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HISTÓRIA DA CAPELANIA

Conceito Histórico & Objetivos Gerais

A palavra capelania é derivada do latim e significa capellanus (CABO). Dentro do contexto


moderno, esse termo usualmente refere-se aos ministros religiosos que servem nas forças armadas,
visando a orientação espiritual dos homens.

Em muitos lugares ele é um oficial entre as tropas às quais serve. É o responsável pela vida
religiosa de seus homens e também atua como conselheiro religioso. Parece que o termo foi
aplicado pela primeira vez ao padre que tomava conta da capa (CAPPELA) de São Martinho de
Tours. A partir daí, se desenvolveram vários tipos de Capelães. O ofício de capelão expandiu-se e
alguns capelães passaram a exercer o poder eclesiástico antes da era contemporânea. Esse ofício
incluía homens nomeados para servir e conduzir a nobreza de outros clérigos da hierarquia
eclesiástica. Finalmente, os capelães passaram a ser nomeados para servir em quartéis, hospitais,
prisões e instituições de educação. A capelania militar é um antigo ofício. O título de capelão
hospitalar é também antigo e, usualmente, o capelão faz parte do pessoal assalariado do hospital. Os
capelães de Instituições de ensino, usualmente, são ministros do Evangelho: rabinos, padres e
pastores, que tomam conta de um Campus universitário ou de uma fundação religiosa
denominacional, localizada perto de um. Atualmente, na sociedade moderna, encontramos o
aparecimento dos capelães industriais. Os sacerdotes operários da França servem de exemplos desse
conceito. Eles ministravam enquanto trabalhavam, assegurando algumas posições de respeito na
indústria.

Objetivo:

Evangelizar com renovador ardor missionário o mundo da saúde, do social, nas instituições,
presídios, asilos. O capelão é a luz da opção preferencial pelos pobres. Na ajuda a enfermos e
desabrigados, participam ativamente da construção de uma sociedade justa e solidária a serviço da
vida pelo nome do nosso salvador Jesus Cristo.

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Introdução:

I - O PAPEL DO CAPELÃO NA PASTORAL DA SAÚDE

OBS: Nos referimos a doente(s) e paciente(s) tanto para o gênero masculino (homem) quanto para o feminino (mulher).

Uma das maiores necessidades do ser humano é ser amado e compreendido. Os


representantes dos hospitais ressaltam a importante contribuição da Capelania Hospitalar na cura
terapêutica, como uma ação que complementa o trabalho dos profissionais da saúde.

Os Capelães (Pastores, Missionários, Evangelistas, Padres, Teólogos), devem ter diante dos
olhos que o direito e o dever de exercer o apostolado é comum a todos os membros do corpo de
Cristo, sejam pastores ou membros e que na edificação da Igreja, os Capelães da saúde têm sua
função própria. Essas funções deverão ser desenvolvidas em união com todas as equipes
eclesiástico-hospitalares.
Falar da Capelania Hospitalar é falar de Jesus Cristo e de sua Igreja, na qual Ele continua
sua obra de cura e salvação integral. Curando fisicamente o enfermo, Jesus o devolve também à
vida social, restaurando as relações com os demais e sua comunhão com Deus. Portanto, os capelães
se colocam à disposição da comunidade e são indicados pelos seus pastores a serviço dos enfermos,
quer em domicílio (saúde comunitária) quer nos hospitais ou ainda atuando junto a movimentos na
dimensão político-institucional.

1- Quem é o Capelão da saúde?

O Capelão da saúde é aquele que, a exemplo de Jesus, expressa o amor misericordioso de


Cristo; a solidariedade e a gratuidade com os mais necessitados. Com o seu testemunho anuncia o
Deus da vida e o Cristo que salva e se compromete na construção de um mundo mais humano,
solidário e fraterno.
Primeiramente, é muito importante que o capelão tenha uma personalidade madura e
equilibrada, tornando-se sensível e ao mesmo tempo solidário ao problema do outro. Um capelão
bem formado usará menos “receitas prontas” e mais compreensão; menos repetição e mais
liberdade com a palavra de Deus. Suas características são muito importantes, pois sempre
transparecerá para os outros a identidade de Cristo, e sempre estará aberto para a compreensão do
próximo.
Sua identidade se manifesta da seguinte maneira: pelo sentimento de Cristo da existência
humana; pela fé amadurecida na piedade e na experiência; encarando o ato da visita ao doente como
ação terapêutica de saúde e salvação; sendo testemunha dos valores espirituais; evangelizando e

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confortando os enfermos; orando e pregando o Evangelho de Cristo com eles, ajudando-os a
descobrir o verdadeiro sentido da vida; sendo disponível e paciente; sabendo escutá-los com
discrição e humildade; sofrendo com os que sofrem e alegrando-se com os que se alegram;
compreendendo as reações de quem padece; respeitando a religiosidade do enfermo sem lhe impor
o próprio estilo de fé; aceitando o ritmo do amadurecimento humano e espiritual de cada pessoa;
sabendo passar da discussão à experiência de Deus; aliviando a solidão de alguns, a angústia de
muitos e abrindo a esperança de todos; incutindo confiança em Deus e dando paz e amor a todos,
sobretudo aos mais fracos. E, no amor de Cristo, ser fiel à sua missão (visitação aos enfermos).

2- A Preparação do Capelão

O Capelão necessita, para desenvolver sua missão, de formação específica e permanente.


Formação não é o luxo que alguns podem permitir-se, é uma condição indispensável para enfrentar
hoje as situações adversas e prestar uma assistência eficaz na direção da palavra de Cristo.
Estamos no começo do século XXI, vivendo num mundo em que todos os setores da
sociedade exigem pessoas capacitadas. Desde os trabalhos e profissões mais simples até os mais
complicados, sem distinção.

No hospital, mesmo para fazer limpeza, existe técnica e preparo. Hoje, o espaço é cada vez
menor para as improvisações. Por isso, o capelão da saúde precisa estar aberto e disposto para este
ensinamento. Como não se admite alguém que queira trabalhar como enfermeiro ou médico,
simplesmente por ele ser muito religioso ou ter muita fé, não é admissível que alguém que queira
ser agente de pastoral se dê ao luxo de ser incompetente.

É necessário que a Capelania da saúde seja assumida como uma ciência acompanhando
outras ciências, os novos modelos culturais, o progresso da técnica e o abandono de velhos
esquemas de interpretação mais adequados. Além de amor, carinho e compaixão para com o doente,
é preciso ter competência. É importante unir teorias e práticas. Como dizia Kurt Lewin: “Nada pode
ser tão prático como uma teoria”.

A finalidade dessa formação reside na aquisição de um estilo específico de relação e


acompanhamento pastoral aos doentes, familiares e profissionais, instituindo tanto na dimensão
espiritual como nas habilidades humanas, seguindo assim a recomendação das Igrejas Cristãs.

3- A Missão do Verdadeiro Capelão

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Jesus confiou à sua Igreja, a missão de assistir e cuidar dos enfermos, perpetuando assim sua
mensagem de misericórdia. Se a Igreja não se ocupasse dos enfermos, não seria a Igreja de Jesus,
pois faltaria uma de suas metas essenciais.
Todos os membros da Igreja devem participar de sua missão, na qual cada um realiza sua
função de acordo com os dons do Espírito Santo. O Capelão tem uma missão especial e qualificada
para atender ao doente. Porém, deve sempre agir com co-responsabilidade junto a todos os demais
membros, para assim transparecer o verdadeiro sentido cristão ao enfermo em que está servindo.
Essa missão qualificada deve ser bem entendida, pois sempre que usamos a palavra missão,
surgem em nossa mente alguns conceitos:

Poder para fazer algo;


Encargo;
Obrigação;
Compromisso.

Todos esses conceitos implicam duas conotações:

Superioridade (alguém capaz, superior, preparado, escolhido);

Inferioridade (fazer somente o que se lhe pedem).

No entanto, participar efetivamente de uma missão implica, além de equilíbrio, tomar


iniciativas, exercer a criatividade, agir com flexibilidade, coerência e autenticidade.

No trabalho missionário da capelania da saúde, não é anormal o capelão sentir-se num


ambiente estranho, mesmo dentro da própria equipe de capelania, nas atividades pastorais na Igreja,
casa e principalmente junto ao leito do doente no hospital. Num mundo em que as maiores
preocupações estão voltadas para as necessidades materiais do homem, parece sobrar pouco ou
quase nenhum espaço para a evangelização. Mas é importante lembrar que “nem só de pão vive o
homem”. Portanto, o complemento do capelão se torna importante na assistência adequada e
completa ao doente.

4- A espiritualidade do Capelão

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Uma vez que Cristo, enviado por Deus Pai, é fonte e origem de todo o apostolado da Igreja,
torna-se evidente que a fecundidade do apostolado leigo depende de sua união vital com Cristo.
“Quem permanecer em mim e eu nele, este dá muito fruto, porque sem mim nada podeis fazer”
Jo15:5.
Essa vida íntima com Cristo na Igreja alimenta-se por meios espirituais, comuns a todos os
cristãos, principalmente na participação na Igreja. “O que fizerdes por palavras ou por ação, fazei-o
sempre em nome do Senhor Jesus Cristo, dando graças a Deus Pai por ele” Cl 3:17.

O capelão é chamado a aceitar e integrar suas próprias feridas, os aspectos negativos da


vida e transformá-las em fonte de saúde para os outros. Isso ajudará na aproximação dos enfermos
com um coração acolhedor, pleno de compreensão, respeito e amor.
O serviço aos enfermos é um autêntico encontro com o amor misericordioso. Não se pode
realizar sem o sacrifício e sem renúncia, pois num mundo marcado pela propaganda e por
informações de toda espécie, percorrido por discursos e apelos religiosos variados, dos mais
contraditórios onde existem tantos mestres, o evangelizador deve testemunhar a espiritualidade
própria seguindo os exemplos do grande mestre Jesus Cristo.

Deve abandonar-se e entregar-se nas mãos de Deus, doando-se sem esperar recompensas,
superando as contradições, sabendo compreender todas as situações, estando aberto e disponível a
todos, sacrificando-se e sendo sensível às necessidades de cada um.

Os capelães da saúde expressam o amor que o Senhor tinha para com os mais necessitados.
Com seu testemunho anunciam o Deus da vida e se comprometem na construção de um mundo
mais solidário.

“Estive enfermo e me visitaste” (Mt 25:36). A presença de Deus junto aos enfermos faz de
nosso serviço aos doentes um ato de culto. Isso, porque Deus não vai perguntar a quantos cultos
você foi. Não podemos ignorar a importância da participação nas celebrações, porém que seja o
resultado da manifestação de amor e solidariedade para com o outro. Por isso, o elemento essencial
de espiritualidade que todo cristão deve assumir como próprio, é a oração. Pois a oração o levará,
aos poucos, a ver a realidade com um olhar contemplativo, que lhe permitirá reconhecer Deus em
cada instante e em todas as coisas; contemplá-lo em cada pessoa; procurar cumprir sua vontade nos
acontecimentos. Na avaliação do trabalho, o capelão da saúde não deve guiar-se unicamente por
critérios de eficácia e de êxito. Purificará constantemente suas motivações e, nos momentos difíceis,
em que se sente desarmado e impotente, reforçará sua confiança no Senhor, o único que pode
salvar. O capelão da saúde terá Cristo Jesus como modelo de serviço, realizando-o com
disponibilidade e fidelidade.
II- A ORGANIZAÇÃO DA CAPELANIA HOSPITALAR

1- A Coordenadoria Administrativa

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Os serviços da capelania hospitalares levaram a atualização de propostas à
superintendência para a criação de canais atualizados e ágeis de comunicação para assuntos
administrativos e operacionais. O Hospital das Clínicas, sob controle de líderes religiosos (capelães,
pastores, padres), exige entrosamento com a administração superior da autarquia para assuntos
administrativos e disciplinares, sem prejuízos de liberdade para desenvolver atividades religiosas.
Consta do artigo 632 do regulamento desse hospital (Dec. Nº 9.720/77): “os assistentes religiosos
subordinam-se diretamente ao Superintendente. Para agilizar e normalizar as atividades da
capelania, a superintendência criou a Coordenadoria Administrativa da Capelania, composta por
dois padres e dois pastores. É o serviço religioso mais antigo do hospital”.

É importante deixar claro que não deve existir nenhuma submissão por parte do capelão
titular, responsável pela coordenadoria do hospital, a capelães e visitantes religiosos. Ele é
autoridade local e cabe a ele a direção e coordenação dos trabalhos de capitania hospitalar.

2- Finalidades da capelania

A capelania tem por finalidade oferecer assistência espiritual e religiosa aos pacientes,
familiares e funcionários, por meio de ações religiosas específicas. Para atender a essa necessidade,
o serviço religioso possui uma sala, e as celebrações são realizadas num anfiteatro.

3- Atribuições da capelania

Manter presença junto aos doentes, procurando oferecer toda solidariedade, conforto
humano e espiritual, respeitando a individualidade e as convicções religiosas de cada um;

Ajudar os pacientes para que a passagem pelo hospital sirva para uma revisão e/ou
descoberta e aprofundamento do sentido da vida;

Servir de apoio aos familiares de pacientes em situações críticas de sofrimento;

Garantir a presença da religião junto aos profissionais da saúde ajudando-os a descobrir o


valor humano e espiritual do seu trabalho;
Desenvolver uma ação de ajuda espiritual, fazendo que os profissionais de saúde,
independente de seu credo religioso, reconheçam os valores espirituais dos pacientes;

Ser um agente facilitador para criar um clima de amizade, fraternidade, compreensão e colaboração
entre os profissionais dos diversos setores;

Celebrar cultos e missas junto com pacientes, familiares e profissionais da saúde;

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Estar presentes nos eventos festivos e celebrativos promovidos pelo hospital.

4- O capelão no hospital

A capelania hospitalar hoje, por ser uma exigência da Igreja, tornou-se integrante das
diversas capelanias competentes. Porém, não devemos querer transportar para o hospital os mesmos
métodos empregados em nossas igrejas. Lá, enquanto as pessoas vão ali em busca de Deus, no
hospital, elas vão em busca da saúde.
O hospital moderno é uma instituição complexa que desenvolve diversas funções:
A) Assistência aos enfermos;

B) Promoção de saúde;

C) Prevenção das enfermidades;

D) Investigação de doenças.

Ao mesmo tempo, se torna uma instituição comunitária, pois conta com um número cada
vez maior de profissionais assegurando um serviço permanente todos os dias do ano, e dispõe de
instalações e aparatos de tecnologia sofisticados.
Portanto, aquele que se prontifica a fazer esse trabalho, além de prestar um serviço de
caráter voluntário, que em geral começa como curiosidade, com o tempo passa a compreender seu
apostolado, dando sentido às suas próprias vidas.

III- O HOSPITAL

É um campo todo especial de apostolado, no qual se entra em contato com os mais


diferentes tipos de pessoas em situações especiais, e onde se apresentam os casos mais complicados
e avançados de doenças que exigem intervenção e solução em regime de urgência. Por isso, embora
a capelania hospitalar esteja intimamente ligada à capelania geral e dela dependa, no ambiente
hospitalar, ela deve assumir uma autonomia própria e ter muito bom-senso.
O hospital é a instituição mais tradicional destinada ao serviço da saúde e dos cuidados
destinados ao outro. É um vivo reflexo da sociedade, de seus conflitos e contradições. Ali se
concentram os mais diferentes tipos de pessoas:

A) Doentes;

B) Familiares;

C) Profissionais (Médicos e Enfermeiros).

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É um lugar de trabalho para os sãos e de esperança e saúde para os doentes. Ali há uma
realidade em que situações conflitantes e opostos se aproximam:

A) vida-morte;

B) cuidado-descaso;

C) sorriso-lágrimas;

D) calma-tensão;

E) tristeza-alegria;

F) dor-alívio;

G) esperança-desespero;

H) culpa-perdão.

Esses opostos se tocam e, por vezes, se unem perigosamente e freqüentemente. Tudo isso
faz com que o hospital, que deveria ser um local de repouso e descanso, acabe se tornando um local
onde agitações, expectativas e angústias se fazem presentes. Daí a razão de até o número de
visitantes ser limitado, mesmo para familiares.
Assim sendo, as pessoas que trabalham como capelães hospitalares da saúde, que necessitam
conhecer em profundidade o mundo hospitalar, podem encontrar alguma
dificuldade para adaptação. Nesse sentido, é importante lembrar que a primeira finalidade do
paciente no hospital não é atendimento espiritual ou de conversão e sim de recuperação da saúde.
Isso não significa que o hospital exclua quaisquer atividades religiosas ou proíba que o doente tenha
assistência religiosa. Inúmeros hospitais reconhecem e dão importância a essa assistência. A própria
Constituição Federal Brasileira garante o direito do paciente de receber visita de seu representante
religioso. O que não garante é que o hospital deva ter um capelão interno constantemente.

É assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa


nas entidades civis, militares e de internação coletiva. Art. 5º p. VII.

No entanto, não fica clara a possibilidade de igrejas desenvolverem trabalhos dentro de


hospitais, mas somente atendimento a quem solicita. O Diário Oficial do Estado de São Paulo, de
13 de abril de 2000, reza o seguinte em seu artigo 3º

“Cabe a cada dirigente das Unidades de Saúde de internação coletiva


de natureza autárquica e/ou privada sob sua responsabilidade, realizar o
cadastramento das denominações religiosas e o credenciamento de seus
representantes (capelães), bem como estabelecer as normas internas relativas
ao acesso e permanência dos representantes credenciados das denominações
religiosas cadastradas, em consonância com suas pessoalidades”.

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Um Hospital de uma Congregação religiosa, por exemplo, pode tranqüilamente admitir
somente o serviço religioso da sua denominação. Nesse caso, as visitas de outras denominações
religiosas, somente serão permitidas em caso de solicitação de algum paciente, pois os hospitais em
geral, não aceitam um serviço religioso que não esteja de acordo com sua realidade ou regimento
interno. Não admitem os chamados proselitismos religiosos, ou seja, tentar convencer o doente de
que a única religião certa é aquela em que eu acredito e sirvo. Não aceitam propagandas de credos e
muito menos manifestações religiosas que perturbem a tranqüilidade do ambiente e desrespeitem
outras crenças.

Além dos aspectos referentes aos diversos credos, o capelão precisa atentar para alguns
detalhes muitos comuns que interferem no trabalho juntos doentes, tais como:

Trazer alimentos ao paciente;


Sentar-se na cama do doente ou em outra cama que esteja desocupada.

Esses, dentre outros procedimentos, devem ser evitados. Caso você queira fazer algo assim é
bom antes entrar em contato com a equipe de enfermagem. É importante lembrar que nós ficamos
pouco tempo com o paciente, e por isso, é difícil saber da sua real situação e do que ele está
precisando.

1- O Capelão

Primeiramente, é importante ressaltar que a atividade de um capelão no hospital, em geral, é


totalmente diferente da equipe médica. O primeiro passo é abrir espaço para o trabalho e inserção
da equipe de saúde, pois o capelão procura cuidar dos casos mais urgentes e atua como um
“supervisor espiritual”, proporcionando momentos formativos para com quem ele trabalha ou
pretende trabalhar.

Deve ser presença visível nas unidades de internação e setor administrativo e ter sempre
disponibilidade para o atendimento, não só dos pacientes, mas também dos familiares e dos
profissionais.

Portanto, o capelão deve atuar como um verdadeiro facilitador, ou seja, facilitar o


relacionamento do doente com seu próprio mundo, com Deus, com seus familiares, com os
profissionais da saúde e, por fim, com sua convicção religiosa.

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2- Os diferentes papéis do capelão no hospital

Um primeiro papel representado pelo capelão é o “Simbólico”, ou seja, nossa identidade


como capelão despertará no doente dois tipos de emoções:

1º POSITIVA
2º NEGATIVA

Obs.: Tudo isso depende das experiências do doente vividas no dia-a-dia hospitalar.

Positiva:

Caso o doente já tenha vivido experiências boas de Igreja, é lógico que a presença do
capelão despertará nele emoções positivas, tais como:

1- Que bom que você veio;


2- Você me faz lembrar de Deus;
3- Sinto que Deus está ao meu lado;
4- Tenho muita fé, etc.

Negativa:

Caso o doente seja acético, materialista, adepto de seitas místicas, mentais ou de sociedades
que não têm a Bíblia ou nenhum tipo de deus, ou ainda, que tenha se decepcionado com alguma
igreja cristã. A presença do capelão despertará nele emoções negativas, tais como:

1- Olha, se Deus existe, estou com muita raiva dele e de Igreja;


2- Acho que é melhor não perder seu tempo comigo;
3- Eu até acredito em Deus, mas não acredito nem participo de Igreja;
4- Deus deve estar ocupado com o universo e se esqueceu da Terra.
Conversando com a pessoa, pode-se descobrir quais são as emoções presentes nesse contexto.
Caso a reação seja positiva, a tarefa do capelão será facilitada. Porém, se as emoções forem
negativas, o que se deve fazer? Dizer até amanhã, virar as costas e sair? Ignorar suas emoções ou
ficar na defensiva e omisso?

Nem uma coisa nem outra, a melhor coisa é dar ouvido às suas queixas. Só depois tentar
colocar algo novo. Por exemplo, fazendo-o entender que talvez tenha tido uma experiência ruim,
porém isso não significa que com todos sejam assim. Não é porque alguém construiu um prédio

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torto, que todos os engenheiros não prestam. Não é porque você teve uma experiência ruim de
Igreja no passado que todos os outro membros são ruins. Nossa presença poderá fazer o doente
mudar sua maneira de pensar. Portanto, ao defrontar com situações semelhantes, você não deve se
aborrecer. Não é você o culpado por tais reações.

O segundo papel representado pelo capelão é o de “Confortador”. Neste papel três


habilidades são muito importantes:

1º – Habilidade de Escutar:
Escutar não somente o que o doente fala, mas também o que ele não diz com palavras. Ouvir
os medos, as angústias, dores, sofrimentos, esperança, desapontamentos e também as alegrias.Isso
porque, ser ouvido por alguém é sentir-se importante. Ninguém ouve de fato aquilo que não
interessa.

2º – Habilidade é tornar-se irmão do doente:


Relacionar-se com as pessoas na situação em que elas se encontram sem se preocupar em
fixar as necessidades delas. Por isso, muitas vezes não devemos fixar as necessidades religiosas.
Talvez seja oportuno partilhar primeiramente as necessidades humanas do doente.

3º – Habilidade é ser um orientador Espiritual:


O capelão deverá ter habilidades para perceber como a pessoa está encarando a própria
doença. Como seu modo de relacionar-se com a doença de certa maneira, refletirá sua maneira de
relacionar-se com Deus.

O terceiro papel é ser “Observador”. O capelão deve observar as reações do doente para
com Deus, de acordo com a doença. A visão que ele tem de Deus poderá ser passageira. Por isso,
como orientador espiritual, o capelão não deverá se comportar como um “advogado” de Deus e não
deverá se preocupar em dar apenas soluções ou orientações espirituais para doentes.
O quarto papel é o de “Facilitador”. Nos dias atuais, talvez, este seja o papel mais
importante a ser desenvolvido pelo capelão. Nos hospitais encontramos pessoas nos momentos
difíceis da vida. Costuma-se dizer que no hospital temos de cuidar exatamente daquilo que não deu
certo na vida:

A) Acidentes que aconteceram durante passeios;

B) Exageros na bebida que acabaram provocando acidentes;

C) Atacado por alguém ou animal;

D) Doenças que tiram as pessoas do trabalho;

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E) Queda grave;

F) Machucou-se praticando esportes;

G) Tentou suicídio;

H) Acidentou-se (no trabalho ou em casa ou na rua ou em viagem);

I) Envenenado;

J) Queimaduras.

3- Normas do Capelão no Hospital

Antes de entrarmos neste assunto, é bom lembrar que: o doente não está no hospital porque
quer. Por mais pessimista que se manifeste, ele nutre uma esperança de receber alta e voltar logo
para casa.
Apresentamos aqui algumas possibilidades referentes aos diversos tipos de pessoas que o
capelão se deparará:

 Pode ter adoecido de uma hora para outra e é recém-chegado ali;


 Está para fazer ou se recuperando de uma cirurgia;
 Sob observação médica;
 Estar em estado terminal;
 Desenganado pela Medicina;
 Ser o acompanhante de algum doente;
 Com doença incurável, mas sob controle;
 Momentaneamente no hospital, porque tem que fazer exames ou outros procedimentos
periodicamente.
Como afirmamos anteriormente, embora seja um trabalho voluntário, o capelão deve possuir
uma filosofia de ação. Por isso, antes de iniciar qualquer atividade pastoral é preciso ter claros os
objetivos que requer atingir. A partir desses objetivos, elaborar normas que devem ser observadas.
As normas devem ser elaboradas de acordo com as diferentes realidades de cada hospital. Aqui
apresentamos um modelo que usamos no Hospital das Clínicas.

Ao visitar o doente:

 Permaneça no apartamento, quarto ou enfermaria e não nos corredores;


 Converse em voz baixa, assuntos agradáveis e de interesse do doente;

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 Procure não agir como visitador repórter, que só faz perguntas para matar a sua curiosidade
pessoal. Levar notícias alegres e agradáveis ao doente;
 Seja um bom ouvinte, portador de vida e esperança ao doente – ouça atentamente o que ele
tem a dizer, e não fique somente falando. Aliás, fale menos e ouça mais.
 Respeite o silêncio que deve haver dentro do hospital, porque o hospital e a Igreja têm muita
semelhança. No hospital, Cristo se faz presente na pessoa do (visitante) capelão;
 Não sente na cama do doente – utilize as cadeiras ou sofás;
 O fumo é causador de doenças – não fume dentro do Hospital e não leve cigarro para o
paciente;
 Não leve crianças para visitar doentes – preserve a saúde delas e a tranqüilidade do enfermo;
 Não sirva alimentos ao doente sem permissão da enfermagem – para crianças da pediatria
não se deve levar guloseimas;
 Respeite os profissionais que trabalham no hospital;
 O visitador deve retirar-se do quarto caso coincida com a visita do médico ou da
enfermagem;
 Ao visitar o doente, não demonstre medo ou repugnância pela enfermidade;
 Evite relatos de casos ou doenças semelhantes;
 Saiba escutar, estender-lhe a mão e sorria para ele;
 Tenha caridade em demonstrar o amor que tem por ele – evite mentiras, dialogue sobre a fé
e a esperança;
 Tenha empatia com o doente – coloque-se em seu lugar para entendê-lo;
 Guarde sigilo do que o doente lhe confiar;
 Ore com ele, por ele e pela sua família;
 Não interfira no tratamento indicado – não dê qualquer medicamento ou suspenda os
receitados pelo médico;
 Tenha a sensibilidade de perceber quando o doente está cansado e necessitado de repouso;
 Procure conhecer a família do doente;
 Mostre que a igreja está interessada em sua saúde;
 Descubra os valores do doente, seus interesses, suas aspirações;
 Mostre bondade e mansidão com doentes e sua família;
 Em tudo tenha discrição e bom-senso – transmita alegria e confiança, seja breve sem ser
afobado ou apressado. Lembre-se: por estar fazendo um serviço aprovado por Deus, é sinal
de que ele está no controle de tudo.
 Não faça gritaria, festa ou barulho junto ao doente, – mantenha um ambiente de paz,
harmonia e silêncio;
 Respeite a dor do paciente e não negue-a;
 Evite frases como:
“É vontade de Deus”,
“Deus quer assim”,

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“Aceite esta enfermidade”,
“Você deve é estar pagando algum pecado”.
 Melhor mesmo é deixar o doente falar, pois provavelmente, ele passa a maior parte do
tempo sozinho.
 Converse com o enfermo somente sobre temas agradáveis;
 Não fale sobre doenças;
 Use um tom de voz moderado;
 Abstenha-se de beijar o doente, bem como utilizar copos ou xícaras de seu uso. Você poderá
estar levando outros germes perigosos até ele.

4- O que não se deve dizer ao doente

 Não fale do aspecto exterior do doente, que piorou desde a última vez ou que ele está com
aparência péssima ou de defunto. Lembre-se: o enfermo é susceptível a tudo e comentários
assim só pioram sua situação;
 Não faça perguntas incômodas, principalmente sobre os sintomas da doença;
 Não dê conselhos médicos nem dê uma de psicólogo;
(Às vezes dizer “Tenha paciência!”, é o mesmo que dizer: “Seja masoquista!”);
 Não conte suas experiências com enfermidades;
 Não leve comida ou doces para o doente (A maioria dos hospitais indica o que se pode levar
ou deixam levar frutas);
 Não diga ao enfermo que não se importa com sua ausência (no trabalho ou) na Igreja.
 Não diga ao enfermo que seu substituto na empresa é ótimo funcionário.

O Capelão Hospitalar serve em o nome de Cristo Jesus, o Salvador, e coloca-se à disposição


dos enfermos para confortá-los na fé e atendê-los em suas necessidades e não o contrário.
IV - PSICOLOGIA DO ENFERMO

“Como o paciente se comporta diante de suas doenças?”

1) O doente e suas crises

Todo doente é um ser único, especial, com reações próprias, conforme sua formação e
personalidade. Ao vermos uma pessoa que sofre de um mal físico, costumamos nos deter apenas no
corpo, esquecendo-nos de que o doente deve ser visto como um todo, no sentido psicológico e
espiritual. Ás vezes, o interior está mais machucado do que o corpo.

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O doente não é uma máquina a ser consertada, mas uma pessoa que foi atingida por doença.
Apesar de continuar a amar, a odiar e a pensar, não está a mesma de sempre. O ritmo de vida é
violentamente cortado e passa a ter as atenções voltadas para si, buscando todas as formas de
reequilibrar sua saúde e vida normal.

De um lado, o corpo doente, com suas fraquezas e limitações, percebe sua fragilidade e
finitude; de outro, seu espírito está com toda vitalidade, mas é incapaz de fazer algo por si. Essas
duas forças incompatíveis o atormentam, gerando crises de comunicação consigo mesmo, com o
espaço e o mundo, com a família, com os amigos e até mesmo com Deus.

2) Crise consigo mesmo

Com saúde, a pessoa é um todo inabalável, que reage e supera obstáculos. Quando doente, o
corpo passa a ser um empecilho para se viver a vida em liberdade. O diálogo entre corpo e espírito
se rompe e fica difícil de reatar, pois as forças opostas que agem (espírito são/corpo doente), fazem
com que o doente, muitas vezes, não entenda a si mesmo e não saiba como reagir na doença.

Para o doente, o mundo se fecha repentinamente e ele vê sua integridade ameaçada. Para
tentar manter ou recuperar seu equilíbrio, lança mão racional ou instintiva de mecanismos de
defesas ou ajustamento. Ex: sublimação, alienação, fuga, literaturas espirituais, etc.

No lugar de uma vida cheia de ocupações com a família, os amigos, o trabalho, sem limites
de horizontes, o doente se vê agora fechado em um quarto, sem saber por quanto tempo e se sairá
dele vivo.
Quando o doente não tem reservas espirituais ou alguém que o ajude, ou quando seus
mecanismos de autodefesa falham, dificilmente sairá sem marcas dessa crise que poderá afetá-lo
profundamente pelo resto de sua vida, de acordo com a gravidade do tratamento.

Torna-se um mero espectador de tudo o que se desenrola e não mais ator. Não tem
condições de realizar nada sem ajuda de outros, ás vezes nem mesmo suas necessidades íntimas.
Olha tudo de longe e não tem certeza se voltará às suas ocupações normais.

3) Crise com os amigos

O relacionamento com os amigos sofre uma quebra, pois poucos são os que continuam
juntos na hora da doença. Mesmo assim, aqueles com quem costumava conversar de forma alegre e

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descontraída, mudam para uma fala pausada, medida, tensa e preocupada. Isso, pó vezes, pode
deixar o doente ainda mais triste e desanimado.

Muitas vezes não conseguimos passar ao doente o otimismo que pretendemos, não
conseguimos fazer com que ele se sinta o mesmo de antes. Em casos de internamento, podem surgir
novas amizades, mas estas nem sempre satisfazem. Pois são marcadas pelo sofrimento.

4) Crise com a família

Não são poucas as vezes em que ocorrem problemas de ordem familiar quando há uma
pessoa adoentada. Se for criança, percebe-se a preocupação e intranqüilidade dos pais e amiguinhos.
Se for jovem ou adolescente, geralmente “senhor” de si mesmo, vai sentir-se mal, recebendo tantas
atenções. Sente-se como que fosse um peso.

Sendo for adulto chefe de família, rompe-se a normalidade do lar. Não há quem mande,
quem pague as contas, acerte compromissos assumido ou faça as outras coisas que deveriam ser
feitas por adultos e estão paradas.

Sente-se humilhado, pois precisa receber cuidados de pessoas que estão deixando seus
afazeres para atendê-lo.

5) Crise com Deus

É fácil crermos em Deus quando gozamos de boa saúde; difícil é mostrar fé quando estamos
doentes. Nos momentos de provação o doente se pergunta o porquê daquilo acontecer com ele.
Acha que Deus o abandonou e que não está presente. Não consegue ver que Deus está, de certa
forma, em todos os que cuidam dele e que vivem o seu sofrimento. Na Bíblia, a história do patriarca
Jó reflete bem essa situação. Ele se entristece, é acusado por amigos, perde todas as suas posses e
10 filhos, se questiona... mas não abre a boca contra Deus.

A crise com Deus costuma ser a reação inicial de todos os doentes. Até que consigam voltar
ao equilíbrio, esta crise será tanto mais grave, quanto mais grave for a doença e, portanto, podendo
acarretar maior afastamento de Deus.

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6) Pacientes em fase final de Vida

Como você reagiria se um médico chegasse para você e lhe dissesse:


Aquelas dores que você estava sentido de uns tempos para cá, infelizmente são graves. Nós
vamos fazer exames, tentar todos os tipos de tratamento, mas nada posso garantir.
Você levaria um choque, com certeza, principalmente sendo jovem, uma jovem mãe de
família, um homem no auge de sua vida e de sua carreira profissional, um jovem que aspira a um
diploma de curso superior e está prestes a consegui-lo.

Vejamos as fases pelas quais passa um doente, desde que sabe que tem um mal incurável até
o desligamento final que precede à morte. Estas fases podem seguir esta ordem ou não. Não há
regras.

As fases que o doente, em fase final de vida atravessa, são mais ou menos estas:

A) Repulsa - Negação

É uma autodefesa instintiva da pessoa repelir e negar a notícia. Com isso suspende-se o
impacto brutal e a pessoa vai se adaptando, se conformando ao fato tão cruel. Devagar, também, o
doente vai conseguir a coragem e a força de ânimo precisa para aceitar a realidade.
B) Cólera

O aborrecimento e a raiva explodem às vezes com blasfêmias, que devem ser vistas mais
como perturbação interior do que real revolta contra Deus. É comum a reclamação: Porque eu? Que
tenho família para cuidar, filhos para criar e não aquele velhinho que está doente a tanto tempo?
Se a doença é mortal e altamente infecciosa, é comum doentes dizerem coisas como: Vou,
mas não vou sozinho. Vou levar muitos comigo também!

C) Depressão

Quando a cólera e a repulsa se esgotam, vem a depressão. A pessoa toma consciência mesmo
da doença e vê que não há como manter a morte à distância.
Quando o paciente enfrenta sérios problemas pessoais e com a família, fala convulsivamente
e com preocupação. Se, no entanto, sente sua personalidade se desmoronando, fecha-se em si
mesmo em longos períodos de silêncio, mergulhando em pensamentos tenebrosos e tristeza
profunda. Dizer-lhe para que não fique triste é prejudicial, pois todos ficamos tristes quando
perdemos um amigo. Imaginem, então, um doente que está prestes a perder todas as coisas e as

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pessoas que ama. Se ele expressa sua dor, fica mais fácil aceitar a situação. Devemos manifestar
solidariedade de diversas formas como carinho, atenção, compreensão ou simplesmente silêncio.

7) O Capelão e o paciente terminal

Um dos problemas mais comuns encontrados na prestação de ajuda a quem está perto da
morte é que parentes e amigos não sabem por onde começar. Dificuldades semelhantes encontra
também o capelão hospitalar, pois a assistência aos moribundos é uma arte que se aprende mediante
uma longa preparação que visa tanto um modo de ser quanto à aquisição de capacidades bem
determinadas.

O Capelão procurará, portanto, criar um clima de confiança por meio de contatos contínuos
com os doentes, sobretudo num ambiente não muito religioso. Franzoni afirma que, “O caminho
proposto no acompanhamento do moribundo pode se resumidamente descrever da seguinte
maneira:

O sofrimento sem amor é desespero, mas se estiver unido a uma experiência de amor,
adquire em si mesmo e ajuda a abrir-se aos outros e, portanto, ao outro a Cristo-Amor de oblação,
em quem se deve fundamentar a própria esperança autêntica.

Dentro dessa perspectiva, a condição preliminar para ajudar o paciente é a compreensão de


seu mundo e o testemunho do capelão, a escuta atenta da canção doce e triste que ele entoa. Essa
escuta não se limita à compreensão de suas palavras. Os gestos exprimem de modo mais profundo.”

É fundamental também que o capelão entenda sua condição de mortal. Ninguém pode
pretender ser um verdadeiro mensageiro de valores de vida, um verdadeiro companheiro de um
moribundo, se não é capaz de enfrentar sua própria condição de mortal, tendo em si, a verdadeira
palavra de Cristo para transmitir e confortar o paciente.

8) Como ajudá-lo

O primeiro ponto a ser destacado no acompanhamento ao paciente terminal é, sem dúvida, a


solidariedade da presença, pois aquele que está para morrer sente a necessidade da proximidade
tranqüilizante de alguém. O que mais importa na assistência ao moribundo é provavelmente uma

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presença percebida como amiga, fraterna e compreensível, de apoio e disponibilidade,
acompanhada pela aptidão de ouvir, atender, interpretar corretamente o que o doente pode
eventualmente desejar exprimir, direta ou simbolicamente. É importante saber se o paciente quer ou
não ser ajudado. Saber também se não existem outras pessoas que estejam ajudando ou propensas a
ajudar. Talvez o doente, por uma questão de empatia ou simpatia, tenha mais afinidade com
determinadas pessoas.

O capelão deverá obter algumas informações sobre o doente e sua situação clínica, não
para tratá-lo de maneira diferente e sim para tratá-lo com maior naturalidade e sem excesso de
compaixão. Por meio de diálogo com a família do doente deve se procurar saber quais são suas
necessidades mais urgentes. Dialogando com o doente procure saber o que ele gostaria de fazer.
Escutar é sempre importante. Esse é um presente valioso nessas horas e que sempre se pode
oferecer, porém, saiba que é importante dosar o tempo de escuta. Não é oportuno visitar um dia e
depois passar muito tempo ou mesmo não retornar mais. Talvez seja oportuno fazer visitas mais
curtas e mais freqüentes. O bom-senso e o grau de amizade com o enfermo marcarão os tipos de
conversa e o tempo adequado para cada uma.
9) Termos técnicos:

Moribundo ou paciente terminal deve ser entendido como a expressão anglo-saxônica


“terminal” que indica uma situação de morte não tão próxima quanto o vocábulo português dá a
entender. Na realidade, o paciente terminal deve ser entendido como enfermo acometido de uma
doença crônica, cujo prognóstico é ruim com lento declínio progressivo das funções fisiológicas
normais. Mas as estatísticas confirmam que certa porcentagem de doentes considerados terminais
ou desenganados pelos médicos consegue se recuperar completamente e retornar às suas atividades
normais e nunca mais têm seqüelas e morrem muitos anos depois por outro motivo qualquer.

V- A MORTE E O MORRER

Nenhum subterfúgio pode evitar a dureza de um caso sério e a morte é um caso sério.
Apesar disso, os vivos registram radical aspiração para viver e radical aversão à morte. Há uma
música que traduz isso corretamente: “Ninguém quer a morte, só saúde e sorte.”

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A ciência, que procura a todo custo prolongar a vida, muitas vezes prolonga, sim, é o
processo do morrer, ou seja, prolonga o sofrimento da pessoa. Acrescenta-se a isso que a vida,
muitas vezes, agride a própria vida para sobreviver. Sem contar as aplicações de remédios e
produtos químicos. Enquanto houver esperança...
No mundo moderno são acentuados os valores do êxito, da produtividade e da vida. Isso
faz que esqueçamos quase completamente de pensar na morte e naquele que está morrendo. Parece
que a morte é colocada fora da vida social. Semelhante ao que acontecia em relação ao sexo, que
era considerado um tabu antes de Freud, acontece com a morte nos dias atuais. Apesar de a idéia da
morte estar presente em todos, ela é assunto proibido em quase todos os ambientes.

Um dos motivos do afastamento da morte é, sem dúvida, a mudança do local em que ela se
dá; hoje, 70% das pessoas morrem nos hospitais. Isso fez que ela não fosse mais um evento da
existência familiar e cotidiana, relegando-a para ambientes externos nos quais se cuida da saúde.
Para a Medicina, a morte é considerada como uma falência das terapias usadas e um resultado
completamente negativo. A exclusão da família, dos amigos e, com freqüência, do sacerdote
(pastor, padre ou capelão) acentua a solidão.

Por isso, tanto para o cristão, como para o judeu ou ateu, testemunha de Jeová, espírita,
seguidor de candomblé ou mesmo para aqueles que têm outras filosofias de vida, a morte é sempre
difícil. Seria um equívoco afirmar que o cristão encara a morte tranqüilamente. Ela é uma realidade,
e nós temos dificuldades para lidar com o desconhecido.

A morte é o mais terrível caminho de separação. É um perder os próprios objetos de amor


e um romper as ligações afetivas mais importantes. Os apegos aos objetos de amor sobre os quais se
apóia a própria identidade são:

A) A família;

B) O trabalho;

C) As relações afetivas;

D) Os projetos;

E) A casa;

F) Os hábitos;

G) Os pontos de referencias;

H) O próprio corpo;

I) A imagem de si;

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J) A autonomia;

L) As raízes;

M) Os estudos;

N) Dinheiros a receber;

O) O passado;
P) A vida.

1- Como encarar o luto

É importante lembrar que o deslocamento do lugar da morte (da casa do hospital) provocou
um distanciamento da morte, sem contar que a tecnologia moderna nos dá “esperança” de livrar-nos
de morrer. Esquecemos que, biologicamente, se por um lado a morte destrói a vida, por outro a
favorece. Se ela não existisse, teríamos de estancar os nascimentos, e o gosto pelo viver acabaria
trazendo um desgosto por não poder morrer.
A morte é também geradora de vida eterna para os que acreditam numa vida do além.
Alguns a chamam de “passagem”, outros dizem ir dessa para melhor”, outros dizem que foi uma
pessoa boa e que vai se reencarnar para uma vida melhor e há quem acredita até que vai para outro
planeta. A cura que a tecnologia tem prometido é limitada no tempo, apenas paliativa e age na
tentativa apenas de adiar a morte. De qualquer forma, a curiosidade será plenamente satisfeita e
cremos que, quando morrermos começará a vida prometida por Cristo, que é eterna: “Esta é a
vontade do meu Pai: que todo homem que nele acredita tenha vida eterna, e eu o ressuscitarei no
último dia”. Jo 6:40.

2- O que dizer e fazer no velório

Um dos primeiros passos é enfrentar o choque que a morte provoca. Por mais que os
familiares esperem, a morte acaba sempre trazendo um choque violento. Portanto, respeite reações
sentimentais. tais como:

A) Choro;

B) Grito;

C) Angústia;

D) Revolta.

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Essas reações são dirigidas aos profissionais, instituição e até mesmo contra Deus. Nesse
momento, antes de qualquer julgamento, o mais importante é ser presença acolhedora. Não diga
nada, só ouça.

O segundo passo é reconhecer que não conseguiremos, num primeiro momento, preencher o
vazio que provoca a perda. O que podemos fazer é colocar-nos à disposição das pessoas e tentar
visualizar quais são as necessidades mais urgentes do momento. Quando a situação estiver
aparentemente sob controle, o capelão poderá deixá-los sozinhos, pois é muito importante estar no
velório ou mesmo fazer uma visita, assim que puder. Porém, tenha certeza de que o mais importante
você já fez, que é levar a palavra de Deus para confortar os familiares.

“Estava nu, e me vestiste; estive


enfermo, e me visitaste; preso e
fostes ver-me”.
Mt 25:36

ALACE.

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CAPELANIA SOCIAL

Introdução:

A capelania social, no singular, é a solicitude de toda a Igreja para com as questões sociais.
Trata-se de uma sensibilidade que deve estar presente em cada Igreja e em cada dimensão. Setor e
pastoral, enfim, devem estar presentes nas comunidades eclesiais de base e nos movimentos. Em
outras palavras, deve ser preocupação inerente a toda ação evangelizadora. Pastorais Sociais, no
plural, são serviços específicos a categorias de pessoas e/ou situações também específicas da
realidade social. Constituem ações voltadas concretamente para os diferentes grupos ou diferentes
facetas da exclusão social, como, por exemplo, a realidade do campo, da rua, do mundo, do
trabalho, de mobilidade humana e assim por diante. O setor capelania social, por sua vez, integrado
na dimensão sócio transformadora, tem duplo caráter:
a) Representa uma referência para toda a ação social da Igreja em termos de assessoria,
elaboração de subsídios e reflexão teórica.
b) É um espaço de articulação das capelanias sociais e organismos que desenvolvem ações
específicas no campo sócio político.

Dentro da dimensão sócio-transformadora, é função da capelania social procurar respostas


para esse tipo de situação. Isto significa que as respostas não estão prontas, não há receitas
acabadas. Em cada momento e em cada local, é preciso iniciar um processo em que o maior número
de pessoas se envolvam na busca de soluções concretas. A partir da conscientização da organização
e da mobilização, abrem se caminhos alternativos. O importante é chamar a atenção da Igreja e da
sociedade para esse quadro de injustiça cada vez mais grave. O importante também, como veremos
adiante é envolver o maior número de atores sociais e de parceiros na luta pela transformação
social.

A Capelania Social tem como finalidade concretizar, em ações sociais e específicas, a


solicitude da Igreja diante de situações reais de marginalização. Mais adiante apresentaremos
algumas indicações práticas de como organizar a ação social na Igreja. No momento, queremos

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alertar para a tarefa de identificar, entre os filhos e filhas de Deus, os rostos mais sofridos, com
vistas a dedicar-lhes uma solicitude pastoral específica.
Os textos bíblicos destacam em suas páginas alguns rostos que têm a predileção do amor de
Deus. No Antigo Testamento sobressaem “o órfão, a viúva e o estrangeiro”. No livro de Êxodo,
Deus “Vê, ouve e sente” o clamor dos oprimidos escravizados no Egito (Ex. 3:7-10). Os profetas
não se cansam de chamar a atenção sobre o direito e a justiça para com os pobres. Nos Evangelhos,
novos rostos desfilam diante de nós.
Freqüentes vezes Jesus enumerou listas em que descreve aqueles que se encontram mais
pertos do carinho do Pai. Ex: o texto do juízo final em Mt 25:31, as bem-aventuranças em Mt 5:1-
12, o programa de Jesus, em Lc 4:16-20, e o episódio do bom samaritano, em Lc 10:25-35.
Também vemos que, os doentes, as mulheres marginalizadas, os pequenos e fracos, as crianças,
uma multidão de gente ferida disputa espaço aos pés do Mestre.

Os Atos dos Apóstolos, as Cartas de Paulo e o Apocalipse revelam igualmente a atenção das
primeiras comunidades para com os pobres. Desde cedo, os cristãos se organizam para suprir as
necessidades básicas de seus irmãos. A Capelania Social é voltada para a condição socioeconômica
da população. Hoje, como ontem, ela se preocupa com as questões relacionadas à saúde, à
habilitação, ao trabalho, à educação, enfim, às condições reais da existência a da qualidade de vida.
“Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância.” Jo 8:10. Retomando os exemplos
acima, ela expressa a compaixão de Jesus e o amor da mãe, traduzindo os numa ação social de
promoção humana junto aos setores mais pobres da sociedade.

A sensibilidade se traduz num coração aberto a todo tipo de sofrimento, seja a cruz
individual de cada pessoa humana, seja a cruz coletiva de grupos, setores e categorias inteiras
condenadas à exclusão social. Um coração que se contrai e se distende diante das alegrias e tristezas
que o circundam, o toque amigo, uma palavra, uma visita e até um olhar representam os frutos da
sensibilidade.

A solidariedade concretiza-se na mão estendida às situações de emergência, de carência, de


extrema pobreza, de fome. Não basta ser sensível, é preciso descruzar os braços, arregaçar as
mangas e passar à ação. Um gesto, um mutirão, uma campanha constituem expressões vivas da
solidariedade. A solidariedade se expressa, também, no apoio às lutas e movimentos sociais por
melhores condições de vida e trabalho.

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I - QUAL O OBJETIVO GERAL DA CAPELANIA SOCIAL?

A Capelania social integra, junto com outros setores, a dimensão sócio-transformadora da


ação evangelizadora da Igreja no Brasil. A partir da expressão acima, entende-se que o objetivo
geral dessa dimensão seja contribuir, à luz da Palavra de Deus e das Diretrizes gerais sociais, para a
transformação dos corações e das estruturas da sociedade em que vivemos, em vista da construção
de uma nova sociedade mais digna.
A Pastoral Social de cada Igreja, por sua vez, tem como objetivo desenvolver atividades
concretas que viabilizem essa transformação em situações específicas, tais como o mundo do
trabalho, a realidade das ruas, o campo da mobilidade humana, os presídios, as situações de
marginalização da mulher, dos trabalhadores rurais, dos pescadores e assim por diante. Nesse
sentido, a capelania social procura integrar em suas atividades a fé e o compromisso social, a oração
e a ação, a religião e a prática do dia-a-dia, a ética e a política.
Aqui é preciso superar as dicotomias entre os que só oram e os que só lutam, os que louvam
e celebram e os que fazem política. Na verdade, a verdadeira fé desdobra-se naturalmente em
compromisso diante dos pobres. A ação social é condição indispensável da vivência cristã. O
compromisso sócio-político não é um apêndice da fé. Ao contrário, faz parte inerente de suas
exigências. A fé cristã tem necessariamente uma dimensão social. Não é isso o que nos ensina o
episódio do bom samaritano? Ou seja, entrar ou não entrar na vida eterna é uma alternativa que está
condicionada à atitude frente ao irmão caído e ferido na beira da estrada. Tal condição se torna
ainda mais clara no texto do Juízo Final (Ap. 20).

