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lo

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P r o í. D R . T IT O L iV IO ‘
F ilh o de M a n oel R o a r ig u c ?
o de d on a A v e lln a A u g u a t* »
do A m a ra l, o P r o fe s s o r D r, T
F e r r e ir a n a sceu em Itap u t
P e d r a ), E sta d o de Sfl-o P a u lo ,
ju n h o de 1894. F é z seu s «a tu d pa
m&rlos na r e fe r id a cid a d e .
cu r s o s e cu n d á rio n o A te n e u J a u « n a ^ ^
em Jaú. A lu n o d o I n s tit u t o ^<t E d u ca ^
(li\o “ Sud M e n n u cc l” d<J P ir a c ic a b a r « - »
ceb eu o d ip lo m a de n o r m a lls ta n o I n s - ^
tltu to de E d u ca çfto “ C a r lo s Qomes** i
de C am pinas, B a c h a r e l em d ir e ito p e ­
la U n iv ersid a d e F lu m in e n s e . P r o f e s ­
sor p rim á rio, c u jo m a g is té r io d e ix o u
p ara aer E scrlv& o de P a z e TabCllSiO
de Itaput. P r o fe a s o r d o e n s in o m é d io ,
le c io n o u F r a n c ê s e H is t ó r ia d a C lv l-
I llzaçflo n o C o lé g io Ip ir a n g a , d o q u a l
I fo i V lc e -D lr e to r . D ir e t o r d a E s c o la
N orm al L iv r e I p ir a n g a , l<?clonou n e s te
e sta b e le c im e n to H ls t õ r la d a G du caçS .o
0 S o c io lo g ia E d u c a c io n a l. A n t ig o P r o -
fpsaor de H ls tõ r la da C iv iliz a ç ã o B r a ­
s ile ira e do H is t o r io g r a fia d a F a c u l ­
dade d(í F ilo s o fia , C iê n c ia s e L e t r a s
“ Sedes S a p ic n tla e ” . P r o fe s s o r de H is ­
te r ia da Id a d e M édia, H is t ó r ia de P o r ­
tu g a l, H is tó r ia de S5.o P a u lo o D id á ­
tic a da F a cu ld a d e d<í F ilo s o f ia . C iê n ­
cia s e L e tra s d « Sflo B e n to d a P o n t i ­
fíc ia U n iv ersid a d e C a tó lic a d e S. P a u lo
H is t o r ló g r a fo -C h e fe d a sccQ&o t é c n l c o -
c ie n t íflc a d o M usou P a u lis ta . P e r t e n ­
ce a o In s titu to de C o im b ra . H S o c ie ­
d ad e de G e o g r a fia de L is b o a , a o I n s t i ­
tu to H is tó r ic o G G e o g r& flco d e S l o
P a u lo, do q ua l é V lc o -P r c s ld e n t e . P u ­
b lico u In ü m cra s o b ra s, e n tre a s q u a is
a H i s t ó r i a .d a C lv lU za ca o B r a s ile ir a .
A g r a c ia d o c o m a co m e n d a d a O rden i
de S a n tia g o da E s p a d a p e lo G ovC rn o
P o r tu g u ê s , f o i c o n v id a d o a v is it a r
P o r tu g a l, on d e estevtf, c o m o h ó s p e d e
de h on ra , Junho e ju lh o d e 1957, em
estu d os n o s a r q u iv o s p o r t u s u e a e s

I
^V'

p a l a v r a s e m f o r m a d e p r e f á c io
I

Ht^ória é unidade, continuidade e solidariedade, escreve­


mos na pouco tempo, em estudo publicado, onde procurámos
documentar com o os historiadores deformaram os acontecimen­
tos de nossa formação tricentenária, de 1500 a 1822. (1) Uni-
daae porque os /atos obedecem a uma ordem essencial; con-
tinuiaaae porqi^ eles se encadeiam como elos de uma corren­
te, e solKianedade porque se interligam, por traços firmes,
dentro ao tem po e do espaço. O tempo é a história, assim como
o espaço e a geografia, E a história não eociste antes do histo­
riador escreve-la, (2)
isso mesTíw e dentro dessa linha de pensamento, Jac­
ques de Batnville escreve: “ Até 472, à queda do Império (Ro-
mafno) do Ocidente, a vida da Gália se confundiu com a de
Roma. Não estamos suficientemente habituados a pensar que
um quarto de nossa história, desde o começo da era cristã, se
escoou nesta comunidade: quatro a cinco séculos, um período
de tempo mais ou menos tão longo como de Luís XII a nossos
dias e tão carregado de outros tantos acontecimentos e revolu­
ções. E, portanto, que se distingue através dessas grandes li­
nhas? Os traços permanentes da França que começa a for-
mar-se*\ (3) Linhar atraz, o mesmo historiador afirma: **A
França é uma obra de inteligência e de vontade**. (4) E tem-
j po adiante, Pierre G axotte escreve a mesma coisa com outras
palavras.
Ora, o mesmo se pode dizer, em relação à história do Bra­
sil, esboçada pelo poeta inglês Robert Southey, continuada por
Francis Adolpho de Vamhagem e José Francisco da Rocha
Pom bo, pcera ser sintetizada por Capistrano de Abreu. Assim,
não é demais repetir, porque^nessa insistência a razao
d iste livro, adotamos o plano de Bainville em sua Histoire
TM tT
Tito Lîvio Ferreira e Manoel Rodrigues Ferieira. “ História
da Gráfica Bibles Ltda, ; E d itô « S Paulo - 9 .
(2) Cf. Philippe Ariès. "L e Temps de 1 Histoire .
(3-4) Cf. Jacques Bainville. “ Histoire de France . ps. 15-13. Fa
ris. 1947.
,
,u»atu com a de Portugal.acNFortugal, a vida do BrasU/fj^.
ão estam os 22 d«
tuados o penser que dois têrços de nossa fwsíoria, a „ficial-
obril de 1500, quando Pedro AlvarCs Cabrol , / l 822,
mente a Província de Santa Cruz, até 7 de setem r
escoavam -se dentro da com unidade luso-hrastU ense.
duTímte esses trezen tos anos, m otins e j innHfli^ ^
tuguêses — nascidos no Brasil e em Portugal, do por-
aqui se radicavam , porque estavam em sua Casa,
tuguêsa. Assim, como brasileiros de outros Esta os
para São Paulo e aqui se fixam , porque a
a Casa Brasileira; também até 1822 a Casa ^
gia Portugal na Europa, as ilhas atlânticas, o ^ (joa ^
Portuguesa, Angola e Moçambique na A frica,
Asia e Timor na Oceania. Daí os p o r tu g u e s e s p e
M u n d o sem sair de Casa. Uma unidade d© àP
o Reino do Brasil, de 1822 em diante, forma a
Brasil, unificada pelo Império Brasil^iTO. E a ^
é h oje a República Brasileira.
Ora, neste estudo não sustentam os tese alguma. ^ ^
mo-nos por mostrar como as coisas se
conseqüências delas, porqu e em tal m om ento e
decisão fo i tomada. O que se descobre, no teíW t ^
lise, é que não e fácil conduzir os povos, que noo « ^
e conservar um Estado e dai a gente gttaraafr, e
muita indulgência pelos governos**, (1)
......... ■■ 0^
(1) Cf. Jacques Bainville. ob. cit. Avant-PíoP®®* P

f.
Nossos historiadores arvoraram~se, ao contrário, em juízas
dos homens e do passado, quando a função do historiógrafo não
é essa, historiador tem por único dever compreender**,
( l)Compreender e não julgar o que escapa ao seu entendi--
mento, (2) Por que julgar o irreversível? E não se julga o
que passou em julgado.
Talvez este sentimento, o da compreensão histórica, sirva
de garantia à nossa imparcialidade. Se nosso objeto é apre­
sentar os fatos em sua continuidade, não podemos tomar par^
tido. Podemos comparar nossa situação hoje com a de nossos
antepassados, quando aqui chegaram os portugueses, há quase
quinhentos anos. Dentre aquelas circunstâncias (americanas)
avultam imperiosas: a qualidade e as condições fisicas da ter-
ra; o5 condições materiais e morais de vida e cultura de s^us
habitantes.
Terra e homem estavam em estado bruto. Sitos condições-
de cultura não permitiam aos portugueses vantajoso intercurso'
comercial que reforçasse ou prolongasse o mantido por eles
com os orientais. Nem Reis de Cananor nem Sobas de Sofala
encontraram os descobridores do Brasil com quem tratar ou
negociar. Apenas morubixabas. Bugres. Gente nua e à-tôa,
dormindo em rede ou no chão, alimentando-se de farinha de
mandioca, de fruta do mato, de caça ou peixe comido cru ou
depois de assado em borralho. Nas suxis mãos não dntilavam
pérolas de Cipango nem rubis de Pegu; nem ouro de Sumatra
nem sedas de Kata lhe abrilhantavam os corpos cor de cobre,
quando muito enfeitados de penas; os pés em vez de tapetes da
Pérsia pisavam a areia pura. Animal doméstico ao seu serviço
não possuíam nenhum. Agricultura, umas ralas plantações de
mandioca ou mindubí. Oliveira Viana tem razão quando es­
creve que entre as índias (na Ásia) **com uma maravilhosa
riqueza acumulada e uma longa tradição comercial com os po­
vos do oriente e ocidente** e o Brasil **com uma população de
aborígenes ainda na idade da pedra polida** havia diferença
essencial. ‘*Essa ausência de riqueza organizada, essa falta de
(1) Cf. Marc Bloch. “ La Société Féodale - Les classes et gouver-
r.ement des hommes” . p. 56. 1949.
(2) Marc Bloch. ob. cit. Avant-Propos. p. XVIL
I

o autor de acrescenta

j^ p ‘^ o Z S d o Z ’o ^ T ^ r Z T ° ' “
Indígenas e Africanos do in í^ T Portugueses,
^^adro exposto acima por GilbZt p P°^°arnento, dentro do
como nós Brasileim^ ^T'^yre e Oliveira Viana,
' P^'f'^iue vivemos em ria^ ^ devemos considerar je-
o território invadidn ^ ^ ordem, porque não temos
^guerras civis, não menos Porque temos vencido
nos tem poupado. Pora^^‘^^^' ^ sécuXos
^ ctpio espiritual, Dtias rnic ^ çã o é uma alma, um
dela senão uma constit^iir^/i ^ verdade, não fazem
tual. Uma está n o ^ la Z êste princípio espiri-
«n » comum de rica herar^n
mento atual, o desejo d^,» o
T P résen te. Vma é a posse
outra é o co n sen ti-
continuar a fazer t,a L „ ^ ?°^^^^^amente, a vontade de
^ ^ se improvisa recebido indiviso. O h o-
^m longo passado de e<ífl!í^**°’ ° indivíduo é a síntese
culto dos ancestrais é *° j sacrifícios e d ev o ta m en to s.
rats nos fizeram o ovt> ^odos, o mais legítimo; os ances-
A ^ en s, a glória, (entendT'^^' Possado heróico, gra n d es
em que se alicerça ® v^dadeira), eis o capital s o a d
uma vontade co^uT^n ^ ’^' Slórias comuns no passado,
conjunto, querer faz$ P^^^ente, ter feito grandes coisas em
um povo. Amamo-no^r,T ’ ^ ? <=°^kão essencial para ser
aceitado, dos males o«o *o Proporção dos sacrifícios que temos
truimos e que se tra Í^ lt -Amamos a Casa que coM-
fostes, seremos o au^ni espartano: “Somos o
fntdo da Pátria toda** (S) * ^ ^ simplicidade o hino tesu*

»•a edJlsZ. “ C««, Grande e sentai»". P«. 32 e »*«*•

. ÿ(2) Oliveira Vian*


) Cf. Emcst Ren.„ BrasUeiro” . 192».
"®- Levy. 1921. ' Q'>«»t-ce qu’one nation 7” ps. 88-7*. P
Esta é a nossa concepção de pátria e da história. **Parece-
nos a do bom senso. Por que avalia a vida de um pais por nor­
mas diferentes das de uma familia?** indaga Jacques Bainville,
em sua obra citada lá acima. Ora nós integramos durante mais
de trezentos anos a Família Portuguesa. Dentro das norrruis dessa
Família devemos entender os acontecimentos tricentenários. Pu­
blicamos, com esse sentido, a nossa **História da Civilização Bra­
sileira” , em 1959, prefaciada pelo Coronel Luiz Tenório de Brito.
Assim, êste livro complementa **História da Civilização Brasi­
leira” . Fomos levados a isso, porque segundo o conceito de Oli­
veira Viana “ somos um dos povos que menos se estudam a si
mesmos, quase tudo ignoramos em relação à nossa terra, às nos­
sas regiões, às nossas tradições, à nossa vida enfim, como agre­
gado humano independente” . (1) E isso foi escrito há quase
meio século. Ficamos a bordar, a tecer e pintar comentários em
tom o de Southey, Vamhagem, Rocha Pombo, João Ribeiro, Han-
delmann e Capistrano de Abreu. Vivemos impressos e conti­
nuamos impressos. Ora, **nós esperamos da história uma certa
objetividade, a objetividade que lhe convêm, a maneira como a
história nasce e renasce nô-lo atesta; ela procede sempre como
retificação do arranjo oficial e pragmático de seu passado pelas
sociedades tradicionais. Esta retificação não tem outro espirito
senão a retificação que representa a ciência físico! à primeira co­
ordenação das aparências na percepção e nas cosmologias que são
tributárias” (2). Porque a história também obedece os métodos
e processos científicos. E a retificação dos conhecimentos his­
tóricos se faz através dos documentos, confrontando-os.
Ao seguir a análise metódica e profunda, **a história não tem
por ambição fazer reviver, mas recompor, reconstruir, isto é,
corrigir, constituir um encadeiamento retrospectivo” . (3) Por
essa forma de metodologia histórica, o trabalho de recomposi­
ção somente pode ser feito após a análise. Daí a história con­
tinuar a ser fiel à sita etimologia: **é uma pesquisa” . Nesse

(1) Oliveira Viana. “ Populações Meridionais do Brasil” , p. 13.


1.0 vol. 5.a ed.
(2-3) Cf. Paulo Ricoeur. “ Histoire et Vérité” , ps. 27 e segs. Ed.
Seuil. 1955.
^ ssaT ráâ interrogação ansiosa acerca de

**histn'rír*fw** • ^ rriCLs tiTíict Tôsposta d CStCL COTldicÕO

der «íe co^preen-


maua o “ ciêncin Hn ° 9we Fustel de Coulanges cho-
X Z i soctedades humanas" e que Marc Bloch
formo o M n t iS ^ r f » análise” . (1) E êsse processo
criar a sóüdarieAnA ’ conseqüência de sua unidade pora

d T sS u ro^ “ 2^ “ “ 5ão e pr^ocura o passado

desta°ob^ti^díi^o°-^ ^ ciência explicativa, “ um novo traço


O fenômeno de o que se poderia chamar
mente è tpnfn-r histórica” ; compreender racionaU
zOra
T «au hiatM^
iS S i “. f r
^intese de reconhecimento no conceito).
One foi aboUdn ^ p re ifa d a designar o que mudou, 0
e x a t ^ e n íl^ ,« , “ diferente. A velh^ dialética db
c ío to & e n ^ fl ® diferente ressurge aqui; o historiador de
bem concreta das dificuWa-
^ ^ ÍMstonco, singularmente da nomenclatura;
rnnen nn ® fozer compreender na linguagem contempo-
csrôu r uma instituição, uma
naU ^ f usando de semelhança functo-
brem s(> ^ seguida pela diferenciação? í>e^'
~ I^ A - “ dificuldades presas òs palavras tiraiua.
hl^n Estado, etc. Cada umo atesto 0 l»W
í o í S L « ° ’‘ ^m enclatura que permita ao m esm o tem-
® especi/icor; p o r q ^ a linguagem histórica e
"®“ ® equivôca. Ê o tempo histórico que vem a ^
j . rtteligencta assimilante sua obra dissemeVumte,
desigualdade. O historiador não pode escapar a êsse
do tempo, onde, desde Plotino, reconhecemos o fenômeno da

p. 387, Pmís 1938 Introduction a la pWloaophie de IT“*


irredutibilidade do afastamento de si mesmo, do a lo n g a m ^
to, da distensão, da mudança original** (1). Dai a luta
toriador é a luta pela expressão certa, exata, precisa. ^ Esta­
mos numa das fontes do caráter “ inexato**, e mesmo nao ri­
goroso”, da H ilária; jamais o historiador se encontra na st-
tuação do matemático que denomina, e denominando, deter­
mina, o próprio contômo da noção: **Chamo Unha a intersec­
ção de duas superficies,**
Ora, esta ausência de **linguagem histórica** é a caracte­
rística da história do Brasil escrita até hoje. A primeira Jor­
nada Paulista de Revisão da História do Brasil enfrenta, pela
primeira vez, em nossa Pátria, êsse problema. Não o enten­
deram os escritores de nossa história. E desentenderawr-no.
Chegamos aqui ao ponto nevrálgico destas palavras em for­
ma de prefácio, em relação à linguagem da história do Bra­
sil. Tivemos na história clássica os conhecidos escritores: **Car­
tas do BrasiV* (1549-1560), de Manoel da Nóhrega; Pera de
Magalhães Gandofvo, autor de **História da Província de San­
ta Cruz** (1571); “ Notícias do BrasiV*, de Gabriel de Sousa
Soares (1575); “ Cartoís*’ (1554-1594) de José de Anchieta;
"Livro que dá Razão do Estado do Brasil — 1612” ,
de Diogo de Campos Moreno*'; História do Brasil**,
de Frei Vicente do Salvador; “ Diálogo das Grandezas do Bra­
sil*’, de Brandônio (16....); “ O Valeroso Lucideno e Triunfo da
Liberdade^', de Frei Calado ou Frei Manoel do Salvador (1648);
“ Cultura e opulência do Brasil", de André João Antonil (An-
dreoni) (1711); “ História da América Portuguêsof*, de Sebas­
tião da Rocha Pitta (1720); “ Crônica da Companhia de Jesus
do Estado do BrasiV*, de Simão de Vasconcelos (1663); “ Vida
do Venerável Padre Belchior de Pontes” , de Manoel da Fon­
seca (1757); “ Visitas Pastorais**, de D, Frei João São José
Queiroz (1763). Nenhum dêsses autores escreveu, uma vez se­
quer, “ colonização'% “ colonos" e “ colônia’\ Escreveram, êsses
e outros da história clássica: “ povoação*^ “ povoamento'*, “ po-
voadores**; “ Província de Santa Cruz’* e “ Estado do BrasiV’,
Usaram a linguagem histórica, isto é, a linguagem do seu tem­
po, a linguagem do documento. E nisso não se enganaram,

(1) Cf. Paul Ricoeur, ob. cit. pág. 80, 31, 32, 33 e 34.
Com a históna romântica aparece Robert Southey, poeta
inglês Autor de "History of Brazil", publicada em Londres
em 1817. Southey lê nos documentos: Província de Scmta Cruz
e Estado do Brasil, e traduz essa duas expressões históricas para
Lolonia; onde estava povoamento e povoadores, traduz para
colomzofçao e colonos. Cria, assim, a linguagem ambígua, equi-
^ Nenhum histonador, mais tarde, se deu ao
h â Â riZ “ linguagem de Southey era ou não
usarem e abusarem das pala-
7 ''° colonos e colônia, como se isso
^ e s m t o s s e alxngw gem histórica de trezentos anos de Co-
P«l°t.ras com ên-
suas maiestade<t o? j” * convimdo com os leais vassalos de

também não se devem a b o ^ r ° ^ “ linguagem histórica, êles


Além da semelhante assunto.
dêste livro a in flu ên Á ’ ^^^^<^remos nas paginas
tas. em fins do século X T O í economxcas e dos economis-
Essa influência literária nJiL f escntores dêsse tempo,
diametralmente oposta á psicologia do vassalo,
é a nossa. Ora rxira eomr>ro«.^ do cidadão, que
e entendê-lo e r r T Z S f r^ °
linguagem dos h o m e n T ^ ^ n ^ a f ^ f ” ^' diferente é a
temporâneos. Por is^n - hnguajar dos nossos con­
dos homens'de outros ter^ rü ^^Possível explicar os atos
ra. Seria necessário aue ruF vocabulário de ago-
as mesmas de hoje. Daí M a r l ^ ^ ^ l ^^^^P^^^^cidas fossem
**Uétrange défaite" rtn^n obngar-nos a refletir sôbre
mento de historiador^
da mudança. Ela s a ú o ^^^orta e, essencialmente, ciencja
se reproduzem jamais ^ axiontecimentos
mais as condicLTl^r. semelhantes, pwque ja-
existem na evolucãn exatamente. Sem dúvida,
ao menos durávei! permanences,
variedade infinita quase ao mesmo tempo, a
inpnita de suas combinações. Sem dúvida, ela admt-
te, de uma civilização para outra, certas repetições, senão tra­
ço por traço, ao menos nas grandes linhas de seu desenvolvi­
mento. Ela verifica então que entre dois fatos as condições
maiores são semelhantes. Ela pode arriscar-se a penetrar no
futuro. Não a acredito incapaz de consegui-lo. Mas suas lições
não são, entretanto, que o passado recomeça, que o que foi
de anteontem, e por que, ele acha essa aproximação o meio de
ontem será amanhã. Examinando como ontem foi diferente
prever como, em que sentido, por sua vez, se oporá a ontem
(1). Por isso, não podem os escritores da história escrevê-la",
como se pesassem na sua consciência, com seus pensamentos,
com sua linguagem, com os olhos na sociedade contemporâ­
nea. E **0 conhecimento histórico liberta o homem do pêso do
seu passado" (2).
A tradição une os traços permanentes do passado ao pre­
sente e ao futuro. Nesse caso, a tradição é a permanência na
continuidade. Por isso, a história é unidade, continuidade e
solidariedade. Veremos então como “ a história outra coisa não
é senão a história da liberdade, senão uma libertação que se
quer por si mesmo e se efetua em plena claridade. A história
culmina nos grandes movimentos de libertação da humanida­
de: a Ciência jónica, a Filosofia grega, o Profetismo hebreu,
o Cristianismo, a Cavalaria, a Reforma do século XVI, a Re­
volução de 1789. Ela ressalta, com tôda a intensidade, a perso­
nalidade do fundador, o reformador, o gênio, o herói, isto é,
na sua grandeza sobrehumana adma do torpor e da mediocri­
dade ambientes. Isso não é um direito, nem um mérito, mas
uma graça: a dos bem nascidos, dos inspirados, dos homens
impares. O privilégio que constitui o valor histórico não coin­
cide sempre com a celebridade. Uma das mais nobres funções
do historiador é, ao contrário, rever as falsas celebridades, des­
titui-las de investiduras duvidosas, restituir valores obscureci­
dos. A História é solidária com os valores do Espírito. Ela se

(1) Cf. Marc Bloch. “ L’étrange défaite” , citação de Joseph Hours,


cm “ Valeur de l’Histoire” , p. 86. 1954.
(2) Cf. Henri 1. Marrou. “ De la connaissance historique” , p. 274.
Paris. 1954. i'
realiza onde o Espírito guarda o sentido humano, na Ver­
dade’’ (1).
Assim, a Verdade humaniza a História, para nos libertar­
mos da angústia do passado. Porque só a Verdade nos liberta
dos obstáculos, das limitações impostas à nossa inteligência.
Por isso, a História se toma, de certa jorma, num instrumev-
to, num meio da nossa liberdade. Nesse caso, a ciência é urn
simples método de trabalho e pesquisa. A pesquisa mata a his­
tória determinista, para fazê-la renascer ao dar-lhe elementos
de vida. De qualquer forma impoTi^a que seja mantido o Ina-
cabamento essencial da História. A História como realidade-
histórica é uma perspectiva abeita para o Futuro, uma inquie­
tação para a Eternidade, uma indeterminação que se determi­
na pela franquia que lhe vem do Futuro etem o” (2). E êsse
inacabam£nto essencial da História eocistencialista permite aos
pesquisadores reexaminá-la, revê-la e reanalisd-la, como se faz
com iôdas as ciências.
O historiador recusará as ofertas falaciosas de uma fi­
losofia da. História: porqv^ toda a filosofia da História tende
a conduzir a narrativa histórica à conclusão € com ela cons­
truir um sistema. Os historiadores têm de enfrentar os filó-
sofos e dar-lhes combate sem tréguas diante de uma porto. Os
ftlosofos desejariam fechar a porta a uma História inacabada,
encerra-la num túmulo. Compete aos historiadores munter aber­
tas as saídas por onde o que é preciso se una ao seu destiíiff
eterno. A História como valor e como sentido não é a história
dos mortos, mas a história dos vivos. Ela não prolonga o
sado, ela o destrói; quebra-lhe a casca para fazer sair dêle o
prescrite. Pela História, a Vida como transcendência confessa
sua fe em uma outra história que a realiza. Na Históna, a Vida
ultrapassa as evidências de um mundo transitório e se trans­
porta desde logo para as praias luminosas onde se ofpagam as
ondas da morte” (3),
Assim, por falta de pesquisa séria, andam>os até hoje ao
reves2S da história luso-brasileira, ignorando-a, d esp reza n d o

(1-2-3) Cf. Eric Dardel. “ L ’HISTOIRE, ciênce du concret". P*.


Paris. 1946.

Ur
Oliveira Vianna e Gilberto Freyre estudam as nossas raízes so­
ciológicas, as origens do nosso Lusocristianismo, onde se vin­
culam a civilização grega, o espirito jurídico romano e a teolo­
gia judeo-cristã. Sabemos mais do milagre grego do que do
milagre lusíada. Êste é a continuidade espiritual daquele, por­
que o progresso do homem se realiza na solidariedade huma-
nísúca. Por isso mesmo, o milagre grego floresce no expansio-
nismo romomo disseminador da civilização latina. E a civili^
zação latina é um estado de espírito e de coração, é uma psi­
cologia característica dos povos do Ocidente.
Dentro dêsse espírito humanista se forma e se fixa a psi­
cologia universalista do português do século XV, O milagre
grego é o elo da civilização latina, assim como o milagre lu­
síada é 0 elo do Lusocristianismo ao unir o Ocidente ofo Orien­
te. Por isso mesmo, mestre Gilberto Freyre alerta: **Não se
compreende que vivanu hoje mais separadas do que antiga­
mente, em áreas de ocupofção dos trópicos por Portuguêses ou
descendentes e, sob vânos aspectos, continuadores dos Portuguê­
ses, como são o Brasil, a África, o Oriente Português. Arttes de os
Inglêses, provocados pelo anglicizado Malinowski, adotarem a
expressão **antropologia fundonaV* dentro da antropologia, já a
faziam a seu modo os Portuguêses e Espanhóis, baseados em ver­
dadeiras pesquisas de campo de uma das quais nos dá notícia
minuciosa o historiador norte-americano Lewis Hanke. (1) E
num dos nossos ensaios destacámos já o fato, um tanto es­
quecido, de terem beneditinos portuguêses e luso-brasileiros,
no Brasil, realizado no Rio de Janeiro ainda colonial (2) pes­
quisas sôbre a capacidade mental dos negros africanos com­
parados com os crioulos e mestiços, as quais, inspiradas em ob­
jectivos práticos e realizadas sob as sugestões da tradição por­
tuguesa de ciência ligada à vida, representam magnífica an­
tecipação a eocperiências de carater antropológico que só vie­
ram a ser realizadas quase um século mais tarde, por euro-
(1) Cf. Lewis Hanke. “ The First Social Experiments in America,
a study in the development of the Indian Policy of the sixteenth cen­
tury” . MCMXXXV.
(2) Mestre Gilberto Freyre emprega “ colonial" na acepção dos
!■'' historiadores brasileiros e não no sentido sociológico.
peus mais ostensivamente amigos da experimentaqão científica.
O mesmo é certo de investigações ou observações de carater
científico e de sentido antecipadamente lusotropicológico, recí-
lizadas por Ixiso-brasileiros — homens do sécuio XV111 em
sua formação —. como o Lacerda, (Francisco José de Lacerda
e Almeida, natural da cidade de São Paulo, capital da Capi­
tania de São Paulo) ^ que precedeu Livingstone em alguma
das façanhas de penetração da África que tomaram célebre
o grande explorador inglês (quarenta e cinco mais tarde), co­
mo Alexandre Rodrigues Ferreira, como o próprio José Boni­
fácio, de quem é a orientação que mais proveitosamente tem
sido seguida no Brasil pelos govêrnos empenhcfdos na cha­
mada proteção dos indígenas. Outra vez se destaque que são
portuguêsas, luso-brasileiras e luso-indianas várias obras de
antecipação a outros europeus e continuadores de europeus,
sob a forma de estudos científicos e paracientíficos de proble­
mas de adaptação de valores europeus aos trópicos e de ossi-
milação d^ valores tropicais à civilização europeia básica,
porem nao exclusiva nem total, de que os Portuguêses
têm sido os introdutores em numerosas áreas tropicais. Se­
melhantes estudos constituem o lastro histórico sôbre o qual se
deve apoiar e desenvolver uma possível luso-trcypicologia.*^ ( H
Francisco Jose de Lacerda e Almeida, português-paulista, en-
pelo Universidade de Coimbra, entre 1780 e
m o depois de ter subido o Amazonas, desde sua ioz, o rio Ma-
p I“ ’ passando por Cuiabá, chega a São Paulo.
Entre 1797-1798 realiza a viagem de Moçambique, pelos rios de
Sena e Tete ao interior dcí África, onde falece (2). Lacerda
e A lm eja faz a sua viagem quarenta e cinco anos antes de
Livingstone. Da mesma forma o engenheiro Alexandre Rodn-
^ e s Ferrara, português-baiano, formado pela Universidade de
científica pelo rio Amazonas acima
ate o Madeira, de 1792 em diante. Dura oito anos. Escreve a
J^Integração Portuguesa nos Trópicos -
rf Tropics” . p. 54. Lisboa. 19B8.
irem” note Lacerda e Almeida. “ Diários de
fmpre^a Natíonri Holanda. B i. de J»veito.
^ sua Viagem Filosófica**. E tanto as viagens de Lacerda e AU
^ meida como as de Alexandre Rodrigues Ferreira foram cits-
^ teadas pela Monarquia Portuguêsa, assim como também foram
^ os estudos de José Bonifácio de Andrada e Silva, durante dez
^ anos, na Europa. Nessas condições, assim como os Romanos
^ levaram a civilização latina a todos os povos do Ocidente, da
0. mesma forrna os Portuguêses levaram o Lusocristianismo a to­
l dos os povos dos dois hemisférios. E o Lusocristianismo se­
meia ao redor da Terra, na zona inter-tropical, como uma ten­
dência do espírito, do coração e da alma lusíada, uma faioca
de paz e de adoçamento dos costumes, onde floresce o univer­
salismo lusitano.
Oliveira Vianna observa êsse fenômeno histórico-social:
“ Certa vez, numa aldeia do interior do Estado do Rio, depois de
uma violenta agitação popular, que se transformou em confli­
to sangrento entre duas facções locais, ouvi a alguns moradores
que um dos grupos ia apelar “ para o govémo da Bahia".
'^Pov que o'governo da Bahia? indaga Oliveira Vianna.
Essa extravagante idéia feriu-me de surprêsa, continua o so­
ciólogo. Depois, um clarão se me fez: há cêrca de século e
meio o govêmo da Bahia (o Vice-rei) regia, como séde do go^
vêm o geral, a capitania do Rio de Janeiro. Como se havia con­
servado, persistente e oculta, na memória popular a recorda­
ção dessa remota tradição administrativa? Não havia alí ne­
nhum daqueles “ homens-arquivos", de que fala Quatrefages.
Êsse incidente fêz-me compreender o valor do elemento histó­
rico na formação da psicologia dos povos. Nós não somos se­
não vma coleção de almas, que nos vêm do infinito do tempo.
Empreendi desde então uma obra, árida às vezes, às vezes cheia
de inefável encanto: investigar na poeira do nosso passado os
germes das nossas idéias atuais, os primeiros albores da nos­
sa psique nacional. O passado vive em nós, latente, obscuro
nas células do nosso subconsciente. Êle nos dirige ainda hoje
com a sua influência invisivel, mas inelutável e fataV\ (1)
Êsse mesmo impulso de pesquisar, de estudar o nosso pas-

(1) Cf. Oliveira Vianna. “ Populações Meridionais do Brasil” .


1.0 vol. (5.a edição), p. 11. Livraria José Olympio Editora.
sado, para ligá-lo ao nosso presente e projetá-lo cm nosso fu­
turo, le-üou os autores deste livro a escrevê-lo, depois de pa­
ciente investigação e análise em documentos, lidos por cima
ou não lidos na maioria. Por isso mesjno, já o dissemos e in­
sistimos: A história é unidade, continuidade e solidariedade.
E por isso encontramos o Lusocristianismo vivo, florescente,
atuante, no Lusotropicalismo constituinte do Mundo que o Por­
tuguês criou para a Federação dos Povos da Língua Portuguesa.

São Paulo, Dezembro de 1961.

t i t o l i v i o f e r r e ir a

MANOEL RODRIGUES FERREIRA


o Estado do Brasil,
Província da
Monarquia Portuguesa

á milênios aparece, na parte mais ocidental da Europa,


H “ a ocidental praia lusitana” (1), situada na península ibé-
rica, sôbre a vertente atlântica. Cruzam-se alí os caminhos
marítimos de Europa. Alí é a passagem obrigatória dos povos do
Norte para o Sul, de Leste para o Oeste. E a Lusitânia é a en­
cruzilhada aberta a todos os povos: do mar Mediterrâneo ao
mar do Norte, do mar Cáspio ao Atlântico.
Tempo adiante, nesse pequeno território caldearam-se as
culturas de dez povos: Lusos ou lusíadas, iberos (da Ligúria),
celtas (nórdicos), gregos, fenícios (asiáticos), cartagineses
(africanos), ROMANOS (fixadores da civilização latina),
ÁRABES (portadores da civilização oriental), germânicos
(suevos) e normandos. Nenhum povo do mundo pode se or­
gulhar de tão poderosa e tão universal formação étnica. Daí,
já na crista da Idade Média a Lusitânia começar a reorganizar
o Município romano, sob o nome de Concelhos. Surgem co­
mo grêmios defensores das liberdades e direitos do povo. Nes­
sa época de civilização imperfeita, os três poderes reunem-se
no Concelho: o judicial, o legislativo e o executivo. Êles cons­
tituem a garantia e a defesa da liberdade e da ordem. Reco­
nheciam a legitimidade dos direitos populares. Daí os “ boni-
homini” , isto é, os homens bons, eleitos pelo povo, em pleitos
democráticos, serem os magistrados municipais, a quem cabia
distribuir justiça, fazer leis (posturas) e executá-las. (2) E já

(1) Cf. Alexandre Herculano. “ História de Portugal” . T. VII.


(2) Cf. Fortunato de Almeida “ História de Portugal” . T. 1, p. 398.
20 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

em 1254, nas Côrtes de Leiria, ao lado do Rei, no Conselio


de sua majestade, figuraram os representantes dos Concellios,
como representantes do povo, pela primeira vez na Europa.
Assim, na Monarquia antiga, criada por Afonso Henri-
ques, D.^ Afonso I, em 1140, foi o Rei aclamado por seus vassa­
los. Daí considerar-se que o poder residia na Nação, que o de*
egava ao soberbo. E, de forma alguma o Rei podia conside-
lar-se superior à Nação, porque se usasse de poder pleno eab-
SC u 0, se fosse contra as leis estatuidas e violasse os costumes
do Remo, podia ser deposto.
XIT portuguêses, principalmente do século
Conrelhn* liberdade imediata ao servo que se refugiarno
car a lihprHa!í exige-se que o servo refugiado, para alcan*
sim as liberdarfp Concelho durante um ano”. E as­
sim as liberdades municipais iam se formando.

DO OUTONO MEDIEVAL
A PRIMAVERA RENASCENTISTA
Com as guerras da Reconquista cristã inicia-se
na Ibéria. O conde D. Henrique de Borgon a e re^
conde D. Raimundo oferecem então suas lanças a * coi®
de Leão. Casa-se o primeiro com D. Tereza e o s g ^
D. Urraca. Ambos recebem, em dote de casam i
rique o condado de Portugal, no território da antiga
D. Raimundo a Galiza. E ao condado de Porti^a ,
que anexa, pouco depois, pela conquista aos árabes,
de Coimbra. fi'
Após a morte do conde D. Henrique de e^
lho D. Afonso Henriques faz a independência de
mo seu primeiro Rei, f u n d a a Monarquia
Portugal nasce num só bloco; unidade de território, 'í
povo, unidade de governo. Em 1385 Portugal á a p^i ®
ção constituída na Europa medieval, enquanto a
França, a Itália e a Alemanha ainda eram c o n g lo m e r a
vos. A Alemanha e a Itália serão nações em 1870. ^ ,^^0 áo
vai preparar-se, como herdeiro direto do e s p í r i t o de
Império Romano, para fazer o grande Império
^
Termina com D. Fernando a dinastia a f o n s in a .
1 0 0 c — l i . -- *
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 21

nando. E todos êles representam papel de alto relevo na his­


tória do Mundo. „ . i • ü i.
Após a tomada de Ceuta, em 1415, por Portugal, o infante
D. Henrique funda a Escola de Sagres, para o preparo de ma­
rinheiros. È a primeira Escola Naval do Mundo. Trouxera de
Ceuta uma visão panorâmica do mundo africano. Diante dele
extendia-se o Mar Tenebroso, como era chamado o Oceano
Atlântico. Atraia-o o mistério do mar-oceano, como se fosse
imi ponto de interrogação, como se fosse uma pergunta à espera
da resposta lusíada. Nêsses rochedos levantados no promontó­
rio de Sagres, o Infante D. Henrique, o Navegador, “ com Por­
tugal e tôda a Europa atrás de si encarava o infinito para além
do mar sem limites” , diz a escritora inglesa Elaine Sainceau,
autora da biografia do Príncipe do Atlântico. João Ameal o
vê “ fixado na extrema ponta do Sul, em Sagres, dir-se-á um
capitão debruçado na proa dêsse barco enorme, que é, o País
inteiro” . E alí, na proa dêsse barco imenso, na proa da Eu­
ropa, ei-lo, a mão em pala sôbre os olhos a sondar os hori­
zontes oceânicos onde se projetam os horizontes da humanidade.

A ESCOLA DE SAGRES
E O MUNDO MODERNO
Em Lagos ou em Sagres, sob a direção do Infante D. Hen­
rique, se processa a transformação da Europa, da Idade Mé­
dia para a Idade Moderna, a interligação dos povos de todas as
latitudes e longitudes, através de todos os meridianos. Assim,
“ O Infante D. Henrique
Em seu trono entre o brilho das esferas.
Com seu manto de noite e solidão,
Têm aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua m ão.” (1)
O século XV vai amanhecendo. Na Escola Naval de Sa­
gres, a primeira instalada no Mundo, madrugam os tempos mo­
dernos. Falta-lhe a aparelhagem de uma Universidade contem­
porânea. Talvez não haja bancos para os alunos. Também não
precisam dêles. A sala de aula é o mar-oceano. Mestres e alu­
nos são marinheiros, são pilotos, são cartógrafos, são geógra­
fos, são astrônomos. As salas de aula navegam. Caminham
sôbre as águas, à luz do sol ou das estréias, entre o infinito do
céu e o mar infinito. Trazem para a Junta dos Matemáticos
(1) Fernando Pessoa. “ Mensagem” .
— M. R. FERREIRA

ciência n áu tiL do t S p ^ t a v a . ^
infante D. Henrique, o Navegador. ®

Junta’d f M S m á t í c r d ? L Í ^ ’os” °os^mí^^^^ de Sa^es e na


Vieram da Europa, da Ásia e dá Africa Êrl da epoca.
castellianos, italianos e francêses A « f n f . n f “
fato de serem estrangeira D importava o
no seu espírito universalista e arejado ^ Portugal
salista é essencialmente p o r « neJo
à pátria e pelo sentido humanamente lusíada ” °
Em 1415 começam os portusuêse^: a .
a dentro. Inventam a caravela entre 1440 e l « o
tte tôda a técnica e ciência náuticas m X ^ i e Adaptam-
dos descobrimentos marítimos se inicia. ’ epopeia

O TRATADO DE TORDESILHAS
Após cêrca de cinqüenta anos de navegação at]ânf,v.=
sua vila de Sagres, falece o infante D. Henrique, o Navegador*
Mas a sua emprêsa nao morre. Vai continu^ com s ^ S D
Afonso e prmcipalmente com seu descendente D TnSn V i?
1451 nasce em Gênova Cristovão Colomh? f ; •* '
anos êle entra na marinharia portuguêsa Ê ro m n '^ ®
italianos estiveram, no século X V a o * • j ^ mmtos
Humanidade. ® de Portugal e da
Desde Emmanuele Pessaeno /'tv/Tq,, i
guês) contratado por el-Kei D. Diní^ , Paçanha em Portu­
gal no século XV, Cadamonsto Co 7n” V ’ Portu-
no, Fieschi, Negri, Cuano, Strozzi • Usodimare, Cassa-
di, Frescobaldi, Guaterotti, Acciauoli* Giral-
Vinetti e tantos outros, até Amérion em português),
Depois de ter servido nas armad» ÍW*
vinte anos, Colombo vai oferecer seu^ Pp^tuguesas cêrca de
tela em 1490. Castela acaba de unir aos reis de Cas-
casamento de Fernando e Isabel Por Aragão pelo
vios, nem marinheiros. Assim/ nara ^esm o não tem na-
Isabel de Castela fM o sacrifício de suaf*?*'?'' caravelas,
cebe La Gallega batizada por êle com o « Colombo re-
Pinta e Nifia, adquiridas na Galiza. Com 2 ! Maria,
(1) Cf. Guide Po. “ Navigatori itaíi • ® roteiTOS
dei Portu^alle» IMO. “ ^>an, nel Medio E ,» . « seryisi.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 23

fornecidos pelos portugueses, segundo prova o professor D. J.


Zukernik, da Universidade de Leningrado, em seu livro Uma
nova luz sôbre as expedições de Colombo” , o marinheiro ge-
novês chega à hoje ilha de Cuba em 1492. (1) Estava desco­
berta a maior das Antilhas. D. João II, com a sua política de
sigilo, conseguira desviar a atenção dos cast\^lhanos para o
Atlântico Norte, já reconhecido pelos portuguêses. E cinco
anos antes, em 1487, o piloto português Bartolomeu Dias. já
havia dobrado o Cabo da Boa Esperança, ao Sul da Africa, e
entrado no Oceano Indico.
Portugal exige de Castela imi convênio para declarar as
terras das duas nações no Novo Mundo. Castela oferece a
Portugal cem léguas ao poente da ilha de Santo Antão do ar­
quipélago de Cabo Verde. Portugal exige tresentas e setenta
léguas. Castela aceita. A 7 de junho de 149^4 foi assinado en­
tre as duas Nações o Tratado de Tordesilhas. Fosse traçado
o. meridiano de Tordesilhas, êle passaria pela foz do Rio Ama­
zonas e sairia no estuário do Rio da Prata. E assim Portugal
assegurava a posse do Brasil, seis anos antes da viagem de
Pedro Alvares Cabral.

O DESCOBRIMENTO DO BRASIL
Após o Tratado de Tordesilhas (1494), onde Portugal traça
as primeiras fronteiras da terra situada a 370 léguas ao Oeste
do árquipélago de Cabo Verde, Duarte Pacheco Pereira, cuja
assinatura figura naquele convênio, é mandado pelo Rei D.
Manoel I localizar geograficamente a terra a Sudoeste, além de
Cabo Verde, em 1497. No ano seguinte Vasco da Gama com­
pleta a viagem de Bartolomeu Dias, pelo Sul da África e vai
à Ásia. Em 1499 o Rei de Castela manda Vicente lanez Pin-
zon, Alonso de Hojeda e Américo Vespúcio reconhecer a terra
descoberta por Cristóvão Colombo. Chegaram até o Rio Oiapock,
na atual fronteira do Brasil com as Guianas. E êste rio foi ba­
tizado com o nome de Rio de Vicente lanez Pinzon.
A 9 de março de 1500, Pedro Alvares Cabral sai de Lisboa,
na foz do Tejo, com uma grande armada, rumo à Ásia. Êle
é o capitão da esquadra, cujo guia de Lisboa a Porto Seguro
foi Duarte Pacheco Pereira. Det Porto Seguro, através do
Atlântico Sul, rumo ao Cabo da Boa Esperança, foi pilotada por

(1) Cf. D. J. Zukemick. **Uma nova luz sôbre as expedições de Co­


lombo” . Tradução do russo para o portug^uês por Myron Malkiel-*Jirmouns-
ky. 1961.
24 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

r, Bartolomeu Dias. Onde êle havia chegado trese anos antes,


I

em 1487, o seu navio naufraga. E êle e toda a tripulação ficam


sepultados no Oceano Índico, assim como o Oceano Atlântico
fora, durante mais^ de oitenta anos, a sepultura de muitos ma­
rinheiros portuguêses.
Com o nome de Província de Santa Cruz, incorporada à
Coroa Portuguêsa, a terra descoberta oficialmente por Pedro
Alvares Cabral no dia 22 de abril de 1500, entra para a His­
tória Universal. D. Manoel I começa a mandar expedições de
reconhecimento. E todos os anos saem de Lisboa armadas por­
tuguêsas para reconhecer os litorais da Província de Santa
Cruz habitada pelos indígenas, de civilização rasteira.
Pedro Alvares Cabral dirige-se a D. Manoel I. Informa
o seu Rei a respeito da viagem. Pero Vaz de Caminha escreve
a sua majestade. A sua carta é a certidão de batismo da terra
nascente. Também escreve ao Rei, o Físico (Médico) de bordo,
Mestre João, cuja carta denuncia o conhecimento pre-colom-
baiano da terra descoberta. Diz Mestre João a el-Rei: “ Quanto,
Senhor, ao sítio desta terra mande Vossa Alteza trazer um
mapa-rnundi que tem Pero Vaz Bizagudo, e aí poderá ver Vos­
sa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-mundi não cer­
tifica se esta terra é habitada ou não; é mapa mundi antigo
e alí achará Vossa Alteza escrita também a Mina.** (1)

A PROVÍNCIA DE SANTA CRUZ


E OS INDÍGENAS
D. Manoel I batiza a terra “ descoberta” por Pedro Álvares
Cabral com o nome de Província de Santa Cruz incorporada à
Coroa Portuguêsa, como qualquer outra de além Atlântico.
Assim, a Província de Santa Cruz está no mesmo nível, no mes­
mo plano que a Província do Minho» a Província de Tras-os-
Montes, a Província do Alentejo, a Província da Beira Alta, a
Província da Beira Litoral, a Ftovíncia do Douro e a Província
da Extremadura. E entra na História Universal como provín­
cia da Monarquia Portuguêsa.
El-Rei manda, todos os anos, expedições de reconhecimento
do litoral da América Portuguêsa. Seus habitantes, os indí­
genas são de civilização rasteira. Andejam nús pelos matos
São analfabetos e antropófagos. Vivem da caça e da pesca. Seu
gênero de vida é a guerra entre as várias tribos. Ignoram a dis-

(1) Cf. Damião Peres. “ O Descobrimento do Brasil por Pedro Al­


vares Cabral - Antecedentes e intencionalidade”, p. 108. 1949.

■í •
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 25

ciplina do trabalho. Daí os confUtos sociais com os portuguêses


povoadores. Para o indígena o dinheiro nada represeiüa. ^Com
êle os europeus conseguem roupa, casa e alimento. Us mcuos
usam simples tanga, moram em tabas e, ^em do peixe e da
caça, alimentam-se de mandioca. E a terra imensa esta coberta
de florestas seculares.
D. Manoel I, o Rei Desbravador, por dois alvaras, em 151o,
ordena ao feitor e aos funcionários da Casa da índia, em Lisboa,
fosse dada a necessária ferramenta aos povoadores da Província
de Santa Cruz. Em 1519 é publicado em Lisboa um mapa assi­
nado pelo cartógrafo Lopo Homem, onde figuram os nomes de
cento e cinqüenta acidentes geográficos, desde a foz do Rio
Amazonas ao estuário do Rio da Prata. E tôda essa costa de
cêrca de nove mil quilômetros de extensão, já havia sido reco­
nhecida, em menos de vinte anos, pelos portuguêses.
Em 1530 D. João III, o Rei Povoador, nomeia Martim ^ o n -
so de Sousa governador da Província de Santa Cruz. Dá-lhe
amplos, gerais e ilimitados poderes. Essa expedição desdobra-
se em duas: uma vai até Gurupá, no Amazonas, chefiada por
Diogo Leite; outra desce até o estuário do Rio da Prata, cujo
curso percorre até o esteiro de Carandins. A 22 de janeiro
de 1532, em São Vicente, no atual Estado de São Paulo, Martim
Afonso de Sousa preside a primeira eleição popular realizada
nas Américas. Eleitos os vereadores, instala a Câmara Muni­
cipal de São Vicente, a primeira em funcionamento no Novo*
Mundo. Assim, São Vicente é o berço da democracia americana.
E de 1532 em diante as eléições populares são feitas anual­
mente, para as legislaturas municipais, de acôrdo com a lei
eleitoral capitulada nas “ Ordenações do Reino” .
Em 1533, D. João III divide administrativamente a Pro­
víncia de Santa Cruz em Capitanias. A designação Capitanias
vigora até 1815, quando passam a Províncias, para depois de
1889 serem Estados. Foi sobre-humano o sacrifício dos donatá­
rios para civilizarem as suas capitanias. Duarte Coelho, dona­
tário da Capitania de Pernambuco, “ conquistou aos palmos a
terra que lhe foi dada às leguas” , observa Oliveira Lima. Pou­
cos povoadores para terra tão extensa e tão bravia. Alvorece o
embrião de uma nobreza agrária onde se alicerça, pelos tem­
pos adiante, a economia da América Portuguêsa. Dentro dêsse
patriarcalismo surge a vida social nascente. E Òliveira Viana
sintetiza: “ Tôda a trama da nossa história é ela (a grande
propriedade) que fia e entretece, estende e recama durante
êsses trezentos anos fecundos e gloriosos.” E os portuguêses po­
voam e civilizam a terra brasileira com sangue, suor e lágrimas
26 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

SURGE O ESTADO DO BRASIL


A 17 de dezembro de 1548, D. João III outorga ao Estado
•do Brasil a primeira Constituição luso-brasiliense. Nomeia Tome
de Sousa primeiro governador-geral do Estado do Brasil. Em
carta a Diogo Alvares Correia, el-Rei escreve; “ Eu el-Rei vos
‘envio muito saudar. Eu ora mando Tomé de Sousa, fidalgo
de minha casa a essa Bahia de Todos os Santos, por Capitão
governador dela, para na dita Capitania e mais outras dêsse
ESTADO DO BRASIL provêr de justiça dela e do mais que
ao meu serviço cumprir. Lisboa, 19 de novembro de 1548” (1)-
E para a instalação do governo do Estado do Brasil em Sal­
vador da Bahia, a cidade fundada por Tomé de Sousa, a Co­
roa Portuguêsa gasta, de início, trezentos mil cruzados.
Com Tomé de Sousa chegam os primeiros funcionários
públicos. Mandado por D. João III vem, na companhia do go­
vernador-geral, o Padre Dr. Manoel da Nóbrega, pi^imeiro se­
cretario da Educação do Estado do Brasil, com a incumbência
de instalar o ensino público e gratuito por conta da Coroa Por­
tuguêsa. E quatro espécies de funcionalismo público são pagos
pela Monarquia Portuguêsa: os civis, os militares, os jesuí­
tas e os sacerdotes.

A GRANDE MIGRAÇÃO
DOS POVOS EUROPEUS
Remontemos um pouco no tempo, ao arrepio da história.
Com a expedição de Pedro Alvares Cabral, em 1500, Portugal
quebra a política de sigilo em torno do descobrimento das Amé­
ricas. Daí ter anunciado oficialmente a posse da Província de
Santa Cruz a Europa inteira. Iniciaya-se, pois, em comêços
do seculo 3 segunda pande migração de povos para as
/p e n c a s . Ao chegarem aqui os europeus, encontraram as Amé-

hemisfério Norte o último período do °perava-se no


Geologia histórica. Do Pólo em dfrpnS^'®'®^ registrada pela
a estender-se uma crosta df.’ ao Equador, começa
qüência, o nível dos marpo « ^ cobrir a terra. Em conse-
1______L _ “ *neça baixando. Forma-se, no

sil”. Vol. de Vamhagren. «História Geral do Br»-


A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 27

atual EIstreito de Behring, uma ponte continental, de terra fir­


me. Através dela, as tribos andejantes da Mongólia vieram a
esparramar-se pela América do Norte. E, na sua marcha, atin­
giram 0 Pólo Sul.
Foi a época da grande migração das tribos mongólicas para
êste hemisfério. Tempo adiante, ao longo de milhares de anos,
a capa de gêlo recua novamente para o Pólo Norte. Sobe o
nível das águas. Novamente, no Estreito de Behring, o mar s^
para os continentes asiático e americano. As tribos mongóis
espalham-se, na sua marcha, do Norte para o Sul, por todo o
Continente. Surgem, aqui e ali, centros de civilização e cul­
tura. Dentre elas destacam-se os Maias, na península de luca-
tan; os Aztecas, no México; e os Incas ao longo da Cordilheira
dos Andes. E assim, quando os europeus aqui chegaram, co-
. meçam os encontros com aquêles povos já estabelecidos no Novo
Mundo.
Na América do Norte, inglêses e franceses chocam-se com
povos de cultura e civilização superiores. Muitos utilizavam
até objetos de cobre. Os castelhanos depararam com estradas
largas. Eram meios de comunicação e transporte entre cida­
des, onde se levantavam magníficos templos e monumentos. E
nelas se ostentavam riquezas deslumbrantes.
Por que razão, tendo sido os portuguêses os descobridores
do Novo Mundo, e, portanto, os primeiros a reconhecerem-no,
vieram estabelecer-se nesta parte do hemisfério Sul? Nessa es­
colha, provavelmente se acha a sua irresistível vocação pelos
trópicos, segundo Gilberto Freyre. E na região intertropical
haveriam de desenvolver a civilização e a cultura d® Luso­
cristianismo. Ij

PLANEJADA A POLÍTICA
DE POVOAMENTO PORTUGUÊS
Certo é que neste hemisfério foram os portuguêses os me­
nos felizes, relativamente à colaboração que pudessem receber
dos habitantes já aqui fixados. Êstes constituíam os homens
mais primitivos, de civilização mais rasteira das Américas. Vi­
viam em plena idade da pedra polida. E em comunidades tri­
bais no seio da floresta virgem.
Nessa época, e ainda hoje, no interior do Brasil, grande parte
das tribos possuem apenas moradias e redes e outras dormem sô­
bre folhas de palmeiras estendidas no chãó, ao abrigo de simples
coberturas de sapé. Assim, como nenhum outro europeu nas
Américas, o conquistador luso sente a plena adversidade fe-
2S T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

rir-lh e a sobre-hum ana em prêsa nascente, quando lança as!»•


ses de uma civilização cristã, com dar-lhe forma e sentido. A
política de sigilo dos descobrim entos marítimos, quebradapor
um momento, continua. Portugal a tinha iniciado na Provín­
cia de Santa Cruz, provàvelm ente antes de 1500, quando es^
belecia no interior, distante da costa, em lugar *
ficílim o, a presença de João Ramalho, fundador de .
dré da Borda do Campo. E, sediado ali„ o futuro Pa
dos Bandeirantes tinha o objetivo de constituir um cen to
sertanistas, de onde partissem as expedições
da selva, das solidões desertas, recon h ecen d o-a s, conqui
as, e, posteriorm ente, povoando-as (1 ). . - -jjs.
Uma planejada política de p o v o a m e n to e
tã fo i estabelecida pela Coroa Portuguêsa, num ^
tudo estava por fazer e devia ser feito. O estudo
dientífico de nossa história demonstra como nesse ^
civilizador do Lusocristianismo se desenvolvem as
modernas. Basea-se, prim eiro, na ordem, segundo, na
cia às leis; terceiro, no espírito de vassalagem. Nada
de improviso. E, para êsses tempos, nada poderia ter si
melhor, nem com mais senso de humanidade. peu ^
Nesta parte do Novo Mundo começou Portugal
criar, à sua imagem e semelhança, um ara
Todas
êste as instituições
hemisfério. portuguêsas
Tudo que constiti^’ " foram transportaoa ...
ra começou a flores^«-

dos
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 29

mente cristãos, fossem católicos ou protestantes. Na fé cristã,


nos sentimentos religiosos dos povos, apoiava-se o ideal da
Divindade humana da Realeza. Essas Monarquias eram deno­
minadas absolutistas, porque o monarca era soberano. Nenhum
outro poder podia existir senão o dêle. Acima dêle somente
Deus, a Divindade Suprema. Para o ajudarem a governar, os
reis nomeavam Conselhos de Estado. E todos os homens que
viviam no regime absolutista eram denominados “ vassalos do
Rei” .
Os fiéis e leais vassalos do Rei cumpriam, de livre e es­
pontânea vontade, as ordens do seu soberano. Os vassalos não
se submetiam pela fôrça, nem por servilismo. Dedicavam ao
seu Rei a ternura que o filho dedica ao pai, o respeito que se
vota à Divindade. Realmente, o monarca absolutista era con­
siderado um verdadeiro pai de tôda a família nacional, de todos
os seus vassalos. E foi sob essa mais pura forma de Monarquia
absolutista que o Brasil foi nascendo.
A Nação Portuguêsa, ampliada por tôdas as partes da Ter­
ra, estava consubstanciada no Rei de Portugal, embora êle se-
diasse na Europa. Nesse caso, o Rei era o símbolo da Nação
Portuguêsa, da qual o Estado do Brasil era parte integrante,
e a Monarquia Lusitana estava presente em tôdas as suas pro­
víncias ultramarinas. Os naturais do Brasil eram vassalos por­
tuguêses. Por isso não diziam, na linguagem de hoje: “ Viva o
Brasil!” , nem “ Viva Portugal!” ; mas diziam, na linguagem his­
tórica, isto é, na linguagem dêsse tempo: “ Viva El-Rei!” , por­
que o Rei constituía tôda a Nação Portuguêsa. A bandeira do
Rei era a bandeira de todos os povos seus vassalos. O patrio­
tismo dos vassalos portuguêses nascidos no Brasil constituia-
se de dois sentimentos: um, o amor ao solo, à terra do nasci­
mento; outro, a devoção à comunidade política. E essa devoção
expressava-se no amor, no respeito, na fidelidade e na lealdade
ao RetL de Portugal, ao Rei dos Portuguêses nascidos nas cinco
partes do Mundo.

A SOCIEDADE MONARQUICA
Nessa Monarquia absolutista, a sociedade estava dividida
em duas grandes classes: a nobreza e a plebe. A nobreza era
civil, militar e eclesiástica. Havia um estatuto jurídico da no­
breza, que lhe garantia, direitos, privilégios e graças, isenções
e deveres. A nobreza era titulada e não titulada, mas ambas
com os mesmos direitos e deveres. Por isso mesmo, a nobreza
30
T. L. f e r r e ir a _ M. R. ferrei
---
«^

deve ser entendida neste sentido: não podendo o Eei estarpre­


sente em todos os lugares da Nação, os elementos da nobreza
representavam uma parcela do poder real, isto é, do poder do
Rei, para governar em seu nome. Assim, a nobreza era, por­
tanto, uma extensão, o prolongamento do poder do soberbo.
E, pela sua própria definição, a nobreza era o apoio da Mo­
narquia, as colunas do Estado e o braço vingador da honra da
Nação ofendida. ^ -
Por todos os territórios da Nação Portuguêsa, na *
pa, nas ilhas atlânticas, na Africa (Ajigola e Moçambique»
Brasil, em Gôa e Macau (Ásia) e em Timor
hierarquia administrativa denominada nobreza ^j^j-eza,
indo dos mais altos postos aos mais inferiores. Era a
a classe dirigente política da Monarquia p*-tu^êsa,
do do Brasil, como em tôdas as partes da Nação
existiam as nobrezas locais, das vilas e cidades.
o govêm o das Câmaras Municipais e a
da tropa de segunda linha, chamada milícia. Essas no
cais — como tôdas — eram hereditárias. São en^^'
neiro, Salvador, Recife, Belém, Ouro Prêto, Forta
tôdas as cidades e vilas do Estado do Brasil ^ niaií
nobrezas locais, respeitadas pelo soberano. Nas ci
antigas, nascidas no século de Quinhentos, as
brezas honravam-se de ser descendentes dos conquis
terra, ou seja, dos primeiros povoadores. Assim, P^.^^
na cidade de São Paulo a nobreza local era
minantemente de famílias b a n d e ir a n t e s . E a e s s a n j-es-
sitana, das cidades e vilas do Brasil, competia
pectivas Câmaras Municipais, onde fermentava o
natóonalidade.

^ -----* MUNICIPAL
Jf
-mm.
zes mer^lham^^' Câmara de Vereadores,
dia, p a r f â f ™ Português, em p len a/d ad^ f,
órgão mais Romano; o Municipw
do ImpSto * Monarquia Portuguêsa. coi»'’/ " , .
ganização e o £Fovâ.^” ^ j O código eleitoral,
livro máximo da wIÍJs d® pâmaras Municipais
As CâmaraT M ^ S ° a “ Ordenação do
prio soberano. Cori^c sempre foram soberanas, como
Portugal e reDresen+a^^^ ^^^tamente com ^ j55í>
mesmo, nunca foram liberdades populares.
ca foram fechadas violentamente ou por
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 31

outra forma. Consubstanciavam os princípios básicos da pura


democracia, Era tanta a sua importância, que os capitães-gene-
rais governadores do Estado do Brasil, nomeados pelo Rei,
prestavam compromisso e tomavam posse nas Câmaras Muni­
cipais das Capitais das Caj^itanias. Assim, a primeira Câmara
Municipal das Américas foi instalada por Martim Afonso de
Sousa, em São Vicente, a 22 de janeiro de 1532. Em 1548, a
Província de Santa Cruz foi denominada Estado do Brasil, for­
mado de catorze Capitanias, com o Govêmo-Geral sediado na
cidade do Salvador, capital do Estado e capital da Bahia. E
o ^ ta d o do Brasil — ou América Portuguêsa —, assim como
Cíôa, na Asia, era a índia Portuguêsa — foi conformado, ao
longo dos séculos, à imagem e semelhança de Portugal metro­
politano.

A NACIONALIDADE PORTUGUÊSA
Os nascidos no Estado do Brasil tinham, como já vimos,
a nacionalidade portuguêsa. Por isso mesmo, já em 1609, o
Conselho da índia, mais tarde Conselho Ultramarino, decla­
ra: *‘ E se disserem que o Conselho da índüa posto que tôdas
estas matérias não são do Reino, senão das partes e provín­
cias separadas, e que assim não pode nem deve preceder aos
Conselhos do Reino nem ter com êles relação alguma, como
a não tem o Conselho Real de Castela ou de França, como os
dêste Reino, por ser separado e distinto dêles, se responde
que a índia e mais terras ultramarinas de cujo govêmo se
trata neste Conselho, não são distintas nem separadas dêste
Reino nem ainda lhe pertencem por modo de união, mas são
membros do mesmo Reino, como o é o do Algarve e qualquer
das províncias de Alentejo e Entre-Douro-e-Minho, porque se
governam com as mesmas leis e magistrados e gozam dos mes­
mos privilégios que os do mesmo Reino, e assim tão Português
é o que nasce e vive em Gôa ou no Brasil ou em Angola, como
o que nasce e vive em Lisboa” (1). Êste documento foi escrito
quando as Coroas de Portugal e de Espanha estavam sob o
cetro de Felipe III, Havia uma un:ão de podêres, não uma
unidade nacional: a Nação Portuguêsa e a Nação Espanhola
(1) Cf. Francisco Mendes da Luz. “ A concepção da unidade de Por­
tugal continental e ultramarino, através de um documento dos primórdios
do século XVII” . in “ Garcia da Orta". Rev. de Lisboa e Ultramar.” Vol.
III n.® 4. 669. Devemos ainda ao Dr. Alberto Iria, Diretor do Arquivo
Histórico Ultramarino em Lisboa, o primeiro conhecimento desse do­
cumento.
32
T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

~ n t t o a „ ™ pon u g.!«

alguma a niorador do Estado do Brasil ocorreu


sa. Era português mesm^nn senão a portuguê-
“ brasileiro” para dp^icmo ^^^da não existia a palavra
lista”, por exemplo a^Lrect O toponímico “pau-
pois vieram, naturaímint^ t ? pnnieira vez em 1671. De-
ses, maranhenses pfr a pernambucanos, fluininen*
vo de natural do Bra^ii ^ “ brasileiro”, como designati*
carta de José Joaauim primeira vez em 1787, na
temente, não poderia ^ Tomás Jefferson. Eviden-
não existia a Nação Braíí^- ^ nacionalidade “ brasileira” se
guesa. E^ o Estado do BrafrT^* Somente existia a Nação Portu*
°^^^êsa. ®ra uma província da Monarquia

ÍSisl^ ^®^®ntos anos^^de^vj^^^^°^^^ada em todos os documen'


niinacãn os hí de vida luso-brasi-
nascidoíj „ a^tes f^^^dores inventaram a deno-
b i o l ó g i c a s - i n v e n c ã ^ ^ surgido, para designar os
zamento do Portí^^^?^ ®^^ica do n baseada em premiss^
dúvida que elpm ® q derivada do c^;
e negroÍT®^^°« ^a cultur^^^^^ ^ ^ Africano. Não ha
indígenas tinham^^^ ^^^orporaH^ Material e espiritual de íH'
«ícas rudiment^.'^'''^^ P ou c^ n ^ ^ europeus. Mas os
ao folclore, o nem«^ ^ ®?^^ento«j ^ oferecer: algumas téc-
ura superior ^ se mesclara^
e caso. o ^ndio. p a uma civilização e cul-
sua influência foi poderosa»

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‘considerar:
2.") com o índ-” *‘c® eai antropológico, <lf

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^ última, ou sej®*
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t r
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 33

na questão histórica, O problema histórico foi, até hoje, condi­


cionado pelas questões étnicas e sociológicas. E a nossa histó­
ria, que já era um resumo de crônicas, uma histórica român­
tica e episódica, ficou completamente subordinada àquelas duas
disciplinas.

A HISTÓRIA DEFORMADA
Ora, a história não é serva de nenhuma outra ciência, mui­
to menos das ciências sociais, que nunca tiveram caráter defi­
nitivo, com mudanças a cada nova teoria em debate. A Histo­
ria política, a História das instituições, é uma ciência indepen­
dente, baseada em documentos deixados por uma sociedade in­
teiramente diferente da nossa. E, por termo-nos perdido até
hoje nessa teia de considerações biológicas e sociológicas, criou-
se a imagem de um povo — o brasileiro — em oposição a outro
povo — 0 português, quando, na realidade, só exíiste o povo
lusitano.
Essas conclusões, de conteúdo inteiramente sociológico e
antropológico, formaram uma história do Brasil baseada num
pressuposto fictício: uma “ Colônia” que nunca existiu. Daí a
História do Brasil deturpada com a narrativa dos três primei­
ros séculos formados numa oposição de “ brasileiros” a “ portu­
guêses” , do Brasil em luta com Portugal. Assim, essa história
falseada não estabelecia propriamente uma oposição: ia além,
estabelecia a submissão do povo “ brasileiro” ao povo “ portu­
guês” . A submissão do Brasil a Portugal, como duas entidades
diferentes. E esta última deformação da verdade e da lingua­
gem histórica era mais uma conseqüência da fantasia repre­
sentada por uma ficção: chamar o Brasil de “ colônia” .
Essa história do Brasil, ingênua e simplista, deu origem
a outra fantasia dos historiadores, ao procurarem as causas da
separação do Reino do Brasil do Reino de Portugal. E para
lhe darem uma explicação aparente, criaram a teoria do “ na­
tivismo“ .
Era o “ nativismo” uma teoria romântica, inventada no
século passado para explicar as razões da nossa independência.
Essa teoria nativista havia de ser, é claro, uma conseqüência
da história do Brasil escrita de maneira superficial, sem base
nas instituições, principalmente na história política e adminis­
trativa. Ora, já vimos que o patriotismo constava de duas
partes: 1.°) no amor ao solo, ao torrão natal, e 2.®) na fiel e
leal vassalagem ao Rei, como símbolo da nacionalidade. Nessas
condições, qualquer sentimento de independência manifestado
34
T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

S á político. Aliás, podemos fa


portucuê<! Hn político. Nestas condições, o vasak
uma teoria política a drí»-^’
fazê-lo deveria ^ ■ j direito Divino da Realeza. Mas, pau
stambém
i,«éiffiT SSf? ”p»»'*"'“
dedicava a« p . ^y°^°®a™ente católico, religioso, cot»
zentos mil1Ó“ ^ ° « leal vassalagem. E mais de dD-
ra provam a nossa séculos da história luso-br^ó-
TV/r«« suponr^ assertiva.
assertiva. -------------------
nação sob qu°^j ‘‘natitlstal^^^-f quisesse a indf
^tao outra tenw Política b f ® organizariam a no«
«a do Direito f i l o s o f i a g o v ê m o ? Não exisl»
® não havia Rei<s P®^*tlca para substituir a I*’’
****»’ .^'^‘í e n t e i n o ^ o u t í * ° ^ inventada. í
tofí ^®*>sse êss(» ” ’ ®°va form ® política, não poderá

d e ft^ f caso as n ac^ 5®” ^ ®ó do Brasil, mas*


apenas unia if’ ^
®®sas teorif »»as^ ®® « 0 x13^^®
sécujo -^/°nieçara de Pn f dos homens
pg^am ^ ser e1ah°^‘ "«fal e de todo 0
“ a vieranj ®®‘^*'itores ” a segunda metade
®ncadea<jojPa*‘a as Ani’x®. ®®guir ^ ^*>cos franceses. Dernoj“"
caoí ? ‘ rezen* if®® na’ cr?-t as idéias de independ'®-
a do<!* *^a hi«f ? anos ^ ’ Para is<sn^ ® acontecimentos
°"’*^entaSo‘ °«a de S > ‘ ó r i f ° ’ '2^‘ emos a caracferi^
O P O », arquf««gal, X o r . constituídos ^
°ft 2’í7G4 ^ ^'*>Vos. ” ffoi-osamente de acôrdo c«”

era denonu^^^^
<lo R^?as 5 ^•‘ os. ••E®a‘ uraif®l ® ^ ^ .^ ” cano. Sob o ponto àe
Polft5ci*’° aqu^*“!.®« as sit°® h T ^ indistintos, P^'
®° Ciw,a'»ida rf®a»-an, ®®»«as f ”.*fícativo ®^®” °s
^ « a d o ^ o v li; As >«6sS^*^‘ “ «al. As OrdensÇ^
Í3 ató ° *^®Pois da separ»^"

°*»tr8^ *^gias ai P**anias, os re?


autop/ alvarás e outros
ades metropolitó®*^

A
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCTA BRASILEIRA 35

formavam não o direito especial de uma colônia, mas uma com­


plementarão do direito comum a Portugal e ao Brasil. NAO
EXISTIA UM ESTATUTO QUE COLOCASSE O BRASIL EM
SITUAÇAO DE INFERIORIDADE JURÍDICA. iUém disso, as
instituições portuguêsas, transplantadas nos trópicos, eram de
molde a suscitar entre nós o mesmo sistema de proteção aos
direitos e o mesmo regime dei liberdades comunais, que vi­
nham sendo praticadas no direito histórico lusitano de alem-
mar** (1). Ora, a lei não é, com efeito, o melhor testemunho
que um povo, em determinada época, possa deixar-nos a res­
peito dêle próprio, como documento histórico incomparável?
Nessas condições, “ estudar a legislação que vigorou no Brasil
nos primeiros séculos é, antes de mais nada, estudar a legis­
lação portuguêsa” (2). E assim, não havia, jurídica ou social­
mente, distinção alguma entre os portuguêses da Europa e os
do Brasil, porque ambos estavam no mesmo plano de igual­
dade, vassalos que eram de Sua Majestade o Rei de Portugal.

O MESMO GOVÊRNO
EM PORTUGAL E NO BRASIL
A informação prestada pelo secretário do Conselho Ultra­
marino a El-Rei, em Lisboa, a 6 de junho de 1674, representa
documento de capital importância para a história comum luso-
brasiliense. Diz o seguinte: “ V.S. me ordena da parte de Sua
Alteza lhe dê plenária informação da gente de São Paulo, dis­
trito do govêmo do Rio de Janeiro, dos seus serviços e pro­
gressos no descobrimento daquele sertão, e da próxima notícia
de estar um cabo desta gente nas cabeceiras do Rio Tocantins
e Grão Pará, segundo as notícias e papéis que houver no Con­
celho desta gente e seu procedimento para Sua Alteza mandar
. deferir a consulta sôbre confirmação do perdão, que pede Fer-
não de Camargo, em nome das famílias dêsse apelido, e da dos
Pires, todos daquela vila, em virtude da provisão que lhes pas­
sou em o ano de 1655 o Conde Atouguia, sendo GÍovernador e
Capitão-geral do Estado do Brasil, pelas causas que se apon­
tam na provisão de que se envia cópia (3).
A vila de São Paulo contém em si e em seu recôncavo
(interior) mais sete vilas e tôdas terão 20.000 vizinhos; é anexa
à Capitania de São Vicente, onde assiste Capitão-Mor e ouvi-
(1, 2) Cf. J. P. Galvão de Sousa. “ Introdução à História do Direi­
to Político Brasileiro” , pg. 37-40. São Paulo. 1954.
(3) Cf. Tito Lívio Ferreira e Manoel Rodrigues Ferreira. História
da Civilização Brasileira. São Paulo, 1959.
36 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

dor de capa e espada, postos pelo donatário, o Mwquês de


Cascais; governce-se a de São Paulo na form a d a s demais io
Reino, com oficiais (vereadoras) da Câmara (Municipo^l) e jui­
zes ordinários pela Ordenação (do Reino); e sôbre a eleiçao
é que tiveram as ditas famílias os debates e as controvérsias,
que a provisão acusa: os ouvidores do Rio de Janeiro vão em
correição a estas vilas, como corregedores da comarca.
A causa de não quererem consentir (os homens de Sao
Paulo) algumas vezes êstes ouvidores para que não persistam
(continuem) nesta vila, posto que deixem entrar nela em cor­
reição, é que sendo amantes da justiça, experimentam que
êstes ouvidores a alguns criminosos que a ela se acolhem, os
multam a dinheiro, sem lhes darem castigo, que por seus cos­
tumes merecem. Com que os ouvidores publicam que êstes
moradores lhes não consentem fazer aí estas v-exações. Sendo
que os moradores daquela vila vivem conforme as leis do Kei-
no, e muito obedientes às ordens de Sua Alteza e depois de con­
cessão do perdão do Conde de Atouguia, não houve até o pre­
sente controvérsia alguma, antes estão unidos por casamentos
umas famílias com outras, e à fábrica e lavoura dos frutos da
terra de que é abundante provendo o Rio de Janeiro e mais
Capitanias de farinhas, cames, algodões, legumes e outros gê­
neros, até à Bahia, e por sua industria tem fabricado as vilas
de que se faz menção, e outras muitas povoações sem aiuda
do braço de Sua Alteza. ’
Em vários tempos, tôdas as vezes aue inrn>*y. j
o serviço de Vossa Alteza (os homens de São
com muita prontidão, assim com as pessoas ^^uio) o fizeram
ro de mantimentos, o que se expetimonfr... ° socor-
de Pernambuco, em que tivpm Bahia e
com o inimigo, cortando aquêles s e n ^ diversos encontros
de dano. sertões, e fazendo-lhe aran-
Desta vila de São Paulo ■saii.
s í rt '^^scobriment^dn’'® Antônio
irAl“
saram grandes traLlK

° Garanhão em . • ’
‘■r»;
EstS moradÓrlfíd^ " S^^taram P«®'
rias vêzes vieram à -d Paulo) sãr^ ^ anos.
lhes destruia o recôn ^ ‘^®®*^"atarein 'lue por vá-
o gentio que assistia *»esmos d^K °
ses wver segurament M p a r f^ todo

(trabalho) a ^ i ^ a í “ ®*”
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 37

Prôximamente, nos anos de 1682 e 1673, vieram por or­


dem dos governadores do Brasil Alexandre de Sousa e Afonso
Furtado outra vez à Bahia com mais de 400 pessoas brancas,
fora mamalucos e índios, a dar guerra ao gentio bárbaro que
senhoreava o recôncavo, e tinha feito cruéis estragos e hostili­
dades em seus moradores, por cujas causas se despejaram as
vilas de Cayru, Camamú e Boipeba, e com vários sucessos, des­
truíram as nações (tribos) dos Tapuias, Tupis, Bangaios e Ma-
racás, deixando aquelas terras livres, e os moradores quietos,
sendo cabos desta gente Estêvão Bayão Ribeiro Parente e
Braz Rodrigues Arzão, os quais, com sua gente (de São Pau­
lo) persistem (continuam) nas terras que o gentio possuia, co­
meçando nêles a fazer colônias^ e pedindo licença a Sua Alte­
za para erigirem vilas à sua custa.
Também a Sua Alteza se fez presente como a êstes mora­
dores (de São Paulo) estão dispostos ao descobrimento dos
haveres daqueles sertões, tanto assim que Fernão Dias Paes,
o mais rico e poderoso de escravos se dispôs à sua custa por
servir a Svu Alteza a entrar em 1673 no sertão com gente con­
siderável ao descobrimento das minas das esmeraldas e serra
da prata, c a êste (Femão Dias Paes) escreveu Sua Alteza
carta de agradecimento por êste serviço, e o mesmo fez à Câ­
mara (Municipal) de São Paulo, e w vários moradores pelo
aviso que fizeram de se disporem a esta emprêsa. Outras mui­
tas tropas dêstes moradores (de São Paulo) têm cortado aquê-
le sertão com considerável despesa, e aberto caminhos, que
os faz hoje mais correntes para o descobrimento que se pre­
tende.
tritimamente passou um cabo com 200 brancos, 200 mesti­
ços e 400 arcos (indígenas) desta vida (de São Paulo) à sua custa
cortando imensidade de caminhos vindo parar nas cabeceiras
do rio Tocantins e Grão Pará, onde está' assistente com sua
gente, e se tem notícia que deram com minerais por terem for­
mado casas e aberto estradas para a vila de São Paulo, como
avisou o governador do Maranhão Pedro César, por cuja causa
Sua Alteza foi servido enviar por via do Maranhão ao Padre
Antônio Raposo, natural da vila de São Paulo, com cartas a
êste cabo (Sebastião Paes de Barros) e para trazer resposta e
aviso da causa de sua demora naquele sítio, e partiu em 8 de
maio passado” (1).
A carta do Rei D. Pedro II, de 26 de abril de 1674, acima

(1) Cf. Inventário dos documentos relativos ao Brasil. Anais da Bi­


blioteca Nacional, vol. 39. 132/133.
38 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

referida, começa: “ Cabo da tropa da gente de São Paulo que


vos achais nas cabeceiras do Rio de Tocantins e Grão Pará.”
E 0 mesmo Rei escreve a Fernão Dias Paes.
A transcrição é longa, mas documenta as nossas assertivas,
El-Rei dirige-se aos homens de São Paulo, aos bandeirantes,
para tratá-los como seus vassalos. Êstes eram devotados ao
sen Rei, a quem serviam com bens e vidas. Daí os pauüstas
Estêvão Bayão Ribeiro Parente e Braz Rodrigues Arzão paci­
ficarem o interior da Bahia, onde começaram a fazer colônias,
isto é, núcleos humanos. E pedem licença ao Rei para trans­
formarem essas colâeniúfs agrícolas em vilas com Câmaras Mu­
nicipais.
Retomemos o fio de nossos pensamentos. Evidentemente,
sendo o Estado do Brasil uma província da Monarquia Por­
tuguêsa, integrada na Nação Portuguêsa, estava muito natural­
mente sujeito à intervenção do Rei na sua economia. E o que
caracterizava a economia interna da Monarquia absolutista era
a intervenção estatal, o dirigismo econômico.

TRIBUNAIS DE INCONFIDÊNCIA
As Monarquias européias não podiam confiar a seguran­
ça do Estado exclusivamente na fiel e leal vassalagem dos
seus súditos. Existiam, por isso, os Tribunais da Inconfidência,
aos quais competia julgar os vassalos que atentassem contra
a segurança do Estado, ou contra a Monarquia, o que é a mes­
ma coisa. “ Inconfidência” significava crime de lesa-majestade.
Em tôdas as Monarquias absolutistas existiam, às vêzes, rebe­
lados contra a autoridade do Rei. E seja dito que qualquer ato
de rebelião contra um membro da nobreza, particularmente
investido de uma delegaçao do Rei, significava ato de revoUa
contra o proprio soberano. Êsses motins existiram no Brasil,
assim como na Europa. Nos dois hemisférios tinham o mesroo
sentido de rebeldia as ordens de sua majestade. Mas tanto Já
como aqui, esses motins não tinham sentido político, oú seja, de
uma revolução organizada para derrubar a Monarquia, mesm»
porque, para existir esse intuito, os rebeldes já deviam ter umí>
s s “ “ * >«“ •

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A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 39

gindo em troca, porque “ nunca houve maior vitória do huma­


no, do demasiado humano sôbre o econômico , motivo por que
Portugal, na frase do Evangelho, “ ganhou a vida, perden­
do-a” (1).

A SOCIEDADE LUSO-BRASILIENSE
Como não podia deixar de ser, as rivalidades existiram^
por vêzes, entre os próprios portuguêses, naturais do Brasil e-
de Portugal. Como sempre existiram rivalidades entre os pró­
prios naturais, do Brasil, como acontece hoje. Estranhável seria
se não tivessem existido, pois são próprias de tôdas as nações,
sob todos os regimes e em todos os tempos. Mas todos, unidos,
chegaram ao fim do século XVIII, quando então o Estado do
Brasil já era uma nação, um gigante, com uma agricultura
próspera e ainda em maior desenvolvimento. Deixavam a per­
der de vista as Treze Colônias da Nova Inglaterra, indepen-
dentes então com o nome de Estados Unidos da América do
Norte. E êles ocupavam ainda insignificante faixa litorânea.
Naquele fim do século XVIII, depois de ter alargado ao má­
ximo as suas fronteiras, com pequeníssimas diferenças das atuais,
o Brasil, sob a Monarquia absolutista de Portugal, estava no
seu apogeu cultural, espiritual, econômico e social. Apresentava
magnífico esplendor em tôdas as atividades humanas. Enquanto
na Capitania de Minas Grerais o Aleijadinho esculpia os seus
profetas em pedra-sabão, na Capitania de Mato Grosso frontei­
ra com a América Espanhola, à margem do rio Guaporé, cen­
tenas de trabalhadores e artesãos, sob a chefia do Coronel En­
genheiro Ricardo Franco de Almeida Serra, construíam a mag­
nífica obra de arte militar: à Vauban, o Real Forte do Príncipe
da Beira.
Enquanto, nesse período, na cidade de Santos, o historiador
Frei Gaspar da Madre de Deus trabalhava no silêncio de sua
cela de beneditino. Da mesma forma na Capitania do Rio
Negro 0 naturalista baiano Alexandre Rodrigues Ferreira,
a serviço da Monarquia Portuguêsa, depois de um dia de pes­
quisas científicas, sofria de febres palustres junto às Cachoei­
ras do rio Madeira. Enquanto da cidade de Belém, da Capitania
do Grão-Pará, partiam embarcações de negociantes e subiam
o rio Amazonas, os paulistas descansavam das sangrentas refre­
gas com Os castelhanos, no sul do Brasil, em plenas coxilhas gaú­
chas. No interior do Brasil, na Capitania de Goiás, encontravam-
(1) Cf. Gilberto Freyre. “ 0 Mundo que o português criou” . 43, 45.
1940.
40 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

se na Vila de Meia-Ponte, hoje Pirenópolis, viajantes e negocian­


tes, com suas tropas de burros, de passagem por ali, proceden­
tes do Rio de Janeiro, e com destino a Cuiabá e Vila Bela,
capital da Capitania de Mato Grosso. E outras chegavam oa
partiam com destino a Salvador da Bahia, a Vila Boa de Goias,
^ São Paulo e Santos.

A MAÇONARIA EM AÇÃO
E quando a noite caía sôbre a imensa América Portuguê­
sa, e Vila Rica de Ouro Prêto ficava envolvida no manto da
escuridão debruado pelo profundo silêncio das horas mortas, no
interior de isolada moradia, um grupo de homens reunia-se si­
gilosamente. Alí se falava em voz baixa a respeito das idéias
novas espalhadas pelos escritores francêses. Liam-se mensagens
recebidas de outras sociedades secretas. Redigiam-se outras
«m resposta. E depois, em grupos misteriosos, sumiam no es­
pesso nevoeiro da noite acolhedora.
Como tôdos os membros de tôdas as sociedades secretas de
tôdas as nações êsses homens estavam alí também como peças
de um vasto xadrez cujo tabuleiro tinha a dimensão de movi­
mento europeu nascente. Tramava-se, em Paris e em Ouro Prê­
to, a queda da Monarquia absolutista. Sonhava-se com a reee-
neração política dos povos, com o advento de uma nova socie­
dade que fana a felicidade da grande família j
de uma nova ordem política e sob n ota, M himana, dentw
a palavra - Liberdade - fascinai» ^ ' govêmo. B
do-as. lascinava as mtehgencias, eletrisan-
O absolutismo havia checadn =
mens, juntamente com milharec p™ Agora aquêles ho-
nas lojas maçónicas o fim da Idarf» m - j - ° tramava»
moronar-se o castelo do absolutismn ^ A Começava a des-
sil, o fim dessa forma de govêrnn^S' ™ Portugal e no Bra-
soci^ades secretas de ambos Reino« 1820, quando as
conjunto. E dos escombros da Mnn ° trabalho eto
^esa, durante o processo da Rev^i absolutista port«'

. ■ > b S s “""-
tria S sM n trü m Í ê iíí^ c o iiT ®P'*
tineuí-la r^ ’.c carater prÓDrín . ^®^i^do assim à
certo aspecto todos distinto, para
própria Monarqufa no Brasil “ f“ ®*"®” <=anos. ^
fizera a erandS, j ^°^^^ista qup Í inspirada P f
®"«ndeM da América
ai ao preparar por
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 41

forma o advento de uma Nação independente, assinalada pe­


las grandes cousas, inclusive o de sempre escolher o seu pró­
prio destino, de acôrdo com a sua natural e inconfundível per­
sonalidade, formada ao longo de trezentos anos.

O BRASIL PREPARADO
INTELECTUAL E CULTURALMENTE
O grande movimento revolucionário desencadeado em
Paris, no fim do século XVIII pela ação espiritual dos escri­
tores franceses, encontra ambiente favorável em Ouro Prêto,
na Bahia e depois em tôdas Capitais brasileiras, porque os
homens de então, no tranqüilo sossêgo das cidades provincia­
nas liam tudo, estavam ao par de tudo, discutiam as idéias no­
vas, possuiam ricas e atualizadas bibliotecas. E manuseavam,
com mão diurna e noturna. Voltaire, Rousseau, Diderot, Mon­
tesquieu, Locke. D’Alembert, enfim os propagandistas da re­
volução espiritual européia.
Assim, êsses núcleos de intelectuais, na sua maioria de
portuguêses nascidos no Brasil, filiam-se em linha reta ao mo­
vimento revolucionário pregado pelos escritores franceses con­
temporâneos. Encontra consonância perfeita nas Câmarâs Mu­
nicipais, células criadoras do espírito das liberdades locais, for­
madoras da consciência social do amor à terra e amor ao Rei e
onde já pulsava, com vigor, o espírito da nacionalidade. E
essas Câmaras Municipais, instaladas pela Monarquia Portu­
guêsa, vinham desde 1532, quando Martim Afonso de Sousa
organiza a primeira das Américas, a de São Vicente.
Além das Câmaras Municipais, onde latejam as liberdades
•públicas, daí serem chamadas “ repúblicas” e os vereadores
eram “ repúblicos” , ainda havia o ensino público e gratuito,
desde 1549^, fundado por el-rei D. João III e posto em funcio­
namento, por sua ordem, pelo Padre Manoel da Nóbrega, pri­
meiro Secretário da Educação do Estado do Brasil. E nesses
Reais Colégios, os jesuítas eram professôres pagos pela Co­
roa Portuguêsa.
Já desde 1693 se cunhava no Estado do Brasil, moeda pro­
vincial, isto é, moeda de curso forçado somente na América
Portuguêsa. No século XVIII havia quatro Casas da Moeda
em pleno funcionamento no Estado do Brasil: na Bahia, em
Recife, no Rio de Janeiro e em Ouro Prêto. E além da moeda
provincial também corriam barras de ouro puro, como moeda,
em fins do século XVTEI.
De 1574 a 1822 formaram-se na Universidade de Coimbra,
42 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

dois mil e quinhentos moços nascidos na América


Em meados do século X V III funcionavam no Estado do '
sil vinte e dois Reais Colégios e seis Reais Seminários.
Real Colégio da Bahia funcionavam quatrol Faculdades:
Letras, de Filosofia, de Teologia e de Matemática. 0 Rei^
colhe para seus auxiliares imediatos, os vassalos mais cultos
e mais inteligentes. Nesse caso, o Marquês de Pombal decla­
ra: “ Sua Majestade não distingue os seus vassalos pela cor;
distingue-os pela lealdade e inteligência” . Daí Alexandre Cor­
reia da Silva, nascido em São Paulo, e Alexandre de
mão, em Santos, terem sido membros e depois presidentes o'’
Conselho Ultramarino de Sua Majestade. Alexandre Correia
da Silva, José Bonifácio de Andrade e Silva e José da
Lisboa, entre tantos, foram catedráticos da Universidade de
Coimbra.
Assim, nas letras, nas ciências e nas artes, o século XVlC
'foi o maior, de 1500 aos nossos dias. Nesse caso, “ o Brasü
não teve uma Universidade como o México e o Peru; todavia,
quando chegou o momento da separação, estava preparado in-
telectualmente para a vida independente, a ponto tal que o
Império encontrou um pessoal adequado à alta administração,
à diplt)macia e a todos os ramos da atividade política da Na*
ção” (1). E não precisamos importar ninguém para nos daf
lições de como bem governar a nossa Pátria
Uma descrição mais pormenorizada sôbre o Estado Hn Rra-
sil, como Província da Monarquia Portumiêca ^ i •+ !
trará em “ História da Civilização S S ” ^
ria. (2). ^ orasueira , de nossa auto-

Colônias e Colonos
em fins do seculo XVIII

U m dos objetivos dêste livro Á

------ como se diz h 5 r E s S .S ° " Í ,“ de Estado ^

da
...
Llvio Per^ •
j ,.! H
H»tória e da Cultura do
^

F ^ „ . -B ,.-.»
- 1959,
A MAÇONARLA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 43

do Rio Grande do Sul, Estado do Amazonas, Estado da Bahia,


Estado de Pernambuco, Estado de Minas Gerais, Estado do
Rio de Janeiro, Estado do Paraná, Estado do Rio Grande do
Norte, Estado da Guanabara. Esta denominação Estado do
Brasil, a partir dêsse ano, aparece em,i todos os documentos
oficiais e permanece até 1815, quando o Estado do Brasil, pro­
víncia da Monarquia Portuguêsa, é elevado a Reino do Brasil,
-unido ao Reino de Portugal e Algarves, E de 1500 a 1^22, os
habitantes do Brasil foram denominados “ vassalos portuguêses .
Jamais existiram, naqueles 322 anos, as denominações
“ Brasil-Colônia” , “ colonos” , “ colonização” , que lemos hoje nas
^histórias escritas com os capítulos de Portugal, dêsse período
tricentenário. Entre 1500 e 1822, muitos historiadores, nasci­
dos no Brasil, escreveram sôbre a nossa história. Mas nos seus
livros não há a denominação “ colônia, colonização e colonos” .
Há, tão sòmente. Estado do Brasil, América Portuguêsa, po­
voadores e povoamento. E daí os próprios Vice-Reis serem
nomeados, desde 1639 em diante, Capitães-generais Governa­
dores do Estado do Brasil, embora não fôssem militares.
Invariàvelmente sem exceção, Pero de Magalhães Gandavo,
Gabriel Soares de Sousa, Frei Vicente do Salvador, Padre Si­
mão de Vasconcelos, Diogo Soares Moreno, Antonil, Rocha
Pitta, Pedro Taques de Almeida Paes Leme, Frei Gaspar da
Madre de Deus, Monsenhor PSzarro, e tantos outros, todos êles,
ao longo de três séculos, mantiveram uma continuidade, uma
linha única na maneira de escrever a História do Brasil, em
linguagem simples, de maneira despretenciosa.
No entanto, nem êsses historiadores, nem os vassalos do
Rei, ignoravam a existência de colônias, colonos e colonização
na América do Norte. Assim, da Bahia, 12 de fevereiro de
1738, o português baiano Venceslau Pereira da Silva, escreve:
“ Com paternal cuidado solicita Sua Majestade que Deus guar­
de, o bem comum de seus vassalos e por isso sendo informado
dos danos públicos, que padecem os dêste Estado (do Brasil) ...
Para êsse efeito foi o dito Senhor servido expedir ordem ao
Govêrno Geral do Estado {do Brasil) . Notório é a todos os mo­
radores desta Capital (Salvador da Bahia) e seu recôncavo
(interior) o calamitoso e deplorável estado em que se acham os
senhores de Engenho e Lavradores do País, que são os nervos
jdo corpo político e civil. .. A dois gêneros de males se podem
reduzir as indisposições que padece o corpo dêste Estado, uns
internos e outros externos... Porque os estrangeiros obriga­
dos dos mesmos motivos es esforçaram e resolveram aumentar
o número de fábricas de açúcar nas suas COLÔNIAS... Êste
44 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

ESTADO DO BRASIL se acha ainda no da inocência e da igno­


rância a respeito daquelas leis suntuárias. . . Não sendo menos
intolerável o uso e o abuso de cadeiras guarnecidas de e
sêdas, que são as carruagens da t e r r a ... aos moradores deste
Estado, ,. E também seria útil e proveitoso a todo êste Estado,
suplicar-se ao dito Senhor (R e i), seja servido mandar fabricar
uma suficiente porção de M OEDA PR O V IN C IA L de ouro e
prata, mui precisa para o comércio, que padece grande detri'
mento com a falta dela, pois a lavrada (cunhada) no ano de
1693 (quando foi instalada a Casa da Moeda em Salvador) se
difundiu e consumiu a maior parte dela, circulando por todo
o dilatado corpo dêste vastíssimo Estado {do Brasil) >
Entretanto, a partir de 1822, foi quebrada, repentinamente,
aquela continuidade na maneira de coordenar os fatos de nos­
sa História. Surge, então, um novo processo, anti-científico,
de se fazer história: julgando o passado, denominando-o pejo­
rativamente de “ colônia” , substituindo assim o nom e verda­
deiro existente durante três séculos: Estado do Brasil ou A m é­
rica Portuguêsa.
Neste capítulo, estudaremos sòmente o fim do século
XVni, quando começaram a surgir, pela primeira vez, e por
algumas vêzes, as denominações “ colônia e colonos” . Vamos
analisar o sentSdo contido nessas expressões, empregadas al­
gumas vêzes.

A LINGUAGEM HISTÓRICA

Dividido o Estado do Brasil em ^ .


unidade tinha o seu próprio govêrno cada
governado por um representante do ^ do Brasil era
mente Governador-Geral e depois Víoa -d . ^^^ii^ado inicial-
Norte, isto é, na Nova Inglaterra era Am érica do
ze Colonias, separadas, isto é soín = °|f®rente: existiam Tre-
unisse. Assim, a denominado um g o v ê m o ^ u f ^ '
tiam, pois, as Colônias 4? ^’ ^atamente •
chussets, etc. o r h ã h l L .f de
si mesmos, colonos colônias 2
tantes de Maryland ÍÍT’ exemolo “ °™™avam-se «
Jônia de Maryland ’ ™ seus docn^'^^'^^^
Pernambuco escreTH»,v, mesmn Nesta co-
® Pernambuco, do Esta^ ^'abitantes de
P Mas, no f i l X do Bras Nesta Capitania
*^«nça e s t a v ^ . ^ ° XVITT ‘
evoluconando o escritores que n«
político, passa-
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 45

ram a preocupar-se com as formas de vida do Novo Mundo.


