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HISTÓRIA

MANUAL DO PROFESSOR
ENSINO FUNDAMENTAL • ANOS FINAIS
1

CADERNO
R
O
SS
FE
O
PR
O
LD
UA
AN
M

História
Ana Paula Barroso
Eliza Reymão Bessa de Oliveira
Guilherme Gabriel dos Santos Bomfim
Anice Afonso

Fernanda Scherer Neves da Rocha


Rafaela Mateus Antunes dos Santos Freiberger
Manuel Augusto Salgado Pimenta
Rafael Vieira da Cal
Roberta Lemos de Souza
Direção presidência: Mario Ghio Júnior
Direção de conteúdo e operações: Wilson Troque
Direção executiva de integração: Claudio Falcão
Direção editorial: Lidiane Vivaldini Olo
Gerência editorial: Flávio Matuguma
Gerência pedagógica: Aparecida Costa de Almeida
Coordenação pedagógica: Gabriela Wasconcellos Rodrigues
Coordenação pedagógica e gestão de projeto: Fabrício Cortezi de Abreu Moura
Coordenação de área: Adriana Gabriel Cerello
Edição: Aline dos Reis Neves, Carolina Ocampos Alves
e Vanessa dos Ouros
Planejamento e controle de produção: Patrícia Brando Nogueira Borges (ger.),
Juliana Batista (coord.), Vivian Mendes Moreira e Daniel Santanna Ferreira (analistas)
Revisão: Hélia de Jesus Gonsaga (ger.), Letícia Pieroni (coord.),
Aline Cristina Vieira, Ana Curci, Anna Clara Razvickas, Carla Bertinato,
Cesar G. Sacramento, Danielle Modesto, Lilian M. Kumai, Maura Loria,
Paula Rubia Baltazar, Raquel A. Taveira, Rita de Cássia C. Queiroz,
Shirley Figueiredo Ayres, Tayra Alfonso e Thaise Rodrigues;
Amanda T. Silva e Bárbara de M. Genereze (estagiárias)
Arte: André Vitale (gestão), Catherine Saori Ishihara (coord.),
Renato Neves e Nicola Loi (edição de arte) Meyre Diniz Schwab e
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Denise Durand Kremer (coord.), Iron Mantovanello (pesquisa iconográfica),
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

PH : 9º ano : ensino fundamental, anos finais : caderno


1 : História : manual do professor / Fernanda Scherer Neves
da Rocha...[et al]. –- 2. ed. -- São Paulo : SOMOS Sistemas
de Ensino, 2020.
168 p.

Outros autores: Manuel Augusto Salgado Pimenta, Rafael


Vieira da Cal, Rafaela Mateus Antunes dos Santos
Freiberger, Roberta Lemos de Souza
ISBN: 978-85-468-2054-2

1. História (Ensino fundamental) I. Rocha, Fernanda Scherer


Neves da

19-2383 CDD 372.89

Angélica Ilacqua CRB-8/7057

2020
Código da obra 659198
2a edição
1a impressão
De acordo com a BNCC.

Impressão e acabamento

Uma publicação

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APRESENTA‚ÌO

A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pes-
soal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século
XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação
orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar
o que os outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca no fim do segundo milênio. Por esse
mesmo motivo, porém, eles têm de ser mais que simples cronistas, memorialistas e compiladores.
HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos: o breve século XX. 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 13.

O estudo da disciplina de História costuma ser bastante interessante para os alunos do 9º ano, pois
o conteúdo abordado trata dos eventos e dos personagens do século XX, e eles, em geral, aproveitam
bastante a oportunidade de estudar eventos históricos sobre tempos recentes. Isso ocorre, entre ou-
tros fatores, pela quantidade de fontes e documentos históricos disponíveis, como músicas, entrevis-
tas, fotografias, filmes e outros instrumentos que permitem maior aproximação dos estudantes com o
objeto de estudo. Essa experiência torna a aprendizagem estimulante e possibilita aos alunos visualizar
com mais facilidade o sentido da História. Espera-se que ao final do Ensino Fundamental – Anos Finais
os alunos sejam capazes de utilizar as habilidades desenvolvidas ao longo de todo o Ensino Funda-
mental para analisar, pesquisar, relacionar, trabalhar com fontes e aprofundar seus conhecimentos na
disciplina de História.
No 9º ano, a alternância entre o estudo de História Geral e História do Brasil torna-se interessante
na medida em que é possível comparar e conectar diferentes eventos históricos para perceber de que
forma o Brasil estabeleceu relações com o mundo em determinado período. Desse modo, reforçamos
um importante elemento trabalhado ao longo dos outros anos: a simultaneidade histórica.
A história do século XX apresenta um conteúdo bastante extenso em razão da quantidade de
informações, transformações e fontes que nos permitem conhecer muito sobre o período. Por isso,
assim como nos anos anteriores, foi necessário estabelecer recortes para que os alunos consigam
aproveitar o conhecimento da melhor forma possível.
De acordo com os elementos apontados pela nova Base Nacional Comum Curricular, procura-
mos realizar nos conteúdos apresentados análises e pontos de vista de diferentes grupos sociais.
Além disso, buscamos abordar questões referentes às relações entre Estado e sociedade, às formas
como a cultura se associa às construções e às identidades sociais, às questões de gênero, aos limi-
tes do liberalismo e da democracia, entre outros assuntos que são fundamentais para a compreen-
são da dinâmica das relações humanas.
O estudo referente à História do Brasil será iniciado com a análise da construção da República
Oligárquica e se estenderá até o governo Lula. Já o conteúdo que se refere à História Geral terá
início no período entreguerras, uma vez que o conteúdo sobre a Primeira Guerra Mundial está
presente no livro do 8º ano.

3
Os primeiros módulos são referentes à República Oligárquica e a como foi realizada a estrutura-
ção desse modelo de governo e sociedade. Os alunos perceberão que esse período foi permeado
de rupturas e continuidades em relação ao Segundo Reinado. Esses são elementos extremamente
importantes para a observação de consequências bastante evidentes até os dias atuais, como a
marginalização de determinados grupos sociais e a importância da cultura de resistência, que se
tornou um elemento identitário até os dias de hoje. A construção da Política dos Governadores, a
compra de votos, o voto de cabresto, entre outros conteúdos relacionados a esse período da Repú-
blica, nos permitem refletir com os alunos sobre as práticas políticas atuais e a marginalização de
uma significativa parcela da sociedade no que diz respeito ao exercício da cidadania.
Buscamos destacar a importância da participação popular em eventos contrários ao modelo
de Estado que fora imposto. É fundamental que, ao longo dos estudos, os alunos relacionem a
ausência do Estado ao abuso de poder por parte de coronéis, proprietários de terras, burgueses e
políticos frente aos movimentos sociais que apresentavam reações a um modelo que não atendia
às necessidades da maioria da população.
Estabeleceremos um panorama geral da República Oligárquica e destacaremos os elementos
que levaram à crise desse modelo, o que possibilitou a Getúlio Vargas assumir o poder em 1930.
O primeiro contato que os alunos terão com a História Geral será por meio da Revolução Rus-
sa. Nesse módulo eles vão conhecer as principais características da Rússia pré-revolucionária e os
eventos que impulsionaram os levantes de 1917. É fundamental que eles percebam a importância
histórica da Revolução Russa, uma vez que ela foi extremamente relevante nas relações geopolíti-
cas do século XX. Esse episódio acelerou a crise do sistema liberal e, mais à frente, será um impor-
tante elemento para que os alunos compreendam os eventos da Guerra Fria.
Outro tema referente ao período entreguerras são os anos 1920 e 1930 nos Estados Unidos. Estu-
daremos os elementos que possibilitaram a emergência daquele país no período pós-Primeira Guerra,
como a prosperidade econômica, as transformações culturais e sociais e o american way of life. A
partir dos limites desse modelo e da marginalização de uma significativa parcela da sociedade, os alu-
nos poderão compreender os fatores que levaram à crise econômica, à falência do sistema liberal e à
emergência de novas propostas de solução para a crise estrutural que se apresentava.
A abordagem do tema referente à crise do modelo liberal nos leva a apresentar aos alunos
os fatores que promoveram a emergência dos fascismos europeus, suas principais características,
seus objetivos e suas particularidades. Os estudos de caso a serem analisados serão o fascismo
italiano e o nazismo alemão.
Com base nos conhecimentos desenvolvidos sobre o período entreguerras, os alunos terão
condições de compreender as razões que levaram à Segunda Guerra Mundial e poderão compreen-
der suas estreitas relações com a Primeira Guerra de 1914. Temáticas como xenofobia, intolerância,
racismo, desrespeito aos direitos humanos, entre outras são bastante trabalhadas e podemos per-
ceber que muitas dessas práticas se fazem presentes nos dias atuais, o que pode ser um importante
norteador para abordar esses assuntos com os alunos.
Após estudar o período entreguerras com uma abordagem internacional, vamos compreender
o que ocorreu no Brasil nesse contexto. Trabalharemos o conteúdo a partir da implementação do
Estado Novo e de seus desdobramentos, como os esforços para a construção de uma identidade
nacional e de uma suposta democracia racial, a construção do trabalhismo e a postura mais inter-
vencionista do Estado nas questões econômicas. Cabe ainda discutir os limites da democracia e do
autoritarismo e promover reflexões sobre as restrições ao exercício da cidadania ao longo da Era
Vargas. Por fim, retomamos o assunto referente à Segunda Guerra Mundial, de modo a explicar de
que forma o Brasil atuou nesse conflito.

4
O conteúdo referente ao período que engloba a Guerra Fria no cenário internacional será tra-
balhado ao longo de quatro módulos, de forma que possamos apresentar aos alunos as diferentes
influências que esse evento exerceu no mundo. Após estudarem as definições, os conceitos básicos
e a dinâmica das relações entre os Estados, eles poderão se debruçar sobre os movimentos políticos
e culturais que ocorreram nesse período. Temas como a Revolução Cubana, a Revolução Chinesa e
os movimentos culturais dos anos de 1960 possibilitarão que os alunos tenham uma dimensão mais
global do contexto. Além desses aspectos, buscamos destacar de que forma essa nova ordem geopo-
lítica impactou as lutas de libertação na África e na Ásia e repercutiu na implementação de regimes
autoritários na América Latina, na maioria das vezes respaldados pelo discurso anticomunista.
É fundamental que retomemos a ideia de simultaneidade da história para que consigamos tra-
balhar com os alunos o que estava ocorrendo no Brasil no período pós-Segunda Guerra Mundial.
Iniciaremos com o processo de redemocratização ao final do Estado Novo e os novos dilemas
que se apresentaram à sociedade, como as crises econômicas, os limites do trabalhismo, o temor
de uma ameaça comunista, a fragilidade da democracia, as dificuldades de manter o nacionalismo
econômico ao longo da Guerra Fria, entre outros.
Ao longo da República Democrática abordaremos as principais características e desafios dos
presidentes que governaram o Brasil nesse período. Há um módulo sobre Dutra e Vargas, sobre
o governo de Juscelino Kubitscheck e outros sobre os governos de Jânio Quadros e João Goulart.
Com o intuito de trabalhar o Golpe de 1964, desenvolvemos um panorama dos desafios en-
contrados nos anos finais do governo Goulart e estabelecemos os cenários externos e internos
que levaram à intervenção militar respaldada pelo apoio de grande parcela da população, o que
ocasionou o fim da República Democrática.
Os módulos seguintes abordam a instauração do regime ditatorial no Brasil, sua relação com
o contexto externo e as próprias dinâmicas internas. Destacamos ao longo de três módulos os go-
vernos que envolveram esse período, suas principais características, suas ideologias, suas contradi-
ções, seus endurecimentos e suas flexibilizações até o período da abertura política.
Para além da abordagem política, pensamos ser necessária a apresentação do cenário cultural bra-
sileiro entre os anos 1950 e 1970 com o intuito de trabalhar diferentes aspectos do estudo de História.
O módulo que apresenta o processo de redemocratização trabalha a década de 1980 e analisa
os governos Figueiredo e Sarney. Buscamos destacar os avanços, os desafios e os dilemas desse
processo de transição. Há um destaque para a Constituição de 1988, e a partir dela conseguimos
realizar importantes debates e reflexões com os alunos.
O processo de redemocratização ocorreu ao longo da desconstrução do mundo bipolar da Guerra
Fria e da construção de uma Nova Ordem Mundial geopolítica e econômica a partir de um mundo mul-
tipolar. Esse assunto é trabalhado no penúltimo módulo. Dessa forma, conseguimos estabelecer um pa-
norama da década de 1980, que foi extremamente importante para a estruturação da geopolítica atual.
Por fim, o último módulo apresenta as características da Nova República e analisa os governos
Collor, Fernando Henrique Cardoso e Lula. Nesse módulo são apontados os principais desafios políti-
cos, econômicos e sociais do período, assim como uma reflexão sobre os impactos sociais ocasiona-
dos pelos diferentes governos. É válido destacar a importância dos movimentos sociais dos anos 1990
e 2000. Analisaremos o funcionamento das instituições democráticas da Nova República e, poste-
riormente, a importância dos meios de comunicação na construção de uma sociedade democrática.
Dessa forma, encerramos o ciclo do Ensino Fundamental – Anos Finais, de modo que os alunos
tenham, ao longo desses quatro anos, refletido sobre a importância e os desdobramentos dos di-
ferentes processos históricos. Buscamos desenvolver variadas habilidades que permitam que eles
sejam capazes de trilhar um importante caminho para a conquista da autonomia e para que se
reconheçam como sujeitos históricos.

5
SUMÁRIO

1 República Oligárquica: estruturas políticas, econômicas e culturais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7

2 República Oligárquica: movimentos sociais no campo e na cidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

3 A crise da República Oligárquica. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16

4 Revolução Russa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23

5 A Europa e os Estados Unidos nos anos 1920 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29

6 A crise de 1929 e seus desdobramentos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36

7 Os processos de consolidação política do fascismo e do nazismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44


SUMÁRIO
HISTÓRIA

6
LO
DU
Ó
República Oligárquica:
M

1 estruturas políticas,
econômicas e culturais
OBJETOS DO CONHECIMENTO

> Experiências republicanas e práticas autoritárias: as tensões e disputas do mundo contemporâneo.


> A Proclamação da República e seus primeiros desdobramentos.
> A questão da inserção dos negros no período republicano do pós-abolição.
> Os movimentos sociais e a imprensa negra; a cultura afro-brasileira como elemento de resistência e superação
das discriminações.

HABILIDADES

> (EF09HI01) Descrever e contextualizar os principais aspectos sociais, culturais, econômicos e políticos da emer-
gência da República no Brasil.
> (EF09HI02) Caracterizar e compreender os ciclos da história republicana, identificando particularidades da
história local e regional até 1954.
> Compreender a influência política e econômica das oligarquias cafeicultoras no Brasil.
> (EF09HI03) Identificar os mecanismos de inserção dos negros na sociedade brasileira pós-abolição e avaliar os
seus resultados.
> (EF09HI04) Discutir a importância da participação da população negra na formação econômica, política e social
do Brasil.

I O módulo também aborda os traços da cultura e


INTRODU‚ÌO
das manifestações artísticas na Primeira República. Para
Este módulo trabalha os primeiros momentos da Repú- isso, convide os alunos a refletir sobre a produção artís-
blica no Brasil. Portanto, caso seja necessário, retome alguns tico-cultural no Brasil até os dias atuais. É importante
conteúdos do 8º ano, como a Proclamação da República. destacar, entre outros aspectos, a resistência dos ele-
mentos da cultura afro-brasileira diante de uma tentati-
A seção Para relembrar destaca aspectos importantes va de branqueamento racial e cultural naquele contexto
do início da República, como a manutenção das estrutu- histórico.
ras políticas, econômicas e sociais tradicionais, a perma-
nência do modelo agroexportador, a participação política
AULA 1
MÓDULO 1

de uma minoria da população, a concentração fundiária


e as desigualdades. Além disso, a nova Constituição trazia Comece a aula retomando as principais caracterís-
características favoráveis ao poder das oligarquias e, ao ticas do início da República e introduza o assunto da
HISTÓRIA

mesmo tempo, o país carregava a herança de mais de três República Oligárquica abordando a questão do modelo
séculos de escravidão. federalista e da descentralização do poder. Esse pode

7
ser o ponto de partida para falar do papel das oligar- SUGESTÃO DE QUADRO
quias e dos seus interesses, explicando uma a uma as
práticas adotadas por esses grupos naquela ocasião.
Chame a atenção para essas práticas, como ameaças
de violência em meio a processos eleitorais, troca de
PRIMEIRA REPÚBLICA
favores, entre outras.
(1889-1930 – CONTINUAÇÃO)
Com base nessas informações, estabeleça um de-
bate com os alunos sobre essas questões e sobre as REPÚBLICA OLIGÁRQUICA (1894-1930):
mudanças e permanências da época em comparação Estruturas políticas
com os dias atuais. ➜ Coronelismo

• Voto de cabresto
AULA 2 • Troca de favores
• Fraudes
Para o início desta aula, introduza as questões eco- ➜ Política dos Estados (ou Política dos Governadores)
nômicas relacionadas ao período, como a adoção do • Grande aliança das oligarquias baseada na
Funding Loan e a decadência do preço do café no mer- troca de favores em todas as esferas de poder
cado internacional em fins do século XIX. • A União garante as verbas para as elites locais

Depois, analise com os alunos a relação de interes- e estaduais e se mantém neutra nas disputas po-
líticas
ses econômicos e políticos: as oligarquias cafeeiras con-
• As elites locais e estaduais garantem o contro-
trolavam o Brasil porque eram a elite econômica e, ao
le das eleições e o apoio no Congresso Nacional
mesmo tempo, mantinham-se como tal porque contro- ➜ Política do Café com Leite
lavam o Estado. Em outras palavras, a força do café alçou
• Aliança entre São Paulo e Minas Gerais que
as elites cafeeiras ao poder político e, uma vez no poder, garantia o controle político nacional
essas elites garantiram seus interesses econômicos, com ➜ Funding Loan
a adoção do Convênio de Taubaté. • Acordo com os credores internacionais
Ao final da aula, peça a leitura do item “Expressões da • Novo empréstimo
cultura brasileira na Primeira República” do Caderno do • Corte de gastos e aumento de impostos

Aluno, tema que será debatido na próxima aula. • Retirada de papel-moeda de circulação
• Garantia do controle da inflação, mas motivo da

AULA 3 ampliação do desemprego e das desigualdades e


falências
No início da aula, retome algumas características da ➜ Convênio de Taubaté (1906)
República Oligárquica e relacione-as com as expressões • Política de valorização do café
culturais populares do período. Considerando a leitura fei- • Compra e estocagem do excedente de produção
ta pelos alunos no final da aula anterior, promova um deba- para estabilizar os preços no mercado internacional
te sobre os pontos que a classe considerar mais relevantes. • Incentivo ao consumo de café no exterior e tentativa
de controle da expansão da lavoura cafeeira
Ao fazer isso, abre-se um caminho para começar a discutir
• Arte e cultura na Primeira República
o Carnaval e o samba como elementos identitários brasilei-
ros e como eles eram vistos na Primeira República. As classes populares e a influência das presen-
ças africana e indígena
Depois, o tema deve ser o Modernismo. Inicie com
Samba, capoeira, candomblé, umbanda e fes-
a exposição dos elementos característicos do movi- tas populares
mento e prossiga com a apresentação de algumas • O Modernismo: a busca pela construção de uma
MÓDULO 1

obras aos alunos. Ao final da aula, pode-se desenvol- identidade nacional


ver a sugestão 2 das Atividades complementares des- Antropofagia cultural
te Manual e os exercícios propostos nas seções Pra- Rompimento com as tradições
HISTÓRIA

ticando o aprendizado, Aplicando o conhecimento e


Desenvolvendo habilidades.

8
ATIVIDADES COMPLEMENTARES LEAL, V. N. Coronelismo, enxada e voto: o município e o
regime representativo no Brasil. São Paulo: Companhia
das Letras, 2012.
SUGESTÃO 1
MUSSA, A.; SIMAS, L. A. Samba de enredo: história e
Apresente aos alunos o filme Abril despedaçado (di- arte. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
reção de Walter Salles, Brasil, 2001 [105 min]). Na his- SANDRONI, C. Feitiço decente: transformações do sam-
tória, que se passa em 1910, Tonho (Rodrigo Santoro) e ba no Rio de Janeiro (1917-1933). Rio de Janeiro: Ed. da
sua família vivem no sertão brasileiro. Ele vive um gran- UFRJ, 2001.
de dilema: ao mesmo tempo que é impelido por seu pai
(José Dumont) a vingar a morte de seu irmão mais ve- TEXTO:
lho, assassinado por uma família rival, caso se vingue,
A propriedade da terra entre os fatores da
será perseguido e terá pouco tempo de vida. Diante da
perspectiva da morte, Tonho passa, então, a questionar
liderança política local
a lógica da violência e da tradição. O aspecto que logo salta aos olhos é o da liderança, com
Em seguida, realize um debate em sala de aula dis- a figura do “coronel” ocupando o lugar de maior destaque.
Os chefes políticos municipais nem sempre são autênticos
cutindo questões sobre o poder, o coronelismo e a força
“coronéis”. A maior difusão do ensino superior no Brasil es-
das tradições no início da Primeira República.
palhou por toda parte médicos e advogados, cuja ilustração
relativa, se reunida a qualidades de comando e dedicação,
SUGESTÃO 2 os habilita à chefia. Mas esses mesmos doutores, ou são pa-
Organize os alunos em grupos e proponha a realização rentes, ou afins, ou aliados políticos dos “coronéis”.
de um jogo da memória utilizando obras modernistas im- Outras vezes, o chefe municipal, depois de haver cons-
pressas em papel e dispostas no chão da sala. Baseado nes- truído, herdado ou consolidado a liderança, já se tornou
sa atividade, é possível preparar um painel apresentando um absenteísta. Só volta ao feudo político de tempos em
as obras e as principais características de cada artista. tempos, para descansar, visitar pessoas da família ou, mais
frequentemente, para fins partidários. A fortuna política já
o terá levado para uma deputação estadual ou federal, uma
MATERIAL DE APOIO AO PROFESSOR pasta de secretário, uma posição administrativa de relevo,
ou mesmo um emprego rendoso na capital do Estado ou da
LIVROS: República. O êxito nos negócios ou na profissão também
CABRAL, S. As escolas de samba do Rio de Janeiro. Rio de pode contribuir para afastá-lo, embora conservando a che-
Janeiro: Lumiar, 1996. fia política do município: os lugares-tenentes, que ficam no
interior, fazem-se então verdadeiros chefes locais, tributá-
CARONE, E. A Primeira República (1889-1930): texto e
rios do chefe maior que se ausentou. O absenteísmo é, aliás,
contexto. São Paulo: Difel, 1969. uma situação cheia de riscos: quando o chefe ausente se in-
____. A República Velha: instituições e classes sociais. dispõe com o governo, não são raras as defecções dos seus
São Paulo: Difel, 1975. subordinados. Outras vezes, é ele próprio quem aconselha
CASCUDO, L. C. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de essa atitude, operando, pessoalmente, uma retirada tática.
Janeiro: Melhoramentos, 1976. Qualquer que seja, entretanto, o chefe municipal, o
DA COSTA, E. V. Da Monarquia à República. São Paulo: elemento primário desse tipo de liderança é o “coronel”,
Ed. da Unesp, 2010. que comanda discricionariamente um lote considerável
de votos de cabresto. A força eleitoral empresta-lhe pres-
HISTÓRIA  MÓDULO 1

FABATO, F.; SIMAS, L. A. Pra tudo começar na quinta-fei-


tígio político, natural coroamento de sua privilegiada si-
ra: o enredo dos enredos. Rio de Janeiro: Mórula, 2015. tuação econômica e social de dono de terras. Dentro da
LEAL, L. A. P. Capoeira, boi-bumbá e política no Pará republi- esfera própria de influência, o “coronel” como que resume
cano. Disponível em: <https://portalseer.ufba.br/index.php/ em sua pessoa, sem substituí-las, importantes instituições
afroasia/article/view/21094>. Acesso em: 22 ago. 2019. sociais. Exerce, por exemplo, uma ampla jurisdição sobre

9
seus dependentes, compondo rixas e desavenças e profe- é geralmente representado pelo senhor da terra e seus
rindo, às vezes, verdadeiros arbitramentos, que os interes- dependentes. Completamente analfabeto, ou quase, sem
sados respeitam. Também se enfeixam em suas mãos, com assistência médica, não lendo jornais nem revistas, nas
ou sem caráter oficial, extensas funções policiais, de que quais se limita a ver as figuras, o trabalhador rural, a não
frequentemente se desincumbe com a sua pura ascendên- ser em casos esporádicos, tem o patrão na conta de ben-
cia social, mas que eventualmente pode tornar efetivas feitor. E é dele, na verdade, que recebe os únicos favores
com o auxílio de empregados, agregados ou capangas. que sua obscura existência conhece. Em sua situação, se-
Essa ascendência resulta muito naturalmente da sua ria ilusório pretender que esse novo pária tivesse cons-
qualidade de proprietário rural. A massa humana que ciência do seu direito a uma vida melhor e lutasse por
tira a subsistência das suas terras vive no mais lamen- ele com independência cívica. O lógico é o que presen-
tável estado de pobreza, ignorância e abandono. Dian- ciamos: no plano político, ele luta com o “coronel” e pelo
te dela, o “coronel” é rico. Há, é certo, muitos fazendei- “coronel”. Aí estão os votos de cabresto, que resultam,
ros abastados e prósperos, mas o comum, nos dias de em grande parte, da nossa organização econômica rural.
hoje, é o fazendeiro apenas “remediado”: gente que tem LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no
Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 44-47.
propriedades e negócios, mas não possui disponibilida-
des financeiras; que tem o gado sob penhor ou a terra
hipotecada; que regateia taxas e impostos, pleiteando
condescendência fiscal; que corteja os bancos e demais GABARITO COMENTADO
credores, para poder prosseguir em suas atividades lu-
crativas. Quem já andou pelo interior há de ter observa-
DESENVOLVENDO HABILIDADES
do a falta de conforto em que vive a maioria dos nossos
fazendeiros. Como costuma “passar bem de boca” – be- 1 Alternativa b.
bendo leite e comendo ovos, galinha, carne de porco e O trecho apresenta uma crítica ao conjunto de práticas
sobremesa – e tem na sede da fazenda um conforto pri- coronelistas que promoviam a corrupção do processo
mário, mas inacessível ao trabalhador do eito – às vezes, eleitoral, garantindo o fortalecimento das oligarquias no
água encanada, instalações sanitárias e até luz elétrica contexto da Primeira República.
e rádio –, o roceiro vê sempre no “coronel” um homem
rico, ainda que não o seja; rico, em comparação com sua 2 Alternativa a.
pobreza sem remédio. Além do mais, no meio rural, é o O Funding Loan garantiu um novo empréstimo internacio-
proprietário de terra ou de gado quem tem meios de ob- nal, dando fôlego à economia nacional e possibilitando o
ter financiamentos. Para isso muito concorre seu prestí- controle da inflação que vinha desregulada desde o Enci-
gio político, pelas notórias ligações dos nossos bancos. lhamento.
É, pois, para o próprio “coronel” que o roceiro apela nos
momentos de apertura, comprando fiado em seu arma-
3 Alternativa b.
zém para pagar com a colheita, ou pedindo dinheiro, nas A Política das Salvações consistiu em ações de intervenção
mesmas condições, para outras necessidades. do Governo Federal nos Poderes Executivos dos estados em
que os opositores de Hermes da Fonseca estavam no poder.
Se ainda não temos numerosas classes médias nas
cidades do interior, muito menos no campo, onde os pro- 4 Alternativa c.
prietários ou posseiros de ínfimas glebas, os “colonos” A “Política do Café com Leite” representou a predominância,
ou parceiros e mesmo pequenos sitiantes estão pouco no comando político do Governo Federal, das oligarquias
acima do trabalhador assalariado, pois eles próprios fre- paulista e mineira, a partir do domínio do Legislativo e dos
quentemente trabalham sob salário. Ali o binômio ainda dois maiores colégios eleitorais brasileiros.
HISTÓRIA  MÓDULO 1

ANOTA‚ÍES

10
LO
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ÓÓ
M
M

República Oligárquica:
2 movimentos sociais
no campo e na cidade
OBJETOS DO CONHECIMENTO

> Experiências republicanas e práticas autoritárias: as tensões e disputas do mundo contemporâneo.


> A proclamação da República e seus primeiros desdobramentos.
> A questão da inserção dos negros no período republicano do pós-abolição.
> Os movimentos sociais; a cultura afro-brasileira como elemento de resistência e superação das discriminações.

HABILIDADES

> Apontar o processo de modernização e reformas urbanísticas do Rio de Janeiro (capital).


> (EF09HI02) Caracterizar e compreender os ciclos da história republicana, identificando particularidades da
história local e regional até 1954.
> (EF09HI03) Identificar os mecanismos de inserção dos negros na sociedade brasileira pós-abolição e avaliar os
seus resultados.
> (EF09HI04) Discutir a importância da participação da população negra na formação econômica, política e social
do Brasil.
> (EF09HI09) Relacionar as conquistas de direitos políticos, sociais e civis à atuação de movimentos sociais.

INTRODUÇÃO ESTRATÉGIAS DE AULA

Neste módulo, seguimos com o trabalho sobre o AULA 1


Brasil República. Neste momento, o enfoque é nos mo- Na primeira aula, sugerimos apresentar imagens do
vimentos sociais urbanos e rurais. Assim, a estrutura- Brasil no início do século XX para introduzir o debate.
ção das aulas deve privilegiar a compreensão acerca Destaque a arquitetura em transformação, a constru-
das condições experimentadas pelos diversos grupos ção de praças, cafés, teatros e linhas de bonde, entre
do campo e da cidade e suas relações com o poder. outras características. Como indicação, pode-se con-
sultar o acervo da Biblioteca Nacional (disponível em:
MÓDULO 2

Nesse processo, se necessário, retome os pontos <http://brasilianafotografica.bn.br/>, acesso em: 27


trabalhados no módulo anterior reforçando a ideia de ago. 2019.) e os curtas-metragens produzidos pelos
que o regime republicano instaurado no Brasil estava alunos do Cefet (disponível em: <www.youtube.com/
HISTÓRIA

sob o controle das oligarquias e, portanto, voltado para playlist?list=PL47eoQ3wUx8b3ngbk9IBbiLsHNRWHoBsq>;


seus interesses. acesso em: 27 ago. 2019.).

11
Se em sua cidade for possível realizar um trabalho SUGESTÃO DE QUADRO
de campo, seria muito positivo para os alunos visitar es-
paços relacionados a esse período.
Nesse sentido, encaminhe uma discussão com a
turma sobre a ideia de progresso e a marginalização de MOVIMENTOS SOCIAIS NA
determinados grupos na Primeira República, uma ques- PRIMEIRA REPÚBLICA
tão já apresentada no módulo 1. Cabe aqui, ainda, um MOVIMENTOS SOCIAIS NO CAMPO
olhar sobre a questão da influência europeia e a lógica ➜ Contexto
de buscar uma europeização do Brasil, em especial do • Miséria
Rio de Janeiro, que, por ser a capital federal, concentra- • Fome
va as grandes transformações planejadas pelo governo • Concentração fundiária
republicano. • Coronelismo
GUERRA DE CANUDOS (1896-1897)
AULA 2 ➜ Início: fundação do Arraial de Belo Monte, na fazen-
da Canudos, no sertão da Bahia
Na segunda aula, o foco deve ser a análise dos mo- ➜ Liderança do beato Antônio Conselheiro
vimentos no campo. Para além da caracterização desses ➜ Impulsionada pela seca e pela violência do coronelismo
movimentos, deve-se apresentar as semelhanças e as ➜ Caráter messiânico e antirrepublicano
diferenças nos casos de Canudos e do Contestado e as con- ➜ Desfecho
dições em que se desenvolveu o cangaço. • Destruição completa da comunidade
Como sugestão de abordagem dos temas, pode- • Ação marcada pela brutalidade das tropas do
Estado
-se: aprofundar a discussão sobre o cangaço abordan-
do o conceito de banditismo social, ou utilizar trecho GUERRA DO CONTESTADO (1912-1916)
de Os Sert›es, de Euclides da Cunha, para discutir a ➜ A região do Contestado fica na divisa entre Santa
questão da memória sobre o movimento. Para ambas Catarina e Paraná
➜ A construção da ferrovia São Paulo-Rio Grande do
as sugestões há um texto complementar no Caderno
Sul atraía muitos trabalhadores para a região
do Aluno.
➜ Após o término da obra: desemprego e enorme in-
satisfação
AULA 3 ➜ Início
• Surgimento de comunidades com forte discurso
No encerramento do módulo, aborde os movimen- messiânico, sob a liderança do beato José Maria
tos urbanos. As relações entre a Revolta da Vacina e a ➜ Desfecho
Reforma Pereira Passos podem servir como discussão • Ação violenta de tropas federais para eliminar as
sobre o autoritarismo do Estado republicano e a margi- comunidades formadas na região
nalização das populações mais pobres; o tema Revolta CANGAÇO (1870-1930)
da Chibata estimula a discussão sobre a permanência ➜ Contexto: ambiente marcado pela seca, pela misé-
do racismo estrutural; o estudo do movimento operário ria, pela violência e pela concentração fundiária
levanta a questão dos desafios dos empregados diante ➜ Início
da crescente industrialização do país associada à intensa • Banditismo social: sobrevivência + poder
exploração dos trabalhadores: as organizações de traba- ➜ Duas visões permanecem no imaginário popular
MÓDULO 2

lhadores e sua importância devem ser abordadas como • Robin Hood do Sertão X Bandidos violentos
➜ Desfecho
elemento fundamental para a conquista dos direitos
(ainda que poucos). • Ação violenta de tropas federais para eliminar as
comunidades formadas na região
HISTÓRIA

Ao final, recomenda-se a realização de exercícios de


fixação do conteúdo.

12

MOVIMENTOS SOCIAIS URBANOS Luta operária
• Formação de sindicatos
REVOLTA DA VACINA (1904)
• Jornais
➜ Contexto: Reforma Pereira Passos (1903-1904) • Grupos culturais
• Reforma urbana do Rio de Janeiro europei- ➜ Presença marcante dos anarquistas (anarcossindica-
zação da capital Rio de Janeiro como “Paris
lismo) e dos socialistas científicos (após 1917)
tropical”
➜ Destaques
• Demolição de habitações populares e cortiços
"Bota-abaixo" • Greve geral de 1917
• Construção de avenidas e reforma do porto • Fundação do PCB (1922)
• Perseguição às práticas culturais afro-ameríndias,
consideradas não civilizadas
• Reforma sanitarista
➜ Fatores para a eclosão da revolta ATIVIDADES COMPLEMENTARES
• Autoritarismo estatal
• "Bota-abaixo"
SUGESTÃO 1
• Campanha de vacinação obrigatória
➜ Desfecho Assista com os alunos ao documentário O Rio de Janeiro
• Reação violenta da população contra a vacinação da Belle Époque: ciência, lazer e educação (disponível em:
obrigatória <www.youtube.com/playlist?list=PL47eoQ3wUx8b3ngb
• Revogação da vacinação obrigatória k9IBbiLsHNRWHoBsq>, acesso em: 27 ago. 2019.). Trata-
REVOLTA DA CHIBATA (1910) -se de um documentário sobre o Rio de Janeiro durante o
➜ Início período conhecido como Belle Époque, no qual, conduzida
• Preconceito racial na Marinha pelo prefeito Pereira Passos, uma reforma implantou diver-
• Castigos físicos contra os marinheiros chibata sas transformações arquitetônicas, científicas, culturais e
• Péssimas condições de trabalho educacionais na cidade. Com base no vídeo, deve-se esti-
➜ Os marinheiros dos navios São Paulo e Minas Gerais mular a percepção das transformações experimentadas na
se amotinam, sob a liderança de João Cândido então capital da República e suas consequências.
➜ Exigências
Fim dos castigos físicos
SUGESTÃO 2

• Aumento do soldo
• Melhor rancho (refeição) Promova uma visita guiada ao centro da sua cidade
• Anistia aos rebeldes
para observar prédios do início do século XX e pergunte
➜ Desfecho aos alunos: Que áreas são essas? A quem pertenciam?
• O governo republicano aceita as exigências, e os O que as diferencia do resto da cidade? Elas se parecem
revoltosos depõem as armas
com o que trabalhamos em sala de aula?
• Logo após o fim da revolta, o governo ignora a
anistia e pune os participantes do movimento
MOVIMENTO OPERÁRIO
MATERIAL DE APOIO AO PROFESSOR
➜ Formado em São Paulo e no Rio de Janeiro, com for-
te presença de imigrantes LIVROS:
➜ Contexto: péssimas condições de trabalho BARROS, Luitgarde O. Cavalcanti. A derradeira gesta:
MÓDULO 2

• Baixos salários Lampião e Nazarenos guerreando no sertão. Rio de Ja-


• Longas jornadas neiro: Mauad, 2000.
• Ausência de legislação trabalhista
CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de
HISTÓRIA

Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia


das Letras, 1987.

13
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Brasiliense, A cor das bandeiras dos heróis é a mais variada, só o tom
1985. do sangue de suas vítimas permanece o mesmo ao longo
da história.
FERREIRA, J.; REIS, D. Aarão (Org.). A formação das tradi-
A Revolta da Vacina, ocorrida num momento de-
ções. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
cisivo de transformação da sociedade brasileira, nos
HOBSBAWM, Eric. Bandidos. São Paulo: Paz e Terra, 2000. fornece uma visão particularmente esclarecedora de
alguns elementos estruturais que preponderaram em
SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da Vacina: mentes insa- nosso passado recente – repercutindo inclusive nos dias
nas em corpos rebeldes. São Paulo: Cosac Naify, 2010. atuais. A constituição de uma sociedade predominan-
temente urbanizada e de forte teor burguês no início
SITES: da fase republicana, resultado do enquadramento do
Brasil nos termos da nova ordem econômica mundial
BIBLIOTECA NACIONAL. Brasiliana Fotográfica. Disponí-
instaurada pela Revolução Científico-Tecnológica (por
vel em: <http://brasilianafotografica.bn.br>. Acesso em:
volta de 1870), foi acompanhada de movimentos con-
27 ago. 2019.
vulsivos e crises traumáticas, cuja solução convergiu
CARVALHO, José Murilo de. O pecado original da Repúbli- insistentemente para um sacrifício cruciante dos grupos
ca. Revista de História. Disponível em: <www.revistadehis populares. Envolvidos que estamos com as condições
toria.com.br/secao/capa/o-pecado-original-da-republica>. postas por essas transformações, pouco temos refletido
Acesso em: 27 ago. 2019. sobre o seu custo social e humano. Minhas ponderações,
por isso, voltam-se com alguma persistência para essa
VÍDEO: questão delicada e, reconheço, um tanto incômoda po-
rém imprescindível.
FAPERJ. O Rio de Janeiro da Belle Époque: ciência, lazer
e educação. Disponível em: <www.youtube.com/play A insurreição de que trata este texto ocorreu na ci-
dade do Rio de Janeiro, então Capital Federal, no ano de
list?list=PL47eoQ3wUx8b3ngbk9IBbiLsHNRWHoBsq>.
1904. Seu pretexto imediato foi a campanha da vacinação
Acesso em: 29 ago. 2019.
em massa contra a varíola, desencadeada por decisão da
própria presidência da República. Os setores da oposição
TEXTO: política, que desde um longo tempo vinham articulando
um golpe contra o governo, aproveitaram-se das reações
A Revolta da Vacina indignadas da população, a fim de abrir caminho para
Nunca se contaram os mortos da Revolta da Vacina. o seu intento furtivo. Essas oposições eram constituídas
Nem seria possível, pois muitos, como veremos, foram basicamente de dois agrupamentos. O primeiro, muito
morrer bem longe do palco dos acontecimentos. Seriam difuso, se compunha genericamente do núcleo de forças
inúmeros, centenas, milhares, mas é impossível avaliar que ascenderam e se impuseram ao país durante a pri-
quantos. Os massacres em geral não manifestam rigor meira fase do regime republicano, os governos militares
pela precisão. Sabe-se quantos morreram em Canudos, de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto – sobretudo
no Contestado ou na Revolução Federalista – para só fi- este último. Tratava-se primeiramente de jovens oficiais,
carmos nas grandes chacinas da Primeira República? A formados nas escolas técnicas de preparação de cade-
matança coletiva dirige-se, via de regra, contra um objeto tes, onde pontificavam as novas teorias científicas que
unificado por algum padrão abstrato, que retira a huma- propunham uma reorganização geral da sociedade, ins-
nidade das vítimas: uma seita, uma comunidade peculiar, pirada na teoria de Auguste Comte, o positivismo, o qual
uma facção política, uma cultura, uma etnia. Personifi- preconizava uma nova civilização industrial, administra-
HISTÓRIA  MÓDULO 2

cando nesse grupo assim circunscrito todo o mal e toda a da por gerentes de empresas, baseada numa legislação
ameaça à ordem das coisas, os executores se representam de proteção e assistência aos trabalhadores e governada
a si mesmos como heróis redentores, cuja energia impla- por uma ditadura militar.
cável esconjura a ameaça que pesa sobre o mundo. O pre- Acompanhavam esses jovens oficiais, que foram a base
ço a ser pago pela sua bravura é o peso do seu predomínio. mesma do movimento que culminou na proclamação da

14
República, toda uma enorme gama de setores sociais ur-
GABARITO COMENTADO
banos, trabalhadores do serviço público, funcionários do
Estado, profissionais autônomos, pequenos empresários,
bacharéis desempregados e a vasta multidão de locatários DESENVOLVENDO HABILIDADES
de imóveis, arruinados e desesperados, que viam o discur-
1 Alternativa d.
so estatizante, nacionalista, trabalhista e xenófobo dos
Mesmo diante das ações das oligarquias para manter sua
cadetes como sua última tábua de salvação. Esse grupo
hegemonia política, houve rupturas promovidas por gru-
era genericamente denominado de jacobinos (indicando
pos marginalizados daquela sociedade, como é o caso da
sobretudo grupos de civis) ou florianistas (referindo-se eclosão de diversos movimentos na Primeira República.
principalmente aos setores militares), ou ainda de repu-
blicanos vermelhos ou radicais. O outro agrupamento dos 2 Alternativa d.
conspiradores era formado pelos monarquistas depostos O cangaço deve ser compreendido como um fenômeno re-
pelo novo regime. lacionado às condições políticas, econômicas e sociais do
nordeste brasileiro na passagem do século XIX para o século
[…] Essas oposições se revelaram incompetentes XX. Por isso, pode-se apontar a concentração de terras nas
para compreender as dimensões mais abrangentes e de mãos dos oligarcas locais e a miséria presente na região.
um caráter mais radicalmente contestador presentes
nos movimentos da massa popular, que iriam desenca- 3 Alternativa a.
dear a Revolta da Vacina e se constituiriam numa das Os participantes dos movimentos eram vistos como fanáti-
mais pungentes demonstrações de resistência dos gru- cos ou ignorantes que impediam a modernização do Brasil.
Assim, representavam uma ameaça ao projeto republicano.
pos populares do país contra a exploração, a discrimina-
ção e o tratamento espúrio a que eram submetidos pela 4 Alternativa d.
administração pública nessa fase da nossa história. As lutas dos operários estão relacionadas às péssimas con-
SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da Vacina. São Paulo: Cosac Naify, 2010. p. 11-14. dições de vida e trabalho a que estavam submetidos.

ANOTAÇÕES

HISTÓRIA  MÓDULO 2

15
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M

3 A crise da República
Oligárquica
OBJETOS DO CONHECIMENTO

> Experiências republicanas e práticas autoritárias: as tensões e disputas do mundo contemporâneo.


> A Proclamação da República e seus primeiros desdobramentos.

HABILIDADES

> Entender como esse projeto político foi marcado pela exclusão da maioria da população.
> Analisar os principais fatores que contribuíram para o esgotamento desse modelo de república.
> Identificar os principais atores políticos e seus projetos contrários à República Oligárquica.
> Relacionar a crise de 1929 ao fim da Política do Café com Leite.
> Identificar as principais propostas da Aliança Liberal.
> Reconhecer os grupos que apoiaram a Aliança Liberal e suas motivações.
> Compreender os fatores que contribuíram para a Revolução de 1930.
> (EF09HI02) Caracterizar e compreender os ciclos da história republicana, identificando particularidades da
história local e regional até 1954.

INTRODUÇÃO breve histórico sobre as Constituições e a ampliação do


acesso à cidadania plena, apresente esses conceitos aos
alunos como um processo desenvolvido ao longo da Re-
A Primeira República compreende um longo período pública, não necessariamente de forma linear, e que re-
da história brasileira que teve como marco final as trans- sultou de conflitos de interesses e ideais políticos.
formações ocorridas a partir dos anos 1920. Apesar da
Depois, retome o conceito de oligarquia – palavra de
eficiência política e elitista, a República das Oligarquias
origem grega que designa a forma de governo em que o
sofreria mudanças estruturais que comporiam as trans-
poder é exercido por um pequeno grupo de pessoas – e
formações que estavam por vir.
associe-o às primeiras décadas da República no Brasil.
Neste módulo pretende-se mostrar aos alunos o
Apresentados esses conceitos, é o momento de come-
processo que levou à crise da Política dos Governadores. çar a discutir a eficiência das estruturas políticas da Primei-
ra República e como as mudanças econômicas e sociais
ESTRATÉGIAS DE AULA ocorridas ao longo de seus 41 anos de duração contribuí-
ram para os primeiros sinais de uma possível crise.
MÓDULO 3

AULA 1 AULA 2
HISTÓRIA

O fio condutor desta aula deve ser a questão da cida- Nesta aula é necessário apresentar as transformações
dania, abordada na introdução do módulo. Depois desse que, na década de 1920, criaram condições para o surgi-

16
mento de movimentos críticos e de resistência. Para isso, Em seguida, relembre a Semana de Arte Moderna de
relacione a Primeira Guerra Mundial ao processo de in- 1922 como a expressão de uma proposta artística que
dustrialização por substituição de importações. Explique tentou romper com a dependência externa, ao menos no
também o processo de intensificação da urbanização, que dizia respeito à arte. A construção de uma identidade
que, no entanto, não transformou o Brasil em um país nacional que não repudia o que vem de fora (Manifesto
predominantemente urbano, o que só aconteceria a par- Antropofágico) é uma ideia fundamental para a discussão
tir dos anos 1960. de outros momentos culturais e políticos do Brasil.
Relacione o surgimento de movimentos que contes-
tavam o poder oligárquico ao fenômeno da urbanização, AULA 3
uma vez que as cidades estavam fora do alcance do poder
Sugerimos trabalhar nesta aula a crise de 1929 e
dos coronéis. Nesse momento, apresente os movimentos
suas consequências para a produção do café brasileiro
sociais feministas do período, em que as mulheres reivin-
e a Política do Café com Leite. Destaque a ruptura entre
dicavam o direito à cidadania e participação política. São Paulo e Minas Gerais, o lançamento de candidaturas
Aborde também o movimento operário e suas doutri- separadas e a formação da Aliança Liberal, congregando
nas sociais. O anarquismo foi a primeira doutrina social a Minas Gerais e as oligarquias, até então secundárias, da
influenciar de maneira decisiva os trabalhadores urbanos, Paraíba e do Rio Grande do Sul.
levando à formação de sindicatos. Em seguida, houve a A vitória fraudulenta de Júlio Prestes e a reação da
superação do anarquismo pelos ideais socialistas, espe- Aliança Liberal, com apoio de parte dos antigos tenentes
cialmente diante dos eventos da Revolução Russa. Des- (é bom lembrar que Luís Carlos Prestes não apoiou o
taque a fundação do Partido Comunista Brasileiro, o PCB, golpe), além do reconhecimento das camadas médias
como marco da ascensão socialista junto ao operariado. urbanas, acabaram levando Getúlio Vargas ao poder.
O Tenentismo e a origem urbana de seus participan- Antes de finalizar a aula, discuta com os alunos os fa-
tes também devem ser abordados. Procure explicitar que, tores que tornariam questionável a insistência de Vargas
embora tivessem motivações comuns, não havia um pro- em chamar aquele processo de revolução, destacando o
jeto ideológico e político bem definido. Cite, por fim, o fato de o movimento não ter resultado em transforma-
caso da Revolta dos 18 do Forte e a Coluna Prestes. ções estruturais profundas.

