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Carta aberta da Abrapso aos/às governantes recém-empossados/as | 31/12/2010 | www.abrapso.org.

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POR UMA GESTÃO PÚBLICA


JUSTA, DEMOCRÁTICA E IGUALITÁRIA
A Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO) No período eleitoral, preocupou-nos sobremaneira o
foi criada em 1980, com o firme propósito de construir modo como debates em torno de questões fundamentais
uma Psicologia Social Crítica, distinta daquela que aos Direitos Humanos foram tratados de modo
dominava a produção intelectual e as intervenções dos superficial e moralizante. Com isto, nos referimos tanto
profissionais em psicologia e áreas afins: alheias à ampla à cruzada ideológica encampada pelo candidato José
injustiça social que caracterizava a sociedade brasileira. Serra, bem como a resposta “em defesa da vida”
Em sua origem, a ABRAPSO se posiciona, pois, como uma oferecida pela, à época candidata, Dilma Roussef. Na
entidade que define ciência e política como defesa de uma sociedade justa e igualitária, faz-se
indissociáveis e defende a manutenção de uma postura importante perguntar pelo significado da moralização da
crítica frente a ambas, de modo a construir para uma luta por direitos democráticos e, dessa forma, a quem
sociedade mais democrática com justiça social. ela visa beneficiar e sobre qual projeto de sociedade
estarão assentadas as bases da nova gestão.
Recentemente, durante o segundo turno das Eleições
2010, nossa entidade publicou uma Carta Aberta à Consequentemente, sob que horizontes e na busca de
sociedade brasileira, na qual reafirmamos nosso lugar qual projeto de sociedade gestão recém-eleita
político e nos manifestamos criticamente em relação ao respondeu que é “defensora da vida”, ao ter sido
possível retrocesso de conquistas democráticas questionada sobre sua posição quanto à
alcançadas nos últimos anos. Na oportunidade, descriminalização do aborto? Sob que horizontes e na
questionávamos: “Qual projeto de sociedade queremos e busca de qual projeto não explicitaram o apoio a
estamos construindo?” Nosso posicionamento, naquele direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e
momento, buscava fazer frente ao modo com as Transexuais? Por que não questionaram o
discussões eleitorais se caracterizavam: sustentadas em conservadorismo de setores religiosos que insistem em
argumentos moralistas, ao invés de uma postura firme tratar a homossexualidade como pecado, a manter a
na defesa de direitos fundamentais da pessoa humana. discussão do aborto entre favoráveis e contrários,
simplificando o debate e nomeando a lei pela
Neste momento, em que toma posse a nova presidência criminalização da homofobia como “lei da mordaça” e a
e se institui nova composição legislativa, além de dar descriminalização do aborto como um ato de
boas-vindas aos novos/as governantes, firmarmos uma assassinato? Essas questões são caras à democracia
postura crítica frente aos últimos oito anos. Nesse brasileira e não podem ser tratadas do ponto de vista
sentido, a ABRAPSO busca trazer alguns apontamentos, moral e sim a partir do respeito aos direitos humanos. O
com o sincero objetivo de contribuir para o debate preconceito e a intolerância raciais, territoriais, por
democrático. Com isso, reafirma sua posição expressa na orientação sexual, de gênero, classe social, dentre
primeira Carta Aberta e enfatiza sua rejeição a qualquer tantas outras expressões, vem crescendo
moralização de demandas democráticas e/ou à
assustadoramente em nosso país e esse tipo de discurso
construção e manutenção de desigualdades. vindo de nossos governantes apenas contribui para o
Neste cenário, preocupa-nos sobremaneira a ordem aumento de manifestações desse tipo. Também é
neoliberal inscrita em atos governamentais que, nos cúmplice, o silêncio frente a posturas intolerantes.
últimos anos, resultaram em ampla terceirização, na Como associação científica e profissional que somos,
precarização das condições de trabalho, na privatização destacamos a preocupação com a redução do orçamento
da saúde e da educação, dentre tantos outros público federal aprovado para o ano de 2011,
problemas. Trata-se de enorme retrocesso às lutas especialmente no que se refere a investimentos em
populares por melhores condições de existência e por pesquisa e educação. Frente a isso, gostaríamos de
uma sociedade justa e igualitária. Não podemos atentar para a necessidade de: 1) avançar rumo a uma
esquecer também do descaso com conquistas política sustentável para a formação de pesquisadores e
democráticas já obtidas por essas lutas, como vem de profissionais em psicologia e áreas afins; 2) de
sendo o caso do Sistema Único de Saúde ou com a Rede
manter e ampliar o processo de contratação de
Pública de Ensino, em todos os seus níveis. Nosso professores nas universidades federais; 3) de garantir
questionamento, obviamente, não se refere aos fomento por parte de agências de apoio à pesquisa e
princípios, mas a sua forma de implementação, que ensino; 4) de garantir bolsas para o desenvolvimento de
muitas vezes repete antigos formatos, sob novos atividades de pesquisa e extensão para estudantes tanto
argumentos. de graduação como de pós-graduação; 5) de respeitar as
Em relação aos Direitos Humanos, de maneira ampla, especificidades da área de Ciências Humanas e Sociais
não se pode esquecer da constante criminalização, tanto com relação aos seus critérios internos de produtividade
dos movimentos sociais combativos da cidade e do e relevância na produção do saber acadêmico.
campo, como da pobreza, que acabaram culminando em A ABRAPSO se opõe a toda forma de exploração,
episódios críticos tais como os recém-assistidos na opressão, exclusão, preconceito ou de descaso com as
cidade do Rio de Janeiro. Também não podemos
políticas públicas e sociais. Espera dos/as governantes,
esquecer que, à custa de evitar qualquer embate com a eleitos/as pelo voto popular, que também tenham essa
alta cúpula militar, a postergação na abertura dos postura e que contribuam, do lugar que estão ocupando,
Arquivos da Ditadura e a manutenção da Anistia a para a construção de uma sociedade justa e igualitária.
torturadores apenas pune, mais uma vez, vítimas e
familiares dessa triste passagem de nossa história, que Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO)
constantemente se busca silenciar. Recife, 31 de dezembro de 2010