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A Psicologia Infantil

Michael Fordham

Alessandro Caldonazzo Gomes

Psicólogo – Analista Junguiano

Fordham

* 4 agosto 1905 / + 14 abril 1995

Michael Fordham

Começou sua carreira profissional no London Child Guidance Movement;

Foi uma figura de liderança na Society of Analytical Psychology, assim como membro honorário da
British Psychological Society e um membro fundador do Royal College of Psychiatrists.

Primeiro editor do Journal of Analytical Psychology e co-editor das Collected Works de Jung.

Escola inglesa: ênfase na clínica (em dados biográficos e de transferência, não tanto arquetípicos).

Michael Fordham

Principais contribuições:

Foi o primeiro a apresentar um modelo junguiano do desenvolvimento;

Delineou o processo de Individuação no início da vida;

Concepção de um Self Primário existente na infância;

Conceito de Deintegração;

Identificação Projetiva;

A criança vista como um indivíduo;

Primeiras descrições da psicoterapia junguiana em crianças;

Divergências das ideias de Jung

a) O desenvolvimento e o processo de individuação

criança necessita de fortalecer seu ego para poder controlar seu mundo interior e exterior;

Vai de uma posição coletiva para uma individualizada, mas para isso, é necessário primeiro, uma
adaptação às normas coletivas introduzidas pela educação social (familiar, escolar, social);

Divergências das ideias de Jung

a) O desenvolvimento e o processo de individuação

inicialmente segue os padrões coletivos para, aos poucos, ir se separando, se interiorizando, se


rebelando, se identificando dos mesmos para construir sua identidade;

introdução da criança nos conceitos ideologicamente estabelecidos pela sociedade (ideias culturais,
políticas, religiosas, etc.), - sujeito sócio histórico -

Divergências das ideias de Jung

b) tensão entre opostos


a qual precisa de uma solução irracional ou simbólica para a sua integração, sugerindo certa suspensão
da vontade (egoica) para a solução do mesmo;

Já, a criança precisa do fortalecimento do seu ego, e para isso, deve contrapor-se a determinados lados
de certos opostos (instinto X comportamento social, por exemplo) ≠ de Jung

Divergências das ideias de Jung

c) Teoria dos Tipos Psicológicos

o problema da criança seria determinar qual a sua melhor atitude e função, dando-lhe apoio para a sua
atitude e função inferiores para sentir-se mais eficiente e autoconfiante, e não estimular a consciência
da tipologia complementar;

Conceitos de Fordham

I- O Self Primário

É uma unidade psicofísica que é “a base sobre a qual repousa a noção de identidade pessoal e da qual
procede a individuação” (p. 22)

É uma totalidade existente desde o nascimento e tem importância central no amadurecimento.

“Não sou eu que me crio, na verdade eu aconteço a mim mesmo.” (Jung, CW VIII, § 391)

Conceitos de Fordham

I- O Self Primário

Autonomia da estrutura psíquica da criança, que nasce com uma própria configuração original e única.

Concepção dinâmica do Self: não é uma entidade final, mas uma realidade em desenvolvimento, que
se perde e se adquire continuamente.

Conceitos de Fordham

II- O Self Objeto

O Self primário - que é uma totalidade organizada, mas indiferenciada - vai em busca do Self objeto.

A “seleção” que o Self faz de determinado objeto e não de outro: isso é a deintegração do Self –
separação de si mesmo em muitas partes;

Conceitos de Fordham

II- O Self Objeto

É no estado pré-consciente que o meio ambiente, particularmente o meio ambiente emocional, exerce
sua maior influência devido à falta de limites claros do ego – o que é o ego e o que é não-ego?

O self objeto é a projeção em algum objeto (mãe, seio, corpo, etc) e “retorna” para o ego em forma de
imagem cognitiva – simbolização da realidade - CONSCIÊNCIA;

Conceitos de Fordham

II- O Self Objeto

A ideia de Jung sobre o Self como expressão unicamente de estados estáveis de integração é
radicalmente alterada pela noção de Fordham, pois ele pressupõe que durante o amadurecimento há
recorrência de estados instáveis, ora envolvendo parte, ora envolvendo todo o Self.
Sua duração é variável, apesar de o Self total continuar em existência.

Conceitos de Fordham

II- Self Objeto

A entidade estabilizadora é inicialmente apenas o Self, mas logo o ego contribui e garante que as
sequências dinâmicas no Self não se revelem improdutivas e circulares, mas sejam alteradas pela
atividade do ego, o que, por sua vez, aumenta sua força.

Conceitos de Fordham

III- A Deintegração – Integração

Deintegrar = sair de algo integrado.

Algo em mim sai, encontra um objeto que faz sentido e volta para mim, ficando à disposição do ego.

É a divisão espontânea do Self em partes.

O Self se divide para formar o ego.

Conceitos de Fordham

III- A Deintegração – Integração

Tudo está no Self, mas ele, como totalidade, é inconsciente. Então, o Self “se parte” em diversos objetos
e assim, o ego se forma.