Voltavam-se, evidentemente, para as Trêze Colônias Inglêsas,
do hemisfério Norte, mais próximas da França e por motivos
que mais adiante explicaremos. Por isso, escreve o historiador
francês, Pierre Gaxotte: “ As Treze Colônias ( da América do
Norte) eram, desde há muito tempo, um dos principais temas
da literatura sentimental e humanista (na França). Via-se
nelas um povo novo, muito próximo da natureza, tolerante,
piedoso, patriarcal, sem outra paixão senão a do bem, sem ou­
tro fanatismo senão o da virtude” . (1) E assim a literatura
francêsa do século XVIII tomara por tema as Treze Colônias,
muito conhecidas na França.
Mas, da América Espanhola ou da América Portuguêsa,
aqueles escritores franceses nada sabiam. Por isso quando se
referiam ao Brasil, não diziam Capitanias do Estado do Brasil,
mas sim, “ colônias do Brasil” , Extendiam, pois, ao Brasil,
denominações aqui não conhecidas nem empregadas, próprias
apenas das Treze Colônias do hemisfério Norte.
Ora, naquele fim do século XVIII a língua francesa adqui­
ria foros de idioma universal, como o latim na Idade Média.
Por isso, nesse período, sob a influência daquela denominação
errônea surgida na literatura francêsa, algumas pessoas cultas
de Portugal e Brasil, começaram a denominar “ colônia” a
certas áreas da América Portuguêsa. No entanto, é preciso
delixar bem claro: não aplicavam a denominação “ colônia” a
todo o Brasil, ou seja uma única colônia. A denominação era
^aplicada a certas áreas. E já havia também duas colônias mi­
litares, a do Sacramento, sob o estuário do Rio da Prata e de
Iguatemí, na fronteira do Mato Grosso com o Paraguai.
Vamos esclarecer bem êstes fatos:
1.®) aquelas poucas pessoas no Brasil, não usaram as de­
nominações “ colônias e colonos” , com intuito pejorativo, co­
mo fizeram os historiadores e fazem hoje os não historiadores;
2.“) a denominação “ colônia” sòmente era aplicada a
áreas agrícolas, tal como ainda se faz hoje. “ Colonos” eram
apenas a parte ativa da população entregue aos trabalhos da
exploração da terra. E nessa acepção vamos encontrá-la na
Idade Média (2).
3.®) Nos documentos oficiais sòmente aparecem as deno­
minações “ Estado do Brasil” ou “ América Portuguêsa” ,, ou
“ vassalos portuguêses”.
(1) Cf. Pierre Gaxotte. “ A Revolução Francêsa” . ed. portuguêsa.
Pôrto. p. 50.
(2) Cf. Alexandre Herculano. “ História de Portugal” , ed. 1916. Vol. VI.
..
4o T L. FERREIRA — M. R. FE RREIRA

A COMPREENSÃO HISTÓRICA
Veiamos alguns documentos da época Em 1788, o e n ^
v,oirn Francisco José de Lacerda e Alm eida, nascido
e « " . u l = , C .p it.l d . C .p lU .1. de Sâo P » l . , ^
mado pela Universidade de Coimbra « S o .
•Portuguêsa, fêz uma viagem de Belem do Para a Sao r a
Êle era descendente de famílias bandeirantes. P ertei^ ia
nobreza paulista. Nessa viagem passou por Cuiabá e chego
a São Paulo, Rio Tietê acima, no dia 10 de ja n eiro de l*«^-
(precisamente daí a cinco meses, em maio dêsse ano. eram pre­
sos os inconfidentes mineiros). A propósito de seus conterrâ­
neos, Lacerda e Almeida escreve: “ A cor rubicunda da maior
parte dos habitantes desta Capitania (a exceção de beira mar),
a fecundidade das mulheres, o aumento sensível dos colonos
e a robustez provam muito bem a bondade do clim a” . (1)
Porque razão não escreveu Lacerda e Almeida “ paulistas”
«em lugar de “ colônos” ? Se os habitantes de São Paulo, sem­
pre tão ciosos de sua independência, deixaram escrito em seus
documentos, que eram “ portuguêses de São Paulo” , “ portuguê­
ses paulistas” , fiéis e leais vassalos de Sua M a jesta d e... A
explicação talvez possa ser esta: Lacerda e Almeida, tendo v i­
vido e estudado em Coimbra devia estar influenciado pela
literatura francêsa. Esta extendia aos habitantes do Brasil a
tôdas as Américas, a denominação existente nas Treze Colnn’iat
Inglêsas. Pôde até acontecer que Lacerda ^ í
ellgante dizer ‘•colônos” . Isso é bem provável o
êle não usou tal _denominação com ®
fizeram os historiadores do século S Pejorativo, como
Assim, imediatamente ao trecho ® agora.
Almeida escreve sôbre a cidade dp «?s ^®"®<=rito, Lacerda e
a faz mais célebre e famigerada é a firiflL ^ “ Porém o que
que os seus colonos têm ao seu S o S „ ® respeitoso amor
hospitalidade, liberalidadee canri,,. • ’ ® ® seus amieos- a sua
valor nas ações militares “ genuidadf. ^»
serviços feitos ao ^ «e tem achaH^T ’ ®
imensos sertões sem f^o, entranhanrin importantes
bala, sem o ^ ^ P°r/ aqueles
tMas as minas de ou m ^ ° do oca<sn ^ PÓlvora e a
tem enriquecido Pedrarias qu» no ’ descobrindo neles
cendentes pobres”. (2? fican?.’'^®“ ®’ e que tanto
° e seus des-
to Nacional do L iW Î -^^»»eida. •
■1 M Qt- Lacerda P- ^ «>. InstiW-
• •» p. 99 e 100.
M
' .•:»

f I
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 47

Assim, Lacerda e Almeida, paulista e descendente da no-


íbreza paulista, chama os bandeirantes de “ colonos” , por in­
fluência da literatura francêsa de seu tempo. Em seguida
escreve: “ Êste é o caráter dos paulistas inteiramente desfigu­
rado por todos os historiadores, que, discorrendo por todo o
mundo, ao mesmo tempo que estão encerrados em seus gabi­
netes, tendo por verdadeiras as notícias dadas pelos êmulos e
rivais, os capitulam por bárbaros, como se o valor, resolução
e intrepidez dependessem da barbaridade, e não de ânimos
honrados e ambiciosos de glória” (1). E assim Lacerda e Al­
meida como Frei Gaspar da Madre de Deus protestam contra
os deturpadores da história do Brasil, já no fim do século XVIII.
Observe-se que os “ colonos” a que Lacerda e Almeida se
refere, tinham qualidades que de maneira alguma se identifi­
cam com a imagem apresentada pelos nossos historiadores.
Lacerda e Almeida lia tudo quanto os estrangeiros escreviam,
ao menos sôbre São Paulo, a sua província natal. Protesta
contra o fato dêsses escritores desfigurarem o verdadeiro ca­
ráter dos paulistas e da história. E não há dúvida, a denomi­
nação “ colonos” empregada por êle, foi por influência dos es­
critores francêses.
Na mesma época, escreve Cláudio Manoel da Costa, pouco
depois um dos inconfidentes; “ Os naturais da Cidade de São
Paulo, que têm merecido a um grande número de geógrafos,
antigos e modernos, a reputação de homens sem sujeição ao
seu Soberano e de faltos do conhecimento e respeito que se
deve prestar às suas Leis, são os que nesta América têm dado
ao mundo as maiores provas de obediência, fidelidade e zêlo
pelo seu Rei e pela svu pátria” . (2) O poeta inconfidente em­
prega a palavra “ pátria” segundo a acepção usual da época:
a cidade ou região do nascimento. E tinha portanto sentido
regional e não de nacionalidade.
Notemos, agora, o seguinte: Cláudio Manoel da Costa de­
compôs, sem o querer, o patriotismo em duas partes: 1.° amor
à terra natal, isto é, à pátria; 2.®) a lealdade, fidelidade, obe­
diência e zêlo ao Rei. Êste era o sentimento de nacionalidade
jem face do Rei, ou seja, a nacionalidade portuguêsa. E, fi­
nalmente, observemos ainda que também Cláudio Manoel da

(1) Cf. Claudio Manoel da Costa. “ Memória Histórica e Geográfi­


ca da descoberta das Minas” in “ O Patriota” . Rio de Janeiro, n.° 4 abril
de 1813 p. 40.
(2) Idem.
T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

Costa, mineiro, da mesma forma que o engenheu-o La^rda


Almeida, paulista, afirma que os estrangeiros ao escrever « t e
OS homens de São Paulo, já deturpavam completamente o se
caráter e os acontecimentos. ,
Também em 1797, o historiador paulista Frei Gaspar w
Madre de Deus, fala dos escritores estrangeiros desfibrarem
a verdade sôbre São Paulo e os paulistas, afirmando: Muuas
vêzes tenho advertido que as fábulas respectivas à Capitania
de São Vicente, publicadas pelos estrangeiros nas suas hi3-
•tórias, tôdas, ou a maior parte delas se originaram de algujn
fato verdadeiro, viciado pelos escritores” . (1)

A LINGUAGEM AMBÍGUA
Cêrca de 1781, o vereador à Municipalidade de Cuiabá,
Joaquim da Costa Siqueira, escreve: “ Entre as mais colônias
do brasíleo Estado ou América Portuguêsa, merece primazia
a célebre cidade de São P a u lo ...” (2) AnaUsemos êste tre­
cho. Siqueira diz que o Brasil ou América Portuguêsa era
um Estado. Quanto a isso, não há dúvida alguma a documen­
tação de três séculos é bem clara. Em seguida Siqueira diz
que no Estado do Brasil existiam colônias e, uma delas, era a
cidade de São Paulo. Quiz êle significar que essa denomina­
ção era pejorativa? De maneira alguma. Bem ao contrário,
a cidade de Sãd Paulo até merece elogios de Siqueira* í^ra
célebre e merece primazia entre todasdo Estado do Brasif
O r a , naquele fim do século XVIII, quando a Eurona’ e
as Américas eram varridas pelos ventos revolucionários aLu
mas pessoas influenciadas pela cultura franro<;= j ° ^
agrícolas importantes do Brasil a denn,v.- ^fvam as areas
E na época, a palavra “ c o S v ? de “ colônias” ,
prestado hoje à expressão “ centrnc ^ jnesmo sentido em-
Assim, em 1808 o Príncipe D
dos portos às nações amigas referív-to’ decreto da abertura
ou sejam, produtos agrícolas daquelVs^tt ^’'"dutos coloniais”,
por alguns^ Veiamn ® L^°dutores deno-

o ° “ Não
da capitania de São°’v kente»'“ *'^M “ MemA •
viatft Joaquim da «<liÇão - Sâ^o^ ^ história
vJ8ta do Instituto Histório« í? Siqueira Paulo. 1920.
*«-0 e do Re-
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 49

embarace V. Excia. a remessa do tabaco e dos gêneros colo­


niais para Portugal” , (1) Observe-se, pois, que em 1821 quan­
do Tomás Antônio de Vila Nova Portugal traça essas palavras,
já fazia cinco anos que o Brasil fora elevado a Reino. Nesse
caso, “ colônias” significavam áreas agrícolas, e “ produtos co­
loniais” ou “ gêneros coloniais” , queriam dizer produtos agrí­
colas, provenientes da terra. Em conclusão: o Brasil era um
país essencialmente agrícola, e essa a acepção das palavras
“ colônias e colonos” , cujo emprêgo começa a ser feito a partir
do último quartel do século XVIII.

BRASIL — POTÊNCIA AGRÍCOLA


Mas leiamos outro documento. No dia 9 de outubro de
1821, José Bonifácio de Andrada e Silva, nas suas “ Instruções
aos Deputados de São Paulo às Côrtes de Lisboa” assinala que
0 Brasil não pudera ter indústrias, porque precisa ter antes
uma poderosa agricultura. Eis suas palavras textuais: “ . . .
não poderíamos ter então (indústrias) por falta de Povoação
(população) e abundante Agricultura, sem o que é quimérico
cuidar em Fábricas e manufaturas de monta.” (2) Com estas
Jpalavras, o Patriarca da Independência, expressa o espírito da
teoria política da época: a industrialização de um país apenas
pôde ser feita à base de uma poderosa agricultura. Ou em
outras palavras: a agricultura precede sempre a industriali­
zação do Estado.
Enfim, as denominações “ colônias e colonos” começaram
a aparecer no último quartel do século XVIII, exatamente quan­
do o Estado do Brasil se projetava no mundo como uma po­
tência agrícola. Se por êsse fato — e só por êsse — poderia ser
justificada a imprópria denominação “ Brasil-Colônia” , en­
tão, no período anterior, quando a riqueza do Estado do Brasil
eram as minas de ouro, dever-se-ia chamar a essa época, “ Bra-
sil-Mina”. Ou então, se a base econômica do Estado do Brasil
era o açúcar, também denominar-se-ia “ Brasil-Açúcar” . Veja-
íse como dar nome ao que já tinha nome, leva a situações ri­
dículas. Deve-se, portanto, dar aos períodos históricos os no­
mes do tempo, os nomes da época. E não outros. Da mes­
ma forma os historiadores do futuro, daqui a duzentos anos
.devem dar ao Brasil de hoje a denominação “ República dos
(1) Cf. Francisco Adolpho de Vamhagen. "História da Indepen­
dência do Brasil” , p. 25 - 3.^ edição.
(2) Cf. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.
Vd. 22 pgs. 414 a 422.

T. L. f e r r e ir a _ « „

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de E^' Joao^ ®®^nissinio ®
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colônias”. Êsse tra-
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da Beira, foi esorito (
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^ortugQj 7® de p i ^^scera Coutinho, Bispo
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fende a tpi® ^^‘'^eve „ ,, uf.^buco. r^ ^^ ^ fsil, ‘ endo sido pri-
C
‘^°^a, citanrf^ ^^e o S ^ ^ ’ ca g sua ? ° '^ d o para Elvas, em r
l^f^Bieif^I^° f^ q ü e n te n e n f ‘*®'^eria s°eï'e s
^onias do R-' . e eeonr>»v,^ um t.v_ f ^^^i^cialmente agt‘-
Colonie. co^ "°i^ '''‘ ? r e ? e r Z Î ° ^ econ o^ a, do fr««' (
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A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 51

manufaturas e da indústria da Metrópole. Desta sorte, os justos


interêsses e as relativas dependências mutuamente serão li­
gadas.”
Nessas condições, o Bispo aprovava integralmente a polí­
tica econômica de D. Maria I. Todavia, há mais: em 1808 o
Príncipe Regente D. João, futuro D. João VI, revoga o ato proi-
bitório de D. Maria I, relativamente às fábricas e abre os por-
ítos do Brasil às nações amigas. Pois o Bispo de Elvas em^ 1811
publica uma segunda edição do seu livro, com autorização de
José Bonifácio de Andrada e Silva, então secretário da Aca­
demia de Ciências de Lisboa. E nessa segunda edição de 1811,
o seu autor continua a manter os seus pontos de vista, não fa­
zendo alteração alguma naquele trecho transcrito acima, isto
•é, o Brasil deveria comerciar apenas com Portugal e não ter
fábricas em seu território.
Agora é de se perguntar: Então D. José Joaquim da Cimha
Azeredo Coutinho, Bispo de Elvas, nascido no Brasil, brasileiro
pela naturalidade, estava contra o Brasil? Não. Êle não estava
contra o Brasil. É preciso considerá-lo como um homem de
•seu tempo, cujo pensamento era de seu tempo e, como todos
do seu tempo, êle considerava o Brasil como parte integrante
da Nação Portuguêsa. A sua expressão “ colônias” do Brasil ti­
nha para êle um significado completamente diferente de “ Bra­
sil-Colônia” , adotada após 1822. Êle defendia, pura e simples­
mente, o ponto de vista segundo o qual a Europa Portuguêsa
(expressão sua) e a América Portuguêsa (expressão do Bispo)
deveriam ser mutuamente dependentes, numa economia pla­
nificada. E assim Portugal deveria produzir artigos manufatu­
rados e o Brasil produtos coloniais, isto é, agrícolas.

AS IDÉIAS ECONÓMICAS DA ÊPOCA


Na época fazia-se uma distinção clara entre independência
feconômica e independência política. Em suas “ Instruções”, de
8 de jane:ro de 1785, o ministro Martinho de Melo dizia que
He no Brasil se produzisse artigos manufaturados, os habitan­
tes da América Portuguêsa ficariam “ totalmente independen­
tes da Metrópole”.
Costuma-se dizer que nesse período Martinho de Melo quis
,significar independência política, isto é, separação poHtica de
Portugal e Brasil. Ora, a palavra “ independente” aparece ali
com o significado de independência econômicamente, desequi­
librando as trocas de produtos manufaturados por produtos
agrícolas. E, assim, o Brasil não importaria mais de Portugal,
T. L. FEKBEIRA - M. «• FEBBEIEA
. -nrodutos “ coloniais", istoi
3ü„plesm ente exportana seus

o Bispo, em seu t r ^ a lh o susten^^^^^^


à de M artinho de Melo, dizendo. » sustentar no cf
L suas Colônias, tanto será mais fo ^ o f
“ As Colônias de Portugal, ™ dependent«; >
d i a s tanto lhe serão mais e ,dep ,
íteerV e-se que o ^ispo emprega a palaw ^^.^ ^
sentido de relações «co n to ica s, n im a ^ denom» ^
Nessas condiçoes, o Bispo de .3 em uso pel“ .
“ colônias” por fÔrça da nomenclatura pos^^ ^ objetivo^j
critores franceses da epoca. Êle nao 0 faz j^ferior a
minuir o Brasil, de coloca-lo em neiorativo-
•pois a palavra não tinha na epoca sentido Pej ^ ^jd
'observamos, apenas algumas pessoas cultas,
das obras francesas, familiarizavam-se com a u ^epw
lônias” do Brasil, empregando-as. E o faziam
linguagem histórica, gjspo de ^ 5.
Embora usasse essa terminologia francesa, v jggo m
amava profundamente Pernambuco, onde só
mo aeixou
deixou escrito no prefácio da
preiacio aa sua obra:
oord. y‘ O am dej^
««az ig He
e
dade e da minha Pátria (Pernam buco), sena ^
s
gar-me a tanto excesso; eu já náo espero ter a n
,£L ver, nem de a abraçar; mas ainda que morra lo d
pre serei dela filho amante, fiel e saudoso.’* n
o
O ^JUS S O L r VINCULADO 2
AO “ JÜS S A N G U m r p
Veja-se nesse trecho do Bispo de Elvas o «eu # d
sentimento de amor à terra natal, à terra onde nas »
êsse sentimento não era novo. O primeiro já
no Brasil logo após o seu descobrimento, sentia „do L. pi
vinrfi^^ manifestava nêle o sentimento lusitano ^ P
soh vinculado, mterligado ao “ jus sanguini” . A®?*’ j , tt
alnaoSn“ ® realização do mUagre português v<
i S r ^ r das raçS . Essa fusão do
representadí^ ° T ® " ® êsse caldeamento ^ f f i c < os
levou m ihlrf português, pelo índio e pel® „ in ^ « b<
tinh- ® escrever: “ Depois de
° PortuguL para a f r ^ 3 <
era sòmPTifT ® sentimento de amor a ^
________ dos componentes do patriotismo. P
( l ) Cf. Gilberto F reyr« « o Mundo que o p ortu guês criou *. P- ®*'
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 5S

solo natal era parte integrante do continente cujo conteúdo


era a vasta Nação Portuguêsa, dentro da qual não existiam, li­
mites nem fronteiras. .
Ora, êsse todo territorial tinha como representante o Rei,
constituinte da unidade nacional dos povos de Língua Portu­
guêsa. Assim, cada uma das partes da Monarquia unia-se atra­
vés do Rei, centro dessa unidade. Portanto, êste era outro elo
do patriotismo: o patriotismo nacional, ou melhor falando, o
nacionalismo patriótico. Êste, por sua vez, alicerçava-se na tra­
dição, que é a permanência na continuidade. E a continuidade
formava a devoção à comunidade política, com vínculos e de-
veres cívicos representados pelas supremas virtudes de lealda­
de entre os homens.
Nessas condições, os naturais de São Paulo ou de Pernam­
buco, da Bahia ou de Minas Gerais, paulistas, pernambucanos,
baianos ou mineiros amavam a terra que os viu nascer, a terra
onde viram a luz do dia. Mas, como membros de uma comuni­
dade política, eram vassalos portuguêses, unidos pelos devota­
dos sentimentos de lealdade, fidelidade, amor e zêlo ao Rei de
Portugal, representante de tôda a Nação Portuguêsa. E Amador
Bueno é o exemplo clássico da lealdade e fidelidade ao Rei de
Portugal, lembrado por D. Pedro I quando foi sagrado Impe­
rador dos Brasileiros.
Tôdas essas afirmações decorrem da linguagem histórica
existente nos documentos de mais de trezentos anos. Estamos
simplesmente reproduzindo o que todos os homens deixaram
nos livros, cartas, ofícios, atas das Câmaras Municipais, atas
da fundação de cidades, etc. Leiamos êste documento do co-
mêço do século passado: “ Tem sido a Capitania de São Paulo
o bêrço em que se criaram aquêles valorosos homens que fi­
zeram tão conhecido na Europa o nome português. Êles (os
pauhstas), com o seu valor, acrescentaram muito os domínios
d’El-Rei Nosso Senhor, já descobrindo terras que nunca tinham
sido povoadas, já descobrindo nas mesmas terras os grandes
tesouros que fazem a preciosidade dos domínios da América,
já expulsando de alguns outros estabelecimentos diferentes cor­
porações de gentes, que por se refugiarem dos mais reprensí-
veis delitos, continuaram a praticar o despotismo dos maus cos­
tumes, estabelecendo-se e procurando fazer povoações em di­
versas paragens que por títulos nenhuns lhes pertenciam.
Nestes distintos exercícios se empregaram por muitos anos
os naturais da Capitania de São Paulo e se empregariam ainda
hoje, se os tivessem tratado com aquela humanidade e reco­
nhecimento que se deveria ter com os netos de ims homens
54 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

que com a m aior distinção e utilidade do serviço do nosso au­


gusto amo (o Rei) se empregaram no aumento e glória dêste
Estado. Se eu fosse encarregado d e fazer o elogio dêstes nossos
compatriotas (os paulistas), eu teria de que formar um gra^
díssimo discurso” (1). E assim o “ jus soli” e “ jus sanguini”
se confundiam no amor ao Rei de Portugal.

A LEALDADE PORTUGUÊSA
Muito conhecido é o episódio de A m ador Bueno, o portu*
guês de São Paulo que não quis ser Rei, e permitiu a unida­
de lusitana da América Portuguêsa. Escrevemos português de
São Paulo porque a palavra paulista era desconhecida em 1641.
quando se deu o fato. Aparece pela primeira vez, em documen­
to, no ano de 1671 (2). E os castelhanos do Paraguai, segundo
se lê em tôda a documentação dessa época, denominavam os
homens do planalto: “ los portugueses dei Brasil” ou “ los por-
tugueses de San Pablo*'.
Assim, em 1641 Amador Bueno, aclamado R ei de São Paulo
pelos castelhanos, manteve-se leal ao Rei D. João ^ Veia-se
Afonso de Taunay, quando ecreve: “ Recusou o Aclamado
(Am ador Bueno), terminantemente, a oferta a gritar em altnc
brados: V IVA EL-REI D. JOAO IV, MEU REI E SEN H O Ri»
(3). E Amador Bueno, natural da cidade de São Paulo filhn
do espanhol Bartolomeu Bueno e neto ,
Bartira, mantinha-se fiel à l e a l d a d f ^ r t u i ê s a ®
Da mesma forma, quarenta ano<s maio j'
na rua de S. Bento, da cidade fundada- r.r. iii ’
mas no sul de Mato Grosso, quando t M a n o e l da Nóbrega,
encontra com fôrças castelhanas do P* de São Paulo se
pa bandeirante Pedro Leme da ^ o^ a n d a a tro-
breza paulista, como filho de D o m i« „ ° Pertence à no­
de Pedro Leme e bisneto de João d^®p ^ Silva, neto
te]o, em Portugal (4). Quisera n
tranas obngá-Io a assinar uma d J io das fôrças con-
Im IT T J de Castia'^^^^^o de que aqullas ter-

P
-A «eK -ní:T
Cf. Pedro Taques «M k ^ '

Pwlista- t. 86. p. 1. p.íT. 3^


A MAÇONARIA NA INDEPBNDENCIA BRASILEIRA 55

será senhor da minha vida, mas não dtí minha lealdade. Estas
campinas (da Vacaria do Mato Grosso) são e sempre foram de
El-Rei de Portugal meu senhor, e por nossos avós penetradas,
seguidas e trilhadas quase todos os anos a conquistar bárbaros
gentios seus habitadores. O sr. Capitão-Mor e mais senhores,
que têm assinado sem advertência o contrário desta verdade,
ou estão abandonados como lezos ou como temerosos; eu não,
nem mais que aqui nos achamos em tôda esta tropa, porque
não havemos de assinar êste papel” . . . (1). E José Bonifácio
de Andrada e Silva, a 24 de dezembro de 1821, seis meses an­
tes de 7 de setembro de 1822, escreve ao presidente da Junta
Governativa de Minas (Jerais: “ Sempre fomos portuguêses e
queremos ser irmãos dos da Europa, mas não seus escravos” (2).
Mais uma vez, pois, deixamos bem claro: a teoria do “ na­
tivismo” é uma invenção de historiadores do século passado
para explicarem, a seu modo, a complexa situação política an­
terior à queda do absolutismo, em 1820. Ora, a revolução ma­
çónica luso-brasileira, desencadeada simultâneamente em Por­
tugal e no Brasil, leva o Reino Unido a separar-se, em 1822.
E, finalmente, detenhamo-nos ainda nas denominações “ colô­
nias” e “ colonos”, surgidas em alguns poucos escritos em fins
do século XVIII, relativamente ao Brasil e aos portuguêses na­
turais do Brasil.

O JULGAMENTO DO PASSADO
As Treze Colônias Inglêsas —• êste era o seu verdadeiro
nome — foram objeto de intensa literatura francesa no século
XVIII, conforme já vimos. Empenhados em destruir as bases
da sociedade onde viviam, os escritores franceses dessa época
exaltavam outras sociedades, mais naturais, onde o homem vi­
via feliz, porque estava junto da Natureza. Uma dessas socie­
dades citadas como modêlo, para êles, eram justamente as Tre­
ze C®lônias Inglêsas no Novo Mundo, onde o homem leva uma
existência mais primitiva. E daí, por viver mais próximo da
Natureza, êsse homem tolerante, piedoso e patriarcal, não ti­
nha outra paixão senão a do bem, nem outro fanatismo senão
o da virtude.
Dessa maneira, a literatura francesa não julgava as Treze
Colônias como escravas da Inglaterra, nem os colonos que nelas

(1) Cf. Afonso de E. Taunay. “ História Geral das Bandeiras” T.


6, pg. 15-16.
(2) Cf. F. A. Vamhagren. “ História da Independência do Brasil"
48 - 2.® edição.
56 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

habitavam, como escravizados ao jugo colonial britânico. Bem


ao contrário, como vimos. Por isso, os portuguêses cul­
tos — naturais do Brasil e de Portugal — que no fim do sé­
culo XVIII, influenciados por aquêles escritores franceses,
aplicaram a regiões agrícolas do Estado do Brasil a denomina­
ção “ colônia” e aos seus habitantes a denominação “ colonos”,
não o fizeram no sentido pejorativo, insistimos; bem ao con­
trário, fi;íeram-no com o objetivo de o exaltarem, como faziaiQ
os autores franceses em relação às Treze Colônias da Nova
Inglaterra, na América do Norte.
Mais adiante, nestas páginas, veremos como o sentido pe­
jorativo dessas palavras teve origem na crise política de 1821-
1822 Êsse período crucial para o Reino Unido levou o Reino
do Brasil a separar-se do Reino de Portugal. Mas nesse mo-
mento ja os políticos ^estavam julgando o passado, para êles
desconhecido. Êsse julgamento do pretérito, pela linsuaeem
pohtica do momento, acaba por formar a lingiagem ambfeua
dos historiadores do período romântico, quan<£^ a h T s t S S o
se fazia no sentido cientifico. Ora recentemont«» nj ^
define: “ O historiador tem por único dever compreínd^^r*^ n í
Henri Berr acrescenta: “ Não o de lulsar” /9\ a (1)-
+/^y»í YM"r»oiiT»Q __^^SSini, o his-

3 que ja passou em ]uigado. ’*Isto dito, resta perguntar se


é vão o esforço de pretender explicar o que, no estado pre­
sente de nossos conhMimentos sobre o homem parece bem do
domínio do inexplicável; o “ tonus” de uma
suas capacidades magnéticas” (3). E essa tentJi S
cação apresentaremos mais adiante na<4 de expli-
conforme a documentação e a lingiagem

As idéias políticas
revolucionárias
teoria do Direito Divino dos Raí. u
A que a autoridade tinha inna nH ’"“ «»va-se na crença de
sas Ês^ sistema fortaleceu ° ® uma sanção religi®"
lute “entre^cltoío?"'® “ ^®’' ° a
viam-se na eo!?« • ® P>^otestantes p“ ° ameaçada com »
------- !1 Ü <^°«tmgência de ‘ ««o- êstes'* e aquêlf«
<1-3) Cf. Marc Brn u „ ^^efe da naça<>

^ - M . ..
^ ^ “t-Propos- de Huri Berr. p. XVH-
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 57

e objeto da lealdade de todos. Era uma teoria esseruíialinente


popular, pois as camadas mais humildes da população não ti­
nham dificuldade alguma em compreendê-la e aceitá-la, desde
que repousava em seus sentimentos religiosos. Aceitar a teo­
ria do Direito Divino dos Reis era um ato de fé e não da
razão. Nessas condições, a autoridade do Rei decorria de cir­
cunstância milagrosa. E Jaime I da Inglaterra bem o disse: o
ofício de Rei era um mistério que nem filósofos nem juristas
podiam investigar.
Por isso, a teoria do Direito Divino dos Reis, em sua forma
pura, nunca recebeu uma formulação filosófica. A Monarquia
absolutista, em essência, consistia no fato de ter o Rei um
poder jurídico supremo sôbre os seus vassalos. Em Portugal, a
evolução do poder real processa-se de maneira diferente. Nas
Côrtes de Leiria, realizadas em 1254, há a certeza de se terem
reunido com o Rei a nobreza, o clero e os representantes do
povo, isto é, os vereadores às Câmaras Municipais. Assim, na
Monarquia antiga sempre se considerou que o poder residia na
Nação e que sòmente por delegação desta passava ao Rei. Êste,
de forma algimia podia considerar-se acima dela e usar de
poder pleno e absoluto. E se investisse contra as leis fundamen­
tais e violasse os costumes do Reino, corria o risco de ser de­
posto.
Mas no século XVIII, principalmente com o exemplo de
Luis XTV em França, nota-se a influência do absolutismo em
Portugal, no reinado de D. João V. Com D. José o regime ab­
solutista, imposto pelo Marquês do Pombal, converte-se em
despotismo. Foram abolidas as Côrtes. O povo perde as suas
prerrogativas. “ A fórmula adotada encontra-se na declaração
de que o Monarca recebera imediatamente de Deus a autori­
dade legislativa de seu motu 'próprio, certa ciência, poder real,
pleno e supremo; o exercício do poder baseava-se na alta e in­
dependente soberania, que o Monarca recebia diretamente de
Deus, e pela qual mandava, queria e decretava aos seus vassa- .
los, de dência certa e poder absoluto, Esta teoria não admitia
a limitação das Côrtes nem qualquer outra” (1).

OS PRIMEIROS CONFLITOS ESPIRITUAIS


Entretanto, no século XVII, as lutas em tômo do poder
na Inglaterra despertaram os pensadores políticos. Um dêles,
Tomás Hobbes, em 1651, escreve a obra “ Leviatan” , que era
(1) Cf. Fortunato de Almeida. “ História de Portugal” . T.-V, p.
15. Coimbra 1928.
T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

não só uma justificativa, mas, principalmente, uma defesa da


Monarquia. Hobbes fundava a sua teoria no “ Contrato Social",
cuja concepção iria constituir a idéia fixa de todos os* pensa­
dores políticos por mais de cem anos. No “ Leviatan” justifica­
va-se o absolutismo de maneira racional, considerando-o a for­
ma de govêrno mais de acôrdo com a natureza humana. Hob­
bes partia da idéia de que originalmente, quando não existia
sociedade organizada, a condição natural do homem era o esta-
guerra de todos contra todos. Necessário era, em conse­
qüência, organizar uma sociedade onde houvesse ordem e jus­
tiça. Essa sociedade seria então uma criação dos homens. Para
mantê-la, era imperativo haver uma autoridade absoluta. Esta
seria a do soberano a quem’ cabia impor justiça. O govêmo
detinha a autoridade absoluta sôbre todos os vassalos. Dessa
maneira, procurava Hobbes explicar a origem da sociedade
organizada e do poder consubstanciado na autoridade dos Keis
absolutos. E assim justificava êle de maneira racional, a an­
tiga teoria do Direito Divino da Realeza.
Ainda na Inglaterra, em 1683, outro escritor político Fil'
mer publica a obra “ Patriarca”, onde procura depender o ab­
solutismo como legítimo, porquanto, segundo as suas idéias, os
Reis descendiam em linha reta de Adão, o pai de tôdos os
homens.
Ora, em 1685 foi elevado ao frono da Inglaterra Jaime II,
católico fervoroso, com nítidas tendências para o absolutismo.
Para conjurar êsse perigo, as principais personalidades do Par­
lamento inglês, organizaram-se secretamente e puzeram-se de
acôrdo com o genro de Jaime n, Guilherme de Oranpe oue
parecido com o de
presidente de uma Republica. Assim, aqueles membros do
Parlamento mgles constituiram uma sociedade secretl c i o ob-

A SOCIEDADE SECRETA IUGLÈSA


Essa sociedade secreta inclêsa
ter o absolutismo e lutar nela nnr objetivo _
Constituição e Parlampnt P^^anencia da Monarquia co
to, e s c la r ^ e n L ? E voltaremos ao as5U»'
seria a “ Maçonaria Aziil’ ° ° XVIII essa sociedade secte

\
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 59

Assim, secretamente, os membros do Parlamento inglês


colocaram Guilherme de Orange no trono da Inglaterra, depois
de ter deposto Jaime II. Êsse movimento chama-se, na histó­
ria, de Revolução Inglêsa de 1688. Nos primeiros dias de 1689,
o Parlamento sanciona o “ Bill of rights”, aprovado pelo novo
isoberano. Por êsse ato, novos limites foram postos à autorida­
de da Coroa, asseguradas garantias ao Parlamento e outorga­
das novas liberdades individuais a todos os súditos inglêses.
Ainda não se haviam passado dois anos da Revolução de
1688, quando um pensador inglês, John Locke, publica a obra
“ Ensaio sôbre o govêrno civil” . Nesse trabalho, Locke defen­
de a Revolução de 1688 e expressava, com suas idéias, a con­
ciliação da nobreza com a burguesia. Êsse escritor personifica
as tendências liberais, em oposição às idéias absolutistas de
Hobbes. Nessa obra, seu autor divide o trabalho em duas par­
tes: na primeira refuta o absolutismo de Filmer; na segunda,
contraria as teorias de Hobbes.
Inicialmente, Locke admite, como Hobbes, ter existido ori­
ginalmente um estado de natureza, seguido de um pacto social
entre os homens. Mas, para êle, não existia o estado original
de guerra de todos contra todos, conforme a tese de Hobbes.
Para Locke, o homem no estado de natureza tinha já consciên­
cia da sua liberdade pessoal e de gozar dos frutos de seu tra­
balho. Mas para existir imia autoridade com função de garantir
êsses direitos, os homens despojaram-se de uma parte dos mes­
mos, ao outorgá-los ao Estado. E daí ter surgido o Estado, de
um contrato social, ou seja, de uma limitação dos direitos in­
dividuais. ,
Continua Locke. O Estado não cria a propriedade, pois êle
simplesmente reconhece e protege a propriedade privada, cuja
base está no Direito Natural, segundo o qual cada indivíduo
tem o direito de gozar dos frutos do seu trabalho. Locke de­
fende a separação entre a Igreja e o Estado. Ainda acha que as
revoluções são justas quando o govêrno abusa da sua autoridade.
Foi êle o primeiro a elaborar uma teoria quase completa
dos três podêres fundamentais concebidos como o legislativo,
o executivo e o federativo. O executivo e o federativo exerciam
mais funções diplomáticas, isto é, regulamentar as relações do
Estado com o estrangeiro. Por isso, eram entregues ao Rei, como
representante do Estado. O legislativo era o poder da socieda­
de, cujo exercício era feito através do Parlamento. E a êste
cabia legislar sôbre os impostos, porque a propriedade privada
não era uma criação do Estado.
T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA
60
DO ABSOLUTISMO AO LIBERALISMO
Vejamos, pois, em rápidas palavras, a
teorias do pacto social de Hobbes e o de Locke. Para Hob .
0 pacto social apenas teve por finaüdade entregar o gove
a um soberano absoluto, ao designá-lo para sempre e ao em
gar-lhe, nas mãos e nas de seus sucessores, todos os poae ^
Para Locke, também a sociedade está organizada segimdo
pacto entre os homens. Mas há uma diferença entre sociedaa
e govêmo. O povo nunca transfere nem aliena definitivamente os
seus direitos. O povo continua soberano e pode a qu^qu®’^
momento revogar e abolir o govêrno por êle mesmo instituídOi
no caso de êsse govêrno trair o mandato que lhe foi outorga­
do. E, assim, para Locke, o govêrno era limitado e constitucio­
nal, porque devia ser entendido como defensor dos direitos de
propriedade.
Nessas condições, o pensador inglês escreve: “ Portanto, a
grande finalidade priniordial que une os homens em comuni­
dades e os obriga a erigir-se em govêmo, não vem a ser mais
do que a conservação da propriedade” (1). Em conseqüência,
continua Locke: “ O poder supremo não pode despojar a ne­
nhum homem de qualquer parte de sua propriedade, sem seu
expresso consentimento” ( 2).
_ .^sim, com a Revolução Inglesa de 1688 e com a publica-
de John Locke, verdadeiro ideó-

Inglaterra. E lôgTno a r a T i Í ^contecmientos políticos da


apresentava-se ao munrfn r. seculo XVIII, a Inglaterra
parlamentar. como uma Monarquia constitucional

França era” Snda MOTiarq^uia^th*^*! ®


sistema absolutista de Lufe XIV Para justificar êsse
htico. elabora a obra « r S . pensador po-
aditóe ^ Santas Escritu-

período chamadr^Q'^ Luis XIV em 1715 «rii •


» t ó o a R evoluçâ®!^® v ir i; °
— ----------Francesa. Substituimi quando teve
»■ r S . £ v 2 r " ” »~M . -F .M . °
«WmeiaJ«», pai(y^-
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 61

dominante até o século anterior, a língua francesa torna-se uni-


,-versal no século XVIII. As obras redigidas em francês pene­
traram em todos os países. E constitui requinte de civilização
e cultura ler e falar a língua francesa.
“ Em nenhuma outra época mostrou a razão humana tan­
ta confiança em si mesma como durante o século XVIII; o es­
pírito anti-histórico é a característica principal desta época. Ela
demonstrou o maior desprezo pelas instituições humanas que
constituiam a herança de um passado recente, e as considerava
como resultado da ignorância e da barbárie. As classes cultas
estavam convencidas que a razão humana, livre das trevas,
da superstição e da ignorância, poderia cedo reformar o mun­
do e fazer desaparecer inúmeras experiências dolorosas, assim
como todos os absurdos e injustiças” ( 1 ).

A L IT E R A T U R A D O S É C U L O X V III

Assim, “ na primeira metade do século XVIII houve uma


assombrosa quantidade de livros acêrca de todos os aspectos
do tema — livros históricos sôbre as antigas instituições da
íYança, obras descritivas dos governos europeus, e em especial
do inglês, livros de viagens que descreviam a moral e institui­
ções dos povos americanos e asiáticos (em geral, com uma re­
ferência indireta à França), planos de reforma dos impostos e
de melhoria da agricultura ou do comércio, e teorias filosóficas
acêrca dos fins e justificação do govêrno.
Entre 1750 e a Revolução, a discussão de tais temas che­
gou a ser obsessiva. Todos os ramos da literatura — a poesia,
o drama e a novela — converteram-se em veículo de discussão
social. Tôda a filosofia, mais ainda, tôda a vida do saber, incli­
nou-se nesse sentido, e até os livros de ciência compreendiam
às vêzes rudimentos de uma filosofia social.
Um poeta como Voltaire ou um novelista como Rousseau,
um homem de ciência como Diderot ou D’Alembert, imi fun­
cionário público como Turgot e um metafísico como Holbach,
escreviam acêrca da teoria política com a mesma naturalidade
com que um sociólogo como Montesquieu escrevia sátiras” (2).

(1) Cf. G. Mosca. ''História das doutrinas políticas” , p. 196. Zahar


Editora. Rio. 1958.
(2) Cf. George H. Sabine. "História dc la teoria política” , pág. 518.
Fondo de Cultura Fconomica. México.
T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

A N O V A F IL O S O F IA P O L ÍT IC O - S O C IA L

Nesse complexo e desordenado redemoinho de idéias, os


enciclopedistas, com seus escritos políticos, visavam “ particular­
mente destruir as bases morais e intelectuais do regime e das
instituições do seu tempo. Desta forma, combatendo o Cristia­
nismo, por exemplo, atacavam o direito divino, que servia
para justificar a autoridade absoluta dos Reis, demonstrando
o absurdo dos privilégios, descobriam-se os da nobreza e do
clero” ( 1) .
Por essa forma, o objetivo dos escritores políticos, ao ata­
car a religião, era destruir a autoridade do Rei, ou seja, a teo-
ria do Direito Divino dos Reis. Enfim, o propósito dos inteleC'
tuais do século XVIII, conforme veremos mais adiante, era
destruir as bases da Monarquia absolutista: a religião, a no­
breza e 0 clero. Êsse movimento era pura e simplesmente de­
molidor no seu impacto. Nada apresentava de construtivo Não
oferecia idéia alguma de como poderia ser reorganizada a so­
ciedade, sob novas teorias políticas e novas formas de eovêmo.
Com objetivo construtivo, duas poderosas persontlidades
se destacam na elaboraçao de teorias novas para substiti^re»
as antigas: Montesquieu e Rousseau. Em seu livrn
das Leis” , Montesquieu classifica os governo^
monárquicos e republicanos. Expõe ainda a sna
ção da divisão dos poderes eracas ano • íamosa concep-
prias palavras, “ os podêres se limitant suas pró-
Iserdade, isto é, o govêmo fundado na i ° outros, a li-
Montesquieu divide os podêres em possível”.
^®g'sía«vo deverS legislativo
®*®cutivo cumpria aS- - leis. Na or-
faze-las cumprir nos casos p a r tic u ia ^ ®

AS IDÊIAS DE ROUSSEAU
“Rousseau é da« t«^î
tempo haja logradn ts ®®t>^anhas fiai,>
na idade da razão, não PoDula qualquer
raais um sensitivo do ®*^cia a ela- nii i . vivesse
os homens e î PensadV ? vida foi
.to e tomou-se iT . ^^de, coTv»n i***). E anp<îar de

« r e v i i T t . ‘" « P “ 1» ' ® -
G \t Qdiasse G nrncT política, o
• «b. cit. p. 195 e os avanços

N
- 'l
.J#

fS
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 63

promovidos pela razão, provavelmente contribuiu mais que ne­


nhum de seus contemporâneos para o progresso da socieda­
de” ( 1).
Mais adiante, o mesmo escritor observa: “ Na atmosfera
de racionalização mais ou menos hipócrita de crenças tradi­
cionais e novas exigências, de irrealidade e artificialidade, de
cinismo e insinceridade intelectual. Rousseau introduziu algo
novo, algo forte e poderoso, que serviu de bandeira para infla­
mar os espíritos em uma verdadeira rebelião” ( 2).
Assim, para Rousseau, o homem é bom. Entretanto, os ho­
mens são maus e a sociedade perversa, A causa estava na ina­
dequada educação e no ambiente social. Em sua obra mais cé­
lebre, o “ Contrato Social” , êle procura resolver o problema.
Os homens devem consentir, ao menos tacitamente, no govêr­
no da maioria. E a vontade da maioria deve obrigá-los, quan­
do se trata de coisas que beneficiem a todos os membros.
A sua teoria da “ vontade geral” e da “ vontade de todos”
é a base da sua fé democrática. “ O que se aprendeu em Rous­
seau não foi só uma teoria da soberania popular, mas também
um govêmo democrático. Êle ensinou a considerar a vontade
do povo como o único fundamento legítimo da ação política; e
sua doutrina da vontade geral, embora obscura em muitos as­
pectos, deu ao pensamento político um novo giro, ao insistir em
considerar o querer popular como a única fôrça no terreno po­
lítico. Os homens não obedeceram ao chamado de Rousseau
para reconstruir o estado-cidade; mas receberam dêle a ins­
piração para fazer da democracia a base das instituições po­
líticas” (3).
Em conclusão: “ A forma de teoria política que estêve de
pé do século XVII até o século XVIII foi a do “ Contrato So­
cial” . Num tempo de fortes ataques ao absolutismo do Re­
nascimento, coube à doutrina do “ Contrato Social” prestar um
grande serviço: auxiliou a varrer do espírito dos homens a con­
cepção mística da soberania, as ardentes idéias de direito divino
e seu inerente poder irresponsável, às quais se prendiam as mul­
tidões no seu horror ao grande processo que solapava as ba­
ses do trono. Ela oferecia um credo diferente e mais inteligí­
vel, tanto aos que temiam como aos que esperavam. Limpou o
caminho dos infindáveis argumentos dedutivos baseados em
interpretações subjetivas das Escrituras e recolocou o Estado
(1-2) Cf. John H. Randa^l. “ La ifonnación dei pensamiento moder­
no''. pgs. 366/367.
(3) Cf. G. D. H. Cole. "Doctrinas y formas de organización políti­
ca p. 47. Pondo de Cultura Economica. México.
64 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

nos seus únicos alicerces legítimos: a vontade dos homens e o


fim comum que inspira êsse anseio de uma vida institucional.
Além disso, era passível de modificações engenhosas que se
adaptavam à mudança dos tempos. Pois contrato pode querei
dizer muita coisa, desde a sanção sacramental até simples con*
venção. Os termos do contrato variavam segundo as persuassí^s
de cada pensador e de cada ocasião, ao passo que sua logiw
tendia sempre para um reconhecimento mais claro dos fins hu­
manos, a que o Estado pode servir e que sòmente lhe justiíi'
cam a existência” ( 1 ).

OS AGENTES DA REVOLUÇÃO
Todo aquêle trabalho intelectual, iniciado no século XVÇ
na Inglaterra e culminânte no século seguinte na França, jamais
teria alcançado os seus objetivos se não existisse um agente que
disseminasse, que divulgasse, que vulgarizasse aquelas idéias e
ideais políticos. Apenas isso? Não. Era preciso algo mais: a
ação política, a ação revolucionária, cujo fim era organizar e
dirigir as fôrças dispersas da sociedade, sacudindo-a. Êsse agen­
te foi a Maçonaria, uma sociedade eminentemente secreta. De­
via ser secreta porque não podia lutar abertamente contra o
absolutismo. Os trabalhos dessas fôrças eram rigorosamente
proibidos. E daí o caráter misterioso da Maçonaria.
Essa sociedade secreta, conforme já vimos, nasce na In­
glaterra, com a subida ao trono de Guilherme de Orange A
Maçonaria inglêsa. ou “ Maçonaria Azul”, objetivava e S>ieti-
va combater o absolutismo e defender o sistema monárquico
parlamentar e constitucionalista. Quando passa a funcionar na
Snãda ^ forma Lno-

finalidade também era combater o absoluticm i


radicalmente, a Monarquia pela Renúblioa substituir,
Essas duas Maçonarias — Aziil ir „
mesmo denominador comum- demiKot — tinham o
seus fins eram diversos. Ao lom»« ^ ° absolutismo. Todav»,
vêzes unidas, às vêzes hostUizan,?« encontramõ-las
cias. Na sua bandeira v e rm e il • ’ as circunstâH'
dade. À sombra dessa bandeira “ f^’^veram a palavra Liber*
Maçonanas no século XVIII nnr +®spalharam-se as duas
las très Américas: Inelésa ’lîVr> ^ países, inclusive p®"
-------------- giesa, Espanhola e Portugiêsa. As loj»*
<1) Cf. R. jt. Mac W .
0 E.tado", tradução portnguísa p.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA ' 65

maçónicas repontam neste hemisfério, mas filiadas à Maçona­


ria Vermelha. E mais adiante voltaremos ao assunto.

A SEITA MAÇÓNICA
Regressemos a D. Azeredo Coutinho, natural de Pernam­
buco, onde fôra Bispo. Em 1794, já no cargo de Bispo de Elvas,
em Portugal, publica uma obra intitulada “ Ensaio Economico
sôbre o comércio de Portugal e suas colônias”. Já vimos, em
capítulo anterior, o emprego da palavra “ colônias” , segundo a
acepção da época e usada pelo Bispo. Reportemo-nos agora ao
prefácio dêsse livro, onde seu autor ataca a Maçonaria, deno­
minada por êle “ seita” . E mais tarde, no século seguinte,^ o
Bispo D. Azeredo Coutinho filia-se também à seita por êle
combatida.
Escreve o Bispo em 1794: “ Há quase um século que prin­
cipiou uma Seita com a mania de civilizar a Africa, refonnar
a Europa, corrigir a Ásia e regenerar a América. Essa Seita,
inconsequente em seus princípios, é só conseqüente em des­
truir o que achou feito, para depois lhe dar uma nova forma,
que ela diz ser a mais suWime e a mais bela que pode conceber
o espírito humano. Para pôr em prática a sua mania, ela e os
seus sectários juraram uma guerra perpétua a todos os govêr­
nos e a todos os tronos que não seguissem os seus ditames;
e tomaram por armas o ferro, o fogo, o veneno, a traição, a
intriga e a perfídia; armas que, conforme o seu sistema da
maior perfeição e do bem da humanidade, são meios lícitos,
contanto que se consiga o seu fim destruidor da ordem esta­
belecida entre as Nações” . .
Observe-se como o Bispo, escrevendo em 1794, depois do
Terror Vermelho da Revolução Francesa, coloca a Maçonaria
com início há quase um século, cêrca do ano de 1700. Na
realidade, o comêço fôra exatamente no ano de 1688, ou seja,
uma diferença de doze anos. Isso demonstra como o Bispo es­
tava mais ou menos bem ao par da história da Maçonaria.
Mas prestemos atenção ao trecho seguinte do mesmo pre­
fácio de Azeredo Coutinho: “ Há mais de trinta anos que esta
mesma Seita principiou a espalhar a semente das revoluções,
para separar as Colônias das suas Metrópoles, principalmente
as de Portugal e Espanha, as mais ricas do mundo. Alguns
dêles, ou menos sanguinários, ou já horrorizados à vista dos
frutos que tinham produzido a sua árvore da Uberdade, pas­
saram a traçar planos para que a separação, que êles chama­
66 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

vam emancipação necessária para o bem da humanidade, fosse


menos dolorosa e menos violenta.”
Nêsse trecho, a expressão “ árvore da liberdade” significa
“ regime republicano” . Note-se que o Bispo diz ter a “ árvoff
da liberdade” produzido sangue e horrores, numa referência
indireta às revoluções americana e francêsa. O Bispo denun­
cia, dessa maneira, a emancipação de tôda a América, com
República. Pois, surgindo a emancipação, surgiria a Repú­
blica, ou seja, a “ árvore da liberdade” , desde que não po­
deria haver monarquia nos países independentes, uma vez que
dinastia não se inventa.

A S SEM EN TES VERM ELH A S


D A M A Ç O N A R IA

A i está, pois, bem clara a denúncia do Bispo feita effi


1794: foi a Maçonaria que, cêrca de 1760, começa á espalhar
nas Américas Inglêsa, Espanhola e Portuguêsa a semente ver-
melha das revoluções emancipadoras, em nome da Liberdade
e da Humanidade.
Está provado, portanto, que é falsa a tese de muitos his­
toriadores para quem a idéia da independência foi devida a
sentimentos nativistas. Inicialmente, os homens das Américas
foram acordados para as idéias políticas elaboradas pelos es­
critores europeus, principabnente francêses. Os homens daS
Américas tomaram conhecimento, antes de tudo princioahnen'
te, de um movimento iniciado na Euror.= “ " •^ L
er’a destruir os fundamentos da M o n a S
Evidèntemente, os homens das ^ '^ t i s t a .
tuguêsa não iriam fazer uma revolucãn*^ Espanhola e Por-
Atlântico e depôr Reis na E u ro p r atravessar o
sua própria revolução, aqui nas Amóri ™ ®ntão de fazer a
do absolutismo. Que forma de govêm j libertarem
que não poderiam inventar criar o f^otanam ? Por certo
riam forçosamente de cair na fn il, a n a r q u ia própria; ^
já elaborada pelos pensadores J^epublicana de govêrno,
ela voltaram-se os seus p e ^ s a m ^ “ " dêles ® par«
Aqui nas Américas luta
Maçonaria: a “ Azul” e a “ «i^as ordens da
ííã tT '* '“ “ 'institucional e n S , ® ^ “ Azul” favorável a
Po?t “ ta <levia i S n «»odêlo era a
Mnhnf Espaha. Dentro ® reforma poUtica de
® Portuguêsa continna • *°™ula, as Américas Bs-
Impenos. Ao contrário, ? Ma «Agradas nos respectivos
Ç naria ‘ Vermelha” era favora-
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 67

vel à emancipação completa, com a nova forma de govêmo, a


República.
Entretanto, a penetração das duas ordens maçônicas no Es­
tado do Brasil era ainda insignificante. Precisava recrutar seus
elementos entre os intelectuais, como fôra feito na França. Tam­
bém era preciso atrair a burguesia, ainda sem direitos políti­
cos. Assim, as nobrezas locais, tradicionais, eram as detentoras
dos direito políticos e dos privilégios. Com tôda a certeza, os
poücos elementos recrutados para as “ lojas” maçônicas no Bra­
sil formavam na ordem dos “ Azuis” , constituída pela nobreza
e pela burguesia, dentro da linha da Monarquia constitucional
e parlamentar para a Nação Portuguêsa. E na ordem oposta, jun­
to dos “ Vermelhos” , estariam, desde a primeira hora, os inte­
lectuais e burgueses extremados a sonharem com a República.

**A Z U I S * * E "V E R M E L H O S ” E M C O N F L I T O

Nesta altura podemos fazer a seguinte cronologia sumária


dos movimentos revolucionários:
1.®) As Treze Colônias Inglêsas, ao se rebelarem para
^ conquistar novos direitos, foram, no final, levadas à separação
* completa, por obra e graça da Maçonaria “ Vermelha” , com pro­
clamar-se a República dos Estados Unidos da América do Nor-
5 te, embora não pensassem nesse resultado quando começaram
a guerra. Relativamente aos Estados Unidos após a Indepen-
i dência, escreve um historiador maçom: “ A Maçonaria ameri­
cana associava-se às solenidades públicas como corporação do
Estado, qualidade que lhe tinha sido conferida pela maior par-
y te das legisla.turas da União” .. . (1). E, conforme relata êsse
I historiador, quando nas solenidades cívicas os govêmos dos Es-
^ tados da União Americana saíam à rua, entre o legislativo e
j o judiciário, ficavam localizadas as “ lojas” maçônicas, com seus
estandartes e símbolos. O mesmo acontece, por essa época, em
Diamantina, na Capitania de Minas Gerais, conforme veremos
’ adiante. Não obstante ser República, os Estados Unidos não
^ eram uma democracia. Nessa forma de govêrno, baseada em
Montesquieu, a classe dirigente era formada sòmente de gran­
des proprietários de terras, concepção política esta existente
^ nas idéias de Locke, E o povo não contava.
2.®) Quando estala a Revolução Francesa em 1789, as duas
Maçonarias — “ Azul” e “ Vermelha”, estavam unidas contra

(1) Cf. F. T. Clavel. “ Histoire Pittoresque de la PVanc-Maçônnerie” .


p. 136. Paris.
€8 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

O absolutismo. Logo depois, a Maçonaria “ Vermelha” abre os


fogos contra a Maçonaria “ A zu r' e contra o Rei Luis XVI. Do­
minados ambos, a Maçonaria “ Vermelha” instala a Repúblics
francêsa. E, ao adotar os princípios de Montesquieu e Locke,
principalmente de Rousseau, a Revolução francesa fêz surgir
a República, ou seja, a democracia no seu verdadeiro sentido,
muito antes dos Estados Unidos.
3.°) Na América Espanhola, a Maçonaria “ Vermelha” do­
m i n a completamente a Maçonaria “ Azul”, anulando-a. Esfare­
la a América Espanhola em Repúblicas. C a d a “ loja”, segundo
parece, reivindica para si a organização do seu Estado pro*
prio. Ou talvez fôsse próprio da natureza da República,
excessiva descentralização, para levar essa forma de govêrno
à fragmentação pura e simples. Na realidade, a unidade nacio*
nal, no absolutismo, estava no Rei. A o deixar de ex istir o so­
berano, dificilmente poderia surgir uma entidade capaz de
substitui-lo com a mesma fôrça coesiva.
4.®) A Revolução simultânea dos Reinos de Portugal f
do Brasil, a partir de 1820, contra o absolutismo, leva-os ^
separação do Reino Unido em 1822.
È desta Revolução Luso-Brasileira que nos ocuparemos
neste livro. Ünica em tôdas as Américas, oferece aos estudiosos
um caráter próprio; o domínio da Maçonaria “ Azul’', e a uni'
dade nacional em torno do novo regime monárquico parlamen-
tar e constitucional. Êsse sistema surge de duas filosofias em
luta: a Monarquia constitucional e parlamentar defendida pela
Maçonaria “ Azul” , contra a República pregada pela Maçona­
ria “ Vermelha” . Vence a primeira, influenciada principalmen­
te pelas fôrças políticas do momento. E isso veremos n^s
páginas seguintes.
Mas antes historiemos os acontecimentos a partir de 1750
em diante, para melhor compreensão do evoluir dos aconte-
cmientos. E o e sp ip o do século XVIII é o divisor de águas d«
duas epocas distintas e diferentes.

O absolutismo no
Govêrno de Pombal
D E A LE X A N D R E D E G U SM ÃO A P O M B A L

D . lugar'de^mhiistro da^ r de Gusmão vai ceder o


O conde de ® Sebastião José de C a r v a l h o .
de Bachi, embaixador da França, em comunica-
" Oj A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 69
%
ção ao seu govêrno, dava parte do falecimento de Alexandre
-kç de Gusmão, “ com cuja morte, ocorrida a 30 (aliás 31) de de-
t‘gi^ zembro do ano antecedente (1753), perdia muito o Reino de
i(ÍQ Portugal, por isso que era êle a única pessoa que tinha um
’ verdadeiro talento, dado que seguisse talvez em demasia as
(j suas inspirações, que o levavam além dos limites devidos; mas
que era realmente dotado de grande memória, de uma elo-
j ' quência natural e, sobretudo, de grande clareza em tudo quanto
P queria dizer; e continuando a fazer o elogio do defunto, ajunta
que El-Rei D. João V fazia grande caso dêle, e também o
Senhor D, José (1), porém que como depois da morte do
primeiro dêstes monarcas tivesse ficado sempre muito ligado
^0' com o infante D. Pedro, por êsse motivo não fôra promovido
^0' ao lugar de Secretário de Estado; que Alexandre de Gusmão
de era em todo o reino a pessoa que estava mais ao corrente dos
negócios de Roma e do Brasil, donde era natural” (2). E se
e estava bem a par dos negócios de Roma, é porque cêrca/* de
à dez anos fôra embaixador de Portugal junto ao Papa.
Alexandre de Gusmão não era apenas o estadista, ou o
os homem de Estado, no sentido político do têrmo. Era ainda pro-
os fundo conhecedor das doutrinas econômicas e financeiras do
ij. seu tempo. Quando secretário particular de D. João V, apre-
senta ao soberano o “ Cálculo sôbre a perda de dinheiro do Rei-
no”. Nesse documento reproduz afirmações feitas anterior-
mente a respeito da acumulação do numerário e aos efeitos da
sua saída. Por isso, considera:
“ O dinheiro é o sangue das Monarquias, e extraído do
corpo delas, enfraquecem, da mesma sorte que acontece ao cor­
po humano quando se lhe tira o sangue!
A êste modo de fraqueza se verá reduzido Portugal, pois
^ que tanto se trabalha em extrair-lhe a moeda, quando êle ca­
minha para a pobreza e para a ruína.”
Parte destas premissas para sugerir ao Rei, a quem se
dirige, seja servido:
“ 1.°) Impedir o aumento de gente inútil com o especioso
título de religião, que procuram para seu cômodo.
2."*) Que se aumente a nobreza bem entendida.
3.®) Que se diminua o luxo com alguma lei suntuária.
4.°) Que se aumente a agricultura, fazendo estradas, cor­
tando-se ribeiras para navegar e regar.

(1) Cf. nota de Rodolfo Garcia. "História Geral do Brasil” de Fran­


cisco Adolfo de Vamhagen, Tomo. IV-104.
(2) Cf. Julião Soares de Azevedo. Condições Econômicas da Re-
roluçâo Portuguêsa de 1820". Lisboa, 1944. 102, 103, 106, 41,
T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

. p S . M tó r tl“ '” ' ' “ 1»< » *


^'•'almente, se favoreça o comércio dentro e
fora do Reino, sem o qual não pode haver Estado rico e po­
deroso, nem florescente” ( 1 ).
Não é estranha a corrente mercantilista a êste prograiM.
Ele corresponde, em linhas marcantes, “ à orientação geral di
doutrina econômica por que então se norteou a política por-
tu^esa (2). Sebastiao José de Carvalho, Marquez de Pom­
bal, soube aproveita-lo e dar-lhe plena execução no seu govér-
no. E para isso pos em prática o seu gênio político.
'f O primeiro item com a sua famosa investida contn
D S em com o atentado.
hà 17% - P“ *" decreto de 17 de agôsto
D dos Inconfidentes criado pot
L eçã o 1640, constituído em^tríbunal^^de
de lesa-majestade” (3). Assim **inconf*d t ** ^ ®g ,
considerados os JesuítL exMl’cn ^''confidentes foram tambe»
dores, adversários e a g r é s s S s H" rebeldes, trai-
segundo reza a lei rf» * V real pessoa e Estados’ ,
isso na lei de 28 de agôsto^H T 7(w '=°'^etendo-se pçr
a execução e fiscalizacão Hn • Inconfidência
se crimes de lesa-maie-starf Preceitos regios e considerando-
nidade ou associarãn . ^ posse de cartas de confrater-*
tas no Reino e outros '«trodução de Jesuí-
tes “ as provas aue n n,v •! ®” ^?°gos, nos quais eram bastan-
dade de tão abomináveic^!-,? Pnvilegiou pela pública necessi-
nal da Inconfidência avn ® ® êsse mesmo Tribu-
de conspirar com no t« ° processo dos Távoras, acusados
Rei D. José I. Jesuítas, e atentar contra a vida de EI-
"d
sos das Fuas cátTc^^s^ Jesuítas foram expul-
e nas Universidade«? H r Coleg'os do Brasil e Portugal,
nas missões do ^ de Goa. Presos
Lisboa, onde amargaram nn ^ Maranhão, seguiram para
o Papa Clemente X IV
ve “ Dominus ac a Conipanhia de Jesus pelo Bre'
potências euroDéia« a ’ forçado pelas imposições das
Jesuítas foram rpHÍcii/4 ^ ™'nutas do Breve da supressão dos
---------- -- digidas pelo embaixador de Espanha, José

ob. citado.
“ Brasil,a», vol. IlI.^ ^ lS b ía ,”

\
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 71

Monino, inimigo acérrimo da Companhia. E ês^s autógrafos


de Moniiío guardam-se hoje nos Arquivos de Simancas, em
Sevilha, onde podem ser lidos (!)• - • j t '
Interessa-se Pombal pela prosperidade economica do
rio. Procura o melhoramento da agricultura portuguesa. Volta
suas atenções para o cultivo e o comércio dos vinhos do Alto-
Douro, em decadência. Eram os inglêses os principais consumi­
dores e intermediários nesse comércio. À data da fundação da
Companhia Geral de Agricultura e Vinhas do Alto-Douro, q
estado da agricultura e dog negócios vinícolas nessa região»
declinavam. E a ação do Marquês se fêz sentir no Alto-Douro^
no Alentejo e no Algarve.
“ Pombal viu claramente a situação e tratou de resolvê-la.
O processo usado foi o mesmo que utilizou noutras zonas: uma
companhia monopolizadora que, fiscalizando o produto, regu­
lasse a produção. Aqui, no caso das vinhas do Douro, a produ­
ção em decadência, o baixo preço e o descrédito faziam defi­
nhar a região. Acorreu o Ministro com as medidas protecionis­
tas e com uma organização rígida em que se devia integrar
tôda a futura transação de vinhos destinados à saída do Pôrto
e arredores” (2).
No terreno da liberdade, o estadista fêz abolir a distinção
entre cristãos-velhos e cristãos-novos. Decreta a liberdade dos
indígenas do Grão-Pará e Maranhão, a 6 de junho de 1758;
a liberdade dos escravos negros, em Portugal, a primeira nação
européia a abolir a escravidão na Europa, a 19 de setembro
de 1761; e, finalmente, a liberdade de todos os filhos de mães
escravas, nascidos após a publicação do alvará de 16 de janei­
ro de 1773, a fim de “ que fiquem hábeis para todos os ofícios,
honras e dignidades” . E tôdas essas providências não puderam
ser completadas econômica e socialmente com a alforria dos
negros trabalhadores nos engenhos de açúcar e nas terras do
Estado do Brasil, porque seria a extinção integral da escrava­
tura no Império Lusitano.
Sem negros escravos não havia açúcar, nem extração do
ouro e diamantes. Por tradição milenar, a produção do açúcar
era trabalho de cativos nos países do Levante e na Sicília (3).
E mesmo com os liberais e liberalões do século passado, o pro­
blema foi resolvido, há setenta anos, de maneira anti-econô-

(1) Cf. R. da Silva. “ 0 Marquês de Pombal” . “ Brotéria” vol. XX


p. 7 Lisboa. 1935.
(2) Cf. Julião Soares de Azevedo. Obra citada.
(3) Cf. J. Lúcio de Azevedo. “ Épocas de Portuçal econômico” . 237.
72 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA
mica, mesmo anti-social, corn mais sentimentalismo e roman,
tismo.
Assim, verificamos com o as idéias e as doutrinas de ^e-
xandre de Gusmão foram aproveitadas por Sebastião José de
Carvalho, considerado o precursor do liberalismo pelos histo­
riógrafos da Revolução portuguêsa de 1820. ,
POM BAL TERIA SIDO
O PRECURSOR DO LIBERALISMO?
“ Os revolucionários de 1820 e os historiadores liberais têm
considerado Pombal como precursor dêsse movimento chama­
do de restauração das liberdades pátrias. Assim para Manoel
Fernandes Tomás, José de Arriaga, Luiz Soriano, Latino Coe­
lho, Pombal é o arauto das idéias novas, que já então ganhavam
terreno pela Europa, o reformador que opõe à política e eco­
nomia portuguêsas tradicionais uma nova política e uma noya
•economia. E* êle que rompe com a rotina das artes, do comércio,
•da instrução, para preparar o nascimento duma nova era na
história nacional” ( 1 ).
Ora, Sebastião José de Carvalho, conde de Oeiras e mar*
quês de Pombal, filiado ao iluminismo católico, era o precur­
sor da Maçonaria européia. Na mesma linha de p e n s a m e n t o
estavam Luiz Antônio Muratori, italiano, autor do volume “ Dif-
fetti delia Giurisprudenza” , e o português Luís Antônio Ver-
ney, cuja obra “ Verdadeiro Método de Estudar” constitui, con­
forme já foi dito, “ um decalque ou duplicação dos argumentos,
doutrina e dialética” do primeiro (2). Nessas condições, os es­
tatutos da Universidade de Coimbra, concebidos conforme a
reforma pombalina, nascem do trabalho de Vemey, disfarçado
no “ frade barbadinho da Itália” . E seriam inspirados nas idéias
de Montesquieu e Rousseau, na parte referente ao Direito.
Considerado precursor do liberalismo, “ não se julgue que
Pombal vai decretar a liberdade de crítica, a possibilidade de
c a d a qual optar pelo ponto de vista que pensar mais adequado
à r e a l i d a d e , ou que lhe fornecer uma mais ampla explicação
dessa realidade, e ultrapassar o “ abismo em que Portugal foi
precipitado no referido Estratagema dos Índices Romano-Je-
suíticos” . Pombal vai arrancar às mãos da Congregação do
Index a faculdade de proibir a livre circulação de publicações
e transferi-la para a Real Mesa Censória. Vai fazer da Inqui­
sição um instrumento de absolutismo e transformá-la direta­
mente em Tribunal Régio** (3).
(1, 2. 3) - Julião Soares de Azevedo. “ Condições econômicas da Kevolu-
«ão de 1820” . Lisboa, 1944 - 19, 20, 27.

\
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 73

Explica-se, nesse caso, por que o, Estado do Brasil não


teve imprensa até a mudança da séde do govêrno do Império
Lusitano de Lisboa para o Rio de Janeiro, em 1808. Nem o rei
de Portugal, nem os portuguêses impediam ou dificultavam a
instalação da imprensa no Brasil-Província. Até 1750 foram
os privilégios da Inquisição, diante dos quais o próprio sobe­
rano nada podia; dessa data em diante foram os poderes da
Real Mesa Censória, criada por idéia de Pombal, precursor do
liberalismo, no conceito dos historiógrafos liberais do século
passado. O fato de Pombal decretar a liberdade de comércio,
ou instituir companhias monopolizadoras reflete o estadista li­
beral e livre-cambista em comércio. E êsse paradoxo do abso­
lutismo liberal pombalino acentua-se em fins de Setecentos.
Nessas condições, quando Sebastião José de Carvalho dá
início à execução de seus planos de govêrno esbarra, pela fren­
te, com os privilégios e prerrogativas da Companhia de Jesus,
cujo poder e prestígio se extende por todo o Império Lusitano.
São duas fôrças em choque. Pombal representa o iluminismo
católico a trabalhar para que o poder real fôsse absoluto, “ mas
dotado de uma nova consciência..., ao serviço de uma con­
cepção laica da vida social” (4). A Companhia de Jesus de­
fende os direitos outor^gados por D. João III, ratificados por
D. Sebastião, em 1564. Nesse caso, o ensino público estava nas
mãos dos Jesuítas, professôres pagos pela Coroa Portuguêsa.
Assim, “ o subsídio, que El-Rei, ou na linguagem moderna o
Estado, dava aos Mestres de Coimbra, era a título de ensino;
o que dava aos Mestres dos Colégios ultramarinos, de funda­
ção realy era a título de missões” (5). Os jesuítas agem com
“ laços de veludo”, conforme preceitua São Francisco de Borja.
E Pombal vai agir de maneira diferente.
O estadista de D. José I expulsa os jesuítas dos Colégios
del-Rei em Portugal e no Brasil, e das Universidades de Coim­
bra, de Évora e de Goa, na Ásia. O ensino ministrado até
então pelos religiosos vai ser dado por mestres laicos. E pro­
cesso laicisante de Pombal se processa sob o imperativo do
mercantilismo e do poder econômico em marcha.
Nessas condições. Sebastião José de Carvalho é reveren­
ciado em Portugal como precursor do liberalismo. “ E’ certo
que Pombal expulsou os jesuítas como monarcômacos e se­
quazes dos republicanos, mas também não é menos certo que,

(4) Cf. L. Cabral de Moncada. “ Um iluminista português do século


XVIII - Luís Antônio Vemey” . Coimbra. Amado Editor. 1941-47.
(5) Serafim Leite, S.J. “ História da Companhia de Jesus” . Vol. VII-141.
74 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

cim entando em Portugal o Estado-Pessoa, abriu o caminho à ti­


rania impessoal do Estado” ( 6). O ministro de D. José I vai
concentrar o poder numa só pessoa. A centralização realiza
o nivelamento das classes em face do govêrno. “ 0 Estado-
Pessoa, (inaugurado por Pombal) radicando a idéia do govêrno
absoluto e implicando a responsabilidade única do dirigente,
que os governados não podem controlar, derrubaria a classe
até aí predominante nos negócios públicos, para passar a con­
siderar tôdas as classes a igual distância do trono. Assim se
criaria a igualdade das classes, em 1820 reclamada para os
indivíduos” (7).
A política portuguêsa segue a doutrina econômica inte­
grada na corrente mercantilista do tempo. Dela não se afasta
o govêrno pombalino. “ Fiel à tradição recebida, Pombal ha*
via de dar incremento à indústria nacional, principalmente a
que dizia respeito aos artefatos de luxo, e impedir a saída ílo
ouro, defender e fomentar a produção por meio de medidas
protecionistas, fiscalizando umas fábricas e tomando para o
Estado outras, proibir rigorosamente a exportação da moeda,
de que os inglêses em grande escala se aproveitavam, chegan­
do a ter a nossa moeda livre curso em Londres” ( 8).
Assim, Pombal encontra o terreno preparado para receber
a semeadura de suas idéias. De maneira geral, a agricultura
estava abandonada nas províncias européias e na América
Portuguêsa. Vem daí as ordens recebidas pelo Morgado de
Mateus, governador de São Paulo, para incentivar a cultura
da terra então convertidas em zonas baldias. Nesse caso, a
famosa carta-régia de D. Maria I, datada de 5 de janeiro de
1785, não impede ou dificulta a instalação de indústrias no
Brasil-Província. O que ela prevê é o aumento das “ fábricas
e manufaturas” artezanais, nas cidades, “ com grave prejuízo
da cultura e da lavoura e da exploração das terras minerai&j
daquele vasto continente (o Estado do Brasil); porque havendo
nêle uma grande conhecida falta de população é evidente que
quanto mais se multiplicar o número de fabricantes (artezãos)
mais diminuirá o dos cultivadores (da terra) e menos braços
haverá que se possam empregar no desenvolvimento e rom-
pimento de uma grande parte daqueles extensos domínios aue
amda se acha mculta e desconhecida ” ( 9). ^

(6) Antônio Sardinha. Introdução às “ Memória«? nnro • x •


das Côrtes Gerais” , pp. X-XI Citação T o « teoria
Ob. cit. Juliao Soares de Azevedo.
Soares de Azevedo. Ob. cit. 46-103
<9) Doc. Int. para a História de São Paulo. vol. 45-42.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 75

Além disso, grande parte dos latifúndios continuavam em


poder das ordens religiosas. Os iluministas queriam o cul­
tivo das terras usurpadas ao comércio. Nesse caso, o comércio,
a indústria e a agricultura deviam entrosar os seus interesses
produtores em benefícios dos consumidores. No seu “ Testa­
mento Político” D. Luiz da Cunha dirigia-se ao soberano:
“ Achará (V .A .) que a terça parte de Portugal está possuída
pela Igreja, que não contribui para a despesa, e segurança
do Estado, quero dizer, pelos cabidos, pelas colegiadas, pelos
Priorados, pelas Abadias, pelas Capelas, pelos conventos de
Frades e Freiras” , (10). E desta lista já não constavam os
bens da Companhia de Jesus sequestrados e arrolados pelo
Tribunal da Inconfidência em 1759, tanto em Portugal como no
Brasil, indenizados pela Coroa.
Mas o absolutismo em Portugal não nasce com o ministro
de D. José I. O iluminismo de Pombal realiza, põe em prá­
tica, idéias determinadas pelas circunstâncias do momento.
Com a centralização do poder em suas mãos, Pombal abate
a Realeza, classe tradicionalmente dominante, e a Igreja, cuja
autoridade constitui poderoso obstáculo aos seus planos de
^ govêrno. E o Liberalismo, filho natural do Iluminismo e da
Liberdade, vai combater conforme veremos, as duas maiores
^ fôrças do século: a Realeza e a Igreja.

® A ADMINISTRACAO POMBALINA
® E O BRASIL-PROVtNCIA
a
e O fato dos vintistas, isto é, dos revolucionários de 1820
0 em Portugal, considerarem Pombal o precursor do liberalismo,
s no espigão do século XVIII, parte do “ pressuposto comum de
que uma teoria e um homem determinam necessariamente, o
La desenrolar dos futuros acontecimentos históricos” (1). O pro­
G blema consiste em estudar a época e a sociedade e verificar
e as reações dêsse homem dentro do seu tempo e do seu am­
biente. Ora, “ o intelecto de Sebastião José não era acessível
às idéias de liberdade mental e política já então dominantes
s
entre as classes ilustradas, lá fora” ( 2). Talvez não fôsse.
L-
Mas “ o problema aqui seria o de saber em que medida Pom-
^ bal centralizando o poder, aliás o absolutismo mesmo em Por­
tugal não nasce com Pombal, é antes um processo que se
arrasta há séculos na história nacional, em que medida Pombal
^ centralizando o poder, dizia, e abatendo consequentemente uma

(10) Cit. de Julião Soares de Azevedo em ob. cit.


76 T. L. FERREIRA — M. B. FERREIRA

classe tradicional dominante, afirmava de fato a igualdade*


tôdas as classes, em que medida o povo, a massa dos súdita
sentia que tinha um direito novo, sem contar já que alguma
preferencia dada à biwguesia que socorria os cofres do Estaih
e os bolsos dos particulares nas suas aflições, que sabia»
presente, e que a restauração do
tf» rfa« mrí> n ®agTÍcultura resultava como urgea-
te das circunstancias em que se achava o país” (3).
de intelecto de Pom bal não estava ion
danca -Sa e da sociedade em mo­
vê-los' O Mtariict equacionados e procurava resol-
^ - ^ O futuro,
tuguês de Santos, fôra r e l e « ,i „ Cíusmao, o ^r-
Nem por isso fôra esquecido E Conselho Ultramarina
se aproveitaria
a j / i V / V J l t * Pombal
X'OmDai. ’ doutrinas economicBS,
Para isso, como fêz D. João II, havia de atíater em fins
géculo X IX , o poder da nobreza. burguesia, que
sentiria mais claramente o nivelamento, sempre mais teoric
do que real, como portadora da riqueza, estava habituada a
pagar os seus privilégios e a ser recurso das finanças régias
ou nobres particulares, arruinadas. A burguesia, como íoT'
necedora dos empréstimos do Estado e particulares, sabia bem
quanto valia e como dela dependiam. Pombal, quando
viado a Viena, em apuros financeiros, teve com o seu l?anquei-
ro, o judeu português emigrado Diogo de Aguilar, e com ou­
tros judeus de Londres, relações que não deixaram de influir
nas medidas
seguida” (4). promulgadas, em Lisboa, em favor da raça per­

Ora, no interior dêsse esquema, os Jesuítas não entra­


vam, conforme verificamos. Tinha a Companhia de Jesus, no
Estado do Brasil, extensas propriedades territoriais, na sua
maioria devolutas. Na Bahia, os bens do Real Colégio ( 5) • fa
zendas e engenhos no Distrito Federal e na Capitania do*Rii^
de Janeiro (6) ; nas Capitanias do Espírito Santo (7) ^ ^
Maranhão, Piauí, Ceará, Paraíba, São Paulo e P e ra a m W n
faltava quem acusasse os Jesuítas da compra e
zendas. Seus adversários viam nêles homens ri« «1« fa-
soldados de Cristo. “ Do acervo de nesócioc ®
------------------ 6«u os atribuído aos mis-
( 1, 2, 3, 4) Cf, Julião Sôarea Ha a« ,
», r s - s .
no Brasil” . T. FV-V-Vl * História da Cnn^,. i.-
® Companhia de Jesus
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 77

sionários, a todos sobreleva em importância o da Companhia de


Jesus, mas não é lícito, à luz de um justo critério, impor-lhe
por isso algum desonroso labéu” ( 8). O autor deste conceito
era historiador honesto, embora nem sempre justo nos seus
juízos. E daí não deixar de reconhecer esta verdade*. “ Nesta
parte do Novo Mundo, os Jesuítas eram colonizadores (leia-se
no sentido de civilizadores); a obra que haviam empreendido
(por conta da Coroa Portuguêsa) tinha caráter temporal; e
nessa qualidade, sòmente com os meios temporais se poderia
realizar” (9).
Nessas condições, Pombal, ao expulsá-los dos Reais Colé­
gios, para fazer a reforma iluminista e ao mandar seqüestrar-
lhes as fazendas e propriedades, do Amazonas à Colôniai do
Sacramento, para alforriar os indígenas, para organizar a li­
berdade do comércio com as companhias monopolizadoras —
Companhia das Índias Ocidentais, Companhia do Grão-Pará e
Maranhão, Companhia das Reais Pescarias do Algarve, Compa­
nhia Geral da Agricultura e Vinhos do Alto-Douro, Companhia
de Pernambuco e Paraíba; Pombal estava dentro das idéias
econômico-liberais de Locke.
Dentro dêsse plano estão as ordens dadas pelo ministro
de D. José I ao Morgado de Mateus, D. Luís Antônio de Sousa
Botelho Mourão, governador da Capitania de São Paulo, sôbre
a restauração da agricultura, o desbravamento do Paraná, o
reativamento do comércio, a exploração do ferro, a defesa de
fronteiras, a construção de fortalezas (10). E tudo isso se en­
trosava no vasto programa aplicado a todo o Império Lusitano,
inclusive a ligação do Amazonas ao Prata, de que falaremos.
Da administração financeira pombalina pouco teria resta­
do. Por sua morte verificou-se, pela, escrituração, haver pa­
gamentos em atraso. Não livre de embaraços se apresentava
a situação do Real Erário. Do balanço apresentado pelo suces­
sor do Marquês, verifica-se como os Estados ultramarinos, “ em
vez de serem no tempo de Pombal um manancial inesgotável
donde afluiam rios de ouro para o Erário Régio, como errada­
mente se julga ainda hoje, tinham pelo contrário um avulta-
díssimo quinhão na partilha dos rendimentos da metrópole,
que todos os anos concorria com mais de quatro centos mil
contos de réis para cobrir as despesas das províncias iiltrama-

(8, 9) Cf. J. Lúcio de Azevedo. “ Os Jesuitas no Grão-Pará” . 240.


(10) “ Instruções dadas pelo Conde de Oeiras ao Morgado de Mateus” .
Arquivo Histórico Ultramarino - Lisboa.
,-g T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

rinas porque os seus rendimentos eram insuficientes para igua­


lar a receita com a despesa” ( 11 ). . «rioncpíra e
Depois de dezessete anos de adm m istraçao financeira e
política, em 1777, o Marquês de Pombal e d « t it o d o
cargo por morte de D. José I. No reinado de D. Mana I, e
é degredado para a cidade de Pombal, onde falece. Grande p
da sua obra política e financeira foi reformada. E a noDr
reage e reconquista as posições perdidas. ^
Da situação econômica da Bahia fala o Dr. Jose da ôuv
Lisboa, em carta de 18 de outubro de 1781 ao Dr. Coming
Vandelli, diretor do Real Jardim Botânico de Lisboa. t.aicu
o rendirnento total do açúcar em cinco milhões de cruzados.
Ê prodigiosa a exportação da aguardente para a África, e para
Portugal, grandes mercados consumidores. A Bahia exporta
ainda tabaco, mandioca e algodão, para a África e Europa, v
comércio é admirável. As embarcações trazem mercadorias em
quantidade. Nota-se “ a fartura de tudo o necessário para as
comodidades da vida, e ao mesmo tempo produzem uma cir­
culação rápida do dinheiro, que conserva e vivifica todos os
ramos da indústria pública. O comércio de exportação é im­
portante. A Bahia fornece mais carga aos seus navios do q^^
nenhuma outra província do Brasil” ( 12). Enumera as merca­
dorias exportadas e as importadas da Europa e da Ásia. No co­
mércio africano, além de escravos, “ cada navio traz algumas
arrobas de ouro de contrabando, vindo da Costa da< Mina.
Quanto a sociedade baiana, refere: “ Com efeito, ao luxo ex-
tenor dos vestidos (das senhoras e dos homens) em nada cede
aos europeus; a seda e vulgaríssima até em negros forros O
® e "CO. porém de mau gôsto; consta
de muita seda, mmto o u r o ...” (13). E a Bahia e Pernambu­
co forneciam açucar para tôda a Europa ‘ «unou
No fim do século XVIII,, em 1797, o governador de São
Paulo, Bernardo Jose de Lorena, em relatório ao seu suces
° progresso da agricultura paulista. Itu produz mai=
de 50.000 arrobas de açucar por ano. Da mesma fo m a
ta êsse produto em Piracicaba, Araritaguaba
Sorocaba e Campinas^ (14). No’ ano a n t e S ê s s e l L ’
vemador mformava: “ Nas transacõec mesmo go­
ta Capitania (de São Paulo) cxrcuTam ^ d fs-
barras de ouro e a moedo pro«inciol de £^,w> P " t e as
(11) “ Col. de Leis da Dívida Pública” O f j ® ®
vedo, ob. cit. 45. ^uDuca . Cf. de Julião
(12, 13) Inv. dos d^a rei »„ n ^ze-

< H A r B o - - .v r a  n r -
Sao Paulo. v „ , 203.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 79

da provincial era cunhada nas Casas da Moeda da Bahia, de


Pernambuco, do Rio e de Minas Gerais.

OS JESUÍTAS, OS INGLESES
E 0 ILUMINISMO MAÇÓNICO
Havia dois obstáculos a impedir a realização dos planos
políticos e econômicos de Pombal, preso ao mercantilismo col-
bertista e ao iluminismo católico. Na ordem interna estavam
os Jesuítas. Estavam os inglêses na ordem externa. Foi redigi­
do 0 libelo acusatório contra os primeiros. “ Os Jesuítas foram
culpados da estagnação mental, pela expulsão dos judeus, pela
emigração forçada dos cérebros mais capazes, pela forma do
ensino, do absolutismo, da rotina, da decadência” (1). Apesar
dos protestos dos inglêses, o estadista incentiva a indústria,
tenta a emancipação econômica do País com a instalação de
fábricas e manufaturas. Essa preocupação nacionalista de au­
tonomia não se limita à indústria e ao comércio, abrange tam­
bém a agricultura. Surge a Companhia de Vinhos para cer­
cear os abusos do comércio inglês na compra dos vinhos. E fo­
menta o plantio de cereais para suprir as deficências dos gê­
neros de primeira necessidade.
As providências tomadas contra os Jesuítas foram a ex­
pulsão dos professôres religiosos de suas cátedras, as refor­
mas do ensino e a Junta de Providência Literária. Contra os
inglêses cria-se a Companhia dos Vinhos do Alto-Douro, proí-
be-se a saída do dinheiro. Na historiografia liberal, êsses atos
pombalinos colocam o ministro de D. José I como precursor
da liberdade. Livre-cambista em comércio, o “ déspota escla­
recido” , elevava a burguesia e inferiorizava a aristocracia, ao
permitir os casamentos entre as duas classes. E essas uniões
entre aristocratas e burgueses eram o meio de “ cimentar na
nação as primeiras idéias de igualdade política, que é a pri­
meira e fundamental base do sistema liberal, e, portanto, im­
pelir a opinião pública do país para ê5te mesmo sistema” (2).
Mas os historiadores liberais não viam que tudo isso im­
portava na planificação política de tôdas as classes, não viam
nem o poder supremo concentrado na onipotência do minis­
tro, nem o absolutismo altear-se na autoridade real, supremo
executor do poder judicial, do poder executivo, do poder le­
gislativo. Sebastião Jose de Carvalho ia centralizar a renova­
ção do espírito, da inteligência, da cultura, na Universidade
de Coimbra, donde brotaria o movimento futuro. Ao arreba­
tar aos Jesuítas a direção da cultura, expulsa-os das escolas
gO T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

e aniquila a influência religiosa, exercida por êles, paia lai-


cisar 0 ensino. ,
Por êsse processo laicisante, o govêrno assumia diretM ^
te a responsabüidade de cuidar da instrução publica ate ^
data confiada à Companhia de Jesus pela Coroa
Reestrutura-se a Universidade, criam-se novas . .g
novos mestres, novos métodos e nova filosofia. Na reali i
“ não se transfere o dogmatismo em liberdade critica,
tema em livre exame, Aristóteles e apeado do seu d
secular nas escolas, mas em troca dao-se as
rígidas por que regerão os cursos, ditam-se opmioes que^^
os professôres, os comentadores que deverão aproveitar V ^
E os iluministas batem palmas ao inovador, cujas idéias se t
rizam na “ Dedução Cronológica” .
Assim, os “ Estatutos da Universidade de Coimbra” saíra^
em 1772, da doutrina exposta na cartilha iluminista entrada
em Portugal com o “ Verdadeiro Método de Estudar” , de auto-
ria do português Luís Antônio Vem ey. Para executar a re­
forma pombalina fôra nomeado reitor da Universidade de'
Coimbra o Bispo-Conde Francisco de Lemos de Faria Pereira,
nascido no Rio de Janeiro. E ela foi a alma-máter dos ilumi­
nistas portuguêses nascidos na Europa e na América Portu­
guêsa.
Ora, no derradeiro quartel do século X V III muitos estu­
dantes nascidos no Brasil freqüentavam- a Universidaide de
Coimbra e Universidades francesas, onde as idéias revolucio­
narias eram pregadas pelo iluminismo maçónico. Recém-for-
mados, os universitários haviam de trazer, como trouxeram
as novas Ideias polticas onde a República viria a substituir a
Monarquia. E assim os iluministas maçónicos agiram na Nova
Inglaterra, fizeram, a independência das colônias inelêsas p
proclam^am a República dos Estados Unidos, onde repoma
o liberalismo, embora mantenha e conserve a escravirts^ «
na Constituição de 1777. avidao negra
Assim, os iluministas católicos se transform ai
nistas maçónicos. Caberia então, seeundo nc *l<uni-
berais. papel importante à M a ç i n w K °«^^stonógrafos li-
;wmentos revolucionários dos Estadr..: mo-
Brasil, de P*>rtugal e da Espanhl «os do
no primejro quartel do século X IX “ No L f ° «
como pretende Henri Sée para a i !*^tanto, nesta éooca

) no no seculo XVIII e iní-


A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 81

cio do século XIX, é olhá-lo à luz de concepções atuais e pr^


conceitos derivados duma ação posterior ^ mesma instituição
(4). E nisso estâ o equívoco dêsses escritores da história.
“ Na França, continua Henri Sée, ensinamentos seguros sô­
bre a constituição das lojas, no período preparatório da Re­
volução, mostram que eram constituídas sobretudo por bur­
gueses abastados, médicos, advogados, funcionários, grande nú­
mero de nobres, principalmente membros do parlamento, e
clérigos. As cotizações elevadas afastavam as classes menos pro­
tegidas e, se dentro das lojas não havia distinções sociais, nin­
guém pedia aos componentes que, cá de fora, abdicassem de
seus privilégios. A Maçonaria, nesta altura, não tem nada de
subversivo. Em Portugal tem também, aproximadamente, as
mesmas características. Nobres e eclesiásticos figuram no seu
seio” (5). E assim era nos seus inícios.
Na verdade, antes de 1789, ou no Antigo Regime, a exis­
tência da Maçonaria estava subordinada ao arbítrio do rei de
França, para evitar as censuras de Roma. Ela estava implici­
tamente submissa entre as liberdades da Igreja Anglicana.
Fazem parte dela, até hoje, os soberanos inglêses. Pessoalmen­
te, Luís XVI não foi estranho à instituição maçônica. “ O re­
conhecimento não nos permite mais esconder êsse mistério, diz
0 irmão Bória em discurso pronunciado em 1824. Uma loja,
acrescenta, foi criada em 1775 entre os guardas do corpo de
Versalhes, sob o título dos “ Três irmãos do Oriente na Cor­
te” , e já se conhece a alegoria que cobre êsse glorioso patro­
nato” (6).
Os três irmãos do Oriente na Corte são, evidentemente,
Luís XVI e seus irmãos o conde de Provença e o conde de
Artois. Boria continua: “ Forçado, mais tarde a renunciar a
êsse número ternário tão querido, a Maçonaria retoma seus
trabalhos sob novo nome. Ela vive ainda neste Oriente, cheio
de vigor e de fôrça, e orgulhoso dessa preciosa lembrança” .
(7) E em 1824 já era de fato a Maçonaria.
Em 10^de maio de 1774, Luís XVI subira ao trono. No ano
seguinte, êle entrava para o rol dos iluministas católicos. De­
zenove anos mais tarde, a 21 de janeiro de 1793, é guilhotina-
do. Um mês após a sua morte, FeUpe-Igualdade afasta-se da
sua loja. Escreve ao Venerável nestes têrmos: “ Entrei na Fran-
co-Maçonaria, que é uma imagem da igualdade, numa época

(1, 2, 3, 4, 5) Julião SoEres de Azevedo. **Condições econômicui^ dft


Revolução Portuguêsa de 1820”, Lisboa, 1944. 21, 22, 28, 10.
82 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

em que ninguém podia prever nossa revolução... Mas como


não conhecia a maneira como o Grande Oriente se compõe e
acreditava, por outro lado, que uma República não deve, prin­
cipalmente no início de sua instituição, tolerar nenhum mis­
tério, nenhuma assembléia secreta, não quero mais envolver-
me em nada que se refira ao Grande Oriente ou às assem­
bléias de Franco-maçons” (8). Esta carta, nas condições em
que foi escrita, era quase uma denúncia da Maçonaria no ja­
cobinismo. As lojas dos “ Três irmãos na Corte” , fiel às suas
tradições, adotara o nome de loja da “ Trindade” . Lembrava
uma leve alegoria à de 1775 e uma equívoca alusão ao dogma
católico.

O ILUMINISMO PORTUGUÊS
FILIADO AO ILUMINISMO ITALIANO
Há duas faces a serem examinadas num documento. Uma
externa, outra interna. A primeira está na leitura sêca e sim­
ples. Êsse trabalho externo está ao alcance de qualquer inte­
ligência. Dêsse exercício sai a narrativa dos fatos expostos
pela superfície. E dessa linha horizontal flui a história externa.
A outra face revela a história interna. Para atingi-la é
preciso descer à metafísica dos acontecimentos. Com esta se
faz a verdadeira História. Nem todos podem chegar a essa cor­
rente subterrânea por falta de cultura. E dessa incultura his-
tórico-sociológica se beneficiam os panfletários da história,
falseando-a.
Já em meados do século passado, o pensador espanhol Do-
noso Cortés observava: “ O homem move-se, mas só Deus sabe
por que se move e para onde se dirige, na certeza de que, vá
para onde fôr, sempre, de um modo ou de outro, fornecerá ma­
terial para o edifício que Deus está levantando.” Por outras
palavras, diria: os homens lutam, mas é Deus quem dá a vi­
tória.
Este conceito providencialista da História vem de longe.
Santo Agostinho, Paulo Orósio, Bossuet, Spengler e Toynbee
procuraram explicá-lo em suas obras. E todos, com mais ou
menos acuidade, tentaram aclarar o sentido filosófico das oa-
lavras do Psalmo compreendidas por São Paulo:
“ O homem erra no meio de fantasmas
Ele se agita. E agita-se em vão."

<6, 7, 8) Klos. “ La Maçonnerie en France, t. I, 828.


A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 83

Ora sem nos afastarmos dessa linha de pensamento, a


história do Brasil escrita até hoje apresenta a face externa
dos acontecimentos. Isso contenta, satisfaz os ledores de* do­
cumentos. Para êles, a vida foi sempre vivida à tona da exis­
tência, circunscrita ao meio ambiente. Escapa-lhes a explicação
do mundo e do método universal de pesquisa e explicação,
para compreender e fazer compreender uma estrutura compa­
rada com outra, uma sociedade comparada com outra. E a mui­
ta gente não interessa descer às origens remotas, muitas vêzes
obscuras, difíceis de ser compreendidas, quando mais expli­
cadas.
Nessas condições, procuremos surpreender, em nossa his­
tória, as origens do liberalismo internacional para aqui trans­
plantado em fins do século XVIII. O tema é aliciante pela ex-
tesão e profundidade. E o perigo está em a gente se perder
nos seus meandros, ou nos enganarmos com os seus múltiplos
disfarces revestidos por êle para combater a economia provi­
dencial em que vivemos, de Cristo aos dias de hoje.
Por esta forma, situamos, neste ensaio, o madrugar do li­
beralismo internacional em nossa terra, por volta do derra­
deiro quartel do século XVIII. Talvez esteja mais longe, mas
não importa. De fato, êle começa a despontar nessa época fe­
cunda em acontecimentos nas Américas e na Europa. E todos
estão ligados entre si, num perfeito entrelaçamento.
Nesse espigão divisor das águas entre dois mundos, entre
duas sociedades, entre duas épocas, desenha-se a virada econô­
mica do movimento revolucionário desencadeado pelas liga­
ções subterrâneas e poderosas, desagregadoras da sociedade ali­
cerçada em bases milenárias. E na sua obra de interpretação
histórica, “ A Decadência do Ocidente” , Oswaldo Spengler não
explica, ou não quis explicar, êsse fenômeno.
Assim, colocamos as raízes do liberalismo luso-brasileiro
no “ iluminismo” , "Êsse “ iluminismo” , enquanto sinônimo de
“ filosofia das luzes” , começa com os “ iluminados” na Baviera,
organizados em “ sociedades secretas” , aí por volta de 1776, ou
talvez antes. Chefiados por Adão Weishaupt, tiveram a prin­
cípio o nome de sociedade dos Perfectibilistas. Essas idéias,
propagadas na alta nobreza e entre letrados, recebem o nome
de Aufklärung, Daí o pensamento esclarecido pela razão. E suas
origens cripto-maçônicas logo se tomam maçônicas.
Na sua obra “ De TAllemagne” , Mme. de Staël distm^ue
três classes de “ iluminados”. Em prinieiro lugar, os “ ilumina­
dos mysticos” , do tipo de Boehme, Pasqualis e Saint-Martin;
depois, os “ iluminados visionários” , como Swendenborg por
T .L . FEKREIRA — M .R . FERREIRA
9
84
fim os “ iluminados revolucionários”, isto é, os cripto-maçôm.
S /v o lt S e p » a . política.
der e distribuir os postos-chaves pelos adeptos. E para
preciso abater as Monarquias, substitui-Jas pela bandeira
beralismo. ^ r^nmha-
As idéias üuministas entram em Portugal com o p
lismo. Vieram da Itália e da Austria pela mao ®J ^
dores e emigrados, entre os quais precisamente avultam,
sua excepcional importância política ou literaria, o prop
bastião José de Carvalho, mais tarde Primeiro-Mnisfro
D. José I, com o título de Marquês de Pombal, e que es
em Viena comoi Embaixador na Corte de Maria
1745 a 1749; Luís Antônio Verney, o padre
de Portugal para Roma, em 1736, no tempo de D. João V,
missão de estudo na Itália, onde sempre viveu e morreu
1792, sem nunca mais ter voltado à Pátria” (1).
Por essa forma, o iluminismo português filia-se diretam
te ao iluminismo italiano. Fêz-se grande mistério em tor
dêsse movimento de idéias. Essas “ novas idéias políticas, ^
vas idéias religiosas, novas concepções econômicas, consn-
tuiam, na segunda metade do século XVIII, sôbre um funao
de racionalismo mais ou menos exaltado, comum a todo o IlJ*'
minismo europeu, e estreitamente associadas à introdução d»
filosofia cartesiana, lockiana e newtoniana, o terreno espi^'
tual sôbre o qual se desenhava, como máximo objetivo a atin­
gir, o de destruir os últimos privilégios do clero e da nobreza,
do feudalismo, para abrir caminho à classe média, a única
julgada então capaz de, pela sua maior atividade econômica e
cultura, fazer progredir a sociedade” (2).
Pombal e Vemey, o estadista e o “ frade barbadinho”, en­
tenderam-se muito bem e completaram-se. Entre ambos houve
íntima ligação e secreta colaboração, revelacja pelo Prof. CabraJ
de Moncada, após a leitura da correspondência trocada pelo do-
Htico e pelo religioso, na época. Essas cartas e êsses d^umpn-
tos existem em Lisboa Foram publicados em i m E voTêleS
se ve como foi total a filiação do iluminismo •
nismo católico italiano. tâno ao ilumi"

“ entre os doií

dência e função da Juriapr«'


l* - setembro de Wtó.^^LisC Ministério da Ju stiça.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 86

vimento iluminístico-reformista católico do século XVIII, na


Itália e em Portugal” (3), verifica-se como o iluminismo e a
maçonaria foram os instrumentos utilizadoe pela burguesia
para chegar ao poder e conquistar posições econômicas e so­
ciais.
Os “ dois chefes de fila’" são o português Luís Antônio
Verney, autor da obra “ Verdadeiro Método de Estudar” , e o
italiano Luís Antônio Muratori, autor do ensaio “ Diffetti delia
Giurisprudenza” . Êste livro foi publicado em 1742, aquêle
em 1746, quatro anos mais tarde. Não está nestas linhas o pro­
pósito de verificar quanto o “ método” de Verney é devedor
às idéias de Muratori. E do iluminismo ao liberalismo o passo
foi pequeno, conforme veremos.

