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Transcrição  do  ensinamento  oferecido  em  vídeo  por  Roshi  Joan 

Halifax  para  o  ciclo  “Mãos  e  Olhos”  de  estudo  e  práticas  de 


compaixão,  na  comunidade online o
​ lugar.org​. ​Tradução, edição do 
texto  e  arte  da  capa  por  F
​ ábio  Rodrigues.​   ​Assista  ao  ​vídeo  aqui 
(clique em “CC” para ativar as legendas).  

Mãos e Olhos da Compaixão  

Olá,  meu  nome  é  Joan  Halifax.  Sou  Abade  do  ​Upaya  Zen  Center  em  Santa  Fé, 
Novo  México.  Estou  grata  por  estar  aqui  com  vocês  hoje  e  estou  aqui  para 
explorar algumas perspectivas e práticas de compaixão. 

E  pensei  que  seria  interessante  começar  com  um  koan  com  o  qual  muitos  de 
nós,  que  praticamos,  estamos  familiarizados,  ele  é  como  um  velho  amigo  para 
nós.  E  também  é  para  entendermos  que  koans  são  uma  maneira  de  termos 
nossos  próprios  corações-mentes  revelados.  E,  particularmente,  que  em  um 
certo  ponto  na  relação  e  interação  com  nosso  professor,  pode-se  explorar  este 
caso público de uma forma bem acurada.  

Este  koan  vem  do  ​Registro  do  Penhasco  Azul  (​Blue  Cliff  Record)​ ,  uma  grandiosa 
coleção  de  koans.  Este  é  o  koan  número  89  da  coleção.  E  também  está  no  ​Livro 
da  Serenidade  (​Book  of  Serenity)​ ,  está  incluído  nessa  coleção,  e  é  o  caso  54.  Se 
chama  "Através  do  corpo,  mãos  e  olhos".  Então,  ele  é  uma  interação  entre 
provavelmente  dois  irmãos,  um  irmão  mais  velho  e  um  mais  novo,  mestres  Zen 
muito bem conhecidos. E ele é assim:  

Yunyan, o irmão mais novo, faz a pergunta: 


 
—O que o Bodisatva da grande compaixão faz com tantas mãos e olhos? 
 
E seu irmão mais velho, ou professor, Daowu responde: 
 
—É como alguém ajustando seu travesseiro à noite. 
 
Então Yunyan diz: 
 
—Ah, eu entendo. 


 
Daowu responde: 
 
—Bem, o que você entende? 
 
Yunyan diz: 
 
—Em todo o corpo, mãos e olhos. 
 
E Daowu diz: 
 
—Bem, você acertou 80%." 
 
Yunyan diz: 
 
—Bem, e quanto a você? 
 
E Daowu responde: 
 
"Através do corpo, mãos e olhos." 

Avalokiteshvara de mil braços, detalhe de mural no Templo Caminho do Meio, em Viamão, RS, Tiffani Gyatso 


Bodisatva Avalokiteshvara 

Talvez,  para  alguns de nós, este koan intrigante nos paralise um pouco. Podemos 


explorar  este  parar.  Estar  intrigado  é  uma  boa  coisa.  É  uma  coisa  boa  de  se 
experimentar.  Mas  também  podemos  refletir  sobre  o  que  queremos  dizer  com 
um  ​bodisatva​,  que  é  uma  espécie  de  arquétipo.  Uma  qualidade  da  mente  que 
exemplifica  o  altruísmo,  empatia,  integridade,  respeito,  comprometimento  de 
todo o coração, e compaixão. 

