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MARIA RITA KEHL ZIMBARDO ZYGMUNT BAUMAN

Redescobertas Tempo e Medo na


do feminino dinheiro modernidade líquida
aLltJN l l r l L A M t K I L A I N VL ^^^^

raenteáo
c é r e b r o ANO XXI
N°261
R$ 12,90
€4,90
psicologia I psicanálise I neurociência

O transtorno
As novas teorias psiquiátrico mais
da CONSCIÊNCIA comum do mundo
aparece em forma
ALUCINÓGENOS de fobias, angústia,
usados como remédio
para doenças mentais falta de ar e até dores
físicas. A boa notícia
Uma história ilustrada é que há tratamentos
do CÉREBRO além da medicação

EDIÇÃO E S P E C I A L DE ANIVERSARIO
A realidade pelos
olhos do idioma

Revista Língua Portuguesa

revistalingua
BANCAS!
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A Revista Língua leva ao leitor as grandes questões de


linguagem que marcam nossa relação com o mundo. A língua s e g m e n t o
é feita daquilo que somos, mas de que nem sempre nos damos editores de educação
conta. Está nas artes, na cultura, nas revelações do cotidiano, Central de Atendimento
traindo preconceitos e virtudes, expondo nossa identidade em (11)3039-5666
meio à diversidade que caracteriza a língua portuguesa. atendimento@editorasegmentoxom.br
c a r t a a o leitor

Percalços e prazeres da travessia


H
oje escrevo e m verde e vermelho. a ela para não perder de vista o novo que
Não sei o que diriam os cromotera- invariavelmente se apresenta. L e m o s , pes-
peutas ou experts e m matizes e se- q u i s a m o s , a p a r a m o s arestas, e n c o n t r a m O T i
miótica, m a s para m i m , são cores de alegria c a m i n h o s . E a cada edição, quando a revis-
- nuances de u m a festa íntima, que m e pro- ta chega da gráfica, d e s c o b r i m o s - s e m p r e
ponho partilhar. Nada contra outras cores - s u r p r e s o s - que ela não está de fato pronta.
a m o u m a variedade delas e até m e s m o seu Periodicamente reaprendemos que é no en-
excesso e às vezes ausência, - m a s confesso: contro c o m o leitor que ela ganha represen-
e s s a s duas são as minhas preferidas. Poderia tações e possibilidades, expande-se e esta-
até pensar na bandeira dos países de onde belece diálogos múltiplos. Deixa de ser ape-
v i e r a m m e u s bisavós, Itália e Portugal, m a s nas papel e tinta, ganha representações. E,
receio que lembranças de enfeites de Natal, nessa ânsia de fazer-se, torna-se, de a l g u m
flores escarlates entre folhagens, u m vestido jeito, parte de outras m e n t e s .
e m t o m cereja e talvez u m mar de esmeral- Este m ê s , o t e m a da capa é a ansiedade,
da visto n u m verão antigo m e digam mais à considerado o transtorno psiquiátrico m a i s
a l m a . Pura associação livre... Voltando à fes- frequente nos dias atuais. E, falando ainda
ta, esta edição marca os dez anos de Mente e e m travessia, penso nesse quadro como
Cérebro, e é c o m grande satisfação que nós, u m a espécie de percalço do c a m i n h o . O
aqui da redação, dividimos este m o m e n t o desconforto gémeo da angústia, frequente-
c o m leitores e colaboradores que, ao longo mente expresso e m s i n t o m a s físicos - u m a
de u m a década, participam da proposta de ânsia que c a u s a dor, aflige o peito e torna
divulgar informações científicas sobre o uni- o ar e s c a s s o , - t e m c o m o característica o
verso " p s i " de forma acessível e ao m e s m o p e n s a m e n t o voltado para o futuro, s e m a
t e m p o criteriosa. É trabalho duro, claro, m a s possibilidade de viver o " r e a l " do presente.
t a m b é m t e m algo de sonho e desejo que a Ansiedade acorda e m nós a s e n s a ç ã o de
cada m ê s se concretiza e m forma de solu- que nos ronda algo muito r u i m , inescrutável
ções gráficas, imagens e palavras. c o m o u m m u n d o s e m cores. E nos rouba o
É c o m o aquela frase de G u i m a r ã e s R o s a : sortilégio de saber que nada está pronto, a
" D i g o : o real não está na saída n e m na che- vida está e m m o v i m e n t o , construindo-se o
gada, ele se dispõe para a gente é no meio t e m p o todo. Felizmente há s a í d a s . . .
da t r a v e s s i a " . O percurso de Mente e Cére- Feliz aniversário para todos n ó s .
bro é bem a s s i m . A cada edição partimos Boa leitura.
c o m a bagagem do que já foi experimentado GLÁUCIA L E A L , editora
e aprendido, m a s s e m nos atermos d e m a i s glaucialeal@duettoeditorial.com.br
£ sumário | outubro 2014 CAPA: ARTE DE JOÃO S I M Õ E S S O B R E F O T O D E MALERAPASO/E+/GETTY IMAGES

capa
24 Ansiedade
por Fernanda Teixeira Ribeiro
O quadro, bastante frequente, pode causar problemas
físicos e psíquicos, a ponto de comprometer a
vida afetiva e profissional. Meditação, acupuntura,
psicoterapia e alterações no estilo de vida são
fundamentais para combater o problema

32 Mais neurónios,
mais equilíbrio
por Mazen A. Kheirbek e René Hen
O aumento da produção de células cerebrais pode
ajudar a criar e a fixar novas memórias, contribuindo
para reverter sintomas de pânico, estresse pós-
traumático e outros transtornos de ansiedade

18 A mínima diferença 56 Q u e coisa feia!


por Maria Rita Kehl por Susanne Rytina
O s ícones de feminilidade têm se modificado e as N u m a sociedade em que as queixas em relação à
diferenças entre os sexos, se diluído, mas permanecem aparência e a busca pela perfeição do corpo e
impasses sobre sexualidade, amor e desejo da pele são tão frequentes, algumas pessoas
supervalorizam as próprias "falhas" físicas,
3 8 M e d o e m o d e r n i d a d e líquida a ponto de se considerarem deformadas
por Zygmunt Bauman
Durante a maior parte de nossa vida estamos submetidos 6 2 U m a história i l u s t r a d a d o cérebro
a algum sofrimento e tememos a dor; liberdade e por Isabelle Bareither
segurança são - e sempre serão - inconciliáveis Século após século, cientistas avançam
nas pesquisas tentando entender a
50 Sim, tempo é dinheiro complexidade neurológica
por Philip Zimbardo, Nick Clements e
Umbelina Rego Leite 7 0 A s n o v a s t e o r i a s d a consciência
Estudo realizado em seis países, incluindo Brasil, por Christof Koch
mostra o que pessoas de diversas nacionalidades levam Neurocientistas trabalham com a hipótese de que essa
em conta na hora de comprar e investir e quanto a capacidade fundamental surja no momento em que a
noção de temporalidade influencia essas decisões informação é transmitida pelo cérebro

4 I mentecérebro I outubro 2014


s e ç o e s nas bancas
CARTA DA EDITORA ENIGMAS DA CONSCIÊNCIA
Pensar sobre a consciência nos aproxima de um dos
6 PALAVRA D O LEITOR maiores mistérios da existência. A experiência cons-
ciente é ao mesmo tempo extremamente familiar e
profundamente estranha. Na maior parte do tempo
A S S O C I A Ç Ã O LIVRE temos consciência de nós mesmos, do mundo ao redor
Notas sobre atualidades, - mas é muito difícil conciliar esse saber com todos os
psicologia e psicanálise nossos outros conhecimentos. "Essa questão ocupa
hoje um lugar privilegiado porque a biologia em geral,
e a neurociência em particular, alcançaram notável êxito
11 NA REDE em decifrar segredos da vida", escreve o neurocientista
O que há para António Damásio, chefe do departamento de neurologia
ver e ler na internet da Faculdade de Medicina da Universidade de lowa, em um dos artigos que fazem
parte do Especial Mente e Cérebro Consciência. "Elucidar a base neurobiológica da
mente consciente, versão do clássico problema-alma, tornou-se quase que um desafio
12 CINEMA residual", afirma o autor de O erro de Descartes, Em busca de Espinosa e O mistério da
Violette
consciência, publicados no Brasil pela Companhia das Letras. Além dele, nessa edição
por G l á u c i a L e a l
outros especialistas discutem o tema tão enigmático quanto fascinante.

no site
44/76 NEUROCIRCUITO
Novidades nas áreas de
psicologia e neurociência

78 LIVRO A ORIGEM DO CARISMA


O que o cérebro tem para contar
por G l á u c i a L e a l Do grego khárisma, "dom da graça", a palavra
carisma encerra vários significados: poder de
fazer milagres, habilidade de profetizar e de in-
80 LANÇAMENTOS fluenciar os outros. O psicólogo social Alexander
Haslam, da Universidade de Exeter, na Inglaterra,
concentra-se nessa última definição no artigo

colunas " O brilho do c a r i s m a " , publicado no site de


Mente e Cérebro. Escritos de milhares anos já
relacionavam carisma e capacidade de liderança.
Sócrates chegou a dizer que é uma qualidade
inata e que apenas " u m irrisório número de pes-
14 PSICANÁLISE soas" é capaz de cativar seguidores e comandar.
Não mais do que 30 horas Descobertas recentes, porém, questionam o
por Christian Ingo Lenz Dunker caráter inato do carisma - o mais provável é que
resulte de uma cuidadosa elaboração. "Todos
podem aprender a cultivar o próprio carisma.
16 CUIDE-SE!
- Basta entender como os grupos pensam", afirma
Você e seu microbioma
H a s l a m . Leia em www.mentecerebro.com.br.
por Suzana Herculano-Houzel

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82 LIMIAR
NOTÍCIAS Notas sobre fatos relevantes nas áreas de psicologia, psicanálise e neurociência..
Enquanto a casa cai
por Sidarta Ribeiro AGENDA Programação de cursos, congressos e eventos.

O S A R T I G O S P U B L I C A D O S N E S T A E D I Ç Ã O S Ã O DE R E S P O N S A B I L I D A D E D O S A U T O R E S E N Ã O E X P R E S S A M N E C E S S A R I A M E N T E A O P I N I Ã O D O S E D I T O R E S .
p a l a v r a d o leitor
O M O M E N T O "AHA!"
O artigo "5 passos para ter u m a grande ideia", capa da Mente e Cérebro de s e t e m b r o , m e
ajudou a enxergar a criatividade de outra f o r m a , muito além do senso c o m u m de que ela é u m a
" i n s p i r a ç ã o " de origens d e s c o n h e c i d a s , restrita a uns poucos privilegiados. Fiquei realmente
impressionada ao saber que a ciência já é capaz de c o m p r e e n d e r o que há de "diferente" na
mente de pessoas que p e n s a m c o m originalidade e t a m b é m de mapear as etapas de evolu-
ção do insight. Foi m a r a v i l h o s o saber que está ao alcance das pessoas c o m u n s reconhecer
e aprimorar as boas ideias que s u r g e m no dia a dia!
Luiza Cardoso - São Paulo, SP

COMPETIÇÃO POR BOLSAS


Pensei sobre o t e m a [coluna Quem avalia os avaliadores, de
Christian Dunker, da edição 260, sobre a cultura universitária
que prioriza quantidade à qualidade das produções académi-
cas] dias desses. Estou sendo obrigado a fazer o Exame Nacio-
nal de D e s e m p e n h o de Estudantes (Enade). Entupiram-me
de orientações e esclarecimentos a respeito da importância
SOBRE CRIANÇAS dessa avaliação. M a s fiquei m e questionando: e a m i n h a
Fico contente quando Mente e Cérebro publica textos sobre opinião sobre a m i n h a própria formação? Ninguém quer
o funcionamento mental de c r i a n ç a s . N a edição 260 gostei saber, apenas sirvo para fazer provas. Eternamente testado.
especialmente das n o v i d a d e s a p r e s e n t a d a s e m " D o que Carlos Barroso - via Facebook
as crianças se l e m b r a m " . Aproveito para sugerir que seja
feito u m especial sobre d e s e n v o l v i m e n t o infantil, pois te-
nho certeza de que a revista teria m u i t o a contribuir para a
ampliação do c o n h e c i m e n t o tanto de profissionais quanto
de leigos interessados no a s s u n t o . A l i á s , seria ó t i m o se
vocês reeditassem a m a r a v i l h o s a série "A mente do bebé".
Sônia Loureiro - Campinas, SP

mente
cérebro
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PARANÁ - SANTA CATARINA - TOCANTINS: Euclides de Oliveira,
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EDITORA-CHEFE Gláucia Leal PARÁ: Alex Bentes (91) 8718-3351/ 3222-4956 ANALISTA DE VENDAS AVULSAS Cinthya Muller
SUBEDITORA Fernanda Teixeira Ribeiro alexbentes@hotmail.com
EDITOR DE ARTE João Marcelo Simões MINASGERAIS:Tadeu da Silva (31) 8885-7100-tadeuediouro@gmail.com CENTRAL DE ATENDIMENTO
ESTAGIÁRIA Ana Carolina Leonardi (redação) ESPÍRITO SANTO: Dídimo Effgen (27) 3229-1986/ 3062-1953/ De segunda a sexta das 8h às 20h e
COLABORADORES Luiz Carlos L Júnior (tradutor/ inglês); 8846-4493/9715-7586 sábado das 9h às 15h (exceto feriado)
Edna Adorno, Maria Stella Valli e Ricardo Jensen (revisão); MATO GROSSO - Mato Grosso do Sul: Luciano de Oliveira
Thaisi Albarracin Lima (iconografia) (65) 9235-7446 - fenixpropaganda@hotmail.com ASSINANTE E NOVAS ASSINATURAS
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RIO GRANDE DO S U L Roberto Gianoni BAHIA-SERGIPE: Carlos Chetto (71) 9617-6800, Carmosina Cunha Números atrasados e edições especiais podem ser adquiridos
(51) 3388-7712/ 9985-5564 - gianoni@gianoni.com.br (71) 8179-1250/ 3025-2670 - carloschetto@canalc.com.br / através da Loja Segmento, ao preço da última edição acrescido dos
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6 I mentecérebro I outubro 2014


CÉREBRO EM MOVIMENTO
C o m p r e i o s e s p e c i a i s Cérebro e m
movimento 1 e 2. C o m o t e r a p e u t a
o c u p a c i o n a l , vejo na prática as rela-
ções entre c o r p o e m e n t e , muito bem
exploradas pelas edições. Ó t i m o s au-
tores, linguagem clara e t e m a s muito
Mudança de endereço,
bem e s c o l h i d o s . Parabéns! TEATRO E UTOPIA
renovação, informações e
Geni Gonçalves - Goiânia, GO R e a l m e n t e , a peça A história do co- dúvidas sobre sua assinatura
munismo contada aos doentes mentais www.assinaja.com/atendimento/
segmento/Faleconosco/
[divulgada na seção A s s o c i a ç ã o Livre
São Paulo (11) 3512-9484
da edição 260] t e m tudo a ver c o m o Rio de Janeiro (21) 4062-7623
m o m e n t o da humanidade: descrença e De segunda a sexta das 8h às 20h,
desconfiança das ideologias reinantes. Sábado das 9h às 15h (exceto feriado)

Teresa Gonzaga Venâncio - via Facebook NOVAS ASSINATURAS


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Mais u m motivo para fortalecer essa prá-
ou pela Centra! de Atendimento
tica, que não é substituível por nenhum ao Assinante
avanço tecnológico! [sobre a notícia "Ama-
NÚMEROS ATRASADOS
TENTATIVA E ERRO 1 mentar previne depressão pós-parto",
Podem ser solicitados à central de
Estou t e n t a n d o aprender balé. À s publicada no site da Mente e Cérebro]. atendimento ao leitor pelo e-mail
vezes m e sinto desajeitada, m a s esse Ewerton Rocha - via Facebook atendimentoloja@editorasegmento.com.
e s t u d o [sobre o texto " M o v i m e n t o s br ou pelo site
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desajeitados f a z e m aprender mais rá-
pido", Mente e Cérebro n° 260] m e fez CONCURSO CULTURAL: PUBLICIDADE
refletir sobre necessidade de dedicação ESCREVA E GANHE UM LIVRO! Para anunciar ou adquirir
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e i n s i s t ê n c i a . Ó t i m o texto! Mande sua opinião sobre um dos milene@editorasegmento.com.br
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7
OBRIGADA A VIRGENZINHA DE
• ARTE C O N T E M P O R Â N E A

Ver e sentir coisas


GUADALUPE (acima), trabalho do
mexicano N a h u m Zenil para o projeto
Deus é bicha: mistura de iconografia

q u e não e x i s t e m
cristã e material pornográfico. Ao lado,
pinturas de O c a na: Sagrado Coração
de Maricas e Imaculada dos pênis

C O M O T E M A M U N D O E M C O N S T A N T E T R A N S F O R M A Ç Ã O , A 31 a
BIENAL DE SÃO PAULO DESTACA A
R E T R Ó G R A D A I N F L U Ê N C I A DA M O R A L RELIGIOSA EM Q U E S T Õ E S POLÍTICO-SOCIAIS, C O M O CONDENAÇÃO
DO ABORTO E RESISTÊNCIA EM ACEITAR A DIVERSIDADE SEXUAL

A divulgação das i m a g e n s d a s obras da 3 1 Bienal In- seria seu verbo diante, por e x e m p l o , do projeto Deus é bi-
a

ternacional de Arte de São Paulo, a tradicional m o s t r a cha? Misto de iconografia c r i s t ã , cultura popular e material
contemporânea que o c u p a u m dos pavilhões do Parque pornográfico, a reunião de pinturas e desenhos de artistas
Ibirapuera a cada dois a n o s , c a u s o u furor em muitos europeus e latino-americanos e n c e n a episódios de tortura,
usuários das redes sociais - pinturas de D e u s afeminado crucificação e morte, bem c o m o de prazer, erotismo e êxtase.
e u m documentário sobre u m h o m e m c o m a dupla perso- A relação entre sexualidade e religião é recorrente na
nalidade de pastor evangélico e travesti c a n d o m b l e c i s t a mostra. Outro trabalho que c h a m a atenção é o vídeo Sergio e
foram algumas das obras vistas c o m e s t r a n h a m e n t o . C o m Simone, da brasileira Virgínia Medeiros. Filmada em Salvador,
o m o t e "Como (...) coisas que não existem", a exposição a película a c o m p a n h a a transformação da travesti S i m o n e ,
reuniu d e z e n a s de trabalhos que p r o v o c a m o espectador seguidora do candomblé, no pastor evangélico Sergio. A m u -
a preencher os parênteses c o m u m verbo que exprima s u a dança aconteceu depois de u m a alucinação induzida por u m a o
reação diante d a s instalações, esculturas, pinturas e vídeos. overdose de crack, na qual Sergio acredita ter sido incumbido S
Ver, tocar, rejeitar e outras i n ú m e r a s possibilidades: qual de u m a m i s s ã o religiosa ao lado de Jesus. A s cenas captadas I
à*. associação livre

ao longo de quase dez anos d o c u m e n t a m a complexidade boliviano Mujeres Creando, é u m dos destaques da bienal.
desse constante processo de transformação corporal e espi- N u m a espécie de representação do corpo feminino exposto a
ritual - anos depois de a s s u m i r a religião evangélica, o pastor agressões e intervenções da uma cultura machista, u m véu com
tem u m a "recaída" no candomblé, decidindo, a s s i m , a s s u m i r a inscrição útero fica à disposição dos visitantes, que podem
as duas identidades. O espectador é desafiado a configurar entrar e sair à vontade. "As coisas que não existem" são as
formas de ser e estar inexistentes e m u m a sociedade binarista, ferramentas necessárias para modificar formas de pensar que
que exige que sejamos u m a coisa ou outra. parecem insuperáveis. Como preencher as reticências nesse
A maioria dos países latino-americanos continua a tratar caso? "Lutar por" e "aprender c o m " são algumas reflexões.
o aborto c o m o u m a questão moral ou religiosa, e não como iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiitiiiiiiiiiiiiitiiiiiiiiiiiiiiiiiitiiiiiiitiiiiiiiiiiiiiiiiittiiiiiiitiii
u m problema de saúde pública. Legislações defasadas for- C o m o (...) coisas que n ã o existem - 3 1 Bienal de São Paulo. F u n d a ç ã o Bienal
1

ç a m milhares de mulheres a buscar interrupções de gravidez de S ã o Paulo. Pavilhão Cicillo M a t a r a z z o , Parque Ibirapuera, portão 3. S ã o
Paulo. T e r ç a , q u i n t a , sexta, d o m i n g o e feriados, d a s 9h às 19h (entrada até
clandestinas, que não raro deixam profundas marcas físicas 18h). Q u a r t a e s á b a d o , d a s 9h às 22h (entrada a t é 2 1 h ) . F e c h a d o às s e g u n d a s .
e emocionais. A instalação Espaço para abortar, do coletivo I n f o r m a ç õ e s : (11) 5576-7600. G r á t i s . Até 7 de d e z e m b r o .

9
associação l i v r e
• TEATRO

D o n a M a r i a "a Louca", #

p r o t a g o n i z a monólogo
li K T ã o corram, pode pensar que estamos fugindo", disse a mãe
JN de Dom João IV enquanto a família real se apressava para
embarcar para Brasil antes que as tropas napoleónicas t o m a s s e m
Portugal. U m comentário demasiado lúcido e sensato para u m a mu- A comunicação s i l e n c i o s a
lher conhecida no reino c o m o Maria, a Louca (1734-1816). Retratada
pela maioria das biografias e produções audiovisuais como a avó entre pai e filha
com problemas mentais de D o m Pedro I, a personagem conta sua
própria vida no monólogo Palavra de rainha, em cartaz em São Paulo.
Com u m vestido negro que
S ubmetido a u m a traqueostomia, o pai da atriz
Janaina Leite, u m a das criadoras do premiado
Grupo X I X de Teatro, perdeu a fala. Começou a se
AATRIZ LU GRIMALDI
se confunde com o cenário, a comunicar c o m a filha, então, apenas por bilhetes.
dá voz à rainha
atormentada pela
atriz Lu Grimaldi dá voz à soli- Anos depois, ela descobre que tem uma doença de-
culpa católica tária Maria, atormentada pela generativa e está perdendo a audição. U m a caixa com
e pela solidão culpa religiosa no fim da vida. os papeis papéis acumulados por Janaina ao longo de
Primeira mulher a assumir sete anos, u m total de cerca de 500 páginas, além de
0 trono e m Portugal, Maria 60 horas de vídeo c o m cenas dos dois, deram origem
1 esteve à frente de decisões ao monólogo-perfomance Conversas com o pai, e m
cruciais, como a assinatura da temporada no Rio de Janeiro.
execução de Tiradentes. C o m "A reaproximação entre meu pai e eu só se deu
sintomas de depressão, não quando ele já não podia mais falar. Finalmente tive-
pôde ser tratada pelos médi- mos as conversas que nunca tínhamos tido", lembra
cos da época. A sutil evolução Janaina sobre o pai, morto e m 2 0 1 1 . "Passei a reco-
dos primeiros sinais de trans- lher, ainda sem saber para que fim, esses fragmentos,
torno psíquico, c u l m i n a n d o resíduos das tardes que passávamos juntos, sentados
na perda de contato c o m a numa mesa de bar, ouvindo u m disco na vitrola. Havia
realidade, é um dos aspectos os diálogos e havia os silêncios." O cenário é propo-
marcantes do texto, sitalmente entulhado c o m papéis, móveis antigos e
iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiniiii u m a vitrola, resíduos de outro tempo.
Palavra de rainha. Teatro Viradalata. lIlllllllllIlItlItllIIllItlIlflltilIllllllllIfttlfllllllllIllIflIllIIlttllIlllllllllItllllllllllIIMItllll
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QUANDO ANCA A CRER OUE S E DOUTOR FREUD.
SW, O MEU PAI

7^
DO\ TAMBÉM? TRATA DB HISTERIA.

FACe.B00K.COM/FHWD0FR5UD

Desta edição e m diante, Mente e Cérebro publicará tiras da série As traumáticas aventuras do filho do Freud, de Pacha Urbano, que imagina o cotidiano nada
convencional da família do criador da psicanálise. O protagonista é Jean-Martin, o primogénito, um devorador de livros que tenta a todo custo agradar ao pai,
muitas vezes fazendo confusões c o m os conceitos defendidos por ele. A sarcástica A n n a , a caçula, a e s p o s a Martha, o corvo Edgard e o cão Jo-Fi completam o clã.
> o q u e há p a r a v e r e l e r na rede
O artista que
fotografa pesadelos
N icolas B r u n o , de 21 anos, sofre de paralisia do sono:
f e n ó m e n o raro e m que a pessoa percebe que acordou
de u m s o n h o , m a s não consegue se mexer ou falar. Chega
a durar até dez m i n u t o s . A sensação de clausura pode vir
a c o m p a n h a d a da invasão de imagens oníricas, que se mes-
clam à consciência. Pessoas que experimentam o fenómeno,
ocasionalmente ou c o m frequência, c o s t u m a m relatar a visão
de objetos ou seres estranhos mesclados à paisagem real
do quarto de dormir. A situação é explicada pela medicina
V Í T I M A D E PARALISIA D O S O N O , Nicolas Bruno recria e m imagens
do sono c o m o u m a intersecção entre vigília e sono R E M surrealistas as alucinações que sofre quando está acordado m a s não
(estágio e m que ocorrem os s o n h o s ) . "Figuras h u m a n a s consegue s e mexer

s e m rosto e c o m m ã o s de sombra abraçavam meu corpo, eu


sentia que era real, m a s ao m e s m o estava imobilizado", diz outros elementos, ele recria os cenários surrealistas de suas
Bruno, que encontrou na fotografia u m meio de superar as visões. O projeto completo, definido por Bruno c o m o u m a
aterrorizantes alucinações. Retratando-se trancado e m baús " h o m e n a g e m agridoce" aos seus pesadelos, está disponível
ou usando m á s c a r a s de gás, lanternas e chapéu-coco, entre e m seu site oficial: www.nicolasbrunophotography.com.

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VIOLETTE
139 m i n - França e Bélgica
Direção: Martin Provost
E l e n c o : E m m a n u e l l e D e v o s , Sandrine Kiberlain,
Olivier G o u r m e t

U m a m u l h e r e m busca de ar
E M M A N U E L L E D E V O S I N T E R P R E T A A E S C R I T O R A V I O L E T T E L E D U C , Q U E , C O M A P O I O DE
S I M O N E DE B E A U V O I R , C O R A J O S A M E N T E E X P Õ E S E X U A L I D A D E E A N G Ú S T I A EM SUA O B R A
por Gláucia Leal

P oderia ser u m f i l m e s o b r e o ro-


m a n c e (apenas i n s i n u a d o ) entre
d u a s m u l h e r e s . O u a h i s t ó r i a de
O título de seu primeiro não no s e n t i d o m a i s c o m u m d e s s e s
livro, Uasphyxie, de t e r m o s . É c o m o se cada u m a das
e s c r i t o r a s s e a p a i x o n a s s e por as-
u m a escritora q u e , a p e s a r de t o d o s
1946, não publicado no pectos p r ó p r i o s , pouco elaborados,
os percalços e d i f i c u l d a d e s , i n s i s t e Brasil é uma metáfora m a s que r e c o n h e c e m m u t u a m e n t e .
no s o n h o de viver da literatura que da falta de nutrição S ã o , p o r é m , sentimentos truncados,
produz. O u ainda a biografia de u m a a t r a v e s s a d o s por carências e u m a
m u l h e r solitária q u e , c o m s u a nar-
afetiva e investimento d o s e de d e s c o n f o r t o . S u r g e m entre
rativa c o n t u n d e n t e , c o r a j o s a m e n t e libidinal na infância; elas certa d e p e n d ê n c i a e rivalidade,
e s c a n c a r o u - de f o r m a i n c ó m o d a , de certa forma, Simone p e r m e a d a s pela atração. E u m jeito
a ponto de ser c e n s u r a d a e m s u a (às v e z e s negligente ou i n v a s i v o )
época - aspectos da s e x u a l i d a d e fe-
desempenha o papel da de c u i d a r u m a da outra. Prevalece
m i n i n a . E c e r t a m e n t e Violette, filme figura materna que a algo de m a t e r n a l e c o n t i n u a m e n t e
de Martin Provost, t e m t o d o s e s s e s alimenta com f r u s t r a n t e . O vínculo - difícil de ser
n o m i n a d o - se constitui no confli-
a s p e c t o s . M a s não s ó .
olhar e incentivo t o : e m a l g u n s m o m e n t o s as d u a s
O recorte da v i d a d a f r a n c e s a
Violette Leduc, interpretada por mulheres parecem completamente
E m m a n u e l l e D e v o s , apresenta a história de u m a m u l h e r distantes e e m outros prevalecem as projeções que u m a faz
atormentada pela rejeição e pelos maus-tratos sofridos na sobre a outra. A s o l u ç ã o , talvez o s i n t o m a , seja j u s t a m e n t e
infância. É por meio da escrita que, ao longo dos a n o s , ela a relação entre e l a s .
desenvolve a p o s s i b i l i d a d e de cuidar-se a m o r o s a m e n t e . De u m lado, Violette se sente feia, desinteressante, fra-
Esse trajeto e m direção a si m e s m a é sustentado de variadas c a s s a d a . A n s e i a ser vista, a m a d a , desejada. Nascida e m 7
m a n e i r a s - afetiva, intelectual e material - pela escritora de abril de 1907, filha de u m a e m p r e g a d a doméstica e de
S i m o n e de Beauvoir, vivida pela atriz Sandrine Kiberlain. u m h o m e m c a s a d o que manteve por vários anos u m rela-
A o contrário do que a l g u m a s s i n o p s e s do filme p o s s a m cionamento com sua mãe, sem nunca assumir a menina,
sugerir, desde que as d u a s p e r s o n a g e n s se e n c o n t r a m , e m ela lamenta profundamente não ter recebido m a i s carinho
Paris, no f i m da S e g u n d a G u e r r a , o que se configura não é da m ã e na infância. Sentindo-se tão desprotegida, a mera
exatamente u m a relação de paixão ou desejo - pelo m e n o s ideia de u m dia vir a ter u m filho "que seria tão infeliz quanto

12 I mentecerebro I outubro 2014


ela m e s m a " a a p a v o r a . Tanto, que m e s m o mentir dizendo modernidade (Civilização Brasileira, 2 0 0 5 ) : "Ao se apropriar
que está grávida para salvar a vida de u m amigo lhe parece do espaço cultural, o feminino aponta para u m a cultura que
inconcebível e c o m p l e t a m e n t e além de s u a s forças. se r o m p e c o m o pacto civilizatório e na qual a s u b l i m a ç ã o
De outro lado, S i m o n e , integrante da vanguarda intelec- não é d e s s e x u a l i z a ç ã o , m a s o corpo e r ó t i c o , i n s c r e v e n d o
tual f r a n c e s a , reconhecida por seu trabalho, forte e convicta u m a estética de v i d a . C o m o afirma Breton e m s u a h o m e -
de s e u s i d e a i s , t a m b é m vive s e u s m o m e n t o s de solidão n a g e m à histeria, no f i m do r o m a n c e Nadja: a beleza será
e parece ver e m Violette u m a possibilidade de autorreali- c o n v u l s i v a o u ela não s e r á " . N e s s e s e n t i d o , p o d e m o s
z a ç ã o , a a p o s t a e m u m talento que aos p o u c o s vai s e n d o pensar que Violette t e n h a e n c o n t r a d o outra f o r m a de " s e r
lapidado. É c o m o se na a m i g a ela p u d e s s e reconhecer a b e l a " , r o m p e n d o c o m padrões estéticos i m p o s t o s . I s s o ,
fragilidade, m a s não se c o n f o r m a r c o m ela. Diante das p o r é m , só se t o r n a possível na m e d i d a e m que e l a , aos
l á g r i m a s , da a n g ú s t i a e da falta de perspectivas de Violette, p o u c o s , a b a n d o n a a obrigação (de fato asfixiante) de ser
S i m o n e é categórica: " E s c r e v a " , insiste. De fato, s u a "pupi- a m a d a e nutrida. N e s s e processo, permitindo-se encontrar
l a " p r o d u z i u ao t o d o 13 o b r a s , a m a i o r i a bastante o u s a d a ; a redenção na palavra (não falada, c o m o na a n á l i s e , m a s
só A bastarda e Teresa e Isabel f o r a m l a n ç a d a s a q u i . S e u na e s c r i t a ) , a l c a n ç a a possibilidade de reconciliar-se - pri-
primeiro livro, Uasphyxie, de 1946 (Asfixia, não publicado no m e i r o s u b j e t i v a m e n t e , depois c o n c r e t a m e n t e - c o m s u a
B r a s i l ) , é u m a referência à falta de oxigénio, u m a metáfora m ã e biológica. E, a c i m a de t u d o , c o n s i g o m e s m a . me*
do e s c a s s o i n v e s t i m e n t o libidinal. N a vida a d u l t a , de certa
f o r m a , S i m o n e d e s e m p e n h a o papel da figura m a t e r n a que
GLÁUCIA LEAL é jornalista, psicóloga, psicanalista e editora-chefe
a l i m e n t a Violette c o m olhar, r e c o n h e c i m e n t o e incentivo. de Mente e Cérebro.
O filme m e faz lembrar u m a frase da psicanalista Regina
Neri, e m s e u livro A psicanálise e o feminino: um horizonte da Assista ao trailer do filme no site: www.mentecerebro.com.br