Em correspondência com as quatro exigências evangélicas da ação da Igreja no Brasil,


quatro palavras chaves poderiam resumir o objetivo da capelania social. Trata-se de proclamar a
Boa Nova do Evangelho entre os mais pobres, através de uma presença, de um alerta, de uma ação
social e de uma articulação-parceria.

1- Uma presença (testemunho) junto aos setores mais marginalizados da população, aos porões
da sociedade, aos “enfermos” do sofrimento humano;

2- Um alerta (denúncia e anúncio) à Igreja e à sociedade civil sobre a existência desses


submundos, alerta que é uma espécie de antena permanentemente sintonizada com o clamor
dos oprimidos;

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3- Uma ação social (serviço) que multiplica atividades de conscientização, organização e
transformação, as quais levam à conversão pessoal, por um lado, e a mudanças concretas de
ordem social, econômica e política, por outro;

4- Uma articulação-parceria (diálogo) com as demais igrejas, cristãs e não cristãs, e com as
forças vivas que contribuem para transformar a sociedade em que vivemos.

II- COMO SE ESTRUTURA A CAPELANIA SOCIAL

Esta pergunta nos leva à estrutura de toda a ação evangelizadora da Igreja no Brasil.
Segundo o organograma, as dimensões são divididas em três:

 Primeira dimensão – comunitária e participativa;

 Segunda – missionária;

 Terceira bíblico – evangelizadora.

As exigências relacionadas à capelania social são as seguintes:

1º – Anúncio;

2º – Testemunho;

3º – Diálogo;

4º – Serviço.

Evidente que toda evangelização deve ser perpassada por todas as dimensões e exigências.
A dimensão ou exigência representa a porta de entrada para os setores específicos, o enfoque a
partir do qual desenvolvem sua ação concreta. Mas tanto as dimensões como as exigências se
interpenetram completamente e se enriquecem reciprocamente.

O setor capelania social integra a dimensão sócio-transformadora, a chamada linha 6, e tem


no serviço, sua exigência predominante. Claro que esta dimensão e exigência se interligam entre si,
ao mesmo tempo em que se complementam com as demais dimensões e exigências. A palavra
dimensão, pelo seu dinamismo, dá conta dessa complementaridade. Quanto às exigências, os
quatros se interpenetram e se misturam na ação evangelizadora, sendo difícil individualizá-las. A
dimensão sócio-transformadora, por sua vez, é formada pelos seguintes setores:

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1º – Capelania Social;

2º – Educação;

3º – Comunicação Social, Ensino religioso, Pastoral Universitária da Cultura e Pastoral


Afro-brasileira.

O setor da capelania social reúne, sob sua articulação, onze pastorais e três organismos.

III- CAPELANIA OPERÁRIA

As mudanças no mundo atual atingem dramaticamente aos trabalhadores e trabalhadoras,


cada vez mais excluídos do mundo do trabalho e dos bens socialmente produzidos.

A Capelania Operária participa e contribui neste campo a partir da exigência de sua fé cristã.
É esta fé que irá influir na sua forma de abordagem, na sua postura e na sua metodologia dentro do
mundo do trabalho, no qual se situa sua identidade e sua mística. É uma pastoral com o olhar e um
agir que contribui para a construção de um projeto alternativo de sociedade, o qual será obra das
trabalhadoras e trabalhadores, onde ela cumpre a missão evangélica de ser sal e fermento. Para isto,
a CO estimula os trabalhadores e trabalhadoras, dentro e fora da Igreja, a participarem no
movimento social e nas variadas e legítimas formas de organização.

Neste momento, seu compromisso impõe a necessidade de contribuir para a existência de


um amplo movimento dos trabalhadores e trabalhadoras do conjunto da sociedade frente às
mudanças no mundo do trabalho, contra o desemprego e pelo emprego como política social,
chamando à responsabilidade os setores empresariais e governamentais. Este é o eixo em torno do
qual devem girar os programas, projetos e atividades das equipes e instâncias da CO em todo o
Brasil, delimitando setores específicos a serem trabalhados de acordo com a religião, a qualificação
dos e das militantes e os recursos disponíveis.
IV- CAPELANIA DOS POVOS DE RUA

A capelania de rua desenvolve sua missão sendo presença junto à população de rua,
reconhecendo sua dignidade e descobrindo os sinais de Deus presentes em sua história.

O cenário encontrado nas ruas das cidades permite encontrar um povo que luta e resiste
para sobreviver. Recolhidos ora em marquises e viadutos, ora em casas e prédios desocupados, os
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moradores de rua sofrem o estigma da exclusão social. Igual sorte cabe aos catadores de papel, que
puxando pesados carrinhos, andam nas ruas e lixões das cidades coletando materiais recicláveis
para revender no mercado. Sem reconhecimento oficial, estes homens e mulheres são contabilizados
no censo do IBGE. Via de regra, os poderes públicos optam pela reedição de medidas excludentes.
Nas ruas sofrem as conseqüências das operações-limpeza planejadas nos municípios, nos lixões
trabalham sem as mínimas condições de higiene e salubridade. Para todos, é comum o preconceito
social que estigmatizam suas vidas.

O compromisso solidário tecido nesta nova relação criada desenvolve ações que se pautam
no reconhecimento dos direitos dessa população e na defesa da vida. Os agentes atuam animando e
fortalecendo o processo organizativo, resgatando a beleza da vida, denunciando toda ação de
exclusão e violência e criando com os mesmos, alternativas de produção de bens e cidadania.

V- CAPELANIA DA MULHER MARGINALIZADA

A Capelania da Mulher Marginalizada tem a missão profética e evangélica de contribuir e


abrir espaço para que a mulher prostituída possa ser agente da sua libertação e possa articular-se
com outros grupos de oprimidos e outras pastorais.

A CMM busca despertar nas suas equipes em todo o país, o desejo de trabalhar com as
mulheres prostitutas no sentido delas serem mais um segmento da sociedade em busca de
transformação nas questões políticas, econômicas e nas relações entre homens e mulheres. Gastar
tempo e energia com a formação dos(as) agentes, através de aprofundamento da mística, cursos,
oficinas, preparação de material formativo e informativo, buscando alianças, participando de
eventos, promovendo encontros de agentes e de mulheres prostituídas, contribuindo na implantação
e implementação de políticas públicas, denunciando a violência que sofrem essas mulheres,
colaborando na inserção delas nos movimentos populares e sociais. Também acreditamos na
presença gratuita solidária. Estar lá para confortá-las, abraçá-las e ouvi-las é muito importante, pois
se trata de uma população especial, que via de regra, nunca é confortada, abraçada e escutada.

Os membros da CMM na sua prática se deparam com uma população totalmente


desinformada a respeito dos seus direitos sociais. Por isso, se faz necessário que os agentes da
CMM tenham também a socialização da informação como uma das condições de uma prática que
contribui na construção de uma sociedade democrática, tendo como base a igualdade econômica,
política e social.

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VI- CAPELANIA DA CRIANÇA

Em setembro de 1983, a capelania da criança iniciava suas atividades no município de


Florianópolis/PR, desenvolvendo uma metodologia própria que une a fé e vida, tendo como centro a
criança em seu contexto familiar e comunitário.

A missão da Capelania Social da criança é a própria missão de Jesus, que é também a


missão da Igreja e de todos os Cristãos: EVANGELIZAR. A capelania da criança é ecumênica e
não faz nenhum tipo de discriminação de cor, raça credo religioso ou opção política. A todos leva o
lema do Bom Pastor. A capelania da criança usa uma metodologia que conta com três grandes
momentos de intercâmbio de informações que ajudam no fortalecimento da solidariedade:

1º – Visitas domiciliares mensais – realizadas pelos líderes a cada família acompanhada;

2º – Dia do peso – cada comunidade se reúne para pesar as suas crianças: Esse dia se
transforma num momento de celebração da vida;

3º – Reuniões com todos os líderes de uma comunidade – para refletir e avaliar o trabalho
realizado no mês anterior.

A prática da capelania da criança parte da idéia de que a solução dos problemas sociais
necessita da solidariedade humana, organizada e animada em rede, com objetivos definidos, e que o
principal agente de transformação são as lideranças das comunidades, envolvendo-as no
protagonismo de sua própria transformação.
Fazendo a união, a fé e o compromisso social, a capelania da criança organiza as
comunidades em torno de um trabalho de promoção humana no combate à mortalidade infantil, à
destruição e à marginalidade social. A capelania da criança atua eficazmente na educação para uma
cultura de paz e na melhoria da qualidade de vida de mais de um milhão de famílias acompanhadas.
O trabalho essencial é a organização da comunidade e a capacitação dos líderes voluntários que ali
vivem e assumem a tarefa de orientar e acompanhar as famílias vizinhas, para que elas se tornem
sujeitas de sua própria transformação pessoal e social.

VII- CAPELANIA DO MENOR

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A pastoral do menor tem seu início no ano de 1977. Ela surge num quadro de intuições
proféticas que se apresentavam como respostas da Igreja aos desafios das crianças e adolescentes
empobrecidos e em situações de risco. A capelania do menor aparece também como busca de
organização dessas ações, em 1987.

A capelania do menor é um serviço da Igreja com mística e identidade próprias que, à luz do
Evangelho, se propõe a estimular um processo que visa a sensibilização, a conscientização crítica, a
organização e a mobilização da sociedade como um todo na busca de uma resposta transformadora,
global, unitária e integrada à situação da criança e do adolescente. Tem como objetivo, em seus
programas de atendimento, promover a participação dos pequenos como protagonistas do processo
de promoção da cidadania.

VIII- COMO ORGANIZAR UMA CAPELANIA SOCIAL?

As capelanias sociais surgem, em geral, como um serviço de articulação nacional a uma série
de atividades que se desenvolvem em determinadas áreas específicas. Normalmente estão
relacionadas a um rosto bem definido, umas certas categorias entre os pobres ou a um determinado
quadro de abandono. Assim, como vimos a capelania da mulher marginalizada, procurar
acompanhar situações concretas que dizem respeito à situação da mulher.
A Capelania Social organiza-se em todos os níveis eclesiais: nacional e regional. A
organização passa por alguns passos metodológicos, cuja seqüência não é rígida nem obrigatória.
Mais importante que a regra é, sem dúvida, a criatividade e a espontaneidade locais.

O primeiro passo é identificar quais os rostos – categorias marginalizados e/ou situações


sociais de extrema carência – mais pobres e excluídos em todos os níveis. Para cada face da
exclusão, como vimos, existe uma pastoral social específica, e se não existe, é interessante criar um
serviço de presença evangélica e de atuação pastoral, o qual, com o tempo, pode vir a se tornar uma
nova pastoral social. O ponto de partida de qualquer ação é uma tomada de consciência da realidade
local, com atenção especial para os grupos que sofrem o peso da exclusão. Esta conscientização da
realidade pode ser feita através de visitas pastorais, de pesquisas e levantamentos ou de um trabalho
científico.

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A partir dessa presença e acompanhamento, o terceiro passo é desenvolver atividades de apoio
e solidariedade aos movimentos sociais e a luta por melhores condições de vida e trabalho, o que
significa uma ação lenta e persistente de conscientização, organização e mobilização. Trata-se de
um processo longo que exige dedicação permanente. Neste sentido, é importante disponibilizar
recursos humanos e financeiros e espaços físicos, bem como emprestar a palavra aos pobres.

Num quarto passo, as diversas equipes de base das capelanias sociais específicas devem
promover encontros conjuntos com a capelania social, reunindo-se com certa freqüência, seja em
nível comunitário ou congregacional ou regional ou diocesano. Tais encontros servem para trocar
experiências, traçar metas comuns e planejar atividades gerais. Nessa perspectiva, é imperativo que
cada capelania específica esteja atenta ao calendário de eventos das demais pastorais, tais como:

O Dia do Trabalhador (1o de Maio);

O Dia de Luta da Mulher (8 de Março);

O Dia do Trabalhador Rural (25 de Julho) e outros.

IX- QUAIS OS FUNDAMENTOS E FONTES DE ESPIRITUALIDADE DA CAPELANIA


SOCIAL?

A Capelania Social é uma árvore que mergulha na terra suas raízes profundas. Delas vêm a
seiva que alimenta sua espiritualidade. Ao longo do caminho, a ação social abre poços onde
encontra a água viva que sustenta sua caminhada. As capelanias específicas que formam os ramos
dessa árvore, nutrem-se do alimento que vem do chão, que sobe pelo tronco, transfigura-se ao
contato com a luz solar e reforça-lhe a mística libertadora. A dimensão imprescindível do
testemunho cristão: há que rejeitar a tentação de uma espiritualidade intimista e individualista, que
dificilmente se coaduna com as exigências da caridade, com a lógica da encarnação e em última
análise, com a própria tensão escatológica do Cristianismo. Essa tensão nos leva a construir o
mundo, e a atender o bem dos nossos semelhantes, mas antes, nos obriga ainda mais a realizar essas
atividades.

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X- CAPELANIA SOCIAL NO ANTIGO E NOVO TESTAMENTOS

1- Antigo Testamento

Podemos partir da libertação do Egito – Experiência fundamental do Povo de Deus, o Êxodo


da escravidão para a terra prometida constitui um paradigma para a Capelania Social. Deus não quer
escravidão e intervém na história para conduzir o povo a uma nova vida. O chamado do povo de
Israel à ação de Deus na história (Ex. 3:7-10; Dt 26:4-10). Deus se sensibiliza com o clamor dos
escravos no Egito e, a partir daí, desencadeia uma ação libertadora, em que Moisés será
protagonista junto com seu povo.

Também nos livros chamados históricos, transparece a predileção de Deus pelos pequenos e
frágeis, simbolizados na trilogia (órfão, viúva e estrangeiro). Aqueles que a sociedade discrimina e
marginaliza têm prioridade no amor infinito do Pai, como irá mostrar mais tarde a prática de Jesus.

Desde o Livro de Gênesis, quando Deus utiliza o símbolo do arco-íris para celebrar um
pacto com o seu povo. Diz literalmente o texto: “Eis o sinal da aliança que instituo entre mim e vós
e todos os seres vivos que estão convosco, para todas as gerações futuras” (Gn 9:12-13). O respeito
à biodiversidade e à natureza, bem como cuidado com as gerações que estão por vir é condição para
garantir a vida do homem e da mulher.

Além disso, tanto nos livros proféticos quanto nos Salmos e na literatura sapiencial, são
recorrentes palavras como o direito e a justiça, em que não é difícil interpretar a importância do
valor fundamental que tem a dignidade humana para os filhos e filhas de Deus.

2- Novo testamento

Nas palavras e na prática de Jesus transparece a dimensão social de sua ação. Retomando o
que vimos acima, textos como o Juízo Final, as bem-aventuranças, o bom samaritano, entre outros,
sublinham claramente que a salvação está subordinada ao compromisso com os pobres. O episódio
dos discípulos de Emaús (Lc 24:13-35), entretanto, apresenta uma certa metodologia da atuação de
Jesus. A partir dele, não seria difícil desenvolver uma espécie de pedagogia da capelania social.
Vejamos os passos dessa pedagogia:

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A) O caminho

O ponto de partida é a estrada. Os discípulos estão a caminho, vão tristes, abatidos,


desanimados. A experiência com o Galileu terminou na cruz e eles ficaram com medo e fugiram. Se
mataram o chefe, o que não estará reservado para nós? Trilharam o caminho da fuga, do fracasso,
da impotência.

Isso nos leva a perguntar pelas estradas: Onde caminha hoje o povo? A falta de terra, o
desemprego, a luta pela saúde, pela moradia e pela sobrevivência obriga-os a um vaivém sem fim. E
quando não têm condições de partir, amargam situações de extrema pobreza.
Jesus caminha com os dois, procura conhecer a expressão de seus rostos, o tom de suas
palavras, as dificuldades de seus passos. Não os espera no templo ou na sinagoga, mas corre ao seu
encalço. Acompanha-os em seu penoso caminho.
Atenção para a delicadeza do Mestre: faz-se forasteiro para poder conversar de igual para igual.

B) O convite

Jesus faz que vai adiante. Os discípulos o convidam para entrar. Constata-se novamente a
delicadeza encoberta: no fundo, o convite parte do Mestre. Ele é que toma a iniciativa. Tem o tempo
livre, seu tempo é do Pai, e se é do Pai, é dos pobres. Coloca-se à disposição como a dizer: Se me
convidarem, eu fico.
“Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua
casa e cearei com ele, e ele comigo”, diz outra passagem bíblica (Ap 3:20).

Hoje as Igrejas estão de portas escancaradas, mas onde estão os pobres, os mais excluídos? Por
que não se aproximam e entram? O que os impede de chegar mais perto? Quando as portas abertas
da Igreja não são mais um convite para o pobre entrar, então temos de nos tornar convites vivos
aonde quer que estejamos:

A) Ruas;
B) Becos;
C) Calçadas;

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D) Praças;
E) Campos;
F) Favelas;
G) Lixões;
H) Cortiços.

Enfim, por onde ele vive ou se esconde. As capelanias sociais têm de criar pés. Se o povo não
vem à Igreja, a Igreja tem de ir até ele. Só assim podemos romper nossos círculos fechados e alargar
o raio de nossa atuação. Precisamos marcar presença nos lugares mais distantes e insólitos, mais
frios e sórdidos. Além disso, abrir espaço nas dependências da Igreja para reuniões, encontros,
assembléias de categorias que lutam por seus direitos básicos: Ceder espaços, tempo e apoio e
favorecer suas organizações e movimentos, de forma a sentirem que Deus os criou para uma vida
digna e humana. Ceder também espaços para jornais, boletins e em todos os veículos de
comunicação eclesiais. Tornar-se voz dos que não têm voz, para que possam enfrentar aqueles que
os oprimem. Ajudá-los a conquistar também seu espaço:

A) Físico;
B) Eclesial;
C) Político.

XI- CONCLUSÃO

A) A MISSÃO DO CAPELÃO SOCIAL

Os discípulos refazem o caminho de volta a Jerusalém, entretanto, não é mais o medo e a


frustração que os move. Um novo ardor como que põe asas em seus pés, “Não ardia nosso coração,
enquanto Ele nos falava?” Correm para testemunhar o que viram, superam as dificuldades do início.
O encontro com o Ressuscitado renovou-lhes o vigor. Nada mais os deterá na missão, nem o
martírio.

A luta das capelanias sociais é árdua. Muitas vezes o preço é a perseguição e a morte.
Incompreensões e rejeições fazem parte do dia-a-dia, isto sem falar do sistema de morte. Outras

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vezes, é o cansaço e o desânimo que nos abate, devido, sobretudo, à sobrecarga de atividades. Na
verdade, são poucos os que se aventuram por esse caminho, embora o trabalho seja imenso.

B) COMO VENCER OS OBSTÁCULOS?

Se não formos capazes de um verdadeiro companheirismo entre nós, como vimos acima, e de
encontros freqüentes com o Ressuscitado, será difícil renovar as forças. Como regressaremos à
Jerusalém de hoje, aos presídios, às ruas, aos campos, aos prostíbulos, às portas de fábricas, aos
caminhos onde está o povo? Como voltaremos a anunciar a Boa Nova aos pobres? A oração e a fé
são fontes de água viva que nos nutrem para um renovado ardor missionário.

CAPELANIA PRISIONAL

A IMPORTÂNCIA DE DEUS E DO EVANGELHO DE CRISTO NOS PRESÍDIOS E


PENITENCIÁRIAS

“Estive preso, e fostes ver-me...”


Mt 25:36

Introdução:

É importante que o homem conheça o evangelho de Deus e ame, para sentir a alegria de ser
amado. O Evangelho estimula a prática do conhecimento, do estudo, da virtude e nos faz caminhar
por uma estrada estreita, disciplinada, difícil, porque exige combate ao nosso egoísmo, desamor,
orgulho e ambição, aspiração imoderada e cobiça. De todos os valores sociais catalogados pela
civilização e, o Evangelho de Cristo, um dos mais necessários ao homem, como pessoa, e a grupos
de homens, como coletividade. É o primeiro breque dos instintos que afloram dos impulsos
individuais, como é o primeiro freio dos frenesis coletivos.

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A pessoa sem Cristo se embrutece e se animaliza. Na recuperação do homem na prisão, não
se pode dispensar o Evangelho, porque, caso contrário, a reeducação fica incompleta ou deixa de
existir.

É muito difícil confiar em alguém que não crê em Deus, porque se torna auto-suficiente,
perigosamente orgulhoso, e a matéria passa a ser a coisa mais importante de sua existência. Torna-se
uma pessoa que pensa e age isoladamente, que não tem amigos. É cercado de hipócritas e
interesseiros, acabando por naufragar ao se defrontar com o primeiro obstáculo que exija reflexão e
amparo espiritual. No fundo, é um infeliz e, se persistir em permanecer assim, acabará seus dias
abraçado à infelicidade, com pouca gente à sua volta.

Por que o mundo vai mal? Por falta de humanidade, diálogo, compreensão, renúncias,
sinceridade, acima de tudo e amor. Aqueles que se queixam dos males que assolam o mundo
precisam, sem demora, proclamar o que fazem para acabar com a violência, as injustiças, a fome, a
covardia, as guerras etc. Ou será que cada um assuma o seu papel, em vez de ficar procurando
defeitos nos outros? Einstein proclamou: A ciência sem religião é cega e a religião sem ciência é
paralítica.

A descrença assumiu um papel preponderante no atual momento histórico, exatamente porque,


a cada dia, a falta de dignidade, de cumprimento do dever e a desonestidade são mais valorizadas no
mercado da corrupção e da violência.

O filósofo português António Freire, em seu livro de viagens A Outra Europa (1973), já
declarava:

I - O QUÊ ACONTECE SEM O EVANGELHO DE CRISTO

No processo de recuperação, é indispensável exaltar os valores inerentes ao ser humano para


facilitar a estruturação da personalidade do condenado e ajudá-lo a refletir permanentemente sobre a
beleza da vida quando orientado ao bem, permitindo-lhe descobrir o seu próprio potencial, e, por
fim, fazê-lo questionar-se acerca da finalidade para a qual Deus o criou.

Copia-se um sistema prisional desvirtuado, em geral, baseado em sistemas falidos de outras


nações, esquecendo as peculiaridades do nosso povo. Limita-se à análise puramente material e
jurídica do sistema, onde são colocadas grandes barreiras à reinserção dos presos na sociedade e
esquece-se o principal, que é o lado espiritual deles.

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O grande problema penitenciário é o problema de tratamento dos condenados. Amontoá-los
nos presídios e abandoná-los à própria sorte é a mesma coisa que receitar uma violência ainda maior
contra a sociedade, pois ao final da pena imposta, inevitavelmente, por força da lei, o condenado
voltará ao convívio social. Já se recomendava o ensino da educação moral e religiosa aos presos, e
Jeremias, por sua vez, além de julgar indispensável a educação moral e religiosa, apregoava como
necessária a existência de patronatos para ajudar o egresso a se reintegrar.

É preciso incentivar o núcleo espiritual e cultural da humanidade, para se evitar a atual onda
crescente de criminalidade. A Constituição Brasileira não adota a pena de morte e a prisão perpétua
exatamente por existir a crença na recuperação do condenado. É preciso acabar com o comodismo e
o descaso, encarar o problema de frente, com determinação, sem proselitismo, e os resultados
positivos surgirão.

A persistência na crença da recuperação do condenado é fator essencial para o sucesso do


trabalho. O voluntário precisa estar consciente da sua difícil missão. O homem nasceu para ser feliz
e a circunstância que o levou a delinqüir não extingue esse anseio natural do ser humano.

II- A MINISTRAÇÃO DO EVANGELHO DE CRISTO DENTRO DE UM PRESÍDIO,


COMO FATOR DECISIVO NA RECUPERAÇÃO DE PRESOS

É muito difícil confiar em alguém que não confia em Deus. O Evangelho de Cristo estimula a
prática do conhecimento, do estudo, da virtude, e faz caminhar por uma estrada estreita,
disciplinada e difícil, porque exige combate ao próprio egoísmo, ao desamor, à aspiração imoderada
e à cobiça. Carnelucci, um importante jurista italiano, afirmou que a solução para o preso não está
nos livros de ciência, mais sim no livro de Deus (BÍBLIA). E Nélson Hungria afirma com grande
convicção:

“Uma das causas primordiais, senão a causa única do declínio da cultura, é a sua crescente
incapacidade religiosa. Um mundo social sem o Evangelho de Cristo, como o atual, é um mundo de
incertezas, destituído de entusiasmo, reduzido ao nível morto das conveniências individuais,
impregnado de insuportável tristeza. Precisamos fazer novamente a experiência de Deus. Não basta
que dentro das colunas partidas da inoperante civilização atual sejam os gênios a nos conduzir”.

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III- O TRABALHO DA CAPELANIA PRISIONAL NO RECUPERANDO

Depois de criterioso estudo, ao longo de anos e anos de existência, chegamos à conclusão de


que o recuperando é a designação correta que se deve dar ao condenado que cumpre pena nos três
regimes recomendados pela legislação vigente. É aí que está o grande papel do capelão prisional:
visitar os presos pelo ou menos uma vez por semana, fazendo com que ele tenha a paciência de
cumprir sua pena, levando sempre uma palavra de Deus ao seu coração, para que possa suportar o
seu regime fechado.

Em latim, recuperativo é o fato de recuperar, recuperação, restituição e recuperatus, por sua


vez, é recuperando, recobrado.

Por outro lado, nossa literatura jurídica, cristã, médica, psicológica, jornalística, entre outras é
rica em afirmações que confirmam, de modo inquestionável, ser correto o uso do termo recuperando
(aquele que está em processo de recuperação) para denominar o preso, evitando a humilhação de
designações impróprias.

Numa proposta de valorização humana, é admissível o eufemismo “recuperando” para evitar


o uso dos termos: preso, interno, condenado ou sentenciado, os quais, embora verdadeiros, não
deixam de chocar e depreciar o ser humano.

O capelão prisional deve se preocupar com:

1º A saúde do preso, pois o condenado é, na maioria das vezes, um doente;

2º A educação religiosa do preso para o convívio social, incluindo civilidade, bons costumes
e o encaminhamento a Jesus, à profissionalização e à instrução, por serem requisitos intrínsecos.

3º A instrução reduz o índice de porcentagem de analfabetos e semi-analfabetos que povoam


nossos presídios; se possível, deve-se incluir o curso de evangelização para aprimorar a cultura do
condenado.

4º Se não temos em nossa constituição a prisão perpétua e a pena de morte, o preso será
reintegrado à sociedade. Então, precisamos recuperar o preso. Ele irá cumprir a pena pelo crime que
cometeu, e através da pena e pela a evangelização no presídio, será recuperado e ingressado na
sociedade sem sentimento de culpa, pois o mesmo passou por uma série de reciclagens de
evangelização e se encontra apto para a nossa sociedade.

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5º O Evangelho de Cristo ao condenado e sua importância na vida do ser humano. É preciso
fazer a experiência com Deus e aprender a amar e ser amado. Não existem métodos de recuperação
eficientes sem que se cuide dessas metas indispensáveis em qualquer trabalho evangelístico dentro
de uma penitenciária que vise preparar o condenado para o regresso ao convívio da sociedade.

IV- A CAPELANIA CARCERÁRIA

Cárcere vem do latim e significa prisão subterrânea, lugar úmido, sombrio, onde os presos
ficavam com os pés atados à corrente. Carceragem é o local destinado à administração do cárcere, e
do evitar fugas. Além de ser responsável pela ordem e disciplina do estabelecimento carcerário, diz
respeito àquele que está recolhido ao cárcere.
Os apóstolos Paulo e Pedro estiveram várias vezes em cárceres, estabelecimentos próprios da
época. Paulo escreveu muito das suas notáveis cartas quando estava encarcerado, inclusive em
companhia de Silas. Nos Atos dos Apóstolos (16:23-24,26) encontramos:

“Depois de lhes terem feito muitas chagas, meteram-nos no cárcere, mandando ao carcereiro que os
guardasse em segurança. Recebendo tal ordem, ele os meteu nos porões do cárcere e lhes prendeu
os pés ao cepo. Imediatamente se abriram todas as portas e se soltaram os grilhões de todos...”

É chegada a hora de tomarmos consciência de que temos o dever e a obrigação de usar a


expressão adequada, padronizando as diversas terminologias e em atenção ao que a própria Igreja
recomenda: O nome correto é Pastoral Penitenciária ou Capelania Prisional’. Porque está em
perfeita sintonia com a sua proposta e com a história.

A capelania carcerária é a presença de Cristo e de sua Igreja no mundo dos cárceres e


desenvolve todos os trabalhos que essa presença venha a exigir.

A capelania prisional mantém contatos e relações de trabalho e parceria com organismos do


poder executivo e do poder legislativo, com ONG´s locais, nacionais e internacionais; com o
MNEH (Movimento Nacional dos Estados Americanos); com a Anistia internacional; com o
MNDH (Movimento Nacional de Direitos Humanos); com o CDH da ONU (Comissão de Direitos
Humanos das Nações Unidas); com ICCPC (Pastoral Carcerária Internacional) e outras entidades
afins.

V- OBJETIVOS GERAIS

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A) Acompanhar os presos em todas as circunstâncias e atender suas necessidades espirituais,
dando assistência espiritual também a seus familiares.

B) Verificar as condições de vida e sobrevivência dos presos;

C) Priorizar a defesa intransigente da vida, bem como a integridade física e moral dos presos;

D) Intermediar relações entre presos e familiares;

E) Educar os presos no Evangelho de Jesus Cristo, levando a salvação até eles;

F) Acompanhar seu processo de discipulado dentro do Evangelho de Cristo.


VI- ATIVIDADES PERMANENTES

A) Visitas aos presos, especialmente quando doentes, nas enfermarias ou nas celas de castigo
ou de “seguro”;

B) Celebrações e encontros de reflexões (círculos bíblicos, orações);

C) Atenção especial às áreas de extrema violência nas prisões;

D) Sensibilizar as comunidades sobre os problemas dos presos e mostrar o valor da Pastoral


Carcerária;

E) Fazer parcerias e relacionamentos de trabalho com os poderes públicos e com o Ministério


Público.

VII- A DUPLA FINALIDADE ÉTICA DA PENA

A função da pena é dupla:

Punitiva e recuperativa. Punitiva pela sua própria natureza e de emenda do infrator na sua
essência.

O delinqüente é condenado e preso por imposição da sociedade, ao passo que recuperá-lo é um


imperativo de ordem moral, do qual ninguém deve se escusar. A sociedade somente se sentirá
protegida quando o preso for recuperado. “A prisão existe para castigo e não se pode parar de
castigar”. Essa é a afirmação corrente cujo conteúdo não se pode perder de vista e deve ser
repensado.

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O Estado, enquanto persistir em ignorar que é indispensável cumprir a sua obrigação no que diz
respeito à recuperação do condenado, deixará a sociedade desprotegida. Como é sabido, nossas
prisões são verdadeiras escolas de violência e de criminalidade.

VIII- PESQUISAS ESTATÍSTICAS

Descobrimos então que, às vezes, existem equívocos quanto à família formalmente


constituída. Dados colhidos sobre o sistema prisional brasileiro através de pesquisas feitas em nível
nacional por nós, revelam o seguinte:
1º – 86% de reincidências;

2º – 65% dos crimes são praticados sob efeito de drogas, embora essa situação não apareça no
processo;

3º – 80% dos detentos utilizam algum tipo de droga (álcool e tabaco: as mais comuns);

4º – 60% da população carcerária tem entre dezoito e vinte e oito anos de idade;

5º – 20% completaram vinte e oito anos de idade cumprindo pena;

6º – 81% da população das prisões são de origem cristã;

7º – 97% apontam, como causa da criminalidade, a família desestruturada;

8º – 75% dos condenados são analfabetos ou semi-analfabetos;

9º – 87% não têm profissão definida;

10º – 18% são casados;

11º – 38% são amasiados;

12º – 44% são solteiros.

IX- PROMISCUIDADE EM VÁRIOS NÍVEIS

1º – Ociosidade;

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2º – Violência;

3º – Falta de confiança generalizada;

4º – Supressão da verdade;

5º – Ausência da família (perda gradativa dos laços afetivos);

6º – Sentimentos de autopunição e de culpa;

7º – Perda da auto-estima;

8º – Sentimento de inferioridade, que se transforma em agressividade;


9º – Personalidade do preso, que passa a ser condicionada pelos estímulos que recebe
dentro do presídio;

10º – Perda gradativa da condição normal de convivência social;

11º – Ausência de esperança;

12º – Falta de fé e ausência de Deus em sua vida.

X- O PODER DA ORAÇÃO NA VISITA DO CAPELÃO AO PRESÍDIO

O capelão é um agente de Deus, portanto, ele deverá manter-se sempre em oração, pois
dentro de um presídio encontram-se vários demônios juntos aos presos. Pois cada indivíduo que se
encontra dentro do presídio contém um demônio diferente: demônio da mentira, da prostituição, de
homicídio, de roubo, de estupro, das brigas e da morte etc. Portanto, o capelão deverá manter-se em
oração e consagração totais. O poder da oração é muito grande e importante para a evangelização. É
através da oração que os demônios são expulsos e o presos são libertos. É neste momento que
começa a atuar o Espírito Santo nos corações dos presos, fazendo com que se arrependam e aceitem
a Cristo Jesus como seu único e suficiente Salvador.

XI- RELACIONAMENTO DO CAPELÃO PRISIONAL COM PRESOS E FUNCIONÁRIOS

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O capelão prisional sempre deve manter sua ética e postura Cristã com presos e funcionários
do presídio. O capelão não deve ter exageros nem normas e rotinas com os presos, mas sim,
submeter-se às normas do presídio e, principalmente, ter flexibilidade quando for ministrar cultos
aos detentos. Ter sempre em mente a “Sabedoria” Romanos 12:1 (Portanto, rogo-vos irmãos, pela
compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a
Deus, que é o vosso culto racional). O capelão deve estar sempre em harmonia com Agentes
Penitenciários, Detetives e Delegados, para que seu trabalho seja eficiente. Para tanto, ele deve
manter sua educação e comportamento exemplares; saber ouvir e falar na hora certa, pois uma das
maiores bases para manter esses relacionamentos sólidos, freqüentes, é agir com moderação e
caráter formado.

O capelão deverá policiar-se quando começar a fazer qualquer tipo de trabalho dentro de uma
penitenciária. Ele deverá se organizar para as suas atividades, pois um presídio é um verdadeiro
campo de missões e, com certeza, ele faz parte da seara de Cristo Jesus. Portanto, o capelão
prisional é um ganhador de almas para Cristo. É ele quem proclama o Evangelho aos presos. O
capelão deverá conter em seu caráter quatro qualidades fundamentais inerentes à competência de
capelania e seu próprio caráter:

1º – Ser uma pessoa de extrema oração e vigilância – (I Ts 5:17);

2º – Consciência de que é um embaixador de Cristo – (II Cor 5:20);

3º – Ser uma pessoa dedicada e consagrada a Deus – (Fp 1:21);

4º – Ser sensível ao Espírito Santo de Deus – (II Tm 2:21; Ef 5:18; At 4:31).

“Voltai à fortaleza, ó presos de


esperança, também hoje vos anuncio que
vos recompensarei em dobro”
Zc 9:12.

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ÉTICA CRISTÃ

Noções

Introdução:

A Ética Cristã parte da premissa de que Deus tem uma missão para cada homem cumprir no
mundo. Esta missão baseia-se em três grandes relações:

ÉTICA

É a ciência que trata dos fatos concernentes aos procedimentos do homem em todas as suas
relações.

1 - Origem da Palavra:

Ética vem do grego, ethos, que significa “costume”, “disposição”, “hábito”. No latim, vem de
mos (mores), com sentido de vontade, costume, uso, regra.

2 – Definição:

Ética é, na prática, a conduta ideal e reta esperada de cada indivíduo. Na teoria, é o estudo dos
deveres do indivíduo, isolado ou em grupo, visando a exata conceituação do que é certo e do que é
errado. Reiterando, Ética Cristã é o conjunto de regras de conduta para o cristão, tendo por
fundamento a Palavra de Deus. Para nós, crentes em Jesus, o certo e o errado devem ter como base
a Bíblia Sagrada, nossa “regra de fé e prática”.
O termo ética, ethos, aparece várias vezes no Novo Testamento, significando conduta,
comportamento, porte e compostura (habituais).

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A ética cristã deve ser fundamentada no conhecimento de Deus como revelado na Bíblia,
principalmente nos ensinos de Cristo, de modo que “...ele morreu por todos, para que os que vivem
não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2 Co 5.15; Ef 2.10).

3 - Objetivo da Ética:

Considerar a razão de ser, de vida do homem, de seus poderes e de faculdades para que ele
descubra e cumpra melhor a missão que seu criador lhe conferiu neste mundo.
I- DEVERES PRÓPRIOS DE CONSERVAÇÃO E PRESERVAÇÃO

O homem tem três grandes inimigos: morte, doença e pobreza, que destroem sua vida. É seu
dever combatê-los como garantia de saúde e bem-estar próprios, pois para cumprir a missão dada
por Deus, o homem precisa conservar sua vida, combatendo a morte até ao extremo. Os deveres de
conservação própria envolvem o dever de preservação própria. A lei da preservação própria é a
mais básica da natureza e está presente não só no homem, mas também nas demais criaturas. Tanto
animais como vegetais têm meios de defesas próprias.

O ser humano preserva sua vida por um motivo mais nobre, o de cumprir sua missão. Assim,
quando come e bebe não o faz somente para satisfazer seu apetite, mas a preservação própria inclui
a vida física e a vida espiritual.

1- Preservação da vida física

O corpo é a casa do espírito e o veículo através do qual ele se comunica com o mundo
material.
A Ética Cristã proíbe tudo que prejudica a saúde do corpo, pois um corpo doente põe em
perigo o êxito da missão do homem na terra.

Sendo assim a ética condena:

A) Mutilação do corpo

Ex.: O costume chinês, em certos lugares daquele país, de amarrar os pés das meninas para
que eles não cresçam.
O costume de algumas tribos indígenas de colocar prensa na cabeça do recém-nascido para
lhe dar a forma desejada.

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B) O suicídio

É a culminação de uma série de transgressões dos princípios fundamentais da ética


individual e das leis divinas.
“Nesta vida estamos num quartel, donde não podemos sair sem ordem superior” (Platão).
Nas Escrituras, encontramos o registro de alguns casos de suicídio. Em todos eles, vemos
que seus protagonistas foram pessoas que deixaram de lado a voz do Senhor e desobedeceram à sua
Palavra:
b. 1) O exemplo de Saul. Foi um rei fracassado que deixou o Senhor e foi em
busca de uma médium espírita (cf. 1 Sm 28.1-19; 31.1-4; 1 Cr 10.13-14);
b. 2) O exemplo de Aitofel. Foi um conselheiro de Absalão, orgulhoso, que se
matou por ver que sua palavra fora suplantada por outro. (2 Sm 17.23);
b. 3) O exemplo de Zinri. Um rei sem qualquer temor de Deus, que usurpou o trono por
tradição e matança, e que por fim se matou, quando se viu derrotado pelo exército inimigo (1 Rs
16.18-19);
b. 4) O exemplo de Judas Iscariotes. Após trair Jesus, foi dominado por um profundo
remorso, e, ao invés de pedir perdão ao Senhor, foi-se enforcar.

O posicionamento cristão. A vida é Sagrada e somente Deus pode tirá-la. Moisés pediu a
Deus que tirasse a sua vida (Nm 11:15). O profeta Elias também fez o mesmo pedido (1 Rs 19:4) e
da mesma forma o profeta Jonas (Jn 4:3). Deus não atendeu a nenhum desses pedidos. Isso mostra
que a vida pertence a Deus e não a nós mesmos. Deus sabe a hora em que a vida humana deve
cessar e Ele é o soberano de toda a existência.
As Sagradas Escrituras condenam o suicídio pelos seguintes motivos:
a) É assassinato de um ser feito à imagem de Deus (Gn 1:17; Ex 20:13; Jo 10:10);
b) Devemos amar a nós mesmos (Mt 22.39; Ef 5.29);
c) É falta de confiança no Deus, visto que Ele pode nos ajudar (Rm 8.38, 39); A mulher de Jó
sugeriu, diante de seu sofrimento, que ele amaldiçoasse a Deus e morresse (se suicidasse). Ele,
porém, não aceitou tal idéia, e de modo resignado, confiou integralmente no Senhor;
d) Devemos lançar as nossas ansiedades sobre o Senhor, e não na morte (1 Jo 1.7; 1 Pe 5.7).
O ser humano deve respeitar seu corpo como propriedade de Deus. Por isso, não compete ao
homem tirar a sua vida. Ao contrário, tudo ele deverá fazer para protegê-la.

C) O direito de defesa

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O indivíduo tem que fugir da morte, não só das próprias mãos (como o suicídio), mas das
mãos alheias também.
Sendo assim, ele tem o dever de se defender até onde for necessário para preservar sua vida,
porém, este direito só lhe é concedido enquanto está livre de toda e qualquer culpa.
D) A Vida Física

Não é esta, entretanto, a coisa suprema deste mundo. Há ideais tão elevados e nobres que
justificam o sacrifício da vida física. Por exemplo: os mártires que preferiram morrer a trair a
verdade e a justiça.
Outro exemplo é o daqueles que sacrificam suas vidas em favor dos inocentes, dos
desamparados pela família ou pela pátria.

2 – Preservação da vida espiritual

Preservar a vida espiritual é o dever mais alto e mais sagrado do homem.


Nosso espírito, enquanto neste mundo, está cercado de males que procuram destruí-lo e é
mister que os vençamos para defendê-lo.

A) Defender de si mesmo

Da mesma maneira que alimentamos e cuidamos da saúde do corpo, devemos alimentar e


cuidar do espírito, deixando de praticar aqueles atos que o enfraquecem e o tornam ineficiente no
cumprimento de sua missão.
Todo mau desejo e as más tendências devem ser combatidos.

B) Defender-se dos outros

Todo homem tem o direito e o dever de defender seu espírito através dos recursos ao seu
alcance.

II – DEVER DE CUIDADO PRÓPRIO

1 – Amar a si mesmo

Se o amor-próprio não é diretamente ordenado em qualquer parte da Escritura, pelo menos é


subentendido em muitos lugares. Primeiramente, que a pessoa deve amar a si mesma é

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subentendido no mandamento: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19:18; Mt 22:39). Se
essa norma ética, freqüentemente repetida, não comanda o amor-próprio, pelo menos parece que
subentende que o amor-próprio é certo. Parece estar dizendo que o amor próprio é a base do amor
aos outros; que a pessoa não pode sequer amar aos outros a não ser que ame a si mesma. Mas se a
pessoa não respeitar o bem que Deus criou nela mesma, como será esperado dela que respeite o bem
da criação de Deus nos outros lugares?

O ensino de Paulo pareceria confirmar esta interpretação do mandamento no sentido de amar


aos outros como a si mesmo. Escreveu: “Pois ninguém jamais odiou a sua própria carne, antes a
alimenta e dela cuida...” (Ef 5:29). Nada há de errado com isso. Cada um deve cuidar de si mesmo.
O respeito-próprio é moralmente necessário. O homem não tem mais direito de odiar o bem criado
por Deus nele mesmo do que qualquer outro lugar.

2 – Cuidados do Corpo

Para se ter um corpo cuidado e saudável é necessário que se observem as leis físicas. A
desobediência delas trará prejuízos para o cumprimento da nossa missão. Geralmente as doenças
são os resultantes destas desobediências às leis físicas. O ascetismo é condenado pela ética, porque
prejudica a saúde do corpo.
Obs: Ascetismo diferente de disciplina.
O cuidado do corpo inclui:

A) Comida – o que comer


O corpo precisa de uma dieta equilibrada entre carbonato, nitrato e fosfato. Diz-se que o
brasileiro não sabe comer. Devemos comer o que precisamos e não o que gostamos.
Como quer: “cavamos nossa sepultura com os dentes”.
Mastigar bem o alimento até reduzi-lo o mais possível é fundamental. Isto implica em gastar
tempo. O tempo para alimentação deve ser planejado e suficiente. Correrias, tensão e atropelos às
refeições prejudicam a saúde.

B) A bebida
Mais de ¾ do nosso corpo é água. Devemos sustentá-lo com água pura, bebendo até mesmo
sem sede.

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C) O ar
É nosso dever procurar respirar o ar mais puro, pois o ar poluído é causa de sérias moléstias
como tuberculose, alergias, etc...

D) Higiene
Calcula-se que em 24 horas passe um quilo de líquido pelos nossos poros. Portanto, a pele
deve ser limpa para que esses poros não sejam obstruídos pela sujeira, causando assim prejuízos à
saúde física. O banho diário é indispensável e escovar os dentes pelo menos três vezes ao dia
constituem medidas higiênicas importantíssimas.

E) Exercício Físico
O corpo é uma máquina que enferruja quando não é usada, por isso a ética ensina o dever do
exercício para promover o bem-estar do homem por causa da missão.

F) Descanso
Há limites para as atividades físicas e não temos o direito de ultrapassá-las. O descanso
promove reposição de energia gasta no trabalho e temos o dever de estar sempre com a energia
recarregada para evitar o stress tão comum em nossos dias. Todo estressado é um transgressor da lei
física do descanso.

3 – Cuidados do Espírito

Diz a Organização Mundial de Saúde, que saúde é a sensação de bem-estar físico e mental.
Quer dizer que a saúde envolve o indivíduo completo.
Seu espírito precisa de cuidados para ser sadio:

A) Dieta – O espírito alimenta-se no reino espiritual. Esta alimentação consiste da verdade e


das relações sociais. É impossível ao espírito alimentar-se bem sem conhecer a verdade e sem
manter relações com o próximo e com Deus.
Jesus se apresentou como o melhor alimento para o nosso espírito. Veja Jo 6:35; 4:10; 14:6.
A Bíblia é outra fonte de verdade para a dieta do espírito.

B) Ambiente – É direito e dever do indivíduo afastar seu espírito de um ambiente mau para o
seu desenvolvimento como precisa e os amigos são um fator de extrema importância neste caso.

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C) Pureza – Jesus disse: Bem – aventurados os limpos de coração.
No Salmo 51, Davi orou: Dá-me, ó Deus, um coração puro.
Os espíritos mais belos e mais sadios são puros.
D) Exercício espiritual – O espírito também atrofia se não for exercitado, trabalhando na
prática do bem. Leia em 1 Tm 4:7,8 cf. Heb. 5:14.

E) Descanso espiritual – Só em Jesus, o espírito encontra descanso. Ele diz isto em Mt 11:28.

III - DEVER DE SUSTENTO PRÓPRIO (CONTRA A POBREZA)

Todos têm o dever de lutar contra a pobreza e adquirir os meios necessários à subsistência. Para
tal, cada indivíduo tem o dever de trabalhar para seu sustento, pois a preguiça é condenada pela
ética e é considerada pela sociedade como um dos sete pecados capitais.

1 – O sustento do Corpo

A natureza é a base de toda riqueza material e o homem tem o dever de aproveitar-se dela
fazendo com que ela lhe dê em abundância todo o necessário para o sustento do seu corpo.
O que faz a diferença básica entre uma nação civilizada e uma atrasada é a questão do
aproveitamento do que a natureza pode lhe oferecer.
Deus concedeu ao homem poder sobre a natureza, mas não se pode abusar deste poder. Muitas
pessoas abusam dos animais e qualquer mau trato infligido a eles é condenado pela ética.
Provérbios 12:10.
Muitos países já criaram sociedades protetoras dos animais.
A ética condena também o costume de matar animais só por lazer, para mostrar que é hábil
atirador.
O dever de sustento próprio envolve os seguintes assuntos:

A) Indústria – Todo homem deve dedicar-se a um trabalho para produzir o necessário para
subsistência.
O parasita humano é severamente condenado pela ética cristã. Ninguém tem o direito de levar
vida ociosa. (Prov. 12:11 e Prov. 14:23)

B) Economia – Economizar os resultados do trabalho é dever de cada indivíduo. Não é certo


gastar tudo o que se ganha como se estivesse no último dia de vida. O que assim procede não terá o

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suficiente para seu sustento e viverá na dependência alheia. A ética condena todo o tipo de
dependência voluntária da sociedade.

2 – O sustento do Espírito

Alimentamos o espírito com:

A) A verdade – é o pão do espírito e por isso deve ser buscada com toda diligência.

B) Relações sociais sadias – O homem não foi criado para viver em isolamento. Necessita para
seu desenvolvimento saudável de se relacionar com o próximo. Este relacionamento precisa
contribuir para fortalecer o espírito, e por esta razão, deve ser o mais belo possível.
Devemos oferecer a nós mesmos as mais perfeitas relações pessoais que possamos
conseguir. Entre elas está os relacionamentos pessoais. A ética determina que todo indivíduo
cultive as melhores relações sociais com os homens e especialmente com Deus.

C) Beleza – O Criador encheu o universo de coisas belas que podemos contemplar: montanhas,
rios, estrelas, o nascer e o pôr-do-sol, etc... Observar estas coisas enleva o espírito. Devemos
também procurar a beleza das pessoas de bom caráter e conviver com elas para enriquecer
nosso espírito.

D) Bondade – É outro tesouro que o espírito deve possuir e precisamos nos dedicar
a possuí-la, porque Deus no-la dá abundantemente. Possuí-la requer esforço e
até sacrifício.

IV- DEVERES DE CULTURA PRÓPRIA

Todo homem recebe de Deus poderes físicos e espirituais para serem desenvolvidos no
cumprimento da sua missão. Uns recebem mais, outros menos, mas o fato é que todos recebem e
não é a quantidade destes dons que conta, mas a qualidade. Assim, é dever de todo indivíduo
cultivar e desenvolver estes dons ou haverá de perdê-los.

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LEIA:

Todos recebem oportunidades para este cultivo e todos passam por dificuldades e a
diferença entre o homem bem sucedido e o fracassado está em transformar as dificuldades em
oportunidades.

Demóstenes, grande orador grego, é um exemplo para nós, pois, sendo gago, tornou-se o
maior orador de todos os tempos, graças à sua tenacidade.
Ao cultivarmos nossos poderes físicos ou espirituais, cuidemos em desenvolvê-los
simetricamente para que haja harmonia e perfeição entre eles (equilíbrio).

1- A cultura física geral

Podemos considerar a cultura física no âmbito e no especial:


A ética determina ao homem o dever de cultivar o físico como base de segurança para as
operações do espírito.