Este  ser,  este  arquétipo,  é  um  ser  que  fez  o  voto  para  voltar vida após vida a fim 
de  servir os outros, a fim de transformar o sofrimento dos outros. É uma imagem 
muito  importante.  É  um  arquétipo  muito  importante  no  nosso  tempo,  em  que 
estamos  diante  de  um  mundo  que  é  muito  frágil,  de  muitas  maneiras.  E  em 
qualquer  caso,  o  arquétipo  do  bodisatva  pode  se  manifestar  como  sabedoria  ou 
altruísmo, coragem… 

Avalokiteshvara  tem  qualidades  muito  particulares,  incluindo  a  capacidade  de 


escutar profundamente, de ouvir profundamente o sofrimento deste mundo. 

Avalokiteshvara  também  é  frequentemente  representado  com  mil  braços  nos 


quais  há  mil  mãos,  e  cada  mão  tem  um  olho.  As mãos representam meios hábeis 
e  os  olhos  simbolizam  a  sabedoria.  E  Avalokiteshvara  exemplifica  essa 
capacidade de integrar profundamente meios e sabedoria.  

Então,  no  koan,  Yunyan  pergunta  "O que o bodisatva faz com todas essas mãos e 


olhos?".  E  Daowu  não  dá  uma  resposta  convencional.  Na  verdade  ele  vai  um 
pouco  mais  fundo  na  expressão  da  compaixão  e  sabedoria,  nesta  imagem  de 
ajustar o travesseiro à noite. 


 
 
”Bodisatva Avalokiteshvara de mil braços de pé”, escultura de Enku (1632–1695), Japão


Resposta natural 

E  há  algo  de  muito  poderoso  nessa  imagem  porque  de  certa  forma,  quando  se 
ajusta  o  travesseiro  à  noite,  não  há  eu,  não  há  outro,  há  apenas  esta  resposta 
natural.  E  esta  ausência  de  cálculo  ou  pensamento,  e  mesmo  de  um  resultado  é 
algo  para  tomarmos  nota.  Eu  me  lembro  de  uma  passagem  de  Shantideva  no 
Guia  do  Estilo  de  Vida  do  Bodisatva  onde  diz:  “Se  houver  um  espinho  no  pé,  a 
mão vai imediatamente tirar o espinho do pé.” 

É  desse  tipo  de  naturalidade  de  que  estamos  falando  quando  estamos 
explorando  a  compaixão.  Então  o  que  o  Daowu  está  sugerindo?  Eu  acho  que  de 
uma  forma  muito  bonita  ele  está  usando  algo  tão  comum  como  ajustar  o 
travesseiro  à  noite...  Da  próxima  vez  que  você  arrumar  o  seu  travesseiro,  você 
pode  ter  este  momento  de  reflexão,  do  quão  espontâneo  ou  automático  é  este 
ajuste.  Daowu  estava  sugerindo,  acho  que  de  uma  forma  interessante  que 
estender  a  compaixão  é  na  verdade  uma  experiência  não-dual.  E  então  ele 
começa a sondar um pouco mais com Yunyan. 

Ele  diz  "Bem,  está  certo,  você  parece  entender..."  mas  sugere,  "O  que  você  está 
realmente  vendo?".  E  Yunyan  diz,  "Oh,  no  corpo  todo,  mãos  e  olhos."  E  Daowu 
disse,  "Bem...",  e  provavelmente balançou a cabeça ou talvez ajeitou suas vestes… 
Mas  ele  disse,  "Bem,  isso  é  80%."  Então  Yunyan  vira-se  para  ele  e  diz,  "E  você? 
Qual  é  a  sua perspectiva?". E o Daowu diz, "Através do corpo todo…”, “Através do 
corpo, mãos e olhos." 

Então  esta  imagem  de compaixão é realmente fascinante. Não é algo externo. Na 


verdade,  Daowu  está  indicando  que  a  compaixão  é  intrínseca  a  quem  você  e  eu 
realmente  somos  através  do  corpo  todo.  Agora,  talvez,  tenhamos  esquecido  de 
quem  realmente  somos.  Talvez  tenhamos  nos  separado  de  quem  nós  realmente 
somos.  Mas  Daowu  aponta  através  do  corpo,  as  próprias  veias  e  os  nervos  de 
nossa vida inteira são manifestações de compaixão. 


