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Sobre mães, pais e filhos: Rotina para quê e quem em tempos de Coronavirus

Rita G.B de Moraes Valdanini 1


ritademoraes@yahoo.com
24 de março de 2020

Certamente, por essa ninguém esperava. É inédito. Por mais amor que haja na relação
entre pais e filhos, ficar dentro de casa com uma criança pequena, por dias a fio, pode
ser vivenciado por alguns como um teste de sanidade mental. Aliás, com ou sem criança,
é desafiador. Somos seres sociais, está inscrito no código genético da humanidade nossa
tendência inata a ir na direção ao próximo.

Fica mais complexo quando os responsáveis pelos pequenos precisam trabalhar na


frente de seu computador durante horas, em home office, tendo que administrar as
cobranças do trabalho, as tarefas domésticas e as inúmeras solicitações de sua criança.
Quando se trata de uma configuração monoparental, ou com mais de duas crianças
pequenas, a tarefa é ainda mais árdua. Mas, mesmo não trabalhando, ou sendo uma
configuração na qual existem dois responsáveis dentro de casa, o fato de ser um
momento de incerteza, que começou de forma abrupta e brusca e que não tem data
para terminar, gera uma angústia grande nos adultos — com ou sem filhos. A isso se
soma a própria questão do risco à saúde, já que a loteria do Coronavírus pode “sortear”
você ou algum ente querido.

A mudança brusca na rotina pode gerar um sentimento de desamparo, de inesperado e


de total falta de controle. Pode ser vivenciada como uma ameaça à continuidade do
nosso sentimento de ser e estar no mundo. Estamos atrelados direta e indiretamente a
diferentes camadas evidenciadas pela pandemia, não necessariamente nesta ordem:

1 Rita é Psicóloga de formação, Mestre em Saúde Coletiva pelo IMS/UERF. Realizou um Master em
Desenvolvimento da Criança pela Universidade Paris 13 e um D.U em Psiquiatria Infantil pela
Universidade Paris V. É uma das seis gestoras da Escola Casa da Mangueira, no Rio de Janeiro e
membro fundadora da Associação Pikler Brasil e da Rede Pikler Brasil. É mãe da Clara de quatro anos e
meio e da Elisa, que nasce dentro de algumas semanas.
- A doença em si.
- O confinamento.
- A economia doméstica, a curto, médio e longo prazo.
- A instabilidade política.
- O rumo socioeconômico do país.
(Certamente deve haver outras camadas ou entre camadas...)

Diante disso tudo, fico pensando na velocidade em que, de repente, mãe e pais foram
convocados a assumir 100% seus filhos de forma inesperada , sem poder contar com o
apoio de uma rede familiar mais ampla (avó, avô, tia, babá...) e sem poder sair de casa,
relacionar-se, ir para o parquinho etc.
Isso me remeteu ao estado de dependência absoluta descrito por Winnicott, em que a
mãe e/ou cuidador de referência representa o ambiente como um todo para o bebê que
está nascendo para si e para o mundo. Momento de grande doação que pode parecer-
se com um estado de adoecimento psíquico por parte do responsável, mas que é
vivenciado de forma passageira. Após alguns meses, o mundo vai se ampliando de forma
gradativa para esse bebê, e o mundo social se apresenta “em pequenas doses”. Por sua
vez, a mãe e/ou cuidador começam naturalmente a falhar, e aos poucos essa
dependência vai tornando-se relativa e caminhando rumo à autonomia.
Eis que, subitamente, por conta dessa pandemia, um estado de confinamento é
convocado para todos, e o sentimento de dependência absoluta volta de forma
inesperada.
É diferente das férias, em que você se programa, se prepara, se organiza para ficar com
seu filho. Em que a rotina não é algo que precise ser reforçada, pois, afinal, dentro de
algumas semanas o ritmo escolar vai convidar a criança a dormir mais cedo, entrar no
ritmo do cotidiano e se afinar com o relógio. Junto com isso, o próprio adulto volta a seu
ritmo, estabilidade e sentimento do conhecido. E mais do que isso, trata-se de um
sentimento de escolher experimentar essa condição: “Estou com meu filho, pois as
férias chegaram e daqui a um tempo o ritmo vai retomar seu rumo”. Outra coisa é
quando nos é imposta uma situação na qual estamos de mãos atadas e em que não há
escolha.
Rotina para quê e para quem:

Textos e artigos científicos apontam sobre a importância da rotina para a criança


sentir-se mais segura, principalmente quando está relacionada a uma questão
institucional como escola e creche, na qual a criança está longe de seus pais, estando
num contexto bem distinto do da sua casa, onde o ritmo doméstico costuma girar em
torno da criança.
Nesse momento de confinamento, tenho recebido inúmeros textos e dicas para
pais sobre a importância de organizar a rotina da criança dentro de casa, no meio desse
caos. De fato, a rotina é importante. Mas, talvez mais do que a rotina em si, são o
sentimento de estabilidade, de continuidade, e o vínculo que devem nortear o cotidiano
da criança. Afinal, a criança está em casa, no seu ambiente de segurança com as figuras
que mais lhe importam: seus pais. Refiro-me essencialmente a crianças de até 4 ou6
anos. Estar em sua própria casa acompanhada de seus pais é por si só assegurador.
Talvez a importância da rotina seja, no fim das contas, mais direcionada aos pais, que
precisam se organizar de forma objetiva e subjetiva para dar conta da criança, das
obrigações e tarefas e do sentimento de que vai levar um tempo para a vida retomar
seu ritmo conhecido.

