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Cézanne: A Pintura como

Exercício Mental
Ver, perceber, sentir, mostrar, expressar e expressar-se pela
pintura: um longo e virtuoso trajeto que parece possível nos últimos
anos do século XIX. Imaginar a pintura, transformar a passividade e
a contemplação do espectador em questões que não podem ser
resp0ndidas com palavras, senão com atos de reflexão sobre a
pintura, e o espaço pintado começa a ser viável a partir do esforço
criador de Paul Cézanne.

Foi difícil para ele. Seus contemporâneos nunca compreenderam o


caminho que ele iniciava com tanta dificuldade: tratava-se de
deslocar o prazer visual, a aprovação da habilidade de um pintor
diante de seu modelo e de sua capacidade de apreciar a realidade,
para a reflexão sobre o fato pictórico.

E, ao mesmo tempo, estabelecer o sentido desse ato: já não era a


realidade exterior ao pintor nem a possibilidade de interpretá-la à
luz da visão subjetiva, mas trabalhar “a partir de…”, a partir dos
objetos, das pessoas, da natureza, conforme acreditava Cézanne.

Esse trabalho passa primeiro por uma longa observação e


transporta-se ao espaço da pintura, uma superfície delimitada e
bidimensional. É o contrário do panorama da realidade, que, por
natureza, é ilimitado, configura-se em volumes, ocupa espaços,
inter-relaciona-se com múltiplas situações e referências e encontra-
se rodeado de luzes mutantes. Sobre a tela branca nada existe com
anterioridade ao gesto e à vontade do pintor.

Na operação de observar a complexidadeda realidade para reduzi-la


ao novo espaço – a tela – o pintor realiza um processo de síntese,
outro de seleção de formas e valores para cobrir a tela, mas não de
forma descontrolada: é preciso estabelecer uma ordem, decidir no
plano quais as linhas que configuram a trama estrutural e, depois,
definir a prioridade e a relação dos valores inseridos
equilibradamente na superfície. A essa operação Cézanne
denominou “construir” por meio de linhas e “modular” mediante a
cor.

É evidente que esse novo processo situa a pintura não como um ato
de reprodução mais ou menos acertada da realidade de que serve
de modelo, mas como uma ação executada num espaço próprio,
que atua de suporte da pintura sem sujeição ao modelo; o da
realidade pictórica, que é o exercício livre do pintor sobre um plano,
usando e dispondo formas, cores, linhas e matizes. Trata-se de
libertar a pintura das limitações impostas pelo modelo, seja a
realidade natural, humana ou sobrenatural. Trata-se também de
conferir ao pintor a responsabilidade de sua decisão sobre o fato
pictórico, já que o plano no qual se desenvolve a pintura não tem
porque ser uma substituição falsa da realidade nem uma simulação.

Compreender que por trás da tela não há nada, que os limites


geométricos da superfície cujo tamanho o pintor decide livremente
não são nem podem ser naturais, que o fato de pintar é justamente
cobrir a tela com pintura, rompe com toda a sorte de ficções sobre o
ato de pintar. Além disso, situa o espectador não diante do autor
virtuoso e hábil na reprodução de um modelo, mas diante do pintor
que propõe e decide sua visão da pintura.

Devemos a Paul Cézanne não apenas essa visão como todo o


esforço para chegar a ela, para restabelecer o difícil processo de
conscientização sobre a pintura, de libertá-la do visualmente
atraente para estabelecê-la como elemento dialogante com o
espectador, que já não pode ser juiz dos acertos da representação,
mas deve ser transformar em alguém capaz de pensar a pintura,
entendê-la nela mesma, em sua forma interna de ser e de existir.
Ou seja, a partir de ordens puramente pictóricas: equilíbrio,
construção, ordem, relação entre fundo e forma, sentido plano,
movimento virtual, matiz de cor, entonação, compensação. Com
Cézanne pensamos a pintura. Pintar, dali em diante, poderá ser um
exercício mental.

Autora: Teresa Camps – Professora Titular de História da Arte da


Universidade Autônoma de Barcelona.

Publicado em: Grandes Mestres da Pintura – Folha de São Paulo.