13
V psicanálise
inconsciente a céu aberto

Não m a i s d o q u e 3 0 h o r a s CHRISTIAN INGO


LENZ DUNKER
A T U A L M E N T E T R A M I T A NO C O N G R E S S O UM PROJETO DE LEI Q U E
LIMITA A CARGA H O R Á R I A DO P S I C Ó L O G O . NADA MAIS J U S T O ,
NADA MAIS N E C E S S Á R I O

M uitos a l u n o s , e m v i a s de c o m e ç a r s u a prática c l í n i c a ,
perguntam-se s o b r e o s o s s o s deste ofício. Receber
u m a p e s s o a , acolher aquela f o r m a de vida c o m o ú n i c a ,
A t u a l m e n t e t r a m i t a no c o n g r e s s o u m projeto de lei
(PL-338;08) que limita o t r a b a l h o do psicólogo ao m á x i m o
entrar e m s u a l i n g u a g e m p r ó p r i a , seguir s u a s razões de de 30 h o r a s . N a d a m a i s j u s t o , n a d a m a i s necessário. Até
ser e de não ser, a c o l h e r s e u s o f r i m e n t o . Dizer algo diante aqui o s i s t e m a t e m sido desleal c o m psicólogos, e c o m
do i m p o s s í v e l , calar-se diante de t a n t o s p o s s í v e i s . Final- outros profissionais de s a ú d e q u e t r a b a l h a m e m p r e s t a n d o
mente, colocar algo a m a i s e tirar algo que está d e m a i s s u a p e s s o a , s u a s palavras o u s e u j u í z o m a i s í n t i m o , e m
desta c o m b i n a ç ã o c o n t i n g e n t e entre c o m é d i a , d r a m a e atenção e cuidado aos o u t r o s . S a b e m o s que u m dos traços
tragédia. E depois de t u d o ...outro paciente. Somos feitos típicos do s o f r i m e n t o s o b a f o r m a de vida neo-liberal é a
de carne, mas temos que viver como se fossemos de ferro, dizia exploração do t e m p o e do e m p e n h o , fora de hora e fora
Freud. A pergunta aqui é q u e até m e s m o o ferro t e m u m a de contrato, e ainda a s s i m " l i v r e m e n t e " . Q u e m trabalha
d e n s i d a d e , u m a resiliência e u m a elasticidade l i m i t a d a . por projeto ou por ficha e n t r e g u e , s e m p r e terá a tentação
Depois d i s s o ele q u e b r a . de dar algo a m a i s de s i , para f e c h a r o m ê s . Do outro lado,
Q u a n d o me perguntam c o m o u m psicanalista aguenta q u e m paga por s e r v i ç o , s e m p r e estará inclinado a pagar
fazer isso oito ou dez horas por d i a , eu c o s t u m o responder: u m pouco m e n o s por u m p o u c o m a i s .
jamais conseguiria e m m e u s primeiros, digamos a s s i m , dez A e x p r e s s ã o " o s s o s do o f í c i o " v e m da antiga prática de
anos de clínica. E n u n c a conseguiria se não fizesse t a m b é m quebrar o s s o s , extrair-lhes o t u t a n o , que possui proprie-
alguma outra coisa da vida. Ligar, desligar e religar; distância, dades alvejantes, e c o m i s s o e m b r a n q u e c e r o papel sobre
proximidade e corte. Tudo isso ao m e s m o t e m p o e separa- o qual se pode escrever. E i s s o t o m a t e m p o . T e m p o não
do. Manter a l g u m a reserva, q u e i m a r todas as reservas, até s u p r i m í v e l e n e m incurtável do p r o c e s s o . T e m p o de cura
aquelas que você desconhecia possuir. Pode ser que naquele do próprio clínico e de prevenção d o s efeitos iatrogênicos
dia nada aconteça, m a s na outra m a n h ã v e m u m desencon- de s u a prática. T e m p o de a n á l i s e , de s u p e r v i s ã o e de rea-
tro, u m s u s p i r o fora de hora, u m a lembrança inofensiva de nálise. T e m p o no qual t e m o s que escrever e pensar sobre
u m paciente, e isso quebra e m cheio u m a destas quinas n o s s o s próprios o s s o s q u e b r a d o s pela c l í n i c a , para que a
insuspeitas de n o s s a a l m a . E a í d ó i . E quando p a r a r d e d o e r , página e m branco reapareça u m a v e z m a i s . m ^
aposente-se. A diferença entre u m clínico experiente e u m iiiiiiiiiiiitiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiitiiiiiiiiiititiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiitiiiitii
iniciante é que o primeiro recupera-se m a i s rápido. C o m o CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER, psicanalista, professor livre-
dizia Hegel: "o espírito é o osso". docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

14 I mentecerebro I outubro 2014


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G o s t a m o s de p e n s a r que s o m o s indivíduos
definidos por n o s s o g e n o m a primata indivi-
dual, que dá origem a u m corpo personalizado pela
c o m a, digamos, " m a s s a d o a d a " as bactérias necessá-
rias ao funcionamento correto do intestino.
E o que isso t e m a ver c o m o cérebro? Por
história de vida de cada u m . Este conceito, contudo c a m i n h o s ainda não compreendidos, a sua
está m u d a n d o . Para a biologia m o d e r n a , você é o m i c r o b i o t a intestinal é c a p a z de modificar o
produto do seu g e n o m a , s i m - só que acrescido f u n c i o n a m e n t o do s e u cérebro, ainda que este
de m a i s tantos o u t r o s g e n o m a s de t o d a s as fique protegido e m u m a m b i e n t e privilegiado, s e m
bactérias e fungos que v i v e m e m s i m b i o s e c o m bactérias. Talvez e s s a influência se dê por substâncias
você em seu corpo. E m a i s : quais bactérias você liberadas pelas bactérias, ou por outras, c o m o se-
abriga e m seu corpo p o d e m inclusive influenciar rotonina, produzidas pelo seu próprio intestino
a maneira c o m o seu cérebro f u n c i o n a . e m resposta às bactérias, que caem na corrente
O conceito de micróbios simbióticos já era nosso sanguínea e a s s i m c h e g a m ao cérebro.
conhecido: vacas e o u t r o s a n i m a i s r u m i n a n t e s , por E m a i s : p e s s o a s diferentes tem m i c r o b i o m a s
exemplo, obtêm energia suficiente c o m e n d o apenas folhas diferentes, ou seja, u m conjunto próprio de espécies
graças à presença de bactérias e m seu estômago que digerem de fungos e bactérias vivendo e m seu corpo - e e m cada
celulose, um carboidrato complexo que e m nossos estôma- parte dele, pois cada m u c o s a t e m s u a " f a u n a " própria. A
gos primatas entra e sai incólume, c o m o "fibra alimentar". c o m p o s i ç ã o exata do seu m i c r o b i o m a depende e m parte
Mas temos nossas próprias bactérias que ajudam na digestão do que você c o m e e e m parte da c a s a onde vive (inclusive
de alguma forma: evidência disso é o desarranjo intestinal dos seus a n i m a i s de c o m p a n h i a ) .
que resulta de tratamentos c o m antibióticos, que matam a Mude seus hábitos alimentares e seu microbioma mudará
bactéria indesejada da vez m a s t a m b é m várias outras pelo seu também - e , quem sabe, até características do seu cérebro. U m
corpo afora. Isso s e m falar nas micoses que t a m b é m podem estudo recente descobriu que a severidade de problemas de
surgir durante esses tratamentos, quando fungos florescem comportamento c o m o obsessividade e ansiedade observados ^
na ausência das bactérias que os m a n t i n h a m e m xeque. e m camundongos semelhantes a h u m a n o s autistas pode ser |
Recentemente, contudo, o conceito de micróbios " s i m - aliviada c o m u m a m u d a n ç a nas bactérias que habitam seu I
bióticos" está m u d a n d o para "obrigatórios". Pense na vaca: intestino. Não curada, note b e m ; o autismo continua sendo g
s e m as bactérias que digerem celulose, vacas deixariam de u m distúrbio estrutural e funcional do cérebro. Mas sua seve- |
ser vacas e m poucos dias, mortas de inanição. U m a " v a c a " , ridade, ao que parece, pode estar relacionada ao m e n o s e m |
portanto, pode até ser definida por seu genoma - m a s o parte c o m a dieta, que modifica seu microbioma, que por sua |
indivíduo só existe se levar e m seu estômago passageiros vez influencia o funcionamento do seu cérebro. Você, quem |
que lhe dêem energia. diria, é o seu corpo - mais as suas bactérias... m e l
O m e s m o , agora se sabe, vale para h u m a n o s . Já existem
••iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii|iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiitiiiiiiiiitiiiiitiiiititiiiiiiiiitiiiiitiiiiifiitiii §
registros na literatura de pessoas à beira da morte por disfun-
SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista, professora da g
ção intestinal (o que c o m p r o m e t e a absorção de nutrientes) Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), autora do livro s
mas que foram salvas por... transplantes fecais, que trouxeram Pílulas de neurociência para uma vida melhor (Sextante, 2009). g

16 I mentecerebro I outubro 2014


A ciência m u d a
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Mas tem uma
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18 I mentecerebro I outubro 2014
mulher

A mínima
diferença
O S Í C O N E S DA F E M I N I L I D A D E S E M O D I F I C A R A M E A S

D I F E R E N Ç A S E N T R E O S S E X O S T Ê M SE D I L U Í D O , MAS

P E R M A N E C E M O S I M P A S S E S E AS P R E T E N S Õ E S DE

H O M E N S E M U L H E R E S EM T O R N O DO A M O R E D O DESEJO

por Maria Rita Kehl

A AUTORA
MARIA RITA K E H L é psicanalista, doutora em
psicanálise e autora, entre outros livros, de O tempo
e o cão: a at uai idade das depressões (Boitempo, e m
impressão). Este artigo foi publicado originalmente
no livro A mínima diferença - o masculino e o
feminino na cultura (Imago, 1996), esgotado.
^ mulher

á mais de cem anos não se fala em outra coisa. O falatório surpreenderia


o próprio Freud. Se ele criou um espaço e uma escuta para que a histérica
pudesse fazer falar seu sexo em um tempo cuja norma era o silêncio, o
que restaria ainda por dizer ao psicanalista quando a sexualidade circula
freneticamente em palavras e imagens como a mais universal das mercadorias? O
escândalo e o enigma do sexo permanecem deslocados - já não se trata da interdição
dos corpos e dos atos -, avisando que a psicanálise ainda não acabou de cumprir seu
papel. Mulheres e homens vão aos consultórios dos analistas (e, como sempre, mais
mulheres do que homens), procurando, no mínimo, restabelecer um lugar fora de
cena para uma fala que, despojada de seu papel de lata de lixo do inconsciente (no que
reside justamente sua obscenidade), vem sendo exposta à exaustão, ocupando lugar
de destaque na cena social, até a produção de uma aparência de total normalidade.

Parece que nada mudou muito: mulheres e d a m as normas, os costumes, a superfície dos
homens continuam procurando a psicanálise para comportamentos, os discursos dominantes? A
falar da sexualidade e de suas ressonâncias, mas questão remete, s i m , à relação entre recalque
o que se diz já não é a m e s m a coisa. " O que devo e repressão. Se m u d a m as normas, m u d a m os
fazer para ser amada e desejada?", perguntam as ideais e o c a m p o das identificações - e, c o m
mulheres, com algum ressentimento: não era de eles, parte das exigências do superego, parte das
esperar que o amor se tornasse tão difícil já nos pri- representações submetidas pelo menos ao recal-
meiros degraus do paraíso da emancipação sexual que secundário - , m u d a m também as chamadas
feminina. " O que faço para ser capaz de amar aque- soluções de c o m p r o m i s s o , os s i n t o m a s que
la que afinal me revelou seu desejo?", perguntam tentam dar conta simultaneamente da interdição
os homens, perplexos diante da inversão da antiga e do desejo recalcado... Dito de outra forma: os
observação freudiana segundo a qual é próprio "novos t e m p o s " nos trazem novos sujeitos? No-
do feminino fazer-se amar e desejar e próprio do vos homens e mulheres colocam outras questões
h o m e m , Narciso ferido eternamente em busca à observação psicanalítica? E aqui vai a ressalva:
de restauração, amar sem descanso aquela que não há n e n h u m a euforia, nenhum otimismo no
parece deter os segredos de sua cura. Mulheres emprego da palavra "novo". A própria psicanáli-
que já não sabem se fazer amar, homens que já se já nos ensinou que a cada barreira removida,
não a m a m como antigamente. Como se pedissem a cada véu levantado deparamos não c o m u m
aos psicanalistas: " O que faço para (voltar a) ser paraíso de conflitos resolvidos, e sim c o m u m
mulher?", "Como posso (voltara) ser homem?". campo minado ainda desconhecido.
A v a n c e m o s mais alguns passos nesse c a m -
CAMPO MINADO po minado. O lugar reservado às mulheres na
Incapaz de formular u m a interpretação satisfa- cena social (e sexual) desde o surgimento da
tória para o que ouço no consultório e na vida, psicanálise foi sendo alterado (por obra, entre
dou voltas e m torno desse mal-estar. Tento cercar outras coisas, das próprias contribuições freu-
c o m perguntas aquilo para o que não encontro dianas) e ampliado; as insígnias da feminilidade
resposta. É possível que a relação consciente/ se modificaram, se c o n f u n d i r a m , as diferenças
inconsciente se modifique à medida que m u - entre os sexos foram sendo borradas até o ponto

20 I mentecerebro I outubro 2014


e m que a revista americana Time publicou e m AGRURAS DA PAIXÃO Parece que nada
1992, c o m o artigo de capa, a seguinte pesquisa: O s artistas da virada do século
" H o m e n s e mulheres nascem diferentes?". Na 19 para o 20 já previam a sorte
mudou muito:
dinâmica de encontro e desencontro entre os d e s s a s novas-ricas da con- mulheres e homens
sexos, a intensa movimentação das tropas femi- quista amorosa. Ana Karenina continuam procurando
ninas nas últimas décadas parece ter deslocado (Tolstoi, 1873-1877) pagou por
os significantes do masculino e do feminino a tal sua ousadia debaixo das rodas
a psicanálise para falar
ponto que v e m o s caber aos homens o papel de de u m t r e m , c o m o "a mais da sexualidade e de
Narcisos frígidos e às mulheres o de desejantes desgraçada das mulheres", en- suas ressonâncias, mas
sempre insatisfeitas. Não cabe hoje aos homens louquecida ao descobrir que o
dizer "Devagar c o m a louça!", aterrados diante amor não é meio de vida, não
o que se diz já não é a
da audácia dessas que até uma ou duas gerações garante nada - o casamento, mesma coisa
atrás pareciam aceitar as investidas do desejo sim. E m m a Bovary (Flaubert,
masculino c o m o h o m e n a g e m a sua perfeição 1853-1856) queimou as entranhas com arsénico
ou c o m o o mal necessário da vida conjugal? por não ter sido capaz de tomar a aventura amorosa
Já s a b e m o s que o h o m e m odeia o que o do mesmo modo que seu amante Rodolfo-apenas
aterroriza. Se a verdade do sexo vazio da mulher como uma aventura. Na virada do século, já não
sempre t e m de ser dissimulada c o m os engodos havia Werther que destruísse sua vida pela utopia
fálicos da beleza e da indiferença, tal a angústia do amor de uma mulher, que foi deixando de ser
que é capaz de provocar e m quem ainda sente utopia para se tornar fato corriqueiro: são as gran-
que t e m "algo a perder", essa angústia parece des amorosas que se matam, então, ao descobrir
redobrar diante da evidência de que esse sexo que seu dom mais precioso perde parte do valor,
vazio t a m b é m é f a m i n t o , voraz. " O que elas justamente na medida em que é dado.
querem de n ó s ? " , indagam entre si os varões, O destino de Nora (Ibsen, 1879) nos parece
tentando se assegurar de que ainda é possível mais promissor, porque a peça termina quando
entrar e sair da relação c o m a mulher, s e m dei- tudo ainda está por começar. Ela abandona a
xar por isso de ser h o m e n s - mas c o m o , se a "casa de bonecas" ao descobrir que sua alienação
mulher que expõe seu desejo sexual age " c o m o (termo que Ibsen nunca usou) era condição de
u m h o m e m " e c o m isso os feminiza? felicidade conjugal. Depois de entender que no

21
^ mulher
código do marido o amor mais apaixonado só iria
até onde fossem as conveniências, Nora recusa o
retorno à condição feminina-infantil de seu tempo
e sai e m busca de... m a s aqui cai o pano e agora,
mais de u m século depois, fazemos o balanço
do que ela encontrou. Independência económica,
algum poder, cultura e possibilidades de sublima-
ção impensáveis para a mulher restrita ao espaço
doméstico. T a m b é m a possibilidade da escolha
sexual, e a segunda (e a terceira, e a quarta...)
chance de u m casamento feliz. E a possibilidade
de conhecer vários homens e compará-los. De ser
parceira do h o m e m , reduzindo a distância entre os
sexos até o limite da m í n i m a diferença. Mas teria
Nora, melhor que as contemporâneas literárias,
conquistado alguma garantia de corresponder às
paixões masculinas s e m "se desgraçar"?
No Brasil, onde historicamente todas as dife-
renças são menos acentuadas, a história de amor
mais marcante já no século 20 é a de um engano.
É p o r e n g a n o q u e o j a g u n ç o Riobaldo (Guimarães
Rosa, 1956) se apaixona por seu companheiro
Diadorim, ou Maria Deodorina, que acaba per-
dendo a vida e m consequência de sua mascarada
viril. É por engano - ou não é? - que Diadorim
desperta a paixão de u m h o m e m , travestida de
h o m e m , por sua feminilidade diabólica que se
insinua e se inscreve justo onde deveriam estar
os traços mais fortes de sua masculinidade - a
audácia, a coragem física, o silêncio taciturno.
C o m o se G u i m a r ã e s Rosa tivesse dado a enten-
der, lacanianamente: se u m a mulher quer ser
h o m e m , isso não faz a menor diferença, desde
que continue sendo mulher. O u mais: se uma
mulher quer ser h o m e m e se esconde nisso, daí,
s i m , é que ela é m e s m o mulher.
O fato é que não se trata só de esconder ou
disfarçar, como no caso de Diadorim. O avanço das
Noras do século 21 sobre espaços tradicionalmen-
te masculinos, as novas identificações (mesmo que
de traços secundários) feitas pelas mulheres em
relação a atributos que até então caracterizavam os
homens não são meros disfarces: são aquisições
que tornaram a(s) identidade(s) feminina(s) mais
rica(s) e mais complexa (s) - o que teve, é claro, seu
preço em intolerância e desentendimento, de parte
a parte. Aqui tomo emprestado um conceito que
Freud empregou em Mal-estar na cultura (1920),
sem ter se estendido mais sobre ele. Nesse texto
Freud cunhou a expressão "narcisismo das peque-
nas diferenças", tentando explicar as grandes into-

22 I mentecerebro I outubro 2014


lerâncias étnicas, raciais e nacionais, sobretudo as conquistas continue sendo al- É quando a
que pesavam sobre os judeus na Europa. É quando tíssimo? Quando não a morte
a diferença é pequena, e não quando é acentuada, do corpo (pois não é no corpo
diferença é pequena,
que o outro se torna alvo de intolerância. É quando que se situa o tal "a m a i s " e não quando é
territórios que deveriam estar bem apartados se da mulher!), a morte de u m acentuada, que o
tornam próximos demais, quando as insígnias da reconhecimento pelo outro,
diferença c o m e ç a m a desfocar que a intolerância na falta do qual a mulher cai
outro se torna alvo
é convocada a restabelecer uma discriminação, no em u m vazio intolerável. Pois, de intolerância
duplo sentido da palavra, sem a qual as identidades se a mulher se faz t a m b é m
ficariam muito ameaçadas. h o m e m , é ainda por amor que ela o faz - para ser
ainda mais digna do amor.
FALOS E BRUXAS Q u a n d o o amor e o desejo da mulher se liber-
No caso das pequenas diferenças entre homens e t a m de seu aprisionamento narcísico e repres-
mulheres, parecem ser os homens os mais afetados sivo para corresponder aos do h o m e m , parece
pela recente interpenetração de territórios - e não que alguma coisa se esvazia no próprio ser da
só porque isso implica possíveis perdas de poder, mulher. O s suicídios de A n a e E m m a são, nesse
como argumentaria u m feminismo mais belicoso, caso, exemplares. Teriam suas vidas perdido o
e sim porque coloca a própria identidade mascu- sentido depois que elas se entregaram s e m res-
lina em questão. Sabemos que a mulher encara a trições ao conde Vronsky e a Rodolfo Boulanger?
conquista de atributos "masculinos" como direito Não; eu diria que a perda de sentido se dá nelas
seu, reapropriação de algo que de fato lhe pertence próprias. Ao desejarem e a m a r e m tanto quanto
e há muito lhe foi tomado. Por outro lado, a uma foram a m a d a s e desejadas, elas deixaram de
mulher é impossível roubar a feminilidade: se a fe- fazer sentido c o m o mulheres - primeiro para
minilidade é máscara sobre um vazio, todo atributo os a m a n t e s , depois para si m e s m a s .
fálico virá sempre incrementar essa função. Já para Na defesa do narcisismo das pequenas dife-
o h o m e m , toda feminização é sentida como perda renças, é do reconhecimento amoroso que o ho-
- ou como antiga ameaça que afinal se cumpre. m e m ainda pode privar a mulher, esta que parece
Ao homem interessa manter a mulher a distância, não se privar de mais nada, não se deter mais no
tentando garantir que esse "a mais" inscrito em gozo de suas recentes conquistas. Mas não se
seu corpo lhe confira de fato alguma imunidade. imagine que o h o m e m o faz (apenas) por cálculo
A aproximação entre as aparências, as ações, vingativo. É que ele já não consegue reconhecer
os atributos masculinos e femininos são para o essa mulher tão parecida consigo m e s m o , na
h o m e m mais do que angustiantes. É de terror e qual t a m b é m odiaria ter de se reconhecer.
de fascínio que se trata quando u m h o m e m se vê Vale ainda dizer que não é só da falta de
diante da pretensão feminina de ser também ho- reconhecimento m a s c u l i n o que se trata o aban-
m e m sem deixar de ser mulher. Bruxas, feiticeiras, d o n o e a solidão da mulher. Já nos primórdios
possuídas pelo demónio, assim se designavam na d e s s a m o v i m e n t a ç ã o t o d a , os p s i c a n a l i s t a s
Antiguidade essas aberrações do mundo feminino Melanie Klein e Joan Rivière e s c r e v i a m que,
que levavam a mascarada de sua feminilidade até muito m a i s do que a v i n g a n ç a m a s c u l i n a , o
u m limite intolerável. Só a morte, a fogueira ou a que u m a mulher t e m e e m represália por s u a s
guilhotina seriam capazes de pôrfim à onipotência conquistas é o ódio de outra mulher, aquela a
dessas que já nasceram " s e m nada a perder". q u e m se tentou suplantar etc. etc. - ódio que
f r e q u e n t e m e n t e se c o n f i r m a " n o r e a l " , para
SERES ESVAZIADOS além das fantasias persecutórias.
E quem duvida de que Ana Karenina, E m m a Bo- E aqui abandono o c a m p o minado das "no-
vary, Nora, Deodorina tenham se tornado aquilo vas sexualidades" s e m nada além de hipóteses
que se costuma chamar de "mulheres de verdade" e questões a respeito de nosso mal-estar, antes
a partir do m o m e n t o e m que abandonaram seus que este texto se torne paranóico; mas como não miiiiiiiiiimiiiiiimiiiiiiimiiiiiiiiii

postos na conquista desse "a mais" que, tão logo PARA SABER MAIS
ser paranóico u m texto escrito por mulher, sobre
Psicologia do feminino. Es-
conquistado, parece lhes cair como u m a luva? a ambiguidade, os i m p a s s e s e as pretensões da pecial 43 Mente e Cérebro.
Mas quem duvida t a m b é m de que o preço dessas sexualidade feminina? Duetto, 2014.

23
capa

ANSIEDADE
A PRINCIPAL CARACTERÍSTICA DO TRANSTORNO E O

P E N S A M E N T O V O L T A D O PARA O F U T U R O ! HÁ A S E N S A Ç Ã O

PERMANENTE DE Q U E A L G O D E S C O N F O R T Á V E L O U MESMO

CATASTRÓFICO PODE ACONTECER. NA T E N T A T I V A DE FUGIR

DE AMEAÇAS IMAGINÁRIAS, MUITOS DEIXAM, POR EXEMPLO,

D E IR A U M A F E S T A P A R A E V I T A R O J U L G A M E N T O A L H E I O OU

DE SAIR DE CASA C O M R E C E I O DE S O F R E R UM A T A Q U E DE

PÂNICO. F E L I Z M E N T E , HÁ TRATAM ENTO. O P R I M E I R O PASSO É

RECONHECER QUANDO A PREOCUPAÇÃO ESTÁ P A S S A N D O DOS

LIMITES E BUSCAR AJUDA MÉDICA O U PSICOLÓGICA

por Fernanda Teixeira Ribeiro,


jornalista, subeditora de Mente e Cérebro

24 I mente I outubro 2014


U m pedaço de pão comido em paz é melhor que um banquete masti-
gado com ansiedade." A citação de Esopo revela um aspecto crucial
dessa emoção: o pensamento voltado para o futuro. Com a mente
focada no que pode acontecer, vivemos em alerta e não usufruímos o
presente. Ela atinge diretamente o bem-estar. "A princípio, não existe ansiedade boa. É
essencialmente desagradável, de caráter antecipatório. É uma emoção complexa, que
envolve o medo como sintoma", define o psiquiatra e terapeuta do comportamento
Tito Paes de Barros Neto, autor de Sem medo de ter medo (Casa do Psicólogo, 2000).
Isso não significa que seja sempre patológica, pelo contrário. A ansiedade é uma reação
saudável quando associada a situações que podem causar mudanças em nossa vida
ou comprometer nossa integridade física ou a de quem amamos, como uma prova
importante, receber os resultados de um exame médico, a demora de um ente querido
para chegar em casa. "Imagine atravessar a rua. O medo de ser atropelado nos faz olhar
para os dois lados. Tem função protetora. Mas, se deixamos de sair de casa porque
existe possibilidade de sofrer um acidente, é patológico", diz Barros Neto.

S i n t o m a s f í s i c o s da a n s i e d a d e são muito u m a prova que n e m c o n s e g u e dormir n e m se


p r ó x i m o s dos do estresse - coração acelerado, c o n c e n t r a r para estudar, ou fica tão a n s i o s a
boca s e c a , m ã o s f r i a s , r e s p i r a ç ã o ofegante. c o m u m a festa que p a s s a m a l e não c o n s e g u e
S u r g e m q u a n d o há e s t í m u l o real, s i n a l i z a n d o ir", diz o psiquiatra A n t ô n i o Egídio N a r d i , co-
que o c o r p o e a m e n t e estão se p r e p a r a n d o ordenador do Laboratório de Pânico e Respira-
para enfrentar u m desafio. N e s s e c a s o , a an- ção da U n i v e r s i d a d e Federal do Rio de Janeiro
siedade é a d a p t a t i v a . " É u m a f u n ç ã o mental ( U F R J ) . N a a n s i e d a d e patológica, s i n t o m a s
n o r m a l e útil. Ela ajuda a nos p r e o c u p a r m o s físicos, psíquicos e comportamentais podem
c o m o futuro e a t o m a r m e d i d a s a n t e c i p a d a s surgir s e m e s t í m u l o e s p e c í f i c o : irritabilidade,
p a r a evitar p r o b l e m a s . M a s , q u a n d o p a s s a i n s ó n i a , inquietação, dores de c a b e ç a , diarreia,
d o s l i m i t e s , c o m e ç a a c a u s a r prejuízos. Por c o m p o r t a m e n t o s de evitação e s e n s a ç ã o de
e x e m p l o , a p e s s o a fica tão p r e o c u p a d a c o m estar perdendo o c o n t r o l e . " M u i t a s das pes-
1 d a d e " , diz N a r d i . N o p â n i c o , por e x e m p l o ,
há m a i s i n f l u ê n c i a d o s fatores h e r e d i t á r i o s .
Já os t r a n s t o r n o s de a n s i e d a d e g e n e r a l i z a d a
( T A G ) e fobia s o c i a l s o f r e m m a i s i n f l u ê n c i a
a m b i e n t a l . " N e s s e c a s o , a c u l t u r a de meri-
I ica tocracia e a urbanização a u m e n t a m , s i m , a
É o m e d o de u m estímulo ou de deter- i n c i d ê n c i a " , diz o p s i q u i a t r a M á r c i o Bernik,
m i n a d a situação, c o m o dirigir, viajar de c o o r d e n a d o r do A m b u l a t ó r i o de A n s i e d a d e
avião, entrar na água, aproximar-se de ( A m b a n ) do H o s p i t a l d a s C l í n i c a s do Insti-
certos a n i m a i s etc. Existe u m a crença t u t o de P s i q u i a t r i a da U n i v e r s i d a d e de S ã o
subjacente de que o objeto e m si é u m a Paulo ( U S P ) . O estudo epidemiológico São
a m e a ç a : o avião pode cair ou u m cão Paulo Megacity Mental Survey, que avaliou a
pode morder. Pouco mais de 1 0 % das m o r b i d a d e p s i q u i á t r i c a na região metropoli-
pessoas a p r e s e n t a m alguma fobia, e m - t a n a p a u l i s t a , l e v a n t o u u m a p r e v a l ê n c i a de
bora u m a quantidade muito maior pos- 2 9 % da p o p u l a ç ã o . " G r u p o s de risco i n c l u e m
sa ter m e d o s exagerados e irracionais i m i g r a n t e s , p e s s o a s que v i v e m e m regiões
deflagrados por u m ou mais estímulos. c o m alto índice de v i o l ê n c i a e m u l h e r e s jo-
v e n s de baixa r e n d a " , diz B e r n i k .
O tratamento medicamentoso varia
Ha, ^mm m** ^«»* ^ii^-^ifc* ^%*~ ?i«*,3fc> "
c o n f o r m e o t i p o de t r a n s t o r n o . N o p â n i c o ,
s o a s que b u s c a m ajuda m é d i c a c h e g a m c o m g e r a l m e n t e , é i n i c i a l m e n t e feito c o m a a s s o -
o receio de e s t a r e m ficando l o u c a s . Relatam c i a ç ã o de a n s i o l í t i c o s (benzodiazepínicos)
ter m e d o de se descontrolar, de c o m e t e r u m e a n t i d e p r e s s i v o s , e s p e c i a l m e n t e os inibi-
d e s a t i n o " , diz B a r r o s Neto. d o r e s s e l e t i v o s da r e c e p t a ç ã o de s e r o t o n i n a
A ansiedade patológica compreende ( I S R S ) . Q u a n d o estes últimos c o m e ç a m a
vários espectros. O Manual Diagnóstico e fazer efeito, os ansiolíticos são retirados.
E s t a t í s t i c o de D o e n ç a s M e n t a i s ( D S M ) prevê
^lnii^i niiTfci * r
d i f e r e n t e s t i p o s do t r a n s t o r n o , que d i f e r e m
nos s i n t o m a s e no t r a t a m e n t o indicado
(ver quadros distribuídos ao longo do texto).