SUGESTÃO DE QUADRO

REPÚBLICA OLIGÁRQUICA:
SINTOMAS, CRISE E DESMONTE

ANOS 1920 – UMA DÉCADA DE CRISE Industrialização por substituição de importações
➜ Urbanização (ambiente com menos ingerência dos
I. REPÚBLICA OLIGÁRQUICA
coronéis)
➜ Poder dos coronéis ➜ Exclusão política
➜ Voto aberto ➜ Agroexportação
➜ Latifúndio ➜ Convênio de Taubaté
➜ Política dos Governadores ➜ Crescimento do número de indústrias
MÓDULO 3

II. TRANSFORMAÇÕES DO CENÁRIO ➜ Crescimento das camadas médias urbanas


➜ Grande Guerra ➜ Revolução Russa
HISTÓRIA

17
III. SINTOMAS DE UMA CRISE ➜ Semana de Arte Moderna
➜ Movimento operário • Antropofagismo
• Anarquismo (Greve Geral de 1917)
IV. A CRISE
• Socialismo (fundação do PCB, 1922)
➜ Crise de 1929
➜ Tenentismo
➜ Crise do café
• Revolta dos 18 do Forte
➜ Ruptura da Política do Café com Leite
• Coluna Prestes
• Júlio Prestes (SP) 3 Getúlio Vargas (Aliança Liberal)

ATIVIDADE COMPLEMENTAR faz uma comparação com os anos seguintes para mostrar
os efeitos da crise sobre a atividade econômica, com ênfa-
se na indústria. Esta atividade cumpre as funções de revisar
Apresente aos alunos a tabela a seguir e solicite uma o conteúdo e de exercitar a leitura de elementos gráficos e
avaliação sobre o impacto da crise de 1929 sobre a ativi- tabelas, tão importante nos dias atuais.
dade econômica brasileira.
MATERIAL DE APOIO AO PROFESSOR
INDICADORES DA PRODUÇÃO INDUSTRIAL
1927-1939 (1928 = BASE 100)
LIVROS:
Indicadores da produção industrial
Ano
(série elaborada pela FGV) CARVALHO, J. M. Entre a liberdade dos antigos e a dos
modernos: a República no Brasil. In: ______. Pontos
1928 100
e bordados: escritos de história e política. Belo Hori-
1929 95,7 zonte: Ed. da UFMG, 1999.
1930 93,3 JANOTTI, M. L. M. Sociedade e política na Primeira Repú-
blica. São Paulo: Atual, 1999.
1931 90,6
PRESTES, A. L. Uma epopeia brasileira: a Coluna Prestes.
1932 91,5
Rio de Janeiro: Expressão Popular, 2009.
1933 99,7
SITE:
1934 107,2
Centro de Pesquisa e Documentação de História Contem-
1935 115,6 porânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas.
1936 132,9
Disponível em: <http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AE
raVargas1/apresentacao>. Acesso em: 2 set. 2019.
1937 139,8
TEXTO:
1938 144,4

1939 152,4 Movimento Tenentista:


GREMAUD, A. P.; SAES, F. A. M.; TONETO JÚNIOR, R. Formação econômica do Brasil.
um debate historiográfico
MÓDULO 3

São Paulo: Atlas, 1997. Introdução


O objetivo é apresentar aos alunos uma tabela simples, Durante as décadas da chamada Primeira República
por meio da qual seja possível tirar conclusões bastante di- (1889-1930), uma das principais fontes de descontentamen-
HISTÓRIA

retas. A tabela toma como base o ano de 1928 e estabelece to de parte da população brasileira, sobretudo nos maiores
100 como número percentual de referência. A partir daí, centros urbanos, era o viciado quadro político-eleitoral que,

18
de um modo geral, tinha duas importantes características: Várias Interpretações
o regionalismo e a corrupção eleitoral. Assim, corriqueiramente, o Tenentismo passou a ser in-
O regionalismo se manifestava através da existência terpretado no bojo do conjunto de episódios que marcaram
de partidos políticos apenas de âmbito estadual, o que a chamada “crise dos anos 1920”. O próprio termo Tenentis-
propiciou o surgimento da dinâmica que ficou conhecida mo só adquiriu o significado que conhecemos atualmente
como “Política dos Governadores”. Cada estado contava a partir de 1933, com a publicação da obra O sentido do Te-
com seu próprio sistema eleitoral com regras e normas nentismo, escrita por Virgilio Santa Rosa, trabalho pioneiro
eleitorais controladas e fiscalizadas pelos representantes na interpretação desse movimento.
do poder executivo. Esse autor procurou apresentar os jovens tenentes
O âmbito local do sistema eleitoral garantia que di- como um corpo social destoante da realidade política da
ficilmente quem estivesse no poder saísse derrotado de Primeira República. Os tenentes seriam legítimos represen-
uma disputa nas urnas. Com isso, os laços estreitos entre tantes dos anseios e perspectivas da classe média urbana
os governantes da situação propiciavam que o cargo de brasileira, que se encontrava completamente à margem do
presidente da República fosse escolhido pelas elites políti- sistema político das oligarquias. Portanto, a falta de espa-
cas dos estados mais poderosos: Minas Gerais e São Paulo ços e participação na vida política nacional foi o combustí-
(FAUSTO, 1997). vel principal que incentivou o início dos atritos.
As duas oligarquias, num código de alternância, mono- Parecia não haver assim possibilidade de salvação para
polizavam as eleições presidenciais, configurando a chama- as novas camadas surgidas na sociedade brasileira. As pe-
da “política do café com leite”. Nos estados essa situação quenas burguesias urbanas, obrigadas pelas forças do sub-
era garantida nas bases pelos chefes políticos municipais, solo nacional, tinham de permanecer indefinidamente no
através de um esquema de fraudes eleitorais, sistema que mesmíssimo plano político. As oligarquias latifundiárias
ficou conhecido pelo termo “coronelismo”. não realizariam as reformas almejadas nem consentiam
Essa ampla rede de compromissos pode ser configurada na presença de parlamentares encarregados de realizá-las.
“como resultado da superposição de formas desenvolvidas (SANTA ROSA, 1976, p. 36).
do regime representativo a uma estrutura econômica e social Dessa forma, os conflitos entre esses dois segmentos
inadequada” (LEAL, 1986). A predominante estrutura agrária foram incentivados pelas querelas partidárias. Na interpre-
existente, pilar da economia do país na época, baseada na tação da classe média urbana, a via parlamentar deixou de
desorganização dos serviços públicos locais básicos, criava ser o caminho mais curto para solucionar os “desvios” e “ví-
e alimentava o ambiente eleitoral onde os “coronéis”, atra- cios” do processo político. A falta de sintonia entre as oligar-
vés do mandonismo, do filhotismo, do falseamento do voto, quias e a classe média teve seu momento de ápice durante
exerciam sua liderança. a década de 1920.
A partir do início da década de 1920, se multiplicaram Pela sua posição de prestígio e destaque no conjunto
os movimentos de contestação da situação vigente. Essas da sociedade e, principalmente, pela ausência de outra
manifestações refletiam o grau de descontentamento de estrutura política com igual capacidade de organização e
setores da população brasileira com os rumos da Repúbli- mobilização, naquele momento, os tenentes acabaram as-
ca. As suas expressões mais conhecidas foram: o movimen- sumindo a dianteira das manifestações de protesto contra
to Tenentista, a Reação Republicana, a Semana de Arte Mo- as elites políticas.
derna, a “Revolução de 1924”, a Coluna Prestes e a fundação Outra questão levantada pelo autor era o fato de os te-
do Partido Comunista do Brasil. nentes serem em sua maioria membros da classe média. Ou-
No conjunto desses episódios destacaremos a partici- tro ponto que destacou os tenentes em relação aos demais
pação das forças armadas, especificamente o movimento membros da oposição foi a sua capacidade de coesão. O Exér-
Tenentista, nas mobilizações contra a situação vigente no cito era visto como a única força capaz de combater e derro-
HISTÓRIA  MÓDULO 3

país. Logo de início um ponto chama a atenção em relação tar a estrutura das verdadeiras milícias ligadas às estruturas
a quase todos os trabalhos que abordam a luta dos tenen- dos presidentes dos estados: as polícias militares estaduais.
tes: essas obras analisavam o movimento dentro de uma A visão dos tenentes como vanguarda da classe média
perspectiva mais geral em relação ao processo que culmi- passou a ser revista por uma série de autores que preten-
nou com a “Revolução de 1930”. dem rediscutir todo o movimento político que antecedeu

19
a “Revolução de 1930”. Para essas novas interpretações, o tes conhecerem a realidade do conjunto da população civil.
Tenentismo não foi apenas uma rebelião militar contra as Dessa forma, as influências e pressões da sociedade civil
classes dominantes da “Velha República”, mas sim “contra não passaram despercebidas, ou seja, tiveram ressonância
a posição subordinada do Exército no aparelho do Estado” no interior do Exército (CARVALHO, 2005).
(DRUMMOND, 1986). O movimento Tenentista foi a conjugação dos problemas
Essa visão que privilegia o enfoque organizacional pre- internos e externos dos militares e, em especial, tiveram papel
tende discutir que, antes de representar qualquer segmento privilegiado no início do movimento as questões relativas à
externo da vida militar, os tenentes tinham como priorida- institucionalização do Exército durante essa época. O cresci-
de defender os interesses das forças armadas, sobretudo, do mento da influência das Forças Armadas durante a República
Exército. […] permitiu uma substancial mudança de comportamento da so-
Outra interpretação afirma que o Tenentismo das pri- ciedade em relação ao Exército (CARVALHO, 2005).
meiras revoltas entre 1922 e 1926 pode ser caracterizado Se durante muito tempo o Exército foi encarado como
como um movimento de predominância militar e com in- um “antro de desordeiros e bandidos”, essa situação sofreu
dependência dos setores civis durante suas manifestações uma substancial modificação a partir de uma série de inicia-
de insubordinação. A situação precária das Forças Arma- tivas que pretendiam qualificar, equipar e formar as Forças
das, somada ao grave quadro social da maioria da popula- Armadas brasileiras. Dentre essas iniciativas duas teriam
ção, levou os tenentes a responsabilizarem os políticos civis sido fundamentais para ampliar e dar maior capacidade téc-
pela situação caótica do país (FAUSTO, 1986). nica para os militares: os Jovens Turcos (estágio de oficiais
O inconformismo e a indignação com os baixos soldos, a brasileiros na Alemanha) e a missão Francesa no Brasil.
péssima estrutura para formação, a falta de oportunidade de Quanto mais se aprofundava a formação técnica dos mi-
ascensão, a incompetência dos oficiais superiores somados às litares, maior também era a coesão entre seus membros. Esse
denúncias de corrupção dos governos civis se configuraram aspecto, que o autor chama de esprit de corps, seria o princi-
nos fatos que estimularam os tenentes a assumirem uma pos- pal responsável pela crescente institucionalização das Forças
tura de oposição às oligarquias civis. Para Edmundo Campos Armadas e, consequentemente, o fator que motivou a busca
Coelho, as principais reivindicações do movimento tenentis- de maiores espaços de interferência e participação política
ta tiveram como base as questões do cotidiano da caserna. dos membros do Exército na sociedade (CARVALHO, 2005).
Dessa forma, e fugindo aos clássicos modelos da “revo- Outro ponto central para o crescimento da importância
lução burguesa” e da ascensão das classes médias”, nossa dos militares durante a Primeira República foi a implanta-
tese será a de que na origem dos movimentos militares de ção de um dispositivo até então muito discutido e debatido:
1922 e 1924 estavam fatores tipicamente militares, de na- o recrutamento por sorteio universal. A partir da adoção do
tureza política apenas no sentido restrito de que se inspi- recrutamento por sorteio cresce concomitantemente a vi-
ravam aqueles movimentos num enfoque crítico sobre as são corporativa do Exército e a sua ligação com o conjunto
relações entre o Exército, por um lado, e o regime político e da população, sobretudo, das camadas mais baixas.
o Governo, por outro (COELHO, 1976, p. 84).
A luta pela implementação do sorteio universal era bastan-
Ainda sobre as interpretações do Tenentismo podemos ci- te antiga no Brasil. Os primeiros debates para a criação de uma
tar o trabalho de José Murilo de Carvalho como um texto que legislação que pretendia efetivar esse mecanismo datam das
busca privilegiar uma leitura mais ampla e aprofundada do décadas finais do século XIX. Entretanto, todas as iniciativas
tema. Um primeiro dado apresentado por esse autor diz res- nesse sentido esbarravam na complexa rede de isenções e pri-
peito ao grande número de tenentes que existiam no interior vilégios que marcavam essa questão no período monárquico.
do Exército durante o período das revoltas de 1922 e 1924, ou
Mas a lei admitia várias exceções. Ela permitia aos que
seja, os tenentes contavam com uma superioridade numérica
não quisessem servir pagar certa quantia em dinheiro ou
entre os outros postos de oficiais. Com isso, os tenentes acredi-
apresentar substitutos e concedia isenções a bacharéis, pa-
HISTÓRIA  MÓDULO 3

tavam estar falando em nome de todo o Exército.


dres, proprietários de empresas agrícolas e pastoris, caixei-
A origem social e a proximidade com os soldados te- ros de lojas de comércio, etc. Além disso, deixava o alista-
riam sido fundamentais para os tenentes terem desenvol- mento e o sorteio a cargo de juntas paroquiais, presididas
vido uma grande proximidade e gozarem da confiança dos pelo juiz de paz e completadas pelo pároco e pelo sub-dele-
membros das tropas. Essa proximidade permitiu aos tenen- gado (CARVALHO, 2005, p. 19-20).

20
Apesar da nova lei de alistamento aprovada em 1908, o mento da Escola Militar da Praia Vermelha em 1904 e foi
panorama permaneceu inalterado até meados da década de caracterizado pela incapacidade de unificação das ações
1910. Foi a partir de uma intensa campanha liderada pelos dos militares.
oficiais brasileiros que estagiaram na Alemanha, conhecidos
A segunda fase do movimento Tenentista teve como
como Jovens Turcos, que a situação começou a dar sinais de
estopim o episódio das chamadas “cartas falsas” atribuídas
mudança. Também o início da Primeira Guerra Mundial cola-
a Artur Bernardes, presidente eleito na época. Os brios da
borou na soma de esforços para a implantação da lei em 1916.
tropa foram atingidos e a tática utilizada em 1922 foi a in-
Foram múltiplos os fatores que contribuíram para essa tervenção militar com o objetivo de restabelecer a moral da
mudança. Podemos citar a ampla campanha desenvolvida corporação. Os jovens oficiais se incumbiram de articular
pelos Jovens Turcos, a adesão do poeta Olavo Bilac, a criação uma revolta que pretendia se ampliar por todo o país.
da Confederação dos Tiros de Guerra do Brasil, a ampliação
Entretanto, como se sabe, os resultados do primeiro levan-
da instrução militar nos colégios secundários e superiores e
te conhecido como os 18 do Forte de Copacabana, em 1922,
a organização das Ligas Nacionalistas.
não foram os previstos. Dois anos depois, exatamente em
É sempre importante enfatizar que anteriormente o re- 5 de julho de 1924, ocorreu o segundo levante Tenentista. Esse
crutamento era visto como medida punitiva, porém, com as episódio concentrou-se no estado de São Paulo, mas teve re-
ações para institucionalização das Forças Armadas e o recru- percussão e desdobramentos em nível nacional. Os militares
tamento por sorteio, o Exército passou a ser uma alternativa que se rebelaram em 1924 tinham como objetivo político prin-
para as camadas mais desfavorecidas da sociedade. Seja por cipal restabelecer os ideais de 1889, combatendo os desvios da
ser a garantia de uma formação acadêmica/profissional gra- administração civil que seriam os grandes responsáveis pela
tuita, de uma carreira segura ou, até mesmo, porque a farda degradação do quadro social do Brasil (CORRÊA, 1976).
passou a simbolizar a escolha de um caminho pontuado pela
retidão, ou seja, “o pobre porém honrado”. Os acontecimentos de julho de 1924 alçaram o Tenentis-
mo ao patamar de movimento de proporções nacionais, pois,
O recrutamento pelo sorteio universal serviu para além de criar a expectativa de outros levantes simultâneos
transformar a realidade do serviço militar. De um lado em vários estados, as reivindicações dos revoltosos paulistas
permitiu ao Exército se estabelecer como uma instituição tinham um caráter muito amplo. Os tenentes entendiam que
verdadeira nacional e, ao mesmo tempo, representou um o uso da luta armada seria o único caminho possível para a
crescimento sem precedentes do contingente de soldados. tomada do poder político, por isso, a ação dos tenentes foi
Algo como a duplicação do efetivo das Forças Armadas, rápida e violenta. A escolha pela cidade de São Paulo foi pelo
ou seja, um maior número de soldados que necessitava de fato de a capital paulista contar com poucas tropas do Exér-
igual número de jovens oficiais para realizar seu treinamen- cito. O plano dos militares era dominar e ocupar a cidade em
to. Dessa forma, nada mais compreensível de que o fato de poucas horas. Suas articulações também previam levantes
os tenentes formarem o maior contingente de oficiais nos em quartéis do interior do estado (PRESTES, 1999).
anos iniciais da década de 1920. […]
Apesar de conseguirem controlar a capital, os tenentes
Foram muitas as mudanças originadas com o recruta- foram duramente atacados pelas forças leais ao presidente
mento por sorteio universal. Esse mecanismo serviu para da República. Após várias semanas de combates, os tenen-
abrir as portas da corporação para parcelas mais amplas tes, que esperavam apoio de outras tropas que deveriam ter
da sociedade. As campanhas cívicas foram fundamentais se rebelado pelo país, receberam um ultimato das tropas do
para modificar a opinião pública sobre as Forças Armadas, governo para se retirarem de São Paulo ou então a cidade
assim, a ideia de soldado-cidadão e do cidadão-soldado ga- seria bombardeada.
nhou espaço no seio da população.
Reunidos em seu estado maior, os tenentes concluíram
Nesse momento teve início o amadurecimento da con- que era o momento de recuar. Após a retirada dos milita-
HISTÓRIA  MÓDULO 3

cepção do papel interventor do Exército na política nacio- res participantes do levante, a tropa Tenentista se dividiu
nal. Esse autor compreende que existiram duas fases do e seguiu para o sul do país, onde voltou a se concentrar e,
movimento Tenentista, tendo a primeira onda se manifes- conjuntamente com tenentes rebeldes do Rio Grande do
tado durante as jornadas de 15 de novembro de 1889. Esse Sul, deu origem à grande marcha que ficou conhecida como
ciclo inicial de intervenções militares perdurou até o fecha- coluna Miguel Costa-Prestes.

21
Uma das chaves para se compreender todo o longo __________. A crise dos anos vinte e a Revolução de 1930. In: PI-
processo de construção do Estado brasileiro é conhecer as NHEIRO, Paulo Sérgio (Org.). O Brasil republicano: sociedade e institui-
ções (1889-1930). 5. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. v. 2.
particularidades do jogo político da “Primeira República”,
particularmente, um dos traços marcantes do período: o LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto. São Paulo: Alfa-Ô-
estadualismo. mega, 1986.

PRESTES, Anita Leocádia. O Tenentismo pós-1930: continuidade ou


O movimento dos 18 do Forte, em 1922, criou a legenda
ruptura. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
e o mito em torno do movimento dos jovens oficiais. Por
outro lado, o levante de 1924 foi a primeira grande mobili- SANTA ROSA, Virginio. O sentido do Tenentismo. 3. ed. São Paulo:
Alfa-Ômega, 1976.
zação militar do movimento Tenentista. É importante ob-
servar que a partir desse levante o movimento passou a ser FAGUNDES, Pedro Ernesto. Movimento tenentista: um debate historiográfico.
Disponível em: <http://docplayer.com.br/30957953-Movimento-tenentista-um-debate-
um dos focos principais de oposição e crítica do ambiente historiografico.html>. Acesso em: 2 set. 2019.
político da “Primeira República”.

Os levantes Tenentistas da década de 1920 tiveram


como consequência a “Revolução de 1930”, que tinha exa-
GABARITO COMENTADO
tamente como grande bandeira acabar com os vícios elei-
torais e implantar um poder centralizador no país. Dessa
forma, coube à administração Vargas, que efetivamente DESENVOLVENDO HABILIDADES
contou com a colaboração de antigos líderes Tenentistas, a
tarefa de lançar os pilares do Estado Nacional. 1 Alternativa b.
O Tenentismo foi um catalisador do descontentamento É preciso lembrar que, mesmo antes de ser apresentado
de importantes setores da sociedade brasileira durante a ao socialismo, Prestes era crítico ao governo e entendia o
década de 1920. Apesar de existirem poucas referências so- golpe de 1930 como uma estratégia de sobrevivência das
bre o tema, as obras e autores que escreveram sobre o tema próprias oligarquias. Por isso não deu seu apoio a Getúlio
têm como marca a divergência de interpretação sobre o Vargas naquele momento.
caráter do movimento Tenentista. O presente trabalho bus-
2 Alternativa c.
cou repercutir e recolocar em debate questões relativas aos
O Modernismo, mesmo inspirado nas vanguardas inter-
desdobramentos dos dois primeiros levantes Tenentistas.
nacionais, propunha um modelo nacional para a arte
brasileira, rompendo com a importação e a cópia dos
Referências bibliográficas modelos externos.
CARVALHO, José Murilo de. As Forças Armadas na Primeira República:
o poder desestabilizador. In: Forças Armadas e política no Brasil. Rio de Janei- 3 Alternativa e.
ro: Jorge Zahar, 2005.
A atividade cafeeira contribuiu não apenas para o exceden-
COELHO, Edmundo Campos. Em busca da identidade. O Exército e te de capital, mas também para o crescimento da popu-
a política na sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Forense, 1976. lação e do mercado interno, bem como para a atração de
imigrantes que, em momentos de baixa do preço do café,
CORRÊA, Anna Maria Martinez. A Rebelião de 1924 em São Paulo.
São Paulo: Hucitec, 1976. podiam ser aproveitados nas indústrias.

DRUMMOND, José Augusto. O Movimento Tenentista: a intervenção 4 Alternativa e.


militar e conflito hierárquico (1922-1935). Rio de Janeiro: Graal, 1986. A década de 1920 foi conturbada e marcada pela desagre-
FAUSTO, Boris. A Revolução de 1930: historiografia e História. 10. ed. gação do modelo oligárquico e pela atuação de distintos
São Paulo: Ed. Brasiliense, 1986. movimentos de contestação, como o Tenentismo.
HISTÓRIA  MÓDULO 3

22
LO
DU
Ó
M

4 Revolu•‹o Russa

OBJETOS DO CONHECIMENTO

> O mundo em conflito: a Primeira Guerra Mundial.


> A Revolução Russa.
> A crise capitalista de 1929.

HABILIDADES

> Entender o regime autocrata realizado pelo czar, contrapondo-o ao contexto político europeu no início do
século XX.
> Identificar as condições de vida dos camponeses e dos operários e refletir sobre elas, relacionando o nível de
industrialização russo do século XX ao dos demais países europeus.
> Analisar a importância do episódio “Domingo Sangrento”.
> Identificar as reações do regime czarista e refletir sobre seu significado para o processo revolucionário que
culminou em 1917.
> Relacionar a Revolução Russa à Primeira Guerra Mundial.
> Discutir o contexto marcado pela disputa política entre Stalin e Trotski.
> (EF09HI11) Identificar as especificidades e os desdobramentos mundiais da Revolução Russa e seu significado
histórico.

INTRODUÇÃO apesar de ter acabado no final do século XX, o modelo


socialista soviético se tornou referência no mundo. A
compreensão da dinâmica de forças entre os países
O objetivo principal deste módulo é analisar os im- durante o século XX só é possível pelo entendimento
pactos da Revolução Russa na sociedade, na política, na das origens do que viria a ser o bloco soviético.
economia e na cultura locais e os desdobramentos des- Com base nisso, sugere-se contextualizar a Rússia
se episódio que culminaram na instituição do stalinismo. pré-revolucionária, apresentando o regime czarista
em seus aspectos sociais, econômicos, culturais e po-
ESTRATÉGIAS DE AULA líticos. Apresentado o ambiente que propiciou o sur-
MÓDULO 4

gimento do movimento revolucionário, eslareça que,


mesmo entre os trabalhadores, existiam divergências
AULA 1 quanto aos caminhos a serem seguidos. Explique a
HISTÓRIA

Convide os alunos a relembrar o significado do diferença entre os mencheviques e os bolcheviques.


conceito de revolução. Em seguida, esclareça que, Se possível, explicite alguns aspectos da teoria mar-

23
xista para que os alunos possam entender a ortodoxia falta de ação e para a manutenção da Rússia na guer-
de um e a heterodoxia do outro. ra deve remeter a um debate sobre o governo men-
Na sequência da aula, destaque que o processo re- chevique e seu marxismo ortodoxo, que o fez buscar
volucionário russo é mais longo e complexo do que se uma coalizão com a burguesia.
costuma pensar e do que os livros e os sites costumam Explicando como a euforia inicial pela queda do cza-
mostrar. Convide-os a refletir sobre a Revolução como um rismo dá lugar à decepção pela falta de medidas que
processo de três etapas, do qual o Ensaio Geral (1905) é
solucionassem os problemas sociais, cria-se a justifica-
a primeira.
tiva para a nova etapa da Revolução. Os bolcheviques,
liderados por Lenin, passam a ter nos sovietes as plata-
AULA 2 formas de suas ideias: sair da guerra, superar a miséria
O Ensaio Geral é apresentado como desdobra- e realizar a reforma agrária. Promessas feitas com base
mento da conjuntura de crise até agora estudada. nas Teses de Abril dão força aos bolcheviques, que as-
Mesmo sendo contornado por Nicolau II, que, com as sumem o comando da Rússia em outubro de 1917, e
concessões, arrefeceu as rebeliões e os motins pela cumprem o prometido.
Rússia, deu aos revoltosos a consciência do que se-
riam capazes de realizar. É preciso explicar que a força AULA 3
simbólica e ritual da família real foi o elemento fun-
damental que acalmou os ânimos exaltados, aliado ao A última aula deve ser dedicada aos desdobramen-
fato de a Rússia, mesmo derrotada, ter finalizado sua tos pós-revolucionários. Explique aos alunos o que foi
guerra contra o Japão, diminuindo os gastos e o des- o comunismo de guerra e apresente as dificuldades
gaste gerados pelo conflito. de manter o estímulo à produção sem uma economia
Doze anos depois, as questões sociais e econômi- de livre mercado. Comente que, embora tenham sido
cas estavam longe de serem resolvidas; ao contrário, uma estratégia militarmente vitoriosa, as requisições
pareciam se intensificar a cada dia, especialmente com forçadas causaram uma crise de abastecimento no
a entrada da Rússia em um novo conflito, a Primeira mundo socialista.
Guerra Mundial. A Nova Política Econômica (NEP) deve ser apresen-
Neste momento, a ideia de Ensaio Geral, utili- tada como alternativa ao cenário de crise produtiva.
zada na tentativa revolucionária anterior, pode ser Com uma economia mista, os nichos econômicos de
revisitada. Mostre as permanências de um processo ação do capital privado e do capital estatal ficam muito
e de outro, apresentando personagens e cenários bem definidos.
comuns. Mas é preciso apontar o que torna esse
Neste momento da aula, aborde a questão sucessó-
momento único: a Primeira Guerra Mundial impõe
ria soviética. Com a morte de Lenin, instala-se a disputa
maior desgaste, a crise socioeconômica está bem
pior do que doze anos antes, e os trabalhadores ti- pelo poder entre o projeto de Trotski (revolução perma-
nham aprendido que o czar e suas promessas não nente) e o projeto de Stalin (revolução em um só país),
eram confiáveis. que acabou vitorioso.
A Revolução de Fevereiro deve ser apresentada Por último, trate da guinada política e econômica re-
como a segunda etapa do processo. Ela provocou o presentada pelos planos quinquenais. Explique aos alunos
HISTÓRIA  MÓDULO 4

fim do czarismo sem resolver as questões sociais e o totalitarismo de Stalin e as críticas possíveis a esse mode-
econômicas com a urgência que era esperada pelas lo, usando como referência a obra, A revolução dos bichos,
camadas mais populares. A explicação para tamanha de George Orwell.

24
SUGESTÃO DE QUADRO

REVOLUÇÃO RUSSA (1917)


I. ANTECEDENTES REVOLUÇÃO DE OUTUBRO (1917)
➜ Lenin retorna à Rússia (com ajuda dos alemães)
➜ Czarismo autoritário
➜ Bolcheviques tomam o poder
➜ Violência estatal
➜ ➜ Socialismo imediato
Repressão e extermínio da oposição (Okhrana)
➜ ➜ Saída da Rússia da guerra (Tratado de Brest-Litovsk)
Campesinato miserável
➜ ➜ Início de uma reforma agrária
Modernização (industrialização) incompleta
➜ Imperialismo desastrado III. DEPOIS DA REVOLUÇÃO
➜ Burguesia incipiente
➜ Operariado forte
GUERRA CIVIL (1918-1921)
➜ Urbanização limitada
➜ Exército branco 3 Exército vermelho
➜ Apoio internacional capitalista ao Exército branco
II. AS REVOLUÇÕES ➜ Comunismo de guerra (requisições forçadas) para
sustentar o Exército vermelho
ENSAIO GERAL (1905) ➜ Sucesso militar socialista 3 Desastre produtivo
➜ Crise socioeconômica + guerra russo-japonesa + ➜ A Rússia beira uma crise de desabastecimento
“Domingo Sangrento” = motins, greves, rebeliões
➜ Nicolau II, por um fio no poder, vira o jogo fazendo NEP (1921-1928)
concessões ➜ Economia mista
• Eleições • Capital estatal – setores estratégicos
• Duma • Capital privado – pequenas propriedades rurais e
• Constituição urbanas
• Sovietes ➜ Estímulo à produção
➜ Quando a guerra acabou e os ânimos foram conti- ➜ Morte de Lenin (1924)
dos, as concessões foram revogadas ➜ Trotski (revolução permanente) 3 Stalin (revolução
➜ A capacidade de mobilização havia sido perdida com em um só país)
a diminuição da crise e o fim da guerra PLANOS QUINQUENAIS (1928-1953)
REVOLUÇÃO DE FEVEREIRO (1917) ➜ Depois dos patamares produtivos recuperados,
➜ Crise socioeconômica (agravada) + Primeira Guerra Stalin volta a fechar a economia soviética
➜ Planificação da economia
Mundial + nova manifestação popular = queda do
czarismo ➜ Metas quinquenais
➜ Começa um governo provisório ➜ Propaganda
➜ Coalização mencheviques + burguesia ➜ Culto ao líder
➜ Ausência de medidas sociais efetivas ➜ Censura
➜ Manutenção da Rússia na guerra ➜ Violência
➜ Euforia dá lugar à decepção ➜ Totalitarismo
➜ Bolcheviques conquistam apoio dos sovietes ➜ Autoritarismo
➜ Teses de Abril: paz, pão e terra ➜ Indústrias pesadas maiores que as de bens de consumo
MÓDULO 4

➜ Isolamento crescente do governo provisório de ➜ Degradação social


Kerensky ➜ Formação de uma elite burocrática privilegiada
HISTÓRIA

25
uma fagulha pudesse inflar as massas. Trotsky, que desejava
ATIVIDADE COMPLEMENTAR
ser escritor, trabalhou em vários outros jornais como o Iskra,
Solicite aos alunos que expliquem as possíveis razões todos ilegais na Rússia czarista e de publicação clandestina,
para o assassinato de Trotski e quais estratégias foram difundindo e teorizando os ideais da social-democracia. Em
1905, Trotsky deixou a Inglaterra de volta à Rússia para uma
usadas por Stalin para apagá-lo da memória soviética,
tentativa frustrada de revolução. Foi preso pela segunda vez e
mesmo antes de sua morte no México.
exilado de novo para a Sibéria, de onde fugiu pela segunda vez.
Refugiou-se em Viena e, posteriormente, em Nova York.
MATERIAL DE APOIO AO PROFESSOR Nos Estados Unidos, retomou seu trabalho como jorna-
lista e se uniu ao grupo dos mencheviques, “os minoritários”,
LIVROS: que se opunha aos bolcheviques, “os majoritários”, liderados
REED, J. Os 10 dias que abalaram o mundo. Porto Alegre: por Lênin sob a sigla Partido Operário Social-Democrata Rus-
L&PM, 2005. so. Mas logo Trotsky passou para o lado dos bolcheviques,
dividindo a liderança com Lênin. Em 1917, como coman-
REIS, D. A. A Revolução Russa – 1917-1918. Brasília:
dante do Comitê Militar Revolucionário, Trotsky recrutou
Brasiliense, 1999.
camponeses e antigos militares que pertenciam aos czares e
TEXTO: que aceitaram lutar com os comunistas e, em tempo recorde,
montou o Exército Vermelho, a fim de deter forças contrárias
Leon Trotsky: Política e revolução à revolução. A participação dos militares, contudo, desagra-
dou membros dos bolcheviques, provocando uma cisão.
Leon Trotsky nasceu no dia 7 de novembro de 1879, na
Ucrânia, com o nome de Lev Davidovich Bronshtein, vindo “Trotsky era um homem polêmico, porque se realizava na
ao berço de uma família judia e próspera de fazendeiros. polêmica, no debate. Ele era polêmico porque foi um verdadei-
Aos 17 anos, Lev deixou a fazenda dos pais para entrar na ro revolucionário”, afirma o escritor cubano Leonardo Padura,
militância política. Aproximou-se das massas de operários que biografou a trajetória do intelectual no livro O homem que
do sul da Rússia e, aos 18 anos, já era um líder militante. amava os cachorros (Boitempo Editorial). “Trotsky foi essen-
Aos 19, foi preso pela primeira vez e exilado para a Sibéria. cial na tomada de poder pelos bolcheviques e, ao consolidar
No cárcere, entrou em contato com toda a obra de Marx e esse poder, foi importante negociador internacional e criador
Engels. Em 1902, depois de três anos preso, conseguiu fugir do Exército Vermelho”, explica Padura. Com a revolução con-
da prisão e obteve um passaporte falso com a identidade solidada depois de um longo trajeto de Trotsky com outros
que usaria até a morte: Leon Trotsky. revolucionários percorrendo de trem toda a Rússia, o amigo
“Os revolucionários de então, sobretudo os russos, usavam Lênin se torna líder do Partido Comunista, enquanto Trotsky
pseudônimos para escapar da violenta e implacável repressão foi nomeado Comissário de Guerra, mesmo contra a vontade
dos governos em diferentes estados europeus. Um dos países de bolcheviques que não gostavam do fato de o intelectual ter
mais repressores era então a Rússia czarista”, explica o histo- pertencido aos mencheviques.
riador do Instituto de História (IH) da Universidade Federal do
Começava ali uma caçada ideológica que culminaria no
Rio de Janeiro (UFRJ) e membro do Conselho Editorial do site
assassinato, em 1940, de Trotsky, há 75 anos. Em O assassi-
Marxismo21, Ricardo Figueiredo de Castro. A partir de 1902,
nato de Trotsky e a lata de lixo da história, programa especial
após fugir da prisão política na Sibéria, Lev adota o pseudô-
do Observatório da Imprensa que foi ao ar em agosto na
nimo Trotsky e muda-se para Londres, onde se encontra com
TV Brasil e está disponível na internet, Alberto Dines abre
Lênin e outros revolucionários russos que, no exílio, editavam
o registro lembrando: “Foi um assassinato tenebroso, mas
o jornal socialista Iskra. Vladimir Lênin, pouco mais velho que
foi, sobretudo, uma tragédia política que marcou profun-
Trotsky, dirigia o Iskra, tradução de “centelha”, jornal político
damente o século passado e deixou feridas ainda não ci-
HISTÓRIA  MÓDULO 4

que idealizou enquanto também esteve preso na Sibéria.


catrizadas”. O nome do programa faz menção ao episódio
Lênin acreditava que a imprensa poderia funcionar como histórico, acontecido em outubro de 1917, quando os men-
organizador político da social-democracia entre os diversos cheviques se retiraram da sala onde acontecia a primeira
grupos marxistas e, posteriormente, como agitador social para reunião dos sovietes. Teriam ouvido de um Trotsky enfure-
se fazer a Revolução. Por isso o nome de “centelha”, como se cido: “Vocês serão varridos para a lata de lixo da história!”.

26
A perseguição stalinista perseguidos, isolados e rejeitados pelo movimento comu-
nista internacional até pelo menos o fim da URSS”, expli-
Joseph Stalin, que na Revolução Russa ocupou papel im-
ca Ricardo. O escritor Padura lembra que ficou sabendo da
portante como operador da máquina partidária, foi um dos
existência de Trotsky somente na universidade. Desde en-
membros dos bolcheviques que não gostou da nomeação de
tão, passou a se interessar pela vida do intelectual.
Trotsky como Comissário de Guerra. A cisão entre os dois lí-
deres se intensificaria ao longo da criação da União das Repú- “Meu interesse na figura de Trotsky é muito antigo, des-
blicas Socialistas Soviéticas (URSS), surgida em 1922. Neste de meus tempos de universitário, quando me dei conta de
mesmo ano, Lênin contraiu uma doença e, prevendo a morte, que Trotsky havia existido, mas não havia nada sobre ele
que aconteceria em 1924, manifestou apoio a Trotsky na sua nas aulas de História e Filosofia que recebíamos. Um dia, fui
sucessão de poder, intensificando o ódio de Stalin ao compa- à biblioteca e encontrei livros sobre ele: Trotsky, o traidor e
nheiro de partido e aos membros trotskistas. “Trotsky foi um Trotsky, o falso profeta, ambos escritos por autores coletivos
dos mais importantes marxistas e revolucionários do século da URSS. Quem era esse homem tão terrível? Assim desper-
XX. Além disso, liderou na URSS, e depois internacionalmen- tou o meu interesse por ele”, conta o cubano.
te, a resistência ao projeto de Stalin de construir o socialismo
O México da década de 1930 tinha forte influência do
dentro das fronteiras da União Soviética (‘socialismo em um
Partido Comunista, sendo que o próprio casal de pintores
só país’) e deixar de lutar diretamente pela revolução mun-
Frida Kahlo e Diego Rivera havia passado pela filiação polí-
dial, defendida por Trotsky através da teoria da ‘revolução
permanente’”, explica o historiador Ricardo Figueiredo. tica. Em razão das notícias e especulações que a imprensa
stalinista forjava sobre a figura de Trotsky, lembrada acima
Durante o funeral de Lênin em Moscou, Stalin se apro- por Padura, a chegada do intelectual levantou suspeita entre
veitou de uma viagem de Trotsky por motivos de saúde para alguns membros do partido mexicano. Diante do isolamento
explorar na imprensa, já na época sob o controle stalinista, a e desconfiança, Frida se propôs a receber Trotsky e a mulher
ausência do rival no evento. Quando Trotsky voltou ao país, Natalia em sua própria casa, no bairro de Coyoacán. Um cur-
já era tarde: Stalin havia tomado o poder do Partido Comu- to envolvimento amoroso entre a pintora e o revolucionário,
nista e, em 1927, dez anos após a Revolução Russa, Trotsky contudo, fez com que o casal se mudasse para uma casa há
foi processado como traidor, expulso do partido, exilado e alguns quarteirões da de Kahlo. Para Padura, o que Stalin
expatriado pela terceira vez para a Sibéria. No exílio, o revolu-
sentia por Trotsky não era ódio; era medo. “A direita o temia e
cionário divulgou ao New York Times o testamento de Lênin,
Stalin também. Trotsky caiu no meio de um fogo cruzado de
que defendia que sua sucessão deveria ser feita por Trotsky.
inimigos muito poderosos que fizeram o possível para con-
O documento repercutiu no mundo todo, mas Sta- dená-lo humana e historicamente”, afirma.
lin escondeu o fato da URSS por trinta anos. A partir desse
episódio, a vida de Trotsky nunca mais seria a mesma, per-
manecendo todo o resto da existência como refugiado em A foice e Trotsky
vários países. Em 1929, depois de várias investidas de Stalin, Um casarão de muros altos, guardado por homens ar-
o revolucionário deixa a Sibéria e consegue asilo político na mados e com os vãos das janelas fechados por tijolos. As-
Turquia, passando depois à França e à Noruega. Na perse- sim era a nova casa de Trotsky em Coyoacán; mas a vida ali
guição ao rival, Stalin mandou matar quase toda a família de dentro era simples: o intelectual plantava cactos e criava ga-
Trotsky, desde cunhados a filhos, restando vivos apenas a se- linhas. Entravam na casa somente amigos da família ou jor-
gunda esposa, Natalia, e o neto Esteban Volkov, hoje com 89 nalistas de confiança. No dia 21 de agosto de 1940, contudo,
anos. Em 1937, a família Trotsky consegue asilo no México, um homem vestindo um sobretudo preto, namorado de uma
depois de um pedido pessoal dos pintores Diego Rivera e Fri- amiga de Trotsky, entrou pela porta da frente e foi em direção
da Kahlo ao presidente mexicano Lázaro Cárdenas. à biblioteca da casa, onde ele escrevia. Surpreendido, Trotsky
Se a perseguição de Stalin a Trotsky não havia conse- levou no crânio um golpe certeiro de uma picareta empu-
HISTÓRIA  MÓDULO 4

guido matar o rival, o líder do Partido Comunista então se nhada pelo assassino, parecida com uma foice. O assassino
empenhou em literalmente apagar o revolucionário das de Trotsky passou os vinte anos a que foi condenado – na
páginas da história. “A participação de Trotsky na Revolu- época pena máxima no México – sem revelar sua verdadeira
ção Russa foi literalmente apagada da memória política da identidade. Mesmo assim, jornais do mundo todo aponta-
União Soviética e os seus seguidores, os trotskistas, foram ram Josef Stalin como o mandante do crime.

27
O dirigente comunista não se importou com as acusa- “Entrei na humanidade de Trotsky, na pessoa, o marido,
ções e o jornal oficial de Moscou, Pravda — criado em 1912 o pai, o avô. Encontrei um homem que era capaz de sentir e
pelos bolcheviques e pelo próprio Trotsky, mas que havia dar amor, mas que podia sacrificar tudo – inclusive sua própria
passado ao controle do governo com a ascensão de Stalin, vida – por sua vocação fundamental: a política e a revolução.
publicou editorial celebrando a morte do intelectual, cha- Porque, mesmo que trate de ver seu lado humano, sempre sal-
mando-o de “espião internacional”. Trotsky foi o último dos ta essa incontrolável paixão política que o motivou por toda a
revolucionários que lutaram na Revolução de Outubro de sua vida”, descreve Padura. “Foi um herói da Revolução? Pois
1917 a morrer, uma vez que, com a morte de Lênin, todos certamente foi. Agora, poderíamos ver quem teria sido esse
que lutaram a seu lado foram mortos. mesmo homem se tivesse tido em algum momento todo o
poder que teve Stalin. Mas isso é especulação, não é História.”
Após cumprir as duas décadas de pena e sem nunca
admitir ligação com a URSS, o assassino de Trotsky foi MODELLI, Laís. Leon Trotsky: política e revolução. Caros Amigos, 19 ago. 2016.
recebido pela Rússia assim que foi solto. Seu verdadeiro
nome foi revelado: Ramón Mercader. Nascido na Espanha,
GABARITO COMENTADO
o homem havia integrado grupos stalinistas e lutado na
Guerra Civil Espanhola. Apesar de Stalin nunca ter assu-
mido relação com Mercader, o assassino foi secretamente
condecorado em Moscou como herói da União Soviética DESENVOLVENDO HABILIDADES
e, em seguida, se mudou para Cuba, onde viveu até a mor-
te. A casa em que ocorreu o crime hoje é o Museo Casa 1 Alternativa b.
de Leon Trotsky, cuidada pelo único parente próximo de A pobreza, a fome e a miséria são agentes catalisadores
Trotsky ainda vivo, o neto Esteban, que ali também viveu. de processos revolucionários.
Foi Esteban quem encontrou o avô ensanguentado no
chão no dia 21 de agosto. O cômodo em que Trotsky foi 2 Alternativa c.
apunhalado é um dos mais afastados da entrada da casa, Revolucionário é o único que se enquadra na descrição.
escurecida por falta de janelas, como se todos os corredo- A proposta de ruptura e reconstrução é o que define o
res levassem ao local do assassinato. conceito de revolução. Todas as outras opções distorcem
A mesa em que trabalhava Trotsky e os seus escritos no o significado original dos conceitos ou não se relacionam
com os textos.
momento do crime permanecem lá até hoje. “Quando fui
a primeira vez ao México, visitei a casa de Coyoacán, onde 3 Alternativa a.
Trotsky havia sido assassinado, e senti uma forte comoção.
Comunismo e capitalismo se confrontaram na Revolução
Até ali havia chegado o braço de Stalin!”, conta Padura. “Um Russa, passando pela Guerra Fria, até o início dos anos
dia, anos mais tarde, quando soube que o assassino havia 1990. Essa disputa se tornou uma das características mais
vivido em Cuba, que eu poderia ter cruzado com ele em relevantes da história mundial no século XX.
uma rua de Havana, me aproximei da ideia de escrever o
livro.” O homem que amava os cachorros, livro aclamado pela 4 Alternativa e.
crítica, mistura ficção e realidade ao dar voz a Ramón Mer- Dentre outras propostas, a paz se destacava. A interrup-
cader e contar como o militante foi treinado por Stalin com ção da participação da Rússia na guerra era condição
uma única tarefa: matar Trotsky. Ao perseguir a história do para o início da recuperação de um país economicamen-
assassino de Trotsky, Padura também busca retratar o ho- te frágil e a cada dia mais devastado pelas demandas do
mem por trás do revolucionário. conflito.

ANOTA‚ÍES
HISTÓRIA  MÓDULO 4

28
LO
DU
Ó
M

5 A Europa e os Estados
Unidos nos anos 1920
OBJETOS DO CONHECIMENTO

> O mundo em conflito: a Primeira Guerra Mundial.


> A crise capitalista de 1929.

HABILIDADES

> Identificar as mudanças sociais da Belle Époque para o pós-guerra.


> Compreender e relacionar o declínio político e econômico da Europa com a ascensão econômica dos Estados
Unidos depois da Primeira Guerra Mundial.
> (EF09HI10) Identificar e relacionar as dinâmicas do capitalismo e suas crises, os grandes conflitos mundiais e
os conflitos vivenciados na Europa.
> Analisar o American way of life do ponto de vista econômico e cultural.
> Contrapor a crença de otimismo e desenvolvimento à existência de grupos excluídos desse processo e ressaltar
a existência de leis segregacionistas nesse período.