Antes de começar organizando a rotina da criança pequena, talvez seja o caso


de reconhecer que na verdade quem precisa de uma nova rotina sejam os próprios
adultos que acompanham a criança. É preciso encontrar uma forma de alternar-se e
revezar-se com as crianças, economizando energia afetiva. Trago a questão da energia
afetiva por ser importante não apenas o se cuidar para dar conta fisicamente desse
desafio, mas, também, para armazenar e preservar nossa própria energia afetiva. Isso é
precioso! Talvez seja menos cansativo utilizar o canal afetivo para si mesmo como uma
forma de recarregar as baterias de afetos e, assim, lidar com tantas responsabilidades.
Outra fonte de energia importantíssima, que promove leveza e clareza para lidar
com uma vida altamente alterada – e sem previsão de volta à forma de viver
anteriormente conquistada –, é os adultos darem passagem ao humor. O humor é
totalmente antiestresse, porque ele é uma ferramenta que faz com que as situações
dramáticas sejam olhadas por um outro ângulo. Não que o humor banalize as coisas. O
humor é um estado de espírito elevado, que fornece ao ambiente alternativas,
possibilidades e saídas. Com afeto e humor, as pessoas estão aparelhadas do melhor
dos recursos. A soma do afeto verdadeiramente sentido e do humor genuíno resulta em
criatividade. E criatividade, neste contexto, significa buscar saídas. As boas soluções
nunca aparecem quando estamos muito tensos, muito cansados fisicamente ou
entristecidos. Boas soluções nós encontramos quando estamos iluminados! O que
seriam pessoa iluminadas? Aquelas que constroem um lugar secreto dentro delas,
baseado na autoconfiança e na crença de que a nossa capacidade de passar por
situações difíceis é imensa. Se essas pessoas estiverem realmente iluminadas,
descobrirão que tudo fica bem mais fácil se utilizarem o amor próprio, o amor pelo outro
e o humor como uma forma de olhar o mundo.

Essa nova rotina das mães, dos pais e das crianças pode ser simplesmente
combinada de comum acordo, caso a criança já tenha um grau de compreensão de
tempo e espaço. Estipula-se e desenha-se então uma agenda/calendário, no qual será
preciso antecipar os momentos em que você adulto não estará disponível para a criança.
Esse é um momento oportuno para, juntos confeccionar um “mapa dos nossos dias e
das nossas noites”, contando assim com a criatividade e com a célebre frase do
Winnicott, que fala da importância da capacidade de estar só, atrelada a um par de
parênteses preciosos: “na presença do outro”.
Essa linda frase do Winnicott é ao mesmo tempo simples e profunda, pois ela sugere
quão importante é a presença humana para dar suporte a essa pessoa pequena que está
desenvolvendo o seu ser, treinando para fazer parte do mundo! Talvez seja preciso
agarrar essa situação de confinamento e tentar perceber uma ousada oportunidade
para os pais e as mães olharem para dentro de si e perceberem o quanto estão
amadurecendo com isso tudo. Nesse momento, mesmo não sendo tarefa fácil, é preciso
olhar a vida com otimismo: a vida vale realmente a pena ser vivida! Amadurecer não é
algo dado, precisa ser conquistado, e, em muitos momentos, o movimento de
amadurecimento pode gerar um estranhamento e nos tirar da nossa zona de conforto.
Assim, ainda que em meio à hesitação e à estranheza, a função cuidadora deve ser a de
emprestar segurança e confiança para a criança.
O pensamento é "se eu sou capaz de emitir sinceramente alguma tranquilidade na
minha interação com crianças, eu estarei promovendo dois movimentos: um para
dentro de mim, outro para fora de mim”. Desse jogo entre o dentro e o fora, nasce uma
espiral interativa, que vai ficar guardada dentro da criança em pequenas caixinhas, com
pequenos tesouros, repletas de sentimentos e emoções.
Uma querida colega de profissão me atentou ao fato de que o movimento para dentro
seria uma espécie de comemoração particular que um adulto pode e deve fazer, dizendo
para si mesmo: “já fui pequeno, já tive meus medos e alegrias; agora estou fortalecido
e tão bem que consigo cuidar de mim e de uma outra pessoa".
Devemos viver essa experiência com orgulho, porque fizemos a travessia da infância, da
adolescência e chegamos à vida adulta salvos e dispostos.
Junto com isso, há sim a experiência do cansaço que cuidar de crianças nos traz. Mas,
sabendo que vai passar, isso um dia dará lugar a muitas convesas em que mães e pais
contarão aos seus filhos como foi a experiência de criá-los. Esse seria o movimento para
fora.
Esse confinamento está nos convidando a resgatar o sentimento do que é ser e
estar em família, com todos os ingredientes passionais que estão envolvidos nessa
receita que atravessa gerações, culturas, histórias de vida e valores de cada família.
Torço profundamente para que mães e pais apostem que o futuro virá e que narrativas
e histórias surgirão a partir desses dias e noites vividos.
E, pensando bem, já se passaram alguns dias, e muito outros virão. Então, de
fato, a criança ter rotina é sim importante, mas também haverá momentos que serão
de puro improviso. Ir administrando um dia de cada vez, talvez seja o caminho mais
saudável e tranquilo. A relação parental dura para a vida toda e não será perfeita, mas
pode ser prazerosa, mesmo diante de tantas incertezas.

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