 
”Mãos da compaixão”, pintura de Mayumi Oda, Havaí 


Corpo de atenção 

Assim,  no  sentido  geral,  a  compaixão  refere-se  a  essa  experiência  de  encontrar 
com  o  sofrimento  de  outro  e  realmente  ter  esta  profunda  aspiração  para 
transformar  esse  sofrimento.  A  compaixão  envolve,  fundamentalmente,  a 
capacidade  de  comparecer  à  experiência  dos  outros.  De  estar  presente,  de 
presenciar,  de  trazer  sua  atenção,  incluir  a  sua  subjetividade  para  que  a 
experiência dos outros possa entrar no seu corpo atencional, na sua presença. 

Interesse pelos outros 

A  compaixão também envolve a nossa capacidade de verdadeiramente sentirmos 
interesse  pelos  outros.  Então,  não  é  uma  experiência  em  que  percebemos  o 
sofrimento  dos  outros,  mas  não  nos  sentimos  interessados.  Na  verdade,  não  é 
raro  perceber  o  sofrimento  dos  outros  e  não  sentir  interesse.  Por  isso,  a 
compaixão  envolve especificamente a nossa capacidade de sentir interesse pelos 
outros,  e  muitas  vezes  isso  acontece  através da experiência de empatia, de estar 
em  ressonância  com  os  outros,  mas  também  está  combinado  com  a experiência 
do  cultivo  de  ​Bodicita,​  este coração desperto que realmente está conectado com 
a  aspiração  de  transformar  o  sofrimento  quando  nós  o  encontramos  nas  nossas 
próprias vidas e no mundo. 

O que servirá 

Então,  a  compaixão  envolve  nossa  capacidade  de  realmente  ter  a  sensibilidade 


do  que  vai  servir  aos  outros.  Porque  querer  transformar  o  sofrimento,  e 
perceber  o  sofrimento,  não  é  suficiente.  Precisamos,  de  fato,  ter  a  estabilidade 
atencional  e  a  sabedoria  para  sentir  o  que  realmente  vai  servir  aqui.  Então  a 
compaixão  muitas  vezes  envolve  ação  direta.  E  mesmo  que  não  possamos  fazer 
nada,  temos  a aspiração, o desejo profundo de que aquele que está sofrendo será 
de fato, aliviado do sofrimento.  


 
Nachi Taisha, Kumano, Japão. Santuário Shinto de Hiryū Gongen. 
A cachoeira é reverenciada como uma manifestação de Avalokiteshvara na natureza 


Aspiração profunda 

Lembro-me  que  há  anos  vi  uma palestra de Matthieu Ricard onde ele descreveu: 


se  você  estivesse  em  um  avião,  em  uma  pequena aeronave. Você olha para baixo 
e  há  um  grande volume de água. E você vê um ser humano se debatendo na água 
lá  embaixo.  De  repente,  você  percebe  o  sofrimento.  Você  se  sente  preocupado 
com  o  sofrimento,  você  tem  o  coração  para  realmente  se  importar  com  o  que 
acontece  com  esta  pessoa.  E  você  percebe  que há um enorme nevoeiro que está 
escondendo  a  terra  a  cem  metros  de  distância da pessoa que está se debatendo. 
E você não pode fazer nada sobre isso. 

Você  está  no  avião  e  a  caminho  de  algum  lugar,  Zanzibar,  Los  Angeles,  e  não 
pode ajudar diretamente. Mas você tem essa aspiração, o desejo profundo de que 
quem  está  lá  em  baixo,  se  debatendo  na  água,  perceba  que  a  costa  está  perto. 
Então,  isso  nos  proporciona  um  pouco  do  sentido,  um  pouco  mais  de  perfil  em 
relação ao que é a compaixão.  