INTRODUÇÃO nhecem. É interessante que eles reflitam sobre como a le-


tra exalta Nova York e promove a ideia de que a felicidade,
o sucesso e os sonhos de uma pessoa podem ser conquis-
O objetivo principal deste módulo é analisar com os
alunos os impactos da Primeira Guerra Mundial nas socie- tados simplesmente pelo fato de ela estar naquela cidade.
dades europeia e estadunidense, refletindo sobre como Em seguida, pergunte aos alunos as impressões que
esse conflito promoveu profundas transformações, não eles têm dos Estados Unidos. Alguns podem já ter visi-
apenas econômicas e políticas, mas também culturais. tado o país, outros, não; o importante é que todos ex-
Além disso, compreender o que foi o American way of life pressem suas opiniões. Esclareça que os Estados Unidos
e como ele se tornou referência cultural nos Estados Uni- começaram a ter projeção mundial principalmente após
dos e em diversas partes do mundo. Ao mesmo tempo, a Primeira Guerra Mundial.
vamos destacar as limitações desse estilo de vida, anali- Com relação a esse tema, vale relembrar o evento
sando os grupos sociais que viviam à sua margem. e, principalmente, destacar e analisar as consequências
da Primeira Guerra Mundial para os países europeus. É
ESTRATÉGIAS DE AULA importante assinalar que o início do conflito contou com
MÓDULO 5

o apoio e até com certo grau de euforia das sociedades


europeias. Porém, o prolongamento da guerra, a morte
AULA 1 de inúmeros soldados e a grande destruição que ela pro-
HISTÓRIA

Para iniciar a aula, leia a letra da canção que consta na vocou fizeram com que, gradativamente, esse apoio fosse
introdução do módulo. Provavelmente, muitos alunos a co- transformado em horror.

29
Nesse contexto, destaque a situação da Alemanha, way of life. Desses grupos, podem-se destacar as mu-
que, além do cenário de destruição, foi considerada cul- lheres, os afrodescendentes, os imigrantes e os traba-
pada pela guerra e sofreu pesadas restrições políticas e lhadores pobres. Analise com os alunos as limitações e
econômicas com o Tratado de Versalhes. É importante os preconceitos que cada um desses grupos enfrentava
refletir sobre os diversos problemas enfrentados pela nessa época.
sociedade alemã nesse período e sobre como essas con-
dições contribuíram para criar a ideia de que o sistema AULA 3
liberal estava falido. Afinal, a ideia de que a Europa vivia
uma Belle Époque no início do século XX tinha se torna- Nesta aula, além de apresentar o quadro a seguir, so-
do uma ilusão após a guerra. Se julgar pertinente, suge- licite aos alunos que façam em sala de aula os exercícios
rimos que os alunos realizem os exercícios desta aula, das seções Aplicando o conhecimento e Desenvolvendo
disponíveis na seção Praticando o aprendizado. habilidades.

AULA 2 SUGESTÃO DE QUADRO


Nesta aula, é importante contrapor a situação das socie-
dades europeias com a da sociedade estadunidense. Se, por
um lado, a Europa saiu da guerra extremamente enfraque-
cida de diversas formas, por outro, esse cenário contribuiu PERÍODO ENTREGUERRAS
para a ascensão econômica e cultural dos Estados Unidos. (1919-1939)
Esclareça que esse quadro de crescimento econômi- EUROPA (1920): A CRISE DO LIBERALISMO
co contribuiu para o clima de euforia e progresso que ➜ Contexto
existia nos Estados Unidos nos anos 1920. Esclareça • Grande destruição material
também o que era o American way of life e como esse • Elevado número de mortes
estilo de vida estava intimamente ligado ao consumo. • Declínio econômico dos países europeus
Peça aos alunos exemplos que demonstrem como o • Profunda insatisfação social
consumo é um hábito que pode se tornar uma caracte- ➜ O caso da Alemanha
rística cultural de determinada sociedade. É importante
• O Tratado de Versalhes gerou graves repercussões
que eles percebam os problemas ocasionados pelo estí-
na sociedade alemã:
mulo ao consumo, como as desigualdades socioeconô- > culpou a Alemanha pela guerra
micas e os impactos ambientais. > provocou sentimento de ódio e humilhação
Também é interessante analisar com os alunos como > ocasionou uma crise econômica e social
a sociedade brasileira é influenciada por hábitos estadu-
nidenses na alimentação, no vestuário e na música. Essa EUA (1920): DA EUFORIA À CRISE
constatação permite que observem a dinâmica do pro- ➜ Anos de prosperidade econômica e cultural
cesso das trocas culturais. Promova um debate com a tur- • Grande crescimento econômico
ma sobre os pontos positivos e os negativos da influência > elevação dos salários
cultural estadunidense na atualidade. > aumento da produção de bens de consumo
Destaque que, no início do século XX, houve impor- • Expansão industrial
tantes transformações culturais, como o desenvolvi- • Euforia na agricultura
mento do cinema e a disseminação do jazz para diversas • Surgimento da sociedade de consumo de massa
partes dos Estados Unidos e do mundo. Peça aos alunos
MÓDULO 5

> American way of life


que reflitam também sobre a mudança nos hábitos da
> estilo de vida baseado no consumo
população nesse período.
• Surgimento e difusão do jazz
Aponte que apenas uma parcela da população esta- Desenvolvimento do cinema
HISTÓRIA


dunidense vivia esse clima de prosperidade e otimismo,
pois vários grupos sociais eram excluídos do American

30
KARNAL, L. et al. História dos Estados Unidos: das ori-

gens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2016.
O outro lado dos anos 1920
• O estilo de vida estadunidense não incluía SAVAGE, J. A criação da juventude: como o conceito de
> afrodescendentes teenage revolucionou o século XX. Rio de Janeiro: Rocco,
> imigrantes 2009.
> mulheres
> trabalhadores pobres TEXTO:
• Período de intolerância e racismo
>
O American way of life no cinema
Ku Klux Klan (KKK) – organização racista que
pregava a supremacia branca, perseguindo ne- de Hollywood, na imprensa e na sociedade
gros, judeus e imigrantes brasileiras dos anos trinta
Durante o século XX, o American way of life espalhou-se
pelos quatro cantos do mundo, sendo adotado, incorporado
e adaptado pelas mais diferentes culturas: do Japão ao Mé-
ATIVIDADE COMPLEMENTAR xico, do Leste Europeu ao Brasil. Os meios de comunicação
tiveram papel fundamental na disseminação desse modo
de vida, apresentando ao mundo suas características e seus
Sugerimos exibir para os alunos trechos de filmes
procedimentos, de modo sedutor e convincente. O cinema
com a temática do American way of life. Nesse caso, há
hollywoodiano tomou para si essa tarefa, de forma enfática,
duas produções recentes que problematizam o estilo de
no momento em que consolidou-se como uma indústria só-
vida estadunidense baseado no consumo: Foi apenas um
lida, produtora de filmes no processo de linha de montagem.
sonho (direção de Sam Mendes, EUA e Reino Unido, 2008
Isso ocorreu, de maneira contundente e definitiva, na década
[119 min]) e Amor por contrato (direção de Derrick Borte,
de 1930. Foi nesse período que o perfil industrial da produ-
EUA, 2009 [96 min]). Embora retratem momentos dife-
ção hollywoodiana se delineou de modo claro e incontestável,
rentes – o primeiro filme se passa na década de 1950 e o com seus alicerces fincados em um tripé constituído por um
segundo, nos anos 2000 –, ambos apresentam caracterís- modo de produção estabelecido para a feitura de filmes (o
ticas do American way of life e promovem uma reflexão sistema de estúdio) – que adequava o processo de realiza-
sobre os problemas relacionados a esse estilo de vida. ção de filmes a uma perspectiva capitalista de produção onde
Devido à indicação classificativa de cada um dos fil- a racionalidade e o planejamento eram empregados para que
mes, selecione trechos específicos que tratam da temá- o produto final, o filme, satisfizesse o objetivo de seus pro-
tica e realize um debate com os alunos acerca de suas dutores; por um sistema de mitificação de atores e atrizes (o
impressões sobre as obras e dos paralelos que podem star-system) – que fascinava o público consumidor e dava aos
ser estabelecidos em relação ao conteúdo estudado produtos da indústria cinematográfica todo um aparato pro-
neste módulo. mocional e de atração de massas; e por um código regulador
de mensagens veiculadas nos filmes (o Código Hays) – que
conseguia manter a harmonia entre Hollywood e as institui-
MATERIAL DE APOIO AO PROFESSOR ções guardiãs da moral da sociedade norte-americana.
Através da veiculação do modo de vida americano, pelo
LIVROS: cinema, tomamos contato com “a forma na qual”, segun-
do Louis Althusser, “a ideologia da classe dominante deve
ARRIGHI, G. O longo século XX: dinheiro, poder e as ori-
necessariamente realizar-se, e a forma com a qual a ideo-
gens do nosso tempo. Tradução de Vera Ribeiro; revisão
logia da classe dominada deve necessariamente medir-se e
MÓDULO 5

de tradução de César Benjamin. Rio de Janeiro: Contra-


afrontar-se”. Alia-se a isto o fato de que Hollywood desen-
ponto; São Paulo: Ed. da Unesp, 1996. volveu um modelo narrativo que lhe foi fundamental para
BEAUD, M. História do capitalismo de 1500 aos nossos a transformação de seu cinema em um eficiente veiculador
HISTÓRIA

dias. Tradução de Maria Ermantina Galvão Gomes Perei- de ideologia: trata-se da narrativa clássica. A construção de
ra. São Paulo: Brasiliense, 1987. tal modelo narrativo significou, segundo Ismail Xavier, “a

31
inscrição do cinema (como forma de discurso) dentro dos -se em inúmeros e duvidosos entroncamentos; a Bruxa
limites definidos por uma estética dominante, de modo a Má do Oeste desaparece em uma cortina de fumaça dis-
fazer cumprir através dele necessidades correlatas aos in- forme e a floresta onde está o seu castelo é repleta de for-
teresses da classe dominante”. mas tortuosas e assimétricas. Assim, é possível perceber
que o lar de Dorothy, os Estados Unidos, é o local onde a
Os filmes hollywoodianos da década de trinta, pro-
ordem (a lei) e a razão (as formas geométricas simples,
duto acabado da junção entre a ‘impressão de realidade’
e a ‘história de sonho’, preconizados pela narrativa clás- a aritmética) imperam. E O Mágico de Oz nos diz ainda
sica, possibilitaram a apresentação, para o público in- para nos contentarmos com este mundo da ordem e da
terno mas também para os públicos fronteiras afora, do razão, para não atravessarmos suas fronteiras em aven-
modo norte-americano de se viver a vida, sua maneira turas irracionais. É isto que o filme coloca quando, per-
de encarar problemas, suas soluções para eles, seu modo guntada pelo Homem de Lata sobre o que havia apren-
particular de alcançar a felicidade e seu próprio conceito dido naquela aventura, Dorothy responde: Se algum dia
de felicidade. As informações sobre esse modo norte-a- voltar a ir atrás dos desejos do meu coração novamente,
mericano de estar no mundo nos eram dadas tanto no não ultrapassarei os muros do meu quintal. E se o que eu
roteiro dos filmes, nas falas dos personagens, em suas estiver procurando não estiver lá, é porque nunca havia me
atitudes, como também na própria organização da ima- pertencido. Não é isso? E é Dorothy quem termina o filme
gem exibida, nos enquadramentos, na montagem, na com o emblemático “There is no place like home”, isto é,
mise-en-scène. Muitos são os exemplos da presença dos “Não há lugar melhor do que nosso lar”. Nem mesmo al-
signos do American way of life nos filmes hollywoodianos gum lugar além do arco-íris!
da década de 1930. Na aventura juvenil O Amor Encontra Andy Hardy
No clássico O Mágico de Oz (Victor Fleming – 1939), (George B. Seitz – 1938), encontramos um bom exemplo
elementos definitivos de exaltação da ordem, da raciona- do pragmatismo presente na sociedade norte-america-
lidade e do método, constituintes do American way of life, na: o adolescente Andy Hardy fica indignado quando
aparecem com especial destaque. Em função de uma or- um de seus amigos pede-lhe para namorar sua garota
dem escrita do xerife local, os tios de Dorothy não podem enquanto ele estiver fora, em férias, assim ela se man-
se furtar a entregar o cãozinho Totó à perversa srta. Gulch. teria distante dos outros rapazes. Andy reage dizendo
É ainda por ser cristã e respeitar os preceitos religiosos que isso seria uma safadeza terrível. Mas muda de ideia
que tia Em está impedida de falar poucas e boas à vilã. quando o amigo lhe oferece pagamento pelo serviço. O
Portanto, tanto a lei dos homens quanto a lei divina são plano próximo em que é filmada a sequência nos per-
respeitadas no Kansas (onde moram Dorothy e sua famí- mite perceber a mudança na expressão facial de Andy,
lia), nem que isso signifique o sofrimento de entes queri- conotando sua mudança de julgamento sobre a questão.
dos. O escritor Salman Rushdie atenta para o fato de que Com o pagamento, Andy julga que “isso fará a coisa fi-
“o mundo de Kansas, ... é moldado como ‘lar’ pelo uso de car mais respeitável. Apenas uma simples transação co-
formas simples e descomplicadas”. O quadro é preenchido mercial”. A atitude de Andy encontra sanção no modo de
por elementos geométricos simples como linhas retas ver- vida norte-americano, uma vez que ele aceita enganar a
ticais (postes e árvores) e horizontais (galhos), linhas pa- garota para conseguir os oito dólares que lhe faltavam
ralelas (cercas) e diagonais (compondo um portão), além para comprar seu carro (e ele pede ao amigo nada mais
de triângulos e círculos. Em uma outra sequência Dorothy do que os oito dólares necessários e as despesas). Uma
é impedida pelos tios de contar-lhes suas aflições em re- atitude de puro pragmatismo.
lação ao seu cãozinho, pois eles estão envoltos em uma
Em Os Três Porquinhos, desenho animado de Walt Disney,
atividade aritmética, estão contando os ovos produzidos
a exaltação do trabalho duro, feito com determinação e afinco,
por sua galinha poedeira.
marca importante presença. Enquanto dois dos porquinhos
HISTÓRIA  MÓDULO 5

O mundo de Oz, ao contrário, a começar pelo torna- constroem casas de palha e madeira, de modo displicente,
do que leva Dorothy até lá, é sinuoso, de formas irregula- cantando, dançando e tocando seus instrumentos, o terceiro
res. O início da ‘estrada de tijolos amarelos’, que Dorothy constrói sua casa de alvenaria, ciente da importância de seu
deverá percorrer para chegar ao Mágico, é uma espiral, trabalho e diz: construo minha casa de pedras, construo minha
sendo que logo depois deixa de ser retilínea para dividir- casa com tijolos. Não tenho oportunidade de cantar e dançar,

32
pois trabalho e diversão não se misturam. Assim, ele deixa claro formalizar contratos com grandes indústrias norte-ame-
ter feito sua opção pelo trabalho sério enquanto os outros con- ricanas para que seus produtos aparecessem em inúme-
tinuavam a cantar e a dançar. Ao final, veremos os frutos dessa ros filmes e para que a imagem das estrelas e os títulos
opção: enquanto os dois primeiros têm suas casas destruídas dos filmes lançados fossem utilizados nas campanhas
pelo Lobo Mau, e acabam colocando suas vidas em perigo, o publicitárias dos referidos produtos. Em Rua 42, quando
terceiro porquinho fica são e salvo em sua casa de tijolos, fruto um casal chega no apartamento do rapaz, faz-se um cli-
de seu trabalho sério e obstinado, onde acaba dando refúgio ma romântico: luz de abajur, som de violinos ao fundo, o
aos outros dois. rapaz vai até a cozinha abrir uma garrafa de vinho quan-
do, de repente, ele se dá conta de que tem uma flor na
O otimismo está presente em inúmeras produções
lapela, enche um copo com água, coloca a flor nele e os
hollywoodianas da década de trinta. O próprio happy end,
guarda na geladeira. Neste momento, o eletrodoméstico
indispensável ao final de cada filme, tem uma mensagem
ocupa boa porção da parte central da tela. É interessante
clara de que, não importa o que tenha acontecido, o final
notar que dos 13 segundos desta sequência na cozinha,
será sempre feliz. Em A Mulher que Soube Amar (George
onde o rapaz havia ido buscar bebidas, 11 segundos são
Stevens – 1934), o pai de Alice Adams (heroína do filme)
gastos com a ação de guardar a flor na geladeira. Flor
diz à filha: Quando você acha que vai ser encostado contra
que não tem importância nenhuma para a trama, tan-
a parede e não consegue ver nenhuma saída, não tem mais
to que, por um erro de continuidade, na sequência an-
nenhuma esperança, então alguma coisa com a qual você
terior, na sala de estar, ela simplesmente desaparece da
nunca contou acaba aparecendo. E você se livra por pouco e
lapela do rapaz enquanto este caminha de um canto da
continua a caminhada. Sem dúvida, este pequeno discurso
sala onde estava com a garota (e com a flor) até o inter-
do Sr. Adams parece ideal para uma audiência que ainda
ruptor de parede para apagar a luz. Um corte no meio
sofria, ou tinha viva na memória, as mazelas da Grande
desta pequena caminhada faz com que ele apareça perto
Depressão. Em suas poucas linhas, ele explicita o otimis-
do interruptor sem a flor na lapela. Seria possível arris-
mo fundamental ao American way of life, um otimismo in- car a afirmação de que esta sequência na cozinha pres-
gênuo (“alguma coisa com a qual você nunca contou acaba ta-se principalmente a apresentar a geladeira enquanto
acontecendo”) e determinado em seus objetivos (“você… eletrodoméstico capaz de conservar tudo, até algo tão
continua a caminhada”). delicado como uma flor. Tal afirmação se faz ainda mais
Ainda em A Mulher que Soube Amar temos alguns plausível se considerarmos o fato de que, em fevereiro de
exemplos da importância do sucesso material na vida 1933, a Warner Bros., juntamente com a GE – fornecedo-
yankee. Pertencente a uma família pobre, mas determi- ra dos eletrodomésticos utilizados nos filmes do estúdio
nada a ascender socialmente, a jovem Alice é sistemati- –, montou um trem inteiro chamado de Warner-GE Better
camente preterida pela juventude rica da cidade. Farta Times Special (Especial de Tempos Melhores Warner-GE ) –
dessa situação, a mãe de Alice vai queixar-se ao esposo, ocupado por muitas estrelas do estúdio, como Bette Davis,
dizendo: Do jeito que o mundo está agora, dinheiro é a famí- Tom Mix, Glenda Farrell, e que tinha, entre outras coisas,
lia e Alice poderia ter tanta família quanto qualquer outra. um vagão transformado em cozinha-modelo, equipada
Se você não tivesse sido derrotado no meio do caminho. A com eletrodomésticos da GE. Este trem percorreu o país,
sra. Adams completa: Os homens dessas famílias subiram de Los Angeles a Nova York, parando em várias cidades
direitinho a escada do sucesso, enquanto você continua um onde as estrelas faziam demonstrações dos produtos da
funcionário de escritório, naquele buraco velho. Ao retratar GE e, à noite, compareciam a uma pequena première de
a sra. Adams como uma mulher bondosa e preocupada Rua 42. Isto até 9 de março de 1933, quando chegaram
com o futuro dos seus, o filme sanciona seu discurso de em Nova York para a grande estreia do filme no Strand
valorização do sucesso material, dando às suas palavras Theater.
a honestidade e seriedade de alguém que fala com expe-
Em A Vingança de Bulldog Drummond (1937), toda uma
HISTÓRIA  MÓDULO 5

riência e boa vontade.


sequência é dedicada às utilidades da goma de mascar. O
Finalmente, temos o consumismo como traço do personagem-título, capitão da Scotland Yard, utiliza a goma
American way of life presente nos mais diferentes filmes de mascar, emprestada de um norte-americano presente na
hollywoodianos da década de trinta. A partir dessa épo- multidão, para resgatar uma caixinha de alianças caída em
ca, os principais estúdios de Hollywood começaram a um bueiro, e depois ouve, desse mesmo norte-americano,

33
que a goma mantém os dentes brancos e bonitos. Inúme- da ação (passar creme, retirá-lo com lenço) e o diálogo alerta
ros filmes dos anos trinta apresentavam uma elaborada de- a plateia para as vantagens do uso de cremes em substitui-
coração de interiores, com móveis modernos e arrojados. ção aos simples sabão e água. A cena acaba valendo como
Entre eles, filmes como O Picolino (Mark Sandrich – 1935), uma boa peça publicitária para o uso de cremes faciais!
Cupido É Moleque Teimoso (Leo McCarey – 1937), Levada
Durante a década de trinta, firmaram-se modos de
da Breca (Howard Hawks – 1938), A Oitava Esposa do Bar-
filmar que centravam-se primordialmente no indivíduo:
ba Azul (Ernst Lubitsch – 1938) têm seus personagens mo-
atrelou-se o movimento de câmera ao movimento dos
rando em confortáveis apartamentos, indicando um estilo
personagens no quadro; a prática do reenquadramento
moderno de moradia.
(reframing) tornou-se norma, o que fazia com que o per-
O consumo de cosméticos também teve em Hollywood sonagem retratado permanecesse a maior parte do tem-
uma de suas colunas de sustentação. A imagem das estrelas po no centro do quadro, salientando a importância do
de Hollywood e o uso de cosméticos estão até hoje intima- indivíduo dentro da narrativa. Os filmes de gangster, bas-
mente ligados. Centenas de peças publicitárias já usaram tante populares naquela década, apesar de reservarem
estrelas hollywoodianas como garotas-propaganda para sa- uma punição trágica e exemplar para seus personagens
bonetes, produtos para maquilagem, desodorantes e outros principais, não deixavam de retratar a ascensão social de
produtos de toucador. Quem não se lembra da frase “Nove indivíduos que, via de regra, oriundos das classes mais
entre dez estrelas usam Lux” veiculada na publicidade do sa- populares alcançavam o sucesso e a fortuna – eram os
bonete da Gessy Lever que na década de trinta chamava-se selfmade men do mundo do crime e que, por seus méto-
apenas Sabonete Lever e já utilizava o mesmo bordão? Em dos proscritos, obtinham a punição final. Inimigo Público
meados dos anos trinta, os cosméticos perdiam apenas para (William A. Wellman – 1931) e Scarface – a Vergonha de
alimentos em quantias gastas com publicidade, e os filmes uma Nação (Howard Hawks – 1932) são exemplos desse
faziam parte desse ciclo de influência para o consumo. tipo de filme.
Em Tarzan, O Homem Macaco (W. S. Van Dyke – 1932), Dentre os filmes que lançam nas mãos de persona-
Jane chegava ao coração da África para visitar o pai, o co- gens individuais o destino e a felicidade de um grande nú-
merciante James Parker, vinda diretamente de Londres e, mero de pessoas temos Rua 42, Irene, a Teimosa (Gregory
depois de fazer instalar sua bagagem numerosa na cabana La Cava – 1936) e As Aventuras de Robin Hood (Michael
precária do pai, ela começava a passar um creme no ros- Curtiz, William Keighley – 1938) como bons exemplos.
to para depois removê-lo cuidadosamente com um lenço.
[…]
Durante esta ação, que é mostrada com a atriz Maureen
GONÇALVES, Mauricio Reinaldo. O American way of life no cinema de Hollywood,
O’Sullivan ( Jane) olhando diretamente para a câmera – na imprensa e na sociedade brasileiras dos anos trinta. Universidade de Sorocaba.
como se esta fosse seu espelho –, Plano Próximo, câmera Disponível em: <www.brasa.org/wordpress/Documents/BRASA_IX/
Mauricio-Goncalves.pdf>. Acesso em: 27 ago. 2019.
plana e parada, ela e o pai – que a observa ao fundo do
quadro – travam o seguinte diálogo:
Sr. Parker: Ei, o que você está tentando fazer? GABARITO COMENTADO
Jane: Limpar meu rosto.
Sr. Parker: E o que há de errado com sabão e água? DESENVOLVENDO HABILIDADES
Jane: Tudo, querido. O creme me deixa com pele de
1 Alternativa d.
colegial.
A questão pede aos alunos que reflitam sobre a situação
Pode-se argumentar que a cena contribui para a cons- da sociedade alemã após a Primeira Guerra Mundial (1914-
trução do personagem de Jane, mostrando a garota delicada -1918). Além de ter sofrido grandes perdas humanas e ma-
e refinada da metrópole que, até o final do filme, acabará teriais, a Alemanha foi considerada, pelos países vencedores,
HISTÓRIA  MÓDULO 5

optando por viver no meio da floresta africana, com o selva- culpada pela guerra e, por isso, deveria arcar com os custos
gem e “quase símio” Tarzan. No entanto, a própria constru- do conflito. Desse modo, a Alemanha, na década de 1920,
ção da cena, com o posicionamento da câmera no lugar do enfrentou uma situação difícil em razão dos graves proble-
espelho e a atriz olhando diretamente para ela, faz com que mas sociais, econômicos e políticos. Portanto, a alternativa
se dê um destaque maior aos passos que ela dá na execução que melhor demonstra essas condições é a d.

34
2 Alternativa a. estilo de vida não acabaram com os problemas sociais e
A questão apresenta uma imagem com mulheres portando econômicos que grande parte da população estadunidense
cartazes em defesa do voto feminino e pede aos alunos enfrentava. Além disso, o American way of life estimula
que identifiquem a alternativa que melhor caracteriza a sobremaneira o consumo, pois, de acordo com esse estilo
situação das mulheres estadunidenses na década de 1920. de vida, consumo é sinônimo de felicidade. Dessa forma,
Embora as mulheres tenham conquistado o direito ao voto a resposta correta é a alternativa c.
e o acesso ao mercado de trabalho, a condição feminina
ainda era marcada por restrições e preconceitos. Desse 4 Alternativa d.
modo, a alternativa a é a que explica melhor a situação A questão apresenta uma notícia de jornal acerca da vio-
das mulheres nesse período. lência policial em relação aos afrodescendentes nos dias
atuais. Desse modo, podemos constatar que, embora os
3 Alternativa c. afrodescendentes tenham conquistado direitos ao longo
O texto apresenta uma crítica ao chamado American way do tempo, o preconceito racial ainda está presente nos
of life, pois afirma que as transformações oriundas desse Estados Unidos. Por isso, a alternativa correta é a d.

ANOTAÇÕES

HISTÓRIA  MÓDULO 5

35
LO
DU
Ó
M

6 A crise de 1929 e seus


desdobramentos
OBJETOS DO CONHECIMENTO

> O mundo em conflito: a Primeira Guerra Mundial.


> A crise capitalista de 1929.

HABILIDADES

> Compreender os fatores que contribuíram para a crise de 1929.


> (EF09HI12) Analisar a crise capitalista de 1929 e seus desdobramentos em relação à economia global.
> Refletir e entender os impactos econômicos e sociais da crise nos Estados Unidos.
> Entender o papel do Estado nesse contexto de crise e identificar as principais medidas do New Deal.
> Identificar os efeitos da crise na Alemanha e no Brasil.
> Entender os motivos de a União Soviética não ter sido atingida pela crise.
> Analisar como esse episódio contribuiu para a falência dos ideais liberais.

INTRODUÇÃO processo cíclico em andamento durante a crise, as so-


luções propostas nos Estados Unidos e no mundo são
fundamentais para a compreensão do funcionamento
Este módulo objetiva a construção de um olhar sobre do capitalismo nos dias de hoje, principalmente no que
diz respeito às crises desse sistema no século XXI.
a história dos Estados Unidos para além de sua dinâmica
interna e do heroísmo frequentemente exaltado em fil-
mes e séries. Fugindo do senso comum, é preciso inserir a ESTRATÉGIAS DE AULA
crise estadunidense em uma conjuntura mais ampla, não
apenas em relação às suas causas, mas também em rela- AULA 1
ção às suas consequências.
Inicie a primeira aula com a apresentação do caráter
O panorama internacional e o aprofundamento em
cíclico da economia capitalista. Sugerimos comentar a
casos específicos, como o do Brasil e o da Alemanha, crise de 2008, tratado na seção Para começar. O obje-
MÓDULO 6

permitirão uma percepção mais ampla das questões tivo é explicar aos alunos a lógica de funcionamento do
enfrentadas por esses países. A noção de que essa cri- sistema capitalista liberal, enfatizando os conceitos de
se se relaciona com um momento de afirmação do so- lei de oferta e procura e de não intervenção do Estado
HISTÓRIA

cialismo soviético também auxilia na compreensão do na economia. Esses conceitos são fundamentais para a
processo de bipolarização mundial. E, ainda, sobre o compreensão da crise.

36
Feita a introdução, retome a conjuntura do pós-guer- vestimentos internacionais e diminuíram radicalmente
ra, que tornou os Estados Unidos o coração do capitalis- sua pauta de importações. O esforço de evitar a fuga de
mo mundial e estabeleceu a dependência de outros paí- capital, associado à repatriação dos investimentos, pro-
ses em relação a essa potência econômica. Nesse ponto, vocou a internacionalização da crise.
é fundamental mostrar a condição dos Estados Unidos
de fornecedor de capital e produtos industrializados e
também o de grande consumidor, principalmente dos
AULA 3
produtos primários que alimentavam sua indústria. Esta aula retoma a internacionalização da crise,
com ênfase no caso da Alemanha, que teve a ajuda
AULA 2 econômica (oferecida pelos Estados Unidos) inter-
rompida. Esclareça para os alunos que isso trouxe
Para o início da segunda aula, sugerimos apresentar consequências políticas importantes para a história
a dinâmica da crise, partindo da recuperação europeia daquele país e do mundo. É fundamental também
e da consequente diminuição do consumo de produtos abordar o impacto da retração de gastos dos Esta-
estadunidenses. dos Unidos na economia brasileira, apontando 1929
A superprodução e o subconsumo, iniciados com a como o ano de maior crise de superprodução do café
recuperação europeia, provocaram uma queda de lu- nacional, uma vez que o maior comprador, os Estados
cros nos Estados Unidos. Apresente aos alunos as op- Unidos, diminuiu drasticamente seu consumo. O Bra-
ções que os empresários teriam para uma compensação sil também viveu os desdobramentos políticos dessa
imediata dessa queda dos lucros: o aumento de preços crise.
só pioraria a situação de superprodução e subconsumo, No momento final da aula, promova um debate
pois já não havia condições de consumo. Ao mesmo sobre as soluções aplicadas nos Estados Unidos. Uma
tempo, os estoques precisavam ser esvaziados e a pro- vez compreendido que as propostas liberais se mostra-
vável solução seria a diminuição dos preços finais, resul- vam pouco eficazes para o combate à crise, seus eleitores
tando em uma queda dos lucros. Mas a estratégia que abraçaram a proposta pouco ortodoxa de um candidato
se apresentou como a mais veloz e compensatória para que prometia trazer a solução para o país: Franklin D.
essa situação foi o corte de gastos, com a demissão de Roosevelt. Sem abandonar o capitalismo, Roosevelt reco-
trabalhadores no primeiro momento. nheceu a necessidade da atuação de um Estado que fosse
Esse corte pareceu um alívio aos empresários, no capaz de acelerar a recuperação econômica. Era preciso
entanto, ele também foi responsável por trazer a ques- fomentar o crescimento, injetar capital para o reaqueci-
tão do subconsumo, que havia se iniciado na Europa, mento, estimular a geração de empregos e controlar a
para o ambiente estadunidense, porque a partir desse produção sem abrir mão do capitalismo. Assim, surgiu
momento o mercado interno começou a encolher. uma nova teoria capitalista baseada nos princípios de
Explique aos alunos que se formou um ciclo interno J. M. Keynes: o keynesianismo.
de desemprego: a queda do consumo provocou o decrés- Explique aos alunos que, inspirado nessa nova teoria,
cimo dos lucros, compensado com mais demissões, o que Roosevelt lançou o New Deal, que consistiu em diversas
só aprofundou o subconsumo. medidas aplicadas para recuperação econômica. Enfatize
Uma vez compreendido o ciclo, é preciso construir o efeito de cada uma das medidas sobre o ciclo de crise.
com os alunos o cenário resultante desse quadro com As grandes obras públicas patrocinadas pelo governo gera-
base nos efeitos imediatos da crise. A Bolsa de Valores riam empregos e o controle da produção industrial e agrí-
de Nova York quebrou com a queda do valor das ações cola frearia a superprodução. Para estimular as empresas
HISTÓRIA  MÓDULO 6

e a corrida desesperada dos investidores que tentavam a contratar, o governo ofereceria crédito a juros baixos, e,
vender seus papéis. O desemprego cresceu sem inter- para aumentar a capacidade de consumo dos trabalha-
rupção aparente, empresas entraram em falência, ban- dores, foi criado um Estado de bem-estar social, com leis
cos executaram hipotecas de casas e fazendas e, em trabalhistas e estímulo ao sindicalismo. Trabalhadores mais
meio à crise, os Estados Unidos interromperam os in- bem protegidos teriam maior força para negociar melhores

37
salários, aumentando sua capacidade de consumo, exata- pela ascensão nazista na Alemanha. Se julgar pertinente,
mente do que os Estados Unidos precisavam naquele mo- as aulas podem ser apresentadas de acordo com a suges-
mento. O estilo de vida estadunidense (American way of tão do quadro a seguir.
life) e toda a capacidade de consumo eram revitalizados. Ao final, solicite aos alunos que façam em sala de aula
Apresente rapidamente os caminhos trilhados no res- os exercícios das seções Praticando o aprendizado, Apli-
tante do mundo, passando pelo Golpe de 1930 no Brasil e cando o conhecimento e Desenvolvendo habilidades.

SUGESTÃO DE QUADRO

CRISE DE 1929 – DESDOBRAMENTOS

PANORAMA INTERNACIONAL ➜ Suicídios


➜ Europa arrasada ➜ Fazendas hipotecadas são tomadas pelos bancos
➜ EUA em ascensão ➜ Retração dos investimentos externos

PANORAMA ESTADUNIDENSE INTERNACIONALIZAÇÃO DA CRISE


➜ Euforia dos anos 1920 ➜ Crise do café no Brasil
• Mercado europeu (aparentemente) cativo
➜ Fim do Plano Dawes na Alemanha
• Mercado interno crescente
➜ União Soviética foi a menos afetada
• Propaganda (estímulo ao consumo)
• Popularização dos investimentos na Bolsa AS SOLUÇÕES
• Intensificação da sociedade de consumo (American ➜ Nos Estados Unidos
way of life)
• Vitória de Franklin D. Roosevelt, candidato de-
• Crescimento industrial e agrícola mocrata que propunha uma saída alternativa da
crise
A CRISE

• New Deal (1933)
Recuperação europeia queda do consumo de
produtos dos Estados Unidos > Estado keynesiano (intervencionismo estatal)
➜ Início da crise > Controle sobre a produção agrícola e industrial
➜ Superprodução/subconsumo queda dos lucros > Welfare state (aposentadoria, seguro-desem-
desemprego subconsumo prego, férias remuneradas)
➜ É formado um círculo vicioso, que, dentro da lógica > Incentivo ao sindicalismo
econômica liberal vigente, não seria superado com > Oferta de crédito
a ajuda do Estado
> Obras públicas (pontes, hidrelétricas, monu-
➜ A desaceleração econômica logo se transformou em
mentos, estradas)
retração e teve como principal consequência a que-
➜ No Brasil
bra da Bolsa de Nova York
• Golpe de 1930
MÓDULO 6

IMPACTO NA SOCIEDADE • Políticas de compra e queima do café


➜ Falências ➜ Na Alemanha
➜ Desemprego • Ascensão do nazismo
HISTÓRIA

38
ATIVIDADE COMPLEMENTAR dos haviam conquistado uma posição de centralidade
econômica diante do restante do mundo, que também
foi afetado por ela. O efeito dominó simbolizado pelas
Apresente aos alunos as charges a seguir e fomente charges mostra o estrago provocado pela crise de 1929
um debate em sala de aula sobre a construção das es-
no mundo. Até hoje, esse efeito se aplica a muitos outros
truturas econômicas que tornaram o mundo capitalista
momentos econômicos – positivos e negativos – que os
tão suscetível às crises econômicas estadunidenses após
Estados Unidos vivem e influenciam as demais economias
a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
do mundo.

MATERIAL DE APOIO AO PROFESSOR

LIVROS:
GALBRAITH, J. K. 1929 – A grande crise. São Paulo: La-
rousse, 2010.
MARTINHO, F. C. P.; LIMONCIC, F. Os intelectuais do anti-
liberalismo. São Paulo: Civilização Brasileira, 2010.
_______. A Grande Depressão. Política e economia na
© Ivan Cabral/Acervo do cartunista
década de 1930. São Paulo: Civilização Brasileira, 2009.

SITE:
SIMULADOR de compra e venda de ações. Disponível em:
<http://www.simulabolsa.com.br/login.php>. Acesso
em: 2 set. 2019.
Simulador de investimentos da Bolsa de Valores que
pode ajudar no exercício de entendimento dessa
instituição. Válido para professores e para alunos.
© Bruno Galvão/Acervo do cartunista

TEXTO:

A Crise de 1929 e seus reflexos no Brasil: a


repercussão do crack na Bolsa de Nova York
na imprensa brasileira
Introdução
É importante que os alunos compreendam a origem Esse texto tem como objetivo central apresentar os re‑
histórica da problematização das charges, que estão re- sultados parciais de uma pesquisa mais ampla (Cidades re-
fletidas: industrialização, urbanização e imprensa no Brasil
lacionadas à dependência criada após a Primeira Guerra
republicano). Neste recorte, serão analisados os principais
Mundial. Naquela ocasião, os Estados Unidos represen-
aspectos econômicos e políticos da Crise de 1929 e suas re‑
tavam a principal economia capitalista do mundo, uma percussões no Brasil. Em um segundo momento, iremos nos
vez que seu território não havia sido atingido pelos efei- deter na forma como a imprensa brasileira repercutiu o crack
HISTÓRIA  MÓDULO 6

tos da guerra. da Bolsa de Nova York.


A relação de intensas trocas financeiras e de pro- Esse tema se justifica porque a Grande Depressão desen‑
dutos tornou a Europa profundamente dependente cadeada pela “quebra” da Bolsa de Nova York desarticulou
da economia estadunidense, o que ficou perceptível completamente o mercado mundial. Foi um teste para o
em 1929. A mesma crise mostrou que os Estados Uni- capitalismo (REZENDE, 2008), que teve, entre as suas conse‑

39
quências, a mudança das políticas econômicas vigentes an‑ Depois da Primeira Guerra Mundial, enquanto a Euro‑
tes de 1929, tanto em níveis internos como externos. O Brasil, pa se recuperava e retomava vagarosamente o crescimento
sendo um país agroexportador, sofreu fortemente com o co‑ econômico e financeiro, os Estados Unidos, excetuando‑se
lapso econômico e procurou alterar a sua estrutura e política os anos de 1920‑22, cresceu continuamente na década de
econômicas como forma de reação à crise (FURTADO, 1963). 1920 até 1929 (REZENDE, 2008, p. 202). Cyro Rezende (2008)
elenca como motivos do desenvolvimento econômico e fi‑
Estudar a forma como a grande imprensa brasileira
nanceiro dos EUA as altas taxas de acumulação de capital
abordou o crack na Bolsa de Nova York é de fundamental
e investimentos, o crescimento demográfico, a expansão
importância, porque nos ajuda a compreender: a) como do crédito, o reforço de sua posição hegemônica mundial,
esse episódio repercutiu fora dos debates econômicos efe‑ a condição de primeiro produtor mundial de carvão, eletri‑
tuados por técnicos em economia e formuladores de polí‑ cidade, petróleo, ferro e aço fundidos, metais não ferrosos e
ticas públicas; b) qual a posição dos jornais sobre o tema. fibras têxteis e, por fim, um balanço de pagamentos sempre
O presente artigo irá se focar na imprensa carioca e pau‑ favorável (grande exportador mundial). Além disso, podem
lista, através de quatro jornais que, conforme hipótese de‑ ser ainda mencionados o pioneirismo do consumo de massa
fendida aqui, representariam linhas doutrinárias diferentes: de bens duráveis, a incorporação de tecnologias modernas
Jornal do Brasil, Correio da Manhã, O Globo e O Estado de e a “administração científica” sistematizada por Frederick
S.Paulo. Nossa preocupação maior é averiguar qual a per‑ Taylor: o fordismo. Tudo isso gerava um incremento produti‑
cepção desses jornais sobre o crack da Bolsa de Nova York. A vo que afetava a Nação como um todo, embora a distribuição
análise se deterá entre os dias 24 de outubro de 1929 e o final da renda não fosse obrigatoriamente equivalente em todos
de 1930, pois a pesquisa não se concentrou apenas na “que‑ os estratos sociais (PARKER, 2009, p. 30‑31).
bra” da Bolsa, mas se estendeu pelo ano de 1930, a fim de Entretanto, nesses próprios elementos, que geraram o
verificar se os jornais trabalhados ligaram de alguma forma crescimento econômico e financeiro, já se encontravam,
o evento da queima do café com a crise mundial em curso. em germe, os aspectos que acabariam desencadeando a
grande crise ou mesmo agravando‑a após sua irrupção.
Para desenvolver o presente trabalho, optamos por ana‑
lisar, de forma comparativa, como a imprensa estudada: a) Articulações para a Crise
visualizou a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, b) pro‑
curou dar uma explicação para a origem e/ou causa da mes‑ Com o final da Primeira Guerra Mundial, o eixo eco‑
nômico mundial já havia se transferido da Europa para a
ma e, por fim, c) os reflexos desse fato no Brasil e no mundo.
América do Norte. O modo como os encargos para repara‑
Essa divisão em grandes categorias‑chave permite‑nos formar
ção dos danos causados pela Guerra foram impostos à Ale‑
um panorama geral sobre a visão dos jornais acerca do tema.
manha marcou a trajetória econômica da década de 1920.
Por fim, vale recordar que, para a abordagem desse material,
Em 1924, a Europa já estava basicamente recuperada e os
foi utilizada a metodologia da Análise Textual Discursiva,
países já haviam retomado – ou quase – os índices de 1914.
com base nos escritos de Laurence BARDIN (2011) e Roque
Mas as relações econômicas e financeiras não se configura‑
MORAES (2003), a qual é considerada mais adequada para
ram nas mesmas linhas do pré‑guerra.
compreender o conteúdo discursivo em séries longas, com
base no processo de categorização. Nos Estados Unidos, nos anos 1920, entretanto, toda sua
prosperidade estava colocada sobre bases frágeis. Pode‑se as‑
Mundo Pré-1929 sinalar que “o crack da Bolsa de Valores foi resultado de uma
década de desenvolvimento econômico, onde as curvas da
A economia nos anos anteriores à Depressão transcorria oferta e da demanda se afastavam cada vez mais, tentando
sob a égide do capitalismo comercial ou liberal, caracterizan‑ ser aproximadas por vultosos financiamentos ao consumo”
do‑se por uma forte desregulamentação, ao compararmos (REZENDE, 2008, p. 208). Aliado a grandes ondas especula‑
com os parâmetros atuais. Não havia controle por parte do tivas no mercado de ações, o que foi facilitado, novamente,
HISTÓRIA  MÓDULO 6

Estado sobre o capital, sobre os tipos de investimento ou so‑ pelo crédito ampliado. O agravante era que muitos capitais
bre o comércio. Havia muita concorrência, porém, com baixa europeus estavam migrando para a Bolsa de Nova York, o
produção em cada fábrica. Outro elemento próprio ao perío‑ que era agravado pelo fato de o balanço de pagamentos po‑
do era o baixo controle do poder público sobre a entrada e sitivo dos EUA implicar em pouco dólar em circulação no
saída de dólares dos países (FRIEDEN, 2008). mercado mundial. Em consequência, o impacto mundial do

40
crack da Bolsa foi muito expressivo, pois, em 1929, os EUA re‑ porém, demonstrou‑se mais grave e a receita ortodoxa insu‑
presentavam 45% da produção industrial mundial e 12% das ficiente para dar saída à crise que se avolumava.
importações mundiais, além de terem sustentado, até então, Em Harvard, as discussões eram acaloradas, com os
por empréstimos e investimentos de capital, a recuperação mais jovens, como Keynes e Harry Dexter White, desafian‑
europeia da Primeira Guerra Mundial. Diante da perspecti‑ do a ortodoxia liquidacionista. A maioria dos industriais e
va de crise, os acionistas fizeram o possível para vender suas o governo achavam que a solução estava em “dívida pública
ações, o que provocou um acelerado declínio, levando à que‑ baixa, impostos baixos e interferência mínima do gover‑
da nos investimentos, na produção e no emprego. A “Quinta‑ no”. Keynes, pelo contrário, acreditava que era necessário
Feira Negra” – 24 de Outubro de 1929 – foi o ápice de vários ampliar a oferta monetária através de gastos do governo,
abalos que já vinham ocorrendo desde o início do ano. para o que seria fundamental a intervenção estatal, ou seja,
pregava uma solução mais radical baseada no aumento da
A Grande Depressão liquidez, enquanto os clássicos pregavam pela poupança
As economias mundiais já haviam passado por outras (PARKER, 2009, p. 284). Hoover se via em meio a estas duas
crises cíclicas, porém, nenhuma com a proporção que to‑ escolas, com teorias econômicas opostas (PARKER, 2009,
mou a crise de 1929. Cyro Rezende aponta as seguintes p. 73). A forte predominância do ortodoxismo econômico
consequências imediatas à crise: falências, desemprego, de‑ pôde ser perceptível pelos relatos que Galbraith (1972) re‑
clínio de salários, declínios nos preços dos produtos (defla‑ colheu, os quais demonstravam que, às vésperas do crack
ção), pobreza que gera subalimentação, construção de fave‑ da bolsa, os homens de negócios gritavam a todo pulmão
las ao redor dos centros industriais, agitação social, recuo que a prosperidade iria continuar e que a nação americana
da produção, do comércio e das finanças em nível mundial poderia ficar segura, pois a prosperidade estava assentada
(REZENDE, 2008, p. 209‑210). Mas os efeitos não foram ape‑ em bases sólidas (CANO, 2012, p. 127).
nas momentâneos. Eles perduraram vários anos. Havia ainda uma forte discussão quanto aos fatores
Em 1932, a produção industrial havia caído 50%, o in‑ que teriam originado a crise, os quais podemos resumir em
vestimento não era suficiente para reparar o parque in‑ linhas doutrinárias distintas: a) a explicação baseada na
dustrial instalado e o sistema bancário desmoronou (entre Bolsa de Valores e em fatores monetários, segundo a qual
1929 e 1933 quebraram mais de dez mil bancos). O número o crack foi resultado do auge especulativo desencadeado na
de desempregados passou de quatro milhões, em 1929, para Bolsa de Valores, decorrente da expansão monetária e de
treze milhões, em 1930 – 25% da força de trabalho (SCIRI‑ crédito; b) explicações centradas nos fatores reais da eco‑
CA, 2009 p. 171). O setor mais afetado foi o agrário, que nomia, ou seja, na concepção, por exemplo, de que a crise
englobava 25% da população. A indústria pesada também se desencadeou pelo subconsumo; c) por fim, a explicação
recebeu um duro golpe pela insuficiência de demanda. defendendo que a crise foi de superprodução.
Uma vez ocorrida a crise, cessaram os empréstimos efetua‑ Contudo, apenas após os governos norte‑americanos
dos pelos Estados Unidos, assim como ocorreu uma diminuição e europeus observarem que as medidas ortodoxas não es‑
drástica no volume de importações. As medidas protecionistas tavam resolvendo a crise em 1932/33, são tomadas as pri‑
norte‑americanas, adotadas já em 1930, que fizeram um blo‑ meiras medidas de cunho não ortodoxo. Todas com um
queio em torno do mercado interno deste país, estrangularam fundo comum: a intervenção do Estado para solucionar o
o “maior negócio do mundo, ou seja, o comércio” – lei tarifária problema econômico. Acentuado onde já existia (Alema‑
Smoot‑Hawley. Em consequência, o comércio mundial, entre nha e Japão) e instaurado onde se possuía tradições liberais
1929 e 1934, caiu para dois terços (PARKER, 2009, p. 194‑195). A (Estados Unidos e Inglaterra).
reimportação do capital norte‑americano causou um colapso Sintomático é o caso do próprio presidente norte‑
no sistema financeiro da Europa. (FRIEDEN, 2008, p. 193). ‑americano, Franklin Delano Roosevelt, pedir auxílio a Keynes.
À medida que os compradores desapareciam, os pre‑ A partir de 1933, é instituído o New Deal nos Estados Unidos,
ços também caíam. Neste momento, a ortodoxia ainda in‑ implicando no fim, mesmo que temporário, do capitalismo
fluenciava a ação econômica dos principais países. Por ela, liberal (REZENDE, 2008, p. 212). Para Keynes, as raízes da
HISTÓRIA  MÓDULO 6

o mercado se ajustaria, ou seja, era preciso que os preços e Depressão estavam em uma demanda privada e inadequa‑
salários caíssem. Com preços muito baixos, os compradores da. Para resolver o problema, era preciso dar dois passos.
reapareceriam e, consequentemente, haveria estímulo para Primeiro, seria necessário que se controlasse a produção,
o aumento da produção, os desempregados voltariam ao adequando‑a ao que poderia ser consumido e sem que hou‑
trabalho e, assim, a economia se reestabeleceria. A realidade, vesse demissões. Segundo, aumentar o consumo. O aumen‑

