimas escorrendo por um rosto quase
idêntico ao dela. Falsas lágrimas, é claro, já que verdadeiros Threadwitches não
choravam, e Gretchya não era nada senão uma verdadeira Threadwitch.

Iseult teve tempo suficiente para pensar em quão pequena a mãe parecia
— até o nariz de Iseult — antes que sua mãe a puxasse para um abraço de
costela e a sua mente se enchesse de um único pensamento. Uma oração, na
verdade, para que o Bloodwitch ficasse longe, muito longe.

***

Iseult descobriu que andar pelo assentamento ao luar de Midenzi era mais
fácil e mais difícil do que esperava.

Era mais fácil porque, embora pouco tivesse mudado nos três anos desde
sua última visita à tribo, tudo parecia menor do que lembrava. As paredes de
madeira que cercavam a aldeia estavam tão cinzentas quanto ela se lembrava,
mas agora não pareciam tão intransponíveis. Apenas … alto. Se não fosse a trilha
Nomatsi e os arqueiros nas árvores, a parede seria um mero inconveniente para
aquele Bloodwitch.

As casas redondas construídas de pedras tão marrons quanto a lama em


que estavam pareciam miniaturas. Casas de brinquedo com portas estreitas e
baixas e janelas fechadas.

Mesmo os carvalhos que cresciam sem entusiasmo ao longo do


assentamento de quinze acres pareciam mais magros do que Iseult lembrava.
Não grande ou forte o suficiente para ela se transformar nos galhos como ela
havia feito uma vez.

O que tornava a caminhada pela tribo mais difícil do que Iseult esperava
era o povo — ou melhor, seus Threads. Ao seguir a mãe até a casa dela no centro
da tribo, as persianas se abriram, revelando rostos curiosos. Seus Threads
estavam estranhamente umedecidos, espremidos como toalhas velhas.

Iseult estremecia toda vez que uma figura contornava uma esquina ou uma
porta se escancarava. No entanto, toda vez, Iseult também achava que não
reconhecia o rosto enluarado examinando-a.

Não fazia sentido. Novas pessoas na tribo? Threads desbotados para quase
invisibilidade?

Quando Iseult finalmente chegou à casa redonda de sua mãe, achou-a


estranhamente pequena como em qualquer outro lugar. Embora a cabana de
Gretchya usasse os mesmos tapetes alaranjados sobre o mesmo piso de tábuas
largas da infância de Iseult, era tudo muito pequeno.

A mesa de trabalho que um dia havia chegado à cintura de Iseult, agora só


chegava ao meio da coxa, assim como a mesa de jantar embaixo da janela no
lado leste. Atrás do fogão havia uma escotilha que levava a um porão escavado.
Parecia tão compacto que Iseult não tinha certeza se poderia até mesmo
enfrentá-lo.

As duas vezes que ela voltou, por apenas uma noite a cada visita, o porão
parecia aterrorizante e fechado, comparado ao sótão ao ar livre de Mathew. E,
depois de ter tido uma cama sozinha, a única palete que Iseult sempre dividiu
com a mãe parecia apertada. Inevitável.

— Venha. — Gretchya agarrou o pulso de Iseult e a puxou para as quatro


banquetas baixas ao redor do fogão, que eram costumeiras na casa de um
Threadwitch. Iseult teve que anular a necessidade de se libertar dos dedos da
mãe. O toque de Gretchya era ainda mais frio do que ela lembrava.

E, claro, a mãe não notou o embrulho ensanguentado na palma da mão da


filha, ou talvez ela tenha, mas não se importou. Iseult não podia avaliar as
emoções de sua mãe porque os Threadwitches não podiam ver seus próprios
Threads nem os de outros Threadwitches. E Gretchya era muito mais hábil em
mascarar seus sentimentos do que Iseult jamais fora.

Na luz da lanterna, porém, podia ao menos ver que o rosto de sua mãe
havia mudado muito pouco em três anos. Talvez um pouco mais magro e talvez
mais algumas linhas ao redor de sua boca frequentemente carrancuda, mas isso
era tudo o que estava diferente.

Gretchya finalmente soltou o pulso de Iseult, pegou um banco próximo e


colocou-o diante da lareira. — Sente-se enquanto eu vou colher borgsha. A
carne é de cabra hoje, espero que ainda seja do seu agrado. Scruffs! Venha!
Scruffs!

A respiração de Iseult engatou. Scruffs. Seu cachorro velho.

Um baque surdo bateu nas escadas para dentro da casa, e então lá estava
ele velho, flácido e com um galope na lista.

Iseult deslizou do banco. Seus joelhos bateram no tapete, calor feliz rindo
através dela. Ela abriu os braços, e o velho cão vermelho galopou em direção a
ela... até que estava lá, abanando o rabo e enfiando o focinho grisalho no cabelo
de Iseult.

Scruffs, pensou Iseult, com medo de falar o nome dele. Com medo que a
gagueira estivesse lá com essa onda inesperada de emoções. Emoções
contraditórias que ela não queria atravessar ou interpretar. Se Safi estivesse
aqui, ela saberia o que Iseult sentia.

Iseult arranhou as longas orelhas de Scruffs. As pontas estavam cobertas


de manchas do que parecia ser salsa. — Você está comendo borgsha? — Iseult
recuou para o banco, ainda esfregando o rosto de Scruffs e tentando ignorar o
quanto seus olhos estavam embaçados. Quanta cinza havia tomado seu focinho.

Uma voz melódica explodiu. — Oh. Você está em casa!

Os dedos de Iseult congelaram no pescoço de Scruffs. Sua visão pulsou para


dentro, manchando o quarto e o rosto do cachorro. Talvez, se fingisse não notar
Alma, a outra garota simplesmente desaparecesse no Vazio.

Nenhuma sorte. Alma pulou da porta para Iseult. Como Gretchya, ela usava
o tradicional vestido preto Threadwitch que se encaixava bem no peito, mas
estava solto sobre os braços, cintura e as pernas. — Mãe da Lua me salve, Iseult!
— Alma ficou boquiaberta, os olhos verdes de cílios longos fechados com
surpresa. — Você se parece com Gretchya agora!

Iseult não respondeu. Sua garganta estava dura com... com alguma coisa.
Raiva, ela supôs. Ela não queria se parecer com Gretchya, uma verdadeira
Threadwitch como Iseult nunca poderia ser. Além disso, Iseult odiava que
Scruffs abanasse o rabo e batesse a cabeça no joelho de Alma. Virou-se para
Alma e para longe de Iseult.

— Você é uma mulher agora. — Acrescentou Alma, caindo em um


banquinho.

Iseult deu um breve aceno de cabeça, examinando rapidamente a outra


Threadwitch. Alma também era mulher agora. Uma linda mulher, não era
surpresa. Seus cabelos negros como carvão eram grossos, brilhantes ...
perfeitos. Sua cintura era pequena, seus quadris curvos, e sua forma tudo o que
era feminino e ... perfeito.

Alma era, como sempre fora, a perfeita Threadwitch. A mulher perfeita de


Nomatsi. Exceto que quando o olhar de Iseult pousou nas mãos de Alma, ela viu
grossos calos.

Iseult levantou a palma de Alma. — Você treinou com uma espada.

Alma lançou um olhar furtivo para Gretchya, que assentiu devagar. — Um


cutelo. — Admitiu Alma. — Eu tenho praticado com um nos últimos anos.
Iseult soltou o pulso de Alma. Claro que Alma aprendera a lutar. Claro que
ela seria perfeita nisso também. Nunca poderia haver algo que Iseult tivesse
feito melhor, era como se a Mãe da Lua se certificasse de que qualquer
habilidade que Iseult tentasse aperfeiçoar, Alma também a adquirisse... e a
aperfeiçoasse.

Quando ficou claro que Iseult nunca seria capaz de fazer Threadstones ou
manter suas emoções distantes o suficiente, Alma deixou de ser um
Threadwitch extra em uma tribo Nomatsi passando por ser a aprendiz
Threadwitch do assentamento Midenzi. Quando Gretchya ficou velha demais
para guiar a tribo, Alma assumiu o controle.

Em caravanas Nomatsi, era tarefa da Threadwitch unir famílias de


Threads, arranjar casamentos e amizades, e desarmar os teares das vidas das
pessoas. Um dia, assim como Gretchya fazia agora, Alma usaria sua magia para
liderar os Midenzi.

— Sua mão. — Disse Alma. — Você está ferida!

— Está tudo bem. — Iseult mentiu, escondendo a palma da mão na saia. —


Parou de sangrar.

— Limpe de qualquer maneira. — Gretchya disse, tom ilegível.

O nariz de Iseult se contraiu. Aqui estavam duas mulheres cujos Threads


ela não podia ver. Ainda assim, antes que Iseult pudesse pedir um momento a
sós para analisar tudo, voltar para casa, o Bloodwitch procurando-a, a perfeição
de Alma, um homem enfiou a cabeça de cabelos negros pela porta. — Bem vinda
ao lar, Iseult.
Aranhas desceram a espinha de Iseult. Os dedos de Alma apertaram o
pescoço de Scruffs e Gretchya empalideceu.

— Corlant. — Ela começou, mas o homem a cortou, deslizando o resto de


seu longo corpo para dentro.

Corlant det Midenzi não mudou quase nada desde que Iseult o vira pela
última vez. Seu cabelo era talvez mais fino e cinza varria os lados, mas os vincos
acima de suas sobrancelhas eram tão profundos quanto Iseult se lembrava,
trincheiras paralelas de uma tendência a parecer sempre levemente chocadas.

Ele parecia levemente chocado agora, sobrancelhas altas e olhos brilhando


enquanto examinavam o rosto de Iseult. Ele se aproximou dela e Gretchya não
fez nenhum movimento para detê-lo. Em vez disso, Alma se levantou de um
pulo e sussurrou para Iseult: — Levante-se.

Iseult estava de pé, embora não visse por que precisava. Gretchya era a
líder da tribo, não esse purista de língua de xarope que semeou a discórdia
durante toda a infância de Iseult. Corlant deveria ser o único sentado.

Ele parou diante dela, seus Threads cintilando com uma curiosidade verde
e suspeita.

— Você se lembra de mim?

— É claro. — Disse Iseult, cruzando as mãos nas saias e inclinando a cabeça


para trás para encontrar o olhar dele. Ao contrário do resto da tribo, ele era tão
alto quanto se lembrava, e ainda usava o mesmo manto marrom escuro e a
mesma corrente de ouro manchada em volta do pescoço.
Em uma ridícula tentativa de parecer um padre purista. A essa altura,
Iseult já havia visto sacerdotes reais suficientes treinados em compostos
puristas reais para saber o quanto Corlant errou o alvo.

No entanto, isso não pareceu mudar o fato de que Alma e Gretchya estavam
demonstrando deferência a Corlant e compartilhavam olhares de pânico pelas
costas enquanto ele examinava Iseult.

Ele se pavoneava ao redor dela, o olhar vagando. Enviava os pelos dos


braços para cima. — Você tem a mácula do exterior em você, Iseult. Por que está
de volta?

— Ela planeja ficar desta vez. — Gretchya respondeu. — Ela vai retomar
sua posição como minha aprendiz.

— Então você estava esperando por ela? — Os Threads de Corlant se


tornaram sombriamente hostis. — Você não fez menção a isso para mim,
Gretchya.

— Não era certo. — Disse Alma, sorrindo gloriosamente. — Você sabe


como Gretchya odeia prender o tecido do assentamento, se ela não precisar.

Corlant ofereceu um grunhido, concentrando sua atenção em Alma. Seus


Threads se contorciam com mais suspeita e, por baixo disso, um lilás luxurioso.
Então seu olhar cortou Gretchya e a luxúria se alargou.

O estômago de Iseult se contraiu. Esta não era a dinâmica que ela deixou
para trás. Corlant tinha sido um incômodo quando ela era criança, sempre
jorrando os perigos e os pecados das bruxarias. Sempre alegando que a
verdadeira devoção à Mãe da Lua estava na negação de sua magia. A
erradicação disso.

Mas Iseult ignorou-o junto com o resto da tribo. Sim, Corlant estava em sua
casa e implorava a atenção de Gretchya. Ele até pediu que ela se tornasse sua
esposa, não que Gretchya pudesse se casar. Apenas Heart-Threads poderiam se
casar em uma tribo Nomatsi, e Threadwitches não tinham Heart-Threads.

A princípio, Gretchya ignorou os avanços de Corlant. Até usou a razão,


apontando para as leis tribais Nomatsi e as regras da Mãe da Lua também. No
entanto, quando Iseult fugiu da tribo, Gretchya recorreu a trancar as portas à
noite com cadeados de ferro e pagou dois homens locais em prata para manter
afastada a serpentina de Corlant.

Quando Iseult tinha visitado da última vez, porém, Corlant tinha ido
embora, e Iseult presumira que o homem saíra para sempre. Claramente,
porém, esse não era o caso, e claramente as coisas mudaram. De alguma forma,
Corlant tinha conseguido a vantagem aqui.

— Eu já alertei a tribo para a chegada de Iseult. — Disse Corlant, com a


coluna se estendendo ao máximo. Sua cabeça quase alcançou o teto. — A
saudação deve começar em breve.

— Que gentil da sua parte. — Disse Gretchya, mas Iseult não perdeu a
contração muscular no queixo de sua mãe.

Gretchya estava com medo. Realmente assustada.

— Eu estava tão distraída com o retorno de Iseult — Continuou Gretchya


— que esqueci completamente da saudação. Nós teremos que vesti-la...

— Não. — A voz de Corlant soou dura. Ele voltou para Iseult, olhos cruéis
e Threads hostis mais uma vez. — Deixe a tribo vê-la exatamente como ela está,
contaminada pelo lado de fora. — Ele arrancou a capa de aprendiz dela, e Iseult
forçou a cabeça a se curvar.

Ela poderia não ser capaz de ler sua mãe ou Alma, mas poderia ler Corlant.
Ele queria controle; e queria a submissão de Iseult, então quando seus joelhos
rangeram em uma reverência sem prática, Iseult retumbou um gemido. Puxou-
a de seu estômago e apertou as mãos ao seu intestino.

Parecia horrivelmente exagerado, e por um breve piscar de olhos, Iseult


desejou desesperadamente novamente que Safi estivesse com ela. Ela poderia
desbravar isso sem problema.

Mas se Alma ouvia a falsidade do gemido de Iseult, não fez sinal disso. Ela
simplesmente cambaleou em direção a Iseult. — Você está doente?

— É o meu ciclo lunar. — Gritou Iseult, encontrando os olhos de Corlant,


satisfeita em ver seus Threads já empalidecendo com repulsa. — Eu preciso de
novos invólucros de sangue.

— Oh coitadinha! — Alma chorou. — Eu tenho uma tintura de folhas de


framboesa para isso.

— Precisamos queimar seus invólucros atuais e conseguir roupas


intocadas. — Gretchya inseriu, girando na direção de Corlant, que, para
surpresa e satisfação de Iseult, estava recuando. — Se você pudesse, por favor,
fechar a porta ao sair, Sacerdote Corlant, começaremos a Saudação muito em
breve. Obrigada novamente por informar a tribo do retorno de Iseult.

As sobrancelhas de Corlant saltaram para o alto, mas ele não ofereceu


nenhum argumento, nem pronunciou outra palavra enquanto escorregou para
fora e fechou a porta. Uma porta sem cadeados, mas com madeira desbotada e
lascada onde o ferro outrora estivera.

— Bem pensado. — Alma assobiou para Iseult, sem nenhum brilho feliz
restante. — Você não está realmente no seu ciclo, está?

Iseult sacudiu a cabeça, mas Gretchya agarrou seu bíceps com força. —
Temos que trabalhar rapidamente. — Ela sussurrou. — Alma, tire um dos seus
trajes e encontre a pomada da curandeira Earthwitch15 para a mão dela. Iseult,
tire seu lenço. Temos que lidar com o seu cabelo.

— O que está acontecendo? — Iseult teve o cuidado de manter a voz plana


apesar do baque crescente sob suas costelas. — Por que Corlant está no
comando? E por que você o chamou de sacerdote?

— Shhhh. — Disse Alma. — Você não deve deixar ninguém ouvir. — Então
correu para a escotilha do porão e desceu abaixo das tábuas do assoalho.

Gretchya puxou Iseult para a mesa de trabalho. — Tudo mudou. Corlant

15
A Magia da Terra é o elemento físico associado a todas as coisas ligadas à Terra - de pedras e metais a plantas e
animais. Earthwitchery é o elemento mais comum porque pode assumir muitas formas.
dirige esta tribo agora. Ele usa sua magia para ...

— Magia? — Iseult interrompeu. — Ele é um purista.

— Não totalmente. — Sua mãe virou-se para a mesa, varrendo pedras e


carretéis de linha multicolorida de lado, procurando apenas os deuses sabia o
quê. — As regras se tornaram muito mais rígidas desde que você saiu. —
Prosseguiu Gretchya. — Desde que os rumores do manipulador de marionetes
começaram e a clivagem se tornou mais frequente, Corlant conseguiu se
aprofundar cada vez mais na tribo. Ele se alimenta do medo deles e os inflama.

Iseult piscou perplexa. — O que é um Manipulador de Marionetes?

Sua mãe não respondeu, seus olhos finalmente iluminando o que ela
precisava: tesouras. Ela as pegou. — Nós devemos cortar seu cabelo. É só que...
você parece muito com alguém de fora, e, Corlant usará essa vantagem,
alegando parecer muito com o Marionetista. Graças à Mãe da Lua, você foi
inteligente o bastante para esconder sua cabeça, podemos fingir que estava
curto o tempo todo. — Gretchya fez sinal para que Iseult se sentasse. — Temos
que convencer a tribo de que você é inofensiva. Que você não é estranha. —
Gretchya sustentou o olhar de Iseult; um silêncio cresceu.

Então Iseult assentiu, dizendo a si mesma que não se importava. Era


apenas cabelo e sempre poderia crescer de novo. Não significava nada. Sua vida
na cidade de Veñaza havia desaparecido; ela teve que deixar esse passado.

Então se sentou, as tiras rasparam no primeiro pedaço de cabelo, e foi feito.


Não havia como voltar atrás.
— Por tudo que Corlant finge ser purista — Começou Gretchya,
escorregando para a mesma voz inflexível que Iseult ouvira. — ele também é
um Voidwitch. Um bruxo da maldição. Eu descobri logo após sua última visita.
Percebi que quando ele estava perto de mim, os Threads do mundo estavam
apagados. Talvez você tenha notado também?

Iseult acenou com a cabeça em reconhecimento e o gelo escorria pelo


pescoço dela. Todos os Threads entorpecidos da tribo alimentavam Corlant. Ela
nem sabia que tal coisa era possível.

— Uma vez eu percebi o que ele era — Gretchya continuou. — e uma vez
vi como seu poder drenava o meu, e pensei que pudesse usá-lo como alavanca
contra ele. Ameacei dizer à tribo o que ele er... Mas, por sua vez, ele ameaçou
levar minha magia completamente. Eu acabei colocando o laço no meu pescoço,
Iseult, pois depois dessa conversa, Corlant ameaçar apagar a minha magia,
sempre que queria algo de mim.

Gretchya falou desse assunto com naturalidade, como se algo que Corlant
quisesse fossem tão simples quanto uma tigela de borgsha ou emprestar Scruffs
para o dia. Mas Iseult sabia melhor. Lembrou-se da maneira como Corlant se
demorara nas sombras perto do galinheiro e observava Gretchya pela janela.
Como seus Threads roxos e pulsantes fizeram com que Iseult aprendesse muito
jovem o que significava “luxúria”.

A Deusa salvou-a, o que teria acontecido a Iseult se ela não tivesse saído a
tempo? Quão perto ela estava de usar o mesmo laço que sua mãe?

Apesar dos seis anos e meio de aversão que Iseult havia tão
cuidadosamente e intencionalmente aperfeiçoado, ela sentiu como se uma faca
estivesse cavando em seu esterno. Culpa, seu cérebro declarou. E pena de sua
mãe.

Pensar que Corlant era um Cursewitch16, capaz de matar a magia de uma


pessoa com a mesma facilidade com que Iseult via os Threads desta. Era outra
magia ligada ao Vazio — e outro mito provado ser real demais.

Iseult soltou um suspiro, cuidando em manter a cabeça imóvel enquanto


Gretchya cortava. — O que ... — Ela começou, chocada com o tremor em sua voz.
E praticamente podia sentir a carranca que sua mãe virava nela, praticamente
podia ouvir a inevitável repreensão: controle sua língua. Controle sua mente.
Um Threadwitch nunca gagueja. — O que — Iseult retorceu finalmente. — é
este Marionetista?

— Ela é uma jovem Threadwitch. — A tesoura moeu contra o cabelo de


Iseult, mais forte, mais rápido. Cabelo espalhado pelo chão como areia. — Cada
caravana Nomatsi que passava teve uma história um pouco diferente, mas a
história geral permanece inalterada. Ela não pode fazer Threadstones, não pode
controlar suas emoções, e ... e abandonou sua tribo.

Iseult engoliu em seco. Esta Marionetista soava muito com alguém.

— Eles dizem que, ao contrário da nossa conexão Etérea com os Threads


— Continuou Gretchya. — o poder dessa garota vem do Vazio. Eles dizem que
ela pode controlar o Clivado. Que mantém vastos exércitos sob seu comando, e

16
A mais rara das magias do vazio, as Maldições estão mergulhadas em mistérios e lendas assustadoras. Supostamente eles
podem roubar a magia de uma pessoa ou apagá-la completamente.
na versão mais sombria do conto, ela até traz os mortos de volta à vida.

O frio se apegou aos ombros de Iseult. — Como?

— Os Threads cortados. — Gretchya respondeu suavemente. — Ela afirma


que pode controlar os Threads do Clivado. Dá-lhes a vontade, mesmo quando
estão mortos.

— Os três Threads negros do Clivado... — Iseult sussurrou, e o estalo das


tesouras parou abruptamente. No mesmo momento, Alma saiu correndo do
porão, com um vestido preto numa das mãos e um envoltório de sangue branco
na outra. Ela correu para o fogão e abriu a porta de ferro.

Gretchya virou-se para encarar Iseult. — Você sabe sobre os Threads


Cortados do Clivado?

— Eu os vi.

Os olhos de Gretchya se arregalaram, o rosto dela sem sangue.

— Você não deve dizer a ninguém disso, Iseult. Ninguém. Alma e eu


achamos que eram mentiras. Um caminho para esse Marionetista, e Corlant
também, para assustar as pessoas.

A boca de Iseult ficou seca. — Você não pode ver esses Threads?

— Não. E nós vimos Clivados antes.

— E-eu não posso f-fazer Threadstones. — Iseult cuspiu. — Então por que
eu deveria ser a única que vê esses Threads Cortados?
Gretchya ficou em silêncio, mas depois puxou o cabelo de Iseult e o recorte
das tesouras foi retomado. Momentos depois, a fumaça começou a se soltar do
fogão. Alma voltou à mesa de trabalho e ofereceu a Iseult o tradicional vestido
preto de um Threadwitch. O preto era a cor de todos os Threads combinados, e
ao longo do colarinho, das algemas estreitas de pulso e da bainha da saia, havia
três linhas de cor: uma linha magenta reta para os Threads que se prendiam.
Uma linha sálvia para os Threads que construíam. Uma linha cinza tracejada
para os Threads que se quebravam.

— Quanto tempo você pretende ficar? — A pergunta de Alma foi um


sussurro áspero, não mais alto que o fogo.

— Uma única noite. — Disse Iseult, forçando sua mente a evitar considerar
o Bloodwitch. Ela tinha o suficiente para se preocupar na tribo.

Distraidamente, pegou uma tira de pedra vermelha sem cortes da mesa de


trabalho. Um rubi, pensou Iseult, e ao redor havia uma mecha rosa do pôr-do-
sol habilmente envolta em laços e nós.

Várias pedras de distância estava sua gêmea. E Iseult não sentia falta das
safiras ao longo da parte de trás da mesa ou do punhado de opalas.

Apenas na casa de um Threadwitch alguém poderia encontrar joias


valiosas deixadas desprotegidas. Mas uma Threadwitch conhecia suas próprias
pedras, ela podia segui-las, e nenhum Nomatsi jamais seria estúpido o
suficiente para se arriscar a roubar uma Threadwitch.

— Você gosta da Pedra da Linha? — Perguntou Alma. Encostando-se à


mesa, embora continuasse esfregando as palmas das mãos contra as coxas,
como se suassem.

No entanto, Gretchya não disse uma vez a Alma para ela manter as mãos
quietas. Um Threadwitch nunca se agitava.

— Alma conseguiu. — Disse Gretchya.

Claro que você sim. Iseult nunca conseguira fazer uma Threadstone
funcionar, e aqui estava Alma, com uma peça para ofuscar qualquer outra.

— Eu fiz. — Disse Alma, embora as palavras quase saíram como uma


pergunta: eu fiz?

O olhar de Iseult se voltou para ela. — Por que você faria uma Threadstone
para mim? — Ela sentiu sua testa se amontoar, sentiu seus lábios se curvarem
para trás. Era um rosto tão enojado, uma expressão tão descontrolada e inútil,
que instantaneamente desejou não ter conseguido.

Alma se encolheu, mas rapidamente estudou o rosto em branco e pegou o


segundo rubi envolto em um fio rosa. — É um ... — Ela parou, olhando para
Gretchya como se não tivesse certeza do que dizer.

— É um presente. — Gretchya respondeu. — Não seja tímida, Iseult apenas


franziu a testa para você, porque está confusa e não consegue controlar suas
expressões.

O calor lambeu o rosto de Iseult. Calor furioso, ou talvez envergonhado. —


Mas como você conseguiu isso? Eu sou um Threadwitch, você não pode ver
meus Threads, então você não pode anexá-los a uma pedra.
— Sua ... sua mãe... — Alma começou.

— Mostrei-lhe como. — Gretchya terminou. Deixou cair a tesoura na mesa


de trabalho e marchou em direção ao fogão. — Os panos terminarão de queimar
em breve e Corlant estará de volta. Depressa.

Iseult apertou os lábios finos. A resposta de sua mãe não foi uma resposta.

— Você deveria ser grata. — Gretchya continuou enquanto cutucava as


chamas do fogão. — Esses rubis em sua mão brilharão quando Safiya estiver
em perigo, e quando você estiver também. Até permitirá que você rastreie a
outra. Tal presente não deve ser tomado de ânimo leve.

Ela não estava aceitando o presente com leveza, e nem sentiria gratidão
por Alma. Nunca. Alma havia feito isso por culpa. Ela era, afinal de contas, a
razão pela qual Iseult tinha perdido o lugar como aprendiz de Threadwitch, e
também fora rejeitada como herdeira de Gretchya.

— Vista-se. — Gretchya ordenou a Iseult. — E rapidamente, enquanto


Alma varre esse cabelo cortado. Devemos dizer a Corlant e à tribo que você
mudou de ideia e deseja retornar à tribo como um Threadwitch.

Iseult abriu a boca, para salientar que sua mãe não podia ter dois
aprendizes e que a tribo estava bem ciente das falhas mágicas de Iseult, mas
deixou os lábios se fecharem. Alma estava pegando a vassoura e seguindo
ordens exatamente como um Threadwitch deveria. Porque eles não discutiam;
apenas seguiam o curso legal da lógica, onde levasse.

A lógica tinha levado Iseult aqui, então ela ignoraria sua mágoa e medo, e
seguiria a lógica como havia sido treinada. Como ela conseguiu durante todo o
seu tempo na cidade de Veñaza, com Safi ao seu lado.
9
Nunca — nem em dez milhões de vidas — Safi esperaria que ela caísse em
seu papel de domna tão facilmente. Não com tantas pessoas ao seu redor, seu
calor corporal enchendo o salão de baile e suas constantes mentiras raspando
sua pele. Mas as crianças de seu passado tinham chegado à idade adulta,
enquanto seus pais haviam se transformado em velhos.

E com todo o vinho espumante e o brilho dos candelabros, com a parede


de vidro brilhante que dava para a costa pantanosa de Jadansi, era difícil para
Safi não se divertir.

Na verdade, ela não achava diferente de puxar um golpe com Iseult. Ela
estava tocando a mão direita enquanto seu tio cortava uma bolsa desconhecida.
Se isso era tudo o que o tio Eron queria dela, então Safi poderia, quase feliz,
obedecer. Especialmente com o príncipe Leopold fon Cartorra ao seu lado.

Ele havia se tornado um bom espécime de homem, embora ainda fosse


bonito demais para ser levado a sério. Na verdade, ele era, sem dúvida, a pessoa
mais bonita, masculina ou feminina, na sala. Seus cachos eram um morango
brilhante, sua pele tinha um brilho dourado de bochechas vermelhas, e aqueles
longos cílios loiros que Safi lembrava tão vividamente ainda estavam sobre seus
olhos verde-mar.

No entanto, apesar de todas as suas mudanças externas, ele era o mesmo


garoto brincalhão de língua afiada de quem ela se lembrava.

Ele inclinou para trás um gole de vinho. Isso deixou seus cachos caírem, e
várias domnas próximas suspiraram.

— Você sabe. — Ele demorou. — O veludo azul do meu terno não tem a
profundidade que eu esperava. Pedi especificamente a safira imperial. — Sua
voz era um barítono rico, e a maneira como ele equilibrava suas palavras com
pausas era quase musical. — Mas eu chamaria isso de um azul marinho
maçante, não é?

Safi bufou. — Fico feliz em ver que você não mudou, Polly. Por toda sua
inteligência, você permanece tão apaixonado por sua aparência como sempre.

Ele corou com o nome Polly, como em todas as outras vezes que ela disse
isso esta noite, o que só a fez querer dizer mais.

— Claro que eu não mudei. — Leopold encolheu os ombros graciosamente.


— Meu rosto perfeito é tudo o que tenho, e estudar muito só vai te levar até
agora em Cartorra. — Ele virou a mão sem a Witchmark para ela. — Mas você,
Safiya — pausa — mudou bastante, não foi? Essa foi uma entrada dramática
que fez.

Ela olhou para longe, suas próprias bochechas se aquecendo, mas não com
vergonha. Com fúria.

Ela chegou ao baile uma hora atrasada. O crepúsculo já se transformara em


luar porque tio Eron insistira em terminar um jarro inteiro de vinho antes da
partida. Ao chegar ao palácio do Doge, Safi entendeu o porquê: os antigos
irmãos Hell-Bard de Eron estavam de serviço.

Quatro dos cavaleiros blindados estavam de sentinela no jardim do Doge,


onde ramos de cipreste sussurravam na brisa e nas rãs das árvores
harmonizadas. Mais dois Hell-Bards vigiavam a entrada do palácio, e os seis
últimos aguardavam friamente atrás do Imperador Henrick.

Toda vez que Safi avistava outro dos enormes cavaleiros empunhando
machados, seu estômago caía para os dedos dos pés. Seus punhos cerraram
apertados. No entanto, em todas as vezes, ela manteve o queixo alto e os ombros
para trás.

Não que algum dos Hell-Bards notasse Safi ou seu tio. Na verdade, apenas
um deles mostrou qualquer reação enquanto passavam — e, até onde Safi sabia,
por baixo do elmo de aço que todos os Hell-Bards usavam, ele era jovem. Muito
jovem para ter servido com o tio Eron.

Na verdade, agora que Safi o considerava, talvez a piscadela ousada do


Hell-Bard nos jardins não tivesse sido dirigida ao tio Eron, mas a ela.

Ela parecia linda hoje à noite.

Quando Safi e o tio Eron chegaram ao saguão de entrada, os outros doms e


domnas haviam se mudado para o salão de baile. O imperador, porém, insistira
para que ele e o príncipe Leopold esperassem até a chegada da domna final.

Quando Polly viu Safi caminhando em sua direção, ele correu na frente do
trono de seu tio, como se a protegesse dos olhares dos Hell-Bards como sempre
fizera na infância, e fez uma reverência encantadora. Ele até cortou quando
Henrick segurou a mão de Safi um pouco demais depois que ela se ajoelhou em
lealdade (deuses abaixo, ela tinha esquecido o quão parecido com sapo o
imperador cartorrano parecia, e o quão suado seu aperto era).

E Leopold chegou ao ponto de escoltar Safi pessoalmente para o baile, e,


ah, se isso não tivesse pego as línguas fofoqueiras em uma ratoeira. Ela quase
riu da primeira domna de queixo caído. Era como se todos tivessem esquecido
como ela e Leopold haviam conspirado quando crianças.

Depois que o príncipe dirigiu Safi a um criado com vinhos espumantes, ele
colocou uma flauta na sua mão e pegou uma para si mesmo antes de guiá-la até
a comida.

A comida!

Mesa após mesa foi colocada ao lado da janela e carregada com mil iguarias
dos três impérios. Safi estava determinada a tentar todos os itens antes que a
festa terminasse.

— Um vulcão de chocolate. — Disse Leopold, apontando para uma bacia


de prata em que parecia haver bolhas de chocolate. — A única desvantagem de
proibir os Bruxos de Fogo em Cartorra é que — pausa — nós perdemos truques
como este. — Ele apontou para um criado em cetim bege. O homem
rapidamente despejou o chocolate sobre uma tigela cheia de morangos frescos.

Os olhos de Safi se arregalaram, mas quando ela agarrou a tigela, Leopold


habilmente a arrebatou, sorrindo. — Permita-me servir você, Safiya. Nós
passamos muitos anos separados.
— E eu passei muitas horas entre as refeições. — Um clarão. — Dê-me
agora, Polly, ou eu castrarei você com um garfo.

Agora seus olhos estavam arregalados. — Pelos Doze, você ouviu as coisas
que disse? — Mas largou a tigela de morangos e, depois de morder o primeiro,
Safi gemeu de prazer.

— Estão divinos. — Ela jorrou debaixo de um bocado de chocolate. — Eles


me lembram daqueles de... — Ela parou, seu peito de repente muito grande.

Ela estava prestes a dizer que os morangos a lembravam dos de casa. Casa!
Como se as montanhas e vales ao redor da propriedade Hasstrel parecessem
com casa, ou os morangos sempre divinos.

Leopold não pareceu notar o súbito silêncio de Safi. Seus olhos


percorreram os diplomatas coloridos. As domnas em suas saias pretas justas e
corpetes de gola alta de mil tons ricos e terrosos. As cúpulas em seus coletes
pretos e bermudas de veludo que só serviam para fazer suas pernas parecerem
nítidas e ridículas.

Na verdade, Leopold parecia ser o único homem capaz de fazer com que os
shorts e calças parecessem atraentes, e ele não sabia disso, a julgar pela
maneira como se exibia. As meias revelavam pernas fortes,
surpreendentemente bem musculosas, e o veludo azul trazia manchas do
mesmo tom em seus olhos.

Safi ficou satisfeita ao notar que seu próprio vestido estava ganhando
olhares invejosos, e o único vestido que Safi achou melhor do que o dela foi o
de Vaness, a Imperatriz Marstoki. Tiras brancas de pano cobriam de mil
maneiras sobre a pele bronzeada da mulher, e seu cabelo escuro caía sobre a
ousada exposição de seu ombro direito. Pregos de ouro foram colados sobre
sua Witchmark, um quadrado para a Terra e uma única linha vertical para
Ferro, enquanto duas pulseiras parecidas com algemas adornavam seus pulsos
(para representar sua servidão ao seu povo). Ela não usava coroa e era, na
opinião de Safi, a absoluta simplicidade e elegância.

Embora Safi só tivesse visto Vaness à distância, ela imediatamente


apreciou o mergulho entediado no ombro da jovem. A expressão plana de uma
pessoa que tinha lugares melhores para estar e coisas mais significativas para
fazer.

Safi havia tentado copiá-la prontamente, embora também tenha se


esquecido prontamente depois de ver a primeira massa recheada com creme.

Como se lesse sua mente, Leopold perguntou: — Você viu o vestido ousado
da Imperatriz? Todo homem tem sua mandíbula no chão.

— Mas não você? — Safi perguntou, estreitando os olhos.

— Não. Eu não.

A mentira da declaração rastejou sobre sua pele, mas ela não se importou
o suficiente para pressionar. Se Leopold quisesse esconder seu interesse pelos
ombros perfeitos da Imperatriz, por que Safi deveria se importar?

— Você deseja conhecer a Imperatriz? — Ele perguntou abruptamente.

Safi ofegou. — Mesmo?


— Claro.

— Então sim, por favor. — Ela empurrou seus morangos inacabados em


um atendente de espera, enquanto Leopold entrou levemente na multidão de
pessoas. Ela o seguiu em direção a um palco baixo no canto de trás, onde uma
pequena orquestra afinava seus instrumentos.

Mas era estranho, pois quando Safi e Leopold se moviam entre a curiosa
nobreza de todas as idades e nacionalidades, havia uma única pergunta
brilhante nos lábios de todos. Safi não podia mais ouvir o que eles murmuravam
do que ela podia ler seus pensamentos, mas o que quer que eles considerassem,
a pergunta deles queimava com a luz afiada da verdade. Ficava na nuca de Safi
e em sua garganta, e isso a deixava extremamente curiosa para saber o que eles
falavam.

Leopold alcançou um enxame de mulheres vestidas com roupas coloridas,


seus vestidos também feitos do mesmo tecido de pano listrado que o da
Imperatriz, e um amontoado de homens. Homens nubrevanos, Safi pensou
quando seus olhos se fixaram em seus cabelos negros soltos e pele áspera de
sal. Seus casacos caíam até os joelhos, a maioria deles da cor do azul
tempestuoso, embora um homem usasse cinza prateado e cortasse seu
caminho.

— Desculpe-me. — Ela murmurou, tentando contorná-lo.

Mas o homem parou, bloqueando Safi completamente, antes de olhar para


trás.

Safi sufocou. Era o Nubrevnan do píer, limpo e praticamente brilhando sob


a luz das velas.

— Por que você? — Ela disse em Nubrevnan, sua voz excessivamente doce.
— O que você está fazendo aqui?

— Eu poderia te perguntar o mesmo. — Ele não parecia impressionado


quando mudou seu corpo em direção a ela.

— Eu sou uma Domna de Cartorra.

— De alguma forma isso não me surpreende.

— Eu vejo — Ela disse. — que você aprendeu a abotoar um botão.


Parabéns por essa façanha, sem dúvida, que altera a vida.

Ele riu, um som de surpresa, e baixou a cabeça. — E vejo que você limpou
a porcaria do seu ombro.

Suas narinas se alargaram. — Desculpe-me, mas o príncipe Leopold de


Cartorra está me esperando, e certamente seu príncipe também precisa de
você. — Ela falou levemente, pouco consciente do que dizia.

No entanto, o resultado foi extremo, pois o jovem sorriu. Um sorriso lindo


e verdadeiro que fez tudo na sala desaparecer. Tudo o que Safi viu por um único
e gago batimento cardíaco foi como seus olhos escuros quase se enrugaram e
sua testa se suavizou. Como o queixo dele inclinou ligeiramente para revelar os
músculos do pescoço.

— Eu não tenho absolutamente nenhum lugar para ficar. — Ele disse


suavemente. — Em nenhum lugar, a não ser aqui. — Então, como se ela não
estivesse atordoada o suficiente, o homem lançou-lhe um meio-sorriso e disse:
— Você me honra com uma dança?

E assim, todos os escudos de Safi desmoronaram. Ela esqueceu como ser


um domna. Ela perdeu o controle de seu cavalheiro legal. Até mesmo a língua
nubrevana parecia impossível de usar.

Pois este homem parecia estar zombando dela, assim como os doms e
domnas de sua infância, assim como o tio Eron. Ele pretendia constrangê-la. —
Não há música. — Ela correu para dizer, passando pelo homem.

Mas ele pegou o braço dela com a facilidade de um lutador. — Haverá


música. — Ele prometeu antes de chamar. — Kullen?

O enorme homem do cais se materializou ao lado deles.

— Você vai mandar a orquestra tocar quatro passos? — O olhar do


Nubrevnan nunca deixou o rosto de Safi, mas seu sorriso se transformou em
travessura. — Se você não conhece o Nubrevnan de quatro passos, Domna,
então posso escolher outra coisa, é claro.

Safi manteve um silêncio estratégico. Ela dançava os quatro passos, e se


este homem pensou em envergonhá-la na pista de dança, estava prestes a ficar
muito surpreso.

— Eu conheço a dança. — Ela murmurou. — Lidere o caminho.

— Na verdade. — Ele respondeu, a voz ondulando com satisfação. — Eu


não me movo, Domna. As pessoas se movem para mim. Ele floresceu uma única
mão, e de repente todos os nubrevanos se afastaram.
Então Safi pegou as palavras dos espectadores próximos: — Você vê com
quem o príncipe Merik dança?

— O Príncipe Merik Nihar está dançando com aquela garota fon Hasstrel.

— Aquele é o príncipe Merik?

Príncipe Merik. O nome girou e lambeu o chão e penetrou nos ouvidos de


Safi, brilhando com a pureza que só uma afirmação verdadeira poderia fazer.

Bem, portas do inferno, não admira que o homem parecesse tão


convencido. Ele era o príncipe de Nubrevna.

***

A dança começou, e não demorou muito para Merik perceber que ele
cometeu um erro.

Onde ele esperava ensinar à garota algumas maneiras, ela deveria ser uma
domna, afinal, não uma menina de rua, e talvez aliviar um pouco da raiva
presente em seu peito, Merik estava apenas servindo para se humilhar...

Porque esta domna de boca suja era uma dançarina muito melhor do que
ele jamais poderia ter antecipado. Ela não apenas conhecia os quatro passos,
uma dança nubrevana popular entre os amantes ou realizada como uma proeza
atlética, mas também era boa nisso.
Cada selo triplo do calcanhar e dedo do pé de Merik, ela repetiu bem na
batida. Cada giro duplo e giro de seu pulso, ela conseguiu jogar de volta também.

E este foi apenas o primeiro trio Nubrevnan em quatro etapas. Uma vez
que eles realmente se moviam corpo-a-corpo, ele não tinha dúvida de que
estaria suando e ofegando por ar.

Claro, se Merik tivesse parado para considerar a oferta de uma dança antes
de fazer isso, teria visto a humilhação chegando. Assistiu a menina lutar, afinal,
e ele ficou impressionado com o uso de velocidade e astúcia, melhor que um
homem maior e mais forte que ela.

A música parou seu simples arrancar de quatro batidas e mudou para o


som de deslizamento dos arcos dos violinos. Com uma oração silenciosa para
Noden em seu trono de coral, Merik avançou. A Marcha do Mar Dominante foi
chamada. Então ele parou com uma mão para cima, com a palma para fora.

A jovem domna avançou. Ela piscou para Merik dois passos e acrescentou
um giro quase sem esforço antes de encontrá-lo com a palma da mão direita. A
Valsa do Rio Fickle, de fato.

Suas outras mãos se levantaram, palma com palma, e o único consolo de


Merik quando ele e a domna deslizaram para o próximo movimento da dança
foi que seu peito arfava tanto quanto o dele.

A mão direita de Merik agarrou a da menina, e sem nenhuma ferocidade,


ele a girou para encarar a mesma direção que fitava, antes de puxá-la contra seu
peito. Sua mão deslizou sobre seu estômago, os dedos abertos. Sua mão
esquerda se levantou, e ele pegou.
Então a verdadeira dificuldade da dança começou. O salto dos pés em uma
maré de lúpulos alternados e direções.

A contorção dos quadris contrariava o movimento de seus pés como um


navio em mares tempestuosos.

A batida dos dedos de Merik nos braços da garota, nas costelas, na cintura,
como a chuva contra a vela de um navio.

Mais e mais, eles se mudaram para a música até que ambos estavam
suando. Até atingirem o terceiro movimento.

Merik virou a garota para encará-la mais uma vez. Seu peito bateu contra
o dele, e pelos Poços, ela era alta. Ele não tinha percebido isso até este exato
momento em que seus olhos olhavam uniformemente, a respiração dele e sua
respiração ofegante contra a sua.

Então a música inchou mais uma vez, suas pernas entrelaçaram as dele, e
Merik esqueceu tudo sobre quem ou o que ela era ou porque ele tinha começado
a dança em primeiro lugar.

Porque aqueles olhos dela eram da cor do céu depois de uma tempestade.

Sem perceber o que fez, sua magia ganhou vida. Algo neste momento
despertou as partes mais selvagens de seu poder. Cada suspiro de seus pulmões
enviou uma brisa girando para dentro. Levantou o cabelo da menina. Chutou
suas saias selvagemente.

Ela não mostrou reação alguma. Na verdade, não desviou o olhar de Merik,
e havia uma ferocidade lá, um desafio que o enviou ainda mais embaixo das
ondas da dança. Da música. Daqueles olhos.

Cada salto para trás de seu corpo, um movimento como o puxão da maré
do mar contra a violenta batida, quando Merik pegou suas costas contra ele.
Para cada pulo e pancada, a garota acrescentou uma batida mais próspera com
os calcanhares. Outro desafio que Merik nunca tinha visto, ainda subiu, subiu
mais ainda. O vento batia ao redor deles como um furacão crescente, e ele e essa
garota estavam em seus olhos.

E a garota nunca desviou o olhar. Nunca recuou.

Nem mesmo quando as medidas finais da música começaram, aquela


mudança abrupta do ciclone deslizante de cordas simples para baixo que segue
toda tempestade, Merik suavizou o quão duro se empurrou contra essa garota.
Figurativamente. Literalmente.

Seus corpos estavam vermelhos, seus corações batendo nas costelas um


do outro. Ele passou os dedos pelas costas dela, pelos ombros e pelas mãos dela.
As últimas gotas de chuva forte.

A música diminuiu. Ela se afastou primeiro, recuando os quatro passos


necessários. Merik não desviou o olhar do rosto dela, e ele apenas notou que,
quando ela se afastou, sua magia pareceu se acalmar. Suas saias pararam de
balançar, o cabelo dela flutuou de volta para os ombros.

Então ele deslizou quatro passos para trás e cruzou os braços sobre o peito.
A música chegou ao fim.

E Merik retornou ao seu cérebro com uma certeza nauseante de que Noden
e seus Hagfishes riam dele do fundo do mar.

10
Um por um, os colonos da tribo Midenzi vieram receber Iseult. Para
examinar a garota que deixou a comuna e agora queria voltar.

A cabeça de Iseult estava muito leve e coçava na nuca pelo corte do cabelo,
mas, como a boa Threadwitch que ela pretendia ser, não coçou. Ela também não
se mexia em seu banquinho junto à lareira ou mostrava qualquer expressão
além do sorriso exigido.

Os Threads do Nomatsi eram assustadoramente pálidos. Apenas os


Threads de Corlant, pulsando atrás de Iseult enquanto ficava ao lado do fogão
e observava a Saudação, queimando a todo vapor. Talvez muito brilhante
mesmo.

No trigésimo visitante, Iseult estava exausta de fingir que Corlant não


estava ali, observando como um raptor. O rosto de Alma permaneceu sereno
durante todo o tempo — é claro — e o sorriso que ela oferecia aos visitantes
parecia genuíno. Para não mencionar incansável.

Por volta do sexagésimo visitante, Iseult havia acariciado Scruffs tão


profundamente que, na verdade, parecia desconfortável. No octogésimo
visitante, ele se levantou e se mexeu.

Estase. Estase nas pontas dos dedos e nos dedos dos pés.

— Esse foi apenas cento e noventa e um. — Declarou Corlant, uma vez que
o visitante final tinha ido embora. — Onde está o resto da tribo, eu me
pergunto? — Nada sobre o tom de Corlant estava se perguntando, e quando se
dirigiu para a porta, seus Threads estavam rosa de excitação.
— Vou me certificar de que toda a tribo saiba da saudação. — Ele deu um
olhar penetrante a Gretchya e, numa voz feita de deslizamentos de terra,
acrescentou: — Não saia.

— Claro que não. — Disse Gretchya, baixando para um banquinho ao lado


de Iseult.

Então Corlant saiu e Gretchya voltou a ficar imediatamente de pé. Ela


empurrou Iseult enquanto Alma corria para a escotilha do porão.

— Temos que nos apressar. — Gretchya sussurrou. — Corlant claramente


sabe o que Alma e eu planejamos. Ele vai tentar nos impedir.

— Planejaram? — Perguntou Iseult, mas naquele momento houve um


golpe repentino como a tesoura no cabelo de Iseult. Em uma espiral explosiva,
tudo o que ligava as três bruxas à aldeia bateu em seus peitos.

Os Threads que amarraram tinham quebrado.

Iseult não podia ver, mas ela sentiu. Uma sacudida repentina em seu
coração que quase a derrubou.

Alma empurrou Iseult em direção à porta. — Corra. — Ela sussurrou. —


Para o portão, corra!

Algo sobre os olhos verdes e apavorados de Alma perfuraram o cérebro de


Iseult. Ela trancou a porta ... só para tropeçar, braços girando para mantê-la em
pé.

Por uma turba esperando do lado de fora com lanternas, tochas e bestas.
Os quatrocentos Nomatsis que haviam perdido a Saudação se reuniram em pés
silenciosos, seus Threads ocultos pela magia de Corlant.

E havia o próprio Corlant, deslizando pela multidão, uma cabeça mais alta
que todos os outros e Threads se contorcendo de fome roxa.

Pessoas se espalharam pelo caminho dele. Rostos raiavam nas sombras,


rostos que Iseult reconheceu, rostos odiosos de sua infância que fizeram seus
joelhos se dobrarem e o peito se abrir.

Ela lançou um olhar para trás, mas a casa estava vazia. Apenas Scruffs
permaneceu, rosnando com os cortes levantados.

Iseult esperou, ofegante, enquanto Corlant a cobria com um olhar voraz


que enviava púrpura através de seus Threads. Então, com lentidão deliberada,
ele cruzou os polegares em Iseult. Foi o sinal para afastar o mal.

— Outro. — Ele disse suavemente, quase inaudível sobre os grilos da noite


e as respirações da multidão. — Pendure o outro. — Então, novamente, mais
alto. — Outro, outro. Pendure o outro.

A tribo assumiu o canto. Outro, outro. Pendure o outro. As palavras saíram


das línguas, venenosas e construídas. As pessoas fizeram as malas. Iseult não se
mexeu. Ela tentou se aprofundar na lógica de um Threadwitch. Havia uma
solução para isso, tinha que haver. Mas ela não podia ver. Não sem Safi ao lado
dela. Não sem tempo para fazer uma pausa e planejar.

As pessoas a enxameavam. Seus Threads irromperam com a vida, como se


de repente se libertassem, em mil tons de branco aterrorizado e púrpura
sanguinário abatiam Iseult. Então mãos esmagaram contra ela. Dedos
agarraram e cutucaram. Sua cabeça estalou quando seu cabelo foi arrancado.
Lágrimas brotaram de seus olhos.

Outro, outro, pendurem o outro.

Ninguém mais falou as palavras, eles estavam muito ocupados gritando a


guerra e torcendo para que Iseult morresse. Seus Threads cantarolavam com o
mesmo ritmo enquanto eles empurravam, chutavam e tateavam. Como eles a
forçaram a embaralhar um passo agonizante após o outro em direção ao maior
carvalho no assentamento.

E abaixo desse ritmo de quatro batidas — Outro, outro, pendure o outro,


havia uma rápida vibração de três batidas. Titereiro. Titereiro. Um baixo
assustado sob um descendente já violento.

Corlant realmente convencera a tribo de que Iseult era o Marionetista, e


agora ela morreria por isso.

Então o carvalho apareceu diante de Iseult, uma massa de linhas


irregulares contra um céu claro e enluarado. Um homem agarrou o peito de
Iseult, seus Threads erraticamente tremendo. Uma mulher ajeitou as unhas no
rosto de Iseult, seus Threads morrendo de fome.

Enquanto manchas de dor salpicavam a visão de Iseult, seu coração


finalmente endureceu na pedra que deveria estar. Seu pulso diminuiu; sua
temperatura corporal despencou; e todas as visões, sons e dor do momento
desapareceram atrás de uma parede de pensamento objetivo.
Este ataque foi alimentado por Corlant. Por medo. As pessoas estavam com
medo do Clivado e do desconhecido Marionetista... e, portanto, com medo de
Iseult.

Com a mão direita, dê a uma pessoa o que ela espera, e, com a mão
esquerda, corte a bolsa dela.

— Corte. — A palavra ferveu na garganta de Iseult, sibilou com saliva.

— Corte. — Ela repetiu novamente, o mesmo assobio. A mesma expressão


completamente vazia em seu rosto. — Torça e corte.

Então novamente. — Corte, corte. Torça e corte. Era o mesmo ritmo que as
multidões teciam Threads, seu medo pulsante. Iseult se agarrou àquela música
de quatro batidas e ao baixo de três batidas ...

Então ela deu a eles o que queriam ver.

Ela deu a eles um Marionetista.

— Corte, corte. Torça e corte. Threads que quebram. Threads que morrem.
— As palavras que ela gritou eram rabiscos. Iseult não podia tocar nos Threads
dessas pessoas e ela certamente não poderia controlá-las. Mas os Nomatsis não
sabiam disso, então ela cantou: — Corte, corte. Torça e corte. Threads que
quebram. Threads que morrem.

Mais alto, Iseult gritou até que houvesse espaço suficiente para ela se
endireitar. Para ela inalar e gritar ainda mais. Até que finalmente os Threads
Sedentos de Sangue começaram a se afogar sob os ofuscantes Threads brancos
de medo. Corlant não estava em lugar nenhum.
Então uma nova distração chegou: um pote voou pelo ar e a voz de
Gretchya atacou: — Exploda!

O pote explodiu. Iseult caiu no chão enquanto cacos de fogo assobiavam.


Sua mãe não a abandonou.

As pessoas correram; Iseult também correu. Para a voz de sua mãe, para a
casa dela. No entanto, enquanto seus pés golpeavam a terra e explodiam
panelas em outras casas, incendiaram telhados de palha e mandaram os
Nomatsi para um voo em pânico, Iseult sentiu os Threads ao redor de seu turno
mais uma vez.

Acontecia sempre, aquele momento em que as pessoas percebiam que


foram enganadas, e isso estava acontecendo agora. As pessoas estavam
percebendo que haviam perdido o seu Marionetista, mas o gosto pelo sangue
não havia sido saciado; só crescido.

Iseult chegou à beira da casa de sua mãe, mas Gretchya não estava à vista.

— Iseult!

Seu olhar virou para a esquerda. Alma corria em sua direção montada em
uma égua sem dono. Seu pelo marrom e pernas negras estavam quase invisíveis
na escuridão, igual ao vestido preto de Alma.

Alma freou o cavalo e levantou Iseult na baía em frente a ela. Um escudo


tradicional Nomatsi foi amarrado nas costas de Alma, um quadrado de madeira
destinado a proteger um Nomatsi em fuga.

Alma colocou a baía a galope em direção ao portão. O agudo dos Threads


do povo se esticava com mais força. Pulsando mais rápido. Eles sabiam que
tinham sido enganados.

Foi por isso que as pedras começaram a girar em direção às meninas, por
que o inconfundível thwang de arcos soltos encheram o ar junto com os rugidos
de Corlant:

— Pare-as! Mate-as!

Mas Iseult e Alma foram para os carvalhos junto à muralha agora. As


pedras batiam nos troncos das árvores; flechas atravessavam galhos e
entravam no escudo de Alma.

— Onde está minha mãe? — Gritou Iseult. O portão estava se aproximando


rapidamente e estava fechado.

Não... não estava fechado. Rachado. Balançando entreaberto.

Alma apontou o cavalo para aquela brecha crescente. A baía mudou a


trajetória de seu galope, expondo brevemente o lado direito das meninas. Algo
deu um soco no bíceps direito de Iseult.

A força disso a derrubou de lado, na gaiola dos braços de Alma. Ela não
sabia o que a atingiu, uma pedra, talvez... Mas a dor latejava. Ela olhou para
baixo, alarmada, e viu a ponta de uma agulha atravessando a pele acima de seu
cotovelo. Um longo cabo de cedro com penas pretas e brancas saiu do outro
lado.

Ela lançou um único olhar e viu Corlant, abaixando um arco e usando um


sorriso satisfeito em seu rosto enluarado. Então a voz de Alma estava gritando
em seu ouvido: — Espere!

Então Iseult virou-se e segurou-se enquanto galopavam para o prado


iluminado pela lua, os gritos dos aldeões brevemente bloqueados pelo portão.
As pernas de Iseult se apertaram e os dedos dos pés apontaram para cima como
sua mãe lhe ensinou.

Mãe.

Iseult apertou os olhos, e pensou ter visto uma figura a cavalo quicando na
grama com uma figura menor logo atrás. Scruffs. Gretchya deve ter aberto o
portão e fugido, confiando em Alma para libertar Iseult.

Corlant claramente sabe o que Alma e eu planejamos. Foi o que Gretchya


disse... Um plano. Um plano contra Corlant, que claramente queria que Iseult
morresse, mesmo que ela não conseguisse entender o porquê.

Por meio fôlego, Iseult desejou ter enfrentado o Bloodwitch em vez de


Corlant. Em vez da tribo. No entanto, essa ideia desapareceu quase
instantaneamente, pois pelo menos agora ela vivia. Se o Bloodwitch tentasse
atirar nela, não achava que ele teria errado.

Corlant quase conseguiu, no entanto. Se a flecha dele tivesse ido três


polegadas para a esquerda, o peito de Iseult teria sido perfurado. Uma polegada
à direita teria rompido uma artéria vital.

Então Iseult enviou um silencioso agradecimento à lua que elas agora


galopavam embaixo, junto com uma oração que Safi ainda estava lá fora
esperando por ela ...
E que o Bloodwitch não estivesse.

11
O Bloodwitch chamado Aeduan estava entediado. Havia apenas o
movimento do pulso, flexão dos dedos e movimentos do tornozelo que ele
pudesse fazer para manter seus músculos preparados para lutar, ou manter seu
temperamento à distância.

Quatro sinos haviam se passado desde que ele se estendera pela primeira
vez no teto do palácio do Doge, e há muito tempo recuou o capuz e até desfez as
fivelas ao longo do topo de sua capa. Desde as únicas pessoas para vê-lo foram
os outros dezesseis guardas contratados nas vigas e uma família de pombos que
não tinha parado arrulhar desde Aeduan tinha esparramado ao lado de seu
ninho, e não estava particularmente preocupado com esta brecha no protocolo
Carawen chegar ao mosteiro.

Mesmo se o fizesse, os antigos monges se importavam mais com as missões


mercenárias do que com respeito ao Cahr Awen. Afinal, o Cahr Awen era apenas
um mito, mas as piestras de bronze eram bastante reais.

No entanto, sempre esteve fora do alcance de Aeduan. Yotiluzzi havia


declarado uma recompensa pelas duas garotas que haviam saqueado a
carruagem, e Aeduan queria essa recompensa. Seriamente. Então ele rastreou
a Truthwitch para o Distrito de Southern Wharf ... apenas para perder seu
cheiro.

Pouco depois, por pura sorte, ele se depararia com a garota Nomatsi ao
longo dos canais, exceto que ela também escapara. Pior, Aeduan não foi capaz
de segui-la, pois ela não possuía cheiro de sangue.

Nunca nos vinte anos de vida de Aeduan ele encontrou alguém cujo sangue
não pudesse sentir o cheiro.

Nunca.

Essa surpresa o havia perturbado. Tinha feito seus molares ainda mais
tensos do que perder a valiosa Truthwitch. Agora aqui estava Aeduan, preso em
um teto, em vez de caçar aquelas duas garotas.

Aeduan apertou a luneta fina e bronzeada no olho e espiou por um buraco


esculpido no teto. As pessoas corriam sobre o chão de mármore. Tons vibrantes
de veludo laranja, verde e azul polvilhado com sedas pastel. Era um desperdício
de tempo. Nada ia acontecer no baile diplomático, pois, como o pai de Aeduan
sempre dizia: a trégua de vinte anos tornava as pessoas preguiçosas e pouco
ambiciosas.

Quando os primeiros Threads latejantes de um Nubrevnan de quatro


passos atingiram as orelhas e os calcanhares de Aeduan começaram a marcar,
ele optou por uma mudança de cenário. Depois que um crocodilo varreu o
pequeno espaço, Aeduan alcançou uma escada. Ele passou por outros dois
mercenários, que o olhavam nervosamente.

— Um demônio do Vazio. — Sussurraram, e Aeduan fingiu não ouvir. Ele


gostava desses rumores. Afinal, havia vantagens em ter pessoas que o temiam,
como a melhor escolha de pontos de piquetagem. Até mesmo os Hell-Bards
cartorranos e os Marstoki adicionadores, guarda-costas pessoais da imperatriz
Vaness, deixaram que Aeduan entrasse primeiro nas muralhas do palácio.

Quando Aeduan bateu na beira do teto, abriu-se um buraco, mais espaço


de espionagem atrás da parede do salão de baile. Uma escada de corda de
absolutamente nenhuma qualidade ou uso defensivo abarcava os quinze
metros do chão. Era apenas mais um exemplo de como os Dalmottis (e todos os
outros) eram frouxos. Se houvesse alguma necessidade real dos guardas no
teto, levaria muito tempo para descer.

Assim que os quatro passos mudaram para o segundo movimento, as botas


de Aeduan atingiram o chão. Os violinos cantaram no espaço sombrio da
parede, sacudindo a poeira e a madeira com seu vibrato. Sobre eles estava a
leve batida de saltos que Aeduan reconheceu como uma dança parecida com
uma vinha.

Aeduan realmente conhecia o Nubrevnan de quatro passos. Não que


dançasse; ele preferiria estripar-se em um espeto de assar do que se envolver.
Mas sabia dos movimentos. Seu mentor o forçou a aprender durante os
primeiros anos no Mosteiro.

Aeduan estava apenas apontando para a esquerda quando um cheiro


familiar de sangue atingiu seu nariz. Segredos cheios de veneno e mentiras sem
fim. Aeduan não sabia se os rumores eram verdadeiros, se o sangue dos
Sentinelas Marstoki eram realmente feitos de ácido, mas sabia que os guarda-
costas dos Poisonwitch eram mais bem evitados, se não fosse por outra razão,
que seus aromas feriam seu nariz.

Então Aeduan abandonou sua jornada para a esquerda e se moveu para a


direita. Quando finalmente encontrou um buraco de espionagem, ainda menor
do que os do teto, e apertou o olho nele, o terceiro movimento do quarto passo
havia começado.
E as sobrancelhas de Aeduan se elevaram.

Eram apenas dois dançarinos, com os calcanhares e os dedos batendo


contra o mármore a uma velocidade que Aeduan nunca tinha visto, e, ainda
mais impressionante, um vento começara a girar em torno deles. Um dos
dançarinos tinha claramente alguma forma de magia aérea.

Observadores recuaram como uma maré enquanto os dançarinos giravam,


seus pés se movendo de forma tempestuosa para frente, embora seus rostos
permanecessem imóveis, os olhos afinados e concentrados. O vento continuou
a subir, girando no ritmo da música. No tempo dos passos. Ele jogou as saias da
menina, o cabelo dela, e puxou os espectadores boquiabertos enquanto o casal
passava.

No entanto, quanto mais tempo Aeduan assistia, levemente entretido com


a habilidade necessária para dançar com tanta velocidade e graça, mais uma
coceira começava a incomodar no nariz de Aeduan.

Instintivamente, ele examinou os rostos mais próximos e cheirou. Ele


cheirava... um sangue forte. Um selvagem.

Um que o lembrava de cadeias de montanhas e penhascos; de prados


atados com dentes-de-leão e de uma verdade escondida debaixo da neve.

Uma emoção subiu em seu intestino. A Truthwitch estava aqui, nessa


mesma festa.

As últimas notas saltitantes dos quatro passos soaram, atraindo os olhos


de Aeduan para os dançarinos. O vento estava diminuindo; eles estavam se
afastando para a pose final da dança. O homem nubrevano era claramente
alguém de importância, a julgar pela maneira como as pessoas olhavam para
ele com medo ou respeito. Mas ele tinha pouco interesse por Aeduan, pois seu
cheiro de sangue não era familiar.

Foi a menina que chamou a atenção de Aeduan, desenhou sua magia. O


sorriso de Aeduan se alargou e seus dedos alcançaram um estilete amarrado
em seu coração. Um coração que ela havia empalado apenas ontem.

No entanto, enquanto se perguntava quem seria essa mulher, com certeza


Aeduan teria ouvido falar de um Domo da Truthwitch, um forte aplauso tomou
conta do salão de baile. Era de uma única fonte, e embora todos os outros
espectadores se juntassem aos aplausos, esse aplauso permaneceu mais alto.

O olhar limitado de Aeduan finalmente se apegou ao herdeiro imperial de


cabelos claros, Leopold. Ele ficou perto da Imperatriz Vaness e esperou que as
pessoas abrissem um caminho antes de levantar o pé para se aproximar dos
dançarinos.

— Muito bem. — Leopold finalmente chamou, ainda batendo palmas. Mas


houve uma camada exagerada em seu aplauso. — Dançarinos tão magníficos.

O Nubrevnan contornou o rosto brilhante e corado para o príncipe


imperial. Ele se curvou. — Príncipe Leopold.

Leopold apenas deu-lhe um aceno de cabeça. — Príncipe Merik, você


roubou Safiya de nós. — Não faltou escuridão em seu tom, nem o modo
intencional como dispensou o outro príncipe a olhar incisivamente para seu tio,
o atarracado imperador cartorrano que estava por perto.
A expressão de Safiya mudou de sua intensidade embriagada da dança,
para um constrangimento simples e rosado. — Polly. — Ela murmurou, quase
inaudível sobre a multidão. — Sinto muito, eu perdi você em meio à todas essas
pessoas.

— Não precisa se desculpar. — Leopold falou em uma voz muito mais alta
do que sua proximidade exigia e abriu bem os braços. — Outra dança! Vamos
fazer disso uma valsa de Pragan. — Então ele fez uma reverência real com a
Truthwitch e apertou os braços dela.

Os dedos de Aeduan tocaram um ritmo animado em seu estilete. Esta noite


acabara de se tornar muito interessante. A Truthwitch que tentou roubar o
Mestre da Guilda Yotiluzzi agora dançava com não um, mas dois príncipes.

Oh, o Bloodwitch chamado Aeduan não estava mais entediado. Já não


estava entediado em tudo.

E agora ele tinha trabalho a fazer.

***

Safi estava cansada de dançar. Literalmente, ela se sentia mal com todo o
giro, e sua respiração, não teve um único momento para respirar desde ...
Merik.

Príncipe Merik.
O homem que não conseguia se vestir adequadamente acabara sendo da
realeza. O homem que se jogou contra um Clivado era um príncipe. Era quase
impossível conceber, mas explicava sua postura de queixo alto, sua falta de
medo quando Safi o empurrava, e sua disposição de empurrar de volta.

Algo aconteceu entre Safi e Merik durante a dança deles. Algo tão poderoso
quanto o vento e a música que soprava ao redor deles. Uma mudança no ar que
precedia uma tempestade.

Chamas do inferno, Safi precisava de Iseult agora. Ela precisava de sua


irmã de linha para ajudá-la a classificar através dessa selvageria em seu peito.

Enquanto a sala e os rostos passavam por ela em outra valsa que balançava
seu estômago, enquanto mentiras e verdades se chocavam sobre Safi de todas
as direções, ela sabia que precisava parar. Deixar ir.

No entanto, assim quando algo mudou dentro de Safi depois da dança —


depois de Merik — alguma coisa havia mudado dentro da sala. Uma tensão se
enrolou para dentro como uma serpente que espera.

E a dança nunca parou. Seis vezes, Safi foi varrida pelo chão nos braços de
Leopold. Então mais seis vezes o imperador insistiu em fazer parceria com ela.
Suas mãos estavam úmidas e apertadas com muita força. O suor parecia se
acumular em sua pele machucada, e Safi desejou que Leopold voltasse.

Até que a música parou abruptamente e a dança parou com ela.

Até que Henrick pediu silêncio no salão e fez sinal para Safi se juntar a ele
em um estrado baixo.
Até que uma pesada e impossível frase caiu da boca de Henrick:

— Saúdem Safiya fon Hasstrel. Minha prometida e a futura imperatriz de


Cartorra.

Os joelhos de Safi cederam. Ela caiu contra Leopold, que, graças aos deuses,
estava por perto. De alguma forma, ele conseguiu colocá-la de pé e girá-la em
direção a uma sala cheia de aplausos forçados, como se todos estivessem tão
chocados com o anúncio quanto ela.

— Polly. — Ela murmurou, fixando o olhar em seu rosto. — Polly, por favor
... me diga ... Polly.

— É verdade. — Ele murmurou, apertando a mão dela.

Safi tentou se afastar, seu coração ameaçando sair do peito. Ela confiava
em Leopold. E também confiava no tio Eron. No entanto, isto... Ela não estava
agindo como um domna, mas como uma noiva.

Leopold não iria libertá-la, no entanto. Seus olhos verdes marinhos se


tornaram duros. O declive suave de sua mandíbula tinha ficado tenso com uma
determinação inesperada.

Safi ofegou. — Você sabia que isso estava chegando. Por que você não me
contou? — Sua única resposta foi empurrá-la — com força, mas não com
maldade — em direção ao tio. O Imperador.

Futuro marido de Safi.

— Por muitos anos felizes juntos! — Leopold gritou, empurrando Safi para
frente. Ela cambaleou para o aperto de Henrick. Suas mãos suadas se fecharam
sobre as dela.

Safi quase recuou ao seu toque e seu sorriso de dentes tortos. Quase gritou
que essa não era a liberdade que seu tio havia prometido. Casar-se com um
imperador era tão longe de liberdade como Safi poderia imaginar, então que
merda de história seu tio tinha contado a ela?

Até onde Safi podia ver, era isso. Este era o fim de tudo.

Ela examinou cada rosto na multidão, seu braço tremendo em Henrick.


Procurou pelos olhos azuis do tio Eron. Pela cabeça vermelha de Mathew.
Qualquer um, pelo amor de Deus. Ela só precisava de alguém para segurar seu
olhar e refletir de volta que estava tudo bem em ficar furiosa. Para estar com
medo nos ossos.

Mas ninguém na multidão era familiar. Ela até procurou o príncipe Merik,
com seu casaco cinza prateado, mas ele e o resto dos nubrevanos haviam
desaparecido também.

Safi estava sozinha com os joelhos trêmulos. Com a garganta doente. Com
as palmas pegajosas de Henrick esmagando seus dedos.

Então o olhar frenético de Safi pousou em um rosto enrugado e um corpo


robusto que ela lembrava vagamente de sua infância: Domna fon Brusk. O
queixo cabeludo da mulher se movia como uma vaca ruminando e balançou um
breve e reconfortante aceno para Safi.

Quando o vigésimo quarto toque começou a tocar e o aplauso diminuiu,


Domna fon Brusk navegou em direção a Safi. Seus olhos nunca deixaram o rosto
de Safi, seu ritmo nunca diminuiu. Quatro passos no tempo para cada sininho.

Então o sinal final soou. Ele reverberou pela sala.

Cada chama no salão de baile, nos jardins e no porto sibilou. A escuridão


desceu sob a festa.

***

Aeduan ainda estava na parede quando as luzes se apagaram.

Ele tinha se esgueirado, nunca perdendo de vista a Truthwitch, ou o cheiro


de seu sangue, desde que ela seguiu a convocação do Imperador Henrick.

A garota claramente não sabia o que estava por vir. Aeduan nunca viu o
sangue escorrer do rosto de uma pessoa tão rapidamente, e, por um breve
momento, Aeduan sentiu pena.

No entanto, enquanto Aeduan observava a moça cair na direção do


Imperador Henrick, os pelos de seus braços se eriçaram. Então os cabelos na
parte de trás do pescoço dele.

Ele teve tempo suficiente para pensar, Magia, e então sentir seu poder
especificando, Firewitch — antes de cada chama ser eliminada.

Em duas inspirações pelo nariz, a magia de Aeduan rugiu ao máximo de


seu poder, e ele fez um reconhecimento do sangue para cada pessoa que gritava
no salão de baile, de todos os guardas nas paredes, ou tetos. Era apenas uma
gravação superficial de aromas diferentes para que pudesse se mover sem
visão.

E assim ele poderia seguir quem mais se movia sem visão.

Pois alguém acabara de orquestrar esse apagão, e Aeduan soube


imediatamente que estava ligado à garota, Safiya, porque seu cheiro estava
sumindo.

Como por um segundo, alguém com o cheiro acre de campos de batalha e


corpos em chamas. E um terceiro alguém que cheirava a montanhas... e
vingança.

Aeduan partiu para a mais próxima das duas saídas, quando as lâmpadas
voltaram à vida em uma segunda onda de magia arrepiante. Choro e suspiros
aliviados atravessaram as paredes, e pontinhos de luz amarela atravessaram os
buracos de espionagem.

Aeduan se lançou para o mais próximo, e seu olhar voou para onde sua
magia lhe disse que a menina estaria ...

O espaço estava vazio. Completamente vazio. Onde a menina estava de pé


antes... ela ainda estava lá. De alguma forma, ela não havia se movido do lado de
Henrick. Aeduan se aperfeiçoou em seu perfume.

Não era o cheiro da menina chamada Safiya. Era outra pessoa


inteiramente. Alguém com sangue mais velho, muito mais velho, na verdade.
Aetherwitch, ele pensou. Então ele especificou para Glamourwitch 17.

Aeduan examinou o campo limitado de pessoas que ele podia ver e sentir
o cheiro. Mas não havia sinal de alguém trabalhando com magia poderosa. No
entanto, Aeduan não tinha dúvida de que um Glamourwitch estava naquela sala,
manipulando o que as pessoas viam.

Aeduan também não tinha dúvidas de que ele era a única pessoa em
qualquer parte deste prédio, possivelmente das Witchlands inteiras, que
poderiam passar pelo que estava acontecendo. Não era a arrogância que o fez
pensar assim, mas a simples verdade.

Uma verdade que o mantinha bem remunerado, e que poderia, após esta
noite, levar a empregadores de maior riqueza que o Mestre da Guilda Yotiluzzi.
Essa garota era uma Truthwitch e a futura noiva do imperador cartorrano.
Alguém gostaria de saber quem a havia levado, e esse alguém, sem dúvida,
pagaria muito bem.