2
O s t r a n s t o r n o s de a n s i e d a d e s ã o , j u n t o s , o
p r o b l e m a de s a ú d e m e n t a l m a i s c o m u m no
m u n d o - a p r e v a l ê n c i a na p o p u l a ç ã o é de Transtorno
2 5 % , s e g u n d o a O r g a n i z a ç ã o M u n d i a l da de pânico
S a ú d e ( O M S ) . I s s o s u g e r e que a patologia É o estado de extremo desconforto dian-
não é c a u s a d a a p e n a s por fatores s o c i a i s e te das próprias reações fisiológicas e
culturais - u m a " d o e n ç a m o d e r n a " - , c o m o o psicológicas a u m estímulo - e m essên-
s e n s o c o m u m c o n s i d e r a . N ã o existe n e n h u m cia, receio de u m ataque de pânico e,
m a r c a d o r ou e x a m e laboratorial que ajude no e m última instância, o medo da morte.
d i a g n ó s t i c o de u m t r a n s t o r n o de a n s i e d a d e , Quaisquer anormalidades, c o m o respi-
que é c l í n i c o , o u s e j a , b a s e a d o nos s i n t o m a s . ração alterada ou batimentos cardíacos
O p s i q u i a t r a deve d e s c a r t a r p o s s í v e i s c a u s a s acelerados, vertigens, suores ou tremo-
orgânicas subjacentes aos s i n t o m a s , c o m o res, são interpretados c o m o sinais de
a l t e r a ç õ e s h o r m o n a i s da m e n o p a u s a ou colapso iminente, insanidade ou morte.
d i s f u n ç õ e s da g l â n d u l a tireóide. Para fugir dessas sensações, a pessoa
A h i p ó t e s e m a i s aceita é que c a d a t r a n s - tende a evitar as situações que acredita
t o r n o de a n s i e d a d e é o resultado da interação poderem acionar essas reações, o que
e n t r e g e n é t i c a e e s t í m u l o s a m b i e n t a i s es- c o m frequência limita de maneira grave
t r e s s a n t e s . " S e m o fator genético não existe a mobilidade.
o t r a n s t o r n o , m a s a p r e s e n ç a dele t a m b é m
não é u m d e s t i n o , é a p e n a s u m a p o s s i b i l i -
| ^ capa
c o m m e d i c a ç ã o . E m t r a b a l h o s que a v a l i a m
a c o m b i n a ç ã o , o s r e s u l t a d o s c o s t u m a m ser
s u p e r i o r e s , p o r é m há a i n d a c o n t r o v é r s i a s " ,
• J P Transtorno d i z B e r n i k . " P a r a e v i t a r r e c a í d a s , de m o d o
^ % obsessivo- geral d e v e - s e p r o l o n g a r o t r a t a m e n t o por
compulsivo (TOC) u m a n o . P o u c o s p a c i e n t e s p r e c i s a m de tra-
Considerado u m transtorno de ansie- t a m e n t o c o n t i n u a d o de longo p r a z o . "
dade pelo DSM-IV, o T O C ocupa agora
u m capítulo à parte no DSM-V. É carac- MEDO DE GENTE
terizado por pensamentos recorrentes O m a i s c o m u m d o s t r a n s t o r n o s de ansiedade
ou imagens (obsessões) estressantes é a fobia s o c i a l , o u a n s i e d a d e s o c i a l , que afeta
- por exemplo, a pessoa teme ser con- de 3 , 5 % a 1 6 % da p o p u l a ç ã o geral - os dados
t a m i n a d a , perder o controle e m público, v a r i a m devido à m e t o d o l o g i a e às a m o s t r a s
cometer u m erro ou se comportar de dos diferentes e s t u d o s . O s primeiros sinais
maneira inadequada. Para fugir disso, c o s t u m a m s u r g i r a i n d a na i n f â n c i a . Bernik
t e m a necessidade urgente de realizar e n u m e r a p o s s í v e i s s i n t o m a s do t r a n s t o r n o
certas ações (compulsões) que, e m sua n e s s a fase da v i d a , que d e v e m ser e x a m i n a -
fantasia, neutralizarão esses pensamen- dos c o m c u i d a d o . " A n s i e d a d e de s e p a r a ç ã o ,
tos intrusivos: lavar-se, executar rituais, u m a p r e o c u p a ç ã o e x a g e r a d a e m se afastar
fazer verificações constantes etc. O dos pais ou de que algo ruim aconteça c o m
transtorno, e m geral, leva à depressão e eles. S i t u a ç õ e s e m que a criança fala s o m e n t e
afeta cerca de 3 % da população. na p r e s e n ç a d o s pais ou parentes p r ó x i m o s ,
recusa-se a ir para a e s c o l a ou manifesta so-
f r i m e n t o e x c e s s i v o na v é s p e r a de provas ou
Segundo Barros Neto, ansiolíticos devem competições esportivas."
s e r u s a d o s c o m r e s e r v a . " P o d e m c a u s a r de- A fronteira entre a timidez excessiva e
p e n d ê n c i a q u í m i c a e p r o b l e m a s de m e m ó r i a o t r a n s t o r n o é d i f í c i l d e d e m a r c a r - basi-
q u a n d o há u s o p r o l o n g a d o " . O t r a t a m e n t o camente, é necessário tratamento quando
c o m antidepressivos é mais eficaz quando o r e c e i o de s e r o b s e r v a d o e a v a l i a d o p e l o s
combinado à psicoterapia. "Há estudos o u t r o s c o m e ç a a c a u s a r s o f r i m e n t o o u pre-
somente com psicoterapia, outros somente j u í z o s e m a l g u m c a m p o da v i d a , seja profis-

A PSICÓLOGA Cristiane
Cebara, do Ambulatório
de Ansiedade (Amban)
da Universidade de São
Paulo, submete paciente
à terapia de exposição à
realidade virtual: simulação
permite vivenciar situações
temidas, mas e m um
cenário fictício
e controlável

28 I mentecerebro I outubro 2014


s i o n a l , c o m o a p e r d a do e m p r e g o por e v i t a r
o a m b i e n t e d e t r a b a l h o , seja p e s s o a l , c o m o
a dificuldade em travar relacionamentos. " O
fóbico social c o s t u m a ser m o n o s s i l á b i c o ,
económico nas palavras. Isso é geralmente
interpretado pelas outras pessoas como
desinteresse. A pessoa com o transtorno
tende, a s s i m , a se isolar. Evita s i t u a ç õ e s
c o t i d i a n a s n a s q u a i s pode se s e n t i r c o n s -
t r a n g i d a , c o m o c o m e r o u e s c r e v e r na f r e n t e
dos o u t r o s " , diz Barros Neto. Além disso, a
a n s i e d a d e s o c i a l e s t á p a r t i c u l a r m e n t e rela-
c i o n a d a ao a b u s o de álcool e o u t r a s d r o g a s
que f a c i l i t a m a i n t e r a ç ã o s o c i a l .
O t r a t a m e n t o da fobia social é feito c o m
antidepressivos e terapia comportamental,
que c o m p r e e n d e estratégias c o m o terapia
de e x p o s i ç ã o e t r e i n o de h a b i l i d a d e s s o c i a i s .
O terapeuta simula em consultório situações dos sintomas de ansiedade social foi de mais de Y I N T A N G : localizado na

que g e r a m a n s i e d a d e - c o m o i n c e n t i v a r o testa, é u m dos pontos


7 0 % . A pesquisadora reavaliou os pacientes seis
principais da acupuntura
paciente a p r e e n c h e r u m cheque na p r e s e n ç a m e s e s depois do fim do tratamento e constatou para alívio dos s i n t o m a s
de o u t r a s p e s s o a s e, p r i n c i p a l m e n t e , iniciar e que a melhora se manteve. "A técnica de expo- a n s i o s o s . Massageá-lo
m a n t e r c o n v e r s a s . A ideia é que a e x p o s i ç ã o sição à realidade virtual preserva a privacidade levemente t a m b é m tem
efeito relaxante
repetida e p r o l o n g a d a d i m i n u i g r a d u a l m e n t e do paciente, o que aumenta as chances de ele
a s e n s i b i l i d a d e ao e s t í m u l o . aderir ao tratamento, que pode ser oferecido e m
Mais recentemente, é possível contar c o m consultório", explica a autora.
a tecnologia para o tratamento da ansiedade
social. N a terapia de exposição à realidade vir-
tual, o paciente vivência, n u m cenário fictício e
controlável, a situação que teme. U m estudo do
Instituto de Psiquiatria da Universidade de São
Transtorno
Paulo ( I P Q - U S P ) analisou os efeitos da terapia
de exposição à realidade virtual (ERV) não imer-
siva e m 21 pessoas diagnosticadas c o m fobia
4 de ansiedade
generalizada (TAG)
social. Feita c o m imagens tridimensionais (3D) È, e s s e n c i a l m e n t e , a t e n d ê n c i a de se
e m monitores de c o m p u t a d o r , c o m o uso de preocupar c o n t i n u a m e n t e . N a s m a i s
óculos estereoscópicos e fones de ouvido (ver d i v e r s a s s i t u a ç õ e s , os p e n s a m e n t o s
imagem na pág. 28), essa modalidade tem menor se v o l t a m para t o d a s as p o s s í v e i s con-
custo que a RV imersiva, que d e m a n d a o uso s e q u ê n c i a s negativas e as m a n e i r a s de
capacetes. A s s i m , orientados pela psicóloga Cris- impedi-las. A m a i o r i a d a s p e s s o a s que
tiane Gebara, autora do estudo, cada participante sofre da patologia acredita que ela é
interagiu c o m u m programa de computador que u m traço de s u a p e r s o n a l i d a d e e que
apresentava várias simulações: desde c a m i n h a r o e x c e s s o de p r e o c u p a ç ã o é indispen-
na rua - e ser observado por transeuntes - e sável para s u a s o b r e v i v ê n c i a . O trans-
arriscar pedir u m a informação até receber con- torno é, m u i t a s v e z e s , a c o m p a n h a d o
vidados e m u m a festa e discursar para todos e m por s i n t o m a s f í s i c o s de e s t r e s s e :
agradecimento, lidando c o m imprevistos, c o m o insónia, tensão muscular, problemas
u m celular que toca e pessoas que c o c h i c h a m . g a s t r i n t e s t i n a i s etc. Cerca de 1 0 % das
O tratamento se completou, em média, e m sete pessoas têm o distúrbio.
sessões e o t e m p o de habituação aos estímulos
foi de cerca de 20 m i n u t o s . A média de redução

29
EXAME DE PENSAMENTOS: subcortical, isto é, m a i s primitiva do cérebro
meditação de atenção plena ajuda a - , a s s o c i a d a ao p r o c e s s a m e n t o de e m o ç õ e s
s e conscientizar da real proporção das
c o m o m e d o e raiva.
a m e a ç a s que inquietam a mente
A ansiedade foi u m m e c a n i s m o importante
para a e v o l u ç ã o . S e n ã o h o u v é s s e m o s nos
p r e o c u p a d o c o m n o s s o s predadores e outros
p e r i g o s , não t e r í a m o s t o m a d o m e d i d a s de
p r e s e r v a ç ã o da e s p é c i e . " O processo bioló-
gico de luta ou fuga do e s t r e s s e p e r m a n e c e .
A m e n t e cria f a n t a s i a s : u m a a m e a ç a fictícia
é c a p a z de d e s e n c a d e a r toda a b i o q u í m i c a
do e s t r e s s e " , diz o psicólogo e psicanalista
R u b e n s de A g u i a r M a c i e l , coordenador da Clí-
nica de R e d u ç ã o do E s t r e s s e da Faculdade de
S a ú d e Pública da U n i v e r s i d a d e de São Paulo
( F S P - U S P ) , que e n s i n a t é c n i c a s de meditação
de atenção plena (mindfulness) a pessoas c o m
p r o b l e m a s de s a ú d e relacionados ao e s t r e s s e .
A prática c o n s i s t e b a s i c a m e n t e em tentar focar
a a t e n ç ã o no m o m e n t o presente e observar
p e n s a m e n t o s e s e n s a ç õ e s que t r a n s i t a m na
m e n t e . "A m e n t e a n s i o s a é u m a m i s t u r a do
m e c a n i s m o ' s e m p r e alerta' que a d q u i r i m o s
durante a e v o l u ç ã o e de p e n s a m e n t o catastró-
fico. A m e d i t a ç ã o p e r m i t e olhar para dentro e
reconhecer 'o lado negro da força': medo, raiva
e d e m a i s e m o ç õ e s que d e v e m s e r t r a b a l h a d a s .
E i s s o i n c o m o d a " , explica M a c i e l ,
r.

Transtorno de
ansiedade social
REAÇÕES PRIMITIVAS (TAS) ou fobia social
A m a i o r parte das m u d a n ç a s q u í m i c a s e M e d o de ser j u l g a d o pelos outros,
e s t r u t u r a i s o b s e r v a d a s n o s t r a n s t o r n o s de e s p e c i a l m e n t e e m situações sociais
a n s i e d a d e é similar às do estresse crónico. U m c o m o reuniões de t r a b a l h o , apresen-
e x e m p l o são as alterações do eixo endócrino tações, festas, encontros amorosos;
hipotálamo-hipófise-adrenal ( H P A ) , que t e m até c o m e r e m c o m p a n h i a de outras
papel f u n d a m e n t a l na resposta aos estressores p e s s o a s ou u s a r b a n h e i r o s públicos
psicológicos. T a m b é m há d i m i n u i ç ã o do con- torna-se u m s u p l í c i o . O s s i n t o m a s
trole dos receptores de C R F (fator ou hormônio i n c l u e m t e n s ã o e x t r e m a ou "parali-
liberador de corticotrofinas) sobre a produção s i a " , p r e o c u p a ç ã o o b s e s s i v a c o m in-
do h o r m ô n i o a d r e n o c o r t i c o t r ó f l c o (ACTH), t e r a ç õ e s , t e n d ê n c i a ao i s o l a m e n t o e à
que e s t i m u l a as glândulas adrenais, nos rins, solidão. O t r a n s t o r n o é f r e q u e n t e m e n -
a liberar cortisol, o h o r m ô n i o do estresse. N o s te a c o m p a n h a d o pelo u s o de drogas e
quadros de fobias e pânico, há d i m i n u i ç ã o do álcool. Até 1 6 % d a s p e s s o a s t ê m e s s e
controle do córtex pré-frontal (responsável, en- problema, em algum grau.
tre outras funções, por inibir c o m p o r t a m e n t o s )
sobre o f u n c i o n a m e n t o da amígdala - região

2014
A prática c o m p r e e n d e , por exemplo, a

6
conscientização dos movimentos respirató-
rios. Inspirar e expirar o ar lentamente induz Transtorno #
ao relaxamento e à introspeção, o que tem de estresse â
i m p a c t o i m e d i a t o sobre s i n t o m a s f í s i c o s pós-traumánco
da ansiedade. As relações biológicas entre (TEPT)
s i s t e m a respiratório e crises de ansiedade Envolve o medo excessivo cau-
são pesquisadas por Nardi e seus colegas no sado por exposição anterior a ' M
Laboratório de Pânico e Respiração da UFRJ. uma ameaça ou dano. Traumas
O s ataques de pânico têm sintomas c o m u n s c o m u n s são decorrentes de vio-
à síndrome de hiperventilação (aumento da lência física ou sexual, acidentes
frequência e quantidade de ar que chega aos e conflitos armados. As pessoas que
pulmões quando respiramos rápida e profun- sofrem desse transtorno frequente-
d a m e n t e ) : palpitações, tremores, s e n s a ç ã o mente voltam a experimentar seus
de desmaio. A s s i m , a hiperventilação é capaz traumas sob a forma de pesadelos
de desencadear a parte "automática" de um ou flashbacks e evitam situações que
ataque. O excesso de ar ventilando nos pul- tragam lembranças perturbadoras.
mões reduz as concentrações de gás carbó- Podem exibir irritabilidade, tensão e
nico ( C 0 ) no sangue alterando o equilíbrio
2 hipervigilância. Abuso de drogas e
ácido-base do sistema nervoso central, o que álcool entre as pessoas que sofrem é
desencadeia os sintomas cardiorrespiratórios. endémico, assim como depressão.
A s s i m , explica Nardi, as técnicas respiratórias
são capazes de re-estabilizar o pH sanguíneo e
bloquear o automatismo da crise. Além disso, luam para os graus funcional (inflamatório,
"mantêm o pensamento 'longe' do foco de quando há alterações na função do órgão)
ansiedade, ajudando a relaxar", diz. Tanto é e orgânico (quando há lesão no tecido). O
que uma das estratégias da terapia de exposi- diagnóstico considera a saúde física e mental
ção interoceptiva (que consiste em aumentar do paciente como um todo.
a conscientização das variações físicas que A acupuntura da medicina chinesa tem
ocorrem no próprio corpo) para transtorno também efeito preventivo, como a alimentação
de pânico é provocar a hiperventilação. C o m saudável e a prática de atividade física. Pode
orientação do terapeuta, o paciente aprende evitar que o desequilíbrio psicoemocional ve-
a reconhecer que os sintomas físicos do dis- nha a se desdobrar em problemas orgânicos no
túrbio podem ser administráveis. futuro. "No nível orgânico, a acupuntura é um
tratamento coadjuvante à medicina convencio-
AGULHAS QUE TRATAM nal, não curativo. Ela atua no fator emocional iiiiiiiiiiiiiimiiiimiiiiiiiiiiiiiiiiimi
"Da perspectiva da medicina tradicional chi- desencadeante da doença, no grau energético", PARA S A B E R MAIS
nesa não se fala em estresse, mas em adoeci- diz a especialista, que estuda e aplica a técnica Exposição à realidade virtual
no tratamento da fobia social:
mento físico e emocional causado pelo con- de mobilização do Qi mental, desenvolvida um estudo aberto. Cristiane
texto de vida do indivíduo", explica a médica no m e s m o setor da Unifesp. Basicamente, G e b a r a . D i s s e r t a ç ã o de mes-
trado e m c i ê n c i a s . Instituto
especialista em acupuntura Márcia Yamamura, consiste em voltar a mente para as próprias
de Psiquiatria da Faculdade
d o S e t o r d e Medicina C h i n e s a - A c u p u n t u r a da emoções e reconhecer e trabalhar aquelas que de Medicina da Universidade
de São Paulo, 2014.
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). levam à doença antes que se tornem alterações
E m pânico. F e r n a n d a Teixei-
Cada e m o ç ã o está relacionada a um órgão - a funcionais e orgânicas. "A maioria das pessoas
ra R i b e i r o . Mente e Cérebro
ansiedade está associada ao coração. A técnica não se previne contra doenças, muitas delas n° 2 4 9 , p á g s . 32-39, o u t u b r o
de 2 0 1 3 .
consiste e m aplicar agulhas em pontos defi- diagnosticáveis no nível energético". «e*
O tormento da ansiedade.
nidos, distribuídos pelos meridianos - canais Robert Leahy. Mente e Cére-
energéticos - correspondentes ao órgão em bro n° 2 1 9 , p á g s . 2 4 - 3 3 , abril
No dia 22 de novembro acontece em São Paulo de 2 0 1 1 .
desarmonia, de forma a equilibrar disfunções
o 3 Seminário Mente e Cérebro, com o tema
o
S e m medo de ter medo. T i t o
ainda no nível energético e impedir, de acordo Estresse e Ansiedade. Saiba mais em P a e s de B a r r o s N e t o . C a s a
com a medicina tradicional chinesa, que evo- www.mentecerebro.com.br do Psicólogo, 2000.

31
capa

Mais neurónios,
mais equilíbrio
ALGUNS CIENTISTAS APOSTAM Q U E AUMENTAR A PRODUÇÃO DE NOVAS CÉLULAS

CEREBRAIS PODE AJUDAR A CRIAR E A FIXAR NOVAS MEMÓRIAS, O Q U E , NO NÍVEL

N E U R O L Ó G I C O , C O N T R I B U I PARA REVERTER S I N T O M A S DE PÂNICO,

DO ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO E D E OUTROS T R A N S T O R N O S DE ANSIEDADE

p o r M a z e n A . K h e i r b e k e René H e n

^ ^ ^ ^ ^ urante s é c u l o s , a noção de que o cérebro adulto


^ não c o n s e g u i a p r o d u z i r n o v o s neurónios per-
M m a n e c e u c o m o u m p r i n c í p i o central da neuro-
fc^^^ biologia. N o final do s é c u l o 19, o histologista
e s p a n h o l S a n t i a g o R a m o n y C a j a l , que e s s e n c i a l m e n t e
c o n c e b e u a n e u r o c i ê n c i a m o d e r n a (leia mais sobre seu
trabalho em "Imagens do cérebro", na pág. 60), declarou
que e s s a renovação neural era i m p o s s í v e l - e e s s a ideia se
perpetuou por m u i t o t e m p o . A p ó s d é c a d a s de o b s e r v a ç ã o
c u i d a d o s a e e s c l a r e c i m e n t o m e t i c u l o s o da arquitetura mi-
c r o s c ó p i c a de células n e r v o s a s e s u a s c o n e x õ e s , R a m o n y
Cajal c o n c l u i u que no cérebro adulto " a s vias nervosas são
OS A U T O R E S fixas, a c a b a d a s e i m u t á v e i s ; t u d o pode morrer, nada pode
M A Z E N A. KHEIRBEK é professor assistente
de neurobiologia clínica em psiquiatria da
ser regenerado". A s s i m , q u a n d o na década de 60 o pesqui-
Universidade Columbia e pesquisador do Instituto s a d o r J o s e p h A l t m a n , na é p o c a no Instituto de Tecnologia
de Psiquiatria do Estado de Nova York. R E N É
de M a s s a c h u s e t t s ( M I T ) , p u b l i c o u u m a série de artigos
H E N é psiquiatra, pós-doutor em neurociência e
farmacologia, professor da Universidade Columbia m o s t r a n d o que n e u r ó n i o s n o v o s n a s c e r a m no cérebro de
e diretor da divisão de neurociência integrativa
c o b a i a s a d u l t a s , s e u t r a b a l h o foi s o l e n e m e n t e ignorado.
no Departamento de Psiquiatria no Instituto de
Psiquiatria do Estado de Nova York. Talvez e s s e d e s d é m não t e n h a s i d o s u r p r e e n d e n t e porque

I mentecerebro I outubro 2014


do ponto de v i s t a lógico o s u r g i m e n t o de n e u r ó n i o s
novos e m u m cérebro t o t a l m e n t e d e s e n v o l v i d o seria
u m a receita para o d e s a s t r e . Se o c é r e b r o a r m a z e n a
informações e m redes específicas de conexões neurais,
a inserção aleatória de células inexperientes n e s s a s re-
des preexistentes poderia inutilizar n o s s a c a p a c i d a d e
de codificar e recuperar i n f o r m a ç õ e s c o r r e t a m e n t e e,
a s s i m , e m b a r a l h a r n o s s a s l e m b r a n ç a s . N a d é c a d a de
9 0 , o b s e r v a n d o a t e n t a m e n t e c é r e b r o s de r o e d o r e s ,
macacos adultos e h u m a n o s , cientistas colheram
e v i d ê n c i a s de que novos n e u r ó n i o s c o n t i n u a m a apa-
recer no decorrer da vida e m d u a s regiões c e r e b r a i s :
u m a relacionada ao olfato e o u t r a , o h i p o c a m p o , à
aprendizagem, à memória e à emoção.
Desde então, pesquisadores se p e r g u n t a m o que,
exatamente, essas células recém-nascidas f a z e m . E, em-
bora o papel dos neurónios neófitos no s i s t e m a olfativo
ainda seja u m tanto obscuro, o h i p o c a m p o c o m e ç o u
a revelar seus segredos. O trabalho de n o s s o grupo de
pesquisa e outros sugere que a f u n ç ã o d a s estruturas
celulares emergentes seja ajudar a gravar m e m ó r i a s
de u m a f o r m a que as distinga c o m o s i n g u l a r e s , impe-
dindo que se c o n f u n d a m . E s s a constatação pode levar
a novas abordagens para o tratamento de distúrbios
de ansiedade, inclusive o transtorno de e s t r e s s e pós-
t r a u m á t i c o ( T E P T ) , pois q u e m sofre d e s s a s condições
t e m dificuldade e m distinguir situações que c o s t u m a m
provocar o m e d o aparentemente s e m r a z ã o .
Essencialmente, a memória envolve recordar e regis-
trar. Na maioria das vezes é o processo inicial - pelo qual
u m a lembrança viva e detalhada pode retornar devido a
u m a única visão, aroma ou sabor - que inspira admi-
ração. O sabor de u m a madeleine mergulhada e m u m a
xícara de chá de imediato transporta o narrador de Em
busca do tempo perdido, de Mareei Proust, de volta para
as m a n h ã s de domingo de sua infância, por exemplo.
A capacidade de sugestões s e n s o r i a i s i n v o c a r e m
a lembrança de u m a experiência anterior - processo
d e n o m i n a d o reconhecimento de padrão de m e m ó r i a
- é u m a das funções m a i s importantes do h i p o c a m p o .
No entanto, antes de u m a m e m ó r i a ser recuperada, ela
deve ser fixada corretamente. G r a v a r detalhes de u m
acontecimento de forma que nos permita distinguir u m
do outro - separação de padrão - é outra função básica
do h i p o c a m p o . G r a ç a s a e s s a capacidade, que parece
estar ligada à produção de neurónios n o v o s , p o d e m o s
(quase s e m p r e ) lembrar onde e s t a c i o n a m o s o carro
hoje de m a n h ã , e m oposição a onde p a r a m o s o n t e m
ou na s e m a n a p a s s a d a .
Essa discriminação é essencial não apenas para manter
as lembranças organizadas, mas t a m b é m para orientar

33
^ capa

O q u e o s neurónios n o v o s f a z e m
N e u r ó n i o s r e c é m - c r i a d o s no giro d e n t e a d o do cérebro
(ao lado) participam da " s e p a r a ç ã o de p a d r ã o " , capaci-
dade de distinguir e x p e r i ê n c i a s s e m e l h a n t e s . O s autores
p r o p u s e r a m u m a h i p ó t e s e para explicar c o m o n e u r ó n i o s
novos c o n t r i b u e m para a s e p a r a ç ã o de padrão (A)
e por que a falta deles pode f a z e r a l g u é m c o n f u n d i r
u m a situação não a m e a ç a d o r a c o m u m a a s s u s t a -
dora do p a s s a d o (B), c o m o o c o r r e no t r a n s t o r n o
de estresse p ó s - t r a u m á t i c o .

Neurónios
maduros (verde)

Neurónios
^ j ^ C O M O NEURÓNIOS jovens (azul)

l í f NOVOS REALÇAM AS Estímulos


Neurónios

DIFERENÇAS EM EXPERIÊNCIAS sensoriais


inibitórios (preto)

para o giro
Neurónios novos podem apoiar a separação de denteado
padrão ao codificarem novas informações melhor


que as células mais antigas, m a s os autores
preferem uma visão diferente: após o estímulo do
mundo exterior ativar células cerebrais jovens e
maduras, as jovens induzem neurónios inibitórios
a reprimir grande parte da atividade do giro
denteado {sombreamento leve). E s s e efeito realça
os detalhes distintivos de ambos a uma experiência Percepção
nova (vermelho) e a uma recordação de experiência de estímulos
semelhante (amarelo), que pode ser mais trágica.

Memória de
um estímulo
semelhante

Neurônio silenciado

SEM NEURÓNIOS NOVOS,


REINA A CONFUSÃO
Segundo a hipótese do autor, a ausência de
Percepção de uma neurónios novos elimina os efeitos inibitórios
nova experiência das células no giro denteado. A s s i m , mais
se mescla com células disparam e m resposta a novos registros
lembranças e às memórias que e v o c a m . E m consequência,
do passado as representações neurais dos acontecimentos
podem s e sobrepor exageradamente,
provocando a s s i m - de modo inadequado - a
percepção de mistura dos dois acontecimentos.