Compaixão referencial 

Existem  três  variações  da  compaixão  que  são  muito  interessantes  de  explorar. 
Elas  incluem  a  compaixão  comum.  A  compaixão  comum  é  como  quando  você  é 
um  médico tratando alguém que está sofrendo de dor intratável. Seu papel como 
médico  é  acabar  com  a  dor  e  o  sofrimento.  Então  há  um  eu  e  um  outro.  E  você 
faz o melhor que pode. 

A  compaixão  comum  também  surge  fortemente  em  relação  ao  nosso  grupo 
próximo,  que  pode  ser  nossa  família,  pode  ser  nossa  equipe  médica,  pode  ser  o 
povo  de  nossa  tribo,  o  nosso  grupo  étnico.  A  conexão  é  sempre  mais  forte  em 
relação  ao  nosso  grupo.  Ou  se  você  teve  um  tipo  particular  de  enfermidade, 
como  ter  sido  cego  na  infância,  talvez  você  seja  mais  sensível  para  a  compaixão 
se  você  enxergar  novamente  e  encontrar  uma  pessoa  cega,  alguém  que  sofreu 
como você sofreu. Então esse é como um primeiro domínio da compaixão, e esse 
é o tipo mais comum de compaixão. É a compaixão com um objeto.  


“Avalokiteshvara mecânico”, escultura de Wang Zi Won, Coréia do Sul, 2011 

Compaixão discernente 

A  seguir,  há  um  tipo  de  compaixão  que  tem  uma  base  mais  conceitual.  E  este 
tipo  de  compaixão  tem  uma  sabedoria  que penetra a verdade da impermanência 
e  da  ausência  de  um  eu  inerente.  Este  tipo  de  compaixão  tem  uma  base  mais 
conceitual,  mas  também  envolve  bodicita,  na  verdade  surge  de  um  imperativo 
moral,  do  que  é  ser  uma  pessoa  de  compaixão  em  relação  aos  outros.  Todos  os 
outros,  não  apenas  seres  humanos,  mas  todos  os  seres.  Então  esta  é  uma 
compaixão de base conceitual. 

Compaixão não-referencial 

E  a  terceira  forma  de  compaixão,  que  Musō  Soseki  e  vários  outros  grandes 
praticantes  e  estudiosos  budistas  realizaram,  descreveram  e  ensinaram,  é  a 
compaixão  sem  um  objeto.  É  a  compaixão  universal.  Compaixão  que  permeia  a 
subjetividade inteira de um indivíduo. Então eles estão sempre prontos. 

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Lembro-me  de  uma  história  que  aconteceu  muito  recentemente  sobre  um 
homem  chamado  Wesley  Autrey,  que  estava  de  pé  numa  plataforma  de  metrô 
em  Nova  Iorque  com  suas  duas  filhas,  e  provavelmente  havia  mais  cem  pessoas 
também  na  plataforma  do  metrô.  De  repente,  ele  viu  um  jovem  branco  que 
parecia estar tendo uma convulsão cair nos trilhos do metrô e convulsionando.  

E  Autrey  sem  sequer  pensar,  ao  ver  o  trem  chegando  pulou  junto  ao  homem, 
chamado  Hollopeter,  a  fim  de  salvar  sua  vida.  Autrey  entendeu  muito 
rapidamente  que  ele  não  conseguiria  tirar  Hollopeter  do  caminho  do  trem  que 
se  aproximava.  E  assim  ele  segurou  o  jovem  que  estava  tendo  a  convulsão  e  o 
trem  do  metrô  passou  acima  da  cabeça  de  Autrey,  apenas  raspando  a  parte  de 
cima do seu boné, e ele viveu. 

É  este  o  tipo  de  compaixão  universal não-referencial, muito heróico neste caso. 


Mas  no  caso  dos  praticantes,  por  exemplo,  a  experiência,  como  eu  a  entendo  e 
como  nos  ensinamentos  do  Dalai  Lama  e  outros,  é  esta  resposta  natural, 
momento  a  momento,  ao  surgir  do  sofrimento  no  mundo.  Uma  qualidade  no 
coração e na mente, de prontidão. 