Aeduan lançou-se em um passo rápido e ligeiro mais uma vez. A garota


estava chegando ao limite de seu alcance. Embora pudesse rastreá-la por longas
distâncias, seria mais fácil se ele a mantivesse a cem passos de distância.

No entanto, enquanto corria, a pessoa com sangue acre de campo de


batalha entrou em seu caminho, e com o homem veio o cheiro fumegante das
chamas reais.

O Bruxo estava queimando a entrada das paredes.

17
Um Glamourwitch é um Aetherwitchery excepcionalmente raro que permite que uma pessoa crie visões e engane os olhos
de outras pessoas manipulando o ar.
Aeduan permitiu que apenas o menor medo aparecesse através dele.
Chamas... o incomodavam.

Mas então ele afastou o instinto de parar, de descer àquele lugar e, com
uma grande chave mental, trouxe sua mente de volta à frente e empurrou mais
força em seus pulmões.

Ele também fez questão de tirar a aba de fogo de sua capa pelo nariz. O
ditado de que um monge Carawen estava preparado para tudo não era um
eufemismo, e Aeduan levava essa frase a um nível completamente diferente.
Seu manto branco de Carawen era feito de fibras de salamandra, então nenhum
fogo poderia queimá-lo. Embora a aba bloqueasse sua capacidade de rastrear
os cheiros de sangue, ele só precisava usá-la por tempo suficiente para
atravessar essas chamas.

Aeduan chegou à saída, caiu diretamente no fogo e despachou sua primeira


faca. Então, quando rolou através das chamas e voltou a ficar de pé, despachou
um segundo.

O Bruxo mergulhou de lado, agachando-se atrás de um vaso de plantas no


comprido hall de entrada do palácio. A segunda faca estalou no barro e sacudiu
a azálea do interior.

Aeduan puxou a aba do fogo e o cheiro de sangue correu por ele. Sua
primeira faca deve ter atingido o Firewitch. Boa. Aeduan lançou seu olhar pelo
corredor. Ele não viu nada, mas percebeu que a garota estava quase nas grandes
portas no final.

O Bruxo girou em torno do outro lado do pote. Chamas rugiam de sua boca,
seus olhos, mesmo quando o sangue jorrou de uma faca em seu joelho.

Aeduan nunca tinha visto nada parecido, nunca se soube que um Bruxo
pudesse possuir tal poder.

No entanto, poderia refletir sobre isso mais tarde. Pulando para o lado, ele
se lançou em uma arrancada que era impossível de seguir. Aeduan podia
controlar seu próprio sangue, o que significava que, para surtos de intensidade
exaustiva, conseguia empurrar seu corpo a um nível extremo de velocidade, de
poder.

Porém, enquanto corria sobre o chão de mármore, mais figuras se


materializavam diante dele, em torno de panelas e até caíam em cordas do teto.

Aeduan sacudiu; seus passos vacilaram quando instintivamente pegou


mais facas de arremesso.

Mas não. Enquanto essas formas sombrias corriam em direção a Aeduan,


ele percebeu que não cheiravam a nada. Nenhum perfume, nenhum sangue.

O Glamourwitch ainda estava em ação aqui, então Aeduan se empurrou de


volta em sua corrida, movido a sangue. Seus dedos do pé mal passavam pelo
mármore; as sombras se aproximaram; chamas trovejaram quentes e
desesperadas atrás dele.

Aeduan estava perto o suficiente das portas de entrada para diminuir a


velocidade. Engolindo em seco e jogando toda a sua magia de volta para
rastrear o Truthwitch, ele quase se esqueceu de ficar de olho em pessoas reais.

Um erro fatal para qualquer um, exceto um Bloodwitch, e quando uma faca
com ponta de ouro bateu no ombro de Aeduan, um temperamento que ele
raramente liberava voltou à vida, irrompeu.

Com um grito de guerra, Aeduan arrancou a espada de sua bainha e atacou


a pessoa à frente, a pessoa cuja faca agora estava raspando em seu ombro. Um
homem com cabelo loiro.

O Mestre da Guilda de Seda, Alix. O minúsculo homem efeminado estava


desarmado. Ele estava esperando para morrer. Disposto a morrer.

Mas Aeduan nunca lutou contra um indefeso. Ele mal teve tempo de
redirecionar seu objetivo; sua espada passou rapidamente pelo ombro do
homem, roçando seu robe de seda.

O Mestre da Guilda apenas abriu os braços como se dissesse: — Leve-me.


— E seus olhos nunca se abriram, o que significava que o vinco concentrado na
testa do homem era de atenção. De uma bruxaria focada em outro lugar.

Aeduan sentiu o cheiro de sangue de tornados e seda, de glamour e de


ilusões tecidas.

Este homem era o Glamourwitch. Um homem que o próprio mestre de


Aeduan, Yotiluzzi, jantou em mil ocasiões. O homem que liderou a Corporação
de Seda não estava magicamente preso à seda.

Quando essa percepção tomou conta de Aeduan, também percebeu que


havia perdido o cheiro de Safiya. Ela havia deixado a faixa de cem passos dele,
e ele teria que rastreá-la como um cachorro na caça. Aeduan se lançou em uma
corrida para fora da porta ... onde vinte guardas da cidade esperavam sob uma
lua branca brilhante.

Não era nada que Aeduan não pudesse suportar. Na verdade, era quase
risível. Vinte homens não conseguiriam detê-lo. Tudo o que podiam fazer era
retardá-lo, na melhor das hipóteses. No entanto, quando a espada de Aeduan se
arqueou e sua magia alcançou o soldado mais próximo, e quando quatro flechas
de besta se chocaram contra o seu peito, ele percebeu que esses homens se
moviam com o esforço combinado de um exército. No momento em que
atravessasse todas essas espadas, flechas e facas, ele poderia estar drenado
demais para continuar seguindo a garota Safiya.

Então fez algo que raramente fazia, mesmo porque odiava adquirir dívidas
de vida. Ele beliscou a opala azul perfurada em sua orelha esquerda e
sussurrou: — Venha.

Uma luz azul brilhou no canto do olho dele; a magia estremeceu pelo lado
do corpo dele. A Threadstone agora estava ativa.

O que significava que todo monge Carawen na área viria em auxílio de


Aeduan.
12
Safi atravessava o hall de entrada de mármore do Doge, com tio Eron a
rebocando a uma velocidade que nunca o vira correr, sem fazer fazia a menor
ideia do que estava acontecendo.

As luzes se apagaram e a mão de Habim deslizou ao redor de Safi. Ela não


sabia como o reconheceu, anos conhecendo essas mesmas palmas ásperas era
tudo o que ela poderia imaginar, mas ela tinha reconhecido e o seguido sem
dúvida.

Mas as luzes se acenderam antes que ela, Habim ou tio Eron estivessem
fora do salão de baile. A maioria dos olhares estava trancada onde Safi esteve
em pé, e os poucos olhares que se dirigiam para ela simplesmente deslizavam.

Ela arriscou uma espiada e viu a si mesma. Em pé exatamente como estava.


Falso! Sua magia se encrespou contra sua espinha.

Então, Habim arrastou Safi para o corredor escuro, e tudo o que pôde fazer
foi tentar manter as saias prateadas fora do caminho, enquanto ela e Eron
atravessavam o corredor. Habim ficou para trás.

— Mais rápido. — Eron sibilou, nunca olhando para sua sobrinha. Nunca
oferecendo uma explicação para o que no inferno estava acontecendo. Seu tio
escondia coisas e continha a verdade, mas não mentira. Ele apareceu à meia-
noite; e Safi estava saindo.

Os saltos de Safi e Eron ecoaram pelo corredor como os tambores dos


guardas da cidade, até um estrondo arrancado. Chamas.

Mas Safi manteve seu olhar fixo na cabeça grisalha de Eron e sua mente
concentrou-se em bombear cada centímetro de velocidade em suas pernas. Ela
não olharia para trás, tropeçaria se fizesse.

Estavam quase às portas do lado de fora quando Safi avistou Mestre Alix,
suando e concentrado. No entanto, o que ele estava fazendo ou por que, Safi não
tinha tempo para refletir. Ela simplesmente pulou o limiar, e entrou num
exército.
Um grito se contorceu em sua garganta, mas Eron cortou diretamente os
homens, que um por um o saudaram.

Safi nunca — nunca — viu pessoas darem respeito a seu tio. Ela quase
perdeu o controle de seus pés, de seus pulmões. Mas então Eron olhou para trás
e a nitidez em seu olhar — o precursor de um temperamento que ela
reconheceu e entendeu — a fez voltar a uma corrida frenética.

Sobre os caminhos de pedra, sob o jasmim suspenso, os pés de Safi não


diminuíram. Ela finalmente chegara àquela estranha indiferença que Iseult se
apegara tão facilmente, o lugar que Habim tentou ensinar Safi por anos.

Assim como ele a ensinou a se defender.

Assim como ele lhe ensinou a lutar e mutilar.

E correr como se o Vazio estivesse em seus calcanhares.

Enquanto Eron a guiava pelo caminho de um jardineiro estreito e em


direção a um portão de trabalhadores indefinido na cerca de ferro ao redor do
palácio, Safi percebeu que tio Eron nunca pretendeu que ela fosse uma domna.
Cada parte de seu treinamento, todas as lições que Mathew e Habim haviam
martelado em seu cérebro, levavam até este momento.

O momento em que ela seria declarada a futura Imperatriz de Cartorra e


fugiria dela em alta velocidade.

Eron chegou ao portão que se abriu e Mathew apareceu. Mas Eron não
diminuiu, na verdade, agora na rua aberta, acelerou o passo. O mesmo
aconteceu com Safi e Mathew.
Três séries de respirações ásperas logo encheram cada espaço nos ouvidos
de Safi. Mais alto que o vento da noite ou o crescente choque de aço contra aço,
uma batalha que agora se desenrolava dentro das muralhas do palácio.

Eles chegaram a um cruzamento e Eron se lançou na sombra de uma


saliência. Safi a seguiu, piscando com a súbita perda do luar. Então, quando seus
olhos se ajustaram, uma carroça e um burro se juntaram a ela. Um camponês
magro sentava-se desinteressadamente na frente da carroça, hastes de girassol
como sua carga.

Eron pegou uma moita de girassóis e virou-os de volta. Eles estavam


presos a uma manta de fibras de salamandra.

— Esconda-se. — Eron ordenou, sua voz crua de esforço. — Nós vamos


lidar com o Bloodwitch, mas até então, você precisa se esconder.

Safi não obedeceu. Em vez disso, ela agarrou o braço de seu tio. — O que
está acontecendo? — Suas palavras foram divididas por suspiros. — Para onde
estou indo?

— Você tem que escapar. — Disse ele. — Não apenas da cidade, mas sair
de Dalmotti. Se formos pegos, seremos declarados traidores. — Eron largou a
borda do cobertor e tirou um frasco de seu colete. Um gole, e outro, então cuspiu
nos paralelepípedos. Mais três vezes ele fez isso enquanto Safi ficou de boca
aberta.

Eron despenteou o cabelo e atirou a Safi um olhar rígido. — Não nos


decepcione. — Ele disse baixinho antes de cambalear e se afastar.
Era como assistir o verão virar inverno. Eron fon Hasstrel transformou-se
diante dos olhos de Safi. O tio frio, parecido com um soldado que ela tinha visto
segundos antes, tornou-se um bêbado sorridente, de rosto desleixado, e nada
na magia de Safi reagiu. Era como se as duas versões de seu tio fossem verdade.

Ou falso, porque ela não sentia nada.

Naquele momento, um horror doentio passou por ela. Seu tio nunca foi um
bêbado. Por mais inconcebível que fosse, tão difícil de manejar e estranhamente
moldada para a sua mente agarrar-se, não havia como negar o que Safi podia
ver claramente. Seu tio Eron convenceu a Safi, a magia de Safi e a toda a Cartorra
de que ele não era mais do que um tolo velho e desperdiçado.

E então usou essa mentira para ajudá-la a escapar hoje à noite.

Antes que Safi pudesse chamá-lo e implorar por respostas, sua figura
brilhou mais uma vez, e depois desapareceu. Por onde ele andou, Safi via apenas
paralelepípedos e raios de luar.

Ela empurrou em direção a Mathew. — Para onde ele foi? O Glamourwitch


fez isso?

Mathew assentiu. — Eu disse que o plano do seu tio era grande.


Tememos… não, sabemos que a Trégua se dissolverá a qualquer momento e sem
esperança de continuidade.

No confuso aceno de Safi, Mathew suspirou. — Eu sei que é impossível você


entender agora, mas acredite: estamos trabalhando pela paz, Safi. No entanto,
uma união com o Imperador Henrick teria arruinado tudo.
— Mas por que... — Gaguejou Safi. — Henrick quer se casar comigo em
primeiro lugar? As terras Hasstrel são inúteis. Eu sou inútil!

Mathew hesitou os olhos se afastando antes que finalmente dissesse: —


Achamos que o Imperador tem conhecimento sobre sua magia.

A garganta de Safi se fechou. Que? Ela queria resmungar. Ela tinha


escondido por dezoito anos e nenhum Hell-Bard a pegou ainda.

— Um casamento com Henrick — Mathew continuou. — teria sido a


mesma coisa que escravidão para você, Safi. Não haveria escapatória. No
entanto, como nem Eron, nem você podem se opor abertamente a essa união,
estamos fingindo esse sequestro. Foi por isso que Eron não lhe deu nenhum
aviso. Se você soubesse o que estava por vir, não teria mostrado surpresa
suficiente. Henrick e seus Hell-Bards teriam suspeitado imediatamente.

Safi engoliu, ou tentou. Sua garganta estava entupida demais. Não só


aquele Bloodwitch sabia o que ela era, mas o Imperador de Cartorra também.
Quem mais descobriu? Quem mais viria caçá-la?

— Não se preocupe. — Disse Mathew, sentindo claramente seu pânico. —


Tudo está preparado, Safi, e nós vamos levá-la para a segurança. — Ele a
empurrou em direção ao cobertor preto, mas ela cavou em seus calcanhares.

— E quanto a Iseult? Eu não vou deixá-la.

— Habim e eu vamos encontrá-la.

— Não. — Safi arrancou de seu alcance, não se importando com a fumaça


em chamas sobre os telhados agora. Que o rugido de uma batalha nas
proximidades ficou mais alto a cada segundo que ela se manteve firme. — Eu
não vou embora sem Iseult. Diga-me onde devo ir e vou para lá sozinha.

— Mesmo depois de tudo isso, você ainda não confia em nós? — Na


escuridão, o rosto de Mathew estava escondido, mas não faltava dor em sua voz.
— Nós arriscamos tudo para te tirar daquela festa.

— Eu não confio no tio Eron. — Disse Safi. — Não depois do que vi hoje à
noite.

— Você deveria confiar nele. Ele construiu uma vida de sombras e


mentiras, mas nunca te arrastou para isso. Você sabe o quanto isso lhe custou?
Custou a todos nós? — Mathew apontou vagamente para a carroça. — Acredite
em mim quando digo que Dom Eron não quer nada mais do que mantê-la
segura. É o que todos nós queremos. Agora venha. Estamos sem tempo.

Mathew agarrou o cotovelo de Safi e seus olhos sombreados penetraram


nos dela. — Você vai para o norte, Safi, para encontrar um barco. Você não vai
se mover até chegar lá. O barco vai levá-la através do mar a uma cidade
chamada Lejna, nas Cem Ilhas, onde vai esperar em uma cafeteria, uma das
minhas cafeterias. Alguém virá por você em quatro dias e a levará pelo resto do
caminho. Para a liberdade, Safi, então você não terá que se casar com Henrick.
E eu prometo, por minha vida e de Habim, prometo trazer Iseult conosco.

As palavras trilharam sobre Safi. Elas zumbiram através de seu braço, onde
a pele de Mathew a tocou. Ele estava a enfeitiçando. Sabia que ele estava
fazendo isso, sua própria magia gritou para ela que isso era mentira. No
entanto, a magia de Mathew era mais forte que a de Safi. E não podia mais lutar
com a atração de uma correnteza.

Seus pés a levaram para a carroça, seu corpo rastejou por baixo do
cobertor, e sua boca disse: — Vou te ver do outro lado do mar, Mathew.

O rosto de seu tutor se apertou, um estremecimento de dor ou


arrependimento, Safi não pôde dizer. Ela estava se afogando sob o poder de sua
magia.

Mas quando ele se inclinou para dar um beijo na testa dela, não teve
dúvidas de que a emoção era de amor. Família.

Então ele largou o cobertor sobre a sua cabeça, o mundo ficou preto, e a
carroça começou a tremer por baixo dela.

***

Pareciam anos desde que Safi esteve sob o horrível cobertor de


salamandra com folhas de girassol arranhando acima de sua cabeça. Ela ouviu
pouco além dos cascos do burro e dos Poços rangentes; mas não cheirou nada
além de sua própria respiração quente; e viu apenas preto.

No entanto, a magia de Mathew mantinha seu domínio, as palavras tão


profundas em seu cérebro que ela tinha que obedecer, ficar ali em silêncio e
imóvel, enquanto a carroça rolava para o norte.
Mathew nunca havia feito isso com ela. Talvez uma ou duas frases
coercivas, mas a sua comutadora da Truthwitch sempre cancelou o comando.
Isso de hoje era muito poder, já que ela ainda estava ligada à sugestão, mesmo
depois de tanto tempo.

Um grito silencioso chiou no peito de Safi. Eron a usou. Ele manteve esse
enorme segredo para que ela ficasse "genuinamente surpresa" na festa, e isso
era porcaria de bode. Safi não era uma marionete para ser jogada em um palco
ou uma carta de tarô para ser jogada fora do capricho de seu tio.

E como Safi sequer sabia que tio Eron estava realmente enviando-a para a
liberdade? Claramente sua magia falhou quando confrontada com suas
mentiras e promessas. Assim como Eron conseguiu torcer tão facilmente a
verdade sobre os acontecimentos de hoje à noite, ele poderia fazê-lo
novamente.

O calor doentio correu para a boca de Safi. Revestiu a língua dela. Iseult era
a única pessoa em quem Safi podia confiar, e as meninas tinham uma vida na
cidade de Veñaza, uma vida simples, talvez, mas uma que era toda sua. Safi não
podia desistir disso.

No entanto, por quanto tempo Iseult esperaria no farol? Aliás, se Iseult


estivesse no farol agora, não significaria que Mathew e Habim não saberiam
onde encontrá-la? Como poderiam trazer Iseult com eles se ela não estivesse
onde deveria estar?

Eles não podiam, o que significava que era hora de Safi assumir o controle
de suas próprias cordas e jogar suas próprias cartas mais uma vez.
O tempo passou, a determinação de Safi se fortaleceu e, finalmente, a magia
de Mathew abandonou seu domínio. Em movimentos frenéticos e bruscos, Safi
deslizou até a borda da carroça para levantar o cobertor...

O ar fresco tomou conta dela, assim como o luar. Ela engoliu em seco,
piscando e apertando os olhos de tão grata por estar se movendo novamente.
Pousadas e telhados de palha passavam. Estáveis também.

Esta era a extremidade da cidade de Veñaza, onde as estalagens de


aglomerados e estradas vazias começavam. Se Safi viajasse muito mais longe,
ela não teria chance de encontrar um corcel, de ir mais para o norte até o farol.
Além disso, Safi precisava de uma arma. Uma garota vestida de seda e viajando
sozinha estava claramente pedindo problemas.

Enquanto os olhos de Safi percorriam um pátio de estábulos, ela


vislumbrou um estábulo cansado, conduzindo um cavalo cinza castrado, a
cabeça do cavalo em pé. Ele estava alerta e pronto para andar.

Melhor ainda, havia um forcado ao lado da entrada do pátio. Não era uma
espada e era certamente mais pesada do que Safi usava normalmente, mas ela
não tinha dúvida de que poderia usá-la contra qualquer um que estivesse em
seu caminho.

Afastando o cobertor mais alguns centímetros, espiou o camponês


dirigindo a carroça. Ele não olhou para trás, então com um balanço de suas
pernas e um impulso de seus braços, ela rolou para fora; congelando na lama
seca, enquanto seu corpo se reorientava. Não havia som do oceano, embora o
ritmo do vento sugerisse que a costa estava perto, assim como o fraco cheiro de
peixe.

Embora não reconhecesse o subúrbio, Safi podia adivinhar que o farol


estava próximo, a alguns quilômetros ao norte, no máximo.

Ela correu em direção ao pátio da pousada tão rápido quanto seus pés
puderam carregá-la. Um olhar para a carroça mostrou que estava se
aproximando e, em seguida, um olhar para o cavalo cinza quase o mostrou na
porta do estábulo.

Safi diminuiu a velocidade apenas uma vez, sob o portão arqueado da


pousada, para levantar o tridente. Era definitivamente mais pesado que sua
espada, mas o ferro não estava enferrujado e as pontas do garfo eram afiadas.

Ela ergueu-o alto, satisfeita quando o menino esquelético e estável a


avistou invadindo seu caminho. Ele empalideceu, largou as rédeas do cavalo e
encolheu-se contra a porta do estábulo.

— Obrigada por tornar isso fácil. — Declarou Safi, pegando as rédeas. O


cavalo olhou para ela com curiosidade, mas não fez nenhum movimento para
correr.

No entanto, antes que Safi pudesse colocar o pé no estribo, seus olhos


pousaram em uma pequena bainha de couro no cinto do garoto do estábulo. Ela
bateu o pé e puxou o tridente de volta. — Me dê sua faca.

— M-mas foi um presente. — O menino começou.

— Veja se eu me importo? Se você me der essa faca, eu lhe darei seda


suficiente para comprar vinte e cinco facas como esta.
Ele hesitou, claramente tentando descobrir como esse negócio iria
funcionar, e Safi mostrou os dentes. Ele tirou a faca do cinto.

Ela pegou, esfaqueou o forcado na lama e pegou suas saias. Mas a faca era
fraca e a seda forte. Demorou muitos batimentos cardíacos para rasgar a lâmina
através de...

Um grito de alarme surgiu na estalagem. A quem quer que esse cavalo


pertencesse, decidiu que queria mantê-lo.

Safi jogou as camadas de seda no rosto do menino. Então, com muito


menos graça do que normalmente exibia quando montava um cavalo, subiu na
sela do cavalo, agarrou a nova faca com força, colocou o tridente sobre o pomo
e deu um pontapé em um galope.

O dono do cavalo chegou à porta bem a tempo de ver Safi se despedir, e


ouvi-la gritar: — Obrigada! — Ela deu ao homem um de seus sorrisos mais
brilhantes. Então desviou o cavalo para o sul e para longe do carro na direção
norte, circulando por uma rua diferente à frente.

Mas não chegou longe. Na verdade, o cavalo mal tinha galopado para a
próxima hospedaria quando percebeu que algo estava errado.

Havia cinco homens na rua antes dela. Eles correram em uma fileira
perfeita, seus mantos brancos fluindo atrás deles e suas bainhas e armas se
chocando.

Os monges de Carawen e o do meio estavam cobertos de sangue. Este


último até tinha flechas saindo de seu peito, pernas e braços.
Bloodwitch.

O estômago de Safi perfurou seus pulmões. Eron tentou — e falhou —


parar o monge. Com movimentos que pareciam impossivelmente lentos, Safi
puxou as rédeas e puxou o castrado para o norte. Graças aos deuses, o cavalo
estava bem treinado. Seus cascos levantaram lama seca e ele galopou nesta
nova direção.

Safi não olhou para trás; ela sabia que os monges seguiriam. A última
pousada turvou o passado e um mundo de litoral pantanoso se espalhou diante
dela. Ao longe, a estrada se inclinava em direção a penhascos e calcário.

Em instantes, a carroça e o motorista que ela acabara de escapar


apareceram, e não havia a falta do Witchmark do homem. Sua forma era
familiar o suficiente para reconhecer, mesmo com sua velocidade. O homem
não era um camponês, mas um Voicewitch.

Safi teve tempo suficiente para gritar para ele: — O Bloodwitch me


persegue! Diga ao meu tio! — Antes de passar pela estrada vazia e ao luar.
13
Iseult e Alma alcançaram Gretchya em instantes.

Gritos as perseguiram por um tempo — como os Threads cinzentos


retorcidos da violência, mas apenas mais duas flechas soaram no escudo de
Alma. E de alguma forma, embora Alma não seguisse os rastros Nomatsi, a
posição de sua égua era certa.

Depois do que pareceu uma hora, Alma dirigiu os cavalos para um


salgueiro largo em um riacho preguiçoso. Gretchya saltou primeiro, um fogo na
mão e Scruffs a seu lado. Ela circulou a árvore antes de fazer sinal de que tudo
estava claro.
Iseult deslizou do cavalo e quase caiu em sua mãe. Suas estavam iguais
borracha e seu braço...

— Você perdeu muito sangue. — Disse Gretchya. — Venha. — Ela pegou a


mão de Iseult e guiou-a para um mundo de galhos caídos e folhas sussurrantes.
A égua da baía seguiu de bom grado, como se conhecesse este lugar. O tigrado
roubado, no entanto, levou algum convencimento de Alma.

— Você planejou isso. — Resmungou Iseult, seguindo a mãe para um


tronco de árvore manchado de luar.

— Sim, mas não para hoje à noite. — Gretchya ergueu um comprido bastão
de encontro à árvore e acenou para a direção de onde dois pedaços se sentavam
em galhos fora do alcance. Sem aviso prévio, Gretchya bateu nos dois sacos.

Thump, baque! As mochilas abarrotadas atingiram a terra e a poeira


levantou. Uma maçã verde rolou para fora.

Iseult se arrastou até as raízes do salgueiro, as costas contra o tronco largo.


Sentadas ao lado dela estava seu cachorro, e com a mão esquerda, ela coçou as
orelhas dele enquanto Alma continuava a persuadir o pônei por baixo dos
galhos, o agora escudo Nomatsi cheio de flechas ainda afixado em suas costas.

Embora Iseult não pudesse ver o sangue em sua manga direita — não nesta
escuridão — ela não podia ignorar a dor. Pelo menos, pensou vagamente, o
corte na minha mão direita não doía mais.

Depois de remexer nas sacolas, Gretchya correu para o lado de Iseult com
a maçã empoeirada e um kit de curandeiro de couro a tiracolo. Ela limpou a
maçã em seu corpete. — Coma isso.

Iseult pegou, mas mal conseguiu chegar até a boca antes que sua mãe lhe
oferecesse um pingente. Um pequeno quartzo rosa pendia do final de uma
corda trançada. — Use-o. — Gretchya ordenou, agachando-se na terra ao lado
de Iseult.

Mas Iseult não fez nenhum movimento para pegar o colar. Uma maçã era
uma coisa, mas Painstones18 eram raras e custavam centenas de piestras.

Gretchya jogou a pedra impaciente que aterrissou no colo de Iseult, o


quartzo brilhando de um rosa escuro. Instantaneamente, a dor recuou. As
respirações de Iseult se aprofundaram e ela se sentiu capaz de pensar
novamente.

Não admira que essas coisas fossem viciantes.

O olhar de Iseult pousou em Alma mais uma vez, que agora estava na beira
dos galhos pendurados, de costas para Iseult e Gretchya. Ela vigiava enquanto
os cavalos mastigavam pequenos trechos de grama.

— Corlant. — Iseult começou quando Gretchya fugiu para o lado dela, uma
lanceta em uma mão e panos de linho na outra. — queria me matar. Por quê?

— Eu não sei. — Gretchya hesitou. — Eu … só posso imaginar que ele


achou que sua chegada era um sinal de que Alma e eu estávamos saindo. E
descobriu nossos planos, eu acho, e esperou nos manter no assentamento,

18 Pedra mágica capaz de aliviar a dor.


pendurando v ... — Ela parou, molhou os lábios e não terminou a frase.

Antes que Iseult pudesse apontar que as medidas de Corlant pareciam


muito extremas, se tudo o que ele queria era mantê-la na tribo, Gretchya estava
cortando a haste da flecha que cutucava do bíceps de Iseult. Então agarrou a
ponta da flecha no lado esquerdo... e puxou-a.

O sangue jorrou, pulsando no ritmo dos batimentos cardíacos de Iseult,


não que ela pudesse sentir isso. Na verdade, ela simplesmente mastigou sua
maçã, ocasionalmente deu um tapinha na cabeça de Scruffs e observou sua mãe
trabalhar.

Em seguida vieram as ervas para evitar infecções e cremes para acelerar a


cura. Todos eram itens caros, mas antes que Iseult pudesse protestar, Gretchya
começou a falar, e Iseult viu-se caindo na voz familiar e inflexível de sua
infância.

— Alma e eu começamos a nos preparar para fugir pouco antes de você


partir seis anos e meio atrás. — Explicou Gretchya. — Reunimos piestras e
pedras preciosas, uma a uma. Então, as costuramos em nossos vestidos. Foi um
trabalho lento. Corlant estava sempre ali, forçando-se a entrar na casa. No
entanto, ele também saía com frequência, desaparecendo do povoado por dias
a fio.

— Durante esses momentos, Alma trazia a égua aqui e deixava


suprimentos. Ela trouxe a última das nossas coisas ontem. Nosso plano era fugir
daqui a quatro dias. Devo à Mãe mil obrigados por não saímos antes de você vir.

De alguma forma, entre todas aquelas palavras, as que mais brilharam para
Iseult foram aquelas não ditas. — Você planejou tudo isso ... antes mesmo de eu
sair da tribo? Por que você me mandou embora? Por que não apenas veio
comigo? Ou pelo menos me disse quando iria?

— Controle sua língua, Iseult. — Gretchya lançou-lhe um olhar intolerante.


— Você pode não perceber, mas levei anos de planejamento para tirá-la. Eu
tinha que te encontrar hospedagem na cidade de Veñaza. Eu tinha que te
encontrar um emprego — e fazer tudo sem que Corlant percebesse. Então,
quando Alma e eu decidimos sair também, levou mais tempo para planejar. Nós
teríamos vindo para você, Iseult. Na cidade de Veñaza. Por que você foi embora?
— Ela exigiu.

— Eu ... me meti em confusão. — Iseult sentiu a gagueira, pronta para


atacar, então mastigou sua maçã para escondê-la. — O assentamento foi o único
lugar que pude pensar para me esconder.

— Você deveria ter ficado na cidade como eu lhe disse. Eu ordenei que você
nunca voltasse.

— Você 'ordenou' isso três anos atrás. — Iseult respondeu. — Me perdoe


se eu emaranhei sua tecelagem cuidadosa.

A bandagem de sua mãe ficou mais áspera, mais tensa. Mas não havia dor...
e, felizmente, não havia mais referência a ela gaguejar.

— Vamos para Saldonica agora. — Disse Gretchya por fim. — Você pode
vir conosco.

As sobrancelhas de Iseult se ergueram. Saldonica ficava no extremo oposto


do Mar de Jadansi, uma cidade selvagem, fervilhando de comércio ilegal e crime
de todo tipo imaginável. — Mas por que pra lá?

Alma pigarreou e se afastou da vigília ao lado dos galhos. — Eu tenho tias


e primos que moram nas Montanhas Sirmayan. Sua tribo viaja para Saldonica a
cada ano.

— Enquanto isso. — Gretchya acrescentou. — Venderemos as


Threadstones. Aparentemente, há um mercado crescente para elas em
Saldonica.

— Piratas também precisam de amor. — Os lábios de Alma caíram naquele


sorriso fácil e ela olhou para Gretchya como se isso fosse uma piada
compartilhada entre elas.

E a dor na garganta de Iseult ficou maior. Ela mal conseguia engolir a maçã.

Gretchya fechou seu kit de curandeiro. — Temos dinheiro suficiente para


um terceiro bilhete para Saldonica, Iseult. Nós planejávamos convidar você.

Iseult achava difícil acreditar, mas não fazia ideia do que sua mãe, ou Alma,
sentiam agora. Não fazia ideia de que cores brilhavam em seus Threads ou que
emoções dominavam.

No entanto, não importava, pois Iseult tinha seus planos. Uma vida para
construir com Safi.

— Eu não posso ir com vocês. — Disse Iseult.

— Se não vir com a gente, então pra onde irá? — Gretchya empurrou para
seus pés, de fato quase... aliviada. Era isso que ela sempre desejou: uma filha
como Alma. Uma verdadeira Threadwitch.

— Safi está me esperando por certo.

— Mas ela não está. —Alma desabafou, e com a mão estendida, correu em
direção a Iseult.

Em sua palma estava um rubi brilhante. A segunda Threadstone.

Iseult engasgou e deixou cair a maçã. Ela arrancou sua própria Pedra, que
também brilhava com uma luz vermelha. Safi estava em apuros.

Iseult ficou de pé. A Painstone caiu de seu colo. Agonia caiu sobre ela.

Primeiro foi a dor, numa grande corrida descendente. Então exaustão que
transformou seu corpo em palha mole. Ela cambaleou para a frente, nos braços
de Gretchya. No entanto, antes que pudesse cair demais, antes que pudesse cair
no ombro da mãe e desmaiar, Alma tirou o colar da terra e colocou-o sobre o
pescoço de Iseult.

Alívio instantâneo. Alívio chocante e aterrorizante.

E quando Iseult se retirou da mãe, Gretchya voltou-se para Alma.

— Você pode sentir a localização de Safi?

Alma assentiu com a cabeça, seu aperto na pedra deixando os nós dos
dedos brancos. Então ela apontou para o sudeste. — Nesta direção. Mas ela está
se movendo para o norte rapidamente. Ela deve estar em grande perigo.
— Nós vamos. — Declarou Gretchya, movendo-se em direção à égua da
baía. — Temos dois cutelos e o arco...

— Não. — Iseult se endireitou em sua altura total. Uma brisa soprou no


salgueiro, balançando galhos e puxando o cabelo cortado. De alguma forma,
com aquela rajada de vento frio e fresco, Iseult finalmente recuperou o controle
de sua língua. Do coração dela. — Por favor, faça como você planejou e viaje
para Saldonica. — Os dedos de Iseult se envolveram ao redor da Painstone,
pronta para devolvê-la.

— Fique com ela. — Gretchya colocou a mão no pulso de Iseult. — Você


nunca chegará a Safiya de outra forma.

— E leve Alichi. — Disse Alma, apontando para a égua cinza. — Ela conhece
o terreno.

— O tigrado está bom.

— O tigrado não está bom. — Gretchya retrucou e Iseult se encolheu. Havia


emoção real na voz de sua mãe. — Alichi está descansada e conhece a trilha.
Então você vai levá-la, a Painstone e algum dinheiro. Um cutelo também. —
Gretchya puxou Iseult em direção à égua. — Ou prefere ter um arco? Você
também pode pegar o escudo.

— Eu vou ficar bem.

— Como saberei disso? — Gretchya voltou-se para Iseult, com os olhos


duros. — Eu nunca soube se te veria novamente. Você acha que foi fácil para
mim, te deixar ir? Você acha que é fácil agora? Eu te amei demais para mantê-la
nessas paredes. — Sua mãe se aproximou, suas palavras urgentes e rápidas. —
Você pegará Alichi e irá resgatar Safiya como sempre faz. Você vai me deixar de
novo porque foi feita para coisas maiores do que posso dar. E como sempre, vou
rezar para a Mãe Lua para sua segurança.

Ela empurrou as rédeas na palma esquerda de Iseult, mas descobriu que


seus dedos pararam de funcionar. Sua voz também, pois havia um buraco,
profundo e exposto, onde seu coração acabava de estar.

— Aqui. — Alma apareceu ao lado de Iseult e ofereceu-lhe um sabre, do


tipo usado para cortar grama e vegetação rasteira, em uma bainha simples em
um cinto desgastado.

Mas Iseult não pôde responder. Ela ainda estava abatida pelas palavras da
mãe. Alma enrolou o cinto ao redor dos quadris de Iseult e pendurou a segunda
pedra da linha no pescoço de Iseult. Duas luzes vermelhas brilhantes pulsando
sobre um rosa fosco. Então ela agarrou o bíceps esquerdo de Iseult. — A tribo
da minha família se chama Korelli. — Disse Alma. — Eles vêm para Saldonica
no final do outono. Pergunte por eles, se vier. E espero que você venha.

Iseult não respondeu, e ela não teve tempo de desabafar na confusão, pois
em instantes estava sentada, encostada no pescoço da égua, o sabre recuado e
fora do caminho.

— Encontre-me novamente. — Disse Gretchya. — Por favor, Iseult. Há


tanta coisa que eu não te falei sobre... tudo. Encontre-me novamente um dia.

— Eu irei. — Iseult murmurou. Então, sem outra palavra ou outro olhar,


enfiou os calcanhares nos lados de Alichi, e ela e a égua partiram atrás de Safi.
***

Iseult e Alichi encontraram a estrada com bastante facilidade. Como Alma


prometera, Alichi conhecia a rota e seu galope estava certo. Scruffs a perseguiu
por vários minutos, mas logo desistiu.

O coração de Iseult se apertou a cada passo que o cão seguia, e ela não pode
evitar de acenar quando ele finalmente parou.

Depois de um quarto de hora, os prados de prata à frente transformavam-


se em pântanos e bancos de areia iluminados pela lua. A brisa começou a cheirar
a sal e enxofre, então uma larga estrada de terra apareceu diante dela.

No entanto, em vez de chutar a égua a toda velocidade, Iseult fez o cavalo


parar. Ela estava ao norte da encruzilhada cheia de ervas daninhas em que
conheceu o monge de cabelos grisalhos, uma mulher tão diferente daquele
Bloodwitch quanto o Aether era do Vazio.

As orelhas da égua se voltaram para o sul. Alichi sentiu a companhia. Iseult


desviou o olhar para a estrada, para onde um cavalo e um cavaleiro se
aproximavam a pleno galope. Iseult podia ver o inconfundível halo do cabelo
loiro de Safi. Ela também podia ver as inconfundíveis capas brancas de quatro
mercenários Carawens a menos de 400 metros atrás.

Em que chamas do inferno Safi se meteu? E como as chamas do inferno


estavam indo para salvá-las?
Iseult fechou os olhos, deu a si mesma três inalações para encontrar o lugar
onde nunca poderia se segurar quando sua mãe ou Alma estavam por perto.
Alichi se mexeu desconfortavelmente, claramente pronta para fugir do que
estava por vir, e Iseult estava inclinada a concordar. Os cavalos não podiam
galopar para sempre, e Iseult tinha certeza de que quatro monges de Carawen
seriam difíceis de parar sem alguma defesa.

Uma defesa como o farol.

Iseult empurrou a égua para um galope. Ela precisava estar na velocidade


perfeita para entrar com Safi.

— Mova-se! — Safi gritou. — Saia da estrada, seu idiota!

Iseult apenas olhou para trás uma vez para gritar: — Sou eu, Safi! — Então
ela chutou a égua em um galope, assim que Safi se posicionou ao lado dela.

Elas galoparam lado a lado.

— Desculpe fazer você esperar! — Safi rugiu sobre a rápida corrida de


quatro batidas. Suas pernas estavam arreganhadas, o vestido de seda rasgado
e ela segurava um forcado no estômago. — E desculpe pelo problema na minha
bunda!

— Ainda bem que eu tenho um plano, então! — Iseult gritou de volta. Ela
não podia ouvir os monges perseguidores, mas podia sentir seus Threads
calmos, prontos. — O farol está perto o suficiente para nós fazermos uma
parada.

— A maré está fora?


— Deve estar!

Os Threads brancos de Safi cintilaram com um alívio azul gelado. Ela


desviou o olhar brevemente para Iseult, depois de volta para a estrada. — Onde
está o seu cabelo? — Ela gritou. — E o que aconteceu com o seu braço?

— Cortei meu cabelo e levei um tiro com uma flecha!

— Deuses abaixo, Iseult! Algumas horas de distância e toda a sua vida


passa pelos portões do inferno!

— Eu poderia dizer o mesmo para você. — Gritou Iseult de volta, embora


estivesse ficando difícil gritar e andar. — Quatro adversários em sua cola e um
vestido arruinado!

Os Threads de Safi cintilaram em um tom quase vertiginoso e depois


brilharam com laranja em pânico. — Espere, há apenas quatro Carawens?

— Sim!

— Deveria haver um quinto. — Os Threads de Safi brilhavam ainda mais


forte. — E é o Bloodwitch.

Iseult xingou, e uma grande onda de frio derrubou sua calma. Se um


soldado como Habim não conseguisse deter o Bloodwitch, ela e Safi não teriam
chance.

Mas pelo menos o farol começava a tomar forma agora, suas sólidas
muralhas separadas da estrada por uma longa faixa de praia e recuo da maré.
Os cavalos bateram na costa e nas ondas. Água salgada explodiu para cima. A
velha torre com suas cracas e lixo de gaivota estava a trinta passos de
distância... vinte e cinco...

— Desmonte! — Iseult gritou, puxando as rédeas com muito mais força do


que era justo. Ela arrancou o cavalo e, com as mãos quase tremendo, soltou o
cutelo. Ao lado dela, Safi mergulhou nas ondas profundas do tornozelo com seu
forcado apertado.

Depois, sem outra palavra, as moças se instalaram em posições defensivas,


de costas para a torre, e esperaram que os quatro monges galopassem pela
praia na direção delas.
14
O Jana escorregava pelas águas costeiras com apenas um pio de sua
madeira geralmente gemendo. Merik estava parado no leme gasto pelo tempo,
apertando-o com força e dirigindo o navio de guerra, enquanto ao lado dele no
convés de um quartel estavam Kullen e três oficiais do Tidewitch.

Como um só, Kullen e os oficiais gritavam abaixo de suas respirações, os


olhos arregalados por trás dos óculos de ar. As lentes os protegiam do ar
enfeitiçado, enquanto o chiqueiro do mar em suas línguas os mantinha focados.
Normalmente Ryber martelava o tambor de vento — com o malho
desequilibrado — para dar aos homens uma batida para cantar. E
normalmente, toda a tripulação abateria uma canção.

Mas naquela noite, silenciosos e furtivos eram necessários, então os quatro


homens cantavam sozinhos enquanto o vento e as marés que eles convocavam
arrastavam o navio para a frente. O restante da tripulação de Merik estava
sentada no convés principal, nada a fazer já que a magia fazia todo o trabalho
para eles.

Merik olhava para Kullen a cada momento, embora soubesse que seu
irmão odiava isso. No entanto, Merik odiava ver os pulmões de Kullen se
agarrarem e sua boca balançar como um peixe, e os ataques sempre pareciam
acontecer quando Kullen invocava mais magia do que deveria.

Agora mesmo, o modo como o Jana atravessava a superfície do mar, Merik


não tinha dúvidas de que Kullen estava chamando montões de poder.

Merik e seus homens haviam deixado o palácio do Doge antes do


planejado. Depois do desastroso quatro passos de Nubrevnan, Merik queria
estar em qualquer outro lugar que não fosse a festa. Sua magia estava fora de
controle, seu temperamento explodindo em suas veias, e tudo por causa
daquela Cartorrana de olhos tempestuosos.

Não que ele admitisse isso, é claro. Em vez disso, ele culpou a saída
antecipada de seu novo trabalho para Dom Eron fon Hasstrel.

Aquele homem chegou no momento perfeito, e a conversa que seguira foi


mais proveitosa do que Merik poderia ter ousado esperar.

Dom Eron era um soldado, tudo em seu porte e voz ríspida indicava isso, e
Merik instantaneamente gostou dele.

O que Eron não era, era um homem de negócios arguto e, apesar de tudo o
que Merik poderia ter acalentado com o homem, ele dificilmente apontaria que
a proposta de Dom Eron era fortemente a favor de Merik.

Tudo o que Merik tinha que fazer era carregar um único passageiro, a
sobrinha ou filha de Dom Eron ou algo assim, para uma cidade portuária
abandonada na ponta mais ocidental das Cem Ilhas. Enquanto a mulher
alcançasse Lejna ilesa (ele tinha sido especialmente enfático sobre a parte
"ilesa"), então o documento enfeitiçado agora sentado na mesa de Merik seria
considerado cumprido. Negociações para o comércio poderiam começar com
os agricultores Hasstrel.

Era um milagre. O comércio mudaria tudo para sua nação, de várias


pessoas mortas de fome para as negociações na Cúpula das tréguas. Merik nem
se importava que ele teria que navegar de volta para a cidade de Veñaza depois
de deixar a garota Hasstrel no píer de Lejna. Para que maré e Windwitches, se
não cruzando o Jadansi em dias?

Então Merik assinou o contrato ao lado de Dom Eron, e no instante em que


o homem se foi, Merik convocou Hermin de volta a sua cabine.

— Informe Vivia que o esforço de pirataria não é mais necessário, e


também mencione que o navio comercial de Dalmotti está apenas saindo do
porto de Veñaza. Apenas no caso de ela decidir que não vai recuar.

Como Merik havia antecipado, Vivia não estava pronta para desistir do
esquema, mas tudo bem. Merik poderia continuar a mentir. Logo ele teria que
trocar com alguém, e isso era tudo o que importava.

— Almirante! — A voz aguda de Ryber cortou os pensamentos de Merik.

Kullen e os outras bruxos se encolheram, e Merik xingou. Ele ordenou


silêncio, e sua tripulação sabia como ele punia a desobediência.

— Não pare. — Merik resmungou para Kullen e, com os dedos mexendo


nas coxas, ele marchou ao redor do volante e do tombadilho. Marinheiros de
olhos arregalados ficaram boquiabertos enquanto passava. Vários homens
olhavam para o ninho de corvo, onde Ryber agitava os braços freneticamente,
como se Merik não soubesse exatamente onde a garota do navio estava
estacionada.

Merik certamente colocaria Ryber nos ferros da perna amanhã. Ele não se
importava se ela e Kullen fossem Heart-Threads, desde que Ryber
permanecesse um marinheiro confiável. Isso, no entanto, era desobediência
direta, e ela ganharia seis horas amarrada nos ferros sem água, comida ou
sombra.

— Almirante! — Uma nova voz sacudiu o convés. Era um som de


desperdício de sal, Hermin. — Almirante! — Ele gritou novamente.

E Merik quase perdeu o controle de sua própria voz. Dois de seus melhores
marinheiros quebrando as regras? Dez horas nos ferros da perna. Para cada um
deles.

Os pés descalços de Ryber atingiram o convés. — Há uma batalha


acontecendo, senhor! Em um antigo farol nas proximidades.

Merik não se importava com velhos faróis. Qualquer batalha que Ryber
tivesse visto não era problema dele.

— Senhor. — Hermin bufou enquanto mancava em direção a Merik. O pé


coxo do Voicewitch mal conseguia acompanhar a sua boa, mas ele se empurrou
o mais rápido que pôde. — Senhor, recebemos uma mensagem do Voicewitch
de Eron fon Hasstrel. — Ele engoliu em seco.
— Nosso passageiro está fugindo. Visto pela última vez a cavalo a norte da
cidade e apontando para um antigo farol. Os homens de Hasstrel não podem
chegar à domna a tempo. Então cabe a nós.

— Monges de Carawen? — Ryber perguntou a Hermin. Então ela se virou


para Merik. — Porque foi o que vi através da luneta, almirante. Duas pessoas de
pé contra quatro monges.

— Hye19, são os Carawens. Hermin admitiu com um aceno de cabeça. — E


se não salvarmos esse passageiro, então qualquer acordo que você tenha será
considerado nulo.

Por um instante, Merik apenas olhou para Hermin e Ryber. Então a raiva
de Nihar conseguiu o melhor dele. Ele inclinou a cabeça para trás e deu um
rugido que cerrou o punho.

Parece que a batalha do antigo farol era problema dele, e não havia
absolutamente nenhuma razão para furtividade agora. Ele precisava deste
documento Hasstrel não contaminado. Estava enfeitiçado, então se Merik não
cumprisse os requisitos contratados, sua assinatura simplesmente
desapareceria da página.

Um acordo comercial não assinado era inútil.

Gritando para seus remadores se posicionarem, Merik girou nos


calcanhares e caminhou de volta para seus oficiais e primeiro imediato. Eles
não fizeram uma pausa em sua magia concentrada, embora tivessem mudado

19 Afirmativa, concordância. Sim em Nubrevnan.


de rumo. O Jana agora navegava para o oeste, em direção à costa. Em direção ao
farol.

— Pare. — Merik ordenou.

Quatro bocas se separaram no meio da canção. O vento soprou para baixo...


e desapareceu. O Jana seguiu em frente, mas seu ritmo diminuiu
instantaneamente.

Merik olhou para Kullen. O suor brilhava acima do lábio do primeiro


imediato, mas ele não mostrou sinais de exaustão. — Eu vou para terra. — Disse
Merik. — O navio está sob o seu comando. Eu quero que você chegue o mais
perto do farol que as profundidades permitirem.

Kullen inclinou a cabeça, o punho sobre o coração. — Ryber fique de olho


na luneta. — Continuou Merik. — Uma vez que eu tirar o passageiro desses
monges, darei o floreio do vento. Então quero que você carregue o passageiro
aqui. Assim que seus pés baterem no convés, você ordenará aos remadores e
aos marinheiros que naveguem.

Merik não esperou pela confirmação antes de marchar para o baluarte.


Atrás dele, os Cavaleiros e Kullen retomaram o barraco do mar. O vento e as
correntes voltaram a subir.

Merik encostou-se ao corrimão na altura da cintura, com o peito estufado


dando uma expiração aguda e uma segunda inspiração para expandir o pulmão.

O ar espiralou em torno de suas pernas e sua magia se concentrou para


dentro. As correntes de ar aumentaram a velocidade e a potência.
Merik foi embora.

Seus olhos lacrimejaram. O vento salgado foi forçado em seu nariz e em


sua garganta. Seu coração subiu diretamente em seu crânio.

Por esse breve segundo, quando todos os seus Windwitchery estavam


concentrados em um único funil abaixo dele, quando disparava pelo ar tão
facilmente quanto um petrel em uma onda, ele era invencível. Uma criatura de
alegria, força e poder.

E então sua altura cairia. Ele caía baixo na água e conservava sua energia
alimentando-se do salto natural do ar, pois seus poderes eram limitados e sua
magia rapidamente se aproximava. Ele não conseguiria manter o voo por muito
tempo.

O farol aproximou-se. Mais próximo. A água ficou rasa, as ondas brancas e


ele estava perto o suficiente da torre para ver duas garotas correndo ao redor,
subindo os degraus que Merik não tinha visto.

Uma era uma garota de preto com uma lâmina curta.

E a outra era uma garota de branco prateado...

Uma garota Merik reconheceu instantaneamente, até mesmo dessa


distância, mesmo com metade de seu vestido cortado. Teve tempo suficiente
para amaldiçoar Noden — e seu trono de coral também — antes que toda a sua
atenção diminuísse sua descida...

Esmagando qualquer monge que se atreveu a se aproximar de seu


passageiro.
15
Como Lady Destino quis, Aeduan foi o único Carawen que não conseguiu
encontrar um cavalo. Sua magia o levara e aos outros Carawens aos arredores
da cidade de Veñaza. Então, em um aglomerado de hospedarias, o Truthwitch
havia entrado na rua à frente. Com um simples toque do dedo de Aeduan, os
quatro monges entraram em formação e a verdadeira perseguição começou, ou
para os outros Carawens que facilmente encontraram corcéis “emprestados”
nas duas primeiras estalagens.

No momento em que Aeduan finalmente encontrou uma égua malhada do


lado de fora de uma taverna, estava pelo menos cinco minutos atrás dos outros.
Felizmente, Aeduan era um bom cavaleiro, e o malhado confiava nele. Cavalos
sempre fizeram.

Logo, ele estava galopando pela longa estrada costeira, as flechas em seu
peito saltando desconfortavelmente. Estavam farpadas, e se as removesse,
apenas rasgaria sua carne ainda mais, e então seu corpo se curaria
automaticamente. Um desperdício de energia que seria melhor usada nesta
perseguição.

Aeduan alcançou uma carroça indo para o norte a uma velocidade de


quebrar a roda. Cheirava um pouco ao Truthwitch e Aeduan vislumbrou um
cobertor sob os talos de girassol.

Um sorriso satisfeito puxou seus lábios. Era um cobertor feito de fibra de


salamandra, e se a menina só permanecesse debaixo do cobertor, Aeduan
poderia nunca mais sentir o cheiro dela novamente.

Seu erro.

Logo Aeduan passou pela carroça e pelo motorista em pânico, e depois foi
só ele e o animal malhado por vários minutos de velocidade máxima e
estimulante.

Uma torre apareceu, uma mancha escura contra o céu noturno. Aeduan
teria perdido, não fosse pelas quatro figuras brancas ao lado das ruínas de
pedra, ou os cavalos sem cavaleiro galopando em direção a ele.

Assim como ele apontou para as ondas, sua égua decidiu que os outros
cavalos tinham a ideia certa. Aeduan desistiu dela. Com um respingo, suas botas
bateram na água e ele chutou em uma corrida.

No entanto, ele só chegou à metade da torre antes de os quatro Carawens


girarem em torno dele e desaparecerem de vista. Momentos depois, uma figura
despencou do céu. Windwitch.

Aeduan contornou a torre... e um vendaval bateu nele. Ele mal conseguiu


segurar as pedras do farol antes que dois monges passassem em um tornado de
ar e água. Vinte passos, cinquenta... Eles caíram frouxamente na praia, e
provavelmente não se levantariam por um longo tempo. .
Quando o vento diminuiu, girando sobre as ondas superficiais, Aeduan se
levantou e correu em frente, para um conjunto de degraus. O cheiro indicava
que a Truthwitch subia, então Aeduan também faria.

Mas ele apenas circulou um conjunto de escadas carregadas de cracas


quando dois monges entraram no seu caminho. Aeduan agarrou a capa do
primeiro homem. — O que houve?

O monge sacudiu, como se acordasse de um torpor. — Cahr Awen. — Ele


murmurou. — Eu os vi. Precisamos nos manter de pé.

— O que? — Aeduan recuou. — Isso é impossível.

— Cahr Awen. — Insistiu o monge. Então, um berro explodiu sobre


Aeduan, sobre os sons dos ventos e das ondas. — Fiquem de pé, homens! — O
monge arrancou sua capa do aperto de Aeduan e empurrou os degraus
restantes.

Aeduan assistiu com horror quando o segundo monge seguiu.

— Idiotas. — Rosnou Aeduan. — Tolos! — Ele subiu os últimos degraus,


chegou ao último andar ... e parou.

A garota Nomatsi estava lá, vestida de preto e afundada em sua postura.


Ela segurava um sabre, arqueada numa corrente de aço prateado, enquanto seu
vestido preto de Fio de Engrenagem varria a mesma direção... E ao lado dela, de
pé, estava Safiya, de jaleco branco, com um forcado em um borrão de ferro
escuro, saias brancas e tufadas balançando para baixo.

Era o círculo do movimento perfeito. Do portador da luz e do escuro, o


iniciante do mundo e o sombreado. Da iniciação e conclusão.

Era o símbolo do Cahr Awen.

Cahr Awen.

Naquele décimo de batimento cardíaco congelado, enquanto todas as


imagens clamavam por espaço no cérebro de Aeduan, ele se permitia imaginar
se era possível, se essas duas garotas de luar e sol poderiam ser o par mítico
que seu Monastério protegeu outrora.

Mas então as garotas se afastaram, e um Windwitch apareceu atrás delas.


O homem, vestindo um uniforme naval Nubrevnan, estava curvado como se
estivesse exausto demais para lutar. Seu rosto estava escondido nas sombras,
seus dedos flexionados e o vento se reunindo lentamente em sua direção.

Aeduan se amaldiçoou. É claro que essas garotas se pareceriam com o Cahr


Awen com correntes de ar em espiral ao redor delas.

— Fique para trás! — A Truthwitch gritou. — Não se mexa!

— Ou o quê? — Resmungou Aeduan. Ele levantou o pé para seguir em


frente.

Mas a garota Nomatsi realmente respondeu. — Ou vamos decapitar você,


Bloodwitch.

— Boa sorte com isso. — Ele deu um passo à frente, e Safiya se lançou para
ele, forçando fora. — Afaste-se de nós.
Sua voz arrancou quando Aeduan tomou o controle de seu sangue.

Era sua arma secreta. Uma manipulação de sangue que usava apenas nas
situações mais terríveis. Ele tinha que isolar os componentes do sangue de
Safiya, as cadeias de montanhas e os dentes-de-leão, os penhascos e os montes
de neve, e então ele teria que imobilizá-los. Era um trabalho exaustivo, e levava
ainda mais energia e foco do que uma corrida de alta intensidade. Aeduan não
conseguia manter esse controle por muito tempo.

O corpo de Safiya estava rígido, o forcado estendido como um gladio. Ela


parecia presa no tempo. Nem mesmo os olhos dela se moviam.

Em uma corrida de velocidade, Aeduan se dirigiu para Safiya. No entanto,


assim que ele a alcançou, no momento em que se agachou para levantá-la sobre
os ombros, o Windwitch entrou em ação.

Os braços do homem se lançaram para cima, e tanto ele quanto Safiya se


afastaram da torre em um rugido de vento. O bruxo chutou Aeduan para trás,
impulsionou-o para a borda da torre.

Aeduan perdeu o controle do sangue de Safiya.

Ele lançou em velocidade. Safiya tinha três metros de altura agora e voava
para trás, seu corpo um giro frenético de membros e saias. Ela estava gritando
sobre o vento:

— Iseult! Iseult!

Se Aeduan corresse, poderia pular no funil do Windwitch...


Um corpo foi arremessado contra ele. Ele tombou para o lado, mal se
transformando em um rolo antes que a garota Nomatsi o jogasse no chão.

No entanto, Aeduan já estava girando, os dedos arranhando os pulsos ou


cotovelos que ele pudesse quebrar, a sua magia procurando por qualquer
sangue para bloquear.

Mas, assim que os dedos de Aeduan pegaram o ar vazio, sua magia não
encontrou nada, a garota já estava se afastando dele, já se aproximando da
borda da torre.

Ela iria pular. Aeduan sabia disso.

Então ele também ficou de pé e correu atrás da garota chamada Iseult.

Ela bateu na beira do farol; ela pulou.

Aeduan também atingiu a borda; e pulou.

E eles caíram. Juntos. Tão perto que Aeduan poderia agarrá-la se quisesse.

Mas era como se ela soubesse disso. Como se tivesse planejado assim.

No meio de uma queda que duraria apenas um segundo, ela girou ao redor.
Suas pernas se contorceram através dele e sacudiram seus corpos.

Suas costas bateram na areia. Tão duro que o mundo ficou preto.
Distantemente, ele sentiu a garota bater contra ele. As pontas das setas cavaram
ainda mais fundo, esmagaram suas costelas, seus pulmões. Havia dor em todos
os lugares. Seus órgãos foram todos destruídos.
E ele tinha certeza de que sua espinha também estava quebrada.

Essa foi a primeira vez.

Então as ondas lavaram sua pele. Uma respiração passou. Aeduan pensou
que poderia sair vivo ...

Até que sentiu uma explosão negra no peito.

Ele limpou todas as outras dores e seus olhos se arregalaram. O cabo de


seu estilete surgiu de seu coração. Sua capa e túnica estavam muito manchadas
para mostrar o sangue fluindo, mas ele sabia que estava ali. Pulsando mais
rápido do que seu poder poderia acompanhar.

No entanto, ele não conseguiu retirar a faca. Não podia fazer nada porque
não conseguia se mexer. Sua espinha estava definitivamente quebrada.

Aeduan levantou o olhar, o mundo fluindo, embaçado... e depois se


transformando em um rosto.

Um rosto de sombras e luar a apenas 30 centímetros de distância dele. Os


lábios da garota estremeceram a cada respiração ofegante. O cabelo dela voava
com a brisa, uma brisa natural, percebeu Aeduan, e suas coxas tremiam contra
as costelas quebradas.

Ele não viu mais ninguém, não ouviu mais ninguém. Por tudo o que sabia,
eles eram as únicas pessoas que sobreviveram nessa batalha.

No mundo inteiro.
Então seu olhar caiu em uma Painstone pendurada em seu pescoço. Seu
brilho rosado estava desaparecendo, quase desaparecendo, e ele podia ver pela
tensão no rosto dela que estava ferida. Seriamente.

No entanto, ela ainda conseguiu tirar uma faca de Aeduan. Ela ainda
conseguiu arrastá-la para o pescoço dele e segurá-la lá.

A lâmina tremia contra sua pele.

Ela o esfaqueara no coração com o estilete e agora ia decapitá-lo.

Mas o cutelo parou; a garota chamada Iseult se encolheu e sua Painstone


se acendeu em um rosa suave... antes de desaparecer completamente.

Um gemido irrompeu de seus lábios. Ela quase caiu para a frente, e Aeduan
vislumbrou a ferida em seu bíceps direito. Lençóis manchados de sangue.
Sangue, ele deveria ser capaz de cheirar.

— Você ... não tem ... cheiro. — Ele disse. Aeduan podia sentir seu próprio
sangue quente jorrando sobre os dentes, driblando dos lados da boca. — Eu não
posso cheirar ... seu sangue.

Ela não respondeu. Toda a sua concentração estava em manter o cutelo


estável.

— Por que … não posso sentir seu cheiro? Me diga ... — Aeduan não sabia
por que queria saber. Se ela cortasse a cabeça dele, ele morreria. Era a única
ferida da qual um Bloodwitch não conseguia se recuperar.

Ainda assim, ele não conseguia parar de perguntar. — Por que ... — Sangue
pulverizou com essa palavra, salpicou o aço plano do cutelo. Uma mancha
atingiu sua bochecha. — Por que não posso ... eu ...

Ela aliviou a lâmina longe de sua garganta. Não gentilmente, cortou a pele
e se arrastou para frente, como se estivesse cansada demais para erguê-la.

O coração empalado de Aeduan tremulou. Era uma estranha sensação de


alívio e confusão que se elevou com o sangue em sua boca. Ela não ia matá-lo.
Ele não tinha ideia do porquê.

— Faça isso. — Ele disse asperamente.

— Não. — Ela balançou a cabeça, um movimento brusco. Então o vento, da


variedade carregada e antinatural, soprou sobre eles, afastou o cabelo do rosto
e Aeduan se obrigou a anotar todos os detalhes.

Ele poderia não ter sentido o cheiro de seu sangue, mas se lembraria dela.
Ele se lembraria da mandíbula redonda que não combinava com o queixo
pontudo dela. Ele se lembraria do nariz arrebitado e das sardas pálidas. Seus
olhos angulosos e parecidos com gatos. Seus cílios curtos. E sua boca estreita.

— Eu vou te caçar. — Ele resmungou.

— Eu sei. — A garota largou o cutelo na areia e usou o peito de Aeduan


para se erguer. Suas costelas rangeram e seu estômago se apertou. Ela não era
leve e seus órgãos eram polposos.

— Eu vou matar você. — Ele continuou.

— Não. — Os olhos da garota se estreitaram; ela se empurrou mais ereta e


a lua fluiu sobre ela. — Eu nnn... — Ela tossiu. Então limpou a boca. — Acho que
você não vai.

Pareceu levar toda a sua concentração para soltar aquelas palavras, e foi
com uma ponta de frustração que seus dedos se entrelaçaram ao redor do
estilete mais uma vez.

Ela empurrou a lâmina mais fundo no coração de Aeduan.

Contra seu desejo mais desesperado e frenético, contra todos os instintos


que gritavam para que ele permanecesse alerta, suas pálpebras se fecharam
para uma respiração meio agonizante. Um gemido escorregou por sua língua.

Nesse momento, o peso em seu corpo desapareceu. Passos golpearam a


água para longe dele.

Quando seus olhos finalmente se abriram novamente, ele não viu nenhum
sinal da garota, não que pudesse ter virado a cabeça para olhar.

Então uma onda tomou conta dele e Aeduan afundou-se sob a espuma do
mar.
16
O vento rugiu nos ouvidos de Safi enquanto ela voava. Seus olhos correram,
suas saias foram jogadas, e rapidamente desistiu de gritar com o príncipe Merik
para voltar. Ele não podia ouvi-la.

O oceano estava embaçado sob Safi, claro e trêmulo, e ela pensou


vagamente que deveria gostar disso, afinal, estava voando.

Mas não gostou. Tudo o que ela se importava era Iseult, sendo deixada para
trás. Com o Bloodwitch.

No fundo de sua mente, outros pensamentos urgentes rosnaram, como por


que o príncipe Merik estava roubando Safi do farol. Como chegou lá em um
momento tão perfeito.

Então Safi estava voando muito rápido em direção a um navio de guerra


Nubrevnan, e isso engolfou todas as suas outras preocupações.

Os remos giraram, os marinheiros em azul correram, e uma batida forte


bateu nos ouvidos de Safi. Certa que bateria no convés principal e quebraria
todos os seus ossos, seu ritmo afrouxou. Ela desceu suavemente.
Em duas respirações, Safi teve seu equilíbrio e ficou de pé. Mais uma
respiração, e ela teve um bloqueio no Príncipe Merik. Ele estava quase no
tombadilho no momento em que agarrou a camisa dele e o arrancou. — Me leve
de volta!

Ele não resistiu, mas apontou para a margem. — Meu primeiro imediato
tem sua amiga.

Safi seguiu seu dedo. Com certeza, ela encontrou o homem alto e loiro com
sua atenção em uma figura voando por este caminho.

Iseult.

Mas a irmã de Safi estava mole. Enquanto corria em sua direção, ela rugiu
por um curador, cirurgião ou alguém para ajudar.

O primeiro imediato aliviou Iseult no tombadilho com sua magia, e Safi foi
imediatamente para o lado dela. Ela puxou a cabeça de Iseult em seu colo e
pressionou os dedos contra a garganta, rezando por um pulso... Sim, sim. Fraco,
mas lá.

Embora, à luz do luar, não faltasse a crescente mancha de vermelho no


braço de Iseult ou a Painstone morta em volta do pescoço.

O movimento brilhou nos cantos da visão de Safi. O príncipe, o primeiro


imediato, outros marinheiros se aproximavam. Então veio um lampejo branco
e uma voz de mulher. — Pegue meu kit!

Safi deu um puxão ao redor para encontrar uma monja Carawen


caminhando em sua direção da escada abaixo dos conveses.
— Afaste-se da garota. — A mulher ordenou.

Mas Safi não se mexeu. Depois de ser caçado por Carawens, ela não iria
deixar outro chegar perto. Se aqueles quatro monges estivessem trabalhando
com o Bloodwitch, provavelmente esta também estava.

A mulher tinha cabelo branco prateado, mas a maneira como a lua


deslizava sobre sua pele não podia ser mais velha que Mathew ou Habim, e ela
estava liberando sua espada com a postura de uma espadachim igualmente
hábil. — Afaste-se, garota.

— Então você pode terminar o que os outros monges começaram? Não,


obrigada. — Em uma onda de movimento, Safi puxou um sabre da bainha do
primeiro imediato e disparou contra a monja ... que habilmente se abaixou sob
o próximo ataque de Safi, e depois bateu a lâmina contra o joelho de Safi.

— Alguém a pare! — Gritou a monja.

E assim, o ar de Safi sufocou.

Ela tentou empurrar seus pulmões, apertar seu estômago, fazer qualquer
coisa para respirar, mas não havia nada.

Com um golpe fácil, a monja derrubou a lâmina de Safi. O cutelo bateu na


madeira e Safi agarrou sua garganta. Estrelas piscaram em sua visão. O primeiro
imediato era um Airwitch completo, e ele estava desmoronando nos pulmões
de Safi.

Foi nesse momento, quando os joelhos de Safi se dobraram e o mundo se


transformou em escuridão, que Merik passou por cima dela, sua expressão
dura, mas não cruel. — Evrane não significa perigo para sua amiga. Ela é uma
monja curadora, Domna. Uma curandeira Waterwitch.

Safi agarrou sua garganta, incapaz de falar, de respirar.

— Se você prometer se comportar — Ele continuou. — então Kullen


retornará seu ar. Você pode prometer isso?

Safi assentiu desesperadamente, mas estava muito atrasada. Seu corpo


estava com falta de ar e a escuridão a alcançou.

***

Safi acordou com a língua gorda e pegajosa. Passos batiam acima, a água
espirrava contra a madeira rangente e o cheiro de sal e alcatrão era espesso nas
narinas. Por vários momentos, tudo o que ela conseguiu perceber foi uma sala
escura com um feixe fraco de luz solar filtrando através de uma janela à sua
esquerda. Então o quarto se orientou, e Safi viu Iseult esparramada sobre uma
única palete aparafusada no canto oposto. Os olhos de Iseult estavam fechados,
sua respiração ofegante.

Safi se pôs de pé, tropeçando em um segundo estrado e quase estatelada


pelo sangue rugindo em sua visão.

— Iseult? — Ela caiu no chão ao lado de sua irmã. O suor escorria pelo
rosto dela, a pele ainda mais pálida do que o habitual, e quando Safi pressionou
a mão gentilmente contra sua testa, a pele estava fervendo.

Apenas uma vez Safi viu Iseult tão gravemente ferida, depois que ela
quebrou a tíbia, mas essa lesão era pior. Não havia Mathew ou Habim para
ajudá-las agora. Safi e Iseult estavam sozinhas. Completamente sozinhas em um
navio estrangeiro sem ninguém do lado delas.

E com nada disso fazendo qualquer sentido. Iseult havia mencionado levar
um tiro, mas como, ou porquê, Safi não fazia a menor ideia.

A trava de ferro na porta girou. Safi ficou imóvel, o mundo inteiro se


aquietou; a monja vestida de branco entrou. Lentamente, como se estivesse de
frente para um animal selvagem, ela virou a mão na direção de Safi. A pele
bronzeada pelo sol estava marcada com um triângulo invertido para a bruxaria
da Água e um círculo para sua especialização com os fluidos do corpo. Safi fixou
seu olhar e sua magia na mulher, e quanto mais a olhava, mais via o coração da
curandeira verdadeiro.

No entanto, Safi não conseguia confiar plenamente... Como o príncipe a


chamara? Evrane. Safi tinha sido enganado com muita frequência ultimamente.
Por enquanto, ela observaria o trabalho da monja e aproveitaria o momento
para obter qualquer informação que pudesse.

Safi ficou de pé e se afastou de Iseult, subindo as mãos em submissão. —


Eu não vou interferir. Apenas certifique-se de curá-la.

— Ela vai fazer o melhor que puder. — Disse uma nova voz. Merik
apareceu na porta quando a monja cruzou levemente a Iseult.
Safi sorriu para o príncipe, um flash entediado e inofensivo de dentes. —
Eu estava pensando quando você viria, Príncipe. Se importa em me dizer onde
estamos?

— Em Jadansi ocidental. Você esteve dormindo por quatro horas. — Ele


andou cautelosamente para o centro da sala, como se não fosse estúpido o
suficiente confiar no comportamento de Safi. Ele usava um simples casaco azul-
marinho sobre uma camisa e calça limpas, e Safi foi subitamente atingida por
sua própria sujeira. Seu vestido estava rasgado e manchado, e muito de suas
panturrilhas e coxas sujas de barro estavam expostas.

Então, mais rápido, e mais silenciosamente do que Safi poderia esperar,


Merik chegou mais perto, prendeu os braços de Safi nas costas e apertou algo
frio contra sua garganta. O cheiro de sândalo e limões perfurou seu nariz.

Safi não se encolheu, no entanto. Ela simplesmente inclinou a cabeça para


o lado e falou lentamente: — Você percebe que sua lâmina ainda está
embainhada?

— E você percebe que eu ainda posso te matar com isso? — A respiração


de Merik fez cócegas no ouvido dela. — Agora me diga, Domna: Você é
procurada pelas autoridades? Alguma autoridade de qualquer nação?

Seus olhos se estreitaram. Merik estava no baile. Ele tinha ouvido o


anúncio do noivado... Ou não tinha? Safi não o tinha visto no meio da multidão,
então talvez ele tivesse abandonado a bola antes da declaração de Henrick.

Safi estimulou sua magia por alguma indicação da verdadeira natureza de


Merik. O poder instantaneamente foi carregado através dela, tanto agarrando
como morno. Uma contradição de falsidades e verdade, como se Merik pudesse
devolver Safi ao Imperador Henrick, se lhe fosse dada a chance... Ou talvez não.

Safi não podia arriscar. No entanto, antes que pudesse falar, Merik
pressionou a adaga com mais força em sua carne. — Eu tenho uma equipe para
proteger, assim como uma nação inteira. Sua vida não é nada comparado a isso.
Então não minta para mim. Você é procurada?

Safi hesitou, considerando se ela estava pondo em perigo a frota de Merik.


Seu tio Eron havia encenado o voo para parecer um sequestro, aquilo que
Mathew havia dito a ela. No entanto, até onde sabia, não havia como o
Imperador Henrick descobrir onde Safi havia sido levada.

Então ela levantou o queixo, expondo sua garganta ainda mais.

— Sua estratégia é pobre, Príncipe, pois se há ou não pessoas me


perseguindo, não tenho qualquer incentivo para lhe dizer.

— Então acho que vou te matar.

— Faça isso. — Ela provocou. — Corte minha garganta com sua adaga
ainda embainhada. Eu adoraria ver como você conseguirá tal fato.

A expressão de Merik não vacilou. Nem o punhal. — Primeiro me diga por


que os Carawens estavam atrás de você.

Os ombros da monja endureceram, atraindo os olhos de Safi para suas


costas de manto branco. — Eu não tenho ideia, mas você poderia perguntar
àquela Carawen ali. Ela parece saber.
— Ela não sabe. — A voz de Merik era afiada com impaciência. — E você
faria bem em abordá-la corretamente. Ela é Monja Evrane, irmã do rei Serafin
de Nubrevna.

Agora, havia algumas informações úteis. — Então, se Monja Evrane é a


irmã do rei, — Ponderou Safi. — e o rei é seu pai... Dessa maneira, Monja Evrane
deve ser sua tia! Que legal.

— Estou surpreso. — Merik disse — Levou muito tempo para descobrir


isso. Até mesmo uma Domna de Cartorra deveria ser bem educada.

— Eu nunca me importei muito com meus estudos. — Ela retrucou, e Merik


bufou.

Foi um riso engraçado que pareceu pegá-lo de surpresa, e irritá-lo


também, pois ele abruptamente estudou seu rosto e retirou a lâmina
embainhada.

Safi cerrou a mandíbula e esticou seus ombros. — Agora esse foi um


impasse divertido. Vamos fazer isso de novo amanhã?

