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LEI Maria da Penha

A Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006, como Lei n.º 11.340 visa
proteger a mulher da violência doméstica e familiar.

A lei ganhou este nome devido à luta da farmacêutica Maria da Penha para ver seu
agressor condenado.

Características

A lei serve para todas as pessoas que se identificam com o sexo feminino,
heterossexuais e homossexuais. Isto quer dizer que as mulheres transexuais também
estão incluídas.

Igualmente, a vítima precisa estar em situação de vulnerabilidade em relação ao


agressor. Este não precisa ser necessariamente o marido ou companheiro: pode ser um
parente ou uma pessoa do seu convívio.

A lei Maria da Penha não contempla apenas os casos de agressão física. Também estão
previstas as situações de violência psicológica como afastamento dos amigos e
familiares, ofensas, destruição de objetos e documentos, difamação e calúnia.

Novidades Trazidas com a Lei Maria da Penha:

 Prisão do suspeito de agressão;

 a violência doméstica passar a ser um agravante para aumentar a pena;

 não é possível mais substituir a pena por doação de cesta básica ou multas;

 ordem de afastamento do agressor à vítima e seus parentes;

 assistência econômica no caso da vítima ser dependente do agressor.

Maria da Penha é uma farmacêutica brasileira, natural do Ceará, que sofreu constantes
agressões por parte do marido.

Em 1983, seu esposo tentou matá-la com um tiro de espingarda. Apesar de ter escapado
da morte, ele a deixou paraplégica. Quando, finalmente, voltou à casa, sofreu nova
tentativa de assassinato, pois o marido tentou eletrocutá-la.

Quando criou coragem para denunciar seu agressor, Maria da Penha se deparou com
uma situação que muitas mulheres enfrentavam neste caso: incredulidade por parte da
Justiça brasileira.

Por sua parte, a defesa do agressor sempre alegava irregularidades no processo e o


suspeito aguardava o julgamento em liberdade.

Em 1994, Maria da Penha lança o livro “Sobrevivi...posso contar” onde narra as


violências sofridas por ela e pelas três filhas.
Da mesma forma, resolve acionar o Centro pela Justiça e o Direito Internacional
(CEJIL) e o Comitê Latino Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da
Mulher (CLADEM).

Estes organismos encaminham seu caso para a Comissão Interamericana de Direitos


Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), em 1998.

O caso de Maria da Penha só foi solucionado em 2002 quando o Estado brasileiro foi
condenado por omissão e negligência pela Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Desta maneira, o Brasil teve que se comprometer em reformular suas leis e políticas em
relação à violência doméstica.

Anos depois de ter entrado em vigor, a lei Maria da Penha pode ser considerada um
sucesso. Apenas 2% dos brasileiros nunca ouviram falar desta lei e houve um aumento
de 86% de denúncias de violência familiar e doméstica após sua criação.

Para ajudar as vítimas de violência, o governo disponibilizou o número 180 no qual a


pessoa que se sente vítima de violência pode denunciar seu agressor.

Igualmente, instituiu as Casa da Mulher Brasileira com o objetivo específico de acolher


a mulher que não tem para onde ir.

Números da Violência contra a Mulher no Brasil

Apesar do sucesso da Lei Maria da Penha, as estatísticas da violência contra a mulher


no Brasil continuam altas. Veja estes dados:

 Todos os dias cerca de 13 mulheres são assassinadas no Brasil, sendo os dados


do Mapa da Violência, de 2015, realizado pela Faculdade Latino-Americana de
Ciências Sociais (Flacso).

 Em 2013 foram registrados 4.762 assassinatos de mulheres. Destes, 50,3%


foram cometidos por familiares, e neste universo, 33,2% destes casos, o crime
foi praticado pelo parceiro ou ex., de acordo com a mesma pesquisa.

3 em cada 5 mulheres jovens já sofreram violência em relacionamentos segundo


pesquisa feita pelo Instituto Avon em parceria com o Data Popular (nov/2014).