Para  o  que  quer  que  apareça,  há  um  meio  hábil  que  se  manifesta  naturalmente, 
sem  autoconsciência,  de  uma  forma  não  mediada  e  não  filtrada  em  resposta  a 
aliviar o sofrimento.

Enganos sobre a compaixão 

Ainda  assim,  na  nossa  cultura,  parece  haver  um  grande  déficit  de  compaixão 
(embora  a  compaixão  seja  profundamente  enfatizada  no  cânone  budista,  e  o 
budismo,  claro,  tenha uma influência profunda neste mundo de impermanência), 
são  muito  interessantes  as  questões  que  enfrentamos  na  cultura  ocidental.  E 
acho que também na cultura oriental. 

Há  muitas  avaliações  incorretas  sobre  compaixão,  incluindo  a  noção  de  que  a 
compaixão  é  problemática  porque  o  sofrimento  é  insidioso.  Em  outras  palavras, 
você  pode  estar  em  uma  relação  empática  e  ressonante  com  uma  pessoa  que 

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sofre,  e  então  sofrer  trauma  secundário.  Quando  a  empatia  não  é  regulada  ou 
você  pode  estar  totalmente  sobrecarregado:  há  um  termo para a compaixão que 
o deixa cansado, desgastado, chamado fadiga por compaixão. 

Mas,  curiosamente,  esta  noção  da  fadiga  por  compaixão  tem  sido  basicamente 
refutada  por  pessoas  como  Richard  Davidson,  Tania  Singer,  e  muitos  dos 
neurocientistas  que  estão  trabalhando  neste  campo,  e  compreendendo  que  o 
que  realmente  está  acontecendo  é  uma  má  regulação  da  empatia  –  torna-se 
difícil  responder  continuamente  ao  sofrimento  do  mundo  porque  nos 
identificamos  demais  com  o  sofrimento  dos  outros.  Então,  acho  que  há  um 
grupo  de  nós  que  gostaria  que  o  termo  "fadiga  por  compaixão"  saísse  da 
literatura. 

Ou  a  compaixão  pode  te  adoecer,  na  onda  da  fadiga  por  compaixão.  Ou  pode 
fazer  parecer  pouco  profissional  que  você  perca  seus  limites.  Ou,  para  algumas 
pessoas,  sente-se  que  a  compaixão  pode  na  verdade  obscurecer  dinâmicas  de 
dominação.  Acho  que  essa  é  uma  perspectiva  muito  interessante.  Ou  que 
prioriza  a  simpatia  sobre  a  justiça.  Eu  tive  uma  profunda  exploração  disso 
quando eu estava trabalhando como voluntária na Penitenciária do Novo México.   

Também  a  noção  de  que  temos  que  cuidar  de  nós  mesmos  primeiro.  E  isso  na 
verdade  não  é  tão  ruim.  Deve-se  fazer  o  melhor  possível  em  termos  de  praticar 
um  bom  autocuidado  e  não  se  envolver  no  que  Barbara  Oakley  e  outros 
psicólogos sociais têm chamado de altruísmo patológico. Isso está realmente nos 
prejudicando no processo de cuidar dos outros.  

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”Lokeshvara”, escultura de Sonam Gyaltsen, Tibet, 1425  

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Empatia não é compaixão 

Então  há  uma  distinção  interessante  que  acho  que  vale  a  pena  explorar  entre a 
empatia  e  a  compaixão,  já  que  muitas  vezes  elas  se  confundem.  A  partir  da 
perspectiva  do  trabalho  que  tenho  feito,  e  também  Al  Kaszniak,  Richard 
Davidson  e  outros,  a  empatia  é  um  passo  em  um  complexo  de  respostas  que  na 
verdade pode nos levar à compaixão. 