DO ILUMINISMO À MAÇONARIA
Do iluminismo católica à cripto-maçonaria, a distância é
pequena. Os iluministas organizaram-se em grêmios secretos.
Formavam uma conjura de aspecto laicista. Eram “ membros
de uma seita, de uma espécie de sociedade secreta, que os
obrigava a se envolverem no mistério, a encobrirem constan­
temente os seus verdadeiros sentimentos, a usarem de tôda a
espécie de rodeios e subterfúgios, de mentiras mesmo, se ne­
cessárias, na expressão de seus pensamentos”. (1). Permuta­
vam sinais, toques, gestos. Encobriam-se para se descobrirem.
Kecorriam a vocabulário próprio. E assim davam-se a conhe­
cer entre desconhecidos.
O século XVIII foi a centúria dos disfarces, dos dominós,
das máscaras românticas. Foi, “ como poucos, um século de
mistério, de insinceridade, de intrigas, de anonimato, de pseu­
dônimos, usados pelos seus homens mais ilustres... Muitos
dos intelectuais de Setecentos eram, freqüentemente, como que
participantes num baile de máscaras, com' “ loup”* e dominó,
que quase sempre falsificavam a voz, quando falavam baixi­
nho e só em segrêdo” (2).
Neste século de voz em falsete, Luís Antônio Muratori, o
autor da obra “ Diffetti delia Giurisprudenza”, assinava “ La-
mindo Pritânio” e “ Antônio Lamprídio”. Luís Antônio Ver­
ney, o escritor do “ Verdadeiro Método de Estudar”, usava o
(3) Cf. L. Cabral de Moncada. “ Um iluminista português do século
XVIII - Luiz Antônio Vemey” . Coimbra. Arménio Amado. Edi­
tor. 1941.
(1, 2) Cf. L. Cabral de Moncada. "Um iluminista português do século
XVIII - Luís Antônio Vemey. Coimbra. Amado. Editor. 1941.
86 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

nome de “ Frade Barbadinho, da Congregação da Itália”, onde


morava. E sob o disfarce de religioso capuchinho italiano, o
português V em ey finge, na pessoa do impressor Antônio Baile,
dirigir-se “ aos Reverendíssimos Padres Mestres da Venerável
Religião (Ordem) da Companhia de Jesus no Reino e Domí­
nios de Portugal” (3).
É do tempo o processo de despistar os outros. Assim, o
‘^Verdadeiro Método de Estudar” se reflete nos “ Diffetti delia
Giurisprudenza” , cujas idéias em italiano são transpostas em
português, quase passo a passo. Ora, a cartilha iluminista en­
tra em Portugal com o “ Verdadeiro Método de Estudar”, don­
de saíram os “ Estatutos da Universidade de Coimbra”, em
1772. Dois anos antes, em 1770, fôra nomeado reitor da Uni­
versidade o Bispo de Coimbra, D. Francisco de Lemos de Fa­
ria Pereira, nascido no Rio de Janeiro em 1735, para executor
dêsses estatutos, conforme a reforma pombalina. E a Univer­
sidade de Coimbra vai ser a sementeira dos iluministas cató­
licos portuguêses, nascidos na Europa e na América Lusitana.
Muitos estudantes nascidos no Brasil freqüentavam, no
derradeiro quartel do século XVIII, além da Universidade de
Coimbra, universidades francesas, onde as idéias revolucioná­
rias eram fermentadas pelo iluminismo maçónico. E assim os
filiados à Maçonaria agiram na Nova Inglaterra e proclamarafli
o regime repubüc^o nos Estados Unidos.
Embaixador dêsse país, cuja independência era recente, To­
más Jefferson estava em Paris, quando no comêço do inver­
no recebe esta carta: “ Montpellier, 2 de outubro de 1786. Se­
nhor. Tenho um assunto de maior importância a comunicar-
vos; mas como o estado de minha saúde não me permite a
honra de ir encontrar-vos em Paris, peço-vos digneis ter a
bondade de dizer-me si posso com segurança comunicar-vô-lo
por carta, pois que sou estrangeiro, e por isso pouco inteirado
dos usos do país. Peço-vos perdão da liberdade que, tomo, e
rogo-vos também que mandeis a resposta a Mr. Vigarons, con­
selheiro do rei e professor de medicina da Universidade d^
Montpellier. Sou com todo o respeito, Senhor, vosso humUde
e obediente servo, Vendek** (4).
Jefferson estava filiado à Maçonaria. Para êle a assina-

8i ã:
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 87

eido, por intermédio de Vigarons, também “ iniciado”. E com


isso deu esperanças ao “ neófito”.
.Êste volta a escrever: “ Acabo de receber a honra da vossa
carta de 16 de outubro, e muito me penaliza^ não a ter mais
cedo recebido; mas tive de ficar no campo até agora por cau­
sa de minha saúde; e já que vejo que as minhas informações
vos chegam às mãos com segurança, vou ter a honra de vô-las
comunicar. Sou brasileiro; e sabeis que a minha desgraçada
pátria geme em atroz escravidão, que se torna todos os dias
mais insuportável depois da vossa gloriosa independência; pois
que os bárbaros portuguêses nada poupam por tornar-nos des­
graçados com mêdo que vos sigamos as pisadas; e como co­
nhecemos que êsses usurpadores, contra a lei da natureza e da
humanidade, não cuidam senão de oprimir-nos, resolvemos
seguir o admirável exemplo que acabais de dar-nos e, por
conseguinte, quebrar as nossas cadeias, e fazer reviver a nossa
liberdade, que está de todo morta, e oprimida pela fôrça, que
é o único direito que os europeus têm sôbre a América. Mas
cumpre que haja uma potência que dê a mão aos brasileiros, vis­
to como a Espanha não deixará de unir-se a Portugal; e, apesar
das vantagens que temos para defender-nos, não o poderemos
fazer, ou pelo menos não seria prudente aventurarmo-nos sem a
certeza de sermos bem sucedidos. Isto posto, senhor, é a vossa
nação que julgamos mais própria para ajudar-nos, não sòmen­
te porque foi quem nos deu o exemplo, mas também porque
a natureza fêz-nos habitantes do mesmo continente e, por con­
seguinte, de alguma sorte compatriotas. Pela nossa parte esta­
mos prontos a dar o dinheiro que fôr necessário, e a manifes­
tar a todo o tempo a nossa gratidão para com os nossos ben­
feitores. Senhor, aqui tendes, pouco mais ou menos, o resumo
de nossas intenções; e é para desempenhar esta comissão que
vim à França, visto que eu não podia na América deixar de
suscitar suspeitas naqueles que disso viessem a saber. Cumpre-
vos agora ajuizar si elas são realizáveis; e no caso de querer­
des consultar a vossa nação, estou habilitado a dar-vos tôdas
as informações que julgardes necessárias. Tenho a honra de
ser, com a mais perfeita consideração, senhor, vosso muito hu­
milde e obediente servo. Vendek. Em Montpellier, 21 de no­
vembro de 1786” (5).
Sublinhamos os pontos mais interessantes da carta. Ven­
dek emprega a palavra pátria no sentido de seu tempo; não
no de hoje. Pátria era apenas o lugar da naturalidade e não da

(5) Cf. Revista do Inst. Histórico e Geográfico Brasileiro, vol. 1884.


88 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

nacionalidade. Estabelece o missivista diferença entre brasi


TOS e poT^tuguêses: brasileiros eram os portuguêses nasci:
no Brasil-Província, e portuguêses, os nascidos na Europa,
se naquele tempo havia portuguêses do Brasü, porque tcá.
eram vassalos do Rei de Portugal, hoje há brasileiros deS^
Paulo, brasileiros do Pará, brasileiros do Rio Grande
Sul, etc.
Vendek não fala na primeira pessoa; eu; emprega o p
ral: nós resolvemos, Êste nós revela os misteriosos compa^n^'
ros ocultos na sombra. A palavra liberdade tem sentido ^
pecial. Em seu lugar seria República. Nesse caso, o estudar«
de Montpellier é apenas um emissário, com podêres
cabais para negociar com Jefferson. Êle mesmo o afirma: ri
NOSSA PARTE ESTAMOS PRONTOS A DAR O DíNHEllft
QUE FÔR NECESSÁRIO. Vendek não se identifica. Apres^'
ta-se ainda com a máscara do pseudônimo. E não a retira.
Mas o missivista fala em dinheiro. Oferece a quantia ^
fôr pedida. Não olha a despesas, a gastos, a somas. .
disso, está habilitado a dar tôdas as informações que F
porque é emissário de confiança,

UM ENCONTRO MISTERIOSO
A carta de Vendek esclarecia o assunto. Êle era enii^f^
de podêres ocultos. Quanto a isso, Jefferson não tinha dú^
alguma. Se houvesse desconfiança da parte do embaixad
elas se desvaneceriam em face da afirmativa de Vendek:
nossa parte, estamos prontos a dar o dinheiro que fôr
sário”. Logo não se tratava de auxílio financeiro. Êsse ^
tia, conforme veremos mais adiante. Nesse caso, teria pensf!
Jefferson, valia a pena ouvir o “ companheiro**. E o “ iriu^*’
havia de fornecer-lhe informações interessantes.
Assim, em pleno inverno, Vendek recebe esta respos^'
“ Paris, 21 de dezembro de 1786. Senhor, espero a cada moH^^
to fazer uma viagem pelas províncias meridionais da FrB^^
Demorei a responder à vossa carta de 21 de novembro
rando poder anunciar-vos a data da minha partida, assim
o dia e o lugar em que eu poderia ter a honra de encont^^
vos; mas até agora não está decidido neste momento.
terei, com certeza, a honra de participar-vô-lo, e pedir-vo5 ^
entrevista, ou em Montpellier ou nas vizinhanças. Por
to, tenho a honra de ser, com muito respeito, senhor, vosso
to humilde e obediente servo. Th. Jefferson** (i).
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 89

Vendek, embuçado emissáriq, rodea-se de mistéricx- Não


lhe falta dinheiro, mas não vai a Paris a fim de expor o ne­
gócio diretamente a Jefferson. No entanto, o embaixador acei­
ta o disfarce. Agora não hesita em marcar uma entrevista
com o fantasma. Vai ao seu encontro sem receio. E no mês
de janeiro de 1788, Tomás Jefferson viaja, pelas estradas cheias
de lama, debaixo de tempo chuvoso e frio, para o sul da
França.
Dêsse encontro cauteloso, realizado talvez nas arenas de
Nimes, longe da vista de curiosos, entre dois estrangeiros, re­
sultou curioso documento escrito por Jefferson a John Jay, nos
Estados Unidos. Nêle se resume o diálogo entre os dois filia­
dos à Maçonaria. Vamos lê-lo e comentá-lo nos pontos mais;
importantes. E podemos apresentá-lo como um espelho do Bra­
sil-Província no derradeiro quartel do século XVIII.
“ Como por êste tempo tinha eu deliberado, escreve Jef­
ferson, experimentar as águas de Aix, participei êste desígnio-
ao autor da missiva (a Vendek), e disse-lhe que me desviaria,
da estrada com o pretexto de visitar as antigüidades de Nî­
mes, si êle quisesse encontrar-se comigo nesse lugar. Assim o
fêz: e o que se segue é o resumo das informações que deu.
O Brasil contém o mesmo número de habitantes que Portu­
gal.*' Nessas condições, a Província e o Reino estavam equili­
brados. “ São êles portuguêses, brancos naturais do país, ne­
gros e pardos cativos, e índios selvagens ou civilizados.” Jef­
ferson não se engana: todos eram portuguêses, nascidos além
ou aquém Atlântico. Engana-se quando fala em pardos cati­
vos. Já D. Francisco Manoel de Melo, clássico da nossa língua,
quando estêve degredado na Bahia, por motivos políticos, de
1655 a 1658, escreveu um livro, “ Descrição do Brasil” , onde
considerava o Brasil — “ Paraíso de Mulatos (pardos), Pur­
gatório de Brancos e Inferno de Negros” (2).
“ Os portuguêses (nascidos além Atlântico), POUCOS EM
NÚMERO, continua Jefferson, quase todos casados na terra,
têm perdido a lembrança do solo pátrio e o desejo de voltar
a êle: ESTAO POR ISSO DISPOSTOS A ABRAÇAR A IN­
DEPENDÊNCIA.”
No Brasil-Província, os portuguêses de além-mar eram em
menor número e aceitavam a idéia da independência. Daí se
conclui não existir lutas internas entre portuguêses, nascidos
na Europa ou nascidos na América. E ambos estavam identifi­
cados com a terra.
“ Os brancos, naturais do país, formam o corpo da nação” ,
escreve Jefferson. Ora, se os brancos, aqui nascidos, consti-
T. L. FERREIRA M. R. FERREIRA

tuiam a maioria, era fácil fazer a independência.. “ Os índios


domesticados são destituídos de energia, e os selvagens
nhum partido tomarão neste negócio. H Á VINTE MIL HO­
MENS DE TROPAS REGULARES. (O exército ativo de lusos-
brasileiros.) A PRINCÍPIO TODOS ERAM PORTUGUÊSES;
mas à proporção que morriam FORAM SUBSTITUÍDOS POR
NATURAIS DO PAÍS, DE MODO QUE ÊSTES COMPÕESÍ
HOJE A MAIORIA DAS TROPAS, E PODE CONTAR-SE COM
ÊLES. Jefferson não diz brasileiros, Portuguêses, para êle,
são os de além-oceano. Os nascidos aqui são; naturais dopais
'6 constituem a maioria do exército. E pode contar-se com êles.
afirma. Mas êsses naturais da terra, pensariam assim? A res­
posta ia ser dada três anos mais tarde, em 1789.
“ Os oficiais são em parte portuguêses (de além-mar) e
•em parte brasileiros” (naturais da terra), continua Jefferson.
Ja as tropas luso-brasileiras não estavam nas mãos dos portu­
gueses de alem-Atlantico. Havia evidente equilíbrio E os co-
^ n d o s estavam distribuídos. “ SEU VALOR É INDUBITÁ-
^ embaixador; conhecem as manobras, mas ign®-
ram a ciencia da guerra; e NENHUMA PREDILEÇÃO TêM
A FAVOR DE PORTUGAL, nem são possuídos de algum
I timento forte por outro qualquer objeto.” Jefferson refere-se
ao valor do exército luso-brasileiro. Considera-o mercenári^^i
porque, em b^a sejam soldados pagos pela Coroa, não se
chnam para Portugal ou para o Brasil; são indiferentes.
Os clérigos, acrescenta Jefferson, são igualmente em par*®
portugueses, em parte brasileiros, e não parece, que tomei»
parte na contenda Ora, na Inconfidência Mineira entrarai»
alguns sacerdotes. E tomaram partido,
“ A nobreza é apenas conhecida como tal. Os chamados í '
distinguir-se do povo.”
breza da terra, constituída das classes dirigentes U t T T dos
fidalgos locais, não ficaria indiferente ao moviminto V t e as­
sertiva e importante: “ Os homens de l e t r a s S
desejam uma revolução. O povo não Á
. padres. Muitos indivíduos sabem ler e escrevpr- ^
,, ji e costumam servir-se delas para caçar ” Ha^a
te intelectual ponderável. E Luita S e l l T e s t r ^ ,

há mais que u m ^ ^ e n ^ e ^ ^ e S ^ ^ o ^ í T ^ í t revolução,


f! pessoa capaz de diriíri la pais. mas nao aP
Ij se-lhe à frente sem o auxíh^ dt Í arrisque pond^
ra o auxiüo de naçao poderosa: todos teineo’

/
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 91

que o povo os desampare” (3). Se o país, que é o Brasil, ti­


nha apenas um pensamento, a revolução, não se justifica o
fato de todos temerem que o povo abandone a causa. Quanto
à nação poderosa, capaz de auxiliar os revolucionários do Bra­
sil, os Estados Unidos não estavam nas condições exigidas. Êsse
país tinha feito a sua independência havia uma dezena de anos.
Econômica e financeiramente estava em situação inferior ao
Brasil-Província. Dez anos mais tarde, vinte e dois após a in­
dependência, Hipólito da Costa Pereira lá estêve, a serviço
da Coroa Portuguêsa, para estudar a economia agrícola norte-
americana. Hipólito fala da pobreza dessa nação várias vêces
no seu Diário de Viagem. No interior dêsse país, as compras
eram pagas em espécie. “ Vão muitas vêzes navios a Lisboa
buscar dólares, para ir à índia e China, ora não fariam tal
volta se achassem aqui dinheiro” (4). Hipólito insiste: “ Outra
prova da pobreza desta terra (os Estados Unidos) é que as
rendas sâo pagas quase tôdas em frutos, principalmente no
interior dêste Estado” (5). E se era assim em 1798, dez anos
antes, em 1788, a situação dos Estados Unidos não seria das
mais invejáveis.
Além da situação econômico-financeira dos Estados Unidos
não permitir auxiliar qualquer outra nação das Américas, a
Inglaterra ainda constituía uma ameaça para o povo norte-ame­
ricano. E êste receava uma tentativa de recuperação das Treze
Colônias por parte da Grã-Bretanha.
UM GOVÊRNO REPUBLICANO
PARA TODO O PAÍS
Continua o relatório de Vendek a informar Jefferson a
respeito da situação econômico-social do Brasil-Província nos
fins do século XVIII. Ouçamos a palavra do homem da época.
“ No Brasil não há imprensa” , diz o documento.
De fato, a afirmativa é verdadeira. “ Sôbre a origem da
tipografia no Brasil, não se pode afirmar, mas pode-se admi­
tir que a primeira foi trazida por Manoel da Nóbrega e outros
jesuítas em 1549” (1). Esta assertiva, ainda não provada, pode
<1, 3) Tradução publicada na Revista do Instituto Hist., Geog. Bra­
sileiro. vol. 3.°
(2) Edgard Prestage. “ D. Francisco Manoel de Melo” . Coimbra, 1941-601
Í4 5) Hipólito da Costa Pereira. “ Diário de minha viagem para Fi-
’ ladelfia” (1789-1799). 1955-146-147.
(6) Licurgo Costa e Barros Vida! “ História e Evolução da Imprensa
Brasileira” . Edição da Comissão Organizadora da Representação
Brasileira à exposição dos Centenários de Portugal. Rio de Janei­
ro - MCMXL.ll.
92 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

ser admitida em face dos jesuítas já terem instalado em Gôa,


na Ásia, no ano de 1557, tipografia própria para a impressão
de livros (2). No Real Colégio da Bahia, em 1677, o exce­
lente bibliotecário Irmão Antônio da Costa, “ natural de Lião,
na França, um dos melhores livreiros daquele tempo, bibliote­
cário, encadernador e tipógrafo” (3), encadernava e imprimia,
na tipografia instalada por Manoel da Nóbrega em 1547. E na
biblioteca do Real Colégio do Rio de Janeiro “ enfileiravam-se
nas suas estantes livros recentes, alguns impressos Tia própria
casa, por volta de 1724, para uso privado do Colégio e dos
Padres, outros trazidos cada ano dos livreiros de Lisboa e da
Europa. Dava-se às vêzes o número destas entradas, 12 volu­
mes em 1734” (4).
No comêço do século XVIII foi instalada uma tipografia
em Recife, por volta de 1706. Uma ordem régia dêsse ano obri­
ga o governador de Pernambuco a mandar “ seqüestrar as le­
tras impressas e notificar aos donos delas e aos oficiais da ti­
pografia que não imprimissem nem consentissem que impri­
missem livros ou papéis avulsos” (5). Em 1747, outra ordem
régia manda seqüestrar a tipografia instalada no Rio de Ja­
neiro, por Antônio Isidoro da Fonseca, sem as necessárias or­
dens. Assim “ escreva-se ao Governador do ESTADO DO BRA­
SIL, que por constar, que dêste Reino tem ido quantidade de
letras de imprensa (tipos) para o mesmo ESTADO (do Bra­
sil), no qual não é conveniente se imprimam papéis no tempo*
presente, neni pode ser de utilidade aos impressores trabalha-
rem o seu ofício, aonde as despesas são maiores que no Rei­
no, do qual podem ir impressos os livros e os papéis, no mesmo
tempo em que devam ir as LICENÇAS DA INQUISIÇÃO E
DO CONSELHO, sem as quais não podem imprimir, nem cor­
rerem as obras” (6).
Nessas condições, nem o Rei de Portugal, nem a Côrte,
eram empecilhos para a instalação da tipografia e da impren­
sa no Brasil-Província. O Rei apenas executava, ou mandava
executar, as ordens recebidas do TRIBUNAL DO SANTO
OFÍCIO. ^
Assim, acima da autoridade real estavam o poder do S a n t o
Oficio e do Conselho Ultramarino, cujos privilégios eram res-

'» " '» .M . 4. J«™ » . Br.-


(5, 6) Inventário dos does. rei. ao Brasil r,« a ^ iLTori-
nha e Ultramar de
14.763 - 16.763. Lisboa. Publ da oioiioteca Nacional. Rio. íf
BibliofJ^^^^ /.
does.

L /
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 93

peitados pelo soberano. Tão respeitados que Alexandre de Gus­


mão, português natural de Santos, diplomado pela Universida­
de de Coimbra e doutorado pela Universidade de Paris, onde
exercia as funções de secretário da Embaixada Portuguêsa na
Cidade-Luz, depois secretário de Estado dos Negócios do Rei­
no e fidalgo da Casa Real, ministro plenipotenciário de Por­
tugal junto á Santa Sé, em Roma, donde regressou para ser
nomeado secretário particular do Rei D. João V; Alexandre
de Gusmão, neste cargo, nessa ocasião, nada pôde fazer junto
ao seu soberano para evitar o seqüestro e a remessa para Lis­
boa da tipografia montada no Rio de Janeiro por Isidoro An­
tônio da Fonseca em 1747. E o santista ilustre conviveu intima­
mente com D. João V até à morte dêste em 1750.
Continuemos a leitura do relatório de Jefferson. “ Os bra­
sileiros consideram a revolução da América do Norte como
precursora do que êles desejam: é dos Estados Unidos^ que
esperam todo o socorro.” Nessa altura dos acontecimentos, a
hoje poderosa nação norte-americana não estava em condições
de prestar auxílio aos brasileiros revolucionários. E a situa­
ção econômica e financeira do Brasil-Província era superior
à dos Estados Unidos.
“ As maiores simpatias desenvolvem-se entre êles para co­
nosco, adianta Jefferson. A pessoa que me dá estas informa­
ções é natural e tem residência no Rio de Janeiro (era Ven­
dek), atualmente Capital (do Estado do Brasil), e que tem
cinqüenta mil habitantes. A pessoa a quem aludo conhece bem
a cidade de S. (sic) Salvador, antiga metrópole, e conhece
também as minas de ouro, que se acham situadas no interior.
Todos êstes lugares propendem para a revolução; e como cons­
tituem o corpo da nação, têm de levar os outros consigo.” Ven­
dek era do Rio de Janeiro, mas conhecia muito bem Salvador
e Minas Gerais. E desconhecia São Paulo.
“ O quinto, que o Rei cobra do produto das minas, anda
por treze milhões de cruzados” , continua Jefferson. Êsse quin­
to representava apenas vinte por cento do ouro puro. Quatro
quintos pertenciam ao proprietário da mina. “ Êle (o Rei) só
tem 0 direito de explorar as minas de diamantes e das outras
pedras preciosas, que lhe rendem quase metade dessa quantia.
O produto destas duas grandes fontes de riqueza sòmente deve
montar a dez milhões de dólares por ano: mas o remanescente
do produto das minas, que sobe a vinte e seis milhões, pode
aplicar-se às despesofs da revolução.” E êste depoimento de Ven­
dek prova como o Estado do Brasü estava em; melhor situa­
ção econômico-financeira que a América do Norte. Vendek,
94 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

embora muito bem informado, ignorava que se cunhava m oeán


provincial nas Casas da Moeda da Bahia, de Pernambuco, do
Rio de Janeiro e de Ouro Prêto. E ignorava ainda que em
São Paulo corriam barras de ouro, com o valor do dinheiro cir­
culante amoedado.
Outra afirmativa de Vendek: “ Afora as armas que estáo
pelas mãos do povo, há armazéns delas, Há muitos cavalos,
mas só uma parte do Brasil admite o serviço da cavalaria.
Precisaríamos de artilharia, munições, navios, marinheiros, sol­
dados e oficiais; e para tudo isso estamos deliberados a recor­
rer aos Estados Unidos, entendendo-se sempre que os forneci­
mentos e os serviços serão necessàriamente pagos”. E para tudo
havia dinheiro.
“ A farinha de trigo custa lá (no Brasil), continua JeÜer-
son, quase vinte libras cada cem arratéis. Tem o país (o Bra­
sil) cí maior abundância de carne e tanta que em algwmfís
partes matam reses sòmente para: aiprovcitar-lhes o couro^
O relatório fala do pescado. “ Êste Reino (Portugal), que não
tem esquadra nem exército, não pode invadir o Brasil em menos
de um ano. Se considerarmos a maneira como tem de ser pr^
parada e executada tal invasão, não será ela muito para temer;
0 si falhar a primeira, não tentarão a segunda. Na verdade, cor­
tada que seja esta principal fonte de sua riqueza, apenas P^'
derão os portuguêses fazer um primeiro esforço.” Mas a foD-
te de riqueza não era, dos portuguêses, porque portuguêses
eram todos os brasileiros então.
“ A parte ilustrada da nação conhece tanto isso que tei»
por^ infalível a separação. Há um ódio implacável entre bra*
sileiros e portu^êses.” Esta afir^nação deve ser recebida coJO
reservas. La atras diz-se o contrario. Os períodos seguintes eS'
clareceni o assunto. “ No intuito de reconciliá-los, adotou ui»
dos ministros passados (Pombal) a política de nomear brasi'
leiros para os empregos públicos; mas os ministros que se lli^
seguiram voltaram à política anterior, nomeando para aquêr
les empregos somente pessoas nascidas em Portugal ” Tq«n náo
e verdade. Antes de Pombal, o iluminado, já se fazia isso con-
de Gusmão'
í< deste artigo, serve de exemplo.

A PARTE ILUSTRADA DA NAÇÃO

form açõí‘‘‘s “aEsI?^^^^^ "O»« «stas i«'


A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 95

deria chegar até êles; e a tentativa da Espanha não é para


recear-se. As Minas de ouro são entre montanhas inacessíveis
a um exército; e o Rio de Janeiro é tido como o pôsto mais
■forte do mundo depois de Gibraltar. No caso de uma revolução
bem sucedida, há de organizar-se um govêmo republicano geral
para todo o país** (1). Assim termina o depoimento de Ven­
dek.
Este documento reflete, com nitidez, a situação econômi­
ca, financeira e social do Estado do Brasil há cento e setenta
anos, quando a nação de hoje era uma província do Império
Lusitano. Nêle se fala na parte ilustrada da nação, isto é, na
classe culta do Brasil-Província. Ora esta classe culta da Amé­
rica Portuguêsa também era superior à parte ilustrada dos Es­
tados Unidos. Assim, em 1799, “ observa um almanaque que
há nos Estados Unidos, presentemente, sete Universidodes, de­
zesseis Colégios e 60 Academias” , informa Hipólito da Costa
Pereira, filiado à maçonaria. E acrescenta: “ Um bostonense,
que loja comigo^ teve a' imprudência de dizer a um inglês,
hoje à ceia, que as Universidades da Inglaterra e Escócia esta­
vam cinqüenta anos mais atrasadas que a Universidade de Cam-
bridge, em Boston. Esta anedota, para mim, que observei a tal
Universidade, me prova bem o orgulho e a petulância dos ame­
ricanos” (2).
Hipólito da Costa Pereira formara-se em Filosofia (ná
época abrangia Ciências Físicas e Naturais) na Universidade
de Coimbra. Eis o contacto dêle com o ensino 0 os mestres
dos Estados Unidos: “ Esta manhã fui com luna carta de Mr.
Dickins ouvir o Dr__ de Water-House, em Cambridge; e
achei-o a dar a sua aula sôbre os elementos primos e combina­
ção da matéria, no que, para explicar como os corpos crescem,
admitiu alma até nas pedras, para mostrar que as diferentes
combinações da matéria produzem diferentes qualidades. Mis­
turou duas substâncias brancas, que êle disse haviam de mu­
dar de cor, mas tal não aconteceu; êle atribuiu isto ao ar, etc.
Chama às suas lições “ natural philosophy” , e pela exposição
que fêz, tem de explicar no curso das suas lições em seis me­
ses: História Natural, Física e Química!” (3). O sinal de ex­
clamação de Hipólito dispensa comentários.
Ora, enquanto em 1799 o almanaque informava haver nos
Estados Unidos, nessa época sete Universidades, onde o ensino
(1) Carta dc Jefferson a Jay. Cf. vol. III da Revista do Inst. Hist.
Gegr. Bras.
(2, 3) Hipólito da Costa Pereira. “ Diário da Minha Viagem para Fi­
ladélfia". ed. Ac. Brasileira de Letras. 1955. 198-193.
96 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

era ministrado conforme observou Hipólito da Costa Pereira,


além de 16 Colégios e 60 Academias não especificadas, no Es­
tado do Brasil, quarenta anos antes, em 1759, havia VINTE E
UM COLÉGIOS e SEIS SEMINÁRIOS mantidos pela Coroa
Portuguêsa, onde lecionavam os jesuítas a serviço do Império
Lusitano. Nesses Reais Colégios o ensino era rigoroso, com
professôres especialisados. E tanto lecionavam nesses esta­
belecimentos de ensino no Estado do Brasil, como também nas
Universidades de Évora e de Coimbra, em Portugal.
Êsses vinte e um Colégios estavam situados em: Salvador
(Bahia), São Luís do Maranhão, Alcântara (Maranhão), Rio
de Janeiro, Belém do Pará, Vigia (Pará), Fortaleza (Ceará),
Aquirás (Ceará), Piauí, Paraíba, Pernambuco (Recife), Olin­
da (Pernambuco), Ilhéus (Bahia), Pôrto Seguro (Bahia), Vi­
tória (Espírito Santo), Santos (São Paulo), São Vicente (São
Paulo), São Paulo (Capital), Paranaguá (Paraná), Desterro
hoje Florianópolis (Santa Catarina) e Colônia do Sacramento,
no estuário do Prata. Os seis Seminários estavam em: Belém
do Pará, São Luiz do Maranhão, Cachoeira (Bahia), Concei­
ção (Bahia), São Paulo (Capital), e Mariana (Minas Gerais).
No Real Colégio da Bahia (Salvador), nesse ano de 1759
funcionavam quatro Faculdades: Faculdade de Letras, Facul­
dade de Filosofia, Faculdade de Teologia, Faculdade de Mate­
máticas. Nesse estabelecimento de ensino, havia curso primá­
rio, secundário e superior, embora não tivesse o rótulo de Uni­
versidade, Padre Antônio Vieira, nascido em Lisboa, fêz todo
o seu curso, desde primeiras letras até ao curso universitário,
no Colégio da Bahia. E depois foi professor de Filosofia no
Colégio de Olinda.
M p o curso de Filosofia, onde entravam Física, Química e
História Natural, não era apenas ministrado, em grau univer­
sitário, no Colégio da Bahia. Era também no Real Colégio Má­
ximo do Maranhão, de Belém do Pará, de Olinda e do Rio de
Janeiro. E em todos êles havia defesa de teses filosóficas (4).
“ Nesta conformidade procuraram os maranhenses e na-
raenses para o seu Curso de Filosofia todo o esplendor das
f l,í Universidades, ate que o aumento da população e o p r e ^ t ó
í u oficial dos graus com valor em direito imnrW o
se nos depara nas Conclusões Filosóficas do
em que foi Professor Bento da Fons^k
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 97

as licenças manuscritas e autografas do Colégio das Artes da


Universidade de Coimbra; “ Cohaerent suo originali. Conim-
bricae. In Collegio Societatis Jesv, dia 17 Martii 1730. Matheus
Gião. Podem-se defender. Coimbra em mesa, 20 de março
de 1730. Paes Abreu”.
“ As teses do Maranhão imprimiram-se na Tipografia do
Colégio das Artes de Coimbra, excepto duas em Lisboa; uma
na Tipografia da Música, e outra por Matias Rodrigues. Junto
dela encontram-se três Conclusiones Philosophicae do Profes­
sor Rodrigo Homem, defendidas no Maranhão, e impressas,
duas em Lisboa (1721-1722), e uma na Universidade de Évora
(1723). Existe ainda neste Códice eborense um exemplar im­
presso de Conclusiones Philosophicae, do Prof. Manuel da Sil­
va, defendidas no Maranhão, em 1731; e dêste e dos Mestres
citados, Rodrigo Homem e Bento da Fonseca, ainda diversas
Teses manuscritas” (5).
As Teses do Real Colégio da Bahia também foram impres­
sas. Perderam-se tôdas. “ Do Colégio do Rio de Janeiro sal­
vou-se o exemplar das Conclusiones Philosophicae do P. M.
Francisco de Faria, impressas no Rio (de Janeiro) em 1747,
que constitui um dos primeiros monumentos da Imprensa do
Brasil” ( 6). E assim os estudos nos Colégios da Coroa Portu­
guêsa, onde os jesuítas eram professôres, eram severos e ri­
gorosos.
“ Sob o ponto de vista das fontes, jamais houve entre nós
atividade comparável à dos decênios em que os Jesuítas do
Colégio das Artes de Coimbra levaram a Cabo monumental
Comentário à obra de Aristóteles, iniciado em 1577 com o de
Pedro da Fonseca, à Metafísica, E^ empreendimento único,
sem similar, siquer longínquo, com a obra de qualquer outro
filósofo** (7). E os professôres dos Reais Colégios do Brasil
lecionavam nas Universidades de Coimbra, de Évora, de Goa,
pois o intercâmbio de mestres era constante.
E o sistema pedagógico dos Jesuítas, professôres pagos pela
Coroa Portuguêsa, para lecionarem nos Reais Colégios do Es­
tado do Brasil era sólido e científico.

(5, 6) Serafim Leite, S.J. "História da Companhia de Jesus no Bra­


sil". T-VII, 209.
(7) Joaquim de Carvalho. “ Evolução da Historiografia filosófica por­
tuguêsa em Portugal até fins do século XIX” , em “ Biblos” . Uni­
versidade de Coimbra, vol. XXII. T-I (1946) 82.
98 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

VASSALOS DE SUA MAJESTADE


Citamos, em capítulo anterior, o nome de ^exandre de
Gusmão, português de Santos. Esta assertiva há de alert^
muita gente cujos conhecimentos históricos assentam na lei­
tura dos compêndios ou nos estudos feitos no curso primário.
Na realidade, tôdas as pessoas nascidas no Estado do Brasil e
no Reino do Brasil até a nossa independência eram portuguê­
sas pela nacionalidade, porque eram vassalos de sua majesta­
de. Ora, a palavra brasileiro, para designar o natural da Amé­
rica Portuguêsa, surge tardiamente em fins do século XVin,
desta centúria onde os homens tinham voz de falsete. E, juri­
dicamente, o brasileiro adquire a sua nacionalidade brasileira,
postulada na Constituição Política do Império do Brasil, ou­
torgada por D. Pedro I, a 25 de março de 1824.
O exemplo de Francisco Adolfo de Vamhagem ilustra as
palawas acima. Vamhagem nascera a 17 de fevereiro de 1816,
P^^^samente, a 16 de dezembro

do Brasil, Portugal e Algarves” ivrPM Reino Unido


“ pai da História do Brasir era condiçoes, o futuro
embora fôsse brasileiro pela naturaiM^®® S nacionalidade,
Majestade D. João VI com o '^assalo de Sua
o decreto do Príncip^Regente D Bem claro é
de novembro de 1807, quando declara ’ ®
beneficio dos meus vassalos nassar ^enho resolvido, em
nhora e Mãe. com tôda a re’al fam fur*” ® rainha, minha Se-
AMÊRICA e estabelecer-me na cWaH 5 " ^ °® ESTADOS DA
a paz g era l.,.” (i). As-im do Rio de Janeiro até
Capital do Império Lusitano’de Lisboa^nã^®®®”^® ^ “ »’ sfere a
Nes^s condições, após o regresso ^ ^ ° de Janeiro
D. Pedro, PrincipeÍRegLte brasil a L is b ^
3 de junho de 1822, ’’para a man^ Brasil, decreta a
narquia Portuguêsa p w ^,*"®«tença da intecridoj! j
uma assembléia LUSO BrasU Me­
mento, além de D E a L fn f
“ do meu Conselho de ®°” «ácio de

Wistória dft
Independência do
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 99

fixa residência. Na Capital do reino de Portugal faz estu­


dos primários, secundários e superiores. Em 1839 descobre na
igreja da Graça em Santarém, o túmulo de Pedro Álvares Ca­
bral. Surgem então dúvidas a respeito da nacionalidade de
Vamhagem. Êle requer a D. Pedro II o título de cidadania
brasileira, porque era paulista de Sorocaba. Em decreto de 24
de setembro de 1841, “ era resolvida favoràvelmente a questão
de sua nacionalidade brasileira” (3).
Já em começos de 1600, precisamente em 1612, os caste­
lhanos do Paraguai começam a chamar os piratininguaras de
“ los portugueses de San Pablo” (4). Interessante é observar-
se como nos anos de 1669 e 1671, ao mesmo tempo, aparecem
dois documentos, datados, um do Pará e outro da Bahia, onde
se lê pela primeira vez, a palavra — Paulistas. No primeiro,
de 1669(, o filho do cacique de Aruaquis, em Cametá, viera
pedir socorro aos Jesuítas, “ pois tinham sido invadidos pelos
Portuguêses do Brasil a que chamam Paulistas ou de São
Paulo” (5) Afonso Furtado de Castro do Rio de Mendonça,
vice-rei do Estado do Brasil, em carta de 1671 fala das pro­
vidências necessárias para os Paulistas fazerem a jornada ( 6).
E a palavra brasileiro, para designar a naturalidade, surge tar­
diamente em 1786, na carta de Vendek, conforme já vimos (7).
Nessas condições, voltemos a Alexandre de Gusmão, citado
no comêço destas linhas, e a Sebastião José de Carvalho. Am­
bos, portanto, eram portuguêses, vassalos de Sua Majestade.
Gusmão nascido em Santos, na América Portuguêsa. Carva­
lho em Portugal. Aquele ministro de D. João V, depois de se
ter bacharelado em Direito, na Universidade de Coimbra e dou­
torado na Universidade de Paris, onde era secretário da Em­
baixada Portuguêsa. Êste, sem título algum universitário.
Gusmão tinha profunda cultura econômica e política. Redigira
o “ Tratado de Madrid” , em 1750, onde se firmaram, com pe­
quenas diferenças, os atuais limites do Brasil com as nações
vizinhas. Carvalho tinha gênio político, era ministro de D.
José I. E ambos estavam a serviço da Coroa Portuguêsa.
Assim, “ sua majestade não distingue os seus vassalos pela
côr, disse Pombal, distinguia-os pela inteligência” . Nisso es-
(3) Rodolfo Garcia. “ Ensaio bio-bibliográfico sôbre Francisco Adol­
fo de Vamhagen” . “ História Geral do Brasil” de F.A . de Var-
nhagen. T-II. p. 436 e segs.
(4) “ Anais do Museu Paulista” . T-I. 156.
(5) Serafim Leite, S.J. “ História da Companhia de Jesus no Brasil” .
T-III. 341.
(6) “ Anais do Museu Paulista” . T-III. 301.
(7) Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Vol. III.
ím

100 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

tava certo. Seus vassalos estavam na Europa, em Portugal,


na África, em Angola, na Am érica, no Brasil, na Ásia e na
índia. Eram de vários coloridos. A então Comunidade Portu­
guêsa dispersa pelos quatro continentes, tem, nos dias de hoje,
o exemplo na Comunidade Britânica, onde os vassalos da rai­
nha da Inglaterra também estão em dois continentes e numa
ilha: Austrália, Canadá, na Am érica do Norte, e Grã-Breta­
nha. E a Comunidade Portuguêsa do século XVIII, pensa­
va, agia e vivia como vassala da Coroa Portuguêsa, assim co­
mo hoje, em pleno século X X , a Comunidade Britânica, pen­
sa, vive e age como súdita da Coroa Inglêsa.
Nessas condições, as doutrinas econômicas e políticas de
Alexandre de Gusmão foram aproveitadas por Sebastião
de Carvalho. Em meados do século X V III, a situação econ^
mica e financeira de Portugal era péssima. Já em fins do se*
culo X V II as rendas do Brasil, província dá Coroa Portuguêsa,
diimnuiam. “ Propôs o governador (do Estado do Brasil)
a Corte acudisse ao Estado do Brasil com dois milhões de
moeda provincml que não pudesse correr no Reino, sendo ^
K (Salvador) e vilas anexas; seiscentos
Em v fz ® *ï?^trocentos m il para o R io de Jane“ "'
Em vez de arbitno, veio o govêrno da m etrópole a adotar oU-

(Salvador) uma casa da moeda, em que se cunhasse dinhe'^


provtncial de ouro e prata” (8 . Por êsse d e S b r o econ^
- i n i r s : p oj

cttn ï Í S S ? d T '“ “ * ’»
decretos de 9 de janeiro e 5 dp m l manifesta-se
didas protecionistas” ( 9) e ^^sistência de
tações inglêsas, em p ^ ju ízo das e i . ? ^?^^^tam as imP^^'
A êsse fenômeno tamhá - ^ o rta ço e s portuguêsas.
Província, em começos de 1700 extranho o Bra^'
Brazil, que crece cava ves mais ° ®^cessivo luxo ^
hua das principaes cauzas de se nn?* ®^“ ?dacia do ouro,
(para) os estranhos a prata o « ®xtrair deste Reyno P;,
«.tos (muitos) generos^^^rSozorou/” '* ^
’ “í"® "OS vem das mãos

Soares de^^zève^'^^^C^ Brasil»». T-III. 324.


Português, de 1820«. Lisboa, da Revolaf**
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 101

Estrangeiros, que hé precizo satisfazer em moeda, e em barras


de ouro, porque naõ bastaõ os frutos (produtos) que temos
p.® os pagar, e m.tos estrangeiros os naõ querem, por terem
mayor lucro, e mais seguro na moeda, hé precizo moderar com
prematica (pragmática, norma) os excessos dos m.ores (maio­
res?) do B ra z il...” ( 10).
Verifica-se mais tarde, em tempos de D. João V, como as
importações haviam de atingir a cifra, nunca anteriormente
suposta, de 1200 000 libras, enquanto o retorno não ultrapas­
sava 400 000 (11). Nessa altura volta-se a falar na perda de
dinheiro do Império. Êle se escoava no desiquilíbrio da im­
portação em face da exportação escassa.
Os economistas portuguêses do século XVII e XVIII conhe­
ciam as doutrinas mercantis do colbertismo. Também pensa­
vam em promover o progresso nacional e fazer renascer o país,
na economia e nas finanças. E para isso preocupavam-se com
o desenvolvimento das indústrias, para impedir a saída do di­
nheiro, sem estimular a agricultura.
No “ Cálculo sôbre a perda de dinheiro do Reino”, Ale­
xandre de Gusmão trata, antes de Pombal, dos meios para im­
pedir a saída da moeda e acumular o numerário, conforme
veremos.

OS MOÇOS DO BRASIL NA
UNIVERSIDADE DE COIMBRA
Em 1548, D. João III, rei de Portugal, cria o Estado do
Brasil, Província do Império Lusitano, dividida antes em Ca­
pitanias. Com a criação do Reino do Brasil em 1816, as Ca­
pitanias passam a Províncias. Proclamada a República em
1889, as Províncias recebem o nome de Estados. Os Estados
hoje formam a união do antigo ESTADO DO BRASIL, criado
há 410 anos por sua majestade. “ E assim, embora continuassem
(de 1549 em diante) alguns Donatários com os seus forais, sur­
gia um poder novo de caráter centralizador, com alçada em
certas matérias sôbre todo território do Brasil organizado em
ESTADO, com suas autoridades superiores: Governador-Ge-

(10) Gf. Manoel Cardoso. “ Brazilian Gold Rush” . Reprinted from


The Americas, Vol.-Ill October, 1946. n.° 2 Washington, D.C.
149. Report of the Overseas Council, July, 17, 1709, in A .H .C .
Codex 232, f.° 257 verso.
(11) J. Lúcio de Azevedo. “ Épocas de Portugal Econômico” . 419
T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA
102
ral, Ouvidor-mor, Provedor-mor. E êste foi o primeiro atoofi-
ciai e político para a unificaçao do Brasil (!;•
No fim do inverno de 1549, Tomé de Sousa, pr™
vernador Geral do Brasil, instala o seu governo
Salvador, capital por êle fundada. A o mesmo tempo, e n .s
mesmo ano, o Padre Manoel da Nóbrega, . f
Secretário da Educação do Estado do Brasil, ^
de D. João III, o ensiTW público e g ra to to no Brasil-Pro^ _
Nóbrega funda o Colégio da Bahia, o de São Paulo e o ao
de Janeiro, onde os Jesuítas são professôres pagos pela
Portuguêsa. De 1549 a 1759, em todos os Reais C^legips a
Estado do Brasil, durante duzentos anos, a instrução pu
e gratuita estêve a cargo da Companhia de Jesus, com o o
jurídico de ensinar e missionar a serviço da Coroa Portugu
“ A instrução ministrada pela Companhia de Jesus durante
seus dois séculos de magistério no Brasil, vê-se, pelo
fundamento e evolução dela, que foi gratuita e público., ® ^ ^
três graus, popular, média e superior” (2 ). O sublinhado
meu, para esclarecer o assunto.
“ O Real Colégio das Artes de Coimbra, da
público, foi 0 padrão, para Portugal e terras novamente a
cobertas na América, Africa e Ásia, que importava
cultivar e evangelizar com Colégios igualmente públicos. ^
com esta diferença. O subsídio, que El-Rei, ou na
moderna o Estado, dava aos Mestres de Coimbra, era a
de ensino; o que dava aos Mestres dos Colégios ultramarii^^'
de fundação real, era a título de missões ( 3).
Assim, fique bem claro: os Colégios eram de
real, porque fundados pelo Rei de Portugal e mantidos
Coroa Portuguêsa; neles os Jesuítas eram professôres
e recebiam, pelo seu trabalho de ensinar e missionar, o
sídio, em linguagem atual, ordenado ou vencimento, E
excelentes mestres e excelente ensino, jamais superado, a
cação era ministrada nos Reais Colégios do Brasil-Provín^^
nos três graus: primário, secundário e universitário. 1
Nessas condições, cêrca de dois mil e quinhentos ,
nascidos no Brasil, mas portuguêses pela nacionalidade, i
pletaram na América Portuguêsa o curso secundário, muit^^
curso superior, e foram, doutorar-^se na Universidade de Co^:. <
bra, entre os anos de 1577 e 1822, isto é, em 145 anos. ^

(1) Serafim Leite, S.J. «Cartas do Brasil e mais escritos do


/o Nóbrega” Opera omnia. Coimbra. 1965. 40.
sil” T^VII “ História da Conpanhia de Jesus no
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 103

de dezessete estudantes do Brasil, em média, por ano, recebiam


0 grau de doutor na centenária Universidade (4).
Ora, entre os anos de 1768 e 1788, vinte anos, portanto,
CENTO E CINQÜENTA E SETE estudantes das diversas ca­
pitanias luso-brasileiras são diplomados na Universidade de
Coimbra. Nesse número se inclui, em 1768, Manoel Inácio da
Silva Alvarenga, natural de Vila Rica (Ouro Prêto). Termina­
do o curso universitário, regressa ao Brasil. A Rainha D. Maria
1 o nomeia professor régio de Retórica e Poética no Rio de Ja­
neiro. Silva Alvarenga e José B da Gama, autor do “ Uruguai
com o apoio do bispo D. José de C. Branco e a proteção do vi­
ce-rei D. Luís de Vasconcelos, fundam na Guanabara uma so­
ciedade literária, modelada pela Arcádia de Roma. A ela per­
tenceram as mais brilhantes inteligências do tempo. O conde
de Resende, vice-rei do Estado do Brasil, substituto de D. Luís
de Vasconcelos, mandou dissolver a Academia e prender al­
guns de seus membros. Entre os presos figura Alvarenga, con­
denado a dois anos de detenção na ilha das Cobras. Foi juiz.
dêste processo o poeta Dr. Antônio Diniz da Cruz e Silva, autof
do “ Hissope” e mais tarde pertencente ao Tribunal da Incon­
fidência, designado para julgar os réus da Conspiração Minei­
ra de 1789. Posto em liberdade. Alvarenga foi restituído às
suas funções públicas de professor, nomeado por sua majesta­
de. Onde pára êsse processo não sabemos. Mas a sua leitura
revelaria fatos interessantes. E esta academia literária disfar­
çava talvez uma sociedade secreta de iluminados.
Em 1769 forma-se Antônio Pires da Silva Pontes, natural
de Mariana, junto a Ouro Prêto. Doutorou-se em 1777. Até 1790
realiza pesquisas e prospecções no Brasil, por conta de sua
Majestade. Regressa a Portugal e foi nomeado professor da
Academia de Marinha, em Lisboa, no pôsto de capitão-de-fra­
gata, em 13 de abril de 1791. Em 179^8, por influência de D.
Rodrigo de Sousa Coutinho, depois Conde de Linhares, é no­
meado, pelo príncipe-regente D. João, Governador da Capita­
nia do Espírito Santo. Agraciado com a Ordem de Aviz e só­
cio da Academia de Ciências de Lisboa. Nesse mesmo ano de
1798, por influência dêsse mesmo ministro D. Rodrigo da Sou­
sa Coutinho, 0 mesmo príncipe-regente D. João nomeia Hipóli­
to da Costa Pereira, nascido na Colônia Militar do Sacramento,
no extremo sul do Estado do Brasil, para estudar a agricultura
nos Estados Unidos, conforme vimos em linhas anteriores. Re-

(4) Francisco Morais. “ Estudantes da Universidade de Coimbra nas­


cidos no Brasil” . “ Brasília” suplemento ao volume VI. Coimbra.
1949.
104 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

cém-formado pela Universidade de Coimbra, nela se filiara a


Maçonaria. Ao voltar a Lisboa fôra nomeado Diretor da Im­
prensa Régia, hoje Imprensa Oficial; mas acusado perante a
Inquisição de pertencer à Maçonaria, esteve preso nos cárce­
res do Santo Ofício, donde os “ irmãos” conseguiram fazê-lo
evadir-se e retirar-se para a Inglaterra. E em Londres ingres­
sa na Maçonaria inglêsa.
A respeito de Sousa Coutinho é interessante saber-se: “For
ocasião das perseguições de Pina Manique (o famigerado inten­
dente de Polícia, em começos do século X IX ), o Padre Jose
Ferrão de Mendonça e Sousa, prior da paróquia dos Anjos, e
outros, dirigiram-se ao Ministro D. Rodrigo de Sousa Couti-
üho, que mandou insinuar ao Intendente que os mações nao
eram aquilo que êle procurava fazer crer ao Príncipe (Regente
D. João), e que estêve presente à iniciação de D. Alexandre
Holstein numa loja de Turim” (5). E se D. Rodrigo de Sousa
Coutinho estêve presente à iniciação referida, é porque ja era
^‘irmão da opa”.
Natural de São Paulo, desta cidade de Manoel da Nóbre­
ga, Francisco José de Lacerda e Almeida doutorou-se em Ma­
temática na Universidade de Coimbra, em 1777. Por ordem
rei de Portugal, e à custa da Ooroa, realiza a sua famosa vja-
gem fluvial de Belém do Pará a São Paulo. Em 1791 foi eleito
sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa. Ainda por or­
dem de sua majestade, e à custa da Coroa, empreende a trave^
sia terrestre do sertão africano, de Angola a Moçambique. ^
nessa viagem, o ousado e estudioso explorador paulista vefl®
a falecer em 1802.
Outro engenheiro, Alexandre Rodb^igues Ferreira natur^
de Salvador, na Bahia, doutorou-se em 1778 na Universidade
de Coimbra. Explorou os rios Amazonas, Branco Madeir^’
Guapore e Mamoré, nonueado por sua majestade e à custa d»
Coroa Portuguesa, n ;^ a viagem de oito anos. Escreveu a obr»
notável Viagem Filosofica” , isto é, cientifica. Membro d«
Academia de Ciencias de Lisboa, funcionário da Secretaria da
Marinha, atoinistrador do Real Gabinete de História Nat»'
Comércio e vice-diretor do Jardi>»
BotMico da Ajuda, faleceu em Lisboa em 1815 E tanto “
pa ista quanto o baiano são desconhecidos em nossa terra-

(5) Julião Soajres d© Azevedo. “ Condições econômicas da


Portusruêsa de 1820” Lisboa. 1944. 11.
f
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 106

A MAÇONARIA, A UNIVERSIDADE
DE COIMBRA E A ACADEMIA
DA CIÊNCIAS DE LISBOA
O liberalismo pombalino ia encontrar na Maçonaria ilu­
minista, na Universidade de Coimbra e na Academia das Ciên­
cias de Lisboa, os instrumentos destinados à expansão e di­
namismo das idéias liberais, no derradeiro quartel do século
XVIII. À primeira estavam filiadas as Academias de Letras
fundadas no Brasil-Província, notadamente a Cientifica, sur­
gida no Rio de Janeiro em 1772. Foi seu organizador o mé­
dico do vice-rei do Estado do Brasil, Dr. José Henrique Fer­
reira. Além disso, os estudantes mais distintos, formados pela
Universidade de Coimbra, logo ingressavam na Academia de
Ciências de Lisboa. E quanto à Universidade, a sua atuação
foi notável.
Assim, após a independência das colônias inglêsas da Nova
Inglaterra, na América do Norte, em 1777, as mesmas idéias
de autonomia política amanhecem nos espíritos dos estudantes
brasileiros matriculados nas Universidades européias. “ Em
Coimbra doze estudantes brasileiros, combinando entre si a
possibilidade de se declarar o Brasil independente, se compro­
meteram a levar avante a idéia quando isto fôsse possível. Em
França, onde tanto entusiasmo havia pela revolução norte-
americana, deviam os brasileiros encontrar nesse mesmo entu­
siasmo incentivos e estímulos para imitarem o primeiro povo
da América colonizada e cristã que se emancipou, ‘proclaman­
do sua nacionalidade** ( 1). E se as colônias da Nova Ingla­
terra proclamaram a sua nacionalidade, isto é, fizeram-se in­
dependentes, com o nome de Estados Unidos da América do
Norte, também o Estado do Brasil caminhava para a sua in­
dependência pela mão da Maçonaria.
“ Ventilou-se, pois, a questão em Montpellier em 1786, en­
tre alguns jovens brasileiros (talvez algum ido ali de Coim-
hra) que estudavam medicina, contando-se nesse número Do­
mingos Vidal Barbosa, natural de Minas, isto é, da freguesia
da Conceição, hoje Queluz; José Mariano Leal, do Rio de Ja­
neiro, e José Joaquim da Maia, também do Rio de Janeiro, fi­
lho de um pedreiro da rua da Ajuda” (2). Vamhagen lera o
depoimento de Domingos Vidal Barbosa, nos “ Autos da De­
vassa da Inconfidência Mineira”, e aceitara a palavra pedrei­
ro “ tout court”, sem ligá-la ao adjetivo livre, O depoente, já o

(1, 2) Francisco Adolfo de Vamhagen. “ História Geral do Brasil” .


T-IV. 396, 397.
106 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

vimos em capítulo anterior, pronunciara o substantivo e fi­


cara em “ suspense” quanto ao adjetivo. Se o dissesse, revela­
ria 0 segrêdo, isto é, o segrêdo, o mistério que rodeava cons­
piração malograda. E teria de contar tudo a respeito da socie­
dade secreta.
Vidal Barbosa traíra o seu pensamento, mas não traíra cs
companheiros. Ninguém notou a presença insólita dessa pala­
vra sem sentido, porque filho de pobre pedreiro não teria
cursos financeiros para ir estudar Medicina na Universidade
de Montpellier, na França. Além disso, Barbosa teria de reve­
lar o nome do estudante da Universidade de Coimbra, coin
credenciais para se apresentar em Montpellier e convencer José
Joaquim da Maia da incumbência de falar com Jefferson para
pedir-lhe o auxílio dos Estados Unidos. E Barbosa silenciou a
tempo.
Assim, ^no segundo interrogatório, a testemunha ‘‘respon­
deu que não sabe outra nenhuma notícia senão aquela
declarou em seu juramento na história do filho do pedreiro
Maia chamado José Joaquim da Maia, que foi tomada por
trcivdgancia da sucl ^Tnaginação, como disse no seu juramen^*^
(depoimento) e só poderá melhor confirmar se aparecer ^
estudante chamado José Mariano (Leal), filho desta cidade do
Rio^ de Janeiro, cujos pais ignora êle respondente, mas tff
noticia que êle pretendia vir na (com a) família do ilustrís-^'
Conde de Resende (Vice-Rei), pois o
Jose Manano assistiu em França com êle respondente, e cofl'
^ndo-se a empresa do dito Maia, disse o dito José Mariano
Ora p Maia e original nas suas empresas ~ porque ambos cO'
S é ^ ( 3T e se riam das sua^
Maia estava morto. Não mais falaria. Assim era tido P^^
ongtnal e extravagante, Se o infeliz negociador não mais
ria a boca tambem a testemunha fazia a mesma coisa.
sendo mstado para que dissesse a verdade ^ ^ ^ n s t a v a
ele tinha dito, que haviam dois enviados mandados à Frai^?^
pelos Co;nmano. da Praça desta cidade do K o de JanLo

, o que sabe a este respeito, declarando quem eram os


' ■ sários que concorriam para o negócio e, enfim, tudo
; disser respeito ao descobrimento da verdade pretendida -^
. i sôbre êste importante artigo” (4). E Vidal Barbosa encer
" ! ----------------- ^ á»
(3, 4) Domingos Vidal Barbosa. Depoimento. "A utos da Devas®
• Inconfidência Mineira” . Vol. 4.468-469.
r
í
J

I
I A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 107
I
r seu depoimento, pois diz não saber mais nada sôbre o assunto.
[ Ora, por volta de 1786 dá-se, em Paris, acontecimento im-
í * portante ligado às idéias políticas do tempo. O embaixador es-
‘ panhol na Cidade-Luz, conde de Aranda, iluminista maçônico,
“ meditava não só um plano de independência do Brasil todo,
instituindo nêle uma monarquia, inclusivemente até às beiras
do Pacífico, unindo-lhe o Peru e o Chile, uma vez que a famí­
lia Bragança abdicasse os seus direitos às províncias continen­
tais européias de Portugal, e que estas se agregassem à Espa­
nha. O conde de Aranda chegou a formular êsse; pensamen­
to, em uma carta escrita ao ministro Florida-Blanco, em 1786,
acrescentando a idéia de formar de Buenos Aires e terras de
Magalhães outra Monarquia em favor de um infante espa­
nhol” (5). Não deixa de ser estranha a proposta de Aranda.
Por que a idéia partiria dêle, e não da parte interessada, neste
caso, a portuguêsa? Aranda e Pombal estavam filiados ao ilu­
minismo católico. E mais adiante veremos o papel do ministro
de D. José I neste caso.
Antes, acompanhemos o pensamento de Aranda a Florida-
Blanca: “ Não falo, continua o embaixador espanhol em Paris,
de reter Buenos Aires para a Espanha, porque ficando corta­
do por ambos os mares pelo Brasil e Peru, mais nos serviria
de cuidado que de proveito, e o vizinho, pela, mesma razão,
tentaria alargar-se. Não prefiro tampouco agregar ao Brasil
tôda a extensão até o cabo de Hornos, e reter o Peru, ou des­
tinar êste ao infante; porque a posição de um príncipe da
mesma casa de Espanha, colhendo em meio ao dono do Brasil
e Peru, serviria para conter a êste pelos dois lados. . . Se tenho
tanto na cabeça que a América Meridional se nos irá das mãos,
e que se tem de suceder, melhor seria uma troca do que nada,
não me faço projetista; .. .porque a natureza das cousas o tra­
rá, e a diferença não consistirá senão em anos antes ou de­
pois. ”
Aranda falava numa permuta das “ províncias portuguêsas”
da Europa, isto é, de Portugal europeu pela América Espanho­
la, com exceção da Argentina até o estreito de Magalhães.
Esta parte do Atlântico, do estuário do Prata às terras suli­
nas, seria reservada para um infante de Espanha. E o Brasil
se estenderia da fronteira do México com os Estados Unidos
até o extremo sul do Chile, enquanto a EJspanha incorporava
ao seu território o reino de Portugal.
Mas o embaixador-profeta continua: “ Se eu fôra portu­
guês, aceitaria a troca, porque lá (na América Portuguêsa e
na América Espanhola unificadas) grão-senhor e sem riscos
108 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

do de cá, também mais dia menos dia seria maior que no can-
to da Lusitânia; e sendo como sou, bom vassalo da Coroa (de
Espanha), prefiro e prefirirei sempre a reunião a ela de Por-'
tugal, embora pareça que se lhes dava em troca um mun­
do” (6).
A proposta partiria diretamente de Aranda, ou serie êle
apenas intermediário? O Marquês de Pombal estava alheio a
isso? Veremos logo adiante.

OIMPÉRIO DO BRASIL
NO PLANO POMBALINO
Feita em 1786, quatro anos após a morte de PombaJ, a
proposta de Aranda a Florida-Blanca não lhe pertence. Êle se­
ria, se o seu autor fôsse vivo, apenas intermediário, ou conhe­
cedor do assunto. Ora, nove anos antes, em 1777, Sebastião
José de Carvalho deixara o cargo de ministro. D.® Maria I ®
degradara para a cidade de Pombal, onde falece em 1782.0
projeto pombalino era integral: todo o Portugal europeu por
tôda a América Espanhola, do México ao Estreito de Maga­
lhães. E as duas Américas, Espanhola e Portuguêsa, formariam
o Império do Brasil.
Na sua proposta a Florida-Blanca, o conde de Aranda
tabelece: “ Quedaria á la Espaüa desde el Quito comprendido»
hasta sus posesiones dei Norte y Ias islas que posee al Gíolío
de Mexico, cuya parte llenaría bastante los objetos de la Co­
rona, y podria ésta dar por bien empleada la desmembracióo
de la parte meridional por haber incorporado con otra
el Remo de Portugal. Pero, y el senor de los hidalgos quen»
buenamente prestarse? Pero cabría, aun queriendo que se h»'
ciera dei golpe y zumbido? Pero, y otras potências de Europ^
dejanan de mfluu- o obrar en contrario? Pero v cien peros; ?
yo dire que sonaba el ciego que veia y sonaba lo que

Aranda leva ao conhecimento de Plorida-Blanca a prop«"


te de Pombal, ja superada. Não a fêz quando fôra n e c e s s á r i o -
E nessa altura perdera a oportunidade.
Quarenta ^ o s mais tarde, em 1828, de passagem por
lem do Para, Hercules Florence registra: “ Contaram-me i f
O ilustre marquês de Pombal concebera sôbre os destin os

(C, 6) F.A. Varnhagen. Ob. cit. T-IV. 399-400.


(1) Antonio Ferrer del Rio. "Histórik del reinado de
los III . 3.407-409. nota de Rodolfo García em “ Histório
do Brasil” . Vamhagen. T-IV. 420.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 109

Brasil, e particularmente da província do Pará, o plano mais


extraordinário que jamais preocupara o pensamento de um
homem de Estado, piano que, realizado, não encontraria igual
na história senão a célebre retirada dos hebreus do Egito, Como
se sabe, a Côrte de Espanha nunca pudera ver com bons olhos
aquela Nação Portuguêsa, pequena em dimensão, mas de âni­
mo sempre firme, em não se sujeitar como tinham feito as suas
treze irmãs ibéricas. Quando o gabinete do Escurial não amea­
çava diretamente a independência lusitana, suscitava aos es­
tadistas de Lisboa mil inquietações, ora com questiúnculas na
Europa, ora com dúvidas na América. Talvez também previsse
o ministro que o Brasil^ mais anos menos a*nos, se tornaria in­
dependente. Por tudo isto imaginara o plano de entregar à Es­
panha o território de Portugal, recebendo tôda a porção espa­
nhola da América Meridional, transportando a Nação Portu­
guêsa em massa para o Brasil. Formar-se-ia no continente eu­
ropeu um Império, constituindo-se outro de extraordinária gran­
deza no Novo Mundo, colocado tudo debaixo de cetro da casa
de Bragança. Entravam no plano a nobrezs^ e o alto clero.
Durante três anos consecutivos deveria o púlpito apregoar em
todo o Reino, que era vontade de Deus a emigração em massa
para o Brasil, a fim de sem mais tardança espalhar a jé ca­
tólica nessa vasta região, ainda quase tôda entregue a gen­
tios idólotras, obstinados em suas falsas crenças e correndo o
risco de serem conquistados por nações protestantes. Tal era
o manifesto desígnio da Providência, que escolhera o povo por­
tuguês para realizar tão elevados intentos. Ai dos que não se
subordinassem de pronto aos decretos divinos! Para êsses tor­
nar-se-ia a terra estéril e sêca; fechar-se-iam os, mananciais do
céu e, renovando-se pragas do Egito, ver-se-iam entregues sem
resistência à fome e à miséria!
“ Na esperança de fundar o mais vasto Império do mundo,
continua Hércules Florence, e querendo levantar-lhe a capital
à margem do maior rio da Terra, tinha escolhido a cidade do
Grão-Pará em razão de sua colocação sôbre o Amazonas, cujo
curso de milhares de léguas é caminho franco e aberto para
os Andes, tomando-se os seus grandes tributários outros tan­
tos braços de comunicação com a América Meridional.”
Não se contenta Hércules Florence com veicular as infor­
mações colhidas. Assevera: “ Li uma memória escrita, na qual
vinha a exposição dêsse plano gigantesco. Quimérico ou não,
diz o autor, a êle deve a província do Pará os progressos que
fêz no govêrno do marquês de Pombal, vendo a sua capital
enriquecida de grandes edifícios, tais como o palácio do govêr-
no T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

a fnrt ia ri t f ’ ® se construiu
a fortaleza de Macapa, mudando-se, talvez para tornar mais
portuguesa a região tôda, os nomes das cidades e p o v o a S
m igenas que eram para outros de caráter perfeitamente lusi­
tano, tais como Santarém, Óbidos, Alter do Chão, Alnl^
rim, etc.”
Hércules Florence comenta: “ Pode tudo quanto acabo de
expor ser fantasia feita sem base nem razão, mas o que é
certo e que, ao passo que se trabalhava nas obras do Pará.
oiHflrt! ^PO ’^tfntes surgiam em Mato Grosso, Na
os hahitflnt«^ ^ Bela, destinada a ser a capital da província,
Hn s maravilhados viam simultâneamente erguer-se
a 50 léeua<=^^!f“ ° ’ ^ ’ " ‘ ^«'íência, a fundição, a cadeia, etc.. e
recia a fortlle^« do Guaporé, como por encanto apa-
Tal a u l r i f ^ que o ministro (Pom-
extrema fronteir^ Em^°Vna” R"/® ° português naquela
foram levadnc è T trabalhos começados nao

mas o forte (Príncipe d í s S ^ ^ ® ® pantanais;


siona vivamente o viaianL terminado, impres-
termos uma fortalera deparar nesses solitários
regras exigidas pela arte “
Por êste depoimento se verifiVa J '
de Pombal a idéia de dp ” “ ca, de maneira evidente, ser
Península Ibérica nei» ° ‘ erritório de Portugal, na
treito de Magalhães. Tôda^*^*^^ Espanhola, do México ao Es-
seria transportada pára a portuguêsa européia
da ao povo português do EsTaT*"!! a fim de ser uni-
na o maior império do mundn Brasil. E o Brasil forma-
ocupar tôda a península aaàm®^™ ^ Espanha voltaria
A idéia, amadurecida ® P*"neus.
mení'*” de Sousa foi'^^^^^° Pombal, não era nova.
mento a D João III em n P^®eiro a exnor êsse pensa-

cente o cnador do regime B «sil, em São Vi-


í ■■ T o rt± t°^ " se^ R err
Portuguee para. a América Lu a sede do govêrno
nni-^^ Vieira faz idéntir- ™ais tarde. o
por volta de 1644. P o m b a / ™ ^ “^ ^ " '’ ^?^» a D. João IV.
(ir ^ T T ~ »^aliza-la definitivamente. Em
1826"; .“ Viagem P|„via, . .
‘i H i<
(. ■ leoes Melhoramentos. 217° ""
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA I ll

iROfi o Dríncipe-reeente D. João, futuro D. João VI, executa o


d ? U r lln . Af.n=o d . Sou~, f .“ S S
anos mais tarde. D. João muda a sede S
quia Portuguêsa para o Brasil-Província, de Lisboa par o
de Janeiro, elevada a Capital do Imperio Lusitano.
João III a D. João VI todos os reis trabalhavam para cnar o
grande Império Brasileiro.

A Maçonaria ‘‘Azul” e a
Maçonaria ‘^Vermelha”
A crise moral e social nos dias de hoje desabrocha em aspe-
ctos semelhantes à crise política desencadeada na Europa em
fins do século XVIII. Naquela altura. Paris é o centro intelec­
tual donde irradiam tôdas as mensagens secretas para o Oci­
dente. O meridiano da Cidade-Luz passa por Boston, nos Es­
tados Unidos, e por Ouro Prêto, no Estado do Brasil, provín­
cia do Império Lusitano. José Joaquim da Maia, “ filho de
um Mestre Pedreiro” (maçom), natural do Rio de Janeiro, é
o primeiro português do Brasil a servir de elemento de con­
tato entre a Maçonaria brasileira e Tomás Jefferson, embaixa­
dor dos Estados Unidos na França, onde preparava, nas lojas
maçônicas, a grande Revolução de 1789. O Grande-Oriente abre
luta contra a Civilização do Ocidente. Serve-lhe de palavra de
ordem a guerra contra o “ absolutismo”. E a Revolução estala
sob o signo mágico do triângulo formado pelas três palavras:
Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

A INFLUÊNCIA DA POLÍTICA INGLÊSA


Nessas condições, podem ser postos os dados do problema
da seguinte forma: no derradeiro quartel do século XVIII, a
França tem influência predominante na Europa e comunga
no culto da Monarquia. Mas, em 1799 a França decapita o
seu rei e a Grã-Bretanha conquista situação dominador^ na
Europa. Transformação completa de idéias transtorna a Fran­
ca. Nada muda na Inglaterra. Donde parte essa revolução in­
telectual, para atingir conseqüências tão diferentes nos dois
países?
Estudos profundos e recentes revelam a atividade bem
proeminente da Franco-Maçonaria nessa evolução de idéias
^ s im escritores maçons regulares, integrantes do Grande
Oriente, estão de acôrdo em dar à Maçonaria o papel de mais
112 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

ativa operária da Revolução de 1789. y i c o u -m e a impressão


muita viva que, na luta intelectual do século XVIII, a Franco-
Maçonaria foi 0 principal fator e um dos mais complexos”, es­
creve Bernard Fay em sua obra “ La Franc Maçonnerie et la
Révolution intellectuelle du XVIII.e siècle” (p. 7-1935).
Ora, as origens da Revolução intelectual na França datam,
com certeza, dos vinte últimos anos do século XVII. Coinci­
dem com a decadência do reinado de Luís XTV e o triunfo
dos Orangistas na Inglaterra. Guilherme de Orange trabalha
pela diminuição do Catolicismo na Grã-Bretanha e, ao mesmo
tempo, na França. Leva para o trono da Inglaterra, o espíri­
to da Holanda, “ centro do anticristianismo” . Procura defender
sua coroa contra a velha estirpe real dos Stuarts unida ao ca­
tolicismo dos irlandeses e dos escocêses, amigos da França. E,
como homem de gênio, estabelece ou consolida as quatro co-
lunas, imutáveis desde então, da grandeza da Grã-Bretanha:
o Foreign Office, o Almirantado, o Banco da Inglaterra e o In­
telligence Service, tudo isso palpitante do novo espírito do
conquistador holandês e hanoveriano, anticatólico e mercan­
tilista.
Tão caro aos mercadores de Amsterdão, o dinheiro repre­
senta imenso papèl na vida pública inglêsa e internacional.
Bernard Fay, em sua obra citada acima, refere que o primeiro-
secretos, de 1707 a 1717,
f me?o T ! * atingem a um milhão
to^ Instaura-se o reino da corrupção; parlamen-

a ^ ^ M m e tí^ n a I métodos
ma comprar consciências recnif^T- • Teve por nor-
agir sôbre a opinião púbiica francPcT espiões,
e manter uma pequena maioria dividir os espírito?
via feito na Inglaterra Hiimr»+ ’ como a França ha-
bos .«S . aoldTd?*G*Br"S„h."?‘2
-^reianha. E e o
°
primeiro da séne.
A MAÇOJVARIA A SERVIÇO
DA MONARQUIA INGLÊSA

dos aristocratas hostis à M o^ rou íJ u » uma reação


E essa atitude S t , Bourbons e ao Catoli-
5f êles, em face da descontentamento rei-
’ ®om Henrique r v RiVkÍÍ-^ como foram tratados pel®
>1 e iv , Kicheheu e Luís XTV.

S
N
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 118 |

I Nesse caso, o assalto feito à autoridade real e à Igreja Ca­


tólica por essa alta nobreza ferida nos seus privilégios, que
I inspirações intelectuais e sociais a motivam? O autor da |
! “ Franc-Maçonnerie et la Révolution intellectuelle” , maçom !
; também, remonta-as a um nobre escocês, morador na França, t
Antônio Hamilton, “ Mestre em disfarces” , e ao conde de Bou- ■
lainvilliers, cujas obras essencialmente hostis aos Bourbons e
à Igreja católica “ são lançadas após a sua morte pelos livreiros
franceses da Holanda, que subvencionam a alta nobreza hano-
veriana e a Côrte da Inglaterra: é o primeiro episódio da ^ a n ­
de campanha contra o Catolicismo e a Monarquia pelo direito
divino, que se desenrola no século XVIII, e onde a Franco-Ma-
çonaria inglêsa representa o principal papel”.
Dentro dêsse mesmo espírito foi renovada a Franco-Maço­
naria inglêsa, cujo chefe espiritual e guia é um huguenote (pro­
testante, especialmente calvinista) francês expulso, Teófilo De-
saguliers, cuja obra maçônica foi continuada em concordância
com o govêrno da Inglaterra. De 1720 a 1800, todos os grã-
mestres são príncipes de sangue real ou grandes senhores.
Assim, a Maçonaria inglêsa é a Maçonaria Azul. Ela tem por
objeto, especificamente, ligar à nova dinastia, orangista e pro­
testante, os grão-senhores da Escócia, outrora favoráveis aos
Stuarts. Assim, ela se apresenta como liberal, nacionalista, ha-
noveriana. A doutrina de Desaguliers corresponde exatamente
a êsses objetivos. Inclina-se a fazer da Maçonaria uma insti­
tuição deista que procura conseguir, sem choque, a sucessão
do Cristianismo, de bom acôrdo com o Protestantismo, mas
opondo-se ao Catolicismo. Com êsse fim, Desaguliers quer
apoiar-se na dinastia nova, hanoveriana; e, ao mesmo tempo,
na alta nobreza, unidas, na doutrina de uma Monarquia con­
sentida, contra os Bourbons e sua Monarquia pelo direito di­
vino. E assim a Maçonaria Azul, genuínamente inglêsa, vai agir
no continente europeu.

A MAÇONARIA INGLÊSA NA FRANÇA,


NOS ESTADOS UNIDOS E NO BRASIL

Em capítulo anterior vimos como a Maçonaria preparou a


revolução no mundo, arquitetada pelos seus elementos da In­
glaterra. Assim, a Maçonaria Azul, isto é, a Maçonaria inglê­
sa, estabelece na França o campo de suas atividades secretas.
Transplanta para o continente europeu suas doutrinas e seus
métodos. Serve-se muito naturalmente dos ressentimentos con­
tra os Bourbons da aristocracia francesa. Esta aproveita a
114 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

“ moda inglêsa” estabelecida pelo novo regime inglês e pela


nobreza inglêsa, habilmente lançada na França. Ao mesmo tem­
po, atrai os intelectuais franceses e os grandes senhores. Mos­
tra aos primeiros a fachada liberal e parlamentar da Grã-Bre
tanha; aos segundos, ela expÕe o grande papel que a aristo­
cracia representa na Inglaterra. Nobres e intelectuais france­
ses assistem o bom desempenho das duas fôrças no cenário da
política da Grã-Bretanha. Mas os espectadores ignoram o que
se passa nos bastidores. Não sabem que se trama, ao abrigo
das indiscrições, a verdadeira política, os verdadeiros planos
de ação do que se chama o “ Govêrno oculto” da Grã-Breta-
nha. E isso nada mais é do que a permanência de algumas
grandes tradições forjadas por Guilherme de Orange e manti-
das pelos encarregados que presidem as quatro grandes insti­
tuições fundamentais da nação inglêsa: o Foreign Office, o Al-
mirantado, o Banco da Inglaterra e o Intelligence Service.
Sao essas ideias que se refletem na França em tômo da­
queles que gravitam em tôrno da Maçonaria. Assim, as lojas
francesas fundadas por inglêses sâo dirigidas pelo duque d’An-
perm ont, dois teleguiados. Tôda a alta
n f® filósofos e os intelectuais. Quan-
mento? mal! ^“ "<^«^0, em 1772, os ele-
carte delas r á oct-” ativos da aristocracia fazem
La Rochefoucauld T° nomes do príncipe de Bohan,
Bouillon, Ségur Polignac, Montmorancy,
tesquieu, Pétion’ Brissot Rousseau, Mon-
funciona a Loja das Nove Irmâs Saint-Etienne. E assim

tres,^LÍiírxvrnãrsimDatP*^^” ‘^® Oriente o duque de Char-


dições, ela coloca nn nAef ^ Maçonaria. Nessas con­
te do galho mais novn ^ Grã-Mestre aquêle representan-
tres representa a ambírSn^/^^^ França. O duque de Char-
Maçonaria inglêsa p fox ^ casa, encarna a doutrina da
bui com o seu nrpcfifr- realeza dos Bourbons. E contri'
a enfraquecer a Monarm,í^^í^ auxiliar as influências inglêsas
quia francesa e dividir os franceses.

NOS ESTADOS UNIDOS

xíolítícaZar- «certos fatos até hoje obscuros sôbre »


« ‘ «»menção na França. Sabe-se como apo*
ric“ n a? os ofíH„ Unidos, as velhas famílias
c rcolon°al ® Washington, representantes da arist^r«'
coionial fundavam a ordem hereditária dos Cincinatos. Be»'
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 115

jamin Franklin, de tendência oposta, quer impedir a formação


de uma nobreza nos Estados Unidos. Como tinha dinheiro à
sua disposição, e para isso êle chega sempre a tempo e a hora.
Franklin compra a consciência de um homem que acabava de
sair da cadeia. Êsse homem é o futuro grande Mirabeau. Urgia
publicar um livro de combate à nobreza, com a assinatura do
nome de um nobre. Levar a obra à mão dos nobres e torná-la
conhecida no Universo. Daí êste fato curioso: Franklin, profun­
do conhecedor da história secreta do seu tempo, grande pa­
triarca franco-maçom, tinha obtido a aliança francesa por meio
da Maçonaria. Para conseguir o fim almejado, compra Mira­
beau e manda-o logo para a Inglaterra. Da Grã-Bretanha, êle
regressa, várias vêzes, a Paris. Em julho de 1784, Franklin
anota em seu “ Diário” : “ Os senhores Chamfort e Mirabeau
vieram e leram sua tradução do panfleto de Burke contra os
Cincinatos que êles muito aumentaram “ a fim de fazer dêle
uma sátira indireta contra a nobreza em geral” . Está muito bem
feito” . (Bernard Fay: “ La Franc-Maçonnerie et la Révolution
intellectuelle du XVIII.e siècle”, p. 239.)
Benjamin Franklin deixa seu agente Mirabeau na Inglater­
ra até o libelo estar completo. Em 1784, 1785 e 1786 lança-o, res­
pectivamente, em Paris, Londres e Filadélfia, com a assinatura
do conde de Mirabeau, em razão “ do brilho de seu nome, de
seu estilo, de sua reputação e de sua polêmica” . (Idem, p. 239.)
O escândalo foi imenso. O sucesso foi colossal na França e nos
Estados Unidos. Era o primeiro ataque frontal à nobreza. Sa­
bemos agora como tudo foi tramado e controlado por Benja­
min Franklin, como tudo foi preparado em Londres, como os
intelectuais e os nobres da Maçonaria francesa ajudaram essa
campanha e como a Inglaterra não sente nenhum contra-golpe.
No capítulo “ O suicídio maçônico da alta nobreza” , Ber­
nard Fay apresenta como protótipo dêsse movimento o mar­
quês de La Fayette. Mas não se trata senão da nobreza fran­
cesa. E o golpe foi preparado conforme o acôrdo entre Ben­
jamin Franklin e seus amigos inglêses em condições ainda
ignoradas.

NO BRASIL
Depois, Benjamin Franklin é substituído no cargo de em­
baixador dos Estados Unidos em Paris por Tomás Jefferson.
Em 1787 verifica-se o encontro de José Joaquim da Maia, es­
tudante brasileiro na Universidade de Montpellier, com Jef­
ferson. Maia desaparece misteriosamente em seguida. Francis-
116 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

co Antonio de Oliveira Lopes, no “ Auto de perguntas feitas


acêrca de uma carta escrita ao ministro dos Estados Unidos
da América Setentrional por um estudante do Brasil que se
acha em Montpellier”, não cita o nome do estudante, mas re­
fere como José Resende, naquela cidade francesa, conhecera
“ dois sujeitos, que se diziam ENVIADOS, um dêles filho do
Rio de Janeiro ao pé da Lapa, e que êstes foram mandados
por certos Comissários daquela cidade a tratar com o em­
baixador da América Inglêsa um levante na dita cidade do
Rio” . .. (“ Autos de devassa de Inconfidência” , vol. II, p. 84. Rio
de Janeiro, Biblioteca Nacional, 1936). No mesmo “ Auto” , Do­
mingos Vidal Barbosa declara: “ Estava êle em Montpellier, na
qual também freqüentava os mesmos estudos um estudante
José Joaquim da Maia, natural da cidade do Rio de Janeiro,
filho de um MESTRE PEDREIRO” (87). Neste ponto, Barbo­
sa enguliu a palavra “ livre” : pedreiro livre, isto é, maçom.
Havia entao estreita ligação entre o “ Clube de Coimbra” , con­
forme fd a Vamhagen, isto é, a loja maçônica da Universida-
Montcellier Ft^rnaHn niaçons da Universidade de
Maciel vai a Lonrtrp ^ " ' ^ “ mbra, em Ciências, José Álvares

naria francesa. Funda a loia ordens da Maç(>


nas Gerais. Mas o governador^^^r ^
bacena, também formado na U n ^ °
go secretário da Academia ® Coimbra, anti-
Maçonaria nas margens do Lisboa, filiara-se à
ração de Ouro P r ê t ™ a saber da conspi-
véno dos Reis. E, assim o “ irmão” Joaquim Sil-
■ ° «»«vimento maçônico não prossegue.

A M A Ç O N A R I A I N G L Ê S A D H M tkt a
A mçOMRU fraS Í sÂ

pelo conde de Mirabeau geral, assinado


ürpe dos Cincinatos, c r i a ^ f s á t i f a diUta à
n L f " 'f da americanas,
U nidosTM ^ MonarqSa Washington.
executa francesa RepubUca dos Estados
do século Y\m° Monarquia in a r Benjamin Franklin,
i‘r r
«ça e nos Estados Unidos. É o primei-
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA II 7

VAataque direto contra a nobreza. Tudo foi tramado * 1


F ^ h l l ,. O plan. M

“l.mSnîî'S
» n T “ • "* «
No capítulo de sua obra já citada, intitulado “ O suicídio
maçônico da alta nobreza” 0 historiador maçom Bernard Fa?
apresenta como prototipo desse movimento o marquês de La
Fayette. Nao se tratava senao da nobreza de França. O golpe
foi preparado habilmente entre Franklin e seus amigos i S -
ses, num acordo secreto. E as condições até hoje são ignoradas.

A SOCIEDADE DOS AMIGOS DOS NEGROS

Vejamos como agia Benjamin Franklin. Fay explica- “ To­


dos os elementos da Maçonaria mais pura e mais ativa se reu-
niam na loja das Nove Irm ãs...; para as iniciativas as mais
audaciosas e mais concretas. Não é preciso, porém, procurá-los
nas sessões da loja, porque, segundo o caráter da Maçonaria,
deviam ter um^ ar de mistério, de dignidade e de unção reli­
giosa, incompatível com a polêmica violenta. Quando a loja das
Nove Irmãs quer pôr em prática uma idéia, ela o faz seja por
associações derivadas, criadas com êsse fim, seja sustentando
a ação de um dos seus membros, graças ao espírito de ca­
maradagem maçônica. Assim foi fundada a “ Sociedade dos
Amigos dos Negros” . Os membros mais esclarecidos da loja
das Nove Irmãs não encontraram nada melhor do que criar
esta sociedade sob a sua égide e entre sua clientela... Brissot,
0 filósofo, que era, por sua vez, membro da loja das Nove Ir­
mãs, discípulo e imitador de Benjamin Franklin, e especula­
dor a soldo de banqueiros suíços,, foi o motor do movimento,
enquanto La Fayette era o porta-estandarte” . (Bernard
Fay: “ La Franc-maçonnerie et la Révolution intellectuelle du
XVIIIéme siècle” , p. 232).
Assim, Gaston-Martin, no seu interessante estudo sôbre a
“ Doutrina colonial da França em 1789” , informa a maneira pre­
cisa como agia a “ Sociedade dos Amigos dos Negros” . Êle mos­
tra como a Inglaterra forma em Paris esta sociedade, com o
objetivo de “ evangelizar” a França, explicando: “ Com a lar­
gueza própria da Inglaterra, ela coloca os seus capitais na Fran­
ça à disposição dos propagandistas; as obras de Charkson, em
particular, foram traduzidas com tanto liberalismo, que se pode
afirmar que literalmente o país foi inundado por elas.^Não co­
nheço uma biblioteca de Câmara de Comércio que não tenha
118 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

ainda nos seus arquivos 5 ou 6 exemplares do livro sôbre as


“ Désavantages poUtiques de traite des Nègres”. E foi nessas
condições que se fundou na França a Sociedade dos Amigos
dos Negros. (Cf. Centré de Estudos da Revolução: “ Ca­
hiers de la Révolution française” , n.o III, p. 39.)
Por que essa enorme despesa da Inglaterra e essa campa­
nha da sociedade francesa? Para acabar com o tráfico dos ne-
gros, para arruinar as Antilhas francesas. A campanha desen-
volve-se as mil maravilhas. Gaston-Martin explica-nos como
ela se transforma depressa em movimento em prol da liberta­
ção intégral dos negros:
“ É a origem do estado de espírito que remata com a eman­
cipação completa dos escravos, proclamada durante a Conven­
ção. Preciso era, de resto, ajuntar quase logo uma providência
muito rápida, tomada apesar dos avisos dos que, conhecendo
bem a colônia e o estado de mínimo desenvolvimento intelectual
dos escravos, afirmavam que uma solução tão radical e tão
pouco preparada era uma heresia, não sòmente econômica,
mas ainda social.”
A **EVANGELIZAÇÃO** INGLÊSA
Destruídas as Antilhas francesas, graças à “ evangelização"
inglesa, uma onda de sangue inundou São Domingos. A Grã-
Bretanha vinga-se do tratado de 1783. Suas colônias prospera­
riam à custa da ruína das colônias da França. Assim, a His­
tória consegue, neste caso especial, surpreender o fio condutor
dos acontecimentos tramados pela Inglaterra, na sua campa­
nha œntra a França, para arruinar a Monarquia e econo­
mia franc^as. E isso graças ao concurso da Maçonaria Azul,
França ^ mglêsa e da sua filial a Maçonaria da

Nessas condições, Felipe de Sagnac, sob cuia autoridade e


competencia fazem-se estudos da Revolução na Universidade
de Paris, escreve:
Aqui ainda se encontra a Inglaterra e sua propaganda em
favor da abolição do tráfico — propaganda de origem religio;
sa, mas com o fim político destinado menos àquela e mais à
exportação, a fim/ de arruinar os restos do Império colonial
francês. Com êsses objetivos ocultos da Inglaterra, Gaston-
Martm traz-nos sugestões inteiramente interessantes. É a vin-
dizer, de Yorktwon. Os idealistas franceses d®
9 nao viam o perigo. . . São Domingos resvala para a
voluçao, com a pilhagem e a carnificina. Logo a ilha estara
perdida para a França. O jôgo inglês está vitorioso. A
r A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 119

glaterra continua o tráfico, tão frutuoso, que “ seus evangelis­


tas”, embora o ataquem com violência, ela tem o cuidado de não
deixar abolir a escravatura senão entre seus rivais” . (Cf. Fe­
lipe de Sagnac e Gaston-Martin, 3.é Cahier de la “ Révolution
française” ) .
A Inglaterra consegue anular a França no mercado ne­
greiro. Dentro de pouco tempo vai colocar Portugal fora dos
seus concorrentes. E assim, a Grã-Bretanha arroga-se o título
de defensora da liberdade dos africanos, para se tornar a úni­
ca vendedora de escravos negros.
Nessa altura, a Maçonaria francesa serve, contra os inte­
resses inglêses, os interêsses norte-americanos. Bernard Fay,
nas suas obras “ La Franc-Maçonnerie et la Révolution inte-
lectuelle du XVIIIéme. siècle” e nas anteriores, “ Washington” ,
“ Franklin” e “ L’Esprit révolutionnaire em France et aux í'
Etats-Unis” , esclarece a fôrça da Maçonaria nos Estados Uni- iI
dos, onde eram grandes chefes Washington e Franklin. Delà i| I
decorre a ação decisiva exercida na França por Franklin sôbre
a Maçonaria francesa. Foi venerável duas vêzes, em 1779 e íl'
if
1781, da famosa loja das Nove Irmãs, “ instalado no centro da
Maçonaria intelectual e elegante da França” . (Cf. B. Fay: “ La I í“
Franc-Maçonnerie” , etc., p. 221). E êle manobra os maçons fran­
ceses com facilidade, porque era preciso destruir a economia
da França em benefício das finanças inglêsa e norte-americana.
Como se opera essa mudança na frente maçônica e espiri- [
tual da França? jj
A MAÇONARIA E OS NEGÓCIOS
INGLÊSES E AMERICANOS
Em páginas anteriores temos estudado êsse movimen­
to social do fim do século XVIII. Com Benjamin Franklin ve­
nerável duas vêzes, em 1779 e 1781, da famigerada loja das
Nove Irmãs, em Paris, verifica-se a mudança na frente da
França. Para compreendê-la é preciso voltar ao estado de es­
pírito de 1763. “ O tratado de Paris consagra a ruína do vasto
império (colonial francês) e a humilhação da França” , es­
creve Philippe Sagnac, em “ Cahiers de la Révolution françai­
se” (n.o 111, p. 2). O sentimento público foi o que prevale­
ceu depois de 1870: “ grito retumbante de angústia e de dor.
Ê a própria voz da França de então. Filósofo e ministro sen­
tem isso unânimemente. Dêsse acôrdo íntimo entre os chefes
da opinião pública e o govêrno real, a Inglaterra vai aperce­
ber-se muito cedo para ela!” A França tem consciência de sua j
decadência. Da mesma forma que depois de 1870 ela ve cres-
120 ^ T. L. FE R R E IR A — M. R. F E R R E IR A

cer a hegemonia prussiana e alemã, depois de 1763 ela pres­


sente nascer a hegemonia holando-inglêsa com a prodigiosa
perspectiva da dominação exclusiva do m undo”. (Cf. Ph.
Sagnac, idem.) E os holando-inglêses preparam-se para garan­
tir sua emprêsa comercial sôbre o mundo inteiro, fora da Eu-

dos grandes intpr''Í ^ entre o govêm o real, consciente


cesa manohraHn ^ nacionais franceses, e a Maçonaria fran-
nais dos Estados » consciente dos interêsses nacio-

na história da Fraiwa onH» ♦ /i dessas muito freqüentes


rificada em s e S " ' f o f o f a r f d° ^
tentado por Luís X V re fo , t Choiseul, sus-
sustentado por Luis X V I . ^^ruiha francesa; Vergennes,
vingança, não deixa escán^^^ nas mãos o instrumento da
do-a. Isso prepara a Î magnifica ocasião, aproveitan-
Franklin. A Maçonaria f r a ^ rancesa conform e os desejos de
nobreza e os filósofos da ln i= ^ ’ ' Í í ” chefes, a jovem
to da revolução virtuosa e ï ’^n'âs, lançam o “ mi-
a tirama inglêsa. “ Washinctt^ axvadora dos americanos contra
voltava contra sua vontade o . herói maçônico, que se re-
dessa rebelião.» Vergennef^ P'-ovar a santidade
propaganda “ mais cuidado realizaram o trabalho de
fomaí* ® ^'sposição de rv a n tr conhece”. Ver-
idin í>n Affaires de rA nriat ^ imprensa e funda um
fllóVfo^ f " “ «panha de l ’Amérique”. Fran-
muía mágica “ ‘ D^ ° V oha£^’ libelistas e
S a. Deus e liberdade ’» ’ pronuncia a for-
A preparação fn*
inteligência
Ihãda no t - P>^óprios
no, mas sranrf°’ ^*^^^ante e ODulpnt^^' ^®°*^*ra-se a pessoa ta -
mo assim os a®®” ?® ambicioso o cérebro peque-
quando foi não o Fayette. Mes-
na” . Graças Püadélfia^ Receberam-no
a vitória foi Vergennes ’ ,? “ União Ameríca-
sua desforraFranca Vi-^ Grasse e Rochambeau,
do mundo e a “ -^Slaterra. T i^ a sòmente t o m a d o
® ® sua própria ao awar^^ -® f® ^™ do a liberdade
arrancar à Inglaterra a possibiU-
A MAÇONARIA N A INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA i 2i

Hade prodigiosa de firmar seu domínio no U n iv»«


Í . pela sua marinha todas as n a g o e s ^ L l Î S s 'o u
ao auxiliar a mdependência dos Estados

ÎïsS m ma " TomârÆ-


Com êsses novos documentos, projeta-se muita luz na His­
tória Universal. Novo panorama histórico se abre aos olhos
dos estudiosos. Conhece-se o mestre do jôgo: é Guilherme de
Orange e seus sucessores, cercados de seus súditos imbui
dos do espírito mercantil de Amsterdã e prontos a servirem-
se da corrupção como meio fundamental de fixar no interior
0 poderio da dmastia protestante de Orange, contra a velha
família católica dos Stuarts, e de desenvolver no exterior a
fôrça da Inglaterra. Esta se assegura com o controle do mun­
do fora da Europa pelo comércio dos negociantes e banqueiros
holando-inglêses, cujos interesses convergem para o mesmo ob­
jetivo.
A aliança de Amsterdã e de Londres está fundada na ação
econômica dos negociantes e na mística anti-católica e pro­
testante dos chefes:
“ Sob a aparência de ataque ao catolicismo, tôda uma lite­
ratura anti-cristã e anti-deista avulta em Amsterdã, Leyde,
Harlem e Haya. Embora houvesse entrado na Inglaterra, ela
não se espalha verdadeiramente senão após a instalação de
Guilherme de Orange em Londres. . . A influência da Holan­
da, de suas Universidades e de sua erudição sôbre o deismo
inglês, não cessa de se fazer sentir durante todo o curso dessa
luta intelectual. Assim se explica o caráter internacional do
deismo denominado “ inglês” , seu êxito rápido e vasto sôbre o
contingente europeu, e as dificuldades vencidas por êle para
penetrar no espírito das massas anglo-saxônicas da Inglaterra”.
(Cf. Bernard Fay. “ La Franc-Maçonnerie et la Révolution in­
tellectuelle du XVIIIéme siècle” , 1935 - p. 69).
Por isso mesmo, os senhores estrangeiros, conquistadores
da Inglaterra, aliavam-se com a aristocracia inglêsa^ assegura­
vam a grandeza do país e a sua. Mas traziam com êles, idéias,
paixões, um espírito, uma organização estrangeira, que não se
adaptava senão parcialmente à Grã-Bretanha. E êsses elemen­
tos vão assegurar a revolução no continente, para manter a or
dem, a prosperidade e a grandeza da Inglaterra. . .
Nessa altura, a Grã-Bretanha pensa em
abater o catolicismo e abater o poderio da , jg jjbe-
terra, todos os meios foram bons: cor^pçao
los espalhados, calúnias derramadas. Um dos meios p
122 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

prática foi a criação e a penetração da Maçonaria na França.


