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Módulo 6

3. Evolução democrática, nacionalismo e imperialismo

3.1. As transformações políticas

O aperfeiçoamento do sistema liberal no mundo ocidental, desde as últimas


décadas do século XIX

Desde o século XVIII, foi implantado um sistema liberal moderado em vários países da Europa,
nomeadamente em Portugal, na Grã-Bretanha, na França e na Bélgica. Tratava-se, nesses países, da
eliminação dos regimes absolutistas e da sua substituição por monarquias constitucionais. Instaurava-se a
soberania nacional, pois os cidadãos activos eram representados em assembleias legislativas.
A partir do terceiro quartel do século XIX, surgiu um novo entendimento do sistema liberal que daria origem
às democracias representativas (demoliberalismo):
1. Alguns países substituíram o sistema monárquico por um regime político republicano, no qual o chefe de
Estado e representante do poder executivo é eleito periodicamente (por exemplo, Portugal, em 1910).
2. O sufrágio censitário (voto reservado apenas aos detentores de um patamar mínimo de rendimentos) foi
substituído pelo sufrágio universal, que abarcava os cidadãos maiores de idade. A soberania nacional dava
lugar à soberania popular. No entanto, o voto das mulheres, dos negros e dos analfabetos foi, em geral, uma
conquista difícil.
3. Para aperfeiçoar o sistema representativo, a idade do voto foi antecipada (para os 21 anos,
habitualmente), o voto passou a ser secreto e os cargos políticos passaram a ser remunerados (abrindo
caminho à entrada das classes médias e do operariado na vida política).

Os Estados autoritários da Europa Central e Oriental


Enquanto a Europa Ocidental e os EUA aprofundavam os regimes liberais, na Europa Central e Oriental a
estagnação económica prevalecente era acompanhada pelo imobilismo político. Durante o século XIX, e até
ao desmembramento dos impérios resultante do final da I Guerra Mundial, existiam quatro grandes estados
autoritários na Europa:
1. O Império Alemão (II Reich, desde 1871), governado pelo kaiser Guilherme II.
2. O Império Austro-Húngaro, governado pelo imperador Francisco José.
3. O Império Russo, governado pelo czar Nicolau II.
4. O Império Otomano, governado pelos sultões da dinastia otomana.
Estes impérios tinham características comuns: eram Estados autocráticos (o imperador detinha o poder
absoluto ainda que, por vezes, camuflado pela existência de Constituições e do sufrágio), conservadores
(mantinham intocados os privilégios da nobreza e do clero) e repressivos (reprimiam a oposição política e as
revoltas nacionalistas que ocorriam dentro do território).

A submissão das nacionalidades nos Estados autoritários


Sob a aparente unidade conferida por um imperador, um governo, um exército e uma religião oficial, estava
a sujeição das minorias étnicas. O Império Alemão dominava, por exemplo, os polacos; o Império Russo, na
sua enorme extensão, abarcava, nomeadamente, os Finlandeses e os Ucranianos; o Império Austro-
Húngaro era composto por povos eslavos que não reconheciam a supremacia de Francisco José.

As aspirações de liberdade nos referidos Estados


Por várias razões – de ordem linguística, histórica, religiosa – vários povos não se sentiam integrados no
Estado imperial a que pertenciam e, como tal, desencadearam movimentos de libertação. Umas vezes
vitoriosas (independência da Grécia, em 1830), outras vezes fracassadas (rebelião polaca de 1830-31), as
lutas pela emancipação prosseguiram ao longo do século XIX. No início do século XX, a repressão do
princípio das nacionalidades e a luta por áreas de influência por parte dos impérios acabaria por gerar focos
de tensão que conduziriam à 1ª Guerra Mundial.

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O processo de unificação nacional levado a cabo por italianos e alemães na 2.ª
metade do século XIX
Unificação italiana (1861) – em meados do século XIX, a Itália era um conjunto de sete Estados. Embora as
correntes nacionalistas se viessem a expandir desde o século XVIII, a ideia de um Estado único enfrentava a
oposição dos Austríacos, que dominavam os Estados do Norte e Centro, e a desconfiança do Papa, detentor
dos vastos Estados da Igreja.
A unificação partiu da iniciativa do Reino do Piemonte-Sardenha, porque era o Estado onde o Liberalismo se
encontrava em expansão, quer a nível económico (era o mais industrializado do território italiano), quer a
nível político (vigorava a monarquia constitucional do rei Vítor Manuel II, favorável às ideias liberais).
As figuras-chave da unificação foram o primeiro-ministro Cavour, que defendeu a integração de Roma na
Itália unificada (mas salvaguardando a independência do Papa) e Garibaldi, conquistador do Reino das Duas
Sicílias. Graças ao apoio da França de Napoleão III, os Austríacos foram vencidos em batalha e Vítor
Manuel II tornou-se rei de Itália.