Merik ignorou-a e, com a mão livre, tirou um pano do casaco e limpou a


bainha gravada. — Neste navio, minha palavra é lei, Domna. Você entende? Seu
título não significa nada aqui.

Safi assentiu e lutou contra o impulso irresistível de revirar os olhos.

— Mas estou disposto a oferecer-lhe um acordo. Não vou te prender em


correntes se você prometer parar de se comportar como um cão feroz, e se
comportar como o domna que você deveria ser.
— Mas Príncipe, — Ela abaixou as pálpebras em um piscar de olhos
indolente. — meu título não significa nada aqui.

— Vou tomar isso como um 'não' então. — Merik se virou como se fosse
sair.

— Concordo. — Disse Safi, vendo que era hora de desistir. — Nós temos
um acordo, Príncipe. Mas só para você saber, é um gato.

O príncipe franziu a testa. — O que é um gato?

— Se vou ser qualquer coisa selvagem, vai ser um gato. — Safi mostrou os
dentes. — Um leão da montanha, da variedade Nubrevnan comedor de peixe.

— Hmm. — Merik bateu em seu queixo. — Nunca ouvi falar de tal fera.

— Então suponho que eu seja a primeira. — Safi acenou com desdém para
ele antes de cair de volta ao lado de Iseult.

Mas Evrane levantou uma mão hesitante. — Você está muito suja para
estar aqui, Domna. — Sua voz era rouca, mas não indelicada. — Se realmente
quer ajudar sua amiga, então deve limpar-se. Merik, você vai garantir que ela
seja cuidada? — Ela olhou para o sobrinho, que já estava apontando para a
porta.

— É Almirante Nihar. — Corrigiu o príncipe. — Pelo menos enquanto


estamos no mar, tia Evrane.

— É mesmo? — A monja perguntou calmamente. — Nesse caso, é Monja


Evrane. Pelo menos enquanto estivermos no mar.
Safi teve tempo suficiente para ver a expressão de Merik se tornar azeda
antes que o príncipe saísse pela porta, e correndo atrás dele.

***

Subir o degrau superior da escada mostrou-se mais difícil do que Safi


previa, com o corpo dolorido e o implacável ataque de sol matinal. Assobiando
e esfregando os olhos, ela tropeçou no convés de pedra. Suas pernas estavam
entorpecidas pela falta de uso e, assim que segurou com força a madeira, o navio
gemia e se levantava para o outro lado.

O príncipe caminhava logo em frente, conversando com seu primeiro


imediato, Kullen, então Safi pôs a mão nos olhos. Aprenda seu terreno. Havia
pouco para ver além das ondas, apenas o horizonte oriental tinha uma crosta
de terra escarpada que separava o mar de um céu sem nuvens.

Safi fugiu em torno dos marinheiros. Eles esfregavam a madeira, corriam


até os cordames, levantavam e rebocavam, tudo sob os gritos roucos de um
homem mais velho e coxo. Embora alguns parassem para saudar seu príncipe,
nem todos faziam. Um homem em particular chamou a atenção de Safi, sua
magia coagulando ao vê-lo, como se dissesse que ele era indigno de confiança.
Corrupto.

— Matéria amorosa de Matsi. — O homem rosnou quando Safi passou.

Ela sorriu para ele, certificando-se de memorizar seu rosto de queixo


quadrado.

Logo ela havia tropeçado na popa do navio (contou trinta passos) e entrou
na sombra bem-vinda do tombadilho. Merik abriu uma porta, murmurando
algo para Kullen. Em seguida, o primeiro imediato saudou e marchou de volta
pelo caminho por onde veio, sua voz subindo com ferocidade surpreendente.
— Eu disse que você poderia fazer um calafetar, Leeri? Não há sonecas até que
você esteja morto!

Com os ouvidos zumbindo do rugido de Kullen e sua visão coberta pela


perda da luz do sol, Safi parou na porta até o quarto tomar forma.

Era uma cabine elegante e de modo algum o tipo de espaço que ela
imaginaria para um homem robusto como Merik. Na verdade, ele parecia rígido
e desconfortável enquanto esperava ao lado de uma mesa primorosamente
entalhada com cadeiras de espaldar alto.

— Feche a porta. — Ele ordenou. Safi fez, mas tensionou seus músculos.
Ela poderia ter dançado e lutado com esse homem, mas isso não significava que
confiava nele em uma sala sozinha.

Falso, contra-atacou seu poder, uma sensação de calma passando por seu
peito. Merik era seguro.

Safi relaxou... mas apenas ligeiramente. Talvez ele não quisesse dizer nada
a ela, mas ainda não sabia se ele era um aliado ou um oponente.

Merik apontou vagamente para o fundo da sala. — Há água para se limpar


e um uniforme para você.
Safi seguiu o dedo até uma coleção de espadas brilhantes na parede dos
fundos. Abaixo das espadas estava um pequeno barril e algumas toalhas
brancas sobre uma cama baixa.

Ela não se importou com a água ou as toalhas, foram as espadas que achou
intrigantes. Elas estavam amarradas, mas claramente fáceis de se soltarem.
Apenas se achasse que precisava de uma, é claro.

Merik pareceu interpretar mal o olhar de Safi, pois sua expressão se


suavizou. — Minha tia é uma boa curandeira. Ela ajudará sua irmã de linha.

Verdade. — E você, Príncipe? Você vai matar Iseult por ser Nomatsi?

Os lábios de Merik se abriram, com choque. Com repulsa. — Se eu odiasse


Nomatsis, Domna, então eu a teria matado de cara.

— E os seus homens? — Safi pressionou. — Eles vão machucar Iseult?

— Eles seguem minhas ordens. — Ele respondeu.

Mas Safi não gostou de como sua magia estremeceu com essa declaração.
Como se não fosse bastante verdadeiro. Seu pé começou a bater. Seu pé
descalço. — Eu recebo sapatos novos?

— Eu não encontrei nenhum que se encaixe em você. — Merik alisou sua


camisa, puxando o algodão contra as linhas de seu peito. — Por enquanto, você
vai ficar descalça. Você vai sobreviver?

— Sim. — Habim insistiu que Safi endurecesse seus pés contra os


elementos. Você nunca sabe em que condições você se encontrará, ele sempre
dizia. Sapatos deviam ser um luxo, não um requisito. Pelo menos uma vez por
mês, ele insistia para que Safi e Iseult ficassem descalças por um dia inteiro, e
as duas meninas tinham calosidades suficientes para atravessar carvão quente.
Ou… pelo menos areia escaldante.

Merik grunhiu, quase agradecido, e gesticulou para que Safi se juntasse a


ele na mesa. Ela fez, embora tivesse certeza de ficar do lado oposto. A pouca
distância das espadas, apenas para o caso de o mundo repentinamente ser
levado para peitos de cabrito (como tinha sido inclinado a fazer ultimamente)
e Safi tivesse que lutar contra o navio inteiro.

— O Jana está aqui. — Merik colocou uma réplica do tamanho de uma


moeda do Jana no mapa. Como um ímã para uma pedra, o barco deslizou sobre
o papel e trancou-se perto da costa leste do estreito Mar de Jadansi.

— Estamos indo para cá. — Merik girou os dedos (graciosos, apesar de sua
aspereza) e uma brisa suave soprou nas velas da miniatura de Jana. Passou pelo
mapa, passando por outro pequeno navio antes de parar ao lado de uma série
de ilhas. — Há uma cidade nas Cem Ilhas chamada Lejna e estou encarregado
de deixar você lá. Devemos chegar amanhã.

— Cem Ilhas. — Repetiu Safi suavemente. — E o que você espera que eu


faça quando eu estiver lá?

— Simplesmente foi me dito para deixar você. Não faço ideia do porquê, já
que é uma cidade fantasma, mas a compensação é boa demais para eu ignorar:
um acordo comercial com os Hasstrels.

As sobrancelhas de Safi saltaram para o alto. — Você percebe que nossas


terras são praticamente propriedade da coroa, nossos fazendeiros estão quase
mortos de fome e não temos mais dinheiro?

— Qualquer contrato. — Merik disse, apertando a mandíbula. — É melhor


do que Nubrevna tem atualmente. Se eu puder abrir o comércio com uma única
propriedade Cartorrana, então eu vou levá-la.

Safi assentiu distraidamente, não mais escutando. Quando Merik disse


contrato, seus olhos deslizaram para um pergaminho enrolado na beira da
mesa. Ainda antes que Safi pudesse perguntar sobre isso, seu estômago roncou.
— O que tem de comida, Príncipe?

— Você não comeu o suficiente no baile? — Merik ofereceu um sorriso.

Mas Safi não podia sorrir de volta. A bola e os quatro passos do Nubrevnan
foram uma vida atrás.

Como se lesse sua mente, o sorriso de Merik vacilou. Ele brincou com o
colarinho.

— Eu não sabia que seria você, Domna. Se soubesse no baile que você era
meu passageiro... — Ele deu de ombros, sua mente claramente se voltando para
dentro. Seus pensamentos caindo em voz alta. — Suponho que eu teria levado
você para o Jana e economizado a nós dois muito tempo e dificuldade. Mas seu
nome não estava no meu contrato até depois que eu saí da festa. Mesmo assim,
não percebi que você era a Domna de Hasstrel.

Safi assentiu, sem surpresa. Eron precisava dela na festa como sua mão
direita distraída, e seu plano nunca teria funcionado se Merik a tivesse levado
mais cedo.

Mais importante, Merik nunca teria concordado em carregar Safi se


soubesse a quem ela acabaria prometida.

Um silêncio se espalhou, quebrado apenas pela madeira gemendo e gritos


dos marinheiros. Merik voltou sua atenção para os mapas, e Safi não resistiu em
estudá-lo.

Embora soubesse que Merik devia ter a mesma idade que Leopold, ele
parecia muito mais velho. Seus ombros eram largos e altos, os músculos usados,
enquanto sua pele estava escurecida pelo sol e áspera. No momento, um vinco
triangular se enterrava entre as sobrancelhas, como se as franzisse com
frequência.

Merik assumia seus deveres como príncipe e almirante a sério. Safi não
precisava de sua magia para saber disso, e um pavor inesperado apertou em
seu peito. Ela não queria Merik ferido pelos esquemas de seu tio. Até onde ela
podia dizer, ela e Merik eram ambos apenas marionetes. Ambos apenas cartas
sendo jogadas contra sua vontade.

A Rainha dos Morcegos e o Rei das Raposas, ela pensou fantasiosa... Então,
mais selvagemente: Ou talvez não tenhamos nenhuma carta de tarô, e sejamos
apenas Tolos.

Merik ajeitou o colarinho e olhou para a porta. — A comida está a caminho,


Domna, então se limpe. E, para nosso bem, por favor, se esfregue bem. — Mais
uma vez, ele ofereceu um leve sorriso antes de sair rapidamente da cabine. Safi
observou-o ir, esperando até que ele estivesse firmemente fora da cabine...
A porta se fechou e, em menos de um segundo, ela mergulhou no
pergaminho e desdobrou-o.

Escrito em um roteiro familiar estava exatamente o que Merik havia


descrito.

Este acordo é entre Eron fon Hasstrel e Merik Nihar de Nubrevna. Merik
Nihar dará passagem a Safiya fon Hasstrel, da cidade de Veñaza, no Império
Dalmotti, a Lejna, em Nubrevna. Após a entrega segura do passageiro ao sétimo
píer em Lejna, as negociações para um acordo comercial serão iniciadas.

Todas as negociações na página dois deste contrato terminarão se Merik


Nihar não levar o passageiro a Lejna, se o passageiro derramar sangue, ou se o
passageiro morrer.

Safi virou para a segunda página, que estava cheia de linguagem maçante
como "importações" e "valor de mercado". Ela esfregou as páginas entre os
dedos. Elas eram leves e transparentes.

Wordwitchery. E como a caligrafia era claramente de Mathew, Safi sabia


de quem era a magia.

Foi o mesmo tipo de documento que a Trégua de Vinte Anos. Assim que a
barganha fosse cumprida, Merik e o tio Eron poderiam alterar a linguagem do
contrato e negociar a grandes distâncias.

Safi virou para o final do documento. Tinha a linguagem usual, idêntica, na


verdade, à última página da Trégua.

Se todas as partes estiverem de acordo, elas deverão assinar abaixo. Se


alguma das partes não cumprir os termos acordados, o nome dele ou dela
desaparecerá deste documento.

Uma batida soou na porta.

Safi pulou, então empurrou as páginas do contrato de volta juntas.

— Um momento!

— Eu trouxe comida para você. — Respondeu uma voz abafada.

Kullen. O primeiro imediato brutal. Ela jogou o contrato na mesa antes de


ir para o fundo da sala. Depois de enfiar um pano no cano, gritou: — Entre!

Safi endureceu o rosto. Ela cooperaria com seus novos aliados, mas a
qualquer sinal de problema, a qualquer indício de que Kullen poderia impedi-
la de respirar de novo, Safi estaria reivindicando controle. Havia espadas ao
alcance e um contrato que dizia que ela não podia derramar sangue.
17
Merik atravessou o convés principal do Jana, franzindo a testa para o sol
quente. Levar Safiya fon Hasstrel para Lejna sem incidentes poderia ser mais
difícil do que ele planejou. Ela se comportava como uma lutadora, como se
dançasse, empurrando as pessoas para a borda e testando seus limites.

Dificilmente ajudava que as pernas de Safiya estivessem em exibição desde


que a resgatou, distraidamente mais pálidas do que seus braços e rosto. Foi essa
palidez que irritou Merik. O fato inegável de que ele estava vendo sua pele, que
deveria ser vista apenas para os olhos de um amante.

Merik soltou uma respiração áspera. Pensar em Safiya fon Hasstrel em


uma capacidade íntima não era sábio. Sempre que ele a considerava, ou estava
perto dela, a raiva de Nihar se acendia. Fervia quente e rápido.

Desde que o temperamento de Merik disparou na sala de jantar do Doge,


havia uma carga em suas veias que fazia sua respiração ofegar. O fazia querer
convocar ventos vastos e furiosos. Era a mesma raiva selvagem que liberou com
muita facilidade quando criança. Ele não podia ceder agora, se não fosse por
outra razão a não ser ficar muito parecido com Vivia. Desenfreado e violento.

Merik não gostava de ser desenfreado. Não gostava de mar agitado. Ele
gostava de ordem e controle, além de rabos de cavalo perfeitamente enfiados.
Ele gostava de ondas calmas, céu limpo, e saber que sua fúria estava a uma
milha de distância.

Portanto, Merik teria que evitar Safiya o máximo possível, não importava
quão facilmente ela se assustasse e sorrisse dele. E não importava o quão
atraentes suas pernas nuas pudessem ser.

O mais próximo dos marinheiros de Merik, homens de seu navio anterior,


fez uma pausa para se cumprimentarem. Movimentos sinceros dos marinheiros
que Merik podia confiar em seus túmulos aquáticos.

Merik assentiu bruscamente antes de seu olhar se dirigir ao timoneiro do


Tidewitch. Aquele homem era um remanescente da tripulação do Rei Serafim
e, como a maioria dos homens velhos do rei, o Tidewitch não se impressionava
com Merik. Ainda assim, pelo menos verdadeiramente ele guiava Jana.

Por agora.

Merik correu os olhos atentamente para cada mastro, através do cordame,


sobre as velas. Tudo parecia estar ordenado, então ele partiu para a escada
abaixo dos conveses.

Uma vez que ele estava sob e firmemente abrigado dentro da cabine de
passageiros, ele encontrou sua tia mexendo com seu brinco de opala. — Acabei
de falar com Hermin. — Ela disse calmamente. — Ele conseguiu entrar em
contato com o Voicewitch no Monastério Carawen. Acontece que os monges do
farol receberam ordens de capturar a Domna com vida, mas, uma vez que os
monges a viram, a maioria recuou.
— Por que? — Merik perguntou, olhando para Iseult adormecida. Como
alguém poderia temê-la estava além dele. Então, novamente, ele tinha visto
muitas caravanas Nomatsi quando menino, então estava acostumado a sua
palidez mortal e cabelos negros.

Quando sua tia não respondeu a sua pergunta, Merik se voltou para ela. Ela
estava balançando a cabeça. — Tudo o que sei com certeza é que há um monge
Carawen ainda caçando a Domna. Seu nome é Aeduan, e ele trabalha pelo maior
lance. — Com um forte suspiro, Evrane foi até a janela e olhou para o sol. —
Enquanto ele viver, essas garotas estão em perigo, pois Aeduan é um
Bloodwitch, Merik.

A cabeça de Merik recuou. — Tal coisa existe? — Com o aceno sombrio de


sua tia, ele pensou na luta no farol. Na insanidade do momento, achou que
tivesse imaginado o vermelho nos olhos do jovem monge. O modo como o
monge havia trancado Safiya no lugar.

Mas não. Tudo tinha sido real. O Bloodwitch era real.

— Certamente, porém — Merik disse lentamente. — este Bloodwitch não


pode nos alcançar antes de Lejna. E assim que deixarmos a Domna, o monge
não será mais problema nosso.

As sobrancelhas de Evrane se elevaram. — Você abandonaria essas


meninas para um lobo tão facilmente?

— Para proteger minha tripulação eu faria. Para proteger Nubrevna.

— No entanto, uma tripulação inteira poderia enfrentar um único homem.


Até mesmo um Bloodwitch.

— Não sem baixas, e não posso arriscar meus marinheiros por duas
garotas, não importa o quanto precisemos desse contrato. Assim que
abandonarmos a Domna, ela e sua amiga não serão mais problema meu.

— Passou tanto tempo desde que te vi pela última vez? — A cor subiu nas
bochechas de Evrane. — Se você acha que seu pai vai respeitá-lo mais porque
você age como Vivia, você abandona meninas indefesas, então talvez você não
queira o respeito de seu pai.

Por um longo momento, os únicos sons foram o gemido das tábuas do


navio e o barulho das ondas. — Você não tem o direito — Disse finalmente
Merik. — de me comparar a Vivia. Ela considera sua tripulação como forragem
de peixe; eu os vejo como família. Ela recorre à pirataria para alimentar
Nubrevna; eu procuro por soluções permanentes. — A voz de Merik se levantou
quando falou, sua raiva queimando mais forte. Mais quente. — Domna fon
Hasstrel oferece uma dessas soluções, e ela é tudo menos desamparada. Por
isso vou proteger meus homens, com unhas e dentes, e deixar a Domna se
defender sozinha.

No colchão, Iseult se mexeu durante o sono e a respiração de Merik se


soltou. Ele quis seu temperamento abaixo da superfície. Sua tia significava
muito, e ela tinha todos os motivos para impedir que Merik agisse como sua
irmã.

— Por favor. — Merik terminou bruscamente. — Lembre-se que a marinha


Nubrevnan normalmente não transporta monges, ou nobreza marginalizada,
através do oceano, e papai deveria saber que te trouxe a bordo... bem, você pode
adivinhar a reação dele. Não me faça lamentar a minha decisão de carregar
você. Eu protegerei Domna Safiya enquanto o contrato de Hasstrel não for
cumprido, e a levarei para Lejna de qualquer maneira que eu puder. Mas no
primeiro sinal do Bloodwitch, meus homens devem vir primeiro.

Por vários momentos, Evrane ficou parada e em silêncio, os olhos fixos nos
de Merik. Mas então ela soltou um suspiro agudo e se virou. — Sim, almirante
Nihar. Como quiser.

Merik observou a parte de trás de sua cabeça prateada enquanto se


arrastava para o catre e mais uma vez se ajoelhava ao lado de Iseult. Um desejo
de se desculpar fez cócegas no fundo de sua garganta, uma necessidade de
garantir que Evrane entendesse por que ele fez essas escolhas.

Mas Evrane havia decidido sobre a família Nihar há muito tempo. Sua
relação com o rei Serafin não era melhor do que a de Merik com Vivia. Pior
ainda.

Quando Merik saiu da cabine e fez o seu caminho para cima, ele considerou
a melhor maneira de lidar com o Bloodwitch se de fato o homem estivesse vivo.
Parecia que a única estratégia seria chegar a Lejna no menor tempo possível.
Então, embora Merik estivesse relutante em fazê-lo, teria que chamar seus
Tidewitches mais uma vez. Claro, isso deixaria seus marinheiros com pouco a
fazer.

Felizmente, Merik sabia exatamente como lidar com o tempo de


inatividade. — Drill! Posicionem-se! — Ele gritou, colocando as mãos. — Eu
quero todos os marinheiros em posição de perfuração agora!

***

Iseult ficou em seu sono. Ela estava presa naquele lugar horrível entre os
sonhos e o despertar, aquele buraco onde você sabia que se pudesse abrir seus
olhos, estaria viva. Este meio-sonho sempre a atingia durante a doença. Quando
ela não queria nada mais do que acordar e implorar por uma tintura para aliviar
sua garganta inchada ou o comichão em sua pele.

O pior, porém, era quando os meio-sonhos agarravam Iseult em meio a um


pesadelo. Quando ela sabia que poderia fugir da sombra se pudesse despertar.
Se.

Um rangido alto soou acima dela e, com grande esforço, ela ergueu as
pálpebras. As sombras recuaram... só para serem substituídas pela dor. Cada
centímetro dela estava se afogando na agonia.

Uma mulher materializou-se, o cabelo prateado e o rosto familiar. Ainda


estou sonhando, pensou Iseult vagamente.

Mas então a mulher tocou o bíceps de Iseult e foi como um piolho saindo.
O aqui e o agora chutaram o corpo de Iseult.

— Você. — Iseult resmungou. — Por que... você está aqui?


— Eu estou curando você. — Disse a monja calmamente, com seus Threads
verde brilhantes concentrados. — Você tem uma flecha no seu braço.

— Não. — Iseult procurou desajeitadamente o lindo manto branco da


monja. — Quero dizer... você. — Suas palavras giraram... não, o quarto girou e
as palavras de Iseult rodaram com ele. Ela não tinha certeza se falava em
Dalmotti. Pode ter sido Nomatsi caindo da sua língua.

— Você — Ela tentou de novo, quase certa de que estava, de fato, usando a
palavra Dalmotti para você. — me resgatou. — Quando apertou as palavras
além da dor e da fiação, notou manchas de sujeira no manto da monja. Ela
instantaneamente soltou seu aperto, envergonhada. Então respirou fundo.
Muita dor. Fervendo como piche quente. Estase. Estase nas pontas dos dedos e
nos dedos dos pés.

— Seis anos e meio atrás, você me encontrou em uma encruzilhada. Norte


da cidade de Veñaza. Eu era uma garotinha e me perdi. Eu tinha uma boneca de
pano.

Ar assobiou entre os dentes da mulher. Ela balançou para trás, Threads


brilhando com bronze confuso. Então sua cabeça balançou mais rápido, seus
Threads agora turquesa com descrença...

Até que de repente, ela estava se inclinando para perto, piscando, piscando
e piscando. — Seu nome é Iseult?

Iseult assentiu, brevemente distraída de sua dor. Os olhos da monja


brilharam de maneira estranha, como se as lágrimas se derretessem. Mas talvez
fosse a escuridão da sala. O ângulo do sol. Os Threads dela não mostravam
tristeza azul, apenas ameixa e cor-de-rosa.

— Era você... — Continuou a monja. — Na costa há seis anos e meio?

— Eu tinha doze anos. — Disse Iseult. — O N-nome da boneca era ... Eridysi.

Mais uma vez, uma forte expiração da monja, balançando para trás como
se tivesse abatida pelo que ela ouviu. — E você aprendeu meu nome? Eu contei
para você?

— Eu não penso assim. — A voz de Iseult era fraca e distante, mas ela não
podia dizer se era porque seus ouvidos ou sua garganta pararam de funcionar.
O fogo em seu braço estava subindo agora, como uma maré crescente.

A monja recuou, tornando-se rapidamente o curador capaz mais uma vez.


Ela colocou uma mão quente no ombro de Iseult, logo acima da ferida da flecha.
Iseult estremeceu, depois relaxou quando o sono a puxou.

Mas Iseult não queria dormir. Ela não podia encarar os sonhos novamente.
Já não era ruim o suficiente que ela tivesse sido espancada e assediada na vida
real? Ter que revivê-lo em seu sono...

— Por favor. — Disse ela com a voz grossa, pegando o manto da monja
mais uma vez, não se importando com a sujeira. — Chega de sonhos.

— Não haverá sonhos. — A mulher murmurou. — Eu prometo, Iseult.

— E... Safi? — A atração do sono ondulou pela espinha de Iseult. — Ela está
aqui?
— Ela está aqui. — Confirmou a monja. — E deve retornar a qualquer
momento. Agora durma, viva e cure.

Então Iseult fez o que lhe foi dito, não que ela pudesse ter resistido, mesmo
que quisesse, e afundou sob a maré de um sono reparador.
18
No extremo norte do Jana e ainda nas mesmas águas, Aeduan, o
Bloodwitch, acordou. Ele foi despertado pela sensação irritante de dedos
cutucando suas costelas.

Quando as nuvens da inconsciência recuaram, os sentidos de Aeduan se


expandiram. A luz do sol esquentou seu rosto e a água acariciou seus braços.
Ele cheirava salmoura.

— Ele está morto? — Perguntou uma voz alta. Uma criança.

— É claro que ele está morto. — Disse uma segunda criança, que Aeduan
suspeitava ser quem estava remexendo em seu cadáver. — Ele caiu na praia
ontem à noite e não se mexeu desde então. Quanto você acha que as facas dele
vão valer?

Um estalo soou, como se o cabelo de Aeduan tivesse se soltado.

Os resíduos finais do sono desapareceram. Seus olhos se arregalaram, ele


agarrou o pulso da criança, e o menino magricela que remexia em seus bolsos
gritou. A alguns passos de distância, um segundo garoto ficou olhando. Então
os dois começaram a gritar, e os tímpanos de Aeduan quase se partiram.

Ele soltou o primeiro garoto, que fugiu em uma onda de areia. Pulverizou
Aeduan e um gemido passou pela sua língua. Ele socou os punhos na praia —
eles afundaram na areia molhada e encharcada — e se endireitou.

O mundo tremia e manchava: praia bege, céu azul, pântanos marrons,


garotos correndo e um maçarico a vários metros de distância. Aeduan desistiu
de tentar descobrir onde estava, essa paisagem poderia estar em qualquer lugar
perto da cidade de Veñaza. Em vez disso, voltou a atenção para seu corpo.

Embora sentisse a tensão em seus músculos, se abaixou para começar com


os dedos dos pés. Suas botas estavam intactas, embora completamente
encharcadas, o couro encolheria assim que secassem, mas nada em seus pés
estava quebrado.

Suas pernas estavam totalmente curadas também, embora sua perna


direita tivesse rasgado todo o caminho até o joelho e houvesse longas mechas
de junco enroladas em torno de sua panturrilha.

Em seguida, ele inspecionou suas coxas, quadris e cintura, suas costelas


(ainda um pouco sensíveis), seus braços... Ah, as cicatrizes em seu peito
estavam sangrando, o que significava que as de suas costas também estariam
sangrando. Mas aquelas pequenas fatias eram feridas antigas. Antigas mesmo.
As coisas amaldiçoadas se abriam e se infiltravam sempre que Aeduan se
machucava à beira da morte.

Pelo menos nada de novo sangrava, nada foi quebrado e nada faltava que
não pudesse substituir. Ele ainda tinha sua capa de salamandra e sua opala
Carawen. Quanto ao que a garota Nomatsi havia tomado, seu estilete e sua faca
cortante, ele poderia facilmente conseguir mais.

No entanto, pensar na menina Nomatsi sem cheiro de sangue fez com que
Aeduan quisesse estripar alguma coisa. A mão dele moveu-se para o cabelo e,
enquanto o maçarico se aproximava, seus dedos se contorceram sobre uma faca
de arremesso.

Mas não. Assustar o pássaro não faria nada para saciar sua fúria. Apenas
encontrar a Threadwitch faria.

Não que soubesse o que faria com ela assim que a encontrasse. Matá-la
definitivamente não era, ele devia uma dívida de vida agora. Ela poupou-o (mais
ou menos) e ele teria que pagar por isso.

No entanto, se havia uma coisa que Aeduan odiava, era salvar vidas que ele
não deveria se importar. Havia apenas uma outra pessoa a quem ele devia tal
dívida, e pelo menos ela merecia totalmente isso.

Os dedos de Aeduan caíram da faca. Com um grunhido final no sol oriental,


ele se levantou. Sua visão girou ainda mais e seus músculos tremeram, dizendo
que ele precisava de água e comida.

Um som distante soou. Nove sinos, o que significava que o dia ainda estava
começando.

Aeduan balançou a cabeça em direção ao som. Longe ao sul, ele podia


apenas discernir uma aldeia, provavelmente onde os meninos moravam.
Provavelmente não muito longe da cidade de Veñaza. Então, revirando os
pulsos e flexionando os dedos, Aeduan partiu através das ondas de uma maré
entrando.
***

As badaladas de quinze a doze soavam quando Aeduan finalmente chegou


à casa do Mestre da Guilda Yotiluzzi. O guarda olhou-lhe uma única vez, fez um
gesto de desaprovação e abriu o portão.

Dizer que Aeduan parecia ter sido arrastado pelos portões do inferno e
voltar era um eufemismo. Ele vislumbrou-se em uma janela no caminho da
cidade, e parecia ainda pior do que se sentia. Seu cabelo curto estava coberto
de sangue, sua pele e roupas listradas na areia, e apesar de ter andado por três
horas, suas botas e capas ainda não haviam secado.

Nem seu peito ou costas pararam de vazar sangue.

Todas as ruas e pontes, todos os jardins ou becos, as pessoas tinham


desaparecido de seu caminho, e eles recuaram exatamente como a guarda de
Yotiluzzi estava fazendo agora. Embora pelo menos as pessoas da cidade de
Veñaza não tivessem proferido ‘Voidwitch’, ou passado dois dedos sobre os
olhos para pedir a proteção do Aether como aquele guarda fazia agora.

Aeduan assobiou para o homem enquanto passava. O guarda sacudiu e


depois tropeçou para fora da vista atrás da porta. Enquanto Aeduan entrava no
jardim, um provérbio passou por sua mente: “Não acaricie o gato que tomou
banho”. Era algo que sua mãe sempre dizia quando ele era jovem, e algo que
Aeduan não pensava há anos.

O que só fez sua carranca se aprofundar, e levou todo o seu autocontrole


para não cortar as flores e folhas penduradas nos caminhos. Ele odiava esses
jardins de Dalmotti, com sua vegetação natural e crescimento descontrolado.
Esse tipo de jardim não era defensável, era apenas um risco para os antigos
Mestres da Guilda e mais um exemplo de frouxidão no Império Dalmotti.

Quando finalmente Aeduan chegou ao longo pátio no lado oeste da casa de


Yotiluzzi, encontrou os criados limpando a mesa onde ele costumava passar as
manhãs.

Uma empregada viu Aeduan se arrastando pelo caminho. Ela gritou; o copo
em suas mãos caiu e se despedaçou.

Aeduan simplesmente teria caminhado se a mulher não tivesse gritado: —


Demônio!

— Sim. — Ele rosnou, suas botas molhadas batendo no pátio. Travou o


olhar com o dela, que estremeceu. — Eu sou um demônio, e se você gritar de
novo, me certificarei de que o Vazio reivindique sua alma.

Ela apertou as mãos contra a boca, tremendo, e Aeduan sorriu. Deixe-a


contar essa história para todos que ela vir.

— Onde você esteve? — A voz estridente de Yotiluzzi saltou das portas


abertas da biblioteca. Ele pegou suas vestes e pisou fora, com as papadas
enrugadas tremendo. Sob a luz do sol, não faltava fúria nos olhos do Mestre da
Guilda. — E o que aconteceu com você?

— Eu estava fora. — Respondeu Aeduan.

— Eu sei muito bem que você estava fora. — Yotiluzzi apontou um dedo
no rosto de Aeduan.

Ele odiava quando o velho fazia isso. Isso o fez querer quebrar o dedo ao
meio.

— O que eu quero saber é onde e por quê? — O dedo de Yotiluzzi continuou


acenando. — Você esteve bebendo? Porque você parece imundo, e ninguém te
viu desde a noite passada. Se você continuar assim, terei que terminar seu
contrato.

Aeduan não respondeu. Ele deixou seus lábios pressionarem em uma linha,
e esperou que o Mestre da Guilda chegasse ao ponto. No fundo, os servos
continuaram a recolher os pratos do café da manhã, mas eles se moviam
devagar, com os olhos fixos em Aeduan e pratos sacudindo em suas mãos.

— Eu tenho muita necessidade de você. — Yotiluzzi finalmente disse.

— Há dinheiro para ganhar, e cada segundo que você desperdiça é menos


dinheiro no meu bolso. A prometida de Henrick Fon Cartorra foi sequestrada e
o Imperador quer que você a encontre.

— Oh? — Aeduan ergueu o queixo para isso. — E o Imperador está


disposto a pagar por isso?

— Muito bem. — O dedo de Yotiluzzi apontou de volta para o rosto de


Aeduan. — E eu recompensarei você bem se você puder rastreá-la.

Em um borrão de velocidade, Aeduan agarrou o dedo de Yotiluzzi e puxou


o velho para perto. — Eu vou direto para o Imperador, obrigado.
A raiva de Yotiluzzi desapareceu. Sua boca se abriu. — Você trabalha para
mim.

— Não mais. — Deixou cair o dedo do velho, que ainda tinha gordura nele
do café da manhã. Aeduan dificilmente estava limpo no momento, mas aquele
pedaço viscoso de manteiga o fazia sentir-se realmente sujo.

— Você não pode fazer isso! — Exclamou Yotiluzzi. — Eu possuo você!

Aeduan entrou na casa. Yotiluzzi gritou atrás dele, mas Aeduan logo se
afastou, correu pelos corredores opulentos, subiu os dois lances de escada e
finalmente entrou no minúsculo quarto de criado.

Todos os seus pertences estavam em um único saco, pois ele era um monge
Carawen, preparado para tudo e sempre pronto para ir.

Ele vasculhou o saco, procurando por dois itens: um estilete extra e um


papel com uma longa lista de nomes. Depois de arrumar o estilete em seu
barranco rangente e ainda úmido, Aeduan examinou a lista. Havia apenas
alguns nomes que não foram divulgados.

Um na parte inferior, Rua Ridensa, 14.

Embora Aeduan já soubesse o que seu pai gostaria - que se juntasse ao


Imperador, encontrasse a Truthwitch e depois mantivesse a menina para o seu
crescente exército - fazia várias semanas que atualizara o pai pela última vez.
Muito se desdobrou ultimamente, por isso ele visitaria o Voicewitch na Rua
Ridensa, 14, quando encontrasse um momento livre.

Aeduan não mencionaria a garota Nomatsi, no entanto. Ele foi cuidadoso


em manter sua primeira dívida de vida escondida de seu pai, e estava ainda
mais determinado a manter este novo em segredo também. Uma menina sem
cheiro de sangue só abriria questões.

Aeduan não gostava de perguntas.

Ignorando a maneira como sua capa de salamandra molhada esfregava em


seu corpo, ele colocou a bolsa no ombro e, sem outro olhar, saiu do quarto que
havia chamado de lar nos últimos dois anos. Então retornou pela mansão de
Yotiluzzi. Servos saíram de seu caminho quando ele desceu, e Yotiluzzi ainda
gritava de sua biblioteca.

Enquanto Aeduan seguia em frente, ficou satisfeito ao descobrir que havia


deixado um rastro de marcas de botas enlameadas por toda a casa.

Às vezes a justiça era toda sobre as pequenas coisas.

***

Quando Aeduan chegou ao palácio do Doge, meio apavorado depois de


deixar a casa de Yotiluzzi e tomar banho em um balneário público (graças os
Poços, suas antigas cicatrizes pararam de sangrar), ficou chocado ao descobrir
que os jardins em que enfrentara o Batalhão inesperado agora não passava de
plantas queimadas e cinzas carregadas pelo vento.

Ele não deveria ter ficado surpreso; não tinha sido um fogo furioso quando
ele tinha deixado.

Os guardas e soldados de Dalmotti arrastavam-se por toda parte, e


nenhum prestou atenção a Aeduan. Quando chegou ao saguão de entrada que
havia lutado na noite anterior, que agora estava exposto através de parede e
brasas latentes, um dos guardas entrou no caminho de Aeduan.

— Pare. — O homem ordenou. Ele mostrou os dentes, manchados de


fuligem. — Ninguém entra ou sai, Voidwitch.

Claramente este homem reconheceu Aeduan. Boa. Ele ficaria ainda mais
assustado.

Aeduan farejou o ar, sabendo que seus olhos estavam vermelhos enquanto
fazia isso, e se agarrou ao cheiro de sangue do homem. Cozinhas salgadas e bafo
de bebê. Um homem de família, muito ruim. Isso o tirava dos limites da
violência.

— Você vai me deixar entrar. — Aeduan levantou uma sobrancelha única.


— Então vai me acompanhar até o escritório do Doge.

— Oh, eu vou? — O homem zombou, mas havia uma oscilação inegável em


sua garganta.

— Sim, porque eu sou a única pessoa neste continente que pode encontrar
a garota chamada Safiya. E porque eu sei quem a sequestrou. Agora, mexa-se.
— Aeduan apontou o queixo para o salão. — Diga a seus superiores que estou
aqui.

Como Aeduan sabia que aconteceria, o guarda saiu correndo. Após vários
minutos de espera (permanecendo ocupado com a contagem dos homens à sua
volta), o guarda retornou com a mensagem de que sim, Aeduan poderia ser
escoltado imediatamente.

Aeduan seguiu o homem de família e guarda, sua atenção no dano da noite


anterior. Pelo menos metade do palácio estava completamente queimado. Os
jardins estavam ainda piores. Qualquer planta que ainda vivesse estava coberta
de cinzas.

Quando Aeduan finalmente chegou à câmara privada do Doge, depois de


ser examinado por doze conjuntos de guardas, um para cada nação presente na
sala, parece, encontrou um refúgio seguro. A sala de exuberantes tapetes
vermelhos, prateleiras altas no teto e lâmpadas de cristal cintilantes era
claramente o espaço pessoal do Doge, mas agora estava invadida por pessoas
de todas as idades, classes e cores, enquanto soldados de todos os tipos de
uniformes marchavam.

Os Illryans com pele de noz se encolheram ao lado da porta, claramente


desejando poderem voltar para suas montanhas no sul. Os sórdidos Svodes se
agrupavam perto da janela, os olhares voltados para o norte e os Balmans
passavam o que parecia ser uma jarra de vinho. Lusquans, Kritians, Portollans,
cada nação se uniu.

No entanto, notavelmente estavam ausentes os Marstoks. No rápido exame


de Aeduan, ele não viu nenhum sinal da Imperatriz Vaness ou seu sultanato.

Nem viu os nubrevanos.

Logo Aeduan encontraria o Imperador de Cartorra, caminhando ao lado de


uma escrivaninha comprida, com os braços voando em todas as direções e os
gritos sacudindo o cristal. O dalmotti Doge, preso na extremidade receptora do
fole de Henrick, sentou-se rígido e nervoso atrás de sua mesa.

— Aha! — Gritou uma voz tenor à esquerda de Aeduan. — Aí está você. —


Leopold fon Cartorra saltou graciosamente de uma sombra, deixando Aeduan
para se perguntar como ele tinha perdido o príncipe de cabelos claros, vestido
de verde, espreitando ao lado da estante de livros.

Ou, por falar nisso, como ele esqueceu de cheirar o príncipe. Aeduan
registrara o cheiro de sangue do herdeiro imperial no baile: couro novo e
lareiras esfumaçadas. Aeduan deveria ter percebido isso aqui.

Sua confusão foi rapidamente engolida por uma segunda voz e uma
segunda figura se materializando das sombras. De algum modo, Aeduan
também sentira falta desse homem, o que só o irritava mais. Especialmente
desde que este segundo homem era pelo menos uma mão mais alta que
qualquer outra pessoa na sala.

— Você sabe sobre a minha sobrinha. — O homem se arrastou. Ele parecia


não ter dormido em dias. Seus olhos estavam vermelhos como brasas e sua
respiração...

O nariz de Aeduan se enrugou. O homem cheirava mais forte do vinho do


que o próprio vinho. Até dominava o cheiro de seu sangue.

— Venha, Monge. — Leopold pediu, apontando para seu tio ainda


berrando. — Disseram-nos que você tem informações sobre a noiva de meu tio.
Você deve nos contar tudo e... ah, ei agora. — Leopold viu sua manga, que estava
coberta de fuligem. Com um suspiro desanimado, ele escovou sem entusiasmo
para ele. — Suponho que isso é o que ganho por usar veludo pálido em um
mundo de cinzas. E imagino que meu cabelo esteja tão ruim assim.

Era um o loiro avermelhado, quase cinza, mas Aeduan não pronunciou


uma palavra sobre isso. — O Imperador. — Ele lembrou.

— Certo. Claro. — Leopold empurrou, sem pedir desculpas, soldados e


servos. Aeduan o seguiu, e o bêbado, que Aeduan deduziu ser Dom Eron fon
Hasstrel, foi arrastado para trás.

— Você sabe quem tem a minha sobrinha. — Disse o homem. — Diga-me


tudo o que você sabe. — Ele agarrou o manto de Aeduan.

Aeduan facilmente se esquivou, deixando Dom Eron cambaleando em


direção ao Imperador. Então no Imperador. Henrick empurrou Eron de volta
com um grunhido antes que seus olhos pousassem em Aeduan. Seus lábios se
curvaram.

Então este é o Imperador da Cartorra, pensou Aeduan. Ele tinha visto o


homem de longe ontem à noite, mas nunca esteve perto o suficiente para
distinguir todas as marcas nas bochechas de Henrick. Nem para ver o único
dente que empurrava para fora mais do que todo o resto. Ele se projetava sobre
o lábio superior quando sua boca estava fechada, bem como um cachorro.

Um cachorro muito chateado.

— Quem tem a domna? — Henrick perguntou. Apesar de ser pelo menos


seis centímetros mais baixo que Aeduan, a voz do Imperador era completa e
profunda. Era o tipo de voz que gritava por canhões, e Aeduan sentiu um pouco
do campo de batalha no sangue do Imperador. — Diga-nos o que você sabe. —
Continuou Henrick. — Foram os Marstoks três vezes condenados?

— Não. — Respondeu Aeduan com cuidado. Lentamente. Ele precisava ter


certeza de que ninguém sabia que Safiya era uma Truthwitch. Provavelmente o
tio soubesse... embora talvez não. Aeduan suspeitava que um homem como
Eron usaria descaradamente uma Truthwitch com a chance.

— Veja? — Respirou o Doge. — Eu te disse que não foi Vaness! Ele bateu
freneticamente em algo em sua mesa. — A assinatura da Imperatriz teria
desaparecido se fossem eles quem cometessem isso!

Os lábios de Aeduan se apertaram quando ele percebeu que estava


encarando a Trégua de Vinte Anos. Ou melhor, a página final, onde todos os
líderes continentais haviam assinado. Ele encontrou os garranchos infantis de
Vaness, ela era apenas uma garota quando escreveu sua assinatura, que ainda
estava firmemente roteirizada no final da página. Ou a magia da Trégua foi
quebrada, ou os Nubrevanos não tomaram esta domna contra sua vontade.

Aeduan se voltou para o Imperador Henrick. — Os Nubrevanos têm a


domna. Eu os vi levá-la para o mar.

Um abatimento coletivo de mandíbula se instalou ao redor da sala. Até


mesmo Henrick parecia ter engolido alguma coisa suja.

— Mas. — Começou o príncipe Leopold, esfregando o lábio inferior com o


polegar. — Foi um Feitiço Marstoki que incendiou o palácio. E — Ele olhou para
Henrick, como se quisesse apoiar. — os Marstoks deixaram a cidade de Veñaza.
A Imperatriz e todo o Sultanato desapareceram logo após a festa. Isso sugere
culpa para mim.

— Sim. — O Doge disse com um aceno nervoso de suas mãos. — Mas o


mesmo aconteceu com os nubrevanos. Eles saíram logo após a primeira dança
entre…

— Entre o príncipe e minha sobrinha. — Eron terminou, ficando um pouco


mais ereto do que antes. — Nubrevanos malditos! Eu vou esmagá-los...

— Não haverá esmagamento. — Henrick resmungou com um olhar


enojado. Ele se inclinou em direção a Aeduan. — Diga-nos o que você viu,
Monge. Todos os detalhes.

Aeduan não fez nada disso. Na verdade, ele encobriu quase todos os
detalhes e pulou para a única coisa que importava: a luta entre os Nubrevnan
Windwitch e os monges Carawen no farol. — Ele levou a domna ao mar com
seus ventos. — Concluiu Aeduan. — Eu não pude seguir.

Henrick assentiu pensativo, o Doge piscou furiosamente por trás dos


óculos, Dom Eron parecia não ter ideia do que Aeduan estava falando, e Leopold
simplesmente olhou para Aeduan com sonolento desinteresse.

— Como você seguiu a garota até o farol? — Henrick perguntou. — Com


sua magia?

— Sim.

Henrick grunhiu e um pequeno sorriso provocou sua presa. — E você pode


usar seu poder novamente? Mesmo do outro lado do Jadansi?
— Sim. — Aeduan deu uma vaga batida no pomo da espada. — Vou segui-
la por um preço.

As narinas de Henrick se agitaram. — Que tipo de preço?

— Quem se importa? — Dom Eron gritou, contornando Aeduan. — Pagarei


o que você quiser, Bloodwitch. Nomeie o seu preço e eu pagarei...

— Com que dinheiro? — Henrick cortou. Ele riu, um som mordaz. — Você
pegou emprestado da Coroa para participar dessa Cimeira, Eron, então se você
tem algum dinheiro escondido em sua bolsa, pague a mim primeiro. — Com
outra risada, Henrick voltou-se para Aeduan. — Nós cobriremos suas taxas,
Voidwitch, mas virá dos cofres de quem sequestrou Domna Safiya. Se são os
nubrevanos que a têm, então são os nubrevanos que vão pagar.

— Não. — Os dedos de Aeduan bateram mais rápido. — Eu preciso de cinco


mil piestras adiantadas.

— Cinco mil? — Henrick recuou. Em seguida, deu um passo à frente, perto


o suficiente para fazer a maioria dos homens recuar.

Aeduan não se mexeu.

— Você percebe com quem está falando, Voidwitch? Eu sou o Imperador


da Cartorra. Você será pago quando eu disser isso.

Aeduan parou de bater. — E eu sou um Bloodwitch. Eu conheço o cheiro


da garota e posso rastreá-la. Mas não farei isso sem cinco mil piestras.

O peito de Henrick soltou-se, um berro cheio claramente no caminho, mas


Leopold entrou. — Você terá o dinheiro, Monge. — O príncipe ergueu as mãos
submissamente para o tio. — Ela é sua prometida, tio Henrick, então devemos
pagar o preço que for necessário para recuperá-la, não? — Ele se virou do
Imperador para o Doge e depois para Dom Eron, conseguindo de alguma forma
conseguir um aceno de cada homem.

Aeduan ficou impressionado. E ficou ainda mais impressionado quando o


Príncipe Leopold de Cartorra se voltou para ele, olhou-o nos olhos e disse: —
Você pode vir comigo para os meus aposentos. Eu devo ter pelo menos metade
do dinheiro lá. Isso será suficiente?

— Sim.

— Bom. — Leopold sorriu um sorriso vazio. — Agora, acredito que todos


podemos concordar — Ele olhou para o tio. — que perdemos tempo suficiente
aqui. Se você me der permissão, Vossa Majestade, eu me juntarei ao monge em
sua busca por sua noiva. Conheço bem Safiya e acho que minha percepção
poderia ajudar o monge.

Qualquer estima que Aeduan sentiu fugiu instantaneamente dessas


palavras. O príncipe iria atrasá-lo. Distraí-lo. No entanto, antes que ele pudesse
protestar, Henrick assentiu bruscamente. — Sim, junte-se ao Voidwitch. E
mantenha a coleira apertada. — O Imperador zombou de Aeduan, claramente
esperando uma resposta ilícita.

Então Aeduan não deu nenhuma.

Momentos depois, Leopold fez um sinal para que Aeduan o seguisse e


partiu pela sala. Aeduan seguiu atrás dele, os pulsos rolando e a frustração se
formando em seu sangue.

Pelo menos ninguém mencionou que Safiya era uma Truthwitch. Uma vez
que Aeduan fosse bem recompensado por todo o incômodo de caçar a garota,
ele ainda poderia entregá-la a seu pai.

Pois embora esses Cartorranos estivessem pagando Aeduan para


encontrar Safiya fon Hasstrel, ninguém havia dito nada sobre devolvê-la.

19
Nas duas horas desde que Merik levou Safi de volta para seu quarto e
ordenou que ela ficasse abaixo dos conveses para fins de segurança, Safi havia
repassado os mesmos pensamentos repetidas vezes.

E perguntas, muitas perguntas. Dos planos de seu tio ao seu noivado com
Henrick, tudo se desenrolou no topo de um terror inabalável para Iseult.

Também havia passos, martelando e implacáveis. Eles balançaram através


do crânio de Safi até ela querer gritar, e acabar andando em círculos na pequena
cabine enquanto Evrane cuidava da ferida de Iseult.

— Pare. — Evrane finalmente estalou. — Ou saia do quarto. Você está me


distraindo.

Safi optou por sair, especialmente agora que tinha permissão de alguém
para fazê-lo. Ali estava sua chance de examinar o porão principal. Para resolver
como ela obteria sua liberdade. Ela podia ouvir as lições de Habim tão
claramente quanto se ele estivesse ao lado dela, insistindo sobre estratégia e
campos de batalha.

O porão revelou-se um espaço sombrio repleto de troncos, redes, sacos e


barris. Cada canto que ela inspecionava tinha algo espremido, inclusive
marinheiros, e não havia luz, exceto uma explosão quadrada acima da escada
superior.

Tudo fedia a suor e a corpos sujos, enquanto o cheiro cáustico de merda de


galinha subia de um convés de rebanho abaixo. Safi estava grata por não poder
ouvir as galinhas, ou qualquer outro animal. Já havia muito barulho para seu
temperamento aguentar.
Embora a maioria dos marinheiros parecesse estar no alto, Safi contou 27
homens encolhidos contra caixas ou aninhados ao lado de barris. Parecia não
haver quartos da tripulação, e Safi arquivou isso para consideração
posteriormente.

Dos vinte e sete marinheiros que Safi passou, dezenove morderam os


polegares ou assobiaram "Amante Matsi". Ela fingiu não entender e até chegou
a oferecer um aceno. No entanto, memorizou os rostos corados pelo sol e suas
vozes vis.

Quando um garoto magro de pele negra com tranças na altura dos ombros
desceu a escada abaixo dos conveses, a magia de Safi apontou que ele estava
era sincero. Então Safi agarrou-o pelo ombro enquanto ele tropeçava. — A
tripulação mataria um Nomatsi?

O menino piscou todas as suas tranças tremendo antes de responder com


uma voz decididamente feminina: — Não se o Almirante não estiver por trás
disso, e acho que ele não está. Ele não se importa com Matsis, como o resto de
nós.

— Nós?

— Eu não! — As mãos da garota subiram. — Eu juro, não tenho problema


com Matsis. Eu só quis dizer a tripulação.

Verdade. Safi cravou os nós dos dedos nos olhos dela. Acima, dedos dos pés
arrastados, espadas tilintando e vozes latindo. Qualquer que fosse o exercício,
Safi desejava que parasse.
Ela se lançou de volta em seu ritmo. Uma batida dupla no ritmo lento do
tambor. Uma batida tripla. Por que ela não poderia propor um plano? Para
Iseult parecia tão fácil, mas toda vez que Safi tentava organizar seus
pensamentos, eles se desmanchavam como lodo em um riacho.

— Você não deveria andar tanto. — Disse a garota, ainda seguindo os


passos de Safi. — A tripulação vai reclamar, e então o almirante pode prendê-
la.

Isso deu a Safi uma pausa. Ser presa limitaria severamente suas chances
de fugir se fosse necessário.

— Eu tenho um lugar. — A garota ofereceu, aprontando para a escada. —


Você não poderá andar, mas pode assistir aos treinos.

As narinas de Safi se contraíram. Ela marchou até os degraus mais baixos


e olhou para a luz do sol brilhante. Merik estava lá em cima. E Kullen também,
que poderia incapacitar Safi até mesmo a menor desobediência.

Mas a vista de cima daria a Safi um melhor controle sobre o navio, a


tripulação, e o layout. Talvez pudesse montar uma estratégia se aprendesse
mais.

— Ninguém vai nos ver? — Perguntou ela a garota, pensando nas ordens
de Merik para ficar abaixo.

— Eu juro.

— Então me mostre.
A garota mostrou outro sorriso e subiu a escada. Safi ficou para trás e logo
se viu cercada por marinheiros, com os pés altos movendo-se em degraus
parecidos com trepadeiras pelo convés. Embora muitos homens a olhassem
enquanto ela passava furtivamente, não escutou nenhuma zombaria, não sentiu
agressão. Os homens preconceituosos, ao que parece, estavam abaixo.

O que significava que ela não ficaria aqui por muito tempo. Ela pegaria a
informação que precisava e retornaria para o lado de Iseult.

Safi seguiu a garota, contando quinze passos da escada até a sombra do


castelo de proa. A garota se esgueirou atrás de quatro barris que fediam a
peixes mortos e se agachou. Safi se agachou ao lado dela, satisfeita ao descobrir
que estava realmente escondida. O local também lhe dava uma visão clara dos
marinheiros praticantes, dos quais, ela percebeu com uma torção doentia, havia
muitos.

Com toda a tripulação exibida em fileiras, em vez de escalando o


aparelhamento ou vasculhar os decks, Safi estimou pelo menos cinquenta
homens. Provavelmente o dobro disso, já que ela era uma porcaria de gaivota
quando se tratava de matemática.

Safi esticou o pescoço até vislumbrar Merik, Kullen e três outros homens
ao lado do leme. Todos usavam óculos de vento e suas bocas se moviam em
uníssono.

Atrás deles, Safi encontrou a fonte do trovão interminável. Um rapaz, com


tranças como a da menina, batia num enorme tambor horizontal.

Safi desejou poder quebrar o martelo ao meio.


Embora mais do que isso, ela desejou poder respirar ar fresco. — Deuses
abaixo. — Ela jurou, voltando-se para a menina. — O que é esse fedor?

— É para o amigo. Nós salvamos nossas miudezas. — A garota sacudiu uma


escala reluzente do barril mais próximo, e agora que Safi examinou as tábuas
em volta dela, encontrou muitas escamas. Vazando dos barris, agarrando-se aos
lados. — São para as raposas do mar. Acrescentou a menina. — Nós temos que
alimentá-las quando passamos ou elas atacam.

— As... raposas do mar. — Repetiu Safi categoricamente. — As serpentes


míticas que se alimentam de carne humana?

— Hye. — O sorriso pronto da garota piscou novamente.

— Mas certamente você não acredita neles. São apenas histórias para
assustar crianças, como os morcegos das montanhas. Ou os Doze Paladinos.

— Que também são reais. — A garota argumentou. Como se para provar


seu ponto, ela arrancou uma pilha gasta de cartas de tarô de sua bolsa de
moedas e virou a carta de cima.

Era o Paladino das Raposas, e uma serpente peluda enrolada em volta de


uma espada. Seu rosto de raposa encarava Safi.

— Belo truque. — Safi murmurou, dedos coçando para o convés. Ela tinha
visto muitas cartas de tarô em sua vida, mas nunca tinha visto aquelas com
raposas do mar em vez de raposas vermelhas normais. Isso a fez se perguntar
o que foi pintado nos outros cinco ternos.

— Não é um truque. — A menina respondeu. — Só estou mostrando a você


como é uma raposa do mar. São estas enormes serpentes na água, vê? Mas a
cada poucas décadas, eles perdem a pele e vêm para a praia como mulheres
bonitas que seduzem homens...

— E os arrastam para suas sepulturas. — Terminou Safi. — A lenda do


morcego da montanha é a mesma. Mas o que eu quero saber é se você realmente
viu uma raposa do mar.

— Não. Embora — A garota se apressou em acrescentar. — alguns


membros da tripulação mais velhos afirmam que lutaram contra raposas
durante a guerra.

—Sei... — Safi demorou em seus pensamentos. Merik e seus capitães


devem manter o amigo a bordo para apaziguar os mais supersticiosos em suas
fileiras, assim como seu tio Eron mandava ovelhas para as cavernas Hasstrel
todos os anos para os "morcegos da montanha".

Ao longo de sua infância, Safi vasculhou as florestas alpinas ao redor da


propriedade em busca por qualquer sinal de um dragão parecido com um
morcego. Ela vasculhou as cavernas próximas, onde os morcegos supostamente
viviam, e passou horas ao lado da Terra morta, esperando que uma mulher
bonita aparecesse de repente.

Mas depois de dez anos sem sequer vislumbrar qualquer coisa, Safi
finalmente aceitou que os morcegos da montanha, se é que existiam, estavam
tão mortos quanto o Poço que vivia ao lado.

As raposas do mar, Safi decidiu, não eram diferentes.


— Meu nome é Ryber, a propósito. — A menina balançou a cabeça. —
Ryber Fortsa.

— Safiya fon Hasstrel.

Ryber mordeu o lábio como se tentasse abafar um sorriso. Mas então


desistiu. — Você é uma domna, certo? — Ela virou outra carta de tarô.

A bruxa. Mostrava uma mulher com o rosto escondido, olhando para um


Poço, o Poço de Origem da Terra, na verdade. Exceto que, ao contrário do que
Safi havia crescido explorando, a versão ilustrada ainda estava viva. As seis faias
ao redor estavam florescentes, a passagem de lajes intacta e as águas girando.

Assim como o Paladino das Raposas, a imagem não se parecia em nada com
qualquer carta de Bruxa que Safi havia visto.

Ryber bateu a carta de volta em seu deck, e Safi voltou seu olhar para os
marinheiros. Um homem jovem chamou sua atenção, seu rosto suado e
dolorosamente vermelho, sua habilidade com um cutelo inexistente.

No tempo que levaria a Safi para quebrar todos os dedos, ele foi desarmado
duas vezes por seu oponente. O pior de tudo era que seu adversário não só
estava a aproximar-se da idade avançada, como também tinha uma perna
aleijada.

Se Safi precisasse de um cutelo em breve, então desse menino seria o único


a pegar. — Sua tripulação. — Disse Safi, inclinando-se para trás para pegar uma
nova rajada de vento. — Parece dividida. Alguns podem lutar, mas a maioria
não pode.
Ryber suspirou, um som de reconhecimento. — Não temos muita
experiência. Os bons — Apontou para o velho manco. — lutaram na guerra.

— Não é dever do seu primeiro imediato garantir que vocês melhorem? —


Safi olhou para o leme. O vento enviou o cabelo pálido de Kullen voando, e ele
ainda murmurava ao lado das outras bruxas. Merik, no entanto, não estava mais
lá. — O imediato não está nem assistindo aos treinos.

— Porque ele está nos navegando. Normalmente, ele nos empurra.

Algo sobre a maneira defensiva como Ryber falou fez Safi inspecionar a
garota mais de perto. Apesar de sua figura de menino e tranças decididamente
pouco lisonjeiras, Ryber não era uma garota caseira. Na verdade, agora que Safi
estava olhando de perto, percebeu que os olhos de Ryber eram de uma prata
brilhante. Não cinza, mas verdadeira prata cintilante.

O Primeiro Imediato teria que ser cego para não se apaixonar por esses
olhos.

— Então vocês estão juntos. — Safi cutucou.

— Não. — Disse Ryber muito rapidamente. — Ele é um bom amigo, isso é


tudo. Justo e inteligente.

A mentira irritou a pele de Safi, e ela teve que morder um sorriso quando
deslizou sua atenção para Kullen. Tudo o que ela viu foi um homem enorme com
uma magia poderosa, um homem que poderia facilmente derrubar Safi. No
entanto, talvez houvesse mais por trás de seu exterior gelado.

Ryber soltou um longo suspiro e pegou outra carta de seu baralho. O


Paladino dos Cães. Ela olhou para a serpente parecida com um cão de caça,
também envolvida em torno de uma espada, e havia um vazio em seus olhos
que falava de coisas melhor esquecidas. Mas então seu olhar se fixou em Kullen
e as linhas no seu rosto relaxaram.

Ryber e o primeiro imediato estavam juntos, e era mais do que apenas um


namorico. Era sério e profundo.

Verdade.

Os lábios de Safi franziram. Ela e Ryber pareciam ter a mesma idade, mas
aqui havia algo de que Safi sabia pouco. Ela teve romances na cidade de Veñaza.
Flertes com jovens como o Trapaceiro Acinzentado, mas esses encontros
sempre terminavam em beijos rápidos e despedidas ainda mais rápidas.

— O príncipe. — Ela perguntou distraidamente. — Tem relações com


alguém? — Safi ficou tensa, instantaneamente desejando poder pegar essas
palavras. Ela não sabia de onde vieram. — Quero dizer, é permitido à tripulação
do Príncipe Merik ter relações?

— Não um com o outro. — Respondeu Ryber. — Além disso, estamos fora


do solo de Nubrevnan, Domna. Isso faz com do príncipe o almirante Nihar.

Isso chamou a atenção de Safi e ela abraçou a distração de todo o coração.


— O título do príncipe muda de acordo de onde ele está?

— Claro que sim. Não acontece ao seu?

— Não. — Safi mordeu o lábio enquanto uma nova rajada de vento salgado
açoitava atrás dos barris. Em vez de resfriá-la, porém, parecia queimar, fazer
uma gota de suor na testa dela. Mas esse era um calor diferente de antes, um
calor raivoso. Um calor assustado.

E só ficou mais animada quando Ryber descreveu como o racionamento de


refeições de Merik incomodou muitos homens e só ampliou a distância entre
aqueles que apoiavam Merik e os que eram a favor da princesa Vivia. Como a
capital se tornou suja e superlotada desde a Grande Guerra.

A verdade potente por trás dessas histórias fez os tornozelos de Safi


saltarem e seus dedos se enrolarem. O mundo que Ryber descreveu não era
nada parecido com o que Safi havia deixado para trás. Havia pobreza no Império
Dalmotti, claro que havia, mas não havia fome.

Talvez... talvez Merik precisasse tanto de comércio, mesmo que fosse com
uma propriedade amaldiçoada como os Hasstrels.

Assim que Safi ergueu a perna para ficar de pé, para voltar para a cabine e
verificar Iseult, a voz de Evrane atingiu seus ouvidos.

— Então você vai deixar a garota morrer? — Os gritos de Evrane saíram


da escada próxima. Mais alto que os marinheiros de perfuração. Mais alto que
o tambor batendo. — Você deve nos levar à terra!

O gelo deslizou pela espinha de Safi. Estilhaçado através de cada pedaço


dela. Ela ficou de joelhos, de pé. Então se levantou, ignorando os sussurros de
Ryber para ficar escondida. Assim que levantou acima dos barris, a cabeça
escura de Merik apareceu na escada. Ele subiu habilmente no convés, a figura
encapuzada de sua tia atrás.
Merik deu vários passos à frente, a cabeça girando como se procurasse
alguém, e os marinheiros se afastaram.

Evrane andou para o lado dele. — Aquela garota precisa de um curador


Firewitch, Merik! Ela vai morrer sem um!

Merik não respondeu, mesmo quando a voz de Evrane se elevou com fúria
e ela exigia que ele os levasse para terra.

Os dedos de Safi se flexionaram. Seus dedos do pé, suas panturrilhas, seu


intestino, tudo ficou tenso para a ação.

Se Merik não estava disposto a salvar a vida de Iseult, isso simplesmente


confirmava que ele não era aliado de Safi. Então, com ou sem contrato,
marinheiros inimigos ou não, o almirante Nihar era agora o adversário de Safi
e este navio era seu campo de batalha.

20
Merik tinha ido abaixo para verificar a domna. Ele não gostou de como a
deixou na cabine. A irmã dela estava doente, e Merik entendia como isso
poderia enrugar a disposição de uma pessoa.
Sempre que havia rugas, Merik tinha que alisá-las.

Além disso, essa era basicamente a única ruga que ele poderia consertar
no momento. O Voicewitch de Vivia estava perseguindo Hermin, exigindo que
Merik dissesse a ela onde o navio comercial de Dalmotti estava, e se recusando
a recuar até que ela tivesse visto este novo contrato de Hasstrel por si mesma.

Merik mentiu, de novo, e alegou que o navio comercial tinha apenas


metade da distância que realmente estava, mas tinha a sensação de que Vivia
estava começando a perceber.

Antes que ele pudesse alcançar a cabine de passageiros, sua tia o


interceptou na parte inferior da escada. — Precisamos parar. — Declarou ela,
seu rosto escuro nas sombras, mas seu cabelo prateado brilhando. — Iseult está
doente demais para sobreviver por muito mais tempo. Quais portos estão
próximos?

— Nenhum que possamos visitar. Ainda estamos no território de Dalmotti.


— Merik tentou dar um passo adiante.

Evrane o interrompeu, eriçada. — O que você não entendeu sobre 'doente


demais para sobreviver'? Isso é inegociável, Merik.

— E este não é o seu navio para comandar. — Merik não tinha paciência
para isso agora. — Pararemos quando eu disser, tia. Agora fique de lado para
que eu possa visitar a domna.

— Ela não está na cabine

E assim, a pressão familiar acendeu sob a pele de Merik. — Onde? — Ele


perguntou suavemente. — Onde ela está?

— Acima, eu suponho. — Evrane sacudiu os pulsos desinteressadamente


no espaço de carga, como se dissesse: Você não a vê aqui, não é?

— No entanto. — Merik continuou, sua voz ainda perigosamente baixa. —


Ela deveria ficar abaixo dos conveses. Por que você não a manteve na cabine?

— Porque isso não é minha responsabilidade.

Com essas palavras, o temperamento de Merik se espalhou em chamas.


Evrane sabia o que estava no contrato de Hasstrel. Ela sabia que Safiya tinha
que ficar abaixo dos conveses por razões de segurança. Uma única gota de
sangue poderia marcar o fim do contrato por completo.

E o pensamento de Safiya derramando sangue... dela se machucando...

Ele subiu a escada, as palavras de sua tia seguindo-o. — Então você vai
deixar a garota morrer? Você deve nos levar à terra!

Merik ignorou sua tia. Ele encontraria Safiya e explicaria a ela, gentilmente,
é claro, e não com esse fogo controlando-o, que ela absolutamente não poderia
sair de sua cabine. Ela ouviria, obedeceria e Merik podia relaxar de novo. Nada
de rugas à vista.

Merik latiu para que seus homens se afastassem enquanto ele apontava
para o tombadilho. Sua magia queria liberação, e por mais que tentasse, era
incapaz de suavizá-la.

— Almirante!
Merik parou. Essa era a voz de Safiya. Atrás dele.

Ele torceu de volta lentamente, seu peito arfando agora. Seus ventos
latejando por dentro, pior do que antes. Pior do que em anos. Seu controle
estava escapando.

Ele se quebrou completamente quando a viu em pé no centro do convés,


um facão na mão.

— Você nos levará à terra. — Seu tom era frio e exato. — E vai nos levar
agora.

— Você desobedeceu minhas ordens. — Disse Merik, amaldiçoando


interiormente. O que aconteceu com uma gentil explicação? — Eu disse a você
que minha palavra é lei, e lhe disse para ficar em baixo.

Sua única resposta foi elevar o cutelo alto. — Se Iseult precisa de um


curandeiro Firewitch, nós iremos para terra.

De longe, Merik percebeu que o tambor de vento havia parado de bater.


Que o navio começou a balançar sem os Cavaleiros para mantê-lo calmo.

Merik varreu seu próprio cutelo. — Vá para baixo, Domna. Agora.

Isso fez Safiya sorrir, uma coisa cruel, e ela pisou calmamente na lâmina de
Merik. Então virou os ombros e empurrou o peito contra a ponta. Sua camisa
cintilou. — Consiga um curandeiro Firewitch, almirante, ou vou me certificar
de que seu contrato esteja arruinado.

Calor bateu atrás dos olhos de Merik. Safiya abriria sua própria pele. Ela
derramaria sangue, e Merik perderia tudo pelo que trabalhou. De alguma forma,
ela sabia o que o contrato dizia, e estava o testando. Merik baixou a lâmina.

Então ele deu em sua raiva. Os ventos se soltaram, atingiram seus


marinheiros. — Kullen! Tome seu ar!

O rosto de Safiya foi drenado de sangue. — Covarde! — Ela rosnou. —


Covarde egoísta! — Ela atacou.

Merik mal teve tempo suficiente de se lançar para trás em direção a sua
cabine antes que sua lâmina cortasse o ar onde sua cabeça estivera.

Ele voou em direção ao tombadilho, a palavra "covarde" atingindo seus


ouvidos de todas as direções. Ele contorceu-se dos lábios de seus marinheiros
e, ao descer para o convés, encontrou os olhos de Kullen no meio da multidão.
O primeiro companheiro balançou a cabeça, um sinal de que ele não ajudaria
dessa vez.

Então Merik entendeu o porquê: os marinheiros de seu pai só viam uma


mulher — uma mulher cartorrana — que chamara o novo almirante de
"covarde". Se Vivia ou Serafin estivessem conduzindo o navio, a justiça seria
rápida, completa e violenta. Esses homens esperavam isso. Exigiam isso.

E não era como se eles soubessem do contrato com os Hasstrel.

O que significava que Merik teria que lutar com Safiya, e teria que fazer
isso sem derramar o sangue dela.

Os pés de Merik pousaram, e lá estava a garota, avançando em direção a


ele com a trança voando para trás. Marinheiros se dispersaram de seu caminho,
sua atenção no que viria a seguir.

Então Safiya estava diante dele, o facão arqueando para fora. Merik
encontrou com o seu próprio. Faíscas brilhavam ao longo do aço, essa garota
era forte. Ele precisava tirar as lâminas dessa luta o mais rápido possível.
Mesmo o menor dano poderia ser demais para o contrato.

Outro golpe de especialista da garota. Merik aparou, mas suas costas


estavam contra a cabine. Pior, o mundo estava à espreita, e o navio estava
parado entre as ondas.

A garota usou essa inércia e, pelos Poços, ela era rápida. Uma barra se
tornou duas. Três. Quatro.

Mas lá. O navio balançou para o outro lado e seus joelhos tremeram. Ela
teve que ampliar sua postura antes de desdobrar seu próximo ataque.

Merik estava pronto. Quando a lâmina dela subiu, ele se abaixou. Sua
espada bateu na parede e Merik a atacou. No entanto, no instante em que ela
estava por cima do ombro, os punhos martelaram em seus rins. Em sua espinha.

Seu aperto afrouxou e o navio balançou. Ele sentiu seu equilíbrio ir. Ela
acertou o convés de cabeça.

Então ele bateu em sua Windwitchery. O ar soprou sob a garota,


arremessando o tronco para cima e devolvendo o equilíbrio de Merik... até que
ela lutou totalmente em seu ombro e lhe deu uma joelhada nas costelas.

Ele se dobrou, e não pôde evitar. Pranchas se aproximaram do rosto dele.


Sua magia explodiu. Em um ciclone de poder, ele e a domna explodiram do
convés. Eles giraram. Eles caíram. O mundo ficou turvo até estarem acima dos
mastros. O vento chicoteava ao redor deles, sob eles. Safiya mal parecia notar
quão alto eles estavam.

Merik tentou controlar o poder sob sua pele. Em seus pulmões. Mas não
havia como negar que a garota despertou essa raiva dentro dele. Sua magia não
respondia mais a ele, mas a ela.

Seu punho se lançou no rosto de Merik. Ele teve tempo suficiente para
bloqueá-lo antes que seu pé ficasse atrás do tornozelo. Ela o empurrou para
trás, seu corpo girando com o dele até eles estarem de cabeça para baixo. Até
que tudo o que viu foi pano de vela e cordame e os punhos de Safiya se agitando.

Merik respondeu, mas pressionou demais, ou talvez fosse a magia dele. De


qualquer maneira, ela foi girando para longe das velas. Então deixou
inteiramente os ventos de Merik e despencou, de cabeça, em direção a cem
marinheiros escancarados.

Merik empurrou um vento mágico embaixo dela, impulsionando suas


costas em seu caminho. Virando-a e ele mesmo, com o lado direito para cima. O
oceano e o aparelhamento fluíram através de sua visão.

Então Safiya o chutou. Bem no intestino.

Sua respiração trovejou. Sua magia sufocou.

Ele e a domna caíram.

Merik teve tempo o bastante para virar o corpo dele embaixo dela e
pensar: Isso vai doer quando suas costas baterem no convés.

Não... essa não era uma queda livre. Era um redemoinho de vento. Kullen
estava diminuindo a velocidade antes...

Merik bateu na madeira com uma rachadura no cérebro! A garota tombou


sobre ele, esmagando seus pulmões e costelas.

Apesar da dor e do choque, Merik aproveitou sua chance enquanto a tinha.


Ele enfiou os joelhos nos dela e virou-a para baixo dele. Então plantou as mãos
em ambos os lados da cabeça e olhou para baixo. — Você já terminou?

Seu peito arfava. Suas bochechas estavam vermelhas do sol, mas seus olhos
estavam brilhando e afiados. —Nunca. — Ela ofegou. — Não até você
desembarcar.

— Então vou colocá-la em grilhões. — Merik mudou como se para subir,


mas ela agarrou sua camisa e puxou. Seus cotovelos cederam; ele caiu contra
ela, seus narizes quase se tocando.

— Você não ... luta limpo. — Suas costelas se curvaram para ele com cada
respiração ofegante. — Lute comigo ... de novo. Sem magia.

— Eu machuquei o seu orgulho? — Ele riu e mergulhou a boca em direção


a orelha dela. Seu nariz roçou sua bochecha. — Mesmo sem meus ventos. — Ele
sussurrou. — Você perderia.

Antes que ela pudesse responder, Merik saiu de cima dela e se colocou de
pé. — Leve-a abaixo e acorrente-a!
Safiya tentou se levantar, mas dois marinheiros, homens da tripulação
original e leal de Merik, já estavam em cima dela. Ela lutou e rugiu, mas quando
Kullen pisou a seu lado, parou de lutar, embora ela não parasse de gritar. — Eu
espero que você queime no inferno! Seu primeiro imediato e sua tripulação,
espero que todos vocês queimem!