O dever de cultura física é de vital importância, já que a relação entre o corpo e o espírito é
profundamente íntima.

É dever do homem cultivar sistematicamente todos os sistemas do organismo muscular,


nervoso, digestivo, etc... em perfeito funcionamento.

Isso envolve a cultura dos sentidos e dos poderes de ação e expressão.

Cultura dos Sentidos - Audição, visão, paladar, olfato e tato. Esses cinco sentidos devem ser
cultivados para aperfeiçoar a comunicação com o mundo de tal maneira que sejam fiéis e não
enganosos.

Cultura dos poderes de ação e expressão – O corpo é o meio de expressão e manifestação do que se
passa no interior, que é o espírito e é também o meio para o homem receber comunicação e
impressões do mundo exterior e por isso deve ser cultivado da melhor maneira possível.

2- Cultura física especial

Cada vocação exige uma cultura própria especial, pois ela visa dar ao homem, os meios
pelos quais possa cumprir sua missão mais eficientemente.

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Assim, um advogado necessita de um tipo de cultura física diferente da que necessita um
lutador de boxe.

3- Cultura espiritual

Todo indivíduo tem o dever de desenvolver diligentemente seu espírito; já que ele é imortal,
isto se reveste de importância suprema.

Para desenvolver o espírito é necessário:

 Ter desenvolvimento exato do espírito do indivíduo;


 Ter conhecimento da verdadeira teoria da educação;
 Aplicar essa teoria ao desenvolvimento espiritual.

Como ser racional, o homem tem o dever de educar-se a si mesmo, desde o berço até o
túmulo. Consideremos cada um desses três requisitos da cultura espiritual:

A) Conhecimento do espírito individual - Além da necessidade de se conhecer a psicologia


geral do homem como parte da raça humana, há necessidade de se ter um conhecimento da
psicologia particular do indivíduo, pois cada pessoa é diferente da outra. Precisamos
conhecer as diferenças e os pontos em comum de uns e outros.

B) Conhecimento da verdadeira teoria da Educação - O fim de toda educação é desenvolver e


cultivar os poderes das pessoas. Educação é mais do que adquirir fatos: é sim, assimilá-los.
É exercitando que desenvolvemos nossos poderes. Ex: Como cultivar a memória?
Decorando. Como cultivar a razão? Raciocinando.

São quatro os poderes do intelecto:

 Poder cognitivo – representa a faculdade de observar, sintetizar;


 Poder conservativo – representa a faculdade de reter na memória;
 Poder comparativo – representa a faculdade de julgar, raciocinar;
 Poder construtivo – representa a faculdade de planejar, organizar.

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Aplicação da teoria ao desenvolvimento espiritual da Educação à cultura própria.

Vale a pena cultivar nossos poderes, pois os resultados são grandes e compensam os
esforços feitos.

4- Cultura do intelecto

Todo empenho deve ser feito no sentido de vencer os inimigos que impedem a cultura do
nosso intelecto.

Vejamos alguns destes inimigos:

 Ignorância – É a coisa mais cara que existe! Pagamos muito por nossa ignorância. O
ignorante jamais cumpre o dever para consigo mesmo.
 Estupidez – O estúpido não evita, não julga, não pergunta, mas satisfaz-se com sua
estupidez. O ignorante é ignorante porque não sabe, mas o estúpido é porque não quer saber.
 Imprudência – É a falta que consiste em não se avaliar bem as conseqüências dos atos
cometidos.
 Precipitação – O precipitado tem pressa de chegar a uma conclusão sem a devida reflexão.
Ele não relaciona e nem espera o momento certo, mas julga e age precipitadamente e sempre
incorre no erro.
 Credulidade e Ceticismo – São duas formas opostas do mesmo vício do intelecto. O crédulo
acredita em tudo que vê e ouve, sem fazer distinção entre a fantasia e a verdade, entre a
estória e a história. O Céptico é o oposto! Duvida de tudo e de todos. Falta tanto ao crédulo
como ao céptico, o uso do poder comparativo do intelecto. Falta-lhes o raciocínio.

5- Cultura dos sentimentos

O sentimento é o poder que move a ação e por este motivo deve ser cultivado. É nosso dever
amar o que é amável e desejar o que é desejável. Nada há de errado em se amar e desejar o que é
digno do nosso amor e do nosso desejo.
Os sentimentos devem ser cultivados com diligência, mesmo porque são o motivo da ação.
São eles que movem as pessoas para conquistas e para o progresso.
Eles têm dois inimigos que o indivíduo precisa combater:

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 A Insensibilidade – Ninguém tem o direito de ser insensível aos sofrimentos da humanidade.
Não é possível cumprirmos a missão dada por Deus sem cultivar a sensibilidade para com o
que ocorre tanto com os felizes como os menos afortunados. A Bíblia manda chorar com os
que choram e se alegrar com os que se alegram.
 A Paixão – é o resultado de se dar aos sentimentos toda a liberdade, deixando-os sem
disciplina e sem qualquer cultura. Os sentimentos indisciplinados transformam-se em
paixão, dominam a razão, desobedecem à vontade e anarquizam completamente a pessoa. A
paixão é um sentimento indisciplinado e como tal, deve ser combatido, mas há paixão por
coisas dignas e boas, que consiste em ter sentimentos disciplinados, treinados, dirigidos e
que devem ser cultivados. O que estraga a paixão é o seu objetivo; devemos nutrir os mais
altos e nobres possíveis.

6- Cultura da vontade

A vontade é o poder executivo da pessoa, o que dirige todos os seus outros poderes pessoais.
É a vontade que determina a ação que se vai seguir. Ela tem três inimigos a serem
combatidos:

 Servilismo – É a atitude que permite à pessoa entregar-se totalmente à direção de outra. O


servil não tem vontade própria, é um fraco que faz tudo para agradar a todos e assim, não
pode cumprir sua missão.
 Independência – O oposto do servilismo, é a vontade que o indivíduo tem de querer ser
independente, mas que não deve ser exagerada.
 Inconstância – É a falta de decisão. Para cumprimos nossa missão precisamos de vontade
forte, decisiva e bem orientada. A inconstância determina fatalmente a derrota na vida da
pessoa. A Bíblia, através da epístola de Tiago, condena o inconstante dizendo que ele não
consegue nada da parte de Deus em seus pedidos.

7- Cultura do gosto

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Significa a faculdade de amar e apreciar coisas belas como a música, a poesia, a pintura, a
natureza, o mar, os seres vivos, etc. Esta faculdade precisa ser cultivada. O gosto é mais um meio
pela qual o homem pode enriquecer a sua personalidade.

8- Cultura moral e religiosa

É o cultivo da consciência para que não venha a ser cauterizada, endurecida, não confiável.
A consciência precisa nos orientar firmemente, julgando-nos: condenando ou aprovando nossos
atos.

V- ÉTICA SOCIAL

Ética Social é a parte prática que trata da aplicação das leis morais ao procedimento do
homem em relação ao seu próximo. Este dever se acha resumido nas palavras de Jesus: “Amarás o
teu próximo como a ti mesmo”. A ética social ensina que o homem deve fazer ao próximo tudo o
que faz a si mesmo. Somos por natureza dependentes uns dos outros; devemos, portanto, firmar a
nossa vida neste princípio de auxílio mútuo, pois o auxílio mútuo é necessário, a fim de que todos
cumpram os seus deveres.
Há uma relação muito íntima entre o direito e o dever, pois o direito de um é o dever do
outro. Assim, temos sempre a expressão: “O direito de um é sempre o dever de outro.” Dividiremos
a discussão da ética social em:

 Ética social geral;


 Ética doméstica;
 Ética civil.

1- Ética social geral

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Baseia-se na relação do homem para com a raça, isto é, trata dos deveres gerais do homem
para com o seu próximo em todas as partes do mundos, fazendo divisões semelhantes às da ética
individual.

2- Ética doméstica

A família, como célula-mater da sociedade, vivendo em harmonia diante de Deus e dos


homens, com cada um de seus integrantes cumprindo seus deveres: conjugais, sociais e econômicos.

3- Ética Civil

Corresponde à sujeição do indivíduo e da coletividade aos poderes legalmente constituídos


(Executivo, Legislativo, Judiciário) e suas leis e obrigações e de usufruir de seus direitos como
cidadão.

Deveres de conservação social - O nosso próximo tem o direito à conservação da vida, ao exercício
livre dos seus poderes, ao governo dos seus bens e à verdade em todas as suas relações.
Consideremos cada um destes deveres:

 Preservação da vida – A continuação da vida do homem é a base de todo exercício de seus


poderes. Temos, portanto, o mesmo dever para com o nosso próximo no sentido que temos
para com o nosso próprio ser. Como os atos mais condenáveis cometidos contra o próximo
nascem do ódio, temos o dever sagrado de arrancar do nosso coração todos os sentidos maus
e substituí-los pelo amor, que a ninguém faz mal. O estudo e o estado do coração do homem
é, portanto, fundamentalmente para o desenvolvimento e entendimento do que é ética.
 Homicídio em defesa própria – Que é justificável diante das leis dos homens, mas difícil de
ser justificado segundo as leis divinas. Segundo a Ética Cristã, só o que nunca transgrediu
poderia gozar deste direito de defender-se até a morte.
 Homicídio devido às paixões momentâneas – Que é condenável, tanto pela lei divina quanto
pela lei dos homens. A condenação é dupla, porque se deixou levar pela paixão do momento
e por ter tirado a vida do seu semelhante.
 O homicídio premeditado –Também é condenado e ainda com mais severidade. Em alguns
países os criminosos que cometem crimes planejados, tirando vidas de seus semelhantes são
condenados à morte. Em outros países são punidos com a prisão perpétua.
 Preservação da saúde – Uma vez que a boa saúde é importante numa vida para o bom êxito
da sua missão, é dever do homem procurar conservar a vida do seu próximo em pleno vigor.

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É também o nosso dever evitar tudo quanto enfraqueça e ponha em perigo a saúde de nossos
vizinhos, por exemplo, impedi-los de vacinar em campanha de combate a qualquer moléstia
contagiosa. Também o violam aqueles que obrigam os seus operários a trabalhar em
condições anti-higiênicas e subumanas.
 Preservação da liberdade – A liberdade é um direito natural do homem, pois onde não há
liberdade não pode haver responsabilidade. A liberdade é essencial ao cumprimento da
nossa missão. Consiste no uso justo e correto dos poderes pessoais, a fim de cumprir esta
missão moral aqui na Terra.

É dever do Estado encarar o homem que abusa da sua liberdade, pois quem sai fora dos seus
limites prejudica os seus semelhantes.
É também dever do Estado restringir a esfera de ação do louco, pois tal pessoa não está em
condições de usar a sua liberdade.
O pai pode e deve restringir a liberdade do filho devido a sua falta de experiência e juízo. A
liberdade só lhe deve ser concedida na medida que o filho for adquirindo capacidade para usar dela
sem prejudicar a outrem. A lei de conservação social proíbe a escravidão, pois não há justificação
alguma para escravizar o nosso semelhante e é injustiça sob todos os pontos de vista: econômico,
filosófico, social e religioso.

VI- PORQUE FAZER AÇÃO SOCIAL

1- A benevolência Social é um bom Testemunho de Cristo

Em vários lugares no Novo Testamento está subentendido que o cristão deve fazer o bem
social como um bom testemunho da sua fé. Isto está subentendido nas razões de Paulo para
obedecer aos governantes. Disse: “é necessário que lhe estejais sujeitos... por dever de consciência”
(Rm 13:5). Pedro escreveu: Sujeitai-vos a toda instituição humana, por causa do Senhor... Porque
assim é a vontade de Deus, que pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos (I
Pe 2:13,15). Recusar-se a fazer o bem em nome de Cristo é trazer opróbrio sobre Cristo por
omissão.
2- O bem social pode ajudar a ganhar os homens para Cristo?

Há indicações claras nas Escrituras de que o bem social pode ser usado como meio de
alcançar os homens com o bem espiritual do Evangelho. O apóstolo escreveu: “Eu procuro em tudo
ser agradável a todos... para que sejam salvos” (1 Co 10:33). Em outro contexto, disse: “Fiz-me
tudo para com todos, com fim de, por todos os modos, salvar alguns” (1 Co 9:22). Faz bom sentido,

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que os homens serão mais receptivos ao pão espiritual da vida se lhes for dado algum pão físico
para seu corpo. As missões cristãs de salvamento e os missionários médicos já demonstraram a
eficácia deste raciocínio.

3- Fazendo o bem por amor a ele mesmo

Parece que o bem social deve ser feito para Cristo, a Cristo, e para ganhar os homens para
Cristo, mas deve em qualquer tempo ser feito por amor a si mesmo? O cristão deve ter uma razão
evangélica para fazer o bem social? Tudo deve ser dirigido para ganhar os homens para Cristo ou
obter um galardão de Cristo? Se o exemplo de Cristo for seguido, logo a resposta é claramente:
Não! Jesus praticava o bem social por amor a este próprio bem. Curou dez leprosos sabendo que
somente um deles voltaria para agradecer (Lc 17:13). Além disso, Jesus insistia em que se fizeste o
bem aos inimigos que não retribuiriam o favor (Mt 5:43-44) e aos necessitados que não poderiam
pagar a bondade (Lc 14:12-13). O cristão, seguidor de Cristo, deve fazer qualquer bem que puder,
meramente porque é o bem, quer alguém o aprecie ou seja levado a Cristo, quer não. O amor de
Jesus por Judas, embora soubesse que Judas o trairia, é exemplar neste aspecto.

VII- A VERACIDADE EM RELAÇÃO À REPUTAÇÃO DO PRÓXIMO

A reputação é uma das coisas mais preciosas que o homem possui e por isso mesmo
devemos ter o máximo cuidado com a reputação do nosso próximo. A reputação é o que os outros
dizem que somos, ao passo que o caráter é aquilo que o homem é. Assim como nossa reputação está
em mãos de outrem, não temos o direito de atribuir a uma pessoa boa reputação quando o seu
caráter é mau. Do outro lado, a lei de conservação social proíbe falso testemunho, detração, calúnia
e a inveja, pois esses são os instrumentos pelos quais o homem procura desmanchar a reputação do
próximo.
 O Falso testemunho – é o que se presta perante a autoridade civil depois de haver feito
juramento e é condenado, não somente porque despreza as relações humanas, mas é também
por ser afronta a Deus, visto que o juramento foi feito.
 A Detração – É talvez o meio mais comum de injúria à reputação de uma pessoa, pois
consiste em “coisinhas”. O detrator revela segredos. Na vida há coisas que não há
necessidade ou não podem ser divulgadas. O detrator é o fofoqueiro que, muitas vezes, além
de espalhar o que sabe ou descobriu, delatar o seu próximo e ainda costuma acrescentar
coisas por sua própria conta. Esse acrescentamento faz parte da calúnia. A detração estraga o
bom nome de uma pessoa e a coloca mal vista e, às vezes, em perigo.
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 A Calúnia – Consiste em prejudicar a boa reputação de uma pessoa pela mentira, porque
pela verdade não se pode caluniar a ninguém. Portanto, o caluniador cai em dois erros
graves: o de mentir e o de prejudicar a boa reputação de seu semelhante.
 A Inveja – É a fonte de muitos males que prejudicam a reputação de nosso semelhante. É
um vício que se esconde sempre em corações mesquinhos. A pessoa que alimenta a inveja
confessa a sua inferioridade, pois ela só tem inveja de quem é reconhecidamente melhor do
que ela.

1- Não fale mal dos companheiros

Se não podemos falar bem de alguém, pelo menos não falemos mal.
Tiago, o escritor sacro, que defendeu o Cristianismo Positivo, isto é, a moral cristã em
termos de boas obras, fez esta exortação que é uma grave advertência: “Irmãos, não faleis mal uns
dos outros. Aquele que fala mal do seu irmão, ou seja, julga o seu irmão, fala mal da lei. Ora, se
julgas a lei não és observador da lei, mas juiz” Tg 4:11.

Se isso é verdade em relação ao crente, muito mais o é quando se trata de um ministro do


Evangelho, que tem maior conhecimento bíblico, e conseqüentemente, maior parcela de
responsabilidade perante Deus e a Igreja. Falar mal do companheiro ou do colega é antiético e
antibíblico e cria situações embaraçosas para o próprio ministro. Paulo, em Rm 14:19 diz: Sigamos,
pois as coisas que servem para a paz e para a edificação de uns para com os outros.

O ministro deve dar toda honra possível aos seus colegas, nunca falando mal de qualquer um
deles, principalmente daqueles que o antecederam no pastorado. Essa exortação é válida e está
embasada em princípios cristãos e éticos. Além do mais, refrear a língua preserva a saúde e é prova
de autocontrole e de uma vida espiritual.

VIII- A ÉTICA E A VERDADE

O Sacerdote de Cristo quanto mente, ou melhor dizendo, quando vive mentindo, em que
pese dizê-lo, perde sua condição de sacerdote vocacionado por Deus e passa a ser um sacerdote
biônico, um oportunista. Nada justifica a mentira nos lábios de um crente, especialmente, quando se
trata de um ministro do Evangelho. Quando um sacerdote falta com a verdade e mente,

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conseqüentemente perde sua força moral. E, além disso, passa a ter dramas de consciência em
relação a Deus na vivência da comunhão no Espírito.

As chamadas mentiras brancas ou amarelas não passam de uma farsa e merecem o repúdio
dos filhos de Deus. São meros sofismas forjados pelo pai da mentira, para embotar a consciência
cristã. Paulo recomenda aos diáconos para não terem língua dobre, isto é, que sejam de uma só
palavra – I Tm 3:8. Os ministros, sem nenhuma dúvida, são contemplados nesta recomendação
proibitiva. Falando aos discípulos, o Senhor Jesus fez esta admoestação: Seja, porém, o vosso falar,
sim, sim e não, não, porque o que passa disto é de procedência maligna – Mt 5:37.

O sábio Salomão, sob inspiração divina, escreveu esta advertência: A testemunha verdadeira
livra a alma, mas o que se desboca em mentira é enganador – Pv 14:25. A Bíblia diz que Deus
aborrece a língua mentirosa – Pv 6:16-17. E mais: “O que profere mentira, não escapa” – Pv 19:5.
Escrevendo aos efésios, Paulo fez esta recomendação: “Pelo que deixai a mentira e falai a verdade
cada um com o seu próximo” – Ef 4:25.

Aos obreiros do Senhor:


Atentai para esta palavra de ordem emanada do Altíssimo: “Eis as coisas que deveis fazer:
Falai a verdade cada um com o seu próximo, executai juízo nas vossas portas segundo a verdade,
em favor da paz”. – Zc 8:16. Fugir a essas normas bíblicas é de todo desaconselhável, porque
“...nada podemos contra a verdade, senão em favor da própria verdade” – 2 Co 13:8.
XIX- TENHA LINGUAGEM SÃ

O obreiro que tem a experiência da regeneração e se santifica, além dos cuidados em relação
ao seu corpo, deve ter linguagem sã, ungida e santificada pelo Espírito Santo. Escrevendo à Igreja
de Éfeso, Paulo recomenda que não deveria haver entre eles conversas vãs ou chocarrices, coisas
essas inconvenientes, antes pelo contrário, ações de graças – Ef 5.4. Se ao crente comum,
leviandades desta espécie na linguagem são totalmente proibidas, que dizermos em relação aos
ministros de Deus, os quais têm o dever sagrado de ser padrão dos fiéis na palavra, no procedimento
e na pureza – 1 Tm 4.12.
O obreiro evangélico, em face das muitas advertências da palavra de Deus, não deve contar
piadas irreverentes que envolvam coisas sagradas e, especialmente, o nome de Deus, que é três
vezes Santo. O terceiro mandamento traz uma advertência que inspira temor, o qual está empregado
nos seguintes termos: Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão, porque o Senhor não terá
por inocente aquele que tomar o seu nome em vão. – Ex. 20:7. O apóstolo Paulo, escrevendo aos
efésios, contrasta a conduta dos filhos da luz com o comportamento dos filhos das trevas, não só
nos atos, mas também nas palavras, usando estes termos: Não seja cúmplice nas obras infrutíferas

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das trevas, antes, porém, reprovai-as, porque o que eles fazem em oculto, o só referir é vergonha –
Ef 5:11-12. Em Cl 4:6, encontramos o seguinte registro: A vossa palavra seja sempre agradável,
temperada com sal, para saberdes como deveis responder a cada um. Falando aos discípulos, o
Senhor Jesus disse: “Tende sal em vós mesmos” – Mc 9:50. Esta metáfora significa linguagem sã,
pura, compatível com a dignidade do Evangelho. Convém lembrar a exortação de Paulo aos crentes
em Éfeso: “Não saia de vossa boca nenhuma palavra torpe e sim, unicamente a que for boa para
edificação, conforme a necessidade, e assim transmita graça (graça divina) aos que ouvem” – Ef
4:29.

EVANGELISMO

O QUE É EVANGELHO?

1 – Etimologia.
A palavra “Evangelho” vem de duas palavras gregas: eu, que quer dizer “bom”, e de
angelia, que significa “mensagem, notícia, novas”. Assim, a palavra euuangelion que quer dizer
“boas novas, notícias alvissareiras”. Essa palavra aparece tanto no Antigo Testamento como na
literatura extrabíblica.

No hebraico é bessorah (2 Sm 18.20, 25, 27; 2 Rs 7.9), que a Septuaginta traduziu por
euuangelion. Originalmente significava “pagamento pela transmissão de uma boa notícia”. Com o
tempo passou a ganhar novo significado no mundo romano de fala grega, em virtude do culto ao
imperador, pois a palavra euuangelion era usada para anunciar o nascimento deste ou a sua
coroação.

Euangelizomai (Aristófanes), evangelizo, uma forma que só se encontra no gr. posterior


juntamente com o substantivo adjetival euangelion (Homero) e o subs. Euangelos (Ésquilo), todos
derivados de angelos, “mensageiro” (é provável que originalmente fosse uma palavra iraniana
tomada por empréstimo), ou do verbo Angelló, “anunciar”; (Anjo). Euangelos, “mensageiro”, é

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aquele que traz uma mensagem de vitória ou quaisquer outras notícias políticas ou pessoais que
causam alegria.

2 – Novo Testamento.
Esse vocábulo, que é encontrado 76 vezes em todo o Novo Testamento, só aparece no
singular; o verbo euuangelizo, “evangelizar”, 54; e euuangelistes, “evangelista”, três. O Senhor
Jesus Cristo é o conteúdo do Evangelho: sua vinda, seu ministério terreno, seu sofrimento, morte e
ressurreição (Rm 1.1-7). É a mensagem de Cristo que salva o pecador (Jo 3.16; Rm 1.16). É o meio
empregado por Deus para a salvação de todo aquele que crer (1 Co 15.2). Só através do Evangelho
é que o homem conhece a salvação na pessoa de Jesus. O Evangelho de Cristo é a única resposta
para este mundo que perece em conseqüência do pecado.

3 – Os três estágios da palavra Evangelho.


A) No mundo grego, tinha o sentido de recompensa por trazer boas novas.

B) No Antigo Testamento (Septuaginta), o vocábulo indica as próprias boas-novas. Aparece


em termos proféticos com o mesmo sentido que encontramos no Novo Testamento: “Quão suaves
são sobre os montes os pés do que anuncia as boas-novas, que faz ouvir a paz, que anuncia o bem,
que faz ouvir a salvação, que diz a Sião: O teu Deus reina!” (Is 52.7). Veja o seu cumprimento em
Romanos 10.15.

C) No Novo Testamento são as boas novas que falam do Reino de Deus, da salvação e do
perdão dos pecados na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. É o Evangelho da graça de Deus (At
20.24).

EVANGELISTAS

Os evangelistas eram os “missionários” pátrios ou estrangeiros. Algumas traduções, como a


de Goodspeed, dizem mesmo “missionários”. Os apóstolos eram evangelistas, e muitos profetas
também o eram; porém, além desses, havia outros, especialmente talentosos, dotados do dom da fé,
da exortação e de outras manifestações espirituais apropriadas para seu ofício, os quais eram
presenteados à Igreja para multiplicá-la em número. O grupo dos evangelistas era aquele que
efetuava a missão evangelizadora da Igreja entre os judeus ou os gentios, em posição subordinada
aos apóstolos. Geralmente os evangelistas não estavam limitados a qualquer comunidade cristã
local, mas foram de lugar em lugar, estabelecendo novas congregações locais, conduzindo os
homens à fé e à conversão a Cristo.

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O evangelista é alguém especial e completamente capacitado para comunicar o Evangelho e
levar descrentes a Cristo. Ele sempre conduz um número maior de pessoas a Cristo, e isto, com
muito mais facilidade, porque comunica melhor a palavra da fé. Ele não prega mensagens
complicadas, mas simples, com convicção e objetividade, as quais explodem nos corações dos
perdidos que o ouvem. Ele não precisa ser um bom orador, nem um teólogo, nem trazer mensagens
recheadas de coisas novas, isto porque ele é ungido por Deus para realizar tal tarefa. Os evangelistas
são “especialmente talentosos, dotados do dom da fé, de exortação e de outras manifestações
espirituais apropriadas para o seu ofício, os quais [os evangelistas] eram apresentados à Igreja para
multiplicá-la em número”.

O PECADOR

A situação do pecador perdido

Muito grande é o clamor dos perdidos:


“...Passa à Macedônia e ajuda-nos!” (At 16:9).

O mundo jaz no maligno (1 Jo 5:19). Com a entrada do pecado, Satanás tornou-se deus deste
século (2 Co 4.4) e o príncipe deste mundo (Jo 14:30; 16:11). O pecador está preso nos laços do
diabo (2 Tm 2:26), e é denominado como príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera
nos filhos da desobediência (Ef 2:2). Dominado totalmente por Satanás, o pecador está entregue a
toda sorte de práticas desagradáveis aos olhos de Deus: faz a vontade da carne e dos pensamentos
(Ef 2:3); é dominado pelas concupiscências do seu coração (Rm 1:24) e pelas paixões infames (Rm
1:26). Os pecadores estão entregues a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não
convém, estando cheios de toda iniqüidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de
inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade; sendo murmuradores, detratores, aborrecedores
de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às
mães; néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia (Rm
1:28-31).

É devido a essa situação caótica em que se encontram os pecadores, que o Senhor, que não
pode suportar o mal (Hc 1:13), já tem determinado o castigo dos que se recusarem a receber a graça
de Deus (2 Pe 2:4-9). Porém, os que crêem são libertos dessa geração perversa (At 2:4) e passam a
ser propriedade de Deus, pois foram comprados do mundo com o sangue de Jesus (Ap 5:9), e “os
que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gl 5:24), e, assim
podem viver “...neste presente século uma vida sóbria e justa e piamente; aguardando a bem-

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aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo” (Tt
2:12-13), o qual nos levará deste mundo para a sua gloriosa mansão, nos céus (Jo 14:1-3).

O estado do pecador

1- O pecado tem despojado o pecador dos seus bens espirituais (Rm 3:23), deixando-o caído
na estrada da vida, “meio morto” (Lc 10:30-35). Pela vida do pecador já tem passado o levita
(v.32), uma figura das filosofias humanas; também pela vida já tem passado o sacerdote (v.31), uma
figura das milhões de religiões existentes. Porém, o homem continua caído, despojado e meio
morto. A única pessoa que pôde socorrer o moribundo da estrada foi o bom samaritano que é,
primeiramente, uma figura do Senhor; mas que, também, é uma figura do crente salvo que, para
efetuar esse trabalho, tem em suas mãos os recursos do azeite (graça), vinho (palavra) e dinheiro
(dons).

2- “...Tirou-me dum lago horrível, dum charco de lodo...” (Sl 40:2). O pecador está atolado
no lodo (pecado) preso pelos laços do diabo (2 Tm 2:26) e impossibilitado de sair pelos seus
próprios esforços (Jo 8:34). Somente o crente, que já está com os pés firmados na rocha (Sl 40:2),
poderá ajudá-lo a sair daquele horrível lugar para a rocha da nossa salvação: Cristo (Ef 2:20, 21).
Ao aceitar Jesus como Salvador, o pecador é tirado da potestade das trevas para o reino do filho de
seu amor (Cl 1:13); das trevas para a luz (1 Pe 2:9).

3- O pecador está rodeado pelo fogo da condenação (Jo 3:8) e não tem condições, por si, de
sair. Mas, como o crente já saiu da mesma condição (Jo 5:24; Rm 8:1), o Senhor confiou-lhe a
urgente tarefa de salvar alguns, arrebatando-os do fogo (Jd 23).

4- Os perdidos estão destinados à morte e estão sendo levados para a matança (Pv 24:11).
Deus quer que todo crente não ignore essa terrível situação dos pecadores (Pv 24:12); por isso os
incumbiu da realização do importante trabalho de retirá-los dessa circunstância (Pv 24:11).

5- Todos os homens foram mordidos por uma serpente venenosa chamada pecado (Rm 3:23;
1 Jo 1:8); e, como conseqüência, são candidatos à morte eterna (Rm 6:23; Ap 21:8). Somente o
crente tem o verdadeiro remédio para o pecado: Cristo. Ao crer em Jesus o veneno do pecado é
extirpado da vida do ser humano (Jo 1.7:9).

6- “... Não tenho homem algum que, quando a água é agitada, me meta no tanque...” (Jo 5:7).
O pecador está com a enfermidade do pecado (Is 1:6); por si mesmo não pode chegar no tanque
(salvação). Somente o crente poderá fazer este trabalho (Lc 14:22, 23).

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7- “Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai. Pois tenho cinco irmãos; para que
lhes dê testemunho, a fim de que não venham parar neste lugar de tormento” (Lc 16:27, 28). Como
é comovente a situação deste rico que havia partido para a eternidade sem salvação! Estava agora
atormentado nas chamas (v.24). Diante do pedido acima, foi-lhe dito da impossibilidade de alguém
sair de lá de onde ele estava, isto é, do Hades, para a Terra, a fim de testificar para seus irmãos.
Também lhe foi dito que este trabalho é feito pelos que estão na terra. A responsabilidade de pregar
a palavra foi confiada aos crentes (2 Tm 4:2). Se o pecador crer em Jesus, será salvo e livre da
condenação (Jo 5:24) e, ao partir desta vida, irá gozar das delícias do paraíso celestial (Lc 23:43; 2
Co 12:4; Fp 1:21-23; 3:20, 21).

8- “Olhei para a minha direita, e vi, mas não havia quem me conhecesse: refúgio me faltou;
ninguém cuidou da minha alma” (Sl 142:4).
O pecador está à espera de alguém que possa cuidar da sua alma. Essa missão foi confiada
aos crentes.

EVANGELISMO, O QUE É?

É a obra do Espírito

O Espírito Santo é capaz de fazer a Palavra alcançar tanto êxito hoje como nos dias dos
apóstolos. Ele pode salvar as almas às centenas ou aos milhares, como também de uma em uma, ou
de duas em duas. A razão por que não somos mais prósperos é que não contamos com o Espírito
Santo entre nós, em poder e energia, como nos tempos primitivos.

“Se contássemos com o Espírito para selar o nosso ministério com poder, isso significaria
que poucos valores dariam ao talento humano. Os homens podem ser pobres e sem estudo, suas
palavras hesitantes e gramaticalmente erradas; porém, se o poder do Espírito as estiver bafejando, o
evangelista mais humilde será mais bem sucedido do que o mais erudito dos doutores, ou o mais
eloqüente dos pregadores”.

“É o extraordinário poder de Deus, e não os talentos humanos, que obtêm a vitória. É da


unção espiritual extraordinária e não de poderes mentais extraordinários, que precisamos. O poder
intelectual pode encher um templo de angústia de alma. O poder intelectual pode atrair numerosa

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congregação, mas somente o poder espiritual pode salvar almas. Precisamos do poder espiritual”
(Charles H. Spurgeon).

“Se o Espírito estiver ausente, poderá haver sabedoria de palavra, mas não a sabedoria de
Deus; poderá haver os poderes da oratória, mas não o poder de Deus; a demonstração do Espírito
Santo, a lógica convincente de Seu resplendor, como a que convenceu a Saulo, próximo à porta de
Damasco. Quando o Espírito se derramou, todos os discípulos ficaram cheios do poder do alto, e a
língua menos culta pôde silenciar os contradizentes e, com suas chamas novas, foi queimando e
abrindo caminho através de obstáculos de toda sorte, sopradas por poderosos ventos que varreram
florestas” (Arthur T. Pierson).

“Os ministros do Evangelho, de fato, precisam do poder do Espírito Santo, porque sem ele
serão inaptos para o ministério. Nenhum homem é competente para o trabalho do ministério do
Evangelho mediante apenas suas aptidões e habilidades pessoais, sua erudição e experiência
adquiridas dos homens. Sua eficiência vem do poder do Espírito Santo. Enquanto ele não houver
sido dotado desse poder, a despeito de todas as suas virtudes e capacidades, terá que esperar até que
do alto seja revestido de poder. Competia aos discípulos esperar em Jerusalém, até que recebessem
a promessa do Espírito”.

“Mas recebereis a virtude do Espírito Santo que há de vir sobre vós, e ser-me-eis
testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, até os confins da terra” (At
1:8). Antes de os discípulos receberem o batismo no Espírito Santo, ficaram trancados num lugar
onde se reuniam com medo dos judeus (Jo 20:19). Também estavam despreocupados com a
incumbência que lhes fora dada de pregar a Palavra (Jo 21:3). Mas quando receberam o poder do
Espírito Santo (At 2:1-4), o quadro modificou-se totalmente:

Eles que estavam assentados (At 2.:), ficaram de pé (At 2:14);


As portas, que até então estavam fechadas (Jo 20:13), abriram-se e eles saíram às ruas, às
praças, às sinagogas, a pregar a Palavra;
Pedro, que chegara a negar vergonhosamente o Mestre (Lc 22:54-62), agora podia pregar
com coragem e autoridade (At 2:14).

Realmente, o batismo no Espírito Santo capacita o crente para o glorioso trabalho de ganhar
almas, pois o possibilita a pregar com autoridade (At 4:13, 20, 29, 31, 33) e também com graça (At
4:33). Quando o ganhador de almas estiver equipado com esta ferramenta celestial (2 Co 10:4-5),

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haverá muitas conversões, como fruto do seu trabalho (At 11:22-24). O mandamento bíblico neste
sentido é: “... Enchei-vos do Espírito Santo” (Ef 5.18).

A relação do evangelista com o Espírito Santo deve ser algo diferente, até mesmo
indescritível, de tudo o que já se ouviu sobre o assunto. Ele deve ser completamente submergido no
Espírito, submisso à Sua direção para ter uma comunhão fora de comum, que fará com que sua
mensagem, sua vida, seus gestos e tudo mais em seu ser se transformem em poderosas armas de
testemunho do poder e graça de Deus.

O evangelista deve ter tal intimidade com o Espírito que, palavras como “revelação”, “visão”
e “poder”, serão comuns em sua experiência e não somente vocabulário. Ele, sem esta relação, não
passará de um “alto-falante” espiritual. Embora ele fale muito bem, explique claramente, ensine
coisas muito bonitas, sem a Unção do Espírito, não será mais que um bom orador ou mestre.
Todavia, Deus não chamou para tal. Por isso, proveu o meio para que o evangelista estivesse
sempre ligado à fonte divina de poder transformador: O Espírito Santo. Sem essa relação não há
autoridade, poder, manifestações transformadoras ou salvação. (2 Co 13:13).

Evangelismo é sofrer a dor de parto

“Sião, mal sentiu as dores de parto, e já deu à luz aos seus filhos” (Is 66.8). Essa é a obra
suprema da Igreja.

Uma mulher pode dar a luz sem dores de parto? Pode haver nascimento sem parto?

Porém, esperamos que no reino de Deus, algo que não é possível na esfera natural seja
possível na espiritual.

Precisamos estar certos que sofreremos dores de parto para gerarmos filhos espirituais.

Finney diz-nos que não tinha palavras a proferir, mas podia tão somente gemer e chorar,
quando pleiteava perante Deus em favor de uma alma perdida. Ele experimentava o autêntico aperto
da alma.

Poderíamos sentir dor no coração por uma criança que se afoga, não, porém, por uma alma
que perece? Não é difícil que alguém chore quando percebe que seu pequenino está mergulhando
para o fundo do rio pela última vez. É quando a angústia é espontânea. Não é difícil,
semelhantemente, que alguém sinta angústia, quando vê o ataúde que contém tudo quanto ele

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amava sobre a terra afastar-se na direção do cemitério. As lágrimas brotam naturalmente em tal
oportunidade! Porém, entender que almas preciosas, imortais, perecem ao nosso derredor,
precipitando-se irremediavelmente nas trevas do desespero, perdidas na eternidade, e não sentir
angústia nenhuma, não derramar lágrimas é não conhecer o parto de alma! São frios os nossos
corações? Não conhecemos a compaixão de Jesus? Deus no-la pode conceder. A falta será nossa se
não a recebermos.
“Porque ainda que tenhais dez mil aios em Cristo, não tendes, contudo, muitos pais; pois eu,
pelo Evangelho, vos gerei em Cristo Jesus.” (1 Co 4.15)

Paulo fala da diferença entre os aios em Cristo e os pais em Cristo:


O termo aqui traduzido por “preceptores”, ou “instrutores”, é o mesmo traduzido por aio,
conforme algumas traduções dizem em Gal. 3.24, e onde há uma alusão à lei, como o agente que
ajuda alguns homens a serem levados aos pés de Cristo. Aqui estão em vista os “atendentes” de
meninos pequenos, que os acompanhavam na ida e na volta da escola. Usualmente esses
paidagogoi eram escravos relativamente sem importância. Podiam ser numerosos e podiam ser
trocados com freqüência. Mas havia um único pai, e ninguém poderia tomar seu lugar ou suplantá-
lo em importância com relação à criança.

“Os dois pronomes, no grego ‘ego’ e ‘umas’, estão em proximidade enfática. ‘Quem quer
que tenha sido o progenitor de outras igrejas, fui ‘eu’, quem em Cristo ‘vos’ gerou”. (Robertson e
Plummer, in loc).

Paulo, através da pregação do evangelho de Cristo, os havia gerado em suas viagens


missionárias.

E para gerarmos filhos espirituais precisamos sofrer as dores de parto, como as mães, que
depois de um período de nove meses, sofrem mudanças físicas, emocionais e no final a dor do
parto. Mas, quando a criança nasce, elas esquecem de todas as dores que passaram, restando apenas
a alegria pelo filho que nasceu.

Assim é a recompensa do evangelista. Após um período de dificuldades e sofrimentos para


gerar um filho (espiritual) esquece de todo o sofrimento que passou ao ver uma nova vida nascendo
em Cristo Jesus.

“Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria,
trazendo consigo os seus molhos”. (Sl 126:6)

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Levar os pecadores à convicção de pecado

Nos grandes reavivamentos espirituais do passado, sempre ocupou lugar de preeminência


uma profunda e autêntica convicção de pecado. Esse é um dos elementos vitais que, dizemo-lo
tristemente, deixou de existir em nossos dias.

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Sempre que manifesta a genuína convicção de pecado, não há necessidade de exortar, de
repreender, de instar ou pressionar na força da carne. Os pecadores se dobram sem serem
forçados a dobrar-se. E humilham-se, porque não podem agir de outro modo. Voltam para suas
casas, após terem estado nos cultos com pregação do Evangelho, incapazes de comer ou dormir,
em face da profunda convicção de pecado. Não precisam ser repreendidos nem exortados a
buscar alívio para as suas almas.

“Existe um outro Evangelho, por demais popular nos dias que correm, e que parece
excluir a convicção de pecado e o arrependimento do plano da salvação. Tal Evangelho requer
do pecador o mero assentimento intelectual ante o fato de sua culpa e pecaminosidade.
Paralelamente, que haja um assentimento semelhante, de ordem intelectual, quanto à suficiência
da expiação realizada por Cristo. Uma vez dado esse assentimento, o pecador que vá para casa
em paz, feliz no que concerne à sua alma. Assim é que os pregadores proclamam: ‘Paz! Paz!’,
quando não há paz”.

Conversões superficiais e falsas, dessa espécie, podem ser uma explicação, dentre outras,
da existência de tantos indivíduos que se dizem crentes convertidos, mas desonram a Deus e
trazem opróbrio contra a Igreja. Vivem de modo incoerente com sua profissão de fé, em razão
de se deleitarem no mundanismo e no pecado. É necessário que o pecado seja profundamente
sentido, antes de poder ser lamentado. Os pecadores devem sentir tristeza, antes de receber
consolo. As verdadeiras conversões eram comuns antigamente, e voltarão a ser de novo, quando
a Igreja sacudir-se e atirar longe a sua letargia, apegando-se ao poder de Deus, o antigo poder do
Espírito, que vem do alto. Então sim: Como no passado, os pecadores estremecerão ante o terror
do Senhor” (J. H. Lord).

Pensaríamos em chamar um médico antes de cairmos doentes? Exortamos aqueles que


estão em pleno vigor e em boa saúde para que se apressem a consultar um médico? O atleta que
nada com perfeição porventura implora ao povo que está na praia que venha salvá-lo de
afogamento, se nem sequer já molhou os pés na água do mar? Claro que não! Porém, basta que
a enfermidade se declare, e imediatamente sentiremos a nossa necessidade de ir ao médico. Só
então entendemos que precisamos de algum medicamento. E quando o imprudente nadador se
vê exausto e prestes a desaparecer no turbilhão das águas, ao perceber que vai morrer afogado,
não se demora em pedir socorro. É tremenda a agonia que experimenta a pessoa prestes a
afogar-se. Estando sem forças, sabe que, se ninguém a acudir depressa, fatalmente perecerá.

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O mesmo acontece à alma que perece. Quando alguém se convence de modo absoluto de
sua condição de perdido, põe-se a clamar na amarga angústia de seu coração: “Que é necessário
que eu faça para me salvar?” Não é necessário exortação nem incentivo; para o pecador
convicto salvar-se, torna-se a maior questão, caso de vida ou morte, e estará pronto a fazer
qualquer coisa para esse fim, contanto que seja salvo.

É exatamente essa falta de convicção de pecado que resulta em reavivamentos espúrios,


que frustram a obra inteira de evangelização. Uma coisa é levantar a mão e assinar um cartão de
decisão, mas outra, inteiramente diferente, é estar realmente salvo. As almas precisam ser
libertas de modo total e permanente, para que possam desfrutar a eternidade. Fácil tarefa é
contar cem convertidos confessores durante a excitação de uma campanha; mas é coisa
inteiramente diferente voltar ali cinco anos mais tarde, e encontrar todos esses convertidos ainda
firmes no Senhor.

Fonte de Benefício

O evangelismo enche de pessoas qualquer Igreja. Encheu as igrejas metodistas há mais


de duzentos anos. O metodismo nasceu por causa do evangelismo. Esse movimento wesleyano
só cresce e tem vida em função do evangelismo. A Igreja de Cristo só é Igreja por causa do
evangelismo, desde os dias dos apóstolos. É o que leva as pessoas à salvação. Os novos
convertidos vão ocupando os assentos (até então vazios) das igrejas.

Além disso, o evangelismo resolve o problema financeiro. Tudo quanto Pedro teve de
fazer foi apanhar o peixe: o dinheiro encontrava-se na boca desse peixe. Sempre foi assim.
Basta que conquistemos os perdidos para Cristo, que estes suprem os recursos para levar avante
a sua obra. É pelo fato de o evangelismo haver-se amortecido, que tantas de nossas igrejas
foram obrigadas a fechar as suas portas.

A Igreja dos Povos não é exceção. Ao longo dos anos de sua existência, temos conduzido
um contínuo e eficiente ministério de evangelismo, e continuamos a evangelizar. Entoamos
hinos de louvor de teor evangelístico e pregamos sermões que anunciam a salvação em Cristo.

Preservação contra a corrupção

“Não havendo profecia, o povo se corrompe...” (Provérbios 29:18). Quanta verdade! Multidões
fervilham por toda parte em nossas cidades superpopulosas. Massas humanas que perecem por falta

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de visão espiritual. Povos sem Cristo. Pessoas por quem Jesus morreu. Gente que talvez jamais ouça a
mensagem da salvação de Deus, a menos que nós, crentes, recebamos a visão espiritual das
necessidades das massas. Nossos grandes centros populacionais, pelos quais somos responsáveis
diante de Deus, desconhecem o Evangelho da graça de Deus, porque nós, os seguidores de Jesus, não
temos visão profética. Que faremos quanto à nossa falha? Quando sentiremos o peso de nossa
responsabilidade? Quando faremos o que nos compete, sensibilizados pela morte espiritual das
multidões sem Cristo? É real a mensagem desse versículo: “Não havendo profecia, o povo se
corrompe...”

Evangelismo é ainda:

A) Informação: Evangelismo é uma ação que tem por fim informar. É preciso que o
pecador seja informado a respeito de sua condição de pecador; da natureza e conseqüência do pecado
em sua vida; do amor de Deus e de sua providência para a salvação de suas criaturas; o que é
necessário fazer para se salvar. Todos os meios possíveis devem ser usados para que o homem seja
informado de tudo quanto diz respeito a sua situação espiritual e do amor divino para com ele.

B) Persuasão: Não basta apenas informar. É também preciso persuadir. O pecador deve
ser persuadido a submeter-se a Cristo incondicionalmente. Quem convence o pecador é o Espírito
Santo (Jo 16.8). O crente é um instrumento do Espírito para persuadir o pecador.

C) Integração: Após a conversão do pecador, ele deve ser imediatamente integrado a uma
Igreja, preparado para o batismo, batizado e matriculado na Escola Dominical. O discípulo, neste
caso, não é tarefa apenas para o pastor da Igreja, mas de todos os membros que amam as almas
perdidas. O crescimento do povo convertido deve ser uma preocupação de toda a Igreja.

AS ARMAS DO EVANGELISTA

Para realizarmos a tarefa de evangelizar é preciso a utilização sábia de instrumento


adequado. O marinheiro usa a bússola; o alfaiate a tesoura, o lavrador o arado. E aquele que
evangeliza, de quais armas precisa? É necessário:

1- Oração

“Lemos nas biografias de nossos antepassados que se mostraram mais bem sucedidos na
conquista de almas, que oravam em secreto durante horas a fio. Fazemos então uma pergunta:

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Poderíamos obter os mesmos excelentes resultados sem seguir o exemplo deles? Caso não
precisemos orar tanto, provemo-lo ao mundo: Descubramos um método superior! Caso contrário,
em nome de Deus, começaremos a seguir aqueles que a fé, com paciência, tornaram-se herdeiros da
promessa. Nossos progenitores espirituais choraram, oraram e agonizaram diante do Senhor, em
favor dos ímpios, visando a salvação deles, e não descansavam enquanto os pecadores não fossem
feridos pela espada da Palavra do Senhor. Esse é o segredo do êxito retumbante dos gigantes
espirituais do passado. Quando as coisas se paralisavam eles lutavam em oração até que Deus
derramasse de Seu Espírito sobre os homens, que assim se convertiam.”

Todos os homens de Deus eram poderosos homens de oração. Somos informados de que o
sol nunca surgia no horizonte, na China, sem encontrar Hudson Taylor de joelhos. Não admira,
portanto, que a Missão para o interior da China tenha sido tão maravilhosamente usada por Deus!

A conversão é uma operação efetuada pelo Espírito Santo, e a oração é o poder que
assegura essa operação. As almas não são salvas pelo homem, e sim, por Deus; e posto que ele
opera em resposta à oração, não temos outra alternativa além de seguir o plano divino. A oração
movimenta o braço divino, que põe o avivamento em ação.

A oração que prevalece não é fácil. Somente aqueles que têm estado em conflito com os
poderes das trevas sabem que ela é difícil demais. Paulo escreveu dizendo que “não temos que lutar
contra a carne e o sangue, e, sim, contra os principados, contra as potestades, contra as forças
espirituais da maldade nas regiões celestes” (Efésios 6:12). E o Espírito Santo ora com “...gemidos
inexprimíveis” (Rm 8:26).

O que acontece, quando oramos?

 Orando, as portas se abrem Ef 6:18-19;


 Orando, o braço de Deus se move;
 Orando, os corações são quebrantados At 2:37.

Oração e jejum pelas cidades – O homem pecador se opõe a Deus (1Co 2.14; Rm 8.7; Ef
2.1). O diabo força o homem a não buscar a Deus (Ef 2.2; 2Co 4.4). Qualquer plano de
evangelização, por melhor que seja, com recursos, métodos, estratégias, fracassará, se não tiver o
poder de Deus. E o poder de Deus só pode ter adquirido pela busca, pela oração. Deus age (Fp 1.29;
Ef 2.8; Jo 6.44). Os demônios infestam as cidades. Só são expulsos pelo poder da oração (Sl 122; Jr
29.7; Lc 19.41). A oração é a base.

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2) Palavra

A Bíblia é o manual por excelência de missões, porque é a revelação de Deus à humanidade.


Além de ser a única fonte inspirada de teologia e ética, ela nos ensina como fazer evangelismo e
missões.

A Bíblia é a única obra literária do mundo que registra a nossa origem: Deus quer que todos
os seres humanos conheçam a verdade sobre Ele e de como Ele se revelou nas Santas Escrituras; e
também sobre a natureza humana. A vontade de Deus é que todos os homens se arrependam e
tenham conhecimento da verdade (I Tm 2:4).

Deus sempre se preocupou com o bem-estar do homem. Essa vontade só pode ser conhecida
pela revelação, verdade que só é encontrada nos oráculos divinos: a Bíblia Sagrada.

A palavra é a ferramenta do evangelista pessoal. Ele deve manejar bem a palavra da verdade
(2 Tm 2:15) para mostrar ao pecador os pontos salientes do caminho da salvação, aplicando a cada
circunstância a mensagem correspondente. É importante ter bem claros na mente os versículos e
suas respectivas referências que falem sobre cada situação que a pessoa pode estar experimentando
ou experimentar, como, por exemplo, pecado, arrependimento, confissão, perdão, o amor de Deus,
salvação, segurança, proteção, paz, vitória, vida eterna e outros tópicos de igual importância.

Preparo das pessoas para a evangelização das cidades – Esse preparo refere-se ao estudo da
Palavra de Deus. É o preparo na Palavra (2 Tm 2:15). As seitas preparam bem seus adeptos. As
igrejas precisam gastar tempo e recursos no preparo dos que evangelizam.