Alterações à Lei Maria da Penha

Desde sua publicação em 2006, a lei já passou por diversas alterações em sua
redação. Apesar da população em geral ver com bons olhos a tramitação e
aprovação de novas leis, é importante lembrar que não é porque uma lei foi
passada que haverá resultados positivos ou que problemas necessariamente serão
solucionados. Inclusive, é muito possível que alterações feitas a “toque de caixa”
ou visando interesses específicos possam promover retrocessos.
O que tem sido observado é um número elevado de alterações legislativas
sem que especialistas sejam devidamente consultados.

Apenas quem lida com a rotina de vítimas e elas próprias poderão relatar os
verdadeiros problemas e gargalos dessa política pública. Por isso, é importante
que o processo legislativo chame a sociedade civil para pensar em conjunto
possíveis soluções para os problemas ainda existentes. Além disso, muitas
estratégias pensadas no plano das ideias são de difícil ou impossível aplicação
prática, portanto, não é viável fazer alterações em massa sem discussões com
quem vivencia a aplicação rotineira da norma.

A Lei Maria da Penha foi pensada como uma política pública integrada e
interdisciplinar. Ficar “remendando” a lei sem respeitar a sua lógica de
construção pode criar problemas que não existiam, principalmente se as
modificações não forem pensadas dentro do contexto que a lei se aplica.

Abaixo, está a lista de leis que alteraram a Lei Maria da Penha (LEI Nº
11.340, DE 7 DE AGOSTO DE 2006) nos últimos 13 anos, em ordem
cronológica de publicação:

 LEI Nº 13.505, DE 8 DE NOVEMBRO DE 2017 – Dispõe sobre o direito da


mulher em situação de violência doméstica e familiar de ter atendimento policial
e pericial especializado, ininterrupto e prestado, preferencialmente, por
servidores do sexo feminino.

 LEI Nº 13.641, DE 3 DE ABRIL DE 2018 – Tipifica o crime de


descumprimento de medidas protetivas de urgência;

 LEI Nº 13.772, DE 19 DE DEZEMBRO DE 2018 – Reconhece que a violação


da intimidade da mulher configura violência doméstica e familiar na modalidade
psicológica;

 LEI Nº 13.827, DE 13 DE MAIO DE 2019 – Autoriza, em algumas hipóteses, a


aplicação de medida protetiva de urgência, pela autoridade judicial ou policial, à
mulher em situação de violência doméstica e familiar, ou a seus dependentes;

 LEI Nº 13.871, DE 17 DE SETEMBRO DE 2019 – Dispõe sobre a


responsabilidade do agressor pelo ressarcimento dos custos relacionados aos
serviços de saúde prestados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) às vítimas de
violência doméstica e familiar e aos dispositivos de segurança por elas
utilizados;

 LEI Nº 13.880, DE 8 DE OUTUBRO DE 2019 – Prevê a apreensão de arma de


fogo sob posse de agressor em casos de violência doméstica;
 LEI Nº 13.882, DE 8 DE OUTUBRO DE 2019 – Garante a matrícula dos
dependentes da mulher vítima de violência doméstica e familiar em instituição
de educação básica mais próxima de seu domicílio;

 LEI Nº 13.894, DE 29 DE 0UTUBRO DE 2019 – Prevê a competência dos


Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher para a ação de
divórcio, separação, anulação de casamento ou dissolução de união estável nos
casos de violência.

Agora, nos deteremos a explicar a principal modificação feita à lei (na opinião
de alguns especialistas). Importante lembrar que, em breve, publicaremos um
artigo dedicado exclusivamente a apresentar e analisar todas as modificações
feitas nos últimos 13 anos. Algumas dessas modificações causaram
controvérsias, por isso, não é viável falar sobre isso de forma superficial.