Merik se virou, fingindo não ouvir. Não importava. Mas a verdade era que
ele ouviu e se importou.

21
Demorou alguns minutos para que Aeduan conseguisse que o Imperador
Henrick o contratasse, mas a qualquer momento economizava-se para que seu
novo companheiro, o príncipe Leopold, assim como oito acompanhantes Hell-
Bard, saíssem do palácio.

Duas horas depois de deixar o escritório pessoal do Doge, Aeduan


finalmente se viu correndo ao lado da carruagem de Leopold e indo para o
Distrito de Southern Wharf. O trânsito era denso. As pessoas tinham vindo de
todos os cantos da cidade de Veñaza para ver “o palácio incendiado do Doge”.
Ou para ver, como a maioria das pessoas se referia a ele, “o que os três Marstoks
que comiam fogo usavam fogo”.

Aeduan não tinha ideia de como esse boato havia começado, mas
suspeitava quem o tivesse iniciado. Talvez um guarda palaciano barulhento
tivesse falado ou algum diplomata faminto de guerra tivesse intencionalmente
deixado escapar o boato. De qualquer maneira, as animosidades para os
Marstoks eram altas, enquanto Aeduan corria pelas ruas e pontes da cidade de
Veñaza, um mau sinal para a renovação da Trégua de Vinte Anos, e tudo sobre
a situação parecia guiado. Estrategicamente. Alguém queria os Marstok como
inimigo.

Aeduan arquivou isso para contar a seu pai.

Ele também arquivou o fato de que, dos oito Hell-Bards de Leopold, apenas
o comandante ainda respirava normalmente dentro de seu elmo depois de dois
quarteirões de corrida.

Tanto para uma força de combate de elite.

Então, novamente, Aeduan estava vergonhosamente exausto quando a


carruagem de Leopold entrou no Distrito de Southern Wharf, onde os navios de
guerra de Cartorrana rangeram.

Era quase noite, e os músculos recentemente curados de Aeduan


queimavam com o esforço, sua pele fresca estava superaquecida pelas ruas
lotadas, e suas velhas cicatrizes choravam mais uma vez, o que significava que
sua única camisa limpa agora estava manchada.

Ah, Aeduan mal podia esperar para se vingar de alguma forma quando
visse aquela Threadwitch novamente.

Leopold cambaleou para fora da carruagem para o pôr do sol quente.


Usava um terno de veludo verde-marinho muito fino para velejar e, no quadril,
havia um florete com cabo de gaiola de ouro, mais para o flash do que para o
uso.

Mas dinheiro era dinheiro, e o novo cofre de prata de Aeduan dentro da


carruagem era facilmente digno de assar ao sol e ouvir o interminável fluxo de
queixas do príncipe afetado.

— O que... — O príncipe gritou, uma mão enluvada na boca. — É esse fedor?

Quando nenhum dos Hell Bards se adiantou para responder, quando, na


verdade, todos pisaram fora do alcance da voz, como se intencionalmente
evitassem conversar com seu príncipe, o dever de uma resposta coube a
Aeduan.

— Esse fedor. — Disse ele categoricamente. — Vem dos peixes.

— E das fezes de Dalmottis imundos. — Gritou um homem barbado


descendo o cais. Ele usava o casaco verde-esmeralda da marinha Cartorrana e,
a julgar pelo seu queixo alto e os três homens correndo em seus calcanhares,
ele era o almirante que Leopold deveria encontrar-se.

Os quatro oficiais formaram uma fila diante de Leopold e estenderam arcos


curtos junto com quatro rodadas de — Sua Alteza Imperial.

Leopold sorriu como um menino com um novo brinquedo e, enquanto


ajustava sua espada, declarou em Cartorran: — Embarquem em seus navios,
homens. A frota sai com a maré e, de acordo com esse monge, é um Nubrevano
que caçamos.

O almirante mudou de posição, os capitães trocaram olhares e, de algum


modo, os Hell Bards se afastaram ainda mais. É claro que não haveria navegação
com a maré. Um único navio navegando para Nubrevna era arriscado na melhor
das hipóteses. Uma frota inteira era uma missão suicida. Todos aqui sabiam
disso, exceto o único homem que deveria: o herdeiro imperial de Cartorra.

No entanto, nenhum dos oficiais parecia inclinado a falar, nem mesmo o


almirante. Interiormente, Aeduan gemeu. Certamente essas pessoas não
temiam esse príncipe insípido. Aeduan podia entender o temor do Imperador
Henrick, mas o Imperador não estava ali para perder sua ira dentada.

Aeduan virou-se bruscamente para o príncipe e disse em Dalmotti: — Você


não pode levar uma frota para Nubrevna.

— Oh? — Leopold piscou. — Por que não?

— Porque seria inútil.

Leopold se encolheu e suas bochechas ficaram vermelhas, o primeiro sinal


de seu temperamento. Então, embora tenha matado Aeduan para fazê-lo, ele
acrescentou uma brusca: — Sua Alteza Imperial.

— Inútil, não é? — Leopold apertou a borda de seus lábios. — Estou


sentindo falta de alguma coisa então? — Ele virou-se para o almirante e, em
Cartorran, perguntou: — Não é para isso que servem as marinhas? Recuperar
as coisas que os Nubrevanos tiram de você? — As bochechas de Leopold se
contraíram enquanto ele falava, e Aeduan emendou seu pensamento anterior.

Leopold poderia de fato possuir um temperamento aterrorizante,


particularmente se o seu almirantado dependesse de seu capricho principesco
ignorante.

Com uma forte expiração, Aeduan falou mais uma vez. Ele não tinha
nenhum almirante para perder, afinal de contas. — As marinhas são para
batalhas no mar, Sua Alteza Imperial. Significa: no mar. No entanto, não vamos
a Nubrevna em busca de batalhas, porque a domna provavelmente estará em
Lovats quando seus navios de guerra chegarem à costa de Nubrevnan. Se eu
fosse o Nubrevnan Windwitch, é onde eu a levaria.

As bochechas de Leopold marcharam novamente, e quando falou, foi em


Dalmotti e endereçado a Aeduan. — Por que a chegada da garota em Lovats faz
diferença? Um Nubrevnan sequestrou a noiva do meu tio. Nós a
reivindicaremos.

— A Trégua de Vinte anos — Disse Aeduan. — não permite que


embarcações estrangeiras pousem no solo de uma nação sem permissão.

— Eu sei o que a maldita Trégua diz. Mas repito, eles têm a noiva do meu
tio. Isso já é uma violação da Trégua.

Exceto que não, pensou Aeduan. Mas ele não queria discutir, então deu
apenas um aceno de cabeça. — A única maneira de acessar Lovats é passar pelas
Sentinelas de Noden, e esses monumentos de pedra são fortemente guardados
por soldados nubrevanos. Supondo que sua frota pudesse sobreviver, o que eles
não poderiam, ainda teriam que lidar com as encantadas Pontes de Água de
Stefin-Ekart.

— Então. — A voz de Leopold era letalmente desprovida de inflexão. — O


que eu deveria fazer, então?

O almirante, seus capitães e os distantes Hell Bards recuaram


coletivamente, e Aeduan não mais os culpou. Henrick, pelo menos, entendia
guerra, custos e estratégia.

Sem mencionar a história básica.

No entanto, esta era uma oportunidade para Aeduan. Uma boa, que ele
poderia nunca ter novamente. Era a chance de ganhar a confiança de um
príncipe.

— Um único navio. — Disse Aeduan lentamente, torcendo os pulsos, para


dentro três vezes, para fora três vezes. — Precisamos da fragata mais rápida da
frota, bem como de todas as ondas Tide ou Windwitch disponíveis. Se
pudermos interceptar os Nubrevanos antes que eles atinjam sua terra natal,
poderemos reivindicar a domna sem afetar a Trégua... Sua Alteza Imperial.

Leopold olhou para Aeduan, a brisa Veñaza erguendo seus cachos pálidos
em todas as direções. Então, como se chegasse a alguma decisão interna, ele
bateu em seu punho de repente e acenou para Aeduan. — Faça acontecer,
Monge. Imediatamente.

Assim, Aeduan fez exatamente isso, presunçosamente satisfeito por ter


quatro oficiais e oito Hell-Bards, todos olhando para o peito ensanguentado de
Aeduan com cautela, agora forçados a receber ordens dele.
A experiência também foi... desconcertante. As pessoas raramente
olhavam diretamente para Aeduan, e muito menos ficavam tão perto. Então,
quando o planejamento finalmente terminou e os homens voltaram a ignorá-lo
mais uma vez, Aeduan sentiu-se aliviado.

Foi quando voltou para a carruagem de Leopold, depois de supervisionar


o transporte de seu cofre para um cortador cartorrano, que um cheiro familiar
passou por seu nariz.

Ele parou, a dois passos da carruagem, e cheirou o ar.

Água limpa do lago e invernos congelados.

Aeduan conhecia aquele cheiro, mas não conseguia identificar o sangue


correspondente. Leopold cheirava a couro novo e a lareiras esfumadas; os Hell-
Bards fediam a corda e ferro frio; e todos os oficiais possuíam aromas de sangue
oceânicos distintamente.

Quem quer que tenha passado recentemente pelo píer, Aeduan conheceu,
mas não se incomodou em registrar seu cheiro.

O que significava que eles não eram importantes.

Então, deixando o cheiro de lado, Aeduan puxou o capuz para baixo. Os


sinos marcaram a Sétima hora, o que significava Aeduan teria apenas tempo
suficiente para ir à Rua Ridensa e finalmente atualizar seu pai sobre este último
empregador, mais lucrativo.
22
As algemas irritavam os pulsos de Safi enquanto observava o rosto
adormecido de Iseult.

Havia uma linha inconfundível de baba nos lábios dela, mas Evrane se foi
e Safi estava acorrentada muito longe para fazer qualquer coisa.

Ela não podia fazer nada que importasse, parecia. Agiu como uma criança,
deixando seu temperamento explodir em Merik , e não se importava. O que ela
se importava era que seu ataque havia falhado. Que só piorou as coisas no final.

A sala estava escura, as nuvens rolando sobre o sol da tarde e a água


espirrava atrás dela. O navio estava ganhando velocidade, o balanço quase
parou, e a gigantesca bateria explodiu mais uma vez. O barulho dos pés dos
marinheiros também recomeçou.

Safi puxou os joelhos para o peito. Suas correntes sacudiram, um som


zombeteiro.

— Esso foi uma boa exibição.

Safi se levantou e encontrou Evrane na porta. Rápida como um rato, a


monja atravessou a sala para Iseult.

— Como ela está? — Perguntou Safi. — O que eu posso fazer?

— Você não pode fazer nada acorrentada. — Evrane caiu no chão e passou
a mão sobre o braço de Iseult. — Ela está estável. Por enquanto.

A respiração de Safi explodiu.

Por enquanto não era suficiente. E se Safi tivesse iniciado algo que não
conseguisse completar? E se Iseult nunca voltasse, nunca poderia acordar?

Evrane se virou para Safi. — Eu deveria ter mantido você no quarto. Sinto
muito por isso.

— Eu teria atacado Merik abaixo dos conveses ou acima.

Evrane fungou secamente. — Você está ferida do seu ... embate?

Safi ignorou a pergunta. — Diga-me o que há de errado com Iseult. Por que
ela precisa de um curador Firewitch?

— Porque há algo errado com o músculo de Iseult, e esse é o domínio de


um curandeiro Firewitch. — Evrane arrancou uma jarra de vidro de dentro do
manto. — Sou uma curandeira Waterwitch, então me especializei nos fluidos
do corpo. Minhas pomadas, — Ofereceu a jarra para Safi. — são de curandeiros
terrestres, então só podem curar pele e osso. Evrane colocou a pomada no catre.
— Há uma inflamação no músculo de Iseult que está enfeitiçada. Ou o corte em
sua mão ou a flecha ferida em seu braço foi amaldiçoado. Eu… não sei dizer qual,
mas é sem dúvida o trabalho de um Cursewitch.

— Um Cursewitch?— Repetiu Safi. Então, novamente. — Um Cursewitch


de verdade?

— Eu já vi feitiços como este antes. — Continuou Evrane. — Posso manter


a maldição longe de seu sangue, mas temo que ainda se espalhe por seu
músculo. Enquanto falamos, ele se move para o ombro dela. Se ficar muito mais
perto, vou ter que amputar, mas é arriscado fazer isso sozinha. O melhor é fazer
com um curandeiro Earthwitch e um curandeiro Firewitch para ajudar. É claro
que, mesmo se tivéssemos esses bruxos disponíveis, a maioria dos curadores
terrestres é Cartorrana. A maioria dos curandeiros Firewitch é Marstoki. Merik
nunca permitiria tais inimigos a bordo.

— Eles não são inimigos agora. — Resmungou Safi, sua mente ainda se
recuperando da ideia de amputação. Essa palavra parecia tão estranha. Tão
impossível.

— A guerra terminou há vinte anos.

— Diga isso aos homens que lutaram. — Evrane apontou para o porão
principal. — Diga isso aos marinheiros que perderam suas famílias para as
chamas Marstoki.

— Mas curandeiros não podem machucar. — Safi empurrou os dedos


contra a madeira até que os nós dos dedos estalaram. — Isso não é parte da sua
magia?

— Oh, podemos machucar. — Respondeu Evrane. — Só não com o nosso


poder.

Safi não disse nada. Não havia nada a dizer. Cada respiração que passava,
mais profundo no inferno ela caía e era menos provável que Iseult sobrevivesse.

No entanto, mesmo que Safi estivesse acorrentada, ela não desistiria. O


tratado de Merik, o plano de seu tio e até seu próprio futuro poderiam ser
condenados e três vezes condenados novamente. Safi iria encontrar uma
maneira de sair deste navio e iria obter para Iseult um curandeiro Firewitch.

— Então você é uma nobre. — Disse Evrane. — Mas você claramente sabe
lutar com uma lâmina. E me pergunto como isso aconteceu. — Ela
cuidadosamente pegou seu kit de curandeiro ao pé do catre. Então, com
movimentos precisos, desatou a atadura no braço de Iseult. O tambor bateu,
bateu e bateu.

— Em Nubrevna. — Continuou Evrane. — Chamamos nossos doms e


veneradores de domnas de "vizers". A terra de minha família, e a propriedade
dos Nihar, ficava a sudeste da capital. Uma porcaria, para dizer a verdade. —
Evrane lançou um sorriso irônico a Safi enquanto retirava a bandagem com
tanta cautela. — Mas as porções de porcaria tendem a reproduzir os
descendentes mais famintos de poder, e meu irmão não foi exceção. Ele acabou
ganhando a mão da rainha Jana, e os Nihar foram introduzidos nas cobras reais.

A nobreza cartorrana é o mesmo, pensou Safi. Viciosos, cruéis, mentirosos.


Enquanto um homem como Merik poderia sentir-se ligado à sua terra e ao seu
povo, Safi nunca havia sofrido essa lealdade. O povo Hasstrel nunca a quis, nem
seus colegas doms e domnas. E, como o tio Eron havia dito de maneira tão
sucinta, Safi não estava exatamente preparada para a liderança.

Evrane deixou de lado as bandagens sujas e pegou o pote de limpeza. — A


política é um mundo de mentiras e o tribunal de Nubrevnan não é diferente. No
entanto, quando meu irmão se tornou rei ... — Ela franziu a testa e abriu o
frasco. — Quando Serafin se tornou rei e almirante da Marinha Real, ele se
tornou a pior cobra de todos eles. Ele coloca vizir contra vizir, filho contra filha,
até os próprios.

— Eu fiquei alguns anos depois que a família se mudou para Lovats. —


Continuou Evrane. — Mas acabei desistindo. Eu queria ajudar as pessoas, e não
podia fazê-lo na capital. — Evrane substituiu a banheira em seu kit e depois
acenou para Witchmark na direção de Safi. — É parte de ser abençoado com a
cura Waterwitch, suponho. Eu preciso ajudar e se estou ociosa, estou infeliz.
Então, anos antes da Trégua começar, abandonei meu título e viajei para as
Montanhas Sirmayan para fazer meus votos em Carawen. Os Poços sempre me
chamaram e eu sabia que poderia ajudar os outros com um manto branco nas
costas. De onde você vem, Domna?

Safi sugou cansada; suas correntes tremeram com o movimento. — Eu sou


das Montanhas Orhin, no centro de Cartorra. Era frio e úmido e eu odiava isso.
— E Iseult é do assentamento Midenzi? — Evrane colocou a nova
bandagem no braço de Iseult e, com uma lentidão quase dolorosa, passou-a ao
redor de seu bíceps. — Eu me lembro agora.

Os pulmões de Safi se comprimiram. Cabelo prateado. Uma monja


curandeira. — Você. — Safi exalou. — Foi a monja que a encontrou.

— Hye. — Evrane respondeu simplesmente. — E isso é uma coisa muito


significativa. — Evrane angulou um olhar severo para Safi. — Você sabe por que
é significativo?

Safi balançou a cabeça lentamente. — É ... uma incrível coincidência?

— Não é coincidência, Domna, mas sim a lady Destino no trabalho. Você


conhece 'O Lamento Eridysi'?

— Você quer dizer a música que os marinheiros bêbados cantam?

Evrane riu suavemente. — Essa é a mesmo, embora seja na verdade parte


de um poema muito mais longo. Um épico, realmente, que os monges de
Carawen acreditam ser... — Ela fez uma pausa, seu olhar desfocado, como se
procurasse a palavra certa.

— Uma profecia. — Ela finalmente disse com um aceno de cabeça, porque


Eridysi era um Sightwitch20, e muitas de suas visões acabaram se
concretizando.

— Desde que me juntei ao Monastério, senti, Domna, que eu fazia parte

20 Bruxa com o dom da profecia.


daquele Lamento.

Safi ficou lançou um olhar cético para Evrane. Pelo que sabia da letra da
canção, era tudo sobre traição, morte e perda eterna. Dificilmente o tipo de
coisa que se deseja ser real e muito menos uma profecia do próprio caminho
pessoal de cada um.

No entanto, quando Evrane falou de novo, não era de Lady Destino nem de
predições, e sua atenção voltou para o rosto delicado de Iseult. — Ela está muito
doente, mas juro pelos Poços Originais que não vai morrer. Eu morrerei antes
de deixar isso acontecer.

Aquelas palavras tremeram através de Safi, ressoando com uma verdade


tão intensa que Safi só pode assentir em retorno. Pois ela faria o mesmo por
Iseult, assim como sabia que ela sempre faria por Safi.

***

Merik olhou para a mesa de mapas diante dele, na miniatura


Aetherwitched que Vivia havia comprado. Kullen encostou-se à parede
próxima, rígido e inexpressivo. O frio no ar era o único sinal de sua ansiedade.

A luz do sol espiava através das nuvens, e o Jana mergulhou e subiu com o
rolo do oceano. No mapa, a miniatura de Jana avançava suavemente... Mas o
navio comercial de Dalmotti não. Tinha diminuído significativamente e logo
chegaria ao lugar exato em que Merik dissera a Vivia que seria, e chegaria no
exato momento em que ele lhe contou também.

As mentiras de Merik estavam se tornando verdade bem diante de seus


olhos.

Ele supunha que poderia tentar impedir sua irmã, contar uma história
nova sobre uma mudança abrupta de rumo... Mas duvidava que ela acreditasse
nele. Com toda a probabilidade, ela já estava em posição, esperando por sua
presa desavisada passar.

— Eu nos enterrei em um túmulo profundo. — Disse Merik, com voz rouca.

— Mas você vai nos tirar novamente. — Kullen abriu as mãos. — Você
sempre tira.

Merik puxou sua gola. — Eu fui descuidado. Cego pela minha excitação com
um contrato três vezes condenado, e agora... — Ele exalou bruscamente e se
virou para Kullen. — Agora eu preciso saber se você pode fazer o que precisa
ser feito.

— Se você quer dizer... — Disse Kullen impaciente. — Como estão meus


pulmões? Se for, eles estão perfeitamente bem. — A temperatura caiu ainda
mais; A neve cintilou ao redor da cabeça de Kullen. — Eu não tive problemas
em semanas. Então eu prometo — Kullen colocou um soco no coração — que
posso voar para o navio de Vivia e mantê-la longe da pirataria. Pelo menos até
você chegar.

— Obrigado.

— Não me agradeça. — Kullen balançou a cabeça. — É pura sorte que


estamos aqui e não na cidade de Veñaza. Se ainda estivéssemos do outro lado
do mar, não conseguiríamos intervir. — Uma pausa. Então o ar aqueceu um
pouco. — Há algo mais que devemos discutir antes de eu ir.

Merik não gostou do som disso.

— A garota Matsi embaixo. — Continuou Kullen. — Você tem um plano


para ela?

Merik inalou com cansaço e checou sua camisa, ainda presa. — Estou
trabalhando nisso, Kullen. E não vou deixá-la morrer, tudo bem? Mas o Jana e
nosso povo devem vir em primeiro lugar.

Kullen assentiu, aparentemente satisfeito. — Então farei o que precisa ser


feito.

— Como eu. — Disse Merik. — Agora, junte a tripulação e convoque os


Cavaleiros. É hora de puxar o vento.
23
Estava se aproximando do pôr-do-sol e Evrane partira para encontrar
comida, deixando Safi para contemplar Iseult e Lady Destino sozinha.
Certamente as chances de Iseult encontrar a mesma monja que a ajudara eram
altas, afinal, quantos monges Carawen poderiam existir no continente?

E certamente esse reencontro era mais parecido com o acaso e a


probabilidade, como Ryber desenhando o Paladino das Raposas do convés de
tarta, do que com algum poema antigo que guiava a vida da monja.

Ao som de passos se aproximando, os pensamentos de Safi se espalharam.


A porta da cabine se abriu para revelar Merik, uma tigela de madeira na mão.

Seus lábios se curvaram para trás. — Vai brigar comigo de novo? — Era
um comentário grosseiro, mas Safi não conseguia se importar.

— Eu deveria? — Ele entrou na cabine e fechou a porta. — Você não parece


estar se comportando mal.

— E não estou. — Ela resmungou, e era verdade. Apesar de querer rosnar,


gritar e fazer ele se arrepender de colocar ferro contra sua pele, não era
estúpida o suficiente para perder a energia. Agora, mais do que nunca, ela
precisava de um plano.

— Bom. — Merik marchou e colocou a tigela perto de Safi, embora ele


sabiamente tenha ficado para trás.

Correntes estridentes, Safi espiou dentro da tigela. Sopa pálida com um


rolo seco flutuando no topo.

— O que é isso?

— O que temos. — Merik se agachou. Seus olhos se encontraram. O seu era


um rico, marrom escuro. No entanto, ele parecia distraído, o triângulo em sua
testa afundando em uma carranca. — É principalmente caldo de osso, e tudo o
mais que podemos encontrar para a sopa.

— Parece ... delicioso.

— Não é. — Ele encolheu os ombros. — Mas vou ajudar a partir o seu pão.
— Ele arrancou o rolo da tigela e, com um quase sorriso de desculpas, rasgou-
o e soltou cada pedaço do tamanho da mordida no caldo.

Safi observou-o através dos cílios meio abaixados.

— Isso é algum truque? Por que você está sendo legal comigo?

— Sem truques. — Mais pão jogado na tigela. — Quero que você saiba que
entendo porque você... me atacou. — Lentamente, voltou a olhar para Safi.
Estava sombrio agora. Desolado mesmo. — Eu teria feito a mesma coisa em sua
posição.
— Então por que você não para? Se você entende, por que não leva Iseult
à terra?

A única resposta de Merik foi grunhir sem compromisso e largar o último


pão na tigela. Safi olhou para ele, balançando no caldo, e frustração ferveu seus
ombros.

— Se — Ela disse baixinho. — você espera que eu seja grata pela sopa...

— Eu espero. — Ele interrompeu. — Não temos muita comida neste navio,


Domna, e você está comendo minha ração de jantar. Então, sim, um pouco de
gratidão seria bom.

Safi não tinha resposta para isso. Na verdade, ela não tinha absolutamente
nenhuma palavra e sua cautela subitamente dobrou. O que Merik queria dela?
Sua magia não sentiu nenhum engano.

Merik cutucou a tigela. — Coma, Domna… oh, espere! Eu quase me esqueci!


— Ele retirou uma colher do casaco. — Como posso lhe servir com imperfeição?
Você sabe quantos homens a bordo matariam pelo uso de uma colher?

— E você sabe — Ela retrucou. — quantos homens eu posso matar com


uma colher?

Isso lhe rendeu um sorriso preguiçoso, mas quando pegou a colher, Merik
não a soltou. Seus dedos se tocaram...

E o calor enrolou o braço de Safi. Ela recuou, a mão e a colher atirando de


volta.
— Nós vamos parar em breve. — Disse Merik, aparentemente inconsciente
de sua reação. — Pode haver luta e... eu queria te avisar.

— Quem vai lutar? — A voz de Safi estava estranhamente alta, seus dedos
ainda zumbindo enquanto ela segurava a colher. — Iseult e eu estamos em
perigo?

— Não. — A cabeça de Merik tremeu uma vez, mas a palavra, e o


movimento, frisou contra o poder de Safi. Falso. — Vou mantê-las seguras. —
Acrescentou, quase como uma reflexão tardia. A magia de Safi ronronou,
Verdade.

Franzindo a testa, ela tomou um gole da sopa. Era repugnante, mesmo com
tanta fome quanto estava. Suavemente ao ponto de insípido e frio ao ponto de
congelar.

— Não me assista comer. — Ela bufou.— Não vou realmente matar alguém
com a colher.

— Obrigado Noden. — Seus lábios se contraíram. — Eu estava preocupado


com toda a tripulação. — Uma pausa, em seguida, um breve movimento de sua
cabeça, como se sacudisse alguma nuvem escura que o atormentava.

Quando Merik encontrou o olhar de Safi, seus olhos estavam afiados, os


mais afiados que já tinha visto, e ela teve a desconfortável sensação de que ele
a viu. Não apenas a superfície dela, mas todos os seus segredos também.

— Com toda a honestidade. — Disse ele finalmente. — Você é uma ameaça,


Domna. É por isso que tenho que te manter acorrentada. Você faria qualquer
coisa por sua irmã de linha, e eu faria o mesmo por Kullen.

Verdade.

Quando Safi ficou em silêncio, exceto por sua sopa, Merik continuou. —
Kullen e eu nos conhecemos desde que éramos garotos, desde que fui para a
propriedade de Nihar, onde sua mãe trabalha. Quando você conheceu Iseult?

Safi engoliu seu bocado atual, quase engasgou com o pão, e então coaxou:
— Por que você quer saber?

Merik suspirou. — Curiosidade de boa índole.

Verdade.

A boca de Safi franziu para um lado. Merik estava sendo estranhamente


aberto com ela, o que certamente não precisava ser, e Safi supôs que não havia
vantagem tática se descobrisse como ela e Iseult haviam se tornado amigas.

— Nós nos conhecemos há seis anos. — Finalmente respondeu. — Ela


trabalha… ou trabalhou, suponho, para meu tutor na cidade de Veñaza. Sempre
que eu o visitava para uma aula, Iseult estava lá. Eu... não gostei dela no
começo.

Merik assentiu. — Eu também não gostei de Kullen. Ele era tão tenso e
desajeitado.

— Ele ainda é.

Merik riu, um som cheio e rico que enviou calor ao redor do estômago de
Safi. Com os olhos enrugados e o rosto relaxado, Merik era bonito. Relaxado
assim, e contra seu melhor julgamento e desejo mais forte, Safi encontrou-se
relaxando.

— Eu pensei que Iseult era estranha também. — Ela disse lentamente. —


Eu não entendia sobre Threadwitches naquela época, ou Nomatsis. Eu apenas
achei que Iseult era estranha. E fria.

Merik coçou o queixo, áspero de barba por fazer.

— O que mudou?

— Ela salvou minha vida de um Clivado. — Safi olhou para Iseult, rígida
sobre o catre. E muito pálida.

— Tínhamos apenas doze anos de idade e Iseult me salvou sem pensar em


si mesma.

Havia um Earthwitch perto da loja de Mathew. A mulher começou a se


romper, e Safi apenas se afastou, e quando a bruxa atacou, achou que tudo
estivesse acabado para ela. Chamas do inferno ou Hagfishes, ela não sabia, mas
estava certa de que estavam vindo atrás dela.

Até que Iseult estava de repente lá, pulando nas costas da mulher e lutando
como se sua vida estivesse presa na balança.

Claro, Iseult não tinha sido forte o suficiente para parar o Earthwitch,
então, graças aos deuses, Habim chegou apenas alguns instantes depois.

Esse foi o primeiro dia que Habim começou a treinar Iseult para se
defender ao lado de Safi. Mais importante, foi o primeiro dia que Safi viu Iseult
como amiga.

E agora era assim que Safi a pagava, enviando suas vidas em fumaça.

Safi mexeu sua sopa, observando o pão girar.

— Como você e Kullen se tornaram amigos?

— Uma história semelhante. — Merik molhou os lábios e, com um pouco


de indiferença, disse: — Kullen tem pulmões ruins, eu não sei se você notou. É
irônico, na verdade, ele é um Airwitch e pode controlar os pulmões de outra
pessoa, mas não os seus. — Merik deu uma risada seca. — Kullen teve seu
primeiro ataque de respiração verdadeiramente ruim quando ele tinha oito
anos, e eu usei meus ventos para reanimá-lo. Simplesmente direto. — Merik
assentiu para a sopa. — Como está o jantar?

— Já tive pior.

Ele abaixou a cabeça. — Eu vou aceitar isso como um elogio. Nós fazemos
o que podemos aqui, com o pouco que temos. — Ele ergueu as sobrancelhas
como se pretendesse um duplo sentido.

Foi perdido em Safi. — Onde você quer chegar?

— Eu acho que você faz o mesmo, se contenta com o que tem. Eu ajudarei
Iseult quando puder.

— Não posso esperar tanto tempo. Iseult não pode esperar.


Merik deu de ombros. — Você não tem escolha, no entanto. Você é a única
em cadeias.

Safi se encolheu como se ele tivesse batido nela. Ela largou a colher e jogou
fora a tigela. Caldo espalhou pelos lados.

Deixe Merik zombar de seu desamparo. Deixe-o rir de suas correntes. Ela
acendeu esta pira; ela apagaria isso, e não precisava da permissão dele ou de
outra pessoa para fazer isso.

— Tem gosto de merda. — Disse ela.

Merik deu um aceno de cabeça, o que só a irritou mais. — Mas pelo menos
eu vou jantar agora. — Pegou a tigela e, em seguida, marchou da sala tão
suavemente quanto entrou.

***

Iseult ficou presa no meio do sonho de novo. Vozes permaneciam fora de


sua consciência e os sonhos pairavam um pouco além. Alguém estava aqui .

Não eram as pessoas na cabine do navio, das quais Iseult podia ouvir com
dificuldade. Essa presença era uma sombra diferente, alguém que se contorcia
no fundo de sua mente.

Acorde, Iseult disse a si mesma.


— Fique dormindo. — A sombra murmurou. Tinha uma voz que ela
conhecia, a sua própria. — Fique dormindo, mas abra os olhos ...

A voz era mais forte que Iseult. Isso revestia sua mente com um xarope
pegajoso e inescapável, e embora Iseult gritasse consigo mesmo para despertar,
tudo o que conseguia era exatamente o que a voz queria.

Ela abriu os olhos e viu o anteparo oleado da cabine.

— Um barco. — A sombra murmurou. — Agora me diga, Threadwitch, qual


é o seu nome? — A sombra ainda falava na voz de Iseult, embora houvesse uma
vertiginosa camada sobre suas palavras, como se ela constantemente sorrisse.
— E você viaja com outra garota? Uma Truthwitch? Você deve, pois há apenas
alguns Threadwitches no mar agora, três, para ser exata, dos quais apenas um
é da idade apropriada.

— Quem. — Iseult começou, embora tivesse que lutar para conseguir a


única palavra sobre seus lábios. Sua voz soava a milhões de quilômetros de
distância, e ela se perguntou se talvez realmente falasse no mundo real, se por
isso sua garganta parecia queimar com o esforço. — Quem é Você?

A alegria da sombra se solidificou e um fio de gelo deslizou pela espinha de


Iseult. — Você é a primeira pessoa a me sentir! Ninguém nunca ouviu o que eu
digo ou o que comando. Eles simplesmente seguem ordens. Como é que você
sabe que estou aqui?

Iseult não respondeu. Apenas expressar a única questão enviara uma dor
quente pelo corpo dela.
— Minha, minha. — A sombra declarou. — Você está muito doente, e se
morrer, eu não vou aprender nada. — A sombra pressionou mais de perto, e
seus dedos vasculharam os pensamentos de Iseult. — É difícil ler você de
qualquer maneira, você está bem fechada. Alguém já lhe disse isso antes? — A
sombra não esperou por uma resposta. Em vez disso, uma pergunta trovejou
pela mente de Iseult. — VOCÊ VIAJA COM UMA TRUTHWITCH NOMEADA
SAFIYA?

O intestino de Iseult ficou apertado. O gelo ao longo de sua espinha cortou


para fora. Com toda a força e treinamento que Iseult conseguia reunir, ela
reprimiu suas emoções, seus pensamentos e cada fragmento de conhecimento
que ameaçava subir à superfície.

Mas ela foi muito lenta. A sombra sentiu seu medo e se lançou para ele.

— Você viaja! Você está sim! Você deve ter uma resposta tão selvagem. Oh,
a Lady Destino me favorece hoje. Isso tudo foi muito mais fácil do que eu
esperava. — Felicidade ondulou na sombra. Iseult imaginou que estava
aplaudindo sua alegria. — Agora, você deve permanecer viva, pequena
Threadwitch, sim? Você pode gerenciar isso? Vou precisar de você novamente
quando chegar a hora.

Quando chegar a hora? Iseult pensou, incapaz de falar. — Até nos


encontrarmos de novo! — A sombra vibrou. Então a presença das trevas a
varreu.

E Iseult acordou para o mundo real.

Os próximos minutos foram um borrão da monja ajudando Iseult a se


sentar, dos Threads de Safi saindo do outro lado da sala, do mundo girando e
balançando.

— Safi?

— Estou aqui, Iz.

Iseult relaxou um pouco, até a monja inspecionar sua atadura. Então foi
preciso todo o seu autocontrole para não gritar com ela para dar o fora! Oh, Lua
Mãe, salve-a, como poderia haver tanta dor?

Você está muito doente de fato, foi o que a voz sombria havia dito e,
observando os assustados Threads cinzentos que tremulavam sobre a monja e
Safi, Iseult não tinha dúvida de que a voz estava certa.

O que ela não sabia, no entanto, era se a voz era real .

Iseult agarrou o pulso da monja. — Eu vou morrer?

A monja ficou muito quieta. — Você … poderia morrer. O músculo está


amaldiçoado, mas estou fazendo tudo o que posso para manter o sangue limpo.

Iseult quase riu disso. Corlant deve ter amaldiçoado sua flecha. Não admira
que ele parecia tão convencido depois de acertar. Ele sabia que a ferida a
mataria no final.

Embora… por que? A razão pela qual Corlant queria Iseult morta ainda
estava perdida para ela. Se ele realmente desejasse vingança contra Gretchya e
Alma, não teria apontado tão descaradamente sua flecha para Iseult.
Era mais do que Iseult poderia classificar agora. Muitos pensamentos,
confusos e contraditórios. Nenhuma força mental para levar tudo isso.

— A água vai ajudar. — A monja baixou a cabeça para uma bolsa de água.
— Por favor, tente beber enquanto eu encontro comida. — Ela rolou para seus
pés e deslizou do quarto.

Iseult girou a cabeça na direção de Safi. Por um piscar de olhos, Iseult quase
desejou que pudesse chorar, poder espremer algumas lágrimas tão facilmente
quanto o resto do mundo. Só assim Safi saberia o quanto Iseult estava aliviada
por tê-la ali.

— Você está acorrentada.

Um estremecimento puxou os olhos de Safi.

— Eu aborreci o Almirante.

— Claro que você fez.

— Não é engraçado. — Safi afundou contra a parede, seus Threads


pulsando entre o mesmo cinza e verde preocupado. — As coisas estão ruins, Iz,
mas vou consertá-las, tudo bem? Eu juro, vou consertar. Evrane prometeu nos
ajudar.

Evrane. Então esse era o nome da monja. Evrane. Tão simples e


despretensioso.

— O que aconteceu com você, Iz? Como você se machucou?


Iseult soltou uma respiração entrecortada.

— Mais tarde. — Ela murmurou. — Eu explicarei … depois. Diga-me como


chegamos aqui.

Safi lançou um olhar cauteloso para a porta antes de abaixar a voz. — Tudo
começou na cidade de Veñaza, logo depois que Habim mandou você embora.

Enquanto Safi descrevia o que havia passado, Iseult achava cada vez mais
difícil ficar ligada ao mundo real, para escolher os detalhes que importavam.

Morangos e chocolate... Não é importante, ela decidiu vagamente. Mas


dançar com o príncipe Merik de Nubrevna? Importante. E ser nomeada
prometida de Henrick fon Cartorra, tudo porque o Imperador poderia saber
sobre a magia de Safi ...

— Espere. — Iseult cortou, piscando contra a dor em seu braço. — Você é


a prometida do Imperador? Isso faz de você a Imperatriz de Cartorra...

— Não! — Safi deixou escapar. Então, com mais calma. — Tio Eron disse
que eu não teria que me casar com Henrick.

— Mas se o Imperador sabe sobre sua magia, então o que isso significa?
Quem mais sabe?

— Eu não sei. — A testa de Safi se apertou. Então, em uma corrida ainda


mais rápida de palavras, ela terminou sua história.

Mas a segunda metade da história foi mais confusa do que a primeira, e


Iseult não conseguiu passar do noivado. Se Safi se tornasse Imperatriz, então
Iseult não teria para onde ir.

A porta se abriu. Evrane entrou com uma tigela.

— Por que. — Evrane sussurrou para Safi. — minha paciente parece duas
vezes mais pálida do que quando eu saí? Você a esgotou, Domna!

— Estou sempre pálida como a morte. — Iseult falou, ganhando um sorriso


tenso de Safi.

Quando finalmente Evrane considerou Iseult suficientemente alimentada,


trocou-a de posição. Então Safi levantou a voz, as correntes chocalhando. — Vou
encontrar um curador Firewitch, Iz, tudo bem? Juro que vou e juro que vai
melhorar.

— Juramento aceito. — Iseult respirou. Seus olhos estavam pesados


demais para se manterem abertos, então ela os deixou trancar. — Se você não
encontrar um curandeiro, Saf e eu morrer, prometo assombrá-la pelo resto... de
sua vida miserável ...

A risada de Safi explodiu em excesso e as pálpebras de Iseult estalaram


brevemente. Os Threads de Safi estavam histericamente brancos.

Mas, ah, Evrane estava sorrindo. Aquilo era legal. Aqueceu o coração de
Iseult muito ligeiramente.

Iseult sentiu a mão da mulher pousar em sua testa. Um batimento cardíaco


passou, e apesar do guincho da madeira do navio, a magia de Evrane
rapidamente rebocou Iseult sob ondas adormecidas.
24
Quando Merik pisou no convés principal para mandar Kullen atrás de
Vivia, e enviar o Jana para trás, ele encontrou uma névoa de nuvens roxas o céu
noturno.

A chuva chegaria eventualmente, mas por enquanto, o ar estava denso e


parado. O tipo de calma sem graça que deixava navios sem bruxas encalhados.

Como a tripulação de Merik havia feito na noite anterior, os marinheiros


do Jana estavam organizados em filas no convés, todos, exceto Ryber, que
estava ao lado do tambor de ar, o olhar ancorado em Kullen na proa do navio.

Merik suspirou ao ver Ryber assim. Ele teria que lembrá-la de manter tal
consideração aberta mascarada. Ele sabia o que ela e Kullen compartilhavam,
mas o resto dos homens não, e não podiam. Não se Ryber quisesse ficar neste
navio e na tripulação de Merik.

Merik marchou até o tombadilho para contemplar seus homens. Ao


contrário da noite anterior, não havia necessidade de silêncio. Então Merik
forçou um sorriso, um que ele costumava usar quando era apenas ele e sua
pequena tripulação navegando pelas águas do Nubrevna. — Dê-nos uma
música para navegar. — Ele rugiu. — Que tal o 'Ol' Ailen 'para começar?

O 'Ol' Ailen 'era o favorito, e vários marinheiros combinavam com o sorriso


de Merik enquanto ele se dirigia ao tambor de ar e aceitava o malho não
imaginado de Ryber. Nem ela, nem a tripulação sabia para onde navegavam, e
por mais que Merik gostasse de pensar que se oporiam à pirataria de Vivia, ele
não tinha certeza.

Merik martelou o tambor quatro vezes e, no quinto tempo, os homens do


Jana começaram a cantar.

Quatorze dias eles lutaram contra a tempestade!

Quatorze dias eles enfrentaram o vento!

Quatorze dias sem oceanos calmos,

Vi os homens do velho Ailen.

Ei!

Treze dias eles armaram e ya-aw,

Treze dias eles oraram pelo fim!

Treze dias de navegação,

Vi os homens do velho Ailen.

Quando as vozes enferrujadas da tripulação se misturaram no terceiro


verso, Merik entregou o martelo a Ryber e se posicionou ao lado dos três
Montes de Pedras. Kullen escolheu aquele momento para se lançar do convés,
o vento rugindo em seu rastro. Ele logo era nada além de um pontinho no
horizonte.

O mais novo dos Tidewitches ofereceu óculos à Merik, e uma vez que Merik
os teve amarrado - e o mundo se tornasse um lugar empenado, ele gritou:

— Reúnam suas águas, homens!

Como um só, o peito dos Tidewitches se expandiu. Merik também, e com


sua inspiração veio o poder familiar. Nenhuma raiva se acendeu embaixo dela.
Merik se sentiu tão calmo quanto uma poça de maré. Então Merik e os
Montessários expiraram. O vento girou em torno das suas pernas. Ondas
ondularam em direção ao navio.

— Preparem as marés! — Merik gritou, e a carga elementar dentro dele


aliviou, acendeu o ar ao seu redor.

— Façam a manobra!

Em uma grande sucção de poder, a magia deixou o corpo de Merik. Um


vento seco e fervente soprava sobre o navio e seguia para as velas.

No mesmo momento, as águas dos Cavaleiros empurraram a linha de água


do Jana e o navio avançou. Os joelhos de Merik tremeram, e ele ficou
impressionado com o quão mais suave estes lançamentos eram com Kullen no
controle.

"Nove dias de uma raposa caçando,


Nove dias de dente e barbatana!

Nove dias de mandíbulas a estalar,

Vi os homens do velho Ailen.

Ei!"

Merik caiu no ritmo da canção e da batida do tambor de vento. O poder


pulsava através dele, estranhamente suave, extraordinariamente vasto. Pela
primeira vez em sua vida, ele sentiu como se tivesse mais magia do que sabia o
que fazer, e enquanto os Montanhistas cantavam suavemente, os ventos de
Merik enchiam as velas do Jana. Logo, ele levantou a voz em música.

Quatro dias sem água fresca,

Quatro dias sem beber!

Quatro dias de sal e ar quente

Vi os homens do velho Ailen.

A canção logo terminou, mas Ryber continuou batendo no tambor e gritou:


— As Donzelas ao Norte de Lovats! — Merik sabia que era sua canção favorita,
já que ela era uma donzela do norte de Lovats.

Quatro batidas depois, o coro de marinheiros recomeçou e, a seguir, o Jana


se moveu, cortando os mares como uma agulha através de um pano de vela e
nunca perdendo de vista a pequena forma de Kullen.

Até que Kullen não estava mais pequeno, até que ele estava se
aproximando tão rápido que Merik pensou que eles fossem colidir.

Kullen diminuiu a velocidade, e depois tombou no convés, marinheiros se


afastando de seu caminho.

— Não é um navio de Dalmotti! — Ele rugiu, ficando de pé. Então estava


correndo para o leme onde Merik estava, seu rosto violentamente vermelho. —
Vivia já atacou e não é um navio comercial.

Merik piscou estupidamente com essas palavras. Elas eram


incompreensíveis, rabiscos embaixo do sangue agora correndo em seu crânio.
— Não é um navio comercial?

— Não. — Kullen ofegou. — É um galeão naval de Marstoki e está


carregando armas e fogos de artifício.

***

Safi olhou pela janela para os céus de lavanda e os mares pacíficos. Desde
que Evrane invadira a cabine, rosnando sobre “Vivia, aquela cadela”, Safi
esticara suas correntes e atracou sua atenção no vidro. O terreno estava
mudando de forma diante de seus olhos, possivelmente seus oponentes
também. Merik mencionou lutar, e Safi só podia supor que navegaram direto
para ele.

Todo o tempo, Evrane andava de um lado para o outro, soltando sua


preocupação para ninguém em particular, mas fazendo isso a tempo do tambor
pesado. Iseult simplesmente dormia.

Finalmente, a vigília de Safi foi recompensada: uma mancha de formas


escuras se formou no horizonte, eventualmente se solidificando em um navio
de guerra Nubrevnan como o de Merik e um segundo navio com um casco tão
escuro que era quase preto.

Safi puxou suas correntes, seus braços curvados para trás até que estava
perto o suficiente da janela para inspecionar completamente o navio negro.
Três mastros, quebrados ao meio. Uma bandeira caindo sobre o baluarte.

Ela recuperou o fôlego. Não havia como confundir a lua crescente de ouro
naquela bandeira. Era o símbolo do Império de Marstok, e o fundo verde era o
padrão da marinha Marstoki .

— Oh, merda de morcego. — Sussurrou Safi.

Vivia pensa, disse Evrane a ninguém em particular, que não haverá


retaliação de Dalmotti? A pirataria não é ignorada, especialmente não de um
império naval.

— Eu não acho que Dalmotti vai retaliar. — Safi falou. Evrane fez uma
pausa no meio do caminho e Safi apontou para a janela, as correntes fazendo
barulho.

— O navio que ela atacou é da marinha de Marstoki.

— Poços nos guardem. — A monja respirou. Então cambaleou até a janela


e seu rosto empalideceu. — O que você fez, Vivia?
Safi pressionou o rosto no vidro ao lado de Evrane. Marinheiros
nubrevanos marchavam homens Marstoki vestidos verde através de um
corredor. Os pulsos estavam amarrados, e eles estavam perto o suficiente para
Safi ver triângulos sólidos em mais do que algumas mãos.

Feitiços de bruxas. Marcas de bruxa de fogo.

— Por que nenhum dos Firewitches está lutando? — Safi nunca deixaria
de usar sua magia para salvar a si mesma ou seus amigos. Sua perna começou a
saltar, mais perguntas voando em sua mente. — E por que os Marstoks estão
sendo levados do seu navio?

— Eu suponho — Disse Evrane, retomando seu ritmo frenético. — que


Vivia pretende reivindicar o navio Marstoki e todo o seu conteúdo, então
abandonar seu próprio. Por causa da Trégua, ela não pode matar os Marstoks
imediatamente.

Assentindo devagar, Safi pensou no tio Eron e em seu enorme plano para
impedir a Grande Guerra. Esse era o tipo de ato que dissolveria a Trégua no
início? Era isso que ele esperava evitar?

Safi não tinha ideia e não tinha como saber, então voltou sua atenção para
os Marstoks que cambaleavam no navio de Vivia. Não havia muitos Firewitches,
mas o suficiente para lutar contra a tripulação da princesa.

Na verdade, um homem barbudo parecia cruel o suficiente para salvar seu


navio inteiro. Ele rosnava e batia em cada Nubrevnan cutucando-o sobre o
corredor. Então Safi viu sua marca triangular de Witchmark - havia um círculo
oco no centro.
— Eles têm um curandeiro Firewitch. — Disse ela, com a voz rouca de
choque.

— Talvez. — Murmurou Evrane.

— Talvez não. — Insistiu Safi. — Eu vejo a marca na mão dele. Ele acabou
de cruzar o corredor para o outro navio.

Evrane se aproximou de Safi com os olhos arregalados. — Você tem certeza


do que viu?

—Hye. — Safi se arrastou para trás da janela, suas correntes afrouxando.


De repente, viu o que precisava fazer. O plano estava todo lá antes dela. Ela
sabia onde andar debaixo dos conveses, como se esgueirar por cima e quais
marinheiros evitar. — Podemos chegar ao Firewitch. — Disse ela. — Enquanto
todos estão distraídos, podemos trazê-lo aqui.

— Não. — Os lábios de Evrane se enrugaram em uma linha sombria. —


Não podemos trazer um marinheiro inimigo para este navio. Isso vai longe
demais, até para mim. No entanto, podemos reverter seu plano e levar Iseult ao
curador. — A monja retirou uma chave de seu manto e ergueu-a.

Safi ofegou. — Como você conseguiu isso?

— Eu roubei de Merik. — Ela deu um sorriso sem humor e empurrou para


seus pés. — Solte-se e depois acorde Iseult. Enquanto garanto que a costa está
limpa, você precisa colocá-la em pé. Só teremos uma chance de fugir.

Safi assentiu, soltando o movimento dos ombros dela. Através das pernas
dela. Estava finalmente agindo, e melhor ainda, ela estava fugindo. Isso era algo
que ela sabia fazer bem.

No fundo de sua mente, porém, algo cutucou e arranhou: Merik ficaria


furioso com isso. Afinal, ela estava colocando seu contrato em risco, e ele já a
acorrentou por isso.

Mas as consequências valeriam a pena, Iseult valia a pena.

Então, com uma respiração reforçada, Safi arrancou a chave da mão de


Evrane. Então, quando saiu da cabine, Safi enfiou a chave em sua primeira
algema e abriu com um tilintar satisfatório .

***

Merik voou para a galera de guerra Marstoki, movendo-se tão rápido que
deixou seu estômago para trás. Kullen subiu ao lado dele, quase invisível na
selvageria de seus ventos. No entanto, apesar de tudo, Merik ainda conseguiu
ver Vivia.

Parcial e de cabelos escuros como Merik, ela gritava ordens ao lado de um


passadiço ligando o galeão Marstoki ao seu navio. Marinheiros nubrevanos
conduziram Marstoks submissos e os organizaram em fileiras sentadas no
convés principal.

Os pés de Merik pousaram, mas ele não rebocou sua magia. Em vez disso,
girou uma vez e atacou-a através do convés.
O seu poder girou em torno de sua irmã, puxando-a para ele. Mas ela
apenas sorriu, aterrissando graciosamente ao seu lado.

— Você mentiu. — Rosnou, arrancando seus óculos de sol. — Sobre o que


era a miniatura.

— E você mentiu sobre onde estava.

Vagamente, Merik estava ciente de marinheiros fugindo, como se uma


onda gigante pudesse estar em espiral em direção a ele. Mas a magia de Vivia
era lenta e a raiva de Merik estava consumindo. Ele soltou a pistola e apertou a
cabeça dela.

— Você não ousaria. — Ela rosnou. A água espirrou quando ela abandonou
sua onda. — Eu sou sua irmã e sua futura rainha .

— Você não é rainha ainda. Devolva estes homens ao seu navio.

— Não. — A palavra estava quase perdida para o vento, as vozes. —


Nubrevna precisa de armas, Merry.

— Nubrevna precisa de comida.

Vivia apenas riu, um som de despedida que zombara de Merik durante


toda a sua vida. — Há uma guerra chegando. Pare de ser tão ingênuo e comece
a se preocupar com o seu país... — Suas palavras se interromperam quando
Merik armou sua pistola, preparando o Feitiço do Fogo para dentro.

— Nunca. — Ele assobiou. — Você diz que eu não ligo para os meus
compatriotas. Eu luto para mantê-los vivos. Mas você… Você trará o fogo de
Marstok sobre suas cabeças. O que você fez aqui viola a Trégua de Vinte Anos.
Eu te apresentarei aos vizires e ao rei Serafin para punição...

— Exceto que não viola. — Vivia estalou, os lábios se curvando para trás.
— Então não venha com formalidades pra cima de mim, Merry. Ninguém está
ferido. Minha tripulação escoltou pacificamente os Marstoks para o meu navio,
que eu desistirei para garantir que a Trégua permaneça intacta.

— Sua tripulação irá escoltar os Marstoks de volta. Deixaremos este navio,


Vivia, e o seu conteúdo. — Com um impulso final de músculos e magia, Merik
girou nos calcanhares, pronto para acabar com essa "escolta pacífica".

— Então você vai dizer ao pai, então? — Vivia gritou. — Você vai dizer a
ele que perdeu o navio que ele procurava?

Os pés de Merik se detiveram e ele voltou-se para a irmã. Seus olhos


escuros e idênticos aos de Merik, brilhavam.

— O que você disse?

Ela mostrou os dentes em um sorriso completo.

— Quem você acha que ordenou aquela miniatura, Merry? Isso foi tudo
ideia e ordens do pai...

— Mentira. — Merik estourou para frente, a pistola subindo.

Uma muralha de vento o atingiu. Ele tropeçou, quase caiu, e então pensou
vagamente, Kullen.
Um segundo vento retornou seu equilíbrio e sua sanidade também. O seu
irmão de linha, onde quer que ele estivesse, estava finalmente colocando um
fim a algo que Merik nunca deveria ter começado. Nunca teria começado se não
houvesse tanto em jogo. Ela era sua irmã, pelo amor de Noden.

Kullen cambaleou no caminho de Merik, olhos enormes e rosto vermelho.


— Nós temos uma situação. — Kullen ofegou. — É ruim. — Ele gesticulou
fracamente em direção ao mastro do galeão e chutou em uma corrida.

Merik correu atrás dele, todos os pensamentos de Vivia ou seu pai se


foram, engolidos por uma nova onda de medo.

— Eu pensei que ... estranho. — Kullen gritou entre os goles de ar. — Que
houvesse apenas uma equipe aqui. Não há como... esse navio poderia ter
cruzado o Jadansi... com tão poucos homens. Então verifiquei os confesse
abaixo. — Ele contornou a escada, apontando enquanto passava. — Não havia
mais homens.

— Eu não entendo. — Merik gritou por cima de seus pés batendo. — Você
está pensando que parte da tripulação saiu?

— Exatamente. — Kullen diminuiu a velocidade até parar ao lado do


mastro Mizzen quebrado. Seu peito tremeu muito rápido quando acrescentou:
— Eu acho que... a maioria dessa tripulação embarcou ... em outros navios. E
então esses homens ... Bem, olhe por si mesmo. — Ele apontou para o mastro,
que estava quebrado no nível do peito de Merik. Então Kullen acenou para outra
coisa, algo repousando contra a balaustrada a apenas alguns metros de
distância.
Dois eixos.

O estômago de Merik se transformou em ferro.

— Eles mesmos cortaram o mastro. — Merda. Merda. Vivia foi emboscada,


Kull...

— Almirante! — A voz de Ryber continuou no ar parado. — Almirante! —


Ela gritou novamente, e Merik descobriu que estava ficando terrivelmente
cansado desse título. Do peso que caía sobre ele cada vez que alguém proferia
a palavra. — Temos quatro navios de guerra no horizonte! Velas ao alto e vindo
para aqui!

Merik trocou um olhar único de olhos arregalados com Kullen. Então


dirigir-se para o convés principal, de volta para sua irmã, que continuava
marchando os Marstoks até o navio.

Mas Merik não tinha tempo para brigas ou novas ordens, pois naquele
momento Hermin tropeçou até a beira do Jana e rugiu entre as mãos em concha:
— São os Marstoks, Almirante! Eles estão pedindo pela rendição imediata da
noiva do Imperador Henrick. Senão eles nos afundarão!

Merik correu para o corrimão. — Eles querem quem?

— Querem a prometida do Imperador! — Hermin fez uma pausa, os olhos


queimando rosa com sua magia. — Então ele acrescentou: — Safiya fon
Hasstrel!

Era como se o mundo inteiro abrandasse. Como se respirasse e segurasse


firme. As ondas rolaram lentamente como lama, o navio balançou a meia
velocidade.

Safiya fon Hasstrel, a prometida do Imperador.

Fez um sentido tão súbito e claro, porque fugira da cidade de Veñaza, por
que sua segurança valia um tratado com os Hasstrels e porque um Bloodwitch
poderia estar atrás dela.

No entanto, Merik não conseguia envolver sua mente em torno disso. Se


ela estava noiva de Henrick, então isso faria dela a futura Imperatriz de
Cartorra. E fazia dela propriedade de Henrick também.

E por que os pulmões de Merik estavam baixando com esse pensamento?

Passos batiam na madeira. Kullen apareceu com as bochechas coradas de


vermelho, um ataque de respiração tinha que ser iminente. Com essa percepção
aterrorizante, o mundo voltou a sua velocidade normal. Merik agarrou o braço
de Kullen.

—Você está bem?

— Tudo bem. — Retrucou Kullen. — O que você precisa?

— Eu preciso de você no Jana, para que possamos... — Merik hesitou, as


palavras para o seu próximo comando desaparecendo de repente em uma onda
de dúvidas.

— Então nós podemos...? — Kullen solicitado.

— Entregar a domna. — Merik finalmente disse. Ele não gostava, mas era
uma vida contra muitas. — Escolte Safiya no topo e entregue-a aos Marstoks.

Kullen fixou sua mandíbula, o olhar escurecendo, mas nenhum argumento


surgindo. Ele poderia ter discordado, mas ainda o saudou e seguiu suas ordens.
Ele disparou pelo convés dos Marstoki.

Merik se virou, convocando ordens para Vivia e sua tripulação, mas suas
palavras morreram em sua língua. Marinheiros nubrevanos estavam correndo
abaixo do convés do galeão Marstoki, e seis bruxos estavam em fila, olhos
treinados em Vivia.

Essa linha incluía os Tidewitches de Merik.

— Reúna seus ventos e águas! — Vivia gritou.

Merik se lançou, usando seu vento para cruzar o navio em meras


respirações. Ele bateu ao lado de sua irmã. — Que diabos está fazendo? Como
seu almirante, ordenei que você soltasse os Marstoks e voltasse ao seu navio!

Vivia zombou. — E todos nós sabemos que eu deveria ter sido nomeada
almirante. Olhe ao seu redor, Merry . — Ela acenou para os Tidewitches. —
Você perdeu os homens do pai e eu ganhei um arsenal.

A respiração de Merik se sufocou com essas palavras, na realidade do que


o encarava. Seu navio, seu comando e tudo o que ele trabalhou estavam se
dissolvendo diante de seus olhos. Tomado pela mesma irmã que sempre o
esmagou sob o salto de sua bota. — Haverá consequências. — Disse ele, voz
baixa, palavras desesperadas. Suplicando, até. — Alguém, em algum lugar vai
exigir sangue para o que você está fazendo.
— Talvez. — Ela encolheu os ombros, um movimento tão casual que
mostrou seus verdadeiros sentimentos mais do que palavras jamais poderiam.
— Pelo menos, terei protegido o nosso povo, no entanto, assim como serei a
única a trazer os impérios de joelhos. — Vivia virou as costas para Merik. —
Preparem as marés, homens! Nós navegaremos para as Sentinelas de Noden
para entregar nossas novas armas!

Um boom distante soou. Merik saltou em direção ao horizonte, para onde


os quatro galeões de guerra Marstoki agora navegavam. E para onde balas de
canhão dispararam para o Jana. Merik teve tempo suficiente para empurrar
seus ventos freneticamente para fora.

As balas de canhão caíram no mar.

Merik saltou do navio Marstoki e voou para o convés principal do Jana.


Seus joelhos rangeram; ele transferiu o poder para um rolo, depois ficou de pé
e gritou por Hermin. — Diga aos Marstoks que nos rendemos! Diga-lhes para
cessar o fogo e nós vamos entregar a domna!

O Voicewitch mancou no convés principal, olhos brilhantes e lábios


movendo-se furiosamente.

Merik examinou seu navio e sua tripulação, o coração subindo enquanto


contava as lacunas. Nem todos os marinheiros de seu pai o abandonaram. A
tripulação original de Merik havia permanecido.

Um segundo estrondo trovejou. Merik se aproximou, pegando inutilmente


a magia suficiente para parar o fogo de canhão.
O vento saiu ciclicamente, mas não de Merik... de Kullen. O primeiro
imediato estava arrastando-se para o lado de Merik e levantando sua magia
para fora.

Merik não teve tempo de agradecer a Kullen ou de se preocupar com os


pulmões de Kullen. — Por que os Marstoks não estão parando? — Ele rugiu
para Hermin. — Diga que eles podem ter a garota!

A cabeça de Hermin estava abanando. — Eles dizem que a garota não é


suficiente agora. Querem o navio de volta, almirante. — Com a mão trêmula,
Hermin apontou para o galeão Marstoki.

Apesar de seus mastros quebrados, o navio navegava em direção a


Nubrevna em ondas montadas, e sem bruxos de sua autoria, Merik ficaria para
trás para pagar o preço.
25
Iseult entrou na consciência, imaginando por que o mundo fedia a peixe
morto, por que o teto havia se transformado em céu nublado e roxo e por que o
braço dela estava em chamas.

Um gemido rastejou de sua garganta. Ela abriu os olhos e imediatamente


gritou.

Um homem curvou-se sobre ela, sua barba encaracolada tão grande que
caía em seu estômago. Suas mãos descansavam em seu braço ferido e, o que
quer que fizesse, doía como os portões do inferno.

Iseult gritou de novo e tentou se soltar.

— Silêncio. — Sussurrou Safi, as mãos firmemente agarrando o ombro de


Iseult. — Ele está curando você.

— O músculo está regenerando. — Murmurou Evrane do outro lado de


Iseult. — E só vai piorar antes de melhorar.

Com um gole apertado, percebeu o quanto sua garganta estava seca, Iseult
olhou para o curandeiro barbudo. Seus Threads eram de um verde concentrado,
embora estremecessem com tons irritados de vermelho.

Ele estava a curando, mas não estava satisfeito com isso.


Foi quando Iseult notou as cordas ao redor de seus pulsos, quase
escondidas sob suas volumosas mangas. Ele era um prisioneiro. E sim, agora
que se concentrava além do curandeiro, viu outros Threads girando com
aborrecimento e ocasionalmente um carmesim furioso. Sob os Threads
estavam homens em fileiras, seus uniformes iguais aos do curador.

Ela se virou para Safi. — Este é o navio do Príncipe?

— Não. É da irmã dele, na verdade...

Um estrondo explodiu à distância.

— O que foi isso ? — Iseult resmungou.

Os Threads de Safi brilharam com ferrugem culpada.

— Estamos sob ataque de uma frota naval Marstoki.

— Aparentemente — Evrane disse em um tom de aço. — sua amiga está


prometida ao Imperador de Cartorra, então agora os Marstoks estão atrás dela.

Outro estrondo trovejante ecoou nos ouvidos de Iseult. Safi lançou um


olhar frenético para o oceano.

—Eles estão se aproximando rapidamente. — Ela mudou para os Marstoki,


voltando para o curandeiro. — Depressa, ou você vai provar uma espada de
Carawen.

—Ele certamente não vai. — Evrane falou. — É um estilete Carawen. Ele


não vai sentir isso também, mas — Evrane também mudou para a língua
Marstoki. — todos nós vamos nos afogar se você não terminar rapidamente.

O homem zombou. — Eu não posso trabalhar tão rápido. Esta miserável


Nomatsi tem a carne de desova demoníaca.

Em um movimento rápido demais para evitar, Safi arrancou uma faca do


baldric de Evrane e empurrou-a contra o pescoço do homem. — Diga isso de
novo e você morrerá.

O olhar do homem se aprofundou, mas também colocou novos esforços em


seu trabalho. Mais fogo de canhão soou, mas parecia a mil quilômetros de
distância. Assim como o fedor de peixe morto e as cócegas na barba do
curandeiro.

Por fim, a voz de Safi cortou a dor de Iseult: — Você terminou? A ferida
está curada?

— Sim, embora ela precise de tempo para se recuperar.

— Mas ela não vai morrer?

—Não. Infelizmente. Matsi de merda... — A voz do homem foi sufocada,


substituída por um uivo, e a sensação de sua barba desapareceu do estômago
de Iseult.

Assim que a visão de Iseult começou a ficar mais nítida e clara, Safi
empurrou o curandeiro para os outros marinheiros. — Maldito. — Ela cuspiu
atrás dele. — Filho de um Voidwitch. Que você possa passar pelas portas do
inferno para sempre...
— Isso é o suficiente. — Disse Iseult.

Ela tentou se levantar. Evrane se agachou, oferecendo-lhe uma mão, não,


oferecendo-lhe algo na mão. Um fio curto com uma pequena Painstone.

— Isso vai te entorpecer até que a magia do curador tenha terminado. —


Ela passou o cordão sobre o pulso direito de Iseult. A pedra se acendeu e a dor
foi levada de volta. Energia fresca correu através dela, e ela até conseguiu dar
um sorriso para Evrane enquanto se levantava.

No instante em que Iseult alcançou seus pés, uma luz penetrante encheu
seus olhos.

Ela não podia ver nada pelo brilho prateado, vibrando e girando. Piscando
com linhas de fome roxa e morte negra ...

Threads , Iseult percebeu, medo e admiração se misturando. Os maiores


Threads que ela já tinha visto, pelo menos metade do comprimento do barco. E
mais estranho de tudo, eles pareciam vir de baixo do casco. Embaixo da agua.

— Algo está vindo. — Ela sussurrou. — Algo enorme e ... com fome.

Evrane ficou rígida. Então agarrou o ombro de Iseult. — Você pode ver os
filhotes de animais?

— Não. — A prata e o preto eram tão brilhantes, tão rápidos. — Mas o que
mais estaria sob o barco?

— Noden nos salve. — Evrane respirou. —As raposas do mar.


As últimas palavras de Evrane foram perdidas em uma explosão de água e
som. O navio de guerra recuou quando algo enorme, algo monstruoso, saiu do
mar.

Água choveu e os Marstoks amarrados gritaram de terror.

Mas Iseult mal notou os marinheiros, tudo o que viu foi a criatura diante
dela. Uma serpente tão larga quanto o mastro do navio serpenteava das ondas
na direção da proa estibordo. Em vez de escamas, usava um grosso pelo
prateado e a cabeça tinha a forma de uma raposa, embora dez vezes ... vinte
vezes maior que qualquer raposa normal.

Quando estalou a mandíbula e girou em direção ao navio de guerra, Iseult


viu mais dentes do que qualquer criatura natural deveria possuir.

E presas. A coisa definitivamente tinha presas.

Mas o que assustou mais Iseult foi como a criatura brilhou com os Threads
do sanguinário, e como sua boca estava se abrindo...

A criatura gritou.

***

Quando Ryber descreveu uma raposa do mar, não foi isso que Safi
imaginou.
E ela definitivamente não tinha imaginado que a coisa gritaria como as
almas dos condenados. Mil camadas gritavam da boca do monstro e então um
segundo monstro agora se erguia sobre o Jana.

Os tímpanos de Safi se dividiram, e ela estava vagamente consciente de seu


pulso acelerando. Ela lançou um olhar para o Jana , procurando por Merik
através do mar espumante, mas sua busca durou pouco quando o grito da
raposa mais próxima se rompeu.

E encontrara um alvo: um dos Marstoks mais próximos da amurada do


navio. As mãos do homem acenderam e cuspiram quando ele alcançou sua
magia, mas com os pulsos amarrados, era muito desajeitado para revidar.

Safi ficou de pé, esticou a faca e rugiu: — Deixe-o em paz!

A raposa do mar sacudiu o longo pescoço para Safi.

Merda. Safi teve tempo suficiente para admirar o azul gelado dos olhos do
monstro, aproximando-se rapidamente, antes de lançar a faca de arremesso
que apunhalou um olho mas a raposa do mar baixou-se, gritando, para
mergulhar na água. O barco inclinou-se perigosamente, porém a raposa do mar
não ressurgiu.

Safi lançou um olhar desesperado para o Jana e encontrou a segunda


raposa do mar também.

— Bom trabalho. — Disse Iseult. Ela andou com cuidado pelo convés
principal, claramente sem possuir as pernas do mar. Um cutelo brilhava em sua
mão esquerda.
O coração de Safi subiu em seu crânio. Vendo Iseult, de pé, não importando
se sua energia era do Painstone, fez Safi querer rir de alívio. Ou chorar.
Provavelmente ambos.

Mas foram os olhos de Iseult que realmente a conquistaram. Eles estavam


brilhantes e estavam abertos .

— Nova arma? — Perguntou Safi, com a voz embaraçosamente


comprimida e grossa.

Os lábios de Iseult se curvaram. — Eu tenho que salvar sua pele de alguma


forma.

A garganta de Safi se apertou mais forte. — O aço de Carawen é o melhor,


você sabe.

— É verdade. — Rosnou Evrane, espreitando para as garotas, com as


pernas fortes contra o tremor do barco. — E você, Domna. — Ela olhou para
Safi. — Apenas desperdiçou o aço fazendo o monstro ficar mais irritado.

— Eu me livrei dele. — Safi apontou para as ondas agora vazias.

— Não! É assim que eles caçam. — Evrane desembainhou uma segunda


faca de arremesso.

— Eles testam o navio, aprendem como lutamos. Então mergulham.


Enquanto falamos, as duas raposas estão nadando para a superfície,
construindo o impulso à medida que avançam. Elas tentarão desequilibrar os
barcos e pegar qualquer homem que cair.
A boca de Safi caiu aberta; o ar salgado varreu.

— Você quer dizer que está voltando?

— Sim. — Ela empurrou a faca em Safi. —Então pegue esta faca e ampliem
suas posturas, tolos !

Safi pegou a faca no momento em que Iseult gritou: — Lá vem!

A madeira explodiu em uma crise ensurdecedora. O barco inclinou-se


bruscamente para a esquerda... e de novo... Safi inclinou o corpo para o convés,
contra a subida do navio.

Gritos soaram atrás dela. Marinheiros Marstoki caíram na água e, com as


mãos amarradas, caíram para dentro.

Safi e Iseult trancaram os olhos, e Safi sabia que sua irmã de linha pensava
a mesma coisa. Como um, elas pararam de lutar contra a subida do navio e, em
vez disso, caíram nela.

A madeira agarrou as solas nuas de Safi. Trancou-a e forçou-a a saltar


minúsculos saltos atrás de Iseult, cujas botas deslizavam mais facilmente sobre
as tábuas molhadas.

Iseult alcançou o outro lado primeiro, e com um rugido, agarrou uma


túnica verde bem antes de seu dono cair ao mar. Era o curandeiro barbudo
Firewitch.

— Não é tão imunda agora, né? — Gritou Safi.


Mas então um grito explodiu. Um segundo Marstok, apenas um menino,
caiu em direção ao corrimão. Safi mergulhou para ele. Ele virou a borda. Safi
virou depois. Ela agarrou o tornozelo dele, e então Iseult agarrou a dela.

— Eu ... peguei você. — Iseult rangeu, abraçando o corrimão com o braço


ruim. — Não por muito tempo, porém - oh merda.

O barco parou de tombar. A gravidade tomou conta, e o navio caiu para o


outro lado em um uivo de água e resistência da madeira.

Safi e o menino entraram no barco, Iseult gritou da dor de segurar... até que
Evrane estava lá, de alguma forma ainda em pé, e puxando Safi.

A raposa do mar explodiu das ondas, muito perto de onde Iseult estava
revirando.

Safi jogou sua faca. Ela perfurou o olho da raposa, a centímetros da


primeira faca.

O monstro gritou e mergulhou mais uma vez. A água salgada choveu, o


navio acenando ainda mais selvagemente.

Safi puxou Iseult a seus pés. O braço direito de Iseult ficou inerte, o rosto
enrugado de dor embora ela ainda conseguisse gritar: — Boa pontaria.

— Exceto que eu estava indo para o outro olho.

— Pare de fazer isso! — Gritou Evrane, a vários passos de distância e com


o jovem Marstok a seu lado. — Você está desperdiçando minhas facas! — Sua
espada se arqueou e ela cortou as amarras do menino. — E saia já daí!
Precisamos libertar esses homens enquanto pudermos.

Iseult assentiu cansada e cambaleou para o grupo de marinheiros mais


próximo. Mas Safi estava, mais uma vez, sem armas.

Evrane soltou sua última faca de arremesso.

— Não perca isso, Domna.

— Sim. — Safi agarrou e torceu para o marinheiro mais próximo. Com três
cortes rápidos, ela o libertou. Ela se mudou para o próximo homem, depois para
o outro. Um após o outro, ela os libertou de suas cordas. Os homens livres
ajudaram seus companheiros, enquanto um punhado de Bruxos livres se
mudou para uma formação defensiva quadrada no centro do convés. Safi olhou
de relance para a água, ainda vazia, na direção do Jana.

A raposa do mar que a aterrorizou também não era vista em lugar nenhum.

Por um momento, Safi pensou que talvez os monstros tivessem desistido


da caça... mas então Iseult gritou: — Aí vem! Lado sul!

Lado sul. O lado exato em que Safi agora serrava através das cordas de um
marinheiro. Merda, merda, merda... Ela cortou a última das fibras e o homem se
afastou.

A raposa do mar irrompeu das ondas, lançando a cabeça sobre o corrimão.


Dentes se arremeteram, dentes e olhos girando e um grito para esmagar seu
crânio.

Aquilo iria comê-la. Ela arrebentaria seu corpo ao meio e a engoliria.


O vento bateu no peito de Safi. Nas suas pernas. Ela girou
descontroladamente, longe da boca do monstro. Enquanto o mar, o céu e o
navio se misturavam com chamas Firewitch, ela viu Merik voando para ela.

Gratidão e alívio correu através da sua mente.

Safi bateu no convés, como ele. Em cima dela. Então, quando o barco se
atracou no outro lado, ele rolou e trovejou: — Que diabos você está fazendo
aqui?

Safi piscou, brevemente atordoada. Então se levantou e gritou: — Você


está me entregando para os Marstoks!

—Não mais, eu não irei! — Ele desembainhou o facão e, em um borrão de


aço, cortou as amarras do Marstoki. Uma após a outra. E quando se moveu,
gritou:

— Noden me favoreceu, Domna, e só um tolo ignora esses presentes.