Ela vence, em grande parte, porque o serviço secreto inglês sa­
bia dos ressentimentos da alta aristocracia francesa contra os
Bourbons, que a mantinha à margem, havia mais de um século.
Sabia das ambições do ramo cadete. Serve-se dêle secretamente.
E com êsses trunfos assegura, sem que êles o saibam, o êxito da
Maçonaria na França.
Os Orleans, adversários dos Bourbons, já se haviam inicia-
'do na Maçonaria francesa. Com êles contavam os holando-
inglêses, nesse trabalho sorrateiro de minar os alicerces da Mo­
narquia na França, na Espanha e em Portugal, onde o Marquês
*de Pombal agia de acôrdo com Choiseul. Se a Inglaterra se
'dobrou à política pombalina, é porque sabia, através do ín-
telUgence Service, como Choiseul estava na sombra de Pom­
bal, trabalhando. Com D. Maria I, o ministro de D. José I
retira-se da cena. O mesmo acontece com o ministro de Luiz
XV. A Maçonaria inglêsa tem o campo livre para empolgar
i] a Maçonaria francesa e orientá-la contra os Bourbons e os Bra-
ganças. E contra os primeiros, os holando-inglêses vão con­
centrar suas baterias invisíveis.

A MAÇONARIA VERMELHA E A
MAÇONARIA AZUL EM PORTUGAL
Ao terminar o século XVIII havia dois tipos de Maçona­
ria: a Maçonaria Azul na Inglaterra e a Maçonaria Verme­
lha, na França. Esta era teleguiada por aquela. Embora fôs­
sem todos “ Irmãos” , os das lojas azuis eram “ Irmãos Azuis”;
das lojas vermelhas eram “ Irmãos Vermelhos”. Aquêles con­
servadores, defensores da Monarquia Inglêsa. Êstes revolucio­
nários, adversários das Monarquias européias, adeptos da
pública e do Liberalismo. Nessas condições, os “ Irmãos Azuis”
da Maçonaria Azul, isto é, da Maçonaria Inglêsa, dirigiam,
guiavam, orientavam os “ Irmãos Vermelhos” da Maçonaria
Vermelha, chamada a Maçonaria Francesa. E se os “ Azuis”
eram conservadores e monarquistas, os “ Vermelhos” eram re­
volucionários, liberais e republicanos.
Nessas condições, na Inglaterra, a “ Ordem dos homens de
Orange” não só foi criada no ano de 1794 “ pelo maçom Tomás
Wilson” , como também seu ritual era maçônico” . (Cf. Paulo
Siebertz. “ A Maçonaria na luta pelo poder” (D. Miguel e a
sua época — trad. port. 12. Pôrto - 1945). E o mesmo autor
continua: “ À sua constituição presidia muita coisa tirada da
liga dos maçons e assim “ espalhou-se a moda dos pedreiros li-
A m a ç o n a r i a n a i n d e p e n d ê n c i a BRASILEIRA 123

^por todo o mundo civilizado. Igualmente mantinha a mes


vres
união entre si e, tal quai como os maçons chamam aos cen-
tros de importante do que estas exterio-
ridades e o fato de,^ enquanto très filhos do rei Jorge III (da
Llaterra),
^ iiTic
uns ofras
atras rinc
dos nnfrne
outros,o atuarem
f i « __como
____ ___
grãos-mestres
à frente das “ Lojas Azuis” — o príncipe de Gales, os duques
de Kent e de Sussex — dois outros entre os seus filhos do
jnesmo Rei dirigiam^ as Lojas de Orange como grãos-mestres
e pertenciam simultâneamente a Lojas da “ Maçonaria Azul”.
(Cf. ob. cit. p. 12). ,
Assim, as Lojas de Orange, fiéis ao espírifo de Guilherme
<3e Orange, o holandês conquistador da Inglaterra, em fins do
século XVII, permaneciam vigilantes, continuavam alertas na !•*
defesa da Monarquia Inglêsa e no ataque às Monarquias da !
França, de Portugal e da Espanha. Lutavam pela Igreja An-
glicana contra a Igreja Católica. E o seu lema era: A Ingla- íl
terra acima de tudo e de todos. j]
“ Por meio de diversos fatos, é fácil reconhecer qual a ati- i!
tude religiosa e política das lojas de Orange. Só podiam ser »
membros “ protestantes puros” . No juramento de admissão es- i I
tava incluída a formal abjuração do Papa e a obrigação de j
"proteger o rei e seus descendentes” , enquanto êstes assegu- |
rassem a supremacia à religião protestante. I? j
Durante as deslocações públicas era costume ressoar inces- S;
santemente o grito: “ para o inferno com o Papa”, entoando-se yI
de tôdas as vêzes “ cantos populares*’, altamente ofensivos e »í i
humilhantes para a “ religião católica” . (Cf. Paulo Sibertz. ob. |
cit. p. 12). E isso não era de se admirar num país anti-papista í,
por excelência. .. [}
Ora, assim como a Maçonaria inglêsa criara lojas maçôni- íí (
cas na França, para servir os seus interêsses políticos e co- !(
merciais, também as criou em Portugal e com os mesmos ele- ;'
mentos da sociedade portuguêsa. Nessas condições, “ durante
os dois últimos séculos, em tôdas as revoluções religiosas, po- '
líticas e literárias de Portugal, a maioria dos chefes mais im- l| t
portantes pertencia à Maçonaria” . (Cf. M. Borges Gramha. '
“ História da Maçonaria em Portugal” (1735-1912). p. 5, Lisboa,
1912). Remonta ao ano de 1727 a fundação da primeira “ loja
portuguêsa” como continuidade e influência das lojas france­
sas. (Cf. Bégue Clavel. “ Histoire Pitoresque de la Franc-Ma-
çonerie”. Paris, 1843 - p. 142 e Anderson. “ Constitutionem” . ed.
1738-287). Meia dúzia de anos mais tarde, em 1733, funda-se
a segunda, como prolongamento da “ Grande Loja de Londres.
f!
f
1! 1
124 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

E assim, a funcionam lado a lado a Maçonaria “ Vermelha” e a


Maçonaria “ Azul” : a francesa e a inglêsa.
A 27 de abril de 1738 o Papa Clemente XII proibe aos ca­
tólicos exercer atividades nas “ lojas maçônicas”. Da mesma
,( I forma el-Rei D. João V ameaça punir com graves penalidades
I: a miciação nas lojas. (Cf. Claude Antoine Thory. “ Histoire
U' i de La Fondation du Grand Orient de France” . 182-289). Nem
a bula do Papa nem o decreto do Rei impediram o funciona­
mento das lojas. O sistema absolutista inaugurado pelo Mar­
ques de Pombal, no govêm o del-Rei D. José I (1750-1777) ca-
I ractenza-se pela incrível violência. Dirige-se, logo de início,
: ' ^ comercial inglêsa, contra os jesuítas e contra
avoras.^^ E age sob a influência da Maçonaria vermelha.
Assim, 0 Marquês de Pombal, ministro todo poderoso de
p . Jose I, manobrava com igual maestria os negócios do Es-
ado e os das lojas” . Descendente de uma família de peque­
na nobreza, a instigações dos parentes, altamente colocados, da
1700 ^ quem casara, fôra enviado no ano de
1739 como Embaixador, a Londres, “ onde na convivência com
libertárias,, conheceu e
de 1744 fni ni ° enciclopedistas” . Na festa de São João
inslês Princine'p ‘ loja” de Londres pelo Grão mestre
S f p! 40 G r a i f h f ' T Paulo Siebertz. ob.
maçonico” . 182T> “ Lexicon International
José de cãrvalhn nteligente e hábil diplomata, Sebastião
do Estado, “ aproveitwa '1° ® ministro
gos mais influentps nc ’ o poder investindo nos car-
M Paulo
rante Siebertz.
dezessete Ob nãn 4ft-
anoscit^^^^ n® E assim, quem governou du­
de Pombal, criador do av,f ^ ° Marques
As “ lojas” monárquico.
Jcsé L Com o Marquês de PomhT^K*^®” sigilosamente até D-
des do Reino filiais da ^ abriram-se em tôdas as cida-
defesa e na luta dos s e u s % in c íp L ^ livremente na
As lojas Vermelhac” ^ • t
tK enciaram a vida eclesiácfiJl de Paris, nesses anos influ-
i ir. revelado até agora oq ^ política do país, mais do que
! ^ ! tj delas recebeu Pombal especializados no assunto;
>
minio econômico dos ^ resistência ao predo-
os jesuítas, expulsos nor ^ campanha contra
f 4n ftem bro de 17I 9»® ‘ 1°
P' _l^al em diante ató ' t> Paulo Siebertz. Ob. cit.
que em Portugal atuava na^ir» 9 ® '? l“ Ção Francesa, “ tudo o
i : '’ ava na direçao do Estado, era absolutamen-
1f
i\
ii '
Il
A M A W A M . „ A .m K P B m ,a c .A „ as „ „ ,
te influenciado pelas “ lojas” de Paris»
41) . De nada valeram as proibições Í ’ ob cit
D. João. quando Regente. “ Em 1793 f n of® I e de
em Coimbra e, em 1795, uma outra nn p a '* uma “ loia”
ral da Maçonaria” , 11-600). A “ Manuai c L
sob 0 rótulo de “ Clube” E nele se i n i c k v .T ® :! ^ há muito
metropole e das províncias ultramarinas ®®tudantes da
vários estudantes do Estado do Brasil 'i^fí . Parte dêle
Maciel, da Inconfidência Mineira e José R n « « — Alvares
e Silva. Patriarca da Independêncfa, entre oú ro‘°
Quando se realiza a mudança da sedo h« -
narquia Portuguêsa de Lisboa para o Rio de jlnefr^^em i m
den ro do tern ton o do Im peno Lusitano, a Maçonaria “ V e S
lha” (francesa) recebe de braços abertos o general JuL ™ m
Lisboa. Com a expulsão dos franceses, iá em 1812 “ nnrti= „
“ Irmão” Sampaio aconselhar inúmeras lojas portuguêsas a oL -
decerem a Grande Loja de Londres” . (Cf, Siebertz Ob. cit.
43). Verifica-se em 1817 o choque entre os “ Irmãos Azuis”
(filiados à Inglaterra) e os “ Irmãos Vermelhos” (filiados à
França). O marechal Beresford, presidente da regência, in­
glês e “ A zul” , recebe a denúncia do “ Irmão” Andrada Corvo
contra o Grão-Mestre “ Vermelho” general Gomes Freire de
Andrade. “ Resoluto, o inglês mandou enforcar o rival, amigo
dos franceses, com mais “ onze” dos seus partidários, em Lis­
boa, a 15 de outubro de 1817” . (Cf. Siebertz. ob. cit. p. 43).

A MAÇONARIA ^^VERMELHA
NO ESTADO DO BRASIL
Vimos em capítulos anteriores como a Maçonaria “ Azul”
(inglêía) fundara a Maçonaria “ Vermelha” na França. Esta era
manobrada por aquela. Falavam a mesma linguagem, mas
seus objetivos ocultos eram diferentes. Duas^ correntes po i-
tico-filosóficas se encontram em meados do seculo ^^ezoa®- "
primeira surgira, conform e já estudamos, na ^
do século delesseis. Guilherme de Orange, o
Grã-Bretanha, criara um ambiente ^ cureir na Ma-
padora, contra a dinastia de « f
çonaria inglêsa, ^ ^ ^ a Í d o - c a l v i n i s t a de fazer da
lo povo. E com ele a ideia noiau _„n d o.
Monarquia Inglêra a primeira n,, mistério nega-
Ass:m, 0 século dezoito apareœ fnvolt^^^^^
ceante. Os homens procuram o m ’ contribui a segunda
Iam em tom de falsete. Para isso. mu iluminados
corrente, referida acima. Vem da Baviera
126 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

católicos. Trazem idéias novas. O “ Aufklanung” dissemina,


entre os “ iluminados”, pensamentos novos, novas concepções
de economia política, anseios de tomar conta do poder, diri-
gindo-o. E tudo isso já desabrocha em começos do século de­
zoito.
Assim, “ entre todos os investigadores que se têm ocupado
com a história da Maçonaria e lhe estudam a documentação
cerrada, reina concórdia absoluta quanto a terem sido consti­
tuídas as primeiras “ lojas” no ano de 1717. Nesse tempo, em
Londres, havia quatro “ lojas” medievais que se limitavam ao
ensino dos ofícios correspondentes; ora os dirigentes da vida in­
telectual da Inglaterra de então modificaram os códigos e es­
tatutos por forma a transformar as antigas “ lojas” dos pedrei­
ros em centros ativos e de segurança absoluta, em que se reu­
niam os adeptos das novas concepções filosóficas” . (Cf. Paulo
Siebertz, “ A Maçonaria na luta pelo poder” , p. 4 - trad. port.
Pôrto, 1945).
Êsse trabalho dos holando-calvinistas destinava-se a forti­
ficar a casa de Orange e o predomínio político-econômico da
Inglaterra no mundo. Assim, as quatro “ lojas” medievais, “ no
outono de 1717 reuniam-se numa organização secreta, estrita­
mente vedada ao público, sob a direção de uma grande “ loja”;
em 25^ de março de 1722 aparecia o primeiro “ livro constitu­
cional” publicado pelo pregador presbiteriano Jacob Anderson
— desde então esse livro é considerado como uma espécie de
documento originário da fundação da Maçonaria” . (Cf. Jacob
Anderson. As constituições dos pedreiros livres, contendo a
historia, deveres, prescrições, etc. desta muito antiga e respei-
c «so das lojas”. Primeira edição, 1723.
Cf. Sibertz. ob. cit. p. 9) E êsse livro foi a Bíblia dos iniciados.
Rararnente terá sido possível esconder o verdadeiro alvo
duma associação por de tras de nevoentas e ilusórias frases com
tanto êxito como o alcançado pela Maçonaria no seu sábio dis­
farce dos verdadeiros fins que se propunha. Entretanto, a idéia
básica desde a primeira “ loja” inglêsa até hoje evidencia em
linha reta em todas as suas ramificações, sistemas e ritos um
unico proposito; a destruição de tôda a autoridade que não
seja fundada na vontade livre do indivíduo e não possa estar
dependente do arbítrio de cada um. Quanto às relações reU-
giosas, apoiayam-se estas tentativas maçônicas durante o século
18 na filosofia deista; na questão política exigiam os direitos
a “ U sentido dos enciclopedistas franceses; impunham
a ordem sobre a base do contrato social segundo Rousseau”.
(Cf. Paulo Siebertz. ob. cit. p. 4 ). E assim a dinastia de Hano-

\
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILBIRA
127
„er influi nos fUósofos da liberdade em Locke Mnn» •"
Jousseau e Herder, para fazer a revolução mtelec’t u î ï o l é c S
(jezoito.
“ Após 0 aparecimento do livro constitucional, um dos naic
^pirituais da liga maçonica, prescrevia assim a atitude a ad^
S p elos irmãos: “ cada qual segue a religião dos dÎ s o.. H
país” declarava John Toland no programa do “ PantListikon”
Sno caso, poreni, de se tratar de leis tirânicas, voluptuosas ou
intolerantes, cada um deve outras mais livres e mais suaves.
“Não reivindicam so a liberdade de pensar mas também de
proceder” , todavia com desprezo da licenciosidade. “ São inimi­
gos de todos os tiranos” , sejam êstes monarcas, déspotas pa­
trícios de oligarquias ou demagogos anárquicos” . (Cf. Siebertz.
ob. cit. p. 5). Daí em diante proliferam as lojas maçônicas em
tôdas as grandes cidades européias. Nelas se reunem mem­
bros de variadas profissões e categorias. E agem “ para, no
decurso dos séculos, entre camaradas de todos os povos e di­
versas religiões poder surgir a liga humana em particular, e,
na sua generalidade, a liga de tôda humanidade; humanismo
mundial são os alvos superiores que têm em vista a ação e a
vida dos maçons.” (Cf. Siebertz, ob. cit. p. 5).
Não se sabe ainda quando a Maçonaria se introduziu no
Estado do Brasil, província da Monarquia Portuguêsa. “ E’
certo, porém, que no meado do século passado, (dezoito) já
funcionava na Bahia o grande oriente maçônico, e é um fato
que se não pode negar, a sua importante cooperação no traba­
lho lento, oculto, persistente, para a nossa independência. A
inconfidência de Minas tinha sido dirigida pela Maçonaria.
Tiradentes e quase todos os conjurados eram pedreiros livres”.
(Cf. Joaquim Felício dos Santos. “ Memórias do Distrito Dia­
mantino”, 230-231. Rio. 1924).
Nessas condições, os inconfidentes estavam ligados à Ma­
çonaria “ Vermelha”, sediada em Paris, teledirigida embora pela
Maçonaria “ Azul”, estabelecida em Londres. A Maçonaria Inglê­
sa a serviço da Monarquia inglêsa e da Inglaterra atuava no con­
tinente europeu através das suas lojas e das lojas “ Vermelhas”,
isto é, revolucionárias. Estas já se fundavam nas Américas.
Na Bahia já se instalara o Grande Oriente Maçônico filiado
ao Grande Oriente “ Vermelho” de Paris, donde vinham as or­
dens. Londres preservava e defendia, assim como ainda hoje
preserva e defende, a Monarquia inglêsa e a dinastia de Hano-
ver contra as Monarquias francesa, espanhola e portu^^a.
toigida pela Monarquia “ Azul” , a Monarquia “ Vermelha , lu­
tava pela “ liberdade humana escravizada” .
128 T. L. FERREIRA — M. R. FE RREIRA

Ora, “ quando Tiradentes foi removido da Bahia (?) ” trazia


instruções secretas da Maçonaria para os patriotas (im-
ciados, quer dizer o autor), de Minas. Em Tijuco o pnmeiro
que se iniciou foi o padre Rolim, depois o cadete Joaquim José
Vieira do Couto e seus irmãos” . (Cf. Joaquim Felício dos San­
tos. “ Memórias do Distrito Diamantino” , 231. Rio. 1924). Nes­
sas condições, Tiradentes fôra iniciado na Bahia, onde servira
sua majestade el-Rei de Portugal, de quem era vassalo, Feli-
cio dos Santos não informa quando Tiradentes entrara para o
Grande Oriente Baiano. Seria antes ou depois da Rainha D.
Maria I o ter nomeado comandante do Caminho Novo? O
problema desafia os pesquisadores.
A conspiração malogrou-se. Da família Couto, o cadete
Joaquim José Vieira Couto foi o único perseguido; faleceu em
Tijuco em coiwequência de uma enfermidade adquirida na Ca­
deia de Vila Rica. Ainda pvísW occic.

----- — V*W
. d
naquele tempo se dava à Maçonaria, e a influência de que go-
za>^ em Tijuco a família Couto. H oje um funeral dêstes em
publico seria uxn escandalo, uma profanação” . (Cf. Joaquim
Felicio dos Santos, ob. cit. p. 231) ^ \ m

A MAÇONARIA "VERMELHA**
EM MINAS E EM LISBOA

Existissem os arquivos secrpto


Bahia, fundado em Salvador no tp• Grande Oriente da
zoito, de fiüação ao Grande Orient quartel do século de-
blema da iniciação de T i r a d e n t e s P a r i s , e o pro-
resolvido. Os investigadores talvp^^ íácil de ser
sívelmente existe. ^ ^ resolvam um dia. E pos-
Todavia, a afirmativa de Joa *
sua obra “ Memórias do Distrito dos Santos em
até prova em contrário. Êle escr^ e m erece crédito,
removido da Bahia, trazia inst^, Quando Tiradentes foi
ria para os patriotas de Minas” da Maçona-
adeptos da Republica. DefeTi,q; “ Patrin+oc”
trapartida aos vassalos, d e S ^ ^déia de p f t ® “
a vida. Na chamada do seu
taram e guilhotinaram os vas^ai os
baram vencendo. E daí os ® Patriotas” ma-
patriotas. chamlr^í^ que aca-
P «»arem os “ irm ãos” de
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA
12»
•‘Os conciliábulos faziam-se alta noite, continua i?»ií •
d„3 Santos, em casa de José da Silva 0 ? £ a ! p^ai 1 °
padre Bolim, a e es concorriam as principais pessoas
ão Tijuco, e_d:z-se que ate o mtendente Beltrão se envolver! lài I■
na conjuraçao, mas guardava-se o maior segrêdo sôbre sua<!
deliberações e nomes comprometidos. OS CONJURAnrv?
eram t o d o s j n i c i a d o s na m a ç o n a r ia
por Tiradentes, qi^ndo por aqui passou vindo da Bahia nara
Vila Rica” p u t r o Preto). Contavam com todo o apoio da po­
pulação e só se esperava o rompimento em Vila Rica quando
se soube que o traidor Joaquim Silvério dos Reis, denunciara
tudo ao governador visconde de Barbacena” .
Mas os denunciantes foram três, conforme se lê nos “ Autos
de Devassa da Inconfidência Mineira” . Primeiro volume. Mi­
nistério da Educação, Rio de Janeiro, 1936. Foram: Joaquim |
Silvério dos Reis, Basílio de Brito Malheiro do Lago e Inácio
Corrêa Pamplona. O primeiro Coronel de Cavalaria, o segun­
do Tenente Coronel e o terceiro Mestre de Campo. Nasceram
os dois primeiros na metrópole. E o último na ilha Terceira,
nos Açores. íl!í
Joaquim Silvério dos Reis começa a sua carta-denúncia: I

“ Meu sr. Pela forçosa obrigação de ser leal vassalo a nossa


augusta soberana” , embora o ameaçassem de morte, quando
foi “ iniciado” na conspiração, êle narra o plano dos inconfi­
dentes. (Autos de Devassa. Ministério da Educação. 1.® vol.
6). Inácio Corrêa Pamplona no têrmo de declaração refere:
**fizera (a denúncia) unicamente por zêlo ao real serviço como
bom vassalo de sua majestade fidelíssima” , (ob. cit. 43).
Interessante é que o sargento-mór José da Silva Oliveira,
pai do inconfidente padre José da Silva Oliveira Rolim não
foi indiciado no inquérito. Por quê? Se o crime de inconfi­
dência” , é o crime de lesa-majestade, isto é, do vassalo que re­
nega 0 juramento de lealdade ao seu Rei, como se exphca o
fato de José da Silva Oliveira não ter sido indiciado, pois se
em casa dêle se faziam os conciUiábulos? E este é outro pro­
blema aberto aos pesquisadores. „
Voltemos às “ Memórias do Distrito Diamantino onde
Joaquim Felício dos Santos escreve: “ Tinham-se extinguido as
primeiras chamas da revolução, mas esta
surdas, ateada por tôda a parte pela Maçonana . ( J ?
Felício dos Santos parece confundir dois irmaos pe e
a Maçonaria “ Vermelha” de Tijuco. “ Em Tijuco, diz ele, er
Pnncipalmente o dr. José Vieira Couto e seu irmao Jose Joa
■íuim Vieira Couto, os quo mais alentavam o espin o

V
(1

130 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

pendência, que ia sempre em aumento, apesar de ter-se bal­


dado a primeira tentativa, ou talvez por isso. O dr. Couto era
mais reservado; seu irmão, imprudente e inconsiderado, deixa­
va fàcilmente transpirar seu pensamento, e por isso já era
I olhado como suspeito e conhecido na Côrte pela liberdade de
I
• I
t! suas idéias.
ji José Joaquim Vieira Couto chegando a Lisboa, como pro­
,K
curador do povo do Tijuco, na qualidade de “ pedreiro livre”,
achou-se em contato com muitos homens eminentes, e entre
êstes Hipólito José da Costa, com quem se relacionou, mais
estreitamente, sem dúvida pela homogeneidade de pensar ar­
dente espírito de patriotismo, que animava êstes dois brasilei­
ros” . Engana-se Felício dos Santos quando acrescenta “Joa­
quim” a José Vieira do Couto. Êsse era o nome de seu irmão
falecido em Tijuco e enterrado com a farda, “ com um rama­
lhete de rosas brancas na mão direita e revestido das insígnias
maçônicas de grão-mestre” . (p. 231). O outro é o dr. José
Vieira Couto. Se no Tijuco a Maçonaria tinha a liberdade de
enterrar o seu grão-mestre por essa forma, já em Lisboa era
diferente. O Santo Ofício e a polícia do Pina Manique prendia
os maçons e enca^erava-os. Daí haver concordância entre o
Principe-Regente D. João, o futuro D. João VI, o Santo Ofício
e o chefe de polícia: eram contra a Maçonaria Já “ a Côrte
nnr pSíHtn f V voltairiana; e por consequência não era
e aue L perseguiam os “ pedreiros livres”,
um temoo em a liberdade em matéria religiosa em
dZ dominava o “ filosofismo” , escreve Felício

seus^eml^o^irífpnn^ voltairiana: mas acima de tudo os


lhas” . Nessas con diçõesT ^n a ^ “ Azuis” e “ Veme-
Couto e o dr Hinólifn' t ' j fa n iq u e prende o dr. Jose Vieira
menos o e s J r a v l K r a ^
ras da Inquisição nnrfo ^ P^^sos e encarcerados nas masmor-
dos S abrasileiros
vários n t o r ? á r r cínnrtn«
o n t lL a -r -?Nesse
i? tempo residiam em Lisboa
tes o nosso paTício S f v r
Ottoni, indo solicitar em f f Ottoni, prim o-imão de Couto,
um dos inquisidores o a r a noT’iÎ Parente, teve insinuação de
proscrito, revelando-lL esta^^of ° o «gava ao
príncipe-regente* “ O On + Palavras, que foram atribuídas ao
cionar o Reino, e anp o Hipólito são capazes de révolu-
“ Em 1807, Junot a u ^ l l f ® “ »^«er-se-lhes os amigos”.
rail homens de trocas fran Portugal à frente de seis.
opas francesas, ja extenuadas de fadigas e obri'
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRa s i l e i r a

gara a Côrte a vir procurar um abrieo nn «


§ou abrir os calabouços da Inquisição H i S ^ ’ J“ " « man-
â Inglaterra, onde foi redigir o “ Correio R rf.n í ®®Suiu para
do Couto, por acordo com seu amigo, d e S r ®
boa, a íim de combinar com os francêses Lis-
de libertar sua pátria do jugo português" d ° “ elhor meio
Santos e para mmto jacobino, o Brasil iá pr= dos
1500. Os portuguêses descobriam a “ nátrla” desde
Povoaram-na, civilizaram-na, regaram-na mm “ »digenas,
cundaram-na com o seu suor suas lá cT im «
entanto, de 1500 a 1822, para êsses S o L d o r l ' ” '° '^ ° '-

, com» se e x is tte , p t o „ J '* ;

Continuemos a ouvir Felício dos Santos- “ Q.,or,^„ tr- •


Couto se apresentou ao general francês êste
vorável acolhimento. “ | r. Couto disse-lhl^^^^^^^
cia. Sei que o seu crime é ser macon eíamhiJl^ °
0 toperador, meu amo». P elído dos Santos cSnfess?— Não
sabemos mais quais as conferências havidas entre Vieira do
Couto e Junot. Consta que quando os portuguêses trataram I :■
de recuperar a liberdade, auxiliados pelos inglêses e espanhó^ \i\
fôra Vieu-a Couto assassinado de envolta com alguns fraweses”’
Felício dos Santos ouviu contar a história de quem não a
sabia. Em outro capítulo veremos, como se deu o caso de Hipó-
Vieira Couto, muito diferente da narrativa do autor
de Memórias do Distrito Diamantino” .

A MAÇONARIA **AZUL” AGE EM LISBOA

Referimos em nosso último capítulo, como Joaquim Felício


dos Santos em seu livro “ Memórias do Distrito Diamantino”
(p. 231) acolhera informações não muito exatas a respeito dos
derradeiros dias do dr. José Vieira Couto. Vejamos agora como
se deu o caso de Hipólito da Costa Pereira. No seu trabalho
“ Estudantes da Universidade de Coimbra, nascidos no Brasil”,
Francisco Morais, (“ Brasília” , sup. a ovol. IV. Coimbra - 1949).
Lê-se:
“ Hipólito José da Costa Pereira.
Filho de Felix da Costa Furtado de Mendonça. ![ ]
Nasceu na Praça da Colônia do Sacramento (sôbre o rio
da Prata, fronteiriça a Buenos Aires).

A
'om
■ fí

132 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

Fêz os cursos de Matemática, Filosofia e Direito.


Hipólito José da Costa Furtado de Mendonça nasceu na
Colônia Militar do Sacranmento, situada sôbre o estuário do
Prata defronte de Buenos Aires. Não foi êsse o único estabe­
lecimento militar instalado pela Monarquia Portuguêsa nas
:\ fronteiras do Estado do Brasil. Além da Colônia Militar do Sa­
cramento houve a Colônia Militar de Iguatemi, na fronteira
de Mato Grosso com o Paraguai. E no Brasil-Império tivemos
■<'í as Colonies Militares de Avanhandava e Itapura, na então Pro­
'I víncia de São Paulo.
Até 1758 funcionou na Colônia Militar do Sacramento um
dos vinte e um Reais Colégios mantidos pela Coroa Portuguêsa
no Brasil-Província, onde os jesuítas eram professôres pagos
ifii pela Monarquia Portuguêsa. Dessa data em diante os Reais
Colégios passaram a denominar-se Escolas-Régias. E na Es-
cola-Régia da Colônia Militar do Sacramento, Hipólito José da
Costa fêz o curso primário e secundário. Com dezoito anos
de idade, em 1792, já estava matriculado no curso de Matemá­
tica da Universidade de Coimbra. Formado em Direito em 5
de julho de 1796, três meses depois, a 10 de outubro, estava a
bordo da corveta William” com destino aos Estados Unidos
1', da ^ é r i c a do Norte, em missão especial da Coroa Portuguêsa.
Devia ter ingressado na Maçonaria, na loja de Coimbra, du­
rante o curso universitário, porque logo após a formatura ser
t
nomeado por D; João, Príncipe do Brasil e Regente de Por-
encarregado de negócios nos Estados
vinte e quatro anos. Português nas-
^ o onia do Sacramento, no Brasil-Província, era tão
nascidos em Portugal europeu, porque o Bra­
i e do ‘^«Monarquia Lusitana, ’ e daí o Prín-
tueuês Dara o’ eara ° seu vassalo por­
nos Estados Unid^^” , r e f e r e 'Z T L Î o . " '® “ “ “

assu S rtíaS í agSturï'^nlqueir^


g T a s ^ u fa ^ S t r S L ir p ^ r r S r T s íín ;
ladélfir entao agrícolas. Em Fi-
í;, maeônica. Já era í • Estados Unidos, filiou-se a uma loja
\.
Filadélfia como “ irmão” L n"t Ingressa na loja àe
i Príncipe d o X a s í r n o ^ “ ^^^°J®- «egressa a Lisboa. O
onde deve ter freaupntT.? 1 “ issão em Londres,
llll r Londres, Hipólito
incumbência da
do govêrno ln»it lu«»tou a dar execução a
governo lusitano; voltou ao convívio dos pe-

' i
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA «g

* frequentar as instituições
Formou-se em Direito em 5 de julho de 1798
Em missão do Govêrno (da Monarquia Portiicmô«o\ ••
os Estados Unidos da América do V r t f p a r f S d a T a
cultura do algodao e da cana de açúcar. Foi Ir e to r l i t í t ó o
da Junta Administrativa da Impressão Régia. Prêso pelo Sa^to
Ofício, conseguiu evadu--se e refugiar-se em Londres! onde 4 -
^eu a ensinar línguas. Em 1807, iniciou a publicação do “ Coí-
reio Brasiliense . Depois da mdependência do Brasil, aceitou
0 cargo de consul-geral do Império na Inglaterra, cárg^que
não chegou a exercer” . ' que
Muito sucintas, como se vê, as informações transcritas O
esbôço de sua bio^ afia feito por Mucio Leão, encontra-se' nas
primeuras paginas de sua obra “ Diário de minha via^Pm r.arf !
raadélfia (1798-1799)». publicações da AcaS^m l K e ir r d ”
Letras. Rio de Janeiro, 1955. ae |
Mucio Leão escreve: “ Refere José Liberate Freire de Car '
valho, nas suas memórias, redigidas à distância de quase meio í
s&ulo dos acontecimentos de que estamos tratando, um episó- Í
dio sinçilar, pelo qual se vê que o ministro de D. Maria I S
(Sousa Coutinho) desejava, no íntimo, evitar as contrariedades I
que podenam sobrevir de Hipólito, o ministro contou que havia >
recebido mformes acerca das relações do viajante com os ne- '
te ^ o s hyres de Londres; e acrescentou que êsses boatos po­
denam vir a ser prejudiciais a êle, ministro, pois os seus ad­
versaries nao vacilariam em acusá-lo de convivência com o seu
protegido; e que, portanto, se tais boatos eram verdadeiros êle
se vena na contingência de fazer prender Hipólito logo que í
este puzesse pe em território português”. )
Ora, tanto Sousa Coutinho quanto José Liberato Freire de í
Carvalho eram “ irmãos” de Hipólito. “ José Liberato Freire í
de Carvalho era nessa altura (1808) membro da loja “ Cruza- |
dor da Povoa’’ sob o pseudônimo de Spartacus” . (Cf. Paulo I
Sibertz, “ A Maçonaria na luta pelo. poder” , p. 45. Borges Grai- S
nha, “ História da Maçonaria em Portugal” (1735-1912). p 55. ^
Lisboa, 1912). a ^ f ,
Hipólito da Costa regressa a Lisboa, onde foi prêso.pela
polícia do Pina Manique. Sousa Coutinho, seu “ irmão” , nada
pôde fazer por êle. Manique entrega-o ao Santo Ofício. As
autoridades da Inquisição tiveram-no encarcerado. “ Durante
esse tempo, estavam atentos os seus companheiros de Maçona­
ria procurando a melhor ocasião de ajudar a vítima a libertar-
se das garras que o prendiam. Certo dia essa ocasião surgiu.
___________________________________________

-’i

■1!
134 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

Achava-se Hipólito em sua cela, quando um dos guardas apro-


ximoU”Se e avisou que S 6 cncontrava sozinho na vigilancia do
presídio, e isso porque seu chefe, aterrorizado com a hipótese
de ser prêso por uma dívida de jôgo, tinha desertado
i ili do pôsto. Percebeu Hipólito o que significavam aquelas
■;M palavras e, declarando que se achava passandomal, pediu
ao guarda que fôsse procurar um remédio. Afastou-se
o homem, deixando ao alcance de Hipólito as chaves
do presídio. Assim, logrou o prisioneiro ver de novo a luz da
liberdade. Fugiu, e foi esconder-se em companhia de amigos
que, sabia, Ihe eram fiéis. Com auxâlio dêles, disfarçado em
• ■? criado, logrou deixar o território português, passando-se para
i; o território espanhol (1805)” .
.>
îîii O autor dessas linhas esquece-se de informar que o guarda
!'
;i recebeu boa soma em dinheiro dos “ irmãos” de Hipólito para
deixar-lhe as chaves ao alcance da mão. Os amigos, isto é, os
“ irmãos Azuis” já o esperavam e facilitaram-lhe a fuga. De
Gibraltar (Hipólito) atingiu a Inglaterra, continua Mucio Leão,
e ali, pondo-se sob a proteção do duque de Sussex, pôde realizar
a sua grande obra jornalística a obra pela qual o seu nome
ficou definitivamente incorporado à melhor e mais alta tradição
da literatura e do pensamento da Brasil e de Portugal é o
“ Correio Brasiliense”,
Hipólito da Costa acolhe-se sob a proteção de Duque de Sus«
t; ’'1; sex, grão-mestre da Maçonaria “ Azul” , na Inglaterra.
Jj
A MAÇONARIA ^*AZUV* EM LUTA CONTRA
ii: A MAÇONARIA *'VERMELHA**
Em nosso último capítulo verificamos como “ a inconfidên­
cia deMinas (Gerais) tinha sido dirigida pela Maçonaria.
Tiradentes equase todos os conjurados eram pedreiros livres^’.
I
(Cf Joaquim Felício dos Santos. “ Memórias do Distrito Dia-
mantmo , p. 231, 1924). Nessas condições, o movimento cha­
mado Inconfidência Mineixa era puramente maçônico. Orien-
1 “ Vermelha” na sua luta pelo poder para im«
1 ^ derrubar a Monarquia. Por isso, a in-
coníidencia e o crime de lesa-majestade
A Maçonaria envolvia-se no mistério. Êsse mistério atraia
e atrai homens e mulheres. Daí haver lojas femininas da Car-
bonaria em Nápoles e na Espanha. (Cf. Paulo Siebertz. “ A
ff- na luta pelo poder” , p. 33 - trad. port. Pôrto - 1945).
'( Alem desse atrativo sedutor, “ o espírito do liberalismo cultu-
)i
(acentua a mais recente obra das lojas) tem encontrado

uf
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 135

T^g^çQnaria o campo mais propício: os “ velhos deveres” de


ï*® g ij^gpiram-se no mesmo espírito; a tolerância de que se re-
texn é liberal no mais puro sentido da palavra. As exigên-
básicas do liberalismo foram sempre defendidas pelos ma-
E’ importante também a parte tomada pelos maçons da
Ç? tóri^ “ Declaração dos Direitos do Homem” a que se cha-
ou a Carta do moderno liberalismo” . . (Cf. Eugen Lenhoff e
Oskar Posner. “ Internationales Freimaurer lexikon” . Viena,
1932 - P* • Al®^ desta citação Paulo Siebertz, na sua obra
ainda menciona, do estudo do “ irmão” Scheukeu “ A Maçonaria
à luz da história da religião e da Igreja” , a seguinte frase: “ A
j^açonaria é a única criação verdadeiramente grande e dura­
doura do liberalismo idealista” . E êste liberalismo idealista
reveste-se de duas formas: liberalismo cultural e liberalismo*
político.
Por isso mesmo, a Maçonaria ingressa com facilidade nas
Universidades européias, na segunda metade do século dezoito.
Nessas condições, José Vieira Do Couto ter-se-ia iniciado na
M açonaria quando estudante da Universidade de Coimbra. Não
no Tijuco, em Minas Gerais, conforme escreve Joaquim Felício
dos Santos, segundo vimos páginas atraz. Tão pouco foi “ assas­
sinado de envolta com alguns franceses” , em Lisboa, nos têrmos
do “ consta” de Joaquim Felício dos Santos, em “ Memórias do
Distrito Diamantino” , (p. 233).
Ora, quando o dr. José Vieira Couto embarcara para Lis­
boa a Maçonaria “ A zul” e a Maçonaria “ Vermelha” degladia-
vam-se na sombra e no mistério. “ Pelos fins do século 18 estava
à frente do grupo de “ lojas” , subordinado à influencia dos
grandes graduados franceses (os “ Vermelhos” ) com “ Grão Mes­
tre do Grande Oriente de Portugal” , um certo Egas Moniz,
segundo os seus planos, deveria ficar nas mãos dos france­
ses tôda a “ direção da Maçonaria portuguêsa” . Malogrou-se
todavia a sua intenção de depositar o martelo de Grão mes- f
tre nas mãos do general francês (Junot), em virtude “ da re­
sistência de cinco irmãos, a despeito dos muitos esforços, fei­
tos por alguns oficiais de marinha ' franceses, que desejavam
colocar as “ lojas” portuguêsas sob a dependência do Grande
Oriente de França” . (Cf. Paulo Siebertz, ob cit. p. 41-42. E
Borges Grainha. “ História da Maçonaria em, Portugal, 1735-
1912”, Lisboa, 1812, p. 55).
Essa luta surda e invisível, ora entre “ republicanos” ,
isto é, “ patriotas” e os monárquicos ora entre “ Verme­
lhos” e “ Azuis” , não esmorecia. “ Contudo, foi ao auxí­
lio de muitos “ irmãos” portuguêses que Junot, no ano de

r
í j]
126 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

1807, “ DEVEU OCUPAR PORTUGAL SEM ESFORÇO».


Quando o general Junot entrou em Lisboa, foi solenemente
saudado por êstes — entre êles um Juiz do tribunal do Rei —
e, “ respeitosamente, suplicaram-lhe auxílio para a Maçona­
ria” . A atitude dêstes muitos “ irmãos” contra a própria pátria
foi tão longe que sobreveio a discórdia declarada na Loja da
Concordia. O presidente, irmão Coutinho Pereira de Seabra
e Silva apresentou a seguinte proposta “ numa grande reunião,
convocada a convite de oficiais franceses” ; dever-se-ia tirar o
retrato do regente — depois Rei D. João VI, colocado sôbre a
cadeira do trono e substitui-lo pelo do Imperador Napoleão. A
•estas palavras, ergueram-se em grande revolta 11 irmãos e
protestaram contra tal subserviencia” . (Cf. Paulo Siebertz. ob.
cit. p. 42). Êste fato leva o autor a acrescentar em nota: “ Acer­
ca dêste fato publicamente passado em silêncio no “ Hand-
.buch”, aliás em geral indiscreto, fala-nos o irmão Rodrigo Li-
naa Felner na obra, publicada no ano de 1845; “ Almanak do
-Rito escocês antigo e aceite em Portugal para o ano de 1845”
<e depois dele a “ Latomia” , 1846, p. 81.
Logo, quando Vieira Couto foi recebido pelo general Ju­
not, eram dois “ irmãos Vermelhos” que se encontravam. Pa­
ra isso trocaram os sinais a fim de se identificarem. Junot dis­
sera a Couto Vieira, segundo Felicio dos Santos: “ Sr. Couto,
já 0 conhecia. Sei que o seu crime é ser maçom, e também ma­
çom é o imperador meu amo” . (232). Ora, “ tal qual como era
uso na Inglaterra, Napoleão tentou servir-se sem escrupulos
da Maçonaria para atingir os seus fins políticos; já a utilizava
durante o Consulado e, quando imperador dos franceses, pen­
sava manejá-la em todos os Estados (países) do continente, a
bel-prazer dos seus planos miperialistas. Dois dos seus irmãos
dirigiam como grãos mestres os ramos mais poderosos da Ma­
çonaria francêsa mais categorizada, isto na época que estadistas
ocupavam logar de preponderancia na sociedade secreta” . Paulo
Siebertz, na obra citada, acrescenta em nota: “ Os marechais,
os generais, os mais altos funcionários, todos os homens de mé­
rito e distinção, povoaram as lojas e estavam à frente do
“ Grand Orient” “ como presidentes, deputados e altos funcio­
nários” — lê-se na “ Latômia” , 184” , II, 325. Mais pormenores,
“ Latômia” , 1854, 1-22” . (Cf. Siebertz. ob. cit. p. 24).
Assim, o general corso, depois imperador dos franceses,
pensou em fazer com a Maçonaria francêsa, o mesmo que a
Inglaterra fazia e faz com a Maçonaria inglêsa. Êle esqueceu-
-se de que a Maçonaria “ Vermelha” era e é revolucionária e a
Maçonaria “ Azul” era e é conservadora. Aquela republicana.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILBIRA 137

<1 ffl monárquica, defende a política e as instituições monár-


Sicas inglêsas.
Mas voltemos ao dr. José Vieira Couto, nascido no Arraial
Tijuco, em 1752. Formado em Direito e em Filosofia, no
de professor da Universidade de Coimbra, litera-
matemático distinto. Em 1806, foi prêso sob a acusação
estar filiado à Maçonaria e, dois anos depois, posto em li-
h rdade por Junot. Logo que os franceses foram expulsos de
Portugal, quis voltar ao Brasil, porém os governadores do Rei-
mandaram-no para a ilha Terceira, (nos Açores) onde fa-
?^eu, em 27 de maio de 1811” . (Cf. Francisco Morais. “ Estu­
dantes da Universidade de Coimbra nascidos no Brasil”, in
“ Brasilia^’ sup. ao Vol. Coimbra. 1949). Assim o dr. José Viei­
ra Couto era um dos DOIS MIL QUINHENTOS moços portu-
^êses nascidos no Estado do Brasil e formados na Universi­
dade de Coimbra, em cuja loja conimbrense ter-se-ia iniciado,
ainda estudante. Não foi assassinado “ de envolta com alguns
franceses” , em Lisboa, nos termos do “ consta” de Joaquim Fe­
lício dos Santos. A Maçonaria “ Azul” degradara-o para a ilha
Terceira onde falecera, em 1811.

A MAÇONARIA INGLÊSA DIRIGE


A REVOLUÇÃO FRANCESA
Para abater o Catolicismo e abater a França, a Inglaterra
usa de todos os recursos, por intermedio da Maçonaria fran­
cesa. Os Bourbons representavam, para os Orangistas da Mo­
narquia Inglêsa, uma fôrça adversária, cujo poder precisava ser
esmagado. Decorridos quase quarenta anos, já em 1830, o “ Fo­
reign Office” , um dos quatro pilares da Monarquia Inglêsa,
criados por Guilherme de Orange, — os outros eram: 0 Banco
da Inglaterra, 0 Intelligence Service e o Almirantado — in­
tervêm na política francêsa. Assim, quando Lord Wellington
oferece a Mr. de ViUéle, a mediação da Inglaterra para re­
solver os negócios da França na Peninsula ibérica, o ministro
francês atalha a proposta do inglês: “ A Paris, il y a un Bour­
bon en Espagne il y a un Bourbon: nous ne voulons pas
d’intérmediaire entre nós” . Em Paris, há um Bourbon, na
Espanha há um Bourbon; não queremos intermediários entre
nós. E em 1830 já a Inglaterra era uma das maiores potências
do mundo, graças ao Foreign Office, ao Banco da Inglaterra,
ao Intelligence Service e ao Almirantado.
Ora, já em fins do século XVIII, a Maçonaria Inglêsa di­
rigia Maçonaria na França. Conseguira formá-la de quatro
138 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

elementos: uma alta nobreza, ativa ambiciosa, mas sem perspi­


cácia alguma; filósofos e intelectuais presas do jôgo das idéias
puras, belos espíritos desinteressados completamente da vida
prática (os enciclopedistas); “ novas camadas sociais” , cujas in­
teligências moças se iniciavam nas lojas maçônicas transfor­
madas em trampolins de interesses pessoais; e, por fim, alguns
homens simplesmente corruptos, como se acham em tôdas as
instituições progressistas, homens dispostos a abrirem o seu
caminho na grande tormenta, apesar do seu passado pouco re­
comendável. Eram os Mirabeau, os Brissot e outros do mes­
mo naipe.
Os homens de boa fé formam, na maior parte, nas três
primeiras categorias. Reunem o que há de mais brilhante e
mais ativo na França. Mas inteligência não equivale a critério,
a sabedoria e vontade. E o^ documentos publicados reve­
lam que a Maçonaria francêsa em fins do século XVIII não se
dirige, é dirigida pela Maçonaria inglêsa.
Na sua quase totalidade, os iniciados estavam sinceramen­
te convictos de que lutavam por idéias novas, justas e
boas. Deixavam-se arrastar por elas. E se houvesse no go­
vêrno da França, um chefe de fato, êle teria reunido em tor­
no dêle êsses espíritos idealistas, êsses “ inocentes úteis” .
O exemplo de Franklin é sugestivo. Apesar de todos os
esforços da Inglaterra, ela perde sua influência na França
após 1763. E o acôrdo secreto de Vergennes e Franklin recon­
duz a Maçonaria francêsa à política real e nacional da França.
Essa aliança entre os dois maçons não teve maiores con­
sequências. A França vitoriosa em 1783 esquece os ressenti­
mentos causados pela Inglaterra. Vergennes, à frente do poder
desaparece. Os americanos voltam à América do Norte.
A Maçonaria francêsa torna-se presa das manobras secretas
,1 dos Ingleses. Dela se servem os “ irmãos” de além da Mancha,
'J quando Franklin abandona o jôgo. Londres vê com pesar, res­
surgir o poderio marítimo e colonial francês, porque de Grasse
vence os Ingleses. Vergennes reaparece e exige a devolução
do Senegal e das Antilhas. A França prepara uma expedição
ao Canadá, a fim de reavê-lo. Nessa altura, os orangistas re­
solvem: é preciso, custe o que custar, enfraquecer a França,
dividi-la politicamente, abater o Catolicismo na França e em
Portugal, evitar o acôrdo entre a França e os Estados Unidos,
porque isso era mortal aos interesses econômicos ingleses. É
a vingança da Inglaterra contra a França, porque os holando-
ingleses perderam as suas colonias da Nova Inglaterra, na Ame­
rica do Norte. Assim, a Inglaterra apressa o movimento con-
A m a ço n a ria n a in d e p e n d ê n cia BRASILEIRA 139

.-a a para que a desordem e a Revolução contraba-


F fança,
lancenti os prejuízos sofndos na América. E a Maçonaria inglêsa
^cança os seus designios em 1789. ngiesa
Nessa história secreta, a experiência de FrankUn mostra a
boa fé dos maçons franceses. Faltou-lhes um chefe da Fran­
ca para guia-los. Foram doceis às manobras estrangeiras: ora
da Inglaterra, ora dos Estados Unidos. Durante cem anos pre­
dominaram as influências inglêsas. E cê{rca de dez anos, o
prestigio norte-amencano leva os franceses à Revolução de
1789.
Em conclusão: A criação da Maçonaria resulta da vitória
dos hanoverianos na Inglaterra, do estado social e político ins­
taurado por êles na Grã-Bretanha. Nessas condições, a Maço­
naria inglêsa é o produto da política hanoveriana e torna-se
logo um dos seus instrumentos mais preciosos. Suas ori­
gens históricas a obrigam a servir os “ Jorges” e a tradição
da revolução inglêsa. Na Inglaterra, a Maçonaria é uma so­
ciedade patriótica, presta serviços diretos e imediatos à Monar­ Ei
n
quia Inglêsa e à Comunidade. Dentro da ilha sua obra se re­
veste de lealdade e discrição. Fora da Grã-Bretanha é uma
organização internacional destinada a espalhar as ideias, o pres­
tigio, os produtos intelectuais da Inglaterra. De resto, isso a
impede, na França de ser sinceramente devotada aos Bourbons
e em Portugal aos Braganças. Isso porque a causa dos Bour­
bons e dos Braganças está ligada intimamente à Igreja Cató­
lica. E a Igreja Católica é adversaria da Maçonaria.
Assim se fixam, pouco a pouco os grandes traços do papel
da Maçonaria no século XVIII e os estimulos ocultos do movi­
mento das idéias e dos acontecimentos na França, na América
do Norte e em Ouro Prêto, no Estado do Brasil, Província da
Monarquia Portuguêsa. Essa história secreta e profunda, tão
difícil de conhecer e de explicar em seus pormenores. As­
sim mesmo já se projeta diante de nossos olhos, a visão fugi­
tiva dos homens e dos fatos anteriores à Revolução de 1789.
A Maçonaria francêsa representa o seu papel na revolução in­
telectual francêsa do século XVIII, feita pelos filósofos, enci­
clopedistas e a nobreza ambiciosa e pouco inteligente. Mas
os documentos até hoje publicados parecem indicar que a Ma­
çonaria francesa não detem as alavancas do comando. Ela não
cria, reflete apenas movimentos de opinião, ampliando-os, exe­
cutando-os. Ela não manobra; é manobrada; não dirige, é diri­
gida.
Nessas condições, por detrás da Maçonaria francesa ocul­
ta-se a Maçonaria inglêsa. Por trás da Maçonaria inglêsa
Î
140 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

agem, como sombras, o Banco da Inglaterra, o “ Foreign Of-


fice” o “ Intelligence Service*’ e o Almirantado a serviço da
Monarquia Inglêsa e da Nação Inglêsa.
A Monarquia inglêsa procurava abater a Monarquia fran­
cêsa, anular a Monarquia portuguêsa e enfraquecer a Monar­
quia espanhola, para ela se tornar, como se tom ou no seculo
passado, uma das primeiras potências da Terra. Consegue
quebrar o equilibrio m on^quico da Europa. Para isso traba­
lharam os maçons franceses, os revolucionários franceses, Na­
poleão e os seus exércitos. Na sua ilha, a Inglaterra espiava os
movimentos de desagregação da Europa. A Maçonaria francê­
sa é napoleonica. Napoleão e o rei de Espanha tramam o de­
saparecimento de Portugal do mapa europeu. É o ultimo re­
duto continental anti-maçônico. O Príncipe do Brasil, regente
do Reino português, D. João, prevê as manobras dos adver­
sários. As tropas napoleônicas invadem e tomam a Espanha.
Nessa altura, o embaixador Lord Hawesbury comunica a Na­
poleão: “ SE O PRIMEIRO CONSUL, INVADIR OS ESTADOS
DE PORTUGAL, A INGLATERRA INVADIRA’ OS ESTADOS
ULTRAMARINOS DE PORTUGAL” . Entre a ameaça napo­
leonica e a ameaça inglêsa, o futuro D . João V I não hesita: faz
a TRANSFERÊNCIA da Capital da Monarquia Portuguêsa de
Lisboa para o Rio de Janeiro. Cria o Reino do Brasil unido ao
Reino de Portugal: fortalece a Monarquia de Afonso Henri­
ques. E deixa a Monarquia inglêsa lutar contra a Monarquia
francêsa.

A EXPRESSÃO “ PEDREIRO LIVRE**


E A REPÚBLICA

Após os estudos realizados nas principais Universidades


europeias, como bolsista da Coroa Portuguêsa, conforme vimos
em artigo anterior, José Bonifácio de Andrada e Silva regres­
sa a Portugal, assume a sua cadeira de Mineralogia na Uni­
versidade de Coimbra.^ Desempenhou ainda os cargos de de­
sembargador da Relação e Casa do Porto; diretor-geral de tô­
das as minas do Reino; superintendente das obras do encana­
mento do rio Mondego e diretor do Laboratório Químico da
Universidade.
Em 1807, quando da invasão francêsa, o ilustre santista
comanda o batalhão acadêmico nos postos de major e tenen-
te-coronel. Foi chefe da polícia do Pôrto, depois da expul­
são dos francêses. Em 1817 aposenta-se na Universidade de
Coimbra e regressa ao Brasil-Reino,
A m aço n aria . KA in d e p e n d ê n c ia BRASILEIRA 141

^ àe Congonhas do Campo, em Minas Gerais, Vi-


da Silva Seabra e Teles, forma-se na Universi-
(jgpte ^°pQjjiibra em Matemática em 1783 e em Medicina em
dad® • professor da respectiva Faculdade, Sócio da Aca-
1788- (Mgncias de Lisboa, regeu na Universidade de Coim-
ijeinia , jjas de Zoologia, Botânica, Mineralogia e Agricul­
tor T«creveu varias obras de carater científico. Carta do
tura- _ de defender teses e do exame para catedrático.
^ disp®“ , Bittencourt Acioli, natural de Caeté, Minas Ge-
^mado em Matemática e Filosofia (Física, Química
rais- Natural), depois de ter viajado pela França e pela
g Histori® gressa a Minas Gerais onde se dedica a expe-
^nglaterra,
ciências e^ I a ^ ----- -D-i-;- ferro.
" Envolvido na cons­
piração de 1798, foi prêso na Bahia Posto ‘
que nada se provou contra êle, nem n ® por-
margens do Rio de Contas. D e d iS e à ^«a-se, nas
' ____ ^ a cultura do algodão
à indústria artesanal da tecelagem. O Govêrno português en-
carregou-o de varias expedições cientificas. ( 1).
No ano de 1788, diploma-se na Universidade de Coimbra,
Mariano José Pereira da Fonseca, natural do Rio de Janeiro e
futuro Marquês de Maricá. Exerce diversos cargos na magis­
tratura em Portugal, indo, depois, estabelecer-se no Rio de Ja­
neiro como advogado. No tempo do vice-rei conde de Rezende,
foi prêso e perseguido, por suas idéias liberais. Por isso teve
importante papel na Independência. Foi senador, ministro e
conselheiro de Estado no Império.
Citamos, em outro capítulo, entre os cento e cinqüenta estu­
dantes (157) diplomados na Universidade de Coimbra, no vin-
tênio de 1768 e 1788, apenas os nomes cujas atividades estive­
ram mais em relêvo. Filiados à Maçonaria, sequazes da liber­
dade, defensores do liberalismo, as idéias dêsse movimento bro­
taram na Universidade de Coimbra, após a reforma do estabele­
cimento de ensino, iniciado em 1772.
Suas origens estão no “ Verdadeiro Metodo de estudar”,
que “ outra coisa não é senão, não direi um plagio, mas um
decalque ou uma duplicação dos argumentos, doutrina e dia­
lética” expostos por Luiz Antonio Muratori nos “ Diff etti delia
Giurisprudenza”. Pombal encontra na obra de Verney os ele­
mentos necessários para implantar em Coimbra o iluminismo
católico e maçonico. E o triunvirato formado por Muratori,
italiano, Vemey e Pombal, portuguêses, introduziram a refor-
(1) Francisco Morais. “ Estudantes da U de Ç o^ ra, nas-
n i v e r s i d a d e

ddoa no Brasil” . Rev. “ Brasília” , snp. ao vol. IV Coimbra - 1»4».

> i
142 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

ma iluminista ou maçônica e liberal nos estudos universi­


tários .
“ Verney encobriu até muito tarde enquanto pôde, à custa de
dessimulações e mentiras, não só em Portugal, como em Roma,
1 '• * que o “ Verdadeiro Método de estudar” provinha dêle. Mais:
encobriu-o mesmo aos olhos do seu grande aliado e amigo, Mu­
ratori. Mais ainda: tentou evitar por todos os modos que em
Portugal pudesse ser adivinhada qualquer relação entre o seu
livro e a obra e a ideia do erudito italiano” . ( 2).
Ora, dentro dessa ordem de ideias está o misterioso Ven-
deck, o desconhecido entrevistador de Jefferson, nas ruinas
do circo de Nimes na França, em 1787, conforme vimos em
capítulos passados. Vendeck é o pseudonimo do estudante Jo­
sé Joaquim da Maia, aluno da Universidade de MontepeUier,
I na França, onde fazia o curso de medicina. A identidade de
' i Vendeck foi estabelecida pelo sr. Domingos Vidal de Barbosa,
formado em Medicina pela Universidade de Bordeus, também

li
na França. Natural de Nossa Senhora da Conceição do Mato
Dentro, em Minas Gerais, Barbosa refere, no seu depoimen­
to como soubera do encontro secreto entre Maia e Jeferson:
“ estando êle testemimha em casa de seu primo Francisco An­
î1 tonio de Oliveira Lopes, e indo com êste para um serviço de
I ;
minerar, entrou o dito Francisco Antonio de Oliveira
Lopes a contar e exagerar as belas qualidades dê^te Con­
tinente (Brasil), dizendo que não só tinha, ouro e diamantes,
'3: mas ferro, lãs e algodões, e que seria um paia de felicidade
. ?< para viver, se fôsse livre, depois passando a perguntar a êle
í testemunha, como se chamavam os sujeitos, que fizeram a
í'
T
'li.- revolução da América Inglêsa, lhe respondeu que não sabia se
não de um que se chamava Monsieur Franklin, e a êste res­
Í} peito contou êle testemunha, que estando em França vira lá
um. sujeito chamado José Joaquim da Maia, filho de um Pe­
i! ] dreiro (Pedreiro livre, isto ê, maçon), que queria fazer-se ou­
tro monsieur Franklin a respeito da América Portuguêsa, di­
zendo, que a queria por independente da Europa, porque sendo
filho de um pobre Pedreiro, nunca podia fazer figura, nem
] - \ U ■
Jf fazer o seu nome brilhante e célebre, senão intentando uma
ação extraordinaria” . (3) E a Maçonaria trabalhava então pe­
í: la República.
Fazendo um breve parentêse, devemos esclarecer que no

' (2) Of. L. Cabral de Moncada. “ Um iluminista português do sécdo


jjj j i XVIII — Luiz Antonio Vemey. Coimbra. Amado, editor. 1941.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA
14*

BrasU e em Portugal usava-se a expressão “ Pedreiro Livre”


como traduçao de Franc-Maçon” . »
Continuemos.
por duas vêzes, D o m in o s Vidal Barbosa fala em Pedrei
ro. escrita a palavra com P maiusculo. Na segunda referên
cia acrescenta o adjetivo pobre, para encobrir o verdadeiro
sentido da palavra. Ele la dizer pedreiro livre, mas conteve-
56. Já dissera pedreiro, por fôrça do subconsciente. Voltara à
palavra e acrescenta-lhe pobre, para dissimular õ seu êrro
Ora, se fôsse filho de um pobre pedreiro, de um simples assenl
tador de tijolos, nao poderia de maneira alguma ter ido estu­
dar no estrangeiro e numa Universidade francesa. Além dis­
so, na carta escrita a Jefferson em Motpellier, 21 de novembro
de 1786. Vendeck afirmara, de maneira categórica: “ Pela nos-
sd parte estamos prontos a dar o dinheiro que fôr necessário
e a manifestar a todo o tempo a nossa gratidão para com os
nossos bemfeitores” . (4) E Vendeck, isto é, Maia, fala sempre
no plural, nosso, parte, 6 oferece o dinheiTO que fôv necessário’.
logo não era tão pobre como Barbosa o apresenta, nem como
emissário esp^ial poderia ir a Europa. “ Com efeito continua
Barbosa, que êle Maia, chegara a escrever ao ministro da Amé­
rica Inglêsa (Jefferson), que se achava em Paris, dizendo, que
era enviado dos Americanos Portuguêses (Barbosa não diz,
dos Brasileiros), que queria tratar do negócio da sua indepen­
dência, para o que pedia o auxílio da sua República, ao que
lhe foi respondido, que depois que cá tivessem na América
(Portuguêsa) conseguido a independência, os favorecia (aos
Portuguêses Americanos) com as manufaturas, e mais o que
carecessem para a conservar;’ porém que ajudar ao rompimento
não; por ser uma Nação (Portugal), em cujos portos, ofcha-
vam benigno acolhimento; mas depois, sucedendo vir o dito
ministro à Província de Languedoc, indo-lhe aí falar< o dito
José Joaquim da Maia, foi conhecida a pouca verdade, com
que êle se tinha intitulado enviado sendo um pobre miserável
sem tratamento algum, por cujo motivo foi desprezado pelo
dito ministro, segundo contou a êle testemunha o mesmo José
Joaquim da Maia, de que assim tinham sido frustradas as suas
ideias” . ( 5) E Maia foi abandonado.

(3, 4, 6) Domingos Vidal Barbosa. Depoimento. “ Autos da Devassa


da Inconfidência Mineira” . Biblioteca Nacional. Ministério da Edu­
cação. vol. 3. p-364 e segs.
H4 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

INICIADOS NA MAÇONARIA
No vintênio de 1768 a 1788, vésperas da Inconfidência Mi^
neira, cento e cinqüenta e sete (157) estudantes das ^versas
Capitanias luso-brasileiras são diplomados na Umversidade de
Coimbra, conforme já vimos. Vimos também nomes de pro­
jeção nesse período, embora nascidos no Estado do Brasil, m-
teiramente desconhecidos das gerações presentes. Entre es­
se número está José Vieira Couto, nascido no Arraial do Te-
juco, — Diamantina — hoje, em Minas Gerais. Formado em
Matemática em 1775 e em Filosofia (Ciências Físicas e Natu­
rais) em 1778, foi professor da Universidade de Coimbra, escri­
tor e matemático distinto. Em 1806 foi prêso sob a acusação de
estar filiado à Maçonaria. Dois anos depois foi posto em liber­
dade por Junot, quando os franceses invadiram Portugal.
Após a expulsão dos invasores quis regressar ao Brasil, mas
os governadores do Reino degredaram-no para a Ilha Tercei­
ra, onde falece.
José da Süva lisboa, futuro Visconde Cayru, na­
tural da Bahia, formado em Cânones e em Matemática, em
1779. Ainda em Portugal foi regente das cadeiras de Hebráico
e de Grego, deputado do Tribunal da Junta do Comércio e ins­
petor dos estabelecimentos de ensino. Já na Bahia, dirige, de
Salvador, em 1781, ao Dr. Domingos Vandelli, diretor do Real
Jardim Botânico de Lisboa, importante relatório sôbre a si­
tuação econômico-social da Cidade de Tomé de Sousa. Mais
adiante falaremos a respeito dêsse documento. Redigiu para
o Príncipe-Regente D. João, em 1808, em Salvador, o decreto
da abertura dos portos às nações amigas.
Antônio de Morais Silva, natural do Rio de Janeiro, di­
plomado em Direito em 1779, foi magistrado em Lisboa. Acusa­
do pela Inquisição, escapa ao Tribunal do Santo Ofício e re-
fugia-se na Inglaterra. O seu Dicionário da Língua Portuguê-
sa e mmto conhecido. Também natural do Rio da Janeiro,
Antonio Pereira de Sousa Caldas, formado em Direito, na Uni­
versidade de Coimbra, aos 19 anos de idade Dez anos
tarde em 1788, diploma-se em Matemática. O seu nome está
mcluido entre os sentenciados pela Inquisição de Coimbra, no
^ to publico de fe, celebrado na sala do tribunal do Santo
Oficio, no domingo, 26 de agôsto de 1781; “ Antônio Pereira de
Sousa Caldas, solteiro, estudante, natural do Rio de Janeiro,
herege, naturalista, deista e blasfemo” . Herege e naturalista,
Foi sacerdote, pregador e poeta. Uuminista no tempo.
y

A m a ç o n a r ia NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 145


fran cisco de Melo Franco, natural de Paracatu M ir., r.
Sousa CaM«, „ IribunS
CIO anos. “ Escreveu a célebre sátira “ Reino da Estu-
ve•Halguns
ês poema heroi-cómico em quatro cantos, sendo então rei-
?nr 0 Principal Mendonça. Êste poema em que se diz tivera
4 rnbém parte José Bonifácio de Andrada e Silva — foi com-
osto em Coimbra, em 1785. Os verdadeiros autores tiveram
arte para ocultar-se dé tal modo que ninguém desconfiava,
uanto que outros, inocentes, no caso, sofreram tôda a es-
'cie de desgostos e perseguições oficiais, promovidas pelo cor-
^0 catedrático, que se julgou ofendido” . Formado em medi­
cina pela Universidade de Coimbra, em 1786, exerceu a pro­
fissão em Lisboa. “ Em 1817, foi, por ordem de D. João VI,
chamado a acompanhar ao Brasil, a arquiduquesa D. Maria
Leopoldina, destinada a esposa do príncipe real (D. Pedro).
Foi médico honorário da Câmara Real e sócio da Academia
Real das Ciências de Lisboa” . (1) E outros nomes de médicos,
advogados, engenheiros, sacerdotes , brasileiros figuram, com
grande relevo, nesse vintênio.
Dentre êles, salienta-se o estudante JOSÉ ALVES MA­
CIEL, natural de Vila Rica, Ouro Prêto. Formou-se em Fi­
losofia (Física, Química e História Natural), em 16 de julho
de 1785. “ Foi um dos doze estudantes brasileiros, que se com­
prometeram, em reunião patriótica (em reunião maçônica)
a empregar todos os seu futuros esforços para alcançarem a
independência do Brasil. Depois de uma viagem por Inglater­
ra, onde se dedicou ao estudo da indústria manufatureira e
da química, voltou ao Brasil em 1788. Fiel ao compromisso
que em Coimbra tomara, entrou na conspiração mineira (cha­
mada Inconfidência Mineira), chefiada por seu cunhado Fran­
cisco de Paula Freire de Andrade. Alves Maciel, como ou­
tros, foi condenado à morte, sendo-lhe, porém, a pena comu­
tada em destêiTo de dez anos para Angola” . Foi encarregado
pelo Govêrno Português de montar uma fábrica de ferro na­
quela província, missão que executou. (2) E mais adiante
voltaremos a Alves Maciel, quando tratarmos da Inconfidên­
cia Mineira.
José Bonifácio de Ajidrada e Silva, natural de Santos,
í^ormado em Coimbra em Direito, e Matemática e Filosofia
(Física, Química e História Natural). Termina os cursos em
1787. “ As cartas régias de 15 de abril e 20 de maio de 1807,
que 0 nomeavam proprietário da nova cadeira de Metalurgia
(na Universidade) — criada por carta régia de 21 de janeiro

- L
146 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

do mesmo ano —, ordenavam que lhe fôsse conferido o grau


de doutor em Filosofia, sem defender teses, nem fazer exa­
me privado. Logo após o seu bacharelado em Filosofia, foi
admitido na Real Academia das Ciências de Lisboa e conse­
guiu, graças à proteção do duque de Lafões,. Uma pensão
(uma bolsa, diriamos hoje) para realizar (à custa da Coroa)
uma viagem ao estrangeiro, com o fim de completar os seus
conhecimentos. Depois de concluir o curso de Química e Mi­
neralogia em Paris, realizou viagens à Itália, Inglaterra, Ale­
manha, Suécia e Noruega” (3).
Em Freyberg, na Alemanha, vai ser discípulo de Werner,
naquele, tempo acatado mestre da ciência mineralógica. O
eminente sábio da Saxônia procedia à sistematização da Mine­
ralogia, tornando-a independente da Química Geral, para fa­
zer dela uma. disciplina autônoma, em que fossem estudados os
caracteres exteriores dos minerais, a fim de completar o tra­
balho feito pelo Prof. Romé de Lisle, através do exame cris-
tolográfico.
Werner dá-lhe lições de Mineralogia; Lempe aprofunda-o
nas Matemáticas Puras e aplicadas e na Mecânica; Kohler
explica-lhe o Direito e a Legislação das Minas; Klotzsch leva-o
a participar de ensaios químicos de minerais; Freislenben mi­
nistra-lhe ensinamentos de Química Prática e Lampadius en-
tremostra-lhe os mistérios da Metalurgia. Entrecruzavam-se,
nos corredores das escolas, nas salas de aulas e nos laborató­
rios, futuros cientistas de grande valor, condiscípulos do na­
turalista português e que viria a ser, depois, o maior estadis­
ta brasileiro e americano. Mais tarde escreveria o astrônomo
Karl Bruns, que alí estavam, nesse momento, os companhei­
ros de Humboldt, tempo adiante mestres da ciência: Leopoldo
von Buch, 0 dinamarquês Esmarck, o português Andrada, o
espanhol Del Rio. Êsses nomes ficaram inscritos na história
das ciências naturais como expoentes da cultura. Terminados
os cursos acadêmicos em Freyberg, José Bonifácio visita as
minas do Tirol, da Estíria e da Caríntia. Em Pavia, na Itália,
. 1,1 frequenta o curso de Volta, às voltas com a interpretação ra­
cional do descobrimento de Galvani. Passa por Turim e Pá-
i'i dua. Vai à Inglaterra. Conhece Priestley, rival de Lavoisier,
na nova Química. Na Escandinávia demora-se mais tempo.
Na Universidade de Upsala, Suécia, ouve as lições de Berg-

(1, 2, 3) Cf. Francisco Morais. "Estudantes da Universidade do Bra­


sil nascidos no Brasil” . Rev. “ Brasília” , sup. ao vol. IV. Coimbra,
1949.

p-
à
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 147

man. Aproveita as aulasi de Abilgaard na Universidade de


Copenhague. Foi colega de Berzelius. E visita as minas e
jazidas da Suécia e da Noruega, em Arendal, em Sahla, em
Krageros, em Langbansita. (4).
Nesses meios científicos, José Bonifácio está em contacto
com^ os Iluministas, organizados agora em Maçonaria. Luís
Antônio Verney também pertencera a ela. José Bonifácio e
Verney, como muitos dos melhores estudantes universitários
de Coimbra e Evora, foram escolhidos e para aperfeiçoar seus
estudos no estrangeiro, por conta da Coroa Portuguêsa. E es­
sa tradição vinha desde D. João III.

Os autos de devassa da
Inconfidência Mineira
Inconfidência quer dizer crime de lesa-majestade. Os
vassalos juravam defender o seu rei e dar a vida por êle, co­
mo no caso de Amador Bueno, o paulista que não quis ser rei
de São Paulo em 1641. E quando o vassalo cometia o per­
júrio, ou faltava ao juramento, praticava o crime de incon­
fidência. E isso já foi por nós estudado em capítulo anterior.
Nessas condições, o crime de inconfidência está assim ca­
racterizado:
“ Por ter chegado à minha notícia, que algumas pessoas
tinham formado nesta Capitania (de Minas Gerais) o teme­
rário e abominável projeto de uma sublevação contra a Ma­
jestade e legítima Soberania da Rainha Nossa Senhora, que
Deus guarde, conjurando-se entre si, pretendendo corromper
a fidelidade do povo e da tropa, e usando para o mesmo fim
de outros perversos e horrorosos m eios...” ( 1).
O trecho acima esclarece bem: os inconfidentes eram con­
tra a Rainha, isto é, contra a Monarquia Portuguêsa. Nesse
caso não se tratava, conforme dizem escritores da história, de
“ brasileiros” quererem a independência da “ colonia” . Ora, to­
dos os inconfidentes eram portuguêses, porque eram vassalos
da Rainha de Portugal, e porque o Estado do Brasil era uma
província da Monarquia Portuguêsa. Assim, os inconfidentes
eram portuguêses, sublevados contra a sua Rainha. E daí as
providências tomadas pelo governador da Capitania de Mi­
nas Gerais, ao mandar apurar os fatos, para “ conhecer não
(4) Cf. Tito Lívio Ferreira. “ José Bonifácio na Suécia” . Conf. realiz.
no Centro Cultural Brasil-Suécia. São Paulo. 1954.
148 T. L. FERKEIBA — M. B. FERREIRA

sòmente os autores e cúmplices de tão execranda maldade” .


I! E^te documento marca o início do inquérito ou devassa,
I|.’ além “ de todo o pernicioso sistema e progresso dela . (2).
ii;
K Traz a data de Vila Rica (Ouro Prêto), 17 de junho de 1789,
t íj
f
e a rubrica do Visconde de Barbacena, Luiz Antônio Furtado
*‘ de Castro do Rio de Mendonça, governador de Mmas Gerais.
E o processo fôra aberto para apurar as responsabilidades
criminosas de portuguêses revoltados contra a Monarquia
Lusitana.
Decorrido um ano, a Rainha confirma os termos do gover­
nador da Capitania;
“ Sebastião Xavier de Vasconcelos Coutinho, do meu Con-
seUio, do da minha real Fazenda e Chanceler nomeado da Re-
lação’ do Rio de Janeiro. Eu, a Rainha, vos envio muito saudar.
Sendo-me presente o horrivel atentado contra a minha real
soberania e suprema autoridade, com que uns malévolos, in­
dignos do nome PORTUGUÊS, habitantes da Capitania de
Minas Gerais, possuidos do espírito de infidelidade conspiraram
perfidamente para se subtraírem da sujeição deirida ao mcu
alto e supremo poder que Deois me tem confiado, pretCTMlen-
do corromper a lealdade de alguns dos meus fieis vassalos mais
distintos da dita Capitania e conduzir o povo inocente a uma
infofme rebelião” . (3)
à MAÇONARIA E A INCONFIDÊNCIA
O trecho sublinhado acima caracteriza claramente o cri­
‘ II me de inconfidência. Vassalos até então fieis manifestaram
o espírito da infidelidade. “ Conspiraram perfidamente” con­
tra a sua Rainha a quem juraram fidelidade; revoltaram-se
contra sua majestade, porque o seu poder era de origem divi­
na. Evidencia-se, por essa forma, a doutrina da Maçonaria
íranca atividade em Paris, por essa altura de
1890. Assim, os portuguêses, maçons e inconfidentes minei­
ros estavam todos filiados ao mesmo princípio da Franco-
;1 Maçonaria. Todos eram maçons e todos eram portuguêses,
nascidos no Brasil ou nascidos em Portugal. Para os inconfi-
íi! en ^ ermelhos a pátria já não era o lugar do nascimento,
')
situado em tem tono do Império Lusitano. Os maçons “ Verme-
TYinc Q consideravam como a pátria não a nação
T ífla iJ to ’^®P'i^li«anizada, e não sòmente o lugar on-
marnnt ^ coletividade na qual se formara. Assim, os
maçons republicanos sonhavam então com uma República única
extensiva a todo o Universo.
Nessas condições, os inconfidentes eram vassalos rebela*
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 149

dos contra a Monarquia Portuguêsa e não contra Portugal ou


contra os portuguêses, porque todos eram portuguêses, natu­
rais da América ou naturais da Europa. Mas se todos eram ma­
çons, onde borbulhavam os ideais maçónicos de liberdade, nem
todos comungavam as mesmas idéias revolucionárias. Havia
xnaçons “ Vermelhos” republicanos, assim como havia maçons
“ Azuis” monarquistas. Êstes em menor número, está claro.
Aqueles teriam debatido nas sessões da “ oficina” instalada em
Ouro Prêto, a possibilidade imediata de se proclamar a Re­
pública na Capitania de Minas Gerais. Como revolucionários
“ Vermelhos” defenderiam, com veemência, com calor, com entu­
siasmo, a “ sua” República. Eram maçons “ Vermelhos” republi­
canos. Já os outros, maçons “ Azuis” monarquistas, liberais mo­
derados, entram em conflito com os companheiros. E daí não
hesitarem em denunciar a inconfidência, isto é, o crime de in­
fidelidade à Rainha.
A INCONFIDÊNCIA MINEIRA E A
REVOLUÇÃO FRANCESA
O mesmo fenômeno observa-se na Revolução Francesa.
Desencadeada pelos adeptos da Maçonaria, o seu ideal po­
lítico e social objetiva dar ao regime o sistema de Monarquia
constitucional, com uma dinastia, não mais de origem divina:
mas uma dinastia consentida, tal qual na Inglaterra. Trinta
anos mais tarde, D. João VI, rei do Brasil e Portugal, estaria
nas mesmas conjunturas de Luiz XVI, rei da França. Em 1821
os maçons coagiram D. João VI a jurar as bases de uma Cons
tituição igual à da Espanha, de 1812. Uma Constituição ine­
xistente. Em 1791 a Franco-Maçonaria obriga Luiz XVI a acei­
tar a primeira Constituição Francêsa. Em seguida os maçons
“ Vermelhos” , republicanos, empolgam a revolução e dominam
os maçons “ Azuis” monarquistas, dominando-os, anulando-os,
abatendo-os. O mesmo fato verifica-se no seio da loja maçônica
em Ouro Prêto. Os “ Vermelhos” quiseram dominar e anular os
“ Azuis” . Êstes consideram-se traidos pelos companheiros. Re­
solvem denunciar a conspiração ao Governador da Capitania,
também maçon-“ Azul”-monarquista. O Visconde de Barbacena
filiara-se à Maçonaria em Coimbra, quando frequentava a Uni­
versidade. Recebido o grau de formatura, logo fora nomeado
secretário da Academia de Ciências de Lisboa. E de lá fôra
despachado Governador da Capitania de Minas Gerais.
A cisão verificada na loja maçônica de Ouro Prêto, entre
maçons “ Azuis” e maçons “ Vermelhos” , aqueles monarquistas
constitucionais e êstes republicanos revolucionários, revela co-
t
l

T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA
150
mo 0 ideal maçônico da liberdade estava bi-partido. Dois pon­
tos de vista surgiam, diametralmente opostos. A túnica in-
consutil da liberdade dividia-se em duas partes. Êsses dois
partidos lutariam í^elo tempo adiante, ora surdamente, ora
abertamente. Na Inconfidência Mineira a reação foi imediata.
Dois anos mais tarde, na Revolução Francêsa, verifica-se o
mesmo. E daí o movimento dos maçons “ Vermelhos” de Minas
Gerais ter fracassado ao esbarrar com a resistência ativa dos
maçons “ Azuis” chefiados pelo Governador da Capitania.
Se na Revolução Francêsa os maçons “ Azuis” entram como
fôrça passiva dominada pelos companheiros maçons “ Verme­
lhos” de forma a ficarem anulados e vencidos; já na Inconfi­
dência Mineira observa-se o contrário: os maçons “ Azuis” cons­
tituem a fôrça vencedora dos maçons “ Vermelhos” , dominan-
do-os. Porque o fato de estarem filiados à mesma “ loja” , à
mesma “ oficina” , não os obrigava a com\mgarem o mesmo
ideal revolucionário, embora comungassem o mesmo ideal de
liberdade. Em teoria todos estavam unidos; todos pertenciam a
iraa única loja ideal, assim como homens de várias naciona­
lidades pertencem, em conjunto, à humanidade. Isso não impor­
tava em abjurar os próprios princíjS^os da consciência, quando
nã^o colidiam com a liberdade. Daí o cisma da Inconfidência
Mineira, ter aniquilado os sonhos dos maçons “ Vermelhos” ,
não d^truiu a Maçonaria como fôrça secreta a serviço da
Uberdade Os maçons “ Azuis” continuam a lutar por mais um
seculo pela Monarquia até serem vencidos. E cem anos mais
tarde em 1889, os maçons “ Vermelhos” , depois das inconfiden-
r* ’ ^ 1817 e 1824, em Pernambuco e de 1835,
riric contar os movimentos revolucioná-
oc todos com o mesmo fim, conseguem realizar

Q PRIMEIRO DENUNCIANTE

qute Silvério Hn Campo, 11 de abril de 1789, Joa-


Cavalaria dos Campos ^
nas Gerais: isconde de Barbacena, Governador de Mi-

salo Í^^ÇOsa obrigação que tenho de ser leal vaS'


c r r i o n ^ ' ^ Soberana, ainda apezar de se m e tirar «
dado para a Protestou, na ocasião em que fui convt-
por na presença de T ® prontamente passei
y ^ença de V. Eixcia. o seguinte” . (4).

i
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 151

À margem do documento lê-se: “ Escrita na Cachoeira e


entregue pessoalmente no dia dezenove de abril (de 1789)
Joaquim Silvério dos Reis alega, logo de início, a sua “ for­
çosa obrigação” de “ ser leal vassalo” da Rainha de Portugal.
Êsse dever de vassalagem leva-o a denunciar, como maçon
“ Azul” , os companheiros maçons “ Vermelhos” , embora êles te­
nham-no ameaçado de morte, no momento em que, na “ ofici­
na“ , o assunto foi explanado. Não sòmente êle, mas ao compa­
nheiro cuja missão falhasse. E isso fazia parte do código secre­
to da Maçonaria.
Quase ao findar a carta, o denunciante reafirma:
“ Ponho todos êstes importantes participantes na presen­
ça de V. Excia., pela obrigoição que tenha de fidelidade (à
Rainha de Portugal e à Monarquia), não por (que) o meu in­
tento nem vontade sejam de ver a ruina de pessoa alguma,
o que espero em Deus que com o bom discurso de V. Excia.,
há de acautelar tudo e dar as providências, sem a perdição d05
vassalos. O prêmio que peço tão sòmente a V. Excia., é o ro­
gar-lhe que pelo amor de Deus se não perca ninguém” . (5).
O VASSALO E O PATRIOTA
Das próprias palavras de Joaquim Silvério dos Reis se
observa: a) a obrigação de vassalo fiel leva-o a denunciar os
companheiros; b) não quer a desgraça de ninguém; c) espe­
ra que o Governador, remova todos os obstáculos sem sacrifi­
car os vassalos de sua majestade.
Por que o denunciante insiste na declaração de sua fideli­
dade de vassalo a sua majestade? Porque a sua psicologia de
vassalo era diametralmente oposta à mentalidade atual do ci­
dadão. O vassalo jurava fidelidade e lealdade ao rei por quem
dava a própria vida . Assim, Amador Bueno se declara vassalo
del-rei D. João IV de Portugal. Em 1792 os maçons “ Verme­
lhos” da Revolução Francêsa liquidaram com as obrigações do
vassalo e substituiram êsse nome pelo de patriota. O vassalo
quebrava êsse juramento, praticava o crime de inconfidência.
O patriota substitui o rei sagrado pela bandeira sagrada. E o
juramento de fidelidade ao rei é mudado em juramento à ban­
deira nacional, pelos patriotas.
O VASSALO JULGADO PELO PATRIOTA
Os historiadores filiados à história romântica, em come­
ços do século passado, atribuiram-se o direito de julgar os
(1, 2, 3, 4, 5) Cf. Autos da Devassa da Inconfidência Mineira vol. 1,
152 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

vassalos pelos sentimentos, pelas idéias, pelas ações dos pa-


trictas. Ignoravam que a sociedade medieval formara a psico­
logia do vassalo. Também não sabiam que depois da Revo­
lução Francesa a mentalidade humana fôra completamente mo­
dificada. E daí julgarem que o vassalo e o patriota pensavam,
sentiam e agiam da mesma forma.
Por isso mesmo, já há cem anos, por volta de 1849, Alexis
Tocqueville em sua obra “ L* Ancien Régime” (O Antigo Re­
gime) observara como os historiadores românticos se engana­
ram. São dêle estas palavras:
“ Ê preciso ter cuidado em avaliar a baixesa dos homens
pelo grau de sua submissão ao soberano poder. Submetidos
que estavam os homens do Antigo Regime à vontade do rei, ha­
via uma espécie de obediência, que lhes era desconhecida: não
sabiam o que era dobrar-se a um poder ilegítimo ou discuti­
do, que pouco se respeita e a miudo se despreza, mas cuja fôr­
ça se sofre pibrque pode ser util ou temível. Esta forma degra­
dante do servilismo foi-lhe sempre estranha. O rei inspirava-
lhe sentimentos que nenhum dos príncipes mais absolutos apa­
recidos depois no mundo, puderam fazer brotar, e que, ao mes­
mo tempo, se tornaram incompreensíveis, pois a Revolução
(Francêsa) os arrancou de nosso coração até a raiz. Êles (os
vassalos) tinham pelo rei a ternura que se sente por um pai,
e, ao mesmo tempo, o respeito que se deve sòmente a Deus.
Submetendo-se às suas ordens mais arbitrárias, cediam menos
à coação que ao amor e ocorria-lhes a miudo conservar sua al­
ma livre, mesmo até na mais extrema dependência. Para êles,
0 maior mal da obediência era o constrangimento; para nós ou-
temos êsse direito. Prouvera a Deus que pudessemos tornar e
encontrar, com seus prejuizos e defeitos, algo de sua gran­
deza!” (6). » 5 6
O critério dos historiadoreg românticos ainda continua
nos escritores da história. Daí a linguagem equivoca emprega­
da por êles, reveladora do seu desconhecimento científico. Daí
o uso e o abuso da palavra “ colônia” empregada nos mani­
festos políticos de antes e depois da separação do Reinoi do
Brasil ^do Reino de Portugal, para com aquela palavra desig-
nar o ^ t i g o Regime” , isto é, um sistema político oposto ao
então vigente o Reino. A palavra “ colônia” enraizou-se que
nem tiririca nos jardins da cultura. E os cultores dela recor­
rem a dicionários para explicar-lhe o sentido.

(6) W. Tito Lívio Ferreira e Manoel Rodrigues Ferreira. “ História da


Civilização Brasileira” , ps. 41-59. Gráfica Biblos. São Paulo, 1969.

\
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILBIRA I 53

O SEGUNDO DENUNCIANTE

Brasílio de Brito Malheiro do Lago é segundo denuncian­


te. Assim como o primeiro, o segundo informara o governa­
dor verbahnente sôbre o assunto. Em obediência às ordens do
Visconde de Barbacena, faz a denúncia por escrito. A sua
carta é de Vila Rica, 15 de abril de 1789. Ouvira Tiradentes
pregar a revolução abertamente. Na rua escutara Manoel An­
tônio de Morais proferir estas palavras: “ O Tiradentes anda
morto por um levante” . Como abominava tudo o que era.
traição (a sua majestade, porque era vassalo), Malheiro re­
preende 0 Morais dizendo:” . . . semelhantes paJavras ninguém-
as proferia e que eu as não queria ouvir; surpreendeu-se o
Morais, e eu fui andando, e não soube mais cousa alguma; mas;
fiquei com u*a desconfiança muito grande porque sempre co--
nheci desde que vim para a América (Brasil), nos nacionais:
dela, (Portuguêses nascidos aqui) um interno desejo de se sa­
cudirem fora da obediência que devem prestar (a) os seus le­
gítimos soberanos, mas antes patenteam u*a anterior vontade
de jazerem do Brasil u’a Republica livre, assim como fizeram
os Americanos In gleses...” Não se trata de animosidade en­
tre portuguêses do Brasil e portuguêses da Europa. E cuida-
se de fazer uma República a mais nas Américas.
A carta-denúncia de Malheiro do Lago continua. Refe­
re-se a um encontro na estalagem das cabeças. Disse-lhe José
Joaquim de Oliveira: — “ Sabe que mais sr. tenente-coronel,
aqui disseram hoje que está para haver um levante nas Mi­
nas. Bem conheci eu que aquêle moço o fazia materialmente,
por 0 fazer sem cautela algimia; mas como a minha descon­
fiança já era muito grande, não lhe respondi mais do que —
Só se for um levante de putas — e fui entrando para o meu
quarto, e nunca mais lhe perguntei por semelhante matéria.
Conta ainda outros encontros. E diz: “ Falando com o cônego
Luiz Vieira êsse não encobre a paixão que tem de ver o Brasil
feito na República; abonou o Tiradentes de um homem ani-
moso, e que se houvessem muitos com êle, que 0 Brasil era u*a
República florente, e que um Príncipe europeu não podia ter
nada com a América, que é um Pois livre (não uma colonia
como querem os colonialistas românticos), e que el-Rei de
Portugal nada gastou nesta conquista, que os nacionais (por­
tuguêses e não brasileiros) já a tiraram dos holande^s, fa­
zendo a guerra à sua custa, sem el-rei contribuir com dmheuro
a l^ m DMa ela depois disto que os francêses que tomaram
o Rtó de "aneiro e q L os avitadores (sic) lha compraram com
154 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

O seu dinheiro, e ultimamente, concluiu, que esta terra não


pode estar por muito tempo sujeita ao Rei de Portugal, por-
que os nacionais (êle não diz brasileiros) dela, querem tam­
bém fazer corpo de Repuhlicci; e outras cousas semelhantes
que tôdas se encaminham (para) o fim da liberdade (a pala­
vra empregada pelos maçons) j e que se quer fazer uma re­
volta é sem dúvida, a forma como a tem trazido não sei .
Os parênteses são nossos, semptre que aparecerem. .
O INGLÊS” EM C E N A V ^^^'-^
A certa altura escreve Malheiro do Lago: “ Eu quando
vim do Cerro encontrei em caminho o inglês Nicolau Jorge,
que o fiscal dos diamantes Luís Beltram trouxe consigo de
iisboa para o Serro Frio, e dizendo eu (a) o Capitão Vicen­
te Vieira da Mota que encontrara o inglês que ia para o Ser­
ro, disse-me o tal Mota: que vai para lá uma boa fazenda; an-
"dava por aqui falando que o Brasil podia fazer como a Amé­
rica Inglêsa; e que perguntara a êle o dito Mota, por estas pa­
lavras: unicamente se os nacionais do Brasil fizerem uma Re­
pública, qual partido ha de (havia) de seguir? o de Realista
ou de Republicano? Ao que o dito Mota lhe respondera, eu
hei de ser pelo meu Rei. Isto do inglês mo contou como levo
dito 0 Capitão Vicente Vieira da Mota” .
Mais adiante falaremos do “ inglês” que era irlandês, per­
sonagem misterioso cuja aparição não deixa de ser interessan­
te neste drama.
Logo depois, Malheiro do Lago refere-se aos boatos cor­
rentes. Dizia-se que o Governador Barbacena trouxera instru­
ções do ministro Martinho de Melo, “ para que governasse de
forma nãc| permitir que homem algum de Minas possuisse
mais de dez mil cruzados, e se não tivesse por onde lhes pe­
gar, que os prendesse por inconfidentes e os mandasse para lá” .
Aqui, pela primeira vez se escreve a palavra inconfidente, cujo
sentido, já se sabe, caracteriza o crime de lesa-majestade. E
o denunciante encerra: “ Tenho exposto a V. Excia. o que te­
nho alcançado; e sei que assim o devia fazer em razão de ser
vassalo leal e honrado. V. Excia. fará o que for mais util a
Sua Majestade fidelíssima e os seus vassalos que são íicis .
E Malheiro do Lago insiste na palavra vassalo leal, fiel e hon­
rado. (7)

O TERCEIRO DENUNCIANTE
Inácio Corrêa Pamplona é o terceiro denunciante
confidencia Mineira. Assim começa a carta dirigida ao Vis-
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILBIRA I 55

conde de Barbacena: “ E fatal a minha consternação. Tomara


achar u’a justa idéia que bem pudesse mostrar a V. Excia., 0
importante pêso destão árdua como interessante ação. Ela me
faz conspirar para imediatamente representar a V. Excia. o
caso tão horroroso para as atendiveis circunstâncias tão deli­
cadas” . Observe-se, por êste comêço, que Pamplona entra nos
conciliábulos do levante, toma parte neles, mas não os aceita.
Em seguida, mdaga: “ Em ofensa ao sagrado respeito (devi­
do ao R ei), e se o insulto (feito a Sua Majestade) se compro­
va, aonde está 0 juramento dêstes delinquentes, a jé do leal
vassalo, e a promessa de darem até a última gota (pelo
R e i)?” As palavras entre parêntese são nossas, para explicar
melhor o período e o pensamento de Pamplona. E daí já se
vê como se trata de crime de inconfidência, porque o denun­
ciante continua: “ Esta tão relevante ofensa, Exm.® sr., faz ódio
até às nações mais bárbaras” .
Feita esta observação, continua: “ Todos devemos pensar
que V. Excia., é o brasão em que a nossa soberana descansa
nesta Capitania, a quem compete exatíssimamente 0 rigoroso
exame da origem e fonte donde tudo nasce” . Relata a seguir a
conversa com o_ vigário Carlos Corrêa de Toledo. E êste logo
lhe explanou todo o plano do levante.
Pela carta de Pamplona tôda a gente já sabia do levante.
Por isso o missivista escreve ao Padre Toledo para avisá-lo
de que estava doente e não iria ao encontro marcado. Lida a
carta, informa o portador, o vigário se puzera a passear e a
bater com a carta na cabeça, para dizer depois: — “ Se te que­
res ir, em cima daquela mesa está o vestido, leva-o que a doen­
ça do teu senhor é de mentira” . E o denunci^te conclui: “ È
o que posso dar para V. Excia. por as providências que a sua
sábia compreensão sabe a benefício da nossa soberarw^ e do
bem público**, A carta é de 20 de abril de 1789. ( 8).
Das cartas dos denunciantes se conclui que 0 levante ti­
nha por fim proclamar a República em Minas Gerais; que o
movimento sedicioso era contra a Monarquia e contra a di­
nastia de Bragança; e, finalmente, que nenhuma animosidade ha­
via entre portuguêses da Europa e portugueses da America^.^
Assim, havia um grupo de portuguêses maçons Vermelhos
com idéias republicanas. E contra êles estavam já os maçons
“ Azuis” , monarquistas e vassalos de sua majestade.

(7, 8) Cf. Autos da Devassa da Inconfidência Mineira, vol, 1.


156 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA
^ i*

I ENTRA EM OENA UM EMBUÇADO


* Como não poderia deixar de ser, ao se tratar da Maçona-
ria, um embuçado havia de surgir no momento oportuno. A 11
de janeiro de 1790, na casa de residência do Desembargador
Pedro José Araújo de Saldanha, Ouvidor Geral, da Comarca
de Nossa Senhora do Pilar de Vila Rica de Ouro Prêto, êle
declarara: “ que no dia dezenove de maio do ano pretérito, con­
tara o Desembargador Tomás Antônio Gonzaga ao tenente.co­
ronel do Regimento de Cavalaria regular Francisco de Paula
Freire de Andrade, que na manhã daquele dia, indo a sua casa
o Bacharel Diogo Pereira Ribeiro de Vasconcelos, advogado
nesta vila, lhe dissera a novidade, de que certo embuçado ti­
nha ido em a noite antecedente ao quintal do Bacharel Cláu­
dio Manoel da Costa, advogado também nesta vila, e que ba­
tendo-lhe em \mia janela, saindo a ela o dito Cláudio, aquêle
rebuçado o avisara, que certamente o prendiam, pelo que se
acautelasse e fugisse, sem contudo se desse a conhecer quem
era” .
Por esta declaração se conclui que o embuçado era ma­
çom porque ao bater na janela dos fundos do prédio de Cláudio
Manoel da Costa empregara a sinal convencionado, para de­
pois dar a senha, conforme o código secreto da loja.

PARECIA UM HOMEM COM


TRAJE DE MULHER
Entre os depoimentos de várias testemunhas, há o ates­
tado do ajudante de ordens do Governador de Minag Gerais,
Antonio Xavier de Rezende, escrito e assinado em V. Rica, 13
de janeiro de 1790. Chamado o Dr. Cláudio Manoel da Costa
a sua presença, foi4he perguntado pelo ajudante de ordens sô­
bre 0 embuçado. Responde o inquerido: “ Que era falso en-
mas sim acontecera que saindo
ele do seu escntono acompanhando uma visita até à porta da
ma, ja de noite, parara defronte dêle uma mulher, ou homem
disfarçado nesse traje, que êle não conhecera, pedindo-lhe que
o ouvisse em particular porque tinha cousa muito importante
que dizer por nenhurn modo entrar para dentro; e então alí
mesmo disse em segrêdo, que se ausentasse porque o haviam
de prender, e que se tivesse alguns papeis que lhe fizessem
mal, que os queimasse; e me certificou que êste fato sucedera
passados muitos dias depois da prisão do Desembargador To­
mas Antonio Gonzaga feita nesta Vila no dia 23 do ano pas­
sado” . (9).
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 157

Explica-se porque não se encontrou até hoje documento


algum comprometedor dos inconfidentes Talvw
o ^ ã o ” Cláudio Manoel da Costa o Uvro d T atfs I
da Loja Maçônica de Ouro Prêto. Conforme o aviso rec4T do
misteriosamente, esses papeis foram destruidos. Também foi
destruido o seu depoimento, dada a sua capital importância
Esse documento e mmto mais interessante para a história da
In con fid ên cia Mineira, do que saber se êle suicidou-se ou foi
•‘suicidado . Seus companheiros não se limitaram a consu­
mir-lhe com o depoimento, consumiram-lhe com a vida E as
suas declarações explicariam o mistério dêsse movimento ma-
çônico em prol da Republica.
Nicolau Jorge, irlandês, nada responde. Concorda com
tôdas as perguntas feitas. Nada falara a respeito de subleva­
ção, de República, nem de pessoa realista, defensor do Rei, nem
de ideais republicanos. Declara-se inocente. E daí ter desapare-
eido da cena.