34 I mentecerebro I outubro 2014


nosso comportamento - por exemplo, nos per- colocado nesse recinto, ele
mitir ir e m direção ao local onde lembramos ter congela de m e d o .
Animais sem novas
estacionado o carro. Depois, para testar a ca- células cerebrais
pacidade de os roedores se ficam mais ariscos
DATA DE NASCIMENTO envolverem na separação de
e ansiosos quando
N ó s dois d e c i d i m o s explorar o papel que os padrão, nós os c o l o c a m o s
neurónios novos exercem em distinguir m e m ó - e m u m a caixa muito seme- colocados em
rias, e m parte, porque se sabe que essas células lhante à primeira, m a s não locais que evocam
novatas s u r g e m exatamente nessa fatia. Dentro exatamente a m e s m a . Se a experiências
d e s s a parte do h i p o c a m p o , as células-tronco "caixa do choque" era quadra-
neurais - células parentais que produzem novos da c o m paredes prata, ilumi-
desagradáveis
neurónios - estão concentradas e m u m a fina nação azul e cheiro de anis, a
c a m a d a de células c h a m a d a zona subgranular. caixa sósia poderia ter a m e s m a forma e cor, mas
Depois, neurónios recém-nascidos migram c o m aroma de banana ou limão, por exemplo.
desse berçário neural para outras partes do giro No início, os animais apresentavam medo. Mas,
denteado onde se integram a circuitos já existen- quando não há choque iminente, logo aprendem
tes. E m c a m u n d o n g o s , as novas células podem a diferenciaras duas s i t u a ç õ e s - f i c a v a m imóveis
ser responsáveis por até 1 0 % dos neurónios no na caixa de choque, mas relaxados ao visitarem a
giro denteado. U m estudo recente usando u m a versão ligeiramente diferente.
f o r m a de d a t a ç ã o por carbono para e s t i m a r Acreditamos que, se a produção de novos
"datas de n a s c i m e n t o " das células cerebrais neurónios fosse fundamental para a separação
m o s t r o u que n ó s , h u m a n o s , c o n t i n u a m o s a de p a d r ã o , e l i m i n a r a n e u r o g ê n e s e no giro
produzir neurónios novos no hipocampo e m denteado de u m animal dificultaria a distinção
u m a proporção constante até a idade avançada, entre as duas situações - e foi justamente o que
adicionando cerca de 1.400 todos os dias. o b s e r v a m o s . A n i m a i s s e m neurónios novos
Para testar se neurónios novos participam permaneciam excessivamente ariscos, reagindo
da separação de padrão, c o m e ç a m o s a estudar assustados nos dois ambientes, m e s m o após
a questão e m c a m u n d o n g o s e m 2009. De iní- repetidas viagens s e m incidentes à caixa inofen-
cio, e l i m i n a m o s neurónios jovens e i m a t u r o s , siva. S e m a habilidade de realizar a separação de
bloqueando a neurogênese ou reforçando s u a padrão, os animais generalizavam o medo do
quantidade pela sobrevivência celular. Então, local original - permitindo que a ansiedade os
q u e s t i o n a m o s se e s s a s manipulações afetaram d o m i n a s s e em qualquer lugar que lembrasse o
a capacidade dos a n i m a i s testados de diferen- local da experiência desagradável.
ciar situações s e m e l h a n t e s . E m contraposição, na experiência, podemos
C o m o m u i t o s pesquisadores do comporta- aumentar a quantidade de neurónios novos no
m e n t o , u s a m o s u m tipo de c o n d i c i o n a m e n t o giro denteado do c a m u n d o n g o eliminando u m
desenvolvido pelo fisiologista russo Ivan Pavlov gene que, de outro m o d o , estimularia a morte
no início de 1900. Ele descobriu que, se tocasse de células jovens desnecessárias. O s roedores
u m a c a m p a i n h a q u a n d o alimentava seus cães, c o m o giro denteado fortalecido c o n s e g u e m
os a n i m a i s a s s o c i a v a m o s o m à c o m i d a e co- distinguir melhor a caixa do choque de sua sósia,
m e ç a v a m a salivar ao ouvir o toque. Durante o sentindo-se mais rapidamente confortáveis no
último s é c u l o , e s s a f o r m a s i m p l e s de aprendi- local que se provou seguro. E s s a s observações
zado v e m s e n d o a m p l a m e n t e explorada para c o n f i r m a m que os neurónios recém-nascidos
testar a base neural da m e m ó r i a . exercem papel na codificação e na diferenciação
E m n o s s a s experiências, e m vez de tocar u m entre m e m ó r i a s relacionadas, m a s distintas.
sino para anunciar a oferta de alimentos, treina- O u t r o s laboratórios obtiveram resultados
m o s c a m u n d o n g o s a antecipar u m choque leve semelhantes. Cientistas liderados por Fred H.
no pé q u a n d o retirados da gaiola e colocados Gage, do Instituto Salk para Estudos Biológi-
e m u m a caixa e s t r a n h a . A p ó s algumas exposi- cos, ajudaram a instigar a explosão de pesquisas
ç õ e s , u m a n i m a l aprende a associar esse novo sobre a neurogênese na década de 90, e por
a m b i e n t e ao c h o q u e - e, a s s i m , cada vez que é Timothy Bussey, da Universidade de Cambridge,

35
^ capa
demonstraram que a eliminação de neurónios ferenciar entre itens semelhantes exibem atividade
n o v o s no cérebro de c a m u n d o n g o s adultos elevada no giro denteado. Embora a detecção de
prejudica sua aptidão e m discriminar objetos hiperatividade, e m vez da função reduzida, pareça
espaçados a pouca distância - avaliada pela sua ir contra o bom senso, na verdade pode ser lógica.
capacidade de escolher o lado correto e m u m Se cada situação evocou estímulo generali-
labirinto ou por tocar a imagem correta c o m o na- zado de neurónios no giro denteado - ativando,
riz e m u m a tela computadorizada. O laboratório digamos, 95 neurónios e m u m a população de
de Bussey demonstrou ainda que o estímulo da 100 - , as memórias associadas se misturariam
neurogênese melhora o desempenho dos animais e n e n h u m a seria distinta. Ao contrário, o giro
no teste de touch-screen. Além disso, usando u m denteado acentua as diferenças entre um acon-
protocolo de condicionamento semelhante ao tecimento e o seguinte, ativando seletivamente
que empregamos, S u s u m u Tonegawa, do MIT, subconjuntos localizados de neurónios que não
e seus colegas confirmaram que camundongos se sobrepõem. A s s i m , o local de estacionamento
s e m neurónios novos demonstram incapacidade de hoje dispara atividade e m , digamos, cinco neu-
de distinguir entre segurança e perigo. rónios entre 100 no giro denteado, enquanto o de
Estudos que examinam os efeitos da interrup- ontem disparou u m conjunto diferente de cinco.
ção ou do estímulo de geração de células cerebrais C o m e ç a m o s a especular se neurónios novos
não foram realizados em voluntários humanos, podem promover a separação de padrão freando
m a s , se a neurogênese fosse importante para a a atividade geral do giro denteado. Conforme as
separação de padrão em pessoas, esperaríamos células recém-nascidas amadurecem, parecem
descobrir que as interrupções no processo esta- interagir preferencialmente com neurónios ini-
riam vinculadas a alguma perturbação detectável bitórios. Q u a n d o essas células inibitórias estão
O H I P O C A M P O grava na atividade do giro denteado, onde neurónios e s t i m u l a d a s , elas a m o r t e c e m a atividade de
detalhes do que v i v e m o s novos nascem e permanecem. Na verdade, essa outros neurónios no giro denteado. Essa conexão
para que seja possível
ligação foi observada em humanos. Usando res- entre neurónios recém-nascidos e a supressão
identificá-los depois:
graças a e s s a capacidade,
sonância magnética funcional para monitorar a do giro denteado é confirmada em estudos c o m
podemos distinguir o atividade neural, Michael Yassa, da Universidade camundongos nos quais a neurogênese foi elimi-
local onde estacionamos Johns Hopkins, e Craig Stark, da Universidade da nada. Esses roedores s e m neurónios neonatos
o carro hoje de m a n h ã
Califórnia e m Irvine, demonstraram que pessoas d e m o n s t r a m atividade espontânea elevada no
daquele em que paramos
na s e m a n a passada que apresentam diminuição da capacidade de di- giro denteado, sugerindo que os neurónios novos
são responsáveis por manter a atividade neural
geral e m operação.
Se o processo de neurogênese estiver de
fato e n v o l v i d o na s e p a r a ç ã o de padrão e m
h u m a n o s , a descoberta poderia contribuir para
esclarecer a c a u s a dos transtornos de ansieda-
de, c o m o o T E P T . Psicólogos há muito já sus-
peitavam que u m a generalização da m e m ó r i a
contribuísse para os transtornos de ansiedade,
m a r c a d o s por u m a resposta de medo exagera-
d a , por v e z e s , incapacitante, m e s m o quando
o a m b i e n t e não p r o v o c a n e n h u m a a m e a ç a
imediata. E s s a generalização inadequada po-
deria ser o resultado de u m a d i m i n u i ç ã o da
capacidade de distinguir u m trauma passado de
u m a situação inócua que compartilhe algumas
s e m e l h a n ç a s c o m o evento t r a u m á t i c o , por
exemplo, u m piquenique interrompido por u m
barulho inesperado. P e s s o a s c o m capacidade
normal de separação de padrão podem tremer
c o m a explosão repentina, m a s rapidamente

36 I mentecerebro I outubro 2014


percebem que o parque não é u m a z o n a de dos e x e r c e m , s u s p e i t a m o s
guerra e c o n t i n u a m a almoçar. Por outro lado, que adultos que sofrem
A atividade física
u m veterano c o m capacidade prejudicada de de a n s i e d a d e , d e p r e s s ã o , regular favorece
perceber a s e p a r a ç ã o de padrão pode ser inca- T E P T e até declínio cogni- a neurogênese e
paz de discernir o s o m de e s c a p a m e n t o de u m tivo d e c o r r e n t e de enve-
lhecimento poderiam se
promove tanto
carro da l e m b r a n ç a do c a m p o de batalha - erro
que poderia deflagrar u m ataque de pânico. beneficiar de intervenções o fortalecimento
Experiências apoiam a conexão proposta en- destinadas a aumentar a quanto o aumento
tre separação de padrão prejudicada e os trans- neurogênese. U m a técnica
do número de
t o r n o s de a n s i e d a d e e m h u m a n o s . S h m u e l que já provou e s t i m u l a r a
Lissek, da U n i v e r s i d a d e de M i n n e s o t a , e seus neurogênese em animais
conexões no cérebro
colegas m o s t r a m , por e x e m p l o , que os que adultos é o exercício. Na
sofrem de t r a n s t o r n o s de pânico t ê m tendência v e r d a d e , a descoberta de G a g e de que a ex-
a se a s s u s t a r ao ver u m objeto semelhante a p o s i ç ã o a u m a roda de corrida e s t i m u l o u a
outro, a s s o c i a d o a u m leve choque no pulso. quantidade de n e u r ó n i o s no cérebro de u m
E s t u d o s c o m antidepressivo corroboram a c a m u n d o n g o adulto r e a c e n d e u o i n t e r e s s e
ideia de que u m déficit na produção de neuró- pela neurogênese no final da década de 90. No
nios novos pode i m p u l s i o n a r transtornos de entanto, o exercício físico e alguns antidepres-
ansiedade. H á c a s o s e m que, pelo m e n o s de sivos provavelmente t a m b é m influenciam o
imediato, a droga alivia os s i n t o m a s . C a m u n - c o m p o r t a m e n t o e a atividade neural de f o r m a
dongos tratados c o m a droga tendem a se mos- não v i n c u l a d a a s e u s efeitos sobre a neurogê-
trar m e n o s n e r v o s o s e m a i s o u s a d o s quando n e s e , p r o m o v e n d o interconexões neuronais
colocados e m u m ambiente novo. Mas acredita- reforçadas e m a i s n u m e r o s a s , por exemplo.
m o s que e s s e i m p u l s o para a aventura induzido Nesse sentido, uma abordagem mais
por m e d i c a ç ã o seja totalmente dependente de d i r e c i o n a d a para a u m e n t a r a p r o d u ç ã o de
neurónios n o v o s . Tratamentos que e s t a n c a m novos neurónios pode ajudar a reverter espe-
o n a s c i m e n t o de neurónios novos abolem os cificamente os déficits de separação de padrão
efeitos ansiolíticos do m e d i c a m e n t o - t r a b a l h o que a c r e d i t a m o s p r e c i p i t a m o d e s c o n f o r t o
que p u b l i c a m o s na revista Science e m 2 0 0 3 . e m o c i o n a l e até o p â n i c o e m a l g u n s c a s o s
de T E P T ou outros t r a n s t o r n o s de ansiedade.
ALÍVIO DA DOR U m a seleção recente de s u b s t â n c i a s q u í m i c a s
Desde então, u m de nós (Hen) mostrou em u m capazes de a u m e n t a r a neurogênese no giro iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiniiiiiiiiiiiiiiiii

estudo realizado c o m os seus colaboradores da d e n t e a d o de c a m u n d o n g o s adultos revelou PARA S A B E R MAIS


Universidade C o l u m b i a que a neurogênese é u m candidato promissor, d e n o m i n a d o P 7 C 3 , Adult n e u r o g e n e s i s in the
mammalian hippocampus:
necessária para que antidepressivos desempe- que p r o m o v e a s o b r e v i v ê n c i a de n e u r ó n i o s
why the dentate gyrus? L J.
nhem seu papel no alívio de comportamentos n e o n a t o s . J u n t a m e n t e c o m n o s s o s próprios D r e w , S. F u s i e R. H e n , e m
Leaming and memory, vol.
depressivos e m macacos adultos. Estamos agora e s t u d o s , que m o s t r a m u m a redução de an-
2 0 , n° 1 2 , p á g s . 7 1 0 - 7 2 9 ,
começando a explorar o papel de neurónios novos siedade e m c a m u n d o n g o s quando inibimos a d e z e m b r o de 2 0 1 3 .

diretamente e m pessoas. Ao examinar cérebros morte de neurónios novos, esse trabalho nos N e u r o g e n e s i s and genera-
proporciona a esperança de que avanços nas lization: a new approach
que foram doados post mortem, determinamos
to stratify and treat anxiety
até o m o m e n t o que o tratamento c o m antide- abordagens farmacológicas para e s t i m u l a r a disorders. M . A . Kheirbek, K.
neurogênese poderiam auxiliar os que sofrem C Klemenhagen, A. Sahay e
pressivos pode aumentar o número de células-
R. H e n , e m Nature Neuros-
-tronco neurais (que produzem neurónios novos de ansiedade. cience, v o l . 15, p á g s . 1613-
1620, d e z e m b r o de 2 0 1 2 .
no giro denteado) de pacientes c o m transtorno A p e s a r de R a m o n y Cajal n u n c a ter imagi-
Increasing adult hippo-
depressivo maior. Porém, ainda é preciso saber se nado que o cérebro adulto p u d e s s e se refazer,
c a m p a l n e u r o g e n e s i s is
a neurogênese é realmente necessária para que foi c a p a z de v i s u a l i z a r o potencial terapêutico sufficient to improve pattern
separation. A . Sahay, K. N .
esses fármacos tratem a depressão e a ansiedade d o r e j u v e n e s c i m e n t o n e u r o n a l . C o m o ele
S c o b i e , A. S. H i l l , C M.
de forma eficaz e e m que casos essas drogas real- m e s m o o b s e r v o u e m seu livro de 1914, Dege- 0 ' C a r r o l l , M . A . Kheirbek, N .
mente trazem mais benefícios do que prejuízos. S. B u r g h a r d t , A . A . F e n t o n ,
neração e regeneração do sistema nervoso: "Fica
A. D r a n o v s k y e R. H e n , e m
C o m a v a l o r i z a ç ã o crescente do papel que para a ciência do futuro mudar, se p o s s í v e l , Nature, v o l . 4 7 2 , p á g s . 466-
o giro denteado e s e u s neurónios recém-nasci- e s s e decreto i m p l a c á v e l " . me* 4 7 0 , 28 de abril de 2 0 1 1 .

37
^ v i d a contemporânea

Medo e
modernidade
líquida
DURANTE A MAIOR PARTE DE NOSSA VIDA ESTAMOS SUBMETIDOS A A L G U M S O F R I M E N T O E O

T E M P O T O D O T E M E M O S A D O R E O D E S C O N F O R T O E M O C I O N A L Q U E P O D E M A D V I R DAS

AMEAÇAS PERMANENTES; LIBERDADE E SEGURANÇA SÃO E SEMPRE SERÃO INCONCILIÁVEIS

por Zygmunt Bauman

B
B 1 1
^ ^ arece que medo e modernidade são irmãos gémeos,
J até siameses, de u m tipo que n e n h u m cirurgião, ain-
da que hábil e equipado c o m a última palavra e m
tecnologia, poderia separar s e m colocar em risco
a sobrevivência de a m b o s . Existem, e sempre existiram e m
todas as épocas, três razões para ter medo. U m a delas era (e
continuará a ser) a ignorância: não saber o que vai acontecer
e m seguida, o quanto s o m o s vulneráveis a infortúnios, que
tipo de infortúnios serão esses e de onde provêm. A segunda
era (e continuará a ser) a impotência: suspeita-se que não
há nada ou quase nada a fazer para evitar um infortúnio ou
se desviar dele, quando vier. A terceira era (e continuará a
ser) a humilhação, u m derivado das outras duas: a ameaça
O AUTOR apavorante a nossa autoestima e autoconfiança quando se
Z Y G M U N T B A U M A N é sociólogo, professor emérito
das universidades de Varsóvia e Leeds. Criador do revela que não fizemos tudo que poderia ser feito, que nossa
conceito de "liquidez contemporânea", tem mais própria desatenção aos sinais, nossa indevida procrastinação,
de 30 livros publicados no Brasil pela Zahar. Este
texto foi publicado originalmente em seu livro mais
preguiça ou falta de vontade são em grande parte responsáveis
recente, Cegueira moral - A perda da sensibilidade pela devastação causada pelo infortúnio.
na modernidade líquida (Zahar, 2014), escrito
e m parceria com o filósofo Leonidas Donskis, e
C o m o é totalmente improvável que se venha a atingir o
reproduzido c o m autorização da editora e do autor. conhecimento pleno do que está porvir, e c o m o as ferramentas

38 I mentecerebro I outubro 2014


disponíveis para prevenir essa chegada dificilmente podem ser ência m o m e n t â n e a , transitória - vivida n u m f l a s h , quando
consideradas seguras, certo grau de ignorância e impotência o sofrimento é interrompido. "A infelicidade", sugere Freud,
tende a a c o m p a n h a r os seres humanos e m todos os seus "é muito m e n o s difícil de experimentar."
empreendimentos. Falando claramente, o medo veio para ficar. A maior parte do tempo, então, nós sofremos, e o tempo
O s seres h u m a n o s sabem disso desde os tempos imemoriais. todo t e m e m o s o sofrimento que pode advir das ameaças per-
A visão do medo c o m o perturbação t e m p o r á r i a - a ser afastada manentes pairando sobre nosso bem-estar. H á três direções
g do c a m i n h o e eliminada de u m a vez por todas pelas tropas das quais t e m e m o s que o sofrimento advenha: do poder supe-
1 avançadas da razão - f o i apenas u m episódio singular, mais ou rior da natureza, da fragilidade de nossos corpos e dos outros
§ menos curto, no segmento moderno da história h u m a n a . Esse seres h u m a n o s . Dado que acreditamos mais na possibilidade
§ episódio, c o m o você observou, agora está quase encerrado. de reformar e aperfeiçoar as relações humanas que e m subjugar
§ S i g m u n d Freud escreveu e m 1929, e n i n g u é m o contra- a natureza e por fim a fraqueza do corpo h u m a n o , temos medo
S d i s s e s e r i a m e n t e desde então: " S o m o s feitos de m o d o a da inadequação das regras que ajustam as relações mútuas dos
o
seres humanos na família, no Estado e na sociedade. Sendo
2 só p o d e r m o s derivar prazer intenso do contraste, e muito
o sofrimento, ou o horror que ele provoca, u m acessório per-
1 pouco de d e t e r m i n a d o estado de c o i s a s " . E m O mal-estar
manente da vida, não admira que o "processo da civilização"
| na civilização, ele citou a advertência de G o e t h e , de que
(essa longa e talvez interminável marcha e m direção a u m
| " n a d a é m a i s difícil de suportar que u m a s u c e s s ã o de dias
modo de ser e estar n u m mundo mais hospitaleiro e menos
2 lindos", e m apoio a sua própria opinião, apenas c o m a ligeira
perigoso) se concentre em localizar e bloquear essas três fontes
| ressalva de que isso talvez fosse " u m exagero". Enquanto o
da infelicidade h u m a n a .
f sofrimento pode ser u m a condição duradoura e ininterrupta,
A guerra declarada ao desconforto h u m a n o e m todas as
1 a felicidade, e s s e "prazer intenso", só pode ser u m a experi-
39
^ v i d a contemporânea
suas variedades é travada e m três frentes. En- ca e m u m a vida civilizada. Foi esse o veredicto
quanto muitas batalhas vitoriosas t ê m se dado pronunciado por Freud e m 1929. Imagino se ele
nas duas primeiras frentes, e u m número cres- emergiria intacto caso Freud o elaborasse hoje,
cente de forças inimigas esteja sendo desarmado mais de oitenta anos depois. Duvido. Embora
e posto fora de ação, na terceira linha de batalha suas premissas se mantivessem (as d e m a n d a s
o destino da guerra continua indefinido, e não da vida civilizada e t a m b é m o e q u i p a m e n t o
parece que as hostilidades irão chegar ao f i m . instintivo h u m a n o , transmitido pela evolução
Para libertar os seres h u m a n o s de seus medos, da espécie, têm permanecido fixos por muito
a sociedade deve impor restrições a seus m e m - t e m p o , e presume-se que sejam i m u n e s aos
bros, enquanto, para continuar e m sua busca caprichos da história), o veredicto provavelmente
da felicidade, h o m e n s e m u l h e r e s p r e c i s a m seria invertido.
rebelar-se contra essas restrições. A terceira das S i m , Freud repetiria que a civilização é u m a
três fontes do sofrimento h u m a n o não pode ser questão de permuta: você ganha alguma c o i s a ,
eliminada por decreto. A interface entre a busca porém cede outra. M a s ele poderia ter situado
da felicidade individual e as inelutáveis condi- as raízes dos desconfortos psicológicos e dos
ções da vida em c o m u m será s e m p r e u m local descontentamentos que ele engendra no lado
de conflito. O s impulsos instintivos dos seres oposto do espectro de valor. Poderia ter con-
humanos tendem a se chocar c o m as d e m a n d a s cluído que, no período atual, a insatisfação dos
de uma civilização inclinada a enfrentar e vencer seres h u m a n o s c o m a situação geral provém
as causas do sofrimento h u m a n o . sobretudo de ceder muita segurança e m troca de
Por esse motivo, a civilização, insiste Freud, u m a expansão s e m precedentes dos d o m í n i o s
é u m a permuta: para ganhar alguma coisa dela, da liberdade.
os seres h u m a n o s d e v e m dar algo e m troca. Freud escrevia e m a l e m ã o . Para traduzir o
Tanto o que se ganha quanto o que se dá é muito significado do conceito que ele u s o u , Sicherheit,
valorizado e desejado; cada fórmula de troca, são necessárias três palavras: certeza, seguran-
portanto, não passa de u m acordo temporário, ça e proteção. A Sicherheit que e m grande parte
produto de um c o m p r o m i s s o j a m a i s satisfatório cedemos c o n t é m : a certeza sobre o que o futuro
para nenhum dos dois lados desse antagonismo vai trazer e os efeitos (se é que haverá a l g u m )
sempre latente. A hostilidade terminaria se de- que n o s s a s ações irão produzir; a s e g u r a n ç a
sejos individuais e d e m a n d a s sociais pudessem e m n o s s a posição socialmente atribuída e e m
ser atendidos simultaneamente. n o s s a s tarefas existenciais; e a proteção contra

M
os ataques a n o s s o s corpos e s u a s extensões,
as não é a s s i m . A liberdade de agir n o s s a s p o s s e s . Abdicar da Sicherheit resulta
de a c o r d o c o m s u a s c o m p u l s õ e s , na Unsicherheit, condição que não se s u b m e t e
inclinações, impulsos e desejos, bem tão facilmente a d i s s e c a ç ã o e a investigação
c o m o as restrições impostas a ela por motivos a n a t ó m i c a . A s três partes constituintes contri-
de segurança, são altamente necessárias para buem para sofrimentos, ansiedades e m e d o s ,
u m a vida satisfatória - na verdade, suportável e e é difícil apontar as v e r d a d e i r a s c a u s a s do
sustentável; segurança s e m liberdade equivale a desconforto vivenciado.
escravidão, enquanto liberdade s e m segurança A a n s i e d a d e pode ser i m p u t a d a à c a u s a
significaria caos, desorientação, eterna incerteza errada, circunstância a que os políticos atuais
e, em última instância, incapacidade de agir ten- e m busca de apoio eleitoral p o d e m recorrer,
do em vista um propósito. Liberdade e segurança e c o m frequência o f a z e m , e m beneficio pró-
são e sempre serão mutuamente inconciliáveis. prio - m e s m o que não n e c e s s a r i a m e n t e e m
Tendo insinuado isso, Freud chegou à con- proveito dos eleitores. C l a r o , eles p r e f e r e m
clusão de que os desconfortos e aflições psico- atribuir o sofrimento de seus eleitores a causas
lógicos surgem sobretudo quando se cede muito que podem combater, e ser vistos combatendo
da liberdade e m troca de u m a melhoria (parcial) (como quando propõem endurecer a politica
da segurança. A liberdade truncada e restrita de imigração e de asilo ou a deportação de
é a principal baixa do "processo civilizador", a estrangeiros indesejáveis), a admitir a verda-
maior e mais generalizada insatisfação, endêmi- deira origem da incerteza, que nunca tiveram

40 I mentecerebro I outubro 2014


a capacidade ou a disposição de enfrentar
n e m u m a e s p e r a n ç a realista de vencer: a
Tanto o que se ganha
instabilidade no e m p r e g o ; a flexibilidade quanto o que se dá é muito
dos m e r c a d o s de t r a b a l h o ; a a m e a ç a de valorizado e desejado; cada
redundância; a expectativa de redução do
fórmula de troca, portanto,
orçamento familiar; u m nível incontrolável
de dívida; u m a renovada preocupação c o m
não passa de um acordo
as garantias para a velhice; ou a fragilidade temporário, produto de
geral dos vínculos e parcerias h u m a n o s . Viver um compromisso jamais
em condições de incerteza prolongada e e m
aparência incurável provoca duas sensações
satisfatório para nenhum
humilhantes: ignorância (não saber o que o dos dois lados
futuro trata) e impotência (ser incapaz de
influenciarem seu curso). Elas são humilhan-
tes de verdade. E m nossa sociedade altamente acontecendo, que consequências pode produzir?
individualizada, e m que se presume que cada O medo é parte da condição h u m a n a . Po-
i n d i v í d u o seja r e s p o n s á v e l por s e u próprio d e m o s até eliminar, u m a a u m a , as a m e a ç a s
destino na vida, e s s a s condições i m p l i c a m a causadoras do medo ( S i g m u n d Freud definiu a
inadequação do sofredor para tarefas que outras civilização como u m arranjo das questões hu-
pessoas, mais exitosas, parecem desempenhar m a n a s inclinado a fazer exatamente isso: limitar
graças à maior capacidade e ao maior esforço. e por vezes eliminar as a m e a ç a s de danos cau-
Inadequação sugere inferioridade, e ser inferior, sadas pela aleatoriedade da natureza, pelas fra-
ser visto c o m o tal, é u m golpe doloroso contra quezas do corpo e pela inimizade do próximo).
a autoestima, a dignidade pessoal e a coragem M a s até agora nossa capacidade não está nem
da autoafirmação. A depressão é agora a doença perto de eliminar a " m ã e de todos os m e d o s " , o
psicológica m a i s c o m u m . Ela atormenta u m " m e d o dos m e d o s " , aquele medo-mestre exala-
número crescente de pessoas que receberam a do pela consciência de n o s s a mortalidade e da
designação coletiva de "precariado", expressão impossibilidade de escapar da morte. Podemos
cunhada a partir do conceito de "precariedade", viver hoje n u m a "cultura do m e d o " , m a s nosso
denotando a incerteza existencial. conhecimento da inevitabilidade da morte é a
razão básica de termos u m a cultura, é a fonte e
1 P m a centena de anos atrás, a história o motor principal da cultura - de toda e qualquer
I h u m a n a era representada c o m o u m cultura. Esta pode ser definida c o m o u m esforço
relato do progresso da liberdade. Isso permanente, sempre incompleto e e m princí-
implicava, c o m o outros relatos populares, que pio interminável para tornar suportável a vida
a história fosse guiada na m e s m a e inalterada mortal. O u podemos tentar avançar mais u m
direção. A s recentes reviravoltas na disposição passo e concluir que é n o s s o conhecimento da
do público sugerem outra coisa. O "progresso mortalidade e, portanto, n o s s o eterno medo da
histórico" parece lembrar mais u m pêndulo que morte, que torna h u m a n o n o s s o m o d o de ser e
u m a linha reta. No tempo e m que Freud escrevia, estar no m u n d o , que faz de nós seres h u m a n o s .
a queixa c o m u m era u m déficit de liberdade. A cultura é o sedimento da tentativa de tomar
Seus contemporâneos estavam preparados para suportável a vida com a consciência da mortalidade.
abrir m ã o de grande parte de s u a segurança Se por algum motivo nos t o r n á s s e m o s imortais,
e m troca da retirada das restrições impostas a c o m o algumas vezes (tolamente) s o n h a m o s , a
sua liberdade. E acabaram conseguindo isso. cultura interromperia seu curso, c o m o descobriu
Agora, porém, multiplicam-se os sinais de que Joseph Cartaphilus, de E s m i r n a , personagem de
cada vez m a i s pessoas não se preocupariam Jorge Luis Borges, que procurava infatigavelmen-
e m abrir m ã o de u m a parte de sua liberdade e m te a Cidade dos Imortais, ou Daniel25, clonado e
troca de se emancipar do espectro assustador destinado a ser eternamente reclonado, o herói
da insegurança existencial. E s t a r e m o s teste- de A possibilidade de uma ilha, de Michel Houel-
m u n h a n d o outro giro do pêndulo? Se isso está lebecq. C o m o Cartaphilus t e s t e m u n h o u : tendo

41
^ v i d a contemporânea
percebido sua própria imortalidade, e sabendo vez e m quando. O r a , essa é u m a "diferença que
que, " n u m espaço de tempo infinitamente longo, faz diferença". Disparidade semelhante aparta
todas as coisas acontecem a todos os h o m e n s " , os medos contemporâneos daqueles de nossos
pelo m e s m o motivo, seria " i m p o s s í v e l que a ancestrais. E m ambos os casos, o que faz a dife-
Odisseia não fosse c o m p o s t a ao m e n o s u m a rença é sua comercialização. O medo, tal c o m o a
vez", e então Homero deveria reverter ao estágio água, foi transformado em mercadoria de consu-
de troglodita. E, c o m o Daniel25 descobriu, u m a m o e submetido à lógica e às regras do mercado. <mmmmmm
vez eliminada a expectativa do fim dos tempos e Além disso, o medo tem sido u m a mercadoria
assegurada a infinitude do ser, "o simples fato de política, u m a moeda usada na condução do jogo
existir já era u m infortúnio", e a tentação de abrir do poder. O volume e a intensidade do medo
mão voluntariamente do direito de continuar a nas sociedades h u m a n a s não refletem mais a
ser reclonado e partir para "o nada absoluto, a gravidade objetiva ou a iminência de a m e a ç a ;
simples ausência de conteúdo" se tornava algo são, em vez disso, subprodutos da totalidade das
impossível de resistir. ofertas de mercado e da magnitude da promoção

F
(ou propaganda) comercial.
oi o conhecimento de que t i n h a m da mor- Vejamos e m primeiro lugar os usos comer-
te, da brevidade inegociável do tempo, da ciais do medo. Sabe-se muito bem que a lógica
possibilidade de as visões permanecerem de marketing de u m a economia "desenvolvida"
irrealizadas, de os projetos não serem concluídos (compulsiva, obsessiva e viciosamente em
e as coisas não feitas que instigaram os seres hu- desenvolvimento) não é governada pelo c o m -
manos à a ç ã o e fizeram sua imaginação voar. Foi promisso de satisfazer necessidades existentes,
esse conhecimento que tornou a criação cultural mas de expandir as necessidades até o nível da
u m a necessidade e transformou os seres huma- oferta e suplementá-las c o m desejos só de longe
nos em criaturas da cultura. Desde os primórdios relacionados a necessidades, e m b o r a correla-
da cultura, e através de sua longa história, seu cionados às técnicas de tentação e sedução do
motor tem sido a necessidade de preencher o marketing. Este dedica-se à descoberta ou à in-
a b i s m o que separa t r a n s i t o r i e d a d e e eterno, venção de perguntas cujas respostas os produtos
finitude e infinito, vida mortal e imortalidade, ou recém-apresentados parecem oferecer, e então a
o ímpeto de construir u m a ponte que permita induzir o maior número possível de potenciais
a passagem de u m a extremidade à outra, ou o clientes a fazer essa pergunta c o m frequência
impulso de capacitar os mortais para imprimir na cada vez maior.

C
eternidade sua presença contínua, nela deixando
a marca de nossa visita, ainda que breve. o m o t o d a s as o u t r a s , a n e c e s s i d a d e
Nada disso significa, evidentemente, que as de proteção contra a m e a ç a s tende a
fontes do medo, o lugar que ele ocupa na fórmula ser amplificada e adquire u m ímpeto
da vida e os focos das respostas que ele evoca autopropelente e autoacelerante. U m a vez no
sejam imutáveis. Pelo contrário, cada tipo de jogo da proteção contra o perigo, n e n h u m a das
sociedade e cada era histórica t ê m seus próprios defesas já adquiridas parece suficiente, e está
medos - específicos e m relação à época e à so- assegurado o potencial de s e d u ç ã o e tentação $
ciedade. Embora seja bastante desaconselhável das "novas e aperfeiçoadas" engenhocas e
imaginar a possibilidade de u m a alternativa "livre geringonças. Por outro lado, quanto m a i s pro-
do medo", éfundamental exporás características fundo o engajamento e m defesas que s e m p r e
distintivas do medo específico de nossa época e se reforçam e se e n r i j e c e m , m a i s profundo e
sociedade e m favor da clareza de nosso propósito agudo é o medo da a m e a ç a : a i m a g e m desta
e do realismo de nossas propostas. última cresce e m horripilância e capacidade de
Quando tinham sede, nossos ancestrais aterrorizar proporcionalmente a intensificação
t o m a v a m sua dose diária de água e m riachos, das preocupações c o m segurança e a visibilida-
rios e fontes - e às vezes e m poças - próximos. de e intrusividade das m e d i d a s para garanti-la.
Nós compramos u m a garrafa de plástico cheia de De fato, se estabelece u m círculo v i c i o s o , ou
água numa loja vizinha e a levamos conosco o dia u m raro c a s o de moto-perpétuo " a u t o s s u s t e n -
inteiro, a todos os lugares, bebendo u m gole de t á v e l " , que não precisa m a i s receber energia de

42 I mentecerebro I outubro 2014


fora, extraindo-a de seu próprio i m p u l s o .
A s obsessões c o m segurança só inexau-
Com o aprofundamento e a
ríveis e insaciáveis, u m a vez deixadas à solta, consolidação das diferenças
não há c o m o pará-las. São autopropelentes humanas em quase todos
e autoexacerbantes; quando g a n h a m novo
os ambientes, um diálogo
impulso, não precisam mais do reforço de
fatores externos - produzem, n u m a escala
respeitoso e simpático
s e m p r e c r e s c e n t e , s u a s próprias r a z õ e s , entre as diásporas se torna
explicações e justificativas. A febre acesa e condição cada vez mais
aquecida pela introdução, o fortalecimento, a
utilização e o enrijecimento das "medidas de
importante, na verdade
segurança" torna-se o único reforço necessá- crucial, para a sobrevivência
rio para que medos, ansiedades e tensões de planetária comum
insegurança e incerteza se autorreproduzam,
cresçam e proliferem. Radicais que sejam, os
estratagemas e dispositivos planejados, obtidos traçam-se fronteiras; c o m a s u s p e i t a , elas são
e postos a funcionar para fins de segurança difi- fortificadas, ocasionando prejuízos m ú t u o s , e
cilmente se mostrarão radicais o bastante para t r a n s f o r m a d a s e m linhas de frente. U m déficit
acalmar os medos - não por muito tempo, de de confiança leva a u m a quebra da c o m u n i c a -
qualquer modo. Qualquer u m deles pode ser ul- ção; c o m a retração da c o m u n i c a ç ã o e a falta
trapassado, abandonado e tornado obsoleto e m de interesse e m sua renovação, o " e s t r a n h a -
função de conspiradores traiçoeiros que apren- m e n t o " dos estrangeiros tende a se aprofundar
d e m a contorná-los ou ignorá-los, superando e adquirir tons cada vez m a i s s o m b r i o s e sinis-
assim cada obstáculo erguido e m seu caminho. tros, o que por sua vez os desqualifica ainda
M o a z z a m Begg, i s l a m i t a britânico preso m a i s c o m o potenciais parceiros de u m diálogo
em janeiro de 2002 e solto s e m acusações após e na negociação de u m m o d o de coexistência
três anos nas prisões de Bagram e da baía de m u t u a m e n t e seguro e agradável.