— Presentes? — Ela gritou, vendo as cordas de um velho e olhando as


águas. — Como é que ser atacado por três vezes é um presente ?

— Pare de falar! — Merik apontou para a escada do navio. — Vá para baixo


e fique fora do caminho!

— Não faça isso! — Iseult gritou, em direção a Safi com Evrane em seus
calcanhares. Sua respiração estava entrecortada, seu rosto apertado. — A
raposa está indo para as costas. Precisamos alcançar os homens na frente.

Sem outra palavra, todos fugiram para a frente do navio. Safi e Iseult
arrancaram homem após homem do corrimão e empurraram-nos contra
Evrane e Merik, que cortavam corda após corda. Os Firewitches ficaram em sua
formação apertada, prontos para lutar.

Mas a raposa era muito, muito rápida para os Bruxos, ou qualquer outra
pessoa. Ela bateu na popa do navio, a madeira rachou e, quando o navio
inclinou-se violentamente, Safi tentou não cair no mar.

A água explodiu na frente da embarcação. A segunda raposa do mar se


elevou, gritando e se aproximando, pronta para arrancar homem após homem
do convés exposto, carne em chamas ou não.

Safi olhou para Iseult. Sua irmã de linha assentiu. Como antes, as garotas
pararam de lutar contra o aumento vertical e, juntas, desceram pelo convés.
Para a boca da raposa do mar.

Safi bateu no corrimão, quase paralelo às ondas agora, e endireitou-se até


a sua altura máxima. Sua faca cortou a mandíbula peluda. O sangue choveu.

Então Iseult estava lá, girando baixo ao longo do baluarte. Seu cutelo
penetrou fundo no pescoço do monstro. A raposa do mar sacudiu, a cabeça
caindo.

Mais sangue jorrou quando Iseult girou o cutelo enquanto Safi girava em
baixa, empurrando toda a sua força no impulso perfeito de sua faca.

A boca da criatura se abriu. Safi soltou a faca. Que voou direto e verdadeiro,
na garganta da raposa.

E o cutelo de Iseult foi lançado. Ele cortou a testa do monstro.


A raposa do mar gritou, um som final e bruto, antes de afundar sob as
ondas.

A primeira raposa do mar soltou o navio. Safi e Iseult tiveram tempo


suficiente para se agarrarem ao corrimão e não serem catapultados para o mar
quando o navio de guerra caiu. Ondas foram pulverizadas, homens rolaram e
caíram, mas Safi e Iseult se agarraram com força.

Até que afinal a ânsia do navio se acalmou. Até que finalmente Safi poderia
se esgueirar até Iseult e arrastar-se para cima. — Como você está? Aonde dói?

— Em todo lugar. — Iseult deu um sorriso. — Não é uma Painstone forte.

Antes que Safi pudesse gritar pela ajuda de Evrane, Merik gritou: — Não
comemore ainda! — Seus pés bateram no convés e um vento espiralou cada vez
mais rápido ao redor dele. Evrane corria logo atrás.

— A coisa ainda não está morta. — Merik chegou a Safi. Seu vento agarrou
suas roupas, seus cabelos. — Logo estará de volta.

— E... — Evrane disse, apontando para o horizonte. — Ainda temos uma


frota de Marstoks vindo em nossa direção.

— Sem mencionar a segunda raposa do mar. — Iseult agarrou Safi pela


manga e puxou-a para longe do trilho. — Está chegando, rápido. E pela a frente
desta vez.

— Prepare-se. — Merik rugiu. — Eu vou usar o poder para nos levar.

A raposa do mar bateu. O navio disparou para o céu e, quando os pés de


Safi deixaram o convés, enquanto o mundo se tornava nuvens brilhantes e
neblina púrpura, o vento de Merik os envolvendo. Em um tombo de ar, Merik
levou os quatro para o Jana . Eles caíram no castelo de proa sem graça e com
muita dor. Mas Safi não teve tempo para verificar se havia alguma lesão.
Quando procurou por Iseult, e a encontrou segurando o braço a vários passos
de distância, Safi também avistou um incêndio.

Não, quatro incêndios. Os barris de chumbo estavam no ar e em chamas.


Calor rolava deles, assim como o cheiro de peixe assado, e nas proximidades
estava Kullen. Sua respiração vinha em suspiros pontuados e seus olhos
saltavam de sua cabeça. Mas ele mantinha as mãos para fora, os barris no ar e
sua magia em ação.

— Kullen! — Merik gritou, já em pé e correndo para o tambor. — Coloque


o primeiro cano em posição! — Ele puxou um martelo e esperou enquanto o
barril flamejante mais próximo virava e flutuava diante do tambor.

Merik bateu no martelo. O ar bateu e agarrou o cano. Ele acelerou sobre a


água, ainda queimando brilhante e caiu, antes do galeão Marstoki mais
próximo.

— Próximo barril! — Merik chamou e, momentos depois, o segundo foi


lançado. Então o terceiro e o quarto. Cada um espirrou na frente dos Marstoks.

— Estão saindo. — Disse Iseult. Seu olhar seguiu sob o navio e depois além,
em direção ao navio agora afundado. — Está perseguindo os barris.

— Elas são criaturas de carnificina. — Disse Evrane, e Safi saltou. Ela tinha
esquecido tudo sobre a monge, que se arrastava cansada por perto. — Elas
gostam do sabor da carne queimada.

Safi manteve os olhos na água, observando enquanto duas sombras negras


se afastavam do barco, depois irrompiam das ondas à distância. Elas atacavam
os barris flamejantes; emaranhados e lutavam pela comida.

Enquanto isso, os galeões Marstoki se aproximavam, direto para as


raposas do mar. Por um breve segundo, Safi quase teve pena dos Marstoks, que
ela duvidava que houvesse um catapulta para distração.

Mas o momento passou quando viu Iseult, suando e estremecendo. Safi


voltou sua atenção para ajudar Iseult e um vento mágico varreu o Jana, puxando
suas velas.

Com um gemido resistente, o navio de guerra partiu para o leste.

26
Apesar da magia da Painstone e cura do Firewitch, o braço de Iseult
pulsava com uma dor baixa e insistente; era difícil permanecer estoica
enquanto o Jadansi cinza e a costa distante se misturavam. Um vento mágico do
almirante e de seu primeiro imediato praticamente levantaram o Jana do mar
em uma corrida para levá-lo dos Marstoks.

Iseult e Safi estavam sentadas na proa, com os pulmões cheios de ar, e


Iseult continuava olhando para Evrane ao lado delas. Ela não podia evitar. Essa
mulher a guiou - salvou- a, realmente - seis anos e meio atrás. Ela era tudo que
Iseult lembrava e absolutamente nada.

A memória de Evrane tinha sido tão angelical, mais alta. A Evrane real,
estava cheia de cicatrizes, endurecidas e entremeadas – sem esquecer, um
palmo mais baixa do que Iseult.

Mas o cabelo da monja era tão brilhante e radiante como Iseult recordava.
Um halo adequado para a Mãe Lua.

Iseult parou de encarar, era difícil ficar olhando por muito tempo. Evrane,
Safi e todos os outros, tinham Threads de mil tons brilhantes. Estavam
sufocavam Iseult, não importando onde seus olhos pousassem. Em marinheiros
que estavam aterrorizados ou triunfantes, que estavam tontos da violência ou
prontos para desmaiar de exaustão.

E então alguns Threads próximos tremeram de repulsa. Seus donos


haviam visto a pele e os olhos de Iseult. Nenhum parecia hostil, por isso ela os
bloqueou.

Depois do que poderia ter sido horas ou minutos, o Jana começou a


desacelerar. O vento mágico parou completamente, deixando um buraco nos
ouvidos de Iseult onde havia rugido. Uma ternura em sua pele onde tocou.
Apenas uma brisa natural transportava o navio agora, e uma lua cheia brilhava
no alto.

— Bem-vindas a Nubrevna. — Murmurou Evrane.

Iseult ficou de pé, com a Painstone brevemente brilhando, e foi para o


baluarte, Evrane por companhia.

A terra não era tão diferente da costa ao norte da cidade de Veñaza,


rochosa, irregular, golpeada por ondas selvagens. Mas no lugar das florestas,
pedras grandes e brancas pontilhavam os topos das falésias.

— Onde estão todas as árvores? — Perguntou Iseult.

— As árvores estão ali. — Respondeu Evrane, cansada.

— Mas aquilo não se parece com árvores. — Com um estalo, ela desafivelou
a bainha de seu cutelo e arrancou um pano oleoso de sua capa.

A respiração de Safi engatou. — Não são pedregulhos? — Ela se virou para


Evrane. — Não, são troncos de árvores.

— Hye. — Respondeu a monja. — As árvores mortas não duram por muito


tempo quando uma tempestade sopra.

— Por que ... por que elas estão mortas? — Perguntou Iseult.

Evrane pareceu brevemente surpresa, então olhou de Safi para Iseult,


como se para verificar se a pergunta era genuína.

Ao ver que sim, Evrane franziu a testa. — Toda essa costa foi destruída na
Grande Guerra. Earthwitches cartorranos envenenaram as árvores da fronteira
ocidental até a foz do rio Timetz.

O frio afundou nos pulmões de Iseult. Ela olhou para Safi, cujos Threads
horrorizados estava encolhendo para dentro.

— Por que — Perguntou Safi a Evrane. — nunca ouvimos isso antes? Nós
estudamos Nubrevna, mas... nossos livros de história sempre descreveram esta
terra como vibrante e viva.

— Porque — Disse Evrane. — aqueles que vencem guerras, são os que


escrevem a história.

— Ainda assim. — Disse Safi, levantando a voz, com os Threads se


espalhando para fora. — Se fosse tudo mentira, eu deveria saber. — Ela agarrou
a mão de Iseult, apertando com tanta força que doeu através do Painstone,
pulsando na ferida de Iseult.

Mas a dor foi refrescante, ela abraçou-a, feliz por ter feito a coluna se
endireitar e a garganta abrir. O olhar dela fixou-se no rosto santo e concentrado
de Evrane quando a monja limpou a faca de corte, a mesma que Iseult usou. O
sangue da raposa do mar ainda incrustava o aço rodopiante.

Enquanto Evrane esfregava, seus movimentos eram praticados e com


firmeza, Iseult ficou impressionada com a quantidade de facas que Evrane deve
ter limpado durante toda a vida. Ela era uma monja curandeira, mas também
lutava e estava pelo menos na metade de sua vida durante a Grande Guerra.

Quando Iseult e Safi lubrificavam suas lâminas, era como se enxugassem


impressões digitais e suor, protegendo o aço contra o manuseio diário.

Mas quando Evrane, Habim e Mathew... e até mesmo Gretchya - poliam


suas espadas, era para arrancarem sangue e morte e um passado que Iseult não
podia imaginar.

— Diga-nos. — Disse ela baixinho. — O que aconteceu com Nubrevna.

— Tudo começou com os cartorranos. — Disse Evrane com simplicidade,


suas palavras dançando na brisa. — Seus Earthwitches mancharam o solo. Uma
semana depois, o Império Dalmotti enviou seus Waterwitches para envenenar
a costa e os rios. Por último, mas não menos importante, os Bruxos Marstoki
queimaram toda a nossa fronteira oriental no chão.

— Foi claramente um esforço concentrado, mas você deve entender:


Lovats nunca caiu. Em todos os séculos de guerra, as Sentinelas de Noden e as
Pontes de Água de Stefin-Ekart nos mantiveram a salvo. Então eu suponho que
os impérios pensaram que se eles se aliassem brevemente, poderiam nos
derrubar de uma vez por todas.

— Mas não funcionou. — Disse Iseult.

— Imediatamente, não. — Evrane parou de limpar, e olhou para a distância


intermediária. — Os impérios concentraram seus ataques finais durante os
meses que antecederam a Trégua. Então, quando seus exércitos e marinhas
foram forçados a se retirar, sua magia foi deixada para trás para acabar
conosco. O veneno se espalhou pelo solo, subiu a corrente, enquanto as chamas
de Marstoki queimaram florestas inteiras no chão.

— Camponeses e agricultores foram forçados para o interior. Tão perto


quanto pudessem chegar de Lovats. Mas a cidade já estava muito cheia. Muitos
morreram e muitos mais morrem desde então. Nosso povo está morrendo de
fome, meninas e os impérios estão muito perto de nos derrubar de uma vez por
todas.

Iseult piscou. Havia finalização na voz de Evrane, uma aceitação cor-de-


rosa em seus Threads.

Ao lado dela, o fôlego de Safi deslizou para fora. — Merik realmente precisa
deste contrato. — Ela sussurrou, sua voz desprovida de emoção. Seus Threads
silenciados e congelados, como se estivesse chocada demais para sentir. — No
entanto, meu tio tornou impossível para ele reivindicar. É muito específico, não
pode haver sangue derramado...

Uma pausa pairou no ar. O vento e os gritos dos marinheiros


entorpeceram. Então, de repente, tudo se encaixou rápido demais. Muito nítido
.

Safi se afastou do baluarte, seus Threads saltaram para fora com mais
cores do que Iseult poderia seguir. Culpa vermelha, pânico laranja, medo
cinzento e arrependimento azul. Estes não eram os Threads desgastados que
quebravam, mas sim os difíceis, atingindo os Threads que construíam. Cada
emoção, não importava a cor, saía dela, alcançando o convés como se tentasse
se conectar com alguém, qualquer um, que se sentisse tão descontroladamente
quanto ela.

Então Safi se virou para Iseult e disse em uma voz feita de pedra e inverno:
— Eu sinto muito, Iseult. — Seu olhar deslizou para Merik, e ela disse de novo.
— Sinto muito por ter te arrastado para isso.

Antes que Iseult pudesse aplacar e argumentar que nada disso era culpa
de Safi, um fio branco queimou no canto dos olhos dela. Terror. Ela se virou
quando Kullen, de pé no convés principal, começou a tossir. Então se dobrou, e
caiu.

Iseult correu para ele, Safi e Evrane em seus calcanhares. Eles alcançaram
Kullen quando uma menina com tranças também, sua pele um forte contraste
com a palidez mortal de Kullen. No entanto, Merik já estava lá, puxando Kullen
em posição sentada e massageando as costas do homem.

Massageando seus pulmões, Iseult percebeu quando derrapou para parar


a vários passos de distância. Safi parou ao lado dela. Evrane, no entanto,
empurrou todo o caminho até Kullen e se agachou.

— Estou aqui, Kullen. — Disse Merik, com voz rouca. Seus Threads
queimaram com o mesmo terror branco que os de Kullen. — Estou aqui. Relaxe
seus pulmões e o ar virá.

A boca do primeiro imediato funcionou como um peixe, engolindo em


nada. Embora o ar parecesse ranger, ele não conseguia respirar. E cada tosse
que se abateu sobre ele era mais fraca que a anterior.

Então, olhos enormes e bochechas pálidas, Kullen se virou para Merik e


balançou a cabeça.

Safi caiu no convés ao lado deles. — Como posso ajudar? — Ela olhou
primeiro para Merik, depois para a garota e finalmente para Kullen, que a
encarou de volta.

Mas o primeiro imediato só podia abanar a cabeça para Safi antes que seus
olhos voltassem e ele caísse para a frente nos braços de Merik.

Instantaneamente, Merik e a menina mais nova o viraram de costas, e


Merik inclinou a boca de Kullen. Ele baixou os lábios para os de Kullen e depois
exalou rajadas cheias de ar mágico na garganta de seu irmão.

Mais e mais, ele fez isso. Uma eternidade de baforadas de arcos urgentes e
aterrorizados. Marinheiros se reuniram ao redor, embora parecessem espertos
o suficiente para se segurar. Safi lançou um olhar de pânico para Iseult, mas ela
não pôde oferecer soluções. Ela nunca tinha visto nada assim antes.

Então um tremor passou pelo peito de Kullen. Ele estava respirando.

Merik ficou boquiaberto por vários longos segundos nas costelas de Kullen
antes de se dobrar de alívio. Seus Threads brilhavam com a luz rosa dos Irmãos
Encantados, puros e deslumbrantes.

— Obrigado, Noden. — Ele murmurou no peito de Kullen. — Oh, Noden,


obrigado.

O mesmo sentimento brilhou através dos Threads de cada marinheiro,


através de Safi e Evrane também.
No entanto, nenhum era tão brilhante quanto os de Merik ou da garota, e a
garota brilhava com o vermelho puro de um Heart Thread.

— Deixe-me verificá-lo. — Disse Evrane com uma mão gentil nas costas de
Merik. — Para ter certeza que ele não danificou alguma coisa.

Merik se levantou, com o rosto contorcido de fúria. E seus Threads ...

Iseult se encolheu com a força. — Você desobedeceu minhas ordens! — Ele


gritou para sua tia. — Você arriscou meu navio e meus homens! A domna era
meu único cartão de barganha!

Evrane ficou parada, segmentos calmos. — Precisávamos de um


curandeiro Firewitch para Iseult. Ela teria morrido sem um.

— Todos nós poderíamos ter morrido! — Merik empurrou Evrane


novamente. Ela não resistiu. — Você abandonou seu posto sem pensar nos
outros!

Os Threads de Safi se transformaram em uma fúria defensiva. Ela ficou de


pé. — Não foi culpa dela, ela só estava fazendo o que eu pedi.

Merik virou-se para Safi. — É assim, Domna? Então você não estava
fugindo do seu prometido? Você não estava evitando a captura, Truthwitch?

Frio atravessou o estômago de Iseult. Abaixo de seus músculos. Mas como


ele sabia?

Não importa, Iseult disse a si mesma, já dobrando os joelhos para se lançar


em busca de Safi. Para protegê-la...
Até que os Threads de Safi brilharam com incerteza bege, como se pudesse
tentar esconder essa verdade de Merik. Então Iseult inseriu em seu rosto a
absoluta calma Threadwitch. Ela não iria trair o segredo de Safi.

— Onde você ouviu esse boato? — Safi finalmente perguntou, suas


palavras cuidadosas e uniformes.

— Os Marstoks sabem. — Merik se inclinou para ela. — O Voicewitch


gentilmente disse aos meus. Você nega isso?

O mundo se arrastou, como se o debate interno de Safi se espalhasse em


torno dela. A brisa ficou suave e distante. Não admita isso. Por favor, não admita
isso. Uma coisa era o Imperador Henrick saber da magia de Safi, mas não havia
razão para o mundo inteiro saber também. E se Merik decidisse usá-la, ou casar-
se com ela, como Henrick? E se Merik decidisse matar Safi antes que um inimigo
pudesse reivindicá-la?

No entanto, enquanto os Threads de Safi derretiam do medo cinzento para


um verde exuberante e determinado, a respiração de Iseult se desenrolou com
a derrota.

— Então o que? — Safi endireitou os ombros. — E se eu for um Truthwitch,


almirante? Que diferença faz?

Em uma explosão de velocidade, Merik agarrou os pulsos de Safi, virou-a e


puxou os braços para trás. — Faz toda a diferença. — Ele rosnou.

— Você me disse que ninguém a procurava. Você me disse que não era
importante e, no entanto, é uma Truthwitch prometida ao Imperador Henrick.
— Ele empurrou os braços para trás.

O rosto de Safi se apertou, mas quando Iseult inclinou-se para defendê-la,


para lutar por sua irmã, Safi balançou a cabeça em sinal de advertência.

Quando Safi falou novamente, seu tom e Threads foram chocantemente


controlados. — Eu pensei que se você soubesse quem eu era, você me
entregaria aos Cartorranos.

— Mentira. — Merik se inclinou para perto, seu rosto a centímetros do de


Safi. — Sua magia sabe quando falo a verdade, Domna, e eu lhe disse que nunca
pretendi lhe prejudicar. Tudo o que quero é conseguir comida para o meu povo.
Por que isso é tão difícil? — Sua voz falhou. Ele fez uma pausa, seus Threads se
derretendo da raiva carmesim para tristeza azul profunda. — Eu perdi meus
Tidewitches agora, Domna, e os Marstoks me caçam. Tudo o que me resta é o
meu navio, meus leais marinheiros e meu primeiro imediato. Mas você quase
os tirou de mim também. — A boca de Safi se abriu como se quisesse discutir,
mas Merik não tinha terminado. — Poderíamos ter escapado assim que as
raposas do mar chegassem. Em vez disso, quase morremos porque você não
estava em sua cabine como deveria. Eu tinha que te encontrar, e isso nos deixou
como isca para as raposas. Sua imprudência quase matou minha tripulação.

— Mas Iseult...

— Teria ficado bem. — Merik mergulhou suas costas e a postura de Safi


murchou. — Planejei fazer com que sua amiga recebesse um curandeiro
Firewitch assim que atingíssemos o solo de Nubrevnan. Você sabe que isso é
verdade, não é? Sua magia deve lhe dizer isso.
Safi encontrou o olhar de Merik. Então, seus Threads queimando com
arrependimento azul brilhante e vermelho culpado, ela assentiu. — Eu vejo
isso.

O temperamento de Merik explodiu mais uma vez. Ele pegou Safi e


ordenou: — Mova-se.

Para o completo choque de Iseult, Safi se moveu, seus Threads se fundindo


em Merik e brilhando com insinuações de um vermelho mais brilhante.

Os lábios de Iseult se separaram, seu pé subindo para atacar Safi. Para


impedir Merik de fazer o que quer que tenha planejado.

Uma mão apertou seu pulso. — Não.

Ela virou a cabeça e encontrou a garota com as tranças balançando a


cabeça. — Não interfira. — Disse ela em uma voz oca. — Algumas horas nos
ferros não vão matá-la.

— No quê? — Iseult virou-se, e náuseas incharam em seu estômago ao ver


Merik empurrando Safi para baixo, subindo suas pernas…

E trancando seus tornozelos em tiras de ferro.

Os enormes grilhões se fecharam, as trancas clicaram e Safi não pôde fazer


nada além de encarar o navio.

Mais uma vez, Iseult avançou, mas desta vez um marinheiro mais velho a
impediu.
— Deixa pra lá, garota. Ou você também será trancada neles.

Como se para provar o ponto, Evrane disparou para frente, rugindo.

— Você não pode fazer isso com ela, Merik! Ela é uma Domna de Cartorra!
Não é um Nubrevnan!

Merik se endireitou e fez um sinal vagamente para seus marinheiros,


embora seus olhos permanecessem em sua tia. — Você é um Nubrevnan, e sua
desobediência também não ficará impune.

Os Threads de Evrane ficaram turquesa de surpresa quando dois


marinheiros a empurraram para um segundo conjunto de ferros para as pernas.
Enquanto os marinheiros abaixavam Evrane e apertavam as algemas, Merik se
virou como se fosse se afastar.

— Você recorreria a torturar uma domna? — Gritou Evrane. — Você vai


machucá-la, Merik! Você irá arruinar seu contrato!

Merik fez uma pausa, olhando de volta para sua tia. — Eu recorro à
punição, não à tortura. Ela sabia das consequências da desobediência. E —
acrescentou ele, letalmente calmo agora — que tipo de almirante, que tipo de
príncipe, eu seria se não cumprisse minhas próprias leis? A domna sobreviveu
a um ataque de raposa do mar ilesa, portanto, algumas horas nos ferros não
causarão nenhum dano. Mas vai dar-lhe tempo para considerar o inferno que
ela trouxe para cá.

— Eu não queria. — Disse Safi, olhos em Merik. — Eu nunca quis machucar


você, Kullen ou… ou Nubrevna. Eu não sabia sobre os Marstoks, eu juro,
almirante. Meu tio me disse que ninguém iria me seguir!

A mandíbula de Iseult afrouxou enquanto ela observava. Os Threads sobre


Safi, e a cabeça de Merik, pulsavam com uma necessidade extrema e urgente.
Os Threads de Safi agarraram Merik, e os dele embrulhados e entrelaçados nos
dela.

Diante dos olhos de Iseult, os Threads de Safi estavam mudando daqueles


que se encaixam, naqueles que se ligam.

Em dois longos passos, Merik estava de volta ao lado de Safi e agachando-


se. Ele olhou fixamente nos olhos dela; Safi olhou de volta.

— Se não fosse pela magia de Kullen, todos estaríamos mortos agora, e foi
sua desobediência impulsiva que quase nos matou. Isso não pode ficar impune.
Ainda existe um contrato com sua família e, de uma forma ou de outra, vou levá-
la a Lejna. Então vou alimentar meu país.

Por um segundo... então dois, o espaço entre Merik e Safi, os Threads


queimando entre eles, se acendeu em um fio flamejante cheio de escarlate.

Mas Iseult não tinha tempo para distinguir o tom exato, se era um Thread
de amor ou um de ódio implacável, antes que a cor desaparecesse novamente e
ela se perguntasse se imaginou a coisa toda.

***
Era quase engraçado o quão rápido Safi passou de estar em pé para ser
trancada, como um cachorro maltratado nos ferros. Presa. Confinada. Sem
movimento.

E ela não lutou em nada. Apenas cedeu, imaginando por que estava
aceitando esses grilhões tão facilmente. Perguntando quando perdeu sua
habilidade de atacar. De correr. Se ela não podia correr adequadamente, então
o que restava de sua antiga vida? Sua vida feliz cheia de tarô, café e devaneios.

Todas as suas esperanças de liberdade foram queimadas. Nenhum lugar


dela com Iseult. Nenhuma escapatória da corte do Imperador Henrick, ou dos
esquemas de seu tio Eron, ou de uma vida como uma Truthwitch fugitivo.

Mas Iseult viveria. Sua ferida foi curada e ela viveria . Isso fazia tudo valer
a pena, não é?

Safi observou sua irmã de linha, que estava lutando atrás de Merik pelo
convés, implorando para ele, seu rosto em branco apesar dos marinheiros
recuando de seu caminho. Merik a ignorou e subiu para o tombadilho. Ele
tomou seu lugar no leme e ordenou que o tambor do vento voltasse.

E Iseult desistiu. Ela parou sua perseguição na escada e virou-se para


encontrar os olhos de Safi, parecendo ainda mais desamparada do que quando
estava morrendo.

A chuva começou a cair. Um sussurro gentil na pele de Safi que deveria ter
acalmado, mas em vez disso parecia ácido. Safi estava caindo em si mesma. O
mundo estava pulsando para ela. Ela não podia mover as pernas. Estava presa
aqui, dentro de si. Para sempre, ela seria essa pessoa. Presa dentro desse corpo
e dessa mente. Amarrada por seus próprios erros e promessas quebradas.

É por isso que todos te deixam. Seus pais. Seu tio. Habim e Mathew. Merik.

O nome do príncipe bateu nos ouvidos de Safi. Rugiu com seu sangue no
tempo da chuva. Na hora do tambor.

Ele só queria salvar sua terra natal, mas Safi não se importou, não com
Merik, nem com todas as vidas que dependiam dele.

Iseult tropeçou no convés em direção a Safi, seu rosto comprimido e pálido.


Ela era a única pessoa que Safi havia deixado, a única peça de sua antiga vida.
Mas quanto tempo antes de Iseult desistir também?

Iseult alcançou Safi e caiu de joelhos. — Ele não vai me ouvir.

— Você precisa descansar. — Disse Evrane. — Vá para a cabine.

Safi se encolheu; suas correntes sacudiram. Ela tinha esquecido que a


monja estava presa ao lado dela. Ela tinha estado tão enjaulada em sua própria
pele, que esqueceu de todos os outros.

Como sempre fez.

Foi a ganância egoísta de Safi que colocou um preço na cabeça de Iseult.


Isso forçou Iseult a deixar a cidade de Veñaza, e de alguma forma ganhar uma
flecha amaldiçoada no braço também. Então, quando Safi lutou por Iseult, tinha
feito tudo o que podia para compensar e salvar sua outra metade do dano que
causou, acabou machucando outra pessoa. Muitas pessoas. Sua visão a levou
por um caminho quebrado. Agora Merik, Kullen e toda a sua equipe estavam
pagando por isso.

Com esse pensamento, as palavras de seu tio Eron na cidade de Veñaza se


estabeleceram no coração de Safi.

Quando os sinos tocarem a meia-noite, você pode fazer o que quiser e viver a
mesma existência sem ambição que sempre gostou.

Ela tinha feito exatamente isso, não tinha? À meia-noite, ela desistiu do
título de domna. Ela havia retomado sua antiga existência impulsiva e
indiferente.

Mas... Safi se recusava a aceitar isso. Se recusava a ser o que Eron, ou


qualquer outra pessoa, esperava que ela fosse. Estava presa neste corpo, com
essa mente, mas isso não significava que ela não pudesse alcançar o lado de
fora. Não significava que ela não pudesse mudar.

Encontrou os olhos de Iseult, flácidos e super iluminados no crepúsculo. —


Vá para a cabine. — Ela ordenou. — Você precisa sair da chuva.

— Mas você... — Iseult chegou mais perto, arrepiada nos braços


escorregadios da chuva. — Eu não posso deixar você assim.

— Por favor, Iz. Se você não se curar, tudo isso terá sido para nada.

Safi forçou uma risada. — Eu vou ficar bem. Isso não é nada comparado
aos exercícios de jab de Habim.

Iseult não ofereceu o sorriso que Safi tinha esperado, mas assentiu e,
instável, empurrou para seus pés. — Eu vou verificar em você no próximo sinal
sonoro. — Ela olhou para Evrane e levantou o pulso. — Você quer a Painstone
de volta?

Evrane deu uma pequena sacudida de cabeça. — Você precisará disso para
adormecer.

— Obrigada. — Iseult olhou mais uma vez para Safi, encarou duramente os
olhos de Safi. — Vai dar tudo certo. — Ela disse simplesmente.

— Vamos consertar tudo de novo. Eu prometo. — Então ela abraçou os


braços contra o peito e se afastou, deixando Safi com a maré alta de sua
comutadora.

Porque de alguma forma elas fariam com que tudo desse certo de novo.

27
Nas sete horas desde que o cortador Cartorran partiu da cidade de Veñaza,
o sol se pôs, a lua se elevou e Aeduan não parou de vomitar. Seu único consolo
era que essa desgraça desencadeou uma história entre os marinheiros
temerosos do Vazio a bordo: os Bloodwitches não conseguiam atravessar a
água.

Sim, deixe-os espalhar esse rumor em todos os portos que eles visitarem.

Exatamente quando Aeduan começou a sentir que a náusea estava


diminuindo, o cortador encontrou quatro navios de guerra destruídos, três
deles Marstoki e um Nubrevnan. Apesar dos protestos mais efervescentes de
Aeduan que Safiya fon Hasstrel não estava nesses navios, o príncipe Leopold
insistiu em parar de qualquer maneira.

Pois parece que a Imperatriz Marstok estava a bordo, e Leopold queria que
Aeduan se juntasse a ele naquele navio. Quando nenhum dos Hell-Bards se opôs
a essa loucura, nem mesmo o Comandante, um jovem preguiçoso e irreverente
chamado Fitz Grieg. Aeduan logo se viu voando para o galeão da Imperatriz via
Windwitch. Lá, dez Sentinelas deram a ele e Leopold uma olhada casual mas
não fizeram nenhum movimento para reivindicar quaisquer armas, no entanto,
antes de levar seus visitantes para a cabine da Imperatriz. Claramente estavam
confiantes de que nem Leopold nem Aeduan tinham chance contra seus dardos
Poisonwitch.

Aeduan reconheceu alguns dos Aditivos, apenas pelo cheiro de sangue, já


que ele não conseguia ver os rostos por trás dos lenços na cabeça. Suas espadas
ziguezagueadas, como chamas de aço, tremeluziam nas lâmpadas do Bruxo do
outro lado do convés.

Armas estúpidas. Eram desajeitadas e desnecessárias, especialmente


quando a melhor vantagem deles era seu Poisonwitchery21.

Seu poder sobre o veneno era um subconjunto tão obscuro de


Waterwitchery, uma corrupção dos curandeiros de Waterwitch que Aeduan já
ouvira, mas o seu poder é que era considerado magia do Vazio. Aeduan era o
chamado de demônio. Sempre lhe pareceu... injusto.

Mas novamente, também trabalhava a seu favor.

Uma vez dentro da cabine da Imperatriz, os Sentinelas sentaram-se


uniformemente ao redor da sala e contra as paredes. Uma mesa baixa e sem
adornos e dois bancos ficavam no centro da sala, e ao lado da outra ficava a
Imperatriz de Marstok.

Ela era menor do que havia percebido, tendo apenas a visto de longe, mas
apesar de seus ossos delicados, o cheiro de seu sangue era inflexível. Paredes
do sábio e do arenito do deserto. A bigorna e a bílis do ferreiro. Era o cheiro de
uma Ironwitch - poderosa - bem como uma mulher de educação. E apesar do
fato de que a frota de Vaness estava em frangalhos, ela usava um vestido branco
e sua expressão era friamente civilizada.

Aeduan estabeleceu-se em uma posição de pernas largas atrás do segundo


banco, calculando as melhores saídas da cabine, e enquanto o fazia, a Imperatriz
sorriu. Ela passou por seus lábios, como se ela e Leopold apenas houvesse se
encontrando na pista de dança.

A Imperatriz deveria saber quem - e o que - Aeduan era, mas não fez

21 Bruxos de poções e venenos


nenhum comentário sobre sua presença. Não dava nenhuma indicação de que
achava estranho que Leopold não tivesse qualquer tipo de escolta Hell Bard.

Claramente, ela era uma especialista em aparências, cada expressão uma


cuidadosa máscara projetada para manter o poder da sala em suas mãos
delgadas.

Mas por que se incomodar? Aeduan se perguntou. Se fosse tão poderosa


quanto as histórias alegavam, então não precisava de truques para conseguir o
que queria. Os monges mais velhos de Carawen ainda falavam do dia em que
ela destruiu Kendura Pass, o dia em que tocou em uma magia tão vasta e
destemida que derrubou uma montanha inteira.

E ela tinha apenas sete anos de idade.

Aeduan tomou isso como um sinal de que esta reunião foi pacificamente
planejada.

— Vou tomar um lanche Marstoki, se puder. — Disse o príncipe Leopold.


Ele pairou ao lado da mesa, aparentemente mais interessado em examinar as
algemas do paletó do que em falar com Vaness.

No entanto, a máscara que Leopold usava era desajeitada e exagerada. Era


como se o príncipe brincasse de ser realeza enquanto a Imperatriz
simplesmente fosse.

Vaness apontou para o banco, o ferro de suas pulseiras chacoalhando. —


Sente-se, Príncipe Leopold. Eu vou ter doces trazidos.

— Obrigado, Santo dos Santos. — Leopold lhe deu um sorriso brilhante, e


com o suspiro de alguém que teve um dia longo e difícil, afundou no banco. Sua
madeira negra rangeu.

Vaness correu para o banco em frente a ele. Sua espinha reta, ela inclinou
a cabeça para um lado, esperando. Sua pausa foi rapidamente recompensada
por um servente, que correu com um prato de frutas açucaradas. Leopold pegou
uma, gemeu de prazer e depois levantou mais duas. Segundos deslizaram em
minutos, e embora Aeduan não tivesse dúvidas, o príncipe quis dizer isso como
uma espécie de insulto; a Imperatriz mostrou apenas paciência, que era mais
do que Aeduan podia reivindicar.

Se o ponto de Leopold em vir, era oferecer insultos insignificantes, então


esse desvio era um desperdício ainda maior de tempo do que Aeduan
inicialmente temia. Nesse ritmo, Safiya fon Hasstrel alcançaria as Sentinelas de
Noden antes mesmo que Leopold terminasse de comer seus doces.

No quarto fruto, o rosto de Vaness deslizou em uma carranca de


sobrancelha estreita. — Quando eu disse que minha frota estava ferida, — Ela
disse educadamente. — eu esperava sua ajuda. Talvez eu não tenha sido clara.

Leopold mostrou seu sorriso habitual e passando o polegar lentamente os


lábios. — Mas com certeza sua Majestosa Majestade percebe que o açúcar pode
melhorar até as mais terríveis situações. — Ele ofereceu-lhe um figo.

— Não estou com fome.

— Não é preciso estar com fome para desfrutar destes. — Leopold


empurrou o doce para ela mais uma vez. — Prove um. Eles são quase tão divinos
quanto sua beleza.
Ela inclinou a cabeça respeitosamente e, para surpresa de Aeduan, aceitou
uma fruta açucarada, chegou a ponto de morder um canto.

Aeduan passou a língua pelos dentes, sem saber como interpretar esse
comportamento. Leopold claramente queria irritar Vaness, mas ela habilmente
evitou morder a isca. O que significava que o que ela queria era importante - e
o que quer que quisesse, conseguiu. Então, por que arrastar isso? Por que
manter um verniz de serenidade com um poder como o dela? Aeduan
certamente nunca se incomodaria.

Leopold parecia pensar o mesmo, pois em seu sexto encontro ele


abandonou o jogo. Com um aborrecimento mal disfarçado, ele recuou e cruzou
as pernas.

— O que aconteceu com sua frota, sua majestade?

— Raposas do mar. — Ela disse simplesmente, ganhando uma risada do


príncipe.

— Raposas do mar. — Ele repetiu, sobrancelhas subindo. — Você espera


que eu acredite nisso? Os anciões das sombras e os falcões chamaram você
também? Ou deixe-me adivinhar: os Doze voltaram com suas espadas
perversas e bateram um buraco no casco.

Vaness não mostrou reação, mas o ar na sala pareceu se contrair. Os


Sentinelas endureceram e a mão de Aeduan moveu-se para o cabo da espada.

— Falcões de fogo ainda estão presentes em Marstok. — Disse Vaness, seu


tom tão suave quanto antes. Sua máscara preservada. — E parece que as
raposas do mar retornaram.

Os olhos de Aeduan voaram para Leopold, tentando avaliar a reação do


príncipe. Aeduan ouvira falar de raposas do mar, mas, até onde sabia, não havia
avistamentos há décadas.

Porém, pela primeira vez, Leopold permaneceu em silêncio e ilegível.

Então Vaness continuou. — Sou aguardada em Azmir, Sua Alteza, mas


temo que meus homens demorem a reparar o dano de nossa frota. Eu peço que
você nos empreste os Tidewitches da sua equipe. Nós não temos mais nenhum.

Então, por que , Aeduan pensou ironicamente, detecto pelo menos três
fragrâncias Tidewitch abaixo? Não havia como confundi-los. Eles cheiravam a
marcas d'água e a corredeiras .

Enquanto Aeduan considerava a melhor maneira de informar Leopold


sobre a mentira da Imperatriz, Leopold floresceu as mãos. — Sua Perfeição
Imperial. — Ele murmurou. — Não pude deixar de notar um navio intacto em
sua frota. Não combina com seus outros navios. Na verdade, parecia... o que
dissemos? — Leopold lançou um olhar penetrante para Aeduan, que deixava
claro que ele não esperava uma resposta. Então o príncipe estalou os dedos. —
Parecia Nubrevnan. Foi isso. E me pergunto, Sua Perfeição Imperial, como isso
veio a estar em sua posse?

— Encontramos o navio de guerra por acaso. — Vaness respondeu


suavemente. — Deve ter sido atacado por raposas do mar também.

— Então, com certeza — Leopold apoiou os cotovelos nos joelhos. — sua


tripulação morta não se importará se você a levar para terra.

Por um instante, Vaness congelou. Ela não falou, nem piscou nem respirou.
Então ficou de pé, com as pulseiras batendo e uma nova máscara se encaixando:
raiva. Ou talvez não fosse uma máscara, pois quando Aeduan respirou fundo,
sentiu que o pulso dela estava mais rápido. Mais quente.

— Você me negaria ajuda? — Ela disse suavemente. — Eu, que sou a


Imperatriz das Crianças Chamas, a Filha do Fogo do Bem Filmado, a Mais
Adorada dos Marstoks? —Ela esticou ambas as mãos sobre a mesa com tal
porte que nem um único elo de ferro se chocou. — Eu que sou a Destruidora de
Kendura Pass? Negar-me é acender sua própria pira funerária, príncipe
Leopold. Você não me quer como um inimigo.

— Eu não sabia que éramos aliados.

O corpo de Vaness se esticou como uma cobra esperando, e Aeduan


instintivamente convocou sua própria magia, uma mera ondulação que deixaria
seus olhos claros de vermelho. Se esse momento aumentasse, Aeduan trancaria
a Imperatriz em um piscar de olhos.

Leopold apontou um único dedo para Vaness. — Aqui está a situação que
vejo, oh mais alta dos altos. Primeiro, acho que você está seguindo a prometida
do meu tio - porque, por qual outra razão, você abandonaria uma Cimeira de
Trégua na qual deveria estar?

— Segundo, — Ele desenrolou outro dedo. — acho que você encontrou os


sequestradores de Safiya aqui e se envolveu em uma batalha que de alguma
forma caiu entre as rachaduras da Trégua. — Leopold flexionou um terceiro
dedo, franzindo a testa agora. — Não consigo separar este terceiro dedo - que é
a razão de tudo isso. Safiya não pode ter qualquer valor para você, oh amada.

O ar na sala se estreitou ainda mais. O peito de Vaness se expandiu... mas


então Aeduan sentiu seu sangue esfriar, sua fúria de volta ao controle. — Eu —
Ela murmurou. — não quero a noiva de seu tio, Príncipe Leopold.

— E eu, – Leopold ficou de pé, erguendo-se sobre a Imperatriz por uma


cabeça e meia, — não acredito em você, Imperatriz Vaness.

Magia saiu correndo - mais rápido do que Aeduan poderia imaginar. Ela
tirou três facas de seu baú, lançou-as sobre o banco e apontou-as para o
pescoço, coração e estômago de Leopold.

O poder de Aeduan rugiu para a vida. Seu sangue alcançou Vaness. Seu
corpo ficou tenso por ação.

Mas em um sussurro escorregadio, dez Sentinelas despiram suas pistolas


e apontaram para Aeduan e Leopold.

O olhar de Aeduan correu de volta pela sala, tateando em busca de uma


rota de fuga. Ele podia controlar Vaness, mas ainda acabaria com um punhal
cheio de veneno ou aço, e embora Aeduan sobrevivesse, Leopold não
sobreviveria.

O príncipe ergueu a mão fria, sem sinal de medo em sua voz, ou, para
surpresa de Aeduan, em seu sangue. — Se você encontrar Safiya fon Hasstrel
antes de mim, Imperatriz, você a devolverá imediatamente a mim, ou
enfrentará as consequências.
— Você ama tanto o brinquedo do seu tio? — Vaness levantou uma das
mãos e a faca no pescoço de Leopold recuou vários centímetros. — Valoriza sua
vida tão altamente que arriscaria meu descontentamento?

Embora os lábios do príncipe estivessem torcidos, não havia diversão em


seu sorriso. — Conheço Safiya fon Hasstrel a minha vida inteira, Sua Real
Perfeição. Ela será uma líder incrível quando chegar a hora. O tipo que coloca
sua nação antes de si mesma. — Seus olhos se voltaram significativamente para
as pulseiras de Vaness. — Então marque minhas palavras, Filha do Fogo Bem
Escolhida, se você não me der a futura Imperatriz, então irei a Marstok e eu
mesmo a reivindicarei. Agora abaixe suas lâminas antes que eu acidentalmente
entre em uma. Isso vai apagar o seu nome da Trégua de Vinte Anos, posso
assegurar-lhe.

Uma pausa rígida se estendeu pela sala, e Aeduan manteve sua magia
tremendo alta. Pronta…

As lâminas giraram preguiçosamente para trás. Então deslizaram e caíram.

Aeduan pegou a mais próximo do ar, mas as outras duas bateram na mesa,
no banco. Quando as pegou, Leopold se inclinou para pegar outra fruta
cristalizada. — Obrigado pelas guloseimas, Grande Destruidora. — Ele sorriu
suavemente. — É sempre um prazer ver você.

Sem outra palavra, e com os ombros eretos de um homem no comando,


Leopold, o Quarto, andou a passos largos para a porta. — Venha, Monge. — Ele
chamou. — Nós perdemos tempo, e agora precisamos recuperar.

Aeduan marchou atrás de Leopold, seus olhos e seu poder nunca deixaram
a Imperatriz ou seus sentinelas. No entanto, ninguém fez qualquer tentativa de
impedir Leopold ou Aeduan quando partiram e, momentos depois, os homens
estavam subindo rapidamente no galeão Marstoki.

Uma vez dentro de seu cortador novamente, e com Leopold gritando para
o comandante Fitz Grieg desfraldar as velas e zarpar, Aeduan observou o
príncipe através de olhos entreabertos e desconfiados.

— A Imperatriz, — Disse Aeduan quando o Comandante Hell-Bard


desapareceu do convés. — mentiu sobre ter Tidewitches a bordo.

— Eu imaginei isso. – Leopold fez uma careta para uma marca invisível em
seu punho. — E também mentiu sobre não querer Safiya fon Hasstrel. Mas, —
Leopold olhou para cima. — eu tenho uma vantagem sobre a Imperatriz.

As sobrancelhas de Aeduan se ergueram.

— Eu tenho você, Monge Aeduan, e confie em mim quando digo que isso
deixou a Imperatriz Marstok navegando com medo.

28
— Mantenha a luz firme! — Merik gritou do leme. Dois marinheiros
apontaram as luzes do Jana nas ondas. A lua dava alguma luz quando as nuvens
se incomodavam em se separar, mas não era suficiente, especialmente não com
a chuva prolongada.

Sem Kullen para encher as velas do Jana ou os bruxos de Merik para


carregar seu casco, Merik teve que empurrar sua escassa tripulação ao limite, e
se esforçar muito também.

Infelizmente não tinha outra escolha e o tempo era curto.

Ele precisava encontrar aquele pico irregular — o Solitário Bastardo, como


ele e Kullen sempre o haviam chamado — antes que a maré o engolisse. Atrás
havia uma enseada escondida. Um segredo de família que permitiria à
tripulação de Merik descansar em segurança.

Se o Jana perdesse a maré, Merik seria forçado a esperar até amanhã à


tarde, permitindo que os Marstoks ou as raposas do mar o alcançassem.

Merik olhou para a domna e Evrane, ainda acorrentadas. O cabelo dourado


de Safiya estava úmido e pendurado, a capa branca de sua tia encharcada de
cinza. Pela primeira vez, Iseult estava longe de ser vista. Ela checou Safiya e
Evrane cem vezes durante as primeiras quatro horas da punição. Nos últimos
dois sinos, porém, a garota ficou parada nos conveses inferiores. Dormindo,
provavelmente.

Merik estava feliz por isso. Cada vez que Iseult vinha implorar pela
liberação de Safi, os músculos de seu pescoço endureciam. Seus ombros se
esticava em direção aos seus ouvidos e ele dava um tapinha no bolso,
verificando se o acordo de Hasstrel ainda estava dentro. Aquelas páginas
haviam se tornado sua última esperança de salvação, então as manteve
próximas.

Ele verificou o documento pela milésima vez agora, as páginas achatadas e


salpicadas de chuva...

As assinaturas estavam intactas, então Merik deixaria Safiya em suas


correntes um pouco mais. Ele poderia não ser Vivia quando se tratava de
disciplina, mas havia consequências para a desobediência. A tripulação de
Merik sabia disso - esperava essa atitude - para que Merik não pudesse de
repente ficar frouxo. Mesmo que haja repercussões de longo prazo por
aprisionar uma mulher que poderia um dia ser a Imperatriz de Cartorra...
Mesmo que Safiya e seu prometido Henrick, pudessem fazer Merik pagar por
esse tipo de tratamento... não importava. Ele preferia manter o respeito de sua
tripulação do que se preocupar com o que algum Imperador idiota poderia
fazer com um país que já estava aleijado.

Henrick . Merik sempre odiou aquele velho odioso. Pensar que Safiya era
sua noiva. Pensar que ela se casaria - dormiria - com um homem três vezes mais
velho que ela...

Merik não conseguiu conciliar esse pensamento. Ele acreditava que Safiya
era diferente da nobreza. Impulsiva, sim, mas leal também. E talvez tão sozinha
quanto Merik, em um mundo de jogos políticos violentos.

Mas percebeu que Safiya era como o resto dos doms e domnas cartorranos.
Ela vivia com cegueira, em sintonia apenas com aqueles que considerava
dignos.

No entanto, mesmo quando Merik nutria sua fúria, mesmo quando dizia a
si mesmo que detestava Safiya, ele não conseguia evitar que os “mas” se
agitassem em seu estômago.

Mas você teria feito o mesmo por Kullen. Você teria arriscado vidas para
salvá-lo.

Mas talvez ela não queira se casar com Henrick ou ser Imperatriz. Talvez ela
esteja fugindo para evitar isso.

Merik empurrou de lado esses argumentos. O simples fato era que, se


Safiya tivesse contado a Merik sobre seu noivado desde o começo, ele poderia
tê-la devolvido a Dalmotti e acabado imediatamente com ela. Ele nunca teria
estado neste lado de Jadansi, onde foi forçado a lutar contra uma raposa do mar,
lutar contra os Marstoks e, finalmente, empurrar Kullen além do limite.

— Almirante? — Hermin mancou para o tombadilho, sua expressão


sombria. — Ainda não posso fazer uma conexão com os Feixes de Batida em
Lovats.

— Oh. — Mecanicamente, Merik bateu a chuva do casaco. Hermin tinha se


ligado ao Voicewitch por horas, tentando passar para Lovats. Para o rei Serafim.

— Possa ser — Hermin refletiu, inclinando a voz sobre as ondas e a chuva,


o rangido das cordas e os grunhidos dos marinheiros — que todos os
interruptores estejam ocupados.

— No meio da noite? — Merik franziu a testa.

— Ou talvez — Continuou Hermin. — minha magia seja o problema. Talvez


eu esteja muito velho.
Sua expressão se aprofundou em uma carranca. A idade não diminuía a
magia. Hermin sabia disso e Merik também; se o velho tentasse amenizar o que
obviamente estava acontecendo — que os Bruxos em Lovats estavam
ignorando as chamadas de Merik, — então não havia sentido.

Se as palavras de Vivia se revelassem verdadeiras e o pai de Merik


realmente tivesse encomendado a miniatura Aetherwitched, lidaria com isso
mais tarde. Por enquanto, ele só precisava levar seus homens para terra e longe
das chamas Marstoki.

Ele olhou para os ferros da perna — em Safiya — apenas para encontrar


Ryber agachada ao lado dela.

— Pegue o leme. — Merik rosnou, percorrendo a distância rapidamente.


Então levantou a voz em um rugido. — Ryber! Afaste-se daí!

Ryber chamou a atenção, mas Safiya manteve a cabeça baixa quando Merik
bateu no convés principal e avançou para ela. — Você, — Ele rosnou — deveria
estar esfregando. — Ele empurrou um dedo para o recruta próximo novo, que
diligentemente tirava a água do convés. — Esse é o seu dever, Ryber, então se
eu te pegar de novo, será chicoteada. Compreendido?

A domna levantou o queixo. — Eu chamei Ryber aqui. — Ela disse


asperamente.

— Alguém precisa verificar Iseult. — Evrane respondeu, sua voz rouca. —


A menina ainda está se curando.

Merik ignorou Safiya e Evrane, seus dedos alcançando seu colarinho.


—Esfregue o convés. — Disse ele a Ryber. — Agora.

Ela o saudou, e uma vez que estava fora de vista, Merik girou em direção a
domna, pronto para gritar que ela deixasse seus marinheiros em paz.

Mas a cabeça dela estava inclinada para trás, os olhos fechados e a boca
aberta. Mesmo com apenas uma luz de lanterna brilhando em sua pele, não
havia falta da oscilação em sua garganta. O toque de sua língua.

Ela estava bebendo a água da chuva.

A raiva de Merik desapareceu. O pânico engoliu seus pensamentos , e ele


arrancou o acordo de Hasstrel. As assinaturas ainda estavam lá.

É claro que estavam, ele pensou, aborrecido consigo mesmo por se


importar. Safiya não estava sangrando. No entanto, os dedos dela tremiam - e
de longe se perguntou por que isso poderia acontecer. Talvez esse medo não
tivesse nada a ver com o contrato.

Esse pensamento fez cócegas na base de seu crânio - e ele rapidamente o


desprezou, enterrou no fundo de sua mente e devolveu o contrato ao bolso.
Então tirou as chaves dos ferro de perna. Seja qual for a razão para esse medo
oco, Merik pensaria nisso mais tarde - junto com sua preocupação inabalável
com o rei Serafin, Vivia e Kullen.

No momento, porém, essa punição tinha que acabar.

Agachando-se ao lado de Safiya, Merik destrancou o primeiro grilhão. Ela


parecia cansada e surpresa. — Eu estou livre?
— Livre para ficar trancada em sua cabine.— Merik desfez os ferros
restantes e depois se levantou. — Levante-se.

Ela enfiou as pernas encharcadas e tentou se levantar. O navio balançou.


Ela caiu para frente.

Merik se lançou para ela.

Sua pele estava escorregadia e fria, seu corpo tremendo. Com um grunhido,
ele a levantou, embalando-a perto. Seus homens observaram, e Merik não
perdeu o aceno de aprovação de Hermin quando ele caminhou em direção à
escada abaixo dos conveses.

A domna havia sofrido sua punição; os homens respeitavam isso.

O rosto de Safiya estava perto, os cílios grossos e molhados. Suas roupas


úmidas roçaram a pele de Merik e sua respiração era superficial. Merik ignorou
firmemente tudo, concentrando-se em colocar um pé à frente do outro até que
finalmente entrou na sala de passageiros escura. Iseult dormia, estremecendo
em sua cama.

— Iz. — Safiya murmurou, mudando nos braços de Merik e esforçando-se


por sua irmã. Merik levou-a até o catre, inclinou-se ligeiramente e depois a
deixou cair. Ela caiu ao lado de Iseult, que se sacudiu acordada.

Enquanto Iseult se esforçava para ajudar Safiya, Merik se virou e saiu do


quarto, dizendo a si mesmo que Safiya estava sendo cuidada. Que não pensaria
nela agora e não pensaria nela novamente.

No entanto, quando finalmente chegou ao leme do navio de seu pai e


avistou o Bastardo Solitário atravessando o horizonte à frente, seus braços
ainda estavam quentes — o pescoço ainda zumbindo do aperto de Safiya.

***

Antes de Safi ter retornado, Iseult estava presa em seus pesadelos


novamente...

Corte, corte, torça e corte.

Dedos rasgaram Iseult. Puxaram seu cabelo, seu vestido, sua carne.

Threads que quebram, Threads que morrem!

Uma flecha atravessou seu braço; a dor explodiu em todo o seu ser. E
mágica, magia - negra, purulenta mágica.

— É um sonho ruim, que você está tendo. — A voz da sombra sacudiu Iseult
do pesadelo.

— Você está estremecendo tanto hoje. — Continuou a sombra, uma calda


em sua voz que era excessivamente alegre. — O que te incomoda? Não é apenas
o sonho, você sente o tempo todo.

Iseult tentou se afastar, mas para todas as direções que mudava, a sombra
seguia. Cada chute ou impulso mental, a sombra evitava. Em todo retiro
desesperado, a sombra cavava suas garras mais profundamente.
E assim a sombra continuava - ou melhor, ela balbuciava, ela pois a sombra
era uma mulher. Uma companheira Threadwitch, convencida de que ela e Iseult
eram de alguma forma parecidas.

Essa foi conversa que a assustou mais. A possibilidade de que essa voz
estranha fosse como ela. Que talvez a sombra compreendesse as dores privadas
de Iseult mais do que qualquer outra pessoa.

O que, claro, a fez se perguntar se não estava apenas imaginando a coisa


toda. Enlouquecendo enquanto todas as suas esperanças para o futuro
escorriam entre seus dedos.

Ou talvez Iseult estivesse finalmente afivelando-se sob os Threads do


mundo - seu coração comum batendo em pó.

— Você está chateada com a sua tribo. — Declarou a sombra com


naturalidade, tropeçando nas memórias mais recentes de Iseult. — Minha tribo
me expulsou também, você sabe, porque eu não era como as outras
Threadwitches. Eu não poderia fazer Threadstones ou controlar meus
sentimentos, então a tribo não me queria. É por isso que você deixou a sua, não
é?

A curiosidade na voz da sombra era de dois gumes. Iseult sabia que ela não
deveria responder... mas não pode evitar quando a sombra perguntou
novamente: — Por isso que você foi embora, não é ?

A vontade de dizer a verdade - sobre sua vergonha com Gretchya, seu


ciúme de Alma - fez cócegas na garganta de Iseult. Por que não podia lutar
contra essa sombra? Use essa frustração, ela disse a si mesma quase
freneticamente. Use isso para lutar contra ela .

Iseult arrancou o corpo de seus sonhos de lado e agarrou-se à primeira


lembrança insensata que pode encontrar: suas tabelas de multiplicação. Nove
vezes um é igual a nove. Nove vezes dois é igual a dezoito.

Mas a sombra simplesmente riu.

— É bobagem esperar que não sintamos nada. — Continuou a sombra, seu


tom doce mais uma vez. — Eu não acredito nas histórias - as que dizem que não
temos Heart-Threads e Thread-families. Claro que nós fazemos! Nós apenas não
podemos ver, isso é tudo. Por que a Mãe da Lua daria a todos os filhos laços tão
poderosos, mas depois nos excluiria ?

— Eu não sei. — Iseult estava grata por essa pergunta fácil. Se ela
respondesse - se parecesse cooperar - talvez a sombra fosse embora.

Ela não fez. Em vez disso, a sombra riu alegremente e gritou: — Por que?
Olha! Falar de Threads-Family perturba você, Iseult. Por quê? Por quê?

Nove vezes quatro é igual a trinta e seis. Nove vezes cinco...

— Oh, é sua mãe! E sua aprendiz. Elas deixaram você ferida e quebrada.
Bondade, Iseult, você é tão fácil de ler. Todos os seus medos se acumulam na
superfície, e eu posso roçá-los como a gordura de uma panela de borgsha. Aqui,
vejo que você não pode fazer Threadstones, então sua mãe mandou você
embora. E, oh, o que é isso? A sombra estava exultante agora, e não importava
o quão selvagem Iseult lutasse, ela não conseguia manter seus pensamentos
trancados.
— Gretchya e Alma planejaram sua fuga antes mesmo que você fosse
embora! E Iseult, olhe aqui - ela tentou alegar que te amava. Bem, obviamente
não te amava o suficiente para te levar com ela. Ela te manipulou muito bem,
Iseult, assim como seu trabalho implicava. Assim como o nosso trabalho
envolve. Nós devemos tecer Threads quando podemos, e quebrar quando
precisarmos. É a única maneira de desvendar o tear.

A voz da sombra baixou para um sussurro. Um som como o vento no


cemitério. — Marque minhas palavras, Iseult: Sua mãe nunca vai amar você. E
aquela monja que você admira tanto? Ela nunca vai te entender. E Safiya ... ah,
Safiya! Ela vai te deixar um dia. Um dia em breve, penso eu. Mas você pode
mudar isso. A sombra arrastou uma pausa, e Iseult imaginou que ela estava
sorrindo ao fazê-lo. — Você pode mudar a própria trama do mundo. Agarre os
Threads de Safi, Iseult. Quebre-os antes que eles te machuquem...

— Não! — Iseult sibilou. — Já tive o bastante de você. Eu tive… o suficiente.


— Com cada grama de poder em seus músculos e mente, Iseult abriu a boca -
no mundo real - e disse: — Nove vezes oito é igual a setenta e dois.

O mundo penetrou nela, carregando a dor de seu braço e o som de passos


- da voz de Safi.

Iseult abriu os olhos e Safi tombou nela.

***
Safi estremeceu com a chuva e, por mais que tentasse, não conseguia
analisar seu terreno, avaliar seus oponentes - e havia algo na estratégia que ela
deveria considerar também.

— Você está congelando. — Disse Iseult. — Fique debaixo do cobertor.

— Estou bem. — Safi forçou um sorriso. — Mesmo. É apenas um ego ferido


e um pouco de chuva. Mas você está bem? Como está seu braço?

— Melhor. — A expressão de Iseult não se moveu - um bom sinal. — Dói


agora que a Painstone está morta. — Ela sacudiu o pulso para mostrar a Safi o
quartzo opaco. — Mas não é tão ruim quanto antes.

Assentindo, Safi afundou no colchão. Feno soltou dos cantos. — E como


você se sente aqui? — Ela bateu no peito. — Você estava falando enquanto
dormia. Foi... foi a maldição?

— Nada tão horrível. — Iseult se estabeleceu ao lado dela. — Foi apenas


um pesadelo, Saf.

Cuidadosamente, Safi tocou a bandagem no braço direito de Iseult.

— Diga-me o que aconteceu.

As linhas no rosto de Iseult se suavizaram e, com o olhar fixo em alguma


distância intermediária, explicou como - para escapar do Bloodwitch - fora
forçada a viajar para casa. Sua voz permaneceu plana e vazia quando passou a
descrever o assentamento, o Cursewitch, a turba.

O intestino de Safi ficou mais duro. Mais difícil ainda. Culpa agitou sua
garganta.

Por que isso era culpa dela. Como tudo o mais que deu errado nos últimos
dois dias, a quase morte de Iseult era culpa de Safi.

E de alguma forma a falta de inflexão - o fato de que Safi sabia que Iseult
não a culpava - só tornava as coisas piores.

Antes que os lábios de Safi pudessem se abrir e pedir desculpas, um sorriso


cintilou no rosto de Iseult. Era tão diferente da história que acabara de contar -
tão surpreendente também.

— Eu quase me esqueci - tenho um presente para você. — Iseult puxou


uma corda de couro de sua blusa e puxou-a sobre a cabeça.

A testa de Safi se enrugou, seus pensamentos e culpa se afastaram.

— Isso é uma Threadstone?

— Sim. — Iseult a cutucou com o cotovelo esquerdo. — É um rubi.

— Mas não são pedras para encontrar Heart-Threads?

— Não necessariamente. Elas podem ser usadas para encontrar alguém em


sua família de linha. — Iseult aliviou uma segunda pedra de sua blusa suja. —
Eu tenho uma parte, viu? Agora, quando alguma de nós estiver em perigo, as
pedras se acenderão. E vão escurecer quanto mais nos aproximamos uma da
outra.

— Rodas me abençoem! — Safi respirou. De repente, a pedra pareceu duas


vezes mais pesada em sua palma. Duas vezes mais deslumbrante sob os
Threads cor-de-rosa - e mil vezes mais valiosa. O poder de encontrar Iseult onde
quer que ela estivesse - o poder de proteger Iseult do inferno como ela tinha
experimentado na noite passada - era um presente, de fato. — Onde você
conseguiu isso?

Iseult ignorou a pergunta. — Aquela pedra, — Ela disse. — salvou sua vida.
Foi como te encontrei ao norte da cidade de Veñaza.

Norte da cidade de Veñaza. Onde Iseult foi atingida pela flecha por seu
próprio povo. Não é de admirar que não quisesse falar sobre isso.

Safi colocou o cordão no pescoço dela. — Sinto muito. — Ela disse baixinho.
— Você nunca terá que voltar para os Midenzi. Jamais.

Iseult coçou a clavícula. — Eu sei, mas… aonde iremos , Safi? Acho que não
podemos voltar à cidade de Veñaza por agora.

— Nós vamos com o príncipe. Para Lejna, posso cumprir o contrato dele.

— Com o príncipe. — Iseult ecoou. Embora seu rosto permanecesse liso,


havia o menor tique em seu nariz. — E depois de Lejna?

Safi tamborilou os dedos no joelho dela. O que ela poderia dizer que traria
o sorriso de Iseult? Onde sua Threadsister possivelmente se sentiria segura de
novo?

— Que tal Saldonica? — Ela ofereceu seu sorriso mais pateta. — Nós
seríamos ótimas piratas.
Iseult nem sequer fantasiou um sorriso de volta. Em vez disso, o nariz dela
se contraiu mais obviamente e ela olhou para as mãos. — Minha mãe está lá.
Eu... não quero vê-la.

Deuses três vezes caramba. É claro que Safi escolheria um lugar onde
Gretchya estaria. Antes que pudesse sugerir outras opções daqueles que fariam
Iseult sorrir, a porta da cabine se abriu.

Evrane cambaleou, com dois marinheiros cutucando-a por trás. A monja


bateu a porta em seus rostos antes de tropeçar para as meninas - e Safi não
perdeu a forma como a coluna de Iseult se ergueu. Como seus ombros rolaram
de volta.

— Deixe-me examiná-la. — Evrane resmungou, afundando no chão ao lado


de Safi. — Você está machucada, Domna.

— Não é nada. — Safi escondeu as pernas.

— As contusões podem não doer, mas isso não é mais sobre você. —
Evrane lançou um olhar para a janela - uma costa iluminada pela lua. — Uma
contusão é sangue derramado sob a pele. Não devemos zombar das exigências
do contrato.

Safi exalou um longo suspiro, sua mente voltando para Merik. O príncipe.
O almirante. Ele nunca estava longe de seus pensamentos, e ela mal pensou em
outra coisa por todas aquelas horas nos ferros. Ela mal olhou para qualquer
coisa, exceto o cabelo molhado de chuva e o olhar duro enquanto ele dirigia o
Jana para sua casa.
Depois que Evrane pareceu satisfeita com a saúde de Safi, examinou o
braço de Iseult e Safi foi até a janela para observar a costa que se aproximava.
Seus músculos queimavam do movimento, da tensão de simplesmente ficar de
pé. Ela gostou, no entanto. Isso afastava o frio, os pensamentos de Merik, os
horrores da tribo de Iseult e todas as outras coisas que eram melhores
ignoradas.

Havia pouco para Safi ver do lado de fora, no entanto. Paredes de pedra e
respingos de água no vidro. Se ela esticasse o pescoço, poderia apenas
vislumbrar o céu pálido do amanhecer.

— Onde estamos? — Perguntou ela a Evrane.

— Uma enseada que pertence à família Nihar. — Respondeu a monja. —


Tem sido um segredo por séculos. Até hoje. — O tom dela era gelado, e quando
Safi olhou para trás, encontrou-a franzindo o cenho enquanto enrolava uma
atadura nova em volta do braço de Iseult.

— A enseada é inacessível da terra, — Prosseguiu Evrane. — já que os


penhascos a cercam e só há espaço suficiente para um único navio. Mas ... —
amarrando a atadura limpa, dando um aceno de cabeça satisfeito — Eu acho
que você verá por si mesma em breve. O almirante planeja nos levar a terra. A
partir daqui, continuamos a Lejna a pé.
29
Merik estava na cabine de Kullen, olhando para o seu irmão de linha. O
rosto de Kullen estava cinzento, os nós dos dedos massageando seu peito
enquanto observava Merik de um catre baixo. Ryber havia colocado um saco de
farinha atrás das costas de Kullen para sustentar a cabeça e os pulmões, de
modo que agora o pó branco grudava nos cabelos e nas bochechas. Com apenas
o pálido amanhecer para iluminar seu rosto, ele parecia um cadáver.

A cabine, no entanto, parecia muito viva.

O único baú de Kullen sob a janela transbordava com seu caos organizado
habitual, e não faltava a trilha clara de camisas e calções que levavam à cama.

— Tão ocupado lendo, para nem sequer dobrar o seu uniforme? — Merik
perguntou, estabelecendo-se na borda da cama.

— Ah, você me pegou.— Kullen bateu um livro de couro vermelho. O


verdadeiro conto dos doze paladinos. — Não resisto a reler os épicos. Se sou
obrigado a ficar na cama, devo me divertir. — Ele lançou um olhar para as
roupas no chão. Então estremeceu. — Suponho que fiz uma bagunça.

Merik assentiu distraidamente e se apoiou nos joelhos. Ele não se


importava com o uniforme; Kullen sabia disso.

— Eu não deveria te forçar tanto. — Disse Merik.

— Não se apresse na minha conta. — Kullen mostrou uma de suas


tentativas assustadoras de sorrir, mas foi quase instantaneamente quebrado
pela tosse.

Depois que o ataque passou, Merik continuou. — Vou para o norte até a
propriedade e encontrar Yoris. Não acho que ele se importe com Safiya, mas
pode causar problemas em relação a Iseult. Ele nunca gostou dos 'Matsis'.
— E também nunca gostou da sua tia. — Kullen soltou um suspiro
cuidadoso e se debruçou sobre o saco de farinha. — Eu suponho que ela vai se
juntar a sua pequena festa?

— Duvido que eu possa mantê-la longe.

— Bem, se Yoris lhe der algum problema, diga a ele — Kullen girou a mão,
e uma corrente de ar frio fez cócegas sobre Merik. — que vou esmagá-lo com
um furacão.

Merik fez uma careta para a demonstração de poder de Kullen, mas


novamente, manteve seu silêncio. Eles discutiram por anos sobre quantas vezes
e com que profundidade Kullen entrava em sua magia; Merik não queria deixar
essa nota hoje.

— Devo visitar sua mãe enquanto eu estiver no interior?

Kullen sacudiu a cabeça. — Eu irei uma vez que estiver melhor. Se você
concordar.

— Claro. Leve Ryber com você. Apenas como companhia.

As sobrancelhas de Kullen se ergueram.

— Vou dizer a Hermin que autorizei. — Merik apressou-se a adicionar. —


Ryber sabe como ajudá-lo em caso de um ataque — e a tripulação está ciente
disso. É lógico que ela se junte a você. Além disso... — Merik franziu o cenho
para as unhas; havia farinha e sujeira debaixo deles. — Não acho que importe
mais se a equipe descobrir sobre vocês. O almirantado acabou, Kullen. Lovats
não vai responder e parece cada vez mais que Vivia falou a verdade sobre meu
pai.

— Não estou surpreso. — Disse Kullen em voz baixa.

Merik grunhiu e pegou a unha do polegar. Este era outro ponto de


discórdia há muito tempo - Kullen acreditava que a natureza de Vivia era
estimulada por Serafin. Que o rei queria seus filhos sempre em desacordo.

Mas Merik considerou essa teoria uma completa merda. Apesar de todos
os fracassos do rei Serafin, ele não desperdiçaria sua energia em causar
problemas - particularmente quando Vivia instigava a abundância por conta
própria.

— O que não sei, Kullen, é a profundidade desse problema e como vou nos
tirar dele.

— Você pode, no entanto. — Kullen inclinou para a frente, farinha


soprando do topo do saco. Se a situação fosse diferente, isso teria feito Merik e
Kullen rirem. — Se você chegar a Lejna e conseguir seu acordo comercial, tudo
dará certo. Você está destinado a grandeza, Merik. Eu ainda acredito nisso.

— Sem muita grandeza. O comércio será apenas com uma propriedade


Cartorran, dentre centenas. E a terra aqui... Merik apontou para a janela, uma
risada autodepreciativa presa em sua garganta. — Não está melhor do que há
um ano. Não sei porque continuo esperando, mas eu sei. Toda vez que partimos
e voltamos, espero somente estar vivo.

Kullen exalou, um som estridente que fez Merik se sentar. — Você está
cansado. Eu irei.
— Espere. — Kullen agarrou a manga do casaco de Merik, e o calor no ar
desapareceu novamente. — Prometa-me uma coisa.

— Qualquer coisa.

— Prometa-me que você considerará uma noite de diversão, enquanto


estiver fora. Você está tão tenso. — Ele engoliu em seco. — Eu não posso nem
olhar para você, sem meus pulmões querendo aproveitar.

Merik soltou uma risada. — E aqui estava eu esperando algo sério. Tenho
muitas razões para estar tenso, você sabe.

— Ainda assim. — Kullen acenou com cansaço.

— E com quem eu deveria me divertir exatamente? Eu não vejo muitas


mulheres subindo na embarcação.

— A domna.

Agora Merik realmente riu. — Eu não estou saindo com uma domna.
Especialmente aquela que é prometida ao Imperador de Cartorra. Além disso,
ela faz meu temperamento ficar fora de controle. Toda vez que acho que é bom
velejar, ela diz algo ofensivo e a tempestade volta.

Kullen engasgou, mas quando os olhos de Merik se voltaram para ele,


alarmados, descobriu que e estava simplesmente rindo, embora ofegante. —
Isso não é seu temperamento, seu grande idiota. É a sua magia respondendo a
uma mulher como Noden pretendia. Que diabos você acha que acontece com a
minha magia quando Ryber e eu ...
— Eu não quero saber! — Merik levantou as mãos espalmadas. — Eu
realmente não quero saber.

— Tudo bem, tudo bem. — A risada de Kullen diminuiu, embora um sorriso


torto permanecesse em seus lábios.

E Merik teve que abafar o desejo de estrangular seu irmão de linha. Esta
não era a conversa que ele procurava, e não queria deixar Kullen com esse
assunto completamente inútil.

Então Merik se forçou a acenar e sorrir. — Dê à sua mãe o meu olá e, se


precisar de mim, bata no tambor do vento. Vamos ficar ao lado da costa a maior
parte do caminho para Lejna.

— Hye. — O punho de Kullen retornou ao seu esterno, e ele assentiu


cansado. — Portos seguros, Merik.

— Portos seguros. — Ele respondeu antes de marchar da sala. Uma vez


que estava no topo, gritou para que Ryber trouxesse os prisioneiros — e fez
questão de chamá-los assim. Não havia garantia, não era passageiro.
Simplesmente prisioneiros. Isso tornava mais fácil ignorar as sugestões de
Kullen. Ele não olharia para Safiya, não falaria com ela e certamente não
pensaria nela dessa maneira. Então, quando Merik alcançasse Lejna, ele a
deixaria para trás e nunca mais a veria novamente.

***
Iseult seguiu Safi, que seguiu Evrane, que seguiu Ryber, pelo porão escuro
até a escada. Dois marinheiros encararam Iseult enquanto ela subia no primeiro
degrau. Eles murmuraram para si mesmos, seus Threads estremecendo de
antipatia.

Safi - na sua forma típica - fixou um olhar nos marinheiros e arrastou um


polegar lento pelo pescoço.

Seus Threads flamejaram com medo cinza.

Iseult rangeu os dentes, olhando para Evrane para ver se ela havia notado.
A monja não tinha, mas ainda assim, Iseult teria que lembrar Safi (pela milésima
vez) para não mostrar esse tipo de agressão. Safi tinha bom intento, mas suas
ameaças apenas chamavam mais a atenção para Iseult - apenas tornava-a mais
consciente dos olhares, das maldições e dos Threads cinzentos.