41
to do consumo se faria pela intervenção forte do Estado. O Estes problemas apenas seriam sanados com medidas mais
Estado precisaria gastar, precisaria contrair déficit público, enérgicas. Para agravar a situação, possuíamos um grave de‑
contratar, pagar, ou seja, jogar dinheiro na economia, para sequilíbrio no balanço de pagamentos, do que resultou que,
que essa renda retomasse a produção. no ano de 1929, nossas contas externas estivessem estrangu‑
Para Rezende, o New Deal não pôde solucionar todos os ladas, sem perspectivas de melhora no curto prazo.
problemas, devido ao seu caráter emergencial e de não alte‑ No plano político, o acirramento dos conflitos partidários
ração estrutural de mentalidade, rejeitando qualquer progra‑ desencadeou um movimento que pôs fim à Primeira Repúbli‑
ma radical. Entretanto, com essa política, os Estados Unidos ca, em outubro de 1930, um ano após a quebra da Bolsa de
saem da crise em três ou quatro anos. Keynes faz uma ob‑ Nova York. A Revolução de 1930 significou uma grande mu‑
servação importante, que se refere à manutenção do consu‑ dança estrutural tanto em âmbito político, econômico e social.
mo em longo prazo. Isso dará a base do Estado de Bem‑Estar
Social, ou seja, leis trabalhistas, saúde, educação, segurança, Reação à Crise
custeadas pelo governo, para que os indivíduos possam re‑ As medidas para tentar amenizar os efeitos da Grande
verter esse valor, que seria gasto suprindo essas necessidades Depressão foram baseadas no forte intervencionismo esta‑
básicas, em consumo (FRIEDEN, 2008, p. 210). tal. Assim, além da aquisição da produção, o governo passou
A Grande Depressão não trouxe apenas mudanças no a destruir o excesso estocado, medida implementada por
meio econômico. Seus reflexos atingiram fortemente o campo Vargas a partir de 1931. Essa medida, porém, não protegeu
político. Países como Alemanha, Itália, Portugal, Japão e quase apenas o setor cafeeiro. Ao injetar dinheiro na economia para
todos os países da Europa Centro‑Oriental (Estônia, Letônia, a aquisição e posterior destruição do café, estava‑se criando
Lituânia, Polônia, Romênia, Iugoslávia, Bulgária, Hungria, Áus‑ um poder de compra para contrabalançar a redução dos gas‑
tria, Albânia e Grécia) desenvolveram um Estado Autoritário tos dos exportadores e, com isso, diminuía‑se o impacto da
no limite – o fascismo. Na América Latina, a Grande Depres‑ crise naqueles setores dependentes indiretamente da renda
são desencadeou a constituição de Estados autoritários‑na‑ criada pelas exportações (FURTADO, 1963, p. 240).
cionalistas de cunho populista (REZENDE, 2008). Dessa forma, a política de defesa do setor cafeeiro nos
anos da grande depressão concretiza‑se num verdadeiro pro‑
Brasil no período da deflagração da Crise grama de fomento da renda nacional. Praticou‑se no Brasil, in‑
de 1929 conscientemente, uma política anticíclica de maior amplitude
que a que se tenha sequer preconizado em qualquer dos países
O Brasil, como país agroexportador, foi altamente afeta‑
industrializados (FURTADO, 1963, p. 238).
do pela crise. Desde a proclamação da República, em 1889, a
política externa brasileira se alterou consideravelmente, ou Ainda segundo Furtado, essas medidas anticíclicas to‑
seja, o governo deixou de ser cauteloso e apostou em uma madas pelo governo brasileiro preconizaram as políticas
maior aproximação com os Estados Unidos (DORATIOTO, keynesianas. Para além da consolidação da intervenção
2012, p. 168). Na fase inicial da Depressão, o café representava do Estado na economia, a Grande Depressão deixou outro
71% do total das exportações (BAER, 1996, p. 50) e os Estados legado, qual seja, como diria Furtado: o “deslocamento do
Unidos eram o maior consumidor de café, comprando cerca centro dinâmico” da economia nacional, pelo uso da capa‑
de 80% das exportações brasileiras. cidade ociosa industrial. Baer sintetiza da seguinte forma
Quando ocorre o crack da Bolsa de Nova York, o Brasil re‑ esse efeito da Grande Depressão na economia brasileira:
cebeu golpes na economia de todos os lados. Internamente, o A restrição das importações e a contínua demanda interna
país já estava envolvido com problemas econômicos – crise que resultou da receita gerada pelo programa de apoio ao café
industrial e cafeeira – e políticos (CANO, 2012). Com o crack causaram escassez de bens manufaturados e um consequente
da bolsa, novos empréstimos no exterior, para a manuten‑ aumento nos preços relativos, o que agiu como catalisador para
uma arrancada na produção industrial (BAER, 1996, p. 52).
ção da política de valorização do café, ficaram praticamente
impossíveis de se conseguir. Entretanto, alguns problemas Todo o processo desencadeado pela Grande Depressão,
HISTÓRIA  MÓDULO 6

centrais da década de 20, como a “sobreinversão industrial”, além de acentuar a intervenção do Estado na economia e
faziam com que os lucros obtidos no setor cafeeiro pela po‑ gerar uma mudança considerável na dinâmica econômica,
lítica de valorização do café, ao invés de serem revertidos serviu fundamentalmente para demonstrar a fragilidade eco‑
em outras atividades, acabassem retornando para o setor nômica do Brasil, ou seja, um país muito exposto a qualquer
cafeeiro, o que agravou e prolongou a solução do problema. alteração internacional. A partir desse momento, começa‑se a

42
repensar as diretrizes econômicas que o país deveria seguir.
GABARITO COMENTADO
Principalmente com Vargas e o projeto de tornar o Brasil
uma “Nação Forte”. Será que isso seria possível, sendo o país
altamente dependente do mercado exterior – agroexporta‑
dor? Se a resposta for negativa, qual alternativa seguir? Uma DESENVOLVENDO HABILIDADES
opção seria a industrialização, mas como o fazer? Uma saída:
atrair capital estrangeiro. Outro problema: como fazer isso? 1 Alternativa e.
É com todas essas questões a serem resolvidas que o Brasil Em meio ao ambiente de crise, a busca por soluções cria-
segue após a crise de 1929. […] tivas e de baixo custo era uma prática comum. Popeye,
como personagem, foi parte das estratégias de supera-
Referências bibliográficas ção de uma questão delicada, sobretudo em relação às
BAER, Werner. A economia brasileira. São Paulo: Nobel, 1996. camadas populares: a desnutrição infantil.
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2011.
2 Alternativa a.
CANO, Wilson. Crise de 1929: soberania na política econômica e indus‑
trialização. In: BASTOS, Pedro Paulo Z.; FONSECA, Pedro Cezar D. (Org.). A condição de coração do corpo capitalista mundial fez
A Era Vargas: desenvolvimento, economia e sociedade. São Paulo: Ed. da dos Estados Unidos uma importante referência eco-
Unesp, 2012. nômica e política. Mas alguns países tinham relações
DORATIOTO, Francisco. O Brasil no mundo: idealismos, novos paradig‑ de dependência mais intensas, como a Alemanha, que
mas e voluntarismo. In: SCHWARCZ, Lilian Mortiz. História do Brasil contava com a injeção de capital contínua dos Esta-
Nação. A abertura para o mundo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. dos Unidos como fonte de estímulo à retomada do
FRIEDEN, Jeffry A. Capitalismo global: história econômica e política do crescimento.
século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. Brasília: Ed. da Univer‑ 3 Alternativa d.
sidade de Brasília, 1963. A crise de 1929 foi resultado de um somatório de fatores
MORAES, Roque. Uma tempestade de luz: a compreensão possibilitada que podem ser percebidos inicialmente pela diminuição
pela análise textual discursiva. Bauru: Ciência & Educação, 2003, v. 9, n. 2. de consumo de uma Europa em recuperação, associada
PARKER, Selwyn. O crash de 1929: as lições que ficaram da grande de‑ a uma lógica fordista de produção que não se adequava
pressão. São Paulo: Globo, 2009. ao mercado.
REZENDE FILHO, Cyro de Barros. História econômica geral. 9. ed. São
4 Alternativa b.
Paulo: Contexto, 2008.
SCIRICA, Elena. Expansión, crisis y recomposición. Estados Unidos, de Segundo a “Lei de Say”, não seria possível uma grande
los años locos al estalido de la crises y el New Deal. In: MARCAIDA, Elena crise econômica a partir da oferta e demanda. Dessa for-
V. (Comp.). Historia económica mundial contemporânea: de la Revolución ma, a crise de 1929 mostrou que a produção não é capaz
Industrial a la globalización neoliberal. Vicente López: Dialektik, 2009. de criar a demanda, resultando, assim, em uma grande
MARTINS, Luis Carlos dos Passos; KRILOW, Leticia Sabina Wermeier. crise econômica.
A Crise de 1929 e seus reflexos no Brasil: a repercussão do crack na Bolsa de Nova York na
imprensa brasileira. Disponível em: <http://docplayer.com.br/18710886‑A‑crise‑de‑1929‑
e‑seus‑reflexos‑no‑brasil‑a‑repercussao‑do‑crack‑na‑bolsa‑de‑nova‑york‑na‑imprensa‑
brasileira‑1.html>. Acesso em: 2 set. 2019.

ANOTAÇÕES

HISTÓRIA  MÓDULO 6

43
LO
DU
Os processos de
Ó
M

7 consolidação política do
fascismo e do nazismo
OBJETOS DO CONHECIMENTO

> A emergência do fascismo e do nazismo.


> A Segunda Guerra Mundial.
> Judeus e outras vítimas do Holocausto.

HABILIDADES

> Compreender as consequências políticas do Tratado de Versalhes.


> (EF09HI13) Descrever e contextualizar os processos da emergência do fascismo e do nazismo, a consolidação
dos estados totalitários e as práticas de extermínio (como o Holocausto).
> Relacionar a crise econômica com a ascensão de regimes autoritários.
> Compreender o cenário cultural e artístico da República de Weimar (1919-1933).
> Conhecer as principais características do fascismo e do nazismo.
> Analisar o apoio da sociedade aos regimes autoritários.
> Compreender o papel da educação e da propaganda em regimes autoritários.

INTRODUÇÃO ESTRATÉGIAS DE AULA

Neste módulo vamos analisar o contexto político e AULA 1


social que propiciou o surgimento e a ascensão do fas-
cismo, na Itália, e do nazismo, na Alemanha. Para isso, é Inicie a aula relembrando o que foi estudado no mó-
importante que os alunos compreendam como as con- dulo anterior, principalmente em relação à situação da Itá-
sequências do pós-guerra contribuíram para a formação lia e ao que foi determinado no Tratado de Versalhes para
dessas ideologias autoritárias, que se tornaram regimes a Alemanha. É fundamental que os alunos compreendam
políticos nas décadas de 1920 e 1930, e obtiveram o que o contexto do pós-Primeira Guerra Mundial foi mar-
apoio social e a legitimação de suas ações por meio da cado por grande sentimento de insatisfação e humilhação
MÓDULO 7

relação estabelecida entre a sociedade e o Estado com por parte dos italianos e dos alemães, o que contribuiu
base no consenso e no consentimento. Além disso, pre- para o surgimento de movimentos políticos autoritários,
tende-se que os alunos compreendam o uso da propa- como o fascismo e o nazismo.
HISTÓRIA

ganda e da educação como estratégias de difusão das Relacione a situação econômica e política da Itália, no
ideologias nesses países. século XIX, com os problemas ocasionados pela Primeira

44
Guerra Mundial e explique como esses fatores contribuí- Comente que a violência foi uma prática largamente
ram para gerar uma grave crise econômica que se estabe- empregada pelo regime nazista, mas, tal como no fascis-
leceu na Itália. Analise a Marcha sobre Roma e explique mo, foi direcionada a grupos políticos e sociais específi-
por que esse episódio representou uma demonstração cos, considerados “inimigos” do Estado. Evidencie que os
de poder dos fascistas. judeus foram extremamente perseguidos pelo governo
Relembre as características do fascismo para explicar as nazista, mas que não foram os únicos a sofrer repressão.
principais ações tomadas nos primeiros anos do regime fas- Explique o que foram as Leis de Nuremberg e anali-
cista. Depois, leia o boxe Gotas de saber intitulado O acor- se o impacto que essa legislação teve sobre os judeus.
do com a Igreja católica e discuta com os alunos por que a Depois, problematize o significado dessas ações no que
solução da Questão Romana foi essencial para a consolida- diz respeito à violação dos direitos humanos. Por fim,
ção política do fascismo. Ressalte que a prática da violência esclareça o que foi a Noite dos Cristais e relacione esse
foi largamente utilizada pelo regime fascista, mas esclareça episódio com o aumento da repressão aos judeus.
que esse método não estava empregado em toda a popula-
ção, e sim em grupos sociais e políticos específicos.
AULA 2
Explique o projeto ideológico do fascismo e evidencie
que ele buscava controlar a sociedade ao determinar a fun- Inicie a aula explicando que, embora o fascismo e
ção social dos homens e das mulheres. É necessário proble- o nazismo tivessem muitas semelhanças, essas ideo-
matizar essa questão para que os alunos possam entender logias eram diferentes, pois cada uma tinha suas par-
que essas práticas são autoritárias e geram determinismos ticularidades. Com base nisso, apresente as principais
e preconceitos em uma sociedade. Analise o significado da semelhanças entre o fascismo e o nazismo. É funda-
Carta del Lavoro na consolidação do corporativismo na Itália. mental levar os alunos a refletir sobre o impacto social
Em seguida, descreva os principais eventos que dessas práticas autoritárias, principalmente em rela-
configuraram a Revolução Alemã (1918-1919) e analise ção ao antiliberalismo.
como esse contexto contribuiu para a instauração de
É importante também que os alunos percebam que
uma República na Alemanha, que passava por um mo-
as práticas adotadas por essas ideologias contradiziam os
mento de grande instabilidade em razão da disputa de
pressupostos da democracia e do pluralismo, pois difun-
projetos políticos. Relacione o crescimento do comunis-
diam a ideia de um padrão comportamental, assim como
mo na Alemanha com o surgimento do nazismo e re-
a necessidade de eliminar grupos que não se adequassem
lembre algumas características dessa ideologia, como o
ao sistema. Desse modo, faça uma crítica ao fascismo e
antiliberalismo, o anticomunismo e a violência.
ao nazismo para que os alunos compreendam que essas
Explique o que foi o episódio chamado de Putsch de ideias geraram regimes violentos, repressores e excluden-
Munique e esclareça que o fracasso desse movimento teve tes em relação às minorias sociais e étnicas.
relação com a baixa adesão social e política ao nazismo.
Leia o boxe Ampliando horizontes e comente que, du- Após a análise das semelhanças entre o fascismo e o
rante a República de Weimar (1919-1933), houve grande nazismo, leia com os alunos sobre as diferenças entre as
efervescência cultural, mas que a chegada do nazismo ao ideologias trabalhadas neste módulo. Explique o que é cor-
poder representou o fim desse florescimento cultural e ar- porativismo e como essa doutrina se contrapunha ao comu-
tístico, pois os nazistas viam esses movimentos como “arte nismo. Esclareça que o corporativismo pode ser observado
degenerada” e proibiram a sua realização na Alemanha. com maior clareza no modo como o Estado fascista lidou
Relembre também com os alunos o que foi a crise de com a questão trabalhista nas décadas de 1920 e 1930.
1929 e explique como esse episódio agravou a situação fi- Converse com os alunos sobre a crença dos nazistas
nanceira da Alemanha. Relacione esse cenário econômico na existência de uma raça ariana superior às demais e
HISTÓRIA  MÓDULO 7

com o crescimento do nazismo na década de 1930. Expli- relacione essa ideia com o antissemitismo e a aversão a
que o contexto político que contribuiu para a nomeação outros grupos étnicos. Comente como as teorias raciais,
de Hitler para o cargo de chanceler alemão e analise o uso desenvolvidas ao longo do século XIX, contribuíram para
político que os nazistas fizeram do incêndio do Reichstag a formação de ideologias marcadas pela xenofobia e por
para justificar a perseguição e a repressão aos comunistas. práticas violentas, como o fascismo e o nazismo.

45
Explique aos alunos que, em geral, embora esses re- grupos. Por isso, é importante refletir com os alunos sobre
gimes autoritários tenham utilizado práticas violentas e o papel da sociedade em regimes autoritários, utilizando
repressoras, eles tiveram forte apoio da sociedade. Isso como referência o caso do fascismo e do nazismo. Para
ocorreu porque o fascismo e o nazismo conseguiram es- finalizar esta aula, converse com os alunos sobre os usos
tabelecer uma relação de consenso e consentimento com políticos da propaganda e da educação nos regimes auto-
grandes parcelas da sociedade, isto é, de várias manei- ritários e os impactos que essas ações podem gerar na so-
ras, atenderam aos interesses sociais e econômicos da ciedade e na formação de crianças e jovens.
população.
AULA 3
Desse modo, muitos grupos sociais não se opuseram
a perseguição, tortura e morte enfrentadas por aqueles Nesta aula, além de explorar a Sugestão de quadro a se-
que eram considerados inimigos do fascismo e do nazis- guir, faça com os alunos alguns exercícios das seções Apro-
mo, como judeus, comunistas, homossexuais, entre outros fundado o conhecimento e Desenvolvendo habilidades.

SUGESTÃO DE QUADRO

ASCENSÃO DE REGIMES AUTORITÁRIOS


FASCISMO • “Frágil” República de Weimar

> Instabilidade política
Contexto político da Itália
• Grande insatisfação no pós-guerra
• Surgimento do nazismo
> Com a fundação do Partido dos Trabalhado-
> A Itália não recebeu os territórios esperados
res Alemães, os trabalhadores almejavam a
• Grave crise econômica
representação da classe operária, rivalizando
> Aumento da inflação e do desemprego com os comunistas
• Expansão do socialismo
• Putsch de Munique (1923)
> Greves e mobilização dos trabalhadores em > Tentativa dos nazistas de realizar um golpe de
prol de melhores salários e condições de vida Estado
• Resultado
> Prisão de Adolf Hitler
> Amplos setores da sociedade apoiaram o Par- > Hitler escreveu o livro Mein kampf (Minha luta)
tido Fascista como alternativa ao socialismo • Efeitos da crise de 1929
OBS.: O rei Vítor Emanuel III nomeou Mussolini como pri- > Hiperinflação
meiro-ministro. Esse episódio representou a chegada dos > Repatriamento de capitais estadunidenses
fascistas ao poder. > Grande desemprego
➜ Concordata de Latrão (1929) > Grave crise econômica e social
• A Igreja reconheceu o Estado italiano e o regime
• Crescimento do nazismo
fascista > Nomeação de Hitler para chanceler da
Alemanha (1933)
> Em troca, houve a criação do Estado do Vatica-
no e o catolicismo foi declarado religião oficial CARACTERÍSTICAS GERAIS
NAZISMO ➜ Foram considerados alternativas para os sistemas
➜ Contexto político da Alemanha políticos existentes
➜ Contavam com o apoio das massas
• Grande insatisfação com as determinações do
Tratado de Versalhes ➜ Utilizavam propagandas para os seguintes fins:
• Revolução Alemã (1918-1919) • Relembrar o passado de glória: no caso italiano,
MÓDULO 7

> Rendição da Alemanha na guerra o Império romano; no caso alemão, os povos


“puros” arianos
> Crescimento do comunismo
• Identificar os “inimigos” do povo e do regime
> Repressão do governo à tentativa de revolução
político
socialista
HISTÓRIA

46
• Destacar a importância dos governos e apresen- • Nacionalismo extremado
tar suas ideologias
• Utilização da violência
➜ Militarismo
• Construção da ideia do poder por meio da força
DIFERENÇAS
militar
• Expansionismo
O fascismo italiano
➜ Unipartidarismo: Partido Fascista na Itália e Partido
➜ Corporativismo: Estado responsável por conduzir as
Nazista na Alemanha
• Culto ao líder: culto à imagem do “chefe de Estado”
relações entre sindicatos e o capital
➜ Apoio da Igreja católica
• Anticomunismo

• Autoritarismo
O nazismo alemão
• Grande apoio da população

• Busca da unidade da população e crítica à ideia de ➜ Antissemitismo


luta de classes ➜ Crença na pureza de raça ariana

ATIVIDADE COMPLEMENTAR MICHAUDE, Eric. Soldados de uma ideia: os jovens


sob o Terceiro Reich. In: LEVI, Giovanni; SCHMITT, Jean
Promova um espaço de reflexão dos alunos sobre a ação Claude (Org.). História dos jovens: da Antiguidade à Era
de grupos que se pautam em discursos de ódio e violência e Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
sobre a busca de formas de combater essas práticas. MUSIEDLAK, Didier. O fascismo italiano: entre con-
Organize-os em grupos e solicite que realizem uma sentimento e consenso. In: QUADRAT, Samantha Viz;
pesquisa de notícias sobre o assunto. Discuta com a ROLLEMBERG, Denise (Org.). A construção social dos
turma formas e medidas para combater essas práticas, regimes autoritários: legitimidade, consenso e consenti-
como a representatividade de minorias na dramaturgia, mento no século XX (Europa). Rio de Janeiro: Civilização
em peças publicitárias e em políticas públicas voltadas Brasileira, 2010. v. 1.
para a diversidade. QUADRAT, Samantha Viz; ROLLEMBERG, Denise (Org.).
História e memória das ditaduras do século XX. Rio de
MATERIAL DE APOIO AO PROFESSOR Janeiro: Editora FGV, 2015. v. 2.
. A construção social dos regimes autoritários:
LIVROS: legitimidade, consenso e consentimento no século XX
DOGLIANI, Patrizia. Consenso e organização do con- (Europa). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. v. 1.
senso na Itália fascista. In: QUADRAT, Samantha Viz; TEXTO:
ROLLEMBERG, Denise (Org.). A construção social dos
O fascismo e o nazismo como revoluções
regimes autoritários: legitimidade, consenso e consenti-
mento no século XX (Europa). Rio de Janeiro: Civilização de direita
Brasileira, 2010. v. 1. Na Alemanha, as mudanças assumiram um radicalismo
e uma rapidez extraordinários. Em poucos meses o Reich
GELLATELY, Robert. Apoiando Hitler. Rio de Janeiro: Re- nacional-socialista suprimiu todos os partidos políticos e o
MÓDULO 7

cord, 2011. NSDAP tornou-se partido único, confundindo-se com


o Estado. A cultura política socialista mais sólida do
MALVANO, Laura. O mito da juventude transmitido pela movimento operário internacional ruiu, levando jun-
imagem: o fascismo italiano. In: LEVI, Giovanni; SCHMITT, to seus partidos, sindicatos e associações. Grande par-
HISTÓRIA

Jean Claude (Org.). História dos jovens: da Antiguidade à te da geração antinazista de artistas, intelectuais e po-
Era Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. líticos desapareceu do país, no exílio ou na prisão.

47
A Alemanha de Goethe, Schiller, Mann devia dar lugar ao mudado a mentalidade do mundo ocidental. A “revolução da
novo mundo. Fogueiras de livros queimavam séculos de alma”, como disse Robert O. Paxton.
cultura. Obras de arte eram retiradas dos museus. O país de Seria a “revolução das mentalidades” menor do que a
Planck e Einstein assistiu ao racismo arrogar-se como ciên- revolução provocada pela luta de classes? Existiria uma
cia. Estabeleceram-se leis antissemitas no país europeu onde “autêntica revolução social”, como buscou Kershaw? Se
ocorrera a maior assimilação de judeus desde o século XIX. o “impacto do nazismo sobre a sociedade alemã” está na
Expurgaram-se dos serviços públicos e dos setores privados da “natureza intrinsecamente destrutiva do regime”, que teria
economia os alemães de origem judaica, confiscando-se-lhes permitido, a Oeste, o surgimento de um Estado capitalista
bens, propriedades, cidadania. Os direitos civis foram violen- e democrático e, a Leste, uma “autêntica revolução social”,
tados e, por fim, extintos. A tradição prussiana e aristo- não teriam sido, então, as transformações realizadas pelo
crática, profundamente elitista e conservadora, do exército
Estado nacional-socialista revolucionárias? Mas, afinal, o
alemão, dobrou-se ao comando de um ex-cabo da Grande
que se entende por social, nesse caso? Exclusivamente, as
Guerra, elevado à condição de chefe de Estado em 1934. O
relações de classe e a luta entre capital e trabalho?
regime combateu sem trégua as igrejas cristãs e mesmo a fé
religiosa tradicional, traço de união entre o homem e o sa- Continuamos, como historiadores, presos às linhas inter-
grado por milênios, em qualquer parte do planeta. Desen- pretativas do século XIX? Os estudos de história das mentali-
cadeou uma vigorosa política de nazificação da família e da dades, de história cultural, das últimas décadas, nos apontam
educação. Entre consentimento e coerção (Gellately: 2011), outras possibilidades interpretativas que merecem atenção.
criou-se um sistema que conquistou o apoio da maioria, re- Fascismo e nazismo: revolução ou reação? Revolução
servando a polícia política (Gestapo), o Tribunal Especial, os ou contrarrevolução?
campos de concentração e de extermínio aos excluídos por Como vimos acima, os critérios usados para inter-
raça, posição política e comportamentos individuais, supos- pretar os movimentos e regimes fascista e nazista estão
tamente lesivos a uma germanidade idealizada. O projeto da
na origem da polêmica.
Germânia, a Capital do mundo, que previa a demolição e a
Os autores que discutem a questão a partir das trans-
reconstrução de Berlim segundo a estética da ordem nazista,
formações econômicas e das relações entre capital e traba-
mudando inclusive o nome da cidade, simbolizou a nova era.
lho sustentam, ou se inclinam a sustentar, que tais regimes
A história foi substituída pela “mitologia”.
exprimiram uma reação ao avanço das esquerdas, uma
Na Itália, Mussolini precisou de mais tempo para se distan- contrarrevolução, enfim. Os autores que valorizaram – e
ciar das elites que o fizeram ascender ao poder ou mesmo rom-
não apenas mencionaram – o impacto das rupturas insti-
per os vínculos que o mantinham ligado a elas. Em meio a esse
tucionais, a remodelação dos direitos civis e políticos e a
processo, enquadrou o proletariado no corporativismo, sistema
construção de uma nova identidade nacional, no plano cul-
que só reconhecia os sindicatos ligados ao Estado. Mas não ex-
tural e das mentalidades coletivas, admitiram, ou tenderam
clusivamente pela força, e sim buscando o consenso, coroado
a admitir, o caráter revolucionário desses regimes.
com a Carta del Lavoro de 1927. No campo político, suprimiu as
câmaras municipais, o senado esvaziou-se de sua função legis- Em resumo, o fascismo e o nazismo promoveram revolu-
lativa, submetido ao Partido Nacional Fascista. A natureza da ções de direita no contexto do entreguerras. Perpetraram au-
cidadania mudou radicalmente, por meio de uma relação entre tênticas cirurgias no campo da cultura dos respectivos países,
Estado e cidadãos que em nada lembrava a ordem liberal ante- combinando propaganda e perseguições; destroçaram os sis-
rior à Marcha sobre Roma. Na economia, modernizou o campo temas jurídicos e as instituições democráticas de representa-
e trouxe o pequeno e o médio proprietários rurais para o século ção política (mais na Alemanha do que na Itália); redefiniram
XX. A década de 1930 consagrou o esforço para edificar a nova radicalmente o conceito de cidadania por meio de exclusões,
ordem, voltando-se para as organizações de crianças e jovens, e expropriações e interdições às minorias, reservando os direi-
de lazer, que produziriam o novo homem do novo mundo. Em tos civis somente àqueles que preenchiam os critérios indi-
que pese a criação da polícia política (OVRA, Organização para viduais para desfrutá-los, desde que observassem as regras
a Vigilância e a Repressão do Antifascismo) e do Tribunal Espe- estatais; imiscuíram-se profundamente na vida privada das fa-
cial para julgar crimes políticos, a nova era seria construída por mílias e indivíduos, fossem os perseguidos, fossem os apoiantes
HISTÓRIA  MÓDULO 7

meio do convencimento e da repressão limitada às oposições aos quais se reservava uma cidadania excludente. Ambos leva-
políticas. Com Mussolini, a Itália, enfim, completou sua unifica- ram à guerra mundial que destruiu física e moralmente a Eu-
ção, o Risorgimento. ropa, mudando o rumo da história do continente e do mundo.
O fascismo e o nazismo romperam ou pretenderam rom- As restrições ao uso do conceito revolução de direita,
per com valores e referências que, por um século, haviam em particular, nas experiências históricas da Itália fascista e

48
da Alemanha nacional-socialista, estiveram – e continuam com práticas violentas e repressoras sob a alegação de que
a estar – permeadas por princípios ideológicos e políticos, elas eram necessárias para a manutenção da ordem social.
que limitam o conhecimento histórico.
A historiografia precisou de décadas para se diferenciar 2 Alternativa c.
da memória acerca da Europa dominada por esses regimes A letra da música trata de ideais relacionados ao plu-
para produzir conhecimento sobre esse passado, superando ralismo cultural e à liberdade individual, elementos in-
interpretações que dimensionavam de maneira exagerada as compatíveis com as ideologias fascistas e nazistas, que
resistências e rejeitaram ou subestimaram comportamentos pregavam a homogeneização social e a eliminação das
sociais tais como adesões, consensos, consentimentos, aco- diferenças culturais.
modações, omissões (Rollemberg, 2016).
Quanto tempo mais será necessário para a supera- 3 Alternativa b.
ção dos obstáculos políticos e ideológicos – verdadeiro A crise de 1929 foi um episódio que atingiu intensamente
tabu – que impedem o uso do conceito de revolução a Alemanha, que estava recebendo ajuda financeira de ou-
como categoria epistemológica? tros países para reconstruir sua economia. Desse modo, o
ROLLEMBERG, Denise. Revoluções de direita na Europa do entreguerras: repatriamento de capital estrangeiro, por causa da crise de
o fascismo e o nazismo. Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/ 1929, ajudou a agravar a crise econômica alemã, gerando
index.php/reh/article/view/65901/68282>. Acesso em: 2 set. 2019.
um quadro de hiperinflação e alto índice de desempre-
go. Nesse contexto, o nazismo se expandiu, pois grandes
GABARITO COMENTADO
parcelas da população aderiram aos ideais nazistas em
contraposição ao discurso liberal.
DESENVOLVENDO HABILIDADES
4 Alternativa a.
1 Alternativa d. A imagem reproduzida nesta questão teve por objetivo
A principal base de apoio dos regimes autoritários eram as atingir o público infantil e disseminar, desde a infância, o
grandes parcelas sociais que concordavam, muitas vezes, antissemitismo na população alemã.

ANOTA‚ÍES

HISTÓRIA  MÓDULO 7

49
HISTÓRIA  MÓDULO 7

50
ANOTA‚ÍES
CI
ÊN
CI
AS
H A ÁREA
UM DE
AN
AS

História
Sumário
MÓDULO 1
REPÚBLICA OLIGÁRQUICA: ESTRUTURAS POLÍTICAS, ECONÔMICAS E CULTURAIS ............................................... 161

MÓDULO 2
REPÚBLICA OLIGÁRQUICA: MOVIMENTOS SOCIAIS NO CAMPO E NA CIDADE .........................................................175

MÓDULO 3
A CRISE DA REPÚBLICA OLIGÁRQUICA ............................................................................................................................. 192

MÓDULO 4
REVOLUÇÃO RUSSA ............................................................................................................................................................... 204

MÓDULO 5
A EUROPA E OS ESTADOS UNIDOS NOS ANOS 1920 ...................................................................................................... 218

MÓDULO 6
A CRISE DE 1929 E SEUS DESDOBRAMENTOS................................................................................................................ 229

MÓDULO 7
OS PROCESSOS DE CONSOLIDAÇÃO POLÍTICA DO FASCISMO E DO NAZISMO ....................................................... 241
Na foto, um carro
conduzido por um
coronel levando
passageiros
membros do Exército
e do clero. Interior
do estado de
São Paulo, 1903.
LO
DU
Ó
M

1
Reprodução/Coleção particular

República Oligárquica:
estruturas políticas,
econômicas e culturais
A fim de tornar as habilidades da BNCC mais acessíveis para os estudantes, optou-se por apresentá-las
de forma resumida no Caderno do Aluno.

OBJETOS DO CONHECIMENTO HABILIDADES


3 Experiências republicanas e práticas autoritárias: as 3 Descrever e contextualizar os principais aspectos
tensões e disputas do mundo contemporâneo. sociais, culturais, econômicos e políticos da emergência
da República no Brasil.
3 A Proclamação da República e seus primeiros
3 Caracterizar e compreender os ciclos da história
desdobramentos.
republicana.
3 A questão da inserção dos negros no período 3 Compreender a influência política e econômica das
republicano do pós-abolição. oligarquias cafeicultoras no Brasil.
3 Os movimentos sociais; a cultura afro-brasileira 3 Discutir a importância da participação e os mecanismos
como elemento de resistência e superação das de inserção da população negra na formação econômica,
discriminações. política e social do Brasil.

161
PARA COMEÇAR

Dira Paes fala sobre violência, coronelismo e política


Marcos Arcoverde/Agência Estado

[...] A atriz, de 46 anos, acredita fielmente na luta por uma causa, como a professora
[a personagem Beatriz na novela Velho Chico] de ares inocentes e personalidade
forte. “É relevante um trabalho que tenha um significado, um propósito e que seja
consistente. Eu fiquei muito encantada com a Beatriz, porque ela é muito atual
dentro do que a gente gostaria que fosse a educação no Brasil”, afirma a atriz,
que também está em cartaz com o filme Mulheres no poder, de Guilherme Acioly
Barbosa. 
[...] “O filme é sobre uma senadora corrupta ao longo de um processo de licitação e
todos os caminhos de relações de lobby a fim de obter o resultado que se quer. A Beatriz
é o contrário da senadora Maria Pilar (sua personagem no filme): ela é o símbolo daquela
mulher que não tem interesses a não ser o de melhorar a vida de seus alunos. Eu estou
muito feliz em fazer essa personagem porque essa sim é uma personagem que busca a
valorização das pessoas”, analisa Dira.
Para viver a professorinha, a atriz bebeu na fonte de suas memórias infantis. “Eu
tive algumas professoras inesquecíveis desde o começo dos meus estudos. Eu tenho
A atriz Dira Paes. lembranças deles. Sem dúvida nenhuma, os que ficam na memória, às vezes, são os mais exigentes, os
que você na época considerava chatos, mas na verdade são aqueles que estavam mais interessados na
sua transformação e na sua aprendizagem”, relembra.
Na novela, a personagem é dedicada à política, mas nem por isso Beatriz esquece da vida amorosa. [...]
E esse caso de amor se dá no meio da disputa política e do domínio das terras por parte do Coronel
Afrânio (Antônio Fagundes) através da força. “Esse coronelismo, infelizmente, persiste ainda. Mas é o que
estamos tentando transformar. Acho que a novela mostra bem que existem muitas pessoas que pensam
que nasceram para oprimir, mas os oprimidos têm que ser ouvidos porque às vezes não têm voz e não
têm ninguém olhando por eles”, afirma. […]
MINC, Eduardo. Dira Paes fala sobre violência, coronelismo e política. O Dia, Rio de Janeiro, 24 maio 2016. Disponível em:
<http://odia.ig.com.br/diversao/celebridades/2016-05-24/dira-paes-fala-sobre-violencia-coronelismo-e-politica.html>.
Acesso em: 20 ago. 2019.

Na matéria, a atriz Dira Paes, que interpretou a personagem Beatriz na novela Velho Chico, da
Rede Globo, fala sobre seu papel e sobre a persistência de relações de opressão ligadas à posse da
terra nas áreas rurais do Brasil. Para isso, usa o termo coronelismo.
Ao aludir ao tema do coronelismo, a atriz nos remete à Primeira República e, em especial, ao pe-
ríodo conhecido como República Oligárquica. Nesse período, o poder estava concentrado nas mãos
de um pequeno grupo, o dos cafeicultores paulistas, associados a latifundiários mineiros e gaúchos.
Oligarquia é uma palavra de origem grega que significa “governo de poucos”, e é usada para se
referir a governos em que o poder é exercido por um pequeno grupo de pessoas pertencentes à
mesma classe, partido ou família. No Brasil existem as oligarquias rurais.
Assim, a chegada das oligarquias ao poder com a eleição de Prudente de Morais, primeiro civil
HISTÓRIA MÓDULO 1

a tomar posse como presidente da República, em 1894, marca também a consolidação do poder
oligárquico no Brasil. Tal consolidação dependeu, entre outras coisas, da força do coronelismo.
Mas o que é o coronelismo? Vamos falar disso e de outras questões ligadas à República nas
próximas páginas.

162
PARA RELEMBRAR

Você já estudou anteriormente o início da República. Naquele período foi garantida a manutenção
das estruturas políticas, econômicas e sociais tradicionais com a permanência do modelo agroexportador,
da exclusão política da maioria da população, da concentração fundiária e das desigualdades.
Uma nova Constituição foi elaborada e promulgada (1891) e as novas bases do Estado brasileiro
foram lançadas. Ao mesmo tempo, o país ainda trazia elementos da herança colonial, como desigual-
dades sociais e raciais, e a intensa concentração da terra por parte dos latifúndios monocultores.
A instituição da República no Brasil, portanto, mostrava que as elites buscavam uma reorganização
de suas forças, na medida em que as oligarquias paulistas, mineiras e gaúchas estavam em ascensão.
Nos primeiros anos do novo regime, os militares estariam na frente do processo de consolidação,
mas o poder já estava concentrado nas mãos dos grandes proprietários de terra que, com a chegada
de Prudente de Morais ao poder, em 1894, deram início à República Oligárquica.

PARA APRENDER

O domínio das oligarquias


Com o regime republicano e a Constituição de 1891, houve um processo de descentralização
política no Brasil. O poder continuou sendo exercido por elites agrárias, mas não mais as antigas elites
fluminenses, os barões do café. Nesse momento, novas elites chegariam ao poder: as oligarquias
paulistas, sustentadas pela riqueza do café.
Constituía-se, então, a República Oligárquica. Nela, o processo de ampliação da descentralização
política fortaleceria ainda mais os chefes políticos locais. Essas lideranças estavam organizadas para
impedir a ascensão das oposições e, para isso, criaram e reforçaram mecanismos que mantinham
a maioria da população sob sua tutela e excluída da participação política.

Coronelismo
Com a Republica, instituiu-se um novo modelo político

Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ.


AS PRÓXIMAS ELEIÇÕES... “DE CABRESTO”
no Brasil, em que todos os cargos dos poderes Executivo e
Legislativo seriam escolhidos por meio de eleições.
Como o voto era aberto, os chefes políticos locais ga-
rantiam facilmente o controle das eleições em seus redu-
tos. A esses chefes locais chamamos coronéis, em uma
referência às antigas patentes da Guarda Nacional.
O controle se dava pela ameaça de violência física,
pelas fraudes e pela oferta de benefícios em troca do voto.
Em eleições, que eram organizadas pelos próprios coro-
néis, o voto de cabresto era uma prática comum e, muitas
HISTÓRIA MÓDULO 1

vezes, os eleitores recebiam as cédulas já preenchidas


com o nome do candidato apoiado pelo coronel. Voto de
cabresto é uma expressão que se refere ao mecanismo
que controlava o voto dos cidadãos e impedia a escolha Charge ironiza o voto de cabresto ao mostrar político levando o eleitor para votar.
de políticos que não eram apoiados pelos coronéis. Autoria de Storni, publicada na revista Careta, em 1927.

163
Esse fenômeno está inserido em uma lógica típica da Primeira República. Sem investimentos
curral eleitoral: do Estado (como ofertas de emprego e garantia de direitos e serviços básicos), a população rural
local comandado se via dependente das relações com os coronéis. Ao aceitar tais práticas, essas pessoas passavam a
por coronéis que
ser vistas como “gente do coronel”, recebendo favores e proteção pessoal.
se favoreciam do
voto de cabresto Ao consolidar seu “curral eleitoral”, baseado em troca de favores, o coronel se afirmava como
para manutenção poder local e construía uma rede de clientelismo. Em um contexto de decadência econômica, esses
da ordem política
vigente.
chefes locais se utilizavam do Estado para reforçar seu poder pessoal e se tornavam fundamentais
clientelismo: para os interesses de autoridades das demais esferas de poder.
prática de poder Tendo na base os coronéis, constituía-se uma rede de alianças que se estendia até o Executivo
caracterizada
pela realização nacional, pois eles garantiam as eleições não apenas de vereadores e prefeitos, mas também de de-
de favores ou putados (estaduais e federais), senadores, governadores e até do presidente da República. Portanto,
compromissos por os coronéis eram peça fundamental em qualquer estratégia político-eleitoral.
parte dos coronéis
em troca de No governo Campos Sales (1898-1902), sucessor de Prudente de Morais, esse esquema de
apoio eleitoral da controle político se sofisticou e se organizou. Nasceu assim a Política dos Governadores (ou Polí-
população.
tica dos Estados), uma grande aliança baseada na troca de favores em todas as esferas: nacional,
estadual e municipal.
Na prática, o Executivo nacional (a União) garantia o fluxo de verbas em direção aos aliados nos
estados e não intervinha em disputas locais. Em troca, os aliados locais e estaduais garantiam o
controle das eleições e o apoio no Congresso Nacional.
Nesse contexto, um candidato da oposição dificilmente conseguiria ser eleito. Caso fosse, havia
ainda uma maneira de impedi-lo de assumir: por meio da Comissão de Verificação de Poderes, uma
instituição controlada pelas oligarquias e responsável por validar os resultados eleitorais. Assim,
caso algum oposicionista conseguisse ser eleito, a Comissão dava um jeito de cassar o resultado,
evento conhecido como “degola”.

Café com leite


Storni/Fundação Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro, RJ.

Os estados que mais se favoreceram no processo de fortalecimento


das oligarquias foram São Paulo e Minas Gerais. Mais ricos e mais popu-
losos – portanto, com maiores colégios eleitorais –, dominaram a política
nacional no período, formando uma aliança conhecida como Política do
Café com Leite.
Segundo essa prática, as oligarquias dos dois estados escolhiam os
candidatos a presidente e a vice e impunham seu poder para a eleição
deles. Como esses estados detinham o controle da máquina política,
dos esquemas de fraudes e do clientelismo, ficava relativamente fácil
garantir o resultado.
Isso não significa que não existiam disputas políticas no período. Houve
momentos em que personagens não pertencentes ao esquema assumiram
o protagonismo político, como foi o caso do marechal gaúcho Hermes da
Fonseca, eleito na disputa contra o baiano Rui Barbosa, em 1910.
HIST”RIA M”DULO 1

A campanha daquele ano foi bastante disputada. Rui Barbosa, com


apoio de São Paulo e Bahia, apresentou-se como o candidato da “cam-
panha civilista”. Um dos argumentos era que os governos militares do
Charge satiriza o embate entre os eleitores de Hermes da início da República tinham sido suficientemente tumultuados. Portanto,
Fonseca e Rui Barbosa. Autoria de Storni, publicada no jornal
O Filhote em 10 fev. 1910, Rio de Janeiro (RJ). era fundamental permitir que os civis chegassem ao poder.

164
Hermes da Fonseca tinha o apoio de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul e da força da máquina
nas áreas rurais. Ganhou o pleito e seu governo levou a uma reorganização das oligarquias.
Ao assumir o poder, o marechal implementou a Política das Salvações, que visava enfraquecer as
oligarquias adversárias, rompendo a neutralidade instalada pela Política dos Estados. Depôs governadores
e nomeou interventores, mas não obteve o sucesso imaginado, desencadeando conflitos, como no Ceará.
Na eleição seguinte, em 1914, os grandes partidos da época – os partidos republicanos de São
Paulo (PRP), Minas Gerais (PRM), do Rio Grande do Sul (PRR) e do Rio de Janeiro (PRF) – uniram-se em
torno da candidatura de Venceslau Brás. Rui Barbosa, em protesto, chegou a lançar sua candidatura,
mas acabou se retirando do pleito. Desse modo, Brás disputou praticamente sozinho aquela eleição
em um cenário ideal para as oligarquias brasileiras: ausência de oposição aos seus interesses.

É importante destacar que ser considerado paulista ou mineiro não tinha exatamente relação com o local de
nascimento. Washington Luís, por exemplo, presidente entre 1926 e 1930, era considerado paulista, mesmo tendo
nascido em Macaé, no estado do Rio de Janeiro. Tal classificação estava relacionada ao estado em que o político havia
construído sua trajetória política. No caso citado, apesar da origem fluminense, ele havia feito carreira no Partido
Republicano Paulista, o PRP.

O café

Ed Viggiani/Pulsar Imagens
Detalhe da fachada da
Bolsa Oficial de Café,
inaugurada em 1922 na
cidade de Santos (SP).

O domínio político das oligarquias cafeeiras de São Paulo e Minas Gerais também foi fundamental
para garantir o poder econômico do café. Naquele momento, a força econômica daquele produto
impulsionava o poder político das oligarquias. Ao mesmo tempo, o controle do Estado nas mãos
desses grupos mantinha a importância econômica do café intocada.
Para tentar manter o preço do produto e os ganhos dos cafeicultores, em queda desde o fim do
século XIX em razão da superprodução e do surgimento de concorrentes no exterior, os represen-
tantes das oligarquias cafeeiras de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro firmaram o Convênio de
Taubaté, em 1906. Tratava-se de um plano de valorização do café, prevendo a compra e a estocagem
do excedente de produção como forma de estabilizar os preços no mercado internacional.
Na prática, tal medida não criava uma saída no médio prazo; apenas evitava os prejuízos dos
HIST”RIA M”DULO 1

cafeicultores, que mantinham os compradores independentemente da situação externa. Era a socia-


lização das perdas, já que recursos públicos eram usados para diminuir os prejuízos dos cafeicultores.
Em um primeiro momento, tal medida foi garantida pelos estados produtores. Mas, ao chegar à
Presidência, o mineiro Afonso Pena (1906-1910) tornou o governo federal garantidor dos emprés-
timos feitos pelos estados para a manutenção da política de valorização do café.

165
A economia na Primeira República
Reprodução/Coleção particular

A situação econômica herdada do Império não era das melhores.