POR QUÊ EVANGELIZAR?

1 – Porque Deus nos deu o ministério da reconciliação e também pôs em nós a palavra da
reconciliação, de sorte que, somos embaixadores da parte de Cristo.

2 – Porque é uma obrigação de todos sem exceção. Todos temos a incumbência de Jesus (1
Pe 2.9). Alguns começaram a trabalhar de madrugada; outros na terceira hora, isto é, às nove horas;
outros perto da hora sexta, ou seja, entre as onze e doze horas; e outros perto da hora undécima, isto
é, faltando apenas uma hora para terminar o dia. (Os judeus contavam o dia das seis horas da manhã
às seis horas da tarde) (Mt 20:1-6).

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3 – Porque a pessoa salva é a única que pode afirmar com convicção quem Ele era, quem
Ele é, e quem Ele será, ou seja: era um perdido pecador (Rm 3:23), candidato à morte eterna (Rm
6:23; Ap 21:8) e à condenação (Jo 5:24). Porém, hoje, é um pecador remido (Tt 2:14), liberto por
Jesus (Jo 8:34); e, no futuro, estará eternamente na presença do Senhor (1 Ts 4:17) nos céus (Fp
3:20), possuindo um corpo imortal e incorruptível (1 Co 15:51-54).

4 – Porque não tínhamos condições de pagar nossa dívida para com Deus.
A obra de ganhar almas constitui-se numa mensagem de perdão das dívidas que o homem
tem para com Deus.
Quando permanecíamos no pecado, tínhamos uma dívida enorme, e estávamos sem
condições de pagá-la, mas tudo foi perdoado por Deus (Mt 18.23, 27; Cl 2.14). “Portanto, agora
nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus... (Rm 8.1). Precisamos levar a
mensagem da cruz a todos os perdidos para suas salvações, pois, fazendo assim, estaremos dando de
graça, o que de graça recebemos (Mt 10:8)”.

As ilustrações e história a seguir retratam a necessidade da evangelização.

Alguém perguntou a um evangelista sobre o seu trabalho. Ele disse que era semelhante ao de
um mendigo que achara muito pão, e, agora anunciava aos outros o caminho do alimento.

“Uma vez um artista procurou pintar um quadro sobre o evangelismo. Ele pintou um quadro
onde havia uma tormenta no mar, um bote sendo destroçado pelas ondas e jogando seus tripulantes
ao mar, e, numa rocha, que saía das águas, um marinheiro apoiado com ambas as mãos para se
salvar. Ao olhar o quadro, o pintor ficou insatisfeito e quis fazer outro. Então, ele pintou a mesma
tempestade, o mesmo cenário de desespero, o mesmo bote naufragado, os mesmos homens aflitos
pedindo por socorro e a mesma pedra salvadora. No entanto, ele acrescentou algo: um homem bem
apoiado sobre a Rocha que estava no meio das águas revoltas. Com uma das mãos ele se segurava
na Rocha e com a outra oferecia socorro a quem quisesse sair da água”.

A obra desse ministro, se explicada cabalmente e nos mínimos detalhes, com certeza,
mereceria outro livro. O Senhor Jesus, o Evangelista por excelência, resumiu Sua obra da seguinte
maneira: “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc 19:10).
ESTRATÉGIA DE EVANGELIZAÇÃO

1 – Evangelismo pessoal

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A evangelização pessoal ainda é, por excelência, o método mais eficaz na obra de ganhar
almas. Nenhuma estratégia, por mais perfeita que seja, pode substituir com a mesma eficiência o
contato pessoal na pregação do Evangelho.

Jesus e os apóstolos pregaram às multidões, mas nunca desprezaram a evangelização pessoal,


por entenderem que a salvação é uma questão individual (Rm 14:12), que deve ser tratada com as
pessoas uma a uma, como fez o Mestre ao escolher os seus discípulos. É, por outro lado, a estratégia
mais simples e de menor custo, pois é fruto do amor apaixonado de cada crente pelas almas
perdidas, que o faz buscá-las pessoalmente e sem esmorecimento, onde quer que se encontrem,
como fez o pastor com a que se encontrava desgarrada do redil (Lc 15:4-7).

Se cada cristão entendesse o seu papel e ganhasse, pelo menos, uma pessoa a cada ano, e
cada um desses novos cristãos ganhasse também uma pessoa por ano, o alvo de 50 milhões de
almas até o ano 2010, lançado pela Década da Colheita, poderia ser alcançado em pouco mais de
dois anos.

Ponto de contato

A evangelização pessoal tem como fundamento o contato entre o evangelista e a pessoa a ser
evangelizada. Se não houver contato, não há evangelização. É obvio que o contato se dá em duas
direções:

Primeiro com Deus e segundo com o próximo. A forma de aproximação mais conhecida
como ponto de contato vai determinar em grande parte o êxito da iniciativa. Ela será a chave para
tornar o interlocutor mais acessível ao diálogo, que poderá levá-lo a reconhecer os seus pecados e,
conseqüentemente, à conversão.

Não basta simplesmente iniciar uma conversa mostrando já as conseqüências de quem se


rebela contra Deus. Talvez esta seja a forma mais rápida de fechar as portas à pregação. Em
nenhuma parte da Bíblia a mensagem de juízo precede a de arrependimento.

Descobrir o ponto de contato significa fazer uso da habilidade de intuir em cada


situação a maneira pela qual o evangelista pode identificar-se com a pessoa que está sendo
evangelizada. Veja o exemplo de Filipe. Ele descobriu que o eunuco lia o profeta Isaías e fez uso
deste ponto de aproximação para entabular a conversa, enquanto corria ao lado do carro (At 8.30).

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Paulo, no Areópago, utilizou-se da figura do altar ao Deus desconhecido para apresentar aos
atenienses o verdadeiro Deus (At 17.22-24). Ponto de contato é a chave “para se dizer o que é certo
de maneira que não ofenda as pessoas”.

B) Como compreender o ser humano

Compreender as necessidades humanas é, também, uma forma que leva ao ponto de


aproximação. O evangelista pessoal tem que olhar a comunidade que o cerca sob essa perspectiva,
entendendo que ele está tratando com pessoas de temperamentos distintos e que vivem
circunstâncias diferentes. Tratar a todas sob o mesmo ângulo é desconhecer que cada uma possui
necessidades específicas e carece de tratamento específico.

O que fez Paulo no cárcere em Filipos? Sob a nossa ótica, a fuga imediata, talvez fosse o
caminho mais lógico para ganhar a liberdade, após o terremoto. No entanto, ele teve pleno domínio
da situação e prolongou sua permanência na cadeia por mais algum tempo, por compreender que
aquela circunstância era o meio pelo qual poderia legitimar as verdades do Evangelho através do
próprio comportamento, levando uma família à conversão (At 16.25-39).

C) Aprendendo com Jesus

Cristo, nosso maior exemplo, foi quem melhor soube utilizar-se dos pontos de aproximação e
compreender as necessidades humanas. Enquanto a mulher samaritana estava preocupada em tirar
água do poço de Jacó, Ele aproveitou o fato para falar-lhe da água da vida, sem entrar no mérito da
histórica inimizade entre judeus e samaritanos. Em relação à mulher adúltera, teve a visão correta
da sua necessidade e da hipocrisia dos que a cercavam. Quanto a Zaqueu, o publicano, tocou no seu
ponto nevrálgico para levá-lo ao conhecimento da salvação. No que tange à multidão faminta, no
deserto, movido de íntima compaixão, ordenou aos discípulos: “Dai-lhe vós de comer”, e não a
despediu enquanto não foi alimentada. (SE)

COMO FAZER A EVANGELIZAÇÃO PESSOAL

A) Fazendo amizade

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A evangelização pessoal tem como pressuposto a amizade, principalmente quando se trata de
um projeto em médio prazo em relação a determinada pessoa. Uma proposta de relacionamento
amistoso e sincero é a primeira atitude que o evangelista pessoal precisa demonstrar na sua busca
incessante pelas almas perdidas. É preciso que haja da parte do pecador, absoluta confiança nas
intenções de quem o está evangelizando.

B) Pelo exemplo

O exemplo é outro fator de atração que deve ir na frente para conquistar, sem palavra, a
expectativa do incrédulo. Há uma diferença entre o salvo e o não salvo e esta precisa ficar bem
caracterizada não apenas pelo discurso, mas principalmente pelas ações. “Eis que tenho observado
que este homem que passa por aqui é um santo homem de Deus” (2 Rs 4.9), já dizia a mulher a
respeito de Eliseu. De que adianta um turbilhão de palavras bem concatenadas se o testemunho não
corresponde ao que se prega?

C) Pelo discipulado

Aqui significa que o evangelista pessoal não vai pregar para alguém e abandoná-lo à beira do
caminho. O discipulado implica em adotar essa pessoa e levá-la pacientemente a cumprir todos os
passos da salvação até que Cristo seja gerado nela. Este procedimento produzirá crentes maduros
que, por sua vez, serão levados a ter a mesma atitude de fazer novos discípulos (2 Tm 2:2).

Foi assim com Filipe, que após o chamado do Mestre, trouxe as boas novas para Natanael e o
levou a Cristo (Jo 1:45-47). O mesmo ocorreu com a mulher samaritana, que anunciou ter
encontrado o Messias aos conterrâneos de Samaria: “Vinde e vede um homem que me disse tudo
quanto tenho feito, porventura não é este o Cristo?” (Jo 4:39). O endemoninhado gadareno foi outro
que não titubeou. Depois de liberto, “foi apregoando por toda a cidade, quão grandes coisas Jesus
lhe tinha feito” (Lc 8:39). Gerar um novo crente significa acompanhá-lo passo a passo, tal como
uma criança, até que possa andar com os seus próprios pés.

QUALIDADES DO EVANGELISTA

1 – Demonstrar convicção

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Entre as muitas qualidades exigidas do evangelista pessoal, além da conversão e da certeza
de salvação, está a convicção absoluta naquilo que crê. Jó escreveu: “Eu sei que o meu Redentor
vive” (Jó 19:25). O apóstolo Paulo não teve dúvida: “Eu sei em quem tenho crido” (2 Tm 1:12). A
ineficiência na exposição das verdades da salvação passa a idéia de que o pregador não está muito
convicto daquilo que prega e não permite ao Espírito Santo usar a palavra para atingir o coração do
ouvinte, isto, porque, “se a trombeta der sonido incerto, quem se preparará para a batalha?” (1 Co
14:8). Ou seja, se o soldado der o toque de recolher para, em seguida, dar o toque da alvorada no
momento exato de iniciar a guerra, como os recrutas irão agir?

2 – Ser convertido

“... E tu, quando te converteres, confirma teus irmãos” (Lc 22:32). “... E grande número creu
e se converteu...” (At 11:21). Há muitas pessoas que querem dar o segundo passo, sem ter
conhecido o primeiro. A princípio, eles tentaram usar o poder do nome de Jesus, sem experimentá-
lo em suas vidas. E depois, tentaram levar homens pecadores e rebeldes ao conhecimento da
vontade divina. O homem salvo por Cristo, que está reconciliado com Deus, não vive mais em
rebeldia, seja qual for a forma que ela tiver. Que Deus nos ajude a estar dentro da Sua vontade! Nós
dizemos o que sabemos e testificamos o que vimos (Jo 3:11). Porque hás de ser sua testemunha para
com todos os homens do que tens visto e ouvido (At 22:15). O que ouvimos, o que vimos com os
nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram na Palavra da vida. O que vimos
e ouvimos, isso vos anunciamos (1 Jo 1:1-3).

3 – Ter bom testemunho

“Convém que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta e
no laço do diabo” (1 Tm 3:7).

4 – Ser preparado

“Sofre, pois, comigo, as aflições como bom soldado de Jesus Cristo. Ninguém que milita se
embaraça com negócio desta vida, a fim de agradar àquele que alistou para a guerra. E, se alguém
também milita, não é coroado se não militar legitimamente. O lavrador que trabalha deve ser o
primeiro a gozar dos frutos”. (II Tm 2:3-6).

Há um ditado que diz: “Um homem prevenido [preparado] vale por dois”. No caso do
evangelista (ou qualquer outro ministro) isso é regra. Ele deve se preparar para estar sempre pronto

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a responder à altura de um anunciador das Boas-novas. A Bíblia compara o crente como um
soldado ou atleta; estes títulos, em si mesmos, já denotam preparação. O evangelista deve se
preparar e também preparar o ambiente e as pessoas, através da oração. “A proclamação funciona
bem, num ambiente, onde as pessoas têm sido preparadas para ouvir o Evangelho.”

Estar preparado é mais do que ficar sempre lendo materiais sobre evangelismo. É estar cheio
da Palavra, do Espírito e da Graça de Deus. Estar preparado é também ser sensível à direção do
Espírito. O evangelista deve estar pronto, tanto para pregar quando o Espírito quiser, como para não
pregar quando o Espírito assim o mandar (Atos 16.6, 7). “Um ministro pode ter educação,
treinamento, personalidade e qualquer outro dom, geralmente considerado como uma necessidade
para um ministério próspero; contudo, o fracasso será iminente se ele descuidar do maior de todos
os requisitos para alcançar o verdadeiro e permanente ministério: a preparação espiritual de si
mesmo”.

5 – Ter o senso da oportunidade

Ter o senso da oportunidade é não deixar passar a hora e aproveitar as circunstâncias


favoráveis. O evangelista pessoal está sempre atento aos fatos e a tudo que o cerca, pois uma
situação inesperada pode ser o ponto de partida para ganhar uma alma.

Filipe ia a caminho de Gaza, deixando para trás um poderoso avivamento em Samaria (At
8.1-8) e aparentemente desperdiçando tempo, pois diz a Bíblia que a região estava deserta. Mais eis
que de repente surge alguém numa carruagem lendo o profeta Isaías. Era a oportunidade que não
podia ser desperdiçada e Filipe não perdeu tempo. O resultado todos conhecem.

Aqui fica também uma lição: aqueles que se consideram pregadores de grandes multidões
devem ter o senso do valor de uma alma, como Filipe. Ele trocou as conveniências de uma cidade
grande por uma região deserta, tendo em vista uma só alma.

6 – Conhecer o pecador

O pecador manifesta diferentes reações à palavra pregada. Cabe ao evangelista pessoal


conhecê-las e saber como lidar com elas. Há os que se mostram indiferentes, enquanto outros estão
interessados. Há os que desejam a salvação, mas se acham impedidos, enquanto outros não crêem
que possam ser salvos. Há os que se consideram fracassados e não sabem como ser restaurados.

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Enfim, há diferentes situações, mas para cada uma há respostas convincentes nas Escrituras. É
preciso que o evangelista pessoal as conheça e permita que o Espírito Santo as use no momento
adequado.

OS QUATRO “COMOS” DO EVANGELISMO

Vamos examinar a Carta aos Romanos, capítulo 10, versículos 13-15: “Porque todo aquele
que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E
como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como
pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam a
paz, dos que anunciam coisas boas.”

Aqui temos os quatros “comos” da Palavra de Deus. Primeiramente encontramos a promessa


“ser salvo” condicionada ao verbo “invocar”. Porém, para que invoquem, precisam antes confiar.
Para que confiem, precisam antes ouvir. Para que ouçam, alguém deve pregar-lhes as boas novas.
Mas para que preguem, terão antes de ser enviados. Dessa maneira, Deus põe a responsabilidade
sobre nós. Se enviarmos os missionários, eles poderão pregar. Se eles pregarem, pessoas poderão
crer; e se crerem, invocarão; e se invocarem, serão salvos. Mas todo o processo é iniciado por nós.
Antes de qualquer coisa, é necessário que enviemos.

SAQUEANDO O INFERNO

Para tornarmos efetiva a nossa vitória nesta batalha, precisamos de uma estratégia bem
planejada e estudada, e esta estratégia já está descrita na Palavra de Deus, e constitui-se dos
seguintes passos:

1 – Derrubar as portas do inferno

Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas
do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16.18).
Neste verso, Jesus está apresentando o instrumento de Deus para a execução dos Seus planos
de restauração da humanidade. Jesus está dizendo: “Eu edificarei a minha Igreja, e as portas do
inferno não prevalecerão contra ela”, ou seja, o trabalho de Deus na restauração da humanidade
começa com um ataque frontal ao inferno. A Igreja é o instrumento de Deus para atacar o inferno, e
o primeiro passo nesta estratégia é derrubar as portas do inferno.

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Tenho ouvido interpretações erradas deste versículo por pessoas afirmando que os crentes
estão dentro do templo, tremendo de medo, e Satanás está em volta, tentando entrar, mas as portas
da Igreja estão firmes e ele não pode entrar. Contudo, é exatamente o contrário o que a Bíblia
afirma: Satanás é quem está dentro do inferno, bem trancado, tremendo de medo do poder de Cristo
através da Igreja, tentando segurar as vidas que estão em suas mãos. Assim, o papel da Igreja é
derrubar as portas do inferno e entrar lá para tirar as vidas do domínio de Satanás e levá-las para as
mãos de Cristo. As portas do inferno não resistem ao poder de Cristo manifesto na Sua Igreja.
Aleluia!

2 – Amarrar o inimigo

Ninguém pode entrar na casa do valente para roubar-lhe os bens, sem primeiro amarrá-lo; só
então lhe saqueará a casa (Mc 3:27).

O segundo passo na estratégia da batalha espiritual é amarrar o inimigo. No contexto deste


verso, Jesus Cristo está falando sobre Satanás, e apresenta-nos a estratégia de amarrá-lo. Pela
autoridade da nossa posição em Cristo, pela Palavra de Deus, pelo nome de Jesus Cristo, podemos
amarrar Satanás e os espíritos malignos, para, finalmente, tirarmos as vidas de suas mãos. Se
estivermos acima de todo domínio e poder, temos, então, autoridade espiritual sobre este poder. Por
isso, o crente em Cristo, simplesmente pode amarrar Satanás, para executar a obra de Deus. Isto não
quer dizer que podemos impedir a atuação de Satanás no mundo, pois isto só se dará no final dos
tempos, mas o que podemos e devemos fazer é impedir a atuação de Satanás e espíritos malignos,
especificamente sobre a pessoa ou área onde estivermos evangelizando.

3 - Roubar-lhe os bens

Ninguém pode entrar na casa do valente para roubar-lhe os bens, sem primeiro amarrá-lo; e
só então lhe saqueará a casa (Mc 3.27).

O bom crente é um “ladrão”! E deve “roubar” muito. No verso, Jesus diz que devemos
amarrar o valente e saquear-lhe os bens. Quais são os bens de Satanás? São as vidas que ele tem em
seu domínio. Portanto, estas vidas precisam ser resgatadas. Precisamos tirá-las das mãos de Satanás
e levá-las para Cristo. Isto é feito no campo espiritual. Há muita gente tentando convencer os outros
de que as doutrinas bíblicas são certas e de que somente em Cristo há salvação, pensando que se a
pessoa aceitar estes argumentos intelectuais estará salva. A apresentação do plano de salvação e o
uso de argumentos poderão ajudar a pessoa a tomar a decisão, que produzirá efeitos espirituais,

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porque a salvação de Cristo consiste em tirar as vidas das mãos de Satanás e transportá-las para o
reino de Deus. Por isso, devemos amarrar Satanás e saquear-lhe os bens.

4 – Garantir os bens saqueados

Após roubarmos as vidas das mãos de Satanás, estas precisam ser protegidas e garantidas
para não caírem mais no domínio do inimigo. Poderemos fazer isto de três maneiras:

A) Discipulando – Precisamos levar o novo convertido a compreender a Palavra de


Deus, a conhecê-la não só na teoria, mas também na prática. Aquele que se firmar na
Palavra de Deus, colocando-a em prática estará firmando sua vida espiritual sobre a
rocha, que é Cristo, e nada poderá derrubá-lo desta posição. Daí a necessidade de
alguém mais experimentado na Palavra, para tomar o novo convertido e,
pessoalmente, ajudá-lo no crescimento espiritual.

B) Resistindo a Satanás – “Sujeitai-vos, portanto, a Deus; mas resisti ao diabo, e ele


fugirá de vós” (Tg 4:7). O versículo diz que devemos primeiro estar em submissão a
Deus. A nossa luta espiritual mostra que a vitória vem do poder de Deus em nossas
vidas. Desta forma, precisamos estar em inteira submissão ao Espírito Santo de Deus,
para então, resistirmos ao diabo. Quando resistimos a Satanás e aos seus ataques, ele
foge. Note que coisa interessante: quem foge é o diabo, não o crente. Temos visto
crentes fugindo de medo do diabo e de pessoas possuídas por demônios, porque não
conhecem sua posição em Cristo. Quando exercemos autoridade e resistimos ao
diabo, ele foge. O diabo é quem precisa fugir.

C) Não dando lugar ao diabo – “... nem deis lugar ao diabo” (Ef 4:27). A vitória já está
garantida, temos autoridade sobre Satanás, mas precisamos tomar cuidado para não
lhe dar lugar. O diabo é astuto e não vai aparecer diante de nós como um bicho feio.
Ao contrário, a Bíblia diz que ele se transforma em anjo de luz, para nos enganar. E o
faz com muita sutileza; às vezes, trazendo um mau pensamento, desviando-nos dos
propósitos de Deus; outras vezes, provocando divisões, contendas, etc. Assim,
devemos tomar cuidado e não dar lugar ao pecado, contendas, divisões na Igreja, para
que ele não tenha vantagem nesta batalha.

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Resumindo, esta deve ser então, nossa estratégia: derrubar as portas do inferno e entrar lá;
amarrar Satanás; tirar as vidas de seu domínio e transportá-las para o reino de Cristo; treinar estas
vidas para que se tornem também soldados contra o inimigo.

A vitória já está garantida, pois a Bíblia diz que Jesus se manifestou para destruir as
obras do diabo (1 Jo 4:8). Além disso, quando a última pessoa ouvir a mensagem do
Evangelho na terra, Jesus Cristo voltará com poder e grande glória (Mt 24:14). Então
veremos a derrota final do Inimigo (Ap 20:7-10).

CONCLUSÃO

No coração de Deus há um clamor, dia e noite, gritando: ALMAS! ALMAS! ALMAS! Ele
clama para que seus servos se entreguem à obra de ganhar almas. Somente estes, que procuram ter
um coração segundo o de Deus sabem o que significa este clamor: “...Ai de mim, se não anunciar
este Evangelho!” Paulo sabia que era responsável perante Deus, de resgatar o mundo das trevas. O
Senhor tem chamado e preparado homens especiais para este serviço: Os Evangelistas. Esses
homens têm transformado o mundo com as Boas-novas de salvação, desde o tempo de Jesus, e vão
continuar com este ministério até que Ele volte.

Jesus, após sua ressurreição, enunciou aos discípulos uma condensação do Velho
Testamento. Disse ele: “São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco, que
importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos
Salmos”. Quando então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras, e lhes disse:
Assim está escrito, que o Cristo havia de padecer...”.
Sacerdotes e rabinos judeus, aos milhares, já dedicaram incontáveis horas de estudo aos
textos do Velho Testamento e, no entanto, não conseguiram perceber ali a maior revelação: o
Messias teria que sofrer e morrer...

E Jesus continua: “... e ressuscitar dentre os mortos ao terceiro dia...” A ressurreição do


Messias, outro importante “ponto cego” na mente do povo escolhido de Deus é a segunda parte do
conciso sumário que ele faz do Velho Testamento.

Mas nós, os cristãos, que vivemos 2000 mil anos depois, tendo os benefícios de conhecer o
desenrolar subseqüente da História, devemos ter o cuidado de não rir desse erro dos judeus, que não
discerniram o tema central do Antigo Testamento, pois Jesus continuou a sua exposição,

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mencionando o terceiro fator que constitui um dos principais: “E que em seu nome se pregasse
arrependimento para remissão de pecados, a todas as nações, começando em Jerusalém” Lc 24:44-
47.

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ACONSELHAMENTO PASTORAL

- Igreja e o Aconselhamento

Não é fácil aconselhar de maneira organizada e competente, principalmente


diante do fato de que os problemas são muito variados, as necessidades, imensas, e as
técnicas de aconselhamento, muitas vezes, confusas e contraditórias.
Há, literalmente, milhares de métodos de aconselhamento em uso hoje em dia.
Livros e artigos sobre terapia e assistência saem das rotativas com uma regularidade
perturbadora. Parece até que o número de teorias e abordagens de aconselhamento é
igual ao de conselheiros. Com toda essa carga de informações e atividades, até
mesmo os profissionais que se dedicam em tempo integral podem acabar se sentindo
sobrecarregados.
Será ótimo se todas essas publicações, teorias e treinamentos técnicos
ajudassem os conselheiros a desempenhar melhor sua função, mas a verdade é que
alguns dos livros e seminários que tratam do assunto são de validade questionável.
Autores bem-intencionados, mas ingênuos, têm proposto “novos métodos” simplistas,
que afirmam ser genuinamente cristãos, mas não se mostram eficazes. Livros recentes
aumentaram ainda mais a confusão, ao criticarem as profissões voltadas para o
aconselhamento. Além disso, certos sermões com forte apelo emocional, alguns deles
transmitidos pela televisão, levaram muitos crentes a acreditar erroneamente que todo
tipo de aconselhamento é desnecessário.
É verdade que, às vezes, o aconselhamento não ajuda. Até mesmo conselheiros
experientes e bem preparados, que se mantêm sempre atualizados e aplicam as
técnicas mais confiáveis, verificam que os aconselhandos nem sempre fazem
progressos. De fato, alguns até pioram. Não é de surpreender, portanto, que algumas
pessoas desistam e acabem concluindo que o aconselhamento é perda de tempo.
Entretanto, se todo mundo desistisse, para onde iriam as pessoas com
problemas? Jesus, que é o exemplo de cristão perfeito, passou muitas horas falando a
pessoas necessitadas, tanto em grupo quanto em contatos face a face. O apóstolo
Paulo, que era extremamente sensível às necessidades das pessoas marcadas pela
vida, escreveu que nós, que somos fortes, devemos suportar as debilidades dos mais
fracos e ajudá-los a levar suas cargas. Provavelmente, Paulo estava falando de
pessoas que tinham dúvidas, sentiam temores e viviam em pecado, mas sua
preocupação compassiva englobava quase todos os problemas que os conselheiros de
hoje podem encontrar.

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Para os escritores dos livros da bíblia, assistência ao próximo não era uma
questão de opção, mas uma responsabilidade de todo crente, inclusive do líder da
igreja. Há ocasiões em que o aconselhamento pode parecer perda de tempo, mas é um
ordenança bíblica e pode vir a ser parte importante, necessária e eficaz em qualquer
ministério.
Não devemos presumir que todo pastor ou líder cristão tem dom nessa área ou
foi vocacionado para exercer esse ministério. Por causa de temperamento, interesses,
habilidades, preparo ou chamado, alguns cristãos evitam o aconselhamento,
preferindo devotar tempo e talentos a outras atividades. Essa é uma decisão legítima,
principalmente se tomada após consulta a outros cristãos.
Precisamos, porém, ter o cuidado de não abrir mão com muita rapidez de uma
experiência enriquecedora, potencialmente poderosa e biblicamente fundamentada de
ministrar aos outros. Não é fácil aconselhar, mas há evidências cada vez maiores de
que pessoas das mais variadas origens e formações podem aprender técnicas de
aconselhamento eficientes. Creia que Deus pode usá-los, caro leitor, para aconselhar
outras pessoas.

Cuidado e Aconselhamento

O objetivo do aconselhamento é dar estímulo e orientação às pessoas


que estão enfrentando perdas, decisões difíceis ou desapontamentos. O
processo de aconselhamento pode estimular o desenvolvimento sadio de
personalidade; ajudar as pessoas a enfrentar melhor as dificuldades da
vida, os conflitos interiores e os bloqueios emocionais; auxiliar os
indivíduos, famílias e casais a resolver conflitos gerados por tensões
interpessoais a qualidade de seus relacionamentos; e, finalmente, ajudar as
pessoas que apresentam padrões de comportamento autodestrutivos ou
depressivos a mudar de vida. O conselheiro cristão procura levar as
pessoas a ter um relacionamento pessoal com Jesus Cristo, ajudando-as,
assim, a encontrar perdão e a se livrar dos efeitos i ncapacitantes do
pecado e da culpa. O objetivo final do cristão é ajudar os outros a se tornar
discípulos de Cristo e a discipular outras pessoas.
O cuidado pastoral. Alguns autores consideram importante fazer
distinção entre cuidado pastoral, aconselhamento pastoral e psicoterapia.
Desses três termos, o mais abrangente é cuidado pastoral. Ele se refere aos
ministérios eclesiásticos de cura, apoio, orientação e reconciliação das
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pessoas com Deus e com o próximo. Esse trabalho, também chamado de
cuidado com as almas, inclui os ministérios de pregação, ensino,
disciplina, administração de sacramentos, educação e assistência em casos
de necessidade. Desde os tempos de Cristo, a igreja tem a seu cargo o
cuidado pastoral.
O aconselhamento pastoral. Esta é uma área mais especializada do
cuidado pastoral, que se dedica a ajudar indivíduos, famílias ou grupos a
lidarem com as pressões e crises da vida. O aconselhamento pastoral
emprega vários métodos de cura para ajudar as pessoas a enfrentarem seus
problemas de uma forma coerente com os ensinamentos bíblicos. O
objetivo final é que os aconselhandos cheguem à cura, aprendam a lidar
com situações semelhantes e experimentem crescimento espiritual.
Segundo a definição tradicional, aconselhamento pastoral é trabalho
para um pastor ordenado. Contudo, em vista do que as Escrituras dizem a
respeito de todos os crentes levarem as cargas uns dos outros, o
aconselhamento pastoral pode e deveria ser um ministério exercido por
cristãos sensíveis e zelosos, tenham eles sido, ou não, ordenados ao
pastorado. Nas páginas seguintes, os termos aconselhamento pastoral e
aconselhamento cristão serão considerados sinônimos.
A psicoterapia pastoral. Esse método de assitência é um tratamento
profundo e de longo prazo que tem como objetivo produzir mudanças
fundamentais na personalidade, nos valores espirituais e nos padrões
mentais do aconselhando. O propósito deste tipo de auxílio é remover os
bloqueios emocionais que inibem o crescimento pessoal e profissional do
indivíduo, os quais, geralmente, têm origem em situações ocorridas no
passado. Esse trabalho deve ser realizado por um especialista preparado e,
portanto, raramente será mencionado neste livro.

EM QUE RESIDE A SINGULARIDADE DO ACONSELHAMENTO


CRISTÃO?

Há muitos anos, conduzi em seminário para um grupo de capelães


que rejeitaram a idéia de que o aconselhamento cristão fosse diferente dos
demais. “Não há nada eminentemente cristão no aconselhamento”, afirmou

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um dos participantes. “Não existe procedimento cirúrgico cristão, nem
mecânica de automóveis cristã, e muito menos aconselhamento cristão”.
Os conselheiros cristãos utilizam muitas técnicas desenvolvidas e
aplicadas por incrédulos, mas o aconselhamento cristão tem, pelo menos,
quatro elementos que o distinguem dos outros.
Hipóteses singulares. Nenhum conselheiro é absolutamente isento
ou neutro em termos de suas suposições. Cada um de nós traz seus pontos
de vista pessoais para a situação que é objeto do aconselhamento, e isso
influencia nossos juízos e comentários, estejamos nós conscientes disso ou
não.
O psicanalista Erich Fromm, por exemplo, declarou certa vez que
todos nós vivemos “num universo indiferente ao nosso destino”. Esse
ponto de vista não deixa espaço para a crença num Deus soberano e
compassivo. Nele, não há lugar para oração, meditação na “Palavra de
Deus”, experiência do perdão divino, ou expectativa de vida após a morte.
As hipóteses de Fromm certamente influenciaram seus métodos de
aconselhamento.
Apesar das variantes teológicas, a maioria dos conselheiros que se
denominam cristãos tem (ou deveria ter) crenças acerca dos atributos de
Deus, da natureza humana, da autoridade da bíblia, da realidade do pecado,
do perdão de Deus e da esperança do futuro. Leiam-se, por exemplo, os
quatro primeiros versículos de Hebreus. Se cremos que deus falou à
humanidade, criou o universo por meio de seu filho, providenciou um
meio de obtermos o perdão dos pecados e agora sustenta todas as coisas
pelo poder de sua palavra, nossa vida e nossa maneira de aconselhar têm
de ser diferentes!
Objetivos singulares. Assim como os profissionais leigos, os
cristãos procuram ajudar os aconselhandos a alterarem seus
comportamentos, atitudes, valores e/ou percepções. Tentamos ensinar
habilidades (inclusive habilidades sociais), encorajar o reconhecimento e a
expressão das emoções, dar apoio em momentos de necessidades, incutir
senso de responsabilidade, orientar a tomada de decisão, ajudar a
mobilizar recursos internos e externos em períodos de crise, ensinar
técnicas de resolução de problemas e aumentar a competência e o senso de
“auto-realização” do aconselhando.

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Entretanto, o conselheiro cristão vai mais longe. Ele procura
estimular o crescimento espiritual do aconselhando e encorajar a confissão
dos pecados para recebimento do perdão divino. Além disso, ajuda a
moldar padrões, atitudes, valores e estilo de vida cristãos, apresenta a
mensagem do evangelho, encoraja o aconselhando a entregar sua vida a
Jesus Cristo e estimula-o a desenvolver valores e padrões de conduta
baseados nos ensinos da Bíblia, em vez de viver de acordo com as regras
relativistas do humanismo.
Alguns criticam essa atitude, dizendo que isso é “misturar religião
com aconselhamento”.
Entretanto, ignorar questões teológicas é adotar as bases da religião do
naturalismo humanista, sufocar nossa própria fé e dividir nossa vida em
dois segmentos: um santo e outro profano. Nenhum conselheiro que se
preze, seja ele cristão ou não, tenta impor suas crenças aos aconselhandos.
Termos a obrigação de tratar as pessoas com respeito, dando-lhes total
liberdade de tomar suas próprias decisões. Porém, um conselheiro honesto
e autêntico não sufoca suas crenças, nem finge ser algo que não é.
Métodos singulares. Todas as técnicas de aconselhamento têm, pelo
menos, quatro características. Elas procuram: levar a pessoa a crer que é
possível obter ajuda; corrigir concepções equivocadas a respeito do
mundo; desenvolver competências para a vida social; e levar os
aconselhandos a reconhecer seu próprio valor como indivíduos. Para
atingir esses objetivos, os conselheiros aplicam técnicas básicas como
ouvir, demonstrar interesse, tentar compreender e, pelo menos
eventualmente, dar orientação. Muitos dos métodos utilizados por
conselheiros cristãos são idênticos aos aplicados pelos não cristãos. Os
cristãos, porém, não utilizam técnicas que seriam consideradas imorais ou
incompatíveis com os ensinos da Bíblia. Por exemplo, estimular uma
pessoa a se envolver em experiências sexuais pré-conjugais ou
extraconjugais, usar linguagem obscena, ou incentivá-la a adotar valores
antibíblicos são atitudes impróprias no contexto cristão, apesar de usadas
por terapeutas seculares.
Há outras técnicas que são eminentemente cristãs e se aplicam com
freqüência nos gabinetes. Orar durante a sessão de aconselhamento, ler a
Bíblia, confrontar gentilmente a pessoa com os princípios bíblicos, ou

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encorajá-la a se envolver nas atividades da igreja local são alguns dos
exemplos mais comuns.
Características singulares do conselheiro. Em todas as situações
de aconselhamento, o orientador precisa fazer pelo menos quatro
perguntas: Qual é o problema? Será que devo intervir e tentar ajudar? O
que eu poderia fazer para ajudar? Será que existe alguém mais qualificado
para atuar neste caso? È importante que os conselheiros cristãos tenham
conhecimento da natureza dos problemas (como eles surgem e como
podem ser resolvidos), saibam o que a Bíblia ensina sobre eles e estejam
familiarizados com técnicas de aconselhamento.
No entanto, existem evidências de que as características pessoais do
conselheiro têm um peso ainda maior no aconselhamento. Depois de
escrever um livro minucioso sobre teorias de aconselhamento, o psicólogo
C.H. Patterson concluiu que um conselheiro eficiente deve ser “um ser
humano de verdade” que oferece a oportunidade de um “relacionamento
humano de verdade” aos aconselhandos. “ É um tipo de relacionamento
caracterizado não tanto pelas técnicas que o terapeuta usa, mas pelo que
ele é como pessoa; não tanto pelo que ele faz, mas pelo modo como faz.”
Há muitos anos, as pesquisas revelaram que as técnicas de
aconselhamento são mais eficazes quando o indivíduo que presta
assistência é afetuoso, sensível, compreensivo, demonstra interesse sincero
e tem disposição para confrontar as pessoas, mantendo uma atitude de
amor. Os livros didáticos sobre aconselhamento sempre enfatizaram a
importância de determinadas qualidades num conselheiro, tais como ser
digno de confiança, ter boa saúde psicológica, honestidade, paciência,
competência e conhecer bem a si mesmo. Segundo pesquisas recentes, os
conselheiros são mais eficientes quando, além dessas características,
conhecem bem os problemas humanos e demonstram bom manejo das
técnicas de aconselhamento. Boas intenções, afirma Jay Adams, não
compensam a falta de conhecimento e de habilidade.
Certamente, Jesus Cristo é o melhor modelo que temos de um
“maravilhoso conselheiro”, cuja personalidade, conhecimento e
habilidades capacitavam-no a dar assistência efetiva aos necessitados. Ao
tentarmos analisar o modo como Jesus aconselhava, precisamos ter em
mente que cada um de nós pode ter a tendência, consciente ou não, de ver

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o ministério de Jesus de uma forma que reforce nossas próprias opiniões
sobre como se deve ajudar as pessoas. O conselheiro que tem uma postura
diretiva e de confrontação reconhece que Jesus agiu assim, em
determinados momentos; o tipo não diretivo, para quem o principal é a
satisfação do cliente, encontra apoio para seu modo de agir em outros
exemplos do ministério de Jesus.

IGREJA, LUGAR DE CURA

Como vimos, Jesus manteve conversas individuais com várias


pessoas para discutir suas necessidades pessoais e, freqëntemente, reunia-
se com pequenos grupos, sendo que o mais importante foi o pequeno
grupo de discípulos que ele preparou para “assumir” a obra depois de sua
ascensão. Foi numa dessas conversas com os discípulos que Jesus
mencionou a palavra igreja pela primeira vez.
Nos anos que se seguiram à ascensão de Jesus Cristo, foi justamente
a igreja que deu continuidade ao seu ministério de ensino, evangelização,
ministração e aconselhamento. Essas atividades não eram vistas como
responsabilidade especial de alguns “super-líderes”,
Mas sim como tarefa para crentes comuns, que deveriam compartilhar e
cuidar uns dos outros e também dos incrédulos que não faziam parte do
corpo. Ao lermos o livro de Atos a as epístolas, fica claro que a igreja não
era apenas uma comunidade dedicada à evangelização, ao ensino e ao
discipulado – era também uma comunidade terapêutica.
Comunidades terapêuticas são grupos de pessoas “que se
caracterizam por um profundo compromisso entre seus membros e por um
interesse comum na cura de [...] males psicológicas, comportamentais ou
espirituais”. Nos últimos anos, os profissionais ligados à saúde mental se
deram conta do valor dos grupos terapêuticos, nos quais um membro ajuda
o outro, apoiando, questionando, orientando e encorajando, de uma forma

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que só ocorre nesse tipo de contexto. È claro que esses grupos podem ser
nocivos, especialmente quando se tornam encontros caóticos em que o
objetivo principal é criticar e constranger os participantes, em vez de
edificar e estimular cada membro a ter uma atitude mais aberta e positiva.
Entretanto, quando conduzidas por um líder sensível, as sessões de grupo
podem ser experiências terapêuticas muito eficazes para todos os
envolvidos.
Esses grupos terapêuticos não precisam estar limitados a
aconselhandos que se encontram com seu mentor. Famílias, grupos de
estudo, amigos leais, colegas de profissão, associações de empregados e
outros pequenos grupos de pessoas muitas vezes proporcionam o auxílio
necessário, seja em tempos de crise, seja diante dos desafios diários que a
vida apresenta. Contudo, de todas as instituições da sociedade, a igreja é a
que tem maior potencial como comunidade terapêutica. A igreja local pode
diminuir ou eliminar a sensação de isolamento dos indivíduos ao atender à
necessidade que todos nós temos de fazer parte de um todo.
Além disso, pode dar apoio aos abatidos, curar os doentes e proporcionar
orientação às pessoas que precisam tomar decisões difíceis ou que estão a
caminho da maturidade.
È lamentável que muitas igrejas, hoje em dia, não passem de grupos
de pessoas indiferentes e inflexíveis, que nunca admitem que têm
necessidades ou problemas, que assistem a cultos maçantes por puro
hábito, e que deixam a maior parte do trabalho nas mãos de um pastor
sobrecarregado. Esse retrato pode ser um tanto exagerado, mas, para
muitas pessoas, a igreja local não significa praticamente nada, não ajuda
muito e está longe de ser a comunidade dinâmica e produtiva que Cristo
desejava que fosse.
Por que a igreja começou? Certamente, a resposta está nas últimas
palavras que Jesus disse aos seus seguidores antes de voltar para o céu:
“Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome
do Pai e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as
cousas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até
a consumação do século”.
A igreja foi criada para cumprir a grande comissão de fazer
discípulos (pela evangelização) e ensinar. Os primeiros crentes se reuniam

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numa comunhão, ou Koinonia, que envolvia o relacionamento
comunitário entre os membros, a participação ativa de todos na expansão
do evangelho e na edificação dos crentes, e o compartilhamento de idéias,
experiências, adoração, necessidades e bens materiais. A igreja verdadeira
tem sido sempre dirigida por Jesus Cristo, que nos mostrou como
evangelizar e ensinar, e nos orientou através de seu exemplo de vida e de
sua instrução quanto aos aspectos teóricos e práticos do cristianismo,
afirmando que todo seu ensino podia ser resumido em duas leis: amar a
Deus e amar ao próximo.
Todos esses aspectos devem existir no âmbito de um grupo de
crentes, onde cada membro recebeu os dons e habilidades necessários para
edificação da igreja. Os crentes desse grupo, guiados por um pastor e
outros líderes escolhidos, projetam sua atenção e suas atividades em três
direções: para o alto, através da adoração a Deus; para fora, através da
evangelização; e para dentro, através do ensino, da comunhão e da
assistência mútua. Se algum desses elementos não estiver presente, o
grupo ficará desequilibrado e os crentes não estarão cumprido
integralmente suas funções.
Os capítulos que se seguem foram escritos com objetivo de auxiliar
os conselheiros, pastores, líderes de igrejas, estudantes e outros cristãos a
cumprirem uma importante tarefa dentro obra da igreja: levar as cargas uns
dos outros. Entre os assuntos que discutiremos encontram-se alguns dos
problemas que mais afligem crentes e incrédulos. São problemas que
interferem com a adoração, a evangelização, o ensino, a comunhão, o
crescimento, a qualidade dos relacionamentos, a maturidade individual e a
satisfação pessoal. Para cada um desses assuntos, abordaremos as causas
do problema, como ele afeta as pessoas envolvidas, como pode ser
minimizado ou eliminado (particularmente através do aconselhamento) e
como podemos evitar que venha a ocorrer novamente. Cada capítulo
resumirá o ensino bíblico sobre o problema abordado e utilizará resultados
de pesquisas recentes na área da psicologia, além das reflexões do autor.

O CONSELHEIRO E O ACONSELHAMENTO

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Existe alguma coisa inexplicavelmente atraente no trabalho de
conselheiro. Aparentemente, muitas pessoas vêem o aconselhamento como
uma atividade fascinante que envolve dar conselhos, reatar rompidos e
ajudar as pessoas a resolver problemas.
Aconselhar pode ser uma tarefa gratificante, mas não demora muito
para a maioria de nós descobrir que também pode ser um trabalho duro
desgastante. O aconselhamento exige muita concentração e, ás vezes, nos
faz sofrer, quando vemos tantas pessoas infelizes. Se essas pessoas não
apresentam melhora, o que é bem mais comum do que se imagina, é fácil
acabar pondo a culpa em nós mesmos, nos esforçamos ainda mais e
ficamos pensando onde foi que erramos. À medida que mais e mais
pessoas chegam pedindo ajuda, a tendência é continuar aumentando a
nossa carga de trabalho – aproximando-nos do limite da nossa resistência;
Ás vezes, os problemas que os aconselhandos trazem nos lembram nossas
próprias inseguranças ou conflitos e isso pode pôr em risco a própria
estabilidade emocional e a auto-estima do conselheiro. Não é de admirar
que a atividade de aconselhamento seja considerada ao mesmo tempo
gratificante e arriscada. Neste capítulo, discutiremos alguns desses riscos e
veremos maneiras de tornar o trabalho do conselheiro mais recompensador
e eficaz.

A MOTIVAÇÃO DO CONSELHEIRO

Por que você que ser conselheiro? Alguns conselheiros cristãos,


principalmente pastores, foram impelidos para esta atividade por pessoas
que os procuraram, espontaneamente, em busca de uma solução para seus
problemas. Outros, fizeram cursos na área e se colocaram à disposição das
pessoas que precisavam de ajuda, baseados na suposição válida de que o
aconselhamento pode ser uma das formas mais eficazes de ministrar aos

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necessitados. Como vimos, a Bíblia determina que os crentes cuidem uns
dos outros e isto, certamente, inclui o aconselhamento.
È sempre difícil avaliar nossas próprias motivações. Talvez isso seja
mais verdadeiro quando se trata de examinar nossas razões para sermos
conselheiros. O desejo sincero de ajudar as pessoas é um motivo válido.
Será que as outras pessoas dão alguma mostra de que o seu
aconselhamento tem uma influência positiva sobre elas? Você acha que se
sentiria realizado exercendo essa atividade? Respostas afirmativas a estas
perguntas poderiam ser indícios de que você pode ser um conselheiro
eficiente.
Porém, existem outros fatores que às vezes passam desapercebidos
e que podem interferir com a nossa eficiência. Se a principal razão que nos
motiva para o aconselhamento é atender às nossas próprias necessidades, é
pouco provável que sejamos de alguma ajuda para os nossos
aconselhandos.
1. A necessidade de manter relacionamento. Todos nós
Precisamos de intimidade e contato estreito com pelo menos duas ou três
pessoas. Alguns aconselhandos consideram o conselheiro como seu
melhor amigo, pelo menos temporariamente. Mas, suponhamos que o
conselheiro não tenha outro amigo chegado, além dos aconselhandos>
Quando isso acontece, a necessidade que o conselheiro tem de ser
relacionar com outro ser humano pode atrapalhar o seu trabalho. O
conselheiro pode não querer que seus aconselhandos realmente melhorem
e encerrem as sessões, já que isso interromperia relacionamento de
amizade. Se você perceber que está procurando oportunidades para
prolongar o aconselhamento, telefonar para o aconselhando, ou se
envolver socialmente com ele, isto pode ser um sinal de que esse
relacionamento está atendendo sua necessidade de companheirismo tanto
quanto ajudando a outra pessoa, ou até mais. Quando as coisas chegam a
este ponto, o envolvimento conselheiro-aconselhando deixou de ser uma
relação profissional. Isso não é necessariamente algo ruim, mas os amigos
nem sempre são os melhores conselheiros.
2. A necessidade de exercer controle. O conselheiro autoritário
Gosta de “endireitar os outros”, dar conselhos (mesmos sem ser solicitado)
e fazer o papel da pessoa que resolve todos os problemas. Alguns

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aconselhandos dependentes podem querer isso, mas, no fim das contas, a
maioria das pessoas resiste ao tipo controlador porque ele realmente não
ajuda.
3. A necessidade de socorrer. Este tipo de conselheiro geralmente
Tem um desejo sincero de ajudar, mas tira a responsabilidade de cima do
aconselhando, porque adota uma atitude que diz “você não tem condição
de resolver isso; deixe comigo”. Isso pode satisfazer o aconselhando por
um tempo, mas não vai resolver o seu problema, salvo raras exceções.
Quando a técnica de salvamento falha ( o que ocorre com freqüência), o
conselheiro se sente culpado, inadequado e profundamente frustado.
4. A necessidade de informação. Ao descreverem seus problemas,
os aconselhandos dão detalhes interessantes que poderiam não ser ditos em
outras circunstâncias. Quando um conselheiro é curioso, ele às vezes
esquece o aconselhando, tenta arrancar mais informações e,
freqüentemente, não consegue guardar confidências. Conselheiros curiosos
raramente ajudam e as pessoas acabam deixando de procurar por eles
5. A necessidade de cura pessoal. A maioria de nós tem
Necessidades e inseguranças ocultas que podem interferir na nossa tarefa
de auxiliar as pessoas. Esta é uma das razões pelas quais as faculdades de
psicologia exigem que os alunos passem por aconselhamento antes de
começarem a atuar profissionalmente. È pouco provável que as sessões de
aconselhamento sejam eficazes se o conselheiro sente necessidade de
manipular os outros, expiar sua culpa, agradar alguma figura de
autoridade, expressar hostilidade, resolver conflitos sexuais, ou provar que
é intelectualmente capaz, espiritualmente maduro e psicologicamente
estável.
È provável que todo futuro conselheiro passe por períodos em que
experimenta essas tendências, mas é necessário lidar com isso fora de seu
trabalho com os aconselhandos. Quando as pessoas buscam
aconselhamento, assumem o risco de revelarem detalhes de sua vida
pessoal e se submeterem ao tratamento determinando pelo profissional que
as atende. O conselheiro viola esta confiança e prejudica a eficiência do
processo se o relacionamento assistencial é usado, primordialmente, para
satisfazer suas próprias necessidades.