0 PRIMEIRO DEPOIMENTO
DE TIRADENTES

A 2 de maio de 1789, na ilha das Cobras, no Rio de Janei­


ro, Tiradentes presta o seu primeiro depoimento. Perguntam-
lhe se êle dissera que os cariocas “ eram uns patifes, vis, que
era bem feito, que levassem com um bacalhau, visto que te­
riam de suportar o jugo, que tinham do govêrno da Europa,
do qual se podiam bem livrar, como fizeram os Americanos In­
gleses, e que se todos tivessem o seu ânimo já estaria isso exe­
cutado, pois êle se achava com valor de ir atacar o próprio
Vice-Rei no seu palácio, e que nas Minas certamente se levan­
tavam com o govêrno, e que seria bom, que o Rio de Janei­
ro e São Paulo dessem as mãos para a mesma emprêsa” ( 10) ,
Tiradentes respondeu, “ que era inteiramente faltar à
verdade, o dizerem que êle respondente tinha semelhantes pro­
posições; pois só se êle estivesse bebado, ou doido poderia tal
proferir, e que demais as pessoas indicadas não eram capazes
para lhe comunicarem tais intentos, quando os houvesse,
quais não houve” . A resposta é prudente e meditada. Res­
ponde negativamente a tôdas as perguntas sem acusar nin­
guém, sem citar um nome. Nos três interrogatórios seguintes
mantem-se na defensiva. Seis meses niais tarde, a 1 ^ de ja­
neiro de 1790, no quarto depoimento, já êle teria recebido or­
dem dos “ irmãos” para assumir a responsabilidade do movi­
mento. Por isso, não foge ao seu dever de maçom comprome­
158 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

tido. Respondeu, “ que êle até agora negou por querer encobrir
a sua culpa, e não querer perder ninguém; porém à vista das
fortíssimas instâncias com que se vê atacado, e a que vê não
póde responder direitamente senão faltando e conhecidamente
à verdade, se resolve a dizê-la, como ela é: que é verdade, que
se premeditava o levante, que êle respondente confessa ter
sido, quem ideou tudo, sem que nenhimia outra pessoa o mo­
vesse, nem lhe inspirasse cousa alguma, e que tendo projetado
o dito levante, o que fizera desesperado, por ter sido preterido
quatro vêzes, parecendo a êle respondente, que tinha sido mui­
to exato no serviço, e que achando-o para as diligências mais
arriscadas, para as promoções e aumento de postos achavam a
outros, que só podiam campar por mais bonitos, ou por terem
comadres, que servissem de em penho...” ( 11 ) .
O motivo principal alegado por Tiradentes não bastaria pa­
ra fazer uma revolução social; nem tão pouco os inconfiden­
tes o haviam de considerar suficientes para fazer correr o san­
gue do povo. Tiradentes confessa ter-se avistado com José Al­
vares Maciel, recem-chegado da Inglaterra. Êste dissera-lhe
que os europeus se admiravam do Brasil não ter seguido o
exemplo da América Inglêsa. Tiradentes dissera-lhe “ que esta
terra se fizesse República e ficasse livre dos govêmos que só
vêm ensopar-se em riquezas de três em três anos, e quando
êles são desinteressados sempre têm uns criados, que são uns
ladrões, e que as potências estrangeiras se admiravam de que
a América Portuguêsa se não subtraísse da sujeição de Por­
tugal, e que elas (entenda-se a França e os Estados Unidos da
América do Norte) haviam de favorecer êste intento” . Em
nenhum momento o depoente falou de brasileiros descontentes
com os portuguêses, porque êle também era português.
Tiradentes fala da bandeira da nova República: um triân­
gulo (símbolo maçônico) significando as três pessoas da San­
tíssima Trindade. O Coronel Inácio José de Alvarenga era de
opinião que deveria ser um índio desatando as correntes
como uma inscrição latina. A preocupação de Tiradentes era
a República. Assim, quando êle fôra ao Rio de Janeiro, disse­
ra-lhe que “ ia ver em que altura estavam êsses socorros de
França, que esperavam para se fazer a República do Rio de
Janeiro primeiro, que depois a de Minas com o exemplo do
Rio era muito fácil, que os povos de Minas eram uns baca­
martes faltos de espírito e de dinheiro” . E assim^ todos os
inconfidentes eximiam-se de responsabilidades assumidas
ra por Tiradentes ( 12) .
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A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 159

CARGA CERRADA EM TIRADENTES *


O Cônego Luiz Vieira da Silva responde ao juiz presidente
do inquérito, que na cidade do Rio de Janeiro andava “ um Al-
feres, chamado por alcunha — o Tiradentes —, de cujo^ no­
me se não lembra, convocando gente para um levante, e ha­
vendo quem dissesse isto mesmo ao Ilm". e Exm®. sr. Luís da
C^nha e Menezes, que então governava a dita Capitania, êle
dissera que dessem naquele maroto com um chicote, porque era
um bêbedo, e que desde então até ao tempo em que prende-
rani o Desembargador Tomás Antônio Gonzaga e outros, nada
mais ouviu a êste respeito; depois das ditas prisões entrou-se
a romper que o mesmo Alferes Tiradentes andava por Vila
Rica por casa de várias meretrizes a prometer prêmios para o
futuro quando se formasse a República” .
À pergimta sôbre govêmo nacional ou europteu, respondeu;
“ Alguém há de ter direito a êstes países; os nacionais não,
que são oriundos da Europa, (luso-descendentes) e não nasce­
ram vassalos; logo todo o direito do país (e não colônia, con­
forme a linguagem da véspera da Independência) pertence ao
seu Soberano (ao Rei de Portugal); a Bahia ou Pernambuco
foi restaurado dos Holandeses com as armas do mesmo Sobera­
no é falso que a majestade não gastou nada sua conquista; pois
da história consta o contrário e por estas razões têm os Monar­
cas portuguêses todo o direito a êstes países; êstes são, e foram
semprè os sentimentos dêle respondente, e há quem diga o
contrário, só pode proceder de um ânimo danado, e de inten­
ção tão péssima, que queira perder a êle respondente por ês­
te meio, e assim mal poderia ter semelhantes conversas com
pessoa alguma” . E todos agora fazem carga cerrada em Tira­
dentes como se fôsse essa a palavra de ordem (13) .

A DEFESA DOS INCONFIDENTES


Nomeado advogado dos inconfidentes, o Dr. José de Olivei­
ra Fagundes, natural do Rio, apresenta ao Tribimal da Incon­
fidência a defesa dos réus, nome por nome. Assim, “ quanto ao
réu Alferes Joaquim José da Silva Xavier. P. que, sendo êste
o primeiro réu, que nos patenteiam as devassas e apensos, e o
que impestou a todos os outros miseráveis, que se fizeram viti­
mas do desprêzo com que ou sòmente ouviam as suas conver­
sações, ou mostravam concordar com elas, acha-se sem a me-
(9 10, 11, 12, 13) Cf. AutoB da Devassa da Inconfidência M inei»
vol. 4.
160 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

nor dúvida provado ser êle conhecido por loquaz, sem bens,
sem reputação, sem crédito para poder sublevar^ tão grande
número de vassalos quantos lhe seriam indispensáveis para o
imaginário levante contra o Estado, e alto poder de Sua Ma­
jestade em uma Capitania como a de Minas Gerais, cercado
de outras, de grandes ^ extensas povoações, cujos habitantes e
vassalos se honram do nome Português e de serem legítimos
descendentes dos que na paz e na guerra sempre foram fiéis
executores das Reais ordens”, isto é, das ordens de Sua Ma­
jestade.
Quanto ao réu Tenente-Coronel Francisco de Paula Frei­
re de Andrade, cuja fidelidade ao Rei, como vassalo e co­
mandante do seu Regimento, não podia ser posta em dúvida,
I •
bem conhecia a “ impossibilidade de se poderem verificar (tais
idéias) em um país onde quase todos os vassalos que o habi­
tam são legítimos Portuguêses, e descendentes dos que o vie­
ram povoar (e não colonizar), mandados pelo Senhor Rei D.
Manoel e seus aug^istos sucessores, desde que se descobriu esta
ij América (e não esta colônia)” .
E o Dr. José de Oliveira Fagundes encerra o seu arrazoa­
do com estas palavras: “ P. que nestes termos e nos melhores
de direito, repetida a vênia implorada no princípio dêstes em­
bargos, esperam os réus, que se recebam e se hajam por pro­
vados, julgando-se a uns dos réus totalmente inocentes, e que
o delito de outros merece a piedade de Sua Majestade, a quem
humildemente pedem perdão as suas loucuras e insânias.”

O CRIME DE INCONFIDÊNCIA
OV DE LESA-MAJESTADE
Recebia a defesa, “ acórdão em relação os da Alçada, etc.” .
Iniciam os juizes do Tribunal da Inconfidência: “ Mostra-se
que na Capitania de Minas alguns vassalos da dita Senhora
(Rainha de Portugal), animados do espírito de pérfida ambi­
ção, forrnaram um plano para se subtraírem da sujeição e
obediência (a que estavam obrigados todos os vassalos) de­
vida á mesma Senhora; pretendendo desmembrar e separar do
Estaúo (do Brasil) aquela Capitania, para formarem uma Re­
pública independente, por meio de uma formal rebelião, da
qual se erigiram em chefes” .
A sentença menciona o plano urdido com o “ mais inviolá­
vel silêncio” , tramado “ pela infidelidade e perfídia” . Nesse
caso, “ não só os chefes cabeças da Conjuração, e os ajudado-
res da rebelião se constituíram réus do crime de lesa-majesta^
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 161

. primeira cabeça (da Rainha de Portugal), mas também


abedores e consentidores dela pelo seu silêncio; sendo tal
^^maldade e prevaricação dêstes réus, que sem remorsos fal-
^ Sm á mais recomendável obrigação de vassalos e de católi-
s e sem horror contraíram a infâmia de traidores, sempre
gerente e anexa a tão enorme e detestável crime’\
Assim, os juizes procuram caracterizar, com tôda a clare­
za 0 crime de inconfidência, isto é, crime de lesa-majestade pra­
ticado por vassalos para com o seu soberano. E nessas condi­
ções deviam ser condenados pelo Tribunal de Inconfidência.

t ir a d e n t e s SENTENCIADO
Para melhor compreensão do movimento republicano pla­
nejado pelos inconfidentes de Minas Gerais, observe-se como
os juizes insistem no crime de lesa-majestade praticado por
vassalos. Esses vassalos haviam jurado obediência, haviam ju­
rado fazer a defesa do Rei, haviam prometido dar a vida pelo
seu soberano. Tal juramento, prestado pelo vassalo então, equi­
vale hoje ao juramento feito pelo cidadão perante a Bandeira
Nacional. E a Bandeira Nacional substituiu, simbòlicamente, o
Rei, também o símbolo da Pátria.
Por isso, a sentença começa: “ Mostra-se que entre os che­
fes e cabeças da Conjuração o primeiro que suscitou as idéias
de República foi o réu Joaquim José da Silva Xavier, por al­
cunha 0 Tiradentes, Alferes que foi da Cavalaria paga da Ca­
pitania de Minas (Gerais), o qual há muito tempo que tinha
concebido o abominável intento de conduzir os povos daquela j;
Capitania a uma rebelião, pela qual se subtraíssem da justa j
(justa, isto é, legítima) obediência — a devida à dita Senhora
(Rainha), formando para êste fim públicamente discursos se­
diciosos, que foram denunciados ao Governador de Minas, an- j
tecessor do atual, e que então sem nenhuma razão foram des­
prezados” .
Aqui os juizes fazem velada acusação ao antecessor do Vis­
conde de Barbacena por não ter tomado imediatamente as
providências necessárias contra os sediciosos. Era o Visconde
de Barbacena maçom “ Azul” , pertencia à mesma Ordem, em­
bora não estivesse de acôrdo com os maçons “ Vermelhos” . Ês­
tes lutavam pela República, aquêles defendiam a Monarquia.
Nessas condições, continua a sentença: “ Suposto que aquê­
les discursos não produzissem naquele tempo outro efeito mais
^0 que o escândalo e abominação que mereciam, com> tudo,
como réu, viu que o deixaram formar impunemente aquelas
162 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

criminosas práticas, julgou por ocasião mais oportuna para


continuá-las com maior eficácia, no ano de mil setecentos e oi­
tenta e oito, em que o atual Governador de Minas tomou posse
do govêrno da Capitania.” Dêste trecho depreende-se que o
plano da rebelião republicana já vinha sendo elaborado antes
do ano de 1789, quando foram presos os inconfidentes. E fôra
conhecido do govêmo anterior.
Em seguida fala “ do quinto do ouro, que tirassem nas
Minas, que são um direito real em tôdas as Monarquias” . O
quinto do ouro corresponde a vinte por cento de ouro de vinte
e quatro quilates. Assim, numa barra de ouro puro, dividida
em cinco partes, um quinto pertencia ao Rei, como imposto
justo. As restantes quatro partes pertenciam ao seu legítimo
dono, o proprietário da mina.

A REPÚBLICA MINEIRA E AS
REUNIÕES DA MAÇONARIA
A sentença acusa Tiradentes e seus companheiros de que­
rerem, com a “ infame conjuração”, estabelecer na Capitania
TI
de Minas Gerais uma República independente. Para isso reu­
''i niam-se em “ conventículos” , em sessões secretas. Fala ainda
em “ torpes ,exacrandos conventículos” , em “ abomináveis con­
ventículos” , em “ escandalosas e horrorosas assembléias” , onde se
■i- “ ideou a forma da bandeira que devia ter a República” , onde
se tramava em prol da “ liberdade” , com “ socorros de potên­
cias estrangeiras” , enfim, de todos os objetivos planejados pela
Maçonaria “ Vermelha” .
Tiradentes recebera ordem para assumir tôda a responsa­
bilidade do malogrado movimento. Aceitou a idéia de sacrifi-
car-se pelo ideal republicano. Deu a sua vida pela dos compa­
nheiros. “ Tanto se reconheceu réu criminoso de lesa-majesta­
de de primeira cabeça (Cláudio Manoel da Costa), horrorizado
com o temor do castigo, que merecia, pela qualidade do delito,
que logo depois das primeiras perguntas que lhe foram feitas
foi achado morto no cárcere onde estava, afogado com uma
liga” .
Insistem os juizes do Tribunal de Inconfidência em afir­
mar que os réus, “ chefes da conjuração, que a idearam e ajus­
taram, nos conventículos, que fizeram, ainda há outros qu®
se constituíram criminosos de lesa-majestade e alta trai­
ção” (14).
?■
1. ‘ (14) Cf Autos da Devassa da Inconfidência Mineira Vol. 7.
A MAÇONARIA NA INDEPBNDÊNCU BRASILBIRA 16a

Assim, Tiradentes é condenado à pena capital, ou de en­


forcamento, por ter praticado o crime de lesa-majestade. E por
isso foi 0 herói da Liberdade nas Américas.
Era prematuro o movimento republicano dos inconfidentes
mineiros de 1789. Mesmo na Nova Inglaterra, hoje Estados Uni­
dos da América do Norte, a idéia da República aparece após
quatro anos de luta civil, entre inglêses da América do Norte,
ou americanos inglêses, como eram chamados, e os inglêses da
Grã-Bretanha E dp trabalho de Benjamin Franklin, maçom
Vermelho” , contra os pendores da “ loja” de Filadélfia, nasce a
República dos Estados Unidos da América do Norte.
Benjamin Franklin também dirige, orienta e desencadeia
a Revolução Francesa, conforme vimos em capítulos anteriores.
Assim, a Maçonaria desdobra o movimento revolucionário em
duas partes. Em 1789 faz a revolução monárquica, isto é, ope­
ra-se a abolição do “ antigo regime”. Antigo regime era a Mo­
narquia sem constituição. Conserva a Monarquia com cons­
tituição, com rei constitucional e dinastia consentida. Em 1791
os jacobinos, isto é, os maçons “ Vermelhos” e republicanos,
vencem, na Assembléia, os maçons “ Azuis” e monarquistas.
Guilhotinam o rei Luís XVI. Liquidam com a dinastia de ori­
gem absolutista. Começa a revolução republicana. E os ma­
çons “ Vermelhos” , republicanos, implantam a República Fran­
cesa.
A Inconfidência Mineira subdivide-se logo de início: de
um lado, os maçons “ Azuis” , monarquistas, vassalos fiéis da
Rainha e do sistema; de outro, os maçons “ Vermelhos” , repu­
blicanos, inconfidentes, isto é, réus do crime de lesa-majesta­
de. Êstes viram-se denunciados presos e condenados por aquê­
les. Não se verifica o mesmo na Revolução Francesa. Os ma­
çons “ Vermelhos” , que eram os jacobinos, opuseram-se à inva­
são dos exércitos da dinastia de origem divina. Nesse mo­
mento, os maçons “ Vermelhos” venceram os maçons “ Azuis” ,
obrigados a fugir, emigrando.
Da mesma forma, as inconfidências de 1798, na Bahia; de
1817 e 1824, em Pernambuco; de 1835 (Farrapos), no Rio Gran­
de do Sul, não encontraram ambiente propício. Foram incon­
fidências locais, com o fim de proclamar a República ora em
Minas Gerais, ora na Bahia, em Pernambuco ou no Rio Gran­
de do Sul.
164 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

MINAS GERAIS E O
ESPÍRITO DE FIDELIDADE
A Câmara Municipal de Ouro Preto escreve a Martinho
de Melo Castro, ministro de Estado e dos Negócios da Mari­
nha Ultramar:
“ Ihn.® Sr. A sublevação que nestas Minas se traçava con­
tra a soberania da Rainha Nossa Senhora ao mesmo tempo
consternou e trouxe desolação a êste Povo, nunca familiariza­
do a semelhante nome e crime, e serviu para mostrar a cons­
tância e fidelidade do mesmo Povo.”
Nessas condições, a Câmara Municipal e o Povo tinham o
mesmo pensamento.
“ Demos graças a Deus na igreja-matriz de Nossa Senho­
ra do Pilar de Ouro Prêto, fazendo cantar o hino Te Deum
Laudamus assim pela felicidade do Estado (Nação) como pela
vida, e saúde de Sua Majestade (a Rainha), tão suspirada
pelos fiéis portuguêses/’ Os inconfidentes foram infiéis, pra­
ticaram o crime da infidelidade. E daí serem sentenciados como
foram.
A Câmara Municipal mandou pôr luminárias três noites
seguidas.
“ B na Câmara (Municipal) recitou o vereador bacharel
Diogo Pereira Ribeiro de Vasconcelos, revestido de todo o amor
patrício e das obrigações de vassalo, uma interessante fala na
qual se trataram matérias e verdades que vinham para o caso
e para as circunstâncias do tempo. À imitação desta Capital
deram públicos testemunhos de alegria as Câmaras (Munici­
pais) de São João e São José, as de Sabará e Caeté, e é tanta
a satisfação que o feliz sucesso trouxe aos moradores de
Minas, tanto o sossêgo em que estão, dado cada um às suas
diferentes ocupações, que dêles podemos afirmar a devida fi­
delidade, e quanto ao Estado e Real Fazenda pela administra­
ção do Exm.° Visconde Governador se tem aumentado muito
as utilidades” (15).
A oração do vereador Ribeiro de Vasconcelos é um pro­
testo de fidelidade dos vassalos de Sua Majestade. E não um
ato de servilismo ou de pavor, conforme pensam os escritores
românticos.

(15) Cf. Revista do Arquivo Público Mineiro. 1896. ps. 403-404.


A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 165

A MAÇONARIA **VERMELHA**
E A INCONFIDÊNCIA MINEIRA
Conforine vimos em capítulos anteriores, a Maçonaria
Azul, também chamada Maçonaria inglêsa, defendia o princí­
pio da dinastia consentida” e não o da dinastia de direito
divino. Defendia, portanto, a Monarquia inglêsa, os interêsses
britânicos, a soberania da Inglaterra no mundo. Por isso criou
“ lojas na França, para combater e aniquilar as Monarquias
francesa, espanhola e portuguêsa. Para alcançar o seu objetivo
utiliza-se na França do ramo dinástico dos Orleans contra os
Bourbons. Na Espanha, as “ lojas” maçônicas inglêsas apare­
cem depois da Grã-Bretanha ter-se apoderado de Gibraltar,
sem prévia declaração de guerra, em 1704. No já distante ou-'
tono de 1727, a Grande Loja da Inglaterra” mandava inglê­
ses à Espanha para fundarem “ lojas” em Gibraltar e Madrid.
E dez anos mais tarde. Lord Lovel, depois Conde de Leicester,
“ nomeava o capitão James Cummenford, Grã-Mestre provin­
cial da Andaluzia” . (Paulo Siebertz: “ A Maçonaria e a luta
pelo poder” . Pôrto, 1945, p. 26; Anderen: “ Constitutionenbuch” ,
ed. de 1783, p. 535 e 5;6. O “ Freimaurer Zeitung” , 1804, p. 369,
declara como certo “ que já havia “ lojas” em 1728 em Barce­
lona, Cádiz e outras cidades espanholas” . Segundo a publica­
ção maçônica “ La Reforma” , n.® 15, de 18 de outubro de 1865,
“ fôra criada a primeira “ loja” em Espanha em 1726, em Gi­
braltar” . Siebertz, ob. cit., nota 36). E assim, a Inglaterra ins­
talava em Gibraltar a primeira “ loja” da Maçonaria “ Azul” , cé­
lula inicial donde irradiariam outras no interior da Espanha,
para defender e justificar a posse de Gibraltar.
Em Portugal, também já o vimos, a primeira “ loja” foi
instalada em 1727, organizada pelo Grande Oriente da França.
A segunda foi fundada em 1733, pela “ Grande Loja” de Lon­
dres (Cf. M. Borges Grainha: “ História da Maçonaria em Por­
tugal” (1735-1912), Lisboa, 1912, p. 5. Nota de Siebertz: “ A
publicação maçônica de Berlim, “ Herald’ de 17 de janeiro de
1915 p. 11 , recomendava êste livro do historiador português,
comó “ a melhor história da, Maçonaria em Portugal” , 46.)
Assim, a Maçonaria “ Vermelha” defronta-se logo com a Ma­
çonaria “ A zul” .
Já em meados do século XVIII travava-se a luta em Por­
tugal e na França entre os iluministas e a realeza, entre as
dinastias de direito divino e as de direito consentido. Portugal
era a única nação da Eturopa onde as dinastias reais eram de
direito consentido pelo povo. E a província de Portucale
166 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

surge, no mundo europeu, ainda em verdadeira desagregação,


em condições ímpares.
Fôra doada como dote de casamento ao conde D. Henrique
de Borgonha pelo rei de Leão D. Afonso VI. D. Afonso Henri­
ques, filho de D. Henrique de Borgonha, vai tomar indepen­
dente 0 condado portucalense, em 1140. Com a Monarquia Por­
tuguêsa surge o Reino de Portugal, o primeiro país europeu a
constituir-se nação autônoma. “ Ofereceu D. Afonso Henriques
0 seu reino à Igreja Romana; declarou-se vassalo de São Pe­
dro e do Pontífice; comprometeu-se por si e pelos seus su­
cessores a pagar o censo anual de quatro onças de ouro e a
não reconhecer outro domínio, eclesiástico ou secular, que
não fôsse o da Santa Sé. O censo constituia, segundo as ins­
tituições feudais então dominantes, parte essencial e como que
sinal externo do preito de vassalagem. No regime feudal, o
censo era uma renda em dinheiro devida pelo vassalo em razão
fjll da tenência ou posse, alguma coisa parecida com o preço de
arrendamento, fixado por costume antigo. Se o possuidor ou
vassalo não pagava na determinada data, o senhor podia reti-
rar-lhe a tenência ou pelo menos exigir a quantia com multa
suplementar”. (Cf. Fortunato de Almeida: “ História de Por­
■vi
tugal” , vol. 1 , p. 146. Coimbra, 1922.) Nessas condições, “ em
tôda a Europa” , e “ em Portugal as primeiras Côrtes (assem-
bléias, na linguagem atual) em que, de notícia certa, intervie­
ram os procuradores dos Conselhos (vereadores das Câmaras
Municipais na terminologia de hoje), foram as que se celebra-
jjjl ram em Leiria em 1254; mas algumas razões há para crer que
essa intervenção se dera anteriormente’*. (Cf. Fortunato de Al­
meida, ob. p. 348.)
“ Das Côrtes, porém, dêste ano (1254) data o chamamen­
to dos delegados municipais aos parlamentos. O povo, consuj
tuído e vigorizado lentamente, vê, enfim, assentarem-se os
presentantes no Conselho dos reis, e a voz do homem de tra
halho patentear solenemente os seus agravos e invocar os
direitos contra as classes privilegiadas.*^ (Cf. A lexandre Her
culano: “ História de Portugal” , vol. V, p. 122-124, ed.
_ ________ _ ^ "’ { ’gra a única
E enquanto não havia nações na Europa e Fort g ^5-
nação européia organizada, já os re^çsentan es ^ d ir^
sentavam-se no Conselho dos reis, reiv in d ica v^
tos com a altivez do vassalo e sem a subservie econôx^^^^
do cidadão de hoje. q
Mas haviam decorrido quase seiscentos . portu ^f'
de Pombal instaura o absolutismo real na Monarq ^
sa, já existente na Monarquia Francesa. Nessas
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 1«7

que se pregava às claras passou a ser objeto de segrêdo, nos


conventículos que se disfarçavam nas lojas dos grupos ilumi­
nistas, que logo se incorporavam às lojas maçônicas para o
trabalho subterrâneo da liberdade. O culto da liberdade de
consciência, a tolerância religiosa, a difusão dos princípios da
Filosofia e dos conhecimentos científicos, a idéia nacional e a
prática da democracia, com a soberania do povo e a limitação
dos podêres pelas Constituições, tudo aquilo que, em síntese,
vinha agitando as almas dos homens e se condensara nas obras
dos filósofos e surgira definida na Enciclopédia, passava a re­
presentar um ideal comum aos povos mais adiantados e se
escondia nas sociedades secretas, disfarçadas em Academias li­
terárias, Arcádicas, etc.” . (Cf. Augusto de Lima Júnior: “ His­
tória da Inconfidência de Minas Gerais” , p 22. Belo Horizon-^
te, 1955.)
Já vimos, en> capítulos passados, como a Monarquia in­
glêsa, também chamada “ Azul”, foi a disseminadora, na Eu­
ropa, dêsses princípios liberais e republicanos. O liberalismo
político e intelectual dos “ Azuis” criou a Maçonaria “ Verme­
lha” sediada em Paris, desde os começos do século XVIII. A
Maçonaria trazida por navios franceses e inglêses, desde 1770,
se instalara na Bahia e no Rio de Janeiro” . (Cf. Augusto de
Lima Júnior, ob. cit., 22.) Viera com os portuguêses do Brasil
formados pela Universidade de Coimbra, onde ela já se ins­
talara. E assim, todos os inconfidentes eram maçons, já o es­
crevera Joaquim F. dos Santos em “ Memórias do Distrito Dia­
mantino” , por nós citado. E êsse mesmo autor refere que Ti­
radentes fôra iniciado na Bahia: “ Quando Tiradentes foi re­
movido (?) da Bahia, trazia instruções secretas da Maçonaria
para os patriotas de Minas” (p. 231. E a palavra patriota co­
meçava a ser empregada contra o têrmo vassalo,

A LEI E A JUSTIÇA EUROPÉIAS


ENTRE 1750 E 1800
Há mais de cento e oitenta anos. Voltaire escrevia: “ L’his­
toire n’est jamais faite, on la refait sans cesse.” Em nossa lín­
gua, o seu pensamento seria: “ A história nunca está feita; re­
fazemo-la sem descanso.” O grande escritor francês compreen­
de, intuitivamente, o princípio científico da história. Se a
história não existe antes do historiador êle é historiógrafo e
de direito, quando na riqueza humana do historiador desatoo-
cha o valor, a verdade, a clareza do trabalho histórico. Em
meados do século passado, Francisco Adolpho de Vamhagen,.
168 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

pai da nossa história, assim o compreendeu, quando afirmou:


“ Acusam-no (ao Marquês de Pombal) de haver usado dema­
siado rigor com alguns que haviam sido seus colegas no minis­
tério, como Diogo de Mendonça Corte-Real, demitido em 1756;
Tomé Joaquim da Costa, em 1760, e José Seabra (da Silva), seu
antigo auxiliar nos assuntos contra os Jesuítas, demitido em
1774; o primeiro dos quais foi desterrado (no século XVI es-
crever-se-ia degredado) para Mazagão (África), e êste último
para Vizeu e Pôrto” . Mas “ os que assim pensam pretendem
que há mais de um século se pensasse como hoje” , e
esquecem-se de que deviam ser quase “ crime de lesa-majesta­
de” o Kaver o primeiro revelado os projetos de casamen­
to da herdeira do trono com um infante de Espanha, e o úl­
timo nada menos que certos planos de El-Rei (D. José I) de
fazer passar a sucessão da Coroa a seu neto o Príncipe Dom
José, em detrimento da Princesa do Brasil, sua mãe” (1), —
a D.® Maria I.
Vamhagen aprendera o postulado científico da história no
espigão do século passado. Seu espírito, sua inteligência, sua
cultura, compreendem o mistério da história e procuram ex­
plicá-lo. Não o compreendem, nem o explicam, os panfletários
da história. Julgam os homens de outros séculos como se fos­
sem homens de hoje, como se pensassem como nós pensamos.
Erram os que assim pensam por incultura histórica e sociolo­
gia. Por isso mesmo, o historiador sorocabano esclarece: “ Essa
acusação desaparecerá, cremos nós, quando venha a ser inte­
gralmente dado à luz todo o processo que nos asseguram exis­
tir em Portugal” (2). “ Cremos nós” , escreveu o historiador,
com certa malícia e alguma ironia. Ora, êle sabia, e todos
sabem, que certas pessoas não acreditam na evidência mos­
trada aos seus olhos. Duvidam, negam, porque sâo negativis­
tas por sistema. Ao polemizar com João Francisco Lisboa sô­
bre os indígenas ferozes, Vamhagen referiu-se ao estudante
cuja ciência afirmava com prudência: O mel é doce, senten­
ciava Aristóteles. E como êsse estudante são os escritores da
história escorados nas muletas dos historiadores.
Nessas condições, se o conhecimento da história nos dá o
conhecimento do homem, na sua, realidade multiforme, nas
suas virtualidades infinitas, para alargar o setor de minhas
experiências vividas; também êsse conhecimento histórico nos
apresenta uma lição de humanidade. E os nossos conhecimen-

(1) Francisco Adolfo de Vamhagen, “ História Geral do Brasil” . T-IV


318, 319.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 169

tos jurídicos, sociológicos e psicológicos facilitam nossa inteli­


gência e nossa cultura histórica melhor compreensão da dis­
tribuição da justiça nos séculos passados.
Assim, a página seguinte oferece a imagem da lei e da
justiça no século XVIII:
“ Da fatal noite de 3 para 4 de setembro (de 1759), que
a todos os séculos será memorável, com a duração da infâmia
de seus autores, se teve logo a presunção dos que o foram; como
o fazia duvidosa a consideração de haverem êles recebido, e
estarem recebendo atualmente, muitas mercês de nosso Ama­
do Monarca, não se fazia crível, qua cobrindo com a sua so­
berba ingratidão se cegassem de maneira que não vissem o
despenhadeiro e caíssem no precipício; e assim não quis a “ reta.
justiça dd Ministério” proceder ao castigo, “ sem uma exata
averiguação da verdade”, porém feita esta com a mais “ admi­
rável prudência e sagacidade” , foram reconhecidos incontesta­
velmente por agressores daquele “ execrando crime” , o Duque
de Aveiro, o Marquês de Távora, sua mulher, dois filhos seus
e seu genro, o Conde de Atouguia, e assim foram sentenciados
pela Junta (Juízo) da Inconfidência, composta de ministros in­
corruptos, “ a ser degredados” da imunidade das ordens, de
que eram Comendadores, ex-autorados (privados) dos lugares
e títulos que tinham, desnaturalizados (tirados os direitos de
cidadania) do Reino e tidos por peregrinos e vagabundos; or-
denando-se que Leonor Tomásia, que se intitulou (e era) Mar­
quesa de Távora, fôsse “ degolada” , e que José de Mascare-
nhas, que se chamou (e foi) Duque de Aveiro; Francisco de
Assis, que se dizia Marquês de Távora (e era); Luís Bernardo,
que tinha o mesmo título; José Maria, que foi Ajudante-da-
Sala (Ajudante-de-Ordens em linguagem atual) da seu pai
quando era General, e Jerônimo de Atai de, nomeado Conde de
Atouguia ,depois de lhe “ quebrarem as canas (os ossos) dos
braços e pernas e os peitos com uma grossa maça de ferro,
fossem todos agarrotados (estrangulados), queimados os seus
corpos, juntamente com o da dita Leonor Tomásia, e lançadas
no mar as suas cinzas. As casas em que viviam foram demoli­
das e salgadas” . (Assim a lei e a justiça do Tribunal da In­
confidência sentenciaram no caso de Tiradentes.)
“ Executou-se, com efeito, esta sentença no dia 13 do cor­
rente (de 1759) i no largo que há entre o cais de Belém e o
Palácio, que foi de Aveiras, no mesmo dia e no mesmo lu­
gar padeceram o garrote (estrangulamento) Manoel Alves Fer­
reira, guarda-roupa de José Mascarenhas, e Brás Romeiro, guar-
da-roupa de Francisco de Assis, e João Miguel, homem de
170 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

acompanhar, “ cujos corpos foram queimados” com a estatua


de José Policarpo de Azevedo (que escapou de o prenderem,
e se prometeu 10,000 cruzados de premio a quem o entregar à
justiça) e “ lançadas as suas cinzas ao mar” , com as de Antô­
nio Alvares Ferreira, guarda-roupa de José Mascarenhas, que
■| no mesmo lugar e dia foi queimado vivo” ( 2).
E* nosso o sublinhado e as frases entre parênteses.
Lisboa inteira assiste o espetáculo e não censura a justiça
porque a lei era rigorosa em tôda a Europa. E êsse rigor con­
tinua pelo século seguinte adiante.
Nessas condições, “ desde a execução e tormentos dos con­
jurados de Belém (Lisboa), do Duque de Aveiro e dos Távoras,
do castigo terrível dos revoltosos do Pôrto (ainda em Portu­
gal), o “ esquartejamento” de João Batista Pelle — para não
falar dos outros —, não têm êstes paridade ou semelhança
com os que foram inflingidos aos réus da “ Inconfidência Mi­
neira” (3). ^ é m do “ esquartejamento” de Pelle, o Tribunal da
Inconfidência, em funcionamento no Pôrto, no ano de 1777,
“ manda enforcar vinte e um homens e cinco mulheres, e con­
dena ao degredo”, a confiscação e a multa duzentas e onze
pessoas de ambos os sexos. E êsses “ degredados políticos” vie­
ram, como Os anteriores, “ povoar” o Estado do Brasil, provín­
cia do Império Lusitano.
Chegamos ao último decênio do século XVIII. A lei e a
justiça avermelham-se. O território da França cobre-se de en­
carnado. A 12 de outubro de 1793, a República Francesa de­
creta: Art. 3.® — A cidade de Lião será destruída.” Com ex­
ceção dos casebres, “ todos os prédios foram arrasados” . A gui­
lhotina levava seis minutos para decepar uma cabeça. Era pre­
ciso ser mais rápido. Recorreram ao fuzilamento. Sessenta e
quatro moços foram postos em fila e caíram mortos sob a chu­
va de b^as. Logo em seguida foram fuzilados duzentos e dez
condenad^, entre os quais se achavam nove arrebanhados por
pareciam mortos. Eram liquidados a golpe de
varí t ® enxadao e picareta. Veio outra guilhotina de
Fans. Foi preciso cavar poços debaixo dessas máquinas de ma­
nha ° escreve uma testeinu-
nha, escorna para as adegas, que estavam cheias, e riachos de

j«meiro*de*n69^ “ ^ Rodolfo Garcia. “ Gazeta de Lisboa” , 1«

Crimea contra eclesiásticos da ConspiWÇ®®


U
i rã « r p «ío Muaeu da Inconfidência Mine^
N a ctoS Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 171

s a n ^ e corriam para o Ródano, em cujas águas se atiravam os


cadaveres decapitados” . (Abade Guillon.) A França inteira se
cobre de sangue humano nesse ano de 1793 (4 ). E o mar ver-
memo, vivo e vertiginoso, inunda as Gálias.

A CULTURA NO ESTADO DO BRASIL


EM FINS DO SÉCULO XVIII
D. João III, o Rei Povoador, criara em 1549 o ensino pú­
blico e gratuito no Estado do Brasil, Província da Monarquia
Portuguêsa. Designara o Padre Manoel da Nóbrega primeiro
Secretário da Educação na América Lusitana. Pagos pela Co­
roa de Portugal,- os jesuítas foram, por mais de duzentos anos,
professôres públicos nos Reais Colégios fundados e mantidos
pelos reis D . João III, D . Sebastião, D. João IV, D. Afonso VI,
D . Pedro II, D . João V e D. José I. Em 1758, os professôres
jesuítas foram afastados dos Colégios de Sua Majestade. O en­
sino religioso foi substituído pelo ensino laico, daí em diante
mantido por D.® Maria I e por D. João VI. E de D. João III
a D . João VI, de 1549 a 1822,cêrca de 273 anos, a instrução pú­
blica 0 gratuita estêve a cargo da Monarquia Portuguêsa.
Assim, em fins de .Setecentos, em tôdas as cidades e vilas do
Estado do Brasil funcionavam escolas públicas, onde o ensino
era gratuito e os professôres subvencionados pela Coroa Portu­
guêsa. E com o acêrvo das bibliotecas deixadas nos Reais Co­
légios já funcionavam, em Salvador da Bahia, em Belém do
Pará, em São Luís do Maranhão, no Rio de Janeiro, em Olinda
e em outras cidades brasilienses, bibliotecas públicas bem fre­
qüentadas .
Havia então, em fins de 1700, uma elite cultural nas ci­
dades de Belém do Pará, São Luís do Maranhão, Olinda, Re­
cife, Salvador da Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Ouro Prê­
to e Mariana, em Minas Gerais. E se o Cônego Luís Vieira da
Silva, professor de latinidade no Seminário de Mariana, mantido
pela Coroa Portuguêsa, tinha, para mais de seiscentos volu­
mes em sua biblioteca, a do Dr. Cláudio Manoel da Costa^ con- <
tava para mais de quatrocentos, a do Padre Manoel Rodrigues
da Costa andava por duzentos e catorze, a do Desembargador
Tomas Antônio Gonzaga apenas oitenta e três, a do Dr. Inácio
José de Alvarenga Peixoto sòmente dezoito, a do Tenente-Co­
ronel Francisco de Paula Freire de Andrade oitenta e quatro, a
do Coronel José de Resende Costa sessenta e um volumes.
<4) Georges Bideau. “ Le siege de Lyon en 1793". “ Miroir de L’His­
toire” . n.® 107. novembre 1958.
r

172 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

Nada foi seqüestrado a José Álvares Maciel, doutor em


Filosofia (Física, Química e História Natural) pela Uni­
versidade de Coimbra, onde se filiara à Maçonaria, e filiado
à Loja Maçônica de Ouro Prêto. A êsse inconfidente, filho
do Capitão-Mor do mesmo nome, “ por ser filho família e estar
vivendo debaixo de pátrio poder do dito seu pai” , nada foi
arrecadado, por “ se não acharem bens alguns” pertencentes
a êle. E a sua biblioteca?
Nesse caso, não deixa de ser interessante conhecer as
obras principais da biblioteca seqüestrada ao Cônego Luís Viei­
ra da Silva. Dela constavam: “ Theatrum magnum vitae hu-
manae” , oito volumes in-folio; “ Lois Civiles” , de Donat; “ Di­
cionário Português e Francês; González, “ Conuhent ad regulum
octavam Cancellariae” ; “ Corpus Juris Canonici, Gilbert, três
volumes in-folio; “ Jus Canonicum” , de Pichler; “ Commentaria
ad Constitui Apostolica de Petra” , cinco volumes; “ Sacrae
Rotae Romanae Decisiones”, de González; “ Dicionário Portu­
guês e Latino” ; “ Julii Cesar Commentaria” ; “ Science du gou­
vernement” , de Real, oito volumes; “ Corpus Juris Canonici” ,
de Behemeri, dois volumes; “ Brasilia Pontifícia” ; Nogueira,
“ Bullae Crutiatae” ; “ Calepinus Septem Linguarum” , dois vo-
lunies; Finetti, “ De principiis juris naturae” ; “ Instituitiones
juris publici” , Schwartz; Bossuet, “ De potestate Eccles” ; Ve-
neroni, “ Dicionário Italiano e Francês” ; “ Phisicae Elementa” ,
de S. Gravesand; “ Philosophia mentis” , de Brixia; Manilli,
Astronomicon” ; “ Quintus Curtius” ; “ Etude de la nature” ;
Sêneca, Opera Onrmia” ; “ Vocabularim utrosque juris” ; “ Doc-
trina Pandectarum” ; “"Memoires instrutives de 1’Histoire Na­
turelle” ; “ Elementos de Geometria” , do Padre Campos; “ Geo­
metria de Descartes” ; Verny, “ Opera” (“ Verdadeiro Método
de Estudar” , seis vols.); “ Ejusden Logica” ; Zanezii “ Physi-
. ^^®^^rock, Physica” , dois vols.; Genuenses, “ Meta-
physica , cinco vols.; “ Elementos Metaphysicos” , Brixia; “ Me-
dicine pratique” , de Cullen, dois vols.; “ Traité des Maladies
Veneriennes ; Ouvres, “ Tissot” , sete vols.; “ Exposition de
? V H u m a i n ” , de Winslow, 4 vols.; “ Ouevres
de 1 Abbe Condillac” , 3 vols.; “ Histoire des découverts des Por-
tugais , por Laffiteau, 4 vols.; “ Essai de Physique” ; “ Manuel
»."Nouveau Dictionaire des Sciences” ; Cícero,
“n ’ Elementos de Direito Natural” , de Burlama-
qui, DroU des gens” *, Vatel, 3 vols.; “ L ’esprit des lois et gran-
deur des Romains” , Montesquieu, 5 vols.; “ L’esprit de l’Ency-
clopedie” , 5 vols.; “ Vocabulario de las dos lengoas” ; Quinti-
iiani. Institut. Rethoricae” , 2 vols.; “ Graecae Linguae radi-
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 175

Entre os 214 volumes do Padre Manoel Rodrigues Costa,


constavam: Biologia” , de Berti, 3 vols.; “ História dos Desco­
brimentos dos^ Portuguêses” , Femão Mendes Pinto; “ Aritmé­
tica de Maya , 2 vols.; “ Agulha de Marear” ; “ Medicina” , 2
“ Sermões de Bordaloue” , em fran-
ces, 15 vols.; Dicionário Histórico” , 6 vols.; Quintiliano, “ Re-
tomos de Geografia; “ Bacharel de Salaman-
ca , Dicionário Geográfico” , 3 vols.; “ Dicionário de Línguas” ;
entre obras de Teologia, Filosofia e poesia (2). A biblioteca de
Inácio José de Alvarenga Peixoto acusava, entre outros: Vol­
taire, em 7 vols.; Metastásio, em 7 vols.; Miscelânea do Pa­
dre Menoch (3 ). Tomás Ajitônio Gonzaga possuia: “ quaren­
ta e três livros de vários autores franceses, portuguêses e la­
tinos, item sete ditos, item trinta e três” (4). E nem o nome
do autor, nem das obras.
Entre os 400 volimies de Cláudio Manoel da Cbsta figu­
ram: “ Ordenações do Reino” , 6 vols.; “ Ordenação Filipina” ,
1 vol.; obras de Direito; “ Monarquia Portuguêsa”, 6 vols.; “ Ci­
dade de Deus” , de Santo Agostinho, 5 vols.; Camões, “ Geo­
grafias” ; “ Leis Josefinas” , 2 vols.; “ Dicionário novo da lín­
gua espanhola e francesa” , 2 vols.; “ na coluna da estante da
direita, quarenta tomos; na quinta da mesma, quarenta e qua­
tro tomos de livros; quarta coluna da estante esquerda, qua­
renta e nove livros; na mesma estante da quinta coluna, qua­
renta e seis” (5 ).
José de Resende Costa apresenta: “ Teatro de Molière” ,
8 vols.; “ Ilíada” , de Homero, 7 vols.; Henriade, Voltaire, Ra­
cine, Boileau, Cícero, “ Vida de Dom João de Castro” ; Gradus
ad Pamasum; Quintiliano; Virgílio; Horácio, “ Philosophia Mo­
ral” ; diálogo sôbre a eloqüência” ( 6) .

DEPOIMENTO DE
CLÁUDIO MANOEL DA COSTA
Cláudio Manoel da Costa foi prêso em Ouro Prêto
depoimento é de maio de 1789. Vanas

“ “ d ' ' d ï ‘S “ S c .« . i
■ Œ Æ C . » . . . P .r»g u é . d . Europ..
(1, 2. 3, 4, 5. 6) “ Autos de Devassa da Inconfidência Mineira” . To-
mo5. 1, 5,6.
174 T. L. FERREIRA - M. R. FERREIRA
/ q riàudio Manoel da Costa) que

Dlano algum nem artigos, e sempre supos que nao passava


de brinco ’(brincadeira) de palavras tudo o que diziam aqueles
homens (Tiradentes, Gonzaga e mais inconfidentes), se bem
que em certa ocasião ouviu dizer ao Doutor ^ n z a g a , segimdo
sua lembrança, que o General, o Exmo. sr. Visconde (de B ^ -
bacena) sempre dizia ter o primeiro lugar no caso de suole-
v a ç ã o , e que êle respondente continuando na mesma graça
(brincadeira), disse que (o Governador) fizera bem em tr^ er
mulher e fühos em tal caso” . (Cf. Auto de perguntas feitas
ao bacharel Cláudio Manoel da Costa” Em Revista do Insti­
tuto Histórico e Geográfico Brasileiro. V ol. LIII. l.a parte,
p. 161). Conforme disse Cláudio Manoel da Costa, o gover­
nador da Capitania de Minas Gerais, Visconde de Barbacena,
também fazia parte da Inconfidência. Era portanto, da Maço­
naria “ Azul**, ao passo que Tiradentes pertencia à Maçonaria
“ Vermelha**,
V
OS MAÇONS DO
RIO DE JANEIRO EM 1794

Descobria-se em 1794, no Rio de Janeiro, conforme de­


núncia feita por José Bernardo Frade, uma associação secre-
remanescentes da Sociedade Literária de
,dissolvida três anos antes. Nas suas reuniões, alega o
membros faziam sempre “ reflexões ten-
t n fiv L ® Monarchias. mostrando huma gran-
do a feliclHnHl.^^ ^ inclinação às Repúblicas, encarecen-
Em^ I ?" 8ozão nas mesmas” ( 1) .
Estado do'^Brasil ° Resende, Vice-Rei do
sessões secretas localizar onde se realizavam as
Inácio Alvarenga ê 1^ ^ ^ -s e em casa do advogado Manuel
Pinto, dirigente da Assnpii*-^ Marques
Fonseca, futuro Marquês Hp m ’ ° José Mariano da
pessoas influentes e, tudo l e ^ ® “ Protegidos por

- - ‘jurados dêsse processo o „ • maçom, saem os


fort 1 reclusão’ ri.íí ^'^solvida e outros com
da C5onceijão. ’ na própria cidade, na
de estatutos, cujos disTOsi^nt*^"^^^” *’ ^'^^ava-se um rascunho
positivos prmcipais eram:
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 175

do que se toatw na SoL*dfd^^°’ ninguém saiba

d a d e ^ e l e í í d i í a l l ^ ^ f r " , ® « P ™ d a d e alguma nesta Socie­


dade e sera dingida igualmente por modo democrático.

der boa in fo m a çlo d ^ u a ^ ^ p r^ d X '^ novo sócio, deve prece-'


sorte aue <?e nncco proDidade e segredo e aplicação; de
será recebido nnr ^ utilidade da sua companhia, e
sera recebido por plurahdade de votos” ( 2)
Fundada em 1786, os “ irmãos” dessa loja estariam em in-
°? irmaos” da loja de Ouro Prêto, presos em
178^ Teriam avisado a Tiradentes do perigo de permanecer
no Rio de Janeiro. Daí êle ter procurado vários esconderijos
para ver se era possível despistar- os seus perseguidores. E
mesmo assim falha a fuga.
Os maçons do Rio de Janeiro “ adormecem” até 1794,
quando são acordados.

A '^SOCIEDADE DA ROSA*’
E O GOVERNADOR LORENA
Quase dez anos após a Inconfidência Mineira vai surgir
outro movimento idêntico em Salvador da Bahia, no ano de
1798. A Maçonaria “ adormecera” durante êsse tempo, embo­
ra estivesse vigilante. Mascarava-se em “ sociedades de letras” .
Esse processo também era empregado na Europa. Foram os
enciclopedistas, maçons “ Vermelhos” , os desencadeadores da
Revolução Francesa. E ela brotou dêsse movimento espiritual
preparado com êsse objetivo.
O século X V III foi o século de ouro da cultura luso-bra­
sileira. Surgem as Academias de Letras. A dos Esquecidos,
fimdada pelo Conde de Sabugosa, Vice-Rei do Estado do Bra­
sil na Bahia, em 1724; a dos Felizes, pelo Governador do Rio
de Janeiro, em 1736, no Rio de Janeiro; a dos Seletos, ^ l o
mesmo governador, em 1752; a dos Rermscidos, « n 1759 na Ba­
hia; a Científica, pelo médico do Vice-Rei do Estado do Bra­
sil Dr. José Henrique Ferreira em 1770; a de Sao Paulo, fon-
dada pelo Morgado de Mateus, em 1770, e a do Senado da C“ -
mara de São Paulo, patrocinada pelo Governador Bernardo
José de Lorena, em 1791. E todo êsse movimento espiritual
C »d . d. 0 «.
176 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

vernador de São Paulo, de Minas Gerais e Vice-Rei do Esta­


do da índia, também pertencia à Maçonaria. Assim, o Conde
de Sarzedas, apesar do elevado cargo que exerceu na India,
sempre estêve em desgraça na Côrte, por ter pertencido a
‘“ Sociedade da Rosa” , e a sua nomeação para a índia foi um
degrêdo, tanto que, na volta dali, dirigindo-se ao Rio de Janeiro
para se apresentar a El-Rei D. João VI, achou na Bania um
aviso de que não seria recebido na Côrte, e por isso, se dirigiu
para Lisboa, onde veio para abraçar os parentes e morrer em
casa de sua irmã, a Marquêsa de Pombal. O destino quis que
êle expirasse debaixo das telhas dum palácio pertencente ao
algoz de sua família, porque êle era sobrinho direto do meu
terceiro avô, o Marquês de Távora” (1).

A '^SOCIEDADE DA ROSA**
Bernardo José de Lorena formara-se em Direito pela Uni­
versidade de Coimbra, onde fora aluno distinto. Frei Gaspar
da Madre de Deus chama-lhe, com justiça, “ hum alumno de-
Minerva, Deoza das L e tra s...” (2). Como outros tantos es­
tudantes universitários ter-se-ia filiado à Maçonaria em Coim­
bra. E daí ter feito brilhante carreira pública no Brasil e
na índia.
A respeito da Sociedade da Rosa e seus objetivos sabe-se:
“ A polícia, dirigida então pelo famoso Intendente Pina Ma­
nique, depois Barão de Manique (adversário feroz da Maço­
naria) ou com o firme propósito de comprometer parte da an­
tiga aristocracia, ou porque ignorasse completamente o que se
passava, fêz crer ao Príncipe Regente (D. João) que se trama­
va uma conspiração terrível, promovida pelo govêrno francê?
e espanhol, e principalmente pelo Príncipe de Paz, para o de­
porem e proclamarem a Princesa Carlota Regente do Reino,
e fêz passar minha avó como pertencendo às sociedades maçô­
nicas afrancezadas, o que não era nem nunca foi.
Minha avó odiou tôda a sua vida as sociedades maçônicas
e detestou os jacobinos, porque tinha sempre presente à ima­
ginação as cenas de horror que presenciara em Paris e Mar­
selha, onde estêve na época do Terror da Revolução Francesa.
De aqui resultou que esta tivesse o pensamento de orga-
(1) Cf. “ Memórias do Marquês de Fronteira e de Aloma” . P-I-II-
Coimbra, Imprensa da Universidade. 1928. p. 189.
(2) Cf. Manoel Lopes de Almeida. “ Uma carta de Fr. Gaspar da
Deus” . Sep. de “ Biblos” . Vol. XXVIII. Coimbra,
MCMLII.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 177

Tlizar uma associação que intitulou a Sociedade da fíosa, com


o fim de combater as idéias daquela Revolução e as sociedades
secretaSj por meio de outras sociedades secretas.
Apesar dos esforços empregados por meu Pai para afastar
minha avó do seu intento, a associação progrediu e muitas pes­
soas nela se filiaram, entre elas o famoso poeta Bocage, fazen­
do-se as primeiras reuniões na minha casa em Bemfica” (1).
Nesse tempo, as mulheres também pertenciam à Maçona­
ria, tanto em Portugal como na Espanha. Por isso, a Socie­
dade da Rosa era uma sociedade secreta de maçons “ Azuis” ,
para combater as sociedades secretas dos jacobinos, isto é, os
maçons “ Vermelhos” . Daí a Marquêsa de Alorna fazer de sua
casa uma academia onde se reuniam os intelectuais “ Azuis” do
seu tempo.

A INCONFIDÊNCIA BAIANA
Ora, “ em 1759, fundou-se na Bahia a “ Academia dos Re­
nascidos” , sob 0 alto patrocínio do Governador (da Capitania),
tomando como emblema, por ser seu sêlo, imia fênix fitando
os céus e como divisa “ Multiplicabo dies” . Além dêsse sím­
bolo externo, tão característico das lojas Tnaçônicas, qual seja
a fênix, outro bem eloqüente do traço da finalidade reacionária
da Academia, se revela na proclamação de Sebastião de Car­
valho, depois Marquês de Pombal, chefe reconhecido da Ma­
çonaria em Portugal, como o seu Mecenas. Essa associação -
que podemos tomar como ponto de partida da arregimentação
maçônica no Brasil, atendendo ao simbolismo das suas armas,
à eloqüência da sua divisa, ao aparato de suas reuniões e à
proclamação suprema do seu chefe. Só em 1759 foi fundado,
por Arruda Câmara e seus companheiros, em Itaimbé, o
“ Areópago” . Trinta e sete anos depois, a Bahia reunia José
Mascarenhas Pacheco Pereira, Antônio Gomes Ferrão Castelo
Branco, João Pires de Carvalho e Albuquerque e outros inicia­
dos. Mesmo que dúvidas se possam levantar da atividade reser­
vada da Academia dos Renascidos, antes e 1789, já funciona­
vam células secretas, visando a reforma social do Brasil. Felício
dos Santos, com outros historiadores, afirma que Tiradentes
iniciou o seu apostolado após a viagem que fizera à Bahia,
onde ficara senhor dos segredos dêsse trabalho” ( 2).
(1) Cf. “ Memórias do Marques de Fronteira e de Alorna” , citada.
pp. 14-15. , „ „ . , T. -1 • w
(2) Cf. Afonso Ruy. “ A Primeira Revolução Social Brasileira .
Companhia Editora Nacional. São Paulo, 35 e segs. 1942.
1

178 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

Daí em 1792, o Vice-Rei do Estado do Brasil ter enviado


ao Governador da Bahia, cópia de uma carta-régia (1) onde
se recomendava exercer vigilância sôbre o navio Le Diiigent ,
enviado pelo clube (sociedade secreta) Cercle Social , com o
pretexto de procurar, nos mares do sul, o explorador La Pe-
rouse. Êsse motivo disfarçava o verdadeiro, diz a carta-régia,
0 qual era “ hum pretexto para introduzir nas colonias extran-
geiras o mesmo espírito de liberdade que reina neste país (o
Brasil), e dividir as forças dos soberanos do Novo Mundo,
abuzando do azylo que se costumava dar em semelhantes oc-
caziões. Hé certo que este navio deve tocar no Rio de Janeiro
e na Bahia, que a Constituição está traduzida em portuguez
e espanhol e que várias pessoas que se embarcão como Natu­
ralistas se aplicão ao estudo destas línguas, tendo comprado
para este efeito os livros necessários.
“ Dizem-me que além das instruções da Sociedade levam
outras relativas ao local, e recomendações particulares” (2).
Justificavam-se essas providências então, em face da propa­
ganda republicana cada vez mais intensa através das lojas
maçônicas.

A REPUBLICA BAIANA
Falhara em 1789 a tentativa de proclamação da República
mineira em Ouro Prêto. Dez anos mais tarde os maçons de
Salvador fazem nova investida, em 1798. Em maio dêsse ano,
D. Fernando José de Portugal, Governador da Capitania es­
creve ao Rei: “ Não duvido que supostas as circunstâncias do
século, a lição dos papéis públicos (jornais), como por exem­
plo, correios da Europa, gazetas inglêsas, que não são proibi­
das e outras que excitam a curiosidade em que se descrevem
os sucessos do mundo com reflexão bastantemente livre, haja
como acontece em tôda a parte uma menos cordata e leve de
entendimento que discorra com mais alguma liberdade ou le­
veza sôbre os mesmos acontecimentos da Europa, mas nem por
isso se tem aqui introduzido princípios jacobinos, podendo as­
segurar a y . Excia., que por cautela tenho chamado algumas
vezes a minha presença, um ou outro mancebo, só por me di­
zerem que pensa com mais liberdade ou com menos instrução
religião, contentando-me com se­
melhante providência, enquanto o caso não pede outra
maior ( 3) .

(1, 2, 3) Cf. Afonso Ruy, “ A Primeira Revolução Social Brasileira”


A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 179

Salvador recebia jornais europeus, lidos por todo o mimdo.


Não havia proibição de sua entrada. Para o Governador ainda
não havia propaganda aberta dos princípios jacobinos, ‘ isto é,
republicanos. Enganava-se. A idéia jacobina andava no ar,
levada pelos maçons baianos. E a vigilância do Governador
não impedia o desenrolar dos acontecimentos.
Para os maçons “ Vermelhos” o momento chegara, Silva
Lisboa, no seu retiro do Maré, escreve a Cipriano Barata, agita­
dor de rua, demagogo impénitente, condutor dos companheiros
republicanos: “ Não deixe de aclamar logo o chefe da República
baiana. No estado em que se acha Portugal devemos apro­
veitar a ocasião para proclamar a independência da Capitania.
Já deve estar na barra uma esquadra francesa que vem em
nosso auxílio, e deve estar avisado o professor (Francisco Mo­
niz Barreto, mestre de gramática do Rio de Contas, comarca
de Jacobina, prêso também como participante do movimento
maçônico republicano), que traz a expedição de 1 000 homens.
Ninguém há de lhe dizer a verdade como eu, nem interessar-se
tanto pelo bem público. Já o José Pires Albuquerque lhe de­
ve ter comunicado a resolução dos nossos amigos do recôncavo.
Tenha cuidado com Frei José e Frei Francisco na disputa que
mantém quanto ao querer cada qual ser o chefe da igreja. Por
carta de Marcelino Antônio sei que está firme. Estou a escre­
ver os artigos do programa de govêrno” ( 1 ).
Como sempre acontece, os intelectuais preparavam já o
plano de ação republicano. Já se ouviam vivas à liberdade e a
Bonaparte. Entre os conspiradores “ Vermelhos” havia um “ ofi­
cial inglês côxo de uma perna, que veio do Rio de Janeiro no
comboio de 3 de abril e que se transportou para Lisboa no
comboio que para lá saiu em 1.® de junho” (2). Na devassa
não fica esclarecida a razão porque êsse indivíduo permanece
tanto tempo em Salvador. Da mesma forma em 1796 regres­
sam de Lisboa dois rapazes para lá degredados pelo governa­
dor geral, por motivos políticos. Recebidos no cais da Ribeira,,
defronte o quartel da guarda, “ com vivas à liberdade” , foram
os mais exaltados presos (3). E os maçons republicanos co­
meçam a agitar-se.

AS PROCLAMAÇÕES ‘^VERMELHAS**
Na manhã de 12 de agôsto de 1798 a Cidade do Salvador
da Bahia, acorda para 1er boletins e proclamações
de caráter revolucionário. Uma delas começa: “ Animai-vos
Povo Bahianense que está para chegar o tempo feliz da Liber-
180 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

dade: o tempo em que todos seremos irmãos: o tempo em que


todos seremos iguais” . Outra doutrinava: “ A Liberdade con­
siste nb estado feliz, no estado livre de abatimento; a Liber­
dade é a doçura da vida, o descanso do homem com igual
paralelo de ims para outros, finalmente a Liberdade é o re­
pouso, e bemaventurança do mundo” . E em nome da Liber­
dade fazia-se a propaganda republicana.
Mais violenta dizia esta: “ O Povo Bahinense Republicano
ordena, manda e quer que para o futuro seja feita a sua dig­
níssima revolução nesta cidade e seu têrmo; portanto manda
que seja punido com pena de morte natural para sempre todo
e qualquer padre que no púlpito, confessionário, exortação,
modo, forma, maneira, etc., persuadir aos ignorantes e faná­
ticos com o que fôr nocivo e inútil à liberdade e bem comum
do Povo; manda o Povo que o sacerdote que concorrer para
a dita revolução seja tratado como concidadão; os deputados
da Liberdade frequentarão os atos da Igreja para tomar co­
nhecimento do exposto mormente dos delinqüentes. Quer o
Povo que o soldado haverá 200 réis de soldo cada dia” (4) .
Es^tava em ação a Maçonaria “ Vermelha” com desenvoltu­
ra e tôda a liberdade.

LIBERDADE POPULAR
Observe-se a linguagem sediciosa dos manifestos espalha­
dos pelos republicanos da inconfidência baiana.
Advertindo que os parênteses são nossos, vejamos o se­
guinte manifesto:
“ Aviso ao Clero e ao Povo Bahinense” :
“ O Poderoso e Magnífico Povo Bahinense Republicano des­
ta Cidade da Bahia Republicana, considerando nos muitos e
repetidos latrocínios feitos com os títulos de imposturas, tri­
butos e direitos que são cobrados por ordem da Rainha de
Lish(^ e no que respeita a inutilidade da escravidão do mes-
mo Povo tão sagrado e digno de ser livre, com respeito à
Uberdade e igualdade (falta o fraternidade) ordena, manda
e quer que para o futuro seja feita nesta Cidade e seu têrmo
a sua revolução (a revolução era baiana, como a de Minas
fora a revi^ução mineira) para que seja exterminado pí^ra
sempre o péssimo jugo reinável da Europa (a Monarquia), se-
^ n d o os juramentos celebrados por trezentos e noventa e dous
tiigmssimos Deputadas (eram os Deputados da Liberdade)

i f ,' • 7 4 °n ° Primeira Revolução Social Brasileira”.


A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 181

Representantes da Nação em consulta individual de duzentos e


oitenta e quatro Entes (quem eram?) que adotam a total Li­
berdade Nacional, contida no geral receptáculo de seiscentos
setenta e seis Homens, segundo o prelo acima referido. Por­
tanto faz saber e dá ao prelo que se acham as medidas toma­
das para socorro estrangeiro (em 1792 os jacobinos, maçons
^‘Vermelhos” repeliram o socorro estrangeiro, porque êle viria
conservar a Monarquia da França, em 1798, os jacobinos da
Bahia, maçons “ Vermelhos” , querem a República e esperam o
socorro estrangeiro) e comércio do açúcar, tabaco e pau brasil
e todos os mais gêneros de negócios e mais vires (víveres?),
contanto que aqui virão todos os estrangeiros tendo pôrto aber­
to, mormente à Nação Francesa (donde lhes vinha, aos ma­
çons o maior estímulo) ; outrossim manda o Povo que seja pu­
nido com pena vil para sempre todo aquêle padre regular e
não regular que no púlpito, confessionário, exortação, conver­
sação por qualquer forma, modo e maneira persuadir aos igno­
rantes, fanáticos e hipócritas, dizendo que é inútil a liberdade
popular; também será castigado todo aquêle que se achar na
culpa não havendo isenção de qualidade para castigo. Quer o
Povo que todos os membros militares de linha, milícia e orde­
nanças, homens brancos, pardos e pretos concorram para a li­
berdade popular; manda o Povo que cada soldado perceba de
sôldo dois tostões cada dia além das suas vantagens que serão
relevantes. (Acenava-se aos soldados com melhores vencimen­
tos). Os oficiais terão aumento de posto e soldo, segundo as
dietas cada um indagará quais sejam os tiranos opostos à liber­
dade e estado livre do Povo para ser notado: cada um Deputa­
do escreverá os atos da Igreja para notar qual seja o sacerdo­
te contrário à liberdade; o Povo será livre do despotismo do rei
tirctno ficando cada um sujeito às leis do novo código e re­
forma do formulário; será maldito da Sociedade nacional todo
aquêle que inconfidente à liberdade (inconfidente à liberdade
é o crime de lesa-liberdade) coerente ao homem e mais agra­
vante será a culpa, havendo dólo eclesiástico; assim seja en­
tendido aliás.
O Povo”.
Sobrescrito:
“ Deve ser publicada para não haver ignorância; fica no­
tada a presente no Livro das Dietas fl. 12, cap. 3.®, parág. 1.“.
Do Povo Bahinense em consulta dos Deputados e Repre­
sentantes que são, 392 entes. Viva” (1).
(1) Cf. Afonso Ruy. ob. cit. p. 85.
182 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

Está presente no jnovimento republicano da Bahia a Fran­


ça revolucionária, desde o pensamento dos enciclopedistas até
a linguagem convencional usada pelos jacobinos. Assim, em­
pregavam “ prelo” como “ aviso” ; “ dieta” com o significado de
“ assembléia” ; “ compativelmente” como “ compatível” ; “ aba­
timento”, como “ constrangimento” ( 1) .
Se a palavra fraternidade não aparece, em con­
trapartida, lá se acham a liberdade e a igualdade,
as palavras de passe da Revolução Francesa. Para me­
lhor esclarecer os leitores, abrimos parênteses explicativos. E
os intelectuais maçons estavam todos inebriados com a decla­
ração dos direitos do homem.
Tanto a Inconfidência Mineira como a Inconfidência Baia­
na revelam, nos documentos conhecidos, a idéia de mudança
do regime monárquico para o republicano. E para os maçons
“ Vermelhos” a República era a forma ideal da sociedade hu­
mana.

O SUPREMO TRIBUNAL
DA DEMOCRACIA BAHINENSE
Assim como os manifestos e proclamações dêsse movimen­
to não traziam data nem assinatura, também não tinham en-
derêço. Mas na manhã de 21 de agôsto de 1798 o Prior do
Carmo entregava ao Governador da Bahia duas cartas encon­
tradas na igreja do convento por uma velha. Uma delas, diri­
gida ao Governador, estava redigida nestes têrmos:
“ Prescrição do povo bahinense — O Povo
Ilm®. Exm.° sr.
O Povo Bahinense e Republicano na secção de 19 do cor­
rente mês houve por bem eleger, e com efeito ordenar que V.
Excia. invocado compativelmente como cidadão Presidente do
Supremo Tribunal da Democracia Bofhinense para as funções
da futura revolução que segundo o plebiscito (sic) se dará
princípio no dia 20 do presente pelas duas horas da manhã,
conforme o prescrito do Povo. Espera o Povo que V. Excia!
haja por bem o exposto. Viva e Vale. Bahia Republicana 20
de agôsto de 1798. Anônimos Republicanos” . No sobrescrito:
“ Ilm." Exm.“ sr. General. Segrêdo, segrêdo, segrêdo etc.” (2) .
Por êste documento se evidencia que os maçons baianos
eram camaradas. Não pensam em liquidar sumàriamente com
(1) Cf. Afonso Ruy. ob. cit. ps. 87, 88.
(2) Cf. Bras do Amaral. “ A Conjuração republicana de 1798” Tmn
Nac. 1926. cit. por Afonso Ruy. '
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 183

D. Fernando José de Portugal, futuro marquês de Aguiar. No­


meiam-no **cidadão Presidente do Supremo Tribunal da Demo­
cracia Bahinense**. Logo o movimento revolucionário não era
para derrubar as autoridades. Muito menos contra os portu­
guêses, porque todos eram portuguêses, mesmo os nascidos na
América Lusitana. E com mistério, como quem coloca um de­
do em riste sôbre os lábios, os maçons recomendam-lhe; “ Se­
grêdo, segrêdo, segrêdo” .
A REPÚBLICA DEMOCRÁTICA BAIANA
Os inconfidentes mineiros prendiam-se diretamente à idéia
de uma República à imagem e semelhança da República dos
Estados Unidos da América do Norte. Dela esperavam todo
o auxílio para realizarem o ideal republicano. Já os inconfi­
dentes baianos depositavam suas esperanças na República
Francesa. Se os mineiros queriam uma República americana,
os baianos lutavam por uma República francesa. Os maçons
baianos eram os depositários das idéias republicanas dos “ ir­
mãos” mineiros. E ambos queriam derrubar a Monarquia.
Na sentença de Lucas Dantas e demais presos da inconfi­
dência baiana, os juizes acordam como os réus “ habitantes
desta Cidade, esquecidos dos primeiros e mais essenciais de­
veres do Cidadão e vassalo fiel se proposerão à pérfida, infame
e horrível tentativa de disporem e executarem nesta mesma
Cidade uma sublevação, para se subtraírem ao Suavíssimo e
Iluminadíssimo Govêrno da dita Senhora (Rainha de Portu­
gal) e das suas sábias leis” . Daí procuravam convencer o
povo de que êsse Govêrno e essas leis, “ debaixo da quais vi­
viam, eram de um pêso insuportável, que deviam lançar de
si, já, a representar-lhes as imaginárias vantagens duma Re­
pública Democrática, onde todos seriam iguais, onde os aces­
sos a logares representativos seriam comuns, sem diferença da
côr, nem condição, onde êles ocupariam os primeiros minis­
térios, vivendo debaixo de uma geral abundância,.. ” ( 1 ). Os
homens sonhavam com uma República onde houvesse abundân­
cia e ninguém tivesse fome e todos fossem iguais.

O INOCENTE BARATA
A frente dos denunciados aparece Domingos da Silva Lis­
boa, “ pardo, natural da Cidade de Lisboa; vive de requerer
papéis nos auditórios, filho de pais incognitos, de idade de 43
anos”, queria substituir a Monarquia por uma “ Democracia
raza e independente” ( 2).
184 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

Em seguida, surge Cipriano Barata de Almeida, “ homem


branco, Bacharel em Filosofia (pela Universidade de Coim­
bra), natural desta cidade, casado, cirurgião aprovado, filho
legítimo do Tenente Raimundo Nunes Barata e de dona Luiza
Joséfa Xavier, tem a idade de 35 anos” (3). Ora, “ para sal-
var-se, Cipriano Barata, quando interrogado sôbre o que tinha
a alegar em sua defesa, “ disse que só lhe resta dizer, que de
algumas palavras e discursos, que êle déclarante costumava
com facilidade formar, sôbre o estado da política da Europa
sem aplicação ao continente do Brasil (êle não diz colônia,
conforme querem os escritores da história de hoje), mal ou­
vidos e mal interpretados, por alguns dêsses pardos, interes­
santes da Revolução, e que têm resultado as imputações, que
lhe têm feito, contemplando-o no número dos seus considera­
dos, ou por se desculparem, ou por má vontade; protestando
pela fidelidade que sempre prestou, e presta a sua Real Ma­
jestade’". Também êle renegava” (4). Se Tiradentes foi o
único enforcado, em 1793, no Rio de Janeiro, seis anos mais
tarde, em 1799, em Salvador, foram quatro os enforcados e es­
postejados: Lucas Dantas de Amorim Tôrres, João de Deus
do Nascimento, Manoel Faustino dos Santos Lira e Luiz Gon­
zaga das Virgens. Passaram pelos mesmos suplícios porque
passou Tiradentes. No entanto, a história do Brasil escrita e
ensinada, nem lhes cita os nomes. Será por que os quatro
eram pardos, antigos escravos, dois eram soldados rasos, um
cabo de esquadra, e um era alfaiate? Será por que foi uma
revolução de pardos e escravos? As perguntas ficarão sem
respostas.
Cipriano Barata estêve envolvido na Inconfidência per­
nambucana de 1817. Foi eleito deputado pela Bahia ao Con­
gresso do Império Lusitano reunido em Lisboa em 1821. De
regresso da Europa inicia a vida jornalística. Torna-se pasqui-
neiro daí em diante, até 1835, com as interrupções de
duas longas prisões, sob o Primeiro Reinado e a Regência Tri­
na, motivadas pelo inegável perigo representado por seus cons­
tantes incitamentos à revolta e pelo habitual recurso à intriga
entre brasileiros e portugueses, aos quais passou a dedicar in­
tenso ódio” (5). Foi o famigerado^ redator das “ Sentinelas
da Liberdade” . E dêle falaremos mais adiante.

( 1,2, 3) Cf. Afonso Ruy. ob. cit. ps. 235, 227, 147, 113.
(4f 6) Hélio Viana. “ Contribuição à História da Imprensa Brasileira”
Imp. Nac. 1946. p. 459.

s
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 185

A SITUAÇÃO ECONÔMICA •
E SOCIAL DA BAHIA
Da Bahia, 18 de outubro de 1781, o Dr. José da Silva Lis-
boa, “ pardo, natural da Cidade de Lisboa; vive de requerer
ao Dr. Domingos Vandelli, diretor do Real Jardim Botânico
de Lisboa, onde expõe, com clareza, a situação econômica e
social da Bahia, no segundo quartel do século XVIIL O co­
mércio exterior e interior “ bem abundante e extenso, faz cor­
rer pela cidade a fartura de tudo o necessário para as com ^
didades da vida, e ao mesmo tempo produzem uma circulação
de dinheiro, que conserva e vivifica todos os ramos da indús­
tria pública. O comércio de exportação é importante. A Bahia,
fornece mais carga aos seus navios do que nenhuma outra
(Capital) do Brasil. Ordináriamente da Bahia saem carrega­
dos 40 navios de 800 toneladas para cima, 30 vão para Lisboa*,
e o resto para o Pôrto. A sua carga principal é açúcar, taba­
co, coiros em cabelo, sola, madeiras de todo o gênero para
construção e carpintaria, aguardente, melaço” (1). Nesse mes­
mo documento, o futuro Visconde de Cayru informa, que so­
mente o açúcar rende cinco milhões de cruzados para os senhores
de engenho. E muito se exportava aguardente para a Africa.
“ E’ engrossada esta carga, continuava Silva Lisboa, com
algum arroz, farinha dsf pau (de mandioca), coquilho, algo­
dão, louça de barro, piaçaba para amarras, côcos, ipecacuanha,
baunilha, quiti, etc. Em retorno recebe de Portugal esta praça
jazendas (artigos) de todo o gênero da Europa e Asia, pran­
chas de ferro e cobre, chumbo, sal, mármore, vinhos, aguar­
dente, farinha de trigo e comestíveis de que se faz aqui prodi­
gioso consumo” . E a parte referente à sociedade baiana é
bem interessante, porque prova o luxo, o bem estar e o con­
forto existente na Cidade do Salvador da Bahia (2).
Quando os maçons “ Vermelhos” prometiam aos pardos e ne­
gros abundância e ausência de fome, da Bahia, 23 de outubro
de 1797, escrevia o Provedor da Fazenda (hoje Secretário da
Fazenda) José Venâncio de Seixas a D. Rodrigo de Sousa Cou­
tinho, em Lisboa, sôbre a situação econômica da Bahia. “ A
Capitania da Bahia, uma^ das mais florescentes e dignas da
atenção do Ministério, pela sua situação, pelas suas produções
0 pelo seu comércio, se conservou até o ano de 1796 na admi­
nistração da Real Fazenda em tal equilíbrio que não obstante
as despesas extraordinárias que lhe acresceram, consistindo
em grandes remessas de madeiras para o Arsenal da Marinha
e na construção de quatro fragatas (havia na Bahia xmia
186 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

fábrica de fragatas) no espaço de oito anos, se não viu


obrigada com a do Rio de Janeiro a contrair dívidas que a
oprimissem fazendo não só face a todos as sobreditas despe­
sas, mas passando ordináriamente no fim de cada um para o
seguinte, a cargo do Tesoureiro Real, um saldo de setenta con­
tos de réis dos rendimentos gerais” (3 ). E a Bahia dava su­
peravit.
Já o mesmo não se verificava na Capitania do Rio de Ja­
neiro. Estava deficitária havia quarenta anos, por causa das
despesas com obras públicas. As de Pernambuco, e Maranhão
têm rendimentos superabundantes. E a do Pará recebe o “ su­
primento que o nosso Real Erário (Ministério da Fazenda, em
Lisboa) é obrigado a fazer anualmente para poder saldar suas
despesas” (4).
:SITUAÇÃO ECONÓMICA
DA BAHIA EM 1797
Da Bahia, 24 de maio de 1797, o Governador da Capitania
da Bahia D. Fernando José de Portugal escreve a D. Rodrigo
de Sousa Coutinho em Lisboa onde expõe a situação orçamen­
tária da Capitania (5). Havia no Estado do Brasil dois tipos
de moeda circulante: a moeda provincial, cunhada em Salvador,
Pernambuco, Rio de Janeiro e Ouro Prêto; e a moeda cunhada
em Lisboa. Cunhada nas quatro Casas da Moeda do Estado
do Brasil, eram de ouro, prata e cobre. As de cobre, cunhadas
aqui, tinham o dôbro do pêso das vindas de Lisboa. A moeda
Provincial (da Província do Brasil) “ gira em tôda a Améri­
ca” . Por diferentes ordens régias a Casa da Moeda da Bahia
cunhado, desde 12 de abril de 1729 até 6 de dezembro de 1774
(em 45 anos) em moeda provincial, de ouro, prata e cobre
337:657$757 (trezentos e trinta e sete contos seiscentos e cin­
qüenta e sete réis) ( 6) .
Na mesma data, o Governador de São Paulo informa- “ Nas
transações diárias e regulares desta Capitania circulam pela
maior parte as barras de ouro; e moeda provincial (da Provín-
cia do Brasil) de ouro, de prata e cobre. E’ impossível conhe.
cer-se a quantidade ou o valor total que circula de moeda vro-
vmctal, por nao haver aqui Casa da Moeda” ( 7) . Êsse docu-

^Ao^’ArouWo relativos ao Brasil existentes


Haí íf. « Kr ! de Lisboa” . (Castro e Almei-
' 3“ dÔc n'asz“
(5, 6, 7) Documentos Interessantes para São Paulo. vol. 46-203.

L l'
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 187

mento é de 28 de junho de 1797. E as despesas do Estado do


Brasil abrangiam três tipos de funcionários públicos: civis, mi­
litares e eclesiásticos (jesuítas até 1758), a construção e re­
construção d€ igrejas, de fortalezas, de prédios públicos, de or­
namentos e alfaias para os templos.
De São Paulo, 22 de abril de 1802, o Governador Antônio
de Melo Casto e Mendonça escrevia a D. Rodrigo de Sousa
Coutinho, observando que no exercício de 1801 houvera o saldo
de quase 205 contos de réis sôbre a importação, para prognos­
ticar que a Capitania de São Paulo marchava “ para estado de
opulência considerável". A exportação fôra de 614:543$000, a
importação de 409:587$000 réis (1).

O ESTADOS UNIDOS
DA AMÉRICA DO NORTE

Vinte e dois anos após a independência dos Estados Uni­


dos da América do Norte, em 1798, o Príncipe-regente D. João,
futuro D. João VI, manda Hipólito da Costa Pereira àquela
República nascente para estudar a economia agrícola norte-
americana. Nesse ano Hipólito da Costa Pereira paga, em Fi­
ladélfia, na “ City Tavern” , a melhor da cidade, 15 dólares por
semana, para êle e o criado que o acompanhava, “ isto sem en­
trar o vinho e tudo quanto sabe, que é de fora, à parte” . Êsses
15 dólares não representavam os 4.050 cruzeiros de hoje. Re­
presentariam apenas 12 cruzeiros, pois o dólar valia então cada
um 800 réis. O mil réis dava ágio ao dólar. E por êsse ca­
minho temos andado, há mais de cento e cinqüenta anos (2) .

D. João VI no ^Brasil
A MUDANÇA DA SÉDE DA
MONARQUIA PORTUGUÊSA

ü m 1794 William Beckford estêve em Portugal e foi recebi-


do em audiência especial em Lisboa por D. João, Príncipe
do Brasil. O escritor inglês assim descreve esta cena: “ Êle
(D. João) estava de pé, na vasta sala, pensativo, com o espí­
rito ausente, segundo aparentava. Seu rosto me pareceu, to­
davia, iluminar-se quando me aproximei dêle; e ainda que cer­
tamente estava muito longe de ser belo, sua fisionomia muito

(1) Correspondência dos Govs. de São Paulo. Rio. Biblioteca Nacional.


(2) Hipólito da Costa Pereira. “ Diário de Minha viagem” . 1955.
188 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

pouco vulgar tinha uma expressão de sagacidade e, ao mesmo


tempo, de benevolência, singularmente agradável: surpreen­
deu-me a semelhança da bôca em particular, com os ancestrais
matemos de seu pai. D. João V tendo casado com uma arqui­
duquesa, filha do imperador Carlos VI, tinha por consequên­
cia, direito hereditário a êstes lábios carnudos e autoritários,
que caracterizam de modo tão notável a Casa da Áustria, an­
tes de sua fusão com a de Lorena” (1).
A França ardia então nos escombros fumegantes do Terror
“ Vermelho” . Naturalmente a conversa do escritor com o Prín­
cipe encaminhou-se para a situação p>olítica européia. Daí êste
observar: “ Tôdas as notícias da França trazem novas, tão sur­
preendentes, que estou cheio de espanto e horror; em todos os
países da Europa a nau do Estado mal suporta os golpes de
uma tumultuosa tempestade. Sòmente Deus pode dizer a que
praia seremos atirados!”
“ Após estas palavras proféticas, continua Beckford, pro­
nunciadas com solenidade e muita energia, o Pryncipe aprovei­
tou para me despedir, depois de me haver de novo honrado
com graciosas expressões de amizade, que seu excelente co­
ração lhe ditava” ( 2) . Inglês e escritor, William Beckford dá
o seu testemunho sincero, isento de paixões, a respeito dêsse
Príncipe do Brasil, futuro Rei tão caluniado pelos,
escritores jacobinos. “ Que me seja permitido notar, prossegue
Beckford, enquanto a lembrança das entrevistas que tive
com êsse soberano benfazejo está presente na minha memória,
que nenhum dos seus súditos fala sua língua materna — esta
bela e harmoniosa língua materna — (a língua portuguêsa),
com mais pureza e eloqüência do que êle. Quando êle estava
de bom humor, tinha na sua maneira de se exprimir uma vi­
vacidade e um desembaraço notáveis: tôdas as palavras que
êle pronunciava eram apropriadas e empregadas em tôda a sua
fôrça. Quando lhe agradava abrir-se — o que lhe acontecia
ainda muito frequentemente, — uma espécie de bom humor
nacional dava aos seus gracejos maior um sabor suplementar,
que, quanto pude penetrar e assimilar totalmente o espírito da
língua tem-me dado grande divertimento. Ninguém soube ga­
nhar a afeição do povo, na medida em que êste o concede, com
mais felicidade que êste príncipe bem intencionado e direi­
to” (3).

(3, 2, 3) Cf. William Beckford. “ Reccollections of an excursion to thei


monasteries of Alcobaça and Batalha” . London. 1836. Tradução
francesa de André Parreaux. Lisboa. 1956. p. 225.
í

A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 189

E êste é o juízo de um homem que conheceu D. João e


conversou com êle.

O MUNDO EUROPEU EM
COMEÇOS DO SÉCULO PASSADO
Os partidários das idéias novas acolheram com simpatia
a Revolução de 1789. Mas os jacobinos “ Vermelhos” dão-lhe
outro rumo. Vêem éis desordens e o Terror de 1793. Tôdas as
nações declaram guerra à França. Inicialmente os maçons
“ Azuis” da Grã-Bretanha olham com interêsse o movimento. De­
pois afastam-se. Napoleão comanda o Exército e leva a Re­
volução a tôda a Europa. Em 1795 entra nos Países-Baixos.
No ano seguinte invade a Itália. Em 1798 ocupa a Suiça. To­
dos êsses países são organizados como Repúblicas, imitadas da
República Francesa. O Imperador dos Franceses ordena o
“ bloqueio continental” . Navios inglêses não podem entrar nos
portos do continente. Apenas dois soberanos não obedecem às
ordens napoleônicas: O Papa e o príncipe-regente D. João de
Portugal. O primeiro foi prisioneiro do Corso, em Fontaine­
bleau, durante sete anos. Até 1815. Em face da atitude de D.
João, o Imperador dos Franceses celebra com o Rei de Espa­
nha, o tratado de Bayona. Por êsse acôrdo, Portugal desapa­
receria do mapa da Europa. As tropas francesas atravessa­
riam a Espanha e invadiriam a Lusitânia. Portugal seria di­
vidido em duas partes: metade para a França e metade para
a Espanha.
No entanto, quauido as tropas napoleônicas chegam a Madrid
depõem o rei de Espanha. Logo Napoleão nomeia seu irmão
José, rei de Espanha. E os espanhóis levantam-se contra os
francêses.

A MUDANÇA DA SÉDE DA
MONARQUIA PORTUGUÊSA
Em 1533, quando Martim Afonso de Sousa regressa a Lis­
boa aconselha D. João III, o rei Povoador, a transferir a séde
da Monarquia Portuguêsa de Portugal para o Brasil, onde se­
ria criado um grande Império. Decorridos cem anos, em 1644,
o Padre Antônio Vieira recomenda a mesma coisa ao Rei D.
João IV. Em fins do século XVIII, D. Luiz da Cunha, embai­
xador de Portugal em Paris, dá o mesmo conselho à Rainha
D. Maria I. Assim, a idéia vinha de longe.
Em face do perigo iminente o Príncipe do Brasil, D. João,
190 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

regente do Reino de Portugal, para não ser prêso como foi o


Papa, resolve transferir a séde do govêrno da Monarquia Por­
tuguêsa de Lisboa para o Rio de Janeiro, então Capital do vice-
reinado do Brasil. Nessas condições, por decreto de 26 de
novembro de 1807, D. João nomeia uma regência para gover­
nar em sua ausência. Esse documento diz: “ Tenho resolvido,
em benefício dos meus vassalos, passar com a Rainha, minha
Senhora e Mãe e com tôda a Real Família para os Estados da
América (Portuguêsa) e estabelecer-me na cidade do Rio de
Janeiro até a paz geral” . E a Família Real embarca para o
Vice-reinado do Brasü.

A ABERTURA DOS PORTOS


A INGLATERRA
O Príncipe D. João chega à Bahia e manda lavrar a carta-
régia da abertura dos portos às nações amigas. Estas resu­
miam-se na Inglaterra, porque todos os portos da Europa esta­
vam bloqueados por Napoleão. Ora, com êles não podia haver
inter-câmbio comercial ou cultural. E os Estados da América
do Norte nada tinham para oferecer em troca dos nossos pro­
dutos.
Diz êsse documento pertencente à Biblioteca Nacional do
Rio de Janeiro.
“ Conde da Ponte, do meu Conselho, Governador e Capitão
General da Capitania da Bahia. Eu, o Príncipe Regente vos
envio muito saudar como aquêle que amo. Atendendo a re­
presentação que fizeste subir à minha Real presença, sôbre se
achar interrompido e suspenso (se estava interrompido e sus­
penso é porque antes estivera aberto) o comércio desta Capi­
tania com grave prejuízo dos meus vassalos (nascidos no Bra­
sil e em Portugal), e da minha Real Fazenda em razão das
criticas, públicas circunstâncias da Europa, (esta foi a causa
da interrupção e da suspensão do comércio), e querendo dar
sôbre êste importante objeto alguma providência pronta e ca­
paz de melhorar o progresso de tais danos, sou servido ordenar,
irUerina e provisoriamente, enquanto não consolido um siste­
ma geral, que efetivamente regule semelhantes matérias, o se­
guinte: Primo que sejam admissíveis nas Alfândegas do Bra­
sil todos e quaisquer gêneros, fazendas e mercadorias trans­
portadas, ou em navios estrangeiros das potências que se con­
servam em paz e harmonia com a minha real coroa (nesse
caso sòmente a Inglaterra), ou em navios dos meus vassalos,
pagando por entrada vinte e quatro por cento, a saber: vinte
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILBIRA 191

de direitos grossos e quatro do donativo já estabelecido, regu­


lando-se a cobrança dêsses direitos, pelas pautas, ou afora­
mentos, porque até a presente se regulam cada uma das ditas
alfândegas, ficando os vinhos, aguardentes e azeites doces, que
denominam molhados pagando o dôbro dos direitos, que até
agora nelas satisfaziam. Secundo: Que não só os meus vassa­
los mas também os súditos estrangeiros possam exportar
para os portos que bem lhes parecer o benefício do comércio
e agricultura que tanto desejo promover, todos e quaisquer gê­
neros e produções coloniais (coloniais empregado no sentido
de produções da terra) a exceção do pau brasil, ou outros no­
toriamente estancados, pagando por saída os mesmos direitos
já estabelecidos nas respectivas Capitanias, ficando entretanto
em suspenso, sem vigor, tôdas as leis, cartas-régias ou outras
ordens, que até aqui proibiam neste ESTADO DO BRASIL o
recíproco comércio e navegação entre os meus vassalos e es­
trangeiros. O que tudo assim fareis executar com o zêlo e
atividade, que de vós espero. Escrita na Bahia, aos vinte e
oito de janeiro de 1808. Príncipe” . (*)

O COMÉRCIO COM
PAÍSES ESTRANGEIROS
A carta-régia de 28 de janeiro de 1808 restabelece o comér­
cio, interina e provisòricímente suspenso, em face da situação
política da Europa. Já em 1654 o comércio era livre. Contra
isso reclamam os negociantes de Lisboa: “ O tratado feito entre
esta Coroa (de Portugal) e a República da Inglaterra no ano
de 1654, que foi o que destruiu o nosso comércio e tirou das
mãos dos portuguêses e o pôs nas mãos dos inglêses e pouco
depois também nas dos holandeses e franceses, pela participa­
ção dos privilégios, permite a estas nações que posscím comer-
ciar no Brasil e mais conquistas dêste Reino, indo a elas os
mesmos inglêses, holandeses e franceses (o que até alí era
proibido sob a pena de morte e confiscação dos bens e navio),
que possam ir nos nossos navios, ou nos seus, contanto que
vão dêste pôrto (Lisboa) e hajam de voltar a êle no corpo
da frota, e pelo tratado de Inglaterra de 1661 se lhes concedeu
de mais a liberdade de poderem assentar casas de comércio
nas ditas conquistas” ( 1). Assim pelo tratado de 6 de agôsto
de 1661 estabeleceu-se o comércio livre entre o vice-reinado do

(♦) As palavras entre parênteses são dos Autores.


(1) Cf. Documentos Históricos. Ministério da Educação. Rio. vol. 93-2761.
192 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA
Brasil, Holanda e Inglaterra (2). Em 7 de abril de 1673 Por­
tugal reconhecia o primeiro Consul da França, Francisco de
Lange, sediado na Bahia (3). E em 1699 já funcionava, na
mesma cidade, Mr. Còck, Consul da Inglaterra (4).
Da mesma forma a provisão do Príncipe-Regente D. Pedro,
de 9 de março de 1672 estabelecia o comércio livre entre “ os
meus vassalos”, moradores no Reino, como “ no Estado do Bra­
sil, índia e ilhas, para Moçambique e Rio de Cuanza” , Momba-
ça e portos de tôda a costa da África, desde o Cabo da Boa
Esperança até o de Guardafui, “ com liberdade de levarem,
trazerem, venderem e comprarem todos os gêneros de fazendas,
pimenta, cravo, canela, sem impedimento algum com a decla­
ração dêste comércio” (5). E em 1720 o Rei D. João V de
Portugal escreve ao Governador do Pará, recomendando-lhe:
“ será muito conviniente e importante que haja comércio com
Quito” .
Em 5 de janeiro de 1785 Martinho de Melo Castro em carta
ao Vice-rei do Estado do Brasil, Luiz de Vasconcelos e Sousa,
observa: “ São dignos da mais circunspecta reflexão os têrmos
em que se explica o Consul inglês, porque não só assevera que
doze navios inglêses, o menor de 500 a 600 toneladas, com arti­
lharia proporcionada (para defesa contra os piratas, isto é, os
ladrões do mar) e 40 a 50 homens de equipagem vão ANUAL­
MENTE carregados de manufaturas britânicas para o Brasil;
mas que os homens de negócio^ brasileiros, remetendo seus
açúcares aos seus correspondentes de Lisboa, lhes ordenam de
não lhes mandarem daqui, em retôrno, fazendas da Europa,
e só sim moeda corrente, não só por se acharem os seus arma­
zéns abundantemente providos delas, mas por terem meios de
haver as ditas fazendas por vias a preços mais cômodos, que
aquêles com que elas lhes vão carregadas de Portugal” ’ ( 6) .
E assim, em 1808, o Príncipe do Brasil e Regente do Reino
reestabelece o comércio livre momentâneamente suspenso.

AS FÁBRICAS E MANUFATURAS
Nesse mesmo dia de 5 de janeiro de 1785 a Rainha D Ma-
ria I, baixa seguinte alvará: “ Eu, a Rainha, Faço
saber aos que este alvara virem: que sendo-me presente

(2) Cf. Francisco Adolpho de Vamhagen. “ História Geral do Bra­


sil” , Vol. III p. 264 e segs.
(3) Cf. Documentos Históricos. Bib. Nac. vol. 25 ps 216-217
(4) Cf. F.A. Vamhagen. ob. cit. vol. III. p. 282.
(5) Documentos Históricos. Biblioteca Nacional. Rio. vol. 25, p. 74.
(6) Cf. Does. Hist. vol. 45, p. 456.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 19S

O grande número de fábricas e manufaturas (artezanato) que


de alguns anos a esta parte se tem difundido em diferentes Ca­
pitanias do Brasil, com grave prejuízo da cultura (da terra)
e da lavoura e da exploração das terras minerais daquele vasto
continente; porque havendo nele uma grande e conhecida falta
de popuUÍção, é evidente que quanto mais se multiplicar o
número dos fabricantes, maiá diminuirá o dos cuVtMjcdonres
(agricultores) e menos braços haverá que se possam empregar
no descobrimento e rompimento de uma grande parte daqueles
extensos domínios, que ainda se acha (mesmo hoje, em 1961)
inculta e desconhecida; nem as sesmarias que formam outra
considerável parte dos mesmos domínios poderão prosperar,
nem favorecer por falta do benefício da cultura (da terra), não
obstante ser esta a essencialíssima condição com que foram
dadas aos proprietários delas; e até nas mesmas terras mineiras
ficará cessando de todo, como já tem consideràvelmente dimi­
nuído a extração do ouro e diamantes, tudo procedido da falta
de braços, que devendo empregar-se nestes úteis e vantajosos
trabalhos, ao contrário os deixam e abandonam, ocupando-se
em outros totalmente diferentes, como são os das referidas fá­
bricas e manufaturas. E consistindo a verdadeira e sólida ri~
queza nos frutos e produções da terra, os qvxiis sòmente se con­
seguem por meio de colonos (isto é, os trabalhadores da ter­
ra) e cultivadores, e não de artistas e fabricantes (operários),
e sendo além disto as produções do Brasil as que fazem todo o
fundo e base não só das permutações mercantis, mas da nave­
gação e do comércio entre os meus leais vassalos, habitantes
dêste Reino (de Portugal, ühas. Angola, Moçambique (Afri­
ca) e índia, na (Asia) ( 1 ). (*)
Com êsse alvará a Rainha visava impedir o aparecimento
da fome. A Inglaterra iniciava a chamada “ revolução indus­
trial” . Os primeiros maquinários começavam a funcionar nos
distritos operários. Começava a fuga dos camponeses. Êstes
abandonavam a terra e iam para as cidades. Ninguém mais
plantava gêneros de primeira necessidade. E a fome agarrou
a Inglaterra pela garganta e quase a estrangulou.

REVOGADO O ALVARÁ DE
PROIBIÇÃO DE FÁBRICAS
Mal chegado ao Rio de Janeiro onde instala a séde do Im­
pério Português, D. João, Príncipe do Brasil e Regente do Rei­
(1) Cf. Documentos Interessantes para São Paulo. vol. 45. p. 42.
(*) As palavras entre parênteses são dos Autores.
194 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

no, por alvará de 1.® de abril de 1808 revoga o de 5 de janeiro


de 1785, nos seguintes termos: “ Desejando promover e adiantar
a riqueza nacional (da nação brasileira), e sendo um dos ma­
nanciais dela as manufaturas e a indústria, que multiplicam,
melhoram e dão mais valor aos gêneros e produtos da agricul­
tura e das artes, fornecendo meios de substância a muitos vas­
salos que, por falta dêles se entregariam aos vícios da ociosi­
dade; e convindo remover todos os obstáculos que podem inu­
tilizar e frustar tão desejados proveitos, é o Príncipe-Regente
(futuro D. João VI, Rei do Brasil), servido abolir e revogar
tôda e qualquer proibição que haja a êste respeito no ESTA­
DO DO BRASIL e domínios ultramarinos, e ordenar que seja
lícito a todos os vassalos, qualquer que seja a parte em que
habitem, estabelecer todo o gênero de manufaturas, sem exce­
ção de uma só, fazendo os seus trabalhos em pequeno ou em
grande, como entenderem que mais lhe convêm, para cujo efei­
to fica expressamente revogado o alvará de 5 de janeiro de
1785 e tôda a mais legislação em contrário. Rio de Janeiro,
1.® de abril de 1808. Príncipe” . (♦)
Este documento, feito vinte e três anos após o alvará da
Rainha D. Maria I, não tem merecido dos escritores da história
a menor referência. Fala-se no alvará de 1785 e silencia-se
quanto ao de 1808. Exalta-se o decreto da abertura dos por­
tos, já anteriormente abertos, mas nem uma palavra a res­
peito do alvará de 1 .® de abril de 1808. Precisavam os escri­
tores da história romântica deformar os acontecimentos pa­
ra dar-lhes sentido muito diferente da realidade histórica. E
isso se tem feito e ainda se faz, mesmo depois do aparecimen­
to de nosso último trabalho de revisão histórica ( 1 ).