A alta dívida externa e a inflação eram problemas que, somados à
superprodução do café, limitavam o crescimento econômico.
Coube a Campos Sales o papel de estabilizador da economia na-
cional. Eleito presidente, costurou um acordo com os credores inter-
nacionais, permitindo o prolongamento da dívida e a tomada de um
novo empréstimo. Em 1898, o governo brasileiro, em contrapartida,
adotou uma política de corte de gastos, aumento de impostos e retirada
de papel-moeda de circulação, com o objetivo de controlar a inflação.
Na gravura, Campos Sales O Funding Loan, como essa política ficou conhecida, foi um plano de refinanciamento. Ao longo
(ao centro) e Joaquim de sua história, os governos brasileiros – a exemplo de outros países da América Latina – contraíram
Murtinho (ministro da
Fazenda, à esquerda) empréstimos no exterior para se financiar em meio a transformações políticas e econômicas. No
entregam dinheiro aos caso do Funding Loan, a ideia era reorganizar a economia nacional no início da República.
Rothschild, banqueiros
O plano garantiu o controle inflacionário. No entanto, é importante destacar que sua execução
ingleses, cumprindo o
acordo estabelecido para sofreu muitas críticas, pois houve aumento do desemprego, das desigualdades e das falências.
o Funding Loan.

Expressões da cultura brasileira na Primeira República


Durante a Primeira República, o samba e o Carnaval, bem como outras manifestações sociocul-
turais da classe trabalhadora e ligadas às populações de origem negra e indígena, foram tratados
de maneira violenta pelo Estado. As proibições e a repressão foram intensas, obrigando essas ma-
nifestações a sobreviver como uma cultura de resistência.
As comemorações carnavalescas remontam aos tempos coloniais, mas somente em 1855 se regis-
trou uma rua enfeitada para a passagem de um cortejo carnavalesco. Era o chamado desfile das Grandes
Sociedades, um carnaval voltado para as elites, prática que se manteve mesmo com a transição para a
República. Tanto esse desfile como os bailes do Theatro Municipal eram marcados por grande influência
europeia, fantasias luxuosas e representações do Pierrô, do Arlequim e da Colombina, personagens da
Commedia Dell’Arte, estilo de teatro popular que surgiu na Itália, no século XVI.
Por outro lado, os trabalhadores brincavam o Carnaval em blocos improvisados, cordões e ranchos.
Os blocos e os cordões (assim chamados porque os participantes caminhavam e dançavam em
fila, um atrás do outro) eram vistos como manifestações pouco civilizadas. Caracterizavam-se pelos
foliões mascarados, como palhaços, velhos, indígenas, reis, rainhas, diabos e baianas, que marcavam
o ritmo com instrumentos de percussão.
Assim como outras práticas influenciadas pelas tradições
Augusto Malta/Acervo do Instituto Moreira Salles

afro-brasileiras, foram tratados de forma pejorativa. Segundo as


elites brasileiras, que consideravam aquilo uma imensa desor-
dem visual e rítmica, os cordões e os blocos não se enquadravam
no padrão europeu que se tentava adotar naquela época.
Os ranchos, ao contrário, buscavam referências europeias e,
apesar da influência africana, utilizavam instrumentos de sopro e
HIST”RIA M”DULO 1

de cordas – mais do agrado das elites e das autoridades republi-


canas –, e suas coreografias aparentavam ser mais organizadas.

Desfile das Grandes Sociedades Carnavalescas,


Rio de Janeiro (RJ), c. 1919.

166
Esses aspectos serviam de legitimação diante do poder público e da sociedade. Alguns ranchos
gozavam de grande prestígio, como o “Reis de Ouro”, que em 1894 foi recebido pelo então presidente
marechal Floriano Peixoto, e o “Ameno Resedá”, convidado a visitar o Palácio Guanabara durante o go-
verno do marechal Hermes da Fonseca, em 1911.
De alguma maneira, a consolidação dos ranchos dialogava com a estratégia de branqueamento
imposta pelo projeto republicano. A europeização da cultura brasileira significava abandonar as
manifestações populares, consideradas atrasadas.

AMPLIANDO HORIZONTES

O samba não teve vida fácil na Primeira República. Foi perseguido e visto como música de vagabundos e sem
valor. A capoeira também era considerada um problema pelas autoridades republicanas. O Código Penal de 1890
estabelecia que a prática era crime no Brasil, com punição de até seis meses de prisão — revelando, mais uma vez,
o preconceito contra a origem afro-brasileira, visto que a capoeira remontava à atuação dos escravizados, desde os
tempos coloniais. Além disso, era associada pelo governo republicano à ideia de vadiagem.
Ainda segundo o Código Penal de 1890, deixar de exercer profissão e não ter meio de subsistência ou domicílio
fixo eram práticas passíveis de punição, com prisão por vadiagem. Esse dispositivo legal foi usado no período repu-
blicano para reprimir intensamente as camadas populares.
Outros elementos da cultura popular também foram perseguidos, como o candomblé e algumas religiões de matrizes
afro-indígenas, que foram alvo de violência física e simbólica na República. Eram considerados práticas de povos atrasados,
por causa das ligações com a África, com os povos nativos da América e com o período colonial. Muitos terreiros foram
invadidos; sacerdotes e sacerdotisas, presos; instrumentos e imagens, destruídos ou confiscados pela polícia.

Os anos 1920 e o Modernismo


O Brasil dos anos 1920 respirava ares revolucionários do

Reprodução/Elisabeth Di Cavalcanti
ponto de vista artístico-cultural. Uma grande transformação
estava em curso no país: o Modernismo.
A renovação na arte não era uma especificidade brasileira
naquele momento. Na Europa, vivia-se um período de eferves-
cência cultural desde o final do século XIX, com o surgimento
das vanguardas europeias (entre elas o Cubismo, o Surrealismo
e o Futurismo). Influenciado por essas novidades, o movimento
modernista marcou uma ruptura com os padrões estéticos
da época e buscou uma arte que representasse a identidade
brasileira. Era um basta à mera reprodução da arte europeia e
uma tentativa de produzir uma arte nacional e não acadêmica,
aproximando popular e erudito.
Na pintura, a arte modernista provocou muita polêmica.
O rompimento com a arte acadêmica e o uso de temas, co-
res e formas fora dos padrões da época chocaram parte do
HIST”RIA M”DULO 1

público. Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti são


alguns exemplos de pintores modernistas.

Samba. Óleo sobre tela de


Emiliano Di Cavalcanti, 1925.

167
Na literatura, destacaram-se o uso de linguagem popular e os temas prosaicos nas obras. Mário
de Andrade e Oswald de Andrade são dois expoentes dessa revolução estética. Para Oswald, era
necessário devorar e deglutir as influências estrangeiras em busca de uma arte brasileira, praticando
a chamada antropofagia cultural.
As sociedades antropófagas ingeriam a carne dos inimigos derrotados em combate para ad-
quirir suas habilidades e sua energia. Assim, a expressão foi usada por modernistas no sentido de
“devorar” elementos culturais estrangeiros, por meio de uma assimilação crítica deles, e de esforço
de valorização de traços da cultura brasileira, tidos como não civilizados pelas elites da época.

Reprodução/Arquivo da editora
Reprodução/Coleção particular

Reprodução/Coleção de Artes Visuais do Instituto de


Estudos Brasileiros da USP, São Paulo, SP.
Capa da edição que reuniu Reprodução da capa do Capa do catálogo da
os 16 números da Revista livro Macunaíma, de Mário Semana de Arte Moderna
de Antropofagia, publicada de Andrade, publicado em de 1922, de Di Cavalcanti.
originalmente de 1928 a 1929, 1928.
em São Paulo (SP).

Em 1922, o Modernismo foi apresentado à sociedade brasileira. No ano do centenário da in-


dependência, os modernistas realizaram, no Theatro Municipal de São Paulo, a Semana de Arte
Moderna, marco do movimento.
A reação do público foi intensa: aplausos e vaias conviveram nas apresentações. Havia ali uma
curiosidade pelo que se fazia naquele tempo, mas, ao mesmo tempo, algumas obras e discursos
foram alvo de ataques. A arte moderna não agradou a todo o público: muitos se perguntavam se
os quadros estavam pendurados do jeito certo, e os poemas foram declamados sob fortes vaias.
Acervo Iconographia/Reminiscências
HIST”RIA M”DULO 1

Modernistas na Villa Kyrial,


em almoço no primeiro
domingo após a Semana
de 22. São Paulo (SP), 1922.

168
GOTAS DE SABER

Outras manifestações artístico-culturais na Primeira República


O destaque dado ao samba e ao Modernismo justifica-se pelo alcance nacional que adquiriram desde o início
do século passado. Entretanto, outras manifestações artístico-culturais já existiam no período, como:
● Festas populares: uma enorme diversidade de festas populares são realizadas desde o início do século XX, como
as quadrilhas juninas populares no Nordeste, o Círio de Nazaré, as folias de reis, entre outras festas religiosas.
● Frevo: a palavra frevo vem de “ferver” e remete à alegria do povo durante a festa, que é uma ebulição. Foi
usada pela primeira vez para designar o movimento cultural pelo Jornal Pequeno, em 1907. O frevo é com-
posto de uma música acelerada, fruto da mistura de diversos gêneros, como polca, maxixe, quadrilha, peças
do repertório erudito e dobrado. A dança é denominada “passo” e surgiu inspirada na capoeira. Existem mais
de cem passos clássicos de frevo registrados.
● Boi-bumbá: é um folguedo junino, de caráter teatral e popular, cuja origem remonta à experiência da escra-
vidão africana na Amazônia. Trata-se de uma manifestação do folclore brasileiro do século XVIII, combinando
influências indígenas, africanas e europeias.
Essas manifestações são parte da cultura brasileira. São elementos oriundos da mistura das influências euro-
peias, indígenas e africanas que dão origem a uma identidade nacional brasileira.

ATIVIDADE PRçTICA

Marc Ferrez/Memorial do Imigrante, São Paulo, SP.


Um debate constante ao longo do século XX
no Brasil foi a política de desenvolvimento econô-
mico a ser adotada. Dois temas foram recorrentes:
o embate entre agroexportação e industrialização
e o controle da inflação.
Neste módulo, falamos sobre a política de
valorização representada pelo Convênio de
Taubaté e pelo Funding Loan. As duas medidas
adotadas na República Oligárquica foram justi-
ficadas como importantes para o pleno funcio-
namento da economia no período. Entretanto,
foram alvos de críticas de diversos setores da
sociedade brasileira.
Considerando que uma minoria possuía terras
e enriquecia com o café e que o poder estava nas
HISTÓRIA MÓDULO 1

Colheita de café na Fazenda Guatapará, em Ribeirão Preto (SP), 1902.


mãos dessas oligarquias, qual era a situação dos
trabalhadores nesse período?
Com a ajuda do professor, pesquise o impacto das políticas do Estado (tanto o Convênio de
Taubaté quanto o Funding Loan) na vida dos trabalhadores.

169
SITUAÇÃO-PROBLEMA

Pesquisa revela que compra de votos ainda é realidade no país


A pesquisa encomendada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre as Eleições 2014 mostra que a
compra e venda de votos ainda é uma realidade no Brasil, uma vez que pelo menos 28% dos entrevistados
revelaram ter conhecimento ou testemunhado essa prática ilegal. A pesquisa foi realizada pela empresa
Checon Pesquisa/Borghi e ouviu quase dois mil eleitores de 18 a 60 anos em sete capitais, incluindo o
Distrito Federal, de todas as regiões brasileiras e das classes sociais A, B, C e D.
Comprar voto é um crime previsto na Lei das Eleições (Lei no 9 504/97 – artigo 41-A) e pode levar à
cassação do registro ou do diploma do candidato. De acordo com a lei, o candidato não pode doar, oferecer,
prometer ou entregar ao eleitor nenhuma vantagem pessoal de qualquer natureza com o fim de obter seu
voto. Esse pedido não precisa nem mesmo ser explícito para caracterizar a compra de votos, ou seja, se
houver evidência do crime já é suficiente para ensejar a punição.
Uma das conclusões da pesquisa aponta que “a percepção do eleitor no sentido de que a compra de votos
é um crime ainda é pequena”. Dessa forma, “muitos enxergam com naturalidade oferecer o voto em troca de
benefícios”. O estado que registrou o maior número de pessoas que declaram ter conhecimento de compra
de voto foi Roraima, onde 71% dos entrevistados responderam afirmativamente a essa questão. Por outro
lado, o Rio Grande do Sul registrou o menor índice, com 18% de respostas positivas.
[...] Além da compra de votos, outras práticas comuns entre candidatos são consideradas crimes
eleitorais, como a utilização de prédios públicos em campanhas, quebra do sigilo do voto, coação ou uso
de violência para obter o voto do eleitor, dentre outros. […]
Entre os crimes eleitorais, estão desde aqueles que prejudicam a inscrição de eleitores, passando por
propagandas irregulares, calúnias a candidatos, divulgação de pesquisas falsas até a violação da apuração
dos resultados. As penas podem resultar em detenção, reclusão ou pagamento de multa. [...]
TSE. Pesquisa revela que compra de votos ainda é realidade no país. Brasília, 2 fev. 2015. Disponível em:
<www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2015/Fevereiro/pesquisa-revela-que-compra-de-votos-ainda-e-realidade-no-pais>.
Acesso em: 21 ago. 2019.

Considerando o que você estudou neste módulo e seus conhecimentos sobre a realidade brasilei-
ra, reflita, após a leitura do texto proposto, sobre algumas questões relacionadas à política brasileira
na Primeira República e nos dias atuais:
● É possível identificar a permanência, nos dias atuais, de práticas políticas semelhantes às da
Primeira República?
● Que diferenças políticas podem ser apontadas entre o início da Primeira República e os dias
atuais?
● Analise o papel do eleitor e dos chefes políticos nos dois períodos.

PARA CONCLUIR
HIST”RIA M”DULO 1

Neste módulo, falamos sobre estruturas da República Oligárquica. Com o segundo presidente
civil, Campos Sales (1898-1902), o sucessor de Prudente de Morais, foram criadas estruturas políticas
(Política dos Estados) e econômicas (Funding Loan) que serviram de esteio para o fortalecimento
sobretudo das oligarquias paulistas e mineiras. Tal processo de fortalecimento culminou com a
Política do Café com Leite depois dos desdobramentos das eleições de 1910.

170
Além disso, estudamos alguns dos elementos que compõem a produção cultural e artística do
início da República.
Apesar do esforço do Estado republicano em reprimir as práticas consideradas “não civilizadas”,
vimos que a resistência cultural das camadas populares possibilitou a diversificação da cultura
brasileira, mesmo diante de um projeto modernizador de base europeia, que desejava eliminar as
influências afro-ameríndias da cultura popular.
Diante da perseguição e da repressão às suas tradições, as camadas populares sobreviveram,
buscando se reinventar e adaptar suas práticas culturais às possibilidades de resistência.
Portanto, vimos que as oligarquias avançaram diante do controle do Estado e garantiram
que seu funcionamento – e não funcionamento em alguns casos – servisse aos seus interesses.
Interesses esses que eram muito diferentes dos da maioria da população, que permanecia
oprimida e vivendo em condições degradantes, suscitando, assim, uma série de reações das
camadas populares.

PRATICANDO O APRENDIZADO

1 Por que o período a partir de 1894 ficou conhecido 3 De que maneira o coronelismo serviu aos interesses
como República Oligárquica? das oligarquias?
A chegada das oligarquias ao poder com a eleição de Prudente Diante da ausência do Estado, a população rural se via dependente
de Morais, primeiro presidente da República civil, em 1894, marca das relações com os coronéis. Ao aceitar essas práticas, as pessoas
a consolidação do poder oligárquico no Brasil. Dessa forma, passavam a ser vistas como “gente do coronel”, recebendo favores
a hegemonia política estava concentrada nas mãos das elites e proteção pessoal. Ao consolidar seu “curral eleitoral” , baseado em
agrárias brasileiras. uma rede de clientelismo, o coronel se afirmava como poder local e
se tornava fundamental para os interesses de autoridades das demais
esferas de poder, garantindo a eleição não apenas de vereadores
e prefeitos, mas também de deputados (estaduais e federais),
senadores, governadores e do presidente da República. Os coronéis,
portanto, eram peça fundamental na estratégia político-eleitoral.

2 O que foi a Política dos Estados?


A Política dos Estados (ou Política dos Governadores) foi uma 4 Caracterize a situação econômica brasileira no início da
grande aliança baseada na troca de favores em todas as esferas: Primeira República.
nacional, estadual e municipal. A situação econômica herdada do Império não era das melhores.
A alta dívida externa e a inflação eram problemas que, somados
à superprodução do café, limitavam o crescimento.
HISTÓRIA MÓDULO 1

171
APLICANDO O CONHECIMENTO

Observe a imagem e leia o trecho a seguir. Depois, 3 De que maneira o coronelismo servia para sustentar o
responda às questões 1 a 3. funcionamento da Política dos Estados?
A partir dos coronéis se constituía uma rede de alianças que se

Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ.


estendia até o Executivo nacional. Isso porque eles garantiam a
eleição não apenas de vereadores e prefeitos, mas também de
deputados (estaduais e federais), senadores, governadores e do
presidente da República. Portanto, eram peça fundamental em
qualquer estratégia político-eleitoral e serviam como base de
sustentação da Política dos Estados.

4 Leia o trecho a seguir e depois responda à questão.


Foi na década de 30 que

Reprodução/Funarte
Paulo da Portela fez o samba e
as fantasias evoluírem juntos
e de acordo com o enredo, con-
tando na Avenida uma história
Charge de Storni, publicada na revista Careta, em 1925.
e inaugurando a própria história
O presidente dirigiu-se ao eleitor. do Carnaval no Rio. Uma trama
— Como é seu nome? dinâmica e mutante que rende
infinitos panos para mangas, ale-
O homem olhou para Rodrigo, hesitante, depois para
gorias e personagens fascinantes. Paulo da Portela
a cédula que um capanga lhe havia posto nas mãos, e fi-
LANDIM, Pedro. Luiz Antonio Simas, colunista do DIA, lança livro sobre folia.
nalmente balbuciou, visivelmente embaraçado: O Dia (Online), 5 fev. 2015. Disponível em: <https://odia.ig.com.br/_conteudo/
diversao/carnaval/2015-02-05/luiz-antonio-simas-colunista-do-dia-lanca-
— ArnestoTavareNune. livro-sobre-folia.html>. Acesso em: 21 ago. 2019.

Rodrigo pôs-se de pé. Na década de 1930, o samba conquistou o posto de


— Apelo para os membros da mesa e para os senhores símbolo da cultura nacional, com uma forte associa-
aqui presentes que sabem tão bem quanto eu que Ernesto ção entre a música, as escolas de samba, o Carnaval e
Tavares Nunes está morto e enterrado. o Estado. No entanto, a história foi bem diferente na
Fez-se um silêncio. Primeira República.
VERISSIMO, Érico. O retrato. São Paulo:
Círculo do Livro, [s. d.]. p. 259-260. (O tempo e o vento, v. 2).
Caracterize a relação entre o Estado e o samba na Pri-
meira República, destacando uma ação estatal relacio-
1 De que maneira a imagem e o trecho se relacionam à nada às manifestações da cultura popular.
Primeira República? É uma relação tensa, na medida em que o Estado republicano
A imagem e o trecho lançam um olhar sobre o coronelismo, prática
compreendia as manifestações culturais oriundas das tradições
comum na Primeira República.
afro-ameríndias como sem valor ou incivilizadas. O ideal de
2 Cite duas características do modelo político adotado ao
HISTÓRIA MÓDULO 1

comportamento e de cultura era o europeu. Nesse sentido, os


longo da Primeira República. eventos de samba eram reprimidos, os sambistas perseguidos e
O aluno pode citar: o federalismo, o poder na mão das oligarquias, a terreiros de candomblé e umbanda eram invadidos, entre outras
exclusão política de parte significativa da população, o coronelismo, o práticas de opressão.
voto de cabresto, o clientelismo, entre outras.

172
DESENVOLVENDO HABILIDADES Veja, no Manual do Professor, o gabarito comentado das alternativas
sinalizadas com asterisco.

1 Leia um trecho do livro Os bruzundangas, de Lima Barreto. Pelo acordo, o Brasil recebeu como empréstimo 10 mi-
lhões de libras, oferecendo como garantia as rendas da
Na Bruzundanga, como no Brasil, todos os repre-
alfândega do Rio de Janeiro.
sentantes do povo, desde o vereador até o presidente
FERREIRA, Jorge. História. São Paulo: Saraiva, 2010. p. 565.
da República, eram eleitos por sufrágio universal e, lá,
como aqui, de há muito que os políticos tinham conse- O Funding Loan representou para a economia brasileira:
guido quase totalmente eliminar do aparelho eleitoral
a) um novo fôlego, com um novo empréstimo e o adia-
este elemento perturbador – “o voto”. Julgavam os che-
mento do pagamento da dívida externa.
fes e capatazes políticos que apurar os votos dos seus
concidadãos era anarquizar a instituição e provocar um b) um empecilho ao desenvolvimento econômico no
trabalho infernal na apuração porquanto cada qual vo- governo Campos Sales, na medida em que atolou a
tava em um nome, visto que, em geral, os eleitores têm União com dívidas impagáveis.
a tendência de votar em conhecidos ou amigos. Cada c) a superação da dependência brasileira em relação
cabeça, cada sentença; e para obviar os inconvenientes aos credores internacionais, sobretudo os banquei-
de semelhante fato, os mesários de Bruzundanga lavra- ros ingleses.
vam as atas conforme entendiam e davam votações aos
candidatos conforme queriam. [...] às vezes semelhantes d) uma política que promoveu a estabilização da eco-
eleitores votavam até com nome de mortos, cujos diplo- nomia brasileira até os anos 1930.
mas apresentavam aos mesários solenes e hieráticos que e) uma forma de renegociar a dívida para que o di-
nem sacerdotes de antigas religiões. nheiro fosse investido somente nos setores sociais.
BARRETO, Lima. Os bruzundangas. Rio de Janeiro: Ediouro, [s. d.]. p. 65-66. Isso resolveu os problemas estruturais da República
Sobre o comportamento eleitoral criticado na sátira, é Oligárquica.
correto afirmar que:
3 Leia o trecho e responda à questão a seguir.
a) o projeto político das elites agrárias encontrou obs-
táculos no modelo federalista. [...]
b) os coronéis garantiam o fortalecimento do poder das Em 1912, Franco Rabelo ganhou as eleições para o
oligarquias a partir do voto de cabresto, da troca de governo do Ceará devido à “Política das Salvações”, que
favores e das fraudes eleitorais. foi implementada por Hermes da Fonseca [...]. O Governo
c) as fraudes eleitorais foram dificultadas pelo sistema de Nogueira Accioly dominou o cenário político cearen-
eleitoral adotado na Primeira República, com a ins- se baseado em práticas como a troca de favores entre os
tituição do voto secreto. coronéis, o nepotismo e a repressão aos opositores. Além
disso, atrelava-se essas práticas dentro das maquinarias
d) ocorreu em menor escala nesse período, pois os
da “Política dos Governadores”, baseada na troca de in-
órgãos de fiscalização funcionavam plenamente,
fluência local por benefícios do Governo Federal. Mante-
garantindo a lisura do processo eleitoral.
ve-se no poder de 1896, quando foi eleito presidente do
e) o voto aberto foi responsável por garantir a trans- Estado, até 1912, diante da revolta dos habitantes da ca-
parência do sistema eleitoral, pois dessa forma as pital, que ocasionou na eleição de Franco Rabelo.
fraudes foram combatidas com sucesso.
FREIRE, Carlos Renato Araújo. O antes e o depois – uma história da
construção da memória social do quebra-quebra de 1942. VI Simpósio Nacional
2 Após a leitura do fragmento abaixo, responda à questão
HISTÓRIA MÓDULO 1

de História Cultural da UFPI. Disponível em: <http://gthistoriacultural.com.br/


a seguir, escolhendo a alternativa correta. VIsimposio/anais/Carlos%20Renato%20Araujo%20Freire.pdf>.
Acesso em: 21 ago. 2019.
Em 1898, o Governo do presidente Campos Salles
fez um acordo com credores internacionais. Todas as Durante o governo de Hermes da Fonseca foi criada a
dívidas brasileiras foram transformadas em uma única. Política das Salvações, que consistia:

173
a) na criação de uma linha de crédito para os cafeicul- sob o comando do seu partido. Numa situação como essa
tores, tentando manter os preços praticados antes não foi difícil perceber que a união das bancadas de Mi-
do final do século XIX. nas Gerais e de São Paulo, as duas maiores do Legislativo
b) na substituição das oligarquias estaduais opostas federal, daria a esses dois estados o domínio do Congres-
ao presidente eleito por aliados dele e do governo so Nacional e uma posição absolutamente central na sus-
central nos estados. tentação do Executivo.
PERISSINOTTO, Renato. Hegemonia cafeeira e regime político.
c) na atuação direta da União para promover o de- Revista de Sociologia e Política, n. 6/7. UFPR: Curitiba, 1996. p. 193. Disponível em:
senvolvimento econômico e social do Norte e do <http://revistas.ufpr.br/rsp/article/view/39349/24165>. Acesso em: 21 ago. 2019.

Nordeste. Agora responda: durante a Primeira República no Brasil


d) no incentivo à industrialização, com a associação (1889-1930), a “Política do Café com Leite” representou:
entre o capital nacional privado e o capital estatal. a) a política econômica de incentivo à exportação de
e) na atuação do presidente para que todos os proble- café e leite na Primeira República.
mas dos estados fossem resolvidos, o que garantiu b) a disputa política entre Minas Gerais e São Paulo,
o excelente relacionamento entre governo federal que impediu o predomínio político das oligarquias.
e governos estaduais.
c) a predominância, no comando político do governo
4 Leia o trecho a seguir. federal, das oligarquias paulista e mineira.
O resultado foi exatamente aquilo que se conhece
d) a aliança entre o Rio de Janeiro e estados do Nor-
como a política do “café com leite”. Na medida em que
deste contra a hegemonia paulista.
a política dos governadores enviava ao Congresso Fede-
ral apenas parlamentares governistas, fiéis e rigidamente e) a política de acordo do Exército e das oligarquias
controlados pelos partidos republicanos regionais, for- rurais, em que o Brasil manteria o caráter agroex-
mou-se ali bancadas estaduais extremamente coesas e portador e o Exército manteria a ordem impedindo
homogêneas, bancadas que agiam de forma coordenada, manifestações sociais.

ANOTA‚ÍES
HISTÓRIA MÓDULO 1

174
neiro, RJ.
“Céus! Que vejo?

l, Rio de Ja
O Supremo Tribunal
enforcando o

na
regulamento

lioteca Nacio
sanitário? Pobre
Oswaldo!” Texto da

undação Bib
charge publicada na
revista O Malho,
de 1905.

Reprodução/F
LO
DU
Ó
M

A fim de tornar

2
República Oligárquica: as habilidades
da BNCC mais
acessíveis para

movimentos sociais no
os estudantes,
optou-se por
apresentá-las

campo e na cidade
de forma
resumida no
Caderno do
Aluno.

OBJETOS DO CONHECIMENTO HABILIDADES


3 Experiências republicanas e práticas autoritárias: as 3 Apontar o processo de modernização e reformas
tensões e disputas do mundo contemporâneo. urbanísticas do Rio de Janeiro (capital).
3 A proclamação da República e seus primeiros 3 Caracterizar e compreender os ciclos da história
desdobramentos. republicana.
3 A questão da inserção dos negros no período republicano 3 Discutir a importância da participação da população
do pós-abolição. negra na formação econômica, política e social do
Brasil e os mecanismos de sua inserção na sociedade
3 Os movimentos sociais a cultura afro-brasileira como
pós-abolição.
elemento de resistência e superação das discriminações.
3 Relacionar as conquistas de direitos políticos, sociais
e civis à atuação de movimentos sociais.

175
PARA COMEÇAR

O que fica para o Rio: um debate em aberto sobre o legado olímpico


Governantes prometeram mudar a cara do Rio a partir de investimentos em infraestrutura com vistas
aos grandes eventos recebidos pela cidade desde meados da década passada: os Jogos Pan-Americanos
de 2007, a Copa do Mundo de 2014 e, principalmente, a Olimpíada de 2016.
As mudanças não aconteceram da noite para o dia. Muitas obras atrasaram. Os custos não foram
apenas financeiros, foram também humanos. Muitas famílias acabaram desalojadas de suas casas.
Após o fim da Olimpíada em 25 de agosto, naquele que foi o maior megaevento esportivo já realizado
no Rio, resta agora avaliar o que ficou de fato para os moradores e frequentadores da cidade, segunda
maior do país e um dos principais destinos turísticos brasileiros. […]

Intervenções na região portuária e no centro


Baía de Guanabara – Rio de Janeiro (atual)
Banco de imagens/Arquivo da editora

As obras às margens da baía de Guanabara incluem a


revitalização da zona portuária carioca e são apresentadas
Ponte Rio-Ni
terói
como um dos principais legados urbanos da Olimpíada.
1. Porto Maravilha
Porto
Maravilha
Localizado na região portuária e no centro do Rio de
1
Niterói
Janeiro, o projeto do Porto Maravilha envolveu a demoli-
ção do Elevado da Perimetral, uma via expressa de 4 790
Aeroporto metros.
Marina Santos Dumont
da Glória 2
As praças XV e Mauá, que ficavam parcialmente em-
baixo dessa via, foram reformadas. Elas compõem parte da
N
Baía de Guanabara Orla Conde, um passeio público que passa por 27 institui-
O L
ções públicas, entre elas o Museu do Amanhã (inaugurado
S
0 1 km pouco antes da Olimpíada), o Centro Cultural Banco do
Brasil e o Museu de Arte do Rio. Calçadões foram criados
Fonte: NEXO Jornal. Disponível em: <www.nexojornal.com.br/expresso/2016/09/09/
O-que-fica-para-o-Rio-um-debate-em-aberto-sobre-o-legado-olímpico>. Acesso em: 16 out. 2019. e árvores foram plantadas na região.
O projeto teve início em 2011. Seu custo total é de R$ 8 bilhões, e a previsão é de que as intervenções
ali continuem ocorrendo por até 30 anos. Uma das formas encontradas pela prefeitura para financiar
o projeto foi permitir a construção de imóveis mais altos do que o legalmente previsto na região. Em
troca, as empresas pagam uma quantia que deve ser destinada ao porto.
Na Olimpíada, o Porto Maravilha abrigou o Boulevard Olímpico, onde ficavam a Pira Olímpica e os
espaços de convivência. O plano da prefeitura é atrair novos moradores e empresas para a região, a fim
de revitalizar essa região central e histórica da cidade. O objetivo é que o número de moradores salte dos
atuais 32 mil para 100 mil.

2. Marina da Glória
HISTÓRIA MÓDULO 2

A Marina da Glória é um centro portuário na baía de Guanabara utilizado nas provas de vela durante
a Olimpíada.
Ela foi reformada com recursos privados, ao custo de R$ 60 milhões. Segundo as informações da
prefeitura, as obras tiveram início em dezembro de 2014 e terminaram no primeiro trimestre de 2016.

176
O governo do Estado inaugurou ali, em abril, uma nova tubulação que percorre uma distância de cerca
de um quilômetro e direciona o esgoto para a rede de coleta e tratamento.
De acordo com a prefeitura, a população poderá utilizar o espaço, que antes era restrito aos donos
de barcos. Ou seja, um acesso público, com atividades pagas. Haverá restaurantes, lojas náuticas, cur-
sos de vela e de mergulho, local para contratação de passeios, espaço específico para os pescadores,
vestiários, área de convivência para marinheiros e bicicletários. […]
FÁBIO, André Cabette. O que fica para o Rio: um debate em aberto sobre o legado olímpico. Nexo Jornal, 9 set. 2016.
Disponível em: <www.nexojornal.com.br/expresso/2016/09/09/O-que-fica-para-o-Rio-um-debate-
em-aberto-sobre-o-legado-olímpico>. Acesso em: 19 ago. 2019.

O Rio de Janeiro passou por uma série de reformas ao longo do século XX. E nos primeiros anos
do século atual, nas décadas de 2000 e 2010, não foi diferente: como você leu na reportagem, obras
relacionadas à Copa do Mundo de 2014 e à Olimpíada de 2016 tomaram conta da cidade, da região
portuária à Barra da Tijuca.
Se, por um lado, a Barra da Tijuca é um bairro de ocupação mais recente e que ainda vive um
grande ciclo de expansão, por outro lado o porto do Rio de Janeiro é uma área de ocupação antiga
que seguiu se transformando ao longo do tempo e, atualmente, vive a euforia pós-inauguração de
espaços culturais nessa região. É importante lembrar, no entanto, que essas reformas não resultaram
em benefícios para todos os grupos da sociedade da cidade.
A primeira grande reforma do Rio de Janeiro aconteceu no início da década de 1900, sob a
liderança do prefeito Pereira Passos. O Brasil vivia um período de intensa modernização, marcado
também pelas reformas dos grandes centros urbanos. O objetivo era associar a República à ideia
de modernidade e desvinculá-la do passado recente monárquico brasileiro.

PARA RELEMBRAR

Nos dois módulos anteriores, falamos da estruturação e da consolidação do modelo republicano


de governo brasileiro. Vimos que o fortalecimento das oligarquias estava associado ao controle do
Estado e que, com isso, esses grupos conseguiam garantir seus interesses.
No entanto, eles eram muito diferentes dos da maioria da população. Se, por um lado, o Convênio
de Taubaté permitia aos grandes fazendeiros a manutenção de suas riquezas, por outro a maioria dos
trabalhadores permanecia oprimida e vivendo em condições degradantes. Além disso, ao mesmo
tempo que os chefes políticos das oligarquias exerciam forte controle sobre seus currais eleitorais,
a maior parte da população estava excluída da política.
Esses dois exemplos de diferenças de interesses não são os únicos, mas ilustram um cenário
importante desse período: as oligarquias tinham um ponto de vista específico sobre o que deveria
ser o Brasil e os objetivos a serem alcançados. Tratava-se essencialmente de manter o poder, garantir
o controle e a exploração das camadas populares e expandir os negócios.
Havia ainda uma outra questão que começou a se apresentar no final do século XIX e que ga-
nhou enorme força nos primeiros anos do século XX. Era a necessidade de dar vazão ao discurso
modernizador.
Desde o início da República, o ideal modernizante era associado a esse regime. A monarquia passou
a ser considerada ultrapassada, velha. O novo modelo implicava mudanças.
HISTÓRIA MÓDULO 2

Todavia, a modernização não agiria apenas no campo político. Ao contrário, avançava contra as
práticas sociais consideradas inferiores, contra as comunidades consideradas arcaicas, contra tudo
o que não fosse sinônimo de um Brasil moderno para as elites brasileiras.

177
PARA APRENDER

Transformações na Primeira República


As transformações empreendidas pelos governos republi-
Augusto Malta/Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ.

canos geraram uma série de reações na sociedade brasileira.


Afinal, o Brasil branco, não miscigenado e europeu idealiza-
do pelas elites que dirigiam o país contrastava com a maior
parte da população, marcada pela diversidade. Ao mesmo
tempo, os projetos modernizadores se tornavam ainda mais
discriminatórios, porque não era permitida a participação de
amplos setores da população brasileira nas decisões, além
de desrespeitar seus direitos.
Para as elites brasileiras, o país deveria ter a França como
modelo. Hábitos, aparência, arquitetura, tudo precisava ser
imaginado e realizado de acordo com o modelo francês, que
representava o progresso, o desenvolvimento, o novo, o mo-
derno. Para esses grupos, o Brasil precisava se modernizar,
mesmo que à força.
Casas e edificações Assim, esse momento foi marcado por um embate entre o Brasil que tentava ser novo e moderno,
destruídas para a mas que reforçava os laços de dominação e exclusão econômica e política, e um país que tentava
construção da avenida
Central, atual avenida resistir e se reinventar, como fazia desde o período colonial.
Rio Branco, na cidade Esse choque suscitou uma série de reações das camadas populares, como estudaremos neste módulo.
do Rio de Janeiro (RJ), no
início do século XX.
Movimentos rurais
Guerra de Canudos (1896-1897)
Antônio Conselheiro em
Desde os tempos coloniais, a concentração fundiária e a desigualdade eram marcas em todo o
charge de Pereira Neto
para a Revista Illustrada, território brasileiro, principalmente no nordeste. As últimas décadas do século XIX, porém, foram
1897. ainda mais duras.
Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ.

Uma sequência de anos com intensas secas agravou as con-


dições locais, que já eram ruins. Além disso, os proprietários ru-
rais controlavam o funcionamento desses lugares, ao restringir
o acesso a água e ao moderar as possibilidades de trabalhos e
de oferta de alimentos. A sequência desses eventos dificultou a
vida dessas populações e agravou a crise local, com o avanço da
miséria e da fome, afetando as camadas mais frágeis da sociedade.
Nos anos 1870, um pregador começou a cruzar o Sertão nordes-
tino. Ele era conhecido como Antônio Conselheiro e havia partido
de Quixeramobim, no interior do Ceará, vagando pelas cidades
HIST”RIA M”DULO 2

da região. Começou a unir o povo para construir igrejas, levantar


muros em cemitérios e seguir uma vida dedicada à espiritualidade.
Aos poucos, passou a ser identificado como um cristão que
atuava como um líder religioso. Não era um sacerdote, mas era
considerado pela população.

178
Nesse ambiente marcado pela tragédia social e pela ausência do Estado, as palavras daquele
beato, que traziam a promessa de uma vida melhor e de um lugar para viver com dignidade, en-
contravam um terreno fértil. Impressionados com elas e a fama de santo daquele homem, muitas
pessoas passaram a segui-lo.
Depois de mais de duas décadas em peregrinação, Con-

Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ.


selheiro se fixou na antiga fazenda Canudos, às margens
do rio Vaza-Barris, onde fundou o arraial de Belo Monte.
Seus seguidores se estabeleceram ali e outros chegaram,
fugindo da seca, da miséria, da fome, do coronelismo.
O arraial chegou a ter mais de 20 mil habitantes, o que
incomodava bastante a Igreja e os coronéis da região. Isso
porque Canudos roubava fiéis e diminuía o curral eleitoral.
Acredita-se que a separação entre Igreja e Estado esta-
belecida pela Constituição de 1891 era vista como desrespei-
to por Conselheiro, que fazia suas críticas com veemência.
Assim, para o governo, a população de Canudos e Conselhei-
ro passaram a ser apontados como fanáticos e monarquistas
e representavam uma ameaça ao projeto republicano.
Entre 1896 e 1897, foram enviadas quatro expedições Arraial de Canudos visto pela Estrada do Rosário. Ilustração de Urpia, c. 1895.
militares para acabar com o movimento. A expressão Guer-

Flavio de Barros/Museu da República, Rio de Janeiro, RJ.


ra de Canudos é uma referência a esses enfrentamentos.
O destaque dado pelo governo de Prudente de Morais e a
fama injusta de reduto monarquista contribuíram para o
apoio popular: era preciso reprimir o movimento e dar aos
rebeldes uma espécie de castigo exemplar.
No intervalo entre a penúltima e a última expedições
militares, Antônio Conselheiro morreu de disenteria, uma
doença ligada à miséria e às condições em que aqueles
moradores viviam. Em outubro de 1897, Canudos foi mas-
sacrado, e seus últimos sobreviventes, executados pelas
tropas do governo central.
Leia, a seguir, um trecho do livro Os Sert›es, de Eucli-
des da Cunha, sobre o episódio que entrou para a história Os poucos sobreviventes, mulheres e crianças, poupados na chacina, em 1897, são
brasileira como um de seus mais sangrentos conflitos. vigiados por homens ao fundo.

AMPLIANDO HORIZONTES

O cadáver do Conselheiro
Antes, no amanhecer daquele dia, a comissão adrede escolhida descobrira o cadáver de Antônio Conselheiro.
Jazia num dos casebres anexos à latada, e foi encontrado graças à indicação de um prisioneiro. Removida breve ca-
HIST”RIA M”DULO 2

mada de terra, apareceu no triste sudário de um lençol imundo, em que mãos piedosas haviam desparzido algumas flores
murchas, e repousando sobre uma esteira velha, de tábua, o corpo do “famigerado e bárbaro” agitador. Estava hediondo.
Envolto no velho hábito azul de brim americano, mãos cruzadas ao peito, rosto tumefato e esquálido, olhos fundos cheios
de terra – mal o reconheceram os que mais de perto o haviam tratado durante a vida.

179
Desenterraram-no cuidadosamente. Dádiva preciosa – único prêmio, únicos despojos opimos de tal guerra! –, faziam-
-se mister os máximos resguardos para que se não desarticulasse ou deformasse, reduzindo-se a uma massa angulhenta
de tecidos decompostos.
Fotografaram-no depois. E lavrou-se uma ata rigorosa firmando a sua identidade: importava que o país se convencesse
bem de que estava, afinal, extinto aquele terribilíssimo antagonista.
Restituíram-no à cova. Pensaram, porém, depois, em guardar a sua cabeça tantas vezes maldita – e, como fora mal-
baratar o tempo exumando-o de novo, uma faca jeitosamente brandida, naquela mesma atitude, cortou-lha; e a face
horrenda, empastada de escaras e de sânie, apareceu ainda uma vez ante aqueles triunfadores.
Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multidões em festa, aquele crânio. Que a ciência dissesse a última
palavra. Ali estavam, no relevo de circunvoluções expressivas, as linhas essenciais do crime e da loucura…
CUNHA, Euclides da. Os Sert›es. São Paulo: Três, 1984 (Biblioteca do Estudante). Disponível em: <www.dominiopublico.gov.br/
download/texto/bv000091.pdf>. Acesso em: 20 ago. 2019.

Guerra do Contestado (1912-1916)


Glossário O tom messiânico presente em Canudos não foi uma exceção. Ao contrário, as condições de
Messi‰nico: miséria que assolavam boa parte da população brasileira estimulavam a adesão popular a esse tipo
relativo a um de movimento. Foi o que aconteceu na região do Contestado, na divisa entre Paraná e Santa Catarina.
movimento que A construção de uma ferrovia que ligava São Paulo ao Rio Grande do Sul levou milhares de tra-
prega a missão de
uma pessoa ou um balhadores para a região. No entanto, a situação se alterou com o fim da obra no trecho. Muitos
grupo de pessoas perderam seus empregos, e, com a doação de áreas ao largo da ferrovia para a empresa responsável
como salvadora(es) por sua exploração, muita gente teve de abandonar a região.
da humanidade.
A situação causou grande revolta, e as pessoas insatisfeitas encontraram amparo na figura
de um beato local, chamado José Maria. Com discurso crítico ao republicanismo e apontando
Batalhão da Infantaria, para um futuro sem sofrimento e miséria, atraiu muitos seguidores, formando comunidades de
comandado pelo major
Gameiro, em uma das tamanho considerável.
trincheiras no município Mais uma vez, a associação com a monarquia foi usada para combater o movimento. Perseguidos
de Canoinhas (SC), c. 1914.
e atacados por tropas estaduais, muitos fiéis morreram. O movimento, no entanto, resistia.
Por causa disso, o apoio federal foi decisivo.
Acervo Iconographia/Reminiscências

Era fundamental para o governo republicano se


afirmar diante de levantes populares, sobretudo
os que vinham carregados de messianismo. Em
um país marcado pela desigualdade, pela violên-
cia do coronelismo e pela concentração fundiá-
ria, as elites tinham medo de que movimentos
como Canudos e Contestado influenciassem o
surgimento de novos grupos e se espalhassem
por outras áreas. Assim, a ação do Estado se ba-
seava na ideia de que as demonstrações de força
excessiva evitariam novos episódios.
HIST”RIA M”DULO 2

Apesar da morte de José Maria, houve re-


sistência até 1915, mas o uso de armamento
pesado, incluindo metralhadoras, foi um fator
de desequilíbrio. No fim das contas, os rebeldes
foram massacrados, e o movimento, extinto.

180
Cangaço (1870-1930)
Surgido ainda durante o período do Im-

Acervo Iconographia/Reminisc•ncias
pério, o cangaço se tornou um fenômeno
presente no nordeste brasileiro ao longo das
últimas décadas do século XIX e as primeiras
décadas do século XX. Bandos armados an-
davam pelo sertão em busca de sua sobre-
vivência. Eles faziam o que fosse necessário
para atender a seus interesses: saqueavam,
sequestravam, extorquiam e assassinavam.
Dessa forma, conquistavam poder na região.
Muitas vezes roubavam dos ricos e tam-
bém dos pobres. Às vezes, dividiam os saques
com os mais carentes. Em outras, eram capa-
zes de matar, torturar e até enterrar pessoas
vivas. Em um dos casos mais conhecidos na
Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, o primeiro sentado à esquerda, e ao seu lado Corisco e os demais
cultura popular, Virgulino Ferreira da Silva, integrantes do grupo.
o Lampião, famoso cangaceiro, teria ateado
fogo em uma casa porque não havia comida O banditismo social constitui um fenômeno universal, encontrado
feita quando o bando chegou. em todas as sociedades baseadas na agricultura e compostas principal-
Além disso, apesar de publicamente mente de camponeses e trabalhadores sem terras governados, oprimidos
perseguido pelas autoridades locais, era e explorados por alguém: senhores, cidades, governos, advogados ou até
comum o bando prestar serviços para os mesmo bancos. […]
coronéis, atacando seus inimigos. O grupo
era contratado para eliminar adversários Devemos naturalmente fazer distinção entre a marginalidade rural
normal e as regiões e os períodos históricos em que, por uma razão ou
políticos, por exemplo.
por outra, grupos armados grandes e duradouros conseguem se manter
O cangaço foi estudado como um fenôme-
ou certas comunidades organizam suas vidas segundo uma combinação
no chamado de banditismo social. Suas ações
regular de atividades agrárias e banditismo.
brutais ficaram vinculadas a uma violência com
HOBSBAWM, Eric. Bandidos. São Paulo: Paz e Terra. 2000. p. 39.
caráter de rebelião contra as condições eco-
nômicas e sociais a que estavam expostos. Ou
seja, em um ambiente marcado pela seca, pela fome, pela miséria, pela concentração fundiária, pelo co-
ronelismo e pela violência, os cangaceiros podem ser compreendidos como uma reação ao novo governo,
que deixava de lado parte da população. Daí, por exemplo, a associação com a figura do “bandido bom”,
uma espécie de Robin Hood do Sertão nordestino. O texto acima, do historiador Eric Hobsbawm, trata
das condições sociais que propiciam a ocorrência desse fenômeno em diferentes contextos históricos.
É importante destacar que esses elementos servem apenas de base para a construção do cená-
rio em que o movimento surgiu. Essa associação não elimina nem justifica a brutalidade das ações,
que, como falamos, muitas vezes foram dirigidas até mesmo contra a população mais pobre. Esse
fenômeno ajuda a entender a construção de uma imagem boa para os que foram considerados fora
da lei pelas autoridades do seu tempo.
Assim, apesar da mitificação gerada ao longo do tempo sobre esses grupos (parte criada
HIST”RIA M”DULO 2

pela literatura de cordel), os cangaceiros não eram heróis: ao mesmo tempo que eram capazes
de boas ações em determinadas situações, agiam com brutalidade em outras. Por isso, ao con-
trário de qualquer simplificação, devem ser compreendidos como sujeitos históricos complexos
daquele período, com especificidades percebidas pelos sertanejos.
O trecho a seguir trata da criação do mito em torno do sujeito histórico.

