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Mesmo com mais de 120 anos

Neste álbum da coleção Clássicos em HQ, Fernan-


de idade, Fernando Pessoa é um
do Pessoa, considerado uma das mais importan-
ELOAR GUAZZELLI é ilustrador, quadrinista, diretor
ícone pop. A curiosidade sobre a tes expressões da língua e da literatura portugue-
de arte para animação e wap designer. Mestre em sa depois de Camões, é apresentado a partir de
Comunicação pela ECA-USP, atua como quadrinista heteronímia ultrapassa fronteiras sua obra e de documentos, como a “Carta da gê-
desde a década de 1990 e tem trabalhos publi­
cados em revistas da Argentina (Fierro e Lápiz e vence as barreiras do tempo. nese dos heterônimos”, escrita em 1935, alguns
meses antes de sua morte, na qual explica ao ami-
Japonés) e da Espanha (Ojo Clínico). No Brasil, Talvez multiplicar­‑se em muitos seja go Adolfo Casais Monteiro o nascimento e vida de
publicou Túnel de letras, O rei de pedra, O primeiro seus principais heterônimos: Alberto Caeiro, Ricar-
dia, entre outros livros. Foi premiado no Yomiuri mesmo a única maneira de conseguirmos
– em quadrinhos –
do Reis e Álvaro de Campos, e do semi-heterônimo
International Cartoon Contest (1991) e no Salão
nos encontrar com alguma essência. Bernardo Soares.

EU, FERNANDO PESSOA EM QUADRINHOS


Internacional de Piracicaba em 1991, 1992 e 1994.
Em dezembro daquele mesmo ano, o ponto de
Neste último ano, recebeu também o troféu HQ Mix Teria Fernando feito isso inadvertidamente,
partida dessa narrativa, o poeta faz uma peque-
na categoria Desenhista Revelação. Além desses,
como conta na célebre carta enviada ao
Susana Ventura
na mala de viagem, levando consigo Sonetos de
recebeu inúmeros outros prêmios em festivais de
Bocage e umas poucas roupas, para ir ao Hospital
cinema, salões de humor e bienais de quadrinhos amigo Adolfo Casais Monteiro? Nunca
e
São Luís dos Franceses, onde viria a falecer. Na
dentro e fora do Brasil, e participou de exposições
saberemos a resposta exata, e talvez isso imaginação da roteirista e no traço do quadrinis-
em diversas partes do mundo.
não seja mesmo o mais importante. O que nos
Guazzelli ta, o clima lisboeta frio e chuvoso dessa cena foi
pontuado pelo poema “Chuva oblíqua”, essencial
na obra pessoana.
resta (e não é pouco!) é encontrar Fernando
O poeta chega ao hospital e uma volta no tempo
Pessoa nos belos desenhos de Guazzelli, guiados nos conduz ao mês de janeiro novamente, quando
escreve ao amigo a carta sobre si mesmo e sua
pelo inteligente roteiro de Susana Ventura. obra. A partir daí, os heterônimos aparecem e se
Deixemos­‑nos conduzir então por mãos firmes apresentam, tanto nos poemas selecionados por
Susana Ventura como no traço às vezes rascu-
SUSANA VENTURA é doutora em Estudos Compa- ao mundo maravilhoso da arte pessoana. nhado, às vezes detalhadamente trabalhado de
rados de Literaturas de Língua Portuguesa pela
Eloar Guazzelli. Para completar a viagem, a notícia
­Universidade de São Paulo. Como professora e
póstuma escrita pelo poeta Luís de Montalvor e
pesquisadora das literaturas de língua portugue-
Maurício Soares Filho publicada em Portugal no tradicional Diário de No-
sa, tem trabalhado em diferentes universidades
tícias, no dia seguinte ao da morte do poeta, lem-
brasileiras, portuguesas e francesas, ministran-
bra o leitor que “Se Fernando Pessoa morreu, se

SUSANA VENTURA e GUAZZELLI


do­cursos e palestras. Além disso, atua ao lado
a matéria abandonou o corpo, o seu espírito não
de atores, músicos, grafiteiros, artistas plásticos ASSISTA AO CURTA abandonará nunca o coração e o cérebro dos que
e videoartistas em atividades que buscam l­evar
o admiravam”. 
a lite­ratura a um grande número de pessoas.
­Pesquisadora ligada do Centro de Literaturas e O roteiro de Susana guia o leitor pelas imagens
Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade labirínticas do desenhista Guazzelli, que demons-
de Lisboa (CLEPUL) e do Centro de Pesquisas so- tra que também ele sabe se perder e se encontrar
bre os Mundos Ibéricos Contemporâneos (­ CRIMIC), nas multifacetadas personalidades artísticas de
da Sorbonne (Paris IV). Autora de Convite à nave- Pessoa para reconstruir mundos com múltiplos
gação: uma conversa sobre literatura portugue- EU, FERNANDO PESSOA, estilos e técnicas. Diferente uma visão fragmen-
sa e Viagem pela Literatura Portuguesa: leituras POR GUAZZELLI tada da biografia e da obra do poeta, o leitor terá
­sugeridas (ambos pela Editora Peirópolis). aqui uma viagem completa e criativa, bem como
elementos essenciais para compreender um dos
maiores autores do século XX.