Mas  há  uma  distinção  importante  para  entendermos,  que  a  empatia  é  uma 
espécie  de  sentimento,  ou  de  inclusão  da  experiência  do  outro  em  nossa 
subjetividade.  É  uma  experiência  vicária  e  isso  pode  acontecer  de  forma 
somática,  afetiva  ou  cognitiva.  E  é  importante  estarmos  em  ressonância  com  os 
outros.  Costumo  dizer  que  um  mundo  sem  empatia  é  um  mundo  onde  estamos 
realmente  mortos  uns  para  os  outros.  Mas  a  compaixão  pode  incluir  empatia, 
muitas  vezes  inclui,  mas  [a  compaixão]  é  mais  como  um  sentimento  pelo  outro, 
com  a  intenção  de  servir  outro, na tentativa de transformar a sua experiência de 
sofrimento. 

Acho  que  também  é  interessante  notar  que  mesmo  Darwin,  embora  ele 
chamasse  de outra coisa, perto do fim da sua vida, ele e outros escreveram sobre 
isso  que  é  muito,  muito  importante.  Sua  perspectiva  sobre  a  evolução  não  se 
baseava  apenas  na  noção  Spenceriana  de  sobrevivência  do  mais  apto,  mas,  na 
verdade,  na  sobrevivência  dos  mais  bondosos.  E  nós  sabemos  que,  apesar  de 
podermos  ter  tido  relações  complicadas  com  nossos  pais,  ainda  assim  estamos 
aqui,  nós  chegamos  até  aqui.  A  nossa  própria  sobrevivência  e a sobrevivência de 
muitas espécies é baseada na experiência da bondade. 

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“慈: Compaixão”, pintura caligráfica de ​Fábio Rodrigues 

 
Compaixão e felicidade 

Também  no  mundo  da  neurociência  e  da  psicologia  social,  é  bem  fascinante ver 
que  a compaixão na verdade contribui para o bem-estar, que ser compassivo, ter 
compaixão,  estimula  as  redes  associadas  ao  prazer.  Há  muito  na  neurociência 
que  está  nos  mostrando  a  ideia  de  que  a  compaixão pode realmente aumentar o 

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bem-estar,  e  existem  bons  indicadores  de  que  existem  melhorias  imunológicas 
associadas  com  ser  compassivo,  e  também  da  melhoria  do  sistema  imunológico 
com a redução do estresse.  

Além  disso,  há  indícios  de  que  as pessoas compassivas vivem mais tempo do que 


aquelas  que  não  são  tão  compassivas.  Um  dos  melhores  exemplos  disso  é 
Nicholas  Winton,  tcheco,  do  mundo  das  finanças,  que  na  segunda  guerra 
mundial  salvou  as  vidas  de  muitas  crianças  e  viveu  até  os  106  anos.  Realmente 
um  belo  exemplo  na  história,  porque  ele  nunca disse nada sobre isso a ninguém, 
até  que  sua  esposa  descobriu  os  registos  com  os  nomes  das  crianças  que  ele 
conseguiu  tirar  da  Tchecoslováquia  antes  dos  nazistas  chegarem.  E  é  uma 
história realmente extraordinária, se puderem, vocês deveriam ler, com certeza.  

E  a  compaixão  também  afirma  os  nossos  princípios  morais.  Quando  não  somos 
compassivos ou outros não são compassivos, surge uma sensação de que a moral 
está comprometida. 

Há  uma  pesquisa  muito  interessante,  um  trabalho  de  Jonathan  Haidt,  sobre 
como  o  envolvimento  em  atos  de  compaixão  ou  testemunhar  outros  que  são 
compassivos  nos  faz  experimentar  uma  elevação  moral.  E  testemunhar  também 
produz  contágio.  Isto  é,  nós  desejamos  ser  compassivos  também.  Por  isso, 
mesmo  que  você  seja  a  única  pessoa  na  sua  família,  na  equipe  médica  ou no seu 
trabalho  que  faz  algo  compassivo,  você  pode  ser  indiretamente  inspirador  e 
influenciar os outros.  