181
AMPLIANDO HORIZONTES

O mito do bandoleiro
O Nordeste brasileiro, por exemplo, foi palco de um dos maiores movimentos do bandoleirismo ou cangaceirismo de
que temos notícias aqui no Brasil, embora alguns autores afirmem que as semelhanças do cangaço com outras formas
de banditismo no mundo são apenas superficiais. Fenômeno próprio da zona pastoril do sertão nordestino, a partir de
metade do século XIX, transformou-se num banditismo cada vez mais
Benjamin Abrahão/Acervo do Instituto Moreira Salles

desenfreado, a ponto de levar a região a um verdadeiro caos social, nas


duas últimas décadas do mesmo século, dando origem a sagas míticas
criminais nunca vistas em todo o país, como é o caso, por exemplo, de
Antonio Silvino e de Lampião [...]. Este último tornou-se uma figura
heroica tão ou mais popular que a do padre Cícero. Virgulino Ferreira,
o Lampião, é “capital cultural”, monumento da memória de Pernam-
buco, bem como de algumas cidades nordestinas por onde ele atuou.
Lampião faz parte da rota turística do sertão pernambucano, precisa-
mente da denominada “Rota do cangaço e Lampião”, abrangendo as
cidades de Triunfo, Serra Talhada, Santa Cruz da Baixa Verde, São José
do Belmonte e Afogados da Ingazeira – todas localidades do Alto Pajeú.
O artesanato pernambucano produz bonecos de barro, representando
o cangaceiro e sua mulher Maria Bonita. Sem contar algumas estátuas
Lampião e Maria Bonita no filme de Benjamin Abrahão, 1936. do bandoleiro existentes em algumas cidades nordestinas, a exemplo
da que está erguida na entrada de Fazenda Nova, BR-104
O monumento de Lampião é uma memória local estendida à
Wikipedia/Wikimedia Commons

região e que remete, no entanto, a uma memória universal, pois a re-


presentação do cangaceiro é também a do mito do cavaleiro errante, a
de todo bandoleiro. Além disso, a função do monumento como signo
[...] é vincular o passado ao futuro, é garantir aos que vêm depois o
conhecimento do que aconteceu antes [...].
No entanto, pode ser o contrário. No caso da estátua de Lampião
pode-se julgar ter ocorrido [...] a monumentalização, pelo poder, da
memória, com o objetivo de transmutá-la em esquecimento, uma
forma de honrar, de celebrar o desaparecimento de Lampião e do
próprio cangaço. Porém, essa “presença petrificada” é uma forma de
rememoração, de celebração e de homenagem, haja vista a idolatria
do povo pela figura de Lampião.
O mito do bandido-herói se sustenta em uma verdadeira recria-
ção da memória, na qual os elementos romântico e o cultural se
unem ao conceito de bandido social para criar uma personagem [...].
Além disso, as sociedades surgidas em meio hostil eram obrigadas
a viver em permanente luta contra o meio naturalmente violento.
Viviam, portanto, sob a égide do épico, no qual o bandoleiro e suas
façanhas produziam efeitos dramáticos e admiráveis, propiciando o
HIST”RIA M”DULO 2

surgimento do mito.
IBANHES, Maria de Lourdes Gonçalves de. Silvino Jacques: interseções no mito do bandoleiro.
Tese de doutorado – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. São José do Rio Preto,
Estátua de Lampião na entrada de Fazenda Nova, no município de p. 54-55. 2013. Disponível em: <https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/106346/
Brejo da Madre de Deus (PE), na BR-104. ibanhes_mlg_dr_sjrp.pdf ?sequence=1&isAllowed=y>. Acesso em: 21 ago. 2019.

182
Movimentos urbanos
Além dos movimentos que explodiram no campo no início da Primeira República, havia o grito
dos excluídos das áreas urbanas. O crescimento das cidades no início do século XX ajudou a ampliar
a atuação desses grupos.

A reforma urbana do Rio de Janeiro


No início do século XX, o projeto republicano pretendia transformar o Rio de Janeiro, então
capital federal, em uma “Paris dos trópicos”. A cidade neste período já estava tomada por casarões
e palacetes. Mas, ao mesmo tempo, tinha precários serviços de limpeza, esgoto a céu aberto, epi-
demias e cortiços abarrotados de gente.
Para o governo republicano, era necessário que a cidade, cartão-postal, principal porto e porta
de entrada do país, fosse atrativa à presença e aos investimentos estrangeiros. Na visão das elites
dirigentes, o caminho era a europeização da capital, tanto do ponto de vista estrutural quanto do
cultural. Assim, o então presidente Rodrigues Alves nomeou o engenheiro Francisco Pereira Passos
para o comando da capital, em 1902.
O prefeito deu início a uma ampla reforma, cujos objetivos eram sanear e modernizar a cidade,
contando ainda com a participação do médico sanitarista Oswaldo Cruz. As campanhas para a de-
sinfecção da cidade e o extermínio de ratos criadas pelas equipes de Oswaldo Cruz tiveram alcance
limitado, mas revelavam a atuação comprometida do médico.
Em contrapartida, a remodelação da cidade planejada pelo prefeito seguia firme. As de-
molições de prédios antigos e habitações populares abriram caminho para a construção de
novas avenidas e jardins.
Nesse processo, muitos moradores foram forçados a abandonar o lugar onde viviam nas regiões
centrais e se dirigir às zonas periféricas da cidade ou aos morros. Esse período das demolições ficou
conhecido como “Bota abaixo”.

Marc Ferrez/Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ.


Além disso, outras restrições foram impos-
tas à população mais pobre no dia a dia, como a
obrigatoriedade do uso de calçados no centro da
cidade e a perseguição aos praticantes de rituais
afro-indígenas, como a umbanda e o candomblé.
A violência da abordagem do poder público dian-
te das transformações impostas aumentou ainda
mais a insatisfação popular.
Dessa forma, o governo do Distrito Federal
tentava afastar das áreas centrais da capital,
recém-reformadas, aqueles que eram consi-
derados indesejados. Pobres, negros, indíge-
nas, ou seja, todo e qualquer grupo que não se
enquadrasse na lógica do embranquecimento
da população brasileira e de suas tradições,
eram considerados não civilizados e, portanto,
HIST”RIA M”DULO 2

deveriam ser removidos dali.

Avenida Central, atualmente chamada avenida


Rio Branco, na cidade do Rio de Janeiro (RJ),
fotografada por Marc Ferrez em 1910.

183
Revolta da Vacina (1904)
Oswaldo Cruz incentivou a aprovação no Congresso da lei que estabelecia a vacinação obri-
gatória. O objetivo era erradicar a varíola, que havia se espalhado pela cidade. No entanto, o
contexto das reformas não ajudou a sustentar a campanha.
A campanha de vacinação obrigatória contra a va-
Reprodu•‹o/Cole•‹o particular

ríola começou em meio às reformas na cidade. As casas


populares estavam sempre na mira do Estado: seja para
a atuação dos mata-mosquitos e dos responsáveis pela
vacinação, seja pelos agentes da demolição.
Um misto de autoritarismo do Estado republicano
com a ausência de informação sobre a importância da
vacina e de seus efeitos fez com que a população reagisse
mal à vacinação. A cidade virou um campo de batalha,
com o centro sitiado, bondes virados e destruição por
todos os lados.
Diante da reação popular, o governo recuou. A obriga-
toriedade da vacinação foi suspensa e a revolta, controlada
com enorme violência.
Bonde virado na praça da República, esquina com a rua da Alfândega, Rio de Janeiro (RJ), O trecho a seguir menciona a violência empregada
durante a Revolta da Vacina, em 1904. pelas autoridades contra a população marginalizada.

AMPLIANDO HORIZONTES
Um dos aspectos que mais chamam a atenção no contexto da Revolta da Vacina é o caráter particularmente drás-
tico, embora muito significativo, da repressão que ela desencadeou sobre as vastas camadas indigentes da população
da cidade. Nos deparamos aqui com um exemplo chocante de crueldade e prepotência, que nos permite entretanto
definir com clareza algumas das coordenadas mais expressivas da história social da Primeira República. Iniciemos
esse relato com um registro de Lima Barreto no seu Diário íntimo. “Eis a narrativa do que se fez no sítio de 1904.
A polícia arrepanhava a torto e a direito pessoas que encontrava na rua. Recolhia-as às delegacias, depois juntavam na
Polícia Central. Aí, violentamente, humilhantemente, arrebatava-lhes os cós das calças e as empurrava num grande
pátio. Juntadas que fossem algumas dezenas, remetia-as à Ilha das Cobras, onde eram surradas desapiedadamente.
Eis o que foi o Terror do Alves; o do Floriano foi vermelho; o do Prudente, branco, e o Alves, incolor, ou antes, de tronco
e bacalhau [chicote].”
Essa repressão brutal e indiscriminada não se restringiu aos dias que se sucederam imediatamente ao término do
motim. Segundo denúncia de Barbosa Lima na Câmara, ela se arrastou tragicamente “por dias, por meses”. Lima Barreto
o confirma, anotando em seu diário que “trinta dias depois, o sítio é a mesma coisa. Toda a violência do governo se de-
monstra na Ilha das Cobras. Inocentes vagabundos são aí recolhidos, surrados e mandados para o Acre”.
A violência policial se distingue não só pela sua intensidade e amplitude, mas sobretudo pelo seu caráter difuso.
Não importava definir culpas, investigar suspeitas ou conduzir os acusados aos tribunais. O objetivo parecia ser mais
amplo: eliminar da cidade todo o excedente humano, potencialmente turbulento, fator permanente de desassossego
para as autoridades.
HIST”RIA M”DULO 2

Os alvos da perseguição policial não eram aqueles indivíduos que se poderia comprovar terem tido alguma participa-
ção nos distúrbios, mas sim, genericamente, todos os miseráveis, carentes de moradia, emprego e documentos, que eram
milhares, e cuja única culpa era viverem numa sociedade caótica e serem vítimas de uma situação crônica de desemprego
e crise habitacional que a própria administração havia desencadeado.

184
A rigor […], [tratava-se de] livrar a cidade desse entulho humano, como uma extensão da política de saneamento
e profilaxia definida pelo projeto de reurbanização. Pelo menos, é o que se depreende das palavras do chefe de polícia,
comandante dessa operação, que a caracteriza como uma operação de limpeza, falando em varrer as ruas infestadas:
“Basta lembrar, tão agudo, intenso e extenso foi o mal, que a autoridade se julgou obrigada a pedir aos cidadãos pací-
ficos, aos homens de trabalho, se recolhessem às habitações para que as ruas pudessem ser varridas, pelo emprego de
medidas extraordinárias, dos elementos vivos de destruição e de morte que as infestavam, dominando-as com as armas
homicidas. Cogitou-se mesmo de sufocar a desordem a metralha.” Quem ouvisse poderia imaginar que se tratava de uma
operação de extermínio de ratos, mas tratava-se de seres humanos desamparados e desesperados. As palavras finais do
chefe de polícia não escondem sequer o impulso homicida e genocida que palpitava por trás daquela operação. Pouco
antes, de fato, a campanha de saneamento havia desencadeado o processo de exterminação dos ratos, transmissores
da peste bubônica e dos mosquitos, agentes de transmissão da febre amarela, assim como a eliminação das pocilgas,
pauis e depósitos de detritos. Ora, o chefe da polícia, nesse relatório que estamos citando, compara os participantes da
revolta ao resíduo, à sujeira infecta que tem de ser evacuada e suprimida, ao referir-se a eles como “o pessoal habituado
ao crime, o rebotalho ou as fezes sociais”. A expressão não é muito bonita, mas é altamente reveladora da mentalidade
que planejou a repressão e do campo simbólico em que a incluiu, visando legitimá-la.
SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da Vacina. São Paulo: Cosac Naify, 2010. p. 97-99.

Revolta da Chibata (1910)


Apesar das ideias de modernização presentes na República, algumas estruturas sociais perma-
neceram intactas, entre elas o racismo.
A Marinha estava cheia de exemplos dessas permanências. Ela mantinha uma tradição
aristocrática, dominada pelos filhos das elites brancas brasileiras. Aos negros e aos mestiços Encoura•ado: navio
restava a posição de marinheiro, base da hierarquia. Além disso, mantinha-se um código de guerra blindado
disciplinar dos tempos do Império, que estabelecia castigos físicos aos não oficiais que des- e armado com
peças de artilharia
respeitassem as regras. de longo alcance e
Assim, os marinheiros brasileiros estavam submetidos a condições desumanas de trabalho, de alto calibre.
aos baixos salários, à má alimentação, aos castigos físicos – entre eles a chibata – e a humilhações
constantes. É com base nesses eventos que devemos compreender a eclosão da revolta.
Em novembro de 1910, diante da punição

Acervo Iconographia/Reminisc•ncias
a um companheiro no convés do encouraçado
Minas Gerais, um grupo de marinheiros, lide-
rados por João Cândido, tomou o controle do
navio. A notícia se espalhou pela baía de Gua-
nabara, chegando às outras embarcações, que
reagiram da mesma maneira: rebeliões.
Com os canhões apontados para a capital da
República, os revoltosos exigiram aumento dos
salários, melhor alimentação, fim dos castigos
físicos e anistia aos participantes do movimento.
HIST”RIA M”DULO 2

O então presidente Hermes da Fonseca negociou


com os marinheiros e cedeu às exigências.

Revolta da Chibata: rebeldes no encouraçado


Minas Gerais. Rio de Janeiro (RJ), 1910.

185
A Revolta da Chibata chegava ao fim com a deposição das armas dos marinheiros e o desem-
barque. No entanto, o governo republicano ignorou a anistia e puniu os envolvidos. A maioria foi
enviada para campos de trabalho na Amazônia e não voltou de lá. Outros ficaram presos na ilha das
Cobras – entre eles, João Cândido.
Apesar do massacre, cabe ressaltar a vitória importante obtida pelos revoltosos. Após o movi-
mento, houve aumento de salário e melhora da alimentação, o código disciplinar da Marinha foi
reformulado e os castigos físicos foram extintos.

GOTAS DE SABER
Nos anos 1970, a dupla Aldir Blanc e João Bosco compôs uma homenagem a João Cândido e à Revolta da Chibata. Em
plena ditadura militar, porém, a música foi alvo de censura, visto que falava em rebeldes, violência do Estado e exaltava
um personagem que, àquela altura, ainda era considerado um traidor. Assim, as referências mais claras à Marinha e à
violência foram alteradas, dando origem à versão que ficou famosa na voz de Elis Regina.
O mestre-sala dos mares O mestre-sala dos mares
(João Bosco/Aldir Blanc) (João Bosco/Aldir Blanc)

(letra original sem censura) (letra após censura durante a ditadura militar)
Há muito tempo nas águas da Guanabara Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu A quem a história não esqueceu
Conhecido como o almirante negro Conhecido como o navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao navegar pelo mar com seu bloco de fragatas E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas Rubras cascatas jorravam das costas
dos negros pelas pontas das chibatas dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração de toda tripulação Inundando o coração do pessoal do porão
Que a exemplo do marinheiro gritava: Não! Que a exemplo do feiticeiro gritava então
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias! Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias! Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história Que através da nossa história
Não esquecemos jamais Não esquecemos jamais
Salve o Almirante Negro Salve o navegante negro
Que tem por monumento Que tem por monumento
HISTÓRIA MÓDULO 2

As pedras pisadas do cais! As pedras pisadas do cais


Mas faz muito tempo…
Disponível em: <www.projetomemoria.art.br/JoaoCandido/saibamais3.html>; <www.joaobosco.com.br/musica/caca-a-raposa-1975/>. Acesso em: 21 ago. 2019.

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Movimento operário
Reprodução/Coleção particular
Em um país onde houve três séculos de es-
cravidão, o trabalho, sobretudo o exercido com a
força dos braços, foi historicamente considerado
inferior. Nesse sentido, os operários enfrentaram
desafios inglórios no início da República.
Desde o final do século XIX, estava em curso
a formação de uma classe trabalhadora brasilei-
ra. Apesar da base heterogênea, com imigran-
tes europeus misturados a brancos e mestiços
pobres e descendentes de africanos, havia a
tentativa de construir uma identidade dessa
classe trabalhadora.
Em busca de melhores condições de trabalho
e de vida, os trabalhadores formaram sindicatos e
associações mutualistas. Essas associações tinham
como objetivo prestar socorro aos seus partici-
pantes em momentos de necessidade. Mediante
a contribuição mensal dos sócios e de eventos
organizados por elas, ofereciam pensões, indeni-
zações e pagamento de funerais.
Essa aproximação entre os trabalhadores proporcionada pelos diferentes tipos de associação Comício na praça da Sé
era importante para reforçar laços e organizar a luta contra a exploração. Afinal, os baixos salários, durante a greve geral
de 1917, na cidade de
as longas jornadas, as condições insalubres, como lugares úmidos e fechados, com péssimas con- São Paulo (SP).
dições de higiene e ventilação, tanto do ambiente de trabalho quanto das moradias dos operários,
eram temas que os unia.
A presença de imigrantes no movimento operário ajudou a difundir ideias vindas da Europa. No final
do século XIX e início do século XX, muitos europeus estavam abandonando o continente por diferentes
razões: desemprego, dificuldades de acesso à terra, perseguições políticas, a Primeira Guerra Mundial.
Nesse contexto, a América – e o Brasil – representava a possibilidade de uma vida melhor.
Assim, com a chegada dessas levas de imigrantes, as ideias políticas difundidas na Europa
no período ganharam força no Brasil. O anarquismo e o socialismo se consolidaram nos meios
sindicais da época.
Os anarquistas acreditavam que os sindicatos poderiam servir como célula organizadora da
luta contra o capitalismo, o Estado e o poder. Dessa forma, nascia o anarcossindicalismo.
Apesar de não terem obtido sucesso na destruição da propriedade privada e do Estado
brasileiro, a atuação dos anarquistas estimulou a aproximação entre os trabalhadores, com
a realização de eventos, a produção de uma literatura relacionada à classe trabalhadora e o
incentivo ao estudo.
Foram os anarquistas que lideraram a greve geral no ano de 1917, que forçou o governo repu-
blicano a ceder e aprovar algumas medidas exigidas pelos grevistas, como a jornada de trabalho
HIST”RIA M”DULO 2

de dez horas diárias, a regulação do trabalho infantil e feminino e a permissão para a atuação dos
sindicatos. Nesse momento, o socialismo ocupava um papel secundário no movimento operário
brasileiro. Somente na década de 1920, após o sucesso da Revolução Russa e a formação do Partido
Comunista Brasileiro (PCB), em 1922, a situação mudaria. E, na prática, um sistema de proteção
ao trabalhador no Brasil só viria a se tornar realidade depois de 1930.

187
AMPLIANDO HORIZONTES

Anarquismo
O anarquismo se opõe às instituições inspirado na ideia de que o ser humano deveria ser completamente livre.
Essa liberdade partiria dos próprios seres humanos, e não das instituições criadas para a vida em sociedade. Portanto,
não deveriam existir um Estado, que limitasse as liberdades individuais, nem a propriedade privada dos meios de
produção. Nesse contexto, a organização da sociedade se daria em pequenas cooperativas e com a formação de
comunidades voluntárias. O francês Pierre Joseph Proudhon e o russo Mikhail Bakunin são dois de seus principais
pensadores.
Socialismo cient’fico
O socialismo científico tem origem nas ideias concebidas por Karl Marx e Friedrich Engels, sintetizadas no
Manifesto Comunista, de 1848. Foi construído com base na análise da sociedade industrial burguesa do século XIX,
que tinha a luta de classes como ponto fundamental da compreensão das estruturas presentes nas sociedades ao
longo da História. Assim, a melhoria das condições de vida e do trabalho se concretizaria a partir da luta de classes
e da revolução proletária, que conduziria a uma nova sociedade, sem propriedade privada dos meios de produção,
sem classes sociais e sem Estado.

As mulheres tinham
seus direitos limitados
na Primeira República,
comparados aos dias SITUAÇÃO-PROBLEMA
atuais. Nesse sentido,
elas estavam excluídas
da participação política [...] Nascida em Natal, Celina morava em Mossoró, no Rio Grande do Norte, quando o Poder Judiciário
e das posições de
destaque na sociedade local permitiu que mulheres se alistassem para votar em uma eleição complementar para o Senado. Celina
brasileira. No entanto,
e outras 20 mulheres se inscreveram. Ela foi a primeira a conseguir esse direito. [...]
sua presença no mercado
de trabalho podia ser
notada: as mulheres — Naquela época, as mulheres só ficavam em casa, mas Celina não se prendeu às restrições. [...] O que
da classe trabalhadora ela fez foi um marco, abriu as portas para a emancipação feminina. O voto é uma das formas de exercer
estavam nas fábricas, nas
lavouras e nas atividades nossa cidadania [...].
domésticas, por
exemplo. Atualmente, O Senado acabou invalidando os votos daquela eleição por não aceitar o voto feminino. Mas Celina
a mulher conquistou o
mercado de trabalho
e as outras mulheres ficaram conhecidas pelo pioneirismo. O sufrágio feminino foi adotado no Código
e participa da vida Eleitoral em 1932, no início da Era Vargas, e as mulheres também puderam disputar vagas na política um
política; no entanto, é
importante perceber que ano depois. [...]
as estruturas excludentes
MARTINS, Elisa. Celina, a inspiração na história da primeira eleitora do Brasil. O Globo.
permanecem enraizadas
Disponível em: <https://oglobo.globo.com/celina/celina-inspiracao-na-historia-da-primeira-eleitora-do-brasil-23507004>.
com o machismo na
Acesso em: 2 set. 2019.
sociedade. No aspecto
econômico, ainda
existem as diferenças Celina Guimarães Viana foi a primeira mulher a conseguir o direito de votar, ainda na década de
salariais entre mulheres 1920. Sua ação foi considerada um marco na luta pelos direitos das mulheres.
e homens que trabalham
nos mesmos cargos,
além da dificuldade de ● Com base no trecho lido e em seus conhecimentos, pesquise a luta das mulheres por direi-
acesso a posições de tos iguais na sociedade brasileira, considerando os seguintes aspectos: o exercício da cidada-
HIST”RIA M”DULO 2

liderança.No aspecto
social, as lutas das nia e a inserção no mercado de trabalho das mulheres na Primeira República; as mudanças
mulheres apontam para
a divisão de deveres em
e permanências dos direitos das mulheres entre o período da Primeira República e os
relação à criação dos dias atuais.
filhos e para os direitos
reprodutivos.

188
PARA CONCLUIR

Neste módulo, você aprendeu que as oligarquias tinham um ideal de Brasil a ser construído, ba-
seado em referências europeias, e que isso estava vinculado ao projeto de poder dessas oligarquias,
com a exclusão política, econômica e social da maioria da população. Esse projeto foi colocado em
prática desde os primeiros anos da República, sob a ideia de modernização do país.
Ao mesmo tempo, havia um reforço das estruturas tradicionais de modo de governo, do racis-
mo, da violência e do abandono de algumas regiões. Era um discurso de mudança que mantinha
os excluídos no lugar de sempre.
Dessa forma, as transformações e as tentativas de reformas realizadas pelos governos republi-
canos tiveram como resposta uma série de movimentos no campo e na cidade. Com a crescente
ampliação da cidadania, a organização das lutas populares ganhou força e se expandiu pelo Brasil,
de norte a sul. Essa resistência ao autoritarismo do Estado e das oligarquias deu origem aos movi-
mentos sociais que estudamos.

PRATICANDO O APRENDIZADO

1 Há semelhanças entre as guerras de Canudos e do 3 Comente a situação dos marinheiros no Brasil antes
Contestado? Justifique. da Revolta da Chibata.
Sim. Podem-se destacar a presença de líderes com discursos Os marinheiros brasileiros estavam submetidos a condições
messiânicos e um ambiente marcado pela miséria e pela desumanas, com baixos salários, má alimentação, castigos físicos –
concentração fundiária. entre eles a chibata – e humilhações constantes. É com base nesses
aspectos que devemos compreender a eclosão da revolta.

2 Explique as motivações para a eclosão da Revolta da 4 Qual é a importância dos imigrantes para o movimento
Vacina. operário brasileiro?
A revolta tem como estopim a vacinação obrigatória, mas deve A presença de imigrantes no movimento operário ajudou a
ser pensada com base no processo de reformas urbanas da cidade. difundir ideias vindas da Europa. O anarquismo e o socialismo se
consolidaram nessa época.

HISTÓRIA MÓDULO 2

189
APLICANDO O CONHECIMENTO

1 Leia o trecho abaixo e responda. 3 De que maneira os primeiros anos da República con-
Muito cedo ficou evidente para esses novos personagens testam essa ideia?
Desde o final do século XIX, uma série de movimentos sociais
o anacronismo da velha estrutura urbana do Rio de Janeiro
diante das demandas dos novos tempos. Era preciso, pois, eclodiu no Brasil republicano. Assim, podemos perceber que há,

findar com a imagem da cidade insalubre e insegura, com sim, a participação popular, a reação contra a exclusão e a luta por

uma enorme população de gente rude plantada bem no direitos.


seu âmago, vivendo no maior desconforto, imundície e na
promiscuidade e pronta para armar em barricadas as vie-
las estreitas do centro ao som do primeiro grito de motim.
E progresso significava somente uma coisa: alinhar-se
com os padrões e o ritmo de desdobramento da economia
europeia.
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural 4 Publicada em 1902, a obra Os Sert›es, escrita por Eucli-
na Primeira República. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 40-41.
des da Cunha, é uma combinação de literatura e relato
Indique uma ação do governo republicano no sentido jornalístico sobre a Guerra de Canudos (1896-1897).
de “findar com a imagem da cidade insalubre e insegu- Dividida em três partes, A terra, O homem e A luta, a
ra” do Rio de Janeiro, no início do século XX. narrativa descreve as condições sociais no Nordeste
A destruição de habitações populares e cortiços, a abertura de novas
brasileiro, a vida precária do nordestino e a forte re-
pressão oficial sobre a comunidade de Canudos. Leia
vias, a vacinação obrigatória, entre outras.
o fragmento a seguir.
Concluídas as pesquisas nos arredores, e recolhidas
as armas e munições de guerra, os jagunços reuniram os
Com base no trecho a seguir, responda às questões 2 e 3. cadáveres que jaziam esparsos em vários pontos. Decapi-
Em frase que se tornou famosa, Aristides Lobo, o pro- taram-nos. Queimaram os corpos.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Três, 1984. p. 156. (Biblioteca do Estudante).
pagandista da República, manifestou seu desapontamen-
to com a maneira pela qual foi proclamado o novo regime. Apresente duas causas para a formação do movimento.
Segundo ele, o povo, que pelo ideário republicano deveria As condições de miséria, concentração fundiária e seca na região;
ter sido protagonista dos acontecimentos, assistira a tudo o coronelismo; o discurso messiânico do beato Conselheiro; o
bestializado, sem compreender o que se passava, julgando antirrepublicanismo motivado pela separação entre Estado e Igreja a
ver uma parada militar.
partir da Constituição de 1891.
CARVALHO, J. M. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi.
São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 9.

2 Qual é a justificativa para a visão de Aristides Lobo sobre


a participação popular na Proclamação da República?
De fato, a Proclamação da República se configurou como uma ação 5 Por que o Estado utilizou tanta violência para combater
das oligarquias cafeeiras em associação com setores do Exército, o movimento de Canudos?
afastando a maior parte da população da derrubada da Monarquia e Porque considerava preciso eliminar todo e qualquer discurso de

excluindo-a das decisões políticas fundamentais no novo regime. contestação ao projeto republicano. Além disso, pode-se pensar na
HISTÓRIA MÓDULO 2

ideia de um castigo exemplar.

190
DESENVOLVENDO HABILIDADES Veja, no Manual do Professor, o gabarito comentado das
alternativas sinalizadas com asterisco.

1 Significa isso que o povo da Primeira República não passava movimentos populares de Canudos e do Contestado, que
da carneirada dos currais eleitorais e da massa apática dos no contexto rural […] significavam praticamente o mesmo
excluídos? Seguramente que não. Por fora do sistema legal que a Revolta da Vacina no contexto urbano.
SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da Vacina: mentes insanas em corpos rebeldes.
de representação havia ação política, muitas vezes violenta. São Paulo: Cosac Naify, 2010. p. 112.
Entre os poucos que votavam, os que escolhiam não votar e
os muitos que não podiam votar, havia o que chamo de povo Segundo o autor, a Revolta da Vacina, o movimento de
da rua, isto é, a parcela da população que agia politicamente, Canudos e o do Contestado significavam praticamente
mas à margem do sistema político, e às vezes contra ele. a mesma coisa. Por quê?
É difícil calcular o tamanho desse povo. Podemos apenas a) Eram vistos pelo Estado como ameaças à moderni-
surpreendê-lo em suas manifestações. E podemos também zação do país.
dizer que ele existia tanto nas cidades como no campo. b) Foram tentativas de restabelecimento da monarquia.
CARVALHO, José Murilo. O pecado original da República. Revista de História.
Disponível em: <www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/o-pecado- c) Estão relacionadas às dificuldades do Estado em lidar
original-da-republica>. Acesso em: 29 ago. 2019.
com o êxodo rural na época.
Com base na leitura do trecho anterior, pode-se concluir d) Representam uma tentativa de tomada do poder
que na Primeira República: central por setores populares.
a) os críticos ao modelo republicano foram tolerados
4 […]
para dar um ar democrático ao período.
2º Que seja respeitado do modo mais absoluto o direito de
b) o coronelismo impediu qualquer manifestação de associação para os trabalhadores;
oposição ao poder das oligarquias. 3º Que nenhum operário seja dispensado por haver par-
c) o coronelismo se mostrou sutil no controle das opo- ticipado ativa e ostensivamente no movimento grevista;
sições, o que permitiu sua decadência. 4º Que seja abolida de fato a exploração do trabalho dos
d) apesar do coronelismo e do voto de cabresto, havia menores de 14 anos nas fábricas; […]
uma parcela da população atuando contra o regime 6º Que seja abolido o trabalho noturno das mulheres;
político vigente. 7º Aumento de 35% nos salários inferiores a 5$000 e de 25%
2 Nas primeiras décadas da República, surgia no nordes- para os mais elevados; […]
te um movimento conhecido por cangaço. Sobre seu 10º Jornada de oito horas […].
surgimento, pode-se afirmar que: O QUE reclamam os operários. A Plebe, 21 jul. 1917. Apud Paulo Sérgio Pinheiro
e Michael Hall. A classe operária no Brasil, 1889-1930 – Documentos, 1979.
a) está dissociado das secas e da concentração de ter-
As reivindicações dos participantes da greve geral de
ras no nordeste brasileiro.
1917, em São Paulo, indicam que
b) tem ligações com a industrialização experimentada
a) os governos da Primeira República aceitavam os mo-
no sudeste no início da República.
vimentos sociais, permitindo o convívio harmonioso
c) foi estimulado pelos governos republicanos como e democrático entre as classes sociais.
forma de inserção da população nordestina na nova
b) o Estado assumia o papel de intermediário nas nego-
realidade nacional.
ciações trabalhistas, mantendo neutralidade diante
d) está vinculado à miséria e à submissão da população de conflitos sociais.
rural aos grandes proprietários de terras.
c) os trabalhadores já haviam conquistado o direito
HISTÓRIA MÓDULO 2

3 Leia o trecho a seguir. pleno de associação e de greve, mas ainda se sub-


Não é por acaso que as autoridades brasileiras recebem metiam a longas jornadas diárias de trabalho.
o aplauso unânime das autoridades internacionais das d) o Brasil não dispunha de legislação trabalhista e as
grandes potências, pela energia implacável e eficaz de sua condições de vida e de trabalho dos operários eram,
política saneadora […]. O mesmo se dá com a repressão dos na maioria dos casos, ruins.

191
Charge ironiza a
alternância das
oligarquias paulista
e mineira na
Presidência.
Revista da Semana,
1917.
LO
DU
Ó
M

Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional Rio de Janeiro, RJ.

3 A crise da República
Oligárquica A fim de tornar as habilidades da BNCC mais
acessíveis para os estudantes, optou-se
por apresentá-las de forma resumida no
Caderno do Aluno.

OBJETOS DO CONHECIMENTO 3 Identificar os principais atores políticos e seus projetos


contrários à República Oligárquica.
3 Experiências republicanas e práticas autoritárias: as
3 Relacionar a crise de 1929 ao fim da Política do Café com
tensões e disputas do mundo contemporâneo.
Leite.
3 A Proclamação da República e seus primeiros 3 Identificar as principais propostas da Aliança Liberal.
desdobramentos.
3 Reconhecer os grupos que apoiaram a Aliança Liberal e
suas motivações.
HABILIDADES 3 Compreender os fatores que contribuíram para a
3 Entender como esse projeto político foi marcado pela Revolução de 1930.
exclusão da maioria da população. 3 Caracterizar e compreender os ciclos da história
3 Analisar os principais fatores que contribuíram para o republicana, identificando particularidades da história
esgotamento desse modelo de república. local e regional até 1954.

192
PARA COMEÇAR

Cidadania e Constituição Cassandra Cury/Pulsar Images

Nas próximas eleições você vai votar em quem? Tudo bem, talvez seja um pouco cedo para pensar
nisso, mas, acredite, não falta muito. Sabia que a partir dos 16 anos você já pode ter um título de
eleitor e exercer o direito ao voto? Sabe por quê?
A atual Constituição da República Federativa do Brasil foi promulgada pelo Congresso Nacional
em 1988. Desde o início foi considerada, entre as sete constituições que o Brasil já teve, a respon-
sável pela maior ampliação do exercício da cidadania. Isso significa que o acesso a direitos políticos,
sociais e culturais foi assegurado a todos os brasileiros por meio dela.
Segundo a Constituição de 1988, jovens com 16 e 17 anos podem escolher antecipar sua partici-
pação nos processos democráticos do país, exercendo seu direito ao voto. Quando tiver essa idade,
você poderá optar por começar a votar ou não. A partir dos 18 anos, o voto passa a ser obrigatório.
A Constituição de 1988 permitiu também que os analfabetos tivessem direito ao voto, que é
facultativo, assim como o dos adolescentes.
Mas nem sempre foi assim. Tivemos, em nossa história, constituições que foram escritas para Adolescente com título de
legitimar governos autoritários – como a Carta de 1967 e, antes dela, a Constituição de 1937. Nas eleitor em dia de votação.
Campo Grande (MS), 2016.
décadas iniciais da República havia restrições legais ou sociais ao exercício da plena cidadania dos
brasileiros. O voto das mulheres, o dos indígenas e o dos jovens, como já vimos, foram conquistas
recentes em nossa história. Nos tempos da República Oligárquica, por exemplo, nenhum deles tinha
esse direito, seja por força da lei, seja pelos costumes sociais.
O caráter excludente que acompanhou boa parte de nossa história política pode ser percebido,
também, na Constituição de 1891. Além de excluir o direito de voto dos analfabetos, ela retirava
do Estado brasileiro a obrigatoriedade de oferecer acesso gratuito à educação. Estabelecia-se um
critério para assegurar a cidadania sem oferecer condições para que ela fosse alcançada e ampliada.
Não é à toa que, por essas características, a República parecia se transformar em um instrumen-
to de satisfação dos interesses de alguns privilegiados, em especial a aristocracia rural de alguns
estados. Aquele período ficou conhecido como República Oligárquica (da palavra grega oligarkhía,
que significa “governo de poucos”).
Concluímos, assim, que a Constituição e a cidadania são frutos de processos de construções
históricas, que continuam a acontecer.
E hoje em dia, apesar dos nítidos avanços, você acredita que vivemos em uma sociedade livre
das práticas excludentes? Por quanto tempo uma sociedade é capaz de suportar as restrições aos
plenos direitos? Vamos descobrir mais sobre isso neste módulo.

PARA RELEMBRAR

Vimos até aqui que a Primeira República brasileira apresentou características de exclusão po-
lítica e social das camadas sociais menos privilegiadas. A Constituição de 1891 impedia os menos
afortunados de participar da vida política nacional, afinal a educação era um artigo caro e pouco
acessível à população, que, por sua vez, era impedida de votar caso não soubesse ler e escrever.
A política nacional estava sob o comando de elites que tinham interesse na manutenção desses
limitadores da cidadania, tornando a tarefa de governar em causa própria mais fácil.
HISTÓRIA MÓDULO 3

Na prática, alguns poucos faziam da máquina republicana um instrumento a serviço de interesses


privados de pequenos grupos econômicos e políticos, as chamadas oligarquias.
No entanto, na década de 1920 essas estruturas foram mais intensamente questionadas, resultan-
do em algumas rachaduras que fariam dela um período decisivo para a história republicana brasileira.

193
PARA APRENDER

A República Oligárquica em crise


Exclusão é palavra-chave para o entendimento do período entre 1894 e 1930. Os interesses das
oligarquias se sobrepuseram aos da maioria da população brasileira, o que possibilitou as estruturas
políticas de perpetuação de seus projetos e a manutenção de grupos de interesse no poder. Mas
isso não durou muito tempo.
A década de 1920 foi decisiva para as transformações que estavam por vir na história do Brasil.
Eventos internacionais provocaram desdobramentos no ambiente político nacional, a começar pela
Primeira Guerra Mundial (1914-1918). As grandes potências industriais envolvidas nesse conflito
interromperam o fluxo de produtos industrializados para a América Latina por impossibilidades físi-
cas, como no caso dos países europeus, ou por direcionar sua produção para atender às demandas
dos países diretamente envolvidos, como no caso dos Estados Unidos.
Essa situação criou uma oportunidade e os empreendedores brasileiros passaram a produzir
aquilo que não era mais possível importar, por causa da guerra. Dessa maneira, o Brasil viveu um
importante crescimento industrial com o que chamamos de processo de “industrialização de subs-
tituição de importações”.
Outro elemento que contribuiu para o “surto” industrial brasileiro foi o investimento dos
excedentes do café. Sobretudo no Oeste paulista, parte dos lucros dessa atividade agrícola,
ainda tão importante para o país, acabou sendo investida nas indústrias. A princípio, tratava-se
apenas de uma alternativa para investir, sem a pretensão de substituir a cafeicultura como
atividade principal.
E qual foi o resultado da ampliação industrial em um momento de crise? Houve expansão da
urbanização, aumento da densidade populacional na região Sudeste a partir do crescimento das ci-
dades e significativas alterações na dinâmica econômica e social, que tiravam aos poucos a eficiência
das práticas de dominação dos coronéis, à medida que a população crescia.
Não por coincidência, foi desse tecido urbano em crescimento que surgiram movimentos críticos
às oligarquias. Não que tenham sido os primeiros, mas o ambiente urbano em que surgiram nos
anos 1920 certamente ajudou a dificultar sua repressão e facilitou a disseminação de seus ideais.
Eram os primeiros sinais de que uma crise maior estava por vir.

GOTAS DE SABER
Storni/Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ.

Nem só de textos se faz a História. O período da Primeira Repú-


blica foi muito rico no que diz respeito à produção de expressões e
às interpretações políticas e sociais da época por meios não exclu-
sivamente textuais. Estamos falando das charges.
HISTÓRIA MÓDULO 3

Charges são desenhos, geralmente em tom engraçado ou sar-


cástico, que lançam um olhar crítico sobre determinada situação
ou personagem. Muito comuns nos jornais atuais, foi durante a
Primeira República que ganharam notoriedade. Charge de Oswaldo Storni sobre as eleições presidenciais de 1910.

194
Independentemente de ser sobre a Revolta da

Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ.


Vacina, o voto de cabresto ou peculiaridades de
determinados governantes, as charges fazem uma
leitura de determinada realidade e nos ajudam a
perceber a diversidade de pontos de vista de que
uma situação pode ser analisada. Olhares dissimu-
lados têm na charge uma chance de ser explicita-
dos, tornando-as janelas para panoramas variados
e importantes no estudo de determinada história.
Amaro/Fundação Biblioteca Nacional,
Rio de Janeiro, RJ.

Charge Guerra Vaccino–Obricateza! ilustrando um episódio da Revolta da Vacina, 1904.


Detalhe da charge de Amaro, Como se faz uma eleição, publicada na A população do centro do Rio de Janeiro reage às imposições governamentais sobre um
Revista da Semana, em 1909, Rio de Janeiro (RJ). povo cansado do poder das oligarquias e do descaso com as camadas populares.

Sintomas da crise
Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ.
O movimento operário foi uma das primeiras manifestações
urbanas que as oligarquias não foram capazes de controlar du-
rante a Primeira República. As organizações operárias começaram
tímidas, como a própria indústria no Brasil. Foi por meio dos
imigrantes europeus que as primeiras formas de organização
surgiram. A princípio, elas foram criadas na forma de associações
de ajuda mútua e na virada do século começaram a ganhar o
status de sindicatos. Eram fortemente influenciadas pelas ideias
anarquistas, avessas à autoridade e à hierarquia.
A relação entre os estrangeiros e o anarquismo parecia tão
direta que o governo das oligarquias tentou, com a Lei Adolfo
Gordo de 1907, expulsar do país todos os estrangeiros presos
em greves ou atividades anarquistas, mas já era tarde. Aquelas
ideias já tinham adeptos entre os trabalhadores brasileiros, que também se tornaram autores de Passeata de
trabalhadores em apoio
panfletos e disseminadores de práticas incômodas à classe burguesa industrial no Brasil. Um dos à Greve Geral, São Paulo
momentos mais intensos nas movimentações operárias foi a Greve Geral de 1917, em São Paulo. (SP), 1917.
Mas o anarquismo se enfraqueceria não somente em razão da repressão do governo. A bem-
-sucedida Revolução Russa de 1917 havia mostrado aos trabalhadores e ao mundo uma doutrina
social alternativa: o socialismo científico. A partir de então, o anarquismo se enfraqueceu, e os
HIST”RIA M”DULO 3

operários se encantaram pela revolução que havia levado os trabalhadores ao poder. No Brasil, o
Partido Comunista Brasileiro foi fundado em março de 1922 e colocado na ilegalidade em junho do
mesmo ano. E foi assim que atuou na maior parte do período republicano.
Outro sinal de que o controle oligárquico estava desgastado pôde ser percebido com o surgimento
de um movimento crítico à República, vindo de uma das instituições que deveria preservá-la, o Exército.

195
Acervo Iconographia/Reminisc•ncias

O Tenentismo foi o movimento formado por jovens oficiais de baixa


patente, portanto oriundos das camadas médias urbanas, que, ao deparar
com a realidade de um exército a serviço das oligarquias, organizaram di-
versos levantes militares, principalmente entre 1922 e 1924.
Inconformados com as práticas eleitorais fraudulentas; descontentes
com o modelo de poder descentralizado estabelecido pela Constituição,
que fortalecia as práticas oligárquicas locais; e desejosos da moralização da
política nacional, os tenentes se uniram em torno de insatisfações diversas,
mas sem um projeto político-ideológico bem definido.
Na prática, o período de maior atuação do movimento foi durante o
governo de Artur Bernardes (1922-1926), que, em meio a um cenário de
crise política e econômica somado às constantes agitações tenentistas – Re-
volta dos 18 do Forte, Coluna Prestes –, passou quase todo o mandato em
contínuo estado de sítio, durante o qual direitos e garantias constitucionais
foram suspensos. Até mesmo a imprensa sofreu com a censura durante esse
governo, sempre temeroso da próxima manifestação tenentista. Conheça
Integrantes do movimento tenentista em São Paulo (SP), 1924. um pouco mais sobre o início do Tenentismo no boxe abaixo.

AMPLIANDO HORIZONTES

Aprender
A Revolta melhor
do Forteas paisagens
Quando estamos
A primeira em um local,do
das manifestações podemos usar foi
Tenentismo outros sentidos
a Revolta além de
do Forte da Copacabana.
visão para apreender
Em 1922,melhor as paisagens.
um grupo de jovens
Numa praia, por exemplo, ouviremos o som das ondas, o cheiro da maresia e a textura da areia. Numa
oficiais do Exército tentou se organizar em uma revolta motivado pela vitória de Artur Bernardes para a Presidência floresta,
ouviremos o som
da República. de pássaros
Tenentes e insetos,
de todo o Brasil odeveriam
cheiro dasefolhagem
levantar econtra
a textura das plantas.
a vitória Usar os outros
das oligarquias, sentidos, aléma
que representavam
da visão, amplia
corrupção, nossa
o atraso e apercepção do espaço.
degeneração política do país.
Porém, a organização não foi muito eficiente, e, no fim daquele dia 5 de julho de 1922, apenas alguns jovens
Erumautadiante
oficiais conseguiram levar a conspiração est milici rerro
entrevolorep ererios sobre as quais se assenta o Forte de Copacabana.
as pedras
rectus rem remque sitoelas.
Os demais revoltosos haviam retrocedido ou simplesmente já haviam sido derrotados.
Percebendo-se isolados, aqueles militares optaram por um caminho arriscado. Marchariam em direção ao pa-
lácio presidencial na Zona Sul do Rio de Janeiro, visando impedir a posse do novo presidente eleito (que ocorreria
somente em novembro).
Não foram muito longe. Interceptados pelas forças fiéis ao governo (legalistas), entraram em confronto na praia
de Copacabana. Apenas dois dos oficiais envolvidos sobreviveram, Eduardo Gomes e Siqueira Campos. Um civil
que aderiu ao levante no meio do caminho também não resistiu aos ferimentos e alguns praças que chegaram a
acompanhar a marcha fugiram ou foram presos. Os revoltosos tinham sido derrotados.
Sob o nome Revolta dos 18 do Forte, teria sido fruto das manchetes do jornal Gazeta de Not’cias, que não
divulgou o número real de envolvidos, em torno de trinta pessoas.
Ainda que os objetivos do levante não tenham sido alcançados, o movimento inaugurou uma forma de pensar
e agir entre os militares que marcou a década de 1920.
HISTÓRIA MÓDULO 3

O movimento nunca foi calado. Seus adeptos aos poucos ascenderam na carreira militar e
assumiram projetos políticos mais bem definidos, mas tendo em comum o caminho centralizador.
Para eles, o Estado deveria ser forte e ter controle sobre a política e a economia a fim de assegurar
a execução de seus projetos.

196
Nos ambientes urbanos surgiu uma terceira expressão, dessa vez cultural. Influenciada pelas
vanguardas internacionais, que estimulavam os artistas do mundo a procurar a própria identi-
dade, e por um Brasil econômica e culturalmente dependente, foi realizada a Semana de Arte
Moderna em 1922.
As principais características do movimento eram o questionamento de modelos culturais ex-
ternos adotados sem adaptação à realidade nacional e a submissão a modelos culturais sem raízes
brasileiras. Os chamados modernistas propuseram uma arte nacional, a partir das experiências e
das realidades aqui vividas, e não mais baseada na estética europeia friamente importada.
Eis o contexto da década de 1920: sinais que vinham de todos os lados mostrando que aquelas
oligarquias pareciam cada vez menos eficientes na tarefa de administrar de maneira coordenada os
rumos políticos e culturais do país. Mas a economia parecia ainda ser capaz de sustentar aquelas
práticas, porém não por muito mais tempo.

Quando a crise chega


Foi em 1929 que os pilares do capitalismo liberal ruíram nos Estados Unidos, levando a Europa
e todos os países capitalistas que dependiam de seus dólares a uma grande crise, que também atin-
giu o Brasil. Naquele ano, os estadunidenses, que eram os maiores compradores do café brasileiro,
simplesmente não compraram nossa produção.
Nesse mesmo período, as oligarquias brasileiras entraram em conflito, sobretudo em razão das
disputas presidenciais. O acordo de cavalheiros conhecido como Política do Café com Leite, que
por décadas havia assegurado o interesse das oligarquias dominantes, sob a liderança do Partido
Republicano Mineiro e do Partido Republicano Paulista, não foi capaz de sobreviver ao naufrágio
da economia.
A oligarquia paulista rompeu com os mineiros, indicando novamente um candidato sem que
houvesse consenso com seus tradicionais aliados. Júlio Prestes foi o nome escolhido para a disputa
presidencial com o intuito de buscar uma saída para a crise. Oficializada a ruptura política, a oli-
garquia de Minas Gerais optou por formar novas alianças para fazer frente ao poder dos paulistas.
Com as elites da Paraíba e do Rio Grande do Sul, formou a chamada Aliança Liberal, que tinha como
candidato à Presidência o gaúcho Getúlio Vargas encabeçando a chapa e, como vice, o paraibano
João Pessoa. As duas principais oligarquias haviam rompido mais uma vez e, ao contrário do que
ocorrera em 1910, dificilmente haveria chance de reconciliação.
São Paulo conseguiu assegurar a vitória de Júlio Prestes. Suas articulações junto a outros estados
garantiram o apoio de coronéis e de seus respectivos currais eleitorais. Entretanto, o resultado das
urnas não prevaleceu.

CPDOC/Fundação Getúlio Vargas


As oligarquias dissidentes, que haviam forma-
do com Minas Gerais a Aliança Liberal, não acei-
taram a derrota. A expectativa era grande, pois
as camadas médias urbanas defendiam a ideia de
uma pretensa ruptura com o poder oligárquico
baseada nas propostas de Getúlio Vargas. Antigos
tenentes também se identificaram com a proposta
de desmonte do coronelismo e de moralização da
HIST”RIA M”DULO 3

política. Muitos se aproximaram de Vargas durante


a disputa eleitoral. Havia base de sustentação para
um golpe de Estado, exceto pelo fato de o próprio
candidato não pretender liderar um movimento
dessa natureza naquele momento. Início da campanha da Aliança Liberal, Rio de Janeiro (RJ), 1929.

197
A comoção popular e consequentemente o desejo de participação pareciam ser as maiores preo-
cupações de Vargas. A falta de vontade daquele que seria o principal nome do movimento parecia
enfraquecer o processo conspiratório. Mas ainda haveria uma reviravolta: João Pessoa, vice da chapa
de Getúlio Vargas, foi morto no Recife, em 26 de julho de 1930. Seu assassinato, motivado por questões
políticas locais entre ele e seu algoz, João Dantas, no entanto,
Reprodu•‹o/Cole•‹o particular

foi transformado em bandeira política. A comoção provocada


se converteu em mobilização política e popular.
Leia no boxe a seguir o desdobramento que levou muitos
dos antigos agentes do Tenentismo a apoiar a chegada de
Getúlio Vargas e seus aliados ao poder – por meio de um
movimento armado e articulado pela Aliança Liberal – , ob-
jetivando derrubar o governo de Washington Luís e impedir
a posse de Júlio Prestes, eleito presidente com o apoio da
oligarquia paulista. O movimento tornou-se vitorioso e Var-
gas assumiu o cargo de presidente provisório em novembro
de 1930. Assim começava a Era Vargas.
Getúlio Vargas teria se posicionado a favor do golpe depois de um
encontro com o então presidente de Minas Gerais (assim eram
chamados os governadores naquela época), Antônio Carlos. Este, diante
da relutância de Getúlio, teria lhe dito: “Façamos a revolução antes que o
povo a faça”, uma vez que a comoção popular parecia estar próxima de
fugir do controle político. Charge publicada no jornal A Platea, 1930.

AMPLIANDO HORIZONTES

Aprender melhor as
Antigos tenentes, paisagens
novos hábitos e velhos costumes
Quando
O período estamos
em que emo um local, podemos
Tenentismo usar outros
mais atuou sentidos
foi o do governoalém
de da visão
Artur para apreender
Bernardes, melhor
entre 1922 as paisagens.
e 1926. Depois
Numa praia,das
disso, parte porcaracterísticas
exemplo, ouviremos o som adas
que marcavam ondas,
euforia o cheiro
política da maresia
dos jovens e asetextura
oficiais da areia.
transformou. Numa
Apesar dafloresta,
firmeza
ouviremos o som
dos ideais de de pássaros
moralização e dee insetos, o cheiro
centralização da folhagem
política, e a textura
os tenentes das plantas. Usar
eram desprovidos os projeto
de um outros sentidos,
ideológicoalém
ou
da visão,bem
político amplia nossaCom
definido. percepção
o passardodo
espaço.
tempo, alguns desses jovens oficiais foram ascendendo na carreira militar e
se aproximando de projetos políticos que os ajudavam a perseguir seus antigos ideais.
Alguns deles se encantaram comErumaut est milici rerro volorep ererios
as propostas aparentemente antioligárquicas e com o tom de moralização e
rectus rem remque sitoelas.
centralismo do movimento. Mas nem todos concordavam. Um dos principais líderes tenentistas, Luís Carlos Prestes,
não aceitou participar do movimento.
Isso porque, ao fim da Coluna Prestes, movimento tenentista que marchou cerca de 20 mil quilômetros pelo
país tentando promover seus ideais – e que será estudado mais adiante –, Prestes se exilou na Bolívia, onde teve
contato com os textos e os ideais marxistas, pelos quais passou a lutar. De seu ponto de vista, a dita “Revolução de
1930” não passaria de uma disputa interna das oligarquias que alteraria a dinâmica do poder sem, contudo, alterar
a ordem social oligárquica; portanto, nada relevante do seu ponto de vista agora socialista.
Em outras palavras, até o final dos anos 1930, o Tenentismo deixou para trás seus elementos definidores, adquiriu
HIST”RIA M”DULO 3

novos hábitos na forma de projetos políticos e ideológicos, mas não perdeu alguns velhos costumes centralizadores.
Mesmo que nos remetamos a eles como Antigos Tenentes, mesmo que tenham encontrado orientações políticas
bem definidas, em comum percebemos o fato de que o centralismo e o discurso da moralização fariam parte da
história política da maior parte de seus integrantes.

198
SITUAÇÃO-PROBLEMA

Diferença salarial entre homens e mulheres ainda persiste


Se comparados os anos de estudo, elas podem ganhar até 25,6% menos

BRASÍLIA – As disparidades salariais entre gêneros persistem como um obstáculo para o empodera-
mento econômico das mulheres e a superação da pobreza e da desigualdade na América Latina, advertiu
nesta terça-feira a Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (CEPAL), a
respeito do Dia Internacional da Mulher.
Embora a diferença salarial entre homens e mulheres tenha diminuído 12,1 pontos percentuais entre
1990 e 2014, as mulheres recebem, em média, apenas 83,9 unidades monetárias por 100 unidades mone-
tárias recebidas pelos homens, de acordo com a CEPAL. Se a remuneração recebida por ambos os sexos
por anos de estudo são comparadas, observa-se que elas podem ganhar até 25,6% menos do que seus
colegas do sexo masculino em condições semelhantes, disse o instituto regional.
A partir das informações coletadas em pesquisas domiciliares, a CEPAL analisou o salário médio
de homens e mulheres que trabalharam em centros urbanos, com idades entre 20 e 49 anos, 35 horas
ou mais por semana em 18 países na região. A pesquisa faz uma comparação por anos de estudo e sua
evolução entre 1990 e 2014, observando a persistência de diferenças significativas dependendo do nível
de escolaridade de pessoas empregadas.
No grupo das mulheres com menor nível de escolaridade (até cinco anos de estudo) foi observada a maior
redução da diferença (19,7 pontos percentuais). Houve um aumento em relação aos salários dos homens
de 58,2% para 77, 9%. Isto porque, segundo a CEPAL, há dois fatores: a regulamentação e formalização do
trabalho doméstico remunerado, como países que estabeleceram taxas de salário mínimo por hora e tempos
máximos do dia de trabalho; e o aumento de salários mínimos que se aplicam a toda a população.

Mais estudo, mais diferença


A diferença salarial mais alta ocorre na população mais instruída (treze anos ou mais de estudo).
Houve uma diminuição na diferença de 9,3 pontos percentuais entre 1990 e 2014. Os homens deste grupo
ainda ganham 25,6 por cento mais do que as mulheres. Segundo a CEPAL, a inclusão das mulheres em
áreas como ciência e tecnologia, indústrias, como telecomunicações e grandes empresas, pode estar
contribuindo positivamente, embora ainda não gere a plena igualdade.
Nos níveis intermediários de educação os números não foram substancialmente alterados. Mulheres com
seis a nove anos de escolaridade ganhavam 70% do salário dos homens em 1990 e em 2014 esse número subiu
para 75,3% (uma redução na diferença de 5,3 pontos percentuais no intervalo) e aquelas com 10 a 12 anos de
instruções subiram de 67,6% para 74,5% (redução de 6,9 pontos percentuais na diferença salarial).
— Receber o mesmo salário que os homens em condições de igualdade é um direito das mulheres.
É um requisito inevitável para que alcancem a autonomia econômica e para avançar na igualdade de gêne-
ros — disse a Secretária Executiva da CEPAL, Alicia Bárcena, no contexto do Dia Internacional da Mulher,
cujo tema este ano é “Por um Planeta 50-50 em 2030: Demos um passo para a igualdade de gênero. – Nada
sobre nós sem nós – enfatiza Bárcena.
Para a eliminação da diferença salarial, a CEPAL planeja promover espaços para a negociação coletiva e
participação ativa dos trabalhadores nos processos em que estas questões são debatidas; melhorar salários
HIST”RIA M”DULO 3

mínimos, uma vez que estes promovem a igualdade, especialmente em setores com remuneração inferior;
implementar políticas como a licença paternidade; e assegurar a igualdade de oportunidades de treinamento,
promoções, horas extras e outros compromissos de trabalho que melhoram a folha de pagamento.
DIFERENÇA salarial entre homens e mulheres ainda persiste. O Globo. Rio de Janeiro, 8 mar. 2016. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/
economia/diferenca-salarial-entre-homens-mulheres-ainda-persiste-18832252>. Acesso em: 23 ago. 2019.

199
Existe uma historicidade na diferença de tratamento recebido pelas mulheres no Brasil. Durante a
Primeira República, as restrições sociais que impunham a não participação delas na política podem hoje
nos causar estranhamento, assim como a pouca autonomia econômica e social que elas conquistaram a
duras penas naquela primeira metade do século XX, nas raras exceções registradas.
Entretanto, lendo o texto, percebemos que ainda há diferenças, no Brasil e no mundo, entre homens
e mulheres. Os salários das mulheres ainda tendem a ser mais baixos que os dos homens, e a diferença
é mais evidente à medida que o nível de escolaridade aumenta.
● Depois de refletir sobre o texto, pense em estratégias para alterar esse quadro. As mídias sociais
têm hoje o mesmo peso de manifestações nas ruas? Quais são os caminhos de reivindicação?
Quais são os obstáculos atuais à igualdade da mulher no mercado de trabalho? Discuta essas
questões com os colegas e o professor.

ATIVIDADE PRÁTICA

Observe as obras abaixo.


Reprodução/Museu Nacional de Belas Artes – Iphan/Ministério da
Cidadania, Rio de Janeiro, RJ.

Coleção particular/© Tarsila do Amaral Empreendimentos


Iracema. Óleo sobre tela de José de Maria Medeiros, 1881. Antropofagia. Óleo sobre tela de Tarsila do Amaral, 1929.

As duas imagens oferecem representações da mulher. A primeira visita o imaginário românti-


co, principalmente pela escolha de sua personagem, Iracema, oriunda de um romance de José de
Os estudantes Alencar; já a segunda expõe um olhar modernista. Os resultados esteticamente distantes mostram
devem atentar para a guinada cultural em andamento a partir dos anos 1920 no Brasil.
a intenção de Tarsila
do Amaral, e dos
demais modernistas,
Com base nessas obras de arte, identifique as rupturas apresentadas pelo Modernismo brasileiro
de propor uma arte a partir de obras como Antropofagia. Quais eram as intenções de Tarsila do Amaral ao produzir
nacional, não mais
por meio da exaltação
um quadro tão distinto dos padrões vigentes no século XIX?
de personagens
românticos e
supostamente
representantes de PARA CONCLUIR
uma identidade
HIST”RIA M”DULO 3

brasileira idealizada,
como faziam as obras
românticas, mas por
Estudar o que ocorreu nos anos 1920 nos permite observar o constante movimento dos pro-
meio das cores e cessos históricos. A crise da República Oligárquica mostra que, com a eficiente estrutura política de
das características
brasileiras, livres de
manutenção dos interesses dominantes, as mudanças sociais, culturais e econômicas em curso não
modelos externos. fariam o cenário político se alterar.

200
O aumento da importância de agentes sociais, como os tenentes e o movimento operário; a inten-
sificação do processo de urbanização, que diminuiu lenta e eficientemente a atuação dos coronéis em
seus currais eleitorais; e, ainda, as variações negativas do preço do café até seu ponto mais baixo, com
a crise de 1929; tudo isso contribuiu para a crise e a ruptura que culminaram no Golpe de 1930.
Começava um novo período da história republicana brasileira e a administração mais duradoura
de um governante brasileiro no século XX: Getúlio Vargas.

PRATICANDO O APRENDIZADO

1 Quais eram as limitações à cidadania plena durante a 3 O que foi a Semana de Arte Moderna?
República Oligárquica? Foi um movimento ocorrido em 1922 que propôs a criação de uma
Militares de baixa patente, membros do baixo clero, “desocupados” arte nacional, independente dos modelos estrangeiros,
e analfabetos não podiam votar por força da lei. Já mulheres e valorizando as cores e os cenários brasileiros.
indígenas, mesmo que não fossem proibidos pela Constituição,
simplesmente não votavam em razão das convenções sociais
da época.

2 Compare o ambiente urbano com o ambiente rural bra- 4 Quais propostas do Golpe de 1930 atraíram o apoio de
sileiro quanto à atuação do coronelismo. parte dos antigos tenentes?
O crescente tecido urbano brasileiro se diferenciava do ambiente rural As promessas de moralização política, de implementação do voto
em virtude da menor força de atuação dos instrumentos coronelistas. secreto e de centralização do poder pareciam muito próximas de
A elevada densidade demográfica e a dinâmica econômica e social parte dos ideais dos antigos tenentes.
das cidades não permitiam a participação intensa dos coronéis no
ambiente urbano.

APLICANDO O CONHECIMENTO

1 O Abaporu, pintura de Tarsila do Amaral de 1928, é O Brasil vivia uma realidade econômica externo-dependente,

um dos símbolos do movimento modernista brasilei- submetida às variações do capital estrangeiro e do mercado.

ro iniciado em 1922. Explique o cenário econômico e Culturalmente, as coisas não eram muito diferentes.
social do Brasil dos anos 1920 que contribuiu para o O movimento modernista tenta justamente romper com esse
surgimento do Modernismo. aspecto de dependência externa, ao menos no ambiente cultural.
Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires,
Argentina/© Tarsila do Amaral Empreendimentos

2 Quais eram as principais críticas tenentistas à República


Oligárquica?
HISTÓRIA MÓDULO 3

Os tenentistas eram críticos do federalismo, das fraudes eleitorais e

do voto aberto e acreditavam que somente o Exército seria capaz de

promover a moralização da política nacional.

Abaporu. Óleo sobre tela de


Tarsila do Amaral, 1928.

201
3 Leia o trecho a seguir. sociais no país. No entanto, essa medida não foi eficiente porque
os brasileiros já tinham se tornado adeptos divulgadores dos
O Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil:
pensamentos anarquistas.
Faço saber que o Congresso Nacional decretou e eu san-
ciono a seguinte resolução:
Art. 1o O estrangeiro que, por qualquer motivo, comprome-
ter a segurança nacional ou a tranquilidade pública pode ser
expulso de parte ou de todo o território nacional. 4 Em 1907 ocorreu o primeiro censo industrial brasileiro,
que registrou cerca de 3 mil empresas brasileiras na
Art. 2o São também causas bastantes para a expulsão:
primeira década do século XX. O tempo passou e, depois
1a, a condenação ou processo pelos tribunais estrangeiros de treze anos e de grandes acontecimentos na história
por crimes ou delitos de natureza comum; mundial, o segundo censo industrial brasileiro, de 1920,
2a, duas condenações, pelo menos, pelos tribunais brasi- mostrava a incrível marca de 13 mil indústrias no país.
leiros, por crimes ou delitos de natureza comum;
Sabendo disso, indique quais foram as principais con-
a
3 , a vagabundagem, a mendicidade e o lenocínio compe- sequências sociais e políticas desse processo de trans-
tentemente verificados. […] formação.
CPDPOC-FGV. Leis Adolfo Gordo. Disponível em: <http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/ Socialmente, o Brasil presenciou a ascensão das camadas médias
verbetes/primeira-republica/LEIS%20ADOLFO%20GORDO.pdf>. Acesso em: 30 set. 2019.
urbanas e o fortalecimento da burguesia. Em termos políticos, o

Explique a lei de punição a estrangeiros, que entrou em processo de industrialização possibilitou o crescimento do

vigência em 1907, conhecida como Lei Adolfo Gordo. ambiente urbano, e, dentro dele, surgiram os movimentos críticos
Tratava-se de uma lei que buscava combater as práticas anarquistas e ao poder das oligarquias.
sindicalistas por meio da expulsão dos estrangeiros envolvidos nos
movimentos operários. Isso acontecia porque os imigrantes
trouxeram as doutrinas sociais que inspiraram os movimentos

DESENVOLVENDO HABILIDADES Veja, no Manual do Professor, o gabarito comentado das alternativas


sinalizadas com asterisco.

1 Que fatores levaram Luís Carlos Prestes a não apoiar o à realidade brasileira e valorizava sobretudo o regiona-
Golpe de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder? lismo. Com isso, pode-se dizer que:
a) Prestes não apoiava o projeto de cunho socialista da a) negou todo o passado indigenista romântico, pro-
Aliança Liberal. pondo uma arte original, tal qual os círculos da van-
b) Para ele, o golpe servia como estratégia de perpe- guarda europeia parnasiana e do paisagismo.
tuação oligárquica. b) privilegiava a música, considerada a arte mais nobre,
dando pouca atenção para a questão dos modelos
c) O projeto tenentista o impedia de assumir um dis-
nas artes plásticas.
curso ideológico.
c) propôs a valorização do Brasil e dos temas nacionais,
d) A Coluna Prestes havia enfraquecido politicamente
não mais romantizados, mas cada vez mais próximos
o projeto tenentista.
da realidade.
e) O PCB, do qual Prestes era membro fundador, se d) foi nitidamente inspirada pelo modelo gótico da ar-
opunha a Vargas.
HISTÓRIA MÓDULO 3

quitetura medieval, revisitada por grandes nomes


2 A Semana de Arte Moderna (1922), expressão de um como Oscar Niemeyer.
movimento cultural que atingiu amplamente as nos- e) criticou toda a herança colonial, buscando inspiração
sas manifestações artísticas, surgiu de uma rejeição ao fundamental nas correntes artísticas da América do
chamado colonialismo mental. Pregava maior fidelidade Norte.

202
3 O desenvolvimento da cafeicultura no Brasil durante perprodução do café, contribuiu para o desenvolvi-
a República Velha (1889-1930) criou condições para mento industrial.
a deflagração de um processo de industrialização na
4 No Brasil, a década de 1920 foi um período em que:
região Sudeste porque:
a) a República Oligárquica chegou a seu apogeu político
a) a crise do café levou os cafeicultores a buscar uma
com base em uma estrutura de poder eficiente e
nova fonte de lucros, representada pela indústria de
violenta.
base nacional.
b) existia um projeto de ruptura com o passado agro- b) as forças de oposição tinham sido anuladas, e as
exportador, financiado pelos estados interessados revoltas populares da década anterior, finalmente
na consolidação de economias mais sólidas. debeladas.
c) existia um processo de atração de multinacionais c) as doutrinas sociais europeias foram aos poucos apa-
ansiosas pela mão de obra qualificada e barata, re- gadas da sociedade brasileira pela violenta política
cém-saída dos campos de café brasileiros, cada vez de repressão aos movimentos sociais.
mais mecanizados. d) A Aliança Liberal foi a grande vitoriosa da última
d) o governo brasileiro oligárquico possuía um projeto eleição daquela década, levando ao poder Getúlio
de industrialização financiado pelos altos impostos Vargas, por vias constitucionais legítimas.
pagos pela atividade cafeicultora, que tinha seus e) a instabilidade política e social se deu na forma
dias contados. de momentos de estado de sítio e expressões ar-
e) o mercado interno em ascensão somado à mão de madas de revolta contra as oligarquias (Coluna
obra disponível, especialmente nos períodos de su- Prestes).
ANOTAÇÕES

HISTÓRIA MÓDULO 3

203
“Mulheres, vão às
cooperativas”, clama
o cartaz russo de
1918, para que o fardo
sobre as mulheres
seja repassado
às creches, aos
restaurantes e
às lavanderias
populares.
LO
DU
Ó
M

4
Reprodução/Coleção particular

A fim de tornar as
habilidades da BNCC

Revolução Russa
mais acessíveis para os
estudantes, optou-se por
apresentá-las de forma
resumida no Caderno do
Aluno.

OBJETOS DO CONHECIMENTO 3 Analisar a importância do “Domingo Sangrento”.


3 O mundo em conflito: a Primeira Guerra Mundial. 3 Identificar as reações do regime czarista e refletir
3 A Revolução Russa. sobre seu significado para o processo revolucionário
que culminou em 1917.
3 A crise capitalista de 1929.
3 Relacionar a Revolução Russa à Primeira Guerra
HABILIDADES Mundial.
3 Entender o regime autocrata realizado pelo czar, 3 Discutir o contexto marcado pela disputa política entre
contrapondo-o ao contexto político europeu no início Stalin e Trotski.
do século XX. 3 Identificar as especificidades e os desdobramentos
3 Identificar as condições de vida dos camponeses e mundiais da Revolução Russa e seu significado histórico.
dos operários e refletir sobre elas, relacionando o nível
de industrialização russo do século XX ao dos demais
países europeus.
204
PARA COMEÇAR

“Eu sou Anastasia”


Um grande mistério foi tema de livros e filmes ao

Bettmann Archive/Getty Images


longo do século XX. Durante a Revolução Russa, o novo
regime achou necessário exterminar todos os símbolos
da antiga monarquia, e nada que representasse os tem-
pos de um país desigual poderia sobreviver, nem mesmo
a família real. Assim, em julho de 1918, em um porão
siberiano, a família Romanov e seus funcionários mais
próximos foram fuzilados.
Mas, antes que isso fosse confirmado, muitas his-
tórias fantásticas surgiram, como a da possibilidade de
a filha mais nova, Anastasia Romanov, ter conseguido
fugir. A localização dos corpos foi mantida em segredo
por muito tempo. O regime soviético temia que o local se
transformasse em centro de peregrinação ou até mesmo
de culto e, desde então, diversas versões sobre o que
As crianças Romanov: Tatiana, Marie, Anastasia, Olga e Alexei, c. 1910.
teria acontecido vieram à tona.

APIC/Hulton Archive/Getty Images


Mulheres de diferentes países reivindicaram a identidade de Anastasia. Um dos casos
mais divulgados foi o de Anna Anderson, afinal se tratava de uma envolvente história aos
olhos do grande público.
Anna Anderson apareceu pela primeira vez em 1920. Depois do que parecia ter sido
uma tentativa de suicídio, uma adolescente foi retirada de um rio em Berlim e, ao acordar,
revelou que era na verdade Anastasia Romanov, sobrevivente da chacina que exterminou
sua família em 1918. Mas como ela foi parar em Berlim?
Segundo ela, após o fuzilamento da família real, dois soldados responsáveis por retirar
os corpos do porão teriam percebido que Anastasia ainda respirava. Comovidos, os dois,
que eram irmãos, optaram por salvar a vida da jovem Romanov e desertar do Exército
Vermelho. Fugiram, com algum dinheiro da venda de joias que Anastasia carregava com
ela, e chegaram a Bucareste, onde deram início a uma nova vida. Anastasia teria se casado
com um dos soldados e tido um filho.
Anastasia, c. 1914.
Mais tarde, seu marido teria sido reconhecido por um membro do Exército Vermelho,

ullstein bild/Getty Images


que o assassinou. Anastasia teria tido um colapso nervoso, e seu filho, entregue à adoção.
Em meio a esse turbilhão de acontecimentos, o irmão de seu falecido marido decidira ir
para Berlim com Anastasia, a fim de fugir da constante ameaça bolchevique. Chegando
a Berlim, seu cunhado teria desaparecido, e Anastasia, sem mais esperanças, decidira se
matar se jogando no rio onde foi encontrada.
Tudo isso poderia não passar de uma história criativa, mas outros elementos se juntaram
ao mistério de Anna Anderson. Exames médicos mostravam cicatrizes típicas de alguém
que fora alvejado por tiros e uma radiografia apontava traumas que pareciam coerentes
HISTÓRIA MÓDULO 4

com o relato de agressões e coronhadas em sua cabeça. Como se não bastasse, parentes
próximos não eram capazes de negar sua identidade com plena certeza. Alguns até a re-
conheceram como a filha sobrevivente de Nicolau II, em razão de sua semelhança física.
A justiça alemã nunca reconheceu seu parentesco com a realeza. Anna Anderson morreu
em 1984. A jovem Anna Anderson, em 1931.

205
Em 1991, após o fim da União Soviética, o local que abrigava os corpos da família Romanov foi
encontrado. Contudo, a solução para o mistério ainda parecia distante. As ossadas de Nicolau II e de
Anastasia não estavam no local. Tudo aumentava ainda mais as incertezas, que já não eram poucas.
A resposta surgiu pouco tempo depois. Com o avanço da ciência, foi possível atestar, por meio de
exames genéticos, que Anna Anderson não pertencia à família Romanov. A hipótese mais provável era
a de que ela seria a operária Franziska Schanzkowska, o que foi comprovado por exames posteriores.
E, em 2007, os corpos desaparecidos foram encontrados a poucos metros da cova em que estava
enterrado o restante da família real. Não havia mais mistério: Anastasia havia morrido em 1918.

PARA APRENDER

Origens da revolução
Processos revolucionários geralmente são conflituosos e desgastantes. A opção pelo desmonte
de antigas estruturas de poder e sua substituição não é feita do dia para a noite e isso envolve ris-
cos que só são aceitos quando os interessados têm certeza de que não é mais possível suportar as
condições em que vivem. A Rússia estava muito próxima desse momento entre o final do século XIX
e o início do XX.
O Império Russo não era um ambiente de democracia e igualdade. Seu regime político era uma
Czar: corruptela monarquia comandada por um czar. A postura do Império era centralista e autoritária, dedicando-se
do termo César, à dura repressão a qualquer oposição. Alexandre III (1845-1894), czar russo em 1881, decidiu criar
utilizado para uma polícia secreta para reprimir os movimentos de crítica ao czarismo, a Okhrana.
designar os antigos
imperadores Mas os problemas não se restringiam ao cenário político. A população, majoritariamente rural,
romanos. conseguira se livrar do trabalho servil, finalmente abolido em 1861, o que significou a liberdade de
mais de 22 milhões de camponeses. Ainda assim, o povo vivia os resquícios de uma realidade fundiá-
ria de características feudais em vários aspectos. Era um campesinato miserável, sem acesso direto
à terra, que ficava nas mãos das elites agrárias. Além disso, a elevada carga tributária levava aqueles
camponeses ao limite da sobrevivência.
Apesar do ambiente econômico rural, a Rússia iniciara um incipiente movimento de industriali-
zação de sua economia. Na prática, mais de 50% das indústrias se baseavam em capital estrangeiro,
e assim a burguesia se desenvolvia de maneira lenta e frágil. Enquanto isso, os trabalhadores fabris
ganhavam alguma força no cenário urbano de ci-
Granger/Fotoarena/Cole•‹o particular

dades como Moscou e Petrogrado. Algo em torno


de 3 milhões de trabalhadores cumpria jornadas
extenuantes de até 16 horas por dia em ambientes
sujos e insalubres.
Não é de admirar que os trabalhadores nessas
condições se organizassem para lutar por um futuro
melhor. Foi nesse contexto que as ideias socialistas
marxistas começaram a ganhar força e em 1898
foi fundado o Partido Operário Social-Democrata
Russo (POSDR). Esse grupamento seria, dentro da
HISTÓRIA MÓDULO 4

conjuntura apresentada, um dos maiores motores


do processo revolucionário que estava por vir.
Fome na Rússia: camponeses retiram palha
do telhado para alimentar o gado. Gravura
de um jornal inglês, 1892.

206
Correntes internas
Assim que o partido socialista surgiu, foi possível perceber uma divisão interna, que se trans-
formou em uma ruptura. De um lado, existia um grupo chamado bolchevique, que em russo signi-
fica maioria. Ele defendia um processo revolucionário ditado pelo proletariado sem que houvesse
alianças com as classes dominantes. Acreditava na instauração de uma ditadura do proletariado e
no estabelecimento imediato da política socialista.
De outro, estava o grupo dos mencheviques, que era minoritário e defendia o socialismo, mas
acreditava antes no pleno desenvolvimento do que chamava de etapa capitalista. Por isso, estava
disposto ao diálogo com a burguesia, por exemplo. Era favorável à aplicação prática do que havia
sido descrito por Marx como “caminho para o socialismo”, sem alterações, e eram chamados de
marxistas ortodoxos.

As Revolu•›es
O processo revolucionário que levou o socialismo ao poder na Rússia foi bastante complexo e
não pode ser resumido a um episódio. Uma análise cuidadosa nos permite reconhecer as primeiras
ações revolucionárias ainda em 1905, mas a conclusão do processo conhecido como Revolução
Russa só aconteceria em 1917. Vejamos cada uma dessas etapas.

Ensaio Geral (1905)


Na Rússia czarista, como vimos, o processo de industrialização não havia se completado. No
entanto, o governo se achava capaz de atuar como se o Império fosse uma potência industrializada.
Um de seus grandes anseios sempre fora conseguir uma saída para o mar quente, já que o extenso
litoral russo ficava congelado durante boa parte do ano, dificultando o comércio marítimo e limitando
as possibilidades de crescimento econômico. Por isso, voltou suas investidas militares sobre a região
da Manchúria, na China. Todavia, os japoneses também tinham interesse pela área, o que levou os
dois países a entrar em conflito na chamada Guerra Russo-Japonesa (1905).
Em virtude dos gastos de guerra, o confronto agravou a crise interna, e o czar Nicolau II, filho
de Alexandre III, se viu diante de um quadro de descontrole social: revoltas e greves começaram a
irromper no país.
O mais dramático desses episódios

Reprodução/Museu Imperial da Guerra, Londres, Inglaterra.


aconteceu em janeiro de 1905, quando
um grupo de trabalhadores em greve, com
suas famílias, decidiu levar seus problemas
ao czar. Organizados por representantes
da Igreja Ortodoxa Russa, caminharam em
direção ao palácio de inverno da realeza
enquanto cantavam músicas religiosas e
patrióticas. Os manifestantes foram recebi-
dos pelas tropas do palácio com tiros. Com
aproximadamente uma centena de mortos
e cerca de 350 feridos, a manifestação fi-
HIST”RIA M”DULO 4

cou conhecida como Domingo Sangrento.


As consequências para Nicolau II foram
imediatas: mais greves, revoltas e motins
eclodiram em todo o país.
Domingo Sangrento em São Petersburgo, Rússia, 22 de janeiro de 1905. Pintura de Ivan Vladimirov.

207
O czarismo estava estremecido no poder, e a perspectiva de reversão desse cenário parecia im-
provável. Um sentimento de decepção generalizada tomava conta dos russos, que tinham a família
real em alta estima até aquele momento.
Nicolau II anunciou uma série de concessões políticas que, na prática, significava o fim de
seu poder absoluto. Convocou as eleições de uma Duma (Parlamento russo), permitiu a redação
de uma Constituição e deixou que as assembleias de trabalhadores, conhecidas por sovietes,
atuassem em defesa dos interesses deles. Grande parte da população aceitou essas medidas
porque não queria acreditar que o czar, símbolo da nação, não era um bom monarca. A família
real era admirada por quase todos os russos. Uma nova Rússia começava a nascer? A resposta
é não, ainda.
Com o fim da guerra e a derrota russa, as pressões sociais ficaram menos intensas.
Os gastos públicos diminuíram e a intensidade da crise também. Foi então que Nicolau II passou
a suspender as concessões feitas até ali. A Duma foi mantida, mas sem o mesmo vigor. Seus
poderes eram limitados, e a vigilância do governo era constante sobre seus deputados. Àquela
altura não houve reações, já que a capacidade de mobilização havia sido esvaziada com a di-
minuição da crise.

Revolução de Fevereiro (1917)


Doze anos depois, o processo revolucionário teria um novo capítulo. O tempo passou, e não
foram tomadas medidas efetivas para a superação da crise. Na prática, os personagens e o cenário
revolucionário de 1905 pareciam revisitar o palco russo.
A crise socioeconômica não havia sido superada, e a Rússia se viu envolvida em outra guerra,
maior e mais desgastante: a Primeira Guerra Mundial. O resultado foi um cenário social ainda pior
do que aquele que antecedera o Domingo Sangrento, com manifestações civis e militares.
Mais uma vez trabalhadores marcharam para o palácio de inverno do czar e novamente a
guarda foi acionada, mas, dessa vez, com um objetivo diferente. Para evitar algo parecido com o
que acontecera em 1905, o grão-duque Mikhail, que estava no comando das tropas, ordenou aos
soldados que não reagissem e se retirassem. A crise tomava proporções tão avassaladoras que
mesmo o alto comando entendia a inviabilidade da manutenção do projeto de poder czarista.
Sem chance de reação, Nicolau II abdicou do poder. O czarismo chegava ao fim, mas, ao contrário
do que se esperava, as questões econômicas e sociais não foram solucionadas.
Um governo provisório assumiu o comando. O principal nome da administração provisória
era Alexander Kerensky. Advogado, liberal, estabeleceu avanços jurídicos, como a abolição
da pena de morte, e defendeu a liberdade de imprensa e o fim da discriminação étnica e
religiosa. Mas a população queria mudanças mais profundas, transformações sociais, e isso
não parecia ser possível para Kerensky. Seu governo havia sido constituído pelos menche-
viques, que formavam naquele momento uma coalizão com a burguesia. Isso porque eles
acreditavam na necessidade de desenvolver plenamente o capitalismo antes de implantar
o socialismo. Portanto, no que diz respeito aos direitos individuais, ele foi representante de
grandes avanços, mas, no que tange às transformações sociais, não foi capaz de satisfazer os
anseios populares.
HIST”RIA M”DULO 4

Seus compromissos com a burguesia faziam com que insistisse em manter a Rússia na guer-
ra. Era preciso continuar no conflito para que a burguesia pudesse afirmar seu lugar no cenário
capitalista internacional. A insistência nessa política foi responsável pelo isolamento político de
Kerensky, fragilizando sua administração, que logo se tornou alvo fácil aos até então pouco rele-
vantes bolcheviques.

208
Revolução de Outubro (1917)
Diante de um governo provisório socialmente decepcionante, os bol-

Michael Nicholson/Corbis/Getty Images


cheviques aumentaram sua popularidade. Eles perceberam a oportunidade
política que surgira e iniciaram a divulgação, em panfletos, das chamadas
Teses de Abril: paz, pão e terra. Lenin, principal liderança bolchevique, re-
sumiu nessas três palavras as exigências urgentes para os trabalhadores
russos. Primeiro, a retirada imediata da Rússia daquela guerra capitalista
e burguesa. Segundo, o enfrentamento da miséria generalizada e da falta
de alimentos que atingiam os trabalhadores. E, por último, a realização de
uma reforma agrária.
Os sovietes prontamente abraçaram a causa bolchevique e se torna-
ram seus grandes articuladores. Em outubro na Rússia (novembro pelo
nosso calendário), Lenin retornou de seu exílio na Europa Ocidental,
auxiliado pelos alemães.
A Alemanha estava em guerra com a Rússia (Primeira Guerra Mun-
dial), e o retorno de Lenin significaria o aprofundamento da revolução,
e, segundo as promessas das Teses de Abril, a saída da Rússia da guerra.
Lenin retornou, liderou o novo episódio revolucionário e, assim que
assumiu o comando do país, declarou a implantação imediata do so-
cialismo e a retirada da Rússia da guerra.
Assinado o Tratado de Brest-Litovsk (1917), a Alemanha pôde voltar
seus esforços exclusivamente para a frente ocidental, mas logo desco-
briria que já era tarde demais.
Enquanto isso, na Rússia, a reforma agrária começava a ser efetivada.
Pôster soviético em comemoração à Revolução de Outubro de
A família real foi fuzilada em 1918 e a ditadura do proletariado estava 1917. Um trabalhador quebra as correntes em meio a símbolos
se constituindo. O mundo presenciava os primórdios da potência que de democracia, socialismo e liberdade. Guache sobre papel, de
se contraporia à hegemonia capitalista ao longo do século XX. Veniamin Briskin, 1970.

GOTAS DE SABER
Tratado de Brest-Litovsk
O Tratado de Brest-Litovsk foi um acordo que permitiu à Rússia retirar-se da Primeira Guerra Mundial (1914-1918)
em 1917, interrompendo o conflito armado com a Alemanha. Os alemães só aceitaram a paz porque, em troca,
receberam, a título de indenização, os territórios da Finlândia, da Letônia, da Estônia, da Lituânia e parte da Polônia,
que estavam sob domínio russo.
A escolha pela paz, mesmo que isso significasse substanciais perdas territoriais, aconteceu porque Lenin en-
tendia que a revolução socialista levava o país a uma contradição. A guerra era reconhecidamente resultado de
disputas burguesas por mercados, e a revolução buscava destituir a burguesia do poder, assim como seus projetos,
entregando o governo a um regime em favor dos trabalhadores. Além disso, os gastos com o conflito dificultariam
a execução dos planos dos bolcheviques no poder.
HISTÓRIA MÓDULO 4

Apesar do acordo, com a Alemanha derrotada em 1918, os territórios cedidos pela Rússia não foram manti-
dos pelos germânicos, e esses países tornaram-se independentes. Devolvê-los à Rússia não estava nos planos dos
países capitalistas ao fim da guerra, ainda mais porque, a partir daquele momento, o temor pelo fortalecimento
do socialismo começava a incomodar a burguesia mundo afora.

209
Depois das revoluções
Guerra civil (1918-1921)
Com a chegada de Lenin ao poder, os grupos destituídos logo se articularam, organizando um
exército contrarrevolucionário que ficou conhecido por Exército Branco. Mencheviques, burgue-
ses e até czaristas superaram desavenças e iniciaram uma luta contra a revolução bolchevique.
As potências capitalistas inglesa e estadunidense, aliadas na Primeira Guerra Mundial, apoiaram
o movimento branco com suporte militar direto. Japoneses e holandeses também contribuíram
diretamente com o Exército Branco. Segundo eles, era preciso trazer a Rússia de volta para a
guerra. Esse pretexto era uma forma de legitimar o combate aos ideais revolucionários, já que os
países ocidentais temiam que a revolução se espalhasse pela Europa.
As tropas bolcheviques formavam o Exército Vermelho. Diante das investidas internas e externas
e precisando de condições para sustentar a revolução, o governo russo adotou, em tom de urgência, o
“comunismo de guerra”. Isso significava que a economia de mercado estava suspensa, e assim o Exér-
cito Vermelho poderia fazer requisições forçadas, se necessário, para o abastecimento de suas tropas.
A estratégia foi eficiente em termos militares, garantindo o abastecimento das tropas verme-
lhas, que, dessa maneira, foram capazes de anular seus inimigos. Entretanto, os produtores russos
ficaram incomodados com a estratégia do governo e, sem o estímulo do livre mercado, reduziram
vertiginosamente sua produção ao longo da guerra civil. Quando a guerra acabou e as forças ver-
melhas saíram vitoriosas, a Rússia encontrava-se à beira de uma grande crise de desabastecimento.

Nova Política Econômica – NEP (1921-1928)


A revolução precisava sobreviver aos efeitos devastadores daquela guerra civil. Sabendo que
a solução deveria ser rápida, os bolcheviques tomaram uma das decisões mais importantes na
Rússia pós-revolucionária: a criação da Nova Política Econômica, conhecida pela sigla NEP (em
russo Novaya Ekonomiceskaya Politika).
Era preciso recuperar a capacidade produtiva do país rapidamente, e o comunismo de guerra
já havia se mostrado um veneno para os setores produtivos em sua rápida e curta vida útil. Por
isso, Lenin optou pelo retorno comedido das práticas capitalistas, estabelecendo uma economia
mista e controlada. A pequena propriedade dos meios de produção seria novamente permitida,
no campo e na cidade. O objetivo era restaurar o interesse produtivo com a volta da economia
de mercado. Até mesmo o capital estrangeiro
Reprodu•‹o/Cole•‹o particular

seria permitido se contribuísse para a recons-


trução do país. Setores considerados estra-
tégicos, como a indústria siderúrgica, a de
geração de energia e a de mineração, foram
mantidos sob controle do Estado.
Por fim, apesar de críticas surgidas den-
tro do Partido Comunista, a NEP se mostrou
vitoriosa, e aos poucos a capacidade produ-
tiva foi sendo recuperada. Entretanto, Lenin
HIST”RIA M”DULO 4

não estaria mais lá para colher os frutos de


suas escolhas.

Cartaz de propaganda a favor da


Nova Política Econômica (NEP).

210
A criação da URSS e a sucessão de Lenin
Desde 1922 a Rússia, exercendo sua influência sobre diversos países da Europa e da Ásia, ha-
via formado uma confederação socialista. Apesar da ideia de unidade que buscava construir, era
clara a sobreposição dos interesses russos diante dos demais membros, quase uma variação do
que acontecia em seu antigo império, só que naquele momento sob o regime de um partido único
e comandado por Moscou. Nascia, assim, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS),
que ainda se expandiria e experimentaria grandes reviravoltas políticas ao longo de sua história. A
ausência repentina de Lenin seria a primeira delas.
Com a morte do principal líder da revolução em janeiro de 1924, uma grande incerteza se abateu
sobre a Rússia: o sonho socialista poderia ser conduzido por outro homem? Dois bolcheviques logo
se dispuseram a assumir o cargo.
Leon Trotski havia comandado o Exército

Reprodução/Biblioteca do Congresso, Washington, EUA.

Pictures From History/akg-images/Album/Fotoarena


Vermelho durante a guerra civil. Acreditava
que a revolução deveria ser permanente, não
se restringindo à Rússia, e que era preciso ex-
pandir as estruturas para evitar o isolamento
soviético. O processo revolucionário deveria
ser exportado.
Josef Stalin era o secretário-geral do Partido
Comunista. Acreditava que a revolução deveria
se fortalecer antes de qualquer pretensão ex-
pansionista. O sucesso passava pela adoção do
que se chamava de “socialismo em um só país”.
Por fim, entre as duas ideias venceu a da-
quele que tinha as melhores alianças políticas:
Stalin foi escolhido pelos dirigentes comunistas
e Trotski partiu para o exílio. No México, conti-
nuou seu embate teórico por meio de artigos
e panfletos críticos e, em 1940, foi assassinado
em seu esconderijo a mando do próprio Stalin. Da esquerda para a direita, Lenin em 1918 e Trotski, c. 1935.

O poder e Stalin
Alcançando o poder, Stalin manteve a NEP, mas, em 1928,
Ullstein bild/Getty Images

quando considerou que os objetivos produtivos tinham sido


alcançados, fechou a economia novamente. Essa medida sal-
vou a União Soviética da crise que se abateu sobre o mundo
capitalista a partir de 1929.
Politicamente, o regime se tornou ainda mais centrali-
zador e violento. Foram criadas políticas de perseguição e
exclusão, até mesmo de bolcheviques que se opusessem ao
regime. A propaganda foi instrumento estratégico na afirma-
HIST”RIA M”DULO 4

ção do governo, sobretudo no que dizia respeito ao estabe-


lecimento de uma política de culto à personalidade de Stalin.
Não havia pudores na imposição da censura. A União Soviética
estabelecia práticas impositivas, e mais um ditador ascendia Stalin em
ao poder no século XX, mas agora de esquerda. fotografia de 1940.

211
A economia seguia a lógica de um Estado forte. A cada cinco anos, era planejada e
estruturada, e metas ambiciosas eram traçadas: os planos quinquenais. Houve um custo
social para que as metas fossem alcançadas: longas jornadas de trabalho, comparáveis
Estamental: sociedade marcada
pela difícil mobilidade social. Na às impostas pelo mundo capitalista em suas indústrias, e muita repressão. A baixa pro-
Idade Média, o lugar ocupado dutividade poderia justificar um processo por traição à revolução.
pelas pessoas era determinado Em meio a tudo isso, a proposta de igualdade social era desmoralizada pela for-
por seu nascimento. Na Rússia
pós-revolucionária, a ordem mação da Nomenklatura: uma elite administrativa que tinha privilégios; a maioria de
social era determinada pelo seus membros era filiada ao Partido Comunista. As desigualdades sociais criticadas
lugar ocupado na hierarquia
burocrática e dificilmente havia
no capitalismo, baseadas na propriedade privada, deram lugar a uma sociedade ideo-
mudanças. Ser funcionário logicamente estamental. A proximidade com as lideranças era capaz de proporcionar
do Estado era sinônimo de àquele grupo de burocratas privilégios dignos da antiga corte czarista. Mas nada disso
vantagens.
podia ser exposto ou questionado naquele tempo.

GOTAS DE SABER

A revolução dos bichos


Quando Stalin morreu, em 1953, os próprios soviéticos admitiram os

Companhia das Letras/Arquivo da editora


exageros do período e iniciaram um processo de “desestalinização”. Mes-
mo assim, os anos de autoritarismo exagerado ficaram marcados. Talvez a
melhor descrição do que muitos socialistas chamaram de degradação do
sonho tenha sido feita pelo escritor inglês George Orwell. Ele transformou
toda a história revolucionária russa até os tempos stalinistas em uma fan-
tástica fábula que transporta os acontecimentos russos ao ambiente de
uma fazenda. Nela, os bichos, cansados da exploração do ser humano, se
revoltam e, liderados pelos porcos e suas ideias revolucionárias, assumem
o comando da propriedade, que passa a servir aos interesses dos bichos,
ou pelo menos de parte deles.
Orwell mostra como o poder político nas mãos dos porcos deturpa as
promessas de igualdade e de melhores condições de vida. Aos poucos fica
claro que existe um grupo de privilegiados, encabeçados pelos porcos, que
decide se separar do resto dos animais e viver na casa dos homens com
a justificativa de que assim teriam condições para planejar as próximas
ações. O tempo passa, e os bichos parecem trabalhar tanto quanto ou mais
que no tempo do comando dos homens. Aqueles que ousam questionar Capa do livro A revolução dos bichos,
sofrem perseguições e são obrigados a partir para o exílio. publicado em 1945.

A Revolução Russa está toda lá. Os exílios, a elite burocrática privilegiada, Stalin, Lenin e Trotski. E o final talvez
seja o momento de denúncia mais explícita dos rumos tomados pelo movimento e retratados naquela fazenda. Os
porcos, representando os líderes socialistas, e os homens, representando os interesses capitalistas, são comparados:
HISTÓRIA MÓDULO 4

Doze vozes gritavam cheias de ódio e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia
dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco
para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco.
ORWELL, George. A revolução dos bichos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

212
SITUAÇÃO-PROBLEMA

Em SP, colégios mudam hábitos e enfatizam importância de preservar a água


A ameaça de um colapso no sistema de abastecimento de água de São Paulo tem levado as escolas a
mudarem hábitos administrativos e a aumentarem a ênfase sobre a importância da preservação do meio
ambiente nos projetos pedagógicos. “Vamos enfrentar alguns anos de crise hídrica. Não acredito que isso
seja resolvido em curto prazo”, comenta a diretora do Colégio Palmares, Denise Krein. A escola fica em
Pinheiros, zona oeste da capital, e tem quase mil alunos.
“As mangueiras foram aposentadas”, destaca Denise sobre as mudanças na rotina da instituição.
Ela fala não só sobre a limpeza dos pátios e o modo de regar as plantas, mas também sobre o lazer
das crianças. No início do ano letivo, os alunos da pré-escola eram convidados a ir de sunga e biquíni
para participarem de um banho de mangueira. Porém, devido à crise hídrica, a atividade foi cancelada.
“As crianças entendem que é pela economia da água”, enfatiza a diretora. A meta é reduzir em até 20% os
80 mil litros consumidos quinzenalmente.
A supervisora de Manutenção e Segurança do Palmares, Zenilia Cipriano, explica que vários elemen-
tos da rotina da escola foram alterados. “Nós montamos uma planilha e começamos a verificar todos os
registros de água. Então, nós coletamos dados duas vezes por semana, porque muitas vezes estoura cano,
tem vazamentos. É custo para o colégio como desperdício de água.”
Zenilia disse que contou com a boa vontade da equipe para fazer as mudanças. Em alguns casos,
no entanto, foi preciso alterar procedimentos, como no caso do pátio, que deixou de ser lavado para ser
limpo com pano. “Nós temos um pátio enorme para passar pano, mas nós realocamos funcionários para
ter mais pessoas para ajudar a passar o pano em todo o local.”
O Colégio Pio XII, na zona sul paulistana, transformou um lago ornamental em jardim e passou a
pedir que os alunos levem garrafinhas de água. “Para que as crianças ao pegarem água do bebedouro não
jogassem o que sobrou fora”, explica a diretora adjunta Fátima Lopes dos Santos.
Segundo ela, os alunos têm se adaptado bem às mudanças. As crianças ficaram preocupadas, no
entanto, com o destino das carpas que viviam no lago. Fátima fez questão de tranquilizá-las explicando
que os peixes foram doados e hoje vivem bem. O local em que ficava o espelho d’água abriga atualmente
uma estátua de São Francisco de Assis, padroeiro da instituição.
[…] O trabalho de economia com as crianças é complementado com orientações para os funcio-
nários da limpeza e da cantina. “No próprio cardápio eles vão evitar incluir esses itens que precisam
de mais higienização, como folhagens. Também um cardápio em que você utilize o mínimo de
utensílios”, comenta sobre as medidas adotadas para que o gasto de água seja reduzido ao mínimo
necessário.
MELLO, Daniel. Em SP, colégios mudam hábitos e enfatizam importância de preservar a água. Agência Brasil, EBC, 17 fev. 2015.
Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2015-02/escolas-mudam-habitos-e-enfatizam-
preservacao-da-agua-nas-aulas>. Acesso em: 23 ago. 2019.

Situações extremas contribuem para momentos de mudanças. A reportagem acima mostra


uma pequena revolução ocorrida no cotidiano das escolas durante a crise hídrica de 2014, em São
HIST”RIA M”DULO 4

Paulo. Observando a história dos russos revolucionários, a decisão de mudar seu destino também
só ganhou força em momentos de agravamento dos problemas que já viviam.
É importante perceber a capacidade de transformação e superação do ser humano em momen-
tos de crise, como o desmonte de velhas práticas e o desenvolvimento de outras, novas, capazes
de melhorar seu dia a dia.

213
Existe, entretanto, um aspecto perturbador em situações desse tipo: Será que não somos capa-
zes de prever situações e tomar atitudes antes de elas se tornarem crises agudas? A falta de ação
da família Romanov diante dos problemas econômicos e sociais levou à sua queda. A ausência de
consciência sobre a questão hídrica da região Sudeste do Brasil provocou políticas de racionamento
e conscientização sobre o consumo da água.
● Façamos um pequeno exercício: O que podemos fazer hoje para evitar problemas maiores e mais
graves no futuro? Será que somos capazes de pensar o futuro próximo? Como evitar problemas
com o lixo? Como garantir políticos honestos em cargos públicos? Como garantir corpos saudáveis
no futuro? Será que somos capazes de nos planejar ou são necessárias revoluções, grandes ou
pequenas, para que haja mudanças em nossa vida?

ATIVIDADE PRÁTICA

Reprodução/Coleção particular

Reprodução/Coleção particular
1 2

Observe os cartazes acima. São peças de propaganda soviética utilizadas para disseminar os
ideais sociais, políticos, econômicos e culturais do socialismo. Crie uma legenda para cada cartaz
e depois compare o que você escreveu com a tradução fornecida pelo professor. Será que sua
interpretação se aproxima do que a imagem tentava transmitir para o povo russo?
Professor, compare as legendas produzidas pelos alunos com as traduções dos cartazes:
Cartaz 1 – Homenagem ao Dia Internacional da Mulher: “Operária ajuda companheira a sair dos destroços do mundo
do trabalho.” Cartaz 2 – “O poder soviético é um milhão de vezes mais democrático que a mais democrática república
burguesa.”
HIST”RIA M”DULO 4

214
PARA CONCLUIR

Analisada a Revolução Russa, passamos a percebê-la como um processo histórico complexo.


A chegada dos bolcheviques ao poder não foi fruto de um momento revolucionário, mas de
um conjunto de etapas. Mesmo depois, a construção do modelo revolucionário foi marcada
por guerras civis, disputas pelo poder e embates entre a proposta socialista e o modelo capi-
talista dominante.
O entendimento desse cenário não diz respeito à história de um único país. Foi aos poucos
que se construiu uma nação como a União Soviética, que se tornaria a única superpotência
capaz de desafiar a hegemonia dos Estados Unidos no século XX. A bipolarização do mundo
(entre o capitalismo e o socialismo), a corrida armamentista e nuclear que estava por vir, os
embates militares indiretos e todas as características da Guerra Fria (1945-1991) são mais bem
compreendidos quando conhecemos um pouco mais a trajetória de todos os envolvidos e a
história de um país que teve a coragem de desafiar o capitalismo, o socialismo ortodoxo e qual-
quer outro que tentasse interromper seu caminho de ruptura com o czarismo e suas heranças.

PRATICANDO O APRENDIZADO

1 Qual é a diferença entre mencheviques e bolcheviques? 3 Quais foram os efeitos econômicos do “comunismo de
Enquanto os mencheviques acreditavam que era preciso desenvolver guerra”?
o capitalismo plenamente antes de implantar o socialismo, A política de requisições forçadas desestimulou os setores
os bolcheviques defendiam que era preciso queimar a etapa produtivos, levando a Rússia a um cenário crítico de
capitalista prevista por Karl Marx e estabelecer o socialismo. desabastecimento.
Os primeiros eram chamados de ortodoxos por seguirem a teoria
do socialismo científico sem alterações. Já os bolcheviques eram
heterodoxos, uma vez que apoiavam mudanças na prática prevista
por Marx.

4 Qual é a opinião de George Orwell sobre as consequên-


cias políticas da Revolução Russa?
2 Por que o governo provisório de Kerensky não tirou a George Orwell foi um crítico dos caminhos revolucionários, que, na
Rússia da guerra? prática, mantiveram a exploração do trabalhador e perpetuaram os
Kerensky representava o projeto menchevique. Acreditando em uma privilégios.
aliança com a burguesia, não poderia abandonar os compromissos
russos com o capitalismo internacional, no caso, a permanência da
Rússia na guerra, o que acabou ajudando a derrubá-lo.
HISTÓRIA MÓDULO 4

215
APLICANDO O CONHECIMENTO

1 Observe as imagens e responda à questão. Identifique a etapa revolucionária russa inaugurada pela
fala de Lenin em 1921 e aponte suas características.
Reprodução/Coleção particular

1
O texto se refere à NEP, período de economia mista em que o
capitalismo podia retornar à Rússia no que dizia respeito à pequena
propriedade rural e urbana. Enquanto isso, o Estado se mantinha no
controle dos setores tidos como estratégicos.

3 Abaixo, o jornalista John Reed apresenta um empolgado


testemunho sobre a Revolução Russa e seu significado.
Hoje ainda é moda […] falar da Revolução bolchevique
como de uma “aventura”. Muito bem, se for uma aventura,
trata-se de uma das mais maravilhosas em que já se empe-
nhou a humanidade, aquela que abriu às massas laboriosas
o campo da história, […]
REED, John. Os 10 dias que abalaram o mundo. Porto Alegre: L&PM, 2005. p. 10.
2
Fine Art Images/Heritage Images/Getty Images

Apresente os aspectos sociais e econômicos que prova-


velmente fizeram o jornalista demonstrar tanta euforia
diante desse episódio histórico.
A ruptura com as estruturas capitalistas de desigualdade, a busca por
um mundo de democracia social, a coragem de propor uma forma
diferente de interpretar o mundo, a ideia de combate à pobreza,
o conceito de luta coletiva pelo bem comum. Todos esses foram
elementos sedutores no processo revolucionário russo.

4 Leia a seguir um trecho da análise da obra A revolução


dos bichos, de George Orwell.
A foto 1 retrata Lenin sobre um palanque, tendo Trotski A revolução, como insurgência violenta, é o passo inicial
mais abaixo, à direita. Na foto 2, retocada durante o sta- de um processo cujo fecho lógico é a restituição das diferenças
linismo, Trotski desaparece. de classe (de espécie, na fantasia) e a mera alternância da
classe no poder. Se trata, portanto, da história de uma tragé-
Explique por que Stalin fazia questão de remover Trotski dia, de como a bela tomada de consciência pelos bichos [...]
e outros desafetos políticos das fotografias, dos livros pôde se converter na conversão da sua própria vanguarda em
de história e dos jornais. uma nova humanidade, uma nova espécie de exploradores.
Stalin pretendia estimular um sentimento de admiração e culto a MARTINS, Ivan Dias. Orwell, stalinismo e totalitarismo. Capitalismo em desencanto.
Disponível em: <https://capitalismoemdesencanto.wordpress.com/2013/10/21/1071>.
sua figura. Para isso, era preciso associar seu nome ao do primeiro Acesso em: 23 ago. 2019.
grande líder revolucionário, Lenin. Buscava também anular todo
Segundo o trecho, que crítica pode ser feita à Revolução
e qualquer opositor que pudesse disputar sua autoridade e seu poder.
Russa e a seus resultados?
HISTÓRIA MÓDULO 4

A Revolução Russa não evitou uma sociedade de diferenças e


2 Em março de 1921, Lenin afirma: privilégios, apenas alterou seus critérios. No fim, a Nomenklatura
soviética se mostrou capaz de cobiçar, ganhar e explorar com
É necessário abandonar a construção imediata do so-
cialismo para se voltar, em muitos setores econômicos, na tanta eficiência quanto os capitalistas, tornando-se muito

direção de um capitalismo de Estado. parecida com eles.

216
DESENVOLVENDO HABILIDADES Veja, no Manual do Professor, o gabarito comentado das
alternativas sinalizadas com asterisco.

1 (UFPE – Adaptada) c) revolucionário, uma vez que anuncia a ruptura de


Foi um relevante fator para a vitória revolucionária russa privilégios.
em 1917: d) contrarrevolucionário, uma vez que propõe a manu-
a) a liderança camponesa exercida por Lenin, inaugu- tenção de privilégios.
rando uma URSS fundamentalmente agrária e justa. e) niilista, uma vez que valoriza a métrica e a forma do
b) o quadro de extrema miséria associado a um regime poema apenas.
autoritário e pouco preocupado com as questões 3 Leia a frase abaixo.
operárias e camponesas.
A rota de colisão entre civilizações dominará a política
c) a reforma agrária realizada por Nicolau II, fortale- mundial, sustenta o cientista político americano Samuel
cendo o campesinato em sua capacidade de finan- Huntington.
ciamento do processo revolucionário. REFLEXÕES para o futuro. Veja 25 anos, São Paulo, 1992.

d) o nacionalismo econômico de Nicolau II, que estati- Huntington defende que a rota de colisão entre civiliza-
zou os meios de produção com o intuito de esvaziar ções será a principal pauta da política internacional no
as propostas radicais bolcheviques. século XXI, mas no início do século XX o conflito girava
em torno de questões ideológicas, especialmente a
e) o apoio incondicional da Igreja Ortodoxa Russa à
partir da Revolução Russa. Assinale a alternativa que
família Romanov, provocando a ira revolucionária
indica a contraposição que marcou o século passado.
popular.
a) Comunismo × Capitalismo
2 (FGV-SP – Adaptada)
b) Fisiocracismo × Anarquismo
Come ananás, mastiga perdiz. Teu dia está prestes,
c) Democracia Liberal × Salazarismo
burguês.
Vladimir Maiakóvski – Poemas. Trad. de Augusto de Campos. d) Islamismo × Cristianismo
In: SCHNAIDERMAN, B. et al. Maiakóvski – Poemas. São Paulo: Perspectiva, 1992. p. 82.
e) Socialismo Utópico × Socialismo Científico
Come Ananás… é um exemplo de poesia de luta. Jor-
4 O programa político proposto por Lenin, em 1917, por
nais dos dias da Revolução de Outubro noticiaram que
meio das Teses de Abril, propunha:
os marinheiros revoltados investiam contra o palácio de
inverno cantando esses versos. É fácil compreender sua a) um governo de coalizão entre trabalhadores e
popularidade: o dístico incisivo, de ritmo tão martelado, burgueses.
à feição de provérbios russos, fixava-se naturalmente na b) concessão à defesa nacional, dando total apoio ao
memória e convidava ao grito, ao canto. governo provisório.
SCHNAIDERMAN, Boris et al. Maiakóvski – Poemas. São Paulo: Perspectiva, 1992. p. 19.
c) a manutenção da Rússia na Primeira Guerra Mundial.
A poesia citada foi elaborada do ponto de vista: d) uma aliança com os czaristas para derrubar o gover-
a) czarista, uma vez que valoriza o luxo e a ostentação. no de Kerensky.
b) burguês, uma vez que defende o modo de vida con- e) a retirada imediata do Exército Russo do conflito
sumista. mundial em andamento.
ANOTAÇÕES HISTÓRIA MÓDULO 4

217
Times Square vista da
parte alta da cidade.
Nova York, Estados
Unidos, c. 1927.
LO
DU
Ó
M

Hulton Archive/Getty Images

5 A Europa e os Estados
Unidos nos anos 1920
A fim de tornar as habilidades da BNCC mais acessíveis para os estudantes,
optou-se por apresentá-las de forma resumida no Caderno do Aluno.

OBJETOS DO CONHECIMENTO 3 Identificar e relacionar as dinâmicas do capitalismo e


suas crises, os grandes conflitos mundiais e os conflitos
3 O mundo em conflito: a Primeira Guerra Mundial. vivenciados na Europa.
3 A crise capitalista de 1929. 3 Analisar o American way of life do ponto de vista econômico
e cultural.
HABILIDADES 3 Contrapor a crença de otimismo e desenvolvimento
3 Identificar as mudanças sociais da Belle Époque para o à existência de grupos excluídos desse processo e
pós-guerra. ressaltar a existência de leis segregacionistas nesse
período.
3 Compreender e relacionar o declínio político e econômico
da Europa com a ascensão econômica dos Estados
Unidos depois da Primeira Guerra Mundial.

218
PARA COME‚AR

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) ocasionou profundas mudanças políticas, econômicas


e sociais aos países europeus. Antes do conflito, a Europa vivia um período de grande prosperidade
econômica e desenvolvimento tecnológico e artístico, denominado Belle Époque. Acreditava-se que
as sociedades europeias tinham alcançado um progresso jamais visto e o mais alto grau de civilização.
Ou seja, eram modelos que deveriam ser seguidos.
Porém, esse mesmo período foi marcado por grandes tensões entre os países europeus, princi-
palmente em razão do imperialismo. Além disso, ocorriam graves problemas sociais, pois a maioria
da população enfrentava uma realidade econômica difícil, com pouquíssimos direitos sociais. Nesse
contexto, a eclosão do conflito e seu prolongamento por quatro longos anos contribuíram para que
o clima de otimismo e a crença no progresso chegassem ao fim na Europa.
No entanto, se, por um lado, os países europeus saíram arrasados da guerra, por outro, a situação
dos Estados Unidos era bem diferente. Apesar de ter participado do conflito, o país vivenciou um
período de grande crescimento econômico durante a década de 1920.
Com o passar dos anos, os Estados Unidos tornaram-se uma das maiores potências mundiais,
influenciando política, econômica e culturalmente diversos países. Assim, consolidou-se a ideia de
que os Estados Unidos eram o “país das oportunidades e da realização de sonhos”. Essa imagem é
veiculada em propagandas, filmes e músicas produzidas pela indústria cultural estadunidense até
os dias atuais.
A letra da canção a seguir, interpretada pela cantora estadunidense Alicia Keys, exalta a cidade
de Nova York, nos Estados Unidos, considerada uma das maiores referências culturais em diversas
partes do mundo. A letra reflete a crença de que a felicidade e o sucesso podem ser alcançados nos
Estados Unidos. Leia um trecho da tradução da canção.

Cresci em uma cidade Baby, eu sou de Nova York!


Que é famosa como um lugar de cenas de filmes Selva de concreto onde os sonhos são feitos
O barulho é sempre alto Não há nada que você não possa fazer
Há sirenes por todo lado Agora você está em Nova York!
E as ruas são cruéis Essas ruas vão fazer você se sentir novo em folha
Se eu posso fazer isso aqui Luzes grandes vão inspirá-lo
Eu poderia fazer em qualquer lugar […] Vista da cidade de Nova
York, Estados Unidos.
Isso é o que eles dizem KEYS, Alicia. New York. Disponível em: <www.letras.mus.br/alicia-keys/1911687/
traducao.html>. Acesso em: 2 set. 2019.
[…]

Eileen_10/Shutterstock

HISTîRIA

219
PARA RELEMBRAR

Ao longo dos estudos anteriores, você aprendeu sobre a Primeira Guerra Mundial. Esse conflito
sem precedentes e de proporções catastróficas abalou o mundo de muitas formas. Não foram somente
as mortes em escala nunca vista que fizeram esse episódio entrar para a História como a Primeira
Grande Guerra, mas também os impactos e as transformações que gerou. As consequências desse
conflito foram sentidas de diferentes formas nas mais variadas regiões do mundo.

PARA APRENDER

A Europa no pós-guerra
A situação enfrentada pelos países europeus após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foi
extremamente difícil. O elevado número de mortes e a destruição material geraram grande sofri-
mento e descontentamento na população. Embora grande parte das sociedades europeias tenha
apoiado a deflagração do conflito em 1914, não se imaginava que ele pudesse se estender por anos.
O impacto da guerra foi maior do que o imaginado.
Para a sociedade europeia, a guerra demonstrou a falência do sistema liberal e a certeza de que
a Belle Époque não passava de uma ilusão. Neste contexto de incertezas e desconfianças a respeito
do sistema político e social, surgiram ideologias autoritárias.
Print Collector/Hulton Archive/Getty Images

A adesão gradativa a essas ideias contrárias à democracia e à


liberdade por grande parte da população europeia representou
a descrença no liberalismo – que pairava nesse período.
No caso da Alemanha, a crise política e social foi ainda pior.
Obrigados a pagar pesadas indenizações aos países vencedores
do conflito, os alemães enfrentaram, após 1918, muitos proble-
mas políticos, sociais e econômicos. Uma das principais mudan-
ças políticas por que o país passou logo após a guerra foi o fim
do Império e a proclamação de um regime republicano que ficou
conhecido como República de Weimar (1919-1933).
A sociedade alemã também enfrentou graves problemas
Rua na França destruída durante a Primeira Guerra Mundial, c. 1920.
econômicos decorrentes sobretudo da grande destruição ma-
Friedrich/Interfoto/Fotoarena

terial e do desequilíbrio econômico. Nesse período, a pobreza,


o desemprego e a inflação eram elevados. As famílias que per-
deram seus parentes no conflito passavam por dificuldades e os
soldados que conseguiram retornar encontravam-se em situação
trágica, pois muitos sofreram graves ferimentos e passaram por
profundos traumas com as experiências da guerra.
Apesar de a Constituição de Weimar apresentar direitos sociais
e ser considerada uma das mais avançadas da época, a população
HISTÓRIA MÓDULO 5

alemã enfrentava condições de vida muito difíceis. Além disso, havia


um clima de grande instabilidade política e um sentimento de humi-
lhação em virtude das imposições do Tratado de Versalhes (1919).
As imagens ao lado retratam o cenário de destruição e trans-
Soldado alemão da Primeira Guerra Mundial pedindo esmola na rua, 1920. formações por que a Europa passou na década de 1920.

220
AMPLIANDO HORIZONTES
O sistema liberal é um conjunto de ideias políticas e econômicas que tem como principal característica a defesa
da liberdade individual. Os princípios do liberalismo afirmam que todos os cidadãos são considerados iguais e têm
direito de manifestar suas ideias e de escolher seus governantes. Além disso, segundo os preceitos liberais, o Estado
deve interferir o mínimo possível na economia.
A ideologia liberal teve origem no Iluminismo, movimento intelectual que criticava, principalmente, a concentra-
ção de poder nas mãos dos reis e a sociedade estamental. Com a disseminação dos ideais liberais após a Revolução
Francesa (1789-1799) pela Europa e pela América no século XIX, o liberalismo se tornou a ideologia dominante no
mundo ocidental e contribuiu para a consolidação do capitalismo.
É importante destacar que, embora o liberalismo defenda a igualdade entre os cidadãos, no século XIX e na pri-
meira metade do século XX, muitos indivíduos não conseguiam exercer a cidadania de forma plena. Em diversos países
ocidentais, mulheres, afrodescendentes e pessoas com baixo poder aquisitivo tinham restrições à participação política.

Estados Unidos na década de 1920: grande euforia

Granger/Fotoarena/Coleção particular
O declínio político e econômico da Europa, em virtude da Primeira Guerra
Mundial, abriu espaço para o crescimento dos Estados Unidos na década de 1920.
Afinal, com as economias europeias abaladas, os Estados Unidos continuaram
a fornecer-lhes inúmeros produtos.
Nesse período, houve grande crescimento tanto da produção industrial como
da agrícola do país. O aumento do número de empregos e a melhoria dos salá-
rios contribuíram para a elevação do consumo de setores da população. Nesse
contexto, surgiu um estilo de vida baseado no poder de compra, o chamado
American way of life. Com mais recursos, consumir passou a ser um hábito da
população. Esse estilo de vida influenciou diversos grupos sociais e gerações ao
longo do tempo, que passaram a ter como ideal de vida ganhar altos salários e
gastá-los com carros, eletrodomésticos e casas.
De acordo com a crença defendida, o consumo era sinônimo de felicidade
e prosperidade.
Nesse mesmo período, as limitações do cinema europeu, em virtude do cenário Propaganda que reflete o modo de vida estadunidense
de guerra, também contribuíram para que a indústria cinematográfica estaduniden- por meio dos aparelhos eletrodomésticos, em 1925.
se se desenvolvesse e produzisse muitos filmes, ganhando projeção no mundo todo.
O crescimento de Hollywood, distrito de Los Angeles que se tornou a capital

The Advertising Archives/Bridgeman Images/


Easypix Brasil/Coleção particular
da indústria cinematográfica, contribuiu para a disseminação do American way
of life pelos Estados Unidos e pelo mundo, por meio do modo como as histórias
eram construídas e de como os artistas, que passaram a ser modelos para a
sociedade, propagavam ao público um modo ideal de vida com a aquisição de
roupas, carros e outros bens. Assim, o estilo de vida baseado no consumo tor-
nou-se, dentro e fora dos Estados Unidos, sinônimo de felicidade.
HISTÓRIA MÓDULO 5

”Um luxuoso V8 com um preço para a família americana” descreve


o anúncio do automóvel, em revista estadunidense de 1929. Nele é
possível observar o ideal de família e sociedade do período.

221
FPG/Hulton Archive/Getty Images
Apesar do grande clima de otimismo, essa não era a realidade de
todas as parcelas da população dos Estados Unidos. Havia muitos grupos
sociais que viviam à margem do American way of life. Era o caso, prin-
cipalmente, das mulheres, dos afrodescendentes, dos imigrantes e dos
trabalhadores mais pobres. Em 1919, uma onda de protestos ocorreu no
país, muitos devido ao empobrecimento de parte da população.

Os marginalizados do American way of life


Embora a Primeira Guerra Mundial tenha contribuído para a inserção
das mulheres no mercado de trabalho, suas condições não melhoraram
muito após o fim do conflito. Com o retorno dos soldados, muitas delas
perderam os postos de trabalho para os homens. Contudo, apesar de
sofrerem grandes restrições e discriminação, as mulheres conseguiram,
Casas no subúrbio por meio das mobilizações dos movimentos feministas, o direito ao voto em 1920.
estadunidense.
Nova York, c. 1925. É importante destacar que, apesar da conquista do voto, as mulheres continuaram a sofrer pre-
conceito e restrições. Era muito comum ocuparem cargos inferiores aos dos homens e receberem
salários menores. Além disso, permaneceu a prática da violência contra a mulher e a ideia de que
homens e mulheres exerciam papéis diferentes na sociedade.
Por isso, as mulheres continuaram e continuam, ainda hoje, a lutar pela igualdade de gênero,
principalmente por meio dos movimentos feministas.
A situação dos afro-americanos também era muito difícil. Desde a abolição da escravidão, em
1863, as medidas de inserção dos ex-escravizados na sociedade estadunidense eram poucas e não
foram bem-sucedidas. Nos estados sulistas, a condição dos afrodescendentes era pior. Além de não
terem direito ao voto, viviam segregados dos brancos. Havia escolas para negros e outras para bran-
cos. Isso também acontecia com as lojas, os restaurantes, os bairros, os ônibus e até os bebedouros.

Photo12 Collection/Alamy/Fotoarena
HISTÓRIA MÓDULO 5

Sufragistas em passeata
nos Estados Unidos,
em 1913.

222
Jack Benton/Getty Images
A violência contra os afrodescendentes nos estados
sulistas era intensa, pois a ideologia da supremacia branca
tinha muitos adeptos. Na década de 1910, a Ku Klux Klan
(KKK) ressurgiu e continuou a pregar a violência contra os
afrodescendentes. Também outras minorias passaram a ser
perseguidas pelo grupo, como imigrantes, judeus e cató-
licos, pois seus membros acreditavam que era necessário
proteger os interesses dos brancos. Dessa forma, espan-
camentos e enforcamentos de afrodescendentes ocorriam
com grande frequência, com o consentimento das auto-
ridades locais. Conheça a seguir o contexto em que essa
organização foi criada.

Ritual de iniciação de um integrante à Ku Klux Klan, em 1920.


Outros membros do grupo observam a cena. Uma bandeira
dos Estados Unidos está fincada ao lado da cruz de fogo.

GOTAS DE SABER
A abolição da escravidão nos Estados Unidos ocorreu em 1863, durante a Guerra de Secessão (1861-1865).
Após o conflito, com a vitória do modelo nortista, houve a tentativa de adotar medidas para inserir os ex-escra-
vizados na sociedade, com direito ao voto e acesso a emprego, educação e saúde.
Contudo, houve uma reação contrária à inserção social dos ex-escravizados nos estados sulistas. Em 1866,
surgiu no estado do Tennessee a Ku Klux Klan (KKK), organização racista que realizava atos de violência contra
afrodescendentes, pois não aceitava, principalmente, que eles tivessem direito ao voto.
Com o aumento da violência, o governo estadunidense decretou, em 1871, a extinção dessa organização. No
entanto, os afrodescendentes continuaram a sofrer preconceito e nos estados sulistas não tinham direito ao voto.

Nos estados do Norte, a condição de vida também não era fácil para os afrodescendentes. Em
geral, as oportunidades de trabalho restringiam-se a empregos que utilizassem força física. Além disso,
ocorriam disputas com os brancos por moradia, escola e trabalho. Por essas razões, na década de 1920
e nas seguintes, os negros sofreram intenso preconceito e enfrentaram a pobreza e a marginalização.
Outro grupo que sofria grande discriminação era o dos imigrantes. Para grande parte da população
estadunidense, a imigração era responsável pelos problemas sociais que ocorriam nos Estados Unidos
nesse período. Essa posição se baseava na ideia de que eles traziam doenças da Europa e ocupavam
postos de trabalho que deveriam ser destinados aos estadunidenses. Além disso, alguns europeus
chegavam à América influenciados por ideologias opostas ao capitalismo, como o anarquismo e o
socialismo.
Nesse contexto de aversão aos estrangeiros e de valorização do “padrão americano”, o governo
dos Estados Unidos decretou, em 1924, o Ato de Imigração. O objetivo dessa lei era reduzir a entrada
HISTÓRIA MÓDULO 5

de imigrantes e garantir a manutenção da cultura nacional, ou seja, impedir a influência estrangeira.


Além de restringir a entrada de estrangeiros, o governo estabeleceu medidas no intuito de
“americanizar” os imigrantes. Foram lançados programas para ensinar a história dos Estados Unidos,
com o objetivo de garantir a transmissão dos valores e das tradições estadunidenses. Além disso,
na maioria das escolas, o ensino de línguas estrangeiras era restrito.

223
AMPLIANDO HORIZONTES

A origem do jazz
O jazz é um estilo musical que surgiu em Nova Orleans, nos Estados Unidos, no início do século XX e esteve ligado
à cultura popular disseminada nas comunidades afrodescendentes. Essa manifestação artístico-cultural se originou
Chicago History Museum/Getty Images

da mistura da tradição cultural africana com elementos da


cultura ocidental. O jazz é caracterizado pelo uso de instru-
mentos de origem europeia, porém apresenta um ritmo
intenso, uma forma peculiar de tocar e cantar e uma dança
marcante. Esses últimos elementos são provenientes das
culturas africanas.
A partir da década de 1920, o jazz deixou de ser uma
música exclusivamente das comunidades afrodescendentes
e se espalhou pelos Estados Unidos e pelo mundo. Apre-
ciado por diversos grupos sociais, com o passar do tempo,
Músicos de jazz se apresentando em Nova Orleans, Estados Unidos, c. 1920. influenciou outros estilos musicais, como o rock and roll.

SITUAÇÃO-PROBLEMA

Leia o comentário, publicado em 1953 em uma revista.


O objetivo dessa
situação-problema Primeiro fomos mais ou menos lisboetas, com o mundanismo. Depois londrinos e parisienses, agora
é incentivar os
alunos a refletir somos new-yorquinos e hollywoodenses. O que chamava antigamente de “sarau” passou a ser “soirée” e
sobre a influência do hoje em dia é “party”[…]. No tempo do binóculo floresceu nossa primeira linhagem de elegantes republi-
American way of life
nos dias atuais em
canos. O asfalto, depois o automóvel fizeram o resto […]. Hoje poderíamos dizer: o Rio “grows well” ou
nossa sociedade. se acharem o adjetivo “smart” também já foi vocábulo elegante usado antes de 1914, poderão fazer uma
Você pode separar
os alunos em
tradução mais moderna – “Rio grows swell”.
pequenos grupos RIO ILUSTRADO, n. 170/171, ago./set., 1953. Apud MAUAD, Ana Maria. Embrulhado para presente? Fotografia, consumo e
e determinar que cultura visual no Brasil (1930-1960). In: ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE HISTÓRIA – ANPUH. XXIV Simpósio Nacional de História, 2007.
cada grupo reflita
sobre uma área:
política, economia, ● De acordo com o trecho acima, na década de 1950 já era possível perceber a grande influência
sociedade, cultura, cultural dos Estados Unidos no Brasil. Além do uso de palavras da língua inglesa, surgiram novos
etc. Após essa
etapa, solicite a hábitos e costumes que são influências do American way of life. Como podemos perceber essa
um representante influência atualmente em nossa sociedade? Reflita com os colegas sobre essa questão e, depois,
de cada grupo que
exponha para a apresentem argumentos que justifiquem a resposta.
turma as conclusões.

ATIVIDADE PRÁTICA
HIST”RIA M”DULO 5

A propaganda teve papel fundamental para a disseminação e a consolidação do American way


of life. A ideia de que a felicidade pode ser alcançada por meio do consumo foi veiculada por
revistas, jornais, filmes, músicas, etc. ao longo dos anos. Pesquise com os colegas exemplos
que demonstrem a propaganda do estilo de vida estadunidense nas décadas de 1920, 1930,
1940 e 1950. Cada grupo deverá realizar uma apresentação com os resultados da pesquisa.
Os alunos poderão utilizar imagens de jornais e revistas, letras de músicas ou filmes que apresentem o American way of life. A turma
deverá ser organizada em grupos, e os alunos deverão utilizar a internet para realizar essa atividade. É importante que você realize
224 uma pesquisa prévia para indicar alguns sites em que os alunos poderão fazer a pesquisa.
PARA CONCLUIR

A década de 1920 foi um período marcado por profundas transformações, tanto na Europa como
nos Estados Unidos. A Primeira Guerra Mundial foi o episódio que mais contribuiu para as grandes
mudanças ocorridas nesse período. Com relação à Europa, a guerra trouxe consequências difíceis,
pois promoveu grande destruição material e descontentamento da população.
A Alemanha, por exemplo, enfrentou diversos problemas sociais, econômicos e políticos que
contribuíram para gerar instabilidade social. A situação dos alemães foi se agravando ao longo da
década de 1920. Nos próximos módulos estudaremos, especificamente, o caso da Alemanha.
Já os Estados Unidos viveram um momento de grande prosperidade e crescimento econômico.
Houve aumento da produção industrial e agrícola e expressiva elevação dos salários. Essas condições
contribuíram para o surgimento do American way of life, estilo de vida baseado no consumo. Além
disso, essas circunstâncias foram favoráveis para o desenvolvimento do cinema e a disseminação
de novas manifestações artísticas, como o jazz.
No entanto, esse clima modernizante e otimista escondia outra face da sociedade estaduniden-
se: o conservadorismo, o preconceito e a xenofobia. Nem todos viviam o American way of life. Essa
não era a realidade da maioria das mulheres, dos afrodescendentes e dos imigrantes, que sofriam
exclusão social e política.

PRATICANDO O APRENDIZADO

1 Caracterize o contexto europeu após a Primeira Guerra 3 Caracterize a situação das mulheres estadunidenses na
Mundial. década de 1920.
A Europa sofreu graves consequências após a Primeira Guerra Mundial. Apesar da conquista do voto em 1920 e da maior participação no
Além do número elevado de mortes, houve grande destruição mercado de trabalho durante a Primeira Guerra Mundial, a condição
material e enfraquecimento econômico, provocado pelos gastos das mulheres continuava difícil, pois o preconceito com relação a
com o conflito. Nesse contexto, a Europa, que antes da guerra era elas permanecia. Havia restrições de acesso aos postos de trabalho
referência cultural, política e econômica para diversos países, considerados mais importantes, e os salários pagos às mulheres
entrou em declínio. As sociedades europeias enfrentaram uma dura eram menores que os dos homens. Além disso, acreditava-se que
realidade nesse período: perdas humanas, desemprego, miséria e o papel social da mulher limitava-se aos cuidados com a casa e a
outros graves problemas. família, e a violência praticada contra elas era comum.

4 Explique como eram as condições de vida dos afrodes-


2 Apresente duas características da economia estaduni- cendentes nos Estados Unidos na década de 1920.
dense no início da década de 1920. A situação de vida dos afrodescendentes, nesse período, era
Os alunos poderão mencionar: aumento da produção industrial; bastante difícil, pois eles tinham acesso limitado a educação,
aumento da produção agrícola; elevados salários; aumento do saúde e empregos. Nos estados sulistas, eles não tinham direito ao
HISTÓRIA MÓDULO 5

número de empregos; expansão da indústria automobilística e de voto. A maioria era marginalizada, excluída do estilo de vida
eletrodomésticos. estadunidense. Além disso, sofriam intensa perseguição e violência
por parte da Ku Klux Klan.

225
APLICANDO O CONHECIMENTO

1 Leia o trecho a seguir. 2 Relacione a Primeira Guerra Mundial ao crescimento


Agora eu sei o que são os horrores da guerra. Dobra- econômico dos Estados Unidos na década de 1920.
mos o número de pessoas no atendimento, mas e daí, A Primeira Guerra Mundial teve graves consequências sociais e
imagine 1 000 gravemente feridos chegando por dia. Os econômicas para os países europeus, que saíram enfraquecidos do
médicos estão começando a dormir, porque depois de conflito. Os Estados Unidos, durante a guerra, foram um importante
trabalhar dia e noite, eles percebem que podemos ficar aliado da Inglaterra e da França, principalmente no fornecimento de
nessa toada durante meses, como em Verdun. Ouvimos produtos para abastecer a população. Com a ampliação do mercado
falar de grandes sucessos, mas é claro que há derrotas e consumidor europeu, os Estados Unidos puderam promover um grande
parece que há pilhas de ingleses e alemães mortos. crescimento industrial e agrícola, que se manteve após o final do
A HORA da insanidade. Disponível em: <http://historiainte.blogspot.com/
2014/11/um-breve-relato-sobre-primeira-guerra.html>. Acesso em: 2 set. 2019.
conflito. Afinal, mesmo após a guerra, os países europeus continuaram a
depender economicamente dos Estados Unidos durante o processo de
O trecho acima é do relato feito pelo reverendo britâ-
recuperação de suas economias.
nico John Stanhope Walker, capelão do 21º Hospital de
Evacuação, da Batalha do Somme, em 1916. Uma das 3 Explique no que consiste o chamado American way of life.
principais consequências da Primeira Guerra Mundial O American way of life foi um estilo de vida que surgiu nos
foi a morte de milhares de soldados. De que maneira a Estados Unidos, da década de 1920, em um contexto marcado pelo
Primeira Guerra Mundial se contrapõe à ideia de que grande crescimento econômico. A partir desse cenário, inúmeras
a Europa vivia, no início do século XX, a Belle Époque? estratégias foram utilizadas para incentivar o hábito do consumo
No final do século XIX e início do século XX, a Europa vivia uma era da população. De acordo com o American way of life, consumo
de progresso e desenvolvimento que ficou conhecida como Belle é sinônimo de realização pessoal. Ou seja, há associação entre
Époque. Esse período foi marcado por grande desenvolvimento consumo e felicidade. Esse modo de vida influenciou várias gerações
tecnológico, científico e cultural, o que contribuiu para a construção dos Estados Unidos e de diversos outros países.
da ideia de que a Europa vivia uma Era de Ouro. Contudo, nesse
Leia o trecho a seguir e responda às questões 4 e 5.
mesmo período, existiam graves problemas no continente europeu,
Enquanto os universitários e os estudantes da escola
como pobreza, desemprego e tensões entre os países. A Primeira
secundária eram privilegiados pela cultura comercial da
Guerra Mundial foi o episódio que demonstrou que a Belle Époque juventude dos anos 1920, os adolescentes das áreas mais
era uma ilusão, pois os países europeus não foram capazes de evitar pobres permaneciam ignorados. Eles não viam razão, en-
um conflito de proporções catastróficas. tretanto, para não participar da sociedade de consumo.
Com o desejo instilado, mas sem recursos, buscavam a in-
Leia o trecho a seguir e responda às questões 2 e 3.
clusão por meios justos ou injustos. O cinema, como um
Muitos contemporâneos se maravilharam com o cresci- delinquente condenado contou à acadêmica Alice Miller,
mento dos Estados Unidos […]. Os números eram impressio- “faz você querer coisas, e você pega”.
nantes: a produção industrial cresceu 60%, a renda per capita SAVAGE, Jon. A criação da juventude: como o conceito de teenage revolucionou
o século XX. Rio de Janeiro: Rocco, 2009. p. 242.
aumentou em um terço, o desemprego e a inflação caíram.
Avanços tecnológicos nos processos de produção na indús- 4 De acordo com o texto e seus conhecimentos, é correto
tria automobilística (linha de montagem e mecanização), afirmar que todos conseguiram viver o American way
de comunicações (rádio e telefone), eletrônicos e plásticos of life nos Estados Unidos?
(eletrodomésticos e outros bens de consumo) criaram pro- Não, pois, apesar de a década de 1920 ter sido marcada por grande
dutos inovadores a preços acessíveis. Circulavam entre as prosperidade, aumento de salários e empregos, as melhorias foram
massas produtos antes restritos aos ricos – carros, luz elé-
HISTÓRIA MÓDULO 5

exclusivamente de certos grupos. Havia muitos outros que viviam à


trica, gramofone, rádio, cinema, aspirador de pó, geladeira e margem dessas condições, como as mulheres, os afrodescendentes
telefone –, o “jeito americano de viver” (american way of life) e os imigrantes. Além do grande preconceito que enfrentavam,
tornou-se o slogan exaltado no período.
não tinham acesso aos melhores empregos e salários e, portanto,
KARNAL, Leandro et al. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI.
São Paulo: Contexto, 2016. p. 198. permaneciam sob duras condições de vida durante esse período.

226
5 Relacione a popularização do cinema com a dissemina- admitidos no país. Entre 1920 e 1929, os EUA recebe-
ção do estilo de vida estadunidense. ram um total de 4 295 510 imigrantes legais. Na década
O cinema estadunidense passou por notável desenvolvimento na seguinte, esse número caiu para 699 375. […]
década de 1920, o que pôde ser percebido na produção de grandes A Lei Johnson-Reed de Imigração, de 1924, criou cotas
obras cinematográficas e na popularização dos filmes, que passaram por nacionalidade para restringir a admissão de residentes
a ser vistos por diversos grupos sociais. Desse modo, o enredo e os estrangeiros, em um cálculo que passou a impedir a entra-
atores traziam para as telas do cinema concepções de vida e novos da de imigrantes asiáticos – uma ofensiva que havia come-
hábitos para a população. Foi um importante meio para disseminar o çado em 1882, com o Ato de Exclusão Chinesa.
American way of life na sociedade da época. FETZNER, Daniela. EUA: em busca de perfil qualificado, imigração legal cresce.
Notícias Terra, 13 ago. 2009. Disponível em: <https://www.terra.com.br/noticias/mundo/
6 Leia a notícia de jornal, publicada em 2009, que retrata estados-unidos/eua-em-busca-de-perfil-qualificado-imigracao-legal-cresce,
564bfa2aa9aea310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html>. Acesso em: 2 set. 2019.
o modo como o governo dos Estados Unidos tem lidado
com a questão da imigração desde o século XIX até os Quais foram os principais argumentos do governo dos
dias atuais. Em seguida, responda à questão. Estados Unidos para estabelecer o Ato de Imigração
em 1924?
O governo americano publica anualmente, desde o
O governo dos Estados Unidos alegava que os problemas sociais
final do século XIX, relatórios estatísticos sobre a imi-
enfrentados eram decorrentes da entrada dos imigrantes no
gração nos Estados Unidos. A evolução desses dados ao
longo dos anos permite identificar desde circunstâncias país. Alguns grupos acreditavam que o desemprego, as doenças e a

econômicas e políticas mais abrangentes – como guerras disseminação do socialismo e do anarquismo no território

e crises financeiras – até as mais específicas, como altera- estadunidense tinham sido causados pelos imigrantes. Desse modo,
ções na legislação do país. o Ato de Imigração foi criado com o objetivo de restringir ao máximo
a entrada de imigrantes nos Estados Unidos e garantir a manutenção
As décadas de 1930 e 1940, por exemplo, registra-
ram uma queda brusca no número de novos residentes da cultura nacional.

DESENVOLVENDO HABILIDADES Veja, no Manual do Professor, o gabarito comentado das alternativas


sinalizadas com asterisco.

1 Quando o ano de 1919 começou, a cidade fervilhava de b) estava estabilizada, pois havia muitos empregos e
ex-soldados amargurados e refugiados do leste; reinavam não havia graves problemas sociais.
o frio, a fome e a miséria. Uma epidemia de gripe matou c) foi marcada por grande prosperidade e desenvolvi-
milhares, quase duas mil pessoas morreram em um úni- mento cultural e científico.
co dia. E o armistício não significara paz. Enquanto os d) era crítica, pois a Alemanha ainda passava por graves
diplomatas aliados, em Paris, maquinavam os termos problemas econômicos e sociais.
do acordo, os seus navios de guerra mantinham a costa e) sofreu grande influência do American way of life e
alemã bloqueada. passou a investir no consumo.
FRIEDRICH, Otto. Antes do dilúvio. Rio de Janeiro: Record, 1997. p. 53.
2 Observe a imagem a seguir.
O trecho faz uma breve descrição da situação difícil que a
Bettmann Archive/Getty Images

Alemanha enfrentou após a Primeira Guerra Mundial. Ao


final do conflito, foi estabelecido o Tratado de Versalhes
(1919), que provocou um sentimento de frustração e
humilhação nos alemães. Afinal, a Alemanha foi consi-
derada culpada pela guerra.
HISTÓRIA MÓDULO 5

Sobre a situação da sociedade alemã na década de 1920,


é correto afirmar que:
a) era difícil, porém os alemães estavam otimistas com Grupo de mulheres com cartazes em campanha pelo sufrágio
a recuperação econômica do país. (voto) feminino, em 1919, no centro de Nova York, Estados Unidos.

227
O direito ao voto foi uma importante conquista das d) promoveram a superação de todos os problemas
mulheres brancas estadunidenses na década de 1920. sociais e econômicos.
Nesse contexto, a situação das mulheres: e) trouxeram grandes benefícios às camadas populares.
a) ainda foi marcada por muitos preconceitos e restri-
ções. Porém, as mulheres continuaram a lutar por 4 Leia o trecho desta notícia de jornal, publicada em
seus direitos. 15 de agosto de 2016.
b) continuou extremamente difícil. Afinal, o voto foi a A morte de mais um jovem negro, na cidade ameri-
única importante conquista das mulheres dos Esta- cana de Milwaukee, no sábado (13), fez subir mais uma
dos Unidos. vez a temperatura em torno das questões raciais nos
c) melhorou consideravelmente, pois as mulheres pas- Estados Unidos. Policiais assassinaram um homem de
saram a ter todos os direitos iguais aos dos homens. 23 anos, sob a alegação de que estaria armado e em
d) não se alterou, e elas continuaram submissas aos atitude ameaçadora.
homens, sem oportunidades de emprego. Em protesto, a população se insurgiu, incendiando
e) se transformou totalmente, e elas passaram a ocupar postos de gasolina, atacando lojas e outras dependências.
os principais cargos políticos e postos de trabalho. A cidade de Milwaukee, no estado de Wisconsin, tem cer-
3 Leia o fragmento a seguir. ca de 600 mil habitantes e expressiva população negra.
Apesar do abafado clima intelectual e social da déca- Violência policial contra negros coloca EUA à beira de guerra civil. Rede Brasil Atual,
São Paulo, 15 ago. 2016. Disponível em: <www.redebrasilatual.com.br/mundo/
da de 1920, as mudanças sociais e econômicas continua- 2016/08/violencia-policial-contra-negros-coloca-eua-a-beira-da-
ram produzindo protesto social e cultural. Uma geração guerra-civil-7580.html>. Acesso em: 2 set. 2019.
de escritores desencantados, […], criticou a futilidade da A notícia retrata um exemplo de violência contra a po-
sociedade de consumo, as atitudes repressivas do Estado pulação afrodescendente estadunidense. De acordo
e das corporações e as francas limitações à liberdade in-
com o texto e com seus conhecimentos, é correto afir-
dividual e aos direitos sociais no país.
KARNAL, Leandro et al. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI.
mar que nos Estados Unidos, atualmente:
São Paulo: Contexto, 2016. p. 203.
a) a situação dos afrodescendentes é muito difícil, pois
Segundo o texto, as transformações econômicas e não houve nenhuma conquista de direitos.
sociais que ocorreram nos Estados Unidos durante a b) não há mais atos violentos contra os afrodescenden-
década de 1920: tes e as minorias.
a) ameaçaram os direitos sociais que toda a população c) não existem leis que condenem o preconceito racial
estadunidense tinha. no país.
b) foram muito poucas e não contribuíram para o cres- d) o preconceito racial e o uso da violência contra os
cimento da economia do país. afrodescendentes ainda existem.
c