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– em quadrinhos –

Susana Ventura
e
Guazzelli

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Pessoa de todos e de cada um,
sem tempo e sem idade

Levar aos leitores um livro que tem Fernando Pessoa e a sua obra de mil rostos
como personagens centrais é uma forma de celebrar a magia da palavra, o prodígio
e o mistério da criação e, naturalmente, a própria poesia.
Todos os grandes poetas portugueses sonharam, de uma forma ou de outra, ser
­super Camões, reinventado a épica e a lírica de uma existência luminosa que
­continua a resumir, na grandeza e na inquietação, o essencial da “portugalidade” e
do destino dos portugueses no mundo.
Fernando Antônio Nogueira Pessoa, nascido no dia 13 de junho – Dia de Santo
­Antônio –, de 1888, morreu em 1935 praticamente inédito e desconhecido, mas
com uma arca imensa onde foi guardando milhares de originais que, à medida que
foram alcançando a luz do dia, o confirmaram como um dos mais geniais criadores
poéticos de toda a tradição ocidental, para usar uma expressão de Harold Bloom.
Eterno viajante imóvel, Pessoa viajou sobretudo à proa das palavras, com as quais
conseguiu construir um teatro inteiro de personagens, vozes e emoções, que trans‑
cende, no fulgor e na grandiosidade, qualquer existência comum. Fernando Pessoa
foi imenso e tornou­‑se eterno, e quanto mais o lemos e redescobrimos, mais nos
descobrimos a nós próprios e às nossas inquietações, sonhos e mistérios. Com ele
e por ele tornamo­‑nos senhores do nosso próprio desassossego, que tanto pode ser
um livro como um périplo ulissiano em busca de um sentido para a vida.
Este Eu, Fernando Pessoa em quadrinhos, com roteiro de Susana Ventura e ­desenhos
de Guazzelli, é uma conseguida abordagem do universo pessoano, com opção por
uma estética que o coloca ao alcance de um vasto público, com natural destaque
para o mais jovem, que se sente mais envolvido quando o suporte comunicacional
é a imagem. Num país como o Brasil, onde a paixão pela obra do poeta dos heterô‑
nimos não tem limite nem conhece esmorecimento, esta é mais uma aposta certa
de Renata Borges e da Peirópolis, no quadro de uma estratégia editorial moderna,
abrangente e capaz de atrair públicos diversificados, fazendo também a ponte com
a boa literatura que se produz em Portugal.
A atualidade da obra do autor de O livro do desassossego é cada vez mais tocante
e evidente, porque tem a universalidade e a intemporalidade que a fazem ser de
todos nós sem deixar de ser de cada um, tal como o patrimônio dos heterônimos,
eternamente de Pessoa e do mundo.

JOSÉ JORGE LETRIA


Abril de 2013

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Novembro de 1935, Rua Coelho da Rocha, 16 – 1º Direito, Campo de Ourique, Lisboa.

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“Chuva oblíqua” – Fernando Pessoa

Atrave ssa esta paisage m o meu


sonho dum porto infinit o

Que largam do cais arrasta ndo


nas águas por sombra

E a cor das flores é


transpa rente de as
velas de grande s navios

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Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido

Mas no meu espíri to o sol deste


E esta paisagem é cheia de
dia é porto sombr io
sol deste lado...

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E os navios que saem do porto são
estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandone i­‑me da paisagem abaixo...

O vulto do cais é a estrada


nítida e calma

Que se levanta e se ergue como um muro,


E os navios passam por dentro dos troncos das árvores

Com uma horizontalidade


vertical,

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E deix am cair
ama rra s na águ a
pel as fol has uma a
uma den tro ...

Não sei quem me


sonho...

Súbito toda a água do mar do porto é transpare nte


e vejo no fundo, como uma estampa enorme
que lá estivesse desdobrad a,

Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em


aquele porto,

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mais antiga que o porto
E a sombra duma nau
que passa

Entre o meu
sonho do porto e
o meu ver esta paisagem

E che ga ao pé de mim ,
e ent ra por mim den tro ,

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