O
Guantánamo, assinala corretamente em seu livro
Enemy combatant (2006) que o efeito geral de tratamento dos estrangeiros c o m o
u m a vida levada sob alertas de segurança inces- s i m p l e s " p r o b l e m a de s e g u r a n ç a " é
A
santes - beligerância, justificativas para tortura, subjacente a u m a das c a u s a s do ver-
prisão arbitrária e t e r r o r - é "tertornado o m u n d o dadeiro "moto-perpétuo" nos padrões de inte-
muito pior". E, acrescentaria eu, nem u m pouco ração h u m a n a . A desconfiança e m relação aos
mais seguro. S e m duvida alguma, o mundo se estrangeiros e a tendência a estereotipar todos
sente bem menos seguro hoje que u m a ou duas eles, ou algumas categorias selecionadas, c o m o
décadas atrás. E c o m o se o principal efeito das bombas-relógios prontas a explodir c r e s c e m
profusas e custosas medidas extraordinárias de e m intensidade a partir de u m a lógica e de u m
segurança tomadas no último decénio fosse u m ímpeto próprios, sem necessidade de apresentar
m m m m m aprofundamento da sensação de perigo, da densi- novas provas de sua adequação n e m estímulos
IAiM/t/Vt/14 dade dos riscos e da insegurança. Disseminar as adicionais provenientes de atos de hostilidade
sementes do medo resulta e m grandes colheitas por parte do pretenso adversário (ou seja, eles
e m matéria de política e comércio. O fascínio m e s m o s produzem provas e estímulos e m pro-
de u m a safra opulenta inspira os que estão e m fusão). E m geral, o principal efeito da obsessão
busca de ganhos políticos e comerciais a forçar c o m a segurança é o rápido crescimento (e não a
continuamente a abertura de novas terras para redução) da sensação de insegurança, c o m todos
plantar o medo. os acessórios de pânico, ansiedade, hostilidade,
E m s u m a , talvez o efeito m a i s pernicioso, agressão, mais o esvaziamento ou supressão dos
seminal e prolongado da o b s e s s ã o c o m segu- impulsos morais.
rança (o "dano colateral" que ela produz) seja Tudo isso não significa que a segurança e a
solapar a confiança m ú t u a , plantar e cultivar a ética sejam inconciliáveis e devam permanecer as-
suspeita recíproca. C o m a falta de c o n f i a n ç a , sim. Apenas assinala as armadilhas que a obses-

43
v i d a contemporânea
são com segurança tende a espalhar pela estrada há necessidade de que o poder político contribua
que leva a uma coexistência pacífica, mutuamente para a produção de incerteza e o consequente es-
lucrativa e segura (na verdade, u m a cooperação) tado de insegurança existencial. O s caprichos do
de etnias, credos e culturas e m nosso globalizado mercado são suficientes para erodir os alicerces
mundo de diásporas. C o m o aprofundamento e a da segurança existencial e manter pairando sobre
consolidação das diferenças h u m a n a s e m quase a maioria dos membros da sociedade o espectro
todos os ambientes e vizinhanças, u m diálogo da degradação, humilhação e exclusão sociais.
respeitoso e simpático entre as diásporas se torna A o exigir de seus súditos obediência e ob-
condição cada vez mais importante, na verdade servância à lei, o Estado pode basear sua legiti-
crucial, para a sobrevivência planetária c o m u m . midade na promessa de reduzira amplitude da
No entanto, por infortúnio, pelos motivos que vulnerabilidade e da fragilidade que caracterizam
tentei relacionar, ele está cada vez mais difícil de a atual condição de seus cidadãos: limitar os
atingir e de defender das contingências presentes danos e prejuízos produzidos pelo livre jogo
e futuras. Ser difícil, contudo, significa apenas das forcas do mercado, blindar os vulneráveis
u m a coisa: a necessidade de muita boa vontade, e m relação aos infortúnios dolorosos e garan-
dedicação, disposição para o acordo, respeito tir os inseguros contra os riscos que a livre
mútuo e aversão a todas as formas de humilhação competição produz. E s s e tipo de legitimação
humana; e, evidentemente, a firme determinação encontrou sua expressão m á x i m a na autodefi-
de restaurar o equilíbrio perdido entre o valor da nição da moderna forma de governança c o m o
segurança e o da adequação ética. Cumpridas u m "État-providence", u m a c o m u n i d a d e que
todas essas condições, e só d e s s a maneira, o t o m a para si m e s m a , para sua administração e
diálogo e o acordo (a "fusão de horizontes" de seu gerenciamento, a obrigação e a p r o m e s s a
HansGadamer) podem (apenas podem), por sua que c o s t u m a v a m ser atribuídas à divina Pro-
vez, se transformar no novo "moto-perpétuo" pre- vidência - proteger os fiéis das i n c l e m e n t e s
dominante nos padrões de coexistência h u m a n a . vicissitudes do destino, ajudá-los na ocorrência
Essa mudança não fará vítimas, só beneficiários. de infortúnios pessoais e prestar-lhes socorro
Isso me leva a trazer a nossa consideração em suas aflições.
mais u m estímulo que alimenta, exacerba e inten- E s s a fórmula de poder político (sua m i s s ã o ,
sifica as obsessões c o m segurança, ao m e s m o tarefa e função) está recuando para o passado.
tempo que torna as nuvens do medo ainda mais Instituições do "Estado previdenciário", voltadas
densas e sombrias: a necessidade de legitimação para encarnar e substituir as praticas correspon-
do Estado na era da globalização. A incerteza e dentes da divina Providência, u m pouco m e n o s
a vulnerabilidade h u m a n a s são os alicerces de abrangentes, além de frustrantes e confusamen-
todo poder político: é desses acessórios gémeos te irregulares, agora são esfaceladas, d e s m o n -
da condição humana, amplamente abominados, tadas ou eliminadas, enquanto se removem as
embora constantes, a s s i m c o m o do medo e da restrições antes impostas às atividades comer-
ansiedade que eles tendem a gerar, que o Estado ciais e ao livre jogo da competição do mercado
moderno prometeu proteger seus súditos; e é e suas consequências. A s funções protetoras do
sobretudo a partir dessa p r o m e s s a que ele extrai Estado estão limitadas e "enxugadas", reduzidas
sua razão de ser, a s s i m c o m o a obediência e o à cobertura de u m a pequena minoria dos não
apoio eleitoral de seus cidadãos. empregáveis e dos inválidos, embora m e s m o

N
essa minoria tenda a ser reclassificada, passo a
u m a sociedade moderna " n o r m a l " , a passo, de preocupação e m termos de proteção
vulnerabilidade e a insegurança exis- social para u m a questão de lei e o r d e m .
tencial, a s s i m c o m o a necessidade de A incapacidade de o indivíduo se engajar no
viver e agir e m condições de incerteza profunda jogo do mercado segundo suas regras estatutá-
e desesperadora, são garantidas pela exposição rias, usando seus próprios recursos e por sua
das ocupações da vida às forças do mercado, sa- própria conta e risco, tende a ser cada vez mais
bidamente voláteis e imprevisíveis. C o m exceção criminalizada, reclassificada c o m o sintoma de
da tarefa de criar e proteger as condições legais intenção criminosa ou pelo menos de potencial
para o exercício das liberdades de mercado, não para o crime. O Estado lava as mãos quanto à

44 I mentecerebro I outubro 2014


vulnerabilidade e à incerteza provenientes da
Com a falta de confiança,
lógica (da falta de lógica) do livre mercado. A
deletéria fragilidade da condição social agora
traçam-se fronteiras;
é redefinida c o m o assunto privado - u m a com a suspeita,
questão c o m que os indivíduos devem lidar e elas são transformadas
se confrontar usando seus próprios recursos.
Como disse Ulrich Beck, agora se espera que
em linhas de frente e
os indivíduos procurem soluções biográficas fortificadas, ocasionando
para contradições sistémicas. prejuízos mútuos

E
ssas novas tendências têm u m efeito
colateral: solapam os alicerces sobre os deve ser artificialmente a l i m e n t a d a ; ou pelo
quais o poder de Estado se sustentou m e n o s altamente dramatizada, a fim de inspirar
durante a maior parte da era moderna, quando u m v o l u m e suficiente de m e d o e ao m e s m o
afirmava desempenhar papel crucial na luta con- t e m p o superar, ofuscar e relegar a posição se-
tra a vulnerabilidade e a incerteza que assolavam cundária a insegurança economicamente gerada,
seus súditos. O crescimento da apatia politica, a sobre a qual a a d m i n i s t r a ç ã o do Estado quase
perda do interesse e do c o m p r o m i s s o políticos nada pode fazer, sendo seu m a i o r desejo não
("não há mais salvação pela sociedade", c o m o fazer nada. E m oposição ao c a s o d a s a m e a ç a s
Peter Drucker proclamou, n u m a expressão famo- à s u b s i s t ê n c i a e ao bem-estar g e r a d a s pelo
s a ) , e u m a ampla retirada da população no que m e r c a d o , a gravidade e a extensão dos perigos
se refere a participar da politica institucionalizada à segurança pessoal d e v e m ser a p r e s e n t a d a s
são testemunhos do esfacelamento dos alicerces c o m as cores mais s o m b r i a s , de tal m o d o que
remanescentes do poder de Estado. a não materialização das a m e a ç a s divulgadas
Suspendendo a antiga interferência progra- e dos infortúnios e s o f r i m e n t o s previstos ( c o m
mática sobre a incerteza e insegurança existen- efeito, qualquer coisa que represente m e n o s
ciais produzidas pelo mercado, e proclamando, q u e os d e s a s t r e s p r e n u n c i a d o s ) p o s s a s e r
pelo contrário, que eliminar u m a a u m a as restri- aplaudida c o m o u m a grande vitória da razão
ções residuais a atividades lucrativas é a principal governamental sobre o d e s t i n o hostil, c o m o
tarefa de todo poder político que cuide do bem- resultado da vigilância, do c u i d a d o e da boa
estar de seus súditos, o Estado contemporâneo vontade louváveis dos órgãos do E s t a d o .
precisa procurar outras variedades, não económi- H á u m a c o n d i ç ã o de alerta p e r m a n e n t e :
cos, de vulnerabilidade e incerteza para sustentar perigos que se diz estar à espreita bem ali na
sua legitimidade. Essa alternativa parece se situar esquina, fluindo e vazando de a c a m p a m e n t o s
(em primeiro lugar e de modo mais espetacular, terroristas disfarçados e m escolas e congrega-
embora absolutamente não exclusivo, no caso ções religiosas islâmicas; de subúrbios habitados
do governo dos Estados Unidos) na questão da por imigrantes; de ruas perigosas infestadas de
segurança pessoal: os medos atuais ou previstos, m e m b r o s da subclasse; de "distritos turbulen-
abertos ou ocultos, reais ou supostos, de ameaças t o s " , incuravelmente c o n t a m i n a d o s pela vio-
aos corpos, propriedades e habitats humanos, quer lência; de áreas de acesso proibido e m grandes
v e n h a m de dietas ou estilos de vida pandémicos cidades. Perigos representados por pedófilos e
e nocivos à saúde, quer de atividades criminosas, outros delinquentes sexuais à solta, mendigos
de condutas antissociais da "subclasse" o u , mais agressivos, gangues juvenis sedentas de sangue,
recentemente, do terrorismo global. vagabundos estalkers (os caminhantes furtivos).
A o c o n t r á r i o da i n s e g u r a n ç a e x i s t e n c i a l A s razões para ter medo são muitas. Já que é
proveniente do m e r c a d o , evidente d e m a i s impossível calcular seu verdadeiro n ú m e r o e
para ser questionada e negada a sério, além de intensidade a partir da limitada perspectiva da
abundante e óbvia d e m a i s para permitir u m a experiência pessoal, acrescenta-se outra razão,
acomodação, essa insegurança alternativa, possivelmente mais poderosa, para ter medo:
destinada a restaurar o monopólio perdido do não há como saber onde e quando as palavras
Estado sobre as oportunidades de redenção, de advertência irão se fazer carne. me*

45
mente
Seminário

cérebro
psicologia | psicanálise | neurociência

E S T R E S S E E ANSIEDADE
Participe e entenda melhor a ansiedade e o e s t r e s s e
e s e u s impactos sobre a mente e o corpo.

Anfiteatro do Hospital
22 de novembro de 2014 Santa Catarina
Sábado, das 9h às 18h Av. Paulista, 200 - Bela Vista

Confira os temas e os palestrantes:

O que são transtornos de ansiedade e os tratamentos disponíveis - Márcio Bernik

Ansiedade social, transtorno de pânico e agorafobia - Tito Paes de Barros Neto

Os 4 pilares do estresse - Marilda Lipp

Meditação para lidar com o estresse • Rubens de Aguiar Maciel

Acupuntura para tratar ansiedade e prevenir doenças associadas - Márcia Yamamura

Inscrições e informações adicionais: mentecerebro.com.br

segmento
T
• PSIQUIATRIA

Alteração d e consciência
c o m r e c e i t a médica
D R O G A S P S I C O D É L I C A S P O D E M S E R G R A N D E S A L I A D A S DA A S S I S T Ê N C I A E M S A Ú D E MENTAL

Q u a s e imediatamente após Albert H o f m a n n descobrir servadorismo crescente dos Estados U n i d o s - onde as


as propriedades alucinógenas do ácido lisérgico, o L S D , pesquisas são mais avançadas - enfraqueceu os estudos
na década de 40, a pesquisa sobre drogas psicodélicas nessa área. Ultimamente, p o r é m , elas t ê m novamente
decolou. Essas substâncias que alteram a consciência c h a m a d o a atenção de cientistas de vários centros de
se m o s t r a m , sob determinadas condições, promissoras pesquisa, sendo reconhecidas c o m o potenciais agentes
no tratamento de ansiedade, depressão, transtorno de terapêuticos. H á alguns m e s e s , pesquisadores suíços
estresse pós-traumático ( T E P T ) , transtorno obsessivo- publicaram os resultados do primeiro teste c o m drogas
compulsivo ( T O C ) e dependência q u í m i c a , m a s o con- envolvendo o L S D dos últimos 40 a n o s . Veja o quadro:

TRATAMENTO
DROGA USO RECREATIVO EXPERIMENTAL

MDMA Induz sensações de euforia e não raro de sinestesia. Também des- Ansiedade,
(ecstasy) perta sentimentos de intimidade e conexão com os outros TEPT

Ketamina Anestésico e analgésico que também pode deixar em estado de


Depressão
(special k) transe por até três horas. Doses mais altas induzem alucinações

A psilocibina Deflagra sentimentos de transcendência e espiritualidade, assim TOC, TEPT,


(cogumelos mágicos) como alucinações visuais e distorções na percepção do tempo ansiedade

Causa intensas alucinações visuais (que podem incluir luzes, cores


LSD Alcoolismo,
vibrantes e padrões geométricos), alterações no sentido de tempo,
(ácido liségico) ansiedade
além de percepções incomuns
MECANISMO DE AÇAO j ESTIMATIVA CLINICA
Provoca a liberação de vários neurotransmissores no cérebro, que I Pesquisadores estudam seus efeitos sobre veteranos de guer-
estimulam a ativação da oxitocina, o que pode diminuir o medo e * ra, bombeiros e policiais resistentes ao tratamento para TEPT.
aumentar a autoconfiança. Os efeitos podem ajudar pessoas com Um experimento anterior sugere que a droga é mais eficaz do
TEPT a lidar com emoções dolorosas que a psicoterapia em aproximadamente 80% dos casos

Uma única dose pode aliviar sintomas de depressão durante Ensaios clínicos de 2013 e 2014 mostram que a droga ali-
dias após a injeção, reforçando conexões entre o córtex pré- viou sintomas de depressão persistente em 30 de 45 pacien-
frontal e o hipocampo, áreas do cérebro importantes para a tes. A ketamina é um agente de classe III (menos restrito),
memória e aprendizagem por isso, pode entrar na prática clínica mais rapidamente

A substância se liga a alguns receptores de serotonina no córtex, No maior estudo psicodélico


ativando um processo que diminui a atividade cerebral nessa em mais de 40 anos, cientistas da Escola de Medicina da
região, o que por sua vez pode amenizar a ansiedade e alguns Universidade de Nova York analisam se a droga pode ajudar
sintomas do TOC a reduzir ansiedade e depressão em pacientes com câncer

Uma análise feita em 2012 de estudos de 1960 e 1970 aponta que


dependentes de álcool que consumiram a droga demonstraram O primeiro estudo de terapia assistida com LSD em 40 anos
diminuição no abuso da bebida (os efeitos permaneceram por aponta que pacientes com câncer que tomaram a droga apre-
meses). Exames de neuroimagens mostram que o LSD se liga a sentaram melhora de aproximadamente 20% em relação à
certos receptores de serotonina, ativando principalmente o lobo ansiedade, enquanto que aqueles que tomaram placebo piora-
frontal e o córtex cingulado anterior e insular, áreas do cérebro ram. O experimento destaca a necessidade de mais pesquisas
ligadas à consciência e emoção

49
^ psicologia

Sim, tempo
é dinheiro
NÃO BASTA SABER C O M O PLANEJAR O ORÇAMENTO PARA ALCANÇAR A

PROSPERIDADE ECONÓMICA: EXISTE UMA FORTE ASSOCIAÇÃO ENTRE

A PERSPECTIVA TEMPORAL E A FACILIDADE (OU DIFICULDADE) DE

LIDAR C O M ASPECTOS FINANCEIROS. ESTUDO REALIZADO EM SEIS

PAÍSES, I N C L U I N D O BRASIL, MOSTRA O Q U E PESSOAS DE DIVERSAS

NACIONALIDADES LEVAM EM CONTA NA H O R A DE C O M P R A R E INVESTIR

por Philip Zimbardo, Nick Clements e Umbelina Rego Leite

A
m a i o r i a das p e s s o a s gostaria de lidar melhor
c o m os próprios r e c u r s o s materiais. Não por
a c a s o , a e d u c a ç ã o financeira t e m sido ampla-
mente divulgada e discutida nos últimos t e m p o s .
Formuladores de política l a m e n t a m o pouco acesso a esse
conhecimento, e grandes corporações financiam programas
OS A U T O R E S
P H I L I P Z I M B A R D O é professor emérito
para aprimorá-lo. N o s Estados U n i d o s existe até u m m ê s ,
de psicologia da Universidade de Stanford, abril, dedicado à divulgação de informações nessa área. E de
ministrou aulas nas universidades Yale, Nova
fato aprender a calcular taxas de juros e seu impacto sobre a
York e Columbia. Foi presidente da Associação
Americana de Psicologia. N I C K C L E M E N T S é poupança e sobre os e m p r é s t i m o s , compreender as especi-
economista, cofundador da MagnifyMoney.com. ficidades dos diferentes investimentos e criar planilhas para
U M B E L I N A R E G O L E I T E é mestre em psicobiologia
pela Universidade Federal do Rio Grande do controle do próprio o r ç a m e n t o pode até ser útil. Mas saber
Norte, especialista em psicometria e avaliação lidar c o m dinheiro pode não ser suficiente para melhorar
psicológica; é professora da faculdade de psicologia
as finanças. Afinal, a relação c o m bens materiais c o s t u m a
da Universidade de Rio Verde (Fesurv) e foi
coordenadora da pesquisa de Zimbardo no Brasil. abarcar bem m a i s que aspectos objetivos.

50 I mentecerebro I outubro 2014


^ psicologia
preender como f a z e m o s escolhas. O que nos
influencia na hora da c o m p r a ? Várias evidên-
cias t ê m d e m o n s t r a d o que, quando se trata de
dinheiro, n e m s e m p r e o p t a m o s racionalmente,
m e s m o que t e n h a m o s as ferramentas e os co-
nhecimentos necessários para isso. Então, se a
matemática não interfere tanto nessas situações,
o que poderia nos ajudar na hora de decidir?
C l e m e n t s e eu ( Z i m b a r d o ) , p r o c u r a m o s
e n c o n t r a r u m a e x p l i c a ç ã o melhor do motivo
de f a z e r m o s e s c o l h a s f i n a n c e i r a s que p o d e m
nos prejudicar.

PARADOXO DO TEMPO
U m de nós ( Z i m b a r d o ) estuda a perspectiva
temporal há m a i s de 4 0 a n o s . A hipótese da
pesquisa é que esse elemento seja a chave para
compreender c o m o t o m a m o s decisões financei-
ras e c o m o podemos agir de maneiras que nos
permitam fazer melhores escolhas.
N o livro O paradoxo do tempo (Objetiva,
U m de nós, Nick C l e m e n t s , cofundador da 2 0 0 9 ) , Z i m b a r d o e o psicólogo clínico John
MagnifyMoney.com ( u m a f e r r a m e n t a de c o m - Boyd revelam c o m o n o s s a s atitudes e m re-
paração financeira que educa e auxilia c o n s u m i - lação ao t e m p o i n f l u e n c i a m as decisões que
dores a encontrar ofertas de acordo c o m seus t o m a m o s . Para tanto, os autores focam naquilo
r e c u r s o s ) , passou q u a s e 15 a n o s se dedicando que já v i v e m o s , no que e x p e r i m e n t a m o s no
à criação e à promoção de produtos financeiros m o m e n t o atual e naquilo que está por vir:
para pessoas de todo o m u n d o , m a s s e m p r e
duvidou que álgebra e e d u c a ç ã o e c o n ó m i c a O PASSADO: nossas atitudes e m relação ao
p u d e s s e m , por si s ó s , favorecer o o r ç a m e n t o que ficou para trás importam mais do que os
pessoal. Embora e s s e s produtos estejam es- eventos e m si. A maneira c o m o nos lembra-
treitamente relacionados ao dinheiro, as táticas mos do que ocorreu pode afetar significativa-
usadas para vendê-los, não raro, a b o r d a m a mente nossas decisões no presente. O s mais
questão por outros c a m i n h o s . A s taxas de j u - o t i m i s t a s , e m geral, p r o c u r a m resgatar da
ros de cartões de crédito ou de e m p r é s t i m o s memória momentos agradáveis com a família,
aparecem e m letras q u a s e imperceptíveis nos realizações pessoais e aquilo que dá prazer.
c o m e r c i a i s publicitários. O que e n x e r g a m o s E s s e s s e n t i m e n t o s c a l o r o s o s favorecem a
claramente são imagens de pessoas sorridentes percepção de bem-estar e segurança.
e felizes. A m e n s a g e m que t e n t a m p a s s a r é de O s m a i s p e s s i m i s t a s , não raro, e n c a r a m
que p o d e m o s e m p r e s t a r d i n h e i r o de f o r m a o que p a s s o u c o m s o f r i m e n t o , arrependi-
rápida ou até m e s m o i n s t a n t a n e a m e n t e . m e n t o e s e n s a ç ã o d e f r a c a s s o . Ter u m a
O fato é que n o s s a s a ú d e financeira depen- visão e x c e s s i v a m e n t e negativa sobre o
de de i n ú m e r a s d e c i s õ e s que se a c u m u l a m que foi vivido pode n o s deixar r e s s e n t i d o s ,
durante a v i d a . E e s s a s e s c o l h a s r a r a m e n t e c o m m e n o r a u t o e s t i m a , a l é m de contribuir
são feitas c o m base e m p l a n i l h a s e listas de para o s u r g i m e n t o de u m a d e p r e s s ã o . Por
c o m p a r a ç ã o de p r o d u t o s e n q u a n t o e s t a m o s outro lado, olhar o p a s s a d o c o m e x c e s s o
s e n t a d o s à m e s a da c o z i n h a . Pelo c o n t r á r i o , de o t i m i s m o t a m b é m não é s a u d á v e l : pode
f a z e m o s isso no calor do m o m e n t o - é a e m o - fazer c o m que f i q u e m o s p r e s o s a ele e nos
ção que nos m o v e . a c o m o d e m o s , o que interfere na disposição
Para entender por que t o m a m o s decisões para a s s u m i r r i s c o s e a m p l i a r possibilida-
económicas inadequadas, precisamos com- d e s de e x p e r i ê n c i a s .

52 I mentecerebro I outubro 2014


O PRESENTE: para alguns só interessa o aqui e mento. No Brasil, o estudo foi conduzido pela
agora. Podemos desfrutar do imediato (atitude psicóloga social Umbelina Rego Leite (que tam-
hedonista) ou nos sentir presos a ele (fatalista). bém assina este artigo). No total, m a i s de 3 mil
A primeira opção parece interessante, pelo pessoas participaram da pesquisa. F i z e m o s as
menos a priori. Pessoas com esse perfil cos- seguintes perguntas:
t u m a m ser alegres, festeiras e bons amigos.
Mas e m casos extremos podem apresentar 1. Você se considera alfabetizado financeira-
c o m p o r t a m e n t o s d e s c u i d a d o s , de risco, e mente? Qual a sua percepção sobre o tema?
se envolver c o m jogo patológico ou drogas, P e d i m o s que a v a l i a s s e m o grau da própria
diferentemente de pessoas que focam o futuro. educação económica e m u m a e s c a l a de 1 a 7.
Já os fatalistas sentem c o m o se sua vida
fosse ditada por influências fora de controle; é 2. Você sabe fazer cálculos de orçamento?
o caso daqueles que na maior parte do tempo D i s t r i b u í m o s u m questionário sobre m a t e m á -
se sentem s e m opção, presos a situações que tica financeira. Solicitamos que c a l c u l a s s e m o
encaram c o m o u m fardo pesado demais, pau- impacto dos juros c o m p o s t o s sobre a dívida
tado pela falta de recursos não só materiais, do cartão de crédito e c o m p a r a s s e m produtos
m a s t a m b é m psíquicos. A resignação, o pen- de diferentes custos e d u r a ç õ e s . B a s i c a m e n t e ,
s a m e n t o imediatista e o cinismo sobrepujam a ideia era testar a c a p a c i d a d e de avaliar o
a esperança e o o t i m i s m o . melhor negócio.

O F U T U R O : o mantra de uma pessoa orientada 3. Qual o seu grau de saúde financeira? Pessoas
para o a m a n h ã é " m e u prazo de entrega acaba estabilizadas e c o n o m i c a m e n t e geralmente co-
e m u m dia, portanto vou concluir minhas obri- nhecem as taxas de sua hipoteca, e n t e n d e m os
gações antes de fazer qualquer coisa que me juros sobre suas contas e são c a p a z e s de res-
dê prazer". A expectativa de uma recompensa ponder perguntas básicas sobre finanças que
s e m p r e postergada abastece as decisões e t r a d u z e m u m conflito que i m p l i c a m decisões
ações de hoje. S e m exageros, a gratificação c o m o abrir mão de u m a c o i s a para privilegiar
adiada e m troca de maior recompensa futura outra. É improvável que e s s e s indivíduos
pode ser u m a aposta vantajosa: é como trocar a c u m u l e m parcelas e m atraso, t e n h a m aberto
u m pássaro na mão por u m bando a m a n h ã . falência ou o imóvel retomado por falta de paga-
O u seja: de maneira equilibrada, comportar- mento. Já aqueles c o m dificuldades financeiras,
-se a s s i m e m relação ao futuro pode ajudar a não raro, adiam a quitação da hipoteca, pagam
planejar melhor a alimentação, fazer exercícios multas por atraso e a c u m u l a m j u r o s no cheque
regularmente, cuidar da saúde e investir na especial ou cartão de crédito. M u i t a s v e z e s ,
carreira. E m excesso, porém, o foco no ama- a c o r d a m pela m a n h ã c o m grande arrependi-
nhã pode ocupar o espaço do aqui e agora. mento da noite anterior. E s s e s , provavelmente
E m troca dos objetivos, muitos sacrificam a vão "quebrar" e recorrer ao crédito bancário ou
família, os amigos e a vida sexual. Não é difícil a e m p r e s a s de e m p r é s t i m o .
identificar esse tipo de pessoa: na maior parte
das vezes está cansada e mantém u m a longa N a s e q u ê n c i a , a p l i c a m o s o Inventário de
lista de afazeres. Perspectiva Temporal Z i m b a r d o ( Z T P I ) , u m a
ferramenta mundialmente validada para c o m -
Dois de nós, Clements e Zimbardo, procura- preendermos a perspectiva temporal. O s dados
mos criar u m a definição aprimorada e mais útil do estudo confirmaram e m grande parte nossa
de educação financeira e estudar como e porque hipótese: aqueles c o m alta pontuação nos testes
t o m a m o s decisões económicas inadequadas. A tradicionais relacionados a cálculos de orçamento
pesquisa foi feita e m seis países: Brasil, Estados não são mais propensos à prosperidade económi-
Unidos, China ( H o n g Kong), Itália (Sicília), Reino ca. E m outras palavras, há pouca correlação entre
Unido e A l e m a n h a . u m a coisa e outra. Identificamos, porém, u m a
S e l e c i o n a m o s académicos de várias partes forte associação entre a perspectiva temporal e
do m u n d o para nos ajudar a concluir o experi- saúde financeira. Veja a seguir.

53
^ psicologia
P A S S A D O N E G A T I V O : é c o m u m observar
pessoas que já passaram por grandes dificul-
dades económicas e m excelente saúde finan-
ceira atualmente. À primeira vista, isso pode
surpreender, mas muitos já sofreram prejuízos
no passado (ou pelo m e n o s acreditam nisso).
Talvez tenham feito u m m a u investimento ou
sido enganados. O lado bom é que essa sen-
sação de perda pode ajudar a manter distância
de apostas arriscadas. Equilíbrio económico é
sinónimo de falta de dívidas e distância das
consequências negativas que elas t r a z e m .
Pessoas com esse perfil p o d e m não ser as
mais divertidas e m u m a festa, m a s tendem a
preservar sua conta bancária.

P A S S A D O P O S I T I V O : a s s i m c o m o u m a visão
excessivamente negativa do passado, u m olhar
muito otimista e m relação ao que já foi pode
nos estagnar. Surpreendentemente, porém,
isso pode nos ajudar a gastar menos e impedir c o m essa característica sentem o futuro como
grandes apostas financeiras. C o m o resulta- ameaçador, por isso se prendem ao presente.
do, é provável que sejamos m a i s saudáveis C o m o resultado, são mais propensos a per-
financeiramente. Esse tipo de pessoa acredita manecer indefinidamente c o m o clientes do
que "é melhor prevenir do que remediar". m e s m o banco, por exemplo, ainda que não
Mesmo que não entenda conceitos financeiros tenham vantagens. T a m b é m têm maior ten-
complicados ou não consiga acumular muito dência a responder a ofertas que saltam diante
dinheiro, tende a não gastar mais do que t e m , dos olhos e m vez de comparar preços, já que
economizando para os dias difíceis. quando acreditamos que não há melhores
opções tendemos a pagar mais.
P R E S E N T E E H E D O N I S M O : e m nosso estudo,
observamos uma correlação inversa entre foco A I N C Ó G N I T A D O F U T U R O : pessoas que
no prazer momentâneo e prosperidade econó- se preocupam c o m o a m a n h ã e consequen-
mica. E m outras palavras, é bem provável que temente c o s t u m a m fazer planos tendem a
pessoas com esse perfil tenham dificuldades se julgar alfabetizadas financeiramente. No
relacionadas a falta de dinheiro. É u m dos tipos entanto, isso não garante prosperidade econó-
que mais enfrenta problemas dessa ordem. O s mica. H á outros fatores em jogo. As chances de
resultados apontaram que muitos não fazem sucesso e fracasso financeiro são as m e s m a s
reservas financeiras. G a s t a r excessivamente para esse grupo.
c o m álcool, drogas e sexo, por exemplo, ou Q u a n d o nos focamos somente no futuro,
m e s m o roupas, passeios e objetos supérfluos na carreira, corremos o risco de nos esquecer
em geral pode custar bem caro. Alguns até con- de cuidar da vida pessoal, o que pode interferir
seguem manter esse estilo de vida por algum nas relações. E também no orçamento. Muitos
tempo, m a s , e m dado momento, a festa acaba que fazem horas extras em excesso para garan-
e isso costuma ser emocionalmente bastante tir maior ganho e sucesso profissional ficam
desestruturante, vivido c o m o u m luto, do qual tão absortos em seu trabalho que se esquecem
muitas vezes é bastante difícil se recuperar. do mais simples, c o m o pagar contas c o m u n s .
C o s t u m a m não a p r e s e n t a r d e s p e s a s para
P R E S E N T E E F A T A L I S M O : encontramos forte reembolso a t e m p o , se esquecem de deixar
correlação entre foco p e s s i m i s t a no aqui e os impostos e m dia e, u m a hora, acabam se
agora e dificuldades financeiras. Indivíduos atrapalhando c o m as finanças.