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A EFICÁCIA DO CONSELHEIRO

Em seu livro bem conhecido A Arte de Amar, Erich Fromm


escreveu “ o processo de aprender uma arte pode ser convenientemente
dividido em duas partes: primeira, o domínio da teoria; a outra, o domínio
da prática.” Mesmo quando dominamos todo o conhecimento teórico,
sugere Fromm, ainda não estamos prontos para praticar o ofício. “Só me
tornarei um mestre nesta arte depois de muita prática, quando, finalmente,
os resultados de meu conhecimento teórico e os de minha prática se
fundirem num só conjunto”. Se aplicarmos esta afirmação ao
aconselhamento, concluiremos que precisa haver o que Fromm denominou
“preocupação principal” – um desejo profundo de aprender a arte do
aconselhamento e de desempenhá-la bem.
Principalmente no início os conselheiros muitas vezes descobrem
que existe um hiato entre sua formação acadêmica e a experiência real de
ajudar uma pessoa a resolver um problema real. Até mesmo conselheiros
experientes às vezes se vêem lutando com dúvidas e sentimentos de
inadequação sobre a eficácia de seu aconselhamento. Muitos concordariam
com Fromm quando ele diz que, se alguém quer dominar qualquer arte
(inclusive a do aconselhamento), “toda a sua vida deve estar dedicada, ou
pelo menos relacionada, com esta arte.”
È um fato bem conhecido que algumas pessoas são melhores
conselheiros do que outras. Isto suscita uma questão básica e importante.
Todo cristão pode ser um conselheiro eficaz ou isto é um dom, reservado
para alguns membros do corpo de Cristo? De acordo com a Bíblia, todos
os crentes devem ter compaixão por seus semelhantes, mas isso não
implica em que todos os crentes têm, ou podem vir a ter, um dom nesta
área. Neste aspecto, o aconselhamento é como o ensino. Todo pai tem a
responsabilidade de ensinar o filho, mas só alguns são especilamente
dotados para serem professores.
Romanos 12.8 lista a exortação (paraklesis) como um dom
espiritual que é dado alguns crentes. A palavra significa “andar ao lado

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para ajudar”, e abrange atividades tais como admoestar, apoiar e encorajar
os outros. Algumas pessoas que tem e estão desenvolvendo este dom vêem
resultados positivos em seu aconselhamento, com as pessoas sendo
ajudadas e a igreja edificada. Se o aconselhamento parece ser o seu doom,
glorifique a Deus e aprende a exercê-lo melhor. Se o seu modo de
aconselhar se mostra ineficiente, talvez Deus tenha lhe dado um dom em
outra área. Isso não exime ninguém do dever de ajudar os outros, mas pode
encorajar algumas pessoas aplicarem seus esforços em outra atividade,
deixando a arte do aconselhamento para aqueles que Deus capacitou
especialmente para isso.
Parafraseando 1 Coríntios 12.14-18: “O corpo não e um só membro,
mas muitos.[...] Se o mestre disser: Porque não sou conselheiro, não sou
do corpo; nem por isso deixa de ser do corpo. Se todo o corpo fosse
constituído de conselheiros, quem iria exercer o ministério do ensino? Se
todos fossem mestres, quem faria o trabalho dos diácomos? Mas Deus
dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprouve,
[...] O mestre não pode dizer ao evangelista: não preciso de ti; nem ainda o
pregador ao conselheiro: não preciso de ti”.
È claro que precisamos uns dos outros e o aconselhamento é parte –
mas só uma parte – das funções de uma igreja. O aconselhamento é uma
forma de ajudar as pessoas, mas não é a única; há também a evangelização,
a assistência social e outros aspectos do ministério.

PAPEL DO CONSELHEIRO

O aconselhamento, especialmente o pastoral, às vezes se torna


ineficaz porque o conselheiro não distingue com clareza o seu papel e as
suas responsabilidades. Usando como base as sugestões do pastor e
psicólogo Maurice Wagner, podemos identificar algumas áreas onde pode
ocorrer confusão de papéis.
1. Visitar versus aconselhar. Visitar é uma atividade que ocorre
numa relação de amizade e que envolve uma conversa onde há troca mútua

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de informações. Já no aconselhamento, a conversa tem um determinado
objetivo e gira em torno de um problema específico, visando
primordialmente as necessidades de uma pessoa, o aconselhando. Todo
aconselhamento envolve a realização de visitas periódicas, mas quando
estas se prolongam e passam a ser um fim em si mesmas, a eficiência é
prejudicada.
2. Precipitação versus cautela. Pessoas ocupadas e objetivas
geralmente querem acelerar o processo de aconselhamento para chegar
logo a um resultado satisfatório. È verdade que um conselheiro não deve
ficar perdendo tempo, mas também é verdade que o processo de cura não
pode ser apressado. “ Grande parte do sucesso de um conselheiro reside
em prestar atenção em silêncio naquilo que o aconselhando está dizendo.”
Quando o ritmo é lento e relaxado, o conselheiro fica menos sujeito a
emitir julgamentos precipitados e o aconselhando, normalmente, sente que
há mais apoio e interesse da parte do conselheiro.
Pesquisas recentes demonstraram a eficácia de terapias a curto prazo.
Este tipo de aconselhamento pode ser mais curto porque focaliza apenas
áreas problemáticas específicas, em vez de abordar mútiplos aspectos.
Quando um conselheiro tenta avançar muito numa única sessão, o
aconselhando se sente esmagado e, muitas vezes, fica confuso. Partindo da
premissa bastante plausível de que o aconselhando só consegue absorver
uma ou duas noções principais por sessão, o aconselhamento deve ser
ritmado e sem atropelos, mesmo que isso implique em diminuir a duração
de cada sessão e aumentar a freqüência.
3. Desrespeito versus compreensão. Alguns conselheiros rotulam
as pessoas com muita rapidez (por exemplo, “cristão carnal”, “ solteirão
despreocupado”, ou “ um tipo fleumático”) e depois despacham os
indivíduos com avaliações precipitadas, uma rápida confrontação ou um
conselho inflexível. Ninguém gosta de ser tratado com tanto desrespeito e
são poucas as pessoas que apresentam alguma melhora quando o
conselheiro não sabe ser compreensivo.
4. Preconceito versus imparcialidade. Há momentos em que o
aconselhando precisa ser confrontado por causa de um pecado ou
comportamento inadequado, mas isso não é o mesmo que condenar ou
pregar para a pessoa durante a sessão de aconselhamento. Quando os

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aconselhandos se sentem atacados, podem adotar três tipos de atitude: ou
se defendem (geralmente com agressividade), ou se mostram resignados e
dizem: “De que adianta isso tudo?”, ou continuam com o conselheiro
temporariamente, de má vontade, Nenhuma dessas atitudes contribui para
o crescimento do aconselhando, e todas são uma forma de reação a uma
técnica de aconselhamento que geralmente reflete a ansiedade, a incerteza
e o desejo de poder do próprio conselheiro.
Jesus é descrito como alguém que “tomou sobre si as nossas
enfermidades”. Ele nunca fez vista grossa para o pecado, mas entendia os
pecadores e sempre demonstrava bondade e respeito por aqueles que
desejavam aprender, arrepender-se e mudar seu estilo de vida, como a
mulher no poço de Jacó.
5. Dar ordens em vez de explicar. Este é um erro comum e, como
já vimos, pode ser um reflexo do desejo inconsciente do conselheiro de
dominar e exercer controle. Quando os aconselhandos recebem instruções
sobre o que devem fazer, eles acabam confundido a opinião do conselheiro
cristão com a vontade de Deus, sentem-se culpados e incompetentes se
não seguirem o conselho recebido e raramente aprendem como amadurecer
espiritual e emocionalmente até o ponto de poderem tomar suas próprias
decisões sem ajuda. O conselheiro e o aconselhando têm que trabalhar
como um time em que o conselheiro atua como um professor-treinador,
cujo objetivo final é sair de campo.
7. Envolvimento emocional em vez de objetividade. Existe uma
fronteira muito tênue entre ser carinhoso e se tornar envolvido a ponto de
não poder prestar ajuda alguma. Isto acontece, pricipalmente, quando o
aconselhando está muito perturbado, confuso ou enfrenta um problema
semelhante àquele que o próprio conselheiro está passando.
O excesso de envolvimento emocional pode fazer com que o
conselheiro perca a objetividade, e isto, por sua vez, reduz a eficácia do
aconselhamento. Em certo sentido, as pessoas compassivas não conseguem
evitar o envolvimento emocional, mas o conselheiro cristão pode resistir a
esta tendência se vir o aconselhamento como uma relação de assistência
profissional que pode ser limitada em termos de duração, ou número de
sessões, número de conversas ou interrupção do agendamento. Essas
limitações não têm o objetivo de colocar o conselheiro à parte, mas sim de

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ajudá-lo a manter a objetividade necessária para poder ajudar o
aconselhando.
7. Impaciente em vez de realista. Muitos conselheiros ficam
desanimados e até ansiosos quando não vêem progresso imediato em seus
aconselhandos. Os problemas geralmente levam muito tempo para se
desenvolverem e presumir que eles desaparecerão rapidamente por causa
das intervenções do conselheiro não é uma postura muito realista.
Mudanças instantâneas acontecem, mas são raras. O mais comum é levar
um tempo até que o aconselhando abandone sua maneira de pensar e seu
comportamento anteriores, substituindo-os por algo novo e melhor.
8. Artificial em vez de autêntico. Os conselheiros às vezes
impõem a si mesmos o fardo de acreditar que devem ser perfeitos, saber
sempre o que dizer e o que fazer, nunca cometer erros e ter sempre o
conhecimento e a habilidade necessárias para resolver qualquer problema
de aconselhamento. Conselheiros deste tipo geralmente têm dificuldade de
admitir suas próprias fraquezas e falta de conhecimento. Eles ficam tão
ansiosos de serem profissionais bem sucedidos que se tornam artificiais,
distantes e até pretensiosos. È difícil, talvez até impossível, para um
aconselhando relaxar e falar de seus problemas honestamente com um
conselheiro que dá a impressão de ser perfeito, alguém que “faz tudo
certinho”.
Na história deste mundo, só houve um conselheiro que atingiu a
perfeição, nunca cometeu erros e sempre disse o que devia. Nós, que
somos seus seguidores, precisamos aprender a relaxar, admitir que todos
somos passíveis de errar, parar de nos esconder detrás da máscara do
profissionalismo, e confiar que Jesus nos dará as palavras e a sabedoria
para aconselhar da melhor maneira.
9. Ficar na defensiva em vez de demonstrar empatia. A maioria
dos conselheiros se sente ameaçada durante o aconselhamento, uma vez ou
outra. A capacidade de ouvir com empatia fica bloqueada quando estamos
sendo criticados, ou quando temos consciência de que não estamos
ajudando, ou quando nos sentimos culpados, ou ainda quando o
aconselhando parece que vai nos agredir.
Quando ameaças como estas surgem durante a terapia, devemos nos
perguntar o porquê. Se não soubermos a resposta, devemos pensar em

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discutir o assunto com um amigo ou colega conselheiro. Quanto mais
soubermos a respeito de nós mesmos, menor a probabilidade de sermos
ameaçados pelos aconselhandos.
O conselheiro deve manter uma atitude de vigilância se quiser
evitar riscos como esses. Como ajudadores cristão devemos honrar a Deus
fazendo nosso trabalho da melhor maneira possível, pedindo perdão
quando cometermos erros e encarando nossas falhas como situações de
aprendizagem e degraus na escalada do aperfeiçoamento.
Quando assumimos papéis inadequados no processo de
aconselhamento, devemos reestruturar a relação, se necessário até dizendo
ao aconselhando o que tencionamos mudar(estabelecendo horários rígidos
para as sessões, por exemplo recusando-se a largar o que estiver fazendo
toda vez que um aconselhando telefonar, ou se tornando menos diretivo).
Fazer esta reestruturação é sempre complicado porque envolve tomar de
volta algo que foi dado. Mas não fazê-la significa continuar com confusão
de papéis e com um aconselhamento ineficiente.
Erros e troca de papéis não são tragédias irreversíveis. Um bom
relacionamento com os aconselhandos pode cobrir uma multidão de erros,
mas não devemos usar isso como desculpa para fazermos nosso trabalho
de qualquer jeito. “ o conceito mais importante que devemos ter em mente
é que o verdadeiro Conselheiro é Cristo; nós somos apenas seus agentes,
fazendo seu trabalho e representando-o. Seu Santo Espírito é o nosso
Consolador e Guia, e nos levará a libertar aqueles que ele mesmo trouxe
até nós.”

A VULNERABILIDADE DO CONSELHEIRO

Aconselhar seria mais fácil se pudéssemos admitir que todo


aconselhando quer ser ajudado, é honesto e irá cooperar inteiramente
durante o processo. Infelizmente, isso nem sempre acontece. Alguns
aconselhandos têm o desejo consciente ou inconsciente de manipular,
frustrar ou não cooperar. Essa é uma descoberta difícil para o conselheiro
que quer ter sucesso, e cujo sucesso depende primordialmente da melhora
do aconselhando. È sempre difícil trabalhar com pessoas que não

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cooperam e oferecem resistência. Se concordamos em tentar ajudá-las,
estaremos nos sujeitando à possibilidade de disputas de poder, exploração
e fracasso.
Os três mecanismos que as pessoas mais usam para frustrar um
conselheiro e aumentar a sua vulnerabilidade são:
1. Manipulação. Algumas pessoas são mestras na arte de
conseguirem o que querem exercendo controle sobre os outros. Conta-se a
história de um jovem e inseguro conselheiro que queria ajudar e, não
desejando ser rotulado como “o antigo conselheiro, que não ligava a
mínima”, ele estava determinado a fazer tudo para agradar. As sessões de
aconselhamento se tornaram mais longas e freqüentes. Em pouco tempo, o
conselheiro estava dando telefonemas, entregando recados, fazendo
pequenos empréstimos e até indo ao supermercado para o aconselhando,
que constantemente expressava sua gratidão e, com voz chorosa, continua
pedindo mais.
Conselheiros manipulados raramente fazem bem o seu trabalho,.
Pessoas que tentam manipular o conselheiro geralmente o fazem bem
sutilmente; para elas, a manipulação tornou-se um estilo de vida. O
conselheiro precisa confrontar essas táticas, recusar-se a ceder a elas, e
ensinar ao aconselhando maneiras mais satisfatórias de se relacionar com
os outros.
Pode ser uma boa idéia perguntar sempre: “Será que estou sendo
manipulado?” “Será que estou indo além de minhas responsabilidades?”
“O que é que este aconselhando realmente deseja/” Às vezes, as pessoas
pedem ajuda para resolver um problema, mas o que elas realmente querem
é o seu tempo e atenção, sua sansão a um comportamento pecaminoso ou
danoso, ou o seu apoio como aliado num conflito damiliar. Às vezes, as
pessoas procuram um conselheiro porque esperam que seus cônjuges,
familiares ou patrões parem de reclamar de seu comportamento se
pensarem que elas estão recebendo ajuda. Se você suspeitar desse tipo de
desonestidade ou manipulação, é conveniente tocar no assunto com o
aconselhando, esperar que ele discorde e, então, estruturar o
aconselhamento de modo e evitar a ser manipulado ou explorado no
futuro. Provavelmente é correto afirmar que “pessoas que têm um desejo

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sincero de ser ajudadas raramente se mostram exigentes”, desonestas ou
manipuladoras.
2. Contra-transferência. De acordo com Freud, que foi quem
cunhou este termo, a contratransferência ocorre quando as carências do
conselheiro interferem no relacionamento terapêutico. Quando a sessão de
aconselhamento se transforma num local onde procuramos resolver nossos
próprios problemas, é pouco provável que os aconselhandos consigam
alcançar uma melhora, e podemos nos sentir tentados a dizer e fazer coisas
que iremos lamentar mais tarde.
Suponha, por exemplo, que você sinta um forte impulso sexual ou
romântico em relação a alguém que esteja aconselhando, ou que sinta
vontade de ficar perto dessa pessoa e protegê-la, que tenha fantasias com
ela entre as sessões, que fique procurando um jeito de evitar os clientes
que lhe parecem desagradáveis, mas faça sessões mais longas com outros,
que sinta necessidade do amor ou aprovação de um de seus aconselhandos,
ou ainda que se sinta tão íntimo de um deles a ponto de não conseguir mais
discernir entre seus próprios sentimentos e os de seu cliente. Estes podem
ser indícios de que suas próprias carências estão interferindo em seu
trabalho. Talvez você tenha ficado tão envolvido emocionalmente com
seus aconselhandos que sua objetividade e, portanto, sua eficiência como
conselheiro, acabaram se perdendo.
Todos os conselheiros passam por períodos em que sentem essas
tendências. Reconhecer o perigo é o primeiro passo para não ficar enrolado
e vulnerável. Também pode ser útil discutir o assunto com um amigo
perspicaz ou um outro conselheiro, pois eles podem ajudá-lo a manter as
coisas na perspectiva certa e ajudá-lo a identificar problemas em sua vida
que podem estar interferindo com sua atividade de assistência.
3. Resistência. Muitas vezes, as pessoas vêm pedir ajuda porque
querem alívio imediato do sofrimento mas, quando descobrem que o alívio
permanente requer tempo, esforço e mais sofrimento, elas resistem ao
processo terapêutico. Às vezes, os problemas trazem certos benefícios de
que o aconselhando não quer abrir mão (por exemplo, atenção dos outros,
compensação de uma deficiência, diminuição da responsabilidade; ou
gratificações ainda mais sutis, tais como autopunição por suas atitudes
erradas, ou a oportunidade de dificultar a vida dos outros). Como o sucesso

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do processo terapêutico acarretará a eliminação desses benefícios, o
aconselhando não coopera. Há ainda as pessoas que se realizam e se
sentem poderosas frustrando os esforços dos outros, inclusive dos
conselheiros profissionais. Essas pessoas geralmente dizem a si mesmas
“eu não tenho jeito mesmo – mas também, se esse conselheiro não
consegue me ajudar não é lá grande coisa”. Então, o conselheiro continua
Quando o processo de aconselhamento se inicia, as defesas psicológicas do
aconselhando podem ser ameaçadas, e isto pode levar a ansiedade, raiva e
falta de cooperação, que podem não ser conscientes, em alguns casos. Se a
resistência persiste, pode ser necessária uma terapia mais profunda.
Contudo, quando os aconselhandos são bem ajustados, a resistência pode
ser discutida com brandura e clareza. Faça o aconselhando perceber que,
em última análise, o responsável pelo sucesso ou fracasso do processo é
ele mesmo, e não o conselheiro. O profissional fornece uma relação
estruturada, evita ficar na defensiva e precisa reconhecer que sua eficiência
como conselheiro (e como pessoa) não está sempre relacionada com a
rapidez com que seus aconselhandos melhoram.
È possível nos mantermos em alerta quanto a possíveis problemas
em nosso processo de aconselhamento, se fizermos a nós mesmo (e uns
aos outros) as seguintes perguntas;

 Por que acho que esta é a pior (ou melhor) pessoa que já
aconselhei?
 Por que motivo eu, ou o aconselhando, sempre nos atrasamos
para sessão? Existe um razão para que eu, ou o aconselhando,
queiramos mais (ou menos) tempo de sessão do que o
combinado?
 Será que eu tenho uma reação exagerada toda vez que essa
pessoa diz alguma coisa?
 Eu fico entediado quando estou com essa pessoa? Isso acontece
causa dela, por minha causa, ou por ambos?
 Por que eu sempre discordo (ou Concordo) com essa pessoa?
 Eu sinto vontade de encerrar esse relacionamento, ou de mantê-
lo, mesmo sabendo que deveria acabar?
 Estou começando a sentir muita simpatia pelo aconselhando?

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 Eu penso nessa pessoa freqüentemente fora das sessões, tenho
fantasias com ela, ou demonstro um interesse anormal por ela ou
pelo seu problema? Se a resposta for afirmativa, por que isso
acontece?

A SEXUALIDADE DO CONSELHEIRO

Sempre que duas pessoas trabalham em estreita cooperação para atingir um


mesmo objetivo, surgem entre elas sentimentos de companheirismo e afeto. Quando
suas origens e nível educacional são semelhantes e, principalmente, quando são de
sexos opostos, os sentimentos de afeição geralmente apresentam um componente
sexual. Esta atração sexual entre conselheiro e aconselhando tem sido chamada de
“o problema de que os clérigos não falam”. Quer falemos sobre ele, ou não, o fato é
que a maioria dos conselheiros enfrenta esse problema, uma vez ou outra.
O aconselhamento geralmente envolve a discussão de detalhes íntimos que
jamais seriam abordados em outro contexto, principalmente entre um homem e uma
mulher que não são casados um com o outro, e isto pode ser sexualmente excitante
para ambos. O perigo de imortalidade aumenta mais ainda se:

 O aconselhando é atraente e/ou sedutor


 As necessidades emocionais e sexuais do conselheiro não estão
sendo preenchidas numa outra relação.

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 O aconselhando dá sinais de que realmente precisa do conselheiro.
 O aconselhando envolve discussões detalhadas a respeito de assunto
sexualmente excitante.

Há muitos anos, Freud escreveu que influências sutis como essas “são
perigosas, pois podem levar um homem a esquecer sua técnica e seus objetivos
terapêuticos para ter uma experiência agradável”. È provável que todos os leitores
conheçam casos de conselheiros, inclusive pastores, que passaram por cima de seus
padrões morais “ para ter um experiência agradável”. Por causa disso, seus
ministérios suas reputações, a eficiência de seu aconselhamento e, em alguns casos,
até seus lares foram destruídos – sem mencionar os efeitos adversos sobre os
aconselhandos envolvidos. Sentir atração sexual por um aconselhando é comum, e
um conselheiro sensato é comum, e um conselheiro sensato deve fazer de tudo para
manter o autocontrole.
Proteção espiritual. Meditar na palavra de Deus, orar (incluindo-se aí a
Intercessão de outras pessoas), e confiar na proteção do Espírito Santo são mediads
de importância crucial. Além disso, o conselheiro deve sempre vigiar por onde anda o
seu pensamento. A fantasia geralmente precede a ação e um conselheiro vigilante não
dá lugar a pensamentos lascivos. Concentre-se, em vez disso, em tudo o que é
verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, e de boa forma.
Também é útil ter um outro crente a quem prestar contas de suas ações
regularmente, pois isso pode ter um impacto muito grande em seu comportamento.
Finalmente, cuidado para não cair na perigosa armadilha de pensar “isso só acontece
com os outros; comigo não!” Esse é o tipo de orgulho que deixa qualquer um de nós
particularmente vulnerável à tentação. Pensar desse jeito é ignorar o alerta da Bíblia:
aquele que pensa estar em pé, veja que não caia.
Mas, e se você cair? Nós servimos a um Deus que perdoa, mesmo que as
cicatrizes (sentimentos de culpa, reputação arruinada ou casamento desfeito) possam
permanecer pelo resto da vida. Todo pecado confessado diante de deus é perdoado,
mas nós temos a abrigação de mudar nossa maneira de pensar e o nosso
comportamento daí por diante, agindo de modo condizente com o ensinamento
bíblico.
2. Reconhecimento dos sinais de alerta. O psiquiatra cristão McBurney
afirma que “em qualquer ponto da estrada florida que leva à destruição é possível
voltar atrás e escapar, se conseguirmos identificar o perigo e antever as
conseqüências desastrosas” de ceder às tentações sexuais durante o aconselhamento.
Os sinais de alerta podem ser externos (de outras pessoas) ou internos (dentro de
nós).
Entre sinais externos, podemos citar:

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 Aumento da dependência – o aconselhando requer porções cada vez
maiores de seu tempo
 Demonstrações de apreço e elogios – o aconselhando vive
enaltecendo o conselheiro e seus elogios tronam-se cada vez mais
freqüentes.
 Queixas de solidão – às vezes acompanhadas de declarações sobre a
compaixão do conselheiro e seu desejo de ajudar a aliviar o
sofrimento.
 Presentes – geralmente indicam um crescente envolvimento
emocional e podem gerar, sutilmente, um senso de obrigação.
 Contato físico – geralmente começa com leves toques que vão se
intensificando e levando a um envolvimento físico cada vez maior.
 Outros comportamentos sedutores. Observe, por exemplo, “como uma
mulher se veste; se usa perfume. Se insinua, a sério ou em tom de
brincadeira, que o conselheiro é irresistível; se manda recados dizendo
que seu marido está fora; ou se fala cada vez mais a respeito de sexo
durante a sessões.”McBurney afirma que o conselheiro precisa ver
essas bandeiras vermelhas e cortar o mal pela raiz.

O conselheiro também pode apresentar sinais semelhantes:

 Pensar no aconselhando entre uma sessão e outra e admirar sua


personalidade.
 Fazer comparações entre seu cônjuge e o aconselhando,
esquecendo-se de que este último é uma pessoa que entrou
recentemente em sua vida, é novidade, não exige nada e,
provavelmente, está encantada com seu conselheiro.
 Procurar oportunidades para encontra-se com o aconselhando em
reuniões sociais, ou aumentar a duração das sessões.
 Ter fantasias sexuais com o aconselhando.
 Sentir vontade de discutir seus problemas pessoais com o
aconselhando, porque o considera uma pessoa sensível e carinhosa.
O perigo disso tudo aumenta bastante se o casamento do conselheiro
estiver em crise.

3. Imposição de limites. Estabelecer e manter limites explícitos ajuda a


evitar alguns dos perigos que rodam os gabinetes de aconselhamento. Determine
claramente a freqüência e duração das sessões e não as altere; não fique pendurado no

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telefone com alguém que você está aconselhando; cuidado com os contatos físicos;
conduza as sessões num local apropriado e sente-se de maneira a evitar olhares
indiscretos ou intimidades; não deixe o aconselhando se estender em discussões
detalhadas sobre questões sexuais. Evite toda aparência do mal e nunca se esqueça de
que todos nós temos que tomar cuidado para não cair em tentação.
4. Disposição mental. Não adianta nada negar nossos impulsos sexuais.
Eles são comuns, muitas vezes embaraçosos, freqüentemente excitantes, mas podem
ser controlados. Lembre-se do seguinte:
(a) Conseqüências sociais. Ceder à tentação sexual pode acabar com a nossa
reputação, destruir nosso casamento e tornar nosso aconselhamento ineficaz.
(b) Implicações profissionais. Ter intimidades sexuais com o aconselhandos
não ajuda os que já têm problemas e não melhora em nada nossa imagem
profissional. Lembre-se de que você é um conselheiro profissional; procure também
ser maduro.
(c) Princípio teológico. Envolvimento sexual fora do casamento é pecado. O
psicanalista Viktor Frank! Afirma que a pessoa “não está completamente
condicionada e determinada; é ela quem determina se vai ceder ao condicionamento
imposto pelo meio em que vive ou não. [...] Todo ser humano tem a liberdade de
mudar a qualquer momento.” Podemos usar a desculpa de que “foi o diabo quem nos
obrigou a fazer isso ou aquilo”, mas a verdade é que o diabo só tenta; ele não nos
força a nada. Nós tomamos a decisão de pecar, ignorando os alertas do Espírito
Santo, que habita no interior de todos os crentes e é o maior Satanás (1João 4.4).
Circunstâncias atuais, ou influências do passado, podem nos tornar mais vulneráveis
à tentação, mas não eliminam nossa responsabilidade pessoal. Cada um de nós
responde pelo seu próprio comportamento.

Proteção de um grupo de apoio. Para podermos resistir à atração sexual,


É preciso admitir honestamente que o problema existe. Nesse sentido, ter um os dois
confidentes com que discutir o assunto pode ser de grande utilidade.
O primeiro da lista é o cônjuge. Um bom casamento não nos impede de
sentir atração sexual por um aconselhando, mas influi decisivamente na nossa
capacidade de resistir a ela. Às vezes, o conselheiro não discute esse assunto com seu
cônjuge por medo de sua reação, por constrangimento, ou por não querer ferir seus
sentimentos. Por causa disso, boas oportunidades de aprofundar a relação conjugal,
receber apoio e restaurar a confiança mútua acabam se perdendo. Se um
aconselhando ameaça seriamente o casamento de um conselheiro, é provável que a
relação conjugal já estivesse em crise antes que ele entrasse em cena.
Abrir o coração com um conselheiro de nossa confiança, ou com um amigo
íntimo, também ajuda a ver o problema sob uma ótica realista. Além disso, o fato de
termos que prestar contas de nossos atos a estes amigo cristão é algo extremamente

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positivo, pois ele pode interceder por nós, pedindo a Deus que nos proteja contra as
tentações.

A ÈTICA DO CONSELHEIRO

A maioria das organizações que reúnem conselheiros profissionais (como


o Conselho Regional de Psicologia, a Associação Brasileira de Terapia Familiar, e a
Associação Brasileira de Aconselhamento Pastoral e o Corpo de Psicólogos e
Psiquiatras Cristãos) criaram códigos para proteger o público de práticas anti-éticas e
para orientar os conselheiros em suas decisões. Em geral, os profissionais cristãos
procuram seguir esses códigos, mas como, para nós, a Bíblia é a Palavra de Deus, a
Escritura é o padrão supremo que rege nossas decisões de ordem ética e moral.
O conselheiro cristão respeita cada indivíduo e reconhece seu valor como
pessoa criada por Deus à sua imagem, desfigurada pelo pecado, mas amada por Deus
e objeto da divina redenção. Toda pessoa tem sentimentos, pensamentos, vontade
própria e livre arbítrio.
Como terapeuta, o conselheiro deseja o bem-estar do aconselhando e procura
não manipular nem se intrometer em sua vida. Como servo de Deus, ele tem a
responsabilidade de viver, agir e aconselhar de acordo com os princípios bíblicos,
Como empregado, deve cumprir seus deveres e desempenhar suas tarefas com
honestidade e competência. Como cidadão e membro da sociedade, deve obedecer às
autoridades governamentais e contribuir para o bem da sociedade.
Quando todos têm os mesmos valores e princípios, o trabalho do conselheiro
flui suavemente. Os problemas éticos surgem quando há conflitos de valores ou
quando decisões difíceis precisam ser tomadas. Muitas dessas decisões (mas não
todas) envolvem o sigilo das confidências. Por exemplos:

 Um aconselhando revela que infringiu a lei ou pretende


prejudicar outra pessoa, e lhe pede sigilo. Vcoê deve contar à
polícia ou à futura vítima?
 A filha solteira do pastor presidente de sua igreja conta que está
grávida e que pretende abortar. O que você faz com essa
informação?

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 Suponha que você exerça o cargo numa igreja. Um jovem chega
e pede sua ajuda porque quer se sentir mais autoconfiante na hora
de convencer as namoradas a manterem relações sexuais com ele.
Qual deve ser sua atitude como conselheiro cristão que considera
pecado fazer sexo antes do casamento? Sua resposta seria
diferente se você trabalhasse numa instituição secular?
 Uma pessoa que terminou o seminário e está procurando
colocação como pastor confessa no aconselhamento que é
homossexual praticante. Se lhe pedirem para preencher um
formulário de recomendação para esta pessoa, você menciona a
questão, ou não diz nada?

ENFRENTANDO O ESTRESSE

Os alunos dos cursos de aconselhamento acham que o simples fato de estar


ajudando as pessoas garante satisfação e realização profissional pelo resto da vida.
Entretanto, a maioria de nós demora muito a descobrir que aconselhar e um árduo,
que muitas vezes o aconselhando não melhora e que o constante envolvimento com
os problemas e misérias da humanidade nos deixa esgotados psicologia, física e, às
vezes. Até espiritualmente. Tudo isso contribui para o estresse do conselheiro –
estado descrito por um autor como “uma progressiva perda de idealismo, energia e
propósitos” que acomete os profissionais que desempenham tarefas de
aconselhamento, em função da própria natureza de seu trabalho. Muitas vezes, o
estresse é acompanhado de sensações de inutilidade, impotência, fadiga, ceticismo,
apatia, irritabilidade e frustração. Conselheiros que acreditam na importância do afeto
da sinceridade e da empatia tornam-se frios, distantes, antipáticos, insensíveis,
esgotados. Num esforço sutil e, às vezes, até inconsciente de se proteger, o
profissional veste uma carapaça que ninguém consegue penetrar.

Para evitar este esgotamento, precisamos, em primeiro lugar, da força espiritual


que vem através de longos períodos de oração e meditação nas Escrituras. Em
segundo lugar, precisamos do apoio de pessoas cujo amor por nós não dependa de
nossas realizações. Todos nós precisamos ter pelo menos uma pessoa amorosa e
compreensiva com quem chorar de vez em quando; alguém que conheça nossas
franquezas, mas que nunca seria capaz de usar isso contra nós. Em terceiro lugar, é
necessário fazer uma avaliação periódica de nossas motivações

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È fácil ignorar tudo isso, deixar a mente vaguear(principalmente quando a
história do paciente é maçante ou repetitiva), ou então descambar para o excesso de
explicações e conselhos. Quando isso acontece, o aconselhamento acha que o
terapeuta não o compreende e, muitas vezes, começa a omitir detalhes ou não fala
honestamente sobre seus problemas. Conselheiros que falam muito podem dar boas
orientações, mas raramente são ouvidos e muitos menos atendidos, já que os
aconselhandos pesam que o terapeuta não entendeu realmente o que se passa com
eles. Em contrapartida, ouvir atentamente é uma forma de dizer ao aconselhando
“Estou realmente interessado e me importo com o que você está dizendo. “Quando,
ao invés de ouvir, o terapeuta tenta aconselhar apenas dando instruções, na maioria
das vezes está expressando sua própria insegurança ou incapacidade de lidar com
tópicos vagos, ameaçadores ou sentimentais.
3. Responder. Não se deve supor que a única coisa que o conselheiro faz é
ouvir. Jesus era bom ouvinte (lembre-se do tempo que ele dedicou àqueles dois
discípulos perplexos na estrada de Emaús), mas os métodos que ele utilizava para
ajudar as pessoas também envolviam acões e respostas verbais objetivas.
A condução é a técnica pela qual o conselheiro vai direcionando suavemente a
conversação. Perguntas curtas como “O que aconteceu depois?” e “ O que você quer
dizer com...?” matem a conversa numa direção que possa fornecer informações
relevantes.
Comentar é um meio de fazer o aconselhando perceber que estamos
acompanhando o que ele diz e que conseguimos compreender como ele se sente e o
que pensa. “Você deve se sentir meio ...”, “Aposto que isso te deixou frustrado”,
“Deve ter sido ingraçado” são frases que comentam o que está sendo dito durante o
aconselhamento. Tenha o cuidado de não fazer comentários toda hora; faça-os
periodicamente. Procure não repetir palavra por palavra o que o aconselhando disser,
pois isso é irritante. Resista à tentação de começar quase todas as frases da mesma
maneira como, por exemplo, “Acho que deve ter sido ...” ou “ Parece até que estou
vendo ...”. Resumir, periodicamente, o que foi dito pode ser uma boa maniera de
comentar e estimular o aconselhando a aprofundar seu relato. O conselheiro pode
resumir sentimentos (“isso deve ter doído”) e/ou os temas gerais abordados na sessão
(“Depois de tudo isso que você disse, me parece que houve uma porção de fracassos
seguidos”). Sempre que fizer um comentário, dê ao aconselhando um tempo para
responder ao que você acabou de dizer.
Perguntar, desde que feito com jeito, pode trazer uma série de informações.
As melhores perguntas são aquelas que requerem pelo menos uma frase ou duas
como resposta (por exemplo, “Como é que vão as coisas no casamento?”. “ O que é
que está te aborrecendo?”). Evite as perguntas que podem ser respondidas só com
uma palavra (“Você é casado?”, “Está se sentido infeliz?”, “Quantos anos você
tem?”). Conselheiros principiantes costumam perguntar mais que os experientes e,

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como o excesso de perguntas pode travar a comunicação, os alunos geralmente são
ensinados a perguntar pouco. Também devem ser evitadas perguntas que começam
com “ Por que”, pois elas passam a idéia de julgamento ou podem levar a longas
discussões intelectuais que impedem o aconselhando de atacar as verdadeiras raízes
do problema.
Confrontar não significa atacar nem condenar impiedosamente uma outra
pessoa. Quando confrontamos, apresentamos ao aconselhando uma idéia que ele pode
nunca ter tido, ou jamais teria sozinho. A confrontação pode levar os aconselhandos a
perceber que estão em pecado e a reconhecer suas falhas, inconsistências, desculpas,
pensamentos negativos, ou comportamentos derrotistas. A melhor maneira de
confrontar é fazer nossas colocações de forma gentil, amorosa e sem parecer que
estamos julgando a outra pessoa.
Às vezes, a confrontação leva o aconselhando a confessar seu pecado e passar
por uma significativa experiência de perdão. Contudo, muitas vezes o que acontece é
que a pessoa demonstra resistência, culpa, ressentimento ou raiva. È importante
deixar que a pessoa responda verbalmente à confrontação, dando-lhe tempo para
discutir alternativas de comportamento.
Alguns cristãos têm sugerido que confrontação e aconselhamento são
sinônimos, mas esta afirmação não encontra apoio, nem na Bíblia, nem na psicologia.
Confrontar é uma parte importante, e às vezes difícil, do aconselhamento, mas não é
a única que se pode usar para ajudar as pessoas.
Informar é apresentar fatos e dados para serem assimilados pelas pessoas.
Evite dar muitas informações de uma vez só, seja claro, e lembre-se de que, quando
as pessoas estão passando por um problema, elas reagem melhor às informações que
são relevantes para as suas necessidades ou preocupações mais imediatas. Esta
atividade é bastante comum e largamente empregada no aconselhamento. Já dar
conselhos é algo bem mais controverso.
As pessoas que gostam de dar conselhos geralmente não têm suficiente
conhecimento da situação para fazê-lo de forma adequada. Além disso, sua postura
muitas vezes leva o aconselhando a se acomodar numa atitude de dependência e se,
no fim das contas, as coisas não derem certo, o culpado é sempre o conselheiro.
Sempre que lhe pedirem um conselho, ou você mesmo se sentir inclinando a isso,
procure se certificar de que tem todas as informações necessárias sobre a situação.
Verifique, também, se você tem conhecimento e experiência suficientes para dar um
conselho sensato à outra pessoa. Em seguida, pergunte a si mesmo quais podem ser
as conseqüências de dar esse conselho. Será que o aconselhando vai ficar mais
dependente? Como você vai se sentir se o paciente não aceitar seu conselho, ou se, no
fim das contas, ficar provado que você estava errado? Se você acabar optando por dar
o conselho, diga que é apenas uma sugestão, dê um tempo para que o aconselhando

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manifeste sua opinião e acompanhe o desenrolar dos fatos para ver se o conselho foi
realmente útil.
Interpretar é explicar ao aconselhando o significado de seu comportamento
ou de outros eventos. Esta é uma habilidade extremamente técnica que ajuda bastante
o aconselhando a ter uma visão mais clara de si mesmo e das situações em que está
envolvido. No entanto, a interpretação também pode ser danosa, principalmente
quando introduzida antes que o aconselhando possa a questão emocionalmente, ou
quando a interpretação está errada. Se você começar a ver possíveis explicações para
os problemas ou ações de seu aconselhando, pergunte a si mesmo se ele está
intelectual e emocionalmente pronto para lidar com isso, use termos simples e
apresente suas interpretações sem ser taxativo (por exemplo, “Acho que uma possível
explicação seria ...”) e dê tempo para que o aconselhando responda. À medida que
vocês discutem a interpretação, o aconselhando irá desenvolver uma percepção cada
vez maior e será capaz de explorar futuros cursos de ação com o conselheiro. Para
fazer com que o aconselhando se sinta à vontade, mas, ao que parece, são as
características pessoais do conselheiro que propiciam o estabelecimento de uma
relação terapêutica eficaz.
1. Calor humano. Esta expressão implica em atenção, respeito e numa
preocupação sincera, porém não sufocante, com o bem estar do aconselhando,
independentemente de suas ações ou modo de pensar. Jesus demonstrou essa
qualidade ao encontrar a samaritana no poço. Embora os padrões morais daquela
mulher fossem baixos, e Jesus jamais tivesse feito vista grossa ao pecado, ele a
respeitou e tratou-a como um ser humano que tinha valor. A ternura e o cuidado de
Jesus deviam ser traços bem marcantes de sua personalidade.
2. Sinceridade O conselheiro sincero é autêntico – aberto, honesto, alguém que
não recorre à falsidade, nem se coloca em posição superior. Ser sincero significa ser
espontâneo, mas não impulsivo; ser franco, mas não insensível. O conselheiro
autêntico demonstra o que é realmente, sem a hipocrisia de pensar uma coisa e dizer
outra.
3. Empatia. O que o aconselhando pensa? Como ele se sente, realmente?
Quais são seus valores, crenças, conflitos íntimos e feridas da alma? O bom
conselheiro está sempre sensível a essas questões, é capaz de compreendê-las e usa
palavras e gestos de forma a fazer com que o aconselhando perceba isso. Empatia é
exatamente essa capacidade de “sentir o mesmo” que o aconselhando. È possível
ajudar as pessoas mesmo sem compreendê-las inteiramente, mas o conselheiro que
consegue transmitir empatia (principalmente no início do processo terapêutico) tem
maiores chances de sucesso.
O calor humano, a sinceridade e a empatia encontram-se entre os atributos
mais citados nas definições de um bom conselheiro. Entretanto, há outras
características que também são importantes. Por exemplo, conselheiros eficientes

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costumam ser capazes de lidar sozinhos com seus problemas. Eles praticamente não
apresentam conflitos incapacitantes, inseguranças e complexos. Além disso, são
compassivos, interessam-se pelas pessoas, estão conscientes de suas próprias
motivações e sentimentos, tendem a ser mais abertos do que reservados, são
confiáveis, atraem o afeto das pessoas e têm conhecimento profundos sobre
aconselhamento. Sob o ponto de vista cristão, podemos resumir tudo isso afirmando
que a vida do conselheiro deve demonstrar evidência do fruto do Espírito Santo :
alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio
próprio e talvez o mais importante de todos – amor.
Esse aspecto foi ressaltado por um dos ex-presidentes da Associação
psicológica Americana, ao afirmar que o amor é “ de longe, o maior agente
terapêutico [...] algo que a psiquiatria profissional não é capaz de criar, focalizar, nem
liberar.” Será que o cristianismo pode ter sucesso onde os métodos seculares de
aconselhamento falham, já que sua forma de abordar os desafios da vida se baseia
inteiramente no amor? – perguntava esse autor. Isso levanta uma questão instigante
para todo conselheiro cristão: uma forma fundamental de ajudar as pessoas é amá-las
– pedir a Deus que derrame seu amor pelos necessitados através de nós e orar para
que ele nos faça cada vez mais amorosos.
Para algumas pessoas, a experiência do amor é suficiente para provocar
mudanças, mas para muitas outras, é necessário algo mais. Muitos anos atrás, um
famoso psiquiatra infantil escreveu um livro intitulado Love Is Not Enough (Só
Amar Não Basta). Muitas vezes é necessário disciplinar, estruturar e fazer outras
intervenções terapêuticas. O conselheiro cristão eficiente procura desenvolver
relacionamento baseados no amor com seus aconselhandos, mas também se esforça
para reconhecer e aprender aplicar as técnicas básicas de aconselhamento.

AS TÉCNICAS DE ACONSELHAMENTO

Em muitos aspectos. Conselheiro e aconselhando tornam-se amigos que


trabalham juntos para resolver um problema. Porém, ao contrário das conversas
casuais entre amigos, o relacionamento terapêutico tem um propósito bem definido –
ajudar o aconselhando. As necessidades do terapeuta são preenchidas em outras
interações e ele não depende do aconselhando para obter amor, segurança ou auxílio.
Os conselheiros põe de lado seus próprios conflitos, procuram conhecer as carências
do aconselhando e transmitir compreenção e desejo de ajudar.

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Quando se trata de ajudar as pessoas, não existem fórmula milagrosas. O
processo de aconselhamento pode ser complicado e não é fácil resumi-lo em alguns
parágrafos. Mesmo assim, existem algumas técnicas básicas usadas na maioria das
situações de aconselhamento:
1.Dar atenção. O conselheiro deve procurar mostrar ao aconselhando que
está prestando atenção a tudo o que ele diz. Isso envolve (a) contato visual – olhar
nos olhos da pessoa, mas não fixamente, como forma de transmitir compreenção e
desejo de ajudar; (b) postura – que deve ser relaxada e não tensa, inclinando-se,
periodicamente, na direção do aconselhando; e (c) gestos – naturais, mas não
excessivos, nem de um tipo que possa distrair a atenção do interlocutor. O
conselheiro deve ser cortês, gentil e fortemente motivado a compreender os outros.
Quando você estiver conduzindo uma sessão de aconselhamento, é importante
reconhecer que seu cansaço, impaciência, preocupação com outros assuntos,
distração ou inquietação podem desviar sua atenção do paciente. Ajudar as pessoas é
uma tarefa trabalhosa e que envolve sensibilidade, preocupação sincera com o
aconselhando a atenção a cada detalhe que ele possa estar tentando comunicar.
2. Ouvir. Ouvir alguém não é, simplesmente, escutar o que ele diz de forma
passiva ou indiferente, mas exige uma participação ativa do ouvinte. Para que o
processo seja eficiente, o ouvinte deve:

 Ser capaz de deixar de lado seus próprios conflitos, tedências e


preocupações para poder se concentrar no que o aconselhando está
transmitindo.
 Evitar sutis expressões, verbais ou não, de desaprovação ou julgamento
em relação ao que está sendo dito, mesmo quando o conteúdo for
repugnante.
 Manter os olhos e ouvidos bem abertos para detectar mensagens
transmitidas pelo tom da voz, postura, gestos, expressões faciais e
outras pistas não verbais.
 Ouvir não apenas o que está sendo dito, mas perceber o que está sendo
omitido.
 Aguardando pacientemente durante os períodos de silêncio ou acessos
de choro em que o aconselhando está reunindo coragem para falar de
algum fato doloroso, ou apenas organizando o pensamento e se
recompondo para continuar a sessão.
 Olhar para o aconselhando quando ele estiver falando, mas sem encarar
nem deixar que os olhos fiquem passeando pela sala.
 Ter consciência de que é possível aceitar o aconselhando, sem que isso
signifique ter que compactuar com suas ações, valores ou crenças.
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Jesus aceitou a mulher apanhada em adultério, muito embora não
aprovasse seu comportamento. Pode e ajuda para “levar sua carga”
durante um período, até que possam mobilizar novamente seus
recursos emocionais e espirituais para enfrentar os problemas da vida.

6. Integridade espiritual. Em seu livro sobre aconselhamento,


Howard Clinebell escreve que o cerne do cuidado pastoral e do aconselhamento
consiste em ajudar as pessoas a lidar com suas necessidades espirituais e
atingir a integridade espiritual. Embora falar de religião possa, às vezes, ser um
artifício que o aconselhando utiliza para esconder seus problemas psicológicos e
emocionais, o contrário também acontece. Os aconselhandos muitas vezes têm
dificuldade de ver, ou admitir, que todos os problemas humanos têm uma dimensão
espiritual. Muitos concordariam com a tão citada conclusão de Carl Jung a respeito
de seus pacientes acima de trinta e cinco anos: “não encontrei nenhum cujo problema,
em última análise, não fosse e de encontrar uma explicação religiosa para a vida”. O
conselheiro cristão, portanto, tem um papel de líder espiritual que orienta o
crescimento do aconselhando, ajuda-o a enfrentar de natureza espiritual e o torna
capaz de descobrir crenças e valores significativos. Em vez de tentar estabelecer um
diálogo com aconselhando, o cristão se esforça para manter um “triálogo” que
envolva a presença de Deus no centro do processo de aconselhamento realmente
eficiente.
Quando o conselheiro tenta impor seus próprios alvos ao paciente, o
aconselhamento quase nunca surte efeito. A melhor coisa a fazer é trabalhar em
conjunto com o aconselhando no estabelecimento das metas terapêuticas. Estas
devem ser objetivas (e não vagas), realistas e, se houver mais de uma, organizadas
numa seqüência lógica que estabeleça prioridades e, talvez, o tempo dedicado a
alcançar cada uma delas.

O RELACIONAMENTO ENTRE CONSELHEIRO E ACONSELHANDO

Muitas pessoas relutam em procurar aconselhamento. Não é fácil para


ninguém admitir que precisa de ajuda. Alguns indivíduos têm um verdadeiro terror
dos conselheiros e morrem de medo das perguntas que eles podem fazer. Já outros,
têm problemas tão embaraçosos, ou tão íntimos, que não se sentem à vontade para
discuti-los. Os crentes, muitas vezes, acham que deveriam ser capazes de resolver
sozinhos todos os seus problemas, de modo que o aconselhamento é considerado por
muitos como uma demonstração de fracasso espiritual.

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O bom conselheiro conhece essas inseguranças e procura ajudar o
aconselhando a relaxar. Uma coisa que ajuda é procurar criar uma ‘atmosfera
terapêutica” , onde o aconselhando se sinta confortável e não haja muitas distrações,
nem interrupções. Isso pode acontecer num gabinete ou num centro terapêutico, mas
é possível prestar ajuda eficaz em quase qualquer lugar. Para algumas pessoas, um
continho discreto num restaurante pode ser menos ameaçador do que o ambiente mais
formal do consultório.
Contudo, mais importante que o local é o relacionamento entre o terapeuta e o
paciente. Muitos conselheiros concordam com o autor que afirmou que o
relacionamento é o “principal elemento no processo de ajudar as pessoas.”
Como se constrói esse relacionamento terapêutico? Há muitos anos, num
estudo realizado com pacientes hospitalizados e vários conselheiros, descobriu-se que
os relacionamento evoluíram e os pacientes melhoravam quando os terapeutas
demonstravam alto grau de calor humano, sinceridade e empatia. Quando essas
qualidades ausentes, os pacientes pioravam. É claro que é importante ser sensível e
usar todas as técnicas disponíveis espécie de “pré-evangelismo”, removendo alguns
obstáculos que impedem a conversão. Evangelismo e discipulado são, portanto, os
alvos principais de uma conselheiro cristão, embora não sejam os únicos.
Então, quais são os outros? Muitas pessoas têm apenas uma vaga noção do que
esperam do aconselhamento – exceto o fato de que querem se conhecer melhor ou se
sentir bem. Se seus conselheiros também forem vagos desse jeito, a terapia terá
grandes de ser ineficaz e sem objetivo. As metas específicas dependem fortemente do
problema do aconselhando, mas existem alguns elementos que, provavelmente,
aparecem em todas as listas:
1. Autoconhecimento. Entender a si mesmo é, geralmente, o primeiro passo
para a cura. Muitos problemas são gerados pelo próprio indivíduo, mas o
aconselhando pode não ter condições de reconhecer sozinho a existência de idéias
preconcebidas, modos de pensar prejudiciais ou comportamentos autodestrutivos. Por
exemplo, há pessoas que chegam dizendo “ninguém gosta de mim” e não conseguem
ver que esse tipo de reclamação incomoda os outros de tal forma que acaba se
tornando uma das maiores razões para a rejeição. Uma das metas do aconselhamento
é levar o aconselhando a perceber com clareza o que acontece no seu interior e no
mundo à sua volta e, para isso, o terapeuta precisa usar toda a sua perspicácia e
objetividade.
2. Comunicação. Todo mundo sabe que muitos problemas conjugais estão
relacionados com falhas na comunicação do casal. Em outros tipos de relacionamento
interpessoal ocorre a mesma coisa. Muitas pessoas são incapazes de se comunicar, ou
não querem fazê-lo. O aconselhando deve ser estimulado a expor seus sentimentos,
pensamentos e emoções de maneira clara e precisa. Esse tipo de comunicação exige

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que a pessoa aprenda a se expressar com clareza e a interpretar corretamente as
mensagens transmitidas pelo outros.
3. Aprendizado e mudança de comportamento. A maior parte de nossos
comportamentos, senão todos, são aprendidos. O aconselhamento, portanto, inclui
ajudar o aconselhando a desaprender comportamentos nocivos, substituindo-os por
outras formas de ação mais produtivas. Esse tipo de aprendizado ocorre através do
ensino, da imitação de um modelo, que pode ser o próprio conselheiro ou outra
pessoa, e da experiência prática baseada na tentativa e erro. Em alguns casos, é
necessário analisar também qual foi o motivo do fracasso, para que o aconselhando
possa corrigir o erro e tentar de novo.
Suponha, por exemplo, que você esteja aconselhando um jovem que se sente
inseguro para namorar. O namoro é um comportamento aprendido. Se você reler os
parágrafos anteriores, certamente irá pensar em várias formas de ajudar essa pessoa.
4. Auto-realização. Alguns autores têm enfatizado a importância de ajudar as
pessoas a atingirem e manterem o máximo de seu potencial. Este conceito é
denominado “auto-realização” e alguns conselheiros afirmam que essa é uma meta
intrínseca de todo ser humano, quer esteja ele passando por aconselhamento ou não.
No caso de um crente, esse termo deveria ser substituído por “Cristo-realização”,
indicando que o alvo da vida é ser perfeito me Cristo, desenvolvendo ao máximo
nossas pontecialidades através do poder do Espírito Santo, que nos dá maturidade
espiritual.
5. Apoio. Muitas vezes, as pessoas conseguem atingir todos os objetivos
apresentados acima e desempenhar suas funções adequadamente, exceto por períodos
temporários de estresse ou em momentos de crise. Esses indivíduos precisam receber
apoio, encorajamento principais métodos.