A MAÇONARIA NÃO ADORMECE**

Vigilante e ativa na Inconfidência Mineira e na Inconfi­


dência Baiana, respectivamente de 1789 e de 1798, a Maçonaria
não adormece. Em 1801, após abertura de inquérito, foi fe­
chado o “ Areópago de Itambé” , loja maçônica situada nas divi­
sas da Paraíba com Pernambuco. Em estado de vigília ela re­
ponta em clubes e academias. Já em começos de 1816 ela se
manifesta, embora o govêrno estivesse alerta. Realizam-se reu-
niões em lugares indeterminados. Algumas lojas tramam se-
cretamente a revolução na Bahia e em Pernambuco. Milita­
(•) As palavras entre parênteses são dos Autores
Fe>rei« e Manoel Rodrigues Ferreira “ 'História
da Cmhzaçao Brasileira” . Gráfica Biblos. Sâo pYuTo, 1969
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 195

res são denunciados e presos, conforme se verifica deste do­


cumento:
“ Para Paulo Fernandes Viana (Chefe de Polícia do Rio de
Janeiro) Sua Alteza Real o Príncipe Regente, meu senhor,
por puros efeitos de sua real consideração é servido que V.S.,
mande por em liberdade os tenentes de artilharia de Pernam­
buco José Paulino de Almeida Albuquerque e Antonio Vieira
Cavalcanti, que se acham presos na Ilha das Cobras, por te­
rem sido denunciados de serem membros da reprovada Socie­
dade dos Pedreiros Livres; e que fazendo V. S. virem à sua
pre^nça, severamente os repreenda no real nome (em nome
do Rei) pela gravíssima culpa que cometeram, tendo o desa­
cordo de se alistarem em uma sociedade que não só não está
autorizada pelo mesmo senhor (o que essencialmente era pre­
ciso para sem crime entrarem nela) mas pelos seus infames
princípios tem merecido a sua real reprovação, inteirando-lhes
que ficam debaixo das vistas da Intendência Geral de Polícia,
e que se não mudarem de conduta, Sua Alteza Real os man­
dará castigar com a severidade de que já se fizeram dignos e
que não e^rimentaram pela sua real clemência e piedade. O
que participo a V.S. para que assim o execute. Deus guarde
V. S. Palácio, 14 de fevereiro de 1816. Marquês de Aguiar” (1).
Ao intendente geral da polícia foi expedido outro
aviso, no mesmo dia, pelo Marquês de Aguiar; “ Depois
de ter escrito a V.S. na data dêste sôbre a soltura dos tenentes
de artilharia de Pernambuco José Paulino de Almeida e Albu­
querque e Antonio Vieira Cavalcanti, ocorre-me comunicar a
V.S. que Sua Alteza Real, o Príncipe Regente, meu senhor,
querendo prevenir o rigoroso cativeiro com que pode ser tra­
tado o escravo do dito José Paulino de Almeida e Albuquer­
que, em vingança de o haver denunciado ser membro da so­
ciedade dos Pedreiros Livres, é servido mandar libertar o so­
bredito escravo, satisfazendo-se pelo cofre da polícia o valor
que se julgar razoado” (2) .
Assim, os moços cuidavam da liberdade integral dos pa­
trícios e descuidavam-se da liberdade imperativa dos escra­
vos. Estes eram pretos, aqueles brancos. Já os escritores da
história do Brasil deviam fazer o mesmo: exaltar Tiradentes
como heroi da Liberdade, em 1793; esquecer os quatro herois
da Liberdade, em 1799, na Bahia, apenas porque eram pardos
e negros.

(1, 2) Cf. Rocha Pombo. “ História do Brasil”. 1.® ed. vol. VII, p. 349, 350.
196 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

AS LOJAS MAÇÔNICAS ENTENDEM-SE


A América Espanhola esfarelava-se em Republicas. O mo­
mento era azado para os maçons “ Vermelhos” agirem. “ Em bre­
ve comenta-se, discute-se por tôda a parte (em Recife) — nos .
clubes, no seio das familias, nos conventos, nas ruas. É prin­
cipalmente no convívio das classes cultas que se incuba o pen­
samento — que não tardou a dominar todos os ânimos — de
abrir novos horizontes à vida da Capitania” . Fermentava a
idéia da revolução republicana.
Nessas condições começam, em Recife, “ os conciliábulos,
sem mais reserva, quase à luz do dia. As lojas maçônicas en-
tendem-se; e dá-se àqueles anseios as proporções e o encanto
de uma causa em que a pátria se confunde com a humani­
dade” (1) . Ora, se a pátria se confunde com a hxmianidade,
por que não se lutava pela abolição da escravatura? Esta não
daria o poder aos combatentes. Os Estados Unidos da Amé­
rica do Norte haviam feito a sua independência, isto é, a in­
dependência dos brancos. E não dos negros.
Assim, a Maçonaria age em Pernambuco. Luiz Francisco
de Paula Cavalcanti e Albuquerque, em seu depoimento, pe­
rante a alçada, a 28 de outubro de 1818, informa: “ que não
sabe se em Pernambuco e no mais Brasil havia de antiga
emulação (rivalidade) entre europeus (portuguêses) e brasi­
leiros . . . ; que é verdade que esta emulação, levada pelos seus
devidos termos, póde ser um bem, mas que levada ao ponto
de fazer rixas, como aconteceu em Pernambuco, é um mal;
que não sabe se os rebeldes se serviram dela como pretexto
para encobrir os seus projetos; mas que tanto se podiam ser­
vir disto os europeus como os brasileiros, e que lhe consta
que os europeus faziam parte dos ajustam entos,,.; e ouviu
dizer que os europeus se ajuntavam em casa de um Manoel
Caetano, logista,.. ” (2).

O ESTADO DO BRASIL
ELEVADO A REINO DO BRASIL

Emquanto a Maçonaria continua a agir, misteriosamente,


na calada da noite, para derrubar a Monarquia e implantar a
República, a 16 de dezembro de 1815, depois da morte da Rai­
nha D. Maria I, o Príncipe do Brasil e Regente do Reino de

<1, 2,) Cfs. Rocha Pombo, ob. cit. ps. 349, 850.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 197

Portugal, D. João, futuro D. João VI manda publicar a se­


guinte Carta de Lei:
“ I — Que desde a publicação desta Carta de Lei o ESTA­
DO DO BRASIL seja elevado à dignidade, preeminência e de­
nominação de REINO DO BRASIL.
II — Que os meus Reinos de Portugal, Algarves e Brasil
formem de ora em diante um só e único Reino debaixo do tí­
tulo de REINO UNIDO DE PORTUGAL, DO BRASIL E AL­
GARVES” .
O Reino Unido ora criado constituia o Império Lusitano.
Era duas vêzes maior do que os dois Impérios Romanos, do
Oriente e do Ocidente. Compunha-se de Portugal, na Europa;
dos arquipélagos dos Açores, da Madeira, de Cabo Verde, das
ilhas do Príncipe, de São Tomé e Ano Bom, no Atlântico; do
Brasil, nas Américas; de Angola, Guiné e Moçambique, na
Africa; da Índia Portuguêsa e Macau, na Asia; de Timor, na
Oceânia.
O govêrno do Império Português estava sediado no Rio
de Janeiro. E D. João VI vai governar os povos da língua por­
tuguêsa da Capital do Império Lusitano situado na Guanabara.

A INCONFIDÊNCIA PERNAMBUCANA
Nesse verão pernambucano conspira-se aberta e entusias­
ticamente. Os “ patriotas” , maçons republicanos, fazem festas
cívicas vespertinas. Nos banquetes maçônicos incluem-se
iguarias e bebidas européias. Por ocasião de seu in­
terrogatório, na Bahia, o Dr. Antônio Carlos, irmão de José
Bonifácio, do Dr. Bernardo Teixeira, presidente da al­
çada, informa: “ Depois consta ser publico c notório que
em Pernambuco havia casas de ajuntamentos diurnos e
noturnos, em que se tratava e concertava a revolução, enco­
brindo-se com o nome de partidas e de jogos; mas o sentido
era para depois de acabar o ajuntamento comimi; ficarem os
sócios (irmãos maçônicos) tratando particularmente do dito
concerto; e que as ditas casas eram: a de Domingos José Mar­
tins, a do padre João Ribeiro Pessoa de Melo, a de Antônio
Gonçalves da Cruz (o Cabugá), a do cirurgião Vicente Ferrei­
ra dos Guimarães Peixoto, a do vigário que não era de Santo
Antônio, a de Felipe Neri Ferreira, a de Gervásio Pires Fer­
reira, a do padre Miguel Joaquim de Almeida e Castro (pa­
dre Miguelinho) e também a do capitão-mór do Cabo Fran­
cisco Paes Barreto... (1). Eram os inconfidentes mais im-
<1) Cf. Rocha Pombo. ob. cit. nota, p. 350.
198 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

portantes. Veremos, quando êste estudo chegar aos anos de 1821


e 1822, quais dêsses maçons eram “ Vermelhos” e quais eram
“ Azuis” . Se as inconfidências mineira e baiana foram contra a
Rainha D. Maria I, a pernambucana era contra D. João, Príncipe
do Brasil e Regente do Reino. E a inconfidência era a revolta
da Maçonaria contra a Monarquia. “ O Dr. Antônio Carlos,
é claro, negou muita coisa, principalmente quanto a Gervásio
Pires Ferreira, de quem era íntimo amigo” ( 2). Natural que
negasse. Tão pouco diria que era maçon repúblicano. “ Num
jantar (resume H. Câncio) José Maria Barbosa terminou um
brinde caloroso com êste grito de guerra: “ Vivam os brasilei­
ros e morram todos os marinheiros!” (Como se sabe, desde
a guerra dos mascates ficaram os pernambucanos dando o no­
me de marinheiros aos portuguêses) . Em outra refeição, na
casa do capitão José de Barros Lima, do regimento de artUha-
ria, o secretário do regimento, José Mariano de Albuquerque,
fêz o seguinte brinde a uma senhora brasileira casada/ com
português: A saúde das senhoras brasileiras que não tiveram 11
dúvida de matar os marinheiros seus maridos!” (3). '

A GUERRA DOS MASCATES

Engana-se Rocha Pombo quando afirma: “ desde a guer­


ra dos nfiascates ficaram os pernambucanos dando o nome de
marinheiros aos portuguêses**. Nessa altura, 1713, ainda não
havia pernambucanos, para designar os naturais de Pernam­
buco. Todos eram portuguêses. Portuguêses os de Recife, Por­
tuguêses os de Olinda. Êstes, porque eram senhores de en­
genho, desprezavam os patrícios, isto é, os de Recife, porque
eram negociantes. Daí os de Recife chamarem os de Olinda de
‘^x>és rapados**, “ porque anídavam quase sempre descalços” ,

I embora pertencessem à nobreza da terra. Vingavam-se os de


Olinda ao designarem **mxiscates**, os seus adversários de Reci­
fe (4). Leonardo Bezerra, um dos insurretos, desterrado para
a índia Portuguêsa, na Asia, fugiu de lá e veio para a Bahia.
De Salvador escreve aos amigos: “ Não corteis um só quiri das
matas; tratai de poupá-los para em tempo oportuno quebrarem-
se nas costas dos marinheiros” . Em seguida, Capistrano de
Abreu tenta explicar: “ Marinheiro era uma das designações dos
Portuguêses de Pernambuco, quiri o nome da madeira tão rija

(2, 3) Cf. Rocha Pombo. ob. cit. nota, p. 350.


( 4) Cf. Padre Galanti. “ História do Brasil” . Tomo III 2.» ed. p. 158.

í/v
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILBIRA 199

como ferro. Se as palavras são autênticas, devia possuir otimis­


mo inci^áyel o velho insurgente que fiava a República ou a in­
dependência, de sua pátria de costas e cacetes quebrados” ( 1 ).
Ora, Bezerra era português de Olinda, pertencia à classe dos
senhores de engenho, quer dizer à nobreza da terra. Quando
êle escreveu “ marinheiro” , referiu-se aos “ mascates” , seus pa­
trícios, não a portuguêses de Pernambuco, porque todos o
eram. Em São Paulo Pires e Camargo, duas importantes fa­
mílias, disputam o penacho do mando, lutam pelo poder na
Câmara Municipal paulistana. Tanto Pires como Camargos eram
portuguêses porque vassalos de sua majestade, o Rei de Portu­
gal. E São Paulo era Capitania portuguêsa, assim como Per­
nambuco.

AS CRISES POLÍTICO-IDEOLÓGICAS
Expulsos os franceses de Portugal, fica em Portugal o
Marechal Beresford encarregado de manter e reorganizar o
Exército. Êle preside a regência, com mais dois portuguêseS;,
embora não o tolerem. “ Portugal converteu-se, ante as inva­
sões francesas, numa espécie de grande caserna, onde o Co­
mandante-chefe do Exército assume proporções de ditador oni­
potente. O maior está no fato de se tratar de um estrangeiro
— sabia a impaciência com que os portuguêses sempre supor­
tam o jugo de estrangeiros” (2). A Maçonaria é o foco irra­
diante das lutas políticas. No primeiro quartel do século
XIX, tanto em Portugal como no Brasil e na Europa as crises
ideológico-políticas, econômicas e românticas intoxicam os po­
vos do Ocidente. “ Por diversas razões, por caminhos diversos,
forma-se uma atmosfera densa e febril, vibrante de eftergias
explosivas. Os horizontes cobertos de negrume, anunciam tem­
pestade. Desconjuntada e empobrecida pela guerra, pela ma­
tança, pelo saque; minada nos seus fundamentos espirituais e
cívicos pelo verbo insidioso das sociedades secretas — a ve­
lha Nação Portuguêsa deixou de ser una, consistente, homo­
gênea. Transformou-se em mosáico de opiniões e de grupos
•desavindos. Vai começar o fraticídiol De um momento para
o outro, Caim tomará a palavra!” (3).
No Brasil a crise político-ideológica fôra iniciada em
1789, com a Inconfidência Mineira. Continua em 1798 com a In-

( 1) Cf. Capistrano de Abreu. “ Capítulos de História”. 1.“ ed. ps.


227, 228.
(2, 3) Cf. João Ameal. “ História de Portugal”. 4.® ed. 655.
200 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

confidência Baiana. E prossegue com a Inconfidência Pernam­


bucana em 1817.

CORRESPONDÊNCIA ENTRE
RECIFE E LISBOA
Os maçons “ Vermelhos” de Recife e os de Lisboa agem de
comum acôrdo no ano de 1817. Estava em marcha acelerada
a idéia republicana. “ Desde 1814, dois homens, Domingos Jo­
sé Martins e Domingos Teotónio Jorge, tratavam com os che­
fes políticos de prestígio no Maranhão, no Ceará, no Rio Gran­
de do Norte, na Paraiba, na Bahia e até no Rio de Janeiro.
Em 1815, partia Domingos Martins outra vez para a Europa,
onde se tem razões para crer que estava relacionado com lojas
maçônicas fortemente» empenhadas em estimular e proteger
os movimentos americanos (republicanos). Falava-se também
muito em acôrdo com políticos e militares de Portugal; e con­
quanto a respeito nada de positivo se indique, deve notar-se
ao menos que a notícia dos sucessos de Pernambuco foi coin­
cidir lá no Reino (Lisboa) com a malograda tentativa de ju­
lho” ( 1 ).
A êsse respeito escreve Oliveira Lima: “ Segundo o côn­
sul geral Lesseps (ofício cifrado de 27 de maio de 1817), foi
da sedição pemamhucaTia que nasceu a idéia de uma conspira­
ção “ cuja existência e fito não posso ainda adivinhar, mas que
podia entretanto fazer temer a disposição do espírito público.
Convocou-se adrede uma reunião extraordinária dos membros
do govêmo (de Lisboa), com assistência do Marechal (Beres­
ford) e de todos os Conselheiros de Estado, guardando-se sô­
bre ela o mais rigoroso sigilo, até que ontem se soube, com gra­
ve surpreza de todos os habitantes (lisboetas), que muitas pri­
sões tinham sido efetuadas na noite de domingo para se­
gunda-feira e Pentecostes, circulando muitas tropas na cidade,
e estando pronto a entrar ao primeiro sinal um reforço de al­
guns regimentos congregados nos subúrbios de Lisboa e pelos
quais se distribuirá cartuchame” ( 2). '
• estreita correspondência entre Do­
mingos Jose Martms e Gomes Freire de Andrade, entre Recife
e Lisboa, entre as lo]as Vermelhas” de aquém e além Atlântico
Nessas condiçoes. Luiz de Paula depõe: “ Que é ^ rd a d e que
os rebeldes em seus Conselhos (naf Inconfidências S r f e

s ã'.sü íss;«- ™
200 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

confidência Baiana. E prossegue com a Inconfidência Pernam­


bucana em 1817.

CORRESPONDÊNCIA ENTRE
RECIFE E LISBOA
Os maçons “ Vermelhos” de Recife e os de Lisboa agem de
comum acôrdo no ano de 1817. Estava em marcha acelerada
a idéia republicana. “ Desde 1814, dois homens, Domingos Jo­
sé Martins e Domingos Teotónio Jorge, tratavam com os che­
fes políticos de prestígio no Maranhão, no Ceará, no Rio Gran­
de do Norte, na Paraiba, na Bahia e até no Rio de Janeiro.
Em 1815, partia Domingos Martins outra vez para a Europa,
onde se tem razões para crer que estava relacionado com lojas
maçônicas fortemente empenhadas em estimular e proteger
os movimentos americanos (republicanos). Falava-se também
muito em acôrdo com políticos e militares de Portugal; e con­
quanto a respeito nada de positivo se indique, deve notar-se
ao menos que a notícia dos sucessos de Pernambuco foi coin­
cidir lá no Reino (Lisboa) com a malograda tentativa de ju­
lh o” ( 1 ).
A êsse respeito escreve Oliveira Lima: “ Segundo o côn­
sul geral Lesseps (ofício cifrado de 27 de maio de 1817), foi
da sedição pernambucana que nasceu a idéia de uma conspira­
ção “ cuja existência e fito não posso ainda adivinhar, mas que
podia entretanto fazer temer a disposição do espírito público.
Convocou-se adrede uma reunião extraordinária dos membros
do govêmo (de Lisboa), com assistência do Marechal (Beres­
ford) e de todos os Conselheiros de Estado, guardando-se sô­
bre ela o mais rigoroso sigilo, até que ontem se soube, com gra­
ve surpreza de todos os habitantes (lisboetas), que muitas pri­
sões tinham sido efetuadas na noite de domingo para se­
gunda-feira e Pentecostes, circulando muitas tropas na cidade,
e estando pronto a entrar ao primeiro sinal um reforço de al­
guns regimentos congregados nos subúrbios de Lisboa e pelos
quais se distribuirá cartuchame” ( 2). ^ f
Como se verifica havia estreita correspondência entre Do-
mmgos Jose Martins e Gomes Freire de Andrade, entre Recife
e Lisboa, entre as lojas Vermelhas” de aquém e além Atlântico
Nessas condiçoes, Luiz de Paula depõe; “ Que é verdade que
os rebeldes em seus Conselhos (nas Inconfidências n L e ir l e

s S-. “ ■

,!■
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILBIRA 201

Baiana, diziam conventículos), principalmente Domingos Mar­


tins e Domingos Teotônio, se gabavam e faziam publicar em
seus proclamações que eram do seu partido as mais capitanias
do Brasil^ e algums reinos estrangeiros... porém êle respon­
dente examinou que tudo isto era falso, e que êles espalhavam
estas notícias para unir o povo a êles.. ( 1 ) . E Luiz de Paula
andara em propaganda político-republicana pelo Nordeste.
Tollenare escreve: “ Prolongam-se os debates (na comis­
são militar) na esperança de descobrir todos os fios da con­
juração, alguns dos quais se quer crer, se extendem à Bahia,
ao Rio de Janeiro, mesmo a Lisboa e até ao estrangeiro. De­
seja-se encontrar os Estados Unidos nela implicados; procu-
ram-se motivos para justificar a aversão que se têm aos inglê­
ses. Não sei se estas últimas pesquisas terão algum resultado;
mas creio bem ver que em todo o Reino Unido (Portugal e
Brasil) há gente que tem o prurido de experimentar mudan­
ças, descontentes, intrigantes, ambiciosos. Tôda esta gente ca­
rece, com efeito, ser vigiada” (2).
Testemunha dos acontecimentos, êsse Tolenare observa a
aversão aos inglêses. Na Inglaterra os maçons “ Azuis” não de­
ram acolhida aos maçons “ Vermelhos” de Pernambuco. “ Igual­
mente foram mandados dois agentes, um aos Estados Unidos, a
fim de comprar armamentos e munições, e outro para a Ingla­
terra, com instruções a Hipólito José da Costa Pereira para
defender em Londres a causa da revolução, pela imprensa e
pelos meios diplomáticos. Negou-se a isto o redator do COR­
REIO BRASILIENSE, limitando-se a transmitir ao público os
principais documentos que hoje possuímos dessa revolução, e
a censwrâ-la, como imprudente, e como atrasadora do próprio
desenvolvimento político do Brasil” (3). Hipólito da Costa Pe­
reira era maçom “ Azul” , filiado à Maçonaria inglêsa. Português
nascido na Colônia do Sacramento, fronteiriça a Buenos Aires,
o redator do CORREIO BRASILIENSE batia-se pela unidade
brasileira. E pela Monarquia constitucional.

A PALAVRA DE
HIPÓLITO DA COSTA PEREIRA
Para se ter idéia do pensamento de Hipólito da Costa Pe­
reira a respeito dos planos republicanos dos inconfidentes de
Pernambuco, vale a pena 1er o que êle deixou escrito:
(1,2) Cf. Rocha Pombo. ob. cit. vol. VII, nota. p. 352.
( 3) Cf. Francisco Adolpho de Vamhagen. “ História Geral do Brasil”.
T-V. p. 201.
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202 T. L. FEKREIRA — M. K. FERREIRA

“ Suposto tivesse elementos antigos, foi obra do momento,


parto da inconsideração, e nunca sustentada por plano Ç°mb‘ -
nado; pois tudo mostra não só a precipitaçao, erros ® -
dos cabeças; mas a sua total ignorancia em matenas de g ° v e -
no. administração e modo de conduzir os negocios públicos em
uma palavra, não mostraram outra qualidade respeitável, se-
não a energia, que é filha do entusiasmo, em todos os casos de
revoluções. Êste acontecimento desastroso, como é, em dois
sentidos, que ao depois explicaremos, produzirá contudo um
efeito benéfico; e é demonstrar ao povo do Brasil (êle não diz
aos Brasileiros, porque todos eram Portuguêses) que as refor­
mas nunca se devem procurar por meios injustos, quais são os
da oposição de fôrça ao govêrno e efusão de sangue. Um rei
da Inglaterra (Ricardo II) achando-se entre os rebeldes, em
uma grande comoção popular em Londres, gritou ao povo, ven­
do a sua vida em perigo: — “ Quereis vós matar ao vosso rei?
Quem então remediará os vossos agravos?” Esta máxima é
aplicável a todos os países, porque destruído o govêrno, quem
há de remediar os males e abusos da nação?” ( 1 ).
Hipólito da Costa Pereira dá o seu testemunho à posteri­
dade. Maçom “ Azul” , partidário da Monarquia Constitucional,
como era a Inglaterra, êle não compreendia o Brasil sem o seu
soberano. Daí verberar os “ irmãos Vermelhos” republicanos
de Pernambuco. E a sua linguagem é incisiva.
“ Os demagogos em Pernambuco esperavam ou talvez in­
tentaram persuadir a seus ignorantes sequazes que talvez de­
viam esperar socorros de potências estrangeiras. Êste é o v o­
to absurdo de quem supõe que as revoluções são o meio de
melhorar a nação. Jamais se viu que uma nação se introme­
tesse nas disputas civis de outra sem ser para piorar as coi­
sas, e tirar proveito de ambos os partidos disputantes’* ( 2)
a história não estivesse cheia de fatos que pro­
vam isto basta o exemplo do que fizeram os France­
ses durante a sua revolução. Em todos países onde foram re­
cebidas as armas de França, com esperanças de i n t r S i r e m
melhoramentos no governo, fizeram os Franceses o mais e s c ^

verdade'histôricl No c“ ï " a t u a r i ^ ' r “ "“ ' k


que a Inglaterra proibiu logo a e L o r t fn ^ " " T ° aconteceu
até que se enviassem cartfs o a r í v, ^''«'amentos. e
un«. p „
<1. 2) C f. “ Correio Brasiliense” . vols. XIX.
p. 161
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 203

mos que estas duas nações, de quem os revolucionários do Bra­


sil esperavam algum auxílio, não obrariam como obraram e
permitiam que se mandassem petrechos de guerra aos insur­
gentes; isso só para continuar a guerra civil, e êsses estran­
geiros tirarem partido das águas revoltadas, vendendo aliás
suas mercadorias, sem serem com os vencedores. Esta é a po­
lítica que vemos seguida, quanto às colônias espanholas; e por
que haviam os insurgentes do Brasil de esperar outros resulta­
dos? Quanto aos dois sentidos em que dissemos que esta re­
volução deve ser desastrosa: o primeiro é que a nação
tem de pagar mais tributos para resarcir as despesas
necessariamente ocorridas para suprimir insurreição; e estas
despesas por força hão de ser consideráveis, tanto de presente,
como em suas consequências; segundo, isto deve causar um
motivo de suspeita da parte do govêrno, que tomará tôda e
qualquer proposta de reforma, como sintoma de revolução, e
uma correspondente timidês da parte do povo, que receiará pe­
dir reforma alguma, com o temor que daí se sigam revoluções,
ou suspeitas de haver vistas atraiçoadas; e portanto, os homens
bons e cordatos, que realmente desejam ven remediados os
abusós de sua pátria, antes se sujeitarão aos males presentes
do que se arriscarão ao máximo dos males, que é a dissolução
do govêrno” ( 1).
As razões apresentadas por Hipólito da Costa Pereira são
próprias do maçom “ Azul”, fiel à Monarquia constitu­
cional. Não a entenderiam os maçons “ Vermelhos” de
Pernambuco. E a linguagem dêstes era outra. Assim, o mesmo
jornalista explica: “ Em Pernambuco o papel que apareceu
com o nome de Preciso dos Sucessos, — e que serviu de mani­
festo da revolução, começa por alegar como motivo da sedi­
ção 0 haverem-lhes chamado “ traidores” o que dizem ser “ ca­
lúnia à sua honra” e “ negro lábeo” .
“ Pernambuco, longe de sofrer opressões e vexames que o
fazem mais humilde do que outras províncias, passava por ser
a mais rica praça de comércio do Brasil. . . Em Pernambuco
começaram por onde tôdas as disputas neste mundo acabam,
que foi pegar em armas” (2).

A DEFESA DA MONARQUIA
Embora os rebeldes houvessem tomado conta de Recife, o
governador da Bahia, Conde dos Arcos, usou de tôda a ener-

(1,2) Cf. “ Correio Brasiliense” . vol. XXIII, ps. 172, 173.


204 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

gia para sufocar, logo de início, o movimento republicano d©


Pernambuco. No Rio de Janeiro, D. João VI visitava os arse­
nais e animava a tropa. Particulares ofereceram-lhe cêrca de
duzentos contos de réis. O consul Maler, em 7 de abril de
1817, informa, ao seu govêmo, em Paris, que o erário vasio
fôra suprido pelos donativos expontâneos e os empréstimos gra­
tuitos. “ O Banco desta Capital (Banco do Brasil) pôs à dispo­
sição do govêmo um milhão de cruzados, a título de emprés­
timo; o barão do Rio-Seco depois visconde do mesmo título e
por jfim marquês de Jundiaí) deu 50 000 cruzados e outros capi­
talistas deram somas consideráveis, o conde de Belmonte ofe­
receu 10.000 cruzados, o marquês de Angeja a sua baixela pa­
ra ser fundida, que era obra do ourives de Paris Germain, e
tôda a alta nobreza lhes seguiu o exemplo” (1). E o negocian­
te José Luiz Alves doou sete navios.
“ Segundo uma testemunha insuspeita, que então se encon­
trava no Rio, o inglês Luccock, todo o povo recebeu aí com
indignação a notícia da sublevação de Pernambuco; por tôda
a parte se manifestava grande entusiasmo em favor da ordem
e do bom Rei. No teatro, em duas noites, foi êste (o Rei) ob­
jeto de calorosas ovações: “ I confess thet, thougth a foreigner
(and interested only in general with domestic politics) this
burst of national sentiment thrilled to mo my soul.. . ” (2) —
“ Confesso, diz Luccock, que apesar de estrangeiro, esta mani­
festação do sentimento nacional me penetrou a alma” . O sen­
timento nacional, a que se refere o autor inglês, é o sentimen­
to de amor ao soberano, representante da nacionalidade. E
êle via a revolução em marcha.
Em Pernambuco já havia dissidência. Ainda antes dos
“ Vermelhos” chegarem a “ avistar Pôrto Calvo, Barra Grande,
Una, e outras vilas se pronunciavam pela realeza (pela Mo^
narquia), e essa pequena fôrça republicana se dispersava pe­
los matos, ou em jangadas buscava o pôrto das Galinhas Gor-
dilho (major José Egídio, depois general e visconde de Ca­
mamú) avançou ao pôrto das Pedras, e entrou, dentro de dois
aas em Tamand^é; e oito depois, o grosso da divisão da Bahia
de uns cmco mü homens, às ordens do marechal Joaquim de
haviam sofrido dos
r^ b h c o n o s algum dezar... A divisão avançou até Seri-
fôrças re.

*Tom/‘ ^ 2 'e d °^ ^ 2 C I5 '’ ‘’2nl “ História Geral do Bra.il».


^ F A Luccoock. “ Notes on Brazir'. p. 557.
(3) Cf. F. A. Vamhagem. Ob. cit. T-V. pp. 206, 207.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 205
No dia 8 de março, dois dias após o início da revolução,
são nomeados membros do Govêrno Provisório revolucioná­
rio de Pernambuco: Desembargador Antônio Carlos Ribeiro
de Andrada Machado e Silva ( 1 ), Dr. Antônio de Morais Sil­
va, Dr. José Pereira Caldas, Deão Bemaido Luís Ferreira
Portugal e o negociante Gervásio Pires Ferreira.
E ao mesmo tempo se concordou que o tratamento que
se deveria dar não só ao govêrno provisório, como às auto­
ridades, e mesmo em geral aos cidadãos, deveria ser o de — /
vós — e o título o de — patriota” (2). '
Êsse govêrno provisório revolucionário, no mesmo dia 8
de março, dirigiu ao povo uma proclamação na qual dizia:
“ Habitantes de Pernambuco! — A Providência divina, que
pelos seus inexcrutáveis desígnios sabe extrair das trevas a
luz mais viva, e pela sua infinita bondadej não permite a
existência do mal senão porque sabe tirar dêle maior e bem
felicidade, consentiu qúe alguns espíritos indiscretos e inad­
vertidos, de que grandes incêndios se podem originar de uma
pequena faísca, principiassem a espalhar algumas sementes
de um mal entendido ciume e rivalidade entre os filhos dc
Brasil e de P ortu ga l...” .
Depois de dizer que a culpa pela discriminação entre bra­
sileiros e europeus era da Monarquia absolutista, dizia a pro­
clamação que a Revolução fizera desaparecer aquelas distin­
ções, afirmando:
“ Pernambucanos, estai tranqüilos, aparecei na capital; o
povo está contente, já não há distinção entre Brasileiros e
Europeus; todos se reconhecem irmãos, descendentes da mes­
ma origem, habitantes do mesmo país, professôres da mesma
religião. Um govêmo provisório, üuminado, escolhido entre
tôdas as ordens do Estado, preside à vossa felicidade; con­
fiai no seu zêlo e no seu patriotismo. Vós vereis consolidar-
se a vossa fortuna, vós sereis livres do pêso de enormes tri­
butos que gravam sôbre vós; o vosso e o nosso país subirá ao
ponto de grandeza que há muito o espera, e vós colhereis o
fruto do trabalho e do zêlo dos vossos cidadãos. Ajudai-os
com os vossos, a pátria espera por êles; com a vossa aplicação
à agricultura, uma nação rica é imia nação poderosa.
A pátria é a nossa mãe comum; vós sois seus filhos, sois
descendentes dos valorosos Lusos, sois Portuguêses, sois Ame­
ricanos, sois Brasileiros, sois Pernambucanos!” (3)
(1) Irmão dc José Bonifácio de Andrada e Silva.
(2, 3) Cf. “ Brasil Histórico” por Melo Morais, 2.^ série, 1867
Tomo II. pág. 136.
i 206 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

De acôrdo com os têrmos dêsse manifesto, verificamos


i que a junta revolucionária de Pernambuco, acusava a Monar-
I quia absolutista de fazer discriminação entre Brasileiros e Eu-
! ropeus, ambos Portuguêses. E acusava o delegado do Rei em
Pernambuco, de proclcimar que a revolução era dirigida con­
tra os naturais de Portugal. Não era. Por isso mesmo, os re­
volucionários lançam aquela proclamação a fim de desfazer a
intriga. E êles mesmos se jactam e orgulham de serem por­
tuguêses, descendentes dos antigos e valorosos Lusos. E esta-
belecem a hierarquia, da nacionalidade à naturalidade: Por-
i tuguêses, Americanos, Brasileiros, Pernambucanos. Êles revo­
lucionários eram tudo isso.
Tiramos pois, a seguinte conclusão: havia entre as classes
mais ignorantes da população, uma antiga rivalidade entre na­
turais de Portugal e do Brasil. Essa camada da população não
havia recebido nenhuma mensagem revolucionária prévia. Não
havia sido doutrinada sôbre os objetivos da revolução. E ao
1 surgir uma revolução dirigida por brasileiros, essa camada ig­
norante concebeu-a em têrmos da rivalidade existente entre
naturais de Portugal e do Brasil.
Mas, os chefes da revolução, doutrinadores e dirigentes da
Maçonaria, êsses eram homens cultos, que pretendiam substi­
tuir um regime político por outro. Não os levava qualquer an­
tipatia pelos naturais de Portugal, e sendo disso acusados pelo
delegado do Rei, procuraram imediatamente, por meio daquela
proclamação, desfazer a intriga.
Melo Morais descreveu a sessão do Govêmo Provisório de
Pernambuco, no dia 8 de março de 1817:
“ Não obstante os seus sentimentos patric^icos, o Padre
Manoel Joaquim achava muito cêdo a revolução, e prematura
a República, porquanto nada se havia disposto para um resul­
tado feliz. Êle lamentava com dor a profunda antipatia dos
Portuguêses para com os Brasileiros; mas, vendo que já não
havia outro remedio, e que os seus compatriotas necessitavam
da revolSíã^® com firmeza em proveito

Joaquim, concluimos que


a revolução foi desencadeada sem nenhuma preparação cuida-
dosa. Qual a razao? B> fácil adivinhar: a revolução d L ^ ex-

Houve qualquer fato importante em Portugal que fêz ex-


A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 207

plodir a revolução lá, sendo enviada notícia para Pernambuco,


que ante a surprêsa, teve que fazer imediatamente a sua.^
Melo Morais continua a descrever a sessão do Govêmo
Provisório do dia 8 de março:
**Neste mesmo dia, em sessão, o advogado José Luís de
Mendonça propôs em conselho (do govêrno), ser prudente, e
muito conveniente à causa da revolução, conservar de novo o
estandarte real nas fortalezas, e que com o ex-governador Cae­
tano Pinto se mandasse um respeitoso memorial, expondo os
justos motivos que forçaram os Pernambucanos ao excesso que
tiveram, e ao mesmo tempo pedindo-lhe o alívio de alguns im­
postos, que tanto pesavam sôbre o povo; e também a reforma de
certas leis, que reprimissem os abusos da autoridade. E que
êste comportamento do Govêrno Provisório em protestar ainda
obediência e fidelidade ao Rei, não inibia de se cuidar com
todo o empenho nos meios de se fortificar e armar a nova Re­
pública, por conhecer o isolamento em que se achavam, pelo
prematuro do rompimento revolucionário.
Domingos José Martins, desesperado com o que acabava
de ouvir, não podendo refutar as razões apresentadas pelo ad­
vogado Mendonça, levanta-se calado, e na sala contígua, diri­
gindo-se ao capitão Pedroso, comunica-lhe com indignação tudo
o que ouviu do advogado Mendonça, com o firme propósito de
0 assassinar, o que não conseguiu, por se lhe interpôr os de­
mais membros do Conselho. Mendonça desfêz-se em descul­
pas. .
Por êsse trecho, não há dúvida: a revolução havia sido
levada a cabo pelas Maçonarias “ Azul” e “ Vermelha” . E dois
dias após ter sido iniciada, já houve séria altercação eiitre dois
chefes revolucionários: o advogado José Luís de Mendonça
(“ Azul” ) e Domingos José Martins (“ Vermelho” ).
O advogado Mendonça era pela Constituição e parlamen­
to, mas conservando a Monarquia. Por isso, propôs recolocar
o estandarte real nas fortalezas, protestando-se obediência e
fidelidade ao Rei D. João VI. Mas o seu pensamento político,
aliás de tôda a Maçonaria “ Azul” êle o expressáva bem: alí­
vio de impostos, e reforma de certas leis que reprimissem os
abusos da autoridade do rei e seus delegados.
Mas, Domingos José Martins, maçom “ Vermelho” , e por­
tanto republicano, que se achava num cômodo contíguo, ao ou­
vir as palavras de Mendonça, reage violentamente e chega
a tentar assassiná-lo, no que foi obstado pelos demais mem­
bros do Conselho.
Daí, Mendonça resigna-se e desculpa-se.
208 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

Concluimos, pois, que a revolução já havia sido empolga­


da logo no início, pela Maçonaria “ Vermelha” , Os maçons
**Azuis” estavam dominados pelos “ Vermelhos”.
Verificamos, pois, que os maçons “ Azuis” eram do cen­
tro: ficavam entre a Monarquia absolutista, que era a direita,
e a República, pregada pelos “ Vermelhos” , situada à esquerda.
Dessa maneira, naquêle momento os “ Azuis” estavam ao
lado dos “ Vermelhos” , numa revolução contra as tropas rea­
listas, ou sejam, absolutistas.
E ao mesmo tempo, os “ Azuis” já no início da revolução
lutam com os “ Vermelhos” , sendo submetidos por êstes.
No dia 9 de março, o advogado Mendonça publica mani­
festo com o título “ Preciso” , onde diz que os absolutistas acu­
savam os revolucionários com o
“ ...lébeo de traidor aós nossos mesmos amigos, parentes
e compatriotas, naturais de Portugal” .
Dizia depois, que o representante do rei, ao mesmo tem­
po que se dizia amigo sincero dos pernambucanos organizava
“ . . . listas de proscritos, que tinha de entregar nas mãos
do algoz, Brasileiros de tôdas as classes, a mocidade de mais
espírito do país, os oficiais mais bravos das tropas pagas, em
uma palavra, os filhos da pátria de maior esperança e mais
distinto merecimento pessoal” .
Mais adiante dizia o manifesto:
^“ A 8 se instalou o govêrno provisório, composto de~5~pa­
triotas, tirados das diferentes classes, o qual govêrno tem sida
permanente sempre em suas sessões. O seu primeiro cuidado
% foi desabusar os nossos compatriotas de Portugal dos mêdos e
desconfianças, com que os tinham inquietado os partidistas da
tirania (absolutistas), recebendo a todos com abraços e ósculos,
segurando suas famílias, pessoas e propriedades, de tôda a
sorte de injúria, fazendo-os continuar em seu comércio trá­
fegos e ocupações, com maior liberdade que dantes; procla­
mando, enfim, por um bando, os sentimentos do govêmo e do
povo, e não haver mais daqui por diante diferença entre nós
de Brasileiros e Europeus; mas deverem todos serem tidos ení
conta de uma so e a mesma herança, que é a «roDripriarlo <r<>.
ral de tôda esta província” ( 1) . ®
Nesse manifesto de Mendonça, veja-se que êle cor duas
vezes fala em cidadãos “ de tôdas as classes” Entretanto nâo
devemos subentender a expressão “ tôdas as classes” ^

<1) Cf. “ Brasil Histórico" Melo Morais - pág. 138.

// ■ j
fT'

A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 209

mente no sentido de hoje. Assim, pois, quando êle fala que


os cinco membros do govêmo Provisório revolucionário eram
de ‘ tôdas as classes”, não encontramos alí nenhum membro
das classes trabalhadoras e operárias. Aliás, ali existiam in­
telectuais e um negociante. Era essa, a burguesia que estava
fazendo a revolução. Dizia-se de “ tôdas as classes”, no sentido
de que representava “ tôdas as classes” . Era essa, uma burgue­
sia que no regime absolutista não tinha direitos políticos. Pois,
na Monarquia absolutista, só tinham direitos políticos, os mem­
bros das nobrezas, tituladas ou não. E as nobrezas das cidades
e vilas, estavam juridicamente estruturadas segundo a Orde­
nação e mais leis esparsas da Monarquia Portuguêsa (1).
Dessa maneira, devemos considerar também as Maçonarias
como constituindo um movimento essencialmente burguês, de
uma nova classe que aspirava a, possuir direitos políticos,
para isso devendo evidentemente fazer imia mudança nas ba­
ses político-econômico-social da antiga sociedade absolutista.
A INCONFIDÊNCIA PERNAMBUCANA
E A INCONFIDÊNCIA LISBOETA
O fato de Domingos José Martins aproar a Lisboa em co­
meços de 1817 coloca-o em contacto com seus “ irmãos” republi­
canos. Agem de acôrdo os “ Vermelhos” da Maçonaria. Pro­
jetam dar um golpe na Monarquia e instituir a República em
Portugal e em Pernambuco. Em 24 de maio de 1817 são presos
em Lisboa os chefes do movimento republicano. Dois meses
antes, estala a inconfidência! pernambucana, com o mesmo
objetivo. Em Lisboa, o general Gomes Freire de Andrade e
parte de seus companheiros são condenados à fôrca. Muitas
providências foram tomadas pelos republicanos de Recife.
“ Desde que se habia proclamado definitivamente a forma re­
publicana, foi necessário criar logo uma nova bandeira que
servisse de símbolo da pátria sob as novas instituições, e de-
^ cretou-se que seria ela azul e branca, tendo a parte azul uma
figura do sol nascente e no alto uma estrêla; e na parte bran­
ca uma cruz vermelha. Adotou-se também um novo laço na­
cional, igualmente azul e branco” (2). Nesse caso, a pátria
era a pátria pemambucanu, porque o movimento abrangia
as províncias nordestinas. O laço nacional seria da nação per­
nambucana. “ Deliberou-se ainda que os atos do govêmo se-
( 1) Cf. “ História da Civilização Brasileira” - Tito Lívio Ferreira
e Manoel Rodrigues Ferreira - Edição Gráfica Biblos Ltda. - S. Paulo.
(2) Cf. Rocha Pombo “ História do Brasil”. 1.® ed. Vol. VII. -
210 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

riam datados da segunda era da liberdade pernambucana, su­


bmetendo-se como primeira o tempo em que a capitania fora
libertada do domínio holandês (1654) ” (1). No “ Preciso” dos
sucessos, que tiveram lugar em Pernambuco, desde a faustís-
sima e gloriosíssima Revolução operada felizmente na Praça
do Recife, aos seis de março (de 1817), em que o generoso es­
forço dos nossos bravos patriotas (sinônimo de republicano) ex­
terminou daquela parte do Brasil o monstro infernal da tirania
reaV\ E termina com estas palavras: “ E tal é o nosso estado
político e civil até hoje, 10 de março de 1817. Viva a Pátria!
vivam os patriotas, e acabe para sempre a tirania real” (2) .
A Pátria era a nova República, os patriotas os republicanos.
E não se tratava, como dizem certos escritores da história e
ensinam os livroá didáticos, de uma luta entre brasileiros e
portuguêses.

A REPÚBLICA NO CEARÁ
Emissário dos republicanos de Recife, o subdiácono José
Martiniano Pereira de Alencar, maçom “ Vermelho” , vai para o
Ceará. “ Sublevadas as vilas de Crato, do Icó, de Aracati, do
Sobral, etc., marchariam os patriotas sôbre Fortaleza, a
“ destruir a tirania” . (3) No Crato, Alencar segue para a Câ­
mara Municipal e “ proclama a República entre “ vivas e tiros
de espingarda” , e lavra-se um auto da cerimônia, que todos
assinaram” (4). Naquela altura, “ o povo conservara-se, como
0 observou Tollenare, sem entusiasmo pelo ensaio democrático,
que diante dêle se desenrolava, sem mesmo uma compreensão
nítida do que se estava passando: sòmente percebia com cla­
reza que a sua situação não melhorava efetivamente como lhe
haviam anunciado, e que continuava a sofrer as mesmas pri­
vações que dantes. Quanto ao comércio, escusado é referir
paralizado, irritando a gente que dêle

UM MAÇOM NO ENCALÇO
DE OUTROS MAÇONS

Comandadas pelo marechal de campo Joaquim de Mello

Oo BrasU». l.a ed. vol. VII. ps.


(4) Rocha Pombo. ob. cit. ps. 400 e segg.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 211

vimento: “ Segundo a voz pública, pertencia êle ao Grande


Oriente Maçônico da Bahia, e provavelmente sabia a disposi­
ção liberal da massa pensante dos brasileiros; nem de certo
poderia contar com a inteira submissão dos seus oficiais e
soldados se o dom da independência e da liberdade fôsse asse­
gurado pela constância inabalável daquêles que o tinham ofe­
recido. Sendo êle um dos que recuaram à vista do perigo a que
se julgaram eocpostos com a prisão do desgraçado^ Roma (o
Padre Roma, fuzilado em Salvador), obrigado a obedecer ao
déspota que regia a Bahia (o Conde dos Arcos), tratava de
comportar-se de maneira a não desgostar um nem outro par­
tido” ( 1 ) . E* que 0 comandante Cogominho era maçon “ Azul” ,
isto é, monárquico.
Em Serinhaem a divisão de Cogominho encontra as **for­
ças republicanas” . “ Rompeu então o fogo: o da artilharia
dos republicanos foi vivíssimo, e apenas cessou com a noite —
da qual se aproveitaram (os republicanos) para retirar, dei­
xando a mesma artilharia e tôdas as bagagens — informado
de que os monarquistas lhes iam tomando as estradas de flanco
e retaguarda y (2). Malogra o plano revolucionário de implan­
tar a República em Pernambuco. Presos, Antônio Carlos, Pe­
droso, José Mariano e Frei Caneca foram acorrentados. Con­
tra êles “ a raiva dos realistas” era mais acesa. E assim eram
tratados, diz Muniz Tavares; “ os vassalos de um rei ab­
soluto!” (3) .

OS PROCESSADOS
Mais de uma centena de revolucionários foram presos e
processados. Dêles, apresentaremos alguns nomes, a seguir,
conforme a conclusão do processo (4) .
“ Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado, ouvidor de
Olinda, prêso a 4 de junho de 1817 (certidão fl. 28 do apenso F ) .
E’ acusado de ir aos clubes, de ter no Limoeiro aviso da
rebelião e vir logo, de escrever ofícios à Câmara para vassa­
lagem de escrever para o projeto de Constituição, de escrever
sôbre outros objetos, de falar antes com Gervásio (Pires Fer­
reira), sôbre a revolução, de ser autor de proclamações, conse­
lheiro, membro do conselho supremo de justiça, substituto dos
governadores e de acompanhar os rebeldes” .
“ Basílio Quaresma Torreão, escrivão de Olinda, prêso a
15 de julho de 1817 (certidão à fl. 34 do apenso F).
(1, 2, 3) Cf. Rocha Pombo. “ História do Brasil”, vol. VII.
( 4) Cf. Melo Morais, “ Brasil Histórico” .
212 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

E’ acusado de ir aos clubes, de ser influído no serviço, de­


clamador e um dos matadores do Madeira no dia 6, de ser al-
moxarife dos exércitos do Sul, e de acompanhar os rebeldes” .
“ Francisco Pais Barreto, capitão-mór do Cabo, prêso em
13 de maio de 1817 (certidão fl. 28 do apenso F ).
E* acusado de ir e fazer da sua casa clubes, de antes tratar
da revolução, de mandar ajuntar gente para a vir sustentar, e
que por não ser precisa a despedia, de ir com outros prestar
o juramento de fidelidade, de mandar no distrito a obediência
ao dito govêmo, recmtar gente para o serviço dos rebeldes,
prestar-lhes auxílio e socorros na ida do exército para o Sul,
de na chegada dêste ir buscar as bandeiras, ser influido e de­
clamador” .
“ Francisco da Rocha Pais Barreto, paisano, prêso a 28 de
maio de 1817.
E* acusado de ser aos clubes, de antes tratar da revolução,
ir às batalhas tôdas do Sul, ser influido no serviço dos rebel­
des e declamador” .
“ Francisco Muniz Tavares, prêso a 11 de junho de 1817
(certidão fl. 28 do apenso F).
E* acusado de ir aos clubes, de antes tratar da revolução,
de aliciar gente e de acudir armado aos rebeldes, ser capitão
de guerrilhas, ser influido e declamador” .
“ Felipe Neri Ferreira, tenente miliciano, prêso a 15 de
junho de 1817 (certidão a fl. 488 da devassa principal).
E* acusado de ter casas de clubes, de antes tratar da revo­
lução, de ter sido juiz da polícia até o fim, de ter servido com
muita atividade, de ter ido na tarde do dia 6 aos quartéis,
de andar enterrando os mortos ou esconde-lòs, de ter assinado
papéis revolucionários e de mandar tirar o retrato de El-Rei
da Câmara” .
“ Gervásio Pires Ferreira, paisano, prêso em 25 de maio
de 1817 (certidão fl. 28 do apenso F).
E’ acusado de ter sido encarregado da execução do de­
creto de 11 de março de 1817, rebelde, e de unir ao erário a
administração dos fundos da extinta Companhia de Pernam­
buco, de examinar as suas contas, de ter sido conselheiro (do
Govêrno Provisório), ir às sessões, e alta noite ter- entrada
franca na sala dd Govêmo, de ter a inspeção do erário, de
ter sido incumbido de arrancar os fundos da companhia e da
mesa da inspeção, da compra de víveres e repartimento, de
ter oferecido o seu navio para ir à América I n g l ^ buscar
víveres e munições, de ter dado o plano de fardar a tropa e de

\
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 213

ter sido correspondente dos Americanos para a entrega da gen­


te de guerra”.
Apresentamos sòmente alguns nomes, pois os mesmos ain­
da surgirão em grande destaque na Revolução Liberal Luso-
Brasileira de 1820-1821-1822. Sofreram diversas penas de pri-
são. Assim, por exemplo, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada
Machado, irmão de José Bonifácio, permaneceu quatro anos no
cárcere. Domingos José Martins e o Padre Roma, como dis­
semos, foram fuzilados. Um estudo minucioso do processo,
mostrará que os chefes “ Vermelhos” foram fuzilados, e os
“ Azuis” , condenados ao cárcere.
Devemos lembrar que a partir da Inconfidência Mineira,
estas revoluções liberais começam a crescer, não só na exten­
são, como também no número de envolvidos. Esta Revolução
Pernambucana de 1817, foi um ensaio de cooperação entre as
Maçonarias de Portugal e Brasü. A próxima, de 1820-1821,
seria vitoriosa, como veremos. A partir pois, de 1789, em
Vila Rica, estas inconfidências começaram a crescer, e final­
mente seriam vitoriosas em 1820-1821.
Eram, pois, movimentos revolucionários que tinham um
conteúdo ideológico, ou seja, a luta de novas idéias políticas,
contra a Monarquia absolutista. Não eram pois, “ rebeliões de
nativos” para proclamar a “ independência da Colônia opri­
mida” , como afirma uma certa história ingênua e simplista
que anda por aí.

OS ÚLTIMOS VASSALOS DEL-REI


A Revolução Francesa extinguira, na França, os derradei­
ros traços da vassalagem medieval. Ficaram ainda, em certos
países da Europa, fórmulas e práticas desligadas, particulares
a certos meios da nobreza, mas proscritas na sociedade nas­
cente. Napoleão espalha as idéias revolucionárias pela Euro­
pa. E com elas a Maçonaria trabalha ativamente, por tôda a
parte, para acabar com a Monarquia e inutilizar a Igreja Ca­
tólica.
Para se verificar como as sociedades secretas agem com
rapidez, numa época de transporte lento e demorado, basta ob­
servar a correspondência clandestina entre a Inconfidência Mi­
neira e a Revolução Francêsa. Ambos os movimentos se acham
interligados subterraneamente. Paris e Ouro Prêto, com a ci­
dade do Rio de Janeiro, como elemento de ligação, se identifi­
cam. Da mesma forma, a Inconfidência Baiana continua o
espírito maçônico da Inconfidência Mineira, assim como a In­
214 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA
confidência Pernambucana representa o prolongamento das an­
teriores. 1789, 1798 e 1817 estão unidos pelos mesmos ideais re­
publicanos. Ainda tímida e incerta em Ouro Prêto; declara­
da e aberta em Salvador, explode em Recife vigorosamente.
Não eram brasileiros contra portuguêses, porque todos eram
portuguêses pela nacionalidade: eram os últimos vassalos dei'
Rei a lutar contra os "patriotas” ; era o combate decisivo da
República contra a Monarquia; era o Liberalismo dos niaçons
contra o poder da Igreja. Outras datas viriam, para assinalar
a marcha das fôrças secretas contra as instituições vigentes. E
se sucederiam: 1789, Inconfidência Mineira; 1798, Inconfidên­
cia Baiana; 1817, Inconfidência Pernambucana; 1824, segunda
Inconfidência Pernambucana; 1835, Inconfidência Gaúcha;
1889, Inconfidência Carioca.
Leia-se com atenção o decreto del-Rei D. João VI, de 6 de
fevereiro de 1818. Por êle se declaram encerrados todos os in­
quéritos e se determina: “ Hei por bem que as devassas (in­
quéritos hoje) a que se estava procedendo em Pernambuco, òu
em outras quaisquer terras pelos crimes que alguns malvados,
trazendo de longe o veneno de opiniões destruidoras, (a Re­
pública) e querendo inficcionar a Nação Portuguêsa (Nação
Portuguêsa era Portugal, Brasil, arquipélagos atlânticos. An­
gola, Moçambique, índia Portuguêsa (Goa), Macau e Timor,
nas cinco partes do Mundo), que acabo de ver que se acha ile­
sa contra o Estado (a Monarquia), conspirando-se e rebelando-
-se contra êle cessem no seu prosseguimento e se hajam por
fechadas e concluídas...” ( 1).
Assim termina mais um capítulo da luta da Ma­
çonaria contra a Monarquia, em prol da República.
Tendenciosamente, os escritores da história do Bra­
sil torcem os fatos conforme seu pensamento, embora o do­
cumento revele o contrário. Dentro dessa linha de idéias de-
fo ra ^ a m os acontecimentos, como fizeram os historiadores ro­
mânticos da Revolução Francêsa. Com a história do Brasil
o T ° P -? P°W«c° e social iniciado em
1789, em Ouro Preto, pelos inconfidentes e encerrado em IfifiQ
no Rio de Janeiro, era nitidamente republicano S 182™ t S e
como força secreta propulsora, a Maçonaria ‘ /...i« u i

D. J O Ã O V I F E C H A A M A Ç O N A R IA

Em_ conseqüência das revoluções de 1817, em Pernambuco


e em Portugal, D. João VI resolve proibir as sociedades se-
(1) Cf. Rocha Pombo. “ História do Brasil” p. 437 p , VII - 1.* ed.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 215

eretas, com o alvará de 30 de março de 1818, que publicamos


na íntegra, em seguida:
“ Eu El-Rei faço saber aos que êste alvará com fôrça de
lei virem; que, tendo-se verificado, pelos acontecimentos que
são bem notórios, o excesso de abuso a que têm chegado as
sociedades secretas, que, com diversos nomes de ordens, ou
associações, se tem convertido em conventículos, e conspira­
ções contra o Estado; não sendo bastantes os meios correcio-
nais com que se tem até agora procedido, segundo as leis do
Reino, que proibem qualquer sociedade, congregação ou asso­
ciação de pessoas com alguns estatutos, sem que elas sejam pri­
meiramente por mim autorisadas e os seus estatutos aprova­
dos; e exigindo por isso a tranqüilidade dos povos, e a segu­
rança que lhes devo procurar e manter, que se evite a ocasião
e a causa de se precipitarem muitos vassalos, que antes po­
diam ser úteis a si e ao Estado, se forem separados dêles, e
castigados os perversos, como as suas culpas merecem; e tendo
sôbre esta matéria ouvido o parecer de muitas pessoas dou­
tas, e zelosas do bem do Estado, e da felicidade dos seus con­
cidadãos, e de outras do meu conselho, e constituídas em gran­
des empregos, tanto civis, como militares, com as quais me
conformei: sou servido declarar por criminosas e proibidas,
tôdas e quaisquer denominações que elas tenham, ou com os
nomes e formas já conhecidos, ou debaixo de qualquer nome
ou forma que de novo se disponha ou imagine; pois que tôdas
e quaisquer deverão ser consideradas de agora em diante como
feitas para conselho, e confederação contra o Rei e o Estado.
Pelo que ordeno que todos aquêles que forem compreen­
didos em ir assistir em lojas, clubes, comitês ou qualquer outro
ajuntamento de sociedade secreta; aquêles que para as ditas
lojas, ou clubes ou ajuntamentos convocarem a outros; e aquê­
les que assistirem à entrada, ou recepção de algum sócio ou
ela seja com juramento, ou sem êle; fiquem incursos nas penas
da Ordenação, Livro V, Título VI, parágrafos 5 e 9, as quais
penas lhes serão impostas pelos juizes e pelas formas e pro­
cessos estabelecidos nas leis para punir os réus de lesa-ma­
jestade.
Nas mesmas penas incorrerão os que forem chefes, ou
membros das mesmas sociedades, qualquer que seja a deno­
minação que tiverem, em se provando que fizeram qualquer
ato, persuasão ou convite de palavra ou por escrito, para esta­
belecer de novo, ou para renovar ou parai fazer permanecer
qualquer das ditas sociedades, lojas, clubes ou comitês dentro
dos meus Reinos e domínios; ou para correspondência com
216 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

outras fora delas, ainda que sejam fatos praticados individual­


mente, e não em associação de lojas, clubes ou comitês. Nos
outros casos serão as penas moderadas ao arbítrio dos juizes,
na forma adiante declarada. As casas em’ que se congrega­
rem serão confiscadas; salvo provando os seus proprietários
que não souberam, nem podiam saber que a êsse fim se desti­
navam. As medalhas, sêlos, símbolos e estampas, livros, ca­
tecismos ou instruções, impressos ou manuscritos, não poderão
mais publicar-se, nem fazer-se dêles uso algum, despacharem-
se nas alfândegas, venderem-se, darem-se, emprestarem-se, ou
de qualquer maneira passarem de uma a outra pessoa não sen­
do para a imediata entrega ao magistrado, debaixo da pena
de degredo para um presídio, de 'luatro até dez anos de tem­
po, conforme a gravidade da culpa e circunstâncias dela.
Ordeno, outrossim que neste crime, como exceto, não se
admita privilégio, isenção ou concessão alguma ou seja de foro
ou de pessoa, ainda que sejam dos privilégios incorporados
em direito, ou os réus sejam nacionais ou extrangeiros, habi­
tantes no meu Reino e rtomínios e que assim abusarem da hos­
pitalidade que recebem; nem possa haver seguro, fiança, ho­
menagem ou fiéis carcereiros sem minha especial autoridade.
E os ouvidores, corregedores e justiças ordinárias todos os anos
devassarão dêste crime na devassa geral: e constando-lhes que
se faz loja, se convidam, ou se congregam tais sociedades, pro­
cederão logo a devassa especial, e à apreensão e confisco, re­
metendo os que forem réus, e a culpa, à relação do distrito,
ou ao tribunal competente, e a cópia dos autos será também
remetida à minha real presença. E êste se cumprirá como
nêle se contém, sem embargo, etc.” .
Observemos nêsse alvará, que D. João VI afirma: nas me­
didas contra as sociedades secretas e seus membros, não se
levasse em consideração privilégio, isenção ou concessão algu­
ma. Êle referia-se aos membros da nobreza que faziam parte
da Maçonaria “ Azul” .
Podemos observar que a Maçonaria, rigorosamente proi­
bida a epoca da Inconfidência Mineira, agora, 29 anos após,
ja gopva de maior liberdade. Tanto que, foi necessário êsse
alvara de D. Joao VI, proibindo as sociedades secretas.
A MAÇONARIA EM PORTUGAL
REORGANIZA-SE

K c no Brasil, estava divi-


m fco ^ K P°deres ocultos. Maçons Azuis e
maçons Vermelhos chocam-se, batem-se, combatem-se. “ Ês-
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 217

ses poderes ocultos crescem, aliás, em fôrça e em número. A


partir de 1818 — se não antes — surge no Pôrto um grupo de
mentores da revolução em marcha: o Sinédrio, que^ tem por
fundador o desembargador Manoel Fernandes Tomás, secun­
dado pelo advogado José Ferreira Borges, pelo juiz ^de orfãos
José da Silva Carvalho, por José Ferreira Viana, etc“ (1). To­
dos são maçons, comungam o ideal revolucionário. Centrali-
za-se na cidade do Pôrto o movimento contra o regalismo da
Regência de Beresford, e contra o absolutismo da Monarquia.

FINDA A MONARQUIA ABSOLUTISTA ^


Estamos agora no ano de 1820. Há doze anos D. João VI
acha-se no Brasil, e o velho Rei não dá o menor sinal de que.
deseja regressar a Portugal, que é governado por uma Regên­
cia.
A Revolução Liberal, triunfante nas Treze Colônias inglé'
sas da América do Norte, na França, na Espanha e na Amé­
rica Espanhola, está prestes a explodir na Nação Portuguêsa.
A Maçonaria é o agente da Revolução em todos os países.
Essa sociedade secreta tem por escôpo derrubar as Monarquias
absolutistas e implantar uma nova ordem política, social e eco­
nômica. Nos regimes absolutistas os partidos políticos eram
rigorosamente proibidos. Sòmente eram tolerados os “ ban­
dos” , ou sejam, grupos antagônicos entre si, mas todos fiéis
e leais ao rei, à Monarquia absolutista. Assim, no Brasil
foram célebres as lutas sangrentas entre quatro “ bandos” : na
cidade de São Paulo os Pires e Camargo lútando pelo predo­
mínio na Câmara Municipal J nas Minas Gerais, os paulistas
e os emboabas lutando pelo predomínio da nascente sociedade
mineira. Hostilizavam-se, mas eram todos fiéis e leais vassalos K
de Sua Majestade, a quem prestavam a obediência que os fi- -í
lhos prestam aos pais. Em todos os casos de discórdia — como í
naqueles citados — que levavam à formação de “ bandos” ri- |
vais, 0 soberano da Nação Portuguêsa comparecia não para
tomar posição em favor de uma ou outra facção, mas sim, para^
na qualidade de pai de tôda a família nacional, restabelecer
a harmonia e a paz entre os turbulentos vassalos.
Eram pois, admitidos os “ bandos” , mas não os partidos
políticos, tais como os conhecemos hoje.
A Maçonaria era pois um partido político que lutava contra
o poder absoluto dos reis, ou mais propriamente, contra o re-
(1) Cf. João Ameal. “ História de Portugal” , p. 358, 4.N Ed
Pôrto 1958.
218 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

gime monárquico absolutista, onde não havia Constituição e


nem parlamento (ou assembléia legislativa) de representantes
do povo. A Maçonaria em todos os países lutava piara derru­
bar 0 regime absolutista e implantar outro, de liberdades e di­
reitos, todos assegurados em uma Constituição e com assem­
bléias (parlamentos) de representantes do povo. Por isso, a
Maçonaria era rigorosamente proibida e tenazmente persegui­
da nos regimes absolutistas. Outra cousa não lhe restaria se­
não ser uma sociedade secreta impondo aos seus filiados de­
nominados “ Irmãos” , o mais rigoroso sigilo sôbre as suas ati­
vidades. Atividades revolucionárias, bem entendido. Pois a
Maçonaria não via outra possibilidade de fazer triunfar os seus
princípios, senão pela revolução.
Para impedir a divulgação dos princípios, das idéias polí­
ticas da Maçonaria, a Monarquia absolutista possuia um órgão
a quem competia censurar e proibir a publicação de livros:
a Inquisição ou Santo Ofício. Para reprimir as revoluções e
julgar os conspiradores, a Monarquia absolutista tinha um tri­
bunal especial denominado Juizo da Inconfidência.
Evidentemente, a Maçonaria deveria ser organização alta­
mente secreta, rigorosamente proibida àqueles que pudessem
não comungar com os seus objetivos políticos. Daí a necessi­
dade da hierarquia dos graus, que só irlani galgando e em con­
sequência conhecendo mais profundamente os mistérios e se­
gredos da sociedade, aquêles iniciados que demonstrassem a
mais absoluta adesão às idéias defendidas.
Dessa maneira, naqueles tempos de Monarquia absolutis­
ta, devemos compreender a Maçonaria como constituindo um
movimento político clandestino, ou se se quizer, um partido
político clandestino.
Realmente, a Maçonaria vivia na clandestinidade
A Maçonaria do Brasil, desde o século XVIII esteve liga­
da à de Portugal. Enquanto a sede da Monarquia Portuguêsa
foi em Lisboa, a Maçonaria sentia ser mais fácil os movimen-
n Inconfidências Mineira
(1789) e Baiana (1799). Com a transferência da sede da Mo­
narquia Portuguesa para o Rio de Janeiro já surgiu em 1817,
uma revolução simultaneamente no Brasil (em Pernambuco^ e
em Portugal (chefiada por Gomes Freire de L d ^ a d eT
Fmalmente, explodiria vitoriosa a Revolução Liberal em
Portugal ( na cidade do Pôrto) no dia 24 de agôsto de 1820 e
Xa 2fi explodindo no Rio de Janeiro no
íuia L t u t S r i° tradicional Monar-
, m a vitoria da Revolução Liberal organizada

i
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 219

pela Maçonaria, veremos no próximo capítulo. Antes, entretan­


to, vamos chamar a atenção dos leitores para certos detalhes
gerais que caracterizaram a Revolução Liberal Luso-Brasileira,
ou seja, a passagem do Antigo Regime, para o Novo Regime.
Com a Revolução Liberal de 1820-1821, as liberdades surgi­
ram simultâneamente em Portugal e no Brasil. Antes — durante
três séculos — os povos do Brasil e Portugal estiveram em condi­
ções de igualdade sob a Monarquia absolutista. Não havia ne­
nhum estatuto que atribuísse maiores direitos e privilégios ao
povo de Portugal em prejuizo do povo do Brasil. Ambos esta­
vam no mesmo pé de igualdade sob os paternais cuidados dos
reis.
E agora, com a Revolução Liberal de 1820-1821, surgia tam­
bém um novo regime de liberdades para ambos os povos. As
liberdades surgiram simultâneamente em Portugal e no Brasil.
A Revolução Liberal teve exatamente o mesmo sentido nos Rei­
nos de Portugal e Brasil. Aliás, as fôrças que a desencadearam,
tanto lá como aqui, eram as mesmas: as sociedades secretas
maçônicas.
Na sua essência, a Revolução Liberal significava uma pro­
funda reforma das instituições político-sociais. Segundo as
idéias dos pensadores políticos inglêses e franceses que prega­
ram a Revolução, ela tinha o significado de substituir um Pacto
Social (1) por outro. A Monarquia absolutista ou Antigo Re­
gime, justificava a organização social e o poder dos reis, segundo
as teorias do Pacto Social expostas por Hobbes, Filmer e Bossuet.
Mas agora, com a Revolução Liberal, êsse Pacto Social seria dei­
tado por terra. E a sociedade e os govêrnos, seriam organizados
segundo novo Pacto Social: o concebido ou por John Locke, ou
por Rousseau.
Por quê razão Locke ou Rousseau?
Porque na realidade a Maçonaria dividia-se em duas ordens:
A Maçonaria “ Azul” que defendia as idéias políticas de John
Locke, ou seja, a conservação da Monarquia com poderes limi­
tados, com Constituição e parlamento emanado do povo. E a
Maçonaria “ Vermelha” que defendia as idéias de Rousseau, ou
seja. Constituição e parlamento, e abolição completa da Monar­
quia, daí surgindo a República ou Democracia, pois essas ex­
pressões eram sinônimas.

(1) Na época da Revolução Liberal Luso-Brasileira de 1820-1821,


não Be dizia Contrato Social, como fazemos hoje, mas sim, Pacto Social,
razão porque prefterimos adotar esta última expressão que consta dos
documentos.
220 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

Enquanto viviam na clandestinidade, essas duas ordens ma­


çônicas eram uma só, pois o seu inimigo comum era o absolu­
tismo. Mas, com a queda do absolutismo, cada ordem maçônica
queria estabelecer o Novo Regime, segundo as suas teorias po­
líticas. Daí a luta entre as duas, após a vitória da Revolução
Liberal. Em nenhum país do mundo essa luta apresentou carac­
teres tão marcantes, como em Portugal e no Brasil.
Chamamos ainda a atenção do leitor para êste fato impor­
tante: com a Revolução Liberal Luso-Brasileira de 1820-1821, o
povo começou a ouvir uma série de expressões que êle desco­
nhecia completamente: Constituição, Pacto Social, Vontade Ge­
ral, Direito Natural, Direitos do Homem, e tantas outras. No
Antigo Regime, êsses conceitos revolucionários eram rigorosa­
: i mente proibidos. Agora, pela primeira vez, o povo começaria
a ouvi-los. E naturalmente, não saberia do que se tratava, pois
não recebera uma doutrinação prévia que o preparasse para os
novos tempos.
Devemos pois, fazer um grande esforço mental para imagi­
nar, para tentar reconstituir aquêles momentos, quando os ho­
mens estavam ouvindo novas expressões, novos conceitos, novas
palavras do dicionário revolucionário e dos quais êles não ti­
nham a menor idéia.
Talvez não seja tão difícil adivinhar como o povo em geral
devia sentir uma completa incapacidade de entender a palavra
Constituição com o seu significado político.
E agora, mais esta observação: o Brasil já era um país inde­
pendente dentro da Nação Portuguêsa, desde 1815, quando foi
elevado à categoria de Reino Unido ao de Portugal e Algarves.
Era um país independente dentro de uma Monarquia absolutista.
Agora, com a Revolução Liberal de 1820-1821, surgiria a ne­
cessidade de organisar a Nação Portuguêsa segundo o novo
Pacto Social. Aqui, surgiria a grande dificuldade, em razão das
divergências entre as duas ordens maçônicas, a “ Azul” e a “ Ver­
melha” . Da impossibilidade de entendimento, resultaria a In­
dependência do Brasil, ou mais pròpriamente, a separação polí­
tica do Brasil e Portugal.
A Independência do Brasil seria, pois, uma consequência da
Revolução Liberal E; o que passaremos a ver, exclusivamente
com documentos historicos, a partir do próximo capitulo.
Da Revolução Liberal
Luso-Brasileira
a
Independência
do Brasil

24 de agôsto de 1820 começa no Porto a Revolução luso-


A brasileira. O rastilho do movimento salta da foz do Douro
para a foz do Tejo. Atira-se por cima do Atlântico e acende
labaredas, imediatamente, nas principais capitais do Reino do
Brasil. E a Revolução portuense vai transformar-se, em pou­
cos meses, graças à Maçonaria, em Revolução luso-brasileira.
O primeiro manifesto da loja “ Sinédrio” , do Pôrto, faz um
paralelo entre o estado atual do Reino e os tempos anteriores,
“ Nossos avós foram felizes porque viveram nos séculos ventu­
rosos em que Portugal tinha um govêrno representativo nas
Côrtes da Nação, e obravam prodígios de valor emquanto obe­
deciam às leis que elas sabiamente constituíam, leis que apro­
veitavam e a todos obrigavam. Nunca a religião, o trono e a
pátria receberam serviços tão importantes, nunca adquiriram
nem maior lustre, nem mais sólida nobreza; e todos esses bens
dimanavam da Constituição do Estado, porque ela sustentava
em perfeito equilíbrio e na mais concertada harmonia os di­
reitos do soberano e os dos súditos, fazendo da Nação e do seu
chefe uma só família, em que todos trabalhavam para a feli­
cidade geral. Tenhamos, pois, essa Constituição, e nos tornare­
mos venturosos” ( 1 ) .
(1) Cf. Rocha Pombo. “ Hist. do Brasil.” 1.® ed. vol. VII, ps. 483, 484.
222 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

Cinco dias mais tarde, a notícia chega a Lisboa, onde é


aclamada. Foi abolida a regência de Beresford. Nomeia-se
um Conselho de govêrno. “ Entre as duas Maçonarias — de
Espanha e de Portugal — tecem-se laços de entendimento dia
a dia mais estreitos e as teses do iberismo encontram já pa­
ladinos que não hesitam em defendê-las por escrito. José Li-
berato Freire de Carvalho — para citar apenas um — publica
nessa altura um artigo que faz barulho, no “ Campeão Por­
tuguês”, editado em Londres. Intitula-se “ Destinos Futuros de
Portugal” e há lá períodos como êste: “ admitida a hipótese
que Portugal não pode viver por si só independente, nenhu­
ma união, depois da do Brasil, lhe é mais natural que a da
Espanha. Em todos os tempos foi considerado Portugal co­
mo uma parte da Espanha, e nesta denominação entrava a
antiga Lusitânia dividida em citerior e u lte rio r...” (1).
Beresford não pode desembarcar em Lisboa quando re­
gressa do Rio de Janeiro. Resolve rumar para a Ingla­
terra. “ Está consumado o golpe. O liberalismo e a Maçonaria
são donos de Portugal” (2). Não só de Portugal, do Brasil
também. Quando a notícia chega ao Rio de Janeiro, D, João VI
toma as providências necessárias. E a Monarquia absolutista
estava com os dias contados.
OS MAÇONS DE PORTUGAL
UNIDOS AOS DO BRASIL
Nessa altura o estudante Felipe Patroni entra em cena,
como elemento de ligação entre a Maçonaria de Portugal e a
de Belém do Pará. Felipe Patroni Martins Maciel Parente “ te­
ve a iniciativa dos sucessos políticos da vasta Capitania (do
Pará). Estudante de Direito na Universidade de Coimbra, pas­
sava as férias em Lisboa quando estalou ali a revolução. Par-
tiu sem perda de tempo para Belém, a fim de transmitir aos
conterrâneos a boa nova, e desembarcou no momento propício
ao seu desígnio, por ter encontrado a Capitania entregue a
um govêrno interino, fraco e sem prestígio. Teve, pois, pronto
e completo êxito 0 seu intento. Como não fôsse contemplado
na Junta Provisona que se formou, tentaram os seus ami-
gos reparar a injustiça, fazendo que o Senado da Câmara
(Municipal) de Belem o elegesse deputado às Côrtes (em Lis­
boa), eleiçao, porem, que a Junta não aprovou, por ter sido
feita irregularmente, visto como a vereação não êra coroo elei-
^ b ic io s o não se confor^^u e co^eço 7 a cím -
(1, 2) Cf. João Ameal. ob. cit. 484.

/
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILBIRA 223

bater com audácia a Junta. Cuidou esta de abrandar o estu­


dante investindo-o, não sem malícia talvez, de um cargo de
confiança mais aparente que real, para requerer perante as
Côrtes tudo quanto conviesse ao Pará. Julgando que podia
ilaquear a Junta e as Côrtes, aceitou Patroni a incumbência,
com o propósito de transformar a comissão em mandato\ de
deputado” ( 1 ) .
O emissário dos maçons de Lisboa regressa com o manda­
to da Junta. Vai com êle o Alferes de milícias Domingos Si­
mões da Cunha, cujo o encargo de “ apresentar ao govêrno re­
volucionário de Lisboa a mensagem da Junta de Belém e co­
municar o que estava feito.
Assim, o próprio Patroni entrega à Regência de Lisboa o
ofício da Junta paraense; “ O Senado da Câmara (Municipal)
desta cidade exigiu a esta Junta Provisória do Govêrno que
fôsse nomeado um Deputado para ir unir-se às Côrtes dêsse
Reino, e representar nelas o que conviesse aos interesses des­
ta província; como, porém, esta Junta julgou que uma tal no­
meação só podia ter lugar guardadas as formas das instruções
nesse Reino adotadas, para que o Deputado pudesse obrar le­
galmente, e não sendo ainda possível proceder a uma eleição
legítima, eis a razão porque não concordou com a opinião do
Senado. Esta Junta desejando contudo adiantar o que for
possível a benefício da causa da nossa regeneração politica,
julgou conveniente encarregar a Felipe Alberto Patroni Mar­
tins Maciel Parente, para que, passando a essa Côrte, possa
suplicar a Vossas Excelências quanto for compatível com as
circunstâncias desta província, que por tantos títulos deseja
que se estreitem, cada vez mcíis os laços que nos têm unido.
De muitas destas vilas desta província já se tem recebido a
certeza da unanimidade de seus votos; só resta, para satisfa­
ção plena de todos os habitantes, que êstes tenham a certeza
de o nosso Augusto Soberano (D. João VI) há escutado e
anuido ao que o povo paraense lhe tem pedido, e que Vossas
Excelências igualmente têm tomado em sua consideração quan­
to possa ser-lhe útil. O referido Patroni, movido dos dese­
jos de ser útil à sua pátria, há trabalhado com suas luzes, e
aceitou esta comissão com o mesmo fim” . (Assinados os mem­
bros da Junta Provisória). (2)
O documento não fala em separação, nem em indepen-

(1) Cf. Rocha Pombo. ob. cit. T[ VII. p. 488.


(2) Cf. Gomes de Carvalho “ Os deputados Brasileiros nas Côr­
tes Gerais de 1821” pág. 21 — Lisboa.
224 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

dência. Espera, porém, que os laços entre Portugal e Brasil


se estreitem cada vez mais. “ Regeneração política” são pala­
vras da época. Vão ser muito empregadas no sentido de Mo­
narquia dentro da ordem constitucional.
Os dois emissários do Pará foram recebidos com tôdas as
honras em Lisboa. Patroni tem oportunidade d^ fazer um
discurso ao sabor dos oradores da Revolução francesa. Começa
com estas palavras: “ No memorável dia 1 de janeiro se lan­
çara por terra o trono do despotismo na capital de sua pro­
víncia, arvorando-se o trofeu da liberdade nos muros que ba­
nha o Guajará” (1). E assim desempenha o seu mandato de
elemento de ligação entre os maçons do Pará e os de Lisboa.

O LEVANTE DAS TROPAS BAIANAS

Em Salvador, na Bahia, o levante das tropas verifica-se


ao amanhecer do dia 10 de fevereiro de 1821. Sopra da foz
do Tejo, em Lisboa, o vento revolucionário. Roça a crista
branca das vagas atlânticas. Invade os portos do Brasil, desde
Belém à baía de Guanabara. E penetra as cidades mais popu­
losas interioranas.
A linguagem histórica encerra as idéias da época. Revela
como os pensamentos eram os mesmos em Lisboa, em Belém,
em Recife, em Salvador, no Rio de Janeiro, em Ouro Prêto e
em São Paulo. O mesmo vocabulário se observa na seguinte
proclamação do capitão Luiz Lopes Vilas-Boas, aos soldados
de Salvador, na manhã de fevereiro: “ Valorosos companhei­
ros de armas! bravos soldados! Os nossos irmãos europeus (os
do Porto e Lisboa) derrotaram o despotismo (o absolutismo)
em Portugal, e restabeleceram a boa ordem e a glória da Na­
ção Portuguesa (formada por Brasil e Portugal); proclama­
ram a religião de nossos pais, uma liberal Constituição e Côr­
tes, e El-Rei (D. João VI) nosso soberano pela Constituição.
Soldados! Eu nunca vos tenho enganado; a honra e a verdade
dirigem meu coração; os males que êles sofriam e os motivos
que tiveram, vós bem os sabeis, e nós ainda hoje aqui os ex­
perimentamos; agricultura, comércio, e navegação arruinados*
violentos tributos arbitrários, corrupção dos magistrados po’-
breza dos povos, miséria dos soldados e tôda a casta de opres-
sao,_despotismo e tiram a... Soldados! A Bahia é nossa pátria.
e nao somos menos valorosos que os Cabreiras e SepúJvedas.

mi!» pr2?u.'S:a.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 225

(Quem fala é baiano.) Soldados! Nós somos os salvadores


do nosso pofís; a demora é prejudicial; o despotismo e a trai­
ção no Rio de Janeiro maquinami contra nós; não devemos
consentir que o Brasil fique nos ferros da escravidão (isto é,
prêso ao absolutismo.) Soldados! Ganhemos a glória de des­
truir a tirania. (A tirania do rei absoluto). Oh! bravos e
:generosos companheiros! libertemos a nossa afligida pátria! ga­
nhemos êste imortal trofeu e proclamemos: — viva a nossa
religião! — vivam a Constituição e as Côrtes na Bahia e Brasil!
— Viva El-Rei D. João VI, nosso soberano pela Constituição!
(1). As palavras entre parênteses são nossas para melhor es­
clarecimento. Observe-se a linguagem. O estilo dos homens
de Lisboa e do Pôrto é idêntico aos dos homens de Belém, de
Recife, de Salvador, do Rio de Janeiro e de São Paulo. E há
uma perfeita unidade de ideal político.

VIVAM OS BAIANOS!

Os liberais de Lisboa, isto é, os maçons lisboetas aguar­


davam, com interesse a adesão dos maçons baianos. “ Para
êles, o concurso da venerável metrópole histórica (Salvador)
do domínio americano equivalia a um triunfo completo da
revolução no Brasil. E não há dúvida que assim foi. Tam­
bém alí desde algum tempo que se fazia propaganda das no­
vas idéias em sociedades secretas” (2). Nesse tempo, já a li­
berdade, palavra cujo conteúdo estava carregado em 1789,
17&8 e 1817 de republicanismo; porque liberdade encerrava o
sentido explosivo de República; nesse tempo, dizíamos, em
1821, a palavra liberdade fôra substituida pelos maçons por li-
heralismo. E os liberais se entendiam com os libertários.
A 15 de abril de 1821 chega a Lisboa a notícia auspiciosa.
A Bahia aderira à causa revolucionária. Agitam-se as Côrtes,
onde assim ressoa; “ Se a divulgação da notícia tirou a alguns
deputados o interesse da sessão do dia imediato, estimulou o
•comparecimento do público, que se apinhou no recinto e nas
galerias. Estavam presentes as figuras mais conspícuas da re­
generação” . A palavra “ regeneração” aparece com o signifi­
cado de reforma, de vida nova. Estava em uso no vocabulá­
rio político da época. E daí constar da linguagem histórica.
Continuemos. “ Via-se o padre Castelo-Branco, antigo mi­
nistro da Inquisição, e (agora) liberal extremado, cujos dis-

(1) Cf. Rocha Pombo. ob. cit. vol. VII, ps. 492, 493.
i2 ) Cf. Gomes Carvalho, ob. cit. ps. 21, 23.
226 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

cursos eram lidos com prazer, lamentando o público a sua voz,


antes sussurro, de oração, tão fraca que só os visinhos lhe
distinguiam as palavras; via-se alí Margiocchi, que aliava forte
erudição à alegria do espírito, e esmaltava as arengas de ditos
facetos, julgados descabidos pelos austeros pais da pátria; Bor­
ges Carneiro, o bom gigante, sempre a favor dos oprimidos,
o qual acabava de ter estrondoso êxito com o “ Portugal rege­
nerado” , que em poucas semanas atingiu três edições” . E aí
temos o “ regenerado” na acepção de “ restaurado” ,^melhorado.
“ Era talvez, o tribuno predileto de Lisboa. Intrépido, claro,
simples, sem vulgaridade, era o mais cândido dos filhos dos
homens. (!) Lá estava o Moura, o primeiro orador português
das Côrtes, que não tardará a travar com Antonio Carlos ( ir­
mão de José Bonifácio), Vilela Barbosa e Lima Coutinho,
combates de titãs” . E êstes eram portuguêses nascidos- no
Brasil.
“ Atraía, porém, os olhares dos espectadores o velho Fer^
nandes Tomáz (maçon “ Vermelho” ). Já se formava a lenda
acêrca do grande varão. Contava-se que, enquanto na fôrca e
nas fogueiras de 1817 estrebuchavam os amigos da liberdade,
entre os quais avultava a nobre e alta figura de Gomes Frei­
re, (em Lisboa e no Recife Frei Caneca, Domingos José Mar­
tins, Padre Miguelino e na Bahia Padre Roma) êle tomara
com a consciência o compromisso de realizar o sonho das ví­
timas ou de segui-las ao patíbulo. Lisboa adorava-o. Doente,
em consequência do trabalho e das incertezas cruciantes a res­
peito do êxito da revolta, quando se lhe agravava o mal e
não comparecia, por isso, à assembléia, Lisboa inteira sofria” .
O autor não deixa de exagerar, tocado talvez de sua ponta de
romantismo.
“ O ministro da marinha, que o era também dos negócios
ultramarinos (ainda não surgira, na linguagem política a pa­
lavra colônia7, em sessão de 16 de abril, comunicou aos cons­
tituintes a notícia da proclamação da liberdade constitucional
na Bahia e que esta reconhecia a autoridade das Côrtes e do
governo supremo . E a Constituição ainda não existia. “ Se-
melhante resolução ponderava, determinaria o Brasil inteiro
umr-se a causa de Portugal, e persuadiria o rei (D. Joáo VI)
da convemencia de atender exclusivamente à vontade dos po­
vos, regeitados os alvitres reacionários da sua camarUha”

da j l ^ V b a t “ Decla‘i aTuS^ ° °

mteresses, nao deixana de ser garantida a unidade do Império


A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILBIRA 227

Lusitano (mais adiante veremos José Bonifácio recomendan­


do aos deputados de São Paulo, a unidade do Império Lusita­
no, onde entravam Portugal, Brasil, ilhas atlânticas. Angola,
Moçambique, Goa, Macau e Timor) e mostrava-se confiante
em que as Côrtes lançariam **os fundamentos da felicidade e
consideração a que o Brasil legitimamente aspirava” . Assim,
os homens da Junta baiana confiam nas Côrtes e nos “ irmãos”
lisboetas. E nenhuma alusão fazem a brasileiros em luta con­
tra portuguêses, como inventaram os historiadores românticos.
O secretário lê êstes trechos do ofício da Junta da Bahia,
onde se assevera: “ Enquanto o aspecto do tempo (cuja lei­
tura se fêz “ no meio do silêàicio augusto da assembléia” ) e as
circunstâncias não permitem que enviemos os deputados desta
província, que devem trabalhar em comum com os nossos ir­
mãos, rogamos ao soberano Congresso Nacional que receba
as expressões de nossa mais sincera adesão e fraternal congra­
tularão pela sua gloriosa instalação, e a segurança do muito
que o povo desta província, e nós em especial, confiamos na
sua sabedoria, no seu zêlo ilustrado e no seu exaltado patrio­
tismo, podendo certificar, em face do mesmo soberano Con­
gresso, que não haverá sacrifício que esta província não faça
para levar a cabo a grande obra em que estamos empenhados” .
Assim termina o ofício da Junta da Bahia. Trata os “ nossos
irmãos” de Portugal, como filhos da mesma pátria, a Nação
Portuguêsa. E a linguagem seria a de hoje dirigida pela Ba~
hia aos nossos irmãos brasileiros.
“ Antes que o secretário encetasse a leitura do segundo ofí­
cio, levantou-se Fernandes Tomaz, e a despeito do hábito da
tribuna, a comoção lhe não consentiu senão exclamar: ” — Vi­
vam os baianos!” E, três vêzes, espectadores e deputados atroa­
ram as salas do palácio com o mesmo brado de reconhecimen­
to e de triunfo'* (1). E assim os baianos, dirigidos pelas fo­
gosas inteligências de Cipriano José Barata de Almeida, incon­
fidente de 1798, e José Lino Coutinho, dirigiam “ a opinião
pública no sentido do movimento constituciohalista” (2).
O movimento era constitucionalista. Não se fala ainda em
separação do Reino do Brasil do Reino de Portugal. O sobe­
rano Congresso Nacional reunido em Lisboa está inebriado.
Portuguêses de 1821 e franceses de 1791 unem-se por cima do
tempo, afogueados pelas mesmas paixões e pelos mesmos prin­
cípios constitucionalistas. Se no primeiro momento, maçons

(1) Cf. Gomes Carvalho, ob. cit. ps. 21, 23.


(2) Cf. Rocha Pombo. ob. cit. Vol. VII, p. 491.
228 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

_______e____
“ Azuis” maçons “ Vermelhos” conspiram juntos, dentro de
pouco tempo, êstes vão dominar aqueles. O ambiente da As­
sembléia em Paris e o do Congresso Nacional em Lisboa, são
idênticos. Daí a aproximação entre Luiz XVI e D. João VI. E
ambos seriam sacrificados em nome do liberalismo republicano.

A RESSACA LIBERAL AGITA


AS PRAIAS DA GUANABARA
Em meiados de outubro de 1820 chega ao Rio de Janeiro
a notícia da revolução liberal feita no Pôrto. Agita as águas
da baia de Guanabara e põe em efervescência as idéias dos
maçons cariocas. D. João VI já esperava o movimento revo­
lucionário. Enfrentara a maré alta dos acontecimentos em
1808. Transferira a séde do seu govêrno de Lisboa para o Rio
de Janeiro, dentro do território da Nação Portuguêsa, para
salvaguardar a Monarquia e a dinastia bragantina.
Estava no Rio de Janeiro havia catorze anos. O criador
do novo Reino não parecia disposto a deixar a terra bra­
sileira. Mas o seu destino era o mesmo de Luiz XVI. A Re­
volução Francêsa iniciada em 1789 repontava em Portugal em
1820 e ardia no Brasil em 1821. O mesmo ideal revolucionário
de 89 flamejava em 1821 no Reino Unido. D. João VI era rei
constitucional antes da Constituição ser votada e promulgada.
Luiz XVI tentaria a evasão de Varennes. D . João VI seria coa­
gido a embarcar para Lisboa. E tanto um como outro eram
reis aprisionados pelos jacobinos da Maçonaria.
D. João VI reune o seu Conselho para deliberar sôbre o
assunto. Tomáz Antônio de Vila-Nova Portugal era de pare­
cer que se devia esmagar a revolução vitoriosa e dominante
em Lisboa. O Conde dos Arcos entende o contrário. Devia-se
negociar com a Regência liberal lisboeta. Por isso, D. Pe­
dro, Príncipe do Brasil devia ser mandado para Portugal “ a
fim de, com o seu prestígio, harmonizar ou submeter os dissi­
dentes . O Rei opunha-se a soluções violentas. Calmo, pru­
dente, refletido, acha que se deve estranhar os têrmos da co­
municação da Regência. Ela exorbitara de suas incumbências.
Mas, em atenção à fidelidade dos portuguêses aceita a idéia
da convocação das Côrtes, conforme os antigos usos. E o pró­
prio Rei, ou um dos príncipes, seus filhos, iria a Lisboa, após
o encerramento das Côrtes e manifestado os seus desejos,
houvesse certeza de que o real decoro não corria risco de
I

A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 229

afronta” (1). Embora o problema não fôsse resolvido, D.


João VI mostra sabedoria, experiência política e conheci­
mento dos homens. A soliição não estava mais em apagar o in­
cêndio revolucionário. Devia ser contornado, para evitar maio­
res prejuizos. E assim fêz D. João: com habilidade política.

A REVOLUÇÃO E' SIMULTÂNEA


EM PORTUGAL E NO BRASIL
O Pôrto inicia, a 24 de agôsto de 1820, a jornada para a cons-
titucionalização do Reino Unido. A revolução triunfante, à
revelia de D. João VI convoca as Côrtes de Lisboa que iriam
elaborar a primeira constituição da Nação Portuguêsa.
O Rei estava no Rio de Janeiro. Urgia coagi-lo a
regressar a Lisboa, onde seria soberano constitucional ^e
acabava-se com o absolutismo. Mas a revolução de 1820 não
envolve apenas Portugal: incendeia o Brasil.
Por isso mesmo, no inverno dêsse ano, a 5 de janeiro de
1821, Palmeia escreve a D. João VI: “ A revolução em Portugal
não é o resultado de causas peculiares à Nação Portuguêsa.
As queixas dos povos contra a administração da justiça e da
fazenda; a tristeza ocasionada pela prolongada ausência de
Vossa Majestade, contribuem sem dúvida para excitar algum
descontentamento. Mas êste não teria chegado a desenvolver-
se nem a produzir os efeitos que desgraçadamente presencia­
mos se os portuguêses não tivessem sido excitados pelo exem­
plo dos espanhóis, pela tendência geral de tôdas as nações da
Europa, para o govêmo representativo, enfim pela conspiração
universal que eociste contra os antigos govêmos e pela espécie
de exaltação que se apoderou de quase tôda a geração atual.
(Palmeia via bem e via justo. Desagregavam-se os govêrnos
antigos, absolutistas, para serem substituídos pelos govêmos
representativos). Não é portanto, de esperar que o mal possa
curar-se com remédios parciais, nem que se ganhem os ânimos
contemporizando e deixando de adotar medidas decisivas. Os
espíritos não hão de sossegar em Portugal enquanto estiverem
exaltados em todo o resto da Europa, nem os portuguêses se
hão de contentar, jamais achando-se num estado de inferiori­
dade política relativamente a seus vizinhos. Devo também
assentar como base, pois tal é a minha inteira convicção, que
Vossa Majestade necessita ser Rei de Portugal para conservar
o Reino do Brasil, e que, pelo contrário, as fôrças tôdas que

(1) Cf. Rocha Pombo. ob. cit. vol. VTI. p. 511.


230 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

tem no Brasil, ainda mesmo que fôsse preciso conservá-las, de


nada lhe serviriam para readquirir Portugal se uma vez o
tivesse perdido” (1).

EL-REI CONVOCA OS PROCURADORES


DAS CÂMARAS MUNICIPAIS
O ano de 1821 começava para D. João VI como principiara
0 de 1807. A Maçonaria do Grande Oriente levara-o, quinze
anos antes, a transferir a séde do govêrno monárquico da Na­
ção Portuguêsa de Lisboa para o Rio de Janeiro. Decorridos
três lustros, êsse mesmo Grande Oriente obriga-lo-ia a re-
transferir o local do seu govêrno do Rio de Janeiro para Lis­
boa. Diante da memória de Palm ela, D. João VI iria agir com
tôda a cautela e sagacidade. A Monarquia Portuguêsa es^va
ameaçada. Periga a dinastia dos Braganças. E daí El-Rei agir
com prudência e segurança. O plano de Palmela era man­
dar D. Pedro em companhia do Conde dos Arcos para Lisboa.
Levaria a proposta às Côrtes de uma Constituição liberal com
suas Câmaras, uma baixa e outra alta. Ao mesmo tempo, El-
Rei convocaria, na Capital do Reino do Brasil, uma assem­
bléia de procuradores das Câmaras Municipais que tivesse a
incumbência de elaborar a Constituição aplicável ao Brasil.
Ouvidos os seus conselheiros, El-Rei resolve convocar uma
assembléia de procuradores municipais, porque aqui não
era tão violenta a oposição à Monarquia. E a 18 de fevereiro
de 1821, D. João VI decreta: “ Exigindo as circunstâncias em
que se acha a Monarquia, justas e adequadas providências para
consolidar o Trono, e assegurar a felicidade da Nação Portu-
guêsa (o anseio de Montesquieu). Resolvi dar a maior prova
do constante desvelo que Me anima pelo bem de meus vassalos,
determinando que o meu muito amado e prezado filho D. Pe­
dro, Príncipe Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algar-
ves, munido da autoridade e instruções necessárias para por
logo em execução as medidas e providências que julgo con­
venientes, a fim de restabelecer a tranqüilidade geral daquele
Reino, para ouvir as representações e queixas dos povos, e para
estabelecer as reformas e melhoramentos e as leis que possam
consolidar a Constituição Portuguêsa; e tendo sempre por base
a justiça e o bem da Monarquia, procurar a estabilidade e pros­
peridade do Reino Unido, devendo ser-me transmitida pelo
Príncipe Real a mesma Constituição, a fim de receber, sendo

( 1) Cf. Rocha Pombo. ob. cit. vol. VII. p. 516.

/
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 23f

por mim aprovada, a minha real sanção. Não podendo porém;


a Constituição, que em consequência dos mencionados poderes
se há de estabelecer e sancionar para os Reinos de Portugal e
Algarves, ser igualmente adaptável e conveniente em todos os
seus artigos e pontos essenciais à povoação, localidade e mais.
cir-cunstâaicias 'tão ponderosaa e atenc^íveis dêste Reino do
Brasil, assim como às das Ilhas e mais domínios ultramarinos,
que não merecem menos a minha real contemplação e paternal
cuidado; Hei por conveniente convocar a esta Côrte os pro-^
curadores que as Câmaras (Municipais) das cidades e vilas
principais, que têm juizes letrados (formados em direito) tan­
to do Reino do Brasil, como das ilhas dos Açores, Madeira e
Cabo Verde elegerem; e Sou outrossim servido que elas hajam
de os escolher e nomear sem demora, para que reunidos aqui
(no.Rio de Janeiro) o mais prontamente que fôr possível, em*
junta da Côrte, com a presidência de pessoa que eu houver p or
bem escolher para êste lugar, não sòmente examinem e con­
sultem o que dos referidos artigos foi adaptável ao Reino do
Brasil, mas também me proponham as mais reformas, os me­
lhoramentos e estabelecimentos, e quaisquer outras providên­
cias que se entenderem essenciais ou úteis, ou seja para a se­
gurança individual e das propriedades, boa administração da
Justiça e da Fazenda, aumento do Comércio, da Agricultura e
Navegação, Estudos e Educação Pública, ou para outros quais­
quer objetos conducentes à prosperidade e bem geral dêste
Reino (do Brasil) e dos domínios da Coroa Portuguêsa. E
para acelerar êstes trabalhos e preparar as matérias de que de­
verão ocupar-se, sou também servido criar, desde já, uma co­
missão composta de pessoas residentes nesta Côrte (Rio de Ja­
neiro) por mim nomeadas, entrarão logo em exercício, e con­
tinuarão com os procuradores das Câmaras (Municipais) que
se forem apresentando a tratar de todos os referidos objetos
para com pleno conhecimento de causa eu decidir. A Mesa
do Desembargo do Paço o tenha assim entendido, faça publicar
e executar, passando as ordens necessárias às Câmaras (Mu--
nicipais) e os mais despachos e participações que precisas fo­
rem; as quais também se farão aos govêrnos das províncias pe^
los secretários de Estado. Palácio do Rio de Janeiro, em 18
de fevereiro de 1821. Com a rubrica de S. M. Tomás Antônio
de Vila Nova Portugal” (1).