A partir do Self primário, no contato com a mãe, o ego se forma.

Conceitos de Fordham

Conceitos de Fordham

III- A Deintegração – Integração

Deintegração é diferente de desintegração, que tem a ver com destruição ou despedaçamento de um


ego já formado.

Deintegração: um processo em que o Self se dispõe a se fazer conhecer.

Na relação entre o interno e o externo, o bebê vai captando o externo e formando seu ego.

Conceitos de Fordham

III- Deintegração – Integração

Os produtos da deintegração transformam-se em núcleos egoicos que serão reunidos em um único


núcleo do ego mediante a ação integrativa do Self.

No início a entidade establizadora é apenas o Self, mas depois o ego contribui e garante que as
sequências dinâmicas no Self não se revelem improdutivas e circulares, mas sejam alteradas pela
atividade do ego. (Fordham, pág. 87).

Conceitos de Fordham

III- A Deintegração – Integração

O Self primário do bebê é radicalmente perturbado pelo nascimento, no qual o psicossoma é invadido
por estímulos tanto internos quanto externos, que dão origem a ansiedade prototípica.
Em seguida, restabelece-se um estado estável, finalizando assim, a primeira sequência clara de
perturbação seguida de estados estáveis ou de repouso.

Conceitos de Fordham

III- Deintegração – Integração

A sequência repete-se sem cessar durante o amadurecimento e as forças motoras que estão por trás
são chamadas deintegrativas e integrativas.

A princípio as sequências são rápidas, mas, à medida que a organização psíquica prossegue, elas se
expandem em períodos bem mais longos, até que se atinja uma relativa estabilidade na maior parte do
tempo.” (Fordham, pág. 89)

Conceitos de Fordham

IV- Sequência de deintegrações:

1. o nascimento;

2. a aproximação à mãe visando à amamentação, com especial referência às mudanças que


ocorrem em torno dos três meses, sete meses e desmame;

3. a fase de separação-individuação (quando a criança começa a mover-se e ter mais autonomia);

Conceitos de Fordham

IV- Sequência de deintegrações:

4. a crise gerada pelo nascimento de um irmão e eventos edipianos.

5. Após isso, o período estável de latência conduz às perturbações da adolescência e a uma maturidade
relativamente estável, que continua até a transição para uma fase posterior da vida, quando as
seqüências deintegrativo-integrativas se repetem e os processos de individuação recomeçam.

Conceitos de Fordham

V- A identificação Projetiva

A identificação projetiva dá origem a estados descritos como identidade primitiva, participation


mystique e fusão.

É um método poderoso para a formação de imagens arquetípicas (Fordham, pág. 90).

Conceitos de Fordham

V- A identificação Projetiva

Conceitos de Fordham

V- A identificação Projetiva

O cosmo do bebê é, antes de mais nada, ele mesmo e se restringe à imagens corporais.

À medida que as sequências deintegrativo-reintegrativas vão ocorrendo, os resultados de seu


funcionamento se tornam estáveis e, enquanto a imagem corporal se forma – e com ela uma percepção
mais nítida do que está dentro e do que está fora do corpo – desenvolve-se na criança a percepção de
si mesma e do mundo exterior. ...

Conceitos de Fordham
V- A identificação Projetiva

Uma vez estabelecida essa percepção, o bebê distingue o que é e o que não é ele mesmo – uma
formidável realização do ego.

A partir daí ele pode desenvolver toda uma gama de sentimentos, imagens e pensamentos a respeito de
si próprio (Fordham, pág. 92).

Conceitos de Fordham

V- A identificação Projetiva

À medida que prossegue o crescimento do ego, os sentimentos originalmente de onipotência,


integram-se em um sentido de identidade em uma pessoa que é continuamente a mesma no espaço e
no tempo.

Quando isso ocorre, o sentimento do Self torna-se mais realista e o bebê pode cada vez mais relacionar-
se como pessoa com os que o cercam e com o mundo objetivo.” (Fordham, pág. 90)

Conceitos de Fordham

V- identificação Projetiva

Ali ele pode destruir mais ou menos o Self continente ou pode fornecer informações a seu respeito, as
quais podem ser integradas quando a projeção é retirada.

Ela pode então ser uma forma primitiva de percepção e, como o processo pode ser vivido
inconscientemente por ambas as partes, é também uma forma primitiva de comunicação,
principalmente quando as fronteiras do ego são fracas.

Conceitos de Fordham

V- A identificação Projetiva

1. Primeira mamada - seio

2. Corpo da mãe

3. Pele

4. Objetos bons e maus

5. Banho e na troca de fraldas

6. Tratar o bebê como pessoa

7. Frustração do bebê

8. Objetos transacionais

9. Brincar

Conceitos de Fordham

V- A Criança como Unidade Separada dos Pais

Conceber a criança assim permite que se estabeleça uma base para o atendimento de crianças na
clínica.