Normalmente, Safi sabia que não devia provocar-lhe tão descaradamente,


mas as coisas eram diferentes agora. Desde seu tempo nos ferros, os Threads
de Safi não tinham parado de bater com a culpa enferrujada. Vergonha dourada.
Arrependimento azul.

Iseult nunca tinha visto nada parecido com isso. Nunca soube que Safi
poderia se importar tanto com causar um pesar a alguém — alguém que não
fosse Iseult, pelo menos.

Quando Iseult e Safi chegaram ao convés do Jana, estava vazio.


Abruptamente, os Threads de Safi inflamaram com novas cores. Horror cinza.
Tristeza azul. Ferida por dentro da culpa, envergonhada e arrependida.
No sopé das falésias que se estendiam sobre o rio, havia uma praia
silenciosa de cascalho cinza. Apenas os passos dos marinheiros interromperam
as ondas rítmicas e o vento. Não havia barulho de andorinhas ou risos de
gaivotas estridentes. Nenhum pelicano para sentar-se elegantemente nas
rochas, sem cachoeiras deslizando.

Os pássaros estavam lá, mas não estavam em condições de cantar ou voar.


Cadáveres tortos e esqueletos ocos cobriam a praia ou flutuavam nas ondas
suaves e baixas. Havia centenas de peixes mortos também — levados em terra
e crocantes do sol.

Quantos milhares de cadáveres se reuniram aqui ao longo dos anos?


Quantos mais levados em cada dia?

Iseult inclinou o olhar para Evrane, perguntando-se como a monja se


sentia ao voltar para casa. Mas os Threads de Evrane permaneceram calmos, e
apenas um lampejo de tristeza entrelaçou-os.

Iseult limpou a garganta e engoliu a necessidade de gaguejar. — Pensei que


a água que era venenosa, Monja Evrane. Não o peixe.

— Mas o peixe — Respondeu Evrane, movendo-se para o outro lado de


Iseult — viaja pela água envenenada e morre. Então os pássaros os comem e
também morrem.

Safi se balançou contra o baluarte, seu rosto em uma máscara de horror.

Iseult, no entanto, ficou perfeitamente imóvel, desejando que soubesse


como esculpir seu rosto como Safi. Desejando poder fazer Evrane entender que
seus pulmões doíam ao ver aquela terra arruinada, que suas costelas pareciam
granito com veios de gelo. No entanto, Iseult não tinha máscaras nem palavras,
então permaneceu trancada no lugar.

Threads ardiam na borda de sua visão, e ela não precisava se virar para
saber quem subia a escada. Quem se movia para o lado de Evrane e deslizou sua
luneta da jaqueta.

Os Threads entre Merik e Safi eram mais fortes agora, um choque confuso
de contradições. Os Threads externos, como as pernas de uma estrela-do-mar,
alcançaram e agarraram com a fome roxa. Paixão cor de borgonha. Uma
sugestão de arrependimento azul.

E mais que uma pequena raiva carmesim.

Essa ligação poderia se tornar explosiva, pensou Iseult, esfregando


furiosamente a ponta do nariz.

— O que é isso? — Perguntou Safi.

Iseult se encolheu. Estava tão presa nos Threads que não notou Safi se
virando para ela. — Não é nada. — Iseult murmurou, mesmo sabendo que Safi
reconheceria a mentira.

— Ela não tem sapatos! — Evrane gritou, afastando a atenção de Safi.

As narinas de Merik se alargaram e, embora os lábios de Safi se abrissem,


provavelmente para argumentar que ela estava bem sem sapatos, Merik rugiu:
— Ryber! Traga sapatos para a Domna!
A garota do navio apareceu na escada, mordendo o lábio. — Posso pegar
as botas dela, almirante, mas ela precisa vir comigo aqui embaixo. É mais fácil
levá-la aos sapatos do que o contrário.

— Faça isso. — Merik acenou com desdém, já focando sua luneta na praia
novamente.

Safi olhou para Iseult. — Quer vir?

— Eu vou ficar. — Caso se juntasse a elas, Safi poderia lhe fazer perguntas.
Perguntas que poderiam levar aos Threads de ligação...

Ou pior, para a voz sombria nos pesadelos de Iseult.

— Quero estar lá fora, — Acrescentou Iseult. — ao ar livre.

Safi não acreditou. Ela olhou para os marinheiros mais próximos, que
subiram os mastros. Então arrastou seu olhar cético de volta para Iseult.

— Você tem certeza ?

— Vou ficar bem, Safi. Você esquece que eu te ensinei a arte da evisceração.

Safi zombou, mas seus Threads brilharam com rosa divertido. — É assim,
querida Threadsister? Você já esqueceu que era eu que eles chamavam de A
Grande Evisceradora na Cidade de Veñaza? — Safi jogou uma mão dramática
no alto enquanto girava em direção a Ryber.

Agora Iseult não precisava fingir um sorriso. — É isso que você acha que
disseram? — Ela chamou. — Na verdade, foi A Grande Vociferadora, Safi,
porque essa sua boca é tão grande.

Safi fez uma pausa no caminho - apenas o tempo suficiente para morder o
polegar na direção de Iseult.

Iseult mordeu o polegar de volta.

Quando ela se inclinou para o corrimão, encontrou Merik com as


sobrancelhas altas e Evrane abafando uma risada. Agradou Iseult
descontroladamente ver a monja divertir-se e o calor escorreu por seus
ombros.

— É bom ver você se sentindo melhor. — Disse Evrane.

— É bom me sentir melhor. — Respondeu Iseult, vasculhando seu cérebro


por algo inteligente para adicionar. Ou qualquer coisa para adicionar, para esse
assunto.

Mas nada veio, e um silêncio desconfortável varreu com a brisa. Iseult


começou a massagear o cotovelo direito, só para ter algo para fazer.

Isso fez com que os Threads de Evrane piscassem verdes com


preocupação. — Seu braço está doendo e sou uma tola, deixei minhas salvas lá
em baixo. — E saiu correndo, deixando Iseult com Merik.

Sozinha com Merik.

Um príncipe que poderia se tornar parte da Thread-Family de Safi, ou


facilmente se tornar seu inimigo. Um príncipe que agora ditava onde e como
Iseult e Safi viajavam.
Sem perceber o que fez, surgiu uma pergunta na boca de Iseult: — Você é
casado? — Era a primeira pergunta que um Threadwitch faria ao elaborar as
pedras de uma pessoa, e Iseult ouvira Gretchya perguntar isso mil vezes
enquanto crescia.

Os dedos de Merik se apertaram na luneta; seus Threads brilharam de


surpresa. — Uh ... não.

— Você tem uma amante?

Merik puxou o copo, seus Threads agora pulsando com repulsa. — Eu não
tenho amante. Porque essas perguntas?

Interiormente, Iseult suspirou. — Eu não estou interessada em você, Sua


Alteza, então não há necessidade do desdém. Estou simplesmente tentando
decidir se devemos segui-lo até Lejna ou não.

— Se vocês devem me seguir? — Os Threads de Merik e sua postura


relaxados. — Vocês tem pouca escolha.

— E se você pensa assim, subestima severamente Safi e eu.

As bochechas de Merik, e seus Threads, exibiam um vermelho furioso,


então Iseult decidiu interromper o interrogatório Threadwitch. Mas quando
Merik girou nos calcanhares para sair, Iseult o evitou. — Você não gosta de mim.
— Disse ela. — E não precisa. Apenas lembre-se de que se você machucar Safiya
fon Hasstrel, então vou te cortar em pedaços e alimentar com os ratos.

Merik não respondeu, embora parecesse completamente indignado ao


pisar em volta de Iseult na direção da escada.
Mas o lampejo da compreensão azul em seus Threads disse a Iseult que ele
não apenas escutara, mas também que levara esse aviso ao coração.

O que foi bom, porque ela quis dizer cada palavra.

***

Safi se agachou, com a água espirrando nas laterais enquanto Ryber


remava para Safi, Iseult, Evrane e Merik.

Quando Ryber tinha a levado aos deques abaixo, Safi pediu desculpas por
colocá-la em apuros, mas Ryber tinha dado de ombros. — O Almirante late mas
não morde. Além disso, não é de mim que ele está com raiva.

Era tudo verdade demais. Merik mal olhara para Safi desde que chegaram
à enseada e sempre que tentava fazer uma pergunta : estamos viajando a pé?
Nós temos suprimentos? - ele simplesmente se afastava.

O que, claro, tornava Safi ainda mais determinada a dar alguma resposta.
Preferiria sentir seu rosnado ou sua mordida do que fingir que ela não existia.

Em poucos minutos, o barco estava em terra e Ryber estava pulando em


ondas até os joelhos para arrastar o barco. Merik e Evrane saltaram para fora.
Safi e Iseult, no entanto, foram consideravelmente menos graciosas.

— Isso foi algo que Habim e Mathew não conseguiram nos ensinar. —
Disse Iseult, usando as mãos de Safi e Ryber para descer. — Devemos informá-
los que a saída de barcos é uma habilidade valiosa para a vida.

— Não é tão valioso. — Disse Ryber. — É apenas entrar e sair.

Safi tossiu levemente. — Essa foi a tentativa de Iseult de uma piada.

— Oh. — Ryber riu. — Desculpa. Eu só conheci um Threadwitch antes, e


ela era velha. Eu acho que você pode ver meus threads agora?

— Hye. — Respondeu Iseult. — Estão atualmente verdes com curiosidade.

Um sorriso satisfeito dividiu o rosto de Ryber. — Então... você pode ver


meu Heart–Thread também?

O nariz de Iseult se mexeu, e ela lançou um rápido e quase nervoso olhar


para Safi antes de dizer: — Hye. Eu posso ver isso. Ele está no navio.

O sorriso de Ryber se alargou, embora não houvesse falta do olhar


assombrado e vazio que enchia seus olhos.

— Ryber. — Merik latiu. A garota começou e depois marchou seriamente


em direção ao almirante.

Safi se inclinou para Iseult. — Por que você olhou para mim quando Ryber
perguntou sobre seu Heart-Thread?

— Porque tem azul. — Ela disse categoricamente. — Isso significa que


parte do amor dela está aflito.

— Oh. — Safi respirou. A ideia de uma tristeza compartilhada entre Ryber


e Kullen fez sua garganta apertar.

Enquanto Iseult esgueirou-se pela praia para se juntar a Evrane, que


inspecionava um petrel morto a vários passos de distância, Safi esperou por
Merik.

— Como segundo imediato, — Disse ele a Ryber, cujas tranças saltaram no


vento. — Hermin comanda o navio até que Kullen esteja melhor. E lembre-se:
não coma o peixe nem beba a água. Isto não é como o Rio Timetz, nossos
Waterwitches não chegaram aqui. Você vai morrer antes mesmo de engolir.
Além disso, certifique-se de que Hermin não force demais sua magia. Se Lovats
não responder, então não há nada que possamos fazer.

Ryber saudou, punho a coração, e Merik descansou os olhos no navio. Por


vários momentos, a água do mar lambeu os pés de Safi, com as botas de Ryber,
mas não se afastou. Ela simplesmente esperou que o príncipe terminasse seu
silencioso adeus.

Uma vez que terminou, marcado por seu súbito e repentino puxar de
colarinho, ele girou e passou por Safi.

— Portos seguros! — Ryber gritou atrás deles.

— Portos seguros. — Disse Safi, já alcançando Merik.

Iseult andou ao lado dela - Evrane andando firmemente para trás e com
muito mais equilíbrio do que Safi ou Iseult mostravam. As praias ao redor da
cidade de Veñaza eram de areia, e os tornozelos de Safi não gostavam desse
cascalho minúsculo. Também aprendeu rapidamente que saltar sobre as aves
mortas não era o mais fácil.

Quando se virou para Iseult para reclamar, porém, ela encontrou sua irmã
de linha já ofegante. — Você está bem? Devemos desacelerar?

Iseult insistiu que estava bem. Então ela levantou a voz. — Para onde
estamos indo, Alteza? Porque parece que estamos caminhando em direção a
uma parede.

Na verdade, ele fez parecer que estavam apontando para duas altas falésias
que se reuniram em uma saliência baixa gotejando com estalactites.

— Há uma caverna está escondida lá atrás. — Evrane respondeu assim que


ficou claro que Merik não tinha intenção de falar, embora Safi estivesse
impressionada com Iseult por tentar. — É para ser uma caverna secreta , no
entanto, assim como esta entrada é para ser secreta.

— Ninguém nos verá. — Merik murmurou, apontando para a borda mais à


direita da saliência. Ele se abaixou sob uma estalactite.

Safi afundou depois dele. Pontas da alvorada brilhavam através das


aberturas no teto escarpado. O caminho antes de Safi, claramente talhado pelas
mãos dos homens, era tão estreito que teve que virar de lado.

Vários passos depois, Merik se endireitou, então Safi também se arriscou a


subir. Nenhuma pedra afiada apunhalou sua cabeça, embora a água pingasse.

— Esta água está envenenada? — Ela perguntou, esfregando o cabelo.

— Não toque. — Respondeu Evrane, a voz abafada por Iseult na frente dela.
— A maior parte da água doce nessa área é perigosa para beber, mas há algumas
que permanecem puras, não importa o que aconteça.

Merik deu um gemido estrangulado. — Ninguém quer ouvir sobre o Os


Poços Originais.

— Eu quero ouvir sobre os poços. — Safi respondeu.

— Eu também. — Disse Iseult, sua respiração audivelmente superficial. —


Eu já li muito sobre eles. É verdade que o poço da água pode curar?

— Costumava. Todos os poços poderiam curar quando estivessem vivos...


Merik. — Evrane retrucou. — Devagar. Nem todos estamos familiarizados com
este caminho e nem todos nós estamos em perfeita saúde.

Merik diminuiu, embora não muito. Então Safi tomou para si encurtar seu
passo. Uma vez que Merik percebesse que todos estavam sinalizando, ele não
teria escolha senão ficar para trás também.

Logo, as coxas de Safi queimaram, seus tornozelos se esticaram quando o


caminho subiu. — Havia um Poço de Origem nas terras de minha família, — Ela
ofereceu uma vez que sentiu que Iseult não estava tendo dificuldades com a
inclinação. — Não estava vivo, no entanto.

— Não. — Disse Evrane. — Não estava, restam apenas dois Poços intactos.
Dos cinco, apenas o poço Aether no mosteiro de Carawen e o poço do fogo em
Azmir ainda vivem. Suas fontes fluem, as árvores florescem o ano todo e as
águas podem curá-lo. Embora eles digam...

— Escadas a frente. — Merik latiu.


— ... que se os Cahr Awen voltassem, os outros Poços recuperariam seus
poderes e as molas fluiriam mais uma vez.

Quando Safi apertou os olhos para ver os degraus escorregadios por onde
Merik se erguia agora, tentou se lembrar das histórias de sua infância.

— Quantos Cahr Awen estavam lá antes do último par morrer?

— Estimamos pelo menos noventa. — Disse Evrane. — mas só temos


registros de memória para quarenta pares.

— Registros, — Merik inseriu com desdém. — não os torna reais.

— Registros da memória, — Evrane rebateu. — os tornam


indiscutivelmente reais. Uma irmã de Sightwitch transferiu as memórias
diretamente dos cadáveres de Cahr Awen.

— A menos que esses registros de memória fossem falsos, tia Evrane.


Agora, se você terminou de lecionar, temos que ficar quietos daqui em diante.

— Mas não há outro lugar para ir. — disse Safi. Trinta degraus à frente,
iluminados por um fraco raio de sol, não havia nada além de uma parede plana.
— Bom trabalho, Príncipe.

Ele não se levantou para o golpe, então Safi ficou na ponta dos pés até que
ela e Merik tivessem ambos alcançado a parede, até que Merik finalmente se
dirigiu a ela, o sol mostrando apenas as linhas mais fracas de seu rosto.

— Temos que empurrar juntos. — Ele sussurrou, inclinando o ombro


contra a parede, uma mão pressionando plana. Safi imitou sua pose com o outro
ombro.

— Um. — Merik murmurou. — Dois ... três .

Safi e Merik empurraram. Então empurraram com mais força. E então mais
forte novamente e Safi assobiou: — Nada está acontecendo! — É claro que,
assim que as palavras não muito quietas deixaram sua boca, a parede balançou
para frente em uma onda de ar e som.

E Safi tombou em um mundo de árvores mortas e terra pálida. Merik


também caiu, mas o idiota tentou se segurar, agarrando a porta de pedra que
girava, de modo que ele caiu de costas.

Safi caiu em cima dele, colidindo em seu peito. Merik ofegou, como ela, e
emitiu um gemido de dor.

— O que? — Ela exigiu, tentando se afastar dele. Sua mão estava presa
embaixo dele e cada puxão empurrou seu corpo contra o dele.

Calor inflamou através dela. Esteve perto de Merik ontem - durante a briga
deles - mas isso parecia... diferente. Ela estava muito consciente da forma de
Merik. Do ângulo dos ossos do quadril e dos músculos das costas - músculos
que os dedos dela insistiam em cavar. Por acidente. Completamente por acaso.

Safi também estava bem ciente de Evrane rindo e Iseult boquiaberta na


maneira Threadwitch. Mas antes que Safi pudesse ordenar que elas ajudassem,
Merik abaixou a cabeça e seu estômago se apertou contra o dela. — Saia. Fora.
Mim.

Seu grunhido retumbou pelas costelas de Safi, mas não teve chance de
rosnar de volta, porque as risadas de Evrane se interromperam - e o som de
madeira rangente reverberou pela clareira.

Vinte pontas de flechas apareceram por trás dos pinheiros clareados pelo
sol quando Iseult murmurou: — Ah, Safi. Ele te disse para ficar quieta.

30
Merik esperava pelos soldados com arcos, ele realmente tinha. O que não
esperava era que levaria tanto tempo para seu líder, o Mestre Huntsman Yoris,
encontrá-los.

Ou que Safiya fon Hasstrel estaria em cima dele enquanto esperava.

Iseult e Evrane - o capuz de sua tia puxado para baixo - ficaram de costas
para a caverna e com as mãos para cima, e Merik fez tudo o que pôde para fingir
que não estava preso sob Safiya. Que suas pernas não estavam enroscadas nas
dela, que seu peito não estava levantando contra seu peito muito mais suave, e
que aquelas não eram suas unhas arranhando suas costas ou que seus olhos
azuis estavam a poucos centímetros de distância.

Era seus olhos que sempre faziam isso, que puxavam a raiva para a
superfície. Mas ele não deixaria sua magia solta, não importava o quanto doesse
por libertação. Nem o quanto ele queria virar Safiya e …

Noden salve-me.

Um gemido se agitou na parte de trás da garganta de Merik, e ele rezou


para que a terra o engolisse inteiro.

Safiya confundiu sua aflição com riso. — Você acha isso engraçado? Porque
não estou rindo, Príncipe.

— Nem eu. — Respondeu ele. — E eu lhe disse para ficar quieta.

— Não, você me disse para empurrar. O que eu fiz, exceto que você caiu.
Onde estava sua maravilhosa Windwitchery?

— Eu devo ter deixado a bordo do Jana. — Abdômen apertando, ele


levantou o rosto perto do dela. — Bem ao lado da minha paciência para a sua
constante insolência. — Enquanto ficasse com raiva, ele não teria que pensar
sobre a forma de sua boca. Ou no peso de seus quadris pressionando os dele.

Seus olhos se estreitaram. — Se você acha que isso é insolência, você está
um tanto enganado.

— Sua Alteza? — Uma voz estrondou. — É esse o filho real de Nubrevna


que vejo próximo de uma dama? Abaixem suas armas, meninos. — Como um,
as flechas na floresta caíram. Merik imediatamente empurrou Safiya para longe
dele e ficou de pé.

Assim que Safiya também estava em pé, Iseult e Evrane aproximaram-se,


suas posições defensivas, enquanto os "meninos" de Yoris saíam da floresta
com o líder à frente.

Yoris era um homem magro com apenas três dedos na mão esquerda,
supostamente ele havia perdido os outros para uma raposa do mar.

— Escória Matsi. — Yoris chupou os dentes na direção de Iseult. Então ele


cuspiu a seus pés. — Volte para o vazio.

Iseult mal conseguiu agarrar Safiya antes dela se lançar. — Eu vou lhe
mostrar o Vazio. — Safiya rosnou. — Você é uma fissura do inferno.

Seis dos soldados de Yoris apontaram seus arcos em Safiya - e mais flechas
se materializaram nos pinheiros mortos.

As mãos de Merik se levantaram. — Chame-os, Yoris. — Esta não era a


reunião feliz que esperava com um dos seus ídolos de infância.

— Flechas não vão salvar sua pele. — Safiya murmurou. — Eu vou picá-lo
com minha fac...

— Chega. — Iseult estalou com mais emoção do que Merik já tinha ouvido.
— Seus Threads são inofensivos.

Safiya apertou a boca com isso, embora ela ainda se movesse na frente de
Iseult.
— Abaixe seus arcos. — Ordenou Merik, mais alto agora. Mais irritado —
Sou o Príncipe de Nubrevna, Yoris, não um invasor.

— Mas quem é essa aí? — Yoris inclinou a cabeça para Evrane, que ainda
mantinha seu manto baixo e corpo pronto para a ação. No aceno de Yoris, um
soldado estendeu o arco e sacudiu o capuz.

— Olá, Mestre Caçador. — Ela demorou.

— Você. — Yoris rosnou, empurrando Merik. — A traidora de Nihar. Você


não é bem vinda aqui.

A espada de Evrane raspou no exato momento em que Merik arrancou seu


sabre, e empurrou-o contra as costas do velho.

— Se você caluniar qualquer outra pessoa do meu grupo, Mestre Yoris, eu


vou te atravessar. — Merik cutucou a lâmina até a camisa de Yoris se enrolar.
Ele já estava farto e Yoris sabia muito bem quão rápido a raiva de Nihar poderia
aumentar. — Evrane é uma veneradora de Nubrevna e a irmã do rei, então você
vai mostrar a ela o respeito que merece.

— Ela abandonou seu título quando tudo se tornou um caos.

A bota de Merik se conectou ao joelho de Yoris. O homem caiu na terra e


ao redor, as flechas se encaixaram.

Mas Yoris só entrou em gargalhadas, um som como pedras triturando. Sua


cabeça se levantou. — Agora esse é o príncipe que conheço. Eu só tinha que
checar se você não estava enfeitiçado pela 'garota Matsi’, isso é tudo. Isso é tudo.
— Outra risada, e o Mestre Caçador rolou facilmente a seus pés.
Arcos e flechas abaixaram em um farfalhar de movimento, e Yoris
floresceu uma curva graciosa. — Permita que seu humilde servo o acompanhe
até sua nova casa.

— Nova? — Merik franziu a testa, embainhando seu sabre.

Um sorriso malicioso se espalhou pelo rosto de Yoris. — Noden sorriu para


nós este ano, Alteza, e só um tolo ignora seus dons.

***

O sol da manhã bateu em Merik, enviou sua sombra passando por ele ou
nos tocos de pinho branqueados pelo sol e terra amarela empoeirada. Safiya
ficou dez passos atrás, mantendo-se perto de Iseult, enquanto Evrane comprou
a traseira.

Merik ficou aliviado ao descobrir que ele poderia facilmente ignorar a


domna enquanto ela permanecesse fora do alcance da voz, apenas fora de vista.

E contanto que ela não estivesse em cima dele.

Ele olhou de volta a cada poucos minutos, para ter certeza de que as
mulheres continuassem. Embora Iseult não se queixasse e não desacelerasse,
ela não estava totalmente curada. Mesmo com o rosto tão vazio quanto a neve,
não havia como confundir o aperto em sua mandíbula.
Então, novamente, ela parecia comparativamente severa no Jana quando
atingiu Merik com essas perguntas estranhas. Era difícil dizer o que ela sentia,
ou se sentia mesmo.

Felizmente para Iseult e Evrane, os guardas preconceituosos de Yoris


tinham desaparecido na floresta silenciosa durante a primeira milha de sua
caminhada. E felizmente para Merik, esses mesmos soldados rastejaram dentro
dessa floresta fantasma por milhares de acres.

Se Safiya decidisse fugir, os homens de Yoris estariam em cima dela em


minutos.

Merik não esperava que Safiya fugisse. Não com Iseult ainda se curando.

O grupo seguiu em frente e a paisagem silenciosa nunca mudou. Mais e


mais, era um cemitério interminável de árvores lascadas e troncos
embranquecidos pelo sol, cadáveres de pássaros e terra seca como osso.
Sempre que Merik estava aqui, mantinha a voz baixa e a cabeça baixa.

Yoris não tinha tal impulso. Ele regalou Merik, em voz alta, com
atualizações sobre os homens e mulheres com quem Merik havia crescido.
Homens e mulheres que viveram e trabalharam na propriedade dos Nihar.
Parece que todos agora se mudaram para essa nova casa com Yoris e seus
soldados.

Apesar de todas as evidências, Merik ainda se pegou na esperança de


encontrar algo vivo. Um floco de líquen, um matagal de musgo, ele teria tomado
qualquer coisa desde que fosse verde. No entanto, era exatamente como disse
a Kullen: nada havia mudado. Mover-se para o leste ou para o oeste não fazia
diferença em um mundo de morte e veneno.

Quando Yoris chegou a uma bifurcação no caminho, a estrada certa


continuando ao longo do Jadansi, enquanto a trilha da esquerda se estendia
para o interior, Merik acordou com um pensamento alarmado.

— Se todo mundo se mudou, a mãe de Kullen também? Ele planejou visitá-


la.

— Carill ficou na propriedade. — Disse Yoris. — então Kull vai encontrá-la


exatamente onde ele a deixou. Ela foi a única a não se juntar a nós. Então,
novamente, esta nunca foi sua casa. Ela ainda é aristuana no coração. — Ele
soltou um frasco de seu cinto, sacudindo a cabeça enquanto descia o garfo
esquerdo.

Merik seguiu, diminuindo o ritmo apenas o suficiente para garantir que


Safiya, Iseult e Evrane também o seguissem. Elas fizeram.

— Água? — Yoris perguntou.

— Por favor. — Os lábios de Merik eram como papel, sua língua como cola.
Era como se a secura do mundo sugasse a umidade de seus próprios poros.

Mas ele teve o cuidado de não beber demais. Quem sabia quanta água
purificada Yoris tinha hoje em dia?

— Este seu novo lugar. — Merik começou, devolvendo o frasco. — está


claramente longe da propriedade dos Nihar. Vale a pena viajar tão longe?

— Hye. — Yoris disse com um sorriso de lado. — Mas não vou contar mais
do que isso. Eu quero que você veja o presente de Noden por si mesmo. A
primeira vez que meus olhos viram isso, chorei como um bebê.

— Chorou? — Merik ecoou ceticamente. Não conseguia imaginar lágrimas


no rosto do caçador, mais do que imaginava folhas naqueles carvalhos e
pinheiros.

A mão de três dedos de Yoris subiu. — Juro pelo Coral no Trono de Noden,
que chorei e chorei, Alteza. Apenas espere e veja se você não faz o mesmo. O
sorriso de Yoris caiu tão rápido quanto havia chegado. — Como está a saúde do
rei? Não recebemos muitas novidades por aqui, mas ouvi algumas semanas
atrás que ele estava piorando.

— Ele está estável. — Foi tudo o que Merik disse em troca. Ele está estável
e ignorando as ligações de Hermin e possivelmente recompensando Vivia pela
pirataria.

Em uma explosão de movimento, Merik tirou o casaco e limpou o suor de


seus olhos. Ele estava fervendo. Sufocando. Desejou ter deixado o casaco
amaldiçoado no Jana. Foi apenas uma piada cruel. Cada raio refletido de seus
botões banhados a ouro, botões que ele mantinha tão meticulosamente polidos
e que indicava sua posição como líder da Marinha Real, era como um lampejo
do sorriso de Vivia.

Yoris e Merik fizeram uma curva no caminho, e a floresta morta deu lugar
a uma encosta estéril. As coxas de Merik ardiam nos primeiros dez degraus e
suas botas escorregavam com facilidade sobre o cascalho. Ele parou a meio
caminho para piscar o suor de seus olhos e verificar as mulheres atrás.
Safiya encontrou os olhos de Merik. Seus lábios se separaram, e ela
levantou uma mão, os dedos trilhando com uma onda.

Merik fingiu não ver, e seu olhar mudou para Iseult, cuja mandíbula estava
firme e a atenção presa no chão. O suor escorria pelo seu rosto e, com o vestido
preto Threadwitch, ela parecia perigosamente superaquecida.

A atenção de Merik foi finalmente ignorada para Evrane. Como Merik, ela
tirou a capa e segurou-a em um braço. Ele tinha certeza de que era contra o
protocolo do Monastério, mas ele dificilmente a culpava.

Assim que Merik abriu a boca para pedir uma pequena pausa, os passos de
Evrane diminuíram. Ela disse algo inaudível e apontou para o leste. Safiya e
Iseult também pararam, seguindo o dedo de Evrane. Então seus rostos se
aliviaram em sorrisos.

Merik virou o olhar para a esquerda, apenas para pegar seus próprios
lábios relaxando. Ele tinha estado tão focado em seguir em frente, que não se
preocupou em olhar para o leste, para ver o distante pico preto em silhueta
contra a manhã laranja. Com dois cumes de cada lado, parecia uma cabeça de
raposa.

Era o Poço das Águas das Bruxas, o Poço de Origem de Nubrevna. Séculos
atrás, tinha sido o orgulho desta nação. Os mais poderosos Waterwitches eram
Nubrevna. Mas as pessoas se mudaram e o Poço morreu. Agora, se algum
Waterwitch cheio de poder fosse encontrado no continente, certamente não
estavam em Nubrevna.

— Apresse-se, Alteza! — Gritou Yoris, dividindo os pensamentos de Merik


e insistindo com ele. Seus calcanhares deslizaram sobre pedras, seus joelhos
estalaram... Então ele estava lá, no topo, com a mandíbula caída e as pernas se
transformando em lama. Ele teve que pegar Yoris pelo ombro para ficar em pé.

Verde, verde e mais verde.

A floresta estava viva, uma grande corrente ainda respirava e


desabrochava no sopé da colina, serpenteando por um mundo de branco e
cinza. Abraçando um rio até …

Os olhos de Merik bateram nas pastagens com ovelhas pastando.

Ovelhas .

Um riso borbulhou em sua garganta. Ele piscou e piscou novamente. Esta


foi a terra da sua infância. A selva e a vida e o movimento. Isso era casa.

— O rio não está contaminado. — Yoris apontou para o fluxo serpenteante


na floresta, onde os pássaros voavam com as pombas.

— Passa direto pelo nosso assentamento ali. Você pode vê-lo? É essa
lacuna nas árvores.

Merik apertou os olhos até ver a abertura na floresta, ao sul do gado que
pastava. Na clareira havia telhados planos e ... um barco.

Um barco de cabeça para baixo.

Merik retirou sua luneta e levou-a aos olhos. Com certeza, o casco curvo e
gordo de algum navio de transporte branqueado de sol estava de cabeça para
baixo no centro do assentamento. — De onde veio o navio? — Ele perguntou,
incrédulo.

Antes que Yoris pudesse responder, passos se seguiram atrás de Merik,


respirações pesadas também. Então Safiya estava ao lado dele, engolindo em
seco e gritando para Iseult esperar, que estaria de volta por ela.

Os dedos de Merik se curvaram ao redor da luneta. A domna estava


destruindo tudo, como sempre fazia. Ele inclinou-se para ela, pronto para exigir
a paz.

Exceto que Safiya estava sorrindo. — É a sua casa. — Ela disse suavemente.
Urgentemente. — Seu deus ouviu você.

A boca de Merik ficou seca. A brisa, o chocalhar de galhos, o ruído dos pés
de Evrane e Iseult, tudo se transformou em um rugido enfadonho e distante.

Safiya virou o rosto para o lado e sua voz caiu para um sussurro, quase
como se falasse consigo mesma em vez de com Merik. — Eu não posso acreditar,
mas aí está. Seu deus realmente escutou.

— Ele ouviu. — Disse Yoris.

Merik se encolheu, tinha esquecido que Yoris estava lá. Esqueceu que
Evrane e Iseult estavam subindo. Tudo dentro dele estava perdido no sorriso
de Safiya. Na verdade de suas palavras. Noden tinha escutado.

— Aquele navio, — Continuou Yoris. — caiu do céu há quase um ano, de


alguma forma carregado por uma tempestade. Bateu na terra com um
estremecimento como você não acreditaria. De cabeça para baixo, assim como
você a vê, e com a comida explodindo pelas janelas.

Merik sacudiu a cabeça, forçou sua mente de volta ao presente. — E ... e os


marinheiros do navio?

— Não havia ninguém a bordo. — Respondeu Yoris. — Havia sinais de


clivagem, no entanto. Algumas manchas pretas que nós limpamos, e alguns
danos no casco que pode ter sido as raposas. Mas foi isso.

Um grito soou atrás de Merik, ele se virou. Evrane tinha chegado ao topo
da colina, tinha visto as florestas e a vida.

Ela caiu na terra, as palmas das mãos batendo no solo empoeirado antes
que Merik pudesse alcançá-la. Ela apenas acenou para ele, uma oração saindo
da sua língua e lágrimas se acumulando em seus olhos. Afundando em suas
bochechas sujas.

Os próprios olhos de Merik começaram a queimar em seguida, porque isso


era o que ele tinha trabalhado, pelo que ele, Evrane, Kullen, Yoris e todos os
outros da infância de Merik tinham trabalhado, suado e lutado.

— Como? — Murmurou Evrane, abraçando o manto amarrotado contra o


peito e sacudindo a cabeça. — Quando?

Apesar da longa desconfiança de Yoris por Evrane, sua expressão se


derreteu. Mesmo ele não podia negar que Evrane Nihar amava essa terra.

— O rio está limpo. — Disse Yoris, voz rouca mas gentil. — Não sabemos
por quê, mas só descobrimos isso, e o começo dessa nova floresta ao redor dela,
quando encontramos o navio. Não demorou muito tempo para começar um
novo assentamento, e temos mais famílias chegando toda semana.

Famílias . Por um momento, Merik não tinha certeza do que essa palavra
significava ... Famílias. Mulheres e crianças. Isso era possível?

Uma nova percepção chegou, socando os pulmões de Merik. Se Yoris


tivesse criado isso em meros meses, então o que poderia acontecer com um
suprimento constante de comida? O que mais poderia ser construído e
cultivado?

Os dedos de Merik foram para o casaco dele, para o acordo ali. Ele olhou
para Safiya. Ela encontrou seu olhar e sorriu largamente.

E Merik esqueceu como respirar completamente.

Então Safi se afastou para ajudar Iseult a subir o resto da colina, e os


pulmões de Merik recuperaram sua função. Sua mente recuperou a clareza e,
depois de um puxão no colarinho, ofereceu uma mão a Evrane.

— Venha, tia. Estamos quase lá.

Evrane enxugou sua bochecha, manchando de terra por suas lágrimas,


mais do que enxugando-as. Então ela mostrou um sorriso hesitante, como se
tivesse esquecido como sorrir.

Na verdade, Merik não conseguia se lembrar da última vez que viu sua tia
sorrir.

— Nós estamos simplesmente, quase lá Merik. — Ela pegou a mão dele e


subiu a seus pés. — Meu querido sobrinho, estamos quase em casa .
31
O Presente de Noden era facilmente a vila mais feliz que Safi já vira. Ela e
Iseult seguiram Yoris, Merik e Evrane por uma ponte rudimentar, o rio abaixo
de uma fatia irregular na terra amarela. Isso levava a um aglomerado externo
de cabanas de madeira com telhados de colmo arredondado e paredes de
tábuas, tão descoradas quanto as árvores de onde eram cortadas. As casas
pareciam terrivelmente precárias para Safi, como se a primeira grande
tempestade os tivesse jogado no rio em movimento rápido.

Então, novamente, os nubrevanos eram claramente muito resistentes. Se


uma tempestade roubasse suas casas, eles simplesmente começariam de novo.
E de novo e de novo.

Um pardal mergulhou sobre a ponte, um corvo coaxou de um telhado e


folhas de samambaia gordas arrepiaram-se das margens íngremes dos rios.

E todos - todos os que Safi passou - estavam sorrindo.


Não para Safi - ela apenas ganhou olhares curiosos. E definitivamente não
para Iseult, que estava grudada no braço de Safi e se afundou profundamente
dentro do manto de Evrane. Mas para Merik ... Quando as pessoas viram seu
príncipe, Safi nunca tinha visto sorrisos tão brilhantes. Nunca sentiu tal
queimadura de sua magia com a verdade por trás deles.

Essas pessoas o amavam.

— Você está impressionada. — Disse Iseult, com o capuz abaixado para


que ninguém pudesse ver a palidez de sua pele, o tom de seus cabelos. Ela
estava andando devagar, respirando pesadamente no braço de Safi, mas parecia
determinada a ir até a base de Yoris, antes de reconhecer qualquer tipo de dor
ou exaustão.

— Seus Threads são brilhantes o suficiente para dar visão a um homem


cego. — Continuou Iseult. — Você se importa de controlar isso? Eu posso ter a
ideia errada.

— A ideia errada? — Safi bufou. — De que maneira? Você não está


impressionada? — Safi apontou o queixo para uma vovó retorcida na porta de
uma cabana sem janelas. — Aquela mulher está realmente chorando com a
visão de seu príncipe.

— Esse bebê está chorando também. — Iseult acenou para uma mulher de
quadris largos que segurava uma criança no quadril. — Claramente os jovens
de Nubrevna adoram seu príncipe.

— Ha-há. — Disse Safi secamente. — Estou falando sério, Iseult. Você já viu
pessoas reagirem assim aos Mestres das Guildas em Dalmotti? Porque nunca vi.
E as pessoas em Praga certamente nunca bajularam seus doms e domnas
cartorranos. — Ela balançou a cabeça, afastando os pensamentos de sua
propriedade, onde ninguém jamais - jamais - olhara para seu tio Eron dessa
maneira.

Ou para Safi. Toda a sua vida, ela disse a si mesma que não se importava.
Que não queria que os aldeões ou fazendeiros gostassem dela, ou sequer a
notassem. Então, e se culpassem Safi pelo tio bêbado, como se ela devesse parar
seu vício de alguma forma.

Ainda vendo como as pessoas das terras Nihar se sentiam sobre Merik,
vendo uma devoção como ela nunca teve... Talvez houvesse algo a ser dito para
se investir em seu povo.

Claro, Safi não tinha mais um povo. Voltar a Cartorra seria suicídio, ou pelo
menos garantia de escravidão como a Truthwitch pessoal de Henrick.

Merik estava demorando no jardim, um grupo de admiradores se reunindo


em volta, Safi deixou seus próprios pés pararem lentamente.

Iseult soltou um suspiro cansado e agradecido ao lado dela e inclinou-se


para o rio. — Eles estão construindo um moinho ali.

Com certeza, através das corredeiras os homens gritavam e rebocavam,


martelavam e soltavam uma nova estrutura. Eles estavam vestidos como os
soldados de antes, e atrás deles, pinheiros - vivos - balançavam na brisa.

— Eles se parecem mais com os homens de Yoris. — Disse Safi,


tamborilando no chão. — Parece um monte deles, não parece? Havia pelo
menos vinte para nos encurralar esta manhã, e aqueles eram apenas os que
estavam estacionados perto da enseada. Há ainda mais aqui. — Ela apontou
para dois soldados que agora estavam atravessando a ponte.

— Eles não podem ser todos homens de armas da propriedade Nihar.


Mesmo quando meus pais estavam vivos e as terras dos Hasstrel estavam em
boa forma, Habim disse que nunca houve mais de cinquenta homens.

— Estamos bem na fronteira com Dalmotti. — Iseult coçou o queixo


pensativamente. — O que torna este território de combate principal.

Safi assentiu devagar. — E como já está aleijado, é o campo de batalha


perfeito para quando a guerra recomeçar.

— Guerra? — Iseult lançou um olhar estreito para Safi. — Você sabe com
certeza que a Trégua não será estendida?

— Não ... mas estou bastante certa. — Distraída, Safi assistiu um cão trotar
pelo canteiro de obras. Tinha algo pequeno e peludo na boca, e parecia
imensamente satisfeito com a caça. — Quando eu estava na cidade de Veñaza
— Disse ela, escolhendo cuidadosamente as palavras. — Tio Eron disse que a
guerra estava chegando, mas que esperava impedi-la. E Mathew mencionou
algo sobre a Trégua se dissolvendo cedo.

— Mas por que a Cimeira da Trégua, se ninguém planeja negociar a paz?

— Eu não tenho certeza, embora eu saiba que Henrick queria usar a


Cimeira como um palco para anunciar o meu... noivado . Safi mal podia sufocar
essa palavra. — E esse anúncio jogou uma torção no plano do tio Eron.
— Hmmm. — O manto de Iseult farfalhou quando ela mudou seu peso. —
Bem, desde que os Marstoks sabem que você está com o Príncipe Merik, então
o Imperador Henrick deve saber também. E acho que isso significa que ambos
os impérios podem aparecer aqui a qualquer momento.

O cabelo nos braços de Safi se ergueu. — Bom ponto. — Ela murmurou, e


não havia como ignorar o arenito de medo ao longo de sua espinha, nem a
certeza em seu intestino que Cartorra e Marstok iriam aparecer aqui.

E que eles não se importariam em quebrar a Trégua se isso significasse


colocar as mãos em um Truthwitch.

***

— Precisamos nos apressar. — Disse Safi a Merik enquanto se curvava


sobre um mapa das Cem Ilhas. Estavam separados por vários passos em uma
cabine de janelas semelhante à de Merik no Jana, exceto que tudo estava de
cabeça para baixo. As paredes se curvavam para dentro em vez de para fora, e
a porta pendia a um pé do chão, exigindo um passo de pernas compridas para
subir.

Depois de Safi ter pedido a Merik e Yoris que se movessem mais


rapidamente através do presente de Noden, - Merik poderia cumprimentar seu
povo mais tarde - Yoris guiou todos ao galeão, onde até mesmo Iseult tinha
sorrido com a visão.
O navio repousava em seu tombadilho enquanto o suporte fora
acrescentado sob o castelo da proa, para permitir que o galeão permanecesse
plano. Uma passagem aberta corria pelo meio do navio, o convés principal era
agora um teto. Escadarias penduradas para permitir o acesso ao porão, e um
conjunto irregular de escadas havia sido construído para o que antes fora a
cabine do capitão.

Enquanto Yoris tinha levado de má vontade comida para Evrane e Iseult,


Safi seguiu Merik até a cabine do capitão e foi até uma mesa de mapas, também
como a do Jana, no centro da sala. Não havia vidro nas janelas agora, mas as
ripas abertas das venezianas deixavam o som da agitação cotidiana passar,
além de uma brisa bem-vinda. O navio era de paredes espessas, o calor do meio
da manhã opressivo, e Safi se viu enxugando mais suor dentro de casa do que
fora. Mesmo agitado, Merik tirou a jaqueta e as mangas da camisa.

— Os cartorranos provavelmente me seguirão. — Disse Safi, quando Merik


se recusou a olhar para cima de seu exame minucioso do mapa. Ela plantou as
mãos na mesa. — Precisamos partir para Lejna o mais rápido possível, Príncipe.
Quão longe está?

— Um dia inteiro se pararmos pela noite.

— Então não vamos parar.

A mandíbula de Merik se apertou e ele finalmente fixou seu olhar em Safi.


— Não temos escolha, Domna. Yoris só pode poupar dois cavalos, o que significa
que se Iseult se junta ...

— O que ela absolutamente vai.


—E Evrane se juntará a nós também, o que tenho certeza que ela fará,
então teremos que montar duas pessoas por cavalo. E isso significa que
precisaremos parar a noite para que nossos corcéis possam descansar. Além
disso, ninguém pode encontrar a enseada de Nihar, de modo que ninguém será
capaz de chegar a nenhum lugar perto de nós. — Merik tirou o paletó de um
banquinho próximo e vasculhou o interior antes de pegar um documento
familiar, agora achatado e amassado.

Com lentidão enfurecedora, ele desdobrou o documento ao lado do mapa.


Então pegou um pedaço de pão seco de uma tigela no centro da mesa e tirou
uma mordida gorda e zombeteira.

Safi se arrepiou. — Eu suponho que você ainda está com raiva de mim.

A única resposta de Merik foi mastigar mais rápido e encarar mais o mapa
e o contrato.

— Eu mereço isso. — Acrescentou ela, arrastando um passo mais perto e


empurrando fora o desejo de seu temperamento por ignição. Agora era sua
chance de conversar com Merik sozinha, finalmente pedir desculpas por ... por
tudo . Ele não podia fugir e não havia ninguém para interromper. — Eu cometi
um erro. — Ela acrescentou, esperando que sua expressão parecesse tão
sincera quanto era.

Merik engoliu um copo de água e limpou a boca com as costas da mão.


Então finalmente puxou o olhar para Safi. — Um 'erro' faz parecer que foi um
acidente, Domna. O que você fez para minha equipe e meu primeiro imediato
foi malícia calculada.
— Malícia calculada? — Safi se sentia indignada. — Isso não é verdade,
Príncipe. Eu nunca quis pôr em perigo Kullen ou seus homens, e meu poder diz
que você nem acredita no que está dizendo.

Isso o calou, apesar de suas narinas permanecerem abertas e Safi pensou


que ele poderia engasgar se engolisse sua água mais rápido.

Ela deslizou ao redor do banquinho que segurava sua jaqueta.

Ele imediatamente se afastou dois pés. A carta e o acordo farfalharam


sobre a madeira.

Safi esticou o queixo e, desta vez, avançou mais três degraus até o lado dele.

E com uma forte expiração, ele pisou por todo o caminho até o lado oposto
da mesa.

— Sério? — Ela chorou. — Eu sou tão horrível assim?

— Você é.

— Eu só quero olhar para o acordo! — Ela jogou as mãos para o alto. — Eu


não deveria saber o que meu tio espera de você? E de mim ?

A postura de Merik se tornou dura, mas finalmente ofereceu um suspiro


resignado, e quando Safi se aproximou da mesa, ele permaneceu firme no lugar.
Embora seus ombros se levantassem até as orelhas, Safi não achou que
imaginou a rapidez com que respirava.

— Relaxe. — Ela murmurou, curvando-se sobre o contrato. — Eu não vou


te morder.

— A leoa feroz foi domada, então?

— Olhe para isso. — Safi ronronou, compartilhando seu sorriso de lado


mais felino. — Tem um senso de humor.

— Olhe para isso. — Ele replicou. — Está tentando mudar de assunto. —


Ele enfiou um dedo no contrato. — Leia o contrato amaldiçoado, Domna, e vá
embora.

Seu sorriso se transformou em um brilho e ela se abaixou, apoiando os


cotovelos na mesa e fingindo que era a primeira vez que lera o acordo.

Exceto, foi uma leitura diferente desta vez. A linguagem do contrato foi
inalterada, mas o modo como Safi se sentia a respeito, o jeito que ele roía seu
estômago ...

Todas as negociações na página dois deste contrato terminarão se Merik


Nihar não levar o passageiro a Lejna, se o passageiro derramar sangue, ou se o
passageiro morrer.

Seu joelho começou a tremer. Ela esteve tão perto de derramar sangue - ou
morrer - quando lutou contra a raposa do mar. E embora ela fizesse tudo de
novo por Iseult, ela poderia ter feito de forma diferente . Safi poderia ter
considerado os riscos primeiro e pensado fora de si mesma.

Mas o que Safi realmente odiava, o que a deixava ansiosa para desenhar
facas e eviscerar alguma coisa, era que seu tio Eron havia colocado essa
exigência no contrato.
Ela engoliu, a raiva queimando a garganta. — Meu tio é um verdadeiro rabo
de cavalo. Derramar sangue é ridículo e pode acontecer de um corte de papel.
Ele sabe disso e tenho certeza de que acrescentou isso de propósito. Eu sinto
muito.

O ar sufocante da sala ficou mais quente. Ele praticamente brilhou com o


pedido de desculpas de Safi, e por vários segundos, Merik a observou.

Então um sorriso passou por seus lábios. — Eu não acho que você está se
desculpando por seu tio agora. Pelo menos não totalmente.

Safi mordeu o lábio e segurou seu olhar. Ela queria que ele visse o que ela
sentia. Precisava que ele lesse o arrependimento em seus olhos.

Seu sorriso torto e com um aceno que quase podia ser interpretado como
uma aceitação de seu pedido de desculpas, ele voltou ao contrato. — Seu tio
simplesmente te quer ilesa. Ele foi bastante enfático nesse ponto, e é natural
que ele se preocupe sobre a saúde de sua sobrinha.

— Meu tio — disse ela, girando uma mão descuidada — me consideraria


em perfeita saúde, mesmo que eu tivesse sido esfaqueada quatro vezes e
acertada com cem flechas. Você provavelmente poderia me aleijar, Príncipe, e
meu tio não piscaria um olho.

Merik bufou. — Não vamos vacilar, está bem? — Com um suspiro, ele
inclinou para dentro até que seu braço esquerdo descansou quase contra o de
Safi. Até que o cheiro dele se expandiu em seu nariz. Água salgada, suor e
sândalo .
Não foi terrivelmente desagradável. Sem mencionar que ela descobriu que
não podia desviar o olhar dos pulsos expostos - facilmente do dobro do
tamanho dela - ou dos pelos finos de seus antebraços.

— E sobre — Merik perguntou suavemente, com cuidado. — seu noivo?


Como o Imperador Henrick se sentiria se você tivesse uma centena de flechas?

Em menos de um piscar de olhos, o sangue de Safi ferveu em seus ouvidos.


Por que Merik estava perguntando a ela sobre Henrick? E por que ela sentiu
que o destino do mundo descansava na resposta?

Quando finalmente tentou falar, sua voz estava tensa como uma corda de
arco. — Henrick não é meu noivo. Eu não posso aceitar isso. Eu não vou . Um
momento, eu estava dançando com você no baile, e no próximo... — Ela deu uma
risada dura. — No momento seguinte, o Imperador Henrick estava me
declarando sua futura noiva.

A respiração de Merik expeliu mais ou menos. — Quer dizer que você não
sabia antes disso?

Ela balançou a cabeça, evitando os olhos de Merik, embora ela sentisse que
eles a queimavam. — E não sabia que meu tio seria palco dessa fuga selvagem
também. Ele tinha mencionado grandes planos, mas nunca em um milhão de
anos, poderia ter adivinhado que eu seria roubada da cidade de Veñaza, caçada
por um Bloodwitch, e forçada a entrar em seu navio. Foi uma enorme e infinita
cascata de surpresas. Pelo menos, no entanto, isso me mantém fora das garras
de Henrick. — Ela deu outra risada tensa e tentou se inclinar para frente, para
fingir examinar o mapa. Mas os segundos deslizaram sem ela absorver um único
rio ou estrada. Era como se o poder na sala estivesse mudando, saindo das mãos
dela e entrando nas de Merik.

Então Merik estendeu a mão pelo mapa para bater em uma linha azul. Seu
braço roçou o dela.

Foi um toque aparentemente acidental, mas Safi sabia que da forma que
Merik se moveu, confiante e determinado, que não foi um acidente em tudo.

— Vamos montar acampamento aqui. — Disse ele. — Yoris disse que esta
corrente está limpa.

Safi assentiu, ou tentou. Seu coração estava preso em algum lugar em sua
garganta, e isso fazia seus movimentos bruscos. Frenéticos mesmo, e ela não
conseguia encontrar seu olhar. Na verdade, olhou para todas as partes do rosto
dele, exceto os olhos dele.

Ele tinha barba por fazer no queixo, na mandíbula e ao redor da curva dos
lábios. O triângulo entre as sobrancelhas estava enrugado, mas não com uma
carranca. Com concentração. Era a cavidade da garganta de Merik, no entanto,
que chamou sua atenção, o pulso que ela achou ter visto tremer ali.

Finalmente, arriscou olhar para cima e encontrou os olhos de Merik


passando pelo seu rosto. Pelos lábios dela. No pescoço dela.

A porta se abriu largamente. Safi e Merik se separaram.

Evrane entrou ... então instantaneamente recuou. — Eu estou ... estou


interrompendo alguma coisa?
— Não. — Safi e Merik entoaram, dando dois passos separados. Então um
terceiro, por boa medida.

Iseult entrou no quarto atrás de Evrane, o rosto pálido e o capuz de


Carawen puxado para trás. Ela parecia que poderia vomitar ou desmaiar, ou
ambos.

Safi cambaleou para Iseult e agarrou seu braço, guiando-a para um


banquinho. Então Safi soltou o manto Carawen do pescoço de Iseult e
empurrou-o para Evrane. — Você está suando muito. Você está doente?

— Eu só preciso de descanso. — Respondeu Iseult. Então, ela concordou


com gratidão quando Merik lhe entregou um copo de água. — Obrigada.

— Ela precisa mais do que descansar. — Insistiu Evrane. — Ela precisa de


cura.

O terror frio pegou a respiração de Safi. — Cura do feitiço?

— Não do Feitiço. — Evrane apressou-se a assegurá-la. — mas mais do que


posso oferecer agora. Estou drenada de dias de bater em meu poder... — Ela
parou, seu olhar se movendo para Merik. — Se pudéssemos ir ao poço, então eu
poderia ajudá-la.

Merik endureceu, o triângulo em sua testa se aprofundou. — O poço não


cura ninguém há séculos.

— Isso pode aumentar minha magia — Evrane respondeu. — No mínimo,


podemos lavar o ferimento de Iseult, onde a água é completamente pura.
— Não está longe. — Disse uma nova voz. Yoris. Ele passou por cima da
soleira e esfregou a manga na testa. — Há um caminho ao longo do rio. Não deve
demorar mais de dez minutos para chegar.

— E os seus homens? — Merik perguntou, a testa ainda dobrada. — Eles


patrulham essa área?

— Claro. Todo o caminho até a borda das terras Nihar.

Uma pausa. Então Merik assentiu, e sua expressão se transformou em algo


quase calmo. — Tia. — Disse ele, virando-se na direção de Evrane. — Você pode
levar Iseult ao Poço. Cure-a, se você puder, e vou buscá-la no próximo sinal.

Evrane suspirou aliviada. — Obrigada, Merik. Ela deslizou a mão atrás das
costas de Iseult. — Venha. Vamos devagar. Iseult se levantou, e Safi se moveu
para segui-la … mas depois parou.

Ela se virou para Merik, que olhou de volta. — Eu gostaria de participar. —


Disse ela. — Mas não vou se você achar que é um risco para o contrato.

Ele se endireitou um pouco, como se tivesse se surpreendido com o pedido.


Então ele considerou. — O contrato deve estar bem. Embora… — Ele se
aproximou, e com lentidão dolorida, estendeu a mão para deslizar seus dedos
ao redor do pulso esquerdo de Safi. Quando ela não resistiu, ele levantou a mão,
com a palma para cima.

— Se você correr, Domna, — Sua voz era um estrondo baixo que


estremeceu no peito de Safi. — eu vou te caçar.

— Oh? — Ela arqueou uma sobrancelha, fingindo que Merik não estava
tocando nela. Que sua voz não estava causando faíscas e borboletas em seu
abdômen. — Isso é uma promessa, Príncipe?

Ele riu baixinho e seus dedos deslizaram por trás do pulso dela. Seu
polegar arrastou fogo sobre sua palma... Então ele soltou a sua mão, sem deixar
nenhuma indicação do por que pegou em primeiro lugar.

— É uma promessa, Domna Safiya.

— Safi. — Ela disse, satisfeita em notar que sua voz era firme, e que Merik
estava sorrindo agora. — Você pode me chamar de Safi.

Então ela inclinou a cabeça uma vez e saiu da sala para seguir Iseult e
Evrane até o Poço de Origem de Nubrevna.

***

O caminho para o Poço da Água não era fácil, e Iseult estava cansada antes
que o Presente de Noden estivesse fora de vista. Na verdade, ela não estava nem
convencida de que Evrane seguisse um caminho real. Era íngreme, coberto de
urtigas (que Safi entrou e começou a uivar), e os insetos e pássaros tagarelavam
tão alto que Iseult achou que suas costelas poderiam se partir da vibração de
tudo.

A parte mais difícil, porém, foi a subida íngreme até o pico de dupla
inclinação em que se erguia o poço da origem. Com a ajuda de Safi e Evrane, no
entanto, Iseult finalmente chegou ao topo da colina negra e prontamente
ofegou.

Pois ela estava em um poço de origem. O poço de água das bruxas. Havia
uma ilustração disso em seu livro de Carawen, mas isso, a realidade...

Era muito mais impressionante em pessoa. Nenhuma pintura poderia


capturar todos os ângulos, sombras e movimentos do lugar.

A bacia estreita, com seus seis ciprestes (embora esqueléticos e sem


folhas) espaçados uniformemente ao redor dos lados, mantinha a água clara o
suficiente para revalorizar um fundo rochoso e afiado. O caminho de lajotas que
circulava o Poço sempre parecia cinza no livro, mas agora Iseult viu que na
verdade eram um milhão de tons de branco antigo. Além da crista do Poço,
estava o Jadansi, azul e infinito, ainda que estranhamente calmo. Apenas a brisa
salgada mais leve se agitava suavemente na superfície do Poço.

— Não se parece em nada com o Poço da Terra. — Disse Safi, sua expressão
e Threads tão reverentes quanto Iseult sabia que ela devia estar.

Evrane cantarolou um reconhecimento. — Cada poço é diferente. O do


mosteiro de Carawen está em um pico alto nos Sirmayans e coberto
permanentemente na neve. Temos pinheiros, não ciprestes mortos. — Ela
ergueu as sobrancelhas interrogativas para Safi. — Como era o poço da Terra?

— Ficava debaixo de uma saliência. — O olhar de Safi ficou distante


enquanto ela vasculhava seu passado. — Havia seis faias e uma cachoeira que
alimentava o poço. Mas só fluía quando chovia.
Evrane assentiu com conhecimento de causa. — O mesmo acontece aqui.
— Ela apontou para uma barragem de pedra que dividia a crista leste ao meio.
— Isso costumava alimentar o rio, mas agora só flui durante uma tempestade.

— Podemos procurar? — Perguntou Iseult, curiosa para saber como era o


desfiladeiro. Não havia menção disso no livro.

— Você não quer descansar primeiro? — Safi perguntou, franzindo a testa


seus Threads preocupados. — Ou tentar curar?

— Sim. — Evrane disse. Ela mergulhou um braço atrás de Iseult e


conduziu-a a uma rampa que descia sob a água. — Vamos tirar a roupa e ir para
o poço.

— Nua? — Iseult sentiu o calor sumir do rosto dela. Apoiou os calcanhares


nas lajes.

— Você precisa limpar mais do que apenas a ferida. — Insistiu Evrane,


levantando Iseult. — Além disso, se há alguma magia boa para se ter neste local,
você precisa de tanta pele exposta quanto possível. — Então, quase como uma
reflexão tardia, ela acrescentou: — Você pode manter sua roupa íntima, se isso
vai ajudar.

— Eu vou tirar com você. — Ofereceu Safi, agarrando-se a sua camisa. —


Se alguém aparecer — a camisa deslizou sobre seu rosto, abafou suas palavras
— Eu vou dançar e distraí-los.

Iseult forçou uma risada estridente. — Bem. Você ganhou, como sempre.

Quando Safi jogou a blusa nas lajes, Iseult começou a desfazer seus
próprios botões. Logo, as duas meninas foram despidas de suas pequenas
roupas, suas pedras de ligação brilhando em seus pescoços. Enquanto Safi
ajudava Iseult a sentar-se na rampa - ah, era chocantemente frio - Evrane
também se despia.

A monja deslizou para dentro do Poço, mal sentindo uma onda ao redor da
pele arrepiada. — Me dê seu braço, Iseult. Vou aliviar sua dor para que possa
nadar.

— Nadar? — Safi guinchou. — Por que Iseult precisa nadar?

— As propriedades curativas são mais fortes no centro do poço. Se ela


puder tocar na fonte, poderá curá-la completamente.

Safi pegou a mão esquerda de Iseult. — Vou ajudá-la a chegar ao fundo. Eu


não lutei contra as raposas do mar só para um simples mergulho me parar.

Embora Iseult não estivesse particularmente animada com a perspectiva


de nadar, ela ofereceu o braço a Evrane. Logo, o calor familiar percorreu os
bíceps, os ombros e os dedos de Iseult, e ela sentiu as rugas de seu rosto
desaparecerem. Sentiu os pulmões dela inalarem mais ar que eles tiveram em
horas.

Iseult revirou o ombro. Endireitou o braço dela. Então soltou um suspiro


excessivamente desamparado. — Se ao menos eles fizessem pedras que
pudessem aliviar a dor facilmente.

A testa de Evrane enrugou-se. — Eles fazem. Você usou um no ... oh. Oh .


Isso foi uma piada.
Os lábios de Iseult puxaram para cima, Evrane estava começando a
entender seu humor, e Safi riu. Então lançou-se para o poço, arrastando Iseult
com ela.

Juntas, desajeitadamente, saltaram em direção ao centro, pulverizando


uma tempestade. — Apenas segure-se, — Safi chamou. — e eu vou te puxar para
o fundo.

— Eu posso nadar sozinha.

— E eu não me importo. Só porque você não sente dor não significa que
não esteja lá. Agora segure a respiração.

Iseult sugou, peito se expandindo ...

Safi se abaixou, puxando Iseult em um rugido de bolhas exaladas. Os olhos


de Iseult se abriram. Então ela soltou um chute desajeitado e apontou para
baixo.

Iseult não tinha certeza de como ela ou Safi sabiam onde estava a fonte da
primavera. O mundo do poço era pedra, pedra e mais pedras. Mas algo se mexeu
dentro dela. Uma corda se contorcia cada vez mais, mas só enquanto ela
nadasse naquela direção.

A pressão construída nos ouvidos de Iseult bateu atrás de seus olhos. Cada
golpe escovava água mais fria contra sua carne, tornando mais difícil segurar
Safi. Antes de chegarem ao meio, os pulmões de Iseult começaram a queimar.

Então elas chegaram ao fundo e Safi estava alcançando as rochas. Iseult


alcançou também ...
Seus dedos acertaram alguma coisa. Algo que ela não podia ver, mas que
enviou poder estático correndo por seu corpo.

Uma luz vermelha piscou. Então voltou a brilhar, mais claro. Os


Threadstones de Safi e Iseult estavam piscando.

Foi quando aconteceu. Um boom! — que bateu em Iseult. E puxou-a para o


lado, torcendo o ar de seus pulmões. Mas ela não soltou Safi, e Safi não a soltou
enquanto se agitavam em direção à superfície, empurradas pela água. Pelo
rugido de carga que ainda tremia ao redor delas.

Eles chegaram a superfície. Ondas chutaram e varreram em direção à


costa. Iseult cuspiu e girou, completamente desorientada pela aspereza do
Poço. Pelo poder tremendo através dela.

De repente, uma cabeça cinza caiu ao lado dela. Venha! Evrane enfiou o
braço no de Iseult e rebocou-a em direção à rampa.

— O que está acontecendo? — Gritou Safi, desviando-se para trás.

— Terremoto. — Evrane falou, com certeza. Então os pés de Iseult


rasparam a pedra e ela se pôs de pé. Evrane e Safi fizeram o mesmo, e ao redor
delas, as águas do Poço continuaram alcançando e pulverizando, girando e
tremendo.

— Eu deveria ter te avisado. — Ofegou Evrane. — Temos tremores de vez


em quando. A água já estava se acalmando, a terra se acalmando mais uma vez.
Mas Iseult mal notou, seu olhar pegou os Threads de Evrane. Eles estavam com
a cor errada por medo de um terremoto ou mesmo por preocupação com a
segurança das meninas.

Os Threads de Evrane queimavam com um deslumbrante tom de rosa-do-


sol.

E agora que Iseult estava cambaleando da água ao lado da monja, ela


pensou ter visto lágrimas caindo dos olhos escuros de Evrane.

— Você está bem? — Perguntou Safi, agarrando o ombro de Iseult e


distraindo-a de Evrane.

— Oh. Um ... — Iseult esticou o braço e se aprofundou na sensação do


músculo, no balanço de suas articulações. — Sim. Meu braço está melhor. —
Seu corpo inteiro estava melhor, na verdade. Como se pudesse correr por
quilômetros ou suportar o pior dos exercícios de Habim.

E agora que estava focada nisso, ela encontrou uma alegria estranha e
ilimitada correndo através dela — quase ao mesmo tempo das ondas contra
suas panturrilhas. O vento soprando sobre o poço. A felicidade rodopiante nos
Threads de Evrane.

— Eu acho, — Disse Iseult, encontrando os olhos brilhantes de Safi e


sorrindo. — que está tudo melhor agora.
32
— Ela foi para a costa. — Disse Aeduan. Ele estava à porta da cabine de
Leopold que, surpreendentemente, não era maior que a sua. Apenas parecia
menor, porém, pelos troncos do príncipe contra as paredes e pelas dezenas de
épicos coloridos espalhados por toda parte.

A luz do sol irradiava sobre uma única cama, sobre a qual Leopold se
apoiou grogue. — Quem fez o que, Monge?

— A garota chamada Safiya foi para a costa, e agora seu navio navega para
o leste ...

Leopold saiu da cama com cobertores voando. — Por que você está me
dizendo isso? Diga ao capitão! Não ... eu direi ao capitão. — Leopold parou,
olhando para o seu pijama. — Na verdade, vou me vestir e depois contar ao
capitão.

— Vou dizer a ele. — Rosnou Aeduan. Por que o príncipe estava dormindo
no meio da manhã, Aeduan não conseguia entender de qualquer maneira. Muito
menos porque o homem se incomodava em vestir roupas especiais para isso.

Logo, Aeduan encontrou-se no leme, falando em Cartorran quebrado,


enquanto os marinheiros recuavam, dedos voando contra a maldade. Aeduan
ignorou todos eles. O cheiro da domna movia-se para o norte, e o norte
significava terra.

Terra significava que o tempo estava se esgotando.

— Você quer que eu vá para terra por onde? — Perguntou o capitão


barbudo, sua voz subindo em volume, como se Aeduan fosse surdo. Ele segurou
uma luneta no olho e examinou a costa escarpada. — Não há lugar para atracar
aqui.

— À frente. — Aeduan apontou para uma única rocha afiada subindo das
ondas. — Os nubrevanos ficaram para trás, então devemos seguir.

— Impossível. — O capitão franziu a testa. — Nós vamos ser esmagados e


afundados em momentos.

Aeduan pegou a luneta do capitão e depois se aproximou da rocha solitária


cercada por ondas selvagens. Seu cortador Cartorran estava passando e logo
deixaria esse lugar por completo. No entanto, o capitão parecia certo que
aportar aqui era impossível.

Exceto … que não era.

Agora que o navio estava balançando, Aeduan podia ver por trás da única
rocha. Havia uma lacuna no penhasco. Uma entrada.

Aeduan empurrou a luneta de volta para o capitão - que não pegou. O


bronze caiu no convés. O capitão jurou.
Aeduan ignorou o homem estúpido e ergueu o nariz. Respirou até que seu
peito se curvou e sua magia se prendeu na verdade coberta de neve do sangue
de Safiya.

Ela havia entrado naquela enseada e depois pisou em terra - mudou-se


para o leste. No entanto, ela não estava longe. Seu perfume estava forte à frente.

A excitação percorreu Aeduan, acendendo seu sangue, seus pulmões. Se ele


se movesse rápido o suficiente, ele poderia pegar a Truthwitch hoje.

E a garota Nomatsi também.

— Eu preciso de um Windwitch — disse Aeduan, virando-se para o capitão


e certificando-se de manter sua magia em chamas. Ele queria o vermelho em
seus olhos enquanto fazia suas exigências. — Um Windwitch ou vários deles.
No entanto, é necessário, para me levar até os penhascos junto com minha caça.
Junto com meu dinheiro.

O capitão endureceu, os olhos caindo. Mas então uma voz se elevou por
trás.

— Faça como o monge ordena, capitão. Nós iremos para a praia


imediatamente.

Muito lentamente, ele se virou para encarar o príncipe Leopold, que agora
estava vestido com um terno bronzeado completamente impraticável.

— Nós? — Perguntou Aeduan. — Não posso acomodar oito Hell-Bards.

— Sem Hell-Bards, monge. — Leopold passou as mãos pelos cabelos e


olhou para as colinas de Nubrevnan. — Safiya é a prometida do meu tio, então
eu vou me juntar a você. Sozinho.

O pescoço de Aeduan ficou rígido de frustração. — Você só vai me atrasar.


— Disse ele finalmente, não mais se incomodando com as formalidades.

Mas Leopold simplesmente olhou para ele com um sorriso que não chegou
aos olhos. — Ou talvez, Monge Aeduan, eu vá surpreendê-lo.

***

Aeduan perdeu várias horas de tempo precioso por causa do príncipe. Para
começar, Leopold demorou uma eternidade para empacotar uma única bolsa e
prender seu rapier inútil. Em seguida, Leopold e o Comandante Hell-Bard se
esgueiraram para falar em voz baixa e enfática, dizendo o que apenas os Poços
sabiam o quê.

Todo o tempo, Aeduan estava no tombadilho, esticando os pulsos e os


dedos, furioso com a lentidão do príncipe.

Uma vez que os Windwitches finalmente explodiram o mundo fora do


cortador, Aeduan pensou que certamente o ritmo aumentaria. Isso não
aconteceu. Assim que pousaram no penhasco mais próximo, Leopold perdeu
ainda mais tempo informando aos Windwitches de todas as mesmas ordens que
acabara de dar ao capitão. Algo sobre um pergaminho Wordwitched que
alertaria os Hell-Bards para quando e onde Leopold e a noiva de seu tio
precisariam ser recuperados.

Então, Aeduan abandonou o príncipe por vários minutos e partiu para um


mundo de troncos de pinho branqueados. O peso dos talheres de prata e seu
estojo de ferro era demais para Aeduan carregar na velocidade máxima, então
ele poderia usar esse tempo perdido para esconder no cofre.

Não havia cheiros ou sons aqui. Era como estar no mar, sozinho, com
apenas sal para encher o nariz e uma brisa para fazer cócegas nas orelhas. Havia
cheiros, como se humanos tivessem passado, mas ninguém estava perto agora.

O vazio fez Aeduan... desconfortável. Exposto, como um homem no bloco


de desbastamento. Mesmo no mosteiro, no alto de sua montanha, ainda havia
pássaros pontilhando os céus. Ainda sinais de vida.

Proibida, uma história do antigo mentor de Aeduan subiu à superfície. Uma


história de veneno, magia e guerra. Esta não era a imagem que Aeduan havia
conjurado, no entanto. Ele imaginou um terreno baldio crocante, como os da
sua infância. Os deixados pelas chamas de Marstoki.

De alguma forma, esse deserto silencioso era pior que as casas em chamas.
Pelo menos com as ruínas carbonizadas da terra e da aldeia, havia um sinal da
mão do homem no trabalho. Nubrevna, no entanto, parecia ter sido abandonada
pelos deuses, como se simplesmente tivessem desistidos. Decidiram que a terra
não valia a pena e a abandonou.

Pelo menos em um mundo sem deus, no entanto, não havia ninguém para
ver Aeduan esconder seus talentos.
Ele encontrou um tronco de árvore oco e colocou sua caixa de ferro dentro.
A menos que alguém passasse perto o suficiente para espiar dentro do porta-
malas, a caixa de bloqueio era invisível.

Sacudindo a faca contra o pulso, Aeduan abriu a mão esquerda. Sangue


brotou, pingou na palma da mão e finalmente respingou no ferro.

Agora o dinheiro estava marcado. Agora Aeduan podia encontrá-lo, mesmo


que se esquecesse de onde o escondeu. Ou pior, mesmo se alguém tentasse
fazer isso.

O vento explodiu. Os Windwitches dispararam acima das árvores.

— Monge Aeduan? — Leopold gritou por cima do ar forte. — Onde está


você?

Por meio fôlego, uma raiva caótica varreu dos dedos de Aeduan e queimou
em suas veias. Foi o império de Leopold que desolou este lugar. Quem acabou
com a vida não apenas das pessoas, mas da própria terra. E agora o príncipe
pisoteava sem respeito, sem remorso.

Aeduan alcançou o príncipe em segundos, rangendo os dentes. — Silêncio.


— Ele sussurrou. — Não falarei pelo resto da nossa jornada.

O príncipe inclinou a cabeça. Um desleixo para sua postura. Uma camada


de frio lento no sangue de Leopold.

Leopold sabia o que seu povo havia feito aqui, e estava envergonhado. Mais
importante, ele não sentiu necessidade de esconder isso de Aeduan.
Mas Aeduan não teve tempo para pensar nisso. — Os homens se
aproximam. — Disse ele em um grunhido baixo quando puxou a bolsa de
Leopold. — Eles cheiram como soldados, então fique perto e quieto.

Por um tempo, eles cobriram um terreno decente. Quanto mais viajavam,


mais a paisagem ganhava vida. Insetos zumbiam, pássaros chamavam, e
pequenas manchas de folhagem verde sussurravam na brisa de Jadansi. Os
penhascos à beira-mar ficaram mais altos e finalmente o cheiro de Safiya se
moveu para o interior, em direção a um mergulho na terra.

Soldados patrulhavam, mas Aeduan não teve dificuldade em evitá-los. Ele


poderia farejá-los muito antes dos soldados se aproximarem. Os desvios
diminuíram seu progresso, e o sol descia até o meio da tarde, antes que sinais
de civilização se tornassem frequentes.

Primeiro vieram a fumaça e caminhos distantes. Então vieram as vozes,


principalmente mulheres e crianças. Como Aeduan e Leopold estavam se
aproximando de um rio e o caminho parecia bem viajado, era hora de uma
maior discrição. Aeduan precisaria procurar adiante, sozinho, e deixar o
príncipe brevemente para trás.

Em instantes, Aeduan havia encontrado um carvalho caído que estava bem


escondido do caminho e não carregava aromas de uma patrulha que passava. A
árvore foi derrubada recentemente, então a decomposição e a vegetação
rasteira eram quase inexistentes, embora Aeduan tivesse certeza de que
Leopold ainda reclamaria.

No entanto, quando Aeduan ordenou ao jovem que se escondesse abaixo,


Leopold não reclamou nem resistiu. Na verdade, se arrastou sob o tronco do
carvalho com graça inesperada.