E,  claro,  a  compaixão  envolve  relacionamento.  Assim  como  o  koan  onde Yunyan 


e  Daowu  têm  uma  relação  e  estão  interagindo  um  com  o  outro.  Na  verdade, 
Daowu  foi  profundamente  compassivo  em  conduzir  Yunyan  em  sua 
compreensão  do  questionamento.  O  que  é  a  compaixão:  através  do  corpo,  há 
mãos  e  olhos.  Então,  o  que  é...  O  que  é  a  compaixão  do  ponto  de  vista  das 
qualidades contemplativas? 

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Sem título, escultura de Rudolf Stingel, EUA, 1994 

Do que é feita a compaixão 

A  compaixão  envolve  equilíbrio  de  atenção,  a  capacidade  de  dirigir  a  nossa 


atenção  a  outro  ser  humano,  ou  criatura,  ou  nação.  E  que  a  nossa  atenção 
repouse  de  tal  forma  que  seja  estável,  e  que  haja  alta  resolução,  haja  clareza  de 
percepção,  onde  somos  realmente  capazes de manter nossa atenção na situação 
da pessoa por mais do que um momento distraído. 

Esse tipo de estabilidade de atenção amplia esse sentimento interno, e também a 
forma  como  somos  percebidos,  por  estarmos  verdadeiramente  aterrados. 
Porque  se  não  estivermos  aterrados,  se  estivermos  reativos,  a  compaixão  não  é 
tão  acessível.  E  a  capacidade  de  ter  este  tipo  de  concentração  é  o  motivo  pelo 

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qual  a  prática  é  tão  importante,  ela  nos  permite  reconhecer  mais  claramente  a 
verdade do sofrimento e também descobrir formas de superar esse sofrimento.  

Também  sabemos  através  do  trabalho  de  Rebecca  Todd  e  associados  que  a 
atenção  e  efeito  enviesam  um  ao  outro.  Então  ter  um  tipo  de  atenção  que  é 
aterrada,  equilibrada,  nos  permite  realmente  ser  mais  emocionalmente  estáveis 
e  emocionalmente  equilibrados,  e  gerar  um  efeito  pró-social.  Porque  não  se 
pode  ser  realmente  compassivo  sem  se  importar  com  os  outros,  sentir-se 
interessado  pelos  outros,  sem  a  capacidade  de  estar  em  conexão,  em 
ressonância  com  outros,  sem  gratidão  e  sem  todo  este  tipo  de  alcance de efeito 
positivo. 

A  nossa  intenção  também  é  muito importante. O cultivo de bodicita, o cultivo de 


um  coração  desperto.  E  bodicita  é  baseada  em  uma  perspectiva  ética  que,  na 
verdade,  prepara  a  nossa  intenção.  O  que  é  ser  uma  boa  pessoa?  O  que  é 
importar-se  com  os  outros,  ser  responsável?  O  que  é  ter  integridade?  O  que  é 
ser  generoso?  O  que  é  não  ter  medo, não ser defensivo? O que é não estar cheio 
de aversão? 

Então,  parte  da  nossa  prática,  em  essência,  trata-se de desenvolver um vigoroso 


fundamento  moral.  Por  moral,  não  me  refiro  a  sermos  críticos,  mas  a  qual  é 
nosso  embasamento  moral,  a  nossa  percepção  sobre  o  que  significa  acabar com 
o  sofrimento  e  não  contribuir  para  o  sofrimento.  Para  compreendermos,  a 
compaixão  é  baseada  numa  espécie  de  imperativo  moral,  e  esse  imperativo 
moral  inclui  a  capacidade  de  sermos  moralmente  sensíveis,  a  nossa  capacidade 
de  ver  os  contornos  morais,  os  contornos  da  bondade  ou  do  dano  em  qualquer 
situação.  Isso  também  envolve  coragem  moral.  Isto  é,  a  capacidade  de  nos 
sustentarmos  em  meio  a  condições  muito  complexas  e  nos  apoiarmos  naquilo 
que defendemos. Isso cultiva caráter moral.  