OS OBJETIVOS DO ACONSELHAMENTO.

Por que as pessoas procuram um conselheiro? O que elas desejam? Quais são
as razões que levam um conselheiro a tentar ajudar essas pessoas? Estas são
perguntas difíceis de responder, pois cada uma delas pode ter várias respostas,
dependendo do aconselhando e do próprio conselheiro.
Os problemas que um conselheiro cristão pode esperar encontrar em seu
gabinete envolvem oração, falta de fé, questões doutrinárias, crescimento espiritual e
sentimentos de culpa por causa de algum pecado. Uma pesquisa revelou, no entanto,
que apenas 10 por cento dos assuntos tratados em aconselhamento pastoral giram em
torno de questões religiosas como essas. N a maior parte das vezes, as pessoas trazem

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problemas matrimoniais, crises, depressão, conflitos interpessoais, confusão e outros
dramas do cotidiano.
Jesus se preocupava com esse tipo de problema. Ele afirmou que tinha vindo
para dar vida, e vida em abundância. Naquele que certamente, é o versículo mais
conhecido da Bíblia, Jesus revelou o propósito de Deus ao enviar seu filho ao mundo
– “para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” Jesus
tinha, portanto, duas metas para os indivíduos: vida abundante na terra e vida eterna
no céu.
O alvo principal de todo conselheiro que é discípulo de Jesus Cristo também
é este: mostrar às pessoas como ter vida abundante e levá-las a encontrar o caminho
da vida eterna prometida a todo aquele que crê. Se levarmos a sério a Grande
Comissão, teremos um desejo ardente de ver todos os nossos aconselhandos se
tornarem discípulos de Jesus Cristo. Se levarmos a sério as palavras de Jesus,
chegaremos à conclusão de que só aqueles que procuram viver de acordo com os
ensinamentos do Senhor podem ter uma vida realmente abundante.
No entanto, todo mundo sabe que existem muitos crentes sinceros que terão a
vida eterna no céu, mas cuja vida na terra não tem nada de abundante. Essas pessoas
precisam de aconselhamento, algo que envolve outras coisas além do evangelismo e
da educação cristã tradicional. O aconselhamento pode, por exemplo, ajudá-las a
identificar padrões de pensamento que geram atitudes negativas, aperfeiçoar seus
métodos de relacionamento interpessoal, ensinar novos comportamentos, orientá-las
em decisões difíceis, ajudá-las a mudar seu modo de viver, ou ensiná-las a mobilizar
recursos internos nos momentos de crise. Em alguns casos, o aconselhamento guiado
pelo Espírito Santo consegue libertar o indivíduo de complexos arraigados, memórias
do passado ou atitudes que estão impedindo o seu amadurecimento. Para o incrédulo,
esse aconselhemento pode funcionar como uma.

ASPECTOS CENTRAIS DO ACONSELHAMENTO

A Bíblia traz muitos exemplos de necessidades humanas. Suas páginas falam de ansiedade,
solidão, desânimo, dúvida, tristeza, violência, sexo anormal, amargura, pobreza, cobiça, tristeza,
tensões interpessoais e muitos outros problemas – às vezes na vida dos maiores santos.
Jô, por exemplo, foi um homem temente a Deus, famoso, rico, e extremamente respeitando
por seus contemporâneos. De repente, seu mundo desabou. A riqueza e a saúde foram embora; os
filhos morreram durante um tempestade, e seu coração chorou amargamente a dor da perda; em vez

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de consolá-lo, sua esposa começou a reclamar da vida e dar palpites infelizes; os três amigos não
ajudaram muito, e ele deve ter sentido que Deus estava muito longe, num lugar inatingível.
Foi então que apareceu Eliú, um jovem que se dispôs a ouvir o que Jô tinha a dizer e escutar
seus argumentos. Ele criticou os conselheiros bem intencionados, mas insensíveis, que queriam
ajudar e acabaram apenas fazendo críticas e censuras. Ao contrário deles, esse jovem demonstrou
compaixão, uma disposição humilde de se colocar no mesmo nível de Jô (sem bancar o santarrão),
coragem para confrontar e um desejo irrevogável de levar aquele homem sofredor à presença do
Deus soberano que tem poder para socorrer nos momentos de necessidades. Agindo assim, Eliú foi
o único conselheiro que teve sucesso onde todos os outros falharam.
Há muitos anos, um ex-presidente da Associação Psicológica Americana fez uma
estimativa de que, apesar de todo o conhecimento que temos hoje, três em cada quatro conselheiros
desempenham mal a sua função. Pesquisas recentes demonstraram que a maioria dos pastores se
sente despreparada para assumir as responsabilidades do aconselhamento e grande parte deles não
sabe aconselhar corretamente. Há evidências de que os conselheiros incompetentes, e até nocivos,
são maioria.

Muitos anos atrás, perguntaram a um grupo de conselheiros: Como vocês passariam o


resto da vida, se estivessem condições financeiras de fazer qualquer coisa que quisessem? Dos mais
de cem conselheiros entrevistados, só três responderam que gostariam de passara vida inteira
aconselhando pessoas e, dentre estes, só um gostaria de exercer a atividade como uma forma de
lazer em seu tempo livre. Aconselhar pode trazer um senso de realização à nossa vida, mas não é
uma tarefa nada fácil. Se você for capaz de reconhecer isso sinceramente, seu ministério assistencial
lhe trará mais satisfação e suas chances de ser um conselheiro cristão bem sucedido serão
maiores.Para o sucesso. Devemos nos lembrar que nosso valor pessoal vem de Deus, e não de
nossos sucessos e realizações.
Em quarto, precisamos de períodos de descanso, sem ter que cumprir horários e
atender gente o tempo todo. Jesus fazia isso, e nós devemos seguir o seu exemplo para poder ajudar
as pessoas com máximo da nossa capacidade. Em quinto lugar, certas coisas ajudam a evitar
desgaste, por exemplo, aproveitar as oportunidades de aperfeiçoamento ministerial, aprender a
gerenciar conflitos, melhorar nosso processo de aconselhamento e aprender a dizer não. Finalmente,
podemos dividir a carga de trabalho formando uma equipe de conselheiros leigos e auxiliares. O
líder da igreja ou conselheiro cristão que centraliza todo o trabalho de aconselhamento está no
caminho da ineficiência e do estresse. Louis McBurney acrescenta ainda que é bom manter o senso
de humor e não dar tanta importância aos problemas.

O CONSELHEIRO DOS CONSELHEIROS

Muitos programas de treinamento profissional exigem que os alunos do curso participem


de estágios supervisionados, treinamento de sensibilidade em grupo, terapia pessoal, ou
experiências educacionais semelhantes. Cada uma dessas práticas tem como objetivo aumentar o
autoconhecimento, facilitar a auto-aceitação, e remover os bloqueios emocionais e psicológicos que

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prejudicam a eficácia do aconselhamento. Embora esses exercícios sejam muito úteis e altamente
recomendados, muitas vezes ignoram a maior fonte de força e sabedoria que um conselheiro cristão
tem à sua disposição – o Espírito Santo, que guia e habita todo crente. Um cristão pode ficar tão
envolvido com teorias e técnicas de aconselhamento, que acaba se esquecendo de qual é a
verdadeira fonte de toda ajuda duradoura – o próprio Senhor Jesus. “A principal ajuda que um
conselheiro cheio do Espírito Santo recebe não está baseada nas teorias mais recentes dos
especialistas em aconselhamento e psicologia, mas na fase ‘Assim diz o Senhor’.”
A Bíblia descreve Jesus como o Maravilhoso Conselheiro. Ele é o conselheiro dos
conselheiros – sempre disposto a animar, guiar e dar sabedoria aos que se dedicam à tarefa de
ajudar seus semelhantes. Nunca é demais repetir que o conselheiro cristão realmente eficiente é
apenas uma preparada que se dispõe a servir de instrumento através do qual o Espírito Santo irá
transformar vidas. Quando o conselheiro está enfrentando ansiedades e confusões em seu trabalho,
deve levar seus problemas a Deus, pois ele prometeu cuidar de nós e nos ajudar. Orar diariamente e
estudar a Bíblia são atividades que mantêm aberto nosso canal de comunicação com aquele que é o
nosso conselheiro e ajudador.
Em toda a Bíblia, vemos que Deus também trabalha através dos seres humanos. Na igreja
primitiva, os crentes se dedicavam à “comunhão”, compartilhando tudo o que tinham e edificando
uns aos outros em estreito relacionamento espiritual. Deus muitas vezes ajuda seus filhos, inclusive
os conselheiros, por meio de outras pessoas com quem podemos abrir o coração, ver as coisas na
perspectiva certa, relaxar, orar e, às vezes, chorar. Sem o apoio, o encorajamento e as opiniões de
um amigo crente em quem confia, o trabalho do conselheiro tende a ser mais difícil e menos eficaz.
Dois ou mais conselheiros podem se encontrar regularmente para ler a Bíblia, ouvir e orar uns pelos
outros. Se você não tem esse tipo de relacionamento, peça a Deus que o ajude a encontrar um
colega ou dois com quem compartilhar seus problemas.

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CONHECIMENTOS EM TOXICOPATOLOGIA

MACONHA

Visão Geral
O primeiro registro do uso de canabis aparece no livro Book of Drugs, escrito em
2737 a.C., pelo imperador chinês Sheb Nung, ele prescrevia canabis para tratamento de
gota, malária, dores reumáticas e doenças femininas, aparentemente os chineses tinham
muito respeito pela planta.
Cannabis satina, a planta da maconha, cresce vigorosamente em várias regiões do
mundo. A maconha contém um grande número de concentração em THC que determina a
potência dos efeitos.

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A concentração do THC também varia entre as três formas mais comuns da
Cannabis satina: a maconha, o haxixe e o óleo de hash.
A maconha é a forma mais comum e utilizada no Brasil, é a mistura das folhas,
sementes, caules e flores secas da planta.
O haxixe é uma resina extraída da planta seca e das flores. É cinco a dez vezes
mais potentes do que a maconha comum.
O óleo do hash é uma substância viscosa ainda mais potente, cujo THC é extraído
do haxixe ou da maconha com uso de um solvente orgânico, esse extrato é filtrado e
muitas vezes purificado.

Vias de Administração
Fumar maconha é o método mais comum de ser utilizado. A maconha tem uma aparência
marrom-esverdeada, apresenta folhas secas e é mais comumente fumada num papel de cigarro ou de
seda. O produto final tem aspecto de cigarro e é conhecido como “baseado”. Às vezes, a maconha é
misturada com tabaco e fumado como cigarro.
O haxixe é mais comumente fumado em um cachimbo. Com ou sem tabaco. O óleo de hash é
utilizado de maneira mais econômica, em razão de sua alta potência psicoativa. Algumas gotas
podem ser colocadas no cigarro ou cachimbo ou o óleo pode ser aquecido e seu vapor, inalado.

Efeitos do Uso Agudo


Absorção, metabolismo e excreção
O THC é rapidamente absorvido dos pulmões para a corrente sanguínea, onde atinge um pico
de concentração de 10 minutos após ter sido inalado. Porém, o declínio da concentração sanguínea é
igualmente rápido: apenas de 5 a 10% dos níveis iniciais permanecem após 1 hora. Isso se deve ao
rápido metabolismo e a distribuição da substância o cérebro e outros tecidos. A absorção será muito
mais lenta se o THC tiver sido ingerido oralmente, e o estabelecimento dos efeitos pode demorar 1
hora ou mais e permanecer por mais de 5 horas.
O metabolismo do THC começa imediatamente nos pulmões (se tiver sido inalado) ou no
intestino (se ingerido oralmente), mas a maior parte da substância é absorvida pela circulação
sanguínea e levado ao fígado, onde é convertida em metabólitos. Um destes metabólitos é 20% mais
potente que o THC e penetra no cérebro rapidamente.

Efeitos Farmacológicos
O THC afeta primeiramente o funcionamento do sistema cardiovascular e do sistema nervoso
central. O aumento da pulsão é seu efeito fisiológico mais observado. O THC e outros canabinóides
agem por meio de receptores específicos nos sistemas nervoso central e periférico. A presença do
THC no sistema nervoso central hiperestimula o funcionamento do sistema canabinóide, cujos
receptores estão distribuídos pelo córtex, hipocampo, hipotálamo, cerebelo, amídala, girode cíngulo
anterior e gânglios de base. Como resultado desencadeiam-se alterações cognitivas (afrouxamento
das associações, fragmentação do pensamento, confusão, alterações na memória de fixação,
prejuízo da atenção, alteração de humor, exacerbação do apetite e dificuldades de coordenação
motora em vários graus.

Efeitos Psicoativos
A principal razão para um uso tão indeterminado da maconha é a sensação de “barato’ que os
usuários experimentam: trata-se de um estado alterado de consciência caracterizado por mudanças
emocionais, como euforia moderada e relaxamento, alterações perceptivas, como distorção do

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tempo, e intensificação das experiências sensoriais simples, como comer, assistir a filmes, ouvir
músicas e ter relações sexuais. Quando a maconha é utilizada num contexto social, essas
experiências são acompanhadas de risadas, fala excessiva e aumento da sociabilidade.
Nem todos os efeitos da maconha são agradáveis. Ansiedade, disforia, pânico e paranóia são
os efeitos indesejáveis mais comumente relatados por usuários não familiarizados com seus efeitos.
Sintomas psicóticos, como delírios e alucinações podem ocorrer com o uso de altas doses.

Principais Efeitos do Uso Agudo da Maconha

Relaxamento
Euforia
Pupilas dilatadas
Conjuntivas avermelhadas
GERAIS Boca seca
Aumento do apetite
Rinite
Faringite

Comprometimento da capacidade mental


Alteração da percepção
NEUROLÓGICOS Alteração da coordenação motora
Maior risco de acidentes
Voz pastosa (mole)

Aumento dos batimentos cardíacos


CARDIOVASCULARES Aumento da pressão arterial

Despersonalização
Ansiedade / confusão
PSIQUÍCOS Alucinações
Perda da capacidade de insights
Aumento do risco de sintomas psicóticos entre
aqueles com história pessoal ou familiar anterior.

Complicações Físicas
Com o uso crônico da maconha prejudicam a imunidade das células de roedores e as outras
substâncias da maconha. Prejudicam os alvéolos, afetando o sistema imunológico. A maconha por
sua vez causa danos aos sistemas:
- Cardiovascular
- Respiratório
- Reprodutor
- Câncer

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Complicações Psíquicas
O número substancial em indivíduos que desenvolvem sintomas psicóticos após o uso é muito
freqüentes. Os sintomas mais comuns são: confusão, alucinação (principalmente visuais), delírios,
habilidade emocional, amnésia, desorientação, despersonalização e sintomas paranóides. Estas
reações ocorrem após um uso pesado da droga. Na maioria dos casos estes sintomas desaparecem
com a abstinência.
 O uso crônico de canabis pode precipitar a esquizofrenia em indivíduos
vulneráveis
 O uso de canabis pode exacerbar os sintomas da esquizofrenia
 Os portadores de esquizofrenia podem fazer uso de canabis como uma forma
de medicar os sintomas desagradáveis associados ou os efeitos colaterais
dos neurolépticos utilizados no tratamento, tais como depressão, ansiedade,
letargia e anedonia.

Princípios Gerais de Tratamento


Não existe caso de morte por intoxicação confirmado na literatura médica mundial por THC
para matar um adulto. Mas os sintomas desagradáveis que podem acompanhar o uso são ansiedade,
pânico, medo intenso, disforia e reações depressivas. Comadres psicóticos agudos têm sido
descritos tanto em usuários crônicos como em principiantes, e os sinais e sintomas freqüentes são
inquietação motora, insônia, “fuga” de idéias e leves alterações do pensamento.
O reasseguramento psicológico e a orientação para a qualidade, feita por amigos e familiares,
costumam ser suficientes.
Os benzodiazepínicos podem ser úteis nos quadros ansiosos agudos, assim como nos
psicóticos, se associados a algum neuroléptico. E a internação em clínicas de especialidades para a
desintoxicação.

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COCAÍNA E CRACK

Visão Geral
O uso da cocaína começou nos países andinos (Peru, Bolívia, Equador e Colômbia).
Há mais de 2000 anos, seu isolamento químico foi feito por um alemão, chamado Albert
Niemann, cujo trabalho foi publicado em 1860. O uso mais difundido gera uma série
enorme de complicações relacionadas que passaram a ser descritas pela literatura
médica. Tais evidências levaram os Estados Unidos a proibirem seu uso e a cocaína
quase desapareceu no começo do séc. XX. Seu reaparecimento aconteceu na década de
1980, como droga de elites econômicas. Na década de 1980, e consumo da cocaína
aumentou muito e várias razões contribuíram para isso. O aumento da oferta, a redução
do custo e a diversificação nas vias de administração (além de aspirada, a cocaína
passou a ser injetada e fumada).

Vias de Administração
A produção da cocaína começa com as folhas de coca e passa por vários estágios
até chegar à forma de cloridrato de cocaína, que é a droga na forma de sal, vendi como
pó. A cocaína em pó não pode ser fumada, pois é volátil, ou seja, grande parte de sua
forma ativa é destruída a altas temperaturas. Para poder ser fumada, o sal da cocaína
precisa retornar à forma de base, neutralizando-se o cloridrato ou a parte ácida. O produto
resultante é conhecido como crack ou cocaína freebase. Assim, o crack não é uma droga
nova, é uma forma de cocaína que pode ser utilizada pela via pulmonar. Sua grande
vantagem, do ponto de vista do usuário, é que a absorção via pulmonar é mais rápida e
produz, aparentemente um efeito mais intenso.
A cocaína pode ser usada por diferentes vias de administração:
- Oral
- Intranasal
- Injetável
- Pulmonar
No Brasil a forma mais comum de uso da cocaína era a via nasal. No final da década de
1980, a via injetável passou a predominar. Já no ano de 1995, a maioria dos pacientes usava
predominantemente a cocaína na forma de crack (fumada).

Efeitos do Uso Agudo


Quando a cocaína e tomada oralmente (mascada). Sua absorção é lenta e
incompleta, requer mais de 1 hora e 75% da droga absorvida é rapidamente metabolizada
no fígado. Somente 25% da droga alcança o cérebro.
A cocaína aspirada também e absorvida por dois motivos: somente uma pequena
quantidade atravessa a mucosa nasal; e p vaso constrição gerada pela própria cocaína,
absorvendo de 20 a 30% da droga, os efeitos duram entre 30 e 60 minutos.

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A cocaína injetada cruza todas as barreiras de absorção e alcança a corrente
sanguínea imediatamente, o tempo propício para atingir a região cerebral e instalar seus
efeitos é de 30 a 60 segundos, produzindo um rápido e poderoso e breve efeito.
Entretanto, para os consumidores ainda mais compulsivos é a via de administração
pulmonar. A absorção da cocaína vaporizada e fumada é rápida e quase completa. Os
seus efeitos se instalam em segundo e duram de 5 a 10 minutos. Por esta razão o uso do
crack gera uma dependência mais rápida que o uso endovenoso.

Efeitos Farmacológicos
Na farmacologia, a cocaína tem três ações principais:
1) Anestésico local;
2) Vaso contritor
3) Psicoestimulante
A cocaína age no sistema nervoso central de duas formas; causando impacto no
sistema neurotransmissor e nos mecanismos de tolerância e dependência. Produz uma
ativação nos sistemas de depamina, norepinefrina e serotonina.
Além da dependência, a toxicidade do sistema nervoso central pode causar dores de
cabeça, perda de consciência temporária, convulsões e morte. Alguns desses efeitos
talvez sejam devidos ao aumento da temperatura corporal causado pela droga.

Efeitos Psicoativos que Favorecem a Dependência


Os efeitos estimulantes da cocaína parecem aumentar as habilidades físicas e
mentais dos usuários. Eles experimentam euforia, exaltação da energia e da libido,
diminuindo o apetite, exacerbação do estado de alerta e aumento da autoconfiança. Altas
doses de cocaína intensificam a euforia, agilidade, a verbosidade, os comportamentos
estereotipados e alteram o comportamento sexual.

Principais Efeitos do Uso Agudo da Cocaína e do Crack

SISTEMAS: EFEITOS:

Euforia
Sensação de bem estar
Estimulação mental e motora (ficar ligado)
GERAL: PSICOLÓGICO Aumento da auto-estima
Agressividade
Irritabilidade
Inquietação
Sensação de anestesia

SISTEMAS: EFEITOS:

Aumento do tamanho das pupilas


Sudorese
GERAL: FÍSICO Diminuição do apetite
Diminuição da irrigação sanguínea nos órgãos

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SISTEMAS: EFEITOS:

Tiques
Coordenação motora diminuída
Derrame cerebral
Convulsão
NEUROLÓGICO Dor de cabeça
Desmaio
Tontura
Tremores
Tinido no ouvido
Visão embaçada
SISTEMAS: EFEITOS:

Desconfiança e sentimento de perseguição (nóia)


PSÍQUICO Depressão (efeito rebote da intensa excitação)

SISTEMAS: EFEITOS:

Isolamento
SOCIAL Falar muito
Desinibição

SISTEMAS: EFEITOS:

RESPIRATÓRIO Parada respiratória


Tosse

Complicações Físicas
Como se viu, a cocaína e outros estimulantes são amplamente distribuídos por todo
o corpo e as maiores concentrações acontecem no cérebro, baço, rins e pulmões.

Cardiovasculares
 Hipertensão
 Arritmias
 Cardiomiopatia e miocardite
 Infarto do miocárdio
 Isquemia do miocárdio
 Endocardite

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Sistema Nervoso Central
 Dores de cabeça

 Convulsões
 Hemorragias cerebral
 Infarto cerebral
 Edema cerebral
 Atrofia cerebral
 Encefalopatia tóxica / coma
 Transtorno dos movimentos (tiques, reações distônicas, coreias)
 Abcessos cerebrais

Gastrintestinais
 Náuseas, vômitos e diarréias
 Anorexia
 Má nutrição
 Isquemia intestinal
 Perfuração do duodeno

Cabeça e Pescoço
 Ulceração da gengiva
 Midríase
 Erosões no esmalte dentário
 Alterações no olfato
 Rinite crônica
 Perfuração do septo nasal

Sistema Renal
 Falha aguda renal

Sistema Respiratório
 Tosse crônica
 Dores torácicas
 Hemoptisse
 Pneumotórax
 Hemopneumotórax
 Pneumomediastino
 Pneumopericárdio
 Asma
 Lesões nas vias aéreas
 Deterioração das funções pulmonares
 Edema pulmonar
 Hemorragia pulmonar
 Ulceração ou perfuração do septo nasal

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 Sinusite
 Colapso nasal

Infecções (Decorrentes de Compartilhamento de Seringas)


 HIV
 Hepatite B e/ou C
 Tétano

Outros
 Hipertermia
 Morte súbita
 Disfunções sexuais

Overdose
Uma dose suficientemente alta pode levar à falência de um ou mais órgãos do
corpo, levando à overdose, que pode acometer qualquer tipo de usuário (crônico, eventual
ou iniciante).
A dose letal de cocaína depende da via de administração, para o uso oral é de 1 a
1,2 g de cocaína pura.
O mais importante parece ser o qual rápido acontece o aumento dos níveis da droga
no cérebro.
A overdose acontece em duas fases:
Uma excitação inicial é seguida por fortes dores de cabeça, náuseas, vômitos e
convulsões severas. A esta fase segue-se a morte, pode ser muito rápida de 2 a 3
minutos ou durar cerca de meia hora. Alguém que sobrevive por mais de 3 horas tem
maior probabilidade de algum dano cerebral devido à falta de oxigenação.

Complicações Psiquiátricas
Altas doses de cocaína podem provocar alterações severas de comportamento
devido ao prejuízo da capacidade de perda da memória causando uma sensação intensa
de medo ou paranóia podendo levar o indivíduo a recorrer à violência, manifestações
psicóticas, alucinações e delírios podendo levar ao suicídio.

Complicações Sociais
As pessoas que usam drogas inicialmente para reduzir a inibição social e promover
a comunicação interpessoal, o uso pode provocar a paranóia prejudicando todo o seu
convívio social.
 Menor participação social
 Prejuízo da capacidade para trabalho
 Comportamento violento
 Atividade criminosa como furtos
 Comportamento sexual de risco e infecções
 Rompimento de vínculos familiares

Síndrome de Abstinência

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Após o último uso da droga 12 horas ocorre uma drástica redução do humor e da
energia corporal. O usuário experimenta o craving (fissura), depressão, ansiedade e
paranóia. O craving por estimulante diminui de 1 a 4 horas após o forte desejo de dormir.
Esta fase começa de 12 a 96 horas após o crash e pode durar de 2 até 12 semanas.
Decorrendo do aumento do número e da sensibilidade dos receptores de dopamina. A
extinção ocorre quando completa os sinais e sintomas físicos. O craving é o sintoma
residual que aparece eventualmente, condicionando lembranças do uso e seus prazeres,
seu desaparecimento pode durar meses ou anos.

Principais Comorbidades
É comum encontrarmos usuários de cocaína com sintomas psiquiátricos como:
- Transtornos afetivos
- Transtorno de ansiedade
- Transtorno de personalidade
- Esquizofrenia
- Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade

Tratamento Farmacológico da Dependência de Cocaína


A farmacoterapia não é para todos os usuários de cocaína e deve ser reservada
para aqueles cujos sintomas respondem às medicações. Os medicamentos adjuntos
utilizados na dependência da cocaína são:
- Agentes dopaminérgicos
- Agentes antidepressivos
- Agentes antipsicóticos
- Agentes antiepilépticos
- Internações clínicas

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ÁLCOOL

Visão Geral
O uso do álcool é detectado na virada do século XVIII para o século XIX após a
Revolução Industrial. A produção do álcool a que o homem estava acostumado até o
século XVIII era artesanal e predominavam, portanto. As bebidas fermoíadas (vinho e
alguns tipos de cervejas). Com a Revolução Industrial Inglesa, passou-se a produzi-las
em grandes quantidades, que diminuiu seu custo. Além disso, desenvolveu o processo de
destilação dos fermentados. Técnicas capaz de aumentar muito as contrações alcoólicas.
Portanto todas essas mudanças permitiram que um número muito maior de pessoas
passasse a consumir álcool com freqüência .Também é caracterizada a dependência do
tabaco como sendo determinada por processos biológicos, comportamentais, psicológicos
e socioculturais.

Efeitos do Uso Agudo


As terapias somáticas incluem terapia de reposição de nicotina, uso de medicação
que imitam os efeitos da nicotina, uso de antagonistas (para bloquear os efeitos
reforçadores da nicotina) e outras medicações, sendo que, as duas primeiras são as
principais formas de tratamento desse grupo.
- Absorção, excreção e metabolismo do álcool.
O álcool ingerido via diretamente para o estômago, onde uma pequena quantidade é
absorvida. A maior parte vai para o estômago para o intestino delgado, onde também será
absorvido. Em ambos os casos (estômago e intestino delgado), o álcool atravessa as
“paredes” e alcança a corrente sanguínea.
Na corrente sanguínea é distribuído por todo o corpo. É solúvel tanto em água
quanto em gordura e, por isso, acumula-se nos tecidos com maiores quantidades de água
e pode atravessar a placenta até a circulação fetal. Órgãos com alta perfusão (cérebro,
pulmões e rins) apresentam níveis alcoólicos mais elevados que os tecidos com pouco
fluxo sanguíneo (músculos). O tempo necessário para atingir a concentração máxima no
sangue varia de 30 a 90 minutos, dependendo de determinado fatores. Concentrações
alcoólicas mais elevadas e a presença do dióxido de carbono e bicabornato em bebida
efervescente aumentam a absorção.
Se o estômago estiver vazio, a absorção é mais rápida, se estiver cheio, é mais
lenta, mas em ambos os casos, todo o álcool será absorvido.
Quando o álcool sofre o processo de metabolismo no corpo humano que se converte
em substância tóxica, a primeira passagem para este processo e no estômago, mas de 90
a 98% do álcool e metabolizado no fígado, que tem uma capacidade limitada
(metabolizada cerca de paz por hora).
Isso significa que até que o fígado tenha tempo de metabolizar toda a quantidade
ingerida, o álcool ficará circulando por todo o corpo, inclusive pelo cérebro.
O caminho mais importante de metabolização do álcool no fígado é a oxidação. O
álcool etílico é oxidado em acetaldeído, pela ação da enzima álcool desidrogenase (H).

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O aldeído, por sua vez, é oxidado em acetato pela enzima aldeído desidrogenase
(ADH). O acetato transforma-se em dióxido de carbono e água, que são liberados para a
circulação.

Efeitos Farmacológicos do Álcool nos Diversos Aparelhos


- Sistema cardiovascular
Os efeitos do álcool sobre a circulação são pequenos, doses moderadas causam um
pequeno aumento temporário no ritmo cardíaco e vasodilatação, especialmente na pele,
provocando rubor facial. A pressão arterial, o débito cardíaco e a força de contratilidade
cardíaca não são significamente afetados por quantidades moderadas de álcool, sendo
que grandes doses provocam um aumento do fluxo sanguíneo cerebral.

- Temperatura corpórea
Quantidades moderadas de álcool podem levar a vasodilatação periférica e
sudorese. A sudorese aumentada pode, por sua vez levar à perda de calor e a uma queda
na temperatura corporal.

- Trato gastrintestinal
O álcool pode estimular a secreção gástrica pela excitação reflexa dos terminais
sensoriais na mucosa bucal e gástrica, e por uma ação indireta sobre o estômago,
possivelmente envolvendo a liberação de gastrina. Bebidas com alta concentração
alcoólica causam inflamação do revestimento do estômago e produzem uma gastrite
erosiva. A intoxicação alcoólica causa a parada das funções gastrintestinais secretoras e
motoras.

- Rins
O álcool diminui a secreção de um hormônio antidiurético. O efeito diurético
provocado é proporcional à concentração de álcool no sangue, o álcool não causa
prejuízos à estrutura ou funcionamento dos rins.

- Respiração
Quantidades moderadas de álcool podem estimular ou deprimir a respiração, sendo
que, grandes quantidades produzem depressão respiratória.

- Sistema nervoso central


Os efeitos do álcool sobre o sistema nervoso central (SNC) dependem da dose e do
ritmo de aumento da concentração alcoólica no sangue.
 30 mg% afetam a habilidade de dirigir veículos
 50 a 100 mg% provocam mudanças de humor e comportamento
 150 a 300 mg% geram perda do autocontrole (coordenação motora e da fala)
 300 mg% evidencia intoxicação
 Indivíduos não tolerantes com concentração alcoólica de 300 ou 500 mg%
estarão gravemente intoxicados (intoxicação alcoólica aguda), podendo
seguir-se estupor, hipotermia, hipoglicemia, convulsões, depressão dos
reflexos, depressão respiratória, hipotensão, coma e morte.

Efeitos Psicoativos do Álcool que Favorece a Dependência

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- Redução da ansiedade
O álcool é um potente agente ansidrístico e este efeito parece ser amplamente
mediado por sua ação sobre o receptor gaba-a. Agudamente, o álcool intensifica a ação
do ácido gama-aminobutírico (Gaba), o neurotransmissor inibitório mais importante do
SNC.
O álcool também tem uma ação anestésica e pode induzir amnésia, a qual ocorre
em concentração subanestésica da droga.
Algumas pessoas bebem para “esquecer” seus problemas, mas, o que ocorre, é
uma certa tendência a aumentar a rigidez na forma de pensar e intensificar os
sentimentos pré-existentes. Assim, uma pessoa triste ficaria ainda mais triste. O álcool faz
com que os processos mentais ocorram na forma “preto ou branco”, ou a pessoa está
muito alegre, ou muito triste, ou muito dócil, ou muito agressiva.

As Doenças Hepáticas Alcoólicas


Os danos a fígado constituem as conseqüências mais sérias do consumo excessivo
de álcool. Mudanças irreversíveis tanto na estrutura quanto no funcionamento do fígado
são comuns. A maioria das mortes (75%). Atribuídas ao alcoolismo é causada por cirrose.

I - Fígado gorduroso: o fígado aumenta a produção de gorduras e o tamanho do


mesmo, podendo apresentar queixas inespecíficas de mal estar, cansaço, náuseas ou
testes anormais de função hepática, ocasionalmente pode levar à icterícia obstrutiva.

II - Hepatite alcoólica: inflamação crônica do fígado, cujos sintomas são perda de


apetite, dores abdominais, náuseas, perda de peso. As graves tem 60 % de probabilidade
de levar à morte.

III - Cirrose alcoólica: ocorre quando o tecido hepático se enche de cicatrizes,


prejudicando a arquitetura normal do fígado, podendo levar à insuficiência hepática ou a
uma compressão dos vasos sanguíneos. Uma vez que a cirrose começa, é irreversível.

Doenças Cardiovasculares
A) Arritmias: perturbação do ritmo cardíaco normal.

B) Hipertensão: o álcool é o segundo maior fator de risco (não genérico)

C) Doença vascular cerebral ou derrame

D) Doença cardíaca coronariana

E) Miocardiopatia alcoólica: doença do músculo do coração, caracterizada por um


coração aumentado e disfunsão na contratilidade.

Efeitos do Uso Crônico


Com o uso prolongado do álcool, várias áreas físicas e psicológicas são afetadas:
- Doenças respiratórias
- Transtornos endócrinos
- Transtornos gastroenterológicos

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- Transtorno metabólico
- Transtorno nos sistemas nervoso central e periférico
- Síndrome fetal alcoólica
- Doenças de pele
- Supressão do sistema imunológico
- Alteração do funcionamento sexual
- Câncer

Complicações Psiquiátricas
- Experiência alucinatória
O início da evolução delirante acontece quando paciente experimenta a súbita e
rapidamente, perturbação na percepção. O grau do insight é característico imediatamente
quando o paciente desconfirma a realidade da alucinação. É um estado confusional
tóxico, de curta duração, que habitualmente ocorre com o resultado da redução da
ingestão de álcool em indivíduos dependentes com longa história de uso.
As complicações de abstinência alcoólicas classifica em:
- Alucinações vívidas
- Acentuado tremor
- Obnulação da consciência e confusão
- Estes sintomas normalmente ocorrem de 24 a 150 horas após a última ingestão.

- Convulsões
Ocorrem em cerca de 5 a 15% dos indivíduos dependentes de álcool,
aproximadamente de 7 a 48 horas após a cessação da ingestão. As convulsões são
generalizadas, tonicoclônicas (grande mal), estão associadas a perda de consciência,
seguidas por movimentos convulsivos.

- Alucinoses alcoólica
Alucinação mais tipicamente auditiva que ocorre após um período de pesado
consumo alcoólico. As alucinações são vividas de início agudo que incluem sons de
“chiques”, rugidos, baladas de sinos, cânticos e vozes. Os pacientes expressam medo,
ansiedade e agitação que são decorrentes dessas experiências.

- Transtorno psicótico delirante induzido pelo álcool


- Intoxicação patológica
- Blackouts alcoólicos (episódios de Amnésia induzidos)
- Depressão
- Suicídio
- Ciúme patológico
- Hipomania
- Ansiedade
- Transtorno de personalidade
- Transtornos alimentares
- esquizofrenia

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TABACO

Visão Geral
A dependência da Nicotina tem sido menos estudada que a dependência do álcool e
outras drogas, apesar de ser apontada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Como
o problema da saúde pública número um e a maior causa de morbidade e mortalidade em
muitos países, no Brasil, estima-se que mais de 200 mil pessoas morrem por ano devido
ao fumo. Os riscos de saúde associados já haviam sido reconhecidos desde a década de
1950. Por muitos anos, discutiu-se o uso de tabaco era ou não uma dependência. Uma
parte importante de profissionais de saúde e, principalmente, a indústria de fumo, relutou
em aceitar a caracterização da nicotina como droga causadora de dependência. Também

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é caracterizado a dependência do tabaco como sendo determinada por processos
biológicos, comportamentais, psicológicos e socioculturais.
Apesar da fumaça do cigarro conter mais de 4.000 substâncias (60 delas são
cancerígenas), o fumante busca especificamente a nicotina para obter o prazer e o bem-
estar. Fumar é um hábito que começa na adolescência e não devido aos efeitos
psicoativos da nicotina.

Vias de Administração
A nicotina é principalmente absorvida pelos pulmões, na forma de cigarros. Mas
também pode ser absorvida pela mucosa bucal: como no hábito de mascar rapé úmido ou
tabaco, charutos e cachimbos oferecem absorção tanto pelos pulmões quanto pela
mucosa bucal.

Efeitos do Uso Agudo


Absorção, Excreção e Metabolismo
A mucosa nasal e bucal da pele e do trato gastrintestinal, pelos pulmões a absorção
é de 90%. Pelas mucosas, chega a 20 a 50%. A nicotina absorvida dos pulmões é levada
ao coração e dali é rapidamente distribuída por todo corpo. Uma boa parte do sangue
contendo nicotina via diretamente para o cérebro e leva cerca de 7 segundos para
alcança-lo. Depois de aproximadamente 30 minutos, a nicotina deixa o cérebro e se
concentra no fígado, rins, glândulas salivares e estômago. A nicotina cruza muitas
barreiras, inclusive a placenta, e pode ser encontrada no suor, saliva e no leite materno.
A metabolização da nicotina é feita no fígado. Lá é transformada em dois
metabólitos inativos, sendo a cotinina o principal deles (usado como coadjuvante no
tratamento farmacológico do tabagismo). A meia-vida da nicotina é variável: estima-se
que seja entre 30 minutos e 2 horas.

Efeitos Farmacológicos
A ingestão inicial da nicotina é geralmente uma experiência aversiva, com náuseas,
dores de cabeça e um mal estar generalizado, mas a tolerância a esses efeitos
desenvolve-se rapidamente.
A nicotina pode estimular, deprimir ou pertubar o sistema nervoso central,
dependendo da dose e da freqüência de utilização. Estas ações são medidas pelos
receptores nicotínicos, que estão distribuídos por todo o cérebro e pela coluna vertebral.
A ação aguda da nicotina no sistema nervoso central envolve vários
neurotransmissores.
 Liberação de dopamina, gerando euforia
 Liberação de noradrenalina, gerando aumento da freqüência cardíaca,
náuseas, vômitos, piloereção e melhora da atenção
 Liberação da serotonina, gerando ansiedade
 Liberação da acetilcolina, gerando melhora da memória

Efeitos Psicoativos que favorecem a Dependência


A nicotina promove um rápido e pequeno aumento do estado de alerta, melhorando
a atenção, a concentração e a memória, ou seja, fumar cigarro de tabaco produz um
efeito estimulante rápido, semelhante àquele descrito pelos usuários de cocaína / crack. A
sensação de relaxamento e calma descrita pela maioria dos usuários tem sido atribuída à

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inibição de sintomas desagradáveis da síndrome de abstinência em vários estudos. Além
disso, diminui o apetite.

Efeitos do Uso crônico


- Complicações físicas

Doenças Cardiovasculares
 Infário de miocárdio: uso de cigarro representa o maior dos fatores de risco;
 Arteriosclerose: o uso de cigarros é o maior fator de risco
 Aneurisma da aorta
 Ataques de angina
 Doenças coronarianas

Cânceres
 Pulmão: de 75 a 85% dos cânceres de pulmão decorrem de uso de cigarros.
O câncer de pulmão é o tipo de câncer que mais faz vítimas.
 Laringe
 Cavidade uterina
 Esôfago
 Bexiga
 Pâncreas
 Rins

Doenças Pulmonares
 Enfisema
 Bronquite crônica
 Infecções respiratórias

Efeitos sobre o Feto


Fumantes têm riscos maiores de:
 Aborto espontâneo
 Crescimento fetal defeituoso
 Nascimento prematuro
 Morte do neonatal
 Menor peso corpóreo
 Menor circunferência craniana
 Síndrome de morte repentina

Complicações Psiquiátricas
O uso de tabaco é comum entre pacientes psiquiátricos e é mais prevalente entre
pacientes depressivos e psicóticos.
Fumantes com história passada ou presente de ansiedade, depressão ou
esquizofrenia terão menor probabilidade de parar de fumar e isso pode ser em
decorrência de vários fatores:

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- Dependência e sintomas de abstinência aumentados
- Carência de suporte social
- Menores habilidades de enfrentamento.
O desejo de consumo pode ser desencadeado por estímulos ambientais
relativamente independentes do estado ou da necessidade fisiológica. É por isso que o
indivíduo pode ter um forte desejo de fumar anos após a interrupção do consumo.

Princípios Gerais de Tratamento


A dependência da nicotina é um importante fator para a manutenção do hábito de
fumar. No entanto, outros fatores contribuem para a persistência do uso.

Síndrome de Abstinência
Principais sinais e sintomas da síndrome de abstinência da nicotina.

Psicológicos:
 Humor disfórico ou deprimido
 Insônia e sonolência diurna
 Irritabilidade, frustração ou raiva
 Ansiedade
 Dificuldade para se concentrar e manter a atenção
 Inquietação
 Fissura

Biológicos:
 Freqüência cardíaca diminuída
 Pressão arterial diminuída
 Aumento do apetite
 Ganho de peso
 Falta de coordenação motora e tremores
De uma maneira geral, os tratamentos para dependência de nicotina podem ser
agrupados em três tipos:
- Psicossociais
- Somáticos
- Terapia combinada (Psicossocial e somática)

Terapias Psicossociais
O objetivo da terapia comportamental é mudar as cognições anteriores a respeito do
fumo, reforçar o não fumar e ensinar habilidades para evitar o fumo em situações de risco.
Trabalha com técnicas de treinamento de habilidades, prevenção de recaída, controle de
estímulos, redução de nicotina, relaxamento e feedback fisiológico.

Terapias Somáticas
As terapias somáticas incluem terapia de reposição de nicotina, uso de medicação
que imitam os efeitos da nicotina, uso de antagonistas (para bloquear os efeitos
reforçadores da nicotina) e outras medicações, sendo que, as duas primeiras são as
principais formas de tratamento desse grupo.

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Terapia Combinada
O objetivo da terapia combinada é oferecer tratamento para a síndrome de
abstinência e, concomitantemente, desenvolver habilidades de não fumar.
O tratamento psicossocial não é essencial para obter resultados com os tratamentos
somáticos. No entanto é importante notar que a terapia combinada aumenta
consideravelmente o número de pessoas que param de fumar, quando comparada aos
tratamentos isolados.
Assim, a combinação da terapia psicossocial e somática é o tratamento
recomendado.

Terapia de Reposição de Nicotina


O objetivo da terapia de reposição de nicotina é o alivio dos sintomas de abstinência,
permitindo ao paciente concentrar-se nos fatores comportamentais e condicionantes. Esta
reposição é feita através de adesivos transdérmicos, gomas de mascar. Esse tipo de
administração de nicotina deve ser gradualmente reduzido de forma a evitar que o
paciente sofra os sintomas de abstinência.
- Bupropiona = conhecido comozyban
- Nortriptilina = conhecido como pamelor
Ambos são antidepressivos na ação da nicotina, agindo como antinicotínica. Nas
regiões do prazer (sistema de recompensa cerebral).

Capítulo 1

A igualdade de todos os homens, a liberdade e a fraternidade, como princípios


cardeais da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
A evolução de idéias, com relação a esses princípios, posteriormente
à adoção do documento.

1. Igualdade, liberdade e fraternidade: valores fundamentais da Declaração


Universal dos Direitos Humanos.

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Os artigos I e II da Declaração Universal dos Direitos Humanos merecem detido
exame porque estabelecem princípios que penetram o conjunto da Carta Universal de
Direitos.
Coloquemos estes artigos no pórtico de presente capítulo:

Artigo I.
Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de
razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de
freternidade.

Artigo II.
1- Todo homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidas
nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua,
religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza,
nascimento, ou qualquer outra condição.
2- Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política, jurídica
ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de
um território independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer
outra limitação de soberania.

2. As Cartas de Direito Humanos posteriores á Declaração Universal:


contribuição que deram para o avanço de idéias, no que refere á matéria
compreendida neste Capítulo.

Diversas Cartas de Diretos Humanos , como já assinalamos, são posteriores á


“Declaração Universal dos Direitos Humanos”: a Carta Africana dos Direitos
Humanos e dos Povos; a Declaração Islâmica Universal dos Direitos do Homem; a
Declaração Universal dos Direitos dos Povos; a Declaração Americana de Direitos e
Devedores do Homem; a Declaração Solene dos Povos Indígenas do Mundo.

Veremos, nos itens que seguem, as idéias fundamentais dessas Cartas em cotejo com
os artigos I e II da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Tentaremos avaliar
se essas Cartas contribuíram para e evolução de idéias, no que se refere a esses
pontos.

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3. A Carta Africana em face do artigo I da Declaração Universal dos Direitos
Humanos.

A “Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos” (1981) agasalha e mesmo
supera os princípios contidos no artigo I da “ Declaração Universal dos Direitos
Humanos”.

O artigo 5 dessa Carta declara que todo indivíduo tem direito ao respeito da
dignidade inerente à pessoa humana.
Tem direito, outrossim, ao reconhecimento de sua personalidade jurídica.
Todas as formas de exploração de degradação do homem são proibidas.
O artigo 4, na sua primeira frase, diz que a pessoa do homem são proibidas.
O espírito de fraternidade é referido pelo artigo I da Declaração Universal como valor
que deve reger as relações entre homens.

O artigo 29, parágrafo 7, da Carta Africana realça com mais amplitude e vigor a
fraternidade. Afirma que toda pessoa tem o dever de preservar e fortalecer os valores
culturais positivos africanos em suas relações com outros membros da sociedade,
num espírito de tolerância, diálogo e comunhão. Diz também ser dever de todos
contribuir para promoção do bem-estar moral da sociedade.

O artigo 28 diz que toda pessoa tem o dever de respeitar e considerar seus
semelhantes sem qualquer discriminação. Acrescenta que deve manter com os
semelhantes relações que permitam promover, salvaguardar e reforçar o respeito e a
tolerância recíproca.

O artigo I, como todos os que seguem, da Declaração Universal dos Direitos


Humanos, fala em “direitos do individuo”.

A tônica da “Declaração Universal” é predominantemente individualista. O


individualismo é temperado, de maneira indireta, por artigos nos quais há um teor
coletivo e pelos artigos que se referem a direitos econômicos, sócias, culturais e
políticos.

O teor coletivo de certos artigos decorre, não da enunciação a partir de uma


percepção do coletivo, mas das conseqüências coletivas que advêm desses artigos. É
o que ocorre nos casos seguintes: condenação de discriminações que vitimam

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coletividade humanas (artigo 2); proscrição de instituições que, historicamente,
submeteram a situações de injustiça grupos humanos e não pessoas isoladas (artigo
4); recusa de discriminações de raça, nacionalidade, religião, também de cunho mais
coletivo que individual (artigo 16); preservação da manifestação pública e coletiva de
crença e da propaganda religiosa (artigo 18), da liberdade de recebimento e
transmissão de informações e idéias (artigo 19), da liberdade de reunião e associação
(artigo 20), que são direitos de índole mais coletiva que privada.

Entretanto, mesmo quando se refere a direitos dos quais se inferem conseqüências


coletivas, o tratamento teórico parte de uma visão filosófica individualista.

Contrastando com essa visão filosófica individualista, a “Carta Africana dos Direitos
do Homem e dos Povos” é marcada por uma constante valorização do coletivo, do
comunitário, do social.
O artigo 18, 2, ao estatuir que o Estado tem o dever de proteger a família, justiça esse
dever de proteção como decorrência de ser a família a guardiã dos valores
tradicionais reconhecidos pela “comunidade”.

O artigo 27, parágrafos 1 e 2, afirma que toda pessoa tem deveres para com sua
família, a “sociedade”, o Estado, “outras coletividades legalmente reconhecidas” e a
comunidade internacional. Diz que os direitos e liberdades de cada pessoa devem ser
exercidos com o devido respeito ao direito das demais e tendo em vista o “interesse
comum”.