Unificação alemã (1871) – em 1850, o território alemão era composto por 39 Estados autónomos, embora
ligados pela Confederação Germânica, criada pelo Congresso de Viena (1815).
A unificação foi impulsionada pela Prússia (o Estado mais industrializado) que já havia derrubado as
barreiras alfandegárias entre alguns dos Estados em 1828 (aliança que tomou o nome de Zollverein).
Os principais obreiros da unificação foram o rei Guilherme I da Prússia e o chanceler do rei Otto von
Bismark. A unidade alemã foi conseguida pelas armas, primeiramente contra a Áustria, na Guerra dos
Ducados, para integrar os territórios do Norte e Centro, e depois contra a França de Napoleão III, em 1870-
71, para dominar os Estados do Sul.
A unificação, sob a forma de um Império com 25 Estados – o II Reich - consumou-se 1871, sob o reinado do
kaiser Guilherme I.
A unificação da Itália e a da Alemanha exprime claramente o nacionalismo oitocentista, pois cumpriu,
simultaneamente, dois objectivos: ligar povos com uma tradição comum e satisfazer interesses económicos.
A integração de territórios ricos em matéria-prima para a indústria (caso da Alsácia e Lorena, anexadas pelo
Império Alemão) e a conquista de colónias para escoar os produtos industriais não foram alheios aos
anseios nacionalistas do século XIX.

3.2. Os afrontamentos imperialistas: o domínio da Europa sobre o Mundo

As zonas de expansão europeia entre fins do século XIX/ início do século XX


Grã-Bretanha – acalentava o projecto de dominar o território africano do Cairo ao Cabo; ocupava os
territórios da índia, da Austrália, do Canadá; exercia influência sobre a China e recebera, como concessão,
Hong-Kong, em 1842.
França – ocupou territórios no Norte e Centro africanos (por exemplo, Marrocos, a Argélia, a Tunísia), na
Ásia (Indochina) e na América (Antilhas francesas, nomeadamente).
Império Alemão – possuía territórios em África (por exemplo, SE e SO alemão) e exercia influência na Ásia
Menor e na Península Arábica.
Rússia – o Império Russo expandiu-se por províncias como a Geórgia, e o Azerbaijão e procurou estender a
sua influência ao Extremo Oriente.

Os conceitos de imperialismo e colonialismo


A expansão europeia inscreve-se numa estratégia de controlo de uma vasta extensão territorial com vista à
satisfação das necessidades económicas das metrópoles e à afirmação de uma pretensa superioridade
cultural.
O caso mais evidente de imperialismo e de colonialismo ocorreu relativamente à ocupação do continente
africano. Na Conferência de Berlim (1884-85), os chefes de Estado europeus repartiram, entre si, o território
africano sem atender às fronteiras definidas pelos povos autóctones e impuseram o seu domínio a todos os
níveis (económico, cultural, político, militar). Definiram que a colonização só poderia assentar no princípio de
ocupação efectiva, isto é, já não bastava ter descoberto ou conquistado determinado território para ter direito
a possuí-lo (direito histórico), era preciso que os países europeus mostrassem que eram capazes de
"assegurar, nos territórios ocupados por eles no continente africano, a existência de uma autoridade
suficiente para fazer respeitar os direitos adquiridos".

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O imperialismo
A formação de impérios pelas potências europeias explica-se, em primeiro lugar, no contexto da expansão
industrial, que necessitava de matérias-primas para a produção maquinofacturada e de mercados para
escoar os excedentes.
Em segundo lugar, o continente europeu, em fase de explosão populacional, precisava de colónias para
aliviar a pressão demográfica.
Por último, os anseios nacionalistas que acompanharam a criação das democracias europeias tinham uma
vertente imperialista. O nacionalismo carregava a ideia de conquista: pangermanismo, pan-eslavismo eram
vocábulos correntes na época, utilizados para transmitir o desejo de expansão imperialista de um povo
traduzida no prefixo pan (vocábulo de origem grega que significa tudo ou todo).

Algumas rivalidades imperialistas


França / Império Alemão – A oposição da França à Alemanha explica-se, por um lado, pela disputa da
Alsácia e Lorena, território perdido para a Alemanha em 1871, e, por outro lado, pelo desenvolvimento do
novo Império Alemão que retirou à França parte da preponderância económica que esta detinha sobre a
Europa. Em contrapartida, a França conseguiu dominar grande parte do Norte de África.
Império Russo / Império Austro-Húngaro – A rivalidade entre o Império Austro-Húngaro e o Império Russo
justifica-se, nomeadamente, pela disputa da influência nos Balcãs.
Império Russo/ Japão – As ambições do Império Russo no Extremo Oriente colidiam com o imperialismo
japonês, o que acabou por provocar, em 1904-1905, a guerra russo-japonesa, de que saiu vitorioso o Japão
(o regime político autocrático russo sofreria o primeiro grande abalo, não por coincidência, com a revolta de
1905, reprimida pelas tropas czaristas).

O clima de "paz armada"


A tensão gerada pelas rivalidades económicas levou os Estados europeus a procurarem aliados:
1879 - Dupla aliança (Alemanha e Áustria-Hungria);
1882 - Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália);
1907- Tríplice Entente (França, Rússia, Grã-Bretanha).
A política de alianças era complementada por uma corrida aos armamentos.
Em 1908, a Áustria-Hungria anexou a Bósnia-Herzegovina, gerando protestos da Sérvia, a qual pretendia
desempenhar um papel influente nos Balcãs (panservismo). Em 1914, quando o herdeiro ao trono austro-
húngaro foi assassinado na Bósnia, a suspeita de que a Sérvia pudesse estar envolvida nesse acto levou o
imperador Francisco José da Áustria-Hungria a declarar guerra à Sérvia. Era o fim da paz armada e o início
da Primeira Guerra Mundial.

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