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“Olho composto”, escultura de Graham Caldwell, EUA, 2008 

A  compaixão  também  envolve  um  profundo  discernimento.  A  capacidade  de  ser 


mentalmente  flexível, mentalmente capacitado. Nossa capacidade de adotar uma 
perspectiva  metacognitiva,  para  fazer  escolhas  de  perspectivas,  para  entender 
como os outros podem nos ver ou como outra cultura pode nos perceber. 

Ter  o  discernimento  para  fazer  autorregulação,  sermos  capazes  de 


infrarregulação,  caso  sejamos  acionados,  e  entender  o  que  nos  aciona.  A  nossa 
capacidade  de  realmente  distinguir  entre  o  eu  e  outros  para  não  ficarmos 
sobrecarregados  e  experimentarmos  angústia  empática.  Essa  distinção  é 
realmente crítica. 

O  compromisso  de  fazer  o  nosso  melhor,  e  ao  mesmo  tempo,  o  discernimento 


de  que  não  podemos  ficar fixados ao resultado. E também a nossa capacidade de 
compreender  que,  basicamente,  estamos  deludidos,  os  outros  estão  deludidos, 
mas  todos  os  seres  querem  felicidade.  Então  estamos  trabalhando  para  gerar 
bem estar para os outros, para o mundo e para nós mesmos.  

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O  último  aspecto  da  compaixão  tem  a  ver  com  a  ação,  que  é  estar  engajado  de 
forma  que  nosso  engajamento  produza  eudaimonia,  ou  seja,  um  sentido  de 
florescimento  não  só  para  nós,  mas  que  realmente  apoie  o  florescimento  dos 
outros. 

Então,  isto  é  um pouco sobre a experiência da compaixão como sendo composta 


por  uma  série  de  elementos  que  não  são  compaixão,  que  quando  são 
entrelaçados  produzem  a  capacidade,  dentro  de  nós,  para  que  a  compaixão 
emerja.  Por  isso  eu  digo  muitas  vezes:  a  compaixão  é  um  sistema  dinâmico 
complexo,  composto  de  elementos  que  não  são  compaixão,  cujo  processo 
emergente é a compaixão. 
 

*** 

 
 
 
 
 
 
 
 

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Roshi  Joan  Halifax  foi  aluna  de  Seung  Sahn  e  recebeu  transmissões  de  linhagem  de  Thich 
Nhat  Hanh  e  de  Roshi  Bernie  Glassman.  Fundadora  e  a  abade  do  Upaya Institute and Zen 
Center,  em  Santa  Fe  (EUA),  dirige  o  programa  Being  with  Dying  e  fundou  o Upaya Prison 
Project  e  o  Nomads  Clinic.  É  doutora  em  antropologia  e  uma  das  pioneiras  no  trabalho 
com  a  morte  e  o  morrer.  Com  77  anos,  tem  mais  de  quatro  décadas  de  experiência  em 
práticas  contemplativas  e  um  natural  e  constante  engajamento  social.  Seus  livros  mais 
recentes são “Presente no morrer: cultivando compaixão e destemor na presença da morte” 
e “Standing at the edge: finding freedom where fear and courage meet”. 

Para saber mais sobre Roshi Joan Halifax: 


https://www.upaya.org/about/roshi 

Para praticar generosidade e apoiar o movimento da Roshi Joan e do Upaya Zen Center: 
https://www.upaya.org/giving 

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Abril de 2020, em meio à pandemia do 
coronavírus (COVID-19). Que a compaixão 
amanheça como um sol no vasto céu 
dos corações, alcançando todos 
os seres, mundos e tempos.

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