O artigo 29, nos seus diversos parágrafos, diz que toda pessoa tem o dever de
preservar o desenvolvimento harmonioso da família e trabalhar por sua coesão.
Prescreve o dever de respeito aos pais e de assistência a eles em caso de necessidade.
Estabelece como dever da pessoa o “serviço à comunidade nacional”, em favor da
qual cada um deve colocar suas capacidades físicas e intelectuais. Determina que toda
pessoa preserve e fortaleça a “solidariedade social e nacional” e que trabalhe, até o
máximo de sua capacidade e competência, “no interesse da sociedade”, em como em
favor da unidade africana.

A “Declaração Universal” omite uma explícita referência aos “direitos dos povos”. A
referência indireta a esses direitos pode ser encontrada no artigo 28, que menciona o
direito que todo homem tem a uma ordem social e internacional que permita desfrutar
das liberdades enunciadas pela Declaração. Mais aí o “direito individual do homem”
é o motor que exige uma ordem social e internacional determinada.

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Em contraste com essa referência apenas indireta aos direitos dos povos, a “Carta
Africana” acolhe, com vigor, a tese de serem os Povos, e não apenas os indivíduos,
“sujeito de direito”. Essa posição filosófico- jurídica começa pela própria designação
do documento: “Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos”.

O valor e a pertinência da “Declaração Universal” são expressamente ressalvados no


preâmbulo da “Carta Africana”, como já tivemos oportunidade de mostrar.
Outrossim, as garantias da “Declaração Universal” foram endossadas pela “Carta
Africana”, como já estamos começando a verificar.

Entretanto, em se tratando de povos que foram, historicamente, vítimas do


colonialismo e do neocolonialismo, não poderiam, de maneira alguma, adotar a rota
meramente liberal da “Declaração Universal dos Direitos Humanos”.

A idéia da “direitos dos povos” é a matriz fundamental na arquitetura da “Declaração


Africana”.

Mas os “direitos dos povos”, que a Carta Africana realça, e os “direitos da pessoa”,
que alimentam a diretriz filosófico –jurídica da “Declaração Universal”, e não são
ideais opostos. Muito pelo contrário: a “Carta Africana” reconhece que a proteção
nacional e internacional dos “direitos humanos” é essencial. Esses direitos resultam
dos atributos específicos dos seres humanos, enquanto seres humanos.Contudo, só o
respeito aos “direitos dos povos” garante, realmente, a efetividade dos “direitos
humanos”.

Estabelece assim a “Carta Africana” uma relação dialética entre “direitos humanos” e
“direitos dos povos”.

Os direitos dos povos são enunciados em nada menos que 6 artigos e seus respectivos
parágrafos, a começar do artigo 19. Esse conjunto de artigos e parágrafos, em síntese,
afirma que:
todos os povos são iguais, gozam da mesma dignidade, têm os mesmos direitos, não
se justificando em hipótese alguma a dominação de um povo sobre outro;

todo povo tem direito á existência;

todo povo tem direito imprescritível e inalienável á autodeterminação para livremente


escolher seu estatuto político e perseguir seu desenvolvimento para livremente
escolher seu estatuto político e perseguir seu desenvolvimento econômico e social de
acordo com o caminho que tenha escolhido;

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todos os povos colonizados ou oprimidos têm direito de libertar-se dos laços de
dominação recorrendo a todos os meios reconhecidos pela comunidade internacional;

todos os povos têm o direito de ser assistido pelos Estados que subscrevem a “Carta
Africana”, nas suas lutas de libertação contra a dominação estrangeira, quer se trate
de dominação política, econômica ou cultural;

todos os povos têm o direito de dispor de suas riquezas e recursos naturais, de acordo
com interesse exclusivo das populações: nenhuma circunstância justifica a privação
desse direito;

os povos espoliados de suas riquezas têm direito de dispor de suas riquezas e recursos
naturais, de acordo com o interesse exclusivo das populações: nenhuma circunstância
justifica a privação desse direito;

os povos espoliados de suas riquezas têm direito a legitima recuperação delas e a uma
adequada indenização;

a livre disposição da riqueza e dos recursos naturais será exercida pelos povos, sem
prejuízo da obrigação de promover a cooperação econômica internacional, baseada
no respeito mútuo, no intercâmbio eqüitativo e nos princípios do Direito
Internacional;

os Estados-Partes da “Carta” comprometem-se, tanto individual quanto


coletivamente, a exercer o direito à livre disposição de suas riquezas e de seus
recursos naturais com o propósito de fortalecer a unidade e a solidariedade africana;

os Estados-Partes da “Carta Africana” comprometem-se a eliminar todas as formas de


exploração econômica estrangeira, especialmente aquela praticada pelos monopólios
internacionais, a fim de permitir à população de cada país usufruir plenamente os
benefícios derivados de seus recursos nacionais;

todos os povos têm direito a seu desenvolvimento econômico, social e cultural, com o
estrito respeito a sua liberdade e identidade, bem como ao desfrute igualitário do
patrimônio comum da Humanidade;

todos os povos têm direito à paz e à segurança nacional e internacional: os princípios


de solidariedade e relações amistosas implicitamente afirmados pela Carta das

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Nações Unidas e reafirmados pela Carta da Organização da Unidade Africana
deverão reger as relações entre os Estados;

todos os povos têm direito a um meio ambiente satisfatório que favoreça seu
desenvolvimento.

4. A Carta Africana e o artigo 2 da Declaração Universal.

O artigo 2 da “Declaração Africana” (também chamada, como já dissemos, “Carta de


Banjul”) acolhe integralmente o artigo II, parágrafo 1, da “Declaração Universal dos
Direitos Humanos”.

Diz o dispositivo citado da “Declaração Africana” que toda pessoa terá direito ao
exercício dos direitos e liberdades reconhecidos e garantidos pela Carta, sem
distinção alguma, tais como raça, etnia, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou
de qualquer natureza, origem nacional ou social, fortuna, nascimento ou qualquer
outra situação.

Além disso, o artigo 12, parágrafo 5, repudia uma forma cruel de racismo,
preconceito e ódio. Estabelece que a expulsão coletiva de estrangeiros é proibida.
Define a expulsão coletiva como aquela dirigida contra grupos nacionais, raciais,
étnicos ou religiosos.

No preâmbulo, a “Carta de Banjul” já afirmara que os Estados subscritores do


documento obrigavam-se a eliminar todas as formas de discriminação, especialmente
aquelas baseadas na raça no grupo étnico, na cor, no sexo, no idioma, na religião e
nas opiniões políticas.
Assim, a “Declaração Africana dos Direitos Humanos e dos Povos” não apenas
recepcionou o artigo II da “Declaração Universal dos Direitos Humanos”. Na
verdade, ultrapassou a “Declaração Universal”. Adotou o repúdio expresso aos
holocaustos raciais e religiosos e às discriminações que estavam apenas implícitas na
cláusula genérica – “ou qualquer outra condição” – que fecha o artigo II, parágrafo 1,
da “Declaração Universal”.

A “Declaração Africana” omite inteiramente uma disposição semelhante à artigo II,


parágrafo 2, da “Declaração Universal”. Esta omissão é coerente com a posição da
Carta, no que se refere à situação prevista nesse parágrafo.

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Se a “Carta de Banjul” repudia com veemência a dominação de um povo sobre outro,
seria estranho que dedicasse um artigo à afirmação dos direitos da pessoa humana
quando esta pertença a um país sujeito á dominação. Mas o reconhecimento desses
direitos é implícito. Não tolerando a dominação em si, afirmando como injusto o
colonialismo e o neocolonialismo, pratica crime sobre crime, - pela ótica da Carta, - o
colonizador ou espoliador que, além de submeter todo um povo a um regime
opressor, tripudia sobre as pessoas, individualmente consideradas, do povo submetido
a seu jugo.

Há um outro ponto que merece destaque, na Carta Africana. Não serve apenas para
ser comparado ao artigo I da Declaração Universal. Tem ligação com o conjunto
dessa Declaração.
É que a “Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos”, já no seu próprio texto,
abrigou uma Segunda Parte (artigo 30 e seguintes) para cuidar das “Medidas de
Salva-guarda”.

Dentre essas “Medidas de Salva-guarda”, foi criada uma “Comissão Africana de


Direitos do Homem e dos Povos” que dispõe de largas prerrogativas.
Essa Comissão pode receber denúncias de violações, não apenas por partes de
Estados, mas mesmo de indivíduos ou grupos de indivíduos (Artigo 55 e 56)
É fácil compreender o expressivo alcance dessa disposição.

A “Declaração Universal dos Direitos Humanos” não seguiu caminho semelhante.


Somente Pactos Posteriores à Declaração procuraram salvaguardar os Direitos
afirmados por esta.

O artigo II, letra “a”, da Declaração Islâmica diz que todo homem nasce livre.
Nenhuma restrição deve ser oposta a seu direito á liberdade, salvo sob a autoridade da
lei e através de sua aplicação normal.
A letra “b” do mesmo artigo acrescenta que todo indivíduo e todo povo tem o direito
inalienável á liberdade sob todas as formas – física, cultural, econômica e política.
Deve estar habilitado a lutar por todos os meios disponíveis contra toda violação ou
ab-rogação desse direito. Todo indivíduo ou povo oprimido tem direito ao apoio
legítimo de outros indivíduos e/ou povos nesta luta.
O artigo III, letra “a”, na sua primeira frase, estabelece que todas as pessoas são
iguais diante da lei.
O artigo IV, letra “c”, diz que toda pessoa tem o direito e o dever de defender os
direitos do próximo e os direitos da comunidade em geral.

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No preâmbulo, um dos considerandos diz que os direitos do homem, ordenados pela
Lei Divina, têm por objeto conferir dignidade e honra á condição humana.
Também o preâmbulo (letra “g”, n. 1) afirma que, no quadro de uma ordem Islâmica,
todos os seres são humanamente iguais e ninguém goza de qualquer privilégio.
As restrições à liberdade sob a autoridade de lei, previstas na Declaração Islâmica,
são também admitidas pela Declaração Universal, embora não sejam mencionadas no
artigo I. Assim é que, dentre outras hipóteses:
o artigo IX permite a prisão, desde que não seja arbitrária;

um tribunal pode pronunciar a culpabilidade de uma pessoa, desde que o faça em


julgamento público e assegurado o direito de defesa (artigo XI).

Por todas estas comparações verifica-se que o artigo I da Declaração Universal dos
Direitos Humanos é integralmente acolhido pela Declaração Islâmica Universal dos
Direitos do Homem.
Sobreponho-se mesmo à Declaração Universal,a Declaração Islâmica, como a
Declaração.

Além disso, o artigo 12, parágrafo 5, repudia uma forma cruel de racismo,
preconceito e ódio. Estabelece que a expulsão coletiva de estrangeiros é proibida.
Define a expulsão coletiva como aquela dirigida contra grupos nacionais, raciais,
étnicos ou religiosos.

No preâmbulo, a "Carta de Banjul" já afirmara que os Estados subscritores do


documento obrigavam-se a eliminar todas as formas de discriminação, especialmente
aquelas baseadas na raça, no grupo étnico, na cor, no sexo, no idioma, na religião e
nas opiniões políticas.
Assim, a "Declaração Africana dos Direitos Humanos e dos Povos" não apenas
recepcionou o artigo 11 da "Declaração Universal dos Direitos Humanos". Na
verdade, ultrapassou a "Declaração Universal". Adotou o repúdio expresso aos
holocaustos raciais e religiosos e às discriminações
que estavam apenas implícitas na cláusula genérica - "ou qualquer outra condição" -
que fecha o artigo 11, parágrafo 1, da "Declaração Universal".
A "DeClaração Africana" omite inteiramente uma disposição semelhante à do artigo
11, parágrafo 2, da "Declaração Universal". Esta omissão é coerente com a posição
da Carta, no que se refere à situação prevista nesse parágrafo.
Se a "Carta de Banjul" repudia com veemência a dominação de um povo sobre outro,
seria estranho que &dicasse um artigo à afirmação dos direitos da pessoa humana
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quando esta pertença a um país sujeito à dominação. Mas o reconhecimento desses
direitos é implícito. Não tolerando a dominação em si, afirmando como injusto o
colonialismo e o neocolonialismo, pratica crime sobre crime, - pela ótica da Carta, - o
colonizador ou espoliador que, além de submeter todo um povo a um regime
opressor, tripudia sobre as pessoas, individualmente consideradas, do povo submetido
a seu Jugo.

5. A Carta Africana e a salvaguarda dos princípios que consagrou.


Há um outro ponto que merece destaque, na Carta Africana. Não serve apenas para
ser comparado ao artigo I da Declaração Universal. Tem ligâção com o conjunto
dessa Declaração.
É que a "Carta Africana dos Direitos Humanos é dos Povos", já no seu próprio texto,
abrigou uma Segunda Parte (artigo 30 e seguintes) para cuidar das "Medidas de
Salvaguarda" .
Dentre essas "Medidas de Salvaguarda", foi criada uma "Comissão Africana de
Direitos do Homem e dos Povos" que dispõe de largas prerrogativas.
Essa Comissão pode receber denúncias de violações, não apenas por parte de
Estados, mas mesmo de indivíduos ou grupos de indivíduos (Artigos 55 e 56).
É fácil compreender o expressivo alcance dessa disposição.

A "Declaração Universal dos Direitos Humanos" não seguiu caminho semelhante.


Somente Pactos Posteriores à Declaração procuraram salvaguardar os Direitos
afirmados por esta.

6. A Declaração Islâmica Universal dos Direitos do Homem e o artigo I da


Declaração Universal dos Direitos Humanos. .
o artigo 11, letra "a", da Declaração Islâmica diz que todo homem nasce livre.
Nenhuma restrição deve ser oposta a seu direito à liberdade, salvo sob a autoridade da
lei e através de sua aplicação normal. .
A letra "b" do mesmo artigo acrescenta que todo indivíduo e todo povo tem o direito
inalienável à liberdade sob todas as formas - física, cultural, econômica e política.
Deve estar habilitado a lutar por todos os meios disponíveis contra toda violação ou
ab-rogação desse direito. Todo indivíduo ou povo oprimido tem direito ao apoio
legítimo de outros indivíduos e/ou povos nesta luta.

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O artigo IH, letra "a", na sua primeira frase, estabele
ce que todas as pessoas são iguais diante da lei.
O artigo IV, letra "c", diz que toda pessoa tem o direito e o dever de defender os
direitos do próximo e os direitos da comunidade em geral.
No preâmbulo, um dos considerandos diz que os direitos do homem, ordenados pela
Lei Divina, têm por objeto conferir dignidade e honra à condição humana.
Também o preâmbulo (letra "g", n. 1) afirma que, no quadro de uma ordem islâmica,
todos os seres são humanamente iguais e ninguém goza de qualquer privilégio.
As restrições à liberdade sob a autoridade da lei, previstas na Declaração Islâmica,
são;também admitidas pela Declaração Universal, embora não sejam mencionadas no
artigo I. Assim é que, dentre outras hipóteses:
o artigo IX permite a prisão, desde que não seja arbitrária;
um tribunal pode pronunciar a culpabilidade de uma pessoa, desde que o faça em
julgamento público e assegurado o direito de defesa (artigo XI).
Por todas estas comparações verifica-se que o artigo I da Declaração Universal dos
Direitos Humanos é integralmente acolhido pela Declaração Islâmica Universal dos
Direitos do Homem.
Sobrepondo-se mesmo à Declaração Universal, a Declaração Islâmica, como a
Declaração Africana, reporta-se aos direitos dos povos.
A Declaração Islâmica coloca, lado a lado, num mesmo artigo, o direito inalienável
de todo indivíduo e de todo povo à liberdade. Na concepção islâmica, a liberdade do
indivíduo e a liberdade do povo de que ele faz parte são duas faces de uma só moeda.

7. O artigo 11 da Declaração Universal em face da Declaração Islâmica.


O artigo IH, letra "c", da Declaração Islâmica estabelece que ninguém deve sofrer
qualquer discriminação por motivo de crença religiosa, cor, raça, origem, sexo ol.llín-
gua. Particularizando as violências possíveis, a Declaração Islâmica rejeita
expressamente que se recuse a alguém a possibilidade de trabalhar ou que se exponha
quem quer que seja a um risco físico maior, em decorrência de discriminações.
Embora a Declaração Islâmica não tenha enumerado uma lista de discriminações tão
exaustiva quanto a da Declaração Universal, conclui-se que acolheu o princípio
proibitivo das discriminações:
ao estabelecer que todas as pessoas são iguais perante a lei e têm direito a iguais
possibilidades e a igual proteção da lei (artigo IH, letra "a");
ao dizer, no preâmbulo, que é crença dos muçulmanos ser sua obrIgação estabelecer
uma ordem islâmica na qual todos os seres sejam humanamente iguais e ninguém
goze de privilégio, nem sofra desvantagem ou discriminação como simples
decorrência de sua raça, cor, sexo, origem ou língua (letra "g", n. 1);

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ao estatuir que o princípio corânico "não há coação na religião" deve reger os direitos
religiosos das minorias nãomuçulmanas (artigo 10, letra "a");
. ao proclamar que, num país muçulmano, as minorias religiosas devem ter o direito
de escolher, na condução de seus negócios cívicos e pessoais, a Lei islâmica ou suas
próprias leis (artigo 10, letra "b").
Como a Declaração Africana, a Declaração Islâmica omite qualquer dispositivo
semelhante ao contido no artigo H, item 2, da Declaração Universal. Os fundamentos
da omissão são os mesmos. Proclamando os "direitos dos povos", rejeitando a
servidão de um povo em relação a outro, a

39
Na mesma introdução, é afirmado o compromisso com a garantia da segurança, em
favor de toda pessoa (Letra "g", item XIII, parte "b")2.
Verificamos assim que a Declaração Islâmica acolhe integralmente os artigos 111 e
IV da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
A Declaração Islâmica declara lícita a pena de morte ao dizer que ninguém deve ser
exposto à morte, salvo sob a autoridade da lei. Neste ponto, é idêntica à Declaração
Africana. São, assim, pertinentes os comentários que fizemos no final do item
anterior.
Creio que a admissão da pena de morte, nas legislações, afronta o espírito da
Declaração Universal dos Direitos Humanos. Esta é a razão pela qual a ONU propõe
aos Estados a adesão à convenção que pretende proscrever a pena de morte da face da
Terra.

Contudo, deve ser observado que não é só a África e o Mundo Islâmico que admitem
a pena de morte. Também países ocidentais, como os Estados Unidos, adotam esse
tipo de sanção.

5. A Declaração Universal dos Direitos dos Povos diante dos artigos lU e IV da


Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Já observamos que a perspectiva da Declaração Universal dos Direitos dos Povos é


diferente da perspectiva da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

2 Cf. a publicação do CCFD, referida na nota anterior. A redação é exatamente a


mesma que aparece no livro L'Islam et les Droits de I'Homme. Paris, Librairie des
Libertés, 1984. Essa referência, como todas as demais desta obra, confere também
com o texto da Declaração Islâmica que aparece no livro Droits de l'homme, droits
des peuples, de FENET, Alain & outros. Paris, Presses Universitaires de France,
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1982.
Todos os três textos são iguais porque a fonte original é a mesma. Tratase do
documento redigido por iniciativa do Conselho Islâmico para a Europa, na sua versão
oficial em francês.

No primeiro documento, realçam-se os "direitos dos povos" e, como conseqüência,


agasalham-se os Direitos Humanos.
No segundo documento, a via é inversa: afirmam-se os Direitos Humanos de forma
direta; acena-se para os "direitos dos povos" de forma indireta.
Os artigos 111 e IV da Declaração Universal dos Direitos Humanos não estão
expressos na Declaração Universal dos Direitos dos Povos. Entretanto, há uma
correspondência entre os direitos consagrados num e noutro documento.
O direito de todo homem à vida, assegurado pelo artigo 111 da Declaração da ONU,
tem sua correlação nos artigos 1,4, 19 e 27 da Declaração Universal dos Direitos dos
Povos. Senão vejamos.
O artigo 1 estabelece que todo povo tem direito à existência.
Ao preservar o direito dos povos à existência, a Declaração Universal dos Direitos
dos Povos defende o Direito Humano à vida. Isto porque, quando se atenta contra a
vida de um povo, sacrifica-se o direito à vida de milhares ou milhões de pessoas.
O desrespeito ao direito de existência de um povo pode resultar ou do assassinato em
massa dos respectivos nacionais, ou da criação de circunstâncias econômicas,
políticas, sociais ou culturais que tornam impossível a sobrevivência do respectivo
povo ou de uma parte dele.
Creio ser apropriado designar o primeiro crime como "genocídio em ato" e o segundo
como "genocídio em causa" .

O Direito Humano à Vida é novamente referido pela Declaração Universal dos


Direitos dos Povos quando reza, no artigo 4,. que nenhuma pessoa pode ser
submetida ao massacre, como decorrência de sua identidade nacional ou cultural.

o artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos dos Povos zela, novamente, pela
Vida quando defende o direito de sobrevivência e existência das minorias existentes
no seio de um Estado.
Finalmente, o artigo 27 do documento, que estamos examinando, ressalva a Vida
quando estatui que os atentados mais graves contra os direitos fundamentais dos
povos, especialmente contra o seu direito à existência, constituem crimes
internacionais, acarretando a responsabilidade penal individual de seus autores.
O Direito Humano à Liberdade (artigo lU da Declaração da ONU) encontra
correspondente nos artigos 4, 6, 11 e 20 da Declaração Universal dos Direitos dos

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Povos.
O artigo 4 diz que nenhuma pessoa pode ser submetida a perseguição, deportação ou
expulsão por causa de sua identidade nacional ou cultural.
O artigo 6 diz que todo povo tem o direito de se libertar da dominação colonial ou
estrangeira, direta ou indireta, e de todos os regimes racistas.
O artigo 11 estabelece que todo povo tem o direito de escolher o seu sistema
econômico e social e de buscar a sua própria via de desenvolvimento econômico em
liberdade total e sem ingerência exterior.
O artigo 20 manda que as minorias, no seio de um Estado, gozem de direitos iguais
aos dos outros cidadãos e participem, como estes, da vida pública, sem
discriminação.
O Direito à Segurança (artigo lU da Declaração Universal) tem seu correspondente
rio artigo 4 da Declaração dos Povos. Este artigo estatui que nenhuma pessoa, em ra-
zão de identidade nacional ou cultural, pode ser submetida a perseguição ou
condições de vida que comprometam a identidade ou integridade do povo ao qual
pertença.
O repúdio à escravidão e à servidão (artigo IV da Declaração Universal dos Direitos
Humanos) encontra similitude com os artigos 4 e 20 da Declaração Universal dos
Direitos dos Povos.

O artigo 4 da Declaração dos Direitos dos Povos afirma que nenhuma pessoa pode
ser submetida, por causa de sua identidade nacional ou cultural, a condições de vida
que comprometam a identidade ou a integridade do povo a que pertence. Ora, uma
das condições de vida abrangidas pela proibição é justamente aquela de reduzir um
povo à escravidão.

O artigo 20 da Declaração Universal dos Direitos dos Povos, quando defende as


minorias nacionais ou culturais existentes no seio de um Estado, proíbe
implicitamente que essas minorias sejam reduzidas a uma situação de escravidão ou
servidão.
Finalmente, o artigo 7 da Declaração Universal dos Direitos dos Povos salvaguarda
todos os Direitos Humanos, inclusive os contidos nos artigos lU e IV de que estamos
agora tratando.
Determina esse artigo 7 que todo povo tenha direito a um regime democrático que
represente o conjunto dos cidadãos, sem discriminações. Esse regime deve ser capaz
de assegurar o respeito efetivo pelos direitos do homem e pelas liberdades
fundamentais para todos.

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6. Os artigos lU e IV da Declaração Universal dos Direitos Humanos e a
Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem.

O artigo I da Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem reproduz


literalmente o artigo lU da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
O artigo IV da Declaração Universal, que repudia a escravidão e a servidão, não tem
correspondente expresso na Declaração das Américas.

Entretanto, o repúdio à escravidão e à servidão estão implícitos nos artigos que


afirmam o seu oposto, ou seja, nos artigos que consagram amplamente a liberdade.
A recusa da escravidão e da servidão decorre também do conjunto da Declaração.
Não se coadunaria com a filosofia que anima esta Proclamação de Direitos a
transigência com a escravidão e a servidão.
Finalmente, a escravidão e a servidão são incompatíveis com a Carta de Direitos das
Américas porque esta afirma que os direitos humanos têm seu fundamento essencial
nos atributos da pessoa humana, conforme se vê no segundo considerando. Ora, os
atributos da pessoa humana são, pela própria natureza, universais e amplos, não
comportando exclusões.

7. Os artigos lU e IV da Declaração Universal dos Direitos Humanos e a


Declaração Solene dos Povos Indígenas do Mundo.
A Declaração Solene dos Povos Indígenas do. Mundo abriga todos os princípios
expressos nos artigos lU e IV da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O
respaldo desses artigos, pela Declaração dos Povos Indígenas, não é textual. Isso
porque, para falar aos demais Povos do mundo, . os Povos Indígenas adotam uma
linguagem própria.

Estão presentes na Declaração dos Povos Indígenas:


a) o direito à vida. Confira-se o versículo:
"Quando a Terra-Mãe era nosso alimento;"
b) o direito à liberdade. Vejam-se os versículos: . "Quando a noite escura era o
telhado que nos cobria, Quando o céu e a lua eram nosso pai e nossa mãe";
c) o direito à segurança pessoal. Está implícito no
versículo:
"Quando os chefes e os anciãos eram os nossos gran

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des líderes";
d) o repúdio da escravidão e da servidão:
"Eles (os das civilizações que chegaram) nos consideraram inferiores aos animais,
Transformaram em escravos os filhos do sol,,3.

8. As Declarações que acabamos de examinar e os acréscimos que fazem à


Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A Carta Africana parece proteger, com mais ênfase do que o documento da ONU, os
direitos a que se referem os artigos lU e IV da Declaração Universal. Isto porque os
africanos, mais abrangentemente, declaram que "todas as formas de exploração e
degradação do homem são proibidas".
Essa cláusula abarca aquelas formas sutis de servidão e escravidão, não
expressamente referidas na Carta da ONU.

A Declaração Universal dos Direitos dos Povos estende os direitos à vida, liberdade e
segurança pessoal para além da Declaração de Direitos das Nações Unidas.
Outrossim, ultrapassa este último documento no repúdio da escravidão. Isto porque,
como vimos, a perspectiva da Declaração Universal dos Direitos dos Povos é
coletiva, e não apenas individual.
Também a Carta dos Povos Indígenas do Mundo enriquece o patrimônio espiritual da
Humanidade, relativamente aos direitos que estão sendo examinados nesta Sexta
Parte do nosso livro. Isto porque realça, com extraordinária vitalidade e força poética
e, ainda mais, com o testemunho de sofrimento dos próprios Povos Indígenas, os
princípios a que se referem os artigos lU e IV da Declaração Universal dos Direitos
Humanos.

3 Cf. Soirée de Priere. Plaquette de Carême. Paris, CCFD, 1992.

9. A Anistia Internacional e sua luta em favor dos princípios contidos nos artigos
lU e IV da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Em 1961, é fundada a "Anistia Internacional", mais conhecida no mundo pela sua


designação em inglês "Amnesty International".
O principal trabalho dessa organização de Direitos Humanos tem sido a batalha que
trava em defesa dos "prisioneiros de consciência", isto é, em favor de pessoas que,
nos mais diversos países e regiões do mundo, são aprisionadas em razão de suas

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convicções políticas ou religiosas, origem étnica, cor ou língua.
Mas' tem a "Anistia Internacional" adotado duas outras grandes bandeiras também: a
abolição da pena de morte e a proscrição da tortura.
Pelo mérito de sua grandiosa obra humanitária, a "Anistia Internacional" recebeu em
1977 o Prêmio Nobel' da Paz4.
Como estamos tratando agora dos artigos lU e IV da Declaração Universal dos
Direitos Humanos, este trecho do livro é apropriado para destacar o trabalho da
"Anistia Internacional" em favor dos prisioneiros de consciência, e a luta travada para
abolir a pena de morte, nos países que ainda a adotam.
O trabalho em favor dos "prisioneiros de consciência" efetiva, na ação, o direito à
liberdade consagrado pelo artigo lU da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
A "Anistia Internacional" tem-se empenhado pela libertação de pessoas que, nos mais
diversos países do mundo, foram encarceradas em razão de suas idéias ou de suas
lutas políticas. A "Anistia Internacional" estabelece como condição para assumir a
defesa da liberdade de alguém que esta pessoa não tenha utilizado a violência como
forma de luta
Relativamente à campanha contra a pena de morte, a "Anistia Internacional" fixou o
ano 2000 como aquele em que a "pena de morte" deveria ser abolida de todo o
planeta.
A "Anistia Internacional" tem seções em diversos Estados brasileiros. Para qualquer
informação o leitor pode dirigir-se à Seção de São Paulo, cujo endereço inserimos no
rodapé5.

Capítulo 2
A proscrição da tortura e do tratamento
ou castigo cruel, desumano ou degradante. O direito, que todo ser humano tem,
de ser reconhecido como pessoa.

1. Repulsa à tortura e afirmação de que todo ser humano tem o direito de ser
reconhecido como pessoa: o abandono desses princípios jogaria por terra toda a
Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A eventual supressão das garantias previstas nos artigos 5 e 6 da Declaração


Universal dos Direitos Humanos anularia o sentido da totalidade da Declaração.
Admitir que um ser homem possa ser torturado é negar a ele a condição de ser
humano. Estejamos, pois, no início deste Capítulo, atentos ao que dizem os artigos 5
e 6 da Declaração:

Artigo V. Ninguém será submetido a tortura, nem a tratamento ou castigo cruel,

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desumano ou degradante.

Artigo VI. Todo homem tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como
pessoa perante a lei.

Capítulo 3
A exigência de que os tribunais sejam independentes
e imparciais. A presunção de inocência, o direito de ampla defesa, a proibição da
prisão arbitrária e a repulsa à condenação por crime não previamente definido,
com pena previamente estabelecida.

1. Os artigos 9,10 e 11 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e sua


recepção pelas posteriores Declarações de Direitos.
Os artigos 9, 10 e 11, da Declaração Universal, também integram aquele núcleo
básico de determinações que traçam o perfil filosófico dos Direitos Humanos.
Esses artigos foram recepcionados, em sua substância, pelas diversas Declarações de
Direitos formuladas após o documento da ONU.
Veremos a procedência dessa afirmação nos tópicos que se seguem.

2. Independência dos tribunais, presunção de inocência, direito de ampla defesa


e prévia definição de crime e pena, na Carta de Direitos do Continente Africano.
A Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos acolheu, plenamente, as
franquias assinaladas nos artigos 9, 10 e 11 da Declaração Universal dos Direitos
Humanos.

No artigo 6, parte final, proibiu a prisão ou detenção arbitrária, abuso repudiado pelo
artigo 9 dá Declaração Universal

Os artigos 10 e 11 da Declaração Universal dos direitos Humanos são respaldados


pelo artigo 7, seus incisos e suas letras, da Carta Africana.
Nessas disposições,/a'Carta Africana assegura que toda pessoa tem o direito a qíÍe sua
causa seja ouvida;' Essa franquia deve ser assegurada através da possibilidade de

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buscar
a pessoa as jurisdições nacionais competentes, para que es
sas agasalhem os pleitos que visem a remediar qualquer ato que viole 95"direitos
fundamentais reconhecidos e garanti
dos por convenções, leis, regulamentos e costumes em vi -
gor. A presunção de inocência é proclamada até que a culpabilidade seja declarada
pela jurisdição competente. É assegurado o direito de defesa, inclusive por advogado
escolhido pelo próprio interessado. O princípio de que não há cri
me sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal, é
salvaguardado, declarando-se, outrossim, que a pena é pessoal, não podendo atingir
senão o próprio delinqüente. Assegura ainda a Carta Africana não apenas o direito da
pessoa a um tribunal imparcial, como também o direito de que o julgamento ocorra
dentro de um prazo razoável.
A Carta Africana avançou mesmo, em relação à Declaração Universal, quando
acresceu ao núcleo do "direito a .
tribunal independente e a julgamento imparcial" o direito também a "julgamento
razoavelmente rápido". Esse complemento é fundamental porque Justiça tardia não é
verdadeira Justiça. .

3. A Declaração Islâmica dos Direitos Humanos e as franquias dos artigos 9 a 11


da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Os direitos contidos nos artigos 9, 10 e 11 da Declaração Universal dos Direitos


Humanos são' contemplados pe los artigos 4,5,6 e 9 da Declaração Islâmica
Universal dos Direitos do Homem.
O artigo 4 trata do "direito à Justiça". Esse artigo é
formado por 5 letras.
Começa por dizer que toda pessoa tem o direito de ser tratada conforme a lei e
somente conforme a lei (Letra "a").
Toda pessoa tem direito à Justiça e obrigação de protestar contra a injustiça. A pessoa
tem o direito de apelâr às autoridades, por meio dos recursos previstos em lei, de
modo a defender-se de qualquer prejuízo ou perda pessoal injustificada. É também
direito de toda pessoa defender-se de qualquer acusação que lhe seja feita.
Finalmente, toda pessoa tem o direito de obter um julgamento eqüitativo, perante um
tribunal judicial independente, em caso de litígio com autoridades públicas ou com

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um particular (Letra "b").
Toda pessoa tem o direito e o dever de defender os direitos das outras pessoas e da
comunidade em geral (Letra "c").

Ninguém pode sofrer discriminação pelo fato de de


fender seus direitos públicos ou privados (Letra "d").
Todo muçulmano tem o direito e o dever de recusar obediência a ordem que seja
contrária à Lei, qualquer que seja a origem dessa ordem.
O artigo 5 cuida do "direito a um processo eqüitativo"
e é igualmente vazado em 5 letras.
A letra "a" estabelece que ninguém poderá ser julgado culpado de um delito, nem
condenado a urna sanção, se a culpabilidade não tiver sido provada perante um
tribunal judicial independente.
A culpabilidade não pode ser declarada - prossegue a letra "b" - senão depois da
realização de um processo justo no qual possibilidades suficientes de defesa tenham
sido asseguradas.
A sanção deve ser fixada conforme a lei, proporcionalmente à gravidade do delito e
levando em consideração as circunstâncias em que o delito foi cometido (Letra "c").

Nenhum ato pode ser considerado um crime se ele não tiver sido claramente
estipulado corno crime no texto da lei (Letra "d").

Todo indivíduo é responsável por suas ações. A responsabilidade por um crime não
pode ser estendida, por substituição, a outros membros da família ou do grupo a que
pertence o acusado, se tais pessoas não estiverem direta ou indiretamente envolvidas
na perpetração do crime.
O artigo 6 da Declaração Islâmica garante as pessoas contra o abuso de poder. Diz
que toda pessoa tem direito à proteção contra molestamentos infundados de
organismos oficiais. A pessoa não tem de se justificar pelo andamento normal de sua
vida, a menos que pesem contra ela acusações, ou suspeitas razoáveis, de participação
em crime.
O artigo 9 da Declaração Islâmica protege, plenamente, o direito de asilo, com
remissão a urna ancestral tradição muçulmana.
Na sua letra "a", diz o artigo aqui mencionado que toda pessoa perseguida ou
oprimida tem direito de procurar refúgio e asilo. Esse direito é garantido a todo ser
humano, qualquer que seja sua raça, religião, cor ou sexo. .
A casa sagrada de Alá (Al MasjidAI Haram), em Meca, é um refúgio para todos os
muçulmanos (proclama a letra "b", do artigo 9).

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4. A independência e imparcialidade dos tribunais e os direitos processuais, na
Declaração de Direitos das Américas.

Também a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem abrigou, em


plenitude, os artigos 9, 10 e 11 da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
O "direito à Justiça" é assegurado pelo artigo 18, da Declaração de Direitos do
Continente Americano. Nesse dispositivo, é estabelecido que toda pessoa pode
recorrer aos tribunais para fazer valer seus direitos. Deve dispor de um procedimento
simples e rápido, através do qual a Justiça o ampare contra atos da autoridade que
violem, em seu prejuízo, direitos fundamentais consagrados constitucionalmente.
O artigo 25 protege contra a detenção arbitrária. Estabelece que ninguém pode ser
privado de sua liberdade a não ser nos casos e segundo as formas estabelecidas por
leis preexistentes. Ninguém pode ser detido por descumprir obrigações de caráter
apenas civil. Todo indivíduo, privado de liberdade, tem direito a que o juiz verifique
sem demora a legalidade dacmedida, bem como o direito de ser julgado sem demora
injustificada ou, ao contrário, tem o direito de ser posto em liberdade. Garante tam-
bém o artigo o tratamento humano durante a privação da liberdade.
O "direito a processo regular" é amparado pelo artigo
26 da Declaração Americana.
Esse artigo começa por subscrever o princípio da presunção da inocência: presume-se
que todo acusado é inocente até que se prove que é culpado.

O "direito de ser ouvido" e a "repulsa aos tribunais de exceção" constituem a matéria


do segundo período do artigo 26. Toda pessoa acusada de delito tem direito de ser
ouvida de forma imparcial e pública e de ser julgada por tribunais anteriormente
estabelecidos, de acordo com leis preexistentes. Tem, outrossim, o direito de que não
se lhe imponham penas cruéis, infamantes ou inusitadas.
O "direito de asilo" é salvaguardado pelo artigo 27. Toda pessoa tem direito de buscar
e receber asilo em território estrangeiro, em caso de perseguição que não seja
motivada por delitos de direito comum, de acordo com a legislação de cada país e
com os convênios internacionais.

5. A Declaração Universal dos Direitos dos Povos e a Declaração Solene dos


Povos Indígenas do Mundo, como documentos que coerem com os princípios da
Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Como já colocamos neste livro, a Declaração Universal dos Direitos dos Povos
acolheu, na sua integralidade, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Essa

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cláusula de adesão global está expressa no primeiro parágrafo do preâmbulo da Carta
de Direitos dos Povos.
Quando se coloca na perspectiva de afirmar os direitos dos povos, e não os direitos
individuais das pessoas, a Declaração Universal dos Direitos dos Povos não se choca
com os Direitos Humanos, como proclamados pela ONU. Na verdade, o que faz é dar
maior substância e concretude a esses Direitos.
Da mesma forma, a Declaração Solene dos Povos Indígenas do Mundo não
particulariza direitos individuais ou direitos de cada um dos seres humanos. Contudo,
salvaguardando o mais importante direito, que é o direito dos povos àvida, como
povos, subscreve, a nosso ver, o espírito dos Direitos Humanos em geral.
Assim, como já dissemos com relação a outros artigos específicos da Declaração
Universal dos Direitos Humanos, não vemos oposição entre as estipulações dos
artigos 9, 10 e 11 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e a mensagem
ético-jurídica da Declaração Universal dos Direitos dos Povos e da Declaração
Solene dos Povos Indígenas do Mundo.

Capítulo 4
Direitos Humanos e Direitos dos Povos.

1. Direitos dos Povos, a mais relevante contribuição ao


alargamento da idéia de Direitos Humanos.

Uma das restrições apresentadas por alguns países socialistas quando da edição da
"Declaração Universal dos Direitos Humanos" foi o caráter individualista do texto.
A reserva procede. O documento não apenas é centrado nos "direitos individuais",
como também silencia quanto ao direito coletivo dos povos.
A ONU procurou corrigir o desvio, em documentos posteriores. Assim é que, no
âmbito desse organismo internacional, dois Pactos da maior importância, posteriores
à"Declaração Universal dos Direitos Humanos", consagraram expressamente os
Direitos dos Povos:
a) o p"acto Internacional de Direitos Econômicos, So

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ciais e Culturais;
b) o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. Ambos são de 1966.
Dirigentes de países, sobretudo dos países pobres do
mundo, líderes de movimentos de libertação nacional e figuras do mundo civil
aprovaram, em Argel, uma "Declaráção Universal dos Direitos dos Povos" (1976).

As Nações Indígenas, que estão espalhadas pelo mundo, encravadas no território de


inúmeros Estados, aprovaram, em Porto Alberni, a "Declaração Solene dos Povos
Indígenas do Mundo" (1975).
Em âmbito regional, os países da "Organização da Unidade Africana" aprovaram a
"Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos" (1981).
A idéia de "Direitos dos Povos" muito alarga e enriquece a idéia de "Direitos
Humanos". Na verdade, não haverá, no mundo, a vigência universal dos Direitos Hu-
manos se não houver o reconhecimento dos "Direitos dos Povos" .
O reconhecimento dos "Direitos dos Povos", nos fóruns internacionais, foi fruto da
luta dos povos dominados e marginaliza'dos da África, da Ásia, da América Latina.
Houve, sem'dúvida, o apoio de militantes, dissidentes, intelectuais, no cenário dos
países ricos, mas o grito partiu dos países pobres ou empobrecidos.
O acréscimo dos "Direitos dos Povos" ao elenco dos "Direitos Humanos" foi, a meu
ver, a mais relevante contribuição das culturas consideradas marginais, sob a ótica
dos dominadores, à idéia de "Direitos Humanos".

2. O Pacto Internacional de "Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e o Pacto


Internacional de Direitos Civis e Políticos.

O Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e o Pacto


Internacional de Direitos Civis e Pôlíticos fazem expressa referência aos "direitos
dos povos". Estes pactos foram aprovados pela Assembléia Geral da ONU em 16 de
dezembro de 1966. Foram abertos à ratificação dos Estados na mesma data.
Assim é que os itens 1, 2 e 3 do artigo 1 de ambos os Pactos estatuem expressamente
o direito à autodeterminação, que é indispensável à vida dos povos.

Este direito é fundamental para todas as Nações, porém sobretudo para as que não
dispõem de poderio militar.
a direito de autodeterminação das Nações militarmente fracas é constantemente
ameaçado pela ambição de hegemonia econômica, militar e cultural de Nações pode-
rosas.

Tal é a importância do direito à autodeterminação que Hector Gros Espiell chega

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mesmo a afIrmar que a vigência desse direito é condição de subsistência de todos os
demais Direitos Humanosl.
Dizem os itens e o artigo já referidos dos Pactos que estamos examinando:
"Todos os povos têm o direito à autodeterminação. Em virtude deste direito
estabelecem livremente sua condição política e determinam, outrossim, seu
desenvolvimento econômico, social e cultural.
Para a consecução de seus fins, todos os povos podem dispor livremente de suas
riquezas e recursos naturais, sem prejuízo das obrigações que derivam da
cooperação econômica internacional baseada no princípio de benefício recíproco,
assim como no Direito Internacional. Em caso algum pode um povo ser privado de
seus próprios meios de subsistência.
Os Estados-Partes no presente Pacto, inclusive aqueles que têm a responsabilidade
de administrar territórios não-autônomos e territórios sob tutela, promoverão o exer-
cício do direito à autodeterminação e respeitarão esse direito em conformidade com
as disposições da Carta das Nações Unidas ,,2,

1 Cf. ESPIELL, Hector Gross. Le droit à l'autodetermination. Application des


Résolutions des Nations Unies. New York, Nações Unidas, 1979.
2 O texto do Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e do
Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos foi redigido oficialmente em chinês,
espanhol, francês, inglês e russo. Fizemos a tradução do artigo citado a partir da
redação autêntica em espanhol. Cf. "Carta Internacional de

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CAP. HOSPITALAR

3. A Declaração Universal dos Direitos dos Povos.


Dirigentes de países, líderes de movimentos de libertação nacional,
políticos, juristas e economistas, reunidos em Argel, aprovaram a
"Declaração Universal dos Direitos dos Povos". Esse fato ocorreu em 4
de julho de 1976, numa reunião que se realizou por iniciativa da
Fundação Lélio Basso.

A Declaração Universal dos Direitos dos Povos não se opõe à


Declaração Universal dos Direitos Humanos. Muito pelo contrário, o
documento de Argel endossa expressamente, no seu preâmbulo, a
Declaração Universal dos Direitos Humanos, como já dissemos.
A Declaração Universal dos Direitos dos Povos alarga o sentido da
Declaração Universal dos Direitos Humanos. Isto porque acresce a uma
visão de direitos da pessoa humana, que fosse restrita, a visão expressa
de "direitos dos povos".

Derechos Humanos. Folheto informativo n. 2. Ginebra, Centro de


Derechos Humanos de Ia Oficina de Ias Naciones Unidas en Ginebra,
Suiza, 1988, p. 29". A redação autêntica é a seguinte:
"Artículo 1
I. Todos los pueblos tienen el derecho de libre determinación. En
virtud
de este derecho establecen libremente su condición política y proveen
asimismo a su desarrollo económico, social y cultural.
2. Para ellogro de sus fines, todos los pueblos pueden disponer
libremente de sus riquezas y recursos naturales, sin perjuicio de Ias
obligaciones que derivan de Ia cooperación económica internacional
basada en el principio de beneficio recíproco, así como dei derecho
internacional. En ningún caso podrá privarse a un pueblo de sus propios
medios de subsistencia>
3. Los Estados Partes en el presente Pacto, incluso los que tienen Ia
responsabilidad de administrar territorios no autónomos y territorios en
fideicomiso, promoverán el ejercicio dei derecho de libre determinación,
y respetarán este derecho de conformidad con Ias disposiciones de Ia
Carta de Ias Naciones Unidas".

7
CAP. HOSPITALAR

4. As enunciações da Declaração Universal dos Direitos dos Povos. O


direito à existência, à autodeterminação e os direitos econômicos.

A Declaração Universal dos Direitos dos Povos (Carta de Argel) é


dividida em 7 seções e é formada por 30 ar tigos.
A Seção I, que trata do Direito à Existência, diz que: todo povo tem
direito à existência (artigo 1);
todo povo tem direito ao respeito por sua identidade
nacional e cultural (artigo 2);
todo povo tem o direito de conservar a posse pacífica do seu território e
de retomar a ele em caso de expulsão (artigo 3);
nenhuma pessoa pode ser submetida, por causa de sua identidade
nacional ou cultural, ao massacre, à tortura, à perseguição, à deportação,
à expulsão ou a condições de vida que possam comprometer a identidade
ou a integridade do povo ao qual pertence (artigo 4).
N a Seção 11, cuidando do Direito à Autodeterminação Política,
estabelece essa Declaração:
todo povo tem o direito imprescritível e inalienável à autodeterminação.
Determina seu estatuto político com inteira liberdade, sem qualquer
ingerência estrangeira (artigo 5);

todo povo tem direito de se libertar de toda dominação colonial ou


estrangeira direta ou indireta e de todos os regimes racistas (artigo 6);
todo povo tem direito a um regime democrático que represente o
conjunto dos cidadãos, sem distinção de raça, de sexo, de crença ou de
cor e capaz de assegurar o respeito efetivo pelos direitos do homem e
pelas liberdades fundamentais para todos (artigo 7).
Sob a rubrica "Direitos Econômicos dos Povos" arrola a Seção III os
seguintes postulados: todo povo tem direito exclusivo sobre suas
riquezas e seus recursos naturais. Tem direito de recuperá-los se deles foi
espoliado, assim como de reaver as indenizações injustamente pagas
(artigo 8);
como o progresso científico e técnico faz parte do patrimônio comum da
humanidade, todo povo tem direito" de participar dele (artigo 9);
todo povo tem direito a que seu trabalho seja justamente avaliado e a que
os intercâmbios internacionais se façam em condições de igualdade e
eqüidade (artigo 10); todo povo tem direito de escolher seu sistema

8
CAP. HOSPITALAR
econômico e social e de buscar sua própria via de desenvolvimento
econômico em liberdade total e sem ingerência exterior (artigo 11); os
direitos econômicos enunciados acima devem expressar-se num espírito
de solidariedade entre os povos do mundo e levando em conta seus
respectivos interesses (artigo 12).

5. O direito à cultura, ao meio ambiente aos recursos e os direitos


das minorias, na Declaração Universal dos Direitos dos Povos.

Como "direitos à cultura" estabelece-se na Seção IV que:

todo povo tem o direito de falar sua língua, de preser_ var e desenvolver
sua cultura, contribuindo assim para o enriquecimento da cultura da
humanidade (artigo 13);
todo povo tem direito às suas riquezas artísticas, históricas e culturais
(artigo 14);
todo povo tem direito a que não se lhe imponha uma cultura
estrangeira (artigo 15).
O "direito ao meio ambiente e aos recursos" está disciplinado através
das seguintes disposições:
todo povo tem direito à conservação, à proteção e ao melhoramento do
seu meio ambiente (artigo 16);
todo povo tem direito à utilização do patrimônio comum da humanidade,
tais como o alto-mar, o fundo dos mares, o espaço extra-atmosférico
(artigo 17);
no exercício dos direitos precedentes, todo povo deve levar em conta a
necessidade de coordenar as exigências do seu desenvolvimento
econômico com as da solidariedade entre todos os povos do mundo
(artigo 18).
Os "direitos das minorias" são assegurados por força das seguintes
estipulações:
quando, no seio de um Estado, um povo constitui minoria, tem direito ao
respeito por sua identidade, suas tradições, sua língua e seu patrimônio
cultural (artigo 19);
os membros da minoria devem gozar, sem discriminação, dos mesmos
direitos que os outros cidadãos do Estado e participar com eles,
emigualdade, na vida pública (artigo 20);
estes direitos devem ser exercidos mediante o respeito aos legítimos
interesses da comunidade em seu conjunto, e não podem servir de
pretexto para atentar contra a integridade territorial e a unidade política

9
CAP. HOSPITALAR
do Estado, quando este atua em conformidade com todos os princípios
enunciados na presente Declaração (artigo 21).

6. As Garantias e Sanções na Carta de Argel.


As "Garantias e Sanções", na Declaração Universal dos Direitos dos
Povos (Carta de Argel), são estatuídas através de nove artigos, a saber:
todo descumprimento às disposições da Declaração constitui uma
transgressão às obrigações para com toda a comunidade internacional
(artigo 22);
todo prejuízo resultante de uma transgressão à presen
'" te Declaração deve ser integralmente reparado por aquele que o causou
(artigo 23);
todo enriquecimento em detrimento de um povo, por violação das
disposições da presente Declaração, deve dar lugar à restituição dos
lucros assim obtidos. O mesmo se aplicará a todos os lucros excessivos
realizados pelos investimentos de origem estrangeira (artigo 24); todos
os tratados, acordos ou contratos desiguais, subscritos com depreciação
aos direitos fundamentais dos povos, não poderão ter nenhum efeito
(artigo 25); os encargos financeiros exteriores que se tenham tornado
excessivos e insuportáveis para os povos deixam de ser exigíveis (artigo
26);
os atentados mais graves contra os direitos fundamentais dos povos,
especialmente contra o seu direito à existência, constituem crimes
internacionais, acarretando a responsabilidade penal individual de seus
autores (artigo 27); todo povo cujos direitos fundamentais são gravemen-
te ignorados tem o direito de fazê-Ios valer, especialmente pela luta
política ou sindical, e mesmo, em última instância, pelo recurso à força
(artigo 28); os movimentos de libertação devem ter acesso às or-
ganizações internacionais, e os seus combatentes têm direito à proteção
das leis humanitárias da guerra (artigo 29); o restabelecimento dos
direitos fundamentais de um povo, quando gravemente desconsiderados,
é dever que se impõe a todos os membros da comunidade internacional
(artigo 30)3.