Pavor raspou a espinha de Aeduan enquanto observava. O príncipe tinha


sido muito complacente e surpreendentemente cauteloso nessa caminhada
pelo interior.

Mas assim que o príncipe ficou invisível, Aeduan afastou os pensamentos


de Leopold. Safiya era tudo o que importava agora.

Enquanto Aeduan se aproximava do rio tempestuoso, sua magia se apegou


a muitos aromas - muitos. Este lugar estava lotado e não havia como ele ou
Leopold passarem. O rio também era um problema. Aeduan podia facilmente
atravessá-lo sozinho, mas não conseguiria rebocar o príncipe.

Eles teriam que encontrar outra rota e tentar recuperar a trilha de Safiya
em algum momento posterior.

Pensando novamente no príncipe, Aeduan debateu a melhor direção para


viajar, e também a rapidez com que poderia movê-lo, mesmo a uma boa
velocidade.

Ele se ajoelhou ao lado do tronco caído, pronto para oferecer uma mão ao
príncipe.

Leopold não estava lá.

Instantaneamente, Aeduan aspirou o sangue do príncipe, buscou pelo


cheiro de couro e pelas lareiras enfumaçadas.
Mas também não estava lá. Não havia nada, somente a mais fraca
persistência do perfume de Leopold. Aeduan caiu de quatro e esgueirou-se por
baixo do carvalho caído, para o caso de um Glamourwitch o enganar ou haver
algum escape oculto abaixo.

Não era o caso; o príncipe Leopold tinha ido embora.

Aeduan rastejou de volta para fora e rolou de pé, seu pulso subindo e um
tipo violento de medo passando por ele. Aeduan deveria procurar o príncipe ou
deixá-lo?

Uma rajada de vento açoitou as árvores, quebrando os pensamentos de


Aeduan, e depois os esmagando completamente. Havia um segundo cheiro de
sangue aqui. Um que ele já tinha cheirado antes.

Lagos limpos e invernos congelados.

A mão de Aeduan se moveu instantaneamente para o cabo da espada. Ele


examinou a floresta, sua magia correndo para fixar esse cheiro. Para identificar
e lembrar.

Quando o reconhecimento chegou, Aeduan quase se recuperou. Ele


cheirou este sangue na cidade de Veñaza, no cais.

O que significava que alguém o havia seguido até Nubrevna - e agora esse
alguém havia sequestrado o príncipe Leopold de Cartorra.
33
Merik nunca soube que andar a cavalo poderia ser uma experiência tão
contraditória de miséria e prazer.

O sol da tarde cortava ramos de carvalho morto e salpicava o caminho


poeirento em uma renda de sombras. Trinta léguas a leste do Presente de
Noden e a vida se foi novamente. Um cemitério silencioso reinava, e o único som
eram os cascos esmagados da égua castanha de Merik, o tilintar de sua
ferradura e o barulho de Evrane e Iseult a vinte passos atrás.

Yoris dera a Merik os melhores corcéis de que podia poupar, e equipara a


sua mochila com comida, água, roupas de cama e uma pedra de alerta - um
pedaço de cristal Aetherwitched que se inflamaria se o perigo chegasse ao
acampamento. Isso os deixaria dormir naquela noite sem a necessidade de
vigilância.

Merik recebeu bem o sono. Fazia muito tempo desde que descansou
verdadeiramente.

O cheiro de sal encheu o nariz de Merik - carregou uma nova rajada de


vento. Embora o Jadansi estivesse escondido atrás da floresta desbotada pelo
sol, o caminho nunca se afastou muito da brisa.

Não que a brisa tivesse feito alguma coisa para esfriar Merik. Não com
Safiya fon Hasstrel compartilhando sua sela.

Embora Merik tivesse todas as desculpas para estar alinhado com as


curvas de seu corpo, para ter seus braços ao redor dela e segurar as rédeas, isso
também significava que seus joelhos se esfregavam ainda mais e suas pernas
continuavam se transformando em alfinetes e agulhas. Ele tinha a sensação de
que, quando parassem para acampar, estaria mancando como Hermin.

Ainda assim, seus músculos eram a coisa mais distante de sua mente
enquanto a égua passava facilmente pela trilha estéril. Cada um dos passos do
cavalo empurrava suas coxas, seus quadris, seu abdômen contra a parte inferior
das costas de Safi e, embora tentasse pensar no Presente de Noden para
reproduzir as boas vindas que recebeu e para manter firme aquele orgulho
inebriante, o cérebro de Merik tinha outros tópicos em mente.

A forma das coxas de Safi. O vão onde o ombro dela encontrava seu
pescoço. O jeito que ela o desafiou na cabine do capitão, um jogo de quatro
passos com olhos e palavras e um toque casual.

Desde então, a pressão da magia de Merik - de uma fúria que poderia não
ser de fato fúria - contorcia-se sob sua pele. Muito quente. Demasiado calor.

Pelo menos, porém, ele e Safi estavam em melhores condições, e ela era
mais fácil de conversar agora. Mil perguntas rolavam de sua língua. Quantas
pessoas vivem em Lovats? Noden é o deus de tudo ou apenas da água? Quantas
línguas você fala?

E Merik respondeu a cada pergunta conforme vinham. Cerca de 150.000


pessoas estão em Lovats, embora esse número possa quadruplicar durante a
guerra; Ele é Deus de tudo; Falo mal Cartorran, Marstok decente e excelente
Dalmotti. Eventualmente, porém, ele tinha uma questão própria.
— Os Cartorranos ou os Marstoks estão próximos? Seu poder pode me
dizer isso?

Ela deu um pequeno aperto de cabeça. — Eu sei quando as pessoas dizem


a verdade ou mentem. E se eu olhar para um homem, posso ver seu verdadeiro
coração, suas intenções. Mas não posso verificar fatos ou reivindicações.

— Hmmm. O verdadeiro coração de um homem? — Merik ofereceu água a


Safi. Enquanto tomava um gole com cuidado, ele acrescentou: — Então, o que
você vê quando olha para mim?

Ela endureceu em seus braços, e o mais leve zumbido de estática entrou


em seu peito. Então ela relaxou, rindo. — Você confunde minha magia.— Ela
devolveu a bolsa de água. — Agora diz que posso confiar em você.

Ele grunhiu levemente e inclinou a água para trás. Estava quente do sol.
Dois goles e ele parou.

— Posso confiar em você? — Ela olhou para ele por cima do ombro.

Ele sorriu. — Contanto que você siga as ordens.

Ele ficou contente - de modo desordenado - quando isso lhe rendeu uma
resposta arrogante.

— Esse é um poder perigoso, o que você tem. — Disse ele, uma vez que ela
se virou para frente mais uma vez. — Eu vejo por que os homens podem matar
por isso.

— Minha magia é poderosa. — Reconheceu. — Mas não é tão poderosa


quanto as pessoas pensam, e ultimamente, estou aprendendo que não tão
poderosa o quanto eu penso. Sou facilmente confundida pela fé forte. Se as
pessoas acreditam no que dizem, então minha magia não pode dizer a
diferença. Eu sei quando alguém mente, mas quando as pessoas pensam que
falam a verdade, minha magia aceita. — Ela parou, então quase de má vontade
acrescentou: — Foi por isso que não acreditei quando você me disse que
Nubrevna precisava de um acordo comercial. Minha magia me disse que era
verdade. Mas também acreditava nas mentiras dos meus livros de história.

— Ah. — Ele respirou, incapaz de ignorar a tristeza na voz de Safi - ou como


isso fez sua magia deslizar sob seu esterno. Merik apertou as rédeas. Sua
Witchmark ondulou sobre os tendões em sua mão.

Por meio segundo, Merik se viu fingindo que Safi não era uma domna e que
ele não era um príncipe. Que eram simplesmente dois viajantes em uma estrada
estéril, onde os únicos sons eram o barulho gentil dos cascos dos cavalos, a brisa
acelerada e o murmúrio de Evrane e Iseult atrás.

Mas a frieza da terra logo se encaixou nos pensamentos de Merik - ao lado


da mesma rotação de preocupações que ele não conseguia controlar. Kullen.
Vivia. Rei Serafim.

Como se sentisse a direção de seus pensamentos, Safi disse: — Você


carrega muito peso, Príncipe. — Ela se aninhou de volta até que descansou
contra o peito dele. — Mais do que qualquer um que eu já conheci.

— Eu nasci para o meu título. — Disse ele bruscamente, puxando-a um


pouco mais perto. Aceitando a firmeza que ela oferecia na conversa. Em contato.
— Eu levo isso a sério, mesmo que ninguém me queira.

— É isso, não é? — Um desafio arrepiou sua espinha. — Você ama se sentir


necessário. Isso te dá um propósito.

— Talvez. — Ele murmurou, distraído por sua proximidade. A propósito,


sua respiração e o vento giravam através dos fios indisciplinados de seu cabelo.
— Você fala Nubrevnan como um nativo. — Disse ele finalmente, forçando seu
cérebro a mudar de assunto. Para se concentrar nas palavras de Safi, em vez de
sua proximidade. — Seu sotaque é quase imperceptível.

— Anos de estudos. — Ela admitiu. — Eu aprendi principalmente com meu


mentor, no entanto. Ele é um Wordwitch, então sua magia suaviza seu sotaque.
Ele costumava fazer Iz e eu praticar por horas.

— Toda essa educação. — Merik balançou a cabeça. — Todo aquele


treinamento físico, preparando você para defender-se de homens que
matariam por sua magia. Pense em tudo que você poderia fazer, Safi. Pense em
tudo o que você poderia ser.

Um estremecimento suave passou por ela, e um salto tremeu em sua perna.


— Eu suponho — ela disse eventualmente — que eu poderia ser poderosa, fazer
mudanças ou fazer qualquer coisa que pareça ser tão boa, Príncipe, mas estaria
lutando uma batalha perdida. Eu não tenho o que é preciso para liderar pessoas.
Para guiá-las. Eu também sou... inquieta. Eu odeio ficar parada e, com exceção
de Iseult, não houve nada constante em minha vida.

— Então você nunca vai parar de fugir? Mesmo se alguém te quisesse ... —
Ele não terminou. Ele não conseguia obter essas últimas palavras - para ficar -
sobre seus lábios.

Mas brilhava no ar entre eles, e quando Safi se inclinou para ele, suas
sobrancelhas estavam puxadas. Então seu olhar clicou no lugar, uma polegada
abaixo de Merik e azul demais.

De repente, o espaço entre eles era muito pequeno. Este rio estava fora do
controle de Merik, correndo sobre as margens, e ele não conseguia pensar em
nada além de parar a égua, tirar Safi e...

Não. Merik não podia deixar seu cérebro ir para lá. Ele não faria isso .
Flertar era uma coisa, mas tocar ... Ele não podia arriscar o que isso poderia
levar. O que poderia terminar. Não com uma Domna de Cartorra. Não com a
noiva de um Imperador.

Então Merik fez uma oração desesperada para Noden que este dia
acabasse logo, antes que ele - ou sua magia - perdesse o controle
completamente.

34
Quando Iseult e o grupo chegaram ao acampamento escolhido, o sol cor-
de-rosa estava caindo atrás do Jadansi, e Iseult estava convencida de que suas
coxas estavam permanentemente deformadas.

Como Yoris prometera, o riacho era limpo e, como tal, uma selva em
miniatura explodira. O riacho também havia crescido e, se a chuva caísse,
invadiria suas margens estreitas. Então, depois de deixar os cavalos beberem,
Merik ordenou que acampassem em uma colina próxima sombreada por
carvalhos e pedras.

Claro, demorou muito tempo para realmente dar essa ordem. Ele e Evrane
passaram pelo menos quinze minutos simplesmente olhando para as árvores
de samambaia e ouvindo os sapos da noite cantarem. Seus Threads estavam tão
eufóricos, tão triunfantes, que Iseult disse a Safi para simplesmente deixá-los
em paz.

Por fim, porém, a égua castanha já tinha esperado o suficiente. Ela tocou o
ombro de Merik, trazendo-o de volta ao presente. Enquanto Iseult e Evrane
juntavam lenha para cozinhar, Safi e Merik esfregaram os cavalos.

Agilmente correu para o alto, parecendo tão satisfeito com a companhia


quanto Iseult ficou contente com o barulho deles. Ela estava feliz por qualquer
coisa que a distraísse dos Threads pulsando sobre Safi e Merik. Enquanto eles
compartilhavam um cavalo, seus Threads eram tão brilhantes que davam a
Iseult dor de cabeça.

Os Threads de Evrane também a estavam cegando, e eles não pararam de


pulsar com uma certeza vertiginosa de rosa ou verde desde que deixaram o
Presente de Noden.
Como três pessoas podiam se sentir tão surpresas, e exaustas – Iseult não
imaginava.

Mergulhando, ela jogou um esqueleto de cigarra para fora de um galho


caído e depois o adicionou à pilha crescente de gravetos. Merik insistiu que o
fogo fosse mantido pequeno e Iseult tivesse madeira mais que suficiente, mas
não estava pronta para retornar ao grupo. Precisava de tempo para recuperar
o controle de sua mente. De sua calma Threadwitch.

Eventualmente, porém, ela se arrastou de volta e ajudou Evrane a colocar


as esteiras de dormir sob uma rocha enorme e saliente. Uma pedra de alerta
estava sobre ela, queimando magenta ao pôr-do-sol.

Quando finalmente tudo estava situado e uma refeição de mingau quente


em seu estômago, Iseult se deitou em seu colchonete e fechou seus olhos
ardentes, lutando por aquela perfeita sensação de pertencimento que sentiu
nas águas frescas e chocantes do Poço da Origem. No entanto, apesar de tudo o
que Iseult conseguia lembrar do que sentira, ela não conseguia realmente
recuperar o sentimento.

Enquanto estava lá, pensando, alcançando e analisando, ela se afastou.

E a sombra estava esperando.

— Você está aqui! E está curada. — A sombra parecia genuinamente


contente com isso, e Iseult imaginou que ela aplaudia no mundo real, um mundo
que Iseult tinha certeza que existia. Esta voz não era apenas uma extensão louca
de seus medos mais profundos.
— Você está certa. — A sombra cantou. — Sou tão real quanto você. Mas
olhe, eu vou deixar você ver através dos meus olhos por um momento, apenas
para convencê-la.

Foi como chegar de um mergulho profundo. A luz atravessou a visão de


Iseult, seguida de cores - cinza e verde - e formas distorcidas ... até que
finalmente uma fechou de preto, como se a sombra piscasse longa e lentamente,
e o mundo se materializasse. Pedras cinzentas, desgastadas e desmoronando,
encontraram os olhos de Iseult. Não, os olhos da sombra, embora Iseult agora
visse.

Era como o farol em ruínas da cidade de Veñaza, mas em vez de praia


encharcada de mar, esta terra estava coberta de ricos tons de verde. Hera
rompia das paredes. Grama tufada na base do edifício.

— Siga-me, siga-me. — A sombra cantava, embora não fosse como se Iseult


pudesse realmente seguir ou se mover. Assim como via através dos olhos da
sombra, se movia no corpo da sombra.

— Onde estamos? — Perguntou Iseult, desejando poder girar a cabeça da


sombra e ver mais do que apenas uma entrada arqueada em uma sala redonda.

Um sol da tarde, mais brilhante que o de Nubrevna, entrava pelas janelas


com vidros quebrados, e a sombra apontava para uma escada sinuosa nos
fundos. Ela moveu-se com um andar estranho e saltitante, como se
permanecesse na ponta dos pés quando se movia. Como se pudesse começar a
pular a qualquer momento.

Ela começou a pular quando alcançou as escadas desgastadas. Para cima,


para cima, ela girou, seu olhar nos degraus e pensamentos em silêncio. Quando
chegou ao segundo andar, caminhou em direção a uma janela com cacos ainda
pendurados na grade de ferro.

— Estamos em Poznin. — A sombra finalmente respondeu. — Você sabe


disso? É a capital da outrora grande república da Arithuania. Mas toda nação se
levanta e cai, Iseult. Então, eventualmente, todos eles se levantam novamente.
Logo estas ruínas irão florescer nas cidades, e serão as outras nações que
morrerão desta vez. — Enquanto a sombra falava, ela se inclinou sobre a janela
e uma larga avenida apareceu, junto com centenas... Não, milhares de pessoas.

Iseult ofegou. Os homens e mulheres estavam em fileiras, e mesmo no pôr


do sol âmbar, não faltava a cor carbonizada de sua pele. A escuridão absoluta
dos olhos deles.

Ou os três Threads Partidos flutuando sobre cada uma de suas cabeças.

— Marionetista. — Iseult respirou.

A garota das sombras ficou muito quieta. Como se segurasse a respiração.


Então ela deu um breve aceno de cabeça que fez a vista balançar. — Eles me
chamam de Marionetista, sim, mas não gosto disso. Será que você gosta, Iseult?
Parece tão... oh, eu não sei. Tão frívola. Como se o que faço é um jogo para
crianças. Mas não é. — Ela assobiou essa palavra. — É uma arte. Uma obra
prima de tecelagem. No entanto, ninguém vai me chamar de Weaverwitch 22.
Nem mesmo o rei! Foi ele quem me disse que eu era um Weaverwitch em

22 Bruxas Tecelãs – capazes de tecer e moldar qualquer coisa, incluindo pessoas.


primeiro lugar, mas agora ele se recusa a me chamar por meu verdadeiro título.

— Hmmm. — Iseult disse, mal ouvindo a garota divagar. Ela precisava


avaliar o máximo que pudesse com cada movimento dos olhos da sombra em
direção ao Clivado. Além disso, parecia que a garota não conseguia ler os
pensamentos de Iseult enquanto estivesse absorta demais nela mesma.

Cada fileira tinha dez pessoas. Homens, mulheres... até uma pequena figura
ocasional, como uma criança mais velha. Mas o olhar da Marionetista nunca
demorava nos indivíduos, e Iseult estava ocupada demais estimando o tamanho
do exército para se concentrar nos poucos detalhes que podia pegar.

Iseult tinha contado até cinquenta fileiras - e não estava nem na metade da
contagem - quando as palavras da manipuladora de marionetes lhe cortaram a
consciência: — Você também é uma Weaver, Iseult, e assim que aprender a
tecer mudaremos nosso título juntos.

— Assim que ... aprender?

— Você não é como as outras Threadwitches. — Elaborou a Marionetista.


— Você tem necessidade de mudar as coisas e odeia fazer isso. A raiva de
quebrar o mundo. Em breve, você verá isso e aceitará o que realmente é e,
quando o fizer, chegará a mim. Em Poznin.

A bile subiu no peito de Iseult, vil e quase impossível de esconder. Então


soltou a melhor mentira que ela pode criar. — Você parece cansada. Eu sinto
muitíssimo. A tecelagem é exaustiva?

A Marionetista pareceu sorrir. — Sabe, — Ela disse suavemente. — você é


a primeira pessoa a me perguntar isso. Quebrar Threads me desgasta, mas falar
com você me drena mais ainda... — Ela parou, seus olhos se fecharam, e seu
cansaço era palpável quando mergulhou para frente - pressionando sua testa
contra uma barra de ferro ao nível dos olhos. Ela suspirou, como se o metal
acalmasse. — Mas vale a exaustão falar com você. O rei tem estado tão bravo
comigo ultimamente, embora eu faça tudo o que ele exige. Falar com você é o
único ponto brilhante no meu dia. Eu nunca tive um amigo antes.

Iseult não respondeu. Qualquer pensamento ou movimento trairia o que


pulsava profundamente dentro dela: horror.

E pior, uma ligeira escavação de pena.

Felizmente, a garota das sombras não notou a reticência de Iseult, pois a


conversa dela nunca diminuiu.

— Eu irei embora pelos próximos dias, Iseult. Meu rei me deu uma tarefa
que drenará meu poder. Eu imagino que estarei cansada demais para te
encontrar depois disso. Mas — Ela disse com um tipo promissor de ênfase. —
quando eu estiver totalmente restaurada, voltarei para você de novo.

Ela parou para um bocejo de rachar o queixo. — Devo agradecer a você


antes de ir. Todos esses planos e lugares escondidos em seu cérebro fizeram o
Rei Raider muito feliz. É por isso que ele me deu essa grande missão para
amanhã. Então, obrigada, você tornou tudo isso possível. Agora, preciso do meu
descanso se eu for para pegar todos esses homens como ordenados.

Que homens? E quais planos e lugares? Iseult tentou perguntar. O que você
tirou do meu cérebro?
Mas as palavras não vieram. Nada além de fogo frenético e deslizante veio
a ela agora, em seu cérebro, em sua língua, através de seus pulmões como veias
de relâmpago.

Então, tão abruptamente quanto apareceu, a visão de Poznin se dispersou


como uma lanterna, deixando Iseult de volta em sua própria pele. De volta em
seus próprios sonhos e presa com seu próprio horror.

***

Nunca na vida de Aeduan foi preciso tanto foco ou poder para rastrear
alguém. Safiya tinha sido fácil - seu sangue não se esforçava para afastá-lo -, mas
o sangue dessa pessoa, com sua água gelada e invernos cheios de neve, era
elusivo. Num momento em que Aeduan o sentia, então vinte passos mais tarde
ele o perdia - só para tropeçar mais na floresta.

Não fazia sentido, e quando Aeduan perdeu o cheiro pela centésima vez,
desistiu do príncipe. Ele deveria trair o homem de qualquer maneira e manter
a Truthwitch para o uso de seu pai. No entanto, cada vez que Aeduan
considerava deixar o príncipe a algum inimigo invisível, um peso estranho e
irritante cravada em seus ombros, se arrastava ao longo do pescoço dele, como
se ...

Como se ele devesse ao príncipe uma dívida vital e se sentisse obrigado a


pagá-la.
No momento em que a trilha ficou completamente fria, o sol já estava
baixando no horizonte. Aeduan estava diante de um penhasco sombrio e
escuro, com escadas íngremes subindo até o topo. O rio estava quase
ensurdecedor e os morcegos gordos sobrevoavam a superfície.

A Truthwitch estivera aqui - Aeduan captou traços de seu cheiro - mas ela
não ficou. O que significava que ele também não deveria ficar. O príncipe
Leopold não era sua preocupação; Safiya sim. Era hora de desistir do príncipe.

No entanto, assim que Aeduan girou para retomar a única caçada que
realmente importava, uma brisa soprou dos penhascos e levou um cheiro ao
nariz de Aeduan - de seu sangue.

Leopold.

Aeduan se lançou nos degraus gastos. Dois, depois três de cada vez, ele
voou para cima até finalmente chegar ao topo. Um sol rosa brilhava sobre a água
ondulante. O vento sussurrava entre os galhos verdes de seis ciprestes e uma
trovoada rugia à distância.

Aeduan estava em um poço de origem. O poço de água das bruxas. Ele


deveria saber que estava aqui, deveria ter adivinhado que seria isso. Seu antigo
mentor havia falado sem parar sobre quando ele era criança.

No entanto, este lugar não parecia com o que seu mentor havia descrito.
Havia vida aqui. Verde nas árvores, uma ondulação na água. Era quase como se
o Poço estivesse vivo - exceto que isso era impossível.

Aeduan descartou essa possibilidade. Ele não tinha tempo de inspecionar


a área, nem se importava.

Nariz alto, andou para a direita do poço. Ele deu doze passos antes que o
cheiro de sangue voltasse para o inimigo, e um lento aplauso irrompeu.

Leopold saiu de trás do cipreste mais próximo, batendo palmas. — Você


me encontrou, Monge. — O príncipe ofereceu um sorriso sem humor. — Mais
rápido do que eu esperava.

As narinas de Aeduan se contraíram. Ele pegou uma faca de arremesso. —


Você planejou isso.

Leopold suspirou. — Eu fiz. Antes de me empalar, porém, gostaria de


salientar que deveria matá-lo e escolhi não fazê-lo.

— Matar-me. — Repetiu Aeduan. Em um piscar de olhos, ele tirou a faca e


o braço recuou. — Por qual comando?

Leopold apenas sorriu de novo. Aquele sorriso insípido e vago que Aeduan
odiava.

Então Aeduan levantou a mão esquerda ...

E tomou o controle do sangue de Leopold.

Ele parou no couro, as lareiras enfumaçadas. — Eu posso forçar a resposta


de sua garganta. — Disse ele categoricamente. — Então me diga quem comanda
você.

Uma brisa salgada varreu o cabelo de Leopold enquanto relâmpagos


brilhavam no horizonte, parecendo - neste ângulo - como uma coroa no topo da
cabeça do príncipe gelado.

— Ninguém me comanda — Leopold finalmente respondeu. — e ninguém


está comigo. Aeduan apertou mais o sangue de Leopold. As pupilas do príncipe
estremeceram mais, mais largas... Não largas o suficiente. Leopold estava
inquieto, mas não estava apavorado.

Foi quando Aeduan percebeu. Ele queria isso. Leopold queria que Aeduan
torturasse a verdade dele...

Porque isso vai levaria tempo.

O príncipe havia desperdiçado intencionalmente o máximo possível do dia.


Seu objetivo desde a cidade de Veñaza era atrasar Aeduan.

— Você descobriu. — Disse Leopold. — Eu posso ver isso em seus olhos,


Monge.

— Me chame de demônio como todo mundo. — Aeduan apertou ainda


mais o sangue do príncipe, o suficiente para doer.

Mas Leopold apenas olhou fixamente para ele antes de dizer com voz
rouca: — Eu não posso... deixar você encontrar Safiya antes que ela alcance
Lejna. E ela está quase lá agora e logo estará completamente fora de alcance.

— Como você sabe disso? Quem comanda você? — Assim que a pergunta
deixou a garganta de Aeduan, ele sabia a resposta, e pelos Poços, ele tinha sido
um idiota por não ter visto isso antes.
Leopold era uma parte do esquema para sequestrar Safiya.

A fúria, escaldante e completa, surgiu no crânio de Aeduan. No pescoço e


nos ombros. Ele odiava Leopold por enganá-lo. Ele odiava a si mesmo por não
perceber o engano.

Embora parecesse não haver lógica nisso, estava claro agora que o príncipe
estava trabalhando com os nubrevanos, o Bruxo Marstoki, o Glamourwitch... e
quem mais? Esta teia para roubar a Truthwitch estava difundida, e Aeduan
estava meio tentado a torturar as respostas de que precisava.

Mas se Safiya fosse mesmo para Lejna, e se isso de fato - como Leopold
dissera - a pusesse totalmente fora de alcance, então Aeduan não poderia
perder mais tempo.

Ele soltou os pulmões e a garganta de Leopold, mas nada mais. Aeduan


seguraria o príncipe até que estivesse muito longe para que Leopold o
alcançasse.

No entanto, assim que Aeduan se virou para lançar-se a uma corrida


movida a magia, Leopold sussurrou: — Você não é o demônio que seu pai quer
que você seja.

Isso parou Aeduan em seu caminho. Com lentidão metódica, ele se virou
para trás. — O que você disse?

— Você não é o demônio...

— Depois disso! — Aeduan foi até Leopold e aproximou o rosto. — Eu não


tenho pai.
— Você tem. — O príncipe raspou. — Aquele que chama a si mesmo.

Aeduan se apegou a todo o sangue de Leopold então. Ele parou cada função
no corpo do príncipe - respiração, pulso, visão.

Mas não a audição do príncipe. Não os pensamentos do príncipe.

— Eu — Sussurrou Aeduan. — sou o demônio que eles pensam que sou. E


você, Sua Alteza, deveria ter me matado quando teve a chance.

Ele firmou seu aperto. Mais apertado, mais apertado... até que sentiu o
sangue no cérebro de Leopold ficar fraco demais para sustentar o pensamento.
Para sustentar a consciência.

Aeduan libertou o príncipe. Leopold desabou nas lajes, como uma pedra.
Como morto. Mesmo a brisa tempestuosa não alcançava o príncipe agora.

Durante várias respirações longas e salgadas, Aeduan olhou para o corpo


do príncipe. Ele encontrou Leopold, mas não o segundo perfume. Esse sangue
foi embora. Quem quer que fosse, no entanto, estava, sem dúvida, trabalhando
com Leopold, e talvez também conhecesse o pai de Aeduan.

Aeduan deveria matar o príncipe. Seu pai diria para matá-lo. No entanto,
se Aeduan fizesse isso, nunca aprenderia de quem era o sangue que cheirava a
lagos claros e invernos congelados. Ele nunca aprenderia quem ordenara que
Leopold o matasse, ou o porquê.

Aeduan supunha que poderia sempre mentir para o pai e depois investigar
por conta própria.
Então assentiu, satisfeito com isso. Ele deixaria Leopold vivo e caçaria o
príncipe novamente mais tarde. Por respostas.

Assim, sem um segundo olhar, Aeduan deixou para trás o Príncipe Imperial
de Cartorra e o Poço de Origem e enquanto corria, o sol poente aquecia suas
costas e um vento acelerava atrás dele.

35
Merik acordou com o som do trovão distante, e o toque de dedos contra
sua clavícula. Se não estivesse tão profundamente adormecido, poderia ter
adivinhado as únicas três pessoas que poderiam ter colocado suas mãos tão
perto.
Mas Merik estava muito submerso no sono e seu cérebro só entrou em
ação depois de seus instintos.

Ele pegou os dedos em seu peito, levantou uma única perna, e virou seu
agressor... Suas pálpebras estalaram e sua respiração ficou irregular ainda que
cada parte dele estivesse alerta.

Seu olhar encontrou olhos azuis, quase pretos no luar nublado.

— Domna. — Uma de suas mãos bateu na terra ao lado de sua cabeça. Seu
outro apertou seu pulso.

Seus dedos se enroscaram, fazendo seu pulso flexionar mais no aperto de


Merik, e ele achou que sentiu o batimento do coração dela contra seu peito. Que
o ouviu batendo na brisa carregada de tempestades e na interminável canção
da floresta, embora isso possa ter sido o próprio batimento cardíaco dele.

Safi molhou os lábios. — O que você está fazendo? — Seu sussurro fez
cócegas contra o queixo de Merik, deixando-o sentindo um calafrio no pescoço.

— O que você está fazendo? — Ele sussurrou de volta. — Me tocando?

— Você estava roncando.

— Você estava babando. — Ele replicou, um pouco rápido demais. Ele era
conhecido por roncar.

Merik deslizou sua mão livre por trás de sua cabeça e abaixou a sua até
bloquear toda a luz da lua de seu rosto. Até que tudo que ele via eram seus olhos
brilhantes.
— Diga-me — Disse ele lentamente. — a verdade, Domna. O que você
estava fazendo com a mão na minha camisa? Aproveitando-se de mim durante
o sono?

— Não. — Ela rosnou, projetando o queixo. — Eu só estava tentando te


acordar. Para te fazer parar de roncar. — Ela se mexeu novamente, seu corpo
enrijecendo sob o de Merik, um sinal de que seu temperamento estava
aumentando. Se Merik não se movesse logo, suas pernas se entrelaçariam entre
as dele, seus dedos o arranhariam e seus olhos queimariam de uma forma que
faria a resistência de sua raiva, de sua magia, impossível.

Merik relaxou o aperto no pulso de Safi, tirou a mão de trás da cabeça e


usou os joelhos, palmas contra a terra, para tirar o peito do dela.

Suas costas se arquearam.

Merik congelou.

A meio caminho dos cotovelos, uma crueza se abriu em sua caixa torácica.
Espiralando através dele, e em espiral através dela também. Era como se uma
corda conectasse seus peitos, e qualquer movimento que fizesse seria
correspondido por ela.

Seus olhos percorreram o comprimento de Safi. Ela era muito diferente das
mulheres de sua terra natal. Seu cabelo era da cor da areia, os olhos da cor do
mar. Merik expirou asperamente. Não importava como seus dedos e lábios
doessem por isso, ele não poderia ceder a isso... fome.

Ele deslizou para fora dela e de costas, passando a mão sobre os olhos para
bloquear o céu. Para bloquear a consciência quente de Safi ao lado dele. Cada
gota de sua magia e cada centímetro de sua carne respondiam a ela.

— Eu não posso fazer isso. — Ele finalmente admitiu. Para ela. Para ele
mesmo. Então ficou de pé, arrancando o casaco do saco de dormir e
caminhando em direção à floresta. Em direção ao mar.

Ele puxou a jaqueta enquanto marchava. De alguma forma, usá-la fazia com
que se sentisse mais calmo. Responsável... Exceto, claro que Safi o seguiu.

— Por que você está aqui? — Ele exigiu, uma vez que tinha arredondado a
beirada em uma floresta vibrante e agitada. Ela deu vários passos atrás.

— Eu não posso voltar a dormir.

— Você nem tentou.

— Eu não preciso.

Merik suspirou. Por que discutir com isso? Ele tinha rugas suficientes sem
adicionar Safi nessa mistura. Então, Merik marchou, seus dedos flutuando sobre
folhas de samambaia ou arrastando-se através de agulhas de pinheiro. Tão
maravilhoso ao toque. Tão vivo.

Quando chegou ao mar, quando a tempestade distante e brilhante e as


ondas cobertas de branco atingiram seus olhos, algo dentro dele se desenrolou.
Relaxou. Safi arrastou-se para a esquerda em direção a um enorme afloramento
de calcário, e Merik seguiu, embora tenha mantido dois longos passos entre
eles. Então, ambos se encostaram na rocha e, por um tempo, olharam em
silêncio para o mar, a lua, o raio.
Foi pacífico e Merik se encontrou relaxando. Escorregando no ritmo das
ondas e dos insetos zumbindo.

Até que não foi mais pacífico. Em algum momento, o pulso da noite se
acumulou dentro dele, uma pressão precisando de alívio. Um calor violento
como a tempestade no horizonte. Safi se mexeu, atraindo os olhos de Merik. A
luz do calcário a lançou em um brilho mudo e parecido com a lua.

Seus lábios afundaram em uma carranca. — Pare de olhar assim, Príncipe.

— Como ... o que?

— Como se você fosse me atacar.

Merik riu, um som caloroso e genuíno. Ainda assim, seu olhar estava preso
em Safi. Em sua garganta em particular. Sua curva estava em silhueta contra o
calcário, e ele não se lembrava de ter visto um pescoço tão elegantemente
moldado. — Desculpe-me. — Disse ele finalmente. — Atacar você é a coisa mais
distante da minha mente.

Ela corou com um rosa enluarado, mas depois, como se estivesse


aborrecida consigo mesma, ergueu o queixo. — Se você está imaginando um
tipo mais… íntimo de ataque, Príncipe, então deveria informar que eu não sou
esse tipo de garota. — Ela parecia e soava cada centímetro de uma domna.

— Eu nunca pensei que você fosse. — Era a vez de Merik se ruborizar


agora, mas não com embaraço. Com aborrecimento. Uma pitada de fúria. — E
você não deve presumir que te desejo, Domna. Se eu estivesse procurando uma
saída casual, você seria facilmente a última pessoa que eu escolheria.
— Bom, — Ela retrucou. — porque você é a última pessoa que eu
escolheria.

— Você que está perdendo, eu prometo.

— Como se você fosse tão talentoso, Príncipe.

— Você sabe que sou.

Seu olhar se voltou para Merik. Seu peito se expandiu. Congelou.

E Merik deu um passo mais perto. Então outro até estar ao lado dela. — Se
você fosse esse tipo de garota, então... — Merik levou a mão ao queixo dela,
hesitante no início, depois mais confiante quando ela não se afastaria. — Então
eu começaria aqui e desceria pela sua garganta. — Seus dedos sussurraram
sobre o pescoço dela, pela clavícula, e Merik ficou satisfeito com o quão
pontuada sua respiração cresceu. Quanto seus lábios tremeram.

— Então, — Ele continuou, a voz retumbando de algum lugar baixo em sua


garganta. — eu voltaria em círculos. Movendo-me atrás de você. — Ele afastou
a trança.

— Pare. — Ela exalou.

Merik parou, no entanto, pela respiração de Noden, ele não queria.

Mas então veio uma reviravolta do corpo de Safi e, de repente, seus lábios
se voltaram para Merik. Não, seus lábios estavam em cima dos dele. Parados,
esperando, como se tivesse se surpreendido e agora não soubesse o que fazer.
Um suspiro se agitou no peito de Merik, preso ali junto com seus
pensamentos. No entanto, os centímetros entre seus corpos poderiam ter sido
quilômetros e o espaço entre seus lábios era impossível de se cruzar.

A respiração de Safi arranhou seu queixo. Ou talvez essa fosse a brisa. Ou


talvez fosse o seu próprio fôlego. Ele não podia dizer mais. Estava ficando difícil
fazer qualquer coisa além de olhar fixamente para os olhos dela, cintilando e
desejando.

Seu olhar desceu, franzindo a testa, como se quisesse fazer mais. Então
suas mãos se levantaram para descansar sobre os ossos do quadril de Merik.
Seus dedos se enrolaram.

E a magia de Merik se acendeu.

Vento se arrastou para cima, tirando o cabelo de Safi de seu rosto e quase
a empurrando para longe, exceto que Merik se aproximou. Ele pressionou Safi
contra a rocha e, em um rugido de vento e calor, a beijou.

A fome queimava através dele e, para seu imenso prazer, Safi aceitou. Ela
agarrou Merik com os dedos cavados e um ritmo em seus quadris que ia além
de quatro passos.

Ela estava selvagem agora - descaradamente - e Merik se viu mordendo,


puxando e empurrando. Todo garras, dentes e ventos brutais.

Mas ele não conseguia aproximá-la o suficiente. Não importava o quão


duro seus lábios esmagassem os dela ou as mãos dela embaixo do paletó dele...
por baixo da camisa dele ...
Inferno, seus dedos estavam em sua pele nua agora.

O calor fresco cortou através dele. Seus joelhos quase se dobraram e seus
ventos se rasgaram para fora. Para cima. Ele ergueu Safi em um afloramento
baixo, seus dedos puxando a bainha de sua camisa. Sua boca saboreando em
todos os lugares que ele prometeu. Seu ouvido, onde ela gemeu. Seu pescoço,
onde ela se contorcia. Sua clavícula...

Suas mãos dispararam entre eles; empurrando-o para longe.

Merik cambaleou para trás, boquiaberto. Perdido. O peito de Safi arfava e


seus olhos estavam enormes, mas Merik não podia ver por que ela havia parado
a tempestade entre eles. Ele cruzou alguma linha?

— Você — Ela finalmente disse. — ouviu isso?

Merik balançou a cabeça, ainda perdido, e respirou fundo.

Então ele também ouviu. Um ritmo constante batendo no mar. Um tambor


de vento.

Merik se virou.

O tambor de vento do Jana.

Em um instante, ele estava correndo de volta pelo caminho de onde


vieram, Safi logo atrás. Pedras e cascalho torcidos fincavam sob os pés, mas
Merik mal notou. O tambor de vento estava ficando mais alto. O Jana iria
navegar a qualquer momento, e Merik tinha que saber o porquê, tinha que ver
até onde o seu navio estava a partir da costa. Ele poderia voar para seus
homens, mas somente se ele tivesse um visual...

Safi agarrou o ombro de Merik e o fez parar. — Ali. — Ela apontou para o
sul, onde Merik mal conseguia discernir as ondas das nuvens cinzentas.

Ele arrancou sua luneta, examinou a água... até avistar as luzes. Antes
pensou que fossem parte da tempestade, mas não. A imagem afiada era de um
navio de guerra de Nubrevnan. O Jana, com suas lanternas e espelhos
iluminando a água à frente, as velas brancas se inflando, com a magia
Windwitched de Kullen.

O tambor de vento martelava sem parar, alto demais para tal distância, o
que significava que Ryber estava usando o malho mágico, enviando o tambor
para a praia. Para Merik.

Kullen estava chamando por ele.

Então Merik respirou profundamente e reuniu o vento. Ele carregou sua


pele, queimando em seu corpo. — Dê um passo atrás. — Ele avisou Safi.
Precisaria mirar esse floreio de vento perfeitamente, para acertar aquele
pontinho minúsculo no horizonte para que sua tripulação soubesse onde ele
estava.

Merik recuou ambos os braços... Então soltou seu ar. Um grande funil de
vento irrompeu pelas ondas.

E esperou. Esperou e assistiu com Safi ao seu lado. Ele estava grato por ela
estar lá. Seus ombros alinhados e olhar destemido o impediam de pensar muito.
De pular do penhasco e voar diretamente para o seu irmão de linha…
O tambor de vento parou e Merik se preparou para qualquer mensagem
que Kullen mandasse. Quando finalmente chegou, quando a combinação de
batidas e pausas finalmente atingiu os ouvidos de Merik, ele encontrou os
dentes triturando e a fúria subindo.

— O que é isso? — Safi perguntou, segurando o braço dele.

— O Bloodwitch nos segue. — Ele resmungou.

O aperto de Safi se apertou em seu braço. — Vamos voltar ao Presente de


Noden...

— Exceto que ele nos segue por trás. E os Marstoks velejam para Lejna, à
nossa frente. — Nessas palavras, a fúria de Merik inflamou-se, verdadeira raiva,
que o levou a se afastar dois passos.

Ele tinha que manter essa fúria contida, porém, não era de Safi que ele
estava com raiva. Eram dessas malditas circunstâncias que estavam fora do seu
maldito controle. Como os Marstoks sabiam até onde Merik estava indo?

— Vou voar para o Jana. — Disse ele finalmente, seu peito fervendo. —
Você, Iseult e Evrane podem cavalgar para o leste. Para Lejna. Tão rápido
quanto os cavalos puderem.

— Por que não nos leva ao Jana e velejamos para Lejna?

— Porque os Marstoks chegarão a Lejna primeiro, e Kullen não é forte o


suficiente para lutar contra eles. Ele nem deveria estar velejando. — Merik
lançou um olhar aterrorizado para o mar. Para o Jana.
Maldito idiota de um irmão de linha.

— Nossa melhor chance é alcançar os Marstoks. — Continuou ele. — Se


Kullen e eu pudermos ao menos distraí-los, então você ainda poderá alcançar
Lejna por terra. Vá para o sétimo píer e tire o Inferno de lá.

— Como você vai nos encontrar? Depois ... depois disso?

— A pedra de alerta. Evrane pode acendê-la e eu verei sua luz do mar. —


Em dois longos passos, Merik foi a Safi. — Vá para o leste e eu encontrarei você.
Em breve.

Safi balançou a cabeça, de um lado para o outro. — Eu não gosto disso.

— Por favor. — Disse Merik. — Por favor, não discuta. Este é o melhor
plano...

— Não é isso. — Ela interrompeu. — Eu só... tenho a sensação de que nunca


mais te verei.

O peito de Merik se abriu e por meio segundo ele ficou sem palavras. Então
Merik segurou seu rosto e a beijou. Suave. Calmo. Simples.

Ela quebrou o beijo primeiro, mordendo o lábio quando alcançou a camisa


de Merik. Safi agarrou as bordas, alisou a frente de algodão. — Eu menti para
você, sabe. Você não é a última pessoa que eu escolheria.

— Não?

— Não. — Ela sorriu, um flash malicioso de dentes. — Você é o segundo da


lista. Talvez o terceiro.

O riso inchou no estômago de Merik. Até a garganta dele. Mas antes que
pudesse convocar uma resposta digna, Safi recuou e disse: — Portos seguros,
Merik.

Então ele simplesmente respondeu: — Portos seguros. — Antes de


caminhar até o penhasco.

Merik Nihar saiu da borda e voou.

***

Safi não assistiu Merik ir. A necessidade de correr estimulou-a a agir, assim
como a memória fresca demais do Bloodwitch. O jeito que ele a trancou no
lugar... O jeito que os olhos dele tinham mudado para vermelho.

Tudo isso erguia os cabelos nos braços dela, fazendo-a sentir dedos
andando pela sua espinha.

Safi passou pela floresta, acelerando... acelerando até correr, e finalmente


disparar. Filetes de samambaia chicoteavam seus braços, esporos derrubados.
Pensar que ela e Merik tinham acabado de correr pela mesma selva.

Safi tropeçou no acampamento para encontrá-lo já desfeito e os cavalos


selados. Evrane amarrava o saco de dormir nos alforjes e Iseult ajustava o cinto
no cavalo. Os cavalos sacudiram a cabeça, prontos para cavalgar, apesar da
longa jornada do dia anterior.

O apertar das botas de Safi, chamou a atenção de Iseult.

— Partindo ... sem mim? — Safi ofegou.

— Nós ouvimos os tambores. — Iseult explicou, prendendo o alforje


quando puxou o cinto com mais força. — Evrane me disse o que a mensagem
dizia.

— Mas onde está Merik? — Indagou Evrane, afastando-se do alforje da


égua. Seu manto estava em sua mão, seu Threadstone apertado contra o peito.

— Ele voou para o Jana. — Disse Safi. — Vai tentar atrasar os Marstoks.

Iseult deu a menor careta. — Nós não estamos indo para o norte, então?
Nós não vamos fugir?

Com um rápido aceno de cabeça, Safi se arrastou para a fogueira. — Ainda


podemos chegar a Lejna antes dos Marstoks. — Chutando a poeira e cinzas
sobre as brasas restantes. — Então podemos fugir para o norte.

— Montem. — Evrane ordenou.

— Safi, você pode cavalgar comigo.

— Não. Cada uma de vocês recebe um cavalo. — Evrane encolheu a capa,


apertando a fivela com movimentos mecânicos eficientes. — Vou esperar aqui
e parar Aeduan.
Uma pausa tensa. Então Iseult disse: — Por favor, não faça isso, Monja
Evrane.

— Por favor. — Concordou Safi. — Nós vamos fugir dele.

— Exceto que vocês não podem. — Evrane interrompeu, cortando sua voz
sobre Safi. — Aeduan é tão rápido quanto qualquer cavalo, e vai alcançá-la, não
importa aonde você vá. Eu posso encontrar um ponto defensável no caminho, e
fazer o meu melhor para atrasá-lo.

— Rápido. — Repetiu Iseult. — Não podemos pará-lo?

— Aeduan não pode ser parado, mas pode ser racionalizado. Ou, se
necessário, usarei essas. — Ela deu dois tapinhas nas duas facas restantes; as
fivelas se fecharam. — Não são apenas enfeites para mostrar.

— Você vai se matar. — Argumentou Safi. A demanda por velocidade


respirava pelo seu pescoço, mas ela não podia deixar Evrane fazer algo tão
profundamente estúpido. — Por favor, faça como Merik ordenou e venha
conosco.

O rosto de Evrane se acalmou e, quando ela falou, seu tom de voz foi
esfaqueado pela impaciência. Com ofensa. — Merik esquece que sou uma monja
treinada para a batalha. Eu vou enfrentar Aeduan e vocês duas irão para Lejna.
Agora, montem. — Ela ofereceu uma mão para Safi, e embora não precisasse
disso, ela aceitou.

Depois de ajudar Iseult a montar também, Evrane foi até o alforje do cavalo
e vasculhou a pedra de alerta de quartzo. Ela brilhava cinza, como o céu acima
do amanhecer, e quando murmurou. — Alerta. — Uma luz azul brilhante
brilhou dentro.

— Agora Merik vai encontrar você. — Ela ofereceu a pedra para Safi. —
Mantenha-a sempre que seu caminho for pelo mar.

Safi olhou para Evrane, o cabelo prateado ondulado na brisa do


amanhecer, cintilando com safira na pedra. Ela abriu os dedos para aceitar o
pesado quartzo.

Evrane deu um aceno de cabeça comovido e tirou o cinto da espada. —


Iseult, pegue o cutelo de Merik. Está amarrado à sela do cavalo. E Safi, aceite
isso. — Ela colocou sua lâmina embainhada no colo de Safi. — O aço de Carawen
é o melhor, afinal.

Safi engoliu em seco. Aquela pequena tentativa de piada a tinha levado de


volta ao momento, de volta à pesada verdade que muitas pessoas estavam
arriscando em suas vidas para garantir que Safi chegasse a Lejna e que Merik
conseguisse seu acordo comercial.

Safi não os decepcionaria.

— Iseult. — Disse ela, desenhando as palavras de seu núcleo – do centro


de sua magia. — Iremos para Lejna agora. Não vamos parar e não vamos
diminuir.

Iseult encontrou o olhar de Safi, seus olhos cor de avelã com um verde
vívido no reflexo da pedra de alerta. A ferocidade estava lá, aquela que sempre
fazia Safi se sentir mais forte, quando ela ergueu o queixo e disse: — Mostre o
caminho, Safi. Você sabe que eu sempre seguirei.

Com essas palavras, os lábios de Evrane se torceram. — Vocês não fazem


ideia de quanto tempo esperei para ouvir essas palavras. Para ver vocês duas,
montadas. Vivas. — Havia um brilho estranho em seus olhos. — Eu sei que
minhas palavras não significam nada para vocês agora, mas elas vão em breve.
Depois de enfrentar Aeduan, depois de mostrar-lhe o que representa tudo isso,
encontrarei vocês duas em Lejna. Oa! — Evrane engasgou com a palavra e mais
risadas cuspiram em seu peito. — Obrigada por me dar esperança, garotas.
Depois de todos esses séculos, o Lamento de Eridysi está finalmente se
tornando realidade; eu encontrei os Cahr Awen e vocês acordaram o poço da
Água. Agora, como meu voto exige, vou protegê-las com tudo o que tenho. —
Ela se curvou, um movimento sombrio que fez a magia de Safi cantar com a
verdade por trás disso.

Então Evrane Nihar se virou e foi embora.

— Mãe Lua nos proteja. — Iseult sussurrou. — Qu-que ... o que foi isso?

Safi olhou para Iseult, que recuperara a máscara Threadwitch, embora não
controlasse completamente a língua. — Eu não sei, Iz. Ela acha que somos os...

— Cahr Awen. — Iseult terminou. — Eu ... eu acho que ela acredita.

— Deuses abaixo, não posso mais lidar com surpresas hoje. — Safi refreou
o cavalo em direção ao nascer do sol, derrubando sua confusão e dúvida
profunda, fora de alcance.

E, enquanto guiava seu cavalo para a trilha, ficou satisfeita ao ver a égua se
arrastar. Os cavalos estavam prontos para correr, Iseult também estava pronta
e Safi estava mais do que preparada para acabar com isso.

Cavando os calcanhares nas costelas da égua, Safi disparou a galope e


partiu para Lejna, das Cem Ilhas.

36
O Jana estava em alvoroço quando Merik finalmente pousou no convés
principal. Eles navegavam para o oeste agora, o sol nascente, uma coisa furiosa
por trás do navio.

Quando Merik olhou para o leme - direto para o sol - encontrou Kullen.
Uma forma curvada e ofegante que de alguma forma mantinha um vento
puxando as velas. Merik foi para o outro lado do convés, o trovão rolando pelo
estrondo do tambor de vento.

Um séquito correu atrás.

— Almirante. — Ryber chamou.

Merik acenou para ela. — Hermin. — Ele ofegou, tentando correr, falar e
recuperar o fôlego. Se ele já estava cansado, só podia imaginar o esgotamento
de Kullen. — O que está acontecendo?

Hermin mancava ao lado de Merik. — Yoris encontrou o Príncipe Leopold


inconsciente no Poço de Origem. Aparentemente, o Bloodwitch atacou e o traiu.

Os passos de Merik tropeçaram. Leopold estava aqui agora também? O que


diabos ele iria fazer com um príncipe arruinado?

Ele mentalmente deixou isso de lado para mais tarde.

— Almirante! — Ryber gritou novamente. — É importante, senhor!

— Agora não. — Merik pulou os degraus para o tombadilho, onde o vento


chicoteava mais alto, mais forte. Ao se aproximar de Kullen, afundado no leme,
se perguntou por que Ryber permitira que seu Heart-Thread se esforçasse
tanto.

— Pare este barco! — Merik rugiu. — Pare seu vento! — Ele agarrou o
casaco de Kullen e puxou o homem na posição vertical.
O rosto de Kullen estava cinza, mas seus olhos eram afiados por trás dos
óculos de ar. — Não posso ... parar. — Ele ofegou. — Temos que pegar ... os ...
Marstoks.

— E nós vamos, mas não precisamos de tanta velocidade!

— Mas não é só isso! — Ryber gritou, empurrando para Merik. — Nós


precisamos de velocidade porque o Bloodwitch está aqui.

Por um instante, Merik só pôde olhar para Ryber. Ar enfeitiçado picou seus
olhos, gritou em seus ouvidos. Então ele correu para o baluarte e soltou sua
luneta.

— Onde? — Ele respirou, coração alojado em sua garganta.

— Mais a leste. — Ryber gentilmente apontou a luneta para a direita, até


que Merik o viu: um borrão solitário de branco fluindo pela estrada à beira-mar.

Merik deslizou o copo mais a leste até ... Duas figuras, uma em branco e
outra em preto, a cavalo. Elas percorriam a mesma estrada, e o Bloodwitch não
passava de uma liga atrás deles. Ele estaria em cima de Safi e Iseult antes que
Merik pudesse voar de volta à costa.

Merik derrubou a luneta e se forçou a inalar - pelo nariz. O forte cheiro da


chuva que se aproximava. Ele cerrou a mandíbula em frustração. Não ajudava
nada. — Como no inferno — Ele disse. — aquele monstro chegou tão rápido?

— Por tudo o que é sagrado, — Hermin jurou, olhando através de sua


própria luneta. — Esse pontinho branco é ele?
— Seus poderes são direto do Vazio. — Disse Ryber gravemente. Então ela
gritou: — Kullen! — E saiu do baluarte.

Merik correu atrás e, com a ajuda de Ryber, tirou a mão branca de Kullen
do leme e deslizou o braço por baixo do de seu irmão de linha.

Kullen estava muito frio ao toque, suas roupas muito úmidas de suor.

— Você tem que parar com isso! — Merik gritou. — Pare seus ventos,
Kullen!

— Se eu parar, — Kullen respondeu com força surpreendente. — então


perdemos o seu contrato.

— Sua vida vale mais do que um contrato. — Merik disse, mas Kullen
começou a rir então - um som de cortar e engolir - e ele levantou um braço fraco
para apontar para o sul.

— Eu tenho uma ideia.

Merik seguiu o dedo de Kullen, mas tudo o que viu lá foram céus escuros e
os lampejos de raios distantes.

Mas então Ryber respirou. — Não. — E o estômago de Merik chegou ao


fundo.

— Não. — Ele repreendeu Kullen. O cabelo do primeiro imediato estava


tão coberto de suor que nem se movia ao vento. — Isso não é uma opção, Kullen.
Nunca.
— Mas é a única opção. Nubrevna precisa deste… acordo comercial.

— Você mal consegue ficar de pé.

— Eu não preciso ficar de pé — Disse Kullen. — se estiver em uma


tempestade.

Merik sacudiu a cabeça, frenético agora. Em pânico, enquanto Ryber


sussurrava repetidamente: — Por favor, não faça isso, por favor, não faça, por
favor, não faça isso.

— Você se esqueceu do que aconteceu da última vez que convocou uma


tempestade? — Merik olhou para Ryber em busca de apoio, mas agora ela
estava chorando, e Merik percebeu com uma certeza repugnante que já havia
se resignado a esse curso.

Como, embora? Como ela poderia desistir tão facilmente e tão rápido?

— Nós não precisamos do acordo comercial. — Merik insistiu. — As terras


Nihar estão crescendo novamente. Crescendo, Kullen. Então, como seu
almirante e seu príncipe, ordeno que você não faça isso.

A tosse de Kullen diminuiu. Ele sugou uma respiração longa e viciosa que
soou como facas e fogo.

Então o homem sorriu. Um sorriso cheio e assustador. — E como seu irmão


da linha, escolho não escutar.

Em um estrépito de calor e poder, a magia chiou para a vida e os olhos de


Kullen estremeceram. Se contraindo. Suas pupilas estavam encolhendo...
desaparecendo...

Um vento soprou sobre o convés, colidiu com Merik e Ryber, quase


derrubando-os. Deixando Merik sem escolha.

Ele arrancou o casaco e Ryber se moveu para pegá-lo. O vento os golpeou,


mas os dois se curvaram, e ela mirou para baixo com a jaqueta, cambaleando
para o leme.

Ao se posicionar no leme do navio de guerra de seu pai, Merik rezou mais


uma vez a Noden, mas dessa vez rezou para que Kullen e todos os demais
membros de sua tripulação sobrevivessem à noite.

Porque a tempestade estava a caminho agora, e Merik não podia fazer nada
para impedir isso.

***

Safi nunca havia empurrado um cavalo tão forte. O suor riscava os lados de
sua égua, espumando o cavalo de Iseult. A qualquer momento, eles poderiam
perder uma ferradura ou torcer uma perna, mas até que isso acontecesse, até
que as criaturas desistissem de exaustão, Safi não teria outra escolha senão
continuar galopando por essa estrada ladeada de penhascos.

As longas sombras das meninas galopavam ao seu lado, o sol do amanhecer


uma chama pálida sobre o Jadansi que iluminava uma baía tão larga que Safi
não conseguia ver o fim. As ilhas rochosas nuas de todas as formas e tamanhos
salpicavam as águas brilhantes da maré.

As Cem Ilhas.

A estrada seguia uma curva descendente, alcançando finalmente o nível do


mar, e Lejna também. Depois de verde por meia milha, elas de repente
galoparam de volta para um terreno baldio. Tudo estava quieto demais. Muito
morto. Safi não gostava de como a pedra de alerta perfurava o céu de seu ponto
amarrado a seu alforje. Elas estavam literalmente pedindo para serem notadas.

— Tem alguém aqui? — Safi gritou sobre o martelar de quatro batidas dos
cascos.

Os olhos de Iseult se fecharam brevemente. Então abriram novamente. —


Ninguém. Ainda não.

Safi apertou suas rédeas. Uma mão se moveu para o cabo da espada. Basta
chegar ao cais. Isso era tudo que ela teria que fazer.

— Placa! — Iseult gritou.

Safi olhou para a frente. O que outrora fora uma placa ricamente
estampada, agora pendia de uma coluna de ferro. Era a quarta que tinham visto.

LEJNA: 1 LÉGUA

Uma légua, isso estava a minutos de distância. Apesar das lágrimas nos
olhos de Safi, do vento e da sujeira, apesar do fato de que seu coração poderia
rasgar de sua garganta com medo, e apesar do fato de que ela e Iseult poderiam
ser abatidas por um Bloodwitch a qualquer momento, ela sorriu.

Tinha sua Threadsister ao seu lado. Isso era tudo o que importava - tudo o
que importava.

Seu cavalo contornou uma curva. A floresta fantasma se abriu para revelar
uma cidade à frente. A forma crescente de Lejna abraçava a costa, e os prédios
em fileira que se alinhavam e suas ruas podiam ter sido coloridas e lotadas, mas
agora elas desmoronaram e seus telhados caíram. Apenas três docas ainda
estavam de pé, o resto reduzido a postes abandonados que se projetavam das
ondas.

Safi impulsionou a égua mais rápido. Mais forte. Ela daria a Merik seu
acordo comercial maldito.

— Esse é o navio de Merik? — Iseult perguntou, explodindo os


pensamentos de Safi.

Safi procurou no mar, esperou que subisse em sua visão... até que viu o
navio de guerra Nubrevnan entrando na baía crescente de Lejna, movendo-se a
uma velocidade vertiginosa, com as velas brilhando laranja ao sol.

E com marinheiros vestidos de verde que rastejavam pelos conveses.

A esperança de Safi despencou nos dedos dos pés. Ela gritou para Iseult
parar, e controlou sua própria égua para uma parada.

O cavalo de Iseult parou de repente, empoeirando, e as duas meninas


andaram com os cavalos ao lado do penhasco, olhando para o sol. Os cavalos
bufaram exaustos, mas as orelhas ainda estavam altas.
— Acho que esse é o navio que deixamos para os Marstoks. — Disse Safi
por fim. — O navio da princesa Vivia.

— Certamente parece com seus uniformes. O que significa que podemos


estar lidando com Feixes de Fogo.

Safi xingou e passou a mão quente pelo rosto. Estava sujo de poeira. Tudo
estava sujo - sua garganta, seus olhos, seu cérebro - e mais poeira continuava
soprando. — Por que há tantos soldados em um único navio? Certamente não
são todos por mim.

O trovão ecoou do sul, breve e demorado. Safi virou a cabeça em direção a


isso... e uma nova quantidade de juramentos caiu de sua língua.

Nuvens de tempestade roncavam rapidamente, e na boca da baía havia


mais navios. Galeões navais Marstoki, esperando em fila como se para proteger
as Cem Ilhas.

Ou para manter o Jana fora.

— Merik não será capaz de navegar. — Safi empurrou a égua em um trote


lento. O caminho desviou para o interior; talvez a floresta de pinheiros morta
oferecesse alguma proteção contra as tempestades aceleradas e os olhos dos
marinheiros Marstoki.

— Essa é a menor das nossas preocupações. — Disse Iseult, aumentando o


ritmo de seu cavalo. — Esse primeiro navio é quase do tamanho do cais de
Lejna. É claramente uma emboscada... — Ela se interrompeu quando uma nova
rajada de vento bateu nela e se aproximou de Safi.
As duas viraram o rosto, bloquearam os olhos e a boca. O ar se emaranhava
em suas roupas e cabelos, batia na ponta dos cavalos, e depois passava pelos
galhos secos à frente. A única coisa que não se dobrava à vontade do vento era
a luz da pedra de alerta, que, Safi percebeu, provavelmente deveria guardar.
Não havia necessidade de atrair os Marstoks.

Quando desatou a pedra do alforje, Iseult perguntou: — Qual cais você


precisa para chegar?

Boa pergunta. Safi não tinha ideia de que cais era o Píer Seven. Havia
muitas lacunas vazias para resolver isso. — Vou ter que tentar todos os três. —
Ela deu um tapinha na égua, que ainda estava escura de suor, mas parecia
melhor para a caminhada. Então levou o cavalo para os pinheiros mortos. —
Tem alguma ideia para um plano?

— Na verdade, — Respondeu Iseult lentamente. — posso ter. Você se


lembra daquela vez fora da cidade de Veñaza? Quando vestimos as roupas uma
da outra?

— Você quer dizer quando quase fomos mortas por aqueles bastardos da
taverna que odiavam Nomatsis?

— Bons tempos! — Iseult desviou seu cavalo mais perto de Safi,


claramente esperando não ter que gritar seu caminho através deste plano. Seu
cabelo se virou e esfolou seu rosto. — Nós demos àqueles homens o que eles
queriam ver, lembra? Mas então a garota Nomatsi que eles achavam que tinham
encurralado acabou sendo você.

— Um dos nossos truques mais finos. — Safi sorriu firmemente, golpeando


seu próprio cabelo rebelde de seus olhos.

— Por que esse mesmo plano não funcionaria agora? — Perguntou Iseult.
— Ainda podemos tentar chegar a Lejna antes daquele navio, mas se isso não
funcionar...

— Não parece que vai.

— Então podemos largar os cavalos, esconder a pedra de alerta e nos


separar. Eu vou ser o chamariz e atraí-los para a cidade. Você pode ir para o
cais. Uma vez que alcançar todos os três, volte para a pedra de alerta. Acenda e
eu vou te encontrar.

— Absolutamente não. — Safi olhou furiosa para Iseult. — Essa é a pior


ideia que você já teve. Por que você se colocaria em perigo?

— Só por isso. — Iseult interrompeu. — A Trégua diz que eles não podem
matar ninguém em solo estrangeiro, certo?

— Também diz que não podem ancorar aqui, mas eles claramente não se
importam com isso.

— Na verdade, a Trégua diz que nenhum navio estrangeiro pode ancorar


aqui. — Iseult respondeu. — Sua embarcação não é estrangeira.

— E é exatamente esse o meu ponto, Iz! Eles estão enganando essa


cláusula, então por que não poderiam enganar outras cláusulas também? Pelo
que sabemos, eles nem se importam se quebram ou não a Trégua.

Isso fez com que Iseult parasse - graças aos deuses - mas quando Safi
levantou as rédeas para partir novamente, a mão de Iseult subiu.

— Pedras. — Ela disse categoricamente. — Você saberá se estou em perigo


com a sua Threadstone. Se acender, você pode vir em meu socorro.

— Não.

— Sim. — Um sorriso levantou o canto dos lábios de Iseult enquanto ela


rebocava a sua Threadstone e apertava com força. — Você sabe que este plano
poderia funcionar e é a única estratégia que vale a pena que posso pensar.
Vamos apenas ficar felizes por Lejna ser uma cidade fantasma. Não há ninguém
por perto para se machucar.

— Exceto por nós, você quer dizer.

— Pare de discutir e comece a se despir. — Iseult escorregou da sela e


amarrou suas rédeas sobre um galho baixo. Então ela começou a desabotoar
sua blusa. — Uma tempestade está chegando, Saf, e você está em seus olhos. Eu
posso ser a mão direita e você pode ser a esquerda.

A mão esquerda confia na direita, sempre dizia Mathew. A mão esquerda


nunca olha para trás até que a bolsa seja agarrada.

Iseult sempre foi a mão esquerda, ela sempre confiou em Safi para distrair
até o final. O que significava que era a vez de Safi fazer o mesmo.

O ar carregado irrompeu pela floresta. Atacou Safi, ao redor... e então se


reuniu atrás dela. Ela lançou um olhar para trás, os olhos lacrimejando. Nuvens
de tempestade, escuras como breu, giravam acima das copas das árvores.
— Eu não gosto disso! — Disse Safi, realmente tendo que gritar agora. —
Na verdade, eu odeio isso - a tempestade e o plano. Por que tem que ser "nós"?
Por que não só eu?

— Porque 'só eu' não é quem somos. — Iseult gritou de volta. — Eu sempre
seguirei você, Safi, e você sempre me seguirá. Threadsisters até o final.

Uma feroz e ardente necessidade surgiu nos pulmões de Safi com essas
palavras. Ela queria contar a Iseult tudo o que sentia - sua gratidão, seu amor,
seu terror, sua fé, mas não o fez. Em vez disso, sorriu sombriamente. —
Threadsisters até o fim.

E fez o que Iseult ordenou: ela saiu da égua e começou a tirar as roupas.

***

Aeduan cheirou sua antiga mentora a um quilômetro de distância. Seu


aroma - água da nascente e falésias salgadas - era inconfundível. Tão familiar a
Aeduan quanto seu pulso.

E tão inevitável quanto a morte a menos que Aeduan estivesse disposto a


deixar o caminho - o que ele não estava - ou matá-la onde ela estivesse.

Que ele também não estava.

A milha que a levava passou em uma mancha de floresta verde e pedra


amarela, antes do amanhecer e uma tempestade de mar agitado. Quando
chegou ao ponto mais estreito do caminho, um lugar cercado por rochas
suspensas de um lado e penhascos ondulantes do outro, Aeduan abandonou o
controle de seu sangue. Ele deu o poder do pulso e músculo de volta ao seu
corpo e diminuiu a velocidade até parar.

Monja Evrane estava imóvel como uma estátua diante dele. O único
movimento era o vento quente em seus cabelos, através de seu manto de
Carawen. Seu baú faltava todas as suas lâminas, exceto duas. Sua espada estava
longe de ser vista.

A monja mais velha não mudou nos dois anos desde que Aeduan havia
deixado o mosteiro. Um pouco mais escura no rosto, talvez. E cansada. Ela
parecia não ter dormido em dias. Semanas mesmo. No entanto, o cabelo era tão
prateado como sempre foi.

E sua expressão tão gentil e preocupada como Aeduan se lembrava.

Isso o irritou. Ela nunca teve o direito de se preocupar com ele, e


certamente não tinha isso agora.

— Tem sido um tempo muito longo. — Disse ela naquela voz rouca dela.
— Você cresceu.

Aeduan sentiu a mandíbula apertar. Sentiu seus olhos se contorcerem. —


Saia da frente.

— Você sabe que não posso fazer isso, Aeduan.

Ele desembainhou sua espada. Foi um sussurro nu sobre o barulho das


ondas abaixo. — Eu vou te cortar.

— Não será fácil. — Evrane levantou o pulso. Uma lâmina viciosa caiu em
sua mão. Com um mergulho suave do pé de trás, ela afundou em uma postura
defensiva. — Você esqueceu quem te treinou.

— E você esqueceu minha magia, Monja Evrane. — Ele tirou a faca que
cortava o quadril e combinou com a postura curvada de Evrane.

Ela se moveu, um giro que fez sua capa branca voar. Distraindo-o,
certamente, mas Aeduan tinha os olhos na mão dela. Afinal, foi ela quem lhe
ensinou que a chave para qualquer a briga de faca era controlar a mão da faca.

Evrane se virou para perto. Ele se abaixou para encontrá-la.

Mas não foi sua lâmina que ele percebeu. Foram os pés dela; um salto em
seu pescoço. Então a adaga no peito dele.

Ele cambaleou para trás, mas não tão rápido quanto deveria. Como poderia
ter feito se estivesse lutando com qualquer pessoa menos ela.

Com uma explosão de magia, voltou dez passos, rápido e longe demais para
ela pegá-lo facilmente. Então olhou para baixo.

Sua faca o cortou. Quatro fatias rasas que sua magia curaria se ele quisesse
ou não. Ele desperdiçaria energia em ferimentos superficiais inofensivos.

— Você sabe quem elas são. — Evrane chamou. Ela seguiu em direção a
Aeduan. — É seu dever jurado protegê-las.
Aeduan a observou do alto de seus olhos. — Você ouviu os rumores, então?
Eu posso prometer a você, Monja Evrane, elas não são o Cahr Awen. Ambas são
Aetherwitches23.

— Não importa. — Ela sorriu, um sorriso aterrorizante de êxtase e


violência inebriante combinados. — Devemos ter interpretado mal os registros,
e não é necessário um duelo. Eu vi, Aeduan: aquelas meninas acordaram o Poço
de Origem Nubrevnan...

Aeduan atacou então, com a espada para fora, mas por algum motivo, ele
não investiu tanto quanto deveria. Ele não desviou seu curso no último segundo
nem atirou facas em rápida sucessão. Ele simplesmente estendeu a espada e,
como esperava, Evrane girou para a esquerda e defendeu com facilidade.

— As meninas nadaram até o centro da primavera. — Disse Evrane.

— Impossível. — Aeduan virou à esquerda.

— Eu as vi fazer isso. Eu vi a magia acender e a terra tremer. — Ela apontou


para Aeduan com suas facas e, em seguida, chutou a ponta do pé em seu joelho.

Um dedo do pé que tinha uma lâmina sobre ele.

A dor explodiu na perna de Aeduan - assim como o sangue. Ele reprimiu


um rugido e girou para o lado antes que mais lâminas pudessem alcançá-lo.

Ela estava tentando cansá-lo. Pequenas feridas para retardá-lo.

Mas ela estava respirando pesadamente agora, algo que nunca teria

23 Bruxas do Vazio
acontecido há dois anos. Ela estava cansada e nunca superaria Aeduan. Mesmo
com seus ataques rápidos e implacáveis. Mesmo com ele indo devagar.

— O que você viu, — Disse Aeduan, pulando para trás. — foi o que queria
ver. O Poço nunca as deixaria alcançar seu centro.

— Ainda assim. — Evrane fez uma pausa, mãos e lâminas no ponto e um


olhar exultante preso em Aeduan. — Aquelas garotas tocaram a fonte da
primavera e ela acordou. Então as águas curaram Iseult.

Iseult. A garota Nomatsi sem cheiro de sangue.

Ela não era uma das sagradas Cahr Awen, Aeduan se recusava a acreditar
nisso. Ela era muito simples. Muito escura.

Quanto a Truthwitch, se ela fosse de fato a outra metade do Cahr Awen,


entregá-la ao pai significaria quebrar o voto de Carawen. O mero pensamento
inflamou a ira nas veias de Aeduan. Ele não perderia todas as fortunas porque
Monja Evrane era uma tola ingênua e desesperada.

Então, em uma explosão de velocidade, Aeduan deixou uma faca de


lançamento voar.

Evrane a golpeou no ar e usou o impulso de seu giro para soltar uma de


suas facas.

Aeduan virou para a esquerda, apanhou a faca e atirou de volta.

Mas Evrane já estava dançando a parte superior, usando o terreno a seu


favor. Ela vasculhou facilmente as pedras, desembainhando o estilete - sua
arma final - e então saltou para Aeduan.

Ele mergulhou para frente, rolando embaixo dela. Então estava de pé, com
a espada cortando e colidiu contra o estilete de Evrane, trancando-o em um
pino de aparar. Seu braço tremeu. Sua pequena lâmina nunca resistiria a uma
espada; sua força nunca resistiria a de Aeduan.

— Lembre-se... De quem você é. — Ela disse. O aço da espada de Aeduan


deslizou... para mais perto dela. A qualquer momento, o cotovelo dela cederia.
A lâmina de Aeduan cortaria seu pescoço. — As Cahr Awen vieram para nos
salvar, Aeduan. Lembre-se do seu dever para com elas.

Seu estilete escorregou.

A lâmina de Aeduan se arqueou. Mordendo o pescoço da monja.

Mas ele parou. Parou a lâmina na última fração de segundo. O sangue se


juntou no aço. Evrane ofegou por ar, olhos enormes.

— Acabamos aqui. — Disse Aeduan. Ele puxou a espada para trás. Gotas de
sangue pulverizaram e se espalharam no rosto de Evrane e no uniforme de
Aeduan.

Todo o rosto de Evrane caiu. Ela se tornou uma velha cansada diante de
seus olhos.

Era mais do que ele podia suportar, então, sem outra palavra, embainhou
sua espada e lançou-se no caminho.

No entanto, quando contornou uma curva na floresta - e quando o trovão


bateu muito mais perto do que deveria -, o aço bateu nas costas de Aeduan.
Ralando contra suas costelas. Perfurando seu pulmão direito.

Ele reconheceu a sensação disso. Uma faca de arremesso de Carawen, a


mesma que ele jogou em Evrane apenas momentos antes.

Doeu - para não mencionar que todo o sangue que borbulhava em sua
garganta tornou a respiração difícil. No entanto, Aeduan não pôde deixar de
sorrir, pois Evrane era tão implacável quanto antes. Pelo menos isso não
mudou.

37
Este pode ter sido o plano mais idiota Iseult já tinha decretado e, pela Mãe
Lua, Merik e seu contrato tinham que valer a pena.