54 I mentecerebro I outubro 2014


O Brasil teve o pior resultado (saúde finan- foram às c o m p r a s . O s preços dos imóveis do-
ceira m e n o r ) c o m p a r a d o c o m os outros cinco braram e m apenas cinco a n o s . Financiamentos
da a m o s t r a (veja quadro abaixo). prontamente disponíveis i n c e n t i v a r a m a aqui-
sição de imóveis, e 2011 foi u m a n o recorde de
v e n d a s para a indústria a u t o m o b i l í s t i c a .
Reino Unido 51,9%
O s brasileiros e s t a v a m c o m e m o r a n d o o
Alemanha 40,9% presente, c o m a crença de que o a m a n h ã seria
Estados Unidos 33,2% ainda melhor. Embora não haja limites para a
Itália 18,1% expansão de crédito, infelizmente, a alegria não
dura para sempre. Já c o m e ç a m o s a observar isso
H o n g Kong 17%
no Brasil. C o m u m a crise na oferta de crédito, as
Brasil 14,1% dificuldades a u m e n t a m . O s próximos dez anos,
porém, podem criar u m a geração que, por ter
O s dados podem ser explicados e m razão do enfrentado dificuldades no passado, se tornou
maior foco no prazer momentâneo e no baixo m a i s preocupada c o m as f i n a n ç a s (passado
percentual de visão otimista sobre o que ficou negativo). A s s i m , essas pessoas serão menos
para trás (passado positivo). O Brasil pontuou propensas a comprar u m a geladeira c o m a taxa
alto no quesito presente e hedonismo ( 2 2 , 4 % ) . de juros de 7 0 % , c o m o se vê atualmente.
No Reino U n i d o , o país mais saudável financei-
ramente da a m o s t r a , marcou apenas 1 3 , 9 % . ENTENDER SENTIR ESCOLHER
Aproximadamente 7 2 % dos britânicos acreditam N o s ú l t i m o s 15 a n o s , o setor de crédito ao
que o n t e m foi melhor do que hoje (passado c o n s u m i d o r teve e n o r m e e x p a n s ã o . P r o d u -
positivo), e m comparação c o m 4 1 , 2 % dos bra- tos c o m p l e x o s se e s p a l h a r a m pelo m u n d o .
sileiros. S e m esse suporte, o foco no prazer aqui P o d e m o s c o m p r a r u m Big M a c e m M o s c o u
e agora pode ficar ainda mais evidente. c o m cartão de crédito - algo que antes seria
O Brasil teve u m a história turbulenta re- i m p e n s á v e l . No entanto, c o m o resultado des-
cente, c o m o regime militar antes de chegar à se crescimento s e m precedentes, m i l h õ e s de
d e m o c r a c i a . Durante a década de 2000, o país p e s s o a s se t o r n a r a m alvo do m a r k e t i n g das
e x p e r i m e n t o u u m e n o r m e boom de crédito e organizações financeiras. R e s p o n d e m o s a e s s a
c o n s u m o (veja quadro abaixo). d e m a n d a u s a n d o produtos f i n a n c e i r o s para
c o m p r a r bens de c o n s u m o .
M a s será que e s t a m o s p r e p a r a d o s isso?
Emprestar para gastar
Crédito do Brasil conforme % do PIB Realmente e n t e n d e m o s o poder (ou a tirania)
dos juros c o m p o s t o s ? A resposta e s m a g a d o r a
da elite de d e c i s ã o política global t e m sido
50
aprimorar as competências e c o n ó m i c a s . A ideia
é garantir que s e j a m o s c a p a z e s de entender
40
os produtos financeiros e s e u s c u s t o s . A s s i m ,
poderíamos determinar se vale a pena ou não
30
a s s u m i r u m a hipoteca, por e x e m p l o .
A c r e d i t a m o s que a educação e c o n ó m i c a é
20
llllll 10
importante. De fato, é e s s e n c i a l . Para c o m p r a r
u m a c a s a ou u m a p a r t a m e n t o , p r e c i s a m o s

M I N I 0 L
e n t e n d e r a diferença entre as p r o p o s t a s de
financiamento. No entanto, os resultados desse
2 2002 04 06 08 10 12* estudo m o s t r a m que isso não é suficiente. Não
*maio basta ter habilidades m a t e m á t i c a s , é preciso
t o m a r decisões que r e s u l t a m da experiência
É fácil para os bancos se aproveitarem de de vida, do que acreditamos, s e n t i m o s e quere-
mimmimiiiiimiiiiiimimmmmi
q u e m quer celebrar o presente, oferecendo cré- PARA SABER MAIS m o s . E, e m grande parte, da forma c o m o s o m o s
dito a j u r o s a l t í s s i m o s . C o m isso, os brasileiros http://goo.gl/Y0fe0k impactados pela perspectiva t e m p o r a l . ™&

55
percepção d i s t o r c i d a

Que coisa feia!


NUMA SOCIEDADE EM Q U r
AS Q U E I X A S EM RELAÇÃO K

APARÊNCIA E A BUSCA PELA PERFEIÇÃO DO CORPO E DA P E L E S Ã O TÃO

FREQUENTES, ALGUMAS PESSOAS PASSAM A SU PERVALORIZAR EM

SI M E S M A S " F A L H A S " FÍSICAS - MÍNIMAS, COMUNS E ÀS V E Z E S ATÉ

INEXISTENTES - Q U E AS I N C O M O D A M PROFUNDAMENTE,

A PONTO DE SE C O N S I D E R A R E M DEFORMADAS

por Susartne Rytina

A
os 17 a n o s , s e m motivo aparente, o jovem S. pas-
s o u a se i n c o m o d a r c o m os cabelos cacheados,
c o n s i d e r a n d o - o s u m sério p r o b l e m a . Decidiu
alisá-los. Durante u m a n o , p a s s o u por procedi-
m e n t o s q u í m i c o s s e m a n a i s , que só interrompeu depois
de danificar seriamente os fios, deixando-os alaranjados.
A n o s m a i s tarde, ao ver seu reflexo na vitrine de u m a loja,
percebeu que seu nariz era m u i t o grande e torto. Depois
disso, só conseguia pensar nesse "terrível defeito" e passava
horas diante do espelho.
O rapaz optou então pela cirurgia plástica. Mas u m a se-
m a n a após a operação estava de volta ao espelho - e percebia
cada vez mais falhas. Para piorar, arrependera-se da cirurgia.
Isso não o impediu de procurar novamente o médico para
remoção da cartilagem das orelhas. Deprimido, já não tra-
balhava nem estudava. M e s e s depois, ele reconheceu seus
A AUTORA
sintomas e m u m livro sobre transtorno dismórfico corporal
S U S A N N E R Y T I N A é jornalista especializada em
temas relacionados à psicologia ( T D C ) , t a m b é m c h a m a d o de d i s m o r f i a , u m quadro no qual
a pessoa se torna patologicamente preocupada c o m u m a a aparência, conferem a pele c o m os dedos ou adotam outros
característica física imaginada ou pouco perceptível e m sua comportamentos compulsivos que t o m a m o t e m p o do traba-
aparência. A preocupação excessiva e m relação à própria lho, da família ou de atividades importantes. Capturados pelo
aparência c o s t u m a ser associada ao transtorno obsessivo próprio reflexo, muitos perdem a noção de t e m p o e acabam
c o m p u l s i v o ( T O C ) , à ansiedade e à depressão e, nos casos demitidos por atrasos constantes. Pesquisadores e s t i m a m
mais graves, ao risco de suicídio. que pelo menos durante u m a semana aproximadamente 3 0 %
O distúrbio é surpreendentemente c o m u m (veja quadro dos pacientes c o m T D C não conseguem sair de c a s a ; 3 0 %
na pág. 58). De maneira geral, os pacientes c o m o transtor- apresentam algum transtorno alimentar e 2 5 % , e m média,
no sofrem por características faciais, c o m o acne, cicatrizes, tentam o suicídio. O abuso de álcool e drogas ilícitas t a m b é m
excesso de pelos ou forma de seu nariz e de seus lábios. é bastante presente nessa população.
T a m b é m p o d e m rejeitar partes específicas do próprio corpo, É inegável que fatores psicológicos como fragilidades egoi-
c o m o seios e quadris, ou se sentirem insatisfeitos e m relação cas, dificuldade de apropriação da própria identidade, baixa
à altura e aos genitais. Muitos acreditam ser repulsivos, ainda autoestima e absorção idealizada de modelos socialmente
que sejam considerados atraentes ou até m e s m o c o m beleza construídos sobre beleza e perfeição estão na base do distúrbio.
a c i m a da m é d i a . Recentemente, porém, pesquisadores descobriram que pacien-
E s s a convicção perturbadora pode trazer diversos preju- tes c o m T D C também apresentam percepção visual distorcida,
ízos. E m geral, aqueles que sofrem do T D C gastam diversas o que sugere que no futuro essas pessoas poderão ser bene-
horas diariamente na frente do espelho enquanto e x a m i n a m ficiadas por tratamentos que desenvolvam o sistema visual.

57
^ percepção d i s t o r c i d a
estado e s t a v a m a i s relacionado a c o n v i c ç õ e s
irracionais do que a f o b i a s .
A p e s a r de s e r c o n s i d e r a d o o f i c i a l m e n t e
como u m transtorno psiquiátrico, o T D C -
t a m b é m c o n h e c i d o c o m o c o m p l e x o de
T é r s i t e s , por c a u s a d o guerreiro descrito na
SIGMUND FREUD e Ilíada, de H o m e r o , c o m o o " h o m e m m a i s
seu paciente Sergei feio do exército g r e g o " - é relativamente
C. Pankejeff, que se
d e s c o n h e c i d o , m e s m o entre psicólogos e
tornou famoso como "o
h o m e m dos lobos": ele
médicos. Não raro, pacientes com a doença
desenvolveu obsessão são diagnosticados c o m depressão, ansieda-
em relação ao seu nariz de, t r a n s t o r n o s a l i m e n t a r e s ou até m e s m o
supostamente desfigurado
c o m o s três t i p o s de d i s t ú r b i o de u m a v e z .
E f r e q u e n t e m e n t e o s p r o f i s s i o n a i s não per-
Originalmente, o transtorno dismórfico c e b e m q u e o T D C p o d e s e r a c a u s a de t o d o s
c o r p o r a l era c o n h e c i d o c o m o d i s m o r f o f o b i a esses sintomas.
( m e d o d a f e i u r a ) , u m t e r m o c u n h a d o pelo Por outro lado, é c o m u m indivíduos com T D C
psiquiatra italiano Enrico Morselli e m 1 8 9 1 . Ele falarem pouco sobre o problema porque não o
havia tratado 8 0 pacientes p r e o c u p a d o s c o m reconhecem c o m o u m distúrbio mental, pois
deformidades imaginadas que interferiam acreditam que são simplesmente feios. Muitos
e x c e s s i v a m e n t e na vida c o t i d i a n a . E m 1980, t a m b é m t ê m vergonha de citar seus comporta-
a d i s m o r f o f o b i a apareceu na terceira edição mentos estranhos n u m a consulta médica. Como
do Manual diagnóstico e estatístico de trans- resultado, não raro esperam de três a 13 anos
tornos mentais ( D S M ) . O termo "transtorno pelo diagnóstico correto. Nesse tempo, muitos
d i s m ó r f i c o c o r p o r a l " s u b s t i t u i u o antigo na procuram a ajuda de cirurgiões plásticos. Mas,
v e r s ã o de 1987, após a c o n s t a t a ç ã o de que o a s s i m c o m o no caso do jovem S., esse tipo de

lllllllllltfltltllllilftllllittllllltllllillltllllltsilllllllllllllllllliitlllllfllllllltlll] miiimimiimimmmimiiiiiiimiimmmmiiiiiii

Em busca da imagem perfeita


Em tempos de selfies e outras formas de autoexposição, em dermatológicos 7% se enquadram no diagnóstico e quando
especial nas redes sociais, a preocupação exacerbada com a consideramos os que buscam tratamentos cosméticos esse
própria imagem parece cada vez mais presente. E o resultado percentual chega a 14%, um índice considerado bastante alto.
disso se vê nos consultórios médicos. Dados da Sociedade Para chegar a esses resultados, a dermatologista desenvolveu uma
Brasileira de Cirurgia Plástica revelam que o número de pesquisa, inspirada no estudo da psiquiatra americana Katherine
procedimentos estéticos aumentou 10% em 2014, no Brasil, o Phillips, para a conclusão de seu doutorado, em 2009, levando em
que significa aproximadamente 1 milhão de cirurgias plásticas conta o enquadre diagnóstico, a epidemiologia e a avaliação do nível
realizadas. Embora na opinião de alguns profissionais como de crítica dos voluntários, usando testes psiquiátricos para fazer
a dermatologista Luciana Conrado, doutora em ciências pela a avaliação. Na ocasião, entrevistou 350 pessoas: 150 pacientes
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o dermatológicos, outros 150 que haviam procurado tratamento
termo "dismórfico" não seja necessariamente o mais adequado cosmético e 50 provenientes da ortopedia, que compuseram o
para descrever o transtorno, ela reconhece que a insatisfação é a grupo de controle. Luciana Conrado salienta ainda que não apenas
"massa de trabalho" dos profissionais que atendem pessoas em dermatologistas e cirurgiões plásticos recebem essas pessoas, mas
busca de correções físicas. "O limite é ténue, mas em certos casos, também otorrinolaringologistas, oftalmologistas, dentistas e mesmo
a diferença entre a maneira que o indivíduo vê o próprio corpo e profissionais que trabalham com estética devem ficar atentos aos
a maneira como os outros o enxergam é muito distante", observa clientes que nunca parecem satisfeitos e continuam pedindo novas
a médica, pós-graduada em psicossomática psicanalítica pelo intervenções. Ela defende o atendimento multiprofissional para
Instituto Sedes Sapientiae. esses pacientes. Trabalhando na Universidade Justus Von Liebig,
O interesse por compreender melhor o que estava por trás da em Giessen, na Alemanha, ela acompanhou o tratamento de
preocupação exagerada com um defeito pequeno ou inexistente pessoas com o transtorno que recebiam atendimento diversificado:
apresentada por alguns pacientes que chegavam ao seu consultório acompanhamento dermatológico e psiquiátrico, medicação para
a motivou a estudar esse "problema secreto", que muitas vezes conter a obsessão, sessões de terapia de grupo e arteterapia. Ainda
os pacientes escondem e, não raro, os próprios profissionais têm que seja difícil falar em cura definitiva, o acompanhamento focado
dificuldade de identificar e manejar. Segundo ela, na população em na diminuição da percepção do suposto defeito pode trazer grande
geral, 2% das pessoas apresentam o transtorno; entre pacientes alívio ao paciente. (Gláucia Leal)

58 I mentecerebro I outubro 2014


O U T R O J E I T O D E V E R : estudo mostra que pacientes c o m T D C parecem processar visualmente figuras c o m u n s (esquerda)
e borradas (centro) de rostos da m e s m a maneira que a maioria das pessoas percebe imagens altamente detalhadas
(direita), c o m o s e e s t i v e s s e m à procura de nuances que não existem

intervenção não resolve porque não consegue alguns a n o s , a psiquiatra Katharine A. Phillips
alcançar a raiz do problema. Já n u m processo e s e u s colegas da E s c o l a de M e d i c i n a Alpert
psicoterápico ou analítico esses temas invaria- da U n i v e r s i d a d e B r o w n r e l a t a r a m e m d o i s
velmente t e r m i n a m vindo à tona, por isso é tão e s t u d o s s e p a r a d o s q u e a m a i o r i a d o s pa-
importante buscar atendimento psicológico. cientes c o m T D C a p r e s e n t a m e l h o r a após o
É c o m u m que o T D C surja na puberdade, t r a t a m e n t o c o m a n t i d e p r e s s i v o s que inibem a
q u a n d o m u d a n ç a s radicais no corpo p o d e m recaptação de serotonina por células cerebrais.
contribuir c o m s e n t i m e n t o s de inadequação P o r é m , s e m a c o m p a n h a m e n t o psicológico,
relacionados à autoimagem. A maioria dos que permita ao paciente ressignificar a própria
pacientes afirma ter sentido os primeiros sinais i m a g e m e lidar c o m os efeitos que a distorção
da doença nesse período. da própria i m a g e m lhe c a u s o u ao longo dos
Fatores c o m o c r e s c e r n u m lar que coloca a n o s , os efeitos da medicação não se sustenta.
ê n f a s e e x c e s s i v a na beleza física ou ter vivido
s i t u a ç õ e s t r a u m á t i c a s c o m o b u l l y i n g e re- QUEM PROCURA ACHA
petidas c r í t i c a s sobre características f í s i c a s , N o s ú l t i m o s a n o s , a l g u n s p e s q u i s a d o r e s co-
c o m o peso e m a n c h a s faciais, t a m b é m podem m e ç a r a m a q u e s t i o n a r se a c o m b i n a ç ã o entre
c o n t r i b u i r para o a p a r e c i m e n t o dos s i n t o m a s u m a personalidade vulnerável e u m a m b i e n t e
d i s m ó r f i c o s . E m u m estudo de 2 0 0 7 , o psicó- desfavorável poderia explicar o distúrbio.
logo c l í n i c o Ulrike B u h l m a n n e s e u s colegas E m b o r a na m a i o r i a dos c a s o s a resposta seja
da E s c o l a M é d i c a da U n i v e r s i d a d e H a r v a r d s i m , surgiu r e c e n t e m e n t e a hipótese de que
e do H o s p i t a l G e r a l de M a s s a c h u s e t t s c o n s - o t r a n s t o r n o esteja relacionado, pelo m e n o s
tataram que voluntários com T D C disseram e m parte, a u m p r o b l e m a perceptivo. E m u m
sofrer p r o v o c a ç õ e s s o b r e a a p a r ê n c i a m a i s e s t u d o c o o r d e n a d o pelo p s i q u i a t r a José A.
frequentemente do que participantes do grupo Yaryura-Tobias, do Instituto B i o c o m p o r t a m e n -
de controle que não t i n h a m o d i s t ú r b i o . tal e m G r e a t Neck, de N o v a York, foi pedido
É p r o v á v e l , p o r é m , que fatores biológicos, a três grupos de dez v o l u n t á r i o s cada - u m
c o m o genes e q u í m i c a cerebral, p r e d i s p o n h a m c o m pacientes c o m T D C , outro c o m p e s s o a s
uma pessoa a essas inseguranças - embora c o m T O C e um terceiro c o m participantes
d i f i c i l m e n t e , por si s ó s , d e t e r m i n e m o apare- e m o c i o n a l m e n t e s a u d á v e i s - que f i z e s s e m
c i m e n t o do q u a d r o . Seguindo a a b o r d a g e m alterações, se j u l g a s s e m n e c e s s á r i o , e m u m a
neurológica, alguns pesquisadores acreditam figura c o m p u t a d o r i z a d a m a i s precisa de seu
que o d i s t ú r b i o esteja relacionado a alterações próprio rosto para c o r r e s p o n d e r ao que acre-
nos níveis do neurotransmissor serotonina d i t a v a m representá-los. Metade dos pacientes
no c é r e b r o , u m p r o b l e m a s e m e l h a n t e ao que c o m T D C e T O C m o d i f i c o u as figuras, ao pas-
a c o n t e c e na d e p r e s s ã o , que atinge a p r o x i m a - so que n i n g u é m do grupo de controle propôs
d a m e n t e 7 0 % d o s pacientes c o m T D C . Há mudança significativa. O s dados sugerem

59
percepção d i s t o r c i d a
que a l g u m a s p e s s o a s c o m que as pacientes c o m T D C j u l g a v a m m e l h o r
O s p r o c e s s o s
o d i s t ú r b i o não p e r c e b e m o grau de m a n i p u l a ç ã o da i m a g e m do que as
t e r a p ê u t i c o s m a i s o próprio rosto da m e s m a d e m a i s , o que s u g e r e que t i n h a m percepção
e f i c i e n t e s s ã o o s f o r m a que a m a i o r i a . mais aguçada.
Evidências a p o n t a m que Curiosamente, essa capacidade apurada
q u e f a v o r e c e m a
pacientes c o m T D C p o d e m pode r e s u l t a r n u m a a s s i m i l a ç ã o d e t u r p a d a .
r e e l a b o r a ç ã o d a s ser v i s u a l m e n t e m a i s " s i n - O p s i c ó l o g o T h i l o D e c k e r s b a c h e s e u s co-
v i v ê n c i a s p r o f u n d a s tonizados". E m um estudo legas da U n i v e r s i d a d e H a r v a r d p u b l i c a r a m
publicado na Abnormal u m estudo em que pediram a pessoas c o m
e a j u d a m o p a c i e n t e
Psychology, o psicólogo Ul- T D C que c o p i a s s e m u m a figura complexa
a s e d a r c o n t a d e
rich Stangier e s e u s colegas e, e m s e g u i d a , q u e a d u p l i c a s s e m de me-
q u e n ã o é p r e c i s o da Universidade de Jena, na mória. O s pacientes demonstraram baixo

s e r p e r f e i t o p a r a Alemanha, apresentaram d e s e m p e n h o (desenharam muitos detalhes,


brevemente u m a figura de m a s s e m c a p t u r a r a f i g u r a de f o r m a geral)
m e r e c e r a f e t o
um rosto feminino junto quando c o m p a r a d o s c o m indivíduos emo-
com cinco representações cionalmente saudáveis. Embora tenham
a l t e r a d a s digitalmente da m e s m a i m a g e m a m o s t r a d o p e n s a m e n t o estratégico pobre na
21 v o l u n t á r i a s c o m T D C , 20 pacientes c o m tarefa, o principal p r o b l e m a pode ser a ênfase
d o e n ç a s de pele d e s f i g u r a n t e s e 19 partici- e x a g e r a d a e m d e t a l h e s v i s u a i s , o que ajuda
pantes s e m nenhum distúrbio - e pediram a e x p l i c a r por q u e s e p r e o c u p a m tanto c o m
q u e j u l g a s s e m o grau de d e t u r p a ç ã o . N o s "defeitos" minúsculos em sua aparência.
r o s t o s m a n i p u l a d o s , os olhos e r a m m a i s es- Feusner e a neurocientista cognitiva Susan
p a ç a d o s , os cabelos m a i s c l a r o s , o nariz era B o o k h e i m e r , da U n i v e r s i d a d e da Califórnia
m a i o r e havia e s p i n h a s e cicatrizes a d i c i o n a i s . e m Los Angeles, encontraram evidências que
A s v o l u n t á r i a s d e v e r i a m e s c o l h e r entre c i n c o reforçam a tese. O s pesquisadores utilizaram a
níveis de d i s t o r ç ã o que v a r i a r a m de " b a i x o " ressonância magnética funcional para observar
a "extremo". O s pesquisadores constataram o cérebro de 12 pacientes c o m T D C e 12 indiví-
duos saudáveis enquanto v i a m três versões de
várias fotografias de faces: c o m u n s , borradas
e achatadas, m a s altamente detalhadas (vejo
ilustração na pág. 59).
O s v o l u n t á r i o s s e m o distúrbio processa-
r a m os rostos c o m u n s e os borrados e m áreas
do h e m i s f é r i o direito do cérebro, região res-
ponsável pela decodificação de características
v i s u a i s de m a i o r e s c a l a ; o lado esquerdo foi
ativado s o m e n t e q u a n d o v i r a m as i m a g e n s
d e t a l h a d a s . Já a q u e l e s c o m T D C u s a r a m o
h e m i s f é r i o e s q u e r d o para interpretar todas
as fotografias. " E l e s p r o c e s s a m todas as fi-
guras c o m o se f o s s e m altamente d e t a l h a d a s .
É c o m o se o cérebro t e n t a s s e extrair n u a n c e s
que não e x i s t e m " , o b s e r v a Feusner.
O s resultados s u g e r e m que o T D C pode
estar relacionado, e m parte, a alterações no
p r o c e s s a m e n t o da i n f o r m a ç ã o v i s u a l . A f i n a l , é
GALÃ D E B R I N Q U E D O : o
americano Justin Jedlica, de possível pensar que a capacidade de apreciar a
34 anos, investiu milhares beleza t e m valor e v o l u t i v o . U m corpo atraente
de dólares em cirurgias
pode, e m a l g u n s c a s o s , e s t a r a s s o c i a d o ao
plásticas para tentar ficar
idêntico ao boneco Ken, o estado de s a ú d e . O u s e j a , a " f e i u r a " indicaria
parceiro da Barbie m e n o r a p t i d ã o . É p o s s í v e l que a habilidade de

60 I mentecerebro I outubro 2014


e s c o l h e r a p e s s o a " m a i s b o n i t a " c o m o parcei- tlitiiltllfllflllilllttlilfffllliilllllfitllfllfifllltlitlittltllllllliltlllfllfllflltilllflllttllltlllllilflfflllfilffllftllitlttlflilllfliilfflll

ra t e n h a a u m e n t a d o as c h a n c e s de t r a n s m i t i r
bons genes para a prole. N e s s e sentido, o T D C
Espelho, espelho meu...
representa u m a v e r s ã o extrema d e s s e talento. E m s u a clínica e m S ã o Paulo, a médica N o e m i Wahrhaftig, m e m b r o
" M a s ainda não s a b e m o s se pessoas c o m T D C da Sociedade Europeia de Dermatologia e Psiquiatria, c o s t u m a re-
n a s c e m c o m d i f i c u l d a d e s no p r o c e s s a m e n t o ceber c o m frequência pessoas ansiosas por fazer t r a t a m e n t o s esté-
v i s u a l o u s e o d i s t ú r b i o deflagra o p r o b l e m a " , ticos que as t o r n e m m a i s jovens e belas. Recentemente, p o r é m , ela
a d m i t e Feusner. se surpreendeu quando u m a paciente de 40 anos desatou a chorar
c o p i o s a m e n t e e m s u a frente, profundamente angustiada c o m a
O ROSTO DOS OUTROS constatação de que estava envelhecendo. A dermatologista acredita
C o n s i d e r a n d o que alterações no p r o c e s s a m e n - que a mulher apresente u m subtipo de dismorfia c o n h e c i d o c o m o
to v i s u a l c o n t r i b u e m c o m o T D C , no futuro s í n d r o m e de Dorian Gray, n u m a alusão ao p e r s o n a g e m de O s c a r
terapias p o d e r ã o s e r d e s e n v o l v i d a s para aju- Wilde que faz u m pacto c o m o d e m ó n i o no intuito de m a n t e r a
dar p a c i e n t e s a enxergar as c o i s a s de f o r m a juventude enquanto u m retrato s e u , c u i d a d o s a m e n t e e s c o n d i d o , se
m a i s global u s a n d o o lado direito do cérebro. deforma c o m o p a s s a r do t e m p o .
F e u s n e r a c r e d i t a q u e a exposição repetida a A médica reconhece, p o r é m , que s u a própria angústia diante
i m a g e n s b o r r a d a s , v i s t a s à distância ou v i s u a - do pedido de m u i t o s pacientes de se submeter c o m p u l s i v a m e n t e
lizadas por a p e n a s u m a fração de s e g u n d o , a procedimentos estéticos não é muito c o m u m entre profissionais
por e x e m p l o , poderia forçar o cérebro a adotar que trabalham c o m procedimentos c o s m é t i c o s - e s u a atitude críti-
essa estratégia. ca, por v e z e s , provoca e s t r a n h a m e n t o entre seus pares. "Vivemos
O psiquiatra afirma que medicamentos e m u m a sociedade que nos cobra s e r m o s a s s é p t i c o s , s e m cheiro,
t a m b é m p o d e m alterar o lado do cérebro usado c o m dentes brancos, s e m pelos ou poros abertos, c o m cabelos
para p r o c e s s a r informações v i s u a i s . E s t u d o s lisos, s e m m a n c h a s ou m a r c a s na pele e isso m e i n c o m o d a " , co-
preliminares s u g e r e m que benzodiazepínicos m e n t a . " M u i t o s pacientes cultivam a fantasia de que u m m é d i c o o s
f a v o r e c e m a transferência da atividade neural tornará perfeitos, m a s sofrem c o m a insatisfação n u m a b u s c a que
para a direita durante u m a tarefa do proces- continua, c o n t i n u a . . . " . E ainda que o corpo se t r a n s f o r m e , perma-
s a m e n t o v i s u a l , m a s os efeitos colaterais s ã o nece a rejeição por si m e s m o . (C. L)
inegáveis. A saída seria o uso de drogas alter-
nativas q u e p o d e m agir de m a n e i r a similar,
causando menos danos. c a n d o as percepções d i s t o r c i d a s e sugerindo
C o n t u d o , e s p e c i a l i s t a s c o n c o r d a m que o ações para ajudar o s pacientes a a b a n d o n a r mimiimiimmmimmiimiiimim

problema não é totalmente visual. Levando hábitos destrutivos. E m alguns casos, são PARA S A B E R MAIS

e m c o n t a q u e nove entre dez pacientes c o m i n s t r u í d o s a pedir u m retorno sobre a própria V i s u a l information proces-
s i n g o f f a c e s in body dys-
T D C afirmam t a m b é m examinar a aparência aparência para outras p e s s o a s , c o m o a m i g o s ,
morphic disorder. j a m i e D.
a l h e i a , p r i n c i p a l m e n t e as características que f a m i l i a r e s o u até m e s m o e s t r a n h o s . Psicó- Feusner, J e n n i f e r T o w n s e n d ,
A l e x a n d e r Bystritsky e S u s a n
m a i s d e t e s t a m e m si m e s m o s , u m a p e s q u i s a logos c o g n i t i v o - c o m p o r t a m e n t a i s apostam
Bookheimer em Archives
d e s e n v o l v i d a por B u h l m a n n e s e u s colegas que c o m e n t á r i o s a l h e i o s p o s i t i v o s , ou pelo of General Psychiatry, vol.
m o s t r o u q u e p e s s o a s c o m o d i s t ú r b i o não m e n o s neutros, p o d e m ajudar o paciente a 64, n° 12, p á g s . 1417-1426,
d e z e m b r o de 2007.
enxergam as m e s m a s distorções que veem desenvolver u m a a u t o i m a g e m m e l h o r e m a i s
O intolerável peso da feiura.
e m si no rosto d o s o u t r o s . I n d i v í d u o s q u e realista. N o e n t a n t o , e s s a t é c n i c a m a i s u m a Joana de V i l h e n a N o v a e s .
s o f r i a m de d i s m o r f i a c l a s s i f i c a r a m fotografias vez coloca o referencial de autoaceitação fora PUC-Rio, 2006.
Broken mirror: unders-
de outras p e s s o a s ( c o n s i d e r a d a s " a t r a e n t e s " da p e s s o a . N e s s e s e n t i d o , psicoterapias c o m -
t a n d i n g a n d treating body
pelos p e s q u i s a d o r e s ) c o m o significativamente p o r t a m e n t a i s p o d e m ser úteis n u m primeiro d y s m o r p h i c disorder. E d i -
m a i s bonitas do q u e f i z e r a m outros g r u p o s m o m e n t o , m a s os processos terapêuticos ção revisada. Katharine A.
Phillips. Oxford University
s e m o d i s t ú r b i o . I s s o sugere que a percepção m a i s eficientes ainda parecem ser aqueles que Press, 2005.
detalhada sobre o s outros não evoca a m e s m a p e r m i t e m a reelaboração d a s v i v ê n c i a s m a i s Body d y s m o r p h i c disorder:
r e s p o s t a e m o c i o n a l negativa r e l a c i o n a d a à p r o f u n d a s . Lidar c o m as próprias faltas abre a review o f conceptuali-
zations, a s s e s s m e n t , and
própria a p a r ê n c i a . possibilidade efetiva de aceitar que aquilo que treatment strategies. Mi-
De fato, alguns profissionais tratam o se c o n s i d e r a imperfeito no próprio corpo não c h e l l e B. C o r o r v e e D a v i d
H . G l e a v e s e m Clinicai Psy-
T D C abordando aspectos emocionais, como i m p e d e a p e s s o a de ser atraente, merecedora chology Review, v o l . 2 1 , n° 6,
o p e r f e c c i o n i s m o e o m e d o de rejeição, fo- de afeto e de r e l a c i o n a m e n t o s s a u d á v e i s , págs. 949-970, 2 0 0 1 .