(1) Cf. Rocha Pombo. ob. cit.


^32 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

O DECRETO DE MORTE
DAS CÂMARAS MUNICIPAIS
O Rei ainda trata de vassalos aquêles que já eram cida­
dãos; ainda usa a linguagem do soberano absolutista e paterna­
lista. Essa linguagem não agrada os revolucionários. A Junta
da Bahia protesta enérgicamente, não contra o Rei mas contra
os ministros de S. Majestade. Considera desprezível o “ povo
brasileiro, esta parte briosa da Nação Portuguêsa, que até aqui
sorvera muda baldões e injúrias só pelo receio de desagrad^
a um Príncipe (D. João VI) com razão o ídolo do seu povo .
Este processo do ministério de El-Rei não se justifica. “ Em
vez de uma representação verdadeiramente nacional baseada
sôbre a população, extensão de território, ou valor das contri­
buições — ressurgem de novo os nulos procuradores das nos­
sas antiquadas Côrtes expressamente reprovadas pelas atuais
(Côrtes) de Portugal; e para maior chacota apenas cabe êste
privilégio às cidades e às vilas que têm juizes letrados, como
se as outras povoações não formassem parte do povo e não de­
vem ser também representadas” (1).
A junta baiana decreta, nessa data, a morte das Câmaras
Municipais. El-Rei convocara os procuradores das Câmaras
Municipais, porque elas representavam o povo, que as elegera.
No entanto, para a junta Revolucionária da Bahia as Câmaras
Municipais não mais existem. El-Rei devia mandar fazer elei­
ções para a Assembléia Constituinte, conforme o pensamento
da Junta Revolucionária de Lisboa. O interessante é que a Câ­
mara Municipal de Salvador também está de acordo com a
Junta da Bahia, a quem dá a sua adesão completa (2). E
assim, a Municipalidade de Salvador revela estar formada de
maçons “ Vermelhos” e “ Azuis” .
El-Rei nomeia uma Comissão de vinte membros do seu
Conselho, sob a presidência do Marquês de Alegrete, para tra-
^ r do assunto. D. João VI julga-se ainda soberano, quando as
Cortes e que eram soberanas. A Maçonaria do Rio de Janeiro
esta de acordo com a de Portugal: El-Rei não tem o direito
de revisar a futura Constituição!
E^e decreto cria uma crise de govêrno. Tomás Antônio
de Vila Nova Portugal demite-se. Por decreto de 26 de feve­
reiro de 1821, D. J o ^ VI nomeia, para substitui-lo, o Major
General da ^niada Real Inácio da Costa Quintela. E o Mi-
nisterio loi tambem reorganizado.

(1, 2 ) Cf. Rocha Pombo. ob. cit. vol. VII. ps. 523 , 524, 525.

\
I !'a \
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 233

D. JOÃO VI JURA A
FUTURA CONSTITUIÇÃO
Dois dias antes, a 24 de fevereiro, a tropa e o povo obri­
gam El-Rei e mais membros da Família Real a jurarem as
bases da futura Constituição Portuguêsa para o Reino-Unido.
Ela ainda estava no limbo, mas os maçons já a consideravam
existente. Dois dias mais tarde, tropa e povo conduzem D.
João VI à Câmara Municipal carioca, já dominada pela Maço­
naria e obrigam o soberano a novo juramento. E* do teor se­
guinte o têrmo da cerimônia:
“ Termo de vereação do Senado da Câmara (Municipal)
desta cidade, de 26 de fevereiro de 1821.
Auto^ de juramento prestado por El-Rei, Príncipes e mais
Pessoas à Constituição que se está fazendo em Portugal pe­
las Côrtes.
Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, de 1821,
aos 26 de fevereiro do dito ano, nesta Cidade do Rio de Janeiro,
em casa do Teatro, sala, onde apareceu o Sereníssimo Senhor
Príncipe Real do Reino Unido de Portugal, do Brasil e Algar­
ves, D. Pedro de Alcântara, onde se achava reunida a Câmara
(Municipal) desta mesma Cidade e Côrte do Rio de Janeiro
atualmente, o mesmo Sereníssimo Senhor Príncipe Real, de­
pois de ter lido na varanda da mesma Casa, perante o povo e
tropa, que se achava presente, o Real Decreto de Sua Majes­
tade El-Rei, Nosso Senhor, de 24 de fevereiro do presente ano,
no qual Sua Majestade certifica ao seu povo, que jurará ime­
diatamente e sancionará a Constituição, que se está fazendo no
Reino de Portugal. E para que não entre em dúvida êste ju­
ramento, e esta sanção, mandou o mesmo Sereníssimo Senhor
Príncipe Real, para que em nome jurasse no dia hoje, nesta
presente hora, a Constituição tal qual se fizer em Portugal.
E para constar fiz êste auto, que assinou o mesmo Senado
(da Câmara Municipal) e eu, Antônio Martins Pinto de Brito,
escrivão do mesmo Senado o escrevi e assinei.
Antônio Lopes de Calheiros e Menezes; Francisco de Sousa
de Oliveira; Luiz José Viana Gurgel do Amaral e Rocha; Ma­
noel Caetano Pinto; Antônio Alves de Araujo; Antônio Mar­
tins Pinto de Brito.
No mesmo dia, mês e ano e mesma hora, declarou o mes­
mo Sereníssimo Senhor Príncipe Real, em nome de El-Rei
Nosso Senhor, seu augusto pai e senhor, que jurava na forma
seguinte:
234 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

**Juro em nome de El-Rei, meu pai e senh^, ve­


neração e respeito à nossa santa religmo, observar
guardar e manter perpétuamente a Constituição, tal
quai se fizer em Portugal, pelas Côrtes .
E, logo sendo apresentado pelo Bispo Capelão-mor o livro
dos Santos Evangelhos, nêle pôs a sua mão direita, e assim
jurou, prometeu e assinou.
Como procurador de El-Rei, meu pai e senhor,
O Príncipe Real D. Pedro de Alcântara.
E logo o Príncipe Real, em seu próprio nome, jurou na
forma seguinte:
“ Juro em meu nome, veneração e respeito à nossa
santa religião, obediência ao Rei, observar, guardar e
Tuanter perpétuamente a Constituição, tal qual se fizer
em Portugal pelas Côrtes” .
Príncipe Real D. Pedro de Alcântara — Infante D. Miguel.
E pela mesma forma prestaram juramento as pessoas se­
guintes*'. Os nomes não constam da relação publicada.
Estava triunfante a Revolução. O dia 26 de fevereiro de
1821, quando D. João VI e tôda a Casa Real foram obrigados
a jurar a Constituição que as Côrtes de Lisboa fizessem, cons­
titue o momento supremo e decisivo da Revolução. Iniciada
no dia 24 de agôsto de 1820 na cidade do Pôrto, culminava
agora, no dia 26 de fevereiro de 1821, na cidade do Rio de
Janeiro, capital da Monarquia Portuguêsa.

D. JOÃO VI DECIDE RE-INSTALAR


O GOVÊRNO EM LISBOA

El-Rei está prisioneiro da Maçonaria. Seus atos são de­


terminados por ela. Assim como em 1791 a Assembléia Nacio­
nal Francesa obrigou Luiz XVI a assinar a primeira Consti­
tuição da França, tambem a Maçonaria impôs a D João VI a

tes. E a Maçonaria exige mais: a volta do Rei para Lisboa.


Nessas condiçoes, a 28 de fevereiro de 1821, o ministro da
Guerra e Estrangeiros, Silvestre Pinheiro Ferreira envia ofí­
cio Aos se to re s do Govêrno do Reino de Portugal” em Lis­
boa. comumcando o juramento de D. João VI e o seu re ^ rL o
proximo para a Europa. Diz êsse documento: ®

bem d^Sara^r.^^seu reafdecreto^^^


. pur seu real Senhor havido
decreto, da copia inclusa, na datapor
de

d
r-

A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 235

26 do corrente mês, que para mais firmemente consolidar os


interesses de todos os seus vassalos de um e outro hemisfério,
tinha resolvido aprovar, como com efeito aprovava, para ser
aceita e executada em todos os Estados dêste Reino Unido,
a Constituição, que pelas Côrtes atualmente convocadas nessa
Cidade fôr feita e aprovada, tôda a Real Família, o povo e a
tropa desta Cidade, juraram, da maneira mais solene, observa­
rem e manterem a mesma Constituição.
Sendo por êste modo chegada a feliz época, marcada por
Sua Majestade, do momento da sua saída dessa Cidade, para o
desempenho da sua real palavra, de que voltaria a felicitar
com a sua augusta presença, a antiga Capital da Monarquia,
logo que restabelecida a paz geral lhe fôsse lícito regressar,
sem comprometimento dos interesses dos seus vassalos, nem
da dignidade da sua real coroa, tem sua majestade resolvido
partir para essa Corte, logo que sua alteza sereníssima a Prin­
cesa real do Reino Unido, restabelecida de seu feliz parto,
que se espera dentro em poucos dias, se achar em estado de
empreender a viagem de mar” .

A LIBERDADE DE IMPRENSA
O juramento das bases da futura Constituição Portuguêsa
foi celebrado com ruidosos festejos no Rio de Janeiro. O en­
tusiasmo domina tôdas as classes sociais. Assume “ proporções
de que não houve outro exemplo no Brasil. Melhor que as
ruas embandeiradas e cobertas de fôlhas de mangueiras; que
os cantos e as bandas de música nos largos; que os festões de
lanternas chinesas nas sacadas; que os aplausos estrondosos com
que os espectadores acolhiam as alusões ao novo regime (da
Monarquia constitucional) enxertadas pelos atores em seus diá­
logos; melhor que tudo isso testemunha o entusiasmo do co­
mércio e das classes letradas o seguinte fato: uma subscrição
corrida no Teatro a favor das tropas alcançou o algarismo fan­
tástico de trinta contos!” (1) E assim as tropas estavam con­
fraternizadas com os revolucionários.
Neste estado de euforia, a 1 de março de 1821 o ministro
do Reino Inácio da; Costa Quintela, envia ao Presidente da
Mesa do Desembargo do Paço, o seguinte ofício:
“ Ilm.o e Revm.o Sr. Sendo indispensável nas atuais circuns­
tâncias franquear-se a imprensa, para que se facilite a leitura
de papéis que possam dirigir^ a opinião pública, segundo os

(1) Cf. Gomes de Carvalho, ob. cit. p. 49.


2S6 T. L. f e r r e ir a — M. R. FERREIRA

princípios d© uma bem entendida liberdade civil, é El-Rei


Nosso Senhor servido, enquanto não manda dar outras provi­
dências, que, logo que se apresentar qualquer folheto para ser
impresso, se proceda imediatamente à censura dêle, e se con­
ceda licsnça para se imprimir, uma vez que não ataque a Re­
ligião que felizmente professamos, não contenha expressões
pouco decorosas à dignidade do Trono, ou doutrinas contrárias
à obediência que devemos a Sua Majestade, e respeito à sua
Real Família, ou por outra qualquer maneira possam alterar
a segurança e tranqüilidade individual e pública. E querendo
o mesmo Senhor que não haja demora na expedição destas
licenças, há por bem autorizar a V. Ilma., para que as possa
conceder nos dias em que houver sessão da Mesa do Desem­
bargo do Paço, recomendando justamente aos censores que de­
sembaracem quanto antes quaisquer dos mesmos folhetos que
lhes forem distribuidos para exame”. No dia seguinte El-Rei
regulamenta a liberdade de imprensa até que as Côrtes de Lis­
boa legislem sôbre o assunto.
Na época, “ liberdade de imprensa” ou de expressão, era
um conceito que modernamente se denomina “ liberdade de
pensamento e de consciência” .

A MUDANÇA DA SEDE DO
GOVÊRNO PARA LISBOA
Os acontecimentos sucediam-se a passo de carga. Ninguém
hesita. Muito menos D. João VI. Ele vislumbra o futuro se
permanecer no Rio de Janeiro. A dinastia de Bragança está
em perigo. Nessas condições, em face da situação revolucio­
nária, El-Rei vê a realidade ambiente. D. Pedro está mais ao
par do movimento. Por isso deve ficar para ver se empolga
e domina os impulsos dos republicanos. D. João deve regres­
sar a Lisboa. Para isso convoca os deputados do Reino do
Brasil ao Congresso do Império Lusitano reunido na capital
portuguêsa.
Ora, a maioria dos deputados do Reino de Portugal era de
maçons Vermelhos” . Para enfrentá-los seguiriam os daqui,
na sua maioria “ Azuis” . Para a Junta Revolucionária de Lis­
boa a presença de D. João VI no Brasil não era interessante.
Êle poderia arregimentar fôrças e querer implantar o antigo
^gime em Portugal. O antigo regime era o absolutismo.
D. Joao e chamado para Lisboa, antes de tomar qualquer
providencia nesse sentido. E D. Pedro seria chamado mais
adiante.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 237

Assim, a 7 de março de 1821, D. João VI no Rio de Janeiro


assina o decreto sôbre o assunto, nestes têrmos: •
“ Tendo-me dignado a Divina Providência de conceder após
uma tão devastadora guerra o suspirado benefício da paz geral
entre todos os Estados da Europa, e de permitir que se come­
çassem a lançar as bases da felicidade da Monarquia Portuguê­
sa, mediante o ajuntamento das Côrtes Gerais, extraordinaria­
mente congregadas na minha muito nobre e leal Cidade de
Lisboa, para darem a . todo o Reino Unido de Portugal, Brasil
e Algarves uma Constituição Política conforme aos princípios
liberais, que pelo incremento das luzes se acham geralmente
recebidos por tôdas as Nações; e constando na minha real pre­
sença por pessoas doutas e zelosas do serviço de Deus e meu,
que os ânimos dos meus fiéis vassalos, principalmente dos que
se achavam neste Reino do Brasil, ansiosos de manterem a
união e integridade da Monarquia, flutuavam em um penoso
estado de incerteza, enquanto Eu não houvesse por bem decla­
rar de uma maneira solene a minha expressa, absoluta e deci­
siva aprovação daquela Constituição, para ser geralmente cum­
prida e executada, sem alteração nem diferença, em todos os
Estados da minha real Coroa; fui servido de assim declarar
pelo meu decreto de 24 de fevereiro próximo passado, prestan­
do ju n t^ e n te com tôda a minha Real Família, Povo e Tropa
desta Côrte, Solene juramento de observar, manter e guardar
a dita Constituição, neste e nos mais Reinos e Domínios da Mo­
narquia, tal como ela fôr deliberada, feita e acordada pelas
mencionadas Côrtes Gerais do Reino; ordenando outrossim aos
Governadores e Capitães Generais e autoridades civis, milita­
res e eclesiásticas, em tôdas as mais Províncias, prestassem e
deferissem a todos os seus súditos e subalternos semelhante ju­
ramento, como um novo penhor e vínculo, que deve assegurar
a união e a integridade da Monarquia.
Mas sendo a primeira e sôbre tôdas essencial condição do
Pacto Social, nesta maneira aceito e jurado por tôda a Nação,
dever o Soberano assentar a sua residência no lugar que onde
se ajuntarem as Côrtes, para lhe serem prontamente apresen­
tadas as leis, que se forem discutindo, e dêle receberem sem
delongas a sua indispensável sanção; exige a escrupulosa re­
ligiosidade, com que me cumpre preencher ainda os mais ár­
duos deveres que me impõe o prestado juramento, que Eu faça
custosos sacrifícios, de que é capaz o meu paternal e régio co­
ração, separando-me pela segunda vez de vassalos, cuja memó­
ria Me será sempre saudosa, e cuja prosperidade jamais ces­
238 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

sará de ser em qualquer parte um dos mais assíduos cuidados


do meu paternal Govêrno. ^
Cumpria pois que cedendo ao dever, que me impos a Pro­
vidência, de tudo sacrificar pela felicidade da Nação, Eu re­
solvesse, como tenho resolvido, transferir de novo a minha Côrte
para a Cidade de Lisboa, antiga séde e berço original da Mo­
narquia, a fim de alí cooperar com os Deputados Procuradores
dos Povos na gloriosa emprêsa de restituir à briosa Nação Por­
tuguêsa aquêle alto grau de explendor com que tanto se assi­
nalou nos antigos tempos; e deixando nesta Côrte (do Rio de
Janeiro) ao meu muito amado e prezado filho, o Príncipe Real
do Reino Unido, encarregado do Govêrno provisório dêste Reino
do Brasil, enquanto nêle se não achar estabelecida a Consti­
tuição Geral da Nação.
E para que os meus Povos dêste meu Reino do Brasil pos­
sam, quanto antes, participar das vantagens da Representação
Nacional, enviando proporcionado número de Deputados Pto-
curadores às Côrtes Gerais do Reino Unido, em outro Decreto,
da data dêste, tenho dado as precisas determinações, para que
desde logo se começe a proceder em tôdas as Províncias à
eleição dos mesmos Deputados na forma das Instruções, que
no Reino de Portugal se adotaram para êsse mesmo efeito, pas­
sando sem demora a esta Côrte os que sucessivamente forem
nomeando nesta Província, a fim de Me poderem acompanhar
os que chegarem antes da Minha saída dêste Reino, tendo Eu
aliás providenciado sôbre o transporte dos que depois dessa
época, ou das outras Províncias do Norte, houverem de fazer
viagem para aquêle destino. Palácio do Rio de Janeiro, aos
7 de março de 1821” .
O decreto é longo. Expressões paternalistas do absolutis­
mo ja se misturam a linguagem revolucionária. Além disso,
o Rei observa que D. Pedro, com seu espírito moço, está in­
tegrado no movimento. Dai ter resolvido transferir a séde do
seu govêrno para Lisboa. Em Portugal o espírito dos seus
vassalos poderiam melhor amparar a Monarquia Lá estavam
as raizes do regime implantado por Afonso Henrique no sé­
culo doze. E a autoridade real seria respeitada embora o tu-
^ é r ic ls de Portugal e percorresse as

CONVOCAÇÃO DAS ELEIÇÕES

deputados pelo Reino do Brasil a Lis­


boa, poderia equilibrar as fôrças políticas no soberano Con-
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 239

gresso do Reino Unido. Nesse conflito de ideologias políticas


e filosóficas, cabe à Maçonaria papel preponderante. Vêm dos
enciclopedistas franceses, no fim do século dezoito. E nos dois
hemisférios, a Europa continental e as Américas, as Monar­
quias são abaladas nos seus alicerces seculares.
Assim, nesse mesmo dia 7 de março de 1821 D. João VI
assina o decreto mandando proceder à eleição dos Deputados
das Províncias do Reino do Brasil às Côrtes Portuguêsas. Pa­
ra tanto foi adotado o Código Eleitoral da Constituição Espa­
nhola, conforme em Portugal já fôra feito. Aplicado o Código
Eleitoral vigente na Espanha, não quer dizer que a Constitui­
ção Espanhola fôsse posta em vigor nas terras brasileiras. E
em Portugal já estavam quase prontas as “ Bases da Constitui­
ção Portuguêsa”.

O ANTE-PROJETO DA
CONSTITUIÇÃO PORTUGUÊSA
A 10 de março de 1821, nas Côrtes de Lisboa, foi aprovado
o Ante-projeto da Constituição da Nação Portuguêsa. Foi san­
cionada, no dia seguinte, em Lisboa, pela Regência do Reino.
El-Rei estava no Rio de Janeiro, quando chegasse já a en­
contraria em pleno vigor, em todo o Reino Unido. A Consti­
tuição definitiva seria discutida mais tarde, conforme as Bases
já vigentes. Constava de trinta e sete artigos, sem parágra­
fos, onde os princípios gerais eram vincados.
Dividia-se em duas secções:
1.*^ secção — Dos direitos individuais do Cidadão.
2.* secção — Da Nação Portuguêsa, sua Religião, Govêr­
no e Dinastia”.
Cidadão já revela o traço republicano dos deputados por­
tuguêses. Essa palavra aparece logo no comêço. Vejamos.
“ 1.° — A Constituição Política da Nação Portuguêsa deve
manter a liberdade, segurança e propriedade de todo o cidadão.
2.° — A liberdade consiste na faculdade que compete a
cada um de fazer tudo o que a lei não proibe. A conservação
desta liberdade depende da exata observância das leis.
3.“ — A segurança pessoal consiste na proteção que o Go­
vêmo deve dar a todos para poderem conservar os seus di­
reitos pessoais.
4.0 _ Nenhum indivíduo deve jamais ser prêso sem culpa
formada” .
Outros artigos diziam:
“ 11.® — A lei é igual para todos.
240 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

13.0 — Todos os cidadãos podem ser admitidos aos cargos


públicos sem outra distinção, que não seja a dos talentos e
das suas virtudes” .
Meio século antes, em pleno absolutismo, já o Marquês de
Pombal afirmara: “ Sua majestade não distingue os seus vas­
salos pela cor; distingue-os pela lealdade” .
“ 15.® — O segrêdo das cartas será inviolável.
18.® — O seu govêrno é a Monarquia Constitucional here­
ditária, com leis fundamentais, que regulem o exercício dos
três poderes políticos” .
Estão aí os três poderes políticos, segundo Montesquieu,
I
!
) “ 19.“ — A sua dinastia reinante é a da Sereníssima Casa
de Bragança. O nosso Rei atual é o Senhor D. João VI. a quem
sucederão na Coroa os seus legítimos descendentes, segundo
a ordem regular da primogenitura” .
Estava firmado o princípio da dinastia consentida.
“ 20.° — A soberania reside essencialmente em a Nação,
Esta é livre e independente, e não pode ser patrimônio de
ninguém” .
Até essa data pertencia à Coroa, e a Coroa era do sobe­
rano. Mas agora o rei não mais era dono da Nação, por ser
patrimônio de todos.
“ 21.“ — Somente a Nação pertence* fazer a sua Constitui­
ção ou lei fundamental, por meio de seus representantes eleitos” .
Era o regime da Monarquia Constitucional, onde o Rei está
limitado.
^23.° — Guardar-será na Constituição uma bem determinada
divisão dos três poderes, legislativo, executivo e judiciário. 0
legislativo reside nas Cortes com a dependência da sanção do Rei,
que nunca terá um veto absoluto, mas suspensivo, pelo modo
que determinar a Constituição. Esta disposição porém não
compreende as leis feitas nas presentes Côrtes, as quais leis
ficarão sujeitas a veto algum. O poder executivo está no
e seus Ministros, que o exercem debaixo da autoridade do mes­
mo Rei. O Poder Judiciário está nos juizes.
25.® — A iniciativa direta das leis sòmente compete aos
Representantes da Nação juntos em Côrtes” .
^ Estabelecidas as “ Bases da Constituição da Nação Portu­
guêsa” elas sòmente dois meses mais tarde chegariam ao
de Janeiro. Seriam primeiro impressas para serem distribuí­
das. Depois aguardariam o navio para serem remetidas
aquém Atlântico. E chegariam aqui quando o Rei já estivesse
em Lisboa.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 241

OS DESEMBARGADORES
DO PAÇO EM CUSTÓDIA
Os revolucionários amotinaram o povo carioca a 26 de fe­
vereiro de 1821, conforme já explicamos. Por motivos: não
bem esclarecidos, El-Rei mandara por em custódia desembar­
gadores do Paço. Não se sabe quais tivessem sido as mano­
bras d.a Maçonaria. E daí, no dia 16 de março de 1821, D.
João VI baixa êste decreto;
“ Chegando ao meu real conhecimento, que homens per­
versos e amotinadores do público sossêgo, abusando do entu­
siasmo que, em tôdas classes de habitantes desta Capital, havia
excitado o memorável dia de 26 de fevereiro próximo passa­
do, andavam suscitando por via de obscuras maquinações, ódios
populares contra várias pessoas, assinalando-se já como pri­
meiras e imediatas vítimas de seu desenfreado furor aos De­
sembargadores do Paço Luiz José de Carvalho e Melo e João
Severiano Maciel da Costa e ao almirante Rodrigo Pinto Gue­
des; mas não sendo possível averiguar na estreiteza do tempo
em que se denunciava dever se executar tão horroroso aten­
tado, quais fôssem os meios premeditados para o pôr em exe­
cução; não sendo por isso possível tomarem-se repentinamen­
te as necessárias cautelas para com certeza prevenir um acon­
tecimento que por si só não podia deixar de comprometer a
pública tranquilidade, ainda quando se não achasse ligada a
um mais vasto plano de assassinos; houve por bem ordenar
instantâneamente por meu real decreto de 3 do corrente mês,
dirigido imediatamente ao General Governador das Armas da
Côrte e Província, que fizesse por em custódia (em segurança)
as três mencionadas pessoas, a fim de que subtraídas por êsse
modo a qualquer sinistro e inopinado projeto de seus inimigos,
perturbadores do sossêgo desta Capital, se pudesse averiguar e
acautelar, pelas adequadas providências a que imediatamente
fui servido mandar proceder, as intentadas maquinações tanto
contra a vida daqueles meus fieis vassalos, como contra a pú­
blica tranquilidade; tendo-se porém conseguido descobrir e
malograr as ocultas- tramas com que ameaçavam as vidas dos
cidadãos e a segurança do Estado; e não existindo mais o justo
receio de que os três mencionados detidos sejam inopinada­
mente atacados, antes que a fôrça pública possa acudir em seu
socorro, e prevenir as calculaveis consequencias de um motim,
sou servido de ordenar que os referidos Desembargadores do
Paço Luís José de Carvalho e João Severiano Maciel da Costa,
bem como o Almirante Rodrigo Pinto Guedes, possam voltar
242 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

para o seio de suas famílias e entrar no exercício,^ de seus


empregos, não tendo sido dêles removidos por crime, erro sus­
peita ou acusação alguma; porém sim e tão sòmente por efeito
daquele paternal e providente proteção com que cumpre acau­
telar pelos meios prontos e eficazes quanto de algum modo
pode comprometer o público sossêgo, e a segurança de cada
um dos habitantes do meu Reino” .
Houve’ uma tentativa de morte contra essas pessoas. Por
quê?

A MÍSTICA DA REVOLUÇÃO
Montesquieu criara a mística da Constituição com o seu
famoso livro “ L ’Esprit des Lois” . A Maçonaria cria a mística
da Revolução e da Liberdade. Desde 1789 a palavra mais pro-
nimciada é Revolução. Não que a geração dêsse período seja
revolucionária em bloco. A maioria talvez pensasse no assun­
to. Mas era apenas a minoria a condutora do ideal revolucio­
nário. Havia revolucionários e contra revolucionários. Re­
volucionários em política, também eram em literatura. E a
idéia da Revolução se percebe no comêço de tôdas as avenidas
do pensamento e da filosofia.
Por isso mesmo, a Revolução cresce espiritualmente desde
o soerguer do século passado. Essa maré montante avassala as
idéias em todos os setores do continente europeu e se espraia
pelas Américas Espanhola e Portuguêsa, A mocidade européia
e americana familiarisa-se com o espírito revolucionário, ine-
bria-se com as idéias novas e querem nivelar povos e reis.

D. JOAO VI VELA PELA


UNIDADE NACIONAL

A Revolução maçônica avança dia a dia, tanto no Brasil,


como eni Portugal e na Europa. El-Rei observa como o Prín-
D Pedro estava familiarizado com as idéias revolucioná­
rias. Dai prefenr regressar a Lisboa e deixar o jovem dentro
do seu meio. Isso não impede que o Rei olhe pela unidade da
Naçao Portuguesa, ele que é o criador do Reino do Brasil.
Assim, a 28 de março de 1821 D. João VI envia carta à Junta
Provisional do governo da Bahia, para aprovar o ato dela fa-
tória°naç*^rvirtp Constituição ainda em fase elabora-
tona nas Cortes de Lisboa. No fim da carta diz El-Rei:
...n ao Me restando mais do que recomendar-vos a vossa
maior vigilancia, não só para que se empregue a necessária

r
ri.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 243

moderação e exação na distribuição da justiça, e em todos os


ramos da pública administração, mas também para que se não
dissolva a união entre as mais partes dêste Reino de Portugal,
como base essencial para firmar a que estabeleci pela Carta
de 16 de dezembro de 1815 com as de Portugal e Algarves, e
que fiz proclamar nesta Côrte (do Rio de Janeiro) no memorá­
vel ^ a 26 do mês passado, e espero do vosso zêlo pelo bem
público, e pela prosperidade desta Monarquia, que dirijais nes­
ta conformidade o espírito público, e conserveis a ordem e
tranquilidade que devem gozar os habitantes dessa grande e
rica Cidade e Província, a quem muito prezo pela sua impor-
^ c i a e serviços, e até por ser a primeira parte dêstes vastos
Estados a que aportei com grande regosijo público e satis­
fação minha”.
Transparece, nas linhas acima, certa emoção da parte do
soberano em face das circunstâncias políticas a coagirem-no a
re-transferir a séde do govêrno monárquico do Rio de Janei­
ro para Lisboa, depois de ter vivido catorze anos neste hemis­
fério. E daí a sua preocupação com a unidade política da Na­
ção Portuguêsa, da qual era parte o Reino do Brasil.

O SENADO DA CÂMARA
MUNICIPAL E O REI
O Senado da Câmara Municipal do Rio de Janeiro envia
a D. João VI, a 26 de março de 1821, três memoriais onde pede
ao soberano para ficar no Brasil. Aqui ocorre perguntar: Eram
sinceros os vereadores, nos seus pedidos? Ou o Senado Muni­
cipal quis apenas verificar as disposições de El-Rei? Êle ia ou
não ia para Portugal? As perguntas ficam, naturalmente,
sem respostas.
Dois dias mais tarde, a 28 de março de 1821, o ministro do
Reino, Inácio da Costa Quintela envia ao Senado Municipal,
em nome de sua majestade, o seguinte ofício: “ Sua Majestade,
examinando as três memórias que o Senado da Câmara levou
à Sua Real Presença no dia 26 do corrente, ficou penetrado
dos puros sentimentos de amor, de lealdade e respeito, em que
são concebidas, sentimentos próprios do Povo Português, e de
que Sua Majestade não tem duvidado um só instante. A si­
tuação, porém, dos negócios políticos e o interesse bem en­
tendido e geral da Monarquia, não. lhe permitem aceder aos
desejos dêste Povo, prolongando por mais tempo a sua morada
no Rio de Janeiro. Sua Majestade não pode dar a êstes seus
fieis vassalos outro maior testemunho do quanto são caros a
244 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

seu paternal coração, do que deixando entre êles o augusto


herdeiro da Monarquia, para organizar o govêrno dêste vasto
IMPÉRIO segundo a Constituição, de que se ocupam as Côrtes
Nacionais e Extraordinárias de Lisboa, que todos juramos, e
ainda há pouco, de observar e defender. Nem escapou também
à sabedoria e magnanimidade de sua majestade a segurança
do Brasil, ameaçado de imediata ruina, promovendo a sua
futura prosperidade com as paternais providências enunciadas
no decreto de 23 do corrente.
Tal é, em resumo, o que Sua Majestade me manda comu­
nicar a vossa Mercê, para o fazer presente no Senado da Câ­
mara, em resposta às mencionadas memórias, a) Inácio da
Costa Quintela” .
Neste ofício observa-se, pela primeira vez, a palavra Im­
pério. D. João VI criara o Reino. Tenciona elevá-lo a Impé­
rio antes de deixar o Rio de Janeiro. Não se pode afirmar, com
certeza. Considera-se já Imperador do Brasil, como se verá
mais adiante. E curioso ainda é que o ofício não seja rubri­
cado por êle.

A DISSOLUÇÃO DA MONARQUIA
Pode-se considerar dissolvida a Monarquia desde fins de
fevereiro de 1821. Silvestre Pinheiro o afirma: “ No meu par­
ticular entender (pois sou neste ponto como em muitos outros
voto singular) a Bahia e provavelmente as demais províncias
do Norte dela tem-se prevenido com a proclamação de adesão
à revolução de Portugal e Côrtes de Lisboa, para sacudirem
o jugo do Rio de Janeiro: e sem que por isso deva entender
que é só questão de ser êste ou aquêle de óra em diante o
centro da Monarquia” . De fato o Norte havia aderido e dirè-
tamente, à Junta de Lisboa. Assim, libertava-se do “ jugo do
Rio de Janeiro” ; quer dizer, do govêrno absolutista sediado na
Guanabara. E assim, o Norte ligava-se à revolução portuguêsa.
Silvestre Pinheiro continua: “ Esta (a Monarquia)
achof-se hoje plenamente dissolvida. Talvez debaixo de certas
hipóteses fôsse possível torná-la a unir com novos vínculos.
Mas para mim está demonstrado que a primeira impossibili­
dade é a de se verificar essa hipótese” (1).
Em outra carta. Silvestre Pinheiro Ferreira observa:
Pronieti a V.S. na minha última carta o desenvolvimento das
reflexões com que ela terminava de que o respeito à Autori­
dade Publica es^tava irremediàvelmente perdido, pelos fatos dos
A m a ç o n a r ia na INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 245

sucessivos levantes desde 24 de agôsto (de 1820) em diante


nas diferentes partes da Monarquia, porque, só dada uma hi­
pótese me parecia possível tornar-se a unir com novos vínculos
o sistema social que hoje se acha completamente roto e dissol-
ytdo; e esta hipótese era justamente a que a mim me parecia
impossível se viesse a realizar. Este, que então era puro vaticí­
nio, e ja hoje um fato histórico; e para me servir das expres-
ontem à noite rematei o meu voto no Conselho
aos Ministros presidido por Sua Majestade — dissolveu-se a
Monarquia Portuguêsa’’ (2).
Silvestre Pinheiro Ferreira via bem o desenrolar dos acon­
tecimentos. De 24 de agôsto de 1820 em diante os levantes fa-
2iam-se em série. A revolução maçônica luso-brasileira ca­
minhava.

D. PEDRO NOMEADO REGENTE


DO REINO DO BRASIL

Pelo Decreto de 22 de abril de 1821, el-Rei D. João VI


“ encarrega o Govêrno Geral ao Príncipe Real constituído Re­
gente Lugar-Tenente del-Rei” .
Leiâmo-lo: “ Sendo indispensável prover acêrca do go­
vêrno e administração dêste Reino do Brasil, donde Me aparto
com vivos sentimentos de saudade, voltando para Portugal, por
exigirem as atuais circunstâncias políticas enunciadas no De­
creto de 9 de março do corrente ano; e tendo Eu em vista não
só as razões de pública utilidade e interêsse, mas também a
particular consideração que merecem êstes meus fieis vassa­
los do Brasil, os quais instam para que Eu estabeleça o Go­
vêrno que deve regê-los na minha ausência, e enquanto não
chega a Constituição, de um modo conviniente ao Estado pre­
sente das cousas, e à categoria política a que foi elevado êste
País, e capaz de consolidar a prosperidade pública e particu­
lar; Hei por bem e me praz encarregar o Govêmo Geral e in­
teira administração de todo o Reino do Brasil ao meu muito
amado e prezado filho, D. Pedro de Alcântara, Príncipe Real
do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, constituindo-o
Regente e meu Lugar-Tenente ,para que com preeminente ti­
tulo e segundo as Instruções, que acompanham a ^ te Decreto
e vão por mim assinadas, governe na Minha ausência e em­
quanto pela Constituição se não estabelece outro sistema do

(1, 2) Cf. Silvestre Pinheiro Ferreira. 1.» série. C. VI - ed. dos


Anaia da Biblioteca Nacional. Cartas VI e VII p. 265.
246 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

Regime, todo êste Reino com sabedoria e amor dos Povos; pe­
lo alto conceito que formo da sua prudência e mais virtudes
vou certo, de que nas cousas do Govêrno, firmando a pública
segurança e tranqüilidade, promovendo a prosperidade geral,
e correspondendo por todos os modos às Minhas esperanças,
se haverá como bom Príncipe, amigo e Pai dêstes Povos, cuja
saudosa memória levo profundamente gravada no meu Cora­
ção, e de quem também espero que, pela sua obediência às
Leis, sujeição às autoridades, Me recompensarão do grande
sacrifício que faço, separando-Me de Meu Filho Primogênito,
Meu Herdeiro e sucessor do Trono, para lho deixar como em­
penho do apreço que dêles faço. O mesmo Príncipe o tenha
assim entendido e executará, mandando expedir as necessá­
rias participações. Palácio da Boa Vista em 22 de abril de
1821” . Com a rubrica de Sua Majestade. D. João VI verifi­
ca, nessa altura, como os acontecimentos se precipitam. Nem
êle, n ^ ninguém poderia segurar a revolução desencadeada.
Ele sabe que pela Constituição vai se estabelecer “ outro sis-
A Constituição liberal já foi sancionada em
Janeiro ^ “ »da vai demorar para chegar ao Rio de

O JURAMENTO DA
CONSTITUIÇÃO ESPANHOLA

V' jurado, no dia 24 de fevereiro,


cida ma<! pm Constituição para êle desconhe-
Senado ^ 26 do mesmo mês, o
abril de 1821 o nnv“ “ exigência. Na noite de 21 de
Constituição Espanhola”"°Ormar.^” ®® °
pe da parte de Sua Maiestaíl^ r í ' ® a l g u m contragol-
Eleitoral da Constituição adotara o Código
Espanhola. Obrieam-nn Mas não a Constituição
ção de país estrangeiro A a jurar a Constituí­
do “ furor constitucionãlísta” carioca estava possuída
trolado. Ignoram os maonr. ‘ movimento parecia descon-
Lisboa haviam sancionado a* Con f -^ as Côrtes de
nada “ Bases” , jurada iá npU „ "^‘ ‘ ‘ “ iÇao Provisória, denomi-
mo ainda não checara a w f ■ í ® Família Real. E co­
to. Assim D. João VI s e r i / * ^ K ^ ? ' ° ® Juramen-
Espanhola, promulgada para a ®®Constituição
Brasil, para ficar com duas Con ® imposta ao Reino do
ambas desconhecidas neste hpm? f • ambas em vigor e
á*a, ficou realmente. hemisferjo. E, ao menos por um
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 247

EL-REI MANDA ADOTAR A


CONSTITUIÇÃO ESPANHOLA

Pelo decreto de 21 de abri de 1821, D. João VI “ manda


adotar a Constituição Espanhola enquanto não vigora a nova
encarregada às Côrtes de Lisboa” , do teor seguinte: “ Havendo
tomado em consideração o termo do juramento, que os eleito­
res paroquiais desta Câmara (Municipal do Rio de Janeiro),
a instâncias e declaração unânime do Povo dela, prestaram à
Constituição Espanhola, e que fizeram subir à Minha Real Pre­
sença, para ficar valendo inteiramente a dita Constituição Es-
panhola, desde a data do presente até a instalação da Consti­
tuição em que trabalham as Côrtes atuais de Lisboa, é que eu
Houve por bem jurar com tôda a minha Côrte, Povo e Tropa,
no dia 26 de fevereiro do ano corrente. Sou servido ordenar,
que de hoje em diante se fique estrita e literalmente observan­
do neste Reino do Brasil a mencionada Constituição delibe­
rada e decidida pelas Côrtes de Lisboa. Paço da Boa Vista aos
21 de abril de 1821. Com a rúbrica de Sua Majestade” .
Provàvelmente, como D. João VI estava de partida para
Lisboa, a Maçonaria queria uma Constituição para o Reino
do Brasil, enquanto não chegasse a das Côrtes. E o golpe saia
dos “ Vermelhos” .

ANULADA A CONSTITUIÇÃO ESPANHOLA


Mas os “ Azuis” estavam vigilantes. No mesmo dia 22 de
abril em que D. João VI havia nomeado D. Pedro, Príncipe
Regente, logo anula a Constituição Espanhola, jurada na vés­
pera. Daí o decreto de 22 de abril de 1821, onde se “ anula o
decreto datado de ontem que mandou adotar no Reino do Bra­
sil a Constituição Espanhola” . Leiâmo-lo: “ Subindo ontem à
Minha Real presença uma Representação, dizendo-me ser do
Povo, por meio de uma deputação formada por eleitores das
paróquias, a qual me assegurava que o Povo exigia para Mi­
nha felicidade, e dêle, que Eu determinasse, que de ontem em
diante êste meu Reino do Brasil fôsse regido pela Constituição
Espanhola. Houve então por decretar, que essa Constituição,
regesse até a chegada da Constituição, que sábia e sossegada­
mente estão fazendo as Côrtes de Lisboa; observando-se po­
rém hoje que esta representação era mandada fazer por ho­
mens mal intencionados, e que queriam a anarquia, e vend©
que o meu povo se conserva, como Eu lhe agradeço, fiel ao ju­
ramento que Eu com êle de comum acôrdo prestamos na Pra­
248 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

ça do Rocio no dia 26 de fevereiro do presente ano; Hei por


bem determinar, decretar e declarar por nulo todo o ato feito
ontem; e que o Govêrno Provisorio que fica ate a chegada da
Constituição Portuguêsa, seja da forma que determina o outro
Decreto e Instruções, que mando publicar com a mesma data
dêste, e que meu Filho, o Princípe há de cumprir e sustentar
até chegar a mencionada Constituição Portuguêsa. Palácio da
Boa Vista aos 22 de abril de 1821.
Com a rubrica de Sua Majestade” .
“ Os homens mal intencionados” , os “ anarquistas” referi­
dos por D. João VI nesse decreto de anulação do juramento
feito na véspera, eram os maçons “ Vermelhos” , isto é, os repu­
blicanos. A Constituição Espanhola era cópia de uma das fei­
tas pelo abade Sieyès, da Revolução Francesa. Mas os “ Azuis”,
isto é, os monarquistas constitucionais, apararam o golpe. E
dão 0 contra-golpe.

OS REPUBLICANOS
AVANÇARAM O SINAL
Não basta abjurar a jurada Constituição Espanhola. Era
necessário castigar os chefes do movimento subversivo. ^Por
decreto de 22 de abril de 1821, D. João VI “ manda proceder a
devassa (abrir o inquérito) contra os sediciosos e amotinado­
res da Praça do Comércio do Rio de Janeiro do dia 21 dêste
mês” . El-Rei considera: “ Tendo acontecido o horroroso aten­
tado praticado por perversos sediciosos e amotinadores, que
ousaram arrastar muitos dos meus Vassalos, a quem alucina­
ram e seduziram, levando-os até ao ponto de bradar na Praça
pública do Comércio, que só queriam ser regidos pela Consti­
tuição de Espanha inteiramente, e em quanto não chegasse a
que se está fazendo em Portugal, faltando ao solene juramen­
to que todos haviam prestado, levantando-se assim com ináu-
dita rebeldia contra a Minha Real autoridade e soberano gO'
vêrno, que não pode sofrer outras mudanças se não as que se
estabelecerem pela futura Constituição de Portugal; e sendo
autores da perturbação da tranquilidade e segurança pública,
e causas dos desastrosos fatos que sucederam, e não devendo
ficar inipunidos delitos de tanta gravidade, e que exigem pron­
to castigo para reparação dos males causados, e para evitar
que se cometam outros. Sou servido determinar que o De*
sembargador do Paço, Lucas Antônio Monteiro de Barros,
ceda já e sem demora à devassa, sem limitação deí tempo &
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 249

número determinado de testemunhas, e logo que se houverem


inquirido as necessárias para serem provados êstes crimes, a
remeterá ao Desembargador do Paço Pedro Alvares Diniz. . . ”
Os republicanos haviam avançado o sinal, temerosamente.
Era preciso castigar-lhes a audácia. Daí a atuação rápida e enér­
gica de D. João VI. A revolução caminhava normalmente. E
enquanto D. João VI estivesse no Brasil, os acontecimentos não.
deviam ser precipitados pela violência.

UMA PAUSA EM MEIO DO TUMULTO


No dia seguinte, quando se inicia o inquérito policial pa­
ra apurar as responsabilidades e as ousadias dos republicanos,
D. João VI dirige serena e sóbria proclamação ao povo ca­
rioca. E’ uma bela proclamação, serena e sem arrou­
bos patéticos. Deve ser lida na íntegra, porque vesperava o>
dia do regresso do Rei a Lisboa. E êle se verifica daí a três dias:-
Embora rufem, com intensidade, por tôdas as capitais bra­
sileiras e portuguêsas, os tambores revolucionários, êles não
abafam ainda esta clarinada vibrante de bom senso. Vale a
pena ouvi-la, como um eco das paixões políticas da época.
“ Proclamação de 23 de abril de 1821.
Sôbre os acontecimentos da noite de 22 dêste mês. '
EL-REI aos habitantes do Rio de Janeiro.
Quando Eu, solícito da vossa segurança, tranquilidade e
prosperidade, estabelecida com circunspecção e madureza o go­
vêrno, que deveria reger-vos depois da minha retirada para
Lisboa, para onde exigem circunstâncias poderosas e políticas
que Eu transfira a sede da Monarquia, e encarregava a Meu
muito amado e prezado Filho, o Príncipe Real, da Regência
dêste Reino, com amplos poderes e com instruções suficien­
tes, capazes de produzir e promover o vosso bem e felicida­
de geral, e correspondentes aos fins, por que o elevei à cate­
goria política com que se acha, e esperava que a vossa sau­
dade pela minha ausência se moderasse, deixando-vos o her­
deiro e sucessor da Monarquia, de cujos bons desejos e virtu­
des confiava a vossa prosperidade; vejo muita mágua e des­
prazer, que pessoas mal intencionadas, alucinadas e seduzindo
alguns de vós, pretenderam que se proclamasse a Constituição
Espanhola, para ser guardada desde já, contra a solene pro­
clamação do dia 26 de fevereiro do corrente ano, e juramento ’
que Eu e todos vós prestamos, de se observar a que se está
fazendo em Lisboa.
250 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

PORTUGUÊSES, esta sediciosa maquina, feita à face


dos eleitores das paróquias teve por fim iludir-vos com a su­
posição da Representação Nacional; êstes perturbadores da or­
dem pública e fautores da anarquia abalaram os fundamentos
da Monarquia, postergaram a fé e a santidade do juramento,
que todos demos, quiseram perverter e corromper a fidelidade
da Tropa, e atentaram contra a Minha Real autoridade e go­
vêrno estabelecido, que não pode nem deve sofrer outras mu­
danças, senão as que legalmente se estabeleceram na Consti­
tuição que se fizer em Lisboa pelas Côrtes. Felizmente não
foram avante os sediciosos projetos, porque o Corpo Militar
não quis apoiá-los, nem defendê-los compromentendo a sua
honra e fidelidade; felizmente pela bem regulada disciplina
e moderação dêle, se acautelaram paixões e furores de parti­
dos, que podiam até produzir motivos furiosos e de muito
mais funestas consequências; e felizmente êste pernicioso ve­
neno não tem inficcionado senão uma pequena parte dos Meus
Vassalos; afastai-vos dos perversos, que com fins sinistros abu­
sam de vossa credulidade, e vos enganam maliciosamente com
a vontade geral da Nação, quando ela é sòmente dos amotina­
dores, que, no meio dos concursos, levantam vozes tumultuo­
sas, que outros maquinalmente acompanham sem inteligência
do que elas designam; acautelai-vos dêsses pérfidos, e quando
vos perseguirem com suas persuassões, evitai-os, desamparai-
os, abandonai-os, fugi: ide procurar o conselho da pru­
dência dos Cidadãos bem morigerados, a tranquilidade na
justa observância das leis e no cuidado das autoridades que
vigiam, e a vossa própria segurança e de vossas famílias no
desvio de ajuntamentos clandestinos e perigosos.
PORTUGUÊSES! só é patriotismo aquela heróica paixão
que tende ao bem e glória da Pátria; e quem ofende as leis
e o público sossêgo, e se constitui árbitro do Poder Supremo,
não e amigo do Estofdo, antes concorre para a sua ruina. Ilu­
diram-vos com direitos, que não vos competem: os eleitores das
paroquias so os tinham para a eleição dos de comarca, e o Po­
vo nenhum mais tinha depois de eleitos os compromissários.
Descançai tranquilos na sabedoria e firmeza do govêrno na
execução das leis e na prática dos vossos deveres; e esperai as
uteis reformas e melhoramentos das mãos dos que as podem
dar; esperai que a Constituição, que se está fazendo sôbre ba­
ses sólidas e legais, venha estabelecer a liberdade que é com­
patível com as leis, e consolidar a vossa prosperidade e de to­
do o Remo Unido. — A liberdade que não é assim regulada,
degenera em licença, e produz a anarquia, o maior de todos os
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 251

males políticos. Confiai nos cuidados do govârno, na benevo­


lência e prudência do Meu muito amado e prezado Filho, o
Príncipe Real; vivei segimdo as regras que vos prescrevem as
leis, e sereis felizes, como vos deseja o vosso Rei, que vos tem
regido com suavidade e amor verdadeiramente paternal. Palá­
cio do Rio de Janeiro, em 23 de abril de 1821. Rei com guarda” .
A linguagem dessa proclamação revela como D. João VI
não era um relógio parado. Ao contrário. Talvez fôsse êle,
com a sua experiência de govêrno e dos homens, o único a
vêr claro na escuridão dos acontecimentos. Quando êle fala
em compromissários, eleitores de Paróquia e de Comarca, re-
fere-se ao Código Eleitoral da Constituição Espanhola, de 1812,
em quatro gráus. Êsses eleitos foram convocados para eleger
Deputados às Côrtes de Lisboa. Após o cumprimento do man­
dato, êste cessava. E êles quizeram obrigar o Rei a jurar a
Constituição Espanhola, quando não tinham poderes para isso.
A expressão “ vontade geral da Nação” é uma concepção
de J.J. Rousseau, no “ Contrato Social” , e a locução “ concur­
sos” deve ser entendida como ajuntamento do povo. É sem­
pre muito perigosa a presunção de querer surpreender o pen­
samento de uma personagem histórica. Da mesma forma, o
pensamento de uma sociedade já desaparecida. No entanto, os
historiadores permitem-se fazer juizos a respeito de D, João
VI, na perfeita ignorância dos fatos e da psicologia dos ho­
mens de seu tempo. Da linguagem dôsse documento, que é a
linguagem histórica, percebe-se como êle não tinha ilusões sô­
bre o futuro. E via como, após a sua partida, os fatos se pre­
cipitariam.

A DESPEDIDA ÀS TROPAS
A proclamação do Rei às tropas aquarteladas no Rio de
Janeiro reveste-se do mesmo tom sereno e calmo, embora os
dias fôssem» tumultuários e a revolução caminhasse audacio­
samente. Nessas condições, na “ Proclamação de 23 de abril de
1821” , D. João VI “ agradece à Tropa o seu bom comporta­
mento na noite de 22 dêste mês” , observando:
“ O valor e a disciplina têm sido sempre a divisa das vos­
sas armas, e a honra e o brio os vossos brazões. Com êstes im­
penetráveis escudos haveis marchado sempre aos campos da
glória, e, derrotados os inimigos da Pátria, tendes vindo co­
bertos de louros receber no seio dela os mais generosos e
enérgicos agradecimentos; Eu, e essa mesma Pátria vo-los da­
mos hoje pelo nobre e discreto comportamento com que se
252 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

ganham pelas vitórias alcançadas contra Exércitos poderosos,


que pretendem oprimir o Estado, não são mais viçosas do que
adquiridos por haver poupado o sangue dos seus concidadãos,
firmando a pública tranquilidade, e sustentado o Trono e im­
pério das leis. A vossa honrosa profissão tem os saudáveis
fins de salvar o Estado das agressões dos seus inimigos; e tan­
to os são os estranhos como os que internamente o pretendem
lacerar com discórdias, e rasgar-lhe o seio com facciosos par­
tidos; vós sois cada vez mais beneméritos da Pátria; Eu, e ela,
torno a dizer-vos, elogiamos e agradecemos a honra e a
fidelidade com que vos portastes, recusando proteger motins
e tumultos, e guardando inviolável e religiosamente o jura­
mento que todos haviamos prestado. Espera do vosso brio e
patriotismo a continuação de tão louvável conduta o Sobera­
no que vos ama e tem sempre distinguido, a Pátria assustada
de convulsões intestinas, que gera danos, desastres e males
incalculáveis, e todos os vossos concidadãos ansiosos da con­
servação da paz e sossêgo público. Sêde firmes e constantes
na honrada resolução que tomastes; e a minha particular con­
fiança e a estima, regosijo e agradecimento público, serão re­
compensa mui grata aos vossos corações, só cobiçosos da ver­
dadeira glória. Palácio do Rio de Janeiro, em 23 de abril de
1821. Rei, com guarda” .
Observe-se a diferença de linguagem de sua majestade. A
proclamação anterior fala em Vassalos, Cidadãos e Estado.
Quando o Rei se dirige aos soldados já não fala no Monarca,
no Rei dos Portuguêses. Fala em Pátria, em cidadãos e em
Estado. Desaparece a palavra vassalos. Julga-se rei constitu­
cional e lembra aos soldados o patriotismo. A linguagem é do
momento. E êle está com o relógio acertado pelo dos revolu­
cionários constitucionalistas.

AS CÔRTES DE LISBOA EXORBITAM


D. João VI no dia 7 de março de 1821, convoca eleições de
deputados do Brasil às Côrtes de Lisboa, conforme já r e f e r i m o s .
Tambem as Côrtes fazem o mesmo a 24 de abril, quarenta e
sete dias mais tarde. Talvez soubessem da notícia e anteci­
passem o fato. Vejamos, porém, a resolução das Côrtes e prO'
curemos explicá-las.
Pelo Decreto de 24 de abril de 1821, a Regência Revolu­
cionária de Lisboa “ Declara legítimos os govêrnos estabeleci*
dos ou que se estabelecerem nos ESTADOS PORTUGUÊSES
de Ultramar, para abraçarem a causa da Regeneração Política*’.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 25S

A Regência não fala em colônias e emprega a palavra Rege­


neração Política no sentido de Revolução Liberal. Vejamos
como começa o decreto:
A Regê!ncia do Reino em nome de El-Rei, o Senhor D.
João VI, faz saber que as Côrtes Gerais Extraordinárias da
Nação Portuguêsa têm decretado o seguinte: As Côrtes Ge­
rais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguêsa, con-
siderando a obrigação que têm de estreitar cada vez mais a
união dos Poirtuguêses de ambos os hemisférios por meio de
seus interesses políticos e atendendo também a que nenhum
Cidadão pode adquirir o sublime caráter de Deputados de
Côrtes, sem que êste lhe seja conferido pelos votos do seus
constituintes, nos quais a soberania essencialmente reside,
declaram e decretam o seguinte:
1 ° — Serão havidos como legítimos todos os govêrnos es­
tabelecidos, ou que se estabelecerem nos Estados Portuguêses
de Ultramar e Ilhas Adjacentes, para abraçarem a sagrada
causa da regeneração política da Nação Portuguêsa, e serão
declarados beneméritos da pátria os que tiverem premeditado
e executado a mesma regeneração.
2.® — Todos os ditos Govêmos mandarão logo proceder às
eleições dos Deputados às C ô rte s...”
Para chamar a atenção dos leitores, sublinhamos trechos
e palavras mais interessantes. O decreto friza bem a “ união
dos Portuguêses de ambos os hemisférios por meio de seus
interesses políticos” . Portuguêses eram os de Portugal, das
Ilhas, do Brasil, da Africa, da Asia e da Oceania. Além dis­
so não eram mais vassalos, mas sim cidadãos, à republicana.
O adjetivo “ sublime” , caracteriza bem o espírito revolucioná­
rio das Côrtes. Agora a soberania não é mais do Rei é dos
constituintes, dos cidadãos eleitores. E êstes se acham tam­
bém nos “ Estados Portuguêses de Ultramar” , referidos acima.
Interessantíssimos os artigos 5.° e 6°. Diz o artigo:
“ 5.° — A ocupação violenta de qualquer porção do terri­
tório Português será considerada como declaração de guerra
feita a Portugal” . Nêsse caso a Regência mantém a unidade
territorial portuguêsa nos dois hemisférios. Nascidos no Bra­
sil, na África, na Asia ou na Oceânia, são todos portuguêses.
E vejamos o artigo 6." — “ Quaisquer autoridades e pessoas,
que se opuzerem à Regeneração Política da Nação Portuguesa,
dando causa a que os Povos desesperados ensanguentem as
‘ suas revolwções, serão responsáveis pelos males que ocasio­
nem” .
254 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

É de observar-se o seguinte: 1.°) O decreto não fala espe­


cificamente em Reino do Brasil, mas sim em Estados Portuguê­
ses de Ultramar. Nêsse momento as Côrtes não consideravam
mais 0 Brasil um Reino, mas uma Província. 2.®) Os deputa­
dos de Ultramar são convocados quarenta e sete dias após D.
João VI ter convocado os do Brasil. E mais de seis meses de­
pois do im'cio dos trabalhos das Côrtes. 3.°) Nos termos do
artigo 1.® serão beneméritos apenas os revolucionários. Os rea­
cionários precisam ser combatidos. Os do Rio de Janeiro, da
Bahia, do Pará são beneméritos, 4.°) O artigo 5.° não parece
bem claro. Quem poderia ocupar, pela violência, qualquer
parte do território português? Os franceses, os inglêses, os
estadounidenses? Os argentinos, os peruanos? Sòmente pode­
riam ser os “ Brasileiros”, isto é, os Portuguêses a favor de
D. João VI e contra os revolucionários de Portugal. E se o
Rei ficasse aqui, os revolucionários de Lisboa logo proclama­
riam a República.
O artigo 6.° é claro. Refere-se aos contra-revolucionários,
aos favoráveis ao absolutismo. Contra os absolutistas o re­
médio era o segundo 179Í3, o Terror Vermelho. E o poder es­
tava todo nas mãos dos revolucionários de Lisboa.

A INDEPENDÊNCIA DE PORTUGAL
A Regência revolucionária de Lisboa havia feito a inde­
pendência de Portugal ao declará-lo livre do absolutismo. No
entanto, “ por mais despropositado que se afigure hoje o con­
siderar a independência de Portugal subordinada à união do
Brasil, era todavia corrente no tempo e fazia parte da pru­
dência mais elementar, atentos os sucessos políticos da Euro­
pa. Na verdade, em consequência da aliança de 1815, da San­
ta Aliança, como lhe chamam, constituída pelos soberanos da
Rússia, da Austria e da Prússia com o intuito de assegurar a
paz interna nos respectivos Estados e nos domínios dos prín­
cipes cristãos que viessem a aderir a ela — nenhuma nação
estava ao abrigo de uma invasão dêsses povos, solicitada pel®
próprio monarca para conter a reivindicação mais legítima de
seus súditos. Pelos fins dêsse mesmo ano de 1820 Nápoles,
por haver proclamado a Constituição Espanhola, e ter constran­
gido o seu soberano a jurá-la, aparelhava-se para resistir a
irrupção da Áustria, delegada da Santa Aliança. Não devia
Portugal temer igual sorte caso D. João VI e o Brasil conde-
nassem a revolução do Pôrto?** Explica-se então o porquê do
artigo 5.*: a Regência temia a Santa Aliança. Daí a ancie*
A

A m a ç o n a r ia NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 255

•dade com que se aguardavam notícias do Brasil, e principal­


mente do Rio de Janeiro. “ Na noite de 27 de abril, com -a
■chegada da fragata “ Maria da Glória” , houve notícias do Rio
que desoprimiram Lisboa. Achava-se o ministro da Marinha
no teatro de S. Carlos quando lhe levaram o correio da Amé­
rica (Portuguêsa). Transportado de júbilo com o juramento
da futura Constituição pela Monarquia, transmitiu aos espec­
tadores a fausta nova. Apoderou-se do público verdadeiro
delírio; os artistas cantaram o hino, as mulheres choravam e os
poetas improvisavam. Fóra arrancavam-se aos vendedores os
suplementos dos jornais; iluminaram-se as casas; de fogos de
artifício, choveram tôda a noite flores de luz e estréias sôbre
a cidade sem sono; e na manhã seguinte as duzentas igrejas
de Lisboa anunciavam, ao céu a alegria dos homens. O povo
que desde cedo fervia nas imediações, invadiu, à abertura, o
palácio das Côrtes com impetuosidade do furacão e alastrou-
se por tôda a parte sem respeito pelos lugares reservados. Co­
briu de flores e louros as cadeiras dos representantes, acla­
mados como triunfadores. O presidente do Congresso alterou a
ordem do dia para não retardar o prazer de confirmar a notí­
cia. Feito o que é descoberto o retrato de D. João VI, o me­
lhor dos soberanos, ressoaram vivas no recinto e das tribunas
com indizivel entusiasmo, como assinala o Diário das Côrtes”
(1). Tudo isso dizia, com eloquência, pois sòmente agora a
revolução estava vitoriosa. Receava a Regência de Lisboa que
0 auxílio de qualquer nação da Santa Aliança viesse ajudar
D. João VI. E êste, com tropa levada do Brasil e do estran­
geiro, podia acabar com o movimento revolucionário do Pôrto.

O CONCILIADOR DO REINO UNIDO


“ Entre 1.® de março e 25 de abril de 1821, exatamente
quando aqui se resolvia a volta dõ Rei D. João VI para Por­
tugal e a permanência do Príncipe D. Pedro no Brasil, como
regente” , (2) circulou no Rio de Janeiro, o * Conciliador do
Reino Unido” , o primeiro dos jornais redigidos por José da
Silva Lisboa, em momento bem crítico para a vida do Reino.
Serve-lhe de epígrafe três estâncias dos “ Lusíadas” . E delas
se destaca:
. . . “ portuguêsa alta excelência
De lealdade firme e obediência” .

(1) Cf. Rocha Pombo. ob. cit. vol. VII. ps. 512, 513.
(2) Cf. Hélio Vianna. “ História da Imprensa Brasileira . p. 370.
Imprensa Nacional. Rio. 1945.
256 T. L. FERREIRA — M R. FERREIRA

“ Em tom de proclamação aos compatriotas, daquém e da­


lém mar, aos amantes do Brasil Unido e à tropa de linha —
começa o artigo inicial e único, do exemplar de 1 de março de
1821. Lembra-lhes o decreto de 13 de novembro de 1813 e as
Cartas de Lei citadas por Vale Cabral. Refere-se à divisa do
Infante D. Henrique — “ Talent de bien faire”. E termina
com a classificação da data de 26 de fevereiro de 1821 como o
Dia da Salvação e da Regeneração, faz elogios ao Príncipe
D. Pedro por ter sido o mediador da concessão da Constitui­
ção que ainda se iria fazer.
O segundo número, de 12 de março, evoca a recomenda­
ção de D. Manoel I a Vasco da Gama, para que mantivesse
sempre a Paz e a Concórdia. Alude ao nascimento de D. João
Carlos, Príncipe da Beira, filho de D. Pedro e de D. Leopoldi-
na, ocorrido no dia 6 do mesmo mês, não se esquecendo de
salientar a distinção desde o reinado de D. João IV outorgada
ao nosso país, por intitularem-se Príncipes do Brasil os her­
deiros presuntivos da Coroa de Portugal. Aproveita-se da
oportunidade para concluir que D. João VI do Brasil e de Por­
tugal fizera um só corpo, sendo “ Lealdade e União” a divisa
que aconselhava. Depois de exaltar, mais uma vez, o ato de
26 de fevereiro, divagando sôbre a Lealdade e a Concórdia, en­
cerra o fascículo com os “ Votos Patrióticos” contidos no Hi­
no composto por um goiano, com os acontecimentos daquela
data. E com estribilho:
“ Dai-nos Pedro a segurança;
Cesse de todo a opressão;
Sejamos livres, felizes.
Por Santa Constituição” .
A maior parte do terceiro número do “ Conciliador do
Remo Unido” datado de 24 de março de 1821 é dedicada, co­
mo obra de propaganda, à transcrição de opiniões de escri­
tores europeus, relativas ao Govêrno de D. João VI no Brasil.
Começa pela do “ famoso Arcebispo de Malines” , isto é, o
conhecido Abade De Pradt, sôbre os inegáveis benefícios da
transmigr^ão da Família Real Portuguêsa para o Brasil, ocor­
rência amda hoje erroneamente classificada como simples fw-
ga pelos historiadores de curto fôlego, “ Uma nova cena
a e a na Europa. O que os holandeses se propuzeram
trovejava às portas de A m sterdã o; o
que Fehpe_V projetava, quando a fortuna contrária parecia
^ Espanha à sua rival; o que o resoluto Pombal acon-
hava, quando Lisboa engulida pelo terremoto parecia nao
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 257

assentar senão num abismo; o que Carlos IV ia empreender de­


pois de, já mui tarde, esclarecido sôbre a sorte que lhe esta­
va preparada — foi executado pelo Príncipe do Brasil (1). Dêle
é que veio o exemplo dado aos soberanos da Europa para unâ­
nime Confederação e Resistência ao Déspota da França...
A sua passagem de Portugal ao Brasil é um sucesso que exer­
cerá a maior influência sôbre o destino do mundo. A nau que
0 levou ao Brasil alcançaria entre os gregos ainda mais hon­
ras que a embarcação que transportou a Jasão e a seus argo­
nautas. O novo Rei da Monarquia Lusitana é o Conservador
da Realeza na América, e o seu ponto de apoio. Os Tronos da
Europa a Êle deverão essa obrigação... Portugal não têm mais
Colônias (2) na América; ora tem tudo a ganhar e nada a
perder. O Soberano deve agradecer ao Céu de o levar a
suas terras sem limites de espaço e de riquezas, para encher
os destinos preparados da Humanidade, entrando agigantado
na Política do Universo e constituindo-se Independente. Eis
a graduação sublime a que o chama o próprio interesse bem
entendido” .
Opiniões idênticas, francamente elogiosas ao Brasil e seu
soberano, foram transcritas a seguir, devidas ao Conde de
Chanteloup, Jean Antoine Chaptal, químico, industrial e milio­
nário, Inspetor das Fábricas de França, ao historiador e lau­
reado poeta Robert Southey e a outros estrangeiros ilustres,
por diversos motivosi conhecedores do Brasil, como o conde
de Hogendorp, ex-ministro holandês e general de Napoleão, vo-
luntáriamente exilado aqui (nó Rio de Janeiro) nas Aguas
Férreas; o cientista Príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied,
autor de magnífica “ Viagem ao Brasil” ; e o Barão de Lan-
gasdorff, consul-geral da Rússia, fazendeiro na Baixada Flu­
minense, futuro e trágico explorador dos sertões paulistas e
matogrossenses, autor de uma “ Memória sôbre o Brasil, para
servir de guia àqueles que nêle se desejam estabelecer” , pu­
blicada em Paris, em 1820, e aqui, em tradução, em 1822.
No quarto número, entrou o “ Conciliador do Reino Unido” ,
em terreno mais doutrinário. Refere-se com luxo de maiús­
culas e vigor de adjetivos, ao vulcão revolucionário da Fran­
ça, à liberal Constituição da Inglaterra, à divisão civil em
proprietários, capitalistas e salariados (particulares e públicos)
— ponto em que Cayru teve ocasião de expor os seus sólidos

(1) Era o título que pessoalmente cabia ao Príncipe-Regente


D. João, antes de ser elevado a rei do Brasil.
(2) Colónias, na língua da época, são as províncias, isto é, as Ca­
pitania*. • ■* I h
25S T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

conhecimentos da economia política do tempo. Terminou lon­


gamente recordando os motivos mais confessáveis da revolu­
ção portuguêsa de agôsto de 1820” .
A Inglaterra havia semeado, através das lojas maçônicas.
francesas, nos anos anteriores a 1789 o espírito revolucionário.
E êsse movimento continuava desde aquele ano a disseminar-se
cada vez pelo continente europeu e norte-americano.
“ A liberdade de imprensa constituia o tema principal dos
trete últimos números do “ Conciliador” . Sendo o seu redator
o próprio censor de tôdas as publicações que se candidatassem
à composição tipográfica na Imprensa Régia, era natural que
entendesse êle ser aquela liberdade melhor quando estabele­
cida de modo a serem evitados quaisquer abusos. Nesse sen­
tido, esforçou-se Silva Lisboa por esclarecer os seus contem­
porâneos, para tanto se valendo, assim dos recursos que pro­
vinham de sua’ intestável erudição como da capacidade dialé­
tica que sempre caracterizou os seus escritos, apesar do tom
dogmático em que eram geralmente vasados.
As três últimas páginas do n.° 7 do “ Conciliador do Reino
Unido” , de 25 de abril de 1821, que faltam ao exemplar da
I ii
Biblioteca Nacional, mas existem na coleção do Instituto His-
tórico (Brasileiro), que pertenceu ao Sr. Lucas da Silva Ba­
rata e ao Senador Manoel Barata — transcrevem a nova reda­
ção à letra do hino “ Votos Patrióticos” dada por seu miste­
rioso autor. Êste, o “ Anônimo Goiano” , que a 2 de fevereiro,
no entusiasmo da vitória da revolução constitucionalista o ba-
via composto, entregando os respectivos originais à Tipogra­
fia Real, corrigiu-os depois, e a 13 de março endereçou-os ao
jornalista e censor” (1). ^ ^
Por se tratar de um periódico da época, redigido por José
da Silva Lisboa, cujo título já revela o objetivo do seu dire­
tor, achamos oportuno, para explicar êste período revolucio-
nano, transcrever o resumo da matéria publicada pelo “ Con-
cihador do Remo Unido” , nos seus sete números. E êle re-
° da vitória da revolução constitucionalis-
L ^ AA para desaparecer com o regresso da sé-^
de da Monarquia a Lisboa.
salvara o Brasil da desintegração territorial
sa iá ^ Afonso de Sou-
Hn j Padre Antonio Vieh-a de 1644, e o plano
do .Marques de Pombal. “ O exemplo dado por D. João em

^ História da Imprensa Bra-


10 . 1945. * ® líwpi^ensa Nacional. Rio de Janei'

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A MiiÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 259

1807 foi seguido, na guerra atual, (de 1939 a 1945) por di­
versos soberanos e chefes de Estado europeus, que assim pre­
servara a personalidade internacional de seus países, sem que
ninguém ^se lembrasse de acoimá-los de fujões” , observa com
muito acêrto Hélio Vianna (1). E o Príncipe do Brasil não
fugiu: preservou a unidade territorial da Monarquia Portu­
guesa e de Portugal, ao mudar a séde do seu govêrno de Lis­
boa para o Rio de Janeiro.

0 PODER DO ‘‘ SUPREMO ARQUITETO**


Decidida a volta del-Rei D. João VI a Lisboa, donde saíra
em 1807, prepara-se o govêrno da Monarquia para a mudan­
ça. “ Dom João, saudoso dos anos de sossêgo e de govêrno in­
teligente em que, por assim dizer, criou o Brasil político e
econômico, a unidade e a riqueza de um país novo» *— vem
apreensivo pelo que deixa, mais ainda pelo que irá defrontar
em Lisboa. Não parte por gôsto. O Príncipe Real, os agitado­
res autonomistas, a Maçonaria, a própria dignidade esquecida
e ofendida, o prestígio abalado sem remédio — tudo o empur­
ra para fora do Rio de Janeiro. Com êle, a tradição monár­
quica desaparece da América do Sul: — a verdadeira Reale­
za, tutelar, bemfazeja, servidora eficaz do bem comum, su­
cumbe, expulsa pela Revolução triunfante” (2). D. João VI
via, talvez como ninguém, o destino do Reino do Brasil, quan­
do a 26 de abril de 1821 deixava a Guanabara. Aqui, êle
percebia a luta secreta e silenciosa, travada nos subterrâneos
da Maçonaria, entre os “ Azuis” constitucionalistas e os “ Verme­
lhos” republicanos e jacobinos. Deixava a D. Pedro a tarefa
de enfrentar os vagalhões da revolta em marcha. Em Lisboa
0 Rei ia ser prisioneiro dos “ Vermelhos” republicanos. No
Brasil e em Portugal dominava, nessa altura, o poder miste­
rioso do “ Supremo Arquiteto do Universo” . E antes do Rei
chegar fazem-se reformas radicais no regime.

OS REIS DE PORTUGAL
ERAM REIS DO BRASIL
0 regresso de D. João VI a Lisboa permite fazer breve
síntese dos Reis de Portugal, também Reis do Brasil, de 1500
a 1821. Em 1516 D. Manoel I, o Rei Desbravador, por dois al­
varás, ordena ao feitor e aos oficiais (funcionários) da Casa
da índia que dessem a necessária ferramenta aos que viessem

(1) Cf. Hélio Vianna. ob. cit. nota ao pé da página 372.


260 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA
povoar a Província de Santa Cruz; em 1530, D. João III, o
Réi Povoador, manda Martim Afonso de Sousa instalar a Câ­
mara Municipal de São Vicente, a primeira das Américas e
berço da democracia no Novo Mundo, faz em 1533, a primeira
divisão administrativa da Província de Santa Cruz em Ca­
pitanias, em 1548 cria O ESTADO DO BRASIL, com
o Governador-geral Tomé de Sousa, Ouvidor-mor, Pro-
vedor-mor, e nomeia Primeiro Secretário da Educação
o Padre Manoel da Nóbrega, a quem dá a incum­
bência de estabelecer o ensino público e gratuito por con­
ta da Coroa Portuguêsa, e “ foi êste o grande o primeiro ato
oficial e político para a unificação do Brasil” (1), D. Sebas­
tião, 0 Rei Consolidador do ensino público e gratuito no Estado
do Brasil; D. Pedro II, o Rei Bandeirante, em cujo govârao
as Bandeiras Paulistas foram estimuladas; D. João V. o Rei
Mineiro, pelo esplendor impar dado por êsse soberano à arte
barroca em Minas Gerais; D. João VI, o Rei Metalúrgico, a
quem se deve o funcionamento oficial da fábrica de Ferro do
Ipanema (São Paulo) e a elevação do Estado do Brasil a Reino
Unido ao Reino de Portugal e Algarves, em 1815.

A REVOLUÇÃO LIBERAL
EM MARCHA
Ainda não havia Constituição para o Império Lusitano,
mas já se opera a derrubada sistemática de todos os governa­
dores das províncias do Reino do Brasil, nomeados anterior­
mente pelo governo de Lisboa. A palavra de ordem da Junta
Governaüva da Capital do Império Lusitano sediado à mar­
gem do Tejo era substituir êtsses governadores por Juntas Go­
vernativas aclamadas pelo povo reunido em praça pública. E
a tropa se encarrega de prestigiá-las.
A 6 de abrü de 1821 o major de cavalaria Rodrigos Ponto
j manhã, ao quartel do campo de Ouri-
® 3 seguinte proclamação:
n-n ’^"^nhao. O amor da pátria, soldados, e a va-
na guerra, derrotando batalhões ini-
migos tambem na paz há heróis, também se colhem louros.
despotismo, dar liberdade à pátria
agnlhoada, eis a façanha gloriosa para que altamente vos con­
vidam os vossos, camaradas e irmãos do antigo e novo mundo.
aguas do Amazonas e as ondas do Recôncavo lavarão
° ferrete da escravidão. O Pará, a Bahia e Per-
nanibuco ja vos mostraram o caminho da honra, da virtude e
da glona: sigamos-Ihe os trilhos do heroismo. Soldados; n®
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 261

Campo de Ourique foi aclamado o primeiro dos nossos reis V il


(Afonso Henriques, D. Afonso I): seja aclamado noutro cam­
po de Ourique a primeira Constituição do Brasil. Eia, solda­
dos! Tenha Portugal, tenha o Brasil uma só bandeira, uma só
divisa — Lealdade, Amor e Vivas ao nosso muito amado Rei, o
senhor Dom João VI e tôda a sua real dinastia. Viva a Pátria.
Viva a Constituição! Quartel do campo de Ourique do Mara­
nhão, 6 de abril de 1821. Rodrigo Pinto Pizarro, major de
cavalaria” (2).
Essas proclamações mostram como os portuguêses nas­
cidos no Brasil estavam perfeitamente identificados com os
portuguêses da Europa. Os maçons de Portugal e do Brasil
agiam de acôrdo, assim como os maçons franceses em 1790. Os
“ Vermelhos” e os “ Azuis” trabalhavam pela Monarquia Consti­
tucional e pelo Rei cuja dinastia era consentida. E a revolução
constitucionalista marchava.

n a c io n a l id a d e p o r t u g u ê s a

No dia 17 de abril de 1821, o governador de São Paulo con­


voca eleições para deputados às Côrtes Nacionais Extraordiná­
rias em Lisboa.
Nesse edital, constava que as eleições estavam sendo con­
vocadas por ordem de D. João VI. A parte principal do edi­
tal dizia:
“ 1.") Que para qualquer (pessoa) ser nomeado compro-
missário, ou eleitor paroquial é necessário que seja português
maior de vinte e cinco anos, residente nas respectivas fre­
guesias.
2.®) Que estas mesmas circunstâncias devem concorrer
nos eleitores de comarca, os quais devem também ser domici­
liados, e residentes nela, seja qual fôr o seu estado, ou se­
cular, ou eclesiástico secular, podendo recair a eleição, nos
que compõem a Junta, ou nos que não entraram nela.
3.“) O mesmo compete aos deputados das Côrtes; porém
nenhum funcionário público nomeado pelo govêrno poderá ser
eleito deputado das Côrtes pela Província em' que exercer
as suas funções.
4.”) Que nenhuma pessoa poderá escusar-se dêstes en­
cargos por qualquer motivo, ou pretexto, que seja.

(1) Oi. Padre Serafim Leite, S.J. “ Cartas do Brasil e mais es­
critos do Padre Manoel da Nóbrega” . p. 40. Coimbra. 1921.
(2) Cf. Luiz Antônio Vieira da Silva “ Hist. da Independência da
Piovíncia do Maranhão” .
262 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

Finalmente, recomendo não só às autoridades constituintes,


mas também a todos os honrados, e fiéis paulistas procedam
nêste interessantíssimo negócio com toda a madureza e cir­
cunspecção devida, tendo sempre em vista que da boa escolha
dos eleitores, e deputados resulta a felicidade da Província
(de São Paulo) e do Reino do Brasil” .
Da mesma maneira que em Portugal, essa era a primeira
eleição para deputados a ser realizada em tôda a história de
São Paulo.
Observemos que o artigo primeiro e seguintes diziam que
para ser eleitor e ser deputado, era necessário ser português.
Aliás, no Brasil, durante 322 anos, nunca ninguém supôs que
pudesse deixar de ser português. Tôda a documentação dêsses
três séculos é pacífica a êsse respeito.’ Por outro lado, veja-se
no final do documento, que êsses portuguêses de São Paulo
eram honrados e fiéis paulistas.
Tôdas estas considerações são necessárias, para que se com­
preenda exatamente o espírito dos homens da época, e parti­
cularmente esta História da Independência que estamos escre­
vendo, única e exclusivamente com documentos daqueles ins­
tantes.
Lembremos também que a Câmara Municipal de São Pau­
lo, que registrou aquêle edital, era dominada pela nobreza da
cidade, formada das famílias tradicionais descendentes de ban­
deirantes.
E a linguagem daquele documento diz que os paulistas,
os portuguêses de São Paulo, eram honrados e fiéis. Esta lin­
guagem era também tradicional em São Paulo. Aliás, vamos
dizer com mais precisão: essa linguagem tradicional expr-niin
sempre os sentimentos dos paulistas, fiéis e leais vassalos d®
Sua Majestade.

A PARTIDA DE D. JOÃO VI

A 26 de abril de 1821, após o beija-mão de despedida, ^


esquadra sai Guanabara a fora, com o R ei, a Rainha, D.
^ e l a Corte. D. João VI regressa à Europa depois de ter
T m n Á rn ^ Brasil, preparado para o g^a^
Imperio sonhado por D. João III, três séculos antes. O
Luso-Brasileiro está constituído. Seu único Ií«P^
mãos de seu filho D. Pedro,
nnnfr ° Império Brasileiro. E sua majestade
contra a sua vontade.
O Príncipe Real, os agitadores autonomistas, a Maçonari^'
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 263

a própria dignidade esquecida e ofendida, o prestígio abalado


sem remédio — tudo o empurra para fora do Rio de Janeiro.
Com êle, a tradição monárquica desaparece da América do
Sul: — a verdadeira Realeza, tutelar, benfazeja, servidora do
bem comum, expulsa pela Revolução triunfante” (1). E esta
criaria a dinastia constitucional, consentida.

A situação politica
Quando D. João VI chegou ao Brasil encontrou um gran­
de, imenso país. Ao elevar o Estado do Brasil à categoria de
Reino Unido ao de Portugal e Algarves, tornou-o independen-^
te dentro da Monarquia Portuguêísa.
Era D. João VI o último representante daquela tradicio­
nal Monarquia, que agora começava a desmoronar com a Re­
volução iniciada no dia 24 de agôsto de 1820 em Portugal, e
continuada no Brasil pelas mesmas fôrças, no dia 26 de feverei­
ro de 1821,
Mas por um estranho capricho da História, a Monarquia
que ao longo dos séculos fizera as glórias do Império Português
no Ultramar, começava a desmoronar com o velho Rei, exata­
mente nesta parte do Novo Mundo. Trezentos e vinte anos an­
tes, aqui onde tudo era selva virgem, as caravelas da flores­
cente Monarquia vieram lançar as bases da civilização Luso-
Cristã.
Assim, a velha Monarquia, que no seu momento de es­
plendor aqui chegara há mais de três séculos, agora, no mo­
mento de dar por acabado o seu trabalho de plasmar e dar for­
ma a êste país começava aqui mesmo a desmoronar sob o im­
pacto das novas e revolucionárias fôrças das idéias políticas mo­
dificadoras.
Honestamente, sem nenhum calór de romantismo, o his­
toriador não pode deixar de assinalar êsse fato, que encerra
algo de simbòlicamente belo.
D. João VI amava profundamente o Brasil e o seu povo, e
era por êste amado. Êle não queria partir para Lisboa. Seu de­
sejo era continuar no Reino do Brasil, que êle criara. Mas a
Revolução exigia-o prisioneiro lá, em Lisboa.
O velho Monarca, embora sentindo intimamente tôda a
mágoa por ver a dignidade da sua soberania espezinhada pe­
las fôrças da Revolução, externava ainda em seus últimos mo­
mentos no Brasil — e pela ultima vez na história da dinastia
(1) Cf. João Ameal. ob. cit, 565.
264 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

— a grandeza da ternura paternal que a caracterizara duran­


te scculos.
Por isso, antes de partir, preocupava-se com a ida dos nos­
sos deputados às Côrtes, com a felicidade do nosso povo, com
a unidade das províncias do Reino do Brasil, com o futuro que
parecia tão incerto naquele desencadear de novas idéias e no­
vas fôrças revolucionárias.
Realmente, à medida que o navio que o levava para Lisboa
mais se distanciava do Brasil, os habitantes sentiam a triste-
jza de quem fica órfão e sozinho.
E sob êsse sentimento de desamparô e solidão — destrui-
das as bases daquela Monarquia sob cujos paternais cuidados
^ivêra durante três séculos — o povo seria obrigado agora, por
sua própria conta, a procurar o seu próprio destino.
Sim, era êsse o sentido da Revolução__

O REI PRISIONEIRO DAS CÔRTES


.Em Lisboa, D. João VI ficaria práticamente um prisioneiro
das Côrte« — a assembléia dos deputados representantes do
povo — que preparavam a? primeira Constituição da Nação
Portuguêsa, segundo os moldes da República surgida com a
Revolução Francêsa.
Durante a maior parte do ano de 1821, as Côrtes de Lis­
boa seriam formadas de deputados de Portugal, sòmente. Ado­
tando a determinação de D. João VI quando ainda no Brasili
as Côrtes só muito tardiamente pensaram em ter ao seu lado
deputados do Brasil, dos quais os primeiros lá chegariam c®
fins de agôsto.
As Côrtes eram o retrato vivo do càos a que chegara Pot-
tugal: privado da presença do Rei desde 1808, arrasado
tropas de Napoleão que transformaram o país num campo de
batalha, dividido profundamente pelas novas e r e v o l u c i o n á r i a s
idéias disseminadas pelas **lojas” maçônicas que, por sua vez,
se hostilizavam.
Aquela Assembléia caracterizava-se pela falta de unida­
de, e pela ausência de uma tradição parlamentar.
O certo é que as “ lojas” maçônicas de Portugal e do Bra­
sil estavam de acôrdo com a Revolução, iniciada com o
pe de 24 de agôsto de 1820. Que levou as de Portugal a rorn-
perein com as do Brasil, posteriormente? Ou não houve êaS®
rompimento, que foi só aparente, havendo acordos secretos en'
tre as mesmas facções extremas do Brasil e Portugal, com
objetivo de separar ambos os Reinos, e instalar a Republic »
aqui e lá?
r "

A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILBIRA 265 \

Ou não confiavam as Côrtes na fidelidade do Brasil à Re­


volução, temendo aqui um contragolpe visando restabelecer as
velhas bases da Monarquia? Realmente, era tradicional e pro­
fundo 0 sentimento de fidelidade e lealdade à Monarquia, no
Brasil, devendo-se ressaltar que nada sofrêramos com as guer­
ras napoleônicas, tendo ainda ao nosso lado, a figura respeitá­
vel do Rei. De fato, a hipótese de ciúme dos representantes de
Portugal relativamente ao Brasil, cede ao problema da sobre­
vivência de uma Revolução, que no Brasil poderia não contar
com bases seguras para mantê-la.
E’ preciso considerar corretamente as condições em que
0 Estado do Brasil sempre esteve integrado na Monarquia Por­
tuguêsa. Baseavam-se numa união em torno do Rei, cuja au­
toridade emanava de outra superior, a divina. As diferentes
partes do Império Português, e todos os seus povos, uniam-se
em torno da paternal figura do soberano. Mas, o trono do Rei,
que era o próprio trono de Deus, caira. Surgia agora o novo
Contrato Social, uma criação de homens. Êles teriam agora
de reconstruir a sociedade política, e nos seus princípios. B
isso teria de ser feito por homens que pensavam diferente­
mente, que desconfiavam uns dos outros.
Em Lisboa, D. João VI era uma figura à margem, a quem
as Côrtes mantinham práticamente prisioneiro.

A LUTA ENTRE AZUIS”


E ^'VERMELHOS”
Desde o século passado, em todo o mundo, duas maçona­
rias — a “ Azul” e a “ Vermelha” — vinham lutando por der­
rubar as tradicionais monarquias absolutistas. Embora lutan­
do pelos mesmos princípios liberais, defendiam formas de go­
vernos diferentes. A Maçonaria “ Azul” defendia a Monar­
quia constitucional parlamentar. A Maçonaria “ Vermelha”
queria a abolição completa da Monarquia, com a instalação
de Repúblicas democráticas.
Para derrubar o trono de D. João VI, ambas as Maçona­
rias trabalharam juntamente, e em consonância com as res­
pectivas, de Portugal. Alcançado o objetivo com a Revolução
de 24 de agôsto de 1820 em Portugal, e instaladas as Côrtes
em Lisboa, com representantes do povo que iriam fazer a
Constituição, estava plenamente alcançado o objetivo da Ma­
çonaria “ Azul” . Mas, não o da Maçonaria “ Vermelha”. Por­
tanto, iniciar-se-ia agora, a luta entre ambas.
266 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

Vamos, pois, alinhar as fôrças poh'ticas que no Brasil exis­


tiam, no momento em que D. João VI, tendo partido para Por­
tugal, entregou a Regência do Reino a seu filho D. Pedro:
1.®) Os absolutistas.
2.®) Os monarquistas constitucionais parlamentares.
3°) Os republicanos democráticos.
Vamos estudar cada uma, separada e pormenorizadamente.
1.^) Os absolutistas
Os absolutistas eram partidários da tradicional forma de
Monarquia derrubada pela Revolução de 24 de agôsto de 1820.
Eram constituídos principalmente pela antiga nobreza, a classe
dirigente política, que dominava as Câmaras Municipais, os
empregos públicos, as tropas de primeira e segunda linha, etc.
Caracterizavam-se principalmente pelos privilégios, entre os
quais, aquêles direitos políticos já mencionados. Essa nobreza
era tradicional, não se baseando em fortunas.
Os absolutistas, tanto em Portugal como no Brasil, aspi­
ravam à volta da tradicional forma de Monarquia. Eram for­
tes, à epoca da saída de D. João VI. Dominavam ainda muitas
Câmaras Municipais do Brasil. Em geral eram proprietários de
terras.
2^) Os monarquistos constitucionais porlamenta/res
Estes, eram os maçons “ Azuis'’.
Os monarquistas constitucionais parlamentares eram cons­
tituídos de uma nova classe que começara á surgir no século
anterior: a burguesia. Essa burguesia era formada de nego*
ciantes ricos, principalmente, e no absolutismo não tinham
acesso à tradicional classe dUrigente política, a nobreza. A
burguesia juntava-se uma parte da nobreza absolutista que
nuenciada pelas novas idéias, sonhava também com uma or­
dem, se^ n do as idéias de Locke, Montesquieu e Rousseau.
be nao ficava abolida a Monarquia totalmente, não é, pois,
e admirar, que elementos da nobreza absolutista — civil, mi-
mar e eclesiastica — ingressassem nas “ lojas” m açônicas
' acontecia em todos os países. Relativamente ao
b ln â t na França, escreveu o historiador
rrances moderno, Pierre Gaxotte:
üv Orleans, primo do Rei, é grão-mestre d*
^anco-Maçonaria. Há, nos regimentos, vinte e cinco lojas mj-
® soldados confraternizam no culto da
Igualdade. Na loja União, de Toul-ArtiUerie. o venerável e
um sargento, ao passo que o coronel, marquês de Havrincourt,
r

A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 267

não é senão o delegado do Grande-Oriente. A imensa maioria


dos juizes, certos intendentes e muitos funcionários filiaram-se
ao partido filosófico e frequentam as sociedades de pensamen­
to . A^ Academia Francesa é tôda filósofa e, depois que D’Alem­
bert é secretário perpétuo, procura afastar todos os indepen­
dentes” (1)
Sôbre o Rei Luís XVI, diz Gaxotte:
Está tão imbuido de Fénelon e de Rousseau que, um ano
depois da sua subida ao trono, se filia numa loja maçônica da
Côrte” .
No Brasil, também aconteceu o mesmo. Já vimos que o
Visconde de Barbacena, Luiz Antonio Furtado de Castro do
Rio de Mendonça, capitão geral governador da Capitania de
Minas Gerais, era maçon “ Azul” . Veremos, nesta história, co­
mo D. Pedro I ingressa na Maçonaria.
Aliás, D. Pedro, durante a Regência, ao tomar certas me­
didas, justificava-as com as teorias políticas do “ Contrato
Social” .
Assim, sòmente os filiados à Maçonaria faziam carreira
política. A Maçonaria era o partido político da época. Com
a queda do trono, pôde gozar de liberdade. Dessa maneira,
após a partida de D. João VI, tôdas as personalidades surgem
na cena política porque fazem parte das “ lojas” maçônicas.
Evidentemente, só os altos graus da hierarquia maçônica, pois
essas personalidades não sòmente controlavam as “ lojas” , mas
mereciam tôda a confiança dos irmãos.
3.®) Os republicanos democráticos
Constituiam a Maçonaria “ Vermelha” . Estiveram aliados
aos “ Azuis” para derrubar a Monarquia de D. João VI. Em
Portugal e no Brasil, conquanto não fossem senhores da situa­
ção, gozavam da mesma liberdade dos “ Azuis” , podendo, em
consequência, desenvolver as suas atividades.
Êles desejavam a abolição total da Monarquia, com govér-
nos inteiramente originados do povo.
No início da Revolução Francêsa, a Maçonaria “ Azul” es­
teve aliada à Maçonaria “ Vermelha” . Denominavam-se res­
pectivamente “ parlamentares” e “ liberais” .
Quando dominaram o rei Luís XVI as Maçonarias “ Azul”
(parlamentarista) e “ Vermelha” (Uberal), entraram em cho­
que. Tendo a “ Vermelha” levado vantagem, ^ ab eleceu o
Terror contra tôda a realeza do velho absolutismo, e contra os
(1) Piene G axotte, “ A revolução francesa” , Livraria Tavares Mar­
tins, Pôrto, 1945, página 58.
268 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

parlamentares “ Azuis” . Estabeleceram assim os “ Vermelhos”


a República com democracia, regime político e sistema de go­
vêrno que aparece pela primeira vez, nos tempos modernos.
Logo após a saída de D. João VI, os maçons “ Vermelhos”
iniciaram a propaganda da independência do Brasil, que aliás
não éra independência, mas sim, separação política. Pois, in­
dependente já era o Brasil desde 1815. Tratava-se, pois, de
separar politicamente, o Brasil de Portugal.
O Reino do Brasil, enquanto estivesíse unido ao de Por­
tugal, seria Monarquia, embora Monarquia limitada, consti­
tucional e parlamentar. Mas seria Monarquia. Por isso, os ma­
çons “ Vermelhos” pregavam a independência, pois separando-
-se o Brasil de Portugal, surgiria fatalmente no Brasil a Re­
pública, pois não havia no Brasil uma Monarquia própria.
Mas, havia um óbice aos designios dos “ Vermelhos” : a
presença de D. Pedro como Príncipe Regente, prestigiado
por absolutistas e por “ Azuis” , ambos contra a República.
Não nos esqueçamos de que os sentimentos monarquistas ti­
nham profundas raizes na alma do povo. Por isso, a propa­
ganda direta dos ideais republicanos teria que ser fatalmente
condenada ao fracasso: em sua totalidade, o povo era monar­
quista.
Separando-se o Brasil de Portugal, isto significaria que o
Brasil ficaria sem Monarquia, podendo ser instalada/ aqui a
República. Por isso, a simples idéia de independência, tam­
bém trazia em si a idéia de República. Daí ter a Maçonaria
Vermelha apelado para um recurso primário: a hostilidade
contra os naturais de Portugal, associando-a à idéia de inde­
pendência. As camadas mais inferiores do povo, eram manobra­
das com facüidade pelos “ Vermelhos” . Assim essa técnica
de açao dava seus resultados: uma campanha feroz foi feita
no Rio de Janeiro e em algumas cidades do Brasil contra os
natura^ de Portugal, associando-se a essa campanha, a propa­
g a d a da mdependencia. Mas, a presença de D. Pedro no Bra-
sil como membro da dinastia de Portugal era um óbice à Re­
publica e a mdependencia. Seria necessário afasta-lo do Bra­
sil. Veremos mais adiante, como os “ Vermelhos” procuraram
Aliás êles eram “ verdadeiros duendes
ríTifl 9 j confom e escreveu o jornal “ O Tamoio” (núme­
ro 18 de 2 de outubro de 1823).
Na^ época, os maçons “ Vermelhos” recebiam as seguintes
denominações, tôdas equivalentes: “ republicanos” , “ democra­
tas*, “ demagogos” , “ exagerados”, “ anarquistas”, “ carbonários”,

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A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 269

“ monstros” , “ cabeças esquentadas” ou “ partido da indepen­


dência” . ^
A Maçonaria proc^ava ocultar as suas atividades, não re­
lacionando as atividades politicas dos seus membros, com as
respectivas lojas . Pelo menos, nos documentos — folhetos
proclamaçoes, etc. assim fazia. E a Maçonaria ocultava tam-
características que a distinguem: “ Verme­
lha e Azul . M duas ordens distinguiam-se pelos ritos, de­
nominações e idéias políticas e formas de govêmo que prega­
vam. Tinham algo em comum: o absolutismo como inimigo,
e o liberalismo e a representação do povo nos legislativos, como
princípios fundamentais.
Passemos agora, a falar da técnica de ação principalmen­
te da Maçonaria “ Vermelha” .
Dizemos da Maçonaria “ Vermelha” , porque era a que es­
tava em atividade, nos dias da saída de D. João VI do Brasil,
estando a “ Azul” adormecida. Ora nos momentos de ação, os
métodos de ambas não eram diferentes, quando as duas ordens
agiam juntas. Assim, as grandes decisões, eram secrétamente
tomadas entre poucos dirigentes maçônicos, nas “ lojas” . Daí
eram transmitidas aos comitês e clubes, espalhados na cidade
do Rio de Janeiro. E dêsses comitês e clubes saíam aquêles
que iam dirigir as camadas mais baixas da pop(ulação, inci­
tando-as aos motins, e desordens.
Também das “ lojas” do Rio de Janeiro saíam emissários
com ordens, instruções, propaganda impressa e manuscrita etc.
para as “ lojas” das Capitais das províncias do Brasil. E as
“ lojas” destas Capitais, transmitiam-nas às “ lojas” das cida­
des do interior das províncias. Êsses emissários retornando ao
Rio de Janeiro, por sua vez traziam relatórios e informações
sôbre a situação política de cada província.
Deveriam existir também emissários com a função de pôr
as "lojas” do Rio de Janeiro em contato com as de Lisboa e
de outras Capitais, principalmente Paris, Washington e Lon­
dres. Devemos não nos esquecer que a Maçonaria era interna­
cional. Aliás, essa técnica de ação, era a mesma da Revolução
Francêsa.
A propósito, disse o historiador Pierre Gaxotte, da Revo­
lução Francêsa:
“ O partido liberal tinha já (em 1789) as su^ comissões
locais: lojas, academias, gabinetes de leitura, sociedades filo­
sóficas e patrióticas, treinadas desde o princípio de 1788, ha­
bituadas a manejar a opinião e a agitação nas praças públicas,
após um ano de gritos, discursos e manifestações. Instrumen­
1270 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

tos maravilhosos de propaganda e de combate, tôdas estas or­


ganizações estavam já unidas por uma correspondência conti-
nua e por uma troca regular de notícias e brochuras”, (obra
citada pág. 84),
“ Por meio das sociedades maçônicas a agitação invadia a
província. Graças a elas, arrastando-se uns aos outros, Esta­
dos, Vilas, Capítulos e Corporações agitavam-se e protestavam”
(obra citada, pág. 62).
Nas sociedades, clubes, academias, “ ameaças, arengas, fal­
sas notícias, panfletos, moções incendiárias, incitações ao assas­
sínio, tudo ali se espalha e repercute. As paixões estão desen­
cadeadas, diz uma testemimha” . (obra citada, pág. 89)
“ Bastam algims conciliábulos em casa do Duque de Or-
léans ou no Clube Bretão, para que o mesmo impulso seja
transmitido às extremidades da França” , (obra citada, pág. 95)
No Brasil tudo isso já tinha acontecido pouco antes da par­
tida de D. João VI.
Vejamos a propósito, dois documentos. Devido a terem
surgido no Rio de Janeiro notícias da revolução na Bahia, fa­
vorável ao movimento de 20 de agôsto em Portugal, o Minis­
tro de D. João VI, Tomás Antônio de Vila Nova Portugal en­
via ao Rei, no dia 9 de dezembro de 1820 informação na qual
diz: “ E’ necessário quem desmanche a combinação dos ma­
ç o n s . . . ” (Varnhagen, “ História da Independência” , 3.^ edi­
ção, pág. 24).
No dia 3 de janeiro de 1821, nas “ Instruções” que enviou
ao futuro governador da Bahia, o Conde de Vila Flôr, escreveu
o Ministro Tomás Antônio:
“ . . . cuidará muito em evitar correspondências suspeitos^*
e em não admitir emigrados, sem certeza de que não são emis­
sários, fazendo-os observar pela polícia.. (Obra cit., pág. 25).
Como verificamos, D. João VI e seus ministros sabiam q^®
era a Maçonaria que estava fazendo a Revolução, não desco­
nhecendo a existência de uma rêde de emissários entre Portu­
gal e Brasil, como também entre as províncias do Brasil, co­
mo ainda veremos.
Mas, continuemos.
Em tôda revolução, os revolucionários usam também como
arma para combater aquêles que defendem o regime que fi®'
da, uma campanha contra êsse próprio regime. Atacando um
regime, desmoralizando-o, os revolucionários obtêm duas van-
^•’ CTorjs simultâneas: destroem os adversários e implicitamen­
te fazem propaganda das vantagens do regime que p r e t e n d e m
estabelecer ou já estabeleceram.

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r
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 271

No início e durante a Revolução Francêsa, os “ Azuis” e


“ Vermelhos” procuravam, dessa maneira, anular os absolutis­
tas, combatendo o velho regime que êstes defendiam. A pro­
pósito, escreveu Pierre Gaxotte:
“ Foi do Clube dos Trinta e das suas filiais que partiram
essas brochuras curtas, nervosas e vibrantes que inflamaram
os espíritos e lançaram o odioso e o ridículo sôbre os partidá­
rios do antigo regime” , (obra citada, pág. 84)
E’ oportuno lembrar que dentro dêsse objetivo se acha­
vam as novas denominações. Assim, no antigo regime (absolu­
tista), o Rei simbolizava a Nação. Com a revolução, a figura
do Rei foi substituida pela concepção de Pátria. A bandei­
ra do Rei passou a ser substituida pela bandeira da Pátria. E
os habitantes daj nação, que eram fieis e leais vassalos do
Rei, passaram a ser patriotas.
Isto não significa que antes da Revolução Francêsa nin­
guém fôra patriota. Mas para os homens da revolução, só se­
ria patriota quem estivesse contra o antigo regime, ao qual se
lançava o odioso e o ridículo.
A REVOLUÇÃO EM MARCHA
Quando D. João VI deixou o Brasil e o Principe Regente
assumiu o govêmo, a Maçonaria “ Vermelha” iniciou a sua
propaganda pela independência.
“ Independência” tinha o sentido de separação política de
Portugal. Pois o Reino do Brasil desde 1815 já era um país
soberano independente, dentro da Monarquia Portuguêsa. E
naquele ano de 1821, quando D. João VI deixou o BrasU, os
habitantes eram tão livres e independentes, gozavam de tanta
liberdade, como após a independência.
Com a independência, isto é, com a separação política do
Brasil de Portugal, o Brasil deixaria automàticamente de fa­
zer parte de uma Monarquia, e em consequência o único re­
gime que poderia ser instalado seria o republicano.
Por isso, a Maçonaria “ Vermelha” iniciou a propaganda
da independência. A Maçonaria “ Vermelha” dirigia a sua cam­
panha principalmente entre as camadas mais inferiores da so­
ciedade, criando animosidade entre naturais do Brasil e de
Portugal. Os maçons “ Vermelhos” sabiam comover e dirigir
aquelas camadas da população. Já os maçons Azuis * predo­
minavam da pequena burguesia para cima. Os absolutistas,
partidários do antigo regime, levavam uma desvantagem em
relação à Maçonaria: êles não possuíam uma organização em
torno da qual pudessem se reunir, e além de se sentirem ini-
272 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

bidos pela sua formação antiga, de virem à praça pública, mes*


mo que quisessem, não dispunham em suas fileiras, de ele^
mentos intelectuais para uma ação eficiente.
Nestas poucas páginas, fizemos pois, imia exposição do am­
biente político, e das forças políticas existentes após a saída
de D. João VI. Tôdas essas fôrças se achavam na expectativa
dos acontecimentos que se desenrolavam em Lisboa, particular­
mente referentes ao Brasil. Sim, pois ainda havia muito cami­
nho a percorrer: a elaboração da Constituição, a forma de go­
vêrno que seria dada ao Reino do Brasil, etc.
Por isso, aquelas fôrças tôdas estavam em calma, exceto a
Maçonaria “ Vermelha” , cujo trabalho secreto de propaganda
da independência era feito sem descanso.
E dessa campanha fazia parte criar nas classes mais infe­
riores, a discórdia entre os naturais do Brasil e os de Portugal.
Afóra isso, segue-se um interregno de calma após a saída
de D. João VI. Essa pausa de espera, dura até dezembro de
1821. D. Pedro, assessorado por elementos da Maçonaria, alta­
mente versados nas teorias políticas pode dar base às reformas
liberais, ia tomando medidas para substituir o antigo regime.
£sses homens, influindo sôbre D. Pedro, estavam exerci­
tando com êle as reformas políticas econômicas e sociais pelas
quais lutavam, suspirando pelo advento do liberalismo, em prO"
fundidade. Não é de admirar que aqui se impacientassem com
as reformas que as Côrtes realizavam em Lisboa. E aqui che­
gariam meses após.
£sses homens eram, para a época e o momento, cultos &
ilustrados, conhecedores da literatura política, das idéias e dos
prmcipios que estavam revolucionando o mundo havia três
décadas.
^ Tais homens estavam fazendo uma revolução, polítíca, eco-
nomica e social.
rebelião de “ nativos” contra o d?*
. como nos diz a história ingênua e simplo«®
Qos manuais escolares.
Eram homens livres, plenamente imbuídos da cultura eu-
sociologicamente estavam dominados por
P n r t i i í r n i - n a t i v o s ” . Aliásm uitos eram naturais
residiram ^ estudaram em Portugal e durante anos ^
Tanto, que nem elaboraram escritos políticos própri®*’
políticas européias. Alife ff
pais da Revolução Americana tentaram fazê-lo, mas nada
ram de original.

J
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 273

Não obstante, no processo revolucionário, os nossos ho­


mens r e a h z a r ^ aqui no Brasil uma revolução diferente de
todas ^ que ]a haviam tido lugar ou ainda estavam se pro-
cessando em todo o mundo.
Enquanto em todos os outros países os revolucionários fi­
zeram correr rios de sangue, aqui no Brasil os nossos homens
realizaram a mesma revolução sem disparar um tiro. Não for­
maram exércitos para impor ou para defender as suas idéias
e princípios. Por isso, não derramaram sangue nos campos
de batalha.
Na luta então travada, nota-se o respeito devido ao con­
tendor, jamais atingido pessoal e diretamente. Êsses homens
usaram as armas da inteligência e da cultura: a conquista do
terreno pela mfiltração de novas idéias, pela persuasão e pela
persistência. Entre êles mesmos, usaram da intriga, da per­
fídia e, freqüentemente, mudavam de côr passando de maçons
“ Azuis” para “ Vermelhos” e vice-versa, desnorteando comple­
tamente os “ irmãos” , e hoje, os historiadores. Cada uma das
“ lojas” mantmha seus espiões nas outras, pois a desconfiança
caracterizava essas sociedades secretas, levando às vêzes umas
a se parecerem às outras. Daí Armitage estranhar, muito de­
pois da Independência, a “ notável incongruência” de a “ loja”
de José Bonifácio, denominada Apostolado, (“ Azul” ), ter “ os
ritos e denominações dos Carbonários (“ Vermelhos” ) da Itália” .
E’ pois nêsse campo movediço e aparentemente ilógico e
incoerente, que iremos penetrar, para ver como aquêles ho­
mens estavam fazendo uma notável revolução.

Abril de 1821
D. Pedro assume a
Begência do Reino do Brasil
ssumindo a regência do Reino do Brasil, D. Pedro faz,
A no dia 27 de abril de 1821, uma proclamação aos habitan­
tes do Brasil (*):
(♦) Os documentos apresentados daqui para diante, f o ^ ^
das fontes seguintes: 1) “ Coleção das leis do Brasil , de 1821 ®
editada em 1887 e 1889; 2) “ Coleção da correspondência oficial das
províncias do Brasil, durante a legislatura das Cortes constituintes ,
Lisboa, 1822. volume que pode ser encontrado «a secção de livros raros
da Biblioteca Municipal de São Paulo; 3) “ Atas e Registro
ciara Municipal de São Paulo, volumes correspondentes a 1821 e 182^.
— Ebcceto quando se declare expressamente a fonte, diferente das citadas.
274 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

“ A obrigação de atender prim eiro que tudo ao interêsse


gérai da Nação forçou Meu Augusto Pai a deixar-vos, e a en­
carregar-me do cuidado sôbre a pública felicidade do Brasil
até que de Portugal chegue a Constituição, e a consolide.
E julgando Eu mui conveniente nas presentes circuns-
tâncias, que todos desde já conheçam quais sejam os objetos
de Administração em geral, a que especialmente atenderei;
não perco tempo em manifestar, que o respeito austero às Leis,
vigilância constante sôbre seus explicadores, guerra contra as
ambages com que elas se desacreditam e enfraquecem, serão
os objetos de minha primeira atenção.
Altamente agradável Me será antecipar todos os benefícios
da Constituição que puderem ser conjugáveis com a obediên­
cia das nossas Leis.
A educação pública, que atualmente exige o mais apurado
desvelo do Govêrno, será atendida com quanta eficácia couber
em Meu poder.
E porque em semelhante estado se acham a agricultura e
comércio do Brasil, não cessarei de procurar quantas facilida­
des puder ser a favor de tão copiosas fontes da riqueza da
Nação.
Igual atenção prestarei ao interessantíssimo artigo das re­
formas, sem as quais é impossível promover liberalmente a
pública prosperidade.
Habitantes do Brasil. Tôdas estas intenções serão
dadas se uns poucos mal intencionados conseguirem sua fu­
nesta vitória, persuadindo-vos de princípios anti-sociais des­
trutivos de tôda a ordem, e diametralmente contrários ao sis­
tema de franqueza que desde já principio a seguir” .
Nêsse documento observa-se a linguagem dos novos tem­
pos, ou seja, a linguagem da Revolução, inspirada nos prin-
cipios liberais. No final, D. Pedro alude claramente aos re-
dência^^°^* estavam fazendo a propaganda da indepei^"

A VESTIMENTA DOS PADRES

m ec?ram °T ^J° grandes mudanças. Até os padres co-


adotando nnt vestes que usavam no antigo regiwfi
adotanrto modernas. Mas D. Pedro, que estava
com a ^títud^n''^' ® reformistas, não concordou
de ordem d„ ^8 de abril de 1821.
r^ '

A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 275

**Convindo muito à boa ordem que o Clero seja respeitado


pelos Povos; e não sendo possível que êle concilie o respeito
dêstes, apresentando-se às suas vistas sem a modéstia que de­
vem observar nos seus vestidos, pois têm alguns chegado ao
excesso de passearem publicamente vestidos de calças largas:
E’ Sua Alteza Real o Príncipe Regente Servido que V. Ex. dê
as convenientes providências, para que se observe a regulari­
dade e decência dos vestidos dos Clérigos existentes nesta
Côrte O ”. .
Êsse fato, bem evidencia as transformações por que esta­
vam passando não só as idéias políticas e a arte de governar,
mas também os hábitos, os costumes do tempo.

Maio de 1821
EXTINÇÃO DO TRIBUNAL DA INCONFIDÊNCIA

0 Tribunal ou Juizo da Inconfidência, julgava os crimes de


lesa-majestade. Como o Rei representava a Nação, qual­
quer atentado à segurança do Rei, da Monarquia, era um
atentado contra a segurança da própria Nação. Os inconfiden­
tes de Minas, Bahia, etc. foram julgados por êsse tribunal, da
mesma maneira que se fazia em Portugal.
No dia 3 de maio de 1821, as Côrtes de Lisboa, decretam
a extinção dêsse tribunal, pois o absolutismo caíra, o Rei era
agora uma figura meramente decorativa. As Côrtes, que eram
0 Congresso do povo, representavam agora a Nação, em lugar
do Rei. As Côrtes eram agora soberanas e não o Rei. Os cri­
mes de lesa-majestade passaram a ser de lesa-pátria.
Mas vamos ao documento. Chamamos a atenção do leitor
para o seguinte: no dia 3 de maio, D. João VI ainda estava
navegando para Portugal.
Diz 0 decreto das Côrtes:
“ As Côrtes Gerais, Extraordinárias, e Constituintes da Na­
ção Portuguêsa Tomando em consideração que o Juizo da In­
confidência é incompatível com o sistema Constitucional, De­
cretam 0 seguinte:
1.“ — O Juizo da Inconfidência fica extinto com todos os
seus Ofícios.

(*) Por Côrte, subentenda-se a cidade do Rio de Janeiro, capital


do Reino do Brasil.*— Nota dos A A.
276 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

2.® — Serão remetidos para as Varas da Correição do Cri-


me da Côrte todos os processos findos, e pendentes naquele
Juizo; os primeiros para serem guardados, e êstes para segui­
rem os termos legais.
A Regência do Reino de Portugal o tenha assim entendi­
do, e faça executar. Paço das Côrtes em 3 de Maio de 1821. ^
Hermano José Braancamp do Sobral, Presidente, João Batista
Felgueiras, Deputado Secretário, Agostinho de Mendonça Fal­
cão, Deputado Secretário”

ENTRADA DE LIVROS
No dia 8 de maio de 1821, por intermédio do Ministro do
Reino, D. Pedro ordena que a importação de livros seja livre,
exceto se fossem imorais. K* a seguinte, a decisão:
“ S.A.R. o Príncipe Regente E* servido que os livros, de
qualquer natureza, que entrarem na Alfândega, não sendo ob-
cenos, se despachem, e entreguem aos seus respectivos donos,
sem proceder censura ou licença” .
Devemos fazer explicação necessária: a exigência de cen­
sura aos livros e posterior ordem de liberação, não eram uma
discriminação contra o Brasil, mas sim existiam também em
Portugal e em outros paises.
A revolução de 24 de agôsto de 1820 em Portugal e con­
tinuada no Brasil, estava justamente suprimindo êsses usos
próprios do antigo regime. Notemos, pois, que a revolução li­
beral estava também continuando aqui no Brasil.

PENSÃO A JOSE' BONIFÁCIO


No dia 14 de maio, o Príncipe Regente assinou o seguin­
te decreto:
Tomando em consideração^ os bons serviços praticados
com muita inteligência pelo Dr. José Bonifácio de Andrada
e Silva, do Conselho de El-Rei Meu Senhor e Pai, nos empre­
gos que ocupou em Portugal de Intendente Geral das Minas e
Metais do Reino Superintendente do Rio Mondego e Obras
Publicas da Cidade de Coimbra: Hei por bem fazer-lhe merce
ü que justificar percebia pela
P^lão Portugal sendo-lhe paga a quartéis a título de
P sao pela Junta da Fazenda da Província de São Paulo •.
ni.A decreto, que o Príncipe R e g en te da
níío Bonifacio ocupou aquêles empregos em Portugal, do
que se deduz que os não estava ocupando mais. Mas, o decte-
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 277

to diz que José Bonifácio passaria a receber uma pensão men­


sal que sena a metade do que êle percebia em Portugal, do
que se deduz tambem que não mais estava recebendo os ditos
ordenados.
T- ^ decreto, José Bonifácio era do Conselho de D.
Joao VI. Isto e mportente, pois devemos deixar claro que des-
de antfâ de D Joao VI partir, jâ havia algo que ligava o velho
® ® ligação continuaria agora, com
D. Pedro. Tena D . Joao VI deixado alguma recomendação es­
pecial a D. Pedro, relativamente a José Bonifácio? Cremos
que sim, pois José Bonifácio era do Conselho de D. João VI.

PRECES PELO REI E PELO REGENTE

Naquela atitude de fiel e leal vassalagem dos paulistas à


Monarquia Portuguêsa, destacavam-se as solenidades e missas
que tradicionalmente a sua nobreza realizava por ocasião de
qualquer acontecimento importante relacionado com a Casa
Real, tais como o nascimento e aniversário dos príncipes her­
deiros, doenças etc.
Ora, partindo D. João VI para Lisboa, registrou o Senado
da Câmara Municipal de São Paulo, (*) no dia 18 de maio:
“ Aos dezoito de maio de mil oitocentos e vinte e um nes­
ta cidade de São Paulo e casas da Câmara paços do Concelho
dela onde foram vindos o doutor juiz de fóra presidente Nico­
lau de Siqueira Queiroz, vereadores, e procurador atual, e da­
qui sairam tôdas as tardes antecedentes, cobertos com o real
estandarte, desde o dia catorze até hoje para irem assistir às
preces que nela fazia o excelentíssimo Bispo pela feliz viagem
de El-Rei Nosso Senhor, e Sua Real Família para a Côrte de
Lisboa..
Durante cinco dias, foram realizadas, pois, preces pela fe­
liz viagem de D. João VI para Lisboa. No dia seguinte, o mes­
mo Senado da Câmara de São Paulo registrou:

(♦) 0 Senado da Câmara Municipal era a mesma e antiga Câmara Mu­


nicipal. A tradicional Câmara Municipal de São Paulo compunha-se
de um juiz ordinário, um procurador e três vereadores, todos eleitos
pelo povo. Quando essa corporação foi elevada a Senado da Câmara
Municipal de São Paulo, a organização continuou a mesma, com exceção
do juiz ordinário que foi substituido pelo juiz de fora, nomeado pelo
Kei, e que se tomava presidente do mesmo Senado. - 0 mesmo deve
ser subentendido com relação ao Senado da Câmara do Rio de Janeiro,
de Recife, ou qualquer outra cidade ou vila do Brasil.
278 T. L. FEKBEIBA — M. B. FEEBEIRA

-A os dezenove de maio de mil oitocentos e vinte e um nes-


ta cidade de São Paulo e casas da Camara paços do Concelho
dela onde se achavam juntos os vereadores procurador com
a presidência do doutor juiz de fora Nicolau de Siqueira Quei.
roz de onde sairam incorporados cobertos com o real estan­
darte para irem à Sé Catedral assistirem ao Te Deum que na
mesma cantou o excelentíssimo Bispo, em ação de graças ao
Todo Poderoso por se achar regendo êste Reino do Brasil o
senhor Príncipe Dom Pedro de A lcântara... .
Observe-se nêste documento, que o Senado da C ^ara Mu­
nicipal de São Paulo escreve “ êste Reino do Brasü”.
Da mesma maneira que de 1548 até 1815 todos os documen­
tos dizem “ Estado do Brasil” , também todos os documentos
posteriores a 1815, dizem “ Reino do Brasil’*.

ELEIÇÃO DOS DEPUTADOS DO RIO

No dia 20 de maio, foi realizada, na cidade do Rio de Janei­


ro, a eleição dos deputados dessa Província às Côrtes de Lis­
boa. (♦)
A eleição era realizada segundo o Código Eleitoral da
Constituição Espanhola, e consistia num processo complica­
díssimo, em quatro gráus: o povo de cada distrito eleitoral ele­
gia um corpo de eleitores denominados “ Compromissários”,
que por sua vez elegiam outro corpo denominados “ Eleitores
de Paróquia , ao qual cabia eleger os deputados.
A Junta Eleitoral da Província do Rio de Janeiro era com­
posta, entre outros dos seguintes: Bacharel Luiz Nicolau Fa-
gundes Varela, Padre Januário da Cunha Barbosa e Domin-
senais Reais do Exército. escriturário da Contadoria dos Ar­

deputados às Côrtes: Luiz Nicolau Fa-


Soares de Lemos Brandão, D. Francisco
sé Joaauim u residente nessa cidade), D. J®"
residente^m T iS “ Coutinho (Bispo Inquisidor
te em LísIm Í' d ® Bacharel Luiz Martins Basto (residen-
tódio Gonçalves L ^ n ®wplfntes foram eleitos: B a c h a r e l Cus-
cisco Vilela /r®?>dente no Pôrto) e Bacharel FVan-
çalves Lêdo frm- j (í®“ dente em Lisboa). Custódio Gon­
go no comêci T R ® Gonçalves Lêdo, substituiu lo*
g o começo, o Bispo Azeredo Coutinho, pela morte dêste-

valentes: CòHes indistintam ente as duas expressões M ®'


V.OTOS de Lisboa ou Congresso N acional.
r
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 279

Joaquim Gonçalves Lêdo não pôde ser eleito por ser funcioná­
rio público, daí ter sido eleito seu irmão Custódio, Joaquim
Gonçalves Lêdo era maçon “ Vermelho” , republicano.
Nessas eleições, eram eleitos os membros da Maçonaria,
pois êstes manipulavam a opinião pública. O povo era, no
fundo, realista, isto é, profundamente monarquista. Mas os
absolutistas tradicionais, não estavam organizados para con­
quistar os votos populares. Era a Maçonaria “ Vermelha” e
“ Azul” que os conquistava, para os seus elementos.
Aliás, da Revolução Francêsa disse o historiador Pierre Ga­
xotte que naquele período da França, também os revolucioná­
rios, isto é, os líderes da Maçonaria, sempre em minoria, ga­
nhavam as eleições. Era a arte
“ . . . que os franco-maçons chamam a arte real: a manipu­
lação da opinião, das eleições e dos escrutínios” . (Pierre Gaxot­
te, “ A Revolução Francesa” , Pôrto, 1945, página 275).
Os eleitores de terceiro grau, denominados “ Eleitores de
Paróquia” ou “ Eleitores Paroquiais” , não perderam sua prer­
rogativa após a eleição dos deputados da Província do Rio de
Janeiro que iriam às Côrtes de Lisboa. Continuaram por conta
própria, e com o apoio do Senado da Câmara Municipal do
Rio de Janeiro, a constituir um corpo de eleitores, para falar
em nome do povo. Era uma condição ilegal, irregular, mas
mantida pelos políticos das “ lojas” maçônicas.
Êsses eleitores de Paróquia nos movimentos que se seguem,
falam em nome do povo, e assinam documentos em nome do
povo. Dois representantes do regimento de primeira linha e dois
do regimento de segimda linha, falam em nome da Tropa.
São êsses, pois, o Povo e Tropa que aparecem nos documen­
tos, manejados pelos políticos das “ lojas” maçônicas, princi­
palmente os “ Vermelhos” , republicanos.

A EXPROPRIAÇÃO DA PROPRIEDADE

Ao lado daqueles tradicionais e profundos sentimentos mo­


nárquicos, iam surgindo as novas idéias e teorias liberais. E’
facil adivinhar o impacto que essas novas idéias criavam na
sociedade tradicionalmente estabelecida. E* o caso, por exem­
plo, do decreto do Príncipe Regente D. Pedro, assinado no dia
21 de maio de 1821, relativo à expropriação da propriedade.
Repare-se nos termos do decreto, inteiramente baseado nas
novas idéias liberais:
280 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA
“ Sendo uma das principais bases do Pacto Social entre os
homens a segurança dos seus bens; e Constando-Me que com
horrenda infração do Sagrado Direito da Propriedade se come­
tem os atentados de tomar-se, a pretexto de necessidades do
Estado, e Real Fazenda, efeitos de Particulares contra a von­
tade dêstes, e muiftas vêzes para se locupletarem aquêles, que
os mandam violentamente tomar; e levando sua atrocidade a
ponto de negar-se qualquer título para poder requerer a de­
vida indenização: Determino que da data dêste em diante; a
ninguém possa tomar-se contra sua vontade cousa alguma, de
que fôr possuidor, ou proprietário; sejam quaisquer que forem
as necessidades do Estado, sem que primeiro de comum acôr­
do se ajuste o preço, que lhe deve por a Real Fazenda ser pa­
go no momento da entrega... ** etc.
Assinale-se nesse decreto, o seu início, quando se refere
ao Pacto Social, a idéia em tomo da qual giraram tôdas £s
teorias políticas desde Hobbes a Rousseau. E invocando o di­
reito de propriedade, baseado no contrato social, o decreto im­
plicitamente está se referindo a John Locke, o ideólogo da Re­
volução Inglêsa de 1688. Devemos também registrar que nas
“ Bases da Constituição” decretada pelas Côrtes de Lisboa no
dia 10 de março de 1821, o artigo 7.“ tratava exatamente dês­
se assunto. Mas, no dia 21 de maio, quando D. Pedro assinou
aquêle decreto, as Basest da/ Constituição ainda não haviam
chegado ao Brasil.

A GARANTIA DA LIBERDADE INDIVIDUAL


No dia 23 de maio de 1821, D. Pedro assinou mais um de­
creto importante, sôbre a garantia da liberdade individual, pois
nao obstante constasse das Bases da Constituição das Côrtes,
chegado ao Brasil, sendo aqui desco­
nhecidas, nesse dia 23 de maio.
Esse d ire to é interessante, pois iniciahnente D. Pedro re­
fere-se a Constituição da Monarquia Portuguêsa, que se coii'
^bstanciava na Ordenação do Reino. Essa é a Constituição
"íl"® confundida com as Bases da
S r jo pelas Côrtes de Lisboa no dia 10

Ob^rv^se, pois, que inicialmente o decreto infonna q“®


no ^ t i g o Regime, não havia garantias individuais, razão a»
providencias. O decreto assim começa:
Vendo que nem a Constituição da Monarquia Portugu®"
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 281

em suas disposições expressas na Ordenação do Reino, nem


mesmo a Lei da Reformação da Justiça em 1582, com todos os
outros Alvarás, Cartas Régias, e Decretos de Meus Augustos
Avós têm podido afirmar de um modo inalterável, como é de
Direito Natural, a segurança das pessoas; e Constando-Me que
alguns Governadores, Juizes Criminais e Magistrados, violan--
do o Sagrado Deposito da Jurisdição que se lhes confiou, man­
dam prender por mero arbítrio, e antes de culpa formada, pre­
textando denúncias em segrêdo, suspeitas veementes, e outros
motivos horrorosos à humanidade para impunemente conservar*
em masmorras, vergados com o pêso de ferros, homens que
se congregaram convidados por os bens, que lhes oferecêra a.
Instituição das Sociedades Civis, o primeiro dos quais é sem
dúvida a segurança individual; E sendo do Meu primeiro deverj,
e desempenho de Minha palavra o promover o mais austero res­
peito à Lei, e antecipar quanto ser possa os benefícios de uma
Constituição liberal: Hei por b e m . . . ” Etc.
Em seguida vêm as providências tomadas: ninguém pode­
ria ser prêso sem ordem por escrito do juiz etc.
Finalmente, vinham as disposições sôbre o encarceramento
dos réus:
“ Ordeno em quarto lugar que, em caso nenhum possa al­
guém ser lançado em segrêdo, ou masmorra estreita, escura, oü
infecta, pois que a prisão deve só servir para guardar as pes­
soas, e nunca para as adoecer e flagelar; ficandc^ implicita­
mente abolido para sempre o uso de correntes, algemas, gri­
lhões, e outros quaisquer ferros inventados para martirizar
homens ainda não julgados a sofrer qualquer pena aflitiva por
sentença final... ” etc.
Êsse decreto revela não só um dos sinais da passagem do
regime monárquico tradicional — o Antigo Regime — para o
liberalismo, mas também uma certa confusão do momento, pois
o assunto deveria ser objeto das Côrtes de Lisboa. No entan­
to, sôbre êle estava deliberando o Príncipe Regente, com os
seus assessores membros da Maçonaria, e portanto altamente
entendidos em questões de liberalismo, direito natural, con­
trato social, etc.
Devemos, pois, compreender êsse momento como consti­
tuindo imia Revolução, uma fase crítica, uma legitima crise.
Dêsse caos autêntico em que repentinamente caíra a Nação
Portuguêsa, os homens estavam procurando um pôrto seguro,
tanto em Portugal como no Brasil. Se cada um dos dois Rei­
nos tateava, dando os primeiros passos no árduo caminho do
282 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

liberalismo, que dizer então, do mútuo entendimento que am­


bos deveriam manter nesse momento, para conservar unida e
dirigir a Nação Portuguêsa!

Junho de 1821
OS primeiros dias de junho de 1821, chegaram ao Rio
N guêsa,
de Janeiro, as Bases da Constituição da Nação Portu­
aprovadas pelas Côrtes de Lisboa no dia 10 de
março de 1821.
Logo tratou o Senado da Câmara Municipal da cidade do
Hio de Janeiro, de fazer D, Pedro jurar aquelas Bases da Cons­
tituição. Por isso, no dia 5 de junho de 1821, o presidente do
Senado da Câmara Municipal, José Clemente Pereira, e de­
mais vereadores, os Eleitores de Paróquia da Província do Rio
de. Janeiro, (1) oficiais dos Regimentos da 1 .» e 2.» linha, todos
2-eumdos,
“ .. . foi representado a Sua Alteza Real o Senhor D. Pe­
dro de Alcântara, Príncipe Regente dêste Reino do Brasil, que
desejam, por lhes parecer interessante ao bem público, que o
niesmo Senhor Jure, e Mande Jurar as Bases da Constituição
Portuguêsa, da mesma forma, que já foram juradas no Reino
de Portugal” . *'
^ E continua a ata da sessão dizendo que aquelas corpora-
çoes reunidas m
desejam mais, que o mesmo Senhor Haja por bem
ícolh T d^ sT n ^ rtôdl^ T s^ ^ ^ ^ de nove Deputadc«.
rios dí^ f Classes, perante a qual os Secreta-
« s p o ta b S ^ ^ Alteza Rell, verifiquem a
Instruções de 22 de Abrn ® artigos do Decreto, e
cretada pelo artigo 31 Hac ®
sendo esta Junta responsáteflm Lf^ Portuguêsa,
boa, pela sua conduta ativa p nn •^ ^^ente as Côrtes de Lis-
Provisórias que a necessidaHf» ^ ® o projeto de Leis
seja remetido para o seu exame obrigar a fazer,
^ a Lei por Sua ^ i e z a l e a r ! ‘ ( 2f

U u ta d o^ de Paróquia que Já haviam elegido os

Sua Majestade, a D. Joâo^VL^^^*^ corresponde a D. Pedro, e o de


A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 283

Ressaltemos pois, o aspecto revolucionário dêsse ato. D.


Pedro já não governaria mais sozinho com seu conselho de
ministros nomeados por D. João VI antes de partir. Naquele
dia 5 de junho, o Senado da Câmara do Rio de Janeiro, mais
povo e tropa, impôs ao Príncii^ Regente, uma Junta composta
de nove pessoas, que fiscalizaria os seus atos, isto é, verificaria
se êle estava cumprindo as ordens das Côrtes, e se não esta­
ria exorbitando das suas funções, decretando medidas que
seriam unicamente da competência das Côrtes de Lisboa. Essa
Junta, notemos, seria organizada com nove pessoas, escolhidas
“ dentre tôdas as classes” sociais.
Mas, façamos a seguinte observação: D. João VI deixara
D. Pedro no Brasil, sem consultar as Côrtes de Lisboa. E as
Côrtes, eram dominadas por uma minoria ultra-revolucioná­
ria, da Maçonaria “ Vermelha” de Portugal, que transformou
D. João VI em seu prisioneiro, logo à sua chegada a Lisboa.
No Brasil, ficaria D. Pedro submetido a D. João VI ou às Côr­
tes? Não há dúvida que as Côrtes e D. João VI constituiam o
govêrno da Nação Portuguêsa. Mas na realidade, eram as Côr­
tes de Lisboa o único govêrno, sendo D. João VI práticamente
66U prisioneiro. No Brasil, o jovem e inexperiente Príncipe
Regente teria compreendido tudo isso? De nenhuma maneira.
Daí pois, ser necessário que alguém no Brasil submetesse o
Príncipe às Côrtes. Êsse alguém foi o Senado da Câmara
Municipal do Rio de Janeiro. Não obstante os membros da
Câmara Municipal — vereadores e procurador — fôssem eleitos
pelo povo, a categoria de Senado a que a Câmara pertencia, fa­
zia com que o seu presidente fôsse o Juiz-de-fora da cidade do
Rio de Janeiro. Ora, êsse Juiz-de-fora era, no momento, José
Clemente Pereira, que viera de Portugal em 1816.
José Clemente Pereira fazia parte da Maçonaria “ Verme­
lha” do Rio de Janeiro, juntamente com Joaquim Gonçalves
Lêdo, Cônego Januário da Cunha Barbosa e outros. A Ma­
çonaria “ Vermelha” do Brasil, era filiada ao Grande Oriente
Lusitano, de Lisboa, conforme veremos ainda neste trabalho.
Portanto, o Senado da Câmara do Rio de Janeiro, por inter­
médio do seu presidente José Clemente Pereira, estava nas mãos
da Maçonaria “ Vermelha” do Rio de Janeiro, ou mais propria­
mente, do Grande Oriente Lusitano, de Lisboa.
Foi pois, com êsse Senado da Câmara Municipal do Rio
de Janeiro, que o Grande Oriente Lusitano pela sua Maçona­
ria “ Vermelha” do Rio de Janeiro, desencadeou a Revolução
de 26 de fevereiro de 1821, obrigando D. João VI a jurar a
Constituição que as Côrtes de Lisboa estavam fazendo.
A

T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA
284
E agora, no dia 5 de junho, era âsse mesmo Senado, que
obrigava D. Pedro a jurar as Bases da Constituição, e aceitar
uma Junta Provisional para fiscalizar-lhe os atos.
Não há dúvida: era o Senado da Câmara Municipal do
Rio de Janeiro, o instrumento das Côrtes de Lisboa, principal­
mente para fiscalizar e sujeitar o Príncipe Regente.
Durante aquêle ato de 5 de junho, D. Pedro, logo após ju­
rar as Bases da Constituição da Nação Portuguêsa, assinou de­
creto criando a Junta de nove deputados, sendo que a palavra
“ deputados” significava na época, representantes do povo.
Eram deputados do povo, isto é, de “ tôdas as classes” , à Jun­
ta Provisional.
Em seguida, realizou-se a eleição dêsses deputados da Jun­
ta, eleição essa presidida por José Clemente Pereira, tendo vo­
tado os Eleitores de Comarca da Província do Rio de Janeiro
e os oficiais da tropa, sendo êstes, dois do Regimento de 1.‘
linha, e dois do de 2.* linha.
Vejamos bem, o significado de “ Povo e Tropa” , que come­
ça a aparecer freqüentemente, em atos públicos como êsse. Por
“ povo” , subentende-se algumas pessoas que o representam, nes­
te caso, os Eleitores de Comarca, também chamados Eleitores
de Província, que resultaram daquele complicado processo
eleitoral extraído da Constituiçãoi Espanhola, para eleger os
deputados das províncias do Brasil, às Côrtes de Lisboa. Em­
bora sua função fôsse sòmente essa, êles continuavam sendo
convocados para representar o povo. Por “ tropa” , subenten-
u oficiais dos regimentos de primeira e segunda li­
nha. No caso presente, tratava-se, como vimos, de dois oficiais
dos ^gimentos de primeira linha, e dois dos de segunda linha.
ortanto, aquela expressão que será muito comum dora­
vante, Povo e Tropa” , deve ser subentendida nos seus exa­
tos termos.
Cabe registrar pois, que com a queda da monarquia abso­
lutista no dia 26 de fevereiro de 1821, não foi sòmente o “ po*
vo que TOmeçou a fazer exigências revolucionárias, mas tam-
chefes mülitares, que ou eram
fihados a Maçonaria ou eram instrumento da mesma.
Registrar o caráter revolucionário do mo*
aueda do nunca fizeram política, com »
lado L «oovn ^ passaram a fazer exigências poHticas ao
rt *• ^aracteriza bem a Revolução, e serve pa'
teriormente males de que sofreria o Brasil poS'
Mas, continuemos.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 285

Kealizada a eleição pelos Eleitores da Província do Kio


de Janeiro e pelos quatro oficiais das tropas, sairam eleitos pa­
ra a Junta Provisional: Mariano José Pereira da Fonseca, o
Bispo Capelao-Mor Jose de Oliveira Barbosa, José Ferreira de
Aguiar, Joaquim de Oliveira Alvares, Joaquim José Pereira
de Faro, Sebastiao Luis Tmôco, Francisco José Fernandes
Barbosa, Manoel Pedro Torres. Levado o resultado a D. Pe­
dro, imediatamente, no mesmo dia 5 de junho, êle assina de­
creto aprovando a Junta, e no qual diz:
“ Hei por bem Aprovar os deputados dela (Junta), que
me foram propostos pelo Povo e Tropa desta Cidade.. ”
Como vemos, a Maçonaria “ Vermelha*’ do Rio de janeiro,
estava dominando. Quando reagiria a Maçonaria “ Azul” ’
Mas, façamos um confronto entre o Senado da Câmara Mu­
nicipal^ do Rio de Janeiro dominado pela Maçonaria “ Ver­
melha” , revolucionária, ousada, agressiva, e o Senado da
C ^ a ra Municipal de São Paulo, profundamente tra­
dicionalista, ao lado do Rei, fazendo preces pela feliz viagem
de D. João VI, e rezando Te-Deums pela felicidade da regên­
cia de D. Pedro.
Assim, enquanto òs realistas tradicionais (nobrêzas locais)
e os maçons “ Azuis” estão inativos, os “ Vermelhos” estão ati­
víssimos. Para êstes, a Revolução ainda mal começou.

OBRIGATORIEDADE DO JURAMENTO
Tendo D. Pedro jurado as Bases da Constituição no dia 5
de junho de 1821, no dia 7 o Ministro do Reino, Pedro Alvares
Diniz, assina decisão mandando que o Senado da Câmara Mu­
nicipal do Rio de Janeiro ficasse em sessão permanente a fim
de que as autoridades eclesiásticas, civis e militares, e funcio­
nários públicos fôssem jurar as Bases da Constituição.
O juramento das Bases da Constituição significava como
0 cidadão repudiava o regime absolutista recem-caido,. e^ las­
sava a apoiar o regime constitucional. Êste pormenor e im­
portante, pois mostra como se estava em plena Revolução,
passando de um regime a outro. Os homens eram obrigados
a substituir os seus anteriores juramentos de fidelidade e ^al-
dade ao Rei e à Monarquia, por um juramento de fideüdade e
lealdade à Constituição, feita pelos representantes do povo.
No dia 8 de junho. D. Pedro assina decreto ordenando que
em tôdas as Províncias do Reino do Brasil se]am juradw as
Bases da Constituição, a exemplo do ato íeito por ele mesmo
no dia 5 de junho de 1821.
286 T. L.. FERREIRA — M. R. FERREIRA

D. PEDRO NARRA OS ACONTECIMENTOS

No dia 8 de junho de 1821 D. Pedro havia mandado fôssem


juradas em todo o Brasil as Bases da Constituição. Nesse mes­
mo dia êle escreve uma carta a seu pai D. João VI. E nessa
missiva, o Príncipe Regente narra os acontecimentos, a pressão
a que fôra submetido para fazer o juramento, ocorrido no dia
5, conforme já vimos.
Não transcreveremos a carta tôda, por ser longa. Apenas
assinalamos, os trechos principais.
Escreveu D. Pedro:
“ . . . eu ia caminhando, como se prova dos papéis todos fei­
tos, para antecipar os bens da Constituição, muito mais tendo
dito às Côrtes que as Bases não regeriam no Brasil sem pelos
seus deputados ser expressa a sua vontade... ”
Nêsse trecho disse pois D. Pedro, que êle já estava cami­
nhando no sentido de proporcionar medidas liberais, mas que,
quanto às Bases da Constituição, êle havia resolvido não to­
mar conhecimento enquanto os deputados do Brasil não assi­
nassem aquêle documento.
Mas naquele mês de junho, ainda nem ao menos um de­
putado do Brasil chegara às Côrtes, e aliás, só chegariam os
primeiros no fim de agôsto.
Portanto, D. Pedro não queria tomar conhecimento das
Bases da Constituição, e se o fizera, fôra por imposição da
Maçonaria, atuante no Senado da Câmara Municipal do Rio
de Janeiro e nos comandantes dos regimentos de primeira e
segunda linha.
Por isso, escreve D. Pedro:
“ . . . alguns oficiais do Batalhão n.® 3, que se tem portado
mui mal, assentando que a Constituição é e deve ser procla­
mada à fôrça armada ( 1 ), a ponto de peitarem os soldados
para fazerem jurar as Bases Constitucionais Portuguêsas, ou
por bem ou por mal. . . ”
Êsse fato, aconteceu antes de D. Pedro jurar as Bases no
dia 5. Depois informa como oito dias antes de jurar, já estaya
sabendo do movimento, e dizendo que interrogando o ofici^^
João Crisóstomo sôbre êsse assunto, êste dissera “ que era in­
triga” .

( 1 ) Entre parênteses, D. Pedro dá o nome dos oficiais; “ êstes são


Crisóstomo, Peixoto, o capitão Sá, o Garcez, e o José Maria do n® ^
r
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA pRASILEIRA 287

E continua D. Pedro:
“ No dia 4 fui à caça à Santa Cruz, e, já suspeitando que a
Divisão Auxiliadora me queria fazer um requerimento para
eu consentir que se ajuntassem para jurarem as Bases, vim;
e no outro dia, às 5 horas da madrugada, montei a cavalo, e fui
ao Batalhão n.® 3, para ver se êles me pediam alguma cousa
sôbre isto” .
Reparemos como tudo agora se está passando no dia 5 de
junho. Depois de relatar as conversas com os oficiais, D. Pedro
íoi para o Rocio. E continua D. Pedro a descrever a cêna da
chegada dos oficiais mandados chamar por êle, e da conversa
com êies mantida.
No trecho da carta, copiado em seguida, simplesmente va­
mos dispôr os parágrafos em linhas separadas, para melhor
mostrar o diálogo de D. Pedro com os oficiais. Manteremos o
texto integralmente fiel ao original.
Assim, pois, descreveu D. Pedro a conversação com os
oficiais:
“ ... Vieram todos os oficiais com o general (1) à testa,
e eu lhes perguntei:
— Quem é que fala aqui?
A isto ficaram um tanto sobressaltados, e eu repeti:
— Quem fala?
Disse o general;
— Eu pela tropa.
— Que querem?
Disse êle:
— Jurarmos as Bases Constitucionais Portuguêsas.
Respondi:
— Não tenho duvida; mas só o que sinto é que hajam ho­
mens que assentem que eu não tenho palavra, tanto política
como religiosa; tenho eu jurado in totum, tanto por minha
vontade, a Constituição, tal qual as Côrtes fizeram (2). mas
a mim não me fica mal, mas sim a quem duvida da palavra
de um Príncipe, comprometida por um juramento, cousa para
mim tão sagrada — eu vou já, vamos todos.
Fui para a sala do teatro (3), e dizendo-me o Peixoto (4)

(1) Trata-se do general Jorge Avilez, comandante da Divisão Au­


xiliadora, vinda de Portugal. ^
(2) D. Pedro está se referindo ao juramento que ele fizera com
D. João VI, no dia 26 de fevereiro. „ . • i j
(3) Sala do Teatro era onde o Senado da Gamara Municipal do
Rio de Janeiro, fazia solenidades públicas.
(4) Peixoto era um dos oficiais da tropa.
288 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

que era preciso que todos jurassem as Bases, eu lhe respondi:


— Eu não juro sem saber a vontade do povo que estou
governando, porque a tropa é uma parte da Nação; por isso
não vale de nada querer sem saber a vontade do povo para
então deliberar. Para a saber mandei convocar os Eleitores
de Província (5). não como eleitores, porque já elegeram
os deputados, mas como homens que se sabia que tinham a
confiança pública: êles assistiram (concordaram), o que eu
estimei muito.
Depois apareceu o padre José Narciso, ( 6) que foi ca­
pelão do conde de Vila Flôr, interpretando a vontade do po­
vo e tropa, eu lhe disse que convocasse dois oficiais de cada
corpo para que de comum acôrdo com os ex-Eleitores de Pro­
víncia assentassem na forma porque haviam de fazer a Junta
Provisória que êles pretendiam; mas deixaram-me cria-la, e
eu mandei tudo, sempre deitando-me de fora” .
Êsse, o relato de D. Pedro, enviado a D. João VI, sôbre os
acontecimentos do dia 5 de junho. O Príncipe Regente diz
pois, que a Divisão Auxiliadora do General Jorge Avilez amo­
tinara-se a fim de o obrigar a jurar as Bases da Constituição.
Como verificamos, os oficiais começaram dizendo que êles de­
sejavam jurar as Bases da Constituição, pretêxto para obrigar
D. Pedro a fazer também o juramento. Não deixa de ser digno
de nota o trecho final em que D. Pedro informa que a Divisão
de Avilez exigira a criação da Junta Provisional para fisca­
lizar os seus decretos e que assim o fizera
“ . . . com o pretêxto de eu ter legislado, quando eu o que
tenho feito é o haver adiantado os bens constitucionais, aviven­
tando leis adormecidas e cousas que a Constituição tão cedo
não podia obviar... ”
Realmente, como já tivemos ocasião de observar, D. Pe­
dro estava exorbitando, atribuindo-se funções de legislador,
quando estas pertenciam às Côrtes. Entretanto, não cabia à
tropa, ou mais própriamente, à Divisão Auxiliadora do Gene­
r a Avilez, tomar providências, mas sim, às próprias Côrtes.
qu? a Dmsão Auxiliadora de Avilez estava nas mãos da Ma­
çonaria Vernielha , através de José Clemente Pereira. Vere­
mos essa sociedade secreta, após o “ FICO” , em 9 de janeiro de

nno e não de Província. Eram os eleitores


que haviam eleito os deputados da Província do Rio de Janeiro às Côrtes.
tico a^tWo!^” ® Narciso era elemento da maçonaria, e poli*

\
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 289

1822, envolver a mesma Divisão e o mesmo Avilez, numa au­


têntica revolução.
A P ^ r o , que já vimos, é, bem analisada, a
confissão d.e um príncipe^ humilhado que deseja/ demonstrar
ter sido sagaz e ter dominado os acontecimentos. Êle disse
claramente que conduziu a assembléia, mas detrás dos basti­
dores: “ eu mandei tudo, sempre deitando-me de fora” . Nêste
dia 5 de junho de 1821, já podemos verificar que a Maçonaria
“ Vermelha” do Rio de Janeiro — e sem dúvida alguma a de
Portugal estavam temendo que D. Pedro adquirisse muita
fôrça e, aliando-se aos absolutistas, e, com tôda a certeza à
Maçonaria A^ul” , se rebelasse contra as Côrtes, para prova­
velmente se dirigir a Portugal com tropa expedicionária a fim
de dissolver as Côrtes, e restabelecer o Antigo Regime, com
D. João VI.
Insistimos nêste ponto: o absolutismo caíra no dia 24 de
agôsto de 1820, por isso, as fôrças revolucionárias ainda não
estavam seguras das suas conquistas. Haveria perigo de uma
contra-revolução e esta, poderia partir do Brasil, com D. Pe­
dro à frente. Não nos esqueçamos de que os sentimentos do
povo do Brasil eram profundamente monárquicos, no sentido
tradicionalista.
No Brasil, D. Pedro constituia séria ameaça às Côrtes, ou
seja, à Revolução que ainda estava caminhándo.

A PROCLAMAÇÃO DA
JUNTA PROVISIONAL
Como vimos, fôra eleita no dia 5 de junho de 1821, uma
Junta Provisional, para examinar prèviamente os decretos a
serem assinados por D. Pedro e propostos pelo seu Conselho
de Ministros. Essa Junta, evidentemente, deveria trabalhar
em silêncio. No entanto, onze dias após, lança manifesto ao
povo. Aliás, o momento revolucionário era propício a mam-
festos, proclamações etc.
Não há dúvida que não cabia bem à Junta Provi­
sional dirigir manifesto ao povo, mas isso era próprio da
técnica das fôrças maçônicas, principahnente em aproveitar
qualquer oportunidade ao chamar a atenção popular para os
novos tempos, o novo regime. .j
Nessa proclamação do dia 16 de jimho de 1821, dingida
ao povo e à tropa, dizia a Junta Provisional.
no sagrado empenho de c o o p e r a r eficazmente para
a união íritima e indissolúvel dos Reinos de Portugal e Brasil,
290 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

e mais Domínios da Monarquia Portuguêsa, convencida plena,


mente de que qualquer desmembração do vasto Império Lusi-
tano seria tão funesta à parte dissidente, como dolorosa ao to.
do Nacional: Ela se persuade que a Constituição Política, que
se está organizando na muito nobre e leal Cidade de Lisboa,
obra da Sabedoria coletiva da Nação será o Palácio e o Ba-
luarte inexpugnável da honra, das vidas, e fazenda de todos
os Portuguêses... ” etc.
Nesse trecho do documento, por “ Nação” deve-se subenten­
der Nação Portuguêsa, sendo a palavra “ nacional” , relativa
à mesma. Nos documentos, nem sempre se diz de maneira
completa “ Nação Portuguêsa” , sendo freqüenté o emprêgo de
“ Nação” , simplesmente. Não nos esqueçamos de que o Reino
do Brasil era parte integrante da Nação Portuguêsa. E a de­
nominação “ portuguêses” que também aparece no doci^ento,
abrange os portuguêses nascidos em Portugal e os nascidos no
Brasil. Todos eram portuguêses.

REVOLUÇÃO, LITERATURA E HISTÓRIA

O periódico “ Gazeta do Rio de Janeiro” , o jornal oficial da


época, em sua edição do dia 23 de junho de 1821, traz um ar­
tigo com a linguagem revolucionária do momento, exaltando a
Ka«zão e a Constituição. Como não podia deixar de ser, «az
luna referência à história do Brasil. Vamos transcrever um
trecho dêsse artigo:
“ No espaço de seis mêses o espírito Constitucional,
vado como sôbre as asas dos ventos, foi eletrizar os Coraçoes
Portuguêses do novo Continente: a Razão falou a sua lingua­
gem. e o desejo inato da felicidade escutou a sua voz.
E’ pela segunda vez que a Europa faz a conquis
da América! Mas que diferença de conquista! Hoje em vez
sangue, correram lágrimas de prazer: conquistaram-se Co^
ções e não Territórios. E longe de se escravizarem Povos la­
vres, restitui-se a liberdade legal a Povos Oprimidos!”
£sse trecho é curioso e merece o comentário que farem
a seguir.
Inicialmente a liberdade sugerida não surgiu sòmente P®
ra o Brasil, mas para Portugal também, e significa a
do regime monárquico absolutista para o regime n tio n á r q u ^
constitucional e parlam entar, isto é, liberal. Observe-se, en
tanto, corno o articulista deu ao seu trabalho literário
do histórico profundamente deturpado: a Europa
conquistara e oprimira, escravizara o Brasil e o seu povo.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 291

. .Q só seria verdade relativamente aos indígenas. Mas, o ar-


íjgulista não se referia aos indios, dos quais ninguém se lem­
brava naquele momento.
0 próprio articulista, mesmo que não fôsse europeu, es­
tava imbuido de idéias européias, ligado a uma revolução eu­
ropéia iniciada no dia 24 de agôsto de 1820 em Portugal, e
continuada no dia 26 de fevereiro de 1821 no Brasil.
Simplesmente comentamos êsse trecho de artigo, para mos­
trar como, num momento de exacerbação dos espíritos, de
naixão política revolucionária, começava-se a misturar todos
êsses sentimentos, com a história. Estava nascendo, dessa ma­
neira, uma forma de julgar o passado. E isso não é história,
pois história é ciência.
Mas essa maneira de considerar o passado de trezentos
anos do Brasil, continuaria durante todo o desenrolar do pro­
cesso revolucionário, e iria determinar a maneira de se escre­
ver a história do Brasil. Nêsse período revolucionário nasce
uma maneira de vêr o passado; surge um julgamento do pas­
sado, e isso constituiria a história deturpada, falsa, falsificada^
bem conhecida hoje.
Entretanto, veja-se bem naquele trecho, claramente: a li­
berdade, isto é, o novo regime veio de Portugal para o Bra­
sil, com a Revolução cuja origem estava no 24 de agôsto de
1820.

NOVO GOVÊRNO EM SÃO PAULO


Com a queda do Antigo Regime, no dia 24 de agôsto de
1820, revolução essa que continua no Brasil levando as “ lojas”
maçônicas a obrigarem D. João VI a aceitar o sistema constitu­
cional, começaram as mudanças político-administrativas. Nes­
se caso, por exemplo, os governos das províncias do Brasil con­
tinuavam os mesmos do Antigo Regime. Ainda não se sabia
qual seria o modo de ser organizado o govêrno do Reino do
Brasil, quanto: mais das suas províncias! As Côrtes de Lis­
boa trabalhavam no sentido de elaborar uma Constituição de­
finitiva — as Bases já haviam sido sancionadas —, e legislavam
com 0 objetivo de substituir a antiga legislação, por outra li­
beral, de acôrdo com as novas idéias. Por isso, não havia tem­
po para dedicar-se à questão político-administrativa.
Aliás seria imia decorrência da própria Constituição de­
finitiva. Mas, as Côrtes deveriam ainda, esperar a chegada dos
deputados do Brasil, sem os quais não poderia deliberar sôbre a
organização do govêrno e administração do Reino do Brasil.
292, T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

Por sua vez, D. Pedro era simplesmente Príncipe Regentí


sem autoridade para fazer modificações na estrutura político
administrativa das províncias do Reino do Brasil. Veja-s€
pois, a dificuldade em pôr ordem, em organizar novamente sol
o sistema liberal a estrutura monárquico-absolutista até entã(
vigente. Essa estrutura do antigo regime, ainda permanecia
com sério perigo para a Revolução, pois os governos das pro­
víncias, vinham do tempo de D. João VI, e poderiam unir-se
em tôm o de D. Pedro, a fim de organizar uma contra-revo-
lução.
A nova ordem não estava, poiftanto, garantida. As fôrças
maçônicas sabiam disso, razão por que iniciaram nas provín­
cias do Reino do Brasil, movimentos visando a modificar os
governos locais. Essa operação surgia com os pretextos mais
simples, nada tendo a ver com a derrubada do govêrno pro­
vincial, mas evoluiam até derrubá-lo e substitui-lo por outro.
Em São Paulo, no mês de junho, foi iniciado por um sim­
ples descontentamento provocado entre os soldados da tropa.
Alegavam não receberem o sôldo com o aumento já autorizado.
Èsse simples descontentamento, provocado evidentemente P®"
Ias fôrças maçônicas, evoluiu até essas mesmas fôrças maçô-
mcas formarem novo govêmo.
Dêsses acontecimentos, escreveu um relato muito impor­
tante pelos detalhes, um dos membros do novo govêrno for­
mado, o cidadao Antonio Maria Quartim ( 1 ). A sua narrati­
va e uma autentica reportagem, em ótimo estilo jornalístico.
Nao vanios reproduzir na íntegra a narrativa de Antonio
Maria Quartim, por ser muito longa. Salientaremos os trecho«
principais, advertindo que o momento culminante do movi­
mento, foi o dia 23 de junho de 1821, quando José Bonifácio,
com a aprovação do povo, organizou o novo govêmo da Pro^
vincia de Sao Paulo. Lembremo-nos que a Revolução, visava
a transferir a soberania do Rei para a soberania do povo, atra­
vés dos deputedos, seus representantes. E na mudança da ad-
ministraçao de São Paulo, isso está bem caracterizado;
governo nomeado ao tempo de D. João VI, é substituido
voto do povo, reunido em praça pública.
Chamavamos a atenção do leitor para o fato de AntoDio
^Maria Quartim, dar ao regime caido diversas denominaço^*
sistema de despotismo” , “ tirania” , ferros de tão pesada ^
cravidao etc. Essa linguagem não era utilizada sòmente ^
——------— I

jiho^de publicado na “ GazeU do Rio de Janeiro»» de 24 àe

à —
A m a ç o n a r ia NA XNDEPen d è NCIa
Brasil, mas também em Portue ^SILEIra *9,

Ä “ » S r i’
-d^p otum o- - t i t « « , . , P « e i, a „ „ íiS a *;
monarquico-absolutista. existira em 0 regime
portOTto, mclusive no Brasil er^ti^a®^® Portuguêsa
mo Mana Quartim afirma que êsse ri *^'’ ®®rve-se; Antol
Portugal, no dia 24 de agôsto de I820 P^prio
lismo. ® surgindo pois o Ubera-
Iniciando sua narrativa <irv. * .
tcnio Maria Quartim, com sua An-
erultante, membro da Maçonaria: ® revolucionário
“ Os sagrados direitos do homem .u . .. l
no Reino de Portugal, os gloriosos e memoí^**'^ proclamados |
tos, que sem interrupção ali s e ^ u c S T S « im e n - \
OS
Ä «êles âqu ela°n t«“ e t l a -
çáo I«la honra, que sempre caracteriza; Z t l
Paulo, e lhes mspiraram um ardentíssimo desejo de 4 t ^ fâo
generosos rasgos de patriotismo, já dignamente correspon^-
dos em algumas Províncias do Brasil. Calcados desde seus
princípios por um inalterável sistema de despotismo, êles não
desconheciam seus direitos: cedendo porém ao duro império
das circunstâncias, sofriam com resignação a seus tiranos e
esperavam que a Providência lhes depararia, em algum tem­
po, favorável ocasião de quebrarem os ferros de tão pesada
escravidão. Logo às primeiras notícias da Regeneração de Por­
tugal, as idéias liberais se tornaram familiares entre tôdas as
classes de Cidadãos; e a organização e instalação de um Go­
vêrno Provisórioi composto de homens sábios, e ornados de
patriotismo, foi um voto geral. A opinião pública a favor des­
ta acisada medida, que só deveria prevalecer, e a única que
poderia ganhar ascendentes sôbre os espíritos para os pôr ao
abrigo de dissenções intestinas, tomou em breve tempo uma
íôrça insuperável. Os males provenientes de um sistema abu­
sivo (absolutista) tinham de tal sorte indisposto os ânimos, que
tôda a interposição da parte do Governador para consolidar a
confiança dos Povos, já abalada por anteriores comportamen­
tos, era inteiramente baldada” . ^
Esse trecho inicial é de grande importância Nele, Qum -
tim diz que a Regeneração Política da loon
se in icia l em Portugal, ou seja, no d a 24 de ^fo^to
Diz depois, que se estendeu ao Brasil, "„“ c õ S ç â o
jâ visto: obrigando D. João VI a jurar a
Urgia substituir os governos das provmcias, ainda do temp
294 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

do absolutismo, por governos populares, isto é, aclamados pelo


povo e pela tropa. Só assim, estariam as províncias do Reino
do Brasil, integradas no novo regime, isto é, o liberal, o cons*
titucional-parlamentar.
Quartim não fala nesse documento em “ jugo colonial”
“ sistema colonial” etc., mas sim, considerou o Brasil, “desde
os seus princípios por um inalterável sistema de despotismo”,
isto é, desde 1500, sob o regime absolutista.. Devemos lembrar
como em Portugal, nessa mesma época, empregava-se a mes­
ma linguagem contra o regime anterior, ou seja, que era des­
pótico, escravizador etc. E o sentido de liberdade, de libera­
lismo, foi igual em Portugal e no Brasil, a partir do dia 24 de
agôsto de 1820. A partir dêsse dia, havia a mesma Uberdade
tanto além como aquém Atlântico.
Portanto, atentemos bem: a liberdade no sentido de um
regime que se opõe ao absolutismo, nasceu em Portugal no dia
24 de agôsto de 1820, extendendo-se imediatamente ao Brasil.
Daí Quartirn, no seu relatório, não falar em “ regime colonial”,
jugo colonial , e quejandos. Mas sim, como se fazia era Por­
tugal, falava em “ regime absolutista” , “ antigo regime”, “ des­
potismo” etc.
Continua Quartim o seu relatório, dizendo que amotina­
dos os soldados,
. ..dois deputados da Junta da Fazenda, havidos por 3Xi‘
ticonstitucionais (isto é, absolutistas) foram designados como
primeiras vítimas. O coração ainda oscila de horror imagi'
nando os atentados, que poderia perpetrar uma Tropa indigna­
da, sem freio, pelas ruas de uma Cidade indefesa, que náo
devem sua salvação e tranquilidade, senão à coragem e patrio-
Capitão José Joaquim dos Santos, o qual es­
tando de Estado Maior, desempenhando denodadamente seus
vida, opondo-se aos desatinos dos solds*
a hna de persuação e promessas conseguiu estabeleí*’^
^ ® outTOs fatos acabaram de convencer aos
coS u i^ *® ^ ^ Governador, que só um Govêrno Provisório,
Doderia rocf vontade e eleição do Povo e Tropa,
ciente nára ronir®'' ® e reassumir uma fôrça suf|'
litar e ppra soldados nos limites da subordinação
dadãos” ” civismo em tôdas as classes de Ci-

Quartim estava do lado doS


soldados, isto e, contra o Governador da Província. .
d’ ° temos em vista nêste estudo, é isto: fflostr»
que a Revolução estava em marcha, no Brasil, e a MaçonaO®

\
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 295

“ Azul” e “ Vermelha derrubavam ou procuravam derrubar os


G o v e r n o s Provinciais do tempo de D. João VI (absolutismo),.
Q nomear governos liberais, isto é, saídos da Maçonaria,
Finalmente, é feita a revolução em São Paulo, com apoio
das tropas e^do povo, todos evidentemente dirigidos pelos ele­
mentos maçónicos, como aliás não podia deixar de ser. Conti­
nuemos o relato de Quartim, sôbre a revolução em São Paulo:
“ O sino tocava sempre a rebate, e cada vez se ajuntava,
mais povo. Reunidos os Corpos, uma Deputação (comissão)
de três Capitães foi mandada em nome do Povo e Tropa con­
vidar para Presidente da eleição (do novo Govêrno Provincial)
ao Conselheiro José Bonifácio de Andrada. Outra Deputação«
foi mandada ao Ouvidor e à Câmara para que se apresentassem
nos Paços do Concelho.
Apenas a primeira Deputação apareceu na Praça trazendo-
no meio ao Ilustre Sábio da Nação, conhecido em tôda a Eu­
ropa pelo nome de Monsieurá*Andrada, os ares retumbaram
com êste grito muitas vêzes repetido:
— Viva o Snr. Conselheiro.
Êle subiu à sala da Câmara, acompanhado de imenso Povo,
e disse:
— Senhores, eu sou muito sensível à honra que me fazeis
em eleger-me para Presidente da eleição do Govêrno Provisó­
rio, que pretendeis instalar. Pela felicidade de minha Pá­
tria ( 1) eu farei os mais custosos sacrifícios até derramar a-
última pinga do meu sangue.
A resposta foi um grito geral:
— Viva o Senhor Conselheiro.
E êle continuou:
— Esta eleição só pode ser feita por aclamação tmânime;
descei. Senhores, à Praça, e eu da janela vos proporei aquelas
pessoas, que por seus conhecimentos e opinião pública já por
vós manifestada me parecerem dignas de serem aceitas.
Alguns Cidadãos lhe disseram:
— Senhor Conselheiro; nós não queremos no Govêrno aquê­
les, que até agora têm sido nossos opressores. E queriam per­
sonalizar (apontar nomes) (2) mas êle José Bonifácio) os
atalhou, dizendo: _ , ^ ,
— Senhores, êste deve ser o dia da reuniao de todos os par-

(1) Pátria é ainda aqui utilizada no sentido tradicional, ou seja,


a cidade, a região, onde se nascia e vivia. Nota dos ,
(2) A pessoa visada era o governador Joao Carlos
que não era maçon nem “ Vermelho” nem “ Azul” . Era ele, absolutista.
— Nota dos AA.
295 T. L, FERREIRA — M. R. FERREIRA

tídos. da reconcUiação geral entre todos. Não nos lembremos


mais do passado; desapareçam ódios, inimizades, e paixoes: a
Pátria seia a nossa única mira. Completemos a obra da nossa
Regeneração com sossêgo e tranquilidade, imitando a honrada
e gloriosa conduta de nossos Irmãos de Portugal e BrasU.
Persuadido de que haveis pôsto em mim vossa con^ança, acei­
tei o vosso convite; e aqui estou pronto para dirigir-vos, e
para trabalhar pela Causa Pública. Se de fato confiais em mim,
estais resolvidos a portar-vos como homens de bem, então
«eu me encarrego de procurar a vossa felicidade expondo a mi­
nha própria vida; mas se outros são os vossos sentimentos; se
Yosso fito não se dirige sòmente ao bem da ordem; se preten-
»deis manchar a glória, que vos pode resultar dêste dia, e pr(>
jetais desatinos, então eu me retiro: ficai e fazei o que qui­
serdes.
— Não Senhor, — responderam todos a uma voz — nós
iemos tôda a confiança em V .S ., tôda e tôda.
— Pois bem — disse êle — descei à Praça e aprovareis
daqüôles que eu nomear os que mais vos merecerem.
O Povo se meteu no meio de um círculo formado pelas
Tropas. O estandarte da Câmara (Municipal) foi colocado
em uma janela, e na mesma se achava o Ouvidor, Juiz de
Fora e Vereadores. Em outra janela apareceu o Conselheiro,
e, depois de uma breve e eloqüente Fala ao Povo e Tropa, exor­
tando-os a que se portassem com honra, e em boa ordem, disse:
P^^s Presidente do Govêmo Provisório, o Ilustríssimo
João Carlos Augusto (d’Oe3mhausen) ( 1 ). que foi até
hoje General desta Província.
e aplaudido com vivas, e gritaram todos: —
fíc w CoLelheiro; e assim

continua o seu relatório, dando os nomes dos


v eren drÁ íoiÍÍr»? <3? «ovêrno Provincial de São Paulo: Ke-
n e c r jo ã o J Jardim. Reverendo Cô-
Muller Coronel Fraif^ Oliveira Bueno, Coronel Daniel Pedro
Jordão, Tenente Coroneí“ A ®"Sadeiro Manoel Rodrigu«
Francisco de Panin o Andre da Silva Gomes, R e v e r e n d o
pos Vergueiro, Tenente P Nicolau Pereira de Cam-
_____________coronel Antônio Maria Quartim, Coro-

‘Vonnelho"*Lm^«Azul” não era maçon new


fBdo um homem A' ^ ^ ^ João VI, podendo ser consid®*
rado perigoso raSo norau« r absolutista. Nâo era conside
A . ’ continuou na chefia do govêrno. - Not»
if
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 291
II
5 i

1 i^artim Francisco de Andrada, Coronel Lázaro José Gon­


çalves, Chefe de Esquadra Miguel José de Oliveira Pinto.
Êsse, pois, 0 relato do Tenente Coronel Antônio Maria
Quartim.
No mesmo dia desses acontecimentos, o Senado da Câmara
l^unicipal de São Paulo, lavra ata, relatando-os:
“ Aos vinte e três de junho de mil oitocentos e vinte e um
nesta cidade de São Paulo e casas da Câmara e paços do Con­
celho dela, donde foram vindos o doutor juiz de fora presidente
Nicolau de Siqueira Queiroz, vereadores atuais, e o atual pro­
curador assistindo o Povo, e as Tropas, pelos quais foram con­
vocados os ditos extraordinàriamente para se proceder à for­
mação de um Govêrno Provisório, jurar as Bases da Constitui­ í:'.
ção decretadas pelas Côrtes de Lisboa, e observar religiosamen­ f
te as leis, que garantem a segurança individual, a proprie­
dade, e direitos dos cidadãos; jurarem outrossim a obediêncta
ao Muito Alto e Poderoso Senhor Dom João Sexto Nosso Rei
Constitucional do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves,
e a Sua Alteza Real o Príncipe Hereditário Regente do Reino
do Brasil, e à Real Dinastia da Sereníssima Casa de Bra­
gança..
Finalmente, a ata dá a continuação do novo govêrno que
é aquêle já citado por Antônio Maria Quartim.
Observêm-se no fim da ata, as referências respeitosíssimas
a D. João VI, a D. Pedro e à dinastia de Bragança. O Senado
da Câmara de São Paulo era tradicionalmente dominado pela
nobreza local. Por isso, o velho monarca que em Lisboa era
naquele momento um prisioneiro das Côrtes, o Senado da Câ­
mara ainda o considerava “ muito alto e poderoso Senhor” .
A tradicional nobreza paulista ainda não se dera conta da
Revolução que derrubara o trôno. Note-se naquele final da
ata, que não há nenhuma palavra de louvor às Côrtes de Lis­
boa. Só há obediência à Casa de Bragança. O Senado da Câ­
mara de São Paulo, dominado ainda pela antiga nobreza ban­
deirante, mostrava-se pois, tradicionalista. Ao contrário do
Senado da Câmara do Rio de Janeiro, dominado pela Maço­
naria “ Vermelha” , e por isso revolucionário, fazendo D. João
VI e D. Pedro submeterem-se a êle.
Uma das prerrogativas antigas, o Senado da Câmara de
São Paulo ainda conservava: dar posse aos Capitães-generais
governadores da Capitania. Continuava agora, na posse dOB
membros aclamados pelo povo e tropa. Assim, na sessão do
Senado da Câmara, do dia 30 de junho, a ela compareceram
os coronéis Martim Francisco Ribeiro de Andrada, Daniel Pe-

c..
r~

298 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

dro Muller e o chefe de esquadra Miguel de Oliveira Pinto


“ para se lhes deferir o juramento de membros do Govêrno
'Provisório” , “ sendo-lhes lido palavra por palavra, cada um
pondo suas mãos direitas em um livro dos Santos Evangelhos-
e dando-se-lhes em consequência a posse” .

LIBERDADE DE ABRIR ESCOLAS


Em Lisboa, as Côrtes continuavam legislando de acôrdo
com os novos tempos. Uma lei interessante, foi a relativa à
liberdade de abrir escolas de primeiras letras, permitindo-se
a qualquer pessoa fazê^-lo, sem a obrigação de demonstrar
seus conhecimentos e capacidades.
As Côrtes sancionaram-na no dia 28 de junho.
Dizia a lei:
“ As Côrtes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Na­
ção Portuguêsa, considerando a necessidade de facilitar por
todos os modos a instrução da mocidade no indispensável es­
tudo das primeiras letras: Atendendo a. que não é possível
desde já estabelecer, como convém, Escolas em todos os luga­
res dêste Reino por conta da Fazendai Pública; e Querendo
assegurar a liberdade que todo o Cidadão tem de fazer o de­
vido uso dos seus talentos, não se seguindo daí prejuízos pú­
blicos, Decretam:
Que da publicação dêste em diante seja livre a qualquer
Cidadão o ensino, e abertura de Escolas de primeiras letras,
em qualquer parte dêste Reino, quer seja gratuitamente, quer
por ajuste dos interessados, sem dependência de exame, ou de
alguma licença” .
E assun, pois, iam as Côrtes tomando as medidas liberais
que considerava iriam resolver todos os problemas, inclusive
o do analfabetismo. Como tôda revolução triunfante, tam­
bém essa vitoriosa revolução liberal esperava que o novo re­
gime resolveria todos os problemas com facilidade.

Julho de 1821
IV ® dM Côrtes de Lisboa, no dia 10 de julho, 129'
11 Sessão, o deputado por Portugal, Borges Carneiro dentre
outras moções, apresentou esta:
ara que alguns negócios do Ultramar se não tratem seni
estarem presentes os Deputados do Brasil” .
I? deputado do BrasU havia
amda chegado a Lisboa.
<

A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 299

l«lÿVT R E C O N C O R R Ê N C I A
A
As Côrtes continuavam legislando no sentido de introduzir
no regiiïie constitucional as idéias liberais não só no campo da
política e administraçao, mas também no da economia.
por isso, no dia 11 de julho, as Côrtes aprovaram a se­
guinte lei:
.‘As Côrtes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Na­
ção Portuguêsa, considerando que só-a livre concorrência de
compradores e vendedores pode produzir a abundância, e re­
gular 0 preço dos generös; E desejando remover os graves pre­
juizos constantemente resultado das taxas, e conde­
nações das Almotacerias, Decretam o seguinte:
1.0) Ficam inteiramente extintas, desde a publicação dês-
te Decreto em diante, tôdas as taxas, e condenações provenien­
tes delas, em quaisquer víveres que se venderem;” Etc.
Fazia-se pois a reforma liberal em todos os campos, in­
clusive na economia, abrindo caminho para o sistema do “ lais­
sez faire, laissez passer” .

A l ib e r d a d e d e IM P R E N S A

No dia seguinte, 12 de julho, as Côrtes aprovaram a lei


sôbre liberdade de^ imprensa, afirmando inicialmente que
“ aquela liberdade é o apoio mais seguro do sistema Constitu­
cional”. Dizia 0 artigo 1.°:
“ Tôda a pessoa pode da publicação desta Lei em diante
imprimir, publicar, comprar e vender nos Estados Portuguê­
ses quaisquer livros ou escritos sem prévia censura;” . Etc.
A referida lei era muito extensa, constando de 63 artigos,
divididos nos seguintes capítulos: 1 .®) Sôbre a extensão da li­
berdade de imprensa; 2.®) Dos abusos da liberdade da impren­
sa e das penas correspondentes; 3.®) Do juizo competente
para conhecer dos delitos cometidos por abuso da liberdad.e;
4.*) Da ordem do processo nos juizos sôbre os abusos da li­
berdade de imprensa; 5.®) Do tribunal especial de proteção da
liberdade da imprensa.

PRO CLAM AÇÃO D A S C Ô R T E S A O B R A S IL

No dia 13 de julho, as Côrtes de Lisboa fazem uma pro­


clamação aos habitantes do Brasil. Nesse dia, ainda não ha­
viam chegado a Lisboa os primeiros deputados do Brasil às
H ^ proclamação revela uma preocupação: a posição
Brasil, diante da Revolução liberal que estava em marcha.
r
300 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

Estariam os habitantes do Brasil, firmes ao lado da Revolução,


ou poderiam realizar uma contra-revolução, com o Príncipe
Regente à frente, restabelecendo o antigo regime, ou seja, a
Monarquia absolutista?
As preocupações não eram infundadas, pois no Brasü os
sentimentos de fidelidade e leal vassalagem ao Rei, ou seja,
il
à Monarquia, eram ainda bem vivos entre o povo, que não so-
fréra com as guerras napoleônicas.
Essa, pois, a razão daquele manifesto das Côrtes aos habi­
tantes do Brasil, e que bem se pode verificar neste trecho
inicial:
11 “ Habitantes do Brasil! A heróica resolução que haveis to­
mado, de seguir a causa da Pátria (1) e correr a sorte de seus
valorosos filhos, acabou de consolidar para sempre o majestoso
edifício da Liberdade, e da Independência Nacional”.
Passemos a explicar êsse parágrafo inicial da proclamação.
Disseram as Côrtes que o Brasil seguira a causa da Pátria,
isto é, da Nação Portuguêsa, da qual êle era um Reino. Isto
se refere aos acontecimentos havidos no Rio de Janeiro, em
26 de fevereiro, quando D. João VI fôra obrigado a jur^ a
futura Constituição que as Côrtes estavam fazendo. Possivel­
mente, refere-se também ao juramento de D. Pedro, feito no
dia 5 de junho, se é que houvera tempo de as notícias dêsse
acontecimento chegarem às Côrtes antes do dia 13 de julho,
data da proclamação.
fi- Atente-se para o final daquele trecho, onde as Côrtes íi'
Iam que a Pátria, isto é, tôda a Nação Portuguêsa, com a de­
cisão do Brasil, consolidou para sempre, a liberdade e a io*
dependência nacional. A queda do absolutismo e a instauração
do novo regime, significava em Portugal, a independência da
Nação, libertando-se da tirania, do despotismo, como se dizia*
Portanto, a linguagem que se usava tanto em Portugal c^
mo no Brasil, pelos líderes da Revolução, era a mesma: exal­
tação da liberdade e da independência, ou seja, do novo regi^®*
A proclamação é muito extensa, razão porque só '
ziremos os trechos principais. Chamamos mais uma vez a aten­
ção do leitor para o espírito, e as palavras da p r o c l a m a ç a t
autêntico documento da Revolução liberal em marcha, ou ma
própriamente, ultra-liberal ou democrática, conforme verem
•il* mais adiante.

(I) A palavra P á t r i a j á tem ai o sentido r e v o lu c io n á r i o ,


demo, designando tôda a Nação Portuguêsa. Não confundir poi*
a antiga denominação “ pátria” , que já vimos. — NoU dos A A -

íi
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 30t
Dizia pois a proclamação:
"Nelas (Bases da Constituição) vereis lançados com mâo
segura e acautelada os traços fundamentais d ê L maravilho
monumento, que vai ser levantado pelo sublime esfôrco da
S S a L despotismo e da
Nelas vereis o mais seguro apoio da felicidade dos Por-
tu^eses ^rque elas encerram a declaração autêntica dos Di-
reitos do Homem, a salvaguarda de suas franquezas, e o re-
sumo de suas relações sociais, intimamente Hgadas com sua
existencia politica”. ^
Mais adiante:
•‘Brasileiros! O Congresso não duvidava de vossos senti­
mentos patrióticos e liberais; mas êle respeitava o direito, que
só a vos pertence de manifestar competentemente vossos de­
sejos Decretou por isso que vós farieis parte da grande fa­
mília Portuguêsa, logo que tivésseis declarado vossa adesão
ao novo pacto social, que ela acabava de fazer”.
Linhas abaixo:
” E’ preciso contudo que vossos Deputados venham com­
pletar o quadro da Representação Nacional para auxiliar as
Côrtes em suas laboriosas tarefas, e tomar nas deliberações a
parte que devem ter. O Congresso irá entretanto continuando
a marcha augusta, firme e regular, com que tem principiado
a reforma dos abusos, que oprimem a Nação.
A liberdade da Imprensa, esta irmã gêmea da liberdade
civil e política; esta filha querida dos Governos/ representa­
tivos, é hoje o primeiro, e mais apreciável direito do Cidadão
Português.
A Inquisição e a Inconfidência, verdadeiros monstros na
ordem, social e horrível invento dos déspotas e tiranos, já não
existem. A humanidade e a razão tem recobrado seus fôros.
Os diferentes ramos da pública administração, vão toman­
do uma nova face: a marcha dos negócios já é outra
Depois de falar sôbre os novos tempos, a morahzaçao, etc..
continua a proclamação aos Brasileiros: . i ^
" o govêmo dessas vossas Províncias ( ...)
treíue a homens probos, e verdadeiramente Constitucionais,
que plantem entre vós êste venturoso f
no de moderação e suavidade que se tem seguido, com tanta

“ ' t £ e trecho,, obse^a-se a P - ^ P ^ a - 1


302 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

províncias do Brasil, ainda eram os nomeados por D. João VI


antes de estalar a Revolução de 24 de agôsto. Êsses governos'
bem poderiam ser leais ainda ao velho Rei já prisioneiro das
Côrtes de Lisboa. E unindo-se a D. Pedro, bem poderiam or­
ganizar uma contra-revolução, inclusive com uma expedição
militar contra as Côrtes. Notemos, ainda, como as Côrtes fa­
lavam dêsses governos nomeados ainda ao tempo de D. João
VI; deveriam ser substituidos por homens verdadeiramente
constitucionais, isto é, defensores do sistema liberal, ou seja,
da Revolução.
• Em certo ponto, a proclamação dos deputados de Portu­
gal, dirigida aos habitantes do Brasil, diz num tom patético:
“ . . . devemos portanto estreitar cada vez mais nossas re­
lações políticas. Os sentimentos fraternais, que a natureza
nos inspira; a consoladora idéia de que temos todos a mesma
origem, e a lembrança até de que tem pesado sôbre nós as
mesmas desgraças, nos persuade de que devemos ter também
todos a mesma fortuna” .
Quando as Côrtes falam dos portuguêses de Portugal e
Brasil — todos com a mesma origem — ressalta que havia pe­
sado sôbre ambos o regime monárquico absolutista. Aliás,
verdadeiramente não havia pesado, pois nos séculos anteriores
os povos aceitaram êsse regime sem constrangimento. Mas,
é próprio de todo o regime político que se instaura, condenar
o anterior, de maneira candente, mesmo porque tal atitude
significa a sobrevivência da nova forma de govêrno, não bas­
tando pois, a simples exaltação das suas excelências.
Naquela proclamação as Côrtes preconizam pois a, mu­
dança dos governos das Províncias do Brasil, e n t r e g a n d o - a s a
homens fiéis ao sistema constitucional, e não dizem nada, sô­
bre D. Pedro, até ignorando-o!

OS GOVÊRNOS PROVINCIAIS
No dia 16 de julho, exatamente três dias após a procla*
maçao aos habitantes do Brasil, as Côrtes agitam a questão
dos governos das províncias do Brasil. Eis pois, o resumo da
Sessão n. 134, do dia 16 de julho, das Côrtes (*):
P refletindo sôbre as c i r c u n s t â n c i a s em
l ficou pela partida de Sua Majestade, propôs
<3ue a Comissão d e C o n s t i t u i ç ã o tomasse em c o n s i d e r a ç ã o a

1821. “ Gazeta do Rio de Janeiro» de 22 de novembro


A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 303

juelhor forma de estabelecer os Governos das Províncias do


Brasil, a respeito dos quais se deve decidir se devem ficar su­
jeitos a Portugal, ou à Regência que Sua Majestade deixou no
Rio de Janeiro.
A final decidiu-se, que o Ofício foi ouvido com muito agra­
do, e que seja remetido à Comissão de Constituição para esta
dar 0 seu parecer, tanto acêrca do seu conteúdo como da in­
dicação do snr. Braancamp” .
Agitava-se também a questão da permanência ou não de
D. Pedro no Brasil. As Côrtes, conforme veremos, eram do­
minadas pela Maçonaria “ Vermelha” de Portugal, que aliás;
agia de acôrdo com a Maçonaria “ Vermelha” do Brasil. A
permanência de D. Pedro, filho do Rei D. João VI no Brasil,
era um perigo permanente à Maçonaria “ Vermelha” de am­
bos os hemisférios, que desejavam o advento do regime repu­
blicano. Veremos tudo isto, com documentos, mais adiante.

D. PEDRO ESCREVE A D. JOAO VI

No dia 17 de julho, o Príncipe Regente D. Pedro escreve


a D. João VI.
Inicialmente, D. Pedro faz longo relatório das economias
que está fazendo. As despesas estavam sendo consideràvel­
mente reduzidas. Aliás, êste é outro aspecto de tôda revo­
lução triunfante.
Escrevia, pois, D. Pedro:
“ ...comecei a fazer severas economias, principalmente no
que me diz respeito. Fixei minha residência no palácio de
São Cristóvão para deixar o palácio da cidade aos ministérios,
aos tribunais e a tôdas as administrações que ocupavam antes
edifícios alugados pelo Estado. Tôdas estas mudanças custa­
ram-me pouco porque nelas empreguei os prêtos de Santa
Cruz e de São Cristóvão todos os quais têm ofícios. Prestei
contas ao tesouro e nada mais me ficou, como à Princesa do que
uma lista civil de um conto e seiscentos mil réis. Na uxaria
será possível fazer uma economia de quatrocentos contos de
réis. As cavalariças só exigem a despesa do milho, porque o
capim que consomem é dos domínios de São Cristóvão. Os
niil e duzentos cavalos que as ocupavam foram* reduzidos a
cento e cinqüenta e seis. Enfim, tôda a minha roupa branca,
da capela e de mesa são lavadas pelas minhas prêtas, e as des­
pesas atuais são nenhumas em confronto com as de outrora.
Mas se eu puder economizar ainda, prometo de o fazer para o
bem da Nação” .
S04 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

D. Pedro alonga-se no seu relatório da nova política de


severas restrições aos gastos do Estado. Relativamente aos
acontecimentos do dia 23 de junho em São Paulo, quando foi
reorganizado novo govêrno, escreveu D. Pedro:
“ Houve tumultos em São Paulo por ocasião do juramento
das Bases da Constituição. Os habitantes organizaram tuna
Junta Provisória que depende de mim, exceto no que diz res­
peito a dinheiros públicos que se negam a fornecer para as
necessidades do Rio de Janeiro. Reclamam para a Junta os
mesmos poderes de que se achava investido o Governador a
quem coube a presidência. A vice-presidência foi confiada
a José Bonifácio de Andrada a quem se deve a tranquilidade
atual da Província de São Paulo” .
Relativamente a graves acontecimentos na cidade de San­
tos, escreve D. Pedro:
*‘ Na cidade de Santos, as tropas revoltaram-se e exigiram
o pagamento do que lhes era devido. Encontrando os cofres
vazios dirigiram-se para a casa de um homem rico e pagaram-
se com suas próprias mãos. O governador tentou opôr-se a
esta sublevação com o apoio das equipagens dos navios ancora­
das no pôrto. Algumas pessoas morreram nesta escaramuça
mas a vitória foi dos soldados, que depois de tudo pilharem
acabaram por despender dois navios prestes a partir, um para
Lisboa, outro para não sei onde” .
Êsse fato, revela um certo clima de desordem, existente
no momento.
Finalmente, D. Pedro escreve:
“ Espero que Vossa Majestade me faça a honra de mandar
apresentar esta minha carta em Côrtes para que elas, de
mum acôrdo com ^Vossa Majestade dêem as p r o v i d ê n c i a s tao
necessárias a êste” Reino (do Brasil), de que eu fiquei K®'
gente, e hoje sou capitão general, porque governo só a
víncia (do Rio de Janeiro); e assim assento, que q u a lq u e
Junta o poderá fazer, para que Vossa Majestade se não
grade a si, tendo o seu herdeiro como governador de um
província só” .
Esse trecho final da carta de D. Pedro é significativo.
achava que suas atribuições como Príncipe Regente do
do Brasil não estavam bem definidas, razão porque se co
siderava nada mais do que um simples Capitão «va
vemador da Província do Rio de Janeiro, o que não yj
de ser uma diminuição tanto para êle como para D.
Por isso, pedia às Côrtes que resolvessem sôbre ^
geral do Brasil, ainda indefinido. Um dia antes de D.
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILBIRA 305

^crever essa carta, ja nas Côrtes em Lisboa, o deputado Bra-


aiicamp agitara o problema, conforme já vimos. Entretanto,
p. Pedro, ainda jovem e mexperiente, mostrava-se bastante
ingênuo, solicitando as Cortes legalizassem e ampliassem o
seu poder como Prmcipe Regente do Reino do Brasil quando
justamente as Cortes estavam preocupadas com a sua presen­
ça aqui.
0 g o v ê r n o d e PERNAMBUCO
Com a Revolução liberal iniciada na cidade do Pôrto em
24 de agosto de 1820, começaram a explodir revoluções seme­
lhantes no Brasil: no dia 1." de janeiro de 1821 em Belém do
Pará; no dia 10 de fevereiro de 1821 na Bahia, culminando com
0 26 de fevereiro de 1821 no Rio de Janeiro, quando D. João VI
foi obrigado a jurar a futura Constituição. Estava pois, ple­
namente vitoriosa a Revolução liberal em tôda a Nação Por­
tuguêsa. No Pará, na Bahia, em São Paulo no dia 23 de ju­
nho de 1821, foram sendo feitas revoluções pelas “ lojas” ma­
çônicas locais. Essas revoluções nas capitais das províncias,
depunham os governadores nomeados por D. João VI, e fa­
ziam a aclamação popular de juntas de governos.
Justo seria, pois, que a Maçonaria de Pernambuco também
tratasse de fazer a revolução nessa província. Mas o gover­
nador Luís do Rego Barreto, nomeado por D. João VI após
ter sido sufocada a Revolução Republicana de 1817, resistia à
mudança de govêmo. E* apoiado pelos negociantes de Re­
cife, que no dia 19 de julho de 1821, enviam( representação
ao Rio de Janeiro, e na qual dizem:
“ Nós abaixo assinados, que nos confessamos obedientes
súditos de Sua Majestade Fidelíssima El-Rei o Senhor D. João
VI, e de Seu Augusto Filho Sua Alteza Real o Príncipe Re­
gente do Brasil, Lugar Tenente de Sua Majestade neste Reino;
que de todo o coração juramos, e estamos prontos a observar
a Constituição das Côrtes Nacionais jurada pelo Nosso Monar­
ca, e Príncipe Real no dia vinte e seis de fevereiro do corrente
ano, e finalmente por todos os súditos e Vassalos de Sua Ma­
jestade; nós todos os habitantes desta Praça e Província de
Pernambuco concordamos em que é verdade reconhecida o que
vamos a expôr, e estamos prontos a afirmá-lo em todo o tempo
e lugar. — Que o Excelentíssimo Senhor Governador e Ca­
pitão General Luiz do Rego Barreto, tem, principalmente
nestes últimos terpjjos, mantido esta Província em completa
paz, assegurando a cada um de per si, e a todos os habitantes
dela as suas pessoas e propriedades. Que o mesmo Excelentís-
306 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

simo Governador, guiado da mais madura prudência há livrado


a Província' de ser vítima de facções, opondo-se aos intentos de
alguns malévolos, que sob pretêxto de mudança no sistema do
Govêrno, procuravam livrar-se da autoridade do General, para
tocarem o objeto da sua particular ambição, autorizando-se
falsamente com o nome do povo, o qual até ignorava que tinha
semelhantes procuradores, os quais êle jamais escolheria para
serem seu órgão. — Que o povo em lugar de estimar, ou que­
rer as novidades, que os referidos Demagogos pediam, ou antes
diziam que haviam de fazer, se aterrou e temeu por sua sorte,
julgando-se entregue dentro de pouco à autoridade de uns ho­
mens talvez sem a confiança pública, sem virtudes, sem ciên­
cia, e sem riquezas” .
Podemos observar nesse trecho, como a representação dos
negociantes se refere diretamente aos Demagogos, isto é, aos
republicanos (Maçonaria “ Vermelha” ), que falavam em no­
me do povo, queriam instaurar um govêrno republicano, isto
é, as “ novidades” . Por outro lado, veja-se a categoria social
dos republicanos: sem virtudes, sem ciência (conhecimentos)
e sem riquezas. Portanto, os negociantes signatários do me­
morial eram da alta burguesia, enquanto os republicanos eram
da média para baixo. Evidentemente, os líderes da Maçona­
ria “ Vermelha” deveriam ser pessoas de certa cultura, homens
ilustrados.
Mais adiante diz a representação:
“ Desde o ano de mil oitocentos e dezessete se introduziu
a discórdia entro alguns dos habitantes desta Província; o
seu fogo tem estado supito pelo temor, e faltando êste com a
mudança popular de um Govêrno, expõe-se a Capital, e talvez
a Província inteira a ser teatro de paixões, cujo desenvolvi­
mento é quase certo dever ser-lhe funestíssimo” .
Nesse trecho, por “ mudança popular de um govêrno >
deve-se subentender a mudança de um govêrno sob pressão e
exigência do povo, e mais ainda, conforme? os seus desejos.
Mas, observe-se que o documento diz que desde o ano de 181 ^
ano da Revolução Pernambucana, que foi uma revolução repu-
blicana, os espíritos andavam à espreita, e a mudança popular
do govêrno, levaria a Província a paixões com resultados íu-
nestíssimos.
Continua o documento:
“ Como pois, considerando nós que formamos uma Mo^
narquia Representativa, empreenderemos as mudanças
lares do Govêrno, que só pertencem às Democracias, ou ante ,
r
A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA 307

que não pertençam - intentadas de tal modo - senão à anar-

‘^'^'portanto, nesse trecho o documento é claro- a mudança


popular de governo (executivo) é própria da democracia, ou
seja, da Repubhca. No documento, a representação alia a
idéia de democracia a de anarquia, o que aliás era usual na
época. Portanto, temos ai os seguintes conceitos na época si­
nônimos ou equivalentes: govêrno popular, demagogo demo­
cracia, república e anarquia. Significavam a mesma cousa
F in a lm e n t e d iz ia o d o c u m e n t o :
“ nada mais cumpre fazer, senão mandar nossos Deputados
ao Congresso S oberbo, depositar em suas mãos nossa sorte,
e esperar que as Leis novas venham tomar o lugar das Leis
velhas, que devem reger enquanto aquelas não chegarem. O
voto da Nação foi por um Govêmo Constitucional, conservan­
do 0 nosso legítimo Monarca, para isso a Nação assumiu a
sua Soberania e ordenou a sua Representação; conseguiu o seu
fim: já lhe não é dado fazer por si mesma, nem em todo, nem
em parte, inovações algumas, que não venham do Congresso
Representante, e do Rei” (*).

Agôsto de 1821
o dia 6 de agôsto, por intermédio do Ministro do Reino.
N D. Pedro determina que os dias 24 de agôsto e 15 de se­
tembro sejam considerados dias de grande gala, isto é,
feriados, na Côrte, ou seja na cidade do Rio de Janeiro, sede
da Regência.
Nos dias 24 de agôsto e 15 de setembro de 1820, tiveram
lugar respectivamente nas cidades do Pôrto e Lisboa, as revo­
luções que levaram à organização de uma Junta Governativa,
à instalação das Côrtes (Congresso de Deputados), e ao ad­
vento do novo regime constitucional. Fôra pois, naqueles dois
dias, que tivera origem a Revolução liberal. E agora, um ano
após ainda ela estava em curso, tanto em Portugal como no
Brasil.
0 texto da decisão é o seguinte:
“ Sendo de tão subida glória para a Nação Portuguêsa os
faustíssimos dias 24 de agôsto e 15 de Setembro de 1820, em
que se começou a levantar o grandioso edifício da sua rege­
neração política; e Querendo Sua Alteza Real o Príncipe Re-

(*) Represfentação publicada na “ Gazeta do Rio de Janeiro” , de


6 de setembro de 1821.
308 T. L. FERREIRA — M. R. FERREIRA

gente singularizá-los com graciosa distinção entre os memorá­


veis desta brilhante e afortunada época; E’ servido que neste
e nos mais anos sejam os referidos dias, por aquêle venturoso
motivo, de grande gala na Côrte**.
Portanto, dezoito dias antes do 24 de agôsto, a Regência
tomava providências para comemorá-lo. Evidentemente, a lem­
brança não fôra de D. Pedro, mas sim, dos elementos maçons
que o rodeavam, provavelmente, a Junta Provisional eleita no
dia 5 de junho, para fiscalizar as decisões de D. Pedro.
OS DEPUTADOS DE S. PAULO
No dia 7 de agôsto os eleitores de Comarca (eram três
Comarcas) da Província de São Paulo reunidos nos paços do
Senado da Câmara Municipal, elegeram os deputados da pro­
víncia, às Côrtes em Lisboa: Antônio Carlos Ribeiro de An­
drada, Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, José Ricardo
da Costa Aguiar, Francisco de Paula Sousa e Melo, José Fe-
liciano Fernandes Pinheiro e Diogo Antônio Feijó.
No ofício que a Jimta Governativa da Província de São
Paulo enviara ao Senado da Câmara Municipal, no dia 8 de
agôsto, informando-a do resultado daquela eleição, recomen­
dava à mesma que enviasse tôdas as sugestões,
“ ...m em órias e apontamentos do que acharem conducen­
tes para o bem público dos habitantes desta província para
que redigidas tôdas hajam de ser transmitidas aos deputados,
e êstes mais ao fato do estado e precisões da Província, possam
melhor expô-los no iluminado Congresso Nacional, para onde
ficam a partir” .
Êsse ofício foi assinado pelos membros do govêrno: Oey-
nhausen (presidente), José Bonifácio (vice-presidente), e Mar­
tim Francisco. Nesse momento, José Bonifácio ainda acredi­
tava no “ iluminado Congresso Nacional” , ou seja, nas Côrtes
de Lisboa. Houve no dia 11 de agôsto. sessão do Senado da
Câmara Municipal de São Paulo, sendo lançado em ata dos
trabalhos:
. .lavraram-se editais anunciando ao público que hajam
de dar suas memórias, e apontamentos a esta Câmara para a
mesma levar ao govêrno para êste transmitir aos deputados
desta Província que breve estão a partir para as Côrtes de
Lisboa” .
Dessa maneira, o povo era solicitado a levar suas suges­
tões aos deputados paulistas que iriam partir para Lisboa,
de tomariam seus lugares nas Côrtes, ou seja, o Congresso Na­
cional.
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X MAÇONAKIA INDEPENDÊNCTA b r a s i l e i r a 309

^5 g o vern o s p r o v is ó r io s p r o v in c ia is

Tendo no dia 30 de julho o governador e Capitão General


Capitania de Minas Gerais sugerido a criação de um Go-
'rno Provisório naquela província, o Ministro do Reino. Pe-
^0 Alvares Diniz, em decisão do dia 14 de agôsto, por ordem
^ príncipe Regente, determinou que
“ ...nessa Província se crêe uma Junta Provisória para a
governar pelas Leis atuais e Bases da Constituição Portuguêsa
com subordinação e obediência a Sua Alteza Real, como Regente
dêste Reino do Brasil, interinamente, enquanto se não põe em
execução o sistema dos Govêrnos Provinciais que as Côrtes
Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguêsa
decretarem para o Brasil. O que V. S . fará constar à Câmara
dessa Capital da Província, para que em ato de vereação pro­
ceda à eleição do Presidente e mais Deputados da dita Junta,
e taxar o seu número à pluralidade de votos, convocando para
êsse fim tôdas as pessoas dessa Capital e seu termo, que cos­
tumam ser chamadas para tais atos, e tôdas as mais da Pro­