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Obrigações II

O cumprimento (pag. 141)

 O cumprimento é a realização da prestação devida e o devedor cumpre a obrigação


quando cumpre a prestação a que está vinculado (762º/1). Existe a extinção da
obrigação através da satisfação do interesse do credor, com a consequente liberação
do devedor.

O regime do cumprimento das obrigações obedece aos seguintes princípios gerais:


1) Princípio da pontualidade (406º/1): exigência de uma correspondência integral de
todos os aspetos, sendo que existe a proibição de qualquer alteração à prestação
devida pois o devedor tem que prestar a coisa ou o facto exatamente nos termos em
que se vinculou. A situação económica do devedor é irrelevante para tentar alterar a
prestação (diminuição do valor), aumento do prazo ou pagamento a prestações. A
regra, que consta no 601º e 604º é a de que, mesmo em caso de insuficiência, o
património do devedor continua a responder integralmente pelas dívidas assumidas,
apenas se excluindo da penhora certos bens que se destinam à satisfação das
necessidades imprescindíveis.
2) Princípio da integralidade(763º/1): o devedor deve realizar a prestação de uma só
vez, ainda que se trate de prestação divisível, ou seja, pudesse ser fracionada em
partes sem prejuízo para o interesse do credor. Esta solução justifica-se por se
considerar como unitário o comando de realizar a prestação para o devedor e o credor
ter interesse e, efetuar a receção da prestação apenas uma vez. Trata-se, no entanto,
de uma norma supletiva, pelo que se admite a estipulação de convenção em contrário,
bem como se referem exceções resultantes da lei ou dos usos. Caso seja celebrada a
convenção em contrário, a prestação deve ser realizada em partes. É o que sucede nas
obrigações fracionadas (781º), como a venda prestações (934º). Neste caso, o
cumprimento deve ser mesmo realizado em prestações, nas datas do seu vencimento,
colocando-se numa situação de enriquecimento do credor, se o devedor, por erro
desculpável, decide realizar logo a prestação por inteiro (476º/3). Casos resultantes da
lei (784º/2; 649º; 847º/2). Fora destes casos, se o devedor oferecer apenas uma parte
da prestação, o credor pode recusar o seu recebimento sem incorrer em mora. No
entanto, a lei admite que o credor decida exigir apenas uma parte da prestação
esclarecendo que tal não impede o devedor de oferecer a prestação por inteiro
(763º/2).
3) Princípio da boa fé (762º/2): tanto no cumprimento da obrigação como no exercício
do direito correspondente devem as partes proceder de boa fé, necessária também
para se considerar verificado o cumprimento da obrigação. É necessário o acatamento
dos deveres acessórios (proteção, informação e lealdade) se não pode implicar uma
situação de responsabilidade civil se esse desrespeito causar danos.
4) Princípio da concretização: a vinculação do devedor deve ser concretizada numa
conduta real e efetiva, implicando assim o cumprimento a alteação de um plano da
vinculação para um plano de um comportamento efetivamente realizado. Para o que
cumprimento possa efetivamente ocorrer é preciso respeitar certos passos específicos:
pressupostos para o cumprimento (Capacidade das partes, disponibilidade da coisa
dada em prestação, legitimidade); forma de realização (lugar e tempo do
cumprimento).
Capacidade para o cumprimento – A capacidade para o cumprimento encontra-se no
art. 764º. A regra é: 1) Devedor: não se exige a capacidade do devedor, a menos que a
própria prestação consista num ato de disposição (sempre que o cumprimento
implique a celebração de um novo n.j, ou dele resulte a alienação ou oneração do
património do devedor), sendo que esses atos devem ser praticados por um
representante legal. Assim, tendo sido validamente celebrado o n.j, a prestação
poderá normalmente ser realizada pelo devedor incapaz. Quando para a prestação se
exija a capacidade do autor do cumprimento e este não a possua, o cumprimento da
obrigação pode ser anulado nos termos dos arts. 125º e 139º. Esse pedido pode ser
paralisado através do credor através de uma exceptio doli, se a prestação foi cumprida
pelo devedor, mostrando que este não teve prejuízo com o cumprimento (764º1).
Nesse caso o pedido de anulação não procederá, pois, o devedor anularia a prestação
realizada, mas continuaria com uma divida de conteúdo idêntico. 2) Credor: deve ter
capacidade para receber a prestação, uma vez que, no caso contrário, ele poderia
destruir o objeto da prestação ou não tirar qualquer proveito do cumprimento. Se a
prestação for realizada a credor incapaz, o seu representante legal pode solicitar a sua
anulação e a realização da nova prestação pelo devedor. Mas o devedor pode opor-se
ao pedido de anulação na medida do que tiver recebido pelo representante ou do seu
enriquecimento (764º/2). Nestes casos estaremos perante uma exceção fundada no
principio da proibição do enriquecimento injustificado, visando-se impedir o
enriquecimento do incapaz com a realização da nova prestação.

Disponibilidade da coisa dada em cumprimento (coisa alheia) – O devedor, para


realizar eficazmente o cumprimento, tem de ser o titular da coisa ou poder dispor dela
se for própria (se for a prestação de uma coisa), e tem de ter a capacidade e
legitimidade para proceder à sua alienação. O credor se estiver de boa fé ao receber a
prestação de coisa alheia, tem o direito de impugnar o cumprimento (art.765º). Numa
situação desta o credor estaria sempre sujeito à possibilidade de ver a coisa
reivindicada pelo o seu legitimo proprietário ou o cumprimento ser anulado, pelo que
deve ter o direito de impugnar o cumprimento realizado nessas condições. Já o
devedor não pode impugnar o cumprimento, mesmo que esteja de boa fé, a não ser
que ofereça nova prestação que substitua a anteriormente realizada. (765º/1).

Legitimidade para o cumprimento – o cumprimento verifica-se com a realização da


prestação pelo devedor ao credor, mas pode suceder que a prestação seja realizada
por terceiro. Nesta situação é preciso verificar se o autor da prestação (solvens) ou o
seu receptor (accipiens) têm legitimidade para efetuar ou receber a prestação.
 Legitimidade ativa – Esta é atribuída a todas as pessoas quer elas tenham
interesse no cumprimento da obrigação ou não (767º/1). Embora o credor só
possa exigir a prestação ao devedor, ela pode ser realizada por terceiro, sem
que o credor a tal se possa opor. O terceiro só não terá legitimidade para
cumprir se a prestação tiver carater infungível por natureza ou por convenção
das partes (767º/2), caso em que o credor pode recusar e exigir que o
cumprimento seja realizado pessoalmente pelo devedor.
Se o terceiro tiver legitimidade para o cumprimento, o credor não pode
recusar a prestação por ele oferecida, e se o fizer incorre em mora perante o
devedor como se tivesse recusado a prestação deste (768º/1 e 813º). A lei
apenas admite a recusa por parte do credor se o devedor se opuser ao
cumprimento, desde que terceiro não tenha interesse direto na satisfação do
credito, por ter garantido a obrigação ou por qualquer outra causa (art. 768º/2
e 592º). Se o terceiro for diretamente interessado, o credor não pode recusar
o cumprimento por este, mesmo com a oposição do devedor, dado que a
situação envolveria prejuízo para o terceiro. No entanto, a oposição do
devedor ao cumprimento nunca obsta a que o credor aceite validamente a
prestação do terceiro (768º/2). Essa oposição só permite ao credor, se este
quiser, recusar a prestação se, se constituir em mora, nos casos em que
terceiro não tenha interesse direto no cumprimento.
 Legitimidade passiva – quando à legitimidade para receber a prestação, e esta
deve ser efetuada ao credor ou ao seu representante (769º). Regra geral, a
prestação só pode ser efetuada em relação a estes dois, se for a outra pessoa
considerada terceiro, a extinção da obrigação não se realizará podendo o
devedor ser condenado a realiza-la uma segunda vez. Quando o credor não
tem capacidade de exercício, mas tem legitimidade para receber a prestação,
esta apenas poderá ser entregue ao representante legal do credor (764º/2). Já
na representação voluntária o devedor pode recusar a prestação perante o
representante (771º).
Se a prestação for realizada a terceiro, a obrigação não se extingue (770º),
podendo o autor da prestação exigir a sua restituição com fundamento no
enriquecimento por prestação (476º/2).
Casos em que a extinção da obrigação se verifica com a sua receção por
terceiro (adquire legitimidade): 1) se tal tiver sido estipulado ou consentido
pelo credor (770º a); 2) Se terceiro vier a adquirir legitimidade superveniente
para a sua receção o que acontece se o credor ratificar o cumprimento (770º
b); 3) 770º c) e 770º e); 4) 770º d); 5) 770º f).

Tempo do cumprimento – O regime do prazo encontra-se regulado supletivamente nos arts.


777º e ss. O prazo da prestação determina o momento da realização da prestação. Existem
dois momentos distintos: 1) O da pagabilidade do débito – o momento em que o devedor
pode cumprir a obrigação, forçando o credor a receber a prestação, sob pena de o credor
entrar em mora; 2) O da exigibilidade do débito – momento em que o credor pode exigir do
devedor a realização da prestação, sob pena de o devedor entrar em mora. Outra distinção: 1)
Obrigações puras – aquelas cujo cumprimento pode ser exigido ou realizado a todo o tempo;
2) Obrigações a prazo – Podem ser com prazo certo ou incerto e são aquelas em que a
exigibilidade do cumprimento ou a possibilidade da sua realização é diferida para um
momento posterior. A regra geral é de as obrigações não terem prazo certo estipulado, sendo
obrigações puras. Nesse caso, o credor tem o direito de exigir a todo o tempo o cumprimento
da obrigação, assim como o devedor pode a todo o tempo exonerar-se dela (777º/1). O
devedor só entra em mora neste tipo de obrigações com a exigência de cumprimento pelo
credor nos termos do art. 805º/1. Se as partes ou a lei tenham estabelecido um prazo de
cumprimento (777º/1), estamos perante obrigações com prazo certo e o decurso do prazo
constitui o devedor em mora, conforme o art. 805º/2 a). Há casos em que nem as partes nem
a lei fixam um prazo de cumprimento, mas a obrigação não se pode considerar pura, uma vez
que se torna necessário um prazo, quer pela própria natureza da prestação, quer pelas
circunstancias que a determinam. Desta forma as partes devem entender-se quanto à
determinação do prazo, cabendo a sua fixação ao tribunal na falta de acordo (777º/2).
 Colocação do prazo no critério de uma das partes – A determinação do prazo do
cumprimento pode ser deixada ao critério de uma das partes, o credor ou devedor. 1)
relativamente ao credor, a lei determina que se ele não usar a faculdade que lhe foi
concedida, compete ao tribunal fixar o prazo, a requerimento do devedor (777º/3). 2)
quando o prazo é deixado a critério do devedor, a lei distingue consoante esse critério
corresponda a um fator objetivo (o devedor ter nesse momento os meios económicos
necessários para realizar a prestação) ou subjetivo (aprouver ao devedor realizar a
prestação nesse momento). Relativamente às obrigações caracterizadas por um fator
objetivo, elas encontram-se previstas no art. 778º/1, e o credor só poderá exigir o
pagamento se provar que o devedor já tem meios para o fazer se não só pode, após a
morte do devedor, exigir dos seus herdeiros que realize a prestação (2071º).
Relativamente às obrigações caracterizadas por um fator subjetivo, encontram-se
previstas no 778º/2, se o prazo for deixado ao arbítrio do credor, caso em que em
paga qd quiser, a prestação só pode ser exigida aos seus herdeiros apos o seu
falecimento.
 Beneficio do prazo – a possibilidade de a prestação ser realizada ou exigida num
momento posterior constituiu um beneficio. A quem compete o beneficio do prazo?
Pode caber ao devedor, ao credor ou a ambos. A regra estabelecida no 779º é que o
beneficio pertence ao devedor. Outros casos: depósito (1194º) o beneficio é a favor do
credor; mútuo oneroso (1147º) o beneficio pertence a ambos.
A parte a quem é atribuído o beneficio pode renunciar a ele. Se o beneficio for
atribuído ao devedor, nada o impede que realizar a prestação antes do fim do prazo.
No caso de ser atribuído ao credor nada o impede de exigir a prestação a todo o
tempo. Exige-se porem que essa renuncia seja efetiva, ou seja, que a prestação não
seja antecipadamente realizada por erro desculpável (o devedor aqui teria direito a
que o credor lhe restituísse o seu enriquecimento 476º/3). Quando o beneficio é de
ambas as partes em principio nenhuma delas pode antecipar o cumprimento ( no caso
do mutuo o mutuário pode antecipar o cumprimento desde que ofereça os juros por
inteiro 1147º).
 Prazo em beneficio do devedor – encontra-se estabelecido 779º e significa que
o credor não pode exigir a prestação antes do fim do prazo, mas que o
devedor tem o direito de proceder à sua realização a todo o tempo,
renunciando ao beneficio do prazo. Já ocorre a pagabilidade da divida sem se
ter verificado a exigibilidade ou vencimento. O devedor pode decidir cumprir
antecipadamente a sua obrigação sem que o credor se possa opor sob pena de
entrar em mora (813º).
 Prazo em beneficio do credor – se as partes estabelecerem que o prazo ocorra
em beneficio do credor. Nessa altura o credor pode pedir o cumprimento da
prestação a todo o tempo, mas o devedor só tem a possibilidade de cumprir
no fim do prazo. A divida já era exigível, mas ainda n é pagável (no deposito o
depositante tem a faculdade de exigir a todo o tempo a coisa mas o
depositário tem de restituir a coisa no termo do negocio).
 Prazo em beneficio de ambas as partes – nenhumas delas terá a faculdade de
determinar a antecipação do cumprimento pois ambos têm interesse no
prazo. O decurso do prazo funcionará assim tanto para determinar a
pagabilidade e a exigibilidade da divida. É a situação que ocorre no mútuo
oneroso (1147º). É permitida a ant4ecipaçao do devedor desde que paga os
juros por inteiro.
 Perda do beneficio do prazo – O devedor pode perder o beneficio se a sua
situação patrimonial se altere ou pratique algum ato considerado incompatível
com a confiança do credor. O 780º estabelece que mesmo que o beneficio seja
a favor do devedor, o credor pode exigir o cumprimento imediato da
obrigação se o devedor se tornar insolvente ou se por causa imputável ao
devedor diminuírem as garantias de credito ou não foram prestadas as
garantias prometidas. Outro caso de perda de beneficio é o não realização de
uma das prestações numa divida a prestações o que dá ao credor a
possibilidade de exigir logo a totalidade da divida (781º). Quando a confiança
do credor é quebrada o beneficio perde-se. A perda do beneficio não se
estende a co-obrigados ou a terceiros (782º).

Lugar do cumprimento – as regras sobre onde deve ser realizada a prestação estão no 772º e
ss e algumas exceções 885º, 1039º e 1195º. É preciso distinguir 3 tipos de obrigações: 1)
Obrigações de colocação – o devedor deve apenas colocar a prestação à disposição do credor
no seu próprio domicilio ou noutro lugar, cabendo ao credor o ónus de ir levantar a prestação
fora do seu domicilio (mas a obrigação não é cumprida colocando a coisa à disposição do
credor, é cumprida quando o credor tem efetivamente a coisa nas suas mãos). Nestas
obrigações o devedor não pode ser responsabilizado pelo facto de o credor não proceder ao
levantamento da prestação, sendo considerada mora do credor 813º; 2) Obrigações de
entrega – o devedor tem de entregar a coisa ao credor no domicilio deste, ou no lugar com ele
acordado. Assim a prestação só se considera realizada se chega ao domicilio do credor dentro
do prazo acordado, havendo mora do devedor no caso em contrário 804º; 3) Obrigações de
envio – aqui o devedor embora não se limite a colocar a coisa a disposição do credor, também
não tem que lhe assegurar a sua entrega efetiva. O devedor apenas esta obrigado a enviar a
coisa para o domicilio do credor, sendo o transporte da coisa risco deste. O local do
cumprimento é aquele onde o devedor procede à entrega ao transportador, pelo que ele só
assegura o envio nas condições e no prazo acordados. O risco é por conta do credor 797º.