61
neurociência

Uma história
ilustrada
do cérebro
SÉCULO APOS SÉCULO, CIENTISTAS AVANÇAM NAS PESQUISAS T E N T A N D O ENTENDER A

COMPLEXA ARQUITETURA NEURONAL. NOS ÚLTIMOS ANOS, I M A G E N S OBTIDAS POR MEIO

DE NOVAS T E C N O L O G I A S NOS AJUDARAM A APROFUNDAR DESCOBERTAS NESSA ÁREA

p o r Isabelle Bareither

A AUTORA
I S A B E L L E B A R E I T H E R é neurocientista, pesquisadora do Instituto Max Planck para
Cognição H u m a n a e Ciências do Cérebro e da Universidade Humboldt de Berlim.
A s d e s c r i ç õ e s de Willis b a s e a v a m - s e , por u m lado, e m
e s t u d o s a n a t ó m i c o s d e t a l h a d o s de a n t e c e s s o r e s c o m o
o italiano L e o n a r d o da Vinci (1452-1519) ou o f l a m e n g o
A n d r e a s V e s a l i u s (1514-1564). Por o u t r o , o m é d i c o inglês
aceitou a hipótese de u m " s i s t e m a n e r v o s o m e c â n i c o " ,
f o r m u l a d a pelo filósofo René D e s c a r t e s ( 1 5 9 6 - 1 6 5 0 ) . Se-
g u n d o e s s a ideia, a vida mental do ser h u m a n o poderia
ser explicada c o m o o resultado de p r o c e s s o s que - e m b o r a
n e c e s s i t a s s e m da " i n s p i r a ç ã o d i v i n a " - e s t a v a m b a s e a d o s
e m leis fixas. A crença no progresso dos t e m p o s m o d e r n o s
identificou o órgão do p e n s a m e n t o c o m o u m a p a r e l h o de
'funcionamento d e t e r m i n i s t a .
O médico e anatomista Franz Joseph Gall (1758-1828) foi
u m pioneiro nessa área. Ele estava convencido de que o tama-
nho e a configuração do crânio permitiam conclusões sobre
talentos e personalidade das pessoas - e para isso comparava
moldes de cabeça de políticos, intelectuais, doentes mentais
e c r i m i n o s o s . Gall, porém, ignorava propositalmente tudo
o que refutava sua teoria - e é provável que isso o tenha
impedido de fazer mais descobertas. A p e s a r disso e
dos equívocos, a teoria de localização de Gall, deno-
minada frenologia, se tornou u m a base importante
nesse c a m p o de estudo. G r a ç a s aos progressos da
microscopia e da histologia, que possibilitaram a
subdivisão cerebral em muitas unidades menores,
hoje sabemos que de fato certas funções mentais estão
localizadas e m áreas específicas do cérebro.

DA ESTRUTURA À FUNÇÃO
A l é m de se preocupar c o m a localização de cada função e m
determinada região neurológica, atualmente os neurocien-
tistas investem sua atenção principalmente nas complicadas
redes que englobam o cérebro c o m o u m todo. O m a p a da
totalidade de ligações neuronais, o c o n e c t o m a , coloca os
pesquisadores diante de grandes d e s a f i o s . A f i n a l , c o m o

O
ilustrar de maneira clara a enorme quantidade de conexões?
b s e r v a r de f o r m a direta a e s t r u t u r a do cérebro E isso fica ainda mais difícil quando se trata de representar
ou a m a n e i r a c o m o ele f u n c i o n a não é possí- modificações dinâmicas dessas redes.
vel. Por e s s a razão óbvia, as descobertas nessa Até o m o m e n t o , os cientistas concentraram-se e m ima-
área s ã o lentas e as t é c n i c a s que p e r m i t e m gens estáticas. Mas a comunicação entre as células nervosas
ver c o m q u a l i d a d e i m a g e n s de conexões e de p r o c e s s o s se m a n t é m n u m fluxo de alteração permanente. O s trajetos
n e u r o n a i s c o s t u m a m ser d i s p e n d i o s a s . Já na A n t i g u i d a d e , das conexões t a m b é m m u d a m constantemente. E s s a dimen-
e s t u d i o s o s c o m o G a l e n o de P é r g a m o (129-199, a p r o x i m a - são temporal está sendo incorporada de maneira progressiva
d a m e n t e ) s u p u n h a m que estava reservado ao cérebro u m aos processos de reprodução por i m a g e m . A l é m d i s s o , as
papel i m p o r t a n t e . M a s foi o m é d i c o inglês T h o m a s W i l l i s novas f o r m a s de apresentação precisam levar e m c o n t a ,
(1621-1675) que relacionou e m s u a obra Cerebri anatome, simultaneamente, a conectividade anatómica e a funcional.
de 1 6 6 4 , á r e a s n e u r o l ó g i c a s c o m f u n ç õ e s m e n t a i s . Ele E os métodos atuais muitas vezes se limitam a observar
a c r e d i t a v a que o córtex (a " c a s c a " externa do c é r e b r o , somente a superfície de tudo isso: m a s é abaixo dela que
f o r t e m e n t e s u l c a d a ) c o n t r o l a s s e a m e m ó r i a e a força de estão os mensageiros químicos e os processos moleculares
v o n t a d e ; r e a ç õ e s m a i s s i m p l e s e a u t o m á t i c a s s e r i a m de - a s s i m c o m o , possivelmente, outras d i m e n s õ e s que ainda
r e s p o n s a b i l i d a d e do cerebelo. se m a n t ê m ocultas à técnica do m o m e n t o .
^ neurociência
TRAÇOS DELICADOS

§ A neurociência moderna está associada à evolução dos recursos tecnoló-


s gicos que permitiram aos pesquisadores ver melhor o cérebro e compre-
| ender seu funcionamento. No final do século 2 1 , o uso de microscópios
| descortinou u m novo universo, o que permitiu que pesquisadores como
I os anatomistas CamilloGolgi (1844-1926) e S a n t i a g o R a m ó n y C a j a l (1852-
< 1934) conseguissem enxergar as profundezas do cérebro. O italiano Golgi
s descobriu a "reação negra" (reazione nem), u m a técnica para a coloração
de células por meio do nitrato de prata, e o espanhol Ramon y Cajal partiu
desse ponto para ampliar seus estudos. Ele desenhou diversos cortes do
^ cérebro e células neurais (à esquerda, um corte do hipocampo). Mas diver-

1
gências sobre a interpretação dos resultados das pesquisas afastaram os
V m
dois cientistas, até m e s m o na cerimónia de entrega do Prémio Nobel de
Fisiologia ou Medicina a a m b o s , e m 1906. Golgi estava convencido de
que os neurónios do cérebro f o r m a v a m u m a única m a s s a interligada. Já
para Ramon y Cajal eles eram unidades a u t ó n o m a s , separadas, que se
c o m u n i c a v a m entre si por sinapses (termo criado e m 1897 pelo inglês
Charles Scott Sherrington). Sua neurodoutrina fundou a moderna pesquisa
neurológica, e o espanhol tornou-se o primeiro a reconhecer o sentido das
t r a n s m i s s õ e s de sinais dentro das células nervosas a partir dos dendritos,
as ramificações dos neurónios, passando pelo corpo celular e seguindo
pelo longo axônio. Ramon y Cajal usou setas para registrar isso em seus
esboços e, mais tarde, criou o protótipo para futuros conectomas.

NEURÓNIOS AO VIVO E EM CORES

U m a interlocução interessante do século 21 para


os desenhos de Ramon y Cajal é o método Brain-
bow, desenvolvido por Jeff Lichtman e Joshua
Sanes, pesquisadores da Universidade Harvard.
Sob u m a luz fosforescente, os n e u r ó n i o s se
parecem com ratos, m o s c a s ou m i n h o c a s ge-
neticamente modificados, e m todas as cores do
arco-íris. Com a técnica, os cientistas conseguem
observar ao vivo, e até filmar, as modificações
nos neurónios e suas s i n a p s e s . O mais impor-
tante, porém, é que podem ressaltar detalhes
c o m o núcleos celulares e m neurónios, e o que
aparece na imagem c o m o confete colorido não
é u m produto da natureza, m a s o resultado de
um demorado processo de elaboração.

64 I mentecerebro I outubro 2014


PARTÍCULAS DE NEURÓNIOS

Atualmente, células cerebrais podem ser vistas de f o r m a 100 v e z e s m a i s


exata do que na época dos m i c r o s c ó p i o s de luz de R a m o n y Cajal. A
i m a g e m a c i m a m o s t r a u m neurônio e m cujos p r o l o n g a m e n t o s há pro-
jeções m i n ú s c u l a s : são as e s p i n h a s ou g ê m u l a s , que f a z e m as ligações
para outros neurónios. N a m i c r o s c o p i a eletrônica, u m feixe de elétrons
varre a superfície de u m a estrutura e u m detector registra as partículas
que refletem da superfície. Para tanto, o tecido precisa ser cortado e m
centenas de fatias extremamente finas, que o m i c r o s c ó p i o e s c a n e i a e m
sequência. Depois, as imagens dos cortes são juntadas até que se chegue
a u m a apresentação tridimensional. Entretanto, quanto maior a definição,
m a i s reduzida é a visão geral. Por isso, o microscópio de luz c o n t i n u a a
ser utilizado para analisar áreas maiores de tecidos. O s cientistas u s a m
o microscópio eletrônico para analisar microestruturas f i n a s .

65
^ neurociência

U m método relativamente recente da pesquisa neurológica que traz


avanços principalmente na m e d i ç ã o dos c o n e c t o m a s é o que permite
a obtenção de i m a g e m por tensor de difusão ( D T I , diffusion tensor
imaging). A m o v i m e n t a ç ã o de moléculas de água ao longo das fibras
nervosas revela o a n d a m e n t o das conexões neuronais. M a s e s s a ico-
nografia é baseada e m s u p o s i ç õ e s m a t e m á t i c a s e estatísticas e não
reflete as conexões reais.
"A técnica atual ainda traz, c o m frequência, u m resultado distorcido
e m relação à real arquitetura do cérebro e permite reconhecer padrões
neuronais que, na verdade, m o s t r a m apenas u m a parte da verdadeira
a n a t o m i a " , observa o neurocientista Marco Catani, do King's College,
e m Londres. Tais i m a g e n s do cérebro são o resultado de u m a análise
feita em muitos p a s s o s , e e m cada qual há a possibilidade de escolher
entre estética e c o n t e ú d o informativo. Portanto, o resultado espelha
as decisões individuais do pesquisador.
Segundo Daniel M a r g u l i e s , que dirige o grupo de pesquisa sobre
neuroanatomia e conectividade no Instituto Max Planck para Cognição
H u m a n a e Ciências do Cérebro, e m Leipzig, as i m a g e n s oferecem
potencial para induzir a erros. "A D T I clássica afasta todas as dúvidas
e descreve os c a m i n h o s c o n c r e t o s . Isso faz c o m que nos e s q u e ç a m o s
da elaboração das i m a g e n s e da incerteza da dedução dos d a d o s " ,
diz. Entretanto, não precisaria ser a s s i m , pois o c o n e c t o m a poderia
ser estético e, ao m e s m o t e m p o , oferecer alto grau de informação.

66 I mentecerebro I outubro 2014


O q u e o s n e u r o c i e n t i s t a s r e a l m e n t e m e d e m não s ã o c a m i n h o s
c o n c r e t o s , c o m o a i m a g e m D T I m o s t r a nesta página, m a s pontos
individuais, c h a m a d o s voxel. A fim de reproduzir conexões neuronais
de m a n e i r a t r i d i m e n s i o n a l , há m u i t o se faz uso de c o r p o s geométri-
c o s , os glifos. C o m seu auxílio, e s p e c i a l i s t a s p a s s a r a m a represen-
tar t a m b é m as conexões f u n c i o n a i s no cérebro. C a d a ponto desta
v i s u a l i z a ç ã o reúne alternâncias s i n c r ô n i c a s de atividades no voxel
m e d i d o : as cores c o r r e s p o n d e m às direções e s p a c i a i s t o m a d a s por
c a d a n e u r ô n i o d e s t a c a d o (vermelho significa que está perpendicular à
conexão que acontece ali; verde longitudinal; e azul transversal). Dessa
m a n e i r a , os glifos i n f o r m a m sobre a conectividade s e m dar a ilusão
de c o n e x õ e s reais de fibras.

67
neurociência
LIBERDADE ARTÍSTICA

O projeto do artista e neu-


rocientista f r a n c ê s E t i e n n e
Saint-Amant mostra as pos-
sibilidades de representação
do cérebro usando processos
de i m a g e m . Seu quadro
Autorretrato II é u m a adap-
tação livre de u m a i m a g e m
D T I de s e u p r ó p r i o c é r e -
bro. E m geral, tais i m a g e n s
m o s t r a m fibras nervosas
coloridas sobre fundo preto
(veja pág 64). Aqui o artista
brinca com a coloração, m a s
m a n t é m o rigor c i e n t í f i c o
dos detalhes do registro. O
autorretrato de Saint-Amant
recebeu o primeiro prémio na
categoria representação do
conectoma h u m a n o na Brain
Art Competition 2013 (veja:
vww.neurobureau.org).

SEU CÉREBRO É ASSIM MESMO?

Imagens coloridas do cérebro d o m i n a m muitas


revistas de neurociências e estão presentes em iifll |

mídias populares. M a s será que elas realmente


m o s t r a m a " m e n t e t r a b a l h a n d o " ? E m breve,
será possível observar os p e n s a m e n t o s de u m a
pessoa n u m cérebro de vidro? N ã o é o c a s o : a
representação das redes e f u n ç õ e s do cérebro
parece mais realista do que é de verdade! Todas
as imagens apresentadas aqui são resultados
de cálculos c o m p l e x o s , a s s i m c o m o escolhas
subjetivas dos cientistas, que t ê m de achar
u m meio-termo entre conteúdo de informação
e estética. Daniel Margulies, pesquisador do
Instituto Max Planck, acredita que acabar c o m
a n e u r o i m a g e m , c o m o exigem alguns críticos,
é exagero: " O objetivo das i m a g e n s é t r a n s m i t i r
c o n h e c i m e n t o . Para i s s o , u m visual atraente
pode ajudar. I m a g e n s cerebrais p o d e m ser bo-
nitas e, ao m e s m o t e m p o , i n f o r m a t i v a s " .

68 I mentecerebro I outubro 2014


NO CAMINHO PARA O CONECTOMA

Atualmente, além de buscar compreender mais didas, os pesquisadores do grupo de Joachim


detalhes sobre a rede a n a t ó m i c a do cérebro, Bõttger, pesquisador do Instituto Max Planck,
p e s q u i s a d o r e s se e m p e n h a m e m d e s v e n d a r e m Leipzig, lançaram m ã o de u m método que
a participação d a s conexões neurais enquanto já é usado para a visualização do tráfego aéreo
voluntários realizam determinadas tarefas. A e d a s ondas migratórias no edge bundling (que
base d a i m a g e m m o s t r a d a abaixo é a i m a g e m pode ser t r a d u z i d o c o m o " a g r u p a m e n t o de
por r e s s o n â n c i a magnética funcional (flVIRI). a r e s t a s " ) : as conexões c o m características
Ela registra modificações do nível de oxigénio v i s u a i s s e m e l h a n t e s , c o m o ângulos ou relação
no sangue permitindo conclusões sobre a ativi- de c o m p r i m e n t o , são reunidas. A s s i m , cores
dade n e u r o n a l . Mede-se a atividade de muitos diferentes indicam conexões diversas - no caso,
m i l h a r e s d e n e u r ó n i o s a cada d e t e r m i n a d o o v e r m e l h o está associado à função sensório-
ponto o u voxel. A força de conectividade entre m o t o r a , e o laranja ao s i s t e m a v i s u a l .
os pontos pode ser calculada a partir da seme- Entretanto, os caminhos na imagem abaixo
lhança c o m s e u padrão de atividade: aqueles não r e p r o d u z e m conexões a n a t ó m i c a s reais,
que s ã o s i n a l i z a d o s s i m u l t a n e a m e n t e de m a - mas foram deduzidas por meio de estatísticas.
neira m a i s forte ou m a i s fraca provavelmente O grande desafio dos neurocientistas continua
estão c o n e c t a d o s entre s i . sendo apresentar imagens do cérebro atraentes e
Para r e p r e s e n t a r o conjunto de todas as ao m e s m o tempo informativas, que não falseiem
conexões f u n c i o n a i s passíveis de s e r e m me- nada daquilo que realmente acontece.

iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimiiiimii
PARA SABER MAIS

Visualizingthe human
c o n n e c t o m e . D. S.
M a r g u l i e s et ai, e m
Neurolmage 80, págs.
445-461, 2013.
Portraits o f the mind.
v i s u a l i z i n g t h e brain
from antiquity to the
21 st century. C . Scho-
onover. A b r a m s , 2 0 1 0 .

69
neurociência

As novas
teorias da
consciência
VÁRIOS PESQUISADORES ACREDITAM QUE ESSA CAPACIDADE

FUNDAMENTAL SURGE NO M O M E N T O EM Q U E A I N F O R M A Ç Ã O É

TRANSMITIDA PELO CÉREBRO. É POSSÍVEL QUE A HIPÓTESE NÃO SEJA

SUFICIENTE PARA DAR C O N T A DE T O D A S AS Q U E S T Õ E S NESSA ÁREA,

MAS ABRE IMPORTANTES PERSPECTIVAS

por Christof Koch

ãk consciência é um dos temas mais fascinantes


M^L e c o m p l e x o s do u n i v e r s o psíquico. Só o fato de
MÊÊÊÊÊL que " p e n s a m o s sobre o p e n s a r " já parece por si
m msó intrigante. N o s ú l t i m o s a n o s , c o m os avanços
da c i ê n c i a , m u i t a s s u p o s i ç õ e s d u r a n t e a l g u m t e m p o acei-
tas sobre e s s e t e m a t ê m sido c o n s i d e r a d a s equivocadas
por vários e s p e c i a l i s t a s . H á p o l é m i c a , por e x e m p l o , e m
torno da possibilidade de q u e , de a l g u m a f o r m a , n o s s a s
experiências p o s s a m ser explicadas pela teoria q u â n t i c a ,
f o r m u l a d a no início do s é c u l o 2 0 . O u t r a hipótese contro-
v e r s a s u s t e n t a que a c o n s c i ê n c i a e m e r g i u a p e n a s alguns
O AUTOR m i l h a r e s de a n o s a t r á s , q u a n d o os h u m a n o s perceberam
C H R I S T O F K O C H é neurocientista,
que as v o z e s e m s u a c a b e ç a não v i n h a m dos d e u s e s , m a s
diretor científico do Instituto de Ciência
Cerebral Allen, em Seattle. d a s próprias narrativas i n t e r n a s .

70 I mentecerebro I outubro 2014


M a s , o b v i a m e n t e , n e m toda teoria da c o n s c i ê n c i a pode m a n i p u l a m a experiência c o n s c i e n t e de p e s s o a s e m a m -
ser f a c i l m e n t e d e s c a r t a d a . D u r a n t e as ú l t i m a s d é c a d a s , a biente controlado são o ponto de partida para que cientistas
ciência p r o d u z i u d u a s teses e s p e c i a l m e n t e c o n v i n c e n t e s p r o c u r e m identificar as áreas do cérebro r e l a c i o n a d a s a
para explicar a q u e s t ã o . A proposta nos dois c a s o s é dar esses fenómenos.
conta de u m v a s t o c a m p o de o b s e r v a ç õ e s tanto de pes- O neurocientista cognitivo francês Stanislas Dehaene, do
s o a s c o m p r o b l e m a s neurológicos c o m o de e x p e r i m e n t o s Collège de France, e m Paris, que dedicou grande parte de
realizados e m s o f i s t i c a d o s laboratórios. s u a carreira ao estudo da psicologia da c o n s c i ê n c i a , acaba
A t e o r i a da i n f o r m a ç ã o integrada, d e s e n v o l v i d a pelo de publicar sólido material de suas investigações sobre c o m o
p s i q u i a t r a e neurocientista G i u l i o T o n o n i , c o m o qual tra- o modelo de espaço de trabalho global m a p e i a o cérebro.
balho, utiliza u m a e x p r e s s ã o m a t e m á t i c a para representar O padrão t o m a c o m o base a capacidade de retermos e m
a e x p e r i ê n c i a c o n s c i e n t e e fazer p r e v i s õ e s s o b r e q u a i s n o s s a m e n t e o que p e r c e b e m o s (de f o r m a c o n s c i e n t e ) por
c i r c u i t o s no cérebro são e s s e n c i a i s para produzi-las. Já o u m breve período, seja u m rosto familiar e m u m a multidão,
m o d e l o de e s p a ç o de trabalho global da c o n s c i ê n c i a se seja a v o z de u m e s t r a n h o . A percepção pode p e r m a n e c e r
m o v e na d i r e ç ã o o p o s t a . E s t u d o s c o m p o r t a m e n t a i s que no a r m a z e n a m e n t o da m e m ó r i a de curto p r a z o , u m a espé-

71
neurociência

O S CIENTISTAS
C O G N I T I V O S Stanislas
Dehaene e Bernard Baars
sugerem que lembranças,
percepções sensoriais e
opiniões são depositadas
em um tipo de memória
de curto prazo chamado
espaço de trabalho global.
Esse armazenamento dá
origem à consciência quando
a informação recolhida é
transmitida pelo cérebro
para estimular processos
cognitivos que, em seguida,
disparam o sistema motor,
estimulando o corpo à ação

cie de r a s c u n h o m e n t a l , m e s m o após o rosto m e m ó r i a de longo prazo. O ato de enviar e s s a s


d e s a p a r e c e r ou a voz ficar distante. O cientista i n f o r m a ç õ e s da reserva de recordações para
cognitivo B e r n a r d B a a r s , do Instituto de Neu- os d i v e r s o s m ó d u l o s f u n c i o n a i s do cérebro dá
r o c i ê n c i a s e m La Jolla, na Califórnia, que de- origem à consciência.
s e n v o l v e u a teoria-modelo e s p a ç o de trabalho O p r o b l e m a é que e s s e espaço de traba-
global, se i n s p i r o u nas p r i m e i r a s descobertas lho t e m c a p a c i d a d e e x t r e m a m e n t e limitada.
sobre inteligência artificial, e m que programas E s t a m o s c o n s c i e n t e s de a p e n a s alguns itens
e s p e c i a l i z a d o s a c e s s a m u m repositório coleti- ou e v e n t o s e os m u d a m o s rapidamente de
vo de i n f o r m a ç õ e s , o quadro-negro. S e g u n d o lugar, para dentro e para fora da c o n s c i ê n c i a .
B a a r s , é o ato de t r a n s m i t i r d a d o s d e s s a área N o v a s i n f o r m a ç õ e s c o n c o r r e m c o m antigas
para u m s i s t e m a c o m p u t a c i o n a l , cibernético e p o d e m , e m ú l t i m a i n s t â n c i a , substituí-las.
o u biológico, que o t o r n a c o n s c i e n t e . A c o n s - P r o v a v e l m e n t e , e s s a restrição é u m a carac-
c i ê n c i a s e r i a , portanto, a p e n a s a ação cerebral t e r í s t i c a i n e v i t á v e l de q u a l q u e r projeto d e
de c o m p a r t i l h a r i n f o r m a ç õ e s a r m a z e n a d a s na s i s t e m a de p r o c e s s a m e n t o de i n f o r m a ç ã o
reserva da m e m ó r i a . s o b r e c a r r e g a d o pelo fluxo de dados e p r e c i s a
E s s e e s p a ç o neural não só p r o c e s s a d a d o s c o n c e n t r a r s e u s r e c u r s o s m a i s precisos e m
s e n s o r i a i s recentes, m a s t a m b é m pode evocar c o m o lidar c o m m u i t a s situações críticas o
m e m ó r i a s antigas e trazê-las para e s s a área. m a i s rápido p o s s í v e l .
A s s i m que u m a i n f o r m a ç ã o é a c e s s a d a , diver- O cérebro c o m p e n s a a falta de espaço neu-
s o s s i s t e m a s cognitivos p o d e m utilizá-la. O s ral por meio de p r o c e s s o s inconscientes: igno-
dados são enviados para u m a região específica ra t o t a l m e n t e o bloco de r a s c u n h o central ou
do cérebro que p r o c e s s a a linguagem ( u m a interage c o m ele abaixo do nível da c o n s c i ê n -
espécie de m ó d u l o ) , onde são preparados para c i a . O grande fluxo s u b l i m i n a r de informações
serem compartilhados com outras pessoas t r a n s f o r m a s o n s e m p a l a v r a s significativas e
por m e i o da fala: " A d i v i n h a q u e m acabei de f ó t o n s e m objetos e p e s s o a s identificáveis.
v e r " , por e x e m p l o . T a m b é m p o d e m ser trans- Esses processos avaliam e pesam evidências,
mitidos para u m a "unidade de planejamento", j u l g a m e s i n c r o n i z a m o s m o v i m e n t o s inicia-
p a s s a r pela razão e s e r e m a r m a z e n a d o s na dos pelo s i s t e m a m u s c u l o e s q u e l é t i c o para que

72 I mentecerebro I outubro 2014


um organismo sobreviva em um mundo em Por exemplo, a i m a g e m de
c o n s t a n t e e rápida t r a n s f o r m a ç ã o . M a s , e m - u m rosto o u u m a palavra
O grande fluxo
bora s o f i s t i c a d o s e rápidos, não c o m p a r t i l h a m aparece rapidamente e m u m subliminar de
i n f o r m a ç õ e s entre si n e m as transferem para o m o n i t o r entre i m a g e n s de informações
e s p a ç o de t r a b a l h o e m c o m u m . A s s i m c o m o linhas desenhadas aleatoria-
a c o n t e c e c o m u m a agência de inteligência, mente ou u m agrupamento
transforma sons em
os d a d o s s ã o d i v i d i d o s a p e n a s c o m base na da letra X. Essas " m á s c a r a s " palavras significativas
n e c e s s i d a d e de saber. evitam que o rosto ou palavra e fótons em objetos e
exibida se tornem conscien-
pessoas identificáveis
MASCARAMENTO tes ( p a r t i c i p a n t e s relatam
No entanto, e s s e s milhares de agentes incons- perceber apenas as figuras
cientes m o l d a m n o s s a rotina diária. Embora se distrativas). Dehaene e s e u s colegas usaram
manifestem ocasionalmente, a falta de acesso a versões combinadas da técnica c o m o registro
esses eventos subliminares nos faz subestimar de eletrodos implantados profundamente no
sua importância. C o m o o escritor japonês Haruki cérebro de pacientes c o m convulsões epiléticas.
M u r a k a m i bem expressou: "Temos vários luga- O objetivo era demonstrar que o inconsciente
res dentro de nós. Não visitamos a maioria. São pode processar o significado de combinações
espaços esquecidos. De tempos em tempos, po- de palavras, o que implica notar a incongruência
d e m o s encontrar u m a passagem. Encontramos entre termos com significado emocional positivo
coisas estranhas... antigos fonógrafos, imagens e e negativo (o cérebro responde de maneira dife-
livros que nos pertencem, embora seja a primeira rente a "guerra feliz" e " a m o r f e l i z " , por exemplo).
vez que os e n c o n t r a m o s " . C o m Dehaene, o biólogo molecular Jean-
Dehaene investiga esses lugares inconscien- Pierre Changeux foi além d e s s e modelo abstra-
tes usando u m a técnica chamada mascaramento. to e investigou áreas específicas do cérebro e o

E x p l o r a n d o o e n i g m a d a existência
Apresentar u m a palavra visível para u m espectador provoca u m a avalanche neural e m áreas do córtex cerebral - prin-
cipalmente no giro fusiforme esquerdo, envolvido no processamento da linguagem (à esquerda). A atividade é aproxi-
m a d a m e n t e dez vezes maior (gráfico) e m relação à exibição de termos mascarados (à direita). A rede de estruturas que
entram e m ação corresponde ao espaço de trabalho global, u m conjunto de neurónios que produz a c o n s c i ê n c i a .