Oitenta passos, Iseult pensou enquanto observava os dezessete


marinheiros aproximarem-se dela a toda a velocidade pela avenida principal de
Lejna. Doze outros derrubaram o primeiro píer onde o navio estava ancorado.

Porque, é claro, os Marstoks havia chegado à cidade exatamente quando


Iseult e Safi tinham feito. Agora soldados - alguns deles, sem dúvida, Bruxos ...
ou pior - estavam correndo em direção a ela com graça aterrorizante.
Iseult não se mexeu. Não recuou. Ela estava na beira da cidade. Quando os
marinheiros chegavam a vinte passos de distância, ela se movia. Isso daria
distância suficiente para ficar à frente, ou pelo menos por tempo suficiente para
Safi chegar à cidade.

Iseult tinha conseguido um bom vislumbre do terreno no passeio, mas a


maior parte de seu planejamento era baseada em suposições. Muito do que
achava que sabia sobre as ruas de paralelepípedos e os caminhos de Lejna
poderia estar errado, e se essas lacunas nos telhados não fossem ruas e aquele
grande buraco quadrado não fosse um pátio central, então ela estava
simplesmente ferrada.

Havia outros buracos em seu plano também - como a forma como o lenço
branco cortado da camisa de Safi (com a intenção de esconder o cabelo de
Iseult) não ficava preso a todo esse vento. Ou como a escolha de um beco entre
casas de fileiras, com sua escuridão sombria e íngreme declive, era terrível.

Ou como ficar de pé aqui com os braços erguidos e o sabre de metal ainda


embainhado poderia ser um pouco vulnerável demais.

Sessenta passos. Os olhos dos marinheiros estavam agora visíveis, o brilho


de seus sabres de impossível de ignorar, como seus Threads de impaciência
púrpura.

Eles não vão te matar, lembrou a si mesma pela centésima vez. Estase.
Estase nos dedos das mãos e nos dedos dos pés.

Iseult sentiu os Threads de Safi atrás dela, queimando com uma prontidão
verde escura enquanto se esgueirava pelas sombras da floresta. Se Safi
estivesse pronta, Iseult estaria pronta também. Inicie, complete, apenas ao
contrário desta vez.

Trinta passos.

Iseult apoiou os calcanhares, respirou fundo ...

Vinte passos.

Ela correu.

As sombras engoliram tudo, mas a luz cinzenta brilhou à frente.


Paralelepípedos e fachadas de lojas.

Passos seguiam atrás. Mesmo com suas botas macias e com relâmpagos se
aproximando a cada segundo, não faltava o rufar de tambor dos pés Marstoki.

Iseult derrapou até o final do beco, virando-se com força e apontando para
a direita. Rua - uma larga. Era exatamente o que ela esperava, e por isso seguiu
diagonalmente colina acima, em direção a algum lugar distante que poderia ser
um pátio.

É melhor que seja um pátio.

Portas e janelas quebradas percorriam os lados de sua visão. O vento ainda


estava em suas costas, empurrando-a para frente. A chuva caía agora também,
espalhando-se na rua, tornando os paralelepípedos escorregadios.

No fundo de sua mente, Iseult pensou em como explicar a chuva quando


chegasse ao pátio. Isso afetaria suas defesas...
Ou não, já que definitivamente havia mais homens saindo da rua à frente.
Os do píer devem ter subido a colina para cortá-la.

Iseult havia corrido diretamente para um canto e seu plano estava


arruinado antes mesmo de começar. Não. Ela não podia deixar o pânico
reivindicá-la. Tudo o que precisava era de um momento, apenas um breve
segundo sem os Marstoks respirando no seu pescoço.

Iseult virou-se bruscamente para a esquerda; seus pés escorregaram; ela


caiu para frente... e se segurou em uma placa de sinalização. Perdeu um tempo
precioso fazendo isso, mas não havia tempo para se arrepender. Engolindo em
seco, socou as pernas de volta a toda velocidade. Certamente este beco levaria
a outra estrada principal. Certamente ela poderia encontrar um momento para
pensar.

Iseult aperfeiçoou-se em paralelepípedos individuais. Batia um salto na


frente do outro, puxava mais uma respiração... Então mais uma depois disso.
Estase. Estase. Ela poderia fazer isso.

Ela virou para outra faixa larga.

Onde havia mais Marstoks, vindo de outro beco à frente. Um após o outro,
eles corriam para ela. Ela estava presa. Ou…

Iseult derrapou para a esquerda, através de uma porta quebrada.

Seu ombro gritou com o impacto. Ela mordeu a língua, enchendo a boca e
a mente com o latido de dor e o gosto de sangue. Foi exatamente a distração que
ela precisava. Calma brevemente varreu e permitiu-lhe para digitalizar seu
terreno: uma loja com um contador e uma porta além.

Iseult se lançou sobre o balcão. A janela explodiu e a tempestade berrou.

Soldados também, mas Iseult já estava desenrolando e martelando a porta


dos fundos em um beco. Ela contornou a direita, afiada e rápida. Relâmpagos
brilhavam e o vento soprava no céu, mas os edifícios a protegiam.

Iseult acertou um canto, deu a volta... e dardos envenenados caíram na


parede atrás dela. O que significava que havia Poisonwitches na mistura agora.
Adições Marstoki.

De repente, os prédios se abriram. A luz e o vento desceram e Iseult


encontrou-se num pátio. O pátio que ela esperava. Uma fonte antiga manchada
ficava no centro. Era o deus Nubrevano Noden, com todos os músculos
esculpidos e cabelos enrolados, esperando em seu trono de coral.

Iseult pulou na borda da fonte até os joelhos, escorregadia de algas


molhadas e fezes de pássaros. Fez girar em direção aos Marstoks mais
facilmente, mas não ofereceu muita estabilidade.

Enquanto isso, os marinheiros tombaram em direção a Iseult, um enxame


de uniformes encharcados de chuva e Threads enfurecidos. Pequena e ágil, com
um peito enorme, decididamente feminino, para poder ser qualquer outra
coisa.

Com o vento e a chuva se debatendo e com as nuvens negras se agitando,


as orelhas de Iseult eram inúteis, sua pele martelada pela dormência.

Então os primeiros soldados chegaram ao pátio... e diminuíram a


velocidade. Eles pararam cuidadosamente, e uma voz feminina berrou sobre o
uivo da tempestade: — Ela não está sozinha!

O intestino de Iseult se partiu. Sua mão esquerda voou para a cabeça. Sem
lenço. Seu cabelo preto estava encharcado e totalmente visível.

— Encontre a verdadeira domna! — A mulher ordenou. — De volta à costa!

O gelo no estômago de Iseult se espalhou para cima. Afastou o ar dela. Eles


estavam indo embora assim?

— Espere! — Ela gritou, saindo da fonte. Se pudesse envolver alguns deles


e mantê-los aqui, então talvez Safi ainda pudesse sobreviver.

Iseult se lançou atrás dos soldados em retirada. Vários pararam e estavam


girando para trás. Lentamente, tão devagar. Iseult pegou seu sabre, pronta para
atacar.

Até que uma rachadura de calor cortou através dela. Em seguida, uma
espiral de Threads, tão violenta que os joelhos de Iseult quase desabaram.

No espaço de um único fôlego, inúmeros Threads simplesmente se


romperam. Quebrados.

Clivados.

O soldado mais próximo retorceu todo o caminho em direção a Iseult, seus


olhos negros. Sua pele fervendo.

Então ele começou a rasgar as mangas - em sua pele - enquanto atrás dele,
mais e mais soldados se viravam para Iseult.

E todos eles estavam se partindo.

38
De trás de um amieiro branqueado, Safi observava a ruidosa rua do cais.
Os dedos do pé batiam, as unhas dela cavavam no latido áspero, e o ímpeto de
ajudar Iseult estava praticamente rasgando sua espinha.

Mas ela manteve o plano, e esperou até que cada Marstok seguisse Iseult
pelo beco. Então correu em direção a Lejna.

Ela manteve os olhos no navio, balançando loucamente no primeiro píer.


Vários marinheiros corriam, mas eles estavam muito ocupados com a crescente
tempestade para olhar o caminho de Safi. Ainda assim, ela desembainhou sua
espada Carawen por via das dúvidas.

Seus olhos saltaram entre a estrada que se aproximava e o píer mais


próximo. Vazio... todos eles estavam vazios de vida. Uma dessas docas tinha que
ser o Píer Seven que seu tio Eron havia especificado em seu contrato.
Embora, neste ponto, Safi não tivesse ficado surpresa ao saber que não
havia nenhum Píer Seven, que seu tio nunca tivera qualquer intenção de
cumprir sua parte do acordo.

Bem, a piada era sobre isso, então, por causa das chamas infernais ou dos
Hagfishes, Safi estava dando a Merik esse contrato.

Uma gota de chuva gorda bateu na cabeça de Safi quando pisou nos
primeiros paralelepípedos. Ela olhou para o céu e, em seguida, começou a
xingar. A tempestade estava quase em Lejna, e definitivamente não era natural,
não com todas aquelas nuvens negras.

O que você está fazendo, Príncipe?

A chuva acelerou. Uma onda súbita caiu sobre a marca d'água,


submergindo a primeira doca e envolvendo os paralelepípedos no lodo.

Sem disfarces, então. Safi chutou em uma corrida... então em uma


maratona completa. Na taxa atual da tempestade, todos os três pilares seriam
engolidos inteiramente em minutos.

Safi alcançou a primeira extensão de madeira. Estava coberto de algas e


rangia perigosamente sob os calcanhares. Ela deu quatro passos para fora, seus
olhos nunca deixando o navio de guerra no final, e depois voltou, pronta para o
próximo píer.

Mas o cais estava escorregadio, as ondas muito agitadas e o vento muito


forte. Safi estava tão concentrada em onde colocar os pés, em quando saltar
sobre a próxima onda, que não percebeu a figura escura se aproximando.
Não foi até Safi estar na rua de novo que, finalmente, avistou um Sentinela
Marstoki a trinta passos e certamente entre ela e o próximo cais.

— Se você vier comigo — Gritou a Sentinela, sua voz e forma


decididamente feminina. — então ninguém se machuca!

Não, obrigada , Safi pensou, levantando sua espada. Esta mulher não tinha
armas.

— Estou te dando uma chance, Truthwitch! Você pode se juntar aos


Marstoks como uma aliada ou morrer como nossa inimiga!

Safi quase riu disso. Uma risada sombria e zangada, pois ali estava o
momento que ela passou a vida inteira esperando: o momento em que sua
magia colocava um alvo em sua testa e soldados vinham buscá-la.

É certo que ela havia esperado Hell-Bards por todos esses anos, mas
Sentinelas seriam mais do que suficiente.

Safi afundou em sua postura, pronta para atacar. Explosão de raio. Ela
piscou - não podia evitar - e, quando abriu os olhos, o vento a estava cortando.
Chuva a perfurando. E, claro, a mulher não estava mais sem armas. Uma batida
do coração antes, suas mãos estavam vazias, agora havia um mangual, sua bola
de ferro do tamanho do crânio de Safi.

— De onde veio isso? Safi murmurou. — E isso são espinhos naquela bola?
— Ela saltou para trás, embora o vento mal a deixasse se mover, e considerou
brevemente se o aço de Carawen era forte o suficiente para cortar o ferro.

Ela decidiu que não era, assim que a massa espetada da morte voou em sua
cabeça.

Safi se abaixou de lado. O mangual passou pela testa dela e uma única farpa
cortou sua pele. O sangue jorrou em seus olhos e, pela menor fração de segundo,
as palavras do contrato brilharam atrás de seus olhos: Todas as negociações
terminarão se o passageiro derramar sangue.

Então a bota da Exterminadora estava chutando o rosto de Safi e ela não


teve mais espaço para pensar.

Safi bateu no pé com o cotovelo, tirando o equilíbrio da Sentinela, e


também derrubando com sucesso o mangual.

Safi encontrou a corrente de ferro com sua lâmina. No entanto, onde


achava que o ímpeto da bola carregaria a corrente em torno de sua espada, e
permitiria que ela arrancasse o mangual do aperto da sua oponente, o ferro
pareceu se desmanchar... deslizar sobre o aço... e se formar no outro lado.

Safi piscou o sangue e a chuva de seus olhos, pensando que certamente


tinha visto mal. Mas não. A mulher estava trocando elo após elo da corrente até
a bola de ferro, tornando o martelo ainda maior, os espigões ainda maiores.

Oh, merda. Safi estava enfrentando um Ironwitch24. Merda, merda, merda.


Ela havia severamente julgado mal seu oponente. Ela não podia lutar contra
essa mulher sozinha. O aço de Carawen ainda era de ferro, de modo que sua
única chance seria perder a espada, passar pela Sentinela e correr como se o
Vazio estivesse em seus calcanhares.

24 Bruxa de Ferro
Então foi exatamente isso que Safi fez. Ela jogou a espada para o lado,
silenciosamente se desculpando com Evrane, e quando a Sentinela soltou seu
malho, mirando nas coxas de Safi, ela saltou o mais alto que pôde.

Não alto o suficiente, no entanto. O agito zumbiu por seu tornozelo, pontas
e ferro para esmagarem seu osso.

O instinto assumiu. No ar, Safi girou e deu um pontapé com o calcanhar


direito, amassando a garganta da Sentinela.

Ela não teve a chance de ver o que aconteceu depois. Um vento carregado
explodiu atrás dela, e a próxima coisa que sabia era que ela estava virando a
Sentinela, carregada pela tempestade de ciclones. Então os paralelepípedos
estavam correndo em direção ao seu rosto, rápido demais e Safi caiu. A dor a
sacudiu.

Chuva caía agora. Um raio estalou e assobiou, carregando este vento


furioso.

Safi se levantou, piscando para afastar a água e as dores dos dentes. Então
partiu, determinada para o segundo píer. Como antes, ela deu quatro passos na
madeira lisa antes de voltar para o cais.

Para onde a Sentinela a alcançou.

Então Safi fez a única coisa que conseguiu conjurar: ela ergueu as mãos e
gritou: — Eu me rendo!

Mas a Sentinela não abaixou seu mangual. — Permita-me te prender,


Truthwitch, e vou acreditar em você!
— Truthwitch? — Safi chamou, encolhendo os ombros inocentemente. —
Acho que você pegou a garota errada! — Falso, sua magia raspou. — Sou apenas
uma domna, e nem mesmo de uma boa propriedade!

— Você não pode me enganar. — A mulher rugiu. Seu uniforme ondulou


ao vento. Seu cachecol estava se desenrolando, uma bandeira negra que girava
e voava.

Por alguma razão, Safi não conseguia parar de olhar para aquela aba preta
de tecido... e ela não conseguia passar por sua magia. Falso, falso, falso! gritou
repetidamente. Errado, errado, errado! Foi uma reação muito grande para uma
simples mentira.

Então Safi entendeu. E reconheceu.

Clivagem.

Assim que essa palavra penetrou em sua consciência, o céu explodiu.

Uma explosão de calor e luz irrompeu das nuvens. Cobriu toda a visão,
engoliu todo o som, mascarou todos os sentimentos.

Os joelhos de Safi cederam. Ela tombou para frente, piscando, alcançando


e esforçando-se por ter alguma noção de onde estava, onde a Sentinela estava...

E acima de tudo, quem estava se partindo.

Uma imagem difusa se aglutinou da Sentinela. De joelhos. Encarando seus


braços com horror. Braços que Safi notou vagamente, onde as mangas estavam
arrancadas.
Essa mulher estava se partindo?

Safi empurrou todas as suas forças para se sentar, lutar contra o vento e a
estática, para que pudesse procurar sinais de óleo preto ou óleo na mulher...

Então ela percebeu que o lenço da Sentinela estava faltando. Tinha se


desenrolado completamente e agora os cabelos negros da mulher espalharam-
se em todas as direções, emoldurando um rosto belo e bronzeado.

Safi estava olhando para a Imperatriz de Marstok.

***

A tempestade Airwitch tinha interrompido a magia de Aeduan,


bloqueando o cheiro do sangue de Safiya. Ou talvez ela usasse fibras de
salamandra. De qualquer maneira, ele não teve escolha a não ser empurrar seu
poder para o lado e simplesmente seguir os Marstoks pela visão através de
Lejna, esperando que eles o levassem para Safiya. Quando percebeu que os
marinheiros estavam convergindo em um pátio, ele subiu aos telhados, para
uma visão melhor, e esperançosamente por melhor velocidade.

No entanto, quando Aeduan chegou ao pátio, avistou os marinheiros


correndo de volta para o mar... E a menina Nomatsi sem perfume de sangue ao
lado de uma estátua do deus Nubrevnan. Ela havia enganado todos eles. Um
chamariz.
Aeduan amaldiçoou, instantaneamente lançando sua magia para procurar
a Truthwitch. Ele lidaria com a garota Nomatsi mais tarde. Mas então Aeduan
sentiu o cheiro de algo familiar: feridas pretas e morte quebrada. Dor, sujeira e
fome sem fim.

Clivagem.

A magia de Aeduan caiu no fundo, brevemente embotada de surpresa. Com


repulsa, quando os Marstoks rasgaram seus uniformes. Enquanto o óleo negro
borbulhava sob sua pele. Quando a garota Nomatsi se levantou para lutar
contra eles.

Aeduan sabia que deveria sair agora. No entanto, ele não fez. Ele esperou.
Assistiu... Então decidiu.

Um rosnado rompeu seus lábios. Este era trabalho da Marionetista.


Aeduan reconheceu seu trabalho agora. Ela devia ter descoberto onde estava a
Truthwitch, e agora tentava ajudar Aeduan em sua própria maneira distorcida.

O que significava que se Iseult morresse aqui, Aeduan seria o culpado, o


exato oposto de uma dívida de vida paga.

Aeduan correu até a borda do telhado e pulou. Ele voou três andares em
direção à fonte. O ar entrou em seus ouvidos. Alto e rápido. Seu pé direito
pousou. Ele empurrou o poder em um rolo e caiu a seus pés, com pouco tempo
suficiente para evitar a Threadwitch.

Que estava balançando seu sabre na cabeça de Aeduan. Ele mergulhou


baixo e aço assobiou pelo ar.
— Não! — Foi tudo o que pôde gritar antes de desembainhar a espada e
dar a volta no Clivado mais próximo. O homem era um Sentinela, sua capa preta
arranhada e sua pele oleosa e se contorcendo. Ele mastigava o ar, procurando
por alguém que valesse a pena devorar.

Aeduan enfiou a lâmina no ombro do Sentinela... e a arrancou de volta.


Ácido quente pulverizou inofensivamente sobre o manto de Aeduan. No
entanto, uma gota caiu em seu rosto exposto, queimando em sua bochecha.

Então o sangue deles era realmente envenenado.

Não houve tempo para debruçar sobre essa revelação. O homem fendido
já estava se arrastando para a frente. Seu sangue ácido comia através de seu
uniforme, revelando peito e braços prestes a irromper das pústulas.

— A cabeça! — A garota gritou antes de girar sua lâmina larga.

Passando o aço através da carne. Através do nervo e osso. A cabeça do


Sentinela saiu voando, seu corpo balançou incerto enquanto o ácido jorrou
como uma fonte no pátio, e espalhou as roupas da menina, comendo através do
tecido. Ela tropeçou para trás... e chutou o corpo sem cabeça, que entrou em
colapso.

A garota ficou boquiaberta com a pele, como se estivesse chocada com os


buracos. Tola. Ela não tinha visto o ácido? Era culpa dela que tenha sido ferida
assim. Mesmo assim, Aeduan ainda encontrava sua boca se abrindo e as
palavras: — Fique atrás de mim. — Saindo.

Então ele se inclinou para mais quatro Marstoks e se pôs a trabalhar. Eles
cambalearam em Aeduan... e, claro, a estúpida Threadwitch não ficou atrás dele
como ordenado. Em vez disso, ela desceu, arqueando a lâmina na altura do
pescoço.

Ela perdeu; o Clivado mais próximo pulou de volta com uma velocidade
sobrenatural. Windwitch, percebeu Aeduan enquanto se lançava para fora com
sua própria lâmina. Novamente, o homem saltou para trás, a pele se formando
com preto.

O ar explodiu em Aeduan; e ele cambaleou em direção à fonte. A


Threadwitch também estava ferida, embora tenha mantido sua postura melhor.

Um estalo ensurdecedor soou atrás de Aeduan. Ele teve tempo suficiente


para girar ao redor - para ver uma fenda estilhaçando a fonte - antes que a
Threadwitch pegasse sua capa e puxasse.

A fonte explodiu em um borrão de pedra e água antigas - mas Aeduan e a


garota chamada Iseult já estavam subindo para o beco mais próximo.
Claramente um desses Marstoks era um Tidewitch25, e agora que ele tinha uma
fonte, Aeduan não seria páreo.

Um vento mágico bateu nas costas de Aeduan, como uma faca e com a
intenção de esfolar sua pele. No entanto, o manto de Aeduan o protegeu e ele
protegeu a garota.

Aeduan bombeou as pernas mais rápido, empurrou Iseult. — A direita! —


Ele gritou, e ela deslizou pela nova passagem.

25 Bruxo das Marés


A chuva caía com força agora. Isso só adicionava ao poder do Tidewitch.
Um grito sanguinário ergueu-se pelas ruas. Vários gritos, dezenas deles, até.

— Esquerda! — Aeduan latiu no próximo cruzamento sombrio. Ele não


tinha ideia de onde estava indo, só que precisava de um espaço maior entre ele
e o Clivado. Ele poderia esconder a garota Nomatsi até que isso terminasse.

Sim, Aeduan pagaria sua dívida de vida com Iseult, e então nunca mais
pensaria nela. Ela não era Cahr Awen; ela não era problema dele.

Aeduan avistou uma porta embutida no final da estrada. A porta estava


solta nas dobradiças. — Em frente! — Ele gritou. — Dentro!

A corrida da Threadwitch vacilou. Ela lançou um olhar para trás, os olhos


arregalados.

— Corra. — Ele agarrou seu braço, apertou-se violentamente e bombeou


sua magia pelo sangue. Sua velocidade dobrou, o beco ficou embaçado e a
garota gritou. Ela não estava correndo tão rápido, e ele não podia empurrar o
sangue dela mais rápido.

Mas então chegaram a porta e ele estava empurrando-a, puxando-a para a


parte de trás da casa, carregando-a através de uma cozinha, seus suspiros de ar
quase tão altos quanto o vento uivando e batendo água lá fora.

Despensa. Aeduan viu o armário alto no canto de trás da sala,


perigosamente perto de uma janela quebrada... mas o único esconderijo que
podia identificar. Ele empurrou a garota em direção a ela. — Entre.

— Não.— Ela se virou para encará-lo. — O que você está tentando fazer?
— Pagando uma dívida de vida. Você me poupou; agora eu te poupo. —
Com um movimento de seu pulso, ele soltou sua capa de salamandra.

— Esconda-se embaixo disso. Eles não vão sentir seu cheiro. — Ele
ofereceu a ela.

— Não.

— Você é surda ou apenas idiota? Aqueles Clivados estão a segundos de


distância. Confie em mim.

— Não. — Seus olhos castanhos tremeram, mas não com medo. Com recusa
teimosa.

— Confie em mim. — Aeduan falou mais suavemente agora, orelhas e


magia lutando por sinais do Clivado. Eles estariam aqui a qualquer momento e
esta menina Nomatsi ainda não estava se mexendo.

E se não se mexesse, a dívida de Aeduan não seria paga.

Então ele convocou as únicas palavras que poderia encontrar para fazê-la
partir: — Mhe varujta. — Ele disse. — Mhe varujta.

Suas sobrancelhas dispararam alto. — Como... como você sabe essas


palavras?

— Da mesma maneira que você. Agora entre. — Aeduan empurrou-a para


dentro do armário - com força. Sua paciência foi gasta, e ele sentiu o cheiro da
aproximação do Clivado. Segredos manchados de sangue e mentiras
incrustadas de sujeira.
A garota fez o que lhe foi dito. Entrou na despensa, olhando de volta para
Aeduan com aquele rosto estranho dela. Aeduan jogou a capa e ela pegou
facilmente.

— Quanto tempo devo esperar? — Ela perguntou. Então seu olhar passou
por seu corpo. — Você está sangrando.

Aeduan olhou para as manchas de sangue das velhas feridas e as novas,


pela luta com Evrane. — Não são nada. — Ele murmurou antes de fechar a
porta. Uma sombra caiu sobre o rosto da garota, mas Aeduan fez uma pausa
antes de fechá-la completamente. — Minha dívida de vida está paga,
Threadwitch. Se nossos caminhos se cruzarem novamente, não se engane: eu
vou matar você.

— Não, você não vai. — Ela sussurrou quando a porta se fechou.

Aeduan se obrigou a ficar em silêncio. Ela não merecia resposta, seria um


erro se pensasse que ele a pouparia.

Então, levantando o nariz e empurrando a sua Bloodwitchery para a


superfície, Aeduan se afastou e entrou num mundo de chuva, vento e morte.

***

Merik voava em um terror cego. Kullen estava quase em Lejna, correndo


para o primeiro píer. Mas algo estava errado. Ele havia se separado mais rápido
do que Merik poderia voar e com uma violência descontrolada que nunca tinha
visto antes. Ele o mandou girando descontroladamente para trás, lutando por
qualquer tipo de controle que pudesse encontrar.

Quando Merik finalmente chegou à cidade, bateu no primeiro cais lascado,


para onde tinha visto Kullen cair. No entanto, não viu nada na tempestade de
ciclones. Ainda mais assustador, sua magia pulsava contra suas entranhas.
Arranhado descontroladamente sob sua pele, como se pessoas estivessem se
aproximando. Como se elas logo fossem enviar Merik à beira do abismo.

Em saltos, Merik atravessou o píer em direção à costa. Relâmpago rachou


ao lado de uma loja, e ele avistou Kullen. Ajoelhou-se na boca de um beco, e
veias gordas e cegantes de eletricidade percorriam o seu comprimento. Então
o relâmpago desapareceu e Kullen ficou oculto pelo ar e água do mar, algas e
areia.

Merik chegou à rua. Ele voou de cabeça em direção à parede girando do


relâmpago e do vento.

Não, havia mais agora. Vidro e madeira lascada. Kullen estava sentindo
prédios inteiros.

Merik bateu contra tudo em um rugido de luz, som e estática. Então o


varreu. O vento o curvou. A água bateu nele. A magia o envolveu.

E Merik não podia lutar contra isso. Ele não era metade do bruxo que
Kullen era, e com seus próprios poderes sentindo como se pudessem se apegar
a qualquer segundo, Merik não podia fazer nada além de se deixar ir.
O ciclone afunilou-o para cima, tão rápido que deixou seu estômago em
algum lugar muito abaixo. Para cima, alto, ele voou. Seus olhos se fecharam.
Detritos o afogaram. O vidro arrancou sua pele exposta.

Mas então, tão rapidamente quanto foi sugado para a tempestade, Merik
foi libertado. O giro parou; o vento soltou. No entanto, a tempestade continuou...
Merik ouviu, sentiu ...

Abaixo.

Ele forçou os olhos a abrir, forçou sua magia a mantê-lo no ar apenas


tempo suficiente para avaliar o que havia acontecido.

Merik estava nas nuvens acima da tempestade de Kullen. No entanto, o


ciclone estava subindo, sugando as nuvens ao redor de si e, em breve, sugando-
o também.

Mas lá, centenas de metros abaixo, havia uma mancha escura no meio da
tempestade. Kullen.

Sem pensar, Merik se lançou para frente em um impulso doloroso de seu


próprio vento. Então soltou a magia e caiu. Mais rápido do que ele havia subido
através desta tempestade, agora despencava de volta para a rua. Quando voou
através de um mundo de inferno e tempestade de bruxas, nunca deixou seus
olhos perderem de vista o seu irmão de linha.

Kullen o viu. Agachado sobre os paralelepípedos ao lado de um


dilacerado... não, um prédio ainda dilacerando. Kullen apertava o peito com a
cabeça inclinada para trás, e Merik sabia que Kullen o via.
As mãos de Kullen se ergueram. Uma rajada de vento bateu em Merik,
pegando-o quando ele caiu. Facilitando-o para a rua. No olho da tempestade de
Kullen.

Assim que as botas de Merik estavam no chão, ele cambaleou para o seu
irmão. Kullen estava ajoelhado, com o rosto para baixo agora.

— Kullen! — Merik gritou, sua garganta rasgando para produzir qualquer


som sobre o trovão interminável da tempestade, a rachadura de estruturas de
construção e a quebra de janelas. Ele caiu na rua. Pedaços de vidro morderam
os joelhos dele. — Kullen! Pare a tempestade! Você tem que relaxar e parar essa
tempestade!

A única resposta de Kullen foi um tremor nas costas, um tremor que Merik
conhecia muito bem. Já tinha visto muitas vezes em sua vida.

Merik puxou o seu irmão de linha na posição vertical. — Respire! — Ele


rugiu. — Respire!

Kullen inclinou o rosto para Merik, seus lábios se movendo ineficazmente,


seu rosto cinza e borbulhando...

E seus olhos tão negros quanto o inferno aquoso de Noden.

Respirar não salvaria Kullen - não desse tipo de ataque. O irmão de Merik
estava partindo.

Por um momento doloroso, Merik olhou para o melhor amigo. Ele


procurou no rosto de Kullen por algum sinal do homem que conhecia.
A boca de Kullen se abriu amplamente, o ciclone gritando com sua fúria, e
a magia corrupta invadiu Merik, ameaçando pegá-lo também.

Mas Merik não se encolheu ou empurrou Kullen para longe. A tempestade


lá fora não era nada comparada com o que acontecia dentro dela.

Os dedos de Kullen, sangue negro escorrendo de pústulas explodidas,


agarraram a camisa de Merik. — Mate... me. — Ele resmungou.

— Não. — Era a única coisa que Merik poderia dizer. A única palavra que
poderia conter tudo o que ele sentia.

Kullen soltou-o e, pelo mais breve piscar de olhos, o negro nos olhos dele
se encolheu para dentro. Ele deu a Merik um sorriso triste e quebrado. —
Adeus, meu rei. Adeus meu amigo.

Então, num borrão de velocidade e poder, Kullen se levantou e saltou do


píer. Vento e destroços caíram sobre Merik, bateram-no contra a rua e cobriram
todos os seus sentidos. Por uma eternidade, tudo o que sentia e tudo o que
Merik via era o ciclone de Kullen.

Até um último crack dividir o caos, e madeira e dor trovejarem.

O mundo de Merik ficou negro.


39
Iseult sentou-se no armário, seus olhos se fecharam e seus sentidos se
estenderam para fora, sua magia alcançando algum sinal de vida. Do Clivado.

Quanto ao Bloodwitch chamado Aeduan, ele era tão visível para seus
Threads quanto ela. Apenas olhando para o rosto dele, tinha alguma ideia do
que ele sentia, o que não era nada, até onde ela podia dizer. E embora Iseult
tivesse confiado em Aeduan para não matá-la - e provavelmente não a desse
como alimento ao Clivado - não havia varujta lá.

Mhe varujta. Era a mais sagrada das frases de Nomatsi, uma frase que
significava confie em mim como se minha alma fosse sua.

Era o que a Mãe Lua havia dito ao povo Nomatsi quando os guiou para fora
do extremo oriente cheio de guerra, o que os pais diziam aos filhos quando os
beijavam e desejavam boa noite. E o que Heart-Threads dizem em seus votos
matrimoniais.

Para Aeduan, saber tal frase só poderia significar que: ele viveu com uma
tribo Nomatsi... Ou que era Nomatsi.

Qualquer que fosse a fonte de seu conhecimento, não importava. Ele


ajudou Iseult; agora ele se foi.

A magia de Iseult levantou-se, ela sentiu um Marstok clivado, espreitando


pela janela quebrada. Três mechas de morte se moviam com ele, assim como as
que ela tinha visto sobre o cadáver na cidade de Veñaza. Assim como os que ela
viu através dos olhos da Marionetista.

Esses Threads eram maiores, no entanto. Mais gordos e estranhamente


longos. Estendendo-se em tentáculos que desapareciam no céu, como uma
marionete em um palco...

A respiração de Iseult deu um soco. Titereiro 26 . Ela estava olhando para o


trabalho da Marionetista agora. Esses Threads Partidos se estendiam até
Poznin - Iseult tinha certeza disso - o que significava que a Marionetista de
algum modo havia quebrado todos esses homens mesmo de longe.

Não, de alguma forma ela fez isso com a ajuda de Iseult.

Todos esses planos e lugares escondidos em seu cérebro, ela dissera, fizeram
o Rei Raider muito feliz. É por isso que ele me deu essa grande missão para
amanhã. Então, obrigada - você fez tudo isso possível.

A Marionetista havia percebido que Iseult e Safi tinham como alvo Lejna, e
havia se apegado a quem pudesse agarrar.

Iseult subitamente estava fervendo sob o manto dela. Sufocando dentro


deste armário. Queimando dentro de sua própria cabeça. Ela deveria ter lutado
contra a Marionetista com mais força. Ela deveria ter evitado o sono e ficado
longe do aperto sombrio daquela mulher.

Iseult ia vomitar...

26 Que faz apresentações com títeres, espécie de boneco manipulável.


Não, ela estava vomitando. Seca arfando e cortando porque estes Clivados
estavam em sua alma agora. Ela os matou sendo fraca.

Um novo conjunto de Threads cintilou na consciência de Iseult. Um


conjunto vivo e brilhante que penetrava a doença de Iseult. Ela conhecia esses
Threads, aquele tom específico de determinação verde e preocupado bege.

Evrane. A monja estava bem do lado de fora da janela.

Em um piscar de olhos, Iseult estava fora do armário. Ela não podia deixar
Evrane morrer também. Pulou pela janela quebrada. Vidro agarrou seu manto,
mas a fivela ficou firme. Então estava caindo na rua estreita, mirando para a
direita, na direção que ela sentiu os Threads de Evrane.

A chuva a cortou, queimando a ferida em seu rosto. A tempestade estava


piorando, o céu ganhara vida. Tudo se agitava e se lançava em uma única
direção: em direção ao cais.

Através da chuva, Iseult vislumbrou branco. Ela empurrou as pernas mais


rápido, gritando: — Evrane!

Ela parou. Evrane se virou, seus cabelos de prata revoltos pela tempestade.
Ela olhou para trás, o rosto uma máscara de surpresa, mas seus Threads azuis
de alívio.

Escuridão se movia ao longo de um telhado. Listrado de uma fachada


sombria.

O Clivado.
— Atrás de você! — Gritou Iseult, levantando o cutelo.

Ela estava muito atrasada. O Clivado convergiu para Evrane, e a monja


desapareceu sob uma horda de morte.

Iseult queimava a estrada o mais rápido que podia, gritando e cortando


todo o caminho. Suas lâminas cortavam pescoços e pernas. Pústulas explodiam
e ácido sibilavam nas paredes. No manto de Iseult.

No entanto, ela balançava e soltava e cortava, gritando o nome de Evrane


o tempo todo.

Logo, não havia mais ninguém para matar. O Clivado estava correndo... e
onde Evrane havia caído, não havia nada além de uma grande mancha de
vermelho.

Iseult girou, procurando freneticamente por portas e sombras.

Mas a monja se foi como o Clivado.

Então Iseult apertou os olhos contra a tempestade e alcançou Threads. Lá.


Do outro lado do beco mais próximo havia um conjunto de Threads brancos
assustados, rodopiando de dor cinzenta. Um monte de dor cinza.

Iseult empurrou o vento e abraçou o manto de Aeduan com força. Ele lhe
disse a verdade: o Clivado não conseguia cheirá-la.

Ela chegou a um cruzamento de casas estreitas. O sangue arrastou-se pelo


chão, já respingando com a chuva.
Iseult acelerou o passo e seguiu o rastro de Evrane o máximo que pôde,
mas a chuva logo lavou o sangue. Mesmo se esforçando para sentir os Threads
da monja, ela logo os perdeu de vista. Eles se moviam muito rápido. Muito mais
rápido do que Iseult poderia viajar nesta tempestade.

Quando Iseult entrou em uma rua estreita e familiar, avistou o


ancoradouro abatido pela onda várias quadras à frente. Ela estava no limite
oeste da cidade onde entrou pela primeira vez. Areia e borrifo de mar a
atingiram, e a tempestade aumentou. Madeira rachada; edifícios
desmoronados.

Com um braço levantado para proteger o rosto, Iseult procurou


freneticamente sinais de Evrane. Um clarão de branco na tempestade ou um
lampejo dos Threads dela. Mas Iseult não viu nada. A tempestade devorou tudo.
Iseult mal podia sentir o clivado - na verdade, eles pareciam estar fugindo da
cidade e correndo para o norte.

Um raio explodiu. Os olhos de Iseult se fecharam contra a luz, o calor. A


magia caiu sobre ela, estremeceu em sua pele e em seus pulmões. Ela caiu
contra a parede mais próxima e se encolheu dentro do manto.

Por metade de um suspiro aparentemente interminável, Iseult foi


inundada por sua culpa. Por quanto ela odiava a si mesma e sua magia e a
Marionetista.

Mas então a tempestade se retirou. O barulho e a pressão e a chuva que se


abateu...

E Threads se entrecruzaram na consciência de Iseult. Threads vivos nas


proximidades. Ela cambaleou na vertical, jogando a capa para trás para
encontrar o ciclone saindo, espiralando sobre o mar como uma cobra negra que
se contorcia.

Iseult mancou em um beco demolido, procurando pelo sobrevivente. Seus


pés rangiam através do vidro até que finalmente encontrou o Príncipe de
Nubrevna, machucado, sangrando e preso debaixo de um prédio caído.

No entanto, ainda estava vivo e Iseult ainda estava viva para salvá-lo.

***

Uma risada se contorceu na garganta de Safi enquanto ela olhava com


tristeza para Vaness. Pela lógica, claro que seria a Imperatriz de Marstok. Quem
mais teria coragem de lutar com um mangual? Ou ser louco o suficiente para vir
atrás da própria Safi?

Chuva caía junto ao vento carregado - forte como um boi e ficando mais
forte - e ondas ameaçando cobrir toda a rua. Um furacão rugiu no outro extremo
da cidade, mas Safi nunca desviou o olhar do Imperatriz Vaness. Se a mulher se
partisse...

Mas deuses abaixo, ela poderia matar uma Imperatriz?

Os olhos de Safi se voltaram para o mangual, a um braço de distância de


Vaness e quase esquecidos. Se a Imperatriz estava se partindo, essa arma era a
única opção de Safi...

Vaness parou. Ela parou de coçar os braços, parou de se mexer. Seu olhar
estava preso atrás de Safi.

— Doze me protejam. — Disse ela.

Se ela está falando, então não está se partindo, pensou Safi. O que quer que
a magia corrupta tivesse envolvido através de Vaness, a Imperatriz não
sucumbira.

Mas então Safi cometeu o erro de seguir o olhar de Vaness. A tempestade


estava saindo, uma única figura no centro. Relâmpagos chiavam em sua forma
negra enquanto se curvavam, giravam e se lançavam para o mar.

Kullen.

Oh Deuses, Safi balançou, mas forçou a cabeça a ficar de pé para poder


procurar na rua. Ela não viu sinal de Merik. Certamente ele não havia sido
morto. No entanto, antes que Safi pudesse se impulsionar dessa maneira,
Vaness gritou: — Desista, Truthwitch.

Merda. Sempre tão devagar, Safi voltou-se para Vaness, que estava pronta
com o seu mangual.

Safi molhou os lábios. Eles tinham gosto de sangue e sal. Talvez se pudesse
distrair Vaness, ela pudesse fugir. — Por que você? — Ela perguntou. — Por
que não mandar seus soldados para me matar? Por que se arriscar?

— Porque sou serva do meu povo. Se eu tiver que sujar as mãos de alguém,
vou sempre sujar as minhas.

Safi piscou. Então ela riu - um som quebrado e chocado. Parecia que Vaness
era igual a Merik a esse respeito. Ainda assim... — Isso é muito mais do que
apenas… sujar suas mãos, Imperatriz. Você quase foi morta por um furacão - e
quase se partiu também.

— Se meus inimigos tivessem reivindicado você primeiro, então você


poderia me derrubar. Ainda em minhas mãos, você salvará um reino. Meu reino.
Para mim, vale a pena morrer por isso.

Ah. Safi suspirou com essas palavras, e algo profundo e antigo cintilou na
base de sua espinha. Um por causa de muitos. Ela entendia isso agora.

— Entregue-se. — Vaness sacudiu a mão e o mangal pulou. — Não há nada


que você possa fazer.

Falso, a magia de Safi respirava e, com aquela pontada de poder, tudo dos
últimos dias tomou conta dela. Um dilúvio de palavras e mentiras que as
pessoas acreditavam nela.

…Viva a mesma existência sem ambição que você sempre gostou… Isso
não é mais sobre você… Só você seria tão imprudente… Não há nada que você
possa fazer…

Então, um único pensamento brilhante subiu à superfície: se você quisesse,


Safiya, poderia dobrar e moldar o mundo.

Tio Eron dissera isso e Safi percebeu, quase rindo com essa percepção, que
ele estava certo. Ela não estava presa dentro de sua pele ou seus erros, e não
precisava mudar quem era. Tudo o que precisava estava dentro dela: as
ferramentas de Mathew e Habim, até mesmo de seu tio Eron, e o sólido e
inabalável amor de sua irmã de linha.

Safi poderia dobrar e moldar o mundo.

E chegou a hora de fazer isso.

Em uma única explosão, Safi fisgou um calcanhar atrás do tornozelo de


Vaness e socou a Imperatriz no nariz. Vaness caiu de costas para a rua.

E Safi correu, partindo para o terceiro píer. Sem olhar para trás, sem
pensar. Esta era Safi que ela queria ser. Ela pensou com as solas dos pés,
sentindo com as palmas das mãos. Um feixe de músculos e poder afiado para
lutar pelas pessoas que amava e as causas que acreditava. Sua vida não estava
levando à cidade de Veñaza ou outro lugar. Estava levando a esta corrida para
o cais final.

Não era lutar pela liberdade que ela queria. Era pela crença em algo - um
prêmio grande o suficiente para correr, lutar e continuar para chegar a
qualquer direção.

Ela tinha um prêmio agora. Ela corria por Nubrevna, por Merik. Ela corria
por Iseult. Ela corria por Kullen, Ryber, Mathew, Habim, e acima de tudo, ela
corria por si mesma.

Soldados floresciam nos cantos de sua visão. Um borrão de uniformes


verdes saindo das ruas laterais de Lejna. Mas eles eram muito lentos para
alcançá-la - pelo menos não antes de Safi chegar onde precisava estar.
Ela sentia isso no âmago de sua magia, e com cada grito explosivo de
verdadeiro-verdadeiro-verdadeiro em seu peito, Safi dirigiu suas pernas mais
rápido.

Ela estava a dez passos do cais agora.

Cinco.

Algo pequeno e forte - como o cabo de um mangual - socou o joelho de Safi.


Ela caiu, mas o instinto assumiu. Ela girou em um rolo sem graça... e desdobrou
de volta em sua corrida.

Então bateu na primeira tábua do cais, e a dor se quebrou através dela.

Tão furiosa que mascarou toda a visão.

Tão explosiva que engoliu todo o som.

Safi gritou. Ela caiu para frente. Seus braços se dobraram embaixo dela.

Seu pé esquerdo. Ela foi atingida na cabeça pela espetada do mangual. Seus
ossos foram esmagados. O sangue jorrou.

Mas ela estava no cais, e derramando sangue ou não, esse contrato tinha
que ser cumprido. Ele tinha que ser.

Botas negras invadiram a visão de Safi de todas as direções. Em segundos,


dois Sentinelas puxaram Safi para cima e a prenderam em algemas.

Quando a Imperatriz se aproximou, gritando ordens em Marstok que Safi


achou muito difícil de entender, ela ficou satisfeita de detectar um olho negro
florescente no rosto de Vaness. E ah, muito sangue vindo do nariz dela.

As duas pessoas adicionaram as mãos nos ombros de Safi, apesar do fato


de que ela não poderia ter corrido - ou mesmo ter caminhado - não importava
o quanto tentasse. Na verdade, se não fosse por aquelas mãos em seus ombros,
ela não tinha certeza se poderia continuar em pé enquanto Vaness se inclinava
para perto.

E apesar de Safi não querer nada mais do que piscar, chorar, implorar a
alguém para curar seu pé, ela encontrou o olhar de Vaness e não desviou.

Por fim, Vaness sorriu. Foi um sorriso aterrorizante com todo o sangue
escorrendo entre os dentes. — Você não pode escapar agora.

— Eu ... não estava tentando. — Safi resmungou, mesmo que realmente só


quisesse gritar. Ela se forçou a rir com dificuldade. — Se é a minha magia que
você quer, Imperatriz… se acha que eu sou tão poderosa… então você está
equivocada. Eu sei a verdade da mentira, mas é isso. E mesmo quando sei a
verdade... isso não significa que eu sempre conte.

A mandíbula de Vaness se apertou. Ela se inclinou para perto, como se


estivesse tentando ler os segredos nos olhos de Safi. — O que seria necessário
para ganhar sua lealdade? Para garantir que você me diga as verdades que
preciso e me ajude a salvar meu reino? Diga seu preço.

Safi olhou para o rosto roxo e inchado da Imperatriz e cutucou sua magia
em busca de algum sinal da sinceridade da mulher. Parecia impossível que
Vaness oferecesse algo tão vasto... No entanto, sob toda a dor ardente de Safi,
sua magia vislumbrava sua confirmação.
Um sorriso triunfante se curvou na borda de seus lábios, embora isso
pudesse ter sido uma careta de dor. Foi difícil dizer neste momento.

— Eu quero negociar com Nubrevna. — Disse ela. — Eu quero que você


envie um emissário para Lovats, e quero que você negocie a exportação de
comida em troca de... por qualquer coisa que os nubrevanos tenham a oferecer.

Vaness arqueou uma sobrancelha ensanguentada e uma brisa lhe lançou o


cabelo molhado no rosto. — Por que você iria querer isso?

— Pelo mesmo motivo que você. — Safi inclinou a cabeça para trás em
direção à cidade, então desejou que não tivesse. Ela estava perdendo muito
sangue nesses movimentos rápidos. Ou em qualquer movimento, na verdade.

— Vou sujar minhas mãos para as pessoas que importam para mim. Eu vou
correr o quanto for preciso e lutar o máximo que puder. Se isso for preciso para
ajudá-los, então é o que farei.

Para surpresa de Safi, Vaness ofereceu uma pequena - genuína - gratidão


em troca. — Você tem um acordo, Truthwitch.

— E você tem o uso da minha magia. — O alívio estremeceu através de Safi,


ou talvez isso fosse um alerta de perda de sangue.

Safi virou o olhar confuso para a rua, ela achava que Merik tinha
desaparecido, perto de onde viu Iseult pela última vez. Por um longo momento,
tudo o que Safi ouviu foi o barulho da água contra a doca. Tudo o que sentiu foi
a chuva suave e limpa em suas bochechas. Tudo o que ela pensava era sua
família.
Ela assentiu na direção de sua amiga, desejando-lhes um silencioso adeus.
Orando que eles estivessem bem... e sabendo que viriam por ela.

Em seguida, a pisada oca de pés cortam os pensamentos de Safi e


provocaram uma dor excruciante.

— Vamos voar agora. — Disse Vaness, acenando para o menor marinheiro


da multidão. Ele levava a tatuagem de um Windwitch. — Nossa frota não está
longe. Você pode fazer isso, Truthwitch?

— Sim. — Safi respirou, balançando em um dos homens segurando-a. Ela


deu um sorriso para ele e disse: — Eu sou Safiya fon Hasstrel, e posso fazer
qualquer coisa.

Quando essas palavras caíram de sua língua, sua magia se animou... e


depois ronronou como um leão em um raio de sol.

É verdade, dizia. Sempre e para sempre verdade.


40
Quando Aeduan viu o Clivado atacar sua mentora ele agiu sem pensar -
mergulhando para recuperar sua forma ensanguentada. Atropelando,
cortando, estripando qualquer um em seu caminho.

Uma vez que foi para ela, uma vez que tinha sua forma flácida em seus
braços, Aeduan tinha se agarrado ao sangue de Evrane para evitar que o buraco
em seu pescoço sangrasse.

Então Aeduan havia corrido de Lejna o mais rápido que pode, sua magia
alimentando-o. Ele levaria Evrane para o Poço de Origem, pois esse era o único
lugar em que conseguia pensar. Se suas águas estivessem de fato fluindo mais
uma vez, então poderia salvar Evrane do buraco em seu pescoço.

Quando achou que não pudesse mais correr, Aeduan correu ainda mais.

Quando não aguentou de fato mais correr, ele caminhou, sua magia nunca
liberando o sangue de Evrane. Distantemente, ele sabia que tinha perdido a
chance de reivindicar a Truthwitch, mas não se importava. Não agora.

Aeduan levou Evrane, precipício após penhasco, passo após passo


cambaleante e, pela primeira vez em anos, ele ficou com medo.

Levou metade do dia para reconhecer o que sentia. O vazio em seu peito, o
ciclo infinito de seus pensamentos... Não morra. Não morra.

Ele sabia que isso ia além das dívidas da vida. Contra tudo o que Aeduan
queria ser, contra tudo o que acreditava ser, ele estava com medo.
Antes de ver o rio, ouviu o estrondo do zumbido de insetos da tarde e
pássaros estridentes. Ele sentiu a névoa de suas corredeiras, misturando-se
com a umidade do dia. Também cheirou os oito soldados que esperavam nas
escadas do poço de origem. Alguém deve ter encontrado o príncipe Leopold e
achou que Aeduan poderia retornar.

Então, Aeduan usou o pouco poder que tinha para sufocar a respiração dos
soldados. Demorou uma eternidade. Aeduan estava enfraquecido; os oito
homens não. Aeduan balançou ao vento, listando tão descontroladamente
quanto as árvores. Ele largaria Evrane se tivesse que ficar muito mais tempo.

Os soldados finalmente bateram na terra e Aeduan tropeçou. Então ele


subiu, lentamente, mas decididamente, os degraus gastos até o Poço de Origem.
Sobre as lajes para a rampa. Na água para flutuar Evrane nas costas dela.

Ela começou a se curar.

Aeduan sentiu mais do que ele viu. Qualquer poder que estivesse em ação
aqui se movia tão gradualmente que levaria dias para que seu corpo se
consertasse completamente. No entanto, Aeduan sentiu seu sangue começar a
fluir por conta própria. Ele sentiu a nova carne crescer onde sua garganta foi
cortada.

Ainda assim, ele segurou firmemente o sangue dela até que a garganta dela
consertasse o suficiente para ser possível respirar. Para o coração dela
bombear sem impedimentos.

Aeduan flutuou cuidadosamente Evrane até a rampa do Poço e a colocou


sobre as pedras. Ele manteve parte de suas pernas submersas - assim a cura
continuaria, antes que ele saísse do poço, borrifando água nas lajes. Apesar do
peso extra de roupas saturadas, ele ficou surpreso ao encontrar sua coluna
ereta. Sua magia totalmente restaurada ...

E sua mente incapaz de ignorar o que estava claramente diante dele: o


Poço de Origem estava vivo novamente. Mesmo se não tivesse visto a magia no
trabalho, quando estava naquela água, ele sentiu.

Unidade.

Conclusão.

Este poço estava abrindo um único olho sonolento, e não demoraria muito
para que despertasse completamente.

O que significava - por mais impossível que fosse para Aeduan aceitar - a
Truthwitch era metade dos Cahr Awen e Iseult …

Aquela Nomatsi Threadwitch sem cheiro de sangue, e Aetherwitch


também...

Ela era a outra metade. Elas eram o par que Aeduan havia prometido
proteger com sua vida. O juramento que fizera quando tinha treze anos - antes
de seu pai ter entrado novamente em sua vida - estava sendo convocado, mas
Aeduan não conseguia decidir se deveria responder.

Ele nunca pensou que esse dia realmente chegaria - um dia em que todo
seu treinamento e seu futuro seriam entregues ao mítico e antigo Cahr Awen.

Era fácil para Evrane. Ela passou a vida toda crente. E competiu a ela ver o
retorno dos Cahr Awen.

Mas para Aeduan era um obstáculo. Ele tinha sido forçado a entrar no
Monastério por circunstância, e ficou lá porque não tinha para onde ir – não
havia outro lugar que não matasse um Bloodwitch. Agora, porém, ele tinha
planos. Planos para si mesmo. Planos para o pai dele.

Aeduan não sabia a quem devia sua lealdade - seus votos ou sua família -,
mas pelo menos tinha certeza de uma coisa: estava grato pelo Bem ter salvado
a monja Evrane.

Talvez tenha sido por isso que Aeduan encontrou seus pés levando-o até o
cipreste mais próximo. Seu tronco brilhava vermelho no sol brilhante do
amanhecer, seus ramos verdes e vibrantes sussurravam na brisa úmida.

Mais folhas cresceram desde ontem.

Aeduan se ajoelhou nas lajes. A água gotejava de suas roupas, de seus


cabelos e até mesmo de seu couro cabeludo, que ele se esqueceu de remover.
Ele mal notou e simplesmente se enrolou, apoiado nos joelhos e com as palmas
das mãos apoiadas no tronco de cipreste. Então recitou a oração do Cahr Awen.

Exatamente como Evrane lhe ensinara.

Eu guardo o portador da luz,

E protejo o doador das trevas.

Eu vivo pelo mundo,


E morro pelo sombreado.

Meu sangue, eu ofereço livremente.

Meus Threads, eu ofereço totalmente.

Minha alma eterna não pertence a mais ninguém.

Reivindique meu Aether.

Guie minha lâmina.

De agora até o final.

Quando terminou as palavras memorizadas, ele ficou feliz em achá-las tão


insípidas como sempre foram - e ele também estava feliz em encontrar uma
lista mental já rolando pelo seu cérebro. Minhas lâminas estão molhadas; Vou
precisar lubrificá-las. Eu preciso de um novo manto de salamandra - e um
cavalo também. Um rápido.

Era libertador saber que ele podia ignorar seu voto de Carawen com tanta
facilidade, mesmo com o Poço de Origem bem ao lado dele. Por enquanto, ele
tinha uma caixa de talismãs de prata para dar ao pai, e isso era tudo o que
importava.

Aeduan deu um último olhar a sua antiga mentora, a monja chamada


Evrane. Ela tinha cor nas bochechas agora.

Bom. Aeduan finalmente pagou uma de suas dívidas com a vida dela.

Então, com os dedos flexionando e os pulsos rolando, o Bloodwitch


chamado Aeduan partiu para se juntar a seu pai, o rei atacante da Arithuania.

***

Com grande esforço e com toda a força que restava dentro dela, Iseult
levantou, rolou e empurrou as vigas de madeira de Merik Nihar. Raios de luz da
manhã atravessavam as nuvens cinzentas. O primeiro píer e um quarteirão
inteiro de edifícios foram nivelados. Reduzido a madeiras lascadas pela
tempestade de Kullen - uma tempestade que deve ter reivindicado o primeiro
imediato também. Nenhuma alma ou Thread se movia ao lado das ondas agora
suaves. Nenhum pássaro voava, nenhum inseto cantava, não existia vida.

Exceto por um enxame de verde, voando no horizonte. Bem no centro,


Iseult sentiu o mais leve indício de deslumbrantes Threads.

Safi.

Ela se foi. Se foi. Iseult a havia perdido, e foi apenas mais um erro para
adicionar à sua alma.

Mas Iseult passou por esses pensamentos e continuou sua luta contra a
estrutura do prédio. Todo o barulho e movimento despertaram Merik da
inconsciência, seus Threads abruptamente se transformaram em vida. Dor de
ferro e dor azul.

Deitado de costas, pedaços de pele se foram e pedaços de vidro se


enterraram profundamente.

— O que dói? — Iseult perguntou, caindo ao lado dele. Nenhuma gagueira


segurou a língua. Nenhuma emoção dominou.

— Tudo. — Merik raspou, os olhos se abrindo.

— Eu vou verificar se há ossos quebrados. — Disse Iseult. — Ou algo pior.


— Quando Merik não discutiu, ela começou a gentilmente amassar o corpo dele,
do topo da cabeça até as pontas dos dedos dos pés. Ela fizera isso centenas de
vezes com Safi ao longo dos anos, Habim lhe ensinara como, e ela mergulhou no
perdão de um movimento frio e metódico.

Estase. A brisa passou através das roupas molhadas de outra pessoa e


beijou a pele de outra pessoa. As feridas de Merik, todas elas sangravam em
outra pessoa, e Iseult não pensaria na Marionetista. No Clivado. Ou em Evrane,
Kullen ou Safi. Estase.

Durante a inspeção, os olhos de Iseult se voltaram para os Threads de


Merik, verificando qualquer claridade de dor mais intensa. Cada arrancada de
vidro fazia-os piscar, mas só quando Iseult bateu em suas costelas que eles
explodiram em agonia. Um gemido saiu de sua língua. Suas costelas estavam
quebradas; poderia ser pior.

Em seguida, Iseult voltou sua atenção para a pele de Merik, verificando se


nenhum dos vidros ou madeira removidos tivessem aberto cortes perigosos. O
sangue manchou a rua e, quando enrolou a camisa rasgada em torno de um
corte no antebraço, Merik perguntou: — Onde ... está Safi?
— Os Marstoks a levaram.

— Você vai ... trazê-la de volta?

Iseult soltou um suspiro apertado, surpresa pelo quanto seus pulmões


doíam com aquele movimento. Será que ela conseguiria trazer Safi de volta?

Em uma corrida de pânico, ela terminou o curativo improvisado e arrancou


sua pedra. Nenhuma luz piscou, o que significava que Safi estava a salvo. Ilesa.

Isso também significava que Iseult não tinha como seguir sua Threadsister.
Mas o que Safi disse a ela? Um dos homens de Eron viria aqui para uma
cafeteria. Iseult podia esperar - teria que esperar - por essa pessoa. Ele ajudaria
Iseult a chegar a Safi, quem quer que fosse.

Ela soltou a Threadstone. Ela bateu contra o seu peito. Então voltou sua
atenção para Merik e disse: — Você precisa de um curador. — Assim que as
palavras saíram, ela desejou poder engoli-las de volta, pois, é claro, Merik
perguntou asperamente: — Minha … tia?

O desejo de mentir era esmagador, e não apenas uma mentira para Merik,
mas uma história que Iseult também poderia se agarrar.

Não foi minha culpa, ela quis dizer. O Clivado chegou até ela, e isso também
não foi minha culpa.

Mas foi culpa de Iseult, e ela sabia disso.

— Evrane foi atacada pelo Clivado. — O tom de Iseult era incolor.


Deliberado. Mil léguas de distância e vindo da boca de uma pessoa diferente. —
Não sei se ela sobreviveu. Eu a segui, mas ela deixou a cidade.

Os Threads de Merik indicaram que ele desistiu. A tristeza azul tomou


conta completamente, e ele piscou para conter as lágrimas, suas respirações
sufocadas de um modo que deve ter causado a dor se estilhaçando através de
suas costelas quebradas.

Foi quando a geleira finalmente rachou e Iseult desistiu de seu controle.


Ela se ajoelhou ao lado de Merik e, pela segunda vez em sua vida, Iseult det
Midenzi chorou.

Ela matou muitas pessoas hoje. Não de propósito e não diretamente, mas
o fardo não parecia menos vasto. Não menos completo.

Ela quase... ela quase desejou que a maldição de Corlant a tivesse matado
no final. Pelo menos todas essas almas perdidas ainda poderiam estar vivas.

Eventualmente, Merik estava doente demais para ela ignorar. Ele estava
pálido, tremendo, e seus Threads estavam desaparecendo rápido demais.

Então Iseult empurrou para o lado tudo o que ela sentia, cada Thread que
nunca foi feito para dominar, e se aproximou de Merik. — Onde está o Jana? —
Ela perguntou, pensando que sua tripulação poderia levá-lo a um curandeiro.
Ela e Safi haviam deixado os cavalos, e Iseult não tinha ideia de onde a cidade
viva mais próxima poderia estar. — Alteza, eu preciso saber onde o Jana está.
— Ela segurou seu rosto. — Como posso alcançá-lo?

Merik estava tremendo agora, seus braços agarrados ao peito, ainda sua
pele ardendo ao toque. Seus Threads estavam ficando cada vez mais pálidos ...
Mas Iseult seria condenada se o deixasse morrer. Ela se inclinou para
perto. Fez ele encontrar seus olhos. — Como posso entrar em contato com o
Jana, Alteza?

— O tambor de vento de Lejna ... tambor. — Ele resmungou. — Bata isto.

Iseult soltou seu rosto, seu olhar voando pela rua... Lá. No canto leste da
cidade, a poucos quarteirões de distância, havia um tambor idêntico ao do Jana.

Iseult ficou em pé. A manhã salgada girou e seus músculos pareciam vidro
desfiado. Mas ela colocou um pé na frente do outro... até que finalmente chegou
ao tambor.

Ela ergueu o martelo - havia apenas um, e rezou para que fosse um
enfeitiçado, capaz de explodir o vento longe e verdadeiro. Então Iseult bateu no
tambor. De novo e de novo e de novo outra vez.

Enquanto martelava - enquanto batia sua alma e seus erros na pele de


couro - ela planejou. Porque ainda tinha isso. Ela ainda tinha as habilidades para
analisar seu terreno e seus adversários. Ela ainda tinha o instinto de escolher
os melhores campos de batalha.

Safi havia iniciado algo um pouco maior desta vez - ser sequestrada por
Marstoks era definitivamente um novo recorde - mas não importava o que fosse
preciso, Iseult descobriria.

Ela levaria Merik para um curandeiro.

Ela encontraria uma maneira de parar a Marionetista, para evitar que


aquela menina das sombras jamais apanhasse alguém.
Ela obteria respostas sobre a maldição de Corlant, e talvez encontrasse
Gretchya e Alma novamente também.

E, acima de tudo, Iseult iria atrás de Safi. Assim como batia neste tambor
de vento, assim como ela ignorava o grito em seus braços e a exaustão em suas
pernas, ela seguiria Safi e a pegaria de volta.

Threadsisters até o final.

Mhe varujta.

***

Merik estava inconsciente quando o Jana chegou. Quando chegou ao Dom


de Noden e ao Poço de Origem, ele estava quase morto. Havia água salgada em
suas feridas, sua magia fora empurrada demais e suas três costelas quebradas
não queriam se curar.

Quando finalmente acordou em uma cama baixa em uma cabana de cabeça


para baixo no Presente de Noden, encontrou sua tia a seu lado, os cabelos
prateados radiantes como sempre. Seu sorriso carinhoso tremendo de alívio.

— Eu tenho boas notícias. — Ela falou. — Seu sorriso rapidamente


mudando para uma expressão concentrada enquanto colocava sálvia nos
braços de Merik, em seu rosto, e suas mãos. — Os Bruxos em Lovats se
comunicaram com Hermin sem parar o dia todo. Parece que, apesar do ataque
deles a Lejna, os Marstoks querem abrir o comércio. No entanto, eles só
negociarão com você, Merik - e imagino que Vivia esteja espumando pela boca.

— Ah. — Merik suspirou, sabendo que deveria estar feliz. O comércio era
tudo o que ele sempre quis, e agora ele provara que poderia trazê-lo de volta a
Nubrevna.

No entanto, o triunfo tinha gosto de cinzas, e ele não conseguia se


convencer de que valia a pena o custo.

— Onde está ... Iseult? — Ele perguntou, voz fraca.

A expressão de Evrane azedou. — Sua equipe a deixou em Lejna.


Aparentemente, ela convenceu Hermin de que estava bem sozinha, que alguém
viria encontrá-la em um café.

Enquanto Merik tentava entender quem Iseult poderia encontrar, Evrane


descreveu como o príncipe Leopold havia desaparecido do Presente de Noden.
— Um momento, ele estava no bergantim, sob pesada guarda, e no seguinte, sua
cela estava completamente vazia. Tudo o que posso imaginar é que um
Glamourwitch de alguma forma o ajudou a escapar.

Era demais para o cérebro de Merik, cheio de dor. Ele balançou a cabeça,
resmungou alguma coisa sobre lidar com tudo isso mais tarde, e depois se
acomodou em um sono curativo, magicamente induzido.

Dois dias depois - e três dias depois de perder Kullen - Merik finalmente
viajou para a enseada de Nihar. Evrane se separou dele, alegando que tinha que
ir ao Monastério Carawen imediatamente, e Merik não conseguiu passar por
seu orgulho a tempo suficiente para pedir que ela ficasse.

Ela vinha e ia desde que era menino, e por que isso deveria mudar agora?

Então, com Hermin mancando ao seu lado, Merik passou por troncos e
galhos - todos eles cheios de novas explosões de vida. Líquen, insetos, verde,
verde, verde - Merik não conseguia explicar... e ele não pôde deixar de desejar
que Kullen estivesse aqui para ver.

Na verdade, Merik não conseguia parar de pensar em Kullen. Memórias


queimavam atrás de seus olhos, e a perda latejava na base de seu crânio. Mesmo
enquanto observava pássaros vivos mergulharem sobre a enseada, mesmo
quando Hermin a arrastava para o navio de guerra e pescava inexplicavelmente
borrifado nas ondas - tudo isso tinha gosto de cinzas.

A tripulação de Merik estava alinhada no convés principal quando ele


finalmente se arrastou para o Jana. Cada homem usava tiras de linho azul-íris
ao redor de seus bíceps para lamentar seu companheiro caído, e todos fizeram
uma saudação nítida quando Merik passou.

Ele mal notou, no entanto. Havia apenas uma pessoa que ele queria ver, a
única pessoa que entenderia como Merik se sentia.

Ele olhou para Hermin. — Traga Ryber para mim, por favor.

Hermin se encolheu. — Ela se foi ... senhor.

— Se foi? — Merik franziu a testa, essa palavra incompreensível. — Foi


para onde?
— Nós não sabemos, senhor. Ela estava no navio quando chegamos a você
em Lejna, e achamos que estava lá quando alcançamos a enseada de Nihar
novamente. Mas não temos certeza. Tudo o que sabemos é que ela não está no
navio agora.

Ainda assim, Merik franziu a testa - para onde Ryber iria? Por que Ryber
iria?

— Ela deixou uma nota, embora não diga nada sobre para onde foi. Está na
sua cama, senhor.

Então Merik entrou na cabine de capitão, com as costelas gritando o


protesto contra aquela explosão de movimento. Ele deu longos passos quase
correndo para atravessar a sala, onde encontrou seu casaco enrugado sobre o
colchão. Descansando em cima estava um pedaço de papel.

Merik pegou, olhos voando sobre os rabiscos quase ilegíveis de Ryber.

Meu almirante, meu príncipe

Sinto muito ir, mas vou te encontrar de novo um dia. Enquanto eu estiver
fora, você tem que se tornar o rei que Kullen sempre acreditou que você fosse.

Por favor. Nubrevna precisa de você.

Ryber

(Além disso, verifique o bolso do casaco.)

A testa de Merik se apertou com essas últimas palavras. O bolso do paletó?


O acordo comercial.

Merik agarrou seu casaco, mãos tremendo e gentilmente rebocou o


contrato. Na última página, impressões digitais estavam por toda parte, junto
com um rabisco gordo.

Tio,

Não seja tão burro sobre este acordo comercial. O Príncipe Merik Nihar fez
tudo o que pôde para me levar a Lejna ilesa, então.

Merik virou a página.

Se eu me machucar no caminho ou nem sequer chegar a este cais que você


escolheu arbitrariamente, você não poderá culpá-lo. O príncipe Merik e Nubrevna
merecem um acordo comercial com os Hasstrels. Eu te prometo isso, tio: se você
não cumprir este contrato e abrir o comércio com Nubrevna, então eu vou
simplesmente escrever um acordo meu. Será terrível, que dará a Nubrevna toda
a vantagem e todo o dinheiro.

Lembre-se: meu nome carrega o poder e, ao contrário de suas crenças sobre


mim, não me falta inteiramente a iniciativa.

Então, em um roteiro horrendamente descoordenado, havia uma


assinatura:

Safiya fon Hasstrel

Domna da Cartorra
Algo quente arranhou a garganta de Merik. Ele sacou o contrato e viu que
sua assinatura e de Dom Eron ainda estavam lá - enquanto qualquer referência
a "sangue derramado" havia sido removida completamente.

Merik não acreditou. Sua mente estava entorpecida; seu coração parou de
bater. Naquela noite, quando acordou com a mão de Safi no peito, foi por causa
disso. Ela roubou o documento e escreveu nele com cinzas do fogo.

E agora Merik negociava com os Hasstrels. Com Marstok também.

Uma risada silenciosa e histérica subiu em sua garganta. Ele havia perdido
mais do que jamais pensou que pudesse perder, embora houvesse uma certeza
dolorida em seus pulmões.

Lentamente, quase tontamente, Merik sentou-se na beira da cama. Ele


alisou o acordo comercial, seus dedos manchados de preto e colocou-o de lado.

Então Merik Nihar, o príncipe de Nubrevna, baixou a cabeça e rezou.

Por tudo o que ele amou, por tudo o que perdeu e por tudo o que ele - e seu
país - ainda poderiam recuperar.

***

Safiya fon Hasstrel encostou-se no baluarte da Imperatriz do galeão


pessoal de Marstok, com a muleta na mão. O litoral verdejante de terras
reivindicadas por Dalmotti passou e Safi tentou fingir que não estava fervendo
ao sol do meio-dia.

Esta era uma terra de palmeiras e selvas, vilarejos de pescadores


frequentes e umidade suficiente para nadar. Ela queria aproveitar a beleza de
tudo, não derreter no calor miserável.

Centenas de anos atrás, essa terra pertencia a uma nação chamada Biljana.
Ou era o que Safi lembrava de suas sessões de tutoria. Ela sabia que não deveria
acreditar em livros de história agora.

Pelo menos, apesar do calor, seu vestido de algodão branco era


relativamente frio - embora o desconfortável cinto de ferro que apertava sua
cintura não fosse. O ferro era moda em Azmir - sem dúvida porque Vaness havia
feito disso a moda. Ela poderia, afinal, controlar qualquer um que a usasse.

No entanto, mesmo com o cinto, Vaness ainda insistira que Safi também
usasse um colar de aço. Era uma corrente, delicada e fina, mas sem fim e sem
começo. A Imperatriz havia se fundido ao redor do pescoço de Safi, e apesar de
grunhir e se esforçar o máximo que podia, Safi não tinha conseguido arrancá-
la.

Graças aos deuses, porém, que Vaness considerou a Threadstone de Safi


inofensiva.

Com um sorriso torto na paisagem, Safi colocou seu peso em sua muleta.
Seu pé esquerdo estava enfaixado e curado, graças ao esforço conjunto de seis
curandeiros da marinha de Vaness. Aparentemente - como a Imperatriz
insistira continuamente - ela não pretendia magoá-la tanto. Safi era
simplesmente muito valiosa (como disse Vaness) para qualquer “tratamento
difícil”, e a vida de Safi nunca esteve em risco em Lejna.

A magia de Safi havia lhe dito que isso não era verdade, mas ela deixaria as
mentiras deslizarem.

Passos saíram atrás de Safi e a Imperatriz de Marstok deslizou para o lado


dela. Seu vestido de algodão preto virou ao vento - uma homenagem aos dezoito
somadores e marinheiros que haviam se partido em Lejna. Vaness iria realizar
um memorial quando chegassem ao seu palácio em Azmir.

— Tenho novidades para você. — Disse ela, falando em Marstok. — A


Trégua de Vinte Anos acabou. — Vaness não mostrou reação, acrescentando:
— Cartorra já prepara seu primeiro ataque, para tentar recuperá-la. Então,
vamos esperar - ela ergueu uma sobrancelha única e fria - que você tenha valido
a pena, Truthwitch.

Ela ofereceu um sorriso inescrutável e sem emoção. Então, sem outra


palavra, a Imperatriz de Marstok recuou o caminho por onde viera.

E Safi afundou em sua muleta, atordoada. Perdida. Ela não sabia se deveria
rir em voz alta ou soluçar histericamente, pois era exatamente isso que seu tio
Eron - e todos os outros em seu esquema - haviam tentado evitar, não era? A
Trégua dissolveu-se cedo; agora não haveria paz.

E Safi certamente não estava ajudando os planos de seu tio ao se aliar a


Vaness - e, portanto, a todo o Império de Marstok. No entanto, ela se recusou a
sentir culpa ou arrependimento por suas escolhas recentes. Pela primeira vez
em sua vida, Safi havia esculpido seu próprio caminho. Ela tinha jogado suas
próprias cartas e não havia ninguém para guiar sua mão além dela mesma.

Uma mão que incluía a Imperatriz e a Bruxa, ela pensou caprichosamente


- embora pensar em tarô a fizesse pensar no Trapaceiro Cinzento ... e isso só a
irritou. Ela conseguiria seu dinheiro de volta dele um dia.

Com a testa franzida, Safi tirou sua Threadstone. O rubi cintilou ao sol e, ao
ver as fibras de coral ao redor da rocha, ela se sentiu menos sozinha. Ela gostava
de fingir que Iseult, onde quer que estivesse, também segurava a sua
Threadstone.

Safi podia não estar com sua irmã, ou não estar comprando uma casa na
cidade de Veñaza, e ela podia tecnicamente ser uma prisioneira, mas não sentia
medo do que estava por vir.

Possuía todo esse treinamento físico, Merik havia dito, além de uma magia
que os homens matariam. Pense em tudo que você poderia fazer. Pense em tudo
que você poderia ser.

Safi suspirou, uma expiração completa que soltou algo apertado de dentro
de seu peito e enviou seu coração se desenrolando de um jeito que nunca sentiu
antes - de uma maneira que diminuiu suas pernas saltitantes. Parando-as
completamente.

Porque agora ela sabia o que poderia fazer - o que ela poderia ser. Ela
conseguiu o contrato com Merik e venceu as negociações com Marstok também.
Ela tinha dobrado o mundo e moldado em algo melhor.

A magia de Safi zumbia, feliz e calorosa com aquela verdade, e depois de


deixar a sua Threadstone atrás do vestido, ela abriu os braços, deixando sua
cabeça recuar.

Então Safiya fon Hasstrel se divertiu com o sol em suas bochechas. Com o
calor na ponta dos braços dela.

E com o futuro que a esperava em Marstok.

Continua...