O meio para a compreensão das crianças é bloqueado se fazemos especulações adultomórficas


(atribuição errônea de características adultas à crianças).
A psicopatologia da criança não é apenas um resultado da identificação e introjeção dos processos
inconscientes de seus pais.

Conceitos de Fordham

VI- A Criança como Unidade Separada dos Pais

Fordham fala da contribuição ativa da criança pequena no estabelecimento da relação inter-subjetiva


com a mãe.

Os comportamentos da criança não são só reativos e reflexos, ela apresenta certa capacidade de
iniciativa com relação à mãe e parece que os seus olhares, seus choros, seus movimentos sejam feitos
de propósito para influenciar sobre os sentimentos da mãe e forçá-la a unir-se a ele.

Conceitos de Fordham

VI- A Criança como Unidade Separada dos Pais

Como a mãe não se relaciona com o bebê como se ele fosse um feixe de sistemas fisiológicos e sim
como uma pessoa, ela apreende e respeita a integridade e a verdadeira natureza de seu filho. (Fordham,
pág. 100)

O bebê ativamente promove o apego de sua mãe a ele. O par afetuoso é essencialmente interativo.
(Fordham, pág. 104)

Conceitos de Fordham

Conceitos de Fordham

VI- A Criança como Unidade Separada dos Pais

O bebê não existe apenas num estado narcísico, fundido ou identificado com o inconsciente da mãe,
que seja parte dele ou que seja essencialmente não integrado.

O bebê se relaciona com o objeto. Ele pode distinguir entre o que é ele mesmo e as partes da mãe com
as quais tem contato, apesar de não estar consciente de fazê-lo – isso vem depois.

Conceitos de Fordham

VI- A Criança como Unidade Separada dos Pais

Quanto maior o Self (e menor o ego), mais numinosa a experiência. Quando o ego vai se formando vai
ampliando a vida consciente.

Quando o bebê evoluindo fisicamente vai aumentando sua capacidade para a mobilidade física, cria
uma capacidade para separação psicológica (fase de “separação-individuação”), isto é, evolui
psicologicamente também.

Conceitos de Fordham

VI- A Criança como Unidade Separada dos Pais

O turbilhão das relações familiares é inevitável e até desejável; na verdade, a relação mãe-bebê que não
tem um pouco disso torna a separação difícil e às vezes, prejudicial.

Portanto, é importante reconhecer não apenas o amor e o ódio que o bebê tem da mãe, mas também
o amor e o ódio que ele pode evocar nela.

Conceitos de Fordham
VII- Defesas do Self

O Self possui mecanismos de defesa análogos aos do ego. Eles entram em ação quando existe uma falta
de um “encaixe” suficientemente empático entre bebê e mãe, de modo que os processos deintegrativos
normais não fluem com liberdade.

Conceitos de Fordham

VII- Defesas do Self

Em “O Self e o autismo”, Fordham diz que a falta de uma capacidade para simbolizar nasce de uma
“catástrofe básica” na relação entre mãe e bebê, de modo que, embora a mãe alimentasse o bebê, não
ocorreu uma comunicação emocional.

Essa falta, conjugada com privações mais tangíveis como enfermidade, morte prematura da mãe e
outras, pode levar a um refúgio na unidade, expressa na ausência da capacidade do “como se”, da
capacidade de simbolizar.

Conceitos de Fordham

VII- Defesas do Self

Através da análise posso descobrir de que maneira o indivíduo estrutura defesas primitivas.

São defesas que impedem a deintegração, que é uma forma de contato com o objeto e desenvolvedora
da consciência.

Conceitos de Fordham

VII- Defesas do Self

A criança nasce com defesas (que podem tornar-se patológicas) contra:

cuidados materiais excessivos;

cuidados insuficientemente confiáveis;

cuidados grosseiramente defeituosos – que levam ou ao narcisismo (defesa quanto a um dano a um


sentido de identidade muito pobre) ou autismo secundário (onde não há Self-objeto) e a pessoa se
desenvolve, mas não se individua.

Conceitos de Fordham

VII- Defesas do Self

Através da transferência é possível reconstruir defesas muito primitivas, as defesas do Self.

O indivíduo vive num mundo perfeitamente percebido, mas desprovido de significado.

Para o Self primário poder deintegrar tem que ter certeza de uma coisa boa para integrar.

Referências

FORDHAN, Michael. A criança como indivíduo. São Paulo: Cultrix. 2002.

Giglio, J & Giglio, Z (org.) Anatomia de uma época – olhares junguianos através do binômio
eficiência/transformação. (artigo de Maria de Lurdes Bairão Sanchez). Campinas, SP: Instituto de
Psicologia Analítica de Campinas, 2002

JUNG. Carl Gustav. O desenvolvimento da personalidade. (CW XVII). Petrópolis: Vozes. 1986
SAMUELS, Andrew. Jung e os pós-junguianos. Rio de Janeiro: Imago. 1989.