73
neurociência
grupo de neurónios que corresponde ao espaço conscientemente, sua assinatura neuronal
de trabalho global. U m estudo e m a n d a m e n t o , ( u m a atividade cerebral específica) aparece e m
c o m r e s s o n â n c i a magnética funcional e ele- d i v e r s a s regiões do córtex cerebral. Por e x e m -
t r o d o s de eletroencefalograma posicionados plo, a i n t e n s a atividade elétrica d e s e n c a d e a d a
no crânio dos voluntários, revela assinaturas por u m a i m a g e m que p a s s a pelo córtex visual
neurais distintas nas regiões que parecem re- primário, localizado na parte de trás da cabeça,
presentar a teoria de a r m a z e n a m e n t o m e n t a l . segue para m u i t a s áreas corticais. Ao atingir
E m u m experimento clássico, Dehaene e seus regiões anteriores do córtex, a amplitude dos
colaboradores submeteram alguns voluntários a sinais a u m e n t a , o que levou Dehaene a c u n h a r
u m escâner de ressonância magnética enquanto o termo "avalanche neural".
observavam u m fluxo de palavras em u m a tela de E s s a intensa atividade pode ser capturada
computador, cada u m a exibida por 29 milésimos no ato c o m a ajuda de eletrodos de eletroen-
de segundo. Alguns termos estavam mascarados cefalograma ( E E G ) , por meio da medição da
e provocavam apenas u m a pequena resposta do P300, u m a onda cerebral que, em experimentos
cérebro. M a s , quando estavam legíveis, desenca- e m laboratório, se inicia aproximadamente 300
deavam intensa atividade neural. milissegundos após a projeção de uma figura
A s regiões ativadas formam u m a espécie de e m u m a tela. C o m o demonstram os estudos de
tapete denso que bloqueia as células cerebrais Dehaene, tornar-se consciente de um som ou de

NAS PALAVRAS D O
( e s p e c i f i c a m e n t e neurónios p i r a m i d a i s ) que u m a imagem (transmitidos para áreas cerebrais
ESCRITOR JAPONÊS u n e m o córtex pré-frontal, o lobo parietal inferior, que os cientistas acreditam comporem o espaço
Haruki Murakami: os lobos temporais médio e anterior e outras re- de trabalho global) muitas vezes está relacionado
"Temos vários lugares
giões do cérebro. O s axônios, extensões do corpo c o m a presença da onda P300 no córtex pré-fron-
dentro de nós. Não
visitamos a maioria. S ã o celular dos neurónios, se espalham pela superfície tal, u m a região do cérebro associada a processos
espaços esquecidos. fissurada do cérebro, o córtex cerebral, para unir mentais superiores. Por outro lado, sem e s s a
De tempos em tempos,
a imensidão da topografia neural. É nessa rede onda, a atividade elétrica se dissipa e a imagem
podemos encontrar u m a
passagem. Encontramos que o cientista começou a procurar pelo bloco apresentada não é percebida conscientemente. A
coisas estranhas, antigos de rascunhos mentais e explicações de como os informação deixa de entrar no espaço de trabalho
fonógrafos, imagens e
sinais que fluem através dessa teia de conexões global e por isso permanece subliminar.
livros que nos pertencem,
embora seja a primeira vez
são comunicados ao resto do cérebro.
que os encontramos" S e m p r e que um estímulo é percebido BEEP BEEP BOOP
E s s e m a r c a d o r eletrofisiológico da percepção
c o n s c i e n t e foi u s a d o por D e h a e n e e s e u s
colegas na tentativa de m a p e a r o m o m e n t o
e m que a c o n s c i ê n c i a surge pela primeira vez
e m crianças de 5 a 15 m e s e s e para elaborar
u m teste de c o n s c i ê n c i a para pacientes c o m
severas lesões cerebrais c o m os quais não é
possível e s t a b e l e c e r c o m u n i c a ç ã o fidedigna
por meio da fala, dos olhos ou dos gestos. O s
e x a m e s detectam a capacidade consciente de
captar u m novo estímulo. Por exemplo, imagine
que o telefone toca enquanto você lê u m livro.
Esse evento inesperado pode desencadear u m a
onda P300 e m m a s s a , facilmente perceptível.
No entanto, se você não atende o telefone que
continua a tocar, o potencial elétrico se torna
m a i s fraco até não poder m a i s ser encontrado.
E m laboratório, voluntários são submetidos
a u m a sequência de cinco t o n s s i m p l e s : beep
beep beep beep boop. O último s o m , o único
diferente, c a u s a e s t r a n h a m e n t o , gerando u m a

74 I mentecerebro I outubro 2014


L u z e s p a r a c o m p r e e n d e r o cérebro
A combinação de estudos sobre genética e óptica tem propiciado a compreensão, até . • 11
então inédita, de como funcionam e interagem os circuitos cerebrais. Essa aborda- • * * ;~
gem sofisticada permite o aprofundamento do que sabemos hoje sobre funciona- ^ %/ # * ê \
mento neural e, consequentemente, sobre a consciência. Tecnologias que pro- f r ^ • • • ** m 9 ^ | # (

duzem imagens do cérebro enquanto pensa, faz associações, toma decisões e lÁ * . *


acessa lembranças possibilitam a identificação de regiões específicas relaciona- *• 'K/ .•
das, por exemplo, à visão, à dor e à memória. Quando se trata de investigar os \U *
mecanismos da consciência, porém, é preciso algo muito mais refinado. * " *"* ^
Para auxiliar esse processo existe hoje u m a tecnologia impressionante: / m * *
a fusão de biologia molecular e estimulação óptica, denominada optogenética, .
desenvolvida c o m base e m algumas descobertas fundamentais feitas pelos biofísicos * *
alemães Peter H e g e m a n n , Ernst Bamberg e Georg Nagel. Eles pesquisavam c o m o fotorrecep- *
tores convertem diretamente (em vez de indiretamente, c o m o os de nossos olhos) a luz que *. ** I
chega à parte azul do espectro e m u m sinal elétrico e c o m o isso afeta o cérebro.
A ainda recente a "importação" da optogenética para pesquisas sobre consciência tem permitido testar
hipóteses específicas sobre as bases neurais. "Apostamos que u m a criteriosa combinação entre tecnologia
genética, proteína, estrutura virai, fibras ópticas, laser e microinstrumentação permitirá a exploração de no-
vas e estranhas teorias que completam a lacuna entre o cérebro objetivo e a mente subjetiva", afirma o neu-
rocientista Christof Koch, diretor científico do Instituto Allen de Ciências do Cérebro, em Seattle, professor de
biologia comportamental cognitiva do Instituto de Tecnologia da Califórnia e colaborador de Mente e Cérebro.

forte P300. D e p o i s que a série é repetida três à consciência? Q u e m e n s a g e m é enviada?


v e z e s , o cérebro se adapta ao timbre destoante S a b e m o s que h o r m ô n i o s t r a n s m i t i d o s pelo
e o indicador de consciência desaparece. sangue e produtos q u í m i c o s que regulam a ati-
E m s e g u i d a , o s pesquisadores d i s p a r a m vidade neural t a m b é m c o n d u z e m informações
a s e q u ê n c i a beep beep beep beep beep. A s s i m pelo corpo e pelo cérebro. N o e n t a n t o , ainda
que u m v o l u n t á r i o atento percebe consciente- não c o n h e c e m o s b e m esse processo. Por quê?
m e n t e a falta de u m s o m diferente, o cérebro D a d o s t r a n s m i t i d o s pela internet ou informa-
r e s p o n d e c o m u m a o n d a P300 no último beep ções que percorrem o s i s t e m a nervoso de u m a
porque foi c o n d i c i o n a d o a esperar u m boop. lombriga r e p r e s e n t a m atividade consciente?
E n s a i o s preliminares c o m os testes desen- Por enquanto, o modelo de espaço de trabalho
volvidos para p e s s o a s c o m lesões cerebrais global evita e s s a s q u e s t õ e s e s p i n h o s a s .
m o s t r a m resultados intrigantes. Pacientes e m N a década de 8 0 , q u a n d o o biólogo mole-
que as evidências c o m p o r t a m e n t a i s i n d i c a m cular e neurocientista Francis Crick e eu come-
nível m í n i m o de consciência m o s t r a m o padrão ç a m o s a trabalhar para tentar c o m p r e e n d e r a
de atividade P300 no E E G , enquanto aqueles atividade cerebral relacionada à v i s ã o e outros
em c o m a , que acreditamos não terem n e n h u m a p r o c e s s o s m e n t a i s , o e s c a s s o trabalho expe- iiiimiiiiimimiiiiiimimmmmmi
s e n s a ç ã o , n ã o . Experimentos e m a n d a m e n t o r i m e n t a l era d e d i c a d o a e s t u d o s e m p í r i c o s PARA SABER MAIS

exploram o m e s m o paradigma "estranho no sobre as características da c o n s c i ê n c i a . É fato Consciousness and the


brain: deciphering how the
ninho" c o m macacos e camundongo. que o trabalho de cientistas c o m o Dehaene e
brain c o d e s o u r t h o u g h t s .
P r o p o r q u e a q u i l o que e x p e r i m e n t a m o s C h a n g e u x t e m ajudado a m u d a r radicalmente Stanislas Dehaene. Viking
c o n s c i e n t e m e n t e pode ser definido c o m o a a s i t u a ç ã o , a m p l i a n d o i n f o r m a ç õ e s sobre o Adult, 2014.
Experimental and theoreti-
c a p a c i d a d e do cérebro de distribuir i n f o r m a - d i s p a r o de redes de c é l u l a s c e r e b r a i s , e s s e
cal approaches to conscious
ções do e s p a ç o de trabalho global para s u a s f e n ó m e n o tão m i s t e r i o s o . m < processing. S t a n i s l a s D e h a -
o u t r a s áreas s u s c i t a vários q u e s t i o n a m e n t o s . e n e e Jean-Pierre C h a n g e u x ,
e m Neuron, v o l . 7 0 , n° 2 ,
Por e x e m p l o , p o r q u e e de que m a n e i r a a Leia mais sobre esse tema no Especial Mente e p á g s . 2 0 0 - 2 2 7 ; 2 8 d e abril
t r a n s m i s s ã o de d a d o s d e s s a região dá origem Cérebro Consciência. de 2 0 1 1 .

75
Na opinião de alguns especialistas, no entanto, o método
da justiça restaurativa ( e m que réus e agredidos ficam face
a face) pode ajudar n e s s a s situações e mudar a trajetória
dos envolvidos, e m geral t r a u m á t i c a .
A maioria das vítimas que se dispõe a participar desse
processo frequentando grupos de discussão e tem acesso
ao depoimento dos criminosos depois de algum tempo sen-
tem que podem perdoá-los. O s infratores, por sua vez, ale-
gam sentir responsabilidade por suas ações. Dois estudos
recentes randomizados controlados reforçam o crescente
corpo de pesquisa sobre a eficácia desse tipo de abordagem.
A criminologista Caroline M. Angel e seus colegas, da
Universidade da Pensilvânia, a n a l i s a r a m os efeitos da jus-
tiça restaurativa para as v í t i m a s e os agressores em casos
de roubos e furtos e m Londres. P e s s o a s que passaram
por situação de violência f o r a m e n c a m i n h a d a s aleatoria-
| mente tanto para reuniões de justiça restaurativa apenas
| quanto para esse serviço e t a m b é m ao sistema judicial.
| Paralelamente, facilitadores treinados propuseram a infra-
§ tores que d i s c u t i s s e m sobre os efeitos do crime na vida
\ das vítimas e de seus familiares e a m i g o s . Aproximada-
2
mente 2 5 % das pessoas atendidas somente pelo sistema
de justiça criminal apresentaram s i n t o m a s clínicos de
estresse pós-traumático, m a s a p e n a s 1 2 % das pessoas do
outro grupo manifestaram e s s e s s i n a i s . " U m dos pontos
• EMPATIA
mais interessantes da justiça restaurativa é que permite às

A terapia d a vitimas ressignificar a própria vida e curar algumas feridas


ao longo desse processo", diz a pesquisadora.

justiça e d o O segundo estudo, c o o r d e n a d o pelos criminologistas


Lawrence S h e r m a n e Heather S t r a n g , da Universidade

perdão
de Cambridge, se propunha a avaliar se esses métodos
podem reduzir a reincidência. A p e s q u i s a , publicada e m
março na Journal of Quantitative Criminology, analisou
ENCONTRO ENTRE VÍTIMA E AGRESSOR PODE dez estudos que utilizaram controles randomizados para
TRAZER ALÍVIO PARA AMBOS investigar o efeito das reuniões de justiça restaurativa nos
infratores. O s cientistas c o n s t a t a r a m que os c r i m i n o s o s
E m muitos c a s o s , o s i s t e m a legal não consegue ajudar que participaram d e s s a s d i s c u s s õ e s c o m e t e r a m m e n o s
q u e m sofreu u m a ofensa n e m q u e m a praticou. A n o s crimes subsequentes.
depois de u m c r i m e , a p e s s o a que sofreu a agressão ain- A p e s a r do excelente custo-benefício, o uso dessa prá-
da pode sofrer de e s t r e s s e pós-traumático, e os ex-con- tica ainda é bastante restrito. D e f e n s o r e s da técnica acre-
denados m u i t a s v e z e s a p r e s e n t a m dificuldades depois ditam que a cultura de punição severa e a necessidade de
de sair da prisão. N ã o é novidade que u m a reabilitação políticos de s e r e m vistos c o m o rigorosos e m relação ao
ineficaz c o s t u m a significar o retorno à prática de delitos. c r i m e interferem na aceitação do m é t o d o .

7 6 I mentecerebro I outubro 2014


neurocircuito 2

• MATEMÁTICA

Equações, a r t e e música e v o c a m
a t i v i d a d e s i m i l a r n o cérebro
H á muito t e m p o aqueles que d o m i n a m a matemática c o m p a r a m os encantos d e s s a
área de conhecimento a obras de arte e a m u s i c a . Agora, pesquisadores da Inglaterra e
Escócia apontam que, apesar da natureza imaterial do raciocínio lógico e abstrato, seus
atrativos estão ligados à atividade da m e s m a região do cérebro responsável pelo pro-
cessamento de estímulos sensoriais que nos permitem reconhecer a beleza.
O neurocientista Semir Zeki, da Universidade College London, autor do estudo, e
seus colaboradores solicitaram a 15 matemáticos que visualizassem u m a série c o m 60
equações e, e m seguida, as avaliassem de acordo c o m u m a escala de -5 ( m a i s feia) a
5 (mais bonita). E m seguida, m a p e a r a m o cérebro dos voluntários utilizando a resso-
nância magnética funcional enquanto eles observavam novamente os exercícios. O s
resultados revelaram que compreender matemática foi necessário, m a s não suficiente,
para que os participantes enxergassem beleza nas equações - algumas f o r a m bem as-
similadas, m a s não consideradas graciosas por eles. Isso permitiu distinguir a atividade
cerebral associada à compreensão e chegar à área responsável pelo p r o c e s s a m e n t o da
beleza: o córtex órbito-frontal medial, u m a área relacionada à integração entre experi-
ência sensorial, emoções e t o m a d a de decisão. Estudos anteriores d e m o n s t r a m que a
região é altamente ativada quando apreciamos arte ou ouvimos m ú s i c a , por exemplo -
e as percebemos belas.
Esse é u m conceito complicado para a ciência devido à sua natureza subjetiva e pes-
soal. Semir Zeki sugere que enxergar formosura na matemática pode revelar u m a profun-
da ligação entre o cérebro e o mundo natural. "Ao longo da evolução, a possibilidade de
reconhecer a beleza e valorizá-la pode ter sido u m recurso importante para a sobrevivên-
cia neste planeta, já que tendemos a identificar o belo como indicador de verdade e até
de saúde", diz. " E não por acaso tantos matemáticos afirmam se esforçar para alcançar a
perfeição da m e s m a forma que u m pintor ou compositor." Para Zeki, essa aproximação
entre razão e emoção pode favorecer importantes descobertas: " N ã o faz mais sentido
relegar a beleza ao estudo da arte, deixando-a fora da ciência", acredita.
A . livro | r e s e n h a
O QUE O CÉREBRO
TEM PARA CONTAR.
V.S. Ramachandran.
Zahar, 2 0 1 4 . R$ 6 5 . 4 5 0 págs.

C o m a p a l a v r a , o cérebro
EM L I N G U A G E M A C E S S Í V E L , R A M A C H A N D R A N T R A T A D E T E M A S C O M O L I N G U A G E M ,
A U T I S M O , E S T É T I C A , P E R C E P Ç Ã O , T R A N S E X U A L I DA D E E S Í N D R O M E S RARAS

neurocientista indiano Vilaya- São atribuídas ao autor pode ser criada q u a n d o o vermelho e o
nur S. R a m a c h a n d r a n gosta de verde s ã o v i s t o s de f o r m a igualmente
desvendar m i s t é r i o s , de preferência
descobertas de vários brilhante. R a m a c h a n d r a n se tornou co-
s e m recorrer a r e c u r s o s t e c n o l ó g i c o s efeitos e ilusões, como nhecido t a m b é m por ter criado a caixa
sofisticados. M a s n ã o é n e n h u m tipo a que pode ser criada de e s p e l h o , u m e q u i p a m e n t o s i m p l e s ,
de enigma que f a s c i n a e s s e p e s q u i s a - c o n s t r u í d o c o m papelão, que permite
dor, já c h a m a d o de " M a r c o Polo da
quando o vermelho " e n g a n a r " o cérebro de pessoas que
n e u r o c i ê n c i a " por R i c h a r d Dawkins e o verde são vistos p e r d e r a m u m d o s m e m b r o s e, a s s i m ,
e de "o m o d e r n o P a u l B r o c a " por de forma igualmente eliminar a dor fantasma.
E r i c K a n d e l : ele s e i n t e r e s s a p e l o s
f e n ó m e n o s que o c o r r e m no cérebro
brilhante D u r a n t e u m q u a r t o de s é c u l o ,
R a m a c h a n d r a n t e m trabalhado c o m
h u m a n o - alguns deles t ã o e s t r a n h o s que parecem s a í d o s pacientes c o m condições mentais raras e deficiências causa-
de u m filme de ficção. Diretor do Centro do Cérebro e da das por lesões, acidente v a s c u l a r cerebral ou configurações
C o g n i ç ã o da U n i v e r s i d a d e d a Califórnia e m S a n Diego genéticas que, e m muitos c a s o s , p r o d u z e m sintomas pouco
e professor emérito d o D e p a r t a m e n t o de Psicologia na c o m u n s . Entre o s v o l u n t á r i o s de s u a s p e s q u i s a s e s t ã o , por
m e s m a instituição, ele t e m se d e d i c a d o a investigar o s exemplo, pessoas que " v e e m " a m ú s i c a enquanto a e s c u t a m
m e c a n i s m o s c e r e b r a i s n o i n t u i t o de c o m p r e e n d e r o s e s e n t e m o gosto d a s texturas que t o c a m c o m os d e d o s . H á
m a i s sofisticados p r o c e s s o s n e u r o l ó g i c o s . E m seu livro O aqueles c o n v i c t o s de que a própria perna ou braço não lhes
que o cérebro tem para contar, l a n ç a d o pela Zahar, o autor pertence e desejam que o m e m b r o saudável seja a m p u t a d o
apresenta não a p e n a s c a s o s c u r i o s o s e c o n t r o v e r s o s , m a s e t a m b é m pacientes que t ê m a i m p r e s s ã o de sair do próprio
c o n v i d a o leitor a u m a e s p é c i e de v i a g e m pelo instigante corpo e enxergá-lo de c i m a .
(e ainda d e s c o n h e c i d o ) u n i v e r s o que reside na cabeça de São abordadas ainda síndromes menos conhecidas,
cada u m de n ó s . c o m o a de C o t a r d ( n a qual a p e s s o a a c r e d i t a que n ã o
Ele s e d e t é m , p o r e x e m p l o , na f o r m a c o m o o q u e existe) e a de Fregoli ( n a qual t o d a s a s p e s s o a s que o
n o s s o s olhos c a p t a m m u i t a s v e z e s " e n g a n a " o cérebro. paciente encontra se parecem c o m u m a única pessoa
O interesse é resultado de s u a s primeiras pesquisas que ele c o n h e c e ) . O q u e p o d e p a r e c e r c u r i o s o ou u m a
sobre a percepção v i s u a l . N ã o por a c a s o s ã o atribuídas e s p é c i e de d o m , na o p i n i ã o de a l g u n s , para R a m a c h a n -
a ele d e s c o b e r t a s de v á r i o s efeitos e i l u s õ e s , c o m o a que d r a n é m a t e r i a l de e s t u d o . O n e u r o c i e n t i s t a trata ainda

7 8 I mentecerebro I outubro 2014


de t e m a s c o m o n e u r ô n i o - e s p e l h o , l i n g u a g e m , a u t i s m o , m e i o c i e n t í f i c o , se d e v e , pelo m e n o s e m p a r t e , ao fato de
e s t é t i c a , p e r c e p ç ã o e t r a n s e x u a l i d a d e , s e m p r e do ponto ser " p r e g u i ç o s o " . " Q u a n d o digo que prefiro c o t o n e t e s e
de v i s t a n e u r o l ó g i c o . e s p e l h o s a a p a r e l h o s de i m a g i o l o g i a c e r e b r a l , n ã o q u e r o
O a u t o r t a m b é m faz a l u s ã o a S h e r l o c k H o l m e s , o m a i s dar a i m p r e s s ã o de que evito a t e c n o l o g i a por c o m p l e t o .
f a m o s o d o s d e t e t i v e s , ao e x p l i c a r o m é t o d o " p e s s o a l " D e f e n d o a ideia de que a c i ê n c i a d e v e r i a ser i m p e l i d a por
que e m b a s a s u a a b o r d a g e m m u l t i d i s c i p l i n a r . Ele se diz q u e s t õ e s , não por m e t o d o l o g i a . "
i m p e l i d o pela c u r i o s i d a d e e por u m a p e r g u n t a i n c e s s a n - A p e s a r de recentemente R a m a c h a n d r a n ter sido criti-
te: " E s e . . . ? " . E m b o r a seu i n t e r e s s e atual seja m e s m o a c a d o nos E s t a d o s U n i d o s por fazer " n e u r o c i ê n c i a p o p " ,
n e u r o l o g i a , s e u c a s o de a m o r c o m a c i ê n c i a r e m o n t a à r e d u z i n d o t e m a s c o m p l e x o s a explicações a m p l a s e v a g a s ,
g i n f â n c i a v i v i d a e m C h e n n a i , na í n d i a . " E n c a n t a v a - m e a para leitores não especializados e m c i ê n c i a , O que o cérebro
o
tem para contar c u m p r e a função de apresentar informações
| ideia de q u e t o d o o u n i v e r s o se baseia e m interações s i m -
de f o r m a c l a r a , s e m profusão de t e r m o s t é c n i c o s , e, c o m
| . pies entre e l e m e n t o s n u m a lista f i n i t a " , c o n t a . E m relação
c e r t e z a , afasta a ideia de que a s s u n t o s ligados à neuroci-
f ao e s t u d o d o c é r e b r o , r e c o n h e c e que s u a p r e f e r ê n c i a por
ência são n e c e s s a r i a m e n t e e n f a d o n h o s ou i n a c e s s í v e i s .
s m é t o d o s de baixa t e c n o l o g i a , a m p l a m e n t e c o n h e c i d a no
79
livros | lançamentos
PSICANÁLISE

B a l i n t e a regressão
Interessado em psicanálise, o médico húngaro Michael Balint procurou Sandor
Ferenczi para fazer análise. Ao longo do processo, os dois se tornaram amigos e
Balint iniciou com ele sua formação em psicanálise. Consultor de uma clínica psi-
quiátrica, desenvolveu uma prática conhecida como Balint groups, nos quais reunia
colegas da medicina para discutir suas experiências clínicas, com foco na relação
médico -paciente, incentivando os colegas a examinar as próprias emoções a res-
A falha básica:
peito dos pacientes. Na psicanálise, concentrou seus estudos nas relações objetais aspectos terapêuticos
A Falda Básica
(com o outro, tudo o que está fora). Sua mais importante obra é A falha básica, da regressão.
que ganha sua segunda edição no Brasil. No texto, Balint propõe conceitos sobre a Michael Balint.
2 edição estruturação psíquica nos primeiros anos de vida e trata da relação entre analista e Zagodoni, 2014.
a

analisando. O autor argumenta a favor do analista acolhedor, interessado em con- 192 págs. R$ 55,00.
duzir a análise de forma a reparar as falhas do objeto primário.

PSICOLOGIA SOCIAL
DA COMIDA

ESTJIESSE
POS-TRAUMATICO

0
® í

PSICOTERAPIA BIOGRAFIA NEUROEDUCAÇÃO PSICOLOGIA SOCIAL

Superação d o t r a u m a Criador d o psicodrama Música e Comida e


A vivência de evento exces- Primeiro a estudar os efeitos da aprendizagem cultura
sivamente doloroso pode se terapia em grupo, Jacob Levy Estudos associam o contato Psicologia social da comida ex-
expressar por um conjunto de Moreno escreveu sobre suas com a música a melhoras nas plora as relações entre cultu-
sintomas físicos e psíquicos, memórias em textos dispersos. habilidades de memória e de ra e alimentação. A psicóloga
indicando transtorno de es- Seu filho, Jonathan Moreno, percepção. Em Música, mente Denise Amon analisa como
tresse pós-traumático, distúr- compilou-as no livro Autobio- e educação, o educador musical os alimentos cotidianos e as
bio marcado pela lembrança grafia, que ganha sua segunda Keith Swanwick busca escla- práticas relacionadas - tais
do trauma e acompanhado de edição no Brasil. A obra remon- recer a importância das artes como busca de ingredientes,
sensações físicas de extrema ta ao período em que Moreno no desenvolvimento mental. formas de preparo, decora-
ansiedade. Tratamento cogni- cursou medicina na Áustria, Baseado no trabalho de Jean ção, oferecimento, consumo
tiuo-comportamental do estresse quando começou a formular Piaget, importante referência da e descarte - refletem valores,
pós-traumático mostra como suas ideias. Os escritos eviden- psicologia do desenvolvimento, hábitos e estilos de vida. Con-
funciona a terapia cognitivo- ciam a resistência da comuni- o autor explora dimensões psi- siderando o comer como um
comportamental direcionada dade científica em aceitar suas cológicas e sociológicas da ex- fenómeno multidimensional,
para o TEPT, como o questio- teorias nos Estados Unidos, periência musical, investigando a autora mostra como grupos
namento de crenças associa- em contraste com um curioso suas relações com mecanismos sociais constroem regras que
das às memórias negativas. sucesso na Europa, que atinge da aprendizagem escolar. O os definem como comunida-
o ápice com a fundação da As- autor enfatiza, principalmente, des através da alimentação.
sociação Internacional da Psi- a necessidade de repensar os
Tratamento cognitivo-
coterapia em Grupo. atuais métodos de ensino.
comportamental do
estresse pós-traumático.
Psicologia social o
Maria Emília M. de
Autobiografia. Música, mente e educação. da comida. <
C a m a r g o e M a r i s a Fortes.
Jacob Levy M o r e n o . Keith S w a n w i c k . Denise A m o n . ^
Zagodoni, 2014.
Agora, 2014. Autêntica, 2014. Vozes, 2014. £
80 págs. R $ 3 1 , 0 0 .
184 págs. R $ 5 3 , 1 0 . 208 págs. R$ 4 3 , 0 0 . 232 p á g s . R$ 3 6 , 0 0 . §

8 0 I mentecerebro I outubro 2014


FILOSOFIA

Relações m o d e r n a s
"Um texto que se pretende ético deve ser como uma porta que se abre,
e não como uma resposta pronta", escreve a filósofa Márcia Tiburi
na introdução de Filosofia prática, obra que convida o leitor a refletir
sobre o que é ética e como ela emerge em um mundo marcado pelas
relações virtuais, no qual, por meio principalmente das redes sociais,
somos ao mesmo tempo anónimos e estamos em evidência. A pri-
meira parte, "Como me torno quem sou?", discute a importância de
problematizar a vida em vez de passivamente evitar dilemas insepará- Filosofia prática.
veis da condição humana. Na segunda parte, "O que estamos fazendo Márcia Tiburi.
uns com os outros", a autora reflete sobre a dificuldade de viver em Record, 2014.

sociedade e sobre a complexidade das relações. Por fim, em "Como 320 págs. R$ 35,00.

viver junto?", trata do cotidiano e da dificuldade de convivência.

Ca
LÚ dica
A menina e o urso
Há quem diga que amigos costumam nos ver um pouqui- tar nesse lugar: a troca é gratificante e nos sentirmos aceitos,
nho melhor do que somos de fato. Concordo. Por outro lado, úteis e queridos aquece a alma, independentemente de quanto
quando gostamos de alguém, tendemos a ir um tanto além de frio faça do lado de fora. Além disso, costuma ser difícil dizer
nossas forças para estar ao lado de quem nos pede atenção, não (ainda que o pedido seja implícito), especialmente para
às vezes sem sequer perceber os limites que ultrapassamos. aqueles que ocupam lugar especial em nossas vidas. Por isso,
Algumas concessões são até boas de fazer, já que nos trazem muitas vezes, é bem-vindo quando quem está ao nosso lado
o prazer imenso de ver a sensação de reconforto ou o sorriso percebe que chegou a hora de nos afastarmos, pelo menos um
estampados nos olhos daqueles que amamos. Às vezes, po- pouco, para cuidar de nós mesmos.
rém, ultrapassamos limites perigosos que estão ali para nos Foi o que aconteceu com Lia e seu melhor amigo em O urso
proteger de algum excesso com o qual pode ser doloroso lidar. e a árvore, escrito e ilustrado por Stephen Michael King, recen-
E não fazemos isso apenas porque somos criaturas adoráveis temente lançado pela Brinque-Book. Na história, a menina se
e queremos o bem do outro (isso também, em muitos casos, entristece quando sua árvore preferida perde as folhas. Quan-
mas não só). Cedemos principalmente porque há gozo de es- do a vê chorando, o urso - que já se preparava para sua longa
soneca de inverno - deixa de lado a tarefa de reunir folhas para
forrar sua cama, se esquece do sono e, embora soubesse que
precisava descansar, prefere sentar-se ao lado de Lia e dividir
seu guarda-chuva com ela. E, em vez de dizer adeus, aninha
a garotinha em suas costas macias. Aquecida, Lia se esque-
ce das lágrimas. Os dois então brincam, desenham, dançam
e enfeitam a árvore nua - motivo de tanta amargura - com
as folhas coloridas que o urso guardara. As horas se passam.
Anoitece, amanhece. Exausto, o animal boceja, mal consegue
manter os olhos abertos. Lia já não chora e sabe que seu urso
querido precisa fechar os olhos, voltar-se para si, aconchegar-
-se, dormir. E talvez reencontrá-la em sonhos. (Gláucia Leal)

O urso e a árvore. Stephen Mi-


chael King. Brinque-Book, 2014.
36 págs. R$ 30,50.
"V" l i m i a r neurociencias

E n q u a n t o a casa cai
SIDARTA RIBEIRO
A ESTA ALTURA DO CAM PEON ATO, REDEFINIR NOSSA RELAÇÃO
PREDATÓRIA COM A T E R R A VAI SAIR BEM CARO. NOSSOS HÁBITOS VÃO
TER Q U E MUDAR, MAS POSTERGAR ESSA ADAPTAÇÃO SERÁ AINDA PIOR

E m aula m a g n a na U n i v e r s i d a d e Federal
do Rio G r a n d e d o N o r t e , u m d
após o primeiro debate presidencial,
v a s t í s s i m a f a u n a e flora e u m a população
ainda administrável se c o m p a r a d a à da
C h i n a , país que melhor ilustra a relação
Leonardo Boff fez u m d i a g n ó s t i c o tóxica entre crescimento económico
preocupante: n e n h u m dos can- e crise ecológica. M a s parece que
didatos havia dito c o m clareza a não d e s c a n s a r e m o s enquanto não
coisa mais importante de t o d a s , virarmos a C h i n a latina.
que é o fato de v i v e r m o s uma D e s m a i a m o s mananciais, não
emergência ecológica e social reciclamos lixo, vertemos esgoto
s e m precedentes, a exigir n o s s a nos rios e adoramos embalagens.
atenção imediata. O a u m e n t o da Q u e r e m o s crescer mais e mais. Pre-
temperatura média da Terra, as ocupações ecológicas são tidas como
grandes variações c l i m á t i c a s a s s o - frescura n u m país c o m excesso de car-
ciadas a esse a u m e n t o , a desorgani- ros e péssima mobilidade pública. País
zação da agricultura e a possibilidade e m que as grandes construtoras financiam
que falte água até para beber deveriam tirar as campanhas dos principais candidatos e ci-
n o s s o sono - m a s não t i r a m . E n q u a n t o o desastre mentam tudo que podem. País engajado em construir
não se instala c o m p l e t a m e n t e , f i n g i m o s ser possível exter- hidrelétricas na A m a z ó n i a , cuja energia alimentará as novas
nalizar todos os prejuízos s e m pagar preço algum por isso. cidades de faroeste e m torno das obras, se dissipará em linhas
Civilização equilibrada a p e n a s pela velocidade, s e m har- de transmissão de dimensões continentais e fomentará mais
monia nem sustentação, bicicleta desgovernada em direção indústrias de exportação de matérias-primas para o banquete
ao m u r o . Na África, o descontrole da epidemia de ebola, do mundo. S o m o s o Império do Sol que investe migalhas na
ainda s e m remédios por desinteresse das farmacêuticas. pesquisa de painéis fotovoltaicos, m a s atrela a educação e a
Nos E U A , a dificuldade de conter a d i s s e m i n a ç ã o hospitalar saúde de seu povo ao petróleo altamente poluente.
das superbactérias selecionadas pelo uso excessivo de anti- A p r e o c u p a ç ã o c o m a grande e m e r g ê n c i a a m b i e n t a l
bióticos. Guerra, f o m e e peste s e m p r e m u d a r a m as páginas c o s t u m a ser tachada de apocalíptica ou d e s c a s o c o m os
da história. Povos d e s a p a r e c e m rápido, e o holocausto dos m a i s pobres. A f i n a l , todos t ê m direito ao livre c o n s u m o
índios será luta de morte até o f i m . E depois deles os demais? capitalista, certo? Errado. Se acelerar a independência do
Enquanto a casa cai, nos distraímos c o m banalidades. petróleo é e s s e n c i a l , reduzir o c o n s u m o inútil é vital. A esta
C a n d i d a t @ s se estapeiam e disputam q u e m tem mais rabos altura do c a m p e o n a t o , redefinir n o s s a relação predatória
presos. Imersos e m jogos de poder e dinheiro, enredados e m c o m a Terra vai sair bem caro. N o s s o s hábitos vão ter que
disputas tribais, siderados pela discussão do comportamento mudar, m a s postergar e s s a adaptação será ainda pior. O u
alheio, passivamente v e m o s Gaia adoecer de nossa própria m u d a m o s ou nos a c a b a m o s . O resto é distração. m c

existência. E m n o s s o país há pouca percepção do t a m a n h o


do problema e da responsabilidade que nos cabe. A s próxi-
SIDARTA RIBEIRO, neurobiólogo, diretor do Instituto do Cérebro
mas gerações de terráqueos precisam desesperadamente da da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e
liderança ambiental do Brasil. T e m o s u m i m e n s o território, professor titular da UFRN.

82 I mentecerebro I outubro 2014


A cada página que você lê
% surgem novas conexões
no seu cérebro.

Mente e C é r e b r o a b o r d a , c o m o nenhuma
outra r e v i s t a , tudo o que v o c ê s e m p r e
quis s a b e r s o b r e p s i c o l o g i a , p s i q u i a t r i a mente yi
cérebro
psicanálise, n e u r o c i ê n c i a s e conhecimento

Leia e f a ç a s u a m e n t e s e e x p a n d i r a i n d a m a i s .

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