7. A Declaração Solene dos Povos Indígenas do Mundo.

10
CAP. HOSPITALAR
O Conselho Mundial dos Povos Indígenas, reunido em Porto Alberni, em
1975, aprovou a "Declaração Solene dos Povos Indígenas do Mundo".
Essa Declaração começa com um preâmbulo a que nos reportaremos,
ainda neste capítulo.
Na sua Carta de Direitos, os Povos Indígenas:

3 MARQUES, João Benedito de Azevedo. Democracia, Violência e Di-


reitos Humanos. São Paulo, Cortez Editora, 1984, p. 98 e seguintes.

a) declaram a todas as Nações do mundo a sua própria ancianidade;


b) recordam que foram explorados e vilipendiados pela cobiça dos
conquistadores;
c) afirmam que esses conquistadores roubaram suas
terras mas não puderam eliminar seus Povos;
d) proclamam que os dominadores não conseguiram fazer esquecer o que
eles são: eles são a cultura da terra e do céu, procedentes de uma
ascendência milenar, eles são milhões e ainda que todo o Universo seja
destruído eles viverão um tempo mais longo que o império da morte4.
A proclamação de Direitos dos Povos Indígenas e a luta que travam, nos
mais diversos países, têm uma especificidade, se comparadas às
proclamações de Direitos e às lutas dos Povos em geral.
As Nações Indígenas não têm pretendido sua constituição em Estados.
Querem que suas terras sejam demarcadas, no interior dos Estados onde
se encontram, que suas culturas sejam respeitadas, que seus direitos não
sejam pisoteados. Buscam sobretudo o sagrado direito de sobreviver.
Não querem ser exterminadas pelas doenças do homem branco, pela
cobiça de riquezas minerais do homem branco, pela exploração do
homem branco e pelo massacre puro e simples. Enfim, os Povos
Indígenas do Mundo não querem continuar sendo vítimas de genocídio.

8. A Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos.

Muito expressivamente, os Estados africanos, membros da Organização


da Unidade Africana, deram a sua Carta de Direitos o nome de "Carta
Africana dos Direitos Humanos e dos Povos".
É a chamada "Carta de Banjul", adotada em 27 de julho de 1981, ao
ensejo da 18a Assembléia da Organização da Unidade Africana, reunida

11
CAP. HOSPITALAR
em Nairobi, no Quênia.
Chama-se "Carta de Banjul" porque foi redigida preliminarmente numa
reunião da Organização da Unidade Africana que ocorreu na cidade de
Banjul, Gâmbia,entre 7 e 19 de janeiro de 1981.
Povos historicamente vítimas do colonialismo e do neocolonialismo,
com muita razão um tratamento individualista dos Direitos Humanos não
lhes poderia satisfazer.
Um dos considerandos da "Carta Africana dos Direitos Humanos e dos
Povos" coloca a reciprocidade entre "direitos humanos" e "direitos dos
povos". Os "direitos humanos" devem ter proteção nacional e
internacional porque emanam dos atributos dos seres humanos. O
respeito aos "direitos dos povos", no entanto, é garantia necessária dos
"direitos humanos"s.

5 o "considerando" a que estarnos nos referindo tem a seguinte redação


em espanhol: "reconociendo por una parte, que los derechos humanos
fundarnentales emanan de Ios atributos de Ios seres humanos, 10 que
justifica su protección nacional y internacional y por otra parte que Ia
realidad y eI respeto de Ios derechos de los puebIos deberá
necesariarnente garantizar Ios derechos humanos;" (Cf. Carta Africana
de ias Derechos Humanos y de ias Puebios. Strasbourg, Institut
InternationaI des Droits de l'Homme, 1990).

Capítulo 11

Os Direitos das Minorias.

1. Minorias que se organizam e fazem valer sua voz.


Um fenômeno recente é o grande poder que vem assumindo a luta de
diversas minorias, no interior das sociedades modernas.

São minorias bem diversificadas, com lutas bem dife


rentes. Mas com dois pontos em comum:
a) o fato de serem minorias, em relação à sociedade global;
b) o fato de basearem suas lutas num princípio que marca a identidade na

12
CAP. HOSPITALAR
diversidade: o princípio da dignidade da pessoa humana.
Assim, podemos assinalar, dentre outras, a luta dos deficientes físicos, a
luta em favor dos excepcionais físicos e mentais, a luta dos aidéticos, a
luta dos hemofílicos e das pessoas que precisam de transfusão sangüínea,
a luta dos homossexuais, a luta das prostitutas, a luta dos presidiários, a
luta das minorias nacionais, raciais ou religiosas dentro de sociedades
que as hostilizam, marginalizam, desrespeitam ou desconhecem.

2. A Luta dos Deficientes Físicos.

Os deficientes físicos lutam, em primeiro lugar, para não serem


discriminados. Não querem ser discriminados no trabalho, na admissão
aos empregos, na vida da comunidade em geral. Querem ter direito a
uma plena integração social.

Lutam para que sejam fixados percentuais de empregos, no serviço


público e nas empresas, para pessoas portadoras de deficiência.
Esta providência é indispensável, além de ser socialmente muito justa.
É indispensável porque, à falta de norma protetora, os deficientes
poderão ser marginalizados, em nome da busca de plena eficiência do
trabalhador, no processo de produção.

É socialmente justa porque assumir a abso_ção do trabalho do deficiente


é dever da coletividade, como um todo.
Lutam também os deficientes físicos por providências bastante concretas
como a adaptação de logradouros públicos, edifícios e veículos coletivos
às suas necessidades de locomoção e utilização fácil.
Todos nós temos talentos e deficiências. Todos nós somos deficientes,
em algum sentido. Às vezes, uma pessoa, que é deficiente em alguma
coisa, é extremamente bem dotada em outra.
No Brasil, seria oportuno lembrar a figura do Aleijadinho, gênio da arte
como arquiteto e escultor!.

13
CAP. HOSPITALAR
1 Na França, o Aleijadinho não é conhecido apenas entre os especialis-
tas. O "Petit Robert", por exemplo, altamente credenciado, mas bastante
seletivo na escolha dos verbetes, devido ao propósito editorial de ser
uma enciclopédia de volume portátil, registra:
"ALEUADINHO (Antonio Francisco Lisboa, dit 1'). Architecte et
sculpteur brésilien (Ouro Preto, 1738-id., 1814). Fils d'un architecte
portugais émigré et d'une esclave noire, il est l'un des représentants les
plus originaux du

Urna sociedade que se pretenda fundada numa concepção de Direitos


Humanos buscará aproveitar as potencialidades de cada um de seus
membros, desde as mais modestas até as mais extraordinárias
potencialidades.

3. A luta em favor dos excepcionais físicos e mentais.


Esta luta não é travada pelas próprias pessoas portadoras da deficiência.
Elas não podem fazê-Io. É urna luta travada pelos pais de excepcionais e
por pessoas que, em nome da dignidade de todos os seres nascidos de
mulher, colocam-se nessa trincheira dos Direitos Humanos.
O excepcional, através de educação especializada, pode fazer progresso.
Não importa se será um grande progresso ou um pequeno progresso.
Qualquer progresso, por ITÚnimo que seja, deve ser celebrado com
alegria. Quando urna criança portadora de urna lesão cerebral aprende a
balbuciar urna palavra, urna única palavra, toda a Humanidade etica-
mente cresce.
Existe também a excepcionalidade dos superdotados. Mas aqui nós
estamos usando o termo "excepcional" no sentido restrito daqueles seres
humanos subdotados.

4. A luta dos aidéticos.

AAIDS está aumentando num ritmo vertiginoso. Sabese que pode ser
contraída das mais diversas maneiras: contato heterossexual, contato
homossexual, transfusão sangüínea, absorção do sangue de uma pessoa

14
CAP. HOSPITALAR
portadora do vírus por parte de outra pessoa sadia através de qualquer
abertura na pele etc.
Devido aos valores farisaicos de nossa sociedade e porque, no início,
pensava-se que a AIDS provinha de relações homossexuais, criou-se um
grande preconceito contra o aidético.
Os aidéticos crescem hoje na consciência de sua dignidade humana.
Querem ser respeitados, não querem ser discriminados, querem ser
assistidos por um serviço médico eficiente, inteiramente gratuito para os
que não possam pagar seu tratamento.
Impõe-se, outrossim, como um Direito Humano, não só dos aidéticos
como da população em geral, que se intensifiquem as pesquisas na
prevenção e no tratamento da moléstia. É preciso também que essas
pesquisas sejam socializadas, em nível universal.

5. A luta dos hemofílicos e das pessoas que precisam de transfusão


sangüínea.
Justamente porque o sangue é um condutor daAIDS e de outras doenças,
uma grande luta contemporânea é a luta. .
pela qualidade do sangue nos hospitais, ambulatórios etc. Participam
dessa luta os hemofílicos, outros doentes que precisam de transfusão
sangüínea e mesmo a população em geral, uma vez que qualquer pessoa
pode precisar de transfusãà, na eventualidade de uma cirurgia.
No Brasil, o admirável sociólogo e humanistaHerbert de Souza (o
Betinho) lançou a campanha "Salve o sangue do povo brasileiro". A
finalidade dessa campanha é alertar as autoridades e a opinião pública
para a necessidade urgente de medidas de controle da qualidade do
sangue utilizado nas transfusões.

6. A luta dos homossexuais.

Também os homossexuais, no mundo inteiro, vêm tomando consciência

15
CAP. HOSPITALAR
de sua dignidade e lutando por seus direitos. Em primeiro lugar, pelo
direito de não serem discriminados. Depois, pelo direito de serem
respeitados como pessoas, pelo direito de não serem invadidos na sua
escolha, no nível da sexualidade.
Por incrível que possa parecer, ainda há legislações no mundo que
definem o comportamento homossexual como criminoso! E, mesmo
quando a homossexualidade não é crime (como no Brasil), o
preconceito, a hostilidade aberta ou velada maltratam muitas vezes a
pessoa humana homossexual. Tudo isto é absurdo.
Obviamente não existe qualquer relação entre homossexualidade,
heterossexualidade e o padrão ético da pessoa.
Quantos conflitos interiores, quantos conflitos familiares poderiam ser
evitados com o advento de uma cultura que absorvesse, nas suas veias, o
sentido da dignidade humana!

7. A luta das minorias nacionais, raciais ou religiosas.


As minorias nacionais, raciais ou religiosas são freqüentemente
marginalizadas nas sociedades em que se encontram. Preconceitos
múltiplos alcançam essas minorias. Chegam a ser, em algumas situações,
abertamente hostilizadas. Seus direitos não são reconhecidos. Não são
respeitadas como minorias e seus membros não são respeitados como
pessoas. Seu trabalho é muitas vezes explorado. São
mantidaspropositadamente em situação de clandestinidade para não
poderem invocar qualquer espécie de prerrogativa.
Também essas minorias se organizam nos mais diversos quadrantes do
mundo para fazer valer sua dignidade humana. Contam freqüentemente
com o apoio e a solidariedade de outras pessoas.

8. A luta dos que são totalmente excluídos da sociedade: prostitutas e


presidiários.
Por mais graves que sejam as discriminações contra as diversas
minorias, têm elas um vínculo que as une à sociedade envolvente. Ainda
que sofram restrições, a marca originária de humanidade e dignidade
lhes é reconhecida.
Duas minorias parecem-me as mais sofridas e isoladas. Nestas até a
marca originária de humanidade costuma ser abertamente negada ou pelo
menos displicentemente ignorada pela sociedade global. RefIro-me às
16
CAP. HOSPITALAR
prostitutas e aos presidiários.
As prostitutas, por este mundo afora, são freqüentemente vítimas dos
mais graves abusos.
Há legislações que consideram a prostituição um crime, o que não é o
caso do Brasil. Mas, no Brasil, corno alhures, mesmo assumindo urna
conduta ou exercendo urna profIssão, permitida pela lei, as prostitutas
são assiduamente presas, sem qualquer fundamento legítimo. São
maltratadas, ofendidas física e moralmente, tratadas às vezes pior que os
animais. Vivem em condições econômicas quase sempre subumanas.
São isoladas do restante da população em zonas delimitadas, corno um
grupo excluído. Não têm acesso a cuidados médicos, nem a previdência
social, nem a direitos trabalhistas. São muitas vezes consideradas não-
pessoas.
Mas as prostitutas, nos mais diversos países, tornam também consciência
de sua dignidade corno seres humanos. Lutam pelo respeito de que são
credoras, pelo acesso à proteção da saúde, pelo direito de auto-
organização e pela possibilidade de escolher outro caminho de vida, se
assim desejarem. Na maioria das situações, ganhar o pão através da
entrega do corpo não é urna escolha, mas urna imposição de
circunstâncias econômicas e sociais.

Ao lado da luta das próprias prostitutas, contam elas com o apoio de


muitas organizações da sociedade civil. Por motivos religiosos ou
humanitários, muitas pessoas, no mundo inteiro, solidarizam-se com o
clamor de Justiça e de Amor desses seres humanos.
Os presos são um outro grupo excluído e oprimido. Em alguns países,
seus direitos não são definidos. Noutros, como no Brasil, há definição de
direitos, mas os direitos não são respeitados.
A única restrição legal contra o preso é justamente estar preso. Outras
restrições e punições suplementares são absolutamente irregulares e
dignas de repúdio.
Uma distinção extremamente séria é a que se deve fazer entre o preso
que não foi julgado e o preso que foi condenado. Em favor do preso que
não foi julgado existe a presunção da inocência.
As condições carcerárias, na maioria dos países, são
absolutamente anti-humanas.
Em outra parte deste livro, estaremos voltando a tratar
da situação do preso.
Os presos também tomam consciência de seus direitos. Seu grito de
Justiça é, às vezes, o grito surdo do desespero através da "rebelião de
presos". Em regra, como é o caso do Brasil, não se lhes reconhece o

17
CAP. HOSPITALAR
direito de auto-organização. A meu ver, esse é um direito extremamente
importante que lhes devia ser creditado.
Talvez, em parte, o poder que têm, dentro dos presídios, certas
organizações criminosas decorra da inexistência de representação
legítima e autônoma dos presos.

Capítulo 5
Direitos Humanos e Direitos da Natureza.

1. Os Direitos Humanos e os Direitos da Natureza.

o ser humano não é o único ser existente na Natureza. Ternos os animais,


as plantas, a vida que pulula no Céu, na Terra, nos Rios e nos Mares.
Há toda urna sinfonia de Vida.
Creio que podemos assinalar que vem crescendo na
Civilização urna dupla consciência:
a) a consciência ecológica referida ao ser humano; b) a consciência
ecológica referida à idéia cósmica.

2. A consciência ecológica referida ao ser humano.


Quando se pensa em consciência ecológica referida ao ser humano deve
ter-se em consideração o fato de que a Natureza serve ao Homem, mas o
Homem não tem o direito de destruir a Natureza. Ainda dentro dessa
visão, deve ser considerado que a vida continua, que as gerações se
sucedem, que o Homem de hoje tem compromissos com os netos e os
bisnetos dos netos, no infinito milagre da Vida.

3. A consciência ecológica referida à idéia cósmica.


Quando se reflete sobre a consciência ecológica dentro de uma
perspectiva cósmica, o homem deve considerar que não é habitante
exclusivo do Planeta. Deve conviver com as outras formas de vida e com
as outras formas de ser que não têm vida, mas têm existência. Então não
existem apenas "Direitos Humanos" mas também "Direitos dos Ani-
mais", "Direitos das Plantas", "Direitos da Natureza em sua totalidade
cósmica".

18
CAP. HOSPITALAR

4. Ecologia e modelo consumista de sociedade.


Os ecologistas, na sua obra de conscientização do povo para a causa, têm
procurado demonstrar que o respeito à Natureza é incompatível com um
modelo de sociedade voltado para o culto do consumo.
Neste ponto, a luta ecológica retoma o ensinamento do Cristianismo, do
Budismo, do Judaísmo, do Islarnismo, do Taoísmo, do Confucionismo e
de outras tradições religiosas, resumidos em diversas máximas e
prescrições.
O Cristianismo ensina que "a porta do Céu é estreita" 1 .

O Budismo diz que "a via virtuosa é a do meio"2. O Judaísmo manda


que seja dado repouso à terra3.

O Islamismo ensina que o homem é vigário de Alá,


como administrador dos bens da Criação4.
O Taoísmo prega a comunhão cósmica, vendo em cada ser um
prolongamento do "Princípio" (Tao). Esse Princípio é a Mãe de todas as
coisas5.
O Confucionismo aconselha a moderação e a "virtude da humanidade"
que, passando por etapas de aperfeiçoamento, deve levar ao reino da
virtude no Universo6.
As tradições dos Povos Indígenas reverenciam a Terra-Mãe, como fonte
de alimento e de vida, e o Céu e a Lua como pai e mãe 7.
Todas essas visões religiosas e filosóficas opõem-se
ao hedonismo egoísta.
Kierkegaard compreendeu todo o sentido da moderação ao afirmar que o
caminho pelo qual nós devemos passar é.o de estreitar-se, pois que a
estreiteza ela própria é o caminhos.

Capítulo 6
A particularização de determinados estados da
pessoa humana, para efeito de proteção especial.

1. Declarações específicas de direitos, abrangendo esta dos

19
CAP. HOSPITALAR
particulares da pessoa humana.
A "Declaração Universal dos Direitos Humanos" refere-se, nos seus
diversos artigos, aos seres humanos na sua globalidade, através das
expressões afirmativas "todo homem"ou "todos os homens" e através da
expressão negativa "ninguém".
Nas diversas línguas são utilizados vocábulos equivalentes para designar
sempre o conjunto da espécie humana.
Após a Declaração, foram elaboradas declarações específicas de direitos,
abrangendo estados particulares da pessoa humana, como a "Declaração
dos Direitos da Criança".
Na mesma linha, foram firmadas declarações, recomendações e
convenções visando à especial proteção da mulher, do racialmente
discriminado,_ do refugiado, do apátrida, do que vive em terra estranha,
do portador de retardamento mental, do deficiente, do preso.
Estes documentos serão discutidos neste capítulo. Outrossim,
documentos complementares vieram destacar ou realçar determinados
direitos humanos, rechaçar com veemência discriminações
particularizadas (como veremos no Capítulo 14), ou colocar condições e
meios efetivadores de direitos declarados (Capítulo 15).
Essas declarações provieram de diversas organizações internacionais,
como se verá.

2. A Declaração dos Direitos da Criança. A Declaração sobre os


princípios sociais e jurídicos relativos à proteção e bem-estar das
crianças.
A Declaração dos Direitos da Criança foi proclamada pela Assembléia
Geral das Nações Unidas, em 20 de novembro de 1959.
Nos seus considerandos, essa Declaração reporta-se à Carta das Nações
Unidas e à Declaração Universal dos Direitos Humanos para lembrar o
compromisso assumido pelos Povos, nesses documentos, de respeitar e
defender a pessoa humana.

A criança, por falta de maturidade física e mental, necessita de proteção


e cuidados especiais, inclusive a devida proteção da lei, tanto antes
quanto depois do nascimento, a fIm de que possa desfrutar dos direitos
inerentes ao ser humano e inerentes a ela, criança. Esta é a colocação
fundamental que justifIca e embasa a Declaração dos Direitos da
Criança.

20
CAP. HOSPITALAR
O Princípio 1 dessa Declaração estabelece a universalidade e
generalidade desses direitos. Os direitos devem ser reconhecidos a todas
as crianças, sem distinção de qualquer natureza, sem considerar
circunstâncias de nascimento, sem considerar quaisquer condições
relativas a seus pais.
O Princípio 2 determina que a criança goze de proteção especial e
disponha de oportunidades e serviços, de modo a poder desenvolver-se
física, moral, espiritual e socialmente, em condições de liberdade e
dignidade.
O Princípio 3 estatui que a criança, desde seu nascimento, tem direito a
um nome e a uma nacionalidade.

O Princípio 4 manda que a criança goze dos benefícios da segurança e


previdência social, que cresça e se desenvolva com boa saúde e que
receba, com sua mãe, os devidos cuidados médicos, inclusive cuidados
pré-natais.
O Princípio 5 assegura tratamento, educação e cuidados especiais à
criança que seja portadora de qualquer déficit físico ou mental.
O Princípio 6 define o direito da criança ao pleno e harmonioso
desenvolvimento da personalidade, em clima de amor e compreensão.
Sempre que possível, a criança deve ter o amparo dos pais e, se esse
amparo dos pais não é possível, deve ser assegurado a ela, em qualquer
hipótese, um ambiente de afeto e de segurança moral e material. Salvo
circunstâncias excepcionais, não se separará da mãe a criança de tenra
idade. O zelo pela criança é dever da sociedade e dos poderes públicos.
O Princípio 7 proclama o direito da criança à educação, que deverá ser
gratuita e obrigatória, pelo menos nas etapas elementares.
O Princípio 8 diz que a criança, em qualquer circunstância, deve estar
entre os primeiros a receber socorro.
A criança - manda o Princípio 9 - deve estar protegida contra toda forma
de abandono, crueldade ou exploração.

Finalmente, ,declara o Princípio lOque a criança deve estar protegida


contra as práticas que possam fomentar qualquer tipo de discriminação.
Deve ser educada num espírito de compreensão, tolerância, amizade
entre os povos, paz e fratemidade universal, com a consciência de que
deve consagrar suas energias e aptidões a serviço de seus semelhantes!.

1 Centro de Derechos Humanos. Ginebra. Derechos humanos -


Recopilación de instrumentos internacionales. Naciones Unidas. Nueva

21
CAP. HOSPITALAR
York, 1988. P. 366 e segs.

Em 3 de dezembro de 1986, as Nações Unidas, por sua Assembléia


Geral, aprovaram a "Declaração sobre os princípios sociais e jurídicos
relativos à proteção e bem-estar das crianças, com particular referência à
adoção e colocação em lares substitutos, no plano nacional e internacio-
nal" .

A Declaração afirma que, nessa matéria, deve prevalecer o interesse da


criança, sua necessidade de receber afeto, seu direito a segurança e a
cuidado continuado2.

3. Os direitos da mulher.

A situação da mulher e as discriminações de que, com freqüência, é


vítima mereceram o cuidado de diversos documentos da ONU e da OIT
(Organização Internacional do Trabalho ).
A OIT adotou uma convenção sobre a igualdade de homens e mulheres,
para a remuneração de trabalho de igual valor. Aprovada pela
Conferência Geral em 29 de junho de 1951, entrou em vigor no dia 23 de
maio de 19533.
Na ONU, a Assembléia Geral, em 20 de dezembro de 1952, abriu à
assinatura dos Estados a "Convenção sobre os direitos políticos da
mulher". Essa convenção estabeleceu a igualdade de homens e mulheres,
tanto para o direito de voto, como para o direito à elegibilidade,
abrangendo todos os organismos públicos eletiyos. A "Convenção sobre
os direitos políticos da mulher" entrou em vigor em 7 de julho de 19544.
EÍn 29 de janeiro de 1957, a Assembléia Geral das Nações Unidas
adotou a "Convenção sobre a Nacionalidade da Mulher Casada" (entrada
em vigor: 11 de agosto de 1958),

visando a defender os direitos da mulher casada, em matéria de


nacionalidade.
Essa convenção, já no seu primeiro artigo, estabeleceu que nem a
celebração, nem a dissolução do matrimônio entre nacionais e
estrangeiros, nem a troca de nacionalidade do marido durante o
matrimônio podem afetar automaticamente a nacionalidade da mulher5.
A Assembléia Geral das Nações Unidas, em 7 de novembro de 1967,
aprovou a "Declaração sobre a eliminação da discriminação contra a
mulher".

22
CAP. HOSPITALAR
No seu primeiro artigo, o documento declara que a discriminação contra
a mulher nega ou limita sua igualdade de direitos com o homem, é
fundamentalmente injusta e constitui uma ofensa à dignidade humana.

No segundo artigo, diz-se que deverão ser adotadas as medidas


apropriadas a fim de abolir as leis, costumes, regulamentos e práticas
existentes que Gonstituam uma discriminação contra a mulher. Da
mesma forma, deverão ser adotadas medidas apropriadas para assegurar
a proteção jurídica da igualdade de direitos entre os sexos.
No terceiro artigo, a Declaração afIrma que medidas deverão ser
adotadas para formar a opinião pública e orientar as aspirações nacionais
no sentido da eliminação dos preconceitos contra a mulher. Do mesmo
modo deverão ser abolidas as práticascconsuetudinárias ou de qualquer
natureza baseadas na inferioridade da mulher.
Nos artigos seguintes, a Declaração particulariza di
reitos que devem ser assegurados à mulher, em igualdade: direito de
votar e ser votada; direito de acesso aos cargos públicos; direitos em
matéria de nacionalidade; direitos no casamento; direito de ir e vir;
direito à educação em todos os níveis e direito à informação; direitos na
vida econômica e social.

Para melhor efetivar os princípios contidos na "Declaração sobre a


eliminação da discriminação contra a mulher", foi adotada pela
Assembléia Geral da ONU a "Convenção sobre a eliminação de todas as
formas de discriminação contra a mulher" (18 de dezembro de 1979).
Aberta a subscrição e ratificação, ou adesão, essa convenção entrou em
vigor no dia 3 de setembro de 19817.

4. O combate às discriminações raciais.


A prevenção das discriminações raciais e o combate a elas foram
presença constante em documentos das Nações Unidas.
Em 20 de novembro de 1963, a Assembléia Geral da ONU aprovou a
"Declaração das Nações Unidas sobre a eliminação de todas as formas
de discriminação racial"8.
Em 21 de dezembro de 1965, a Assembléia Geral, em prosseguimento,
adotou e abriu à subscrição dos Estadosmembros a "Convenção
Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação
Racial". Essa convenção entrou em vigor em 4 de janeiro de 19699.
Em 30 de novembro de 1973, a Assembléia Geral aprovou e colocou à

23
CAP. HOSPITALAR
disposição dos Estados-membros, para a competente adesão, a
"Convenção sobre a Repressão do Crime de ApartheÜf'. Essa convenção
entrou em vigor em 18 de julho de 197610.

Em 27 de novembro de 1978, a Conferência Geral da UNESCO aprovou


uma "Declaração sobre a raça e os preconceitos raciais".

No seu primeiro artigo, essa Declaração diz que todos os seres humanos
pertencem à mesma espécie e têm na mesma publicação citada na nota
anterior.

Nascem iguais em dignidade e direitos e formam parte integrante da


Humanidade.
Todos os indivíduos e grupos - prossegue a Declaração da UNESCO -
têm direito às suas diferenças. Mas o direito à diferença e à diversidade
não pode em caso algum servir de pretexto a preconceitos raciais, nem
pode legitimar qualquer prática discriminatória 11.
Em 10 de dezembro de 1985, a Assembléia Geral das Nações Unidas
adotou e abriu às assinaturas a "Convenção Internacional contra o
Apartheid nos Desportos". Tal convenção ainda não obteve o número de
adesões necessário para entrar em vigor12.

5. O apátrida, o refugiado, o que vive em terra estranha.


A situação dos apátridas e dos refugiados mereceu a
atenção das Nações Unidas.
A "Convenção sobre o Estatuto dos Apátridas" foi adotada em 28 de
setembro de 1954, por uma Conferência de Plenipotenciários convocada
pelo Conselho Econômico e Social da ONU. Entrou em vigor em 6 de
junho de 196013.
Essa convenção definiu como "apátrida" toda pessoa que não seja
considerada como nacional seu por qualquer Estado.
A "Convenção sobre o estatuto dos apátridas" estabelece que as
disposições da mesma convenção sejam aplicadas, no interior dos
Estados, a todos os apátridas, sem distinção de raça, religião ou país de
origem.
O estatuto pessoal de todo apátrida reger-se-á pela lei do país de
domicílio ou, na falta de domicílio, pela lei do país de residência.

24
CAP. HOSPITALAR

12 Na publicação mencionada na nota anterior,

Assegura-se ao apátrida o acesso aos tribunais de Justiça, o direito a


trabalho em condições não menos favoráveis que aos estrangeiros, o
ingresso no ensino público fundamental e o direito a assistência e
socorro públicos.
Em 30 de agosto de 1961, a Assembléia Geral da ONU, por
recomendação da Conferência de Plenipotenciários, adotou uma
"Convenção para reduzir os casos em que as pessoas ficam na condição
de apátridas". Essa convenção entrou em vigor em 13 de dezembro de
197514.
Quanto aos refugiados, as Nações Unidas, em vista da gravidade do
problema deles, nas mais diversas partes do mundo, criaram um "Alto
Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados", cujos Estatutos
foram aprovados pela Assembléia Geral da ONU em 14 de dezembro de
195015.
Posteriormente, em 28 de julho de 1951, uma Conferência de
Plenipotenciários que se reuniu em Genebra, por convocação da ONU,
adotou a "Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados". Essa convenção
entrou em vigor em 22 de abril de 1954.
A convenção definiu como "refugiado" todo aquele ser humano que,
perseguido por motivo de raça, religião, nacionalidade, opinião política,
ou por pertencer a um determinado grupo social, busca proteção em
outro país que não o seul6. '
Mais duas importantes posições tomou a Assembléia Geral da ONU, no
sentido da proteção dos refugiados e asilados:

a) a "Declaração sobre o Asilo Territorial", adotada em 14 de dezembro


de 196717;
b) a "Declaração dos direitos humanos dos indivíduos que não são
nacionais do país em que vivem"18.

6. Direitos do portador de retardamento mental.


A Assembléia Geral da ONU aprovou e proclamou em 1971 (20-12)
uma "Declaração de direitos do porj:ador de retardamento mental".
Fundamentou esse ,importante documento a consideração da necessidade
de ajudar os portadores de retardamento mental a desenvolver suas
aptidões, nas mais diversas esferas de atividade, bem como fomentar, na

25
CAP. HOSPITALAR
medida do possível, a incorporação deles à vida social normal.
Segundo a Declaração, o portador de retardamento mental deve gozar,
até o mais alto grau de viabilidade, dos mesmos direitos reconhecidos
aos demais seres humanos. Deve receber atenção médica, tratamento
físico, educação, capacitação, reabilitação e orientação que lhe permitam
desenvolver ao máximo sua capacidade e aptidões. Deve ter direito a
segurança econômica e a um nível de vida adequado. Deve ter direito, na
medida de suas possibilidades, a um emprego produtivo ou a alguma
outra ocupação útil19.

7. Direitos dos portadores de deficiência.


Uma "Declaração de Direitos dos Deficientes" foi proclamada pela
Assembléia Geral das Nações Unidas em 9 de dezembro de 1975.
Logo no início do documento, a "Declaração" define como deficiente
toda pessoa incapacitada de prover, por si mesma, no todo ou em parte,
as necessidades de uma vida individual ou social normal, como
conseqüência de uma deficiência física ou mental, congênita ou
adquirida.
o deficiente deve gozar dos direitos enunciados na "Declaração", sem
qualquer exceção e sem qualquer discriminação, refira-se essa ao próprio
deficiente ou a sua famI1ia.
O deficiente tem direito a que se respeite sua dignidade humana.
Qualquer que seja a origem, a natureza ou a gravidade de seus
transtornos ou deficiência, tem os mesmos direitos fundamentais que se
reconhecem aos concidadãos da mesma idade. Isto supõe, em primeiro
lugar, o direito de desfrutar de uma vida digna, a mais normal e plena
que seja possível2o.

8. Direitos do preso.
Em matéria de direitos das pessoas submetidas a detenção ou prisão,
vários documentos internacionais foram aprovados.
As "Regras mínimas para o tratamento dos reclusos" foram adotadas
pelo "Primeiro Congresso das Nações Unidas para a Prevenção do Delito

26
CAP. HOSPITALAR
e o Tratamento do Delinqüente" (Genebra, 1955). As "Regras mínimas"
foram aprovadas pelo Conselho Econômico e Social da ONU, em reso-
luções tomadas em 31 de julho de 1957 e 13 de maio de 1977.

As "Regras mínimas para o tratamento dos reclusos" estabelecem os


seguintes princípios fundamentais:

a) a aplicação geral das "Regras", sem qualquer discriminação de presos


ou grupos 'de presos;
b) a proibição de que alguém seja preso sem uma ordem válida de
detenção;
c) a exigência de registros pessoais a respeito do preso e do motivo da
prisão;
d) separação dos presos, considerando sexo, idade, antecedentes,
motivos da detenção, tratamento aplicável, circunstância de estar
preso preventivamente ou ter sido condenado, bem como de ser a
prisão civil ou criminal;

e) condições mínimas dos locais destinados aos reclusos, de modo a


que se salvaguarde a higiene e respeito àdignidade humana;

1) condições mínimas relacionadas com 'higiene pessoal,


alimentação, exercícios físicos, serviços médicos;
g) regras de disciplina e sanções submetidas à exigência de que não
imponham senão as restrições necessárias àsegurança e à boa
organização da vida em comum;
h) reconhecimento do direito de queixa, em favor do recluso, bem como
de contato com o mundo exterior;
i) direito à prática religiosa, com respeito à crença do preso;
j) especial cuidado com a escolha e formação do pessoal penitenciário;
k) direito e dever de trabalhar;
1) ajuda para a volta à vida normal, após o cumprimento da pena.

A "Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis,


Desumanas ou Degradantes" foi adotada e aberta a adesões, pela
Assembléia Geral das Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1984.
Entrou em vigor em 26 de junho de 1987.
Essa convenção definiu como tortura todo ato pelo qual funci_nário ou
pessoa no exercício de função pública inflija, intencionalmente, a uma

27
CAP. HOSPITALAR
pessoa dores ou sofrimentos graves, sejam físicos, sejam mentais, com o
fim de obter dessa pessoa ou de terceiro uma confissão, ou com o fim de
castigar, intimidar ou coagir21.

Preocupou-se a Assembléia Geral das Nações Unidas em definir uma


conduta ética para as pessoas que lidam com os presos. Neste sentido,
foram adotados:
- um "Código de conduta para funcionários encarregados de fazer
cumprir a lei,,22;
- "Princípios de ética médica aplicáveis ao pessoal de saúde,
especialmente os médicos, visando à proteção de pessoas presas ou
detidas, contra a tortura e outrSs tratamentos ou penas cruéis, desumanas
e degradantes,,23.
Esses documentos comprometem esses funcionários e profissionais, na
obrigação de preservar os direitos e a dignidade do preso contra os atos
que possam violá-Ios.
O "Código de conduta para os funcionários" foi adotado em 17 de
dezembro de 1979 e os "Princípios de ética médica" em 18 de dezembro
de 1982.

9. Direitos do menor infrator.

No que se refere a menores infratores, o "Sétimo Congresso das Nações


Unidas sobre Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente" (Milão,
26 de agosto a 6 de setembro de 1985) adotou cuidados especiais. Editou
"Regras mínimas para a administração da Justiça de Menores,,24.
A filosofia dessas "Regras" está condensada em alguns de seus
Princípios Gerais:
- esforcem-se os Estados para criar condições que garantam ao menor
uma vida útil na comunidade;
- mobilizem-se todos os esforços comunitários para promover o bem-
estar do menor;
- conceba-se a Justiça de Menores como parte integrante do

28
CAP. HOSPITALAR
desenvolvimento nacional de cada país, admirtistrada tendo como marco
fundamental a Justiça Social.

10. Direitos das vítimas de crimes.

Também trataram as Nações Unidas de adotar uma "Declaração sobre


princípios fundamentais de Justiça para as vítimas de delitos e do abuso
de poder".
Essa Declaração foi recomendada pelo "Sétimo Congresso das Nações
Unidas sobre Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente" (Milão,
1985) e adotada pela Assembléia Geral da ONU em 29 de novembro de
198525.
São definidas como "vítimas" as pessoas que, individual ou
coletivamente, hajam sofrido danos, inclusive lesões físicas ou mentais,
sofrimento emocional, perda financeira ou desprezo pelos direitos
fundamentais da pessoa, como conseqüência de ações ou omissões que
violem a legislação penal, inclusive a que proíbe o abuso de poder.

Capítulo 7
A proscrição da tortura e do tratamento ou castigo cruel,
desumano ou degradante.
O direito, que todo ser humano tem, de ser reconhecido como
pessoa.
Será possível atualizar e ampliar os artigos V e VI, da Declaração?

1. O direito que toda pessoa, condenada pela Justiça, deve ter de


receber da sociedade os cuidados devidos para sua reinserção social.

29
CAP. HOSPITALAR

O artigo V tem como seu principal destinatário o indivíduo detido ou


preso. Mas não se esgota aí o sentido das proibições, se_undo a
interpretação, que nos parece correta. Contudo, é so15retudo na situação
de estar preso, recluso ou detido que a pessoa humana pode mais
freqüentemente ser vítima de tortura e de castigo ou tratamento cruel,
desumano ou degradante.
O artigo V, com a sua atual redação, contém somente a proibição de
castigos ou tratamentos contrários à dignidade humana. Não contém o
reverso das proibições, quais sejam' as afIrmações do tratamento a que as
pessoas têm direito. .
No que serefere à pessoa do preso, foram propostas à adesão das nações
as "Regras mínimas para o tratamento dos reclusos". Além de buscar a
preservação do respeito à pessoa do preso, as "Regras mínimas" querem
que o preso seja submetido a tratamento, que se reconheça a ele o direito
e o dever de trabalhar, que se tenha especial cuidado nà escolha do
pessoal penitenciário e que se proporcione ao expreso ajuda para a
reinserção social, depois do cumprimento da pena.
Também foi aprovado, no seio da ONU, um "Código de conduta para
funcionários encarregados de fazer cumprir a lei" e ainda os "Princípios
de ética médica aplicáveis ao pessoal de saúde, especialmente os
médicos, visando à proteção de pessoas presas ou detidas, contra a
tortura e outros tratamentos ou penas cruéis, desumanas e degra-
dantes".
Não obstante a existência desses documentos, creio que pelo menos um
princípio geral sobre este ponto deveria integrar o corpo da "Declaração
Universal". Seria um artigo que afIrmasse o direito de todo ser humano,
condenado pela Justiça, a receber da sociedade os cuidados devidos para
sua reinserção social.

2. Os direitos dos presos e os direitos das vítimas.


O tema dos direitos do preso freqüentemente suscita polêmica. Quando
se fala em "direitos do preso" há quem pergunte, em réplica: e onde
ficam os direitos das vítimas dos crimes? São questões diferentes.
E óbvio que as vítimas têm direitos, sobretudo:

30
CAP. HOSPITALAR

a) o direito de que o autor ou os autores dos crimes


sejam descobertos e julgados na forma da lei;
b) o direito de reparação econômica, moral, social e psicológica do dano,
lesão ou ofensa, de acordo com o caso, quando o autor do delito possa
fazê-Ia;
c) o direito de assistência e reparação da sociedade, no
seu conjunto, de modo a minorar os efeitos desastrosos do crime, seja
relativamente à própria vítima, seja relativamente à família da vítima.

Os direitos das vítimas não se opõem aos direitos dos autores dos crimes.
Ambos devem ser contemplados pela "Declaração Universal dos Direitos
Humanos".

3. Criminosos irrecuperáveis?
Os autores de crimes, se condenados pela Justiça, têm direito à plena
reinserção social, não importando o crime que tenham praticado.
É comum que se diga que certos criminosos não têm recuperação. É
comum que se rotulem determinados crimes como tipos nos quais a
recuperação é inviável. Neste rol se incluem, por exemplo, certos crimes
contra o patrimônio, como o furto.
Não há evidência científica que prove a impossibilidade da recuperação
do ser humano que tenha praticado um ato anti-social.
Há fundados estudos que provam a inviabilidade da recuperação através
do encarceramento, da segregação e do tratamento do criminoso como se
o criminoso fosse uma fera. Neste campo há pesquisas empíricas e
estudos teóricos relevantíssimos, como os de Arruda Campos (A Justiça
a Serviço do Crime), Michel Foucauld (Vigiar e punir), E. Goffman
(Manicômios, prisões e conventos), Teresa Miralles & outras (O sistema
penal na cidade do Rio de Janeiro), Giles Playfair & Derrick Sington
(Prisão não cura, corrompe), Orlando Soares (Extinção das prisões e dos
hospitais psiquiátricos), Thomas S. Szasz (A fabricação da loucura) e
Augusto Thompson (A questão penitenciária)l.
I Ver as indicações bibliográficas completas das obras citadas na bi-
bliografia que aparece no final desta obra.

É fora de dúvida não ser possíveL que se opere a recuperação de quem


delinqüiu, se nenhum esforço for feito para que a pessoa restaure sua

31
CAP. HOSPITALAR
existência.
No trabalho para obter a reinserção social de uma pessoa que praticou
um crime, um papel decisivo, segundo minha experiência, cabe ao juiz.
No imaginário do indivíduo que delinqüiu, o juiz representa a entidade
psicológica capaz de promover o equihôrio perdido.
Acendem uma luz de esperança, no sentido da reinserção social de quem
algum dia foi alcançado pela Justiça Criminal, trabalhos como o de
Maria Dora Ruy Evangelista (Prisão aberta: a volta à sociedade), Alípio
Silveira (Prisão-albergue e regime semi-aberto) e Armida Bergamini
Miotto (Cumprimento da Pena na Comunidade; Permanência e
reintegração dos condenados no convívio social)2.
Sobre o uso de alternativas para a prisão, suponho que também dei uma
contribuição com a experiência que realizei, como juiz criminal, em Vila
Velha, município integrante da chamada "Grande Vitória", no Estado do
Espírito Santo. Em cima da experiência, realizei uma pesquisa sócio-
jurídica que foi relatada no livro "Crime, tratamento sem prisão,'3.

4. O direito que a pessoa processada tem à palavra do juiz.

No exercício do ofício de magistrado, pude sentir o quanto é importante,


para quem praticou- um crime, a palavra do juiz.
Se se trata de um culpado, a sentença condenatória, proferida em clima
de comunicação humma, pode repre

2 Idem, idem.

3 Ver a indicação bibliográfica completa, no final do volume.

Sentar a devolução da paz interior. Se se trata de alguém que praticou


um crime sem dolo, nem culpa, a sentença pode significar uma liberação
pskológica.
Certa vez, dei uma sentença absolutória, em favor de um motorista que,
segundo minha consciência, à face das provas, havia matado uma criança
sem que tivesse agido de maneira imprudente, negligente ou com
imperícia. Depois de ter ouvido a sentença, o acusado me perguntou:

32
CAP. HOSPITALAR

"Doutor, o senhor está seguramente convencido de que eu não tive


culpa?"
Eu respondi:
"Sim, estou. Por essa razão, eu o absolvi".
Ele voltou a perguntar:
"Não ficou em seu espírito nenhuma dúvida, doutor?" "Absolutamente
nenhuma", eu lhe assegurei.
Ele então declarou:
"Doutor, que pesadelo termina hoje para mim. O senhor não pode
calcular o que essa sentença representa na minha vida".

5. Ampliação da abrangência da proibição de tortura e de castigo ou


tratamento cruel.
A meu ver, uma boa interpretação conduz a concluir que o artigo V
proíbe a tortura e o tratamento cruel, desumano ou degradante contra a
pessoa humana, também quando praticado por particulares ou por
instituições sociais. Assim, é intolerável que a fallll1ia, a escola, as
instituições de acolhimento a menores, os hospitais psiquiátricos adotem
ou admitam castigos ou tratamentos condenados pelo dispositivo. Pais,
professores, médicos, enfermeiros e outros profissionais incorrerão nas
iras do artigo V se dispensarem tratamento cruel, desumano ou
degradante aos filhos, no âmbito da fallll1ia, ou a crianças e doentes, no
âmbito das instituições mencionadas.
Se por via hermenêutica pode-se inferir essa maior abrangência do artigo
V, talvez fosse conveniente a expressa referência a todas as situações em
que o tratamento desumano e cruel pode ocorrer, em futuros documentos
internacionais, ou numa eventual rediscussão ampla da Declaração
Universal.

33
CAP. HOSPITALAR

Capítulo 8
A igualdade perante a lei e o direito de igual
proteção da lei. O direito de acesso aos tribunais. Debate em torno
da ampliação ou atualização de idéias, relativamente aos artigos 7 e
8 da Declaração dos Direitos Humanos.

1. O princípio da igualdade perante a lei e da igualdade na proteção


da lei e suas exigências contemporâneas.
O direito de "igualdade perante a lei" vem experimentando uma
crescente sedimentação na consciência de pessoas e de povos.
Mas é bastante viva também a convicção da insuficiência de uma
simples "declaração formal de igualdade". A real igualdade, que se
impõe, assume uma face exigente de condições econômicas que
propiciem de fato a igualdade. Projeta-se no problema das relações entre
os países e culmina pela reivindicação de uma verdadeira igualdade entre
todos os seres humanos. Veremos todos esses pontos nos itens que se
seguem.

2. Insuficiência da igualdade formal.


Está bastante forte, no interior das mais diversas cole
tividades humanas, a idéia de insuficiência de uma simples "declaração
formal de igualdade perante a lei".

Em toda parte, soa a denúncia da pequenez de uma bombástica


declaração de "igualdade perante alei", quando condições econômicas e
sociais estabelecem um fosso entre os seres humanos.

3. Falência da igualdade perante a lei, desvinculada da questão


internacional.

Também se aviva e cresce na consciência da Humanidade a idéia da

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falência de uma pretendida "igualdade perante alei", que se operasse
apenas no interior das nações. Mesmo essa "igualdade perante alei", no
plano da vida interna dos países, tem vínculos com as questões
internacionais.

Não é possível que o princípio da real igualdade perante a lei e da real


igualdade de proteção da lei subsista, concretamente, se condições
prévias de Justiça internacional não são atendidas. Relações
internacionais de exploração estabelecem mecanismos que aumentam a
distância entre países ricos, cada vez mais ricos, e países pobres, cada
vez mais pobres. A carência ou o insuficiente sentido de Justiça e so-
lidariedade entre os povos torna muito difícil o caminho em direção à
prosperidade e ao desenvolvimento. Principalmente quando se trata de
nações marcadas por graves dificuldades substanciais ou conjunturais.

4. Não apenas igualdade perante a lei, mas efetiva e radical


igualdade entre as pessoas.
A idéia de igualdade perante a lei vem sendo enriquecida por uma
concepção radical de igualdade profunda entre todos os seres humanos.
A essa idéia radical de igualdade repugna qualquer concessão a
desigualdades específicas. Nenhum ser humano, nenhum grupo humano,
nenhum povo pode ficar fora do direito à igualdade.

5. Rejeição absoluta das discriminações.


Cresce na visão ética dos povos a visceral rejeição a todo tipo de
discriminação.
Talvez esta seja a mais importante bandeira política do mundo moderno
porque, não obstante o crescimento da consciência de igualdade do
gênero humano, há bolsões de resistência. Infelizmente, o racismo, a
intolerância para com o estrangeiro, as discriminações baseadas em sexo,
religião, nacionalidade, origem social, riqueza não constituem coisa do
passado.
Outro problema grave: mesmo quando se proclama a igualdade e se
recusam as discriminações nos tratados, nas constituições, nas leis, as
situações concretas de desigualda: de e discriminação perduram.

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6. Apontando para o futuro, no amparo judicial de direitos. Que seja


urna garantia concreta, palpável.
Também no que se refere ao "amparo judicial de direitos" cresce o
sentimento da necessidade de que este seja um princípio concreto e
efetivo, não apenas teórico. Que vigorem relações humanas e sociais sob
o signo da Justiça e do Direito. Que direitos eventualmente pisoteados
tenham pronto remédio contra a usurpação ou o abuso através do
caminho dos tribunais.

7. Os pobres não têm acesso à Justiça.


Reconhece-se que o maior obstáculo ao amparo judicial de direitos
localiza-se na condição econômica das pessoas. São sobretudo os pobres
que não têm o direito de receber dos tribunais o remédio efetivo para os
atos que violam os direitos fundamentais da pessoa humana.
Será impossível haver uma igualdade na Justiça onde vigora a mais
brutal desigualdade no conjunto das relações sociais. Se as estruturas
sociais são visceralmente injustas, a igualdade e a democratização da
Justiça constituem mero jogo de palavras.

8. Luta, no interior das instituições judiciárias, para que se efetive o


direito ao amparo judicial.
De qualquer forma, esforços devem ser feitos, no campo específico das
instituições judiciárias, de modo a possibilitar a todas as pessoas o
"amparo judicial dos direitos". Não há apenas a luta global, que abarca o
conjunto das instituições econômicas e sociais, para ser travada. Há
também a luta no microorganismo da Justiça-instituição.

9. Justiça independente e democrática, recrutamento ético de

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magistrados.
Impõe-se que haja uma Justiça independente, democrática, sem
submissão aos poderosos e sem ligação ideológica com grupos e classes
dominantes.
O recrutamento de juízes haverá de atender a critérios éticos
rigorosíssimos. O nepotismo, o protecionismo e o afilhadismo hão de ser
banidos dos tribunais.

10. Advogados à disposição das pessoas pobres.


Advogados competentes, solícitos, condignamente remunerados deverão
estar à disposição dos mais pobres. Não pode haver Justiça sem o acesso
dos pobres ao patrocínio do advogado. Na complexidade das sociedades
modernas, não pode haver democracia judiciária sem a democratização
do serviço advocatício.

11. Papel do Ministério Público.


A instituição do Ministério Público, existente nas mais diversas
organizações judiciárias do mundo, há de cumprir o seu papel de
promotora da Justiça, de tutora e guarda dos grandes interesses coletivos.
O realce ao papel político do Ministério Público, aos deveres sociais e
comunitários dessa instituição vem ganhando grande expressão na
consciência jurídica do povo.

12. Juízespróximos do povo. Justiça rápida e transparente.

Juizes e tribunais devem estar o mais próximo que for possível dos
pleiteantes.
A Justiça haverá de ser rápida, transparente, altamente confiável,
tratando -todas as pessoas com igualdade, humana e receptiva face dos
fracos, independente e altaneira diante dos fortes.

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ALACE

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