Criação do Crime de Descumprimento de Medida Protetiva

As medidas protetivas de urgência estão previstas na Lei Maria da Penha e são


usadas para proteger mulheres em situação de violência doméstica, familiar ou
aquelas decorrentes de relações íntimas de afeto. Elas podem ser aplicadas de
diversas formas, a mais comum é aquela que exige que o agressor mantenha
determinada distância da vítima e/ou não tente contato com ela e seus
dependentes.

É um instrumento importante para o combate e prevenção a novas violências, e


pode ser solicitada diretamente na delegacia quando for feito o boletim de
ocorrência. A medida protetiva em si não é uma medida penal e sim um
procedimento cautelar. Isso significa que não precisa que tenha havido um crime
para que ela seja solicitada e concedida.

Contudo, é comum que a medida protetiva seja usada depois que um crime já
tenha sido cometido, como ameaça, lesão corporal, estupro, injúria, dentre
outros. A Lei nº 13.641, de 3 de abril de 2018 alterou a Lei Maria da Penha
incluindo o artigo 24-A que cria o crime de Descumprimento de Medidas
Protetivas de Urgência com pena de detenção, de 3 meses a 2 anos. Isso
significa que o agressor que descumprir medida protetiva poderá ser preso e
processado por este crime, além dos outros que possa já ter cometido contra a
vítima.

Por um lado, temos o velho problema de lidar com violência de gênero usando o
encarceramento como alternativa. Por outro, a maioria das mulheres vítimas de
feminicídio já foi vítima de outras violências antes. Então, em alguns casos, a
detenção do agressor pode prevenir que a vítima seja morta, além de pressionar
o agressor para de fato cumprir a medida protetiva, já que antes, muitos
desrespeitavam por não haver uma penalidade clara.

Próximos passos
Um dos principais desafios no combate à violência contra a mulher é o
reconhecimento dessas violências.

Ainda vivemos em uma sociedade que naturaliza muitas violências como


rotineiras, normais ou até parte inevitável das relações.

Isso não significa que qualquer desentendimento seja necessariamente violento,


mas significa que o padrão de muitas relações é permeado por práticas
agressivas o que faz com que mulheres demorem anos para compreenderem a
situação abusiva e pedirem ajuda.

É ingenuidade acharmos que superaremos esse problema apenas com a criação


de novos crimes. Muitas das condutas que já são criminalizadas continuam
sendo praticadas, o que mostra que usar o Direito Penal como estratégia
principal traz poucos resultados.

Enquanto criarmos meninos a não processarem seus sentimentos de forma


saudável, estimularmos eles a se expressarem por meio da agressividade e
determinarmos padrões nocivos de masculinidade, continuaremos
desenvolvendo pessoas com referências distorcidas sobre como é aceitável tratar
os outros.

Isso também se aplica à maneira que criamos meninas. Não podemos permitir
que elas acreditem que “se um menino te trata mal é porque ele gosta de você”,
“se ele tem comportamento irracional por ciúmes é sinal de amor”, “ser
possessivo é normal de quem quer o outro só pra si”, “foi apenas um empurrão,
ele não fez por mal”.

Quanto mais reafirmarmos essas narrativas mais difícil será das pessoas
inseridas em dinâmicas abusivas compreenderem o problema, pois sempre se
convencerão de que aquilo não é sério o suficiente para pedir ajuda ou terminar
o relacionamento.

O primeiro passo para evitar violência e impunidade não é a prisão e sim a


educação.

Homens que se desenvolvem de forma saudável, que não são expostos a padrões
negativos de masculinidade dentro de casa e mulheres que não vivem em
famílias que naturalizam as violências contra mães, avós, tias etc. conseguirão
trilhar caminhos que não serão atravessados pela violência, não havendo
necessidade do Direito Penal intervir na vida delas.

Se você presenciar violência contra a mulher não se omita, ligue para o 180 ou
faça a denúncia para as autoridades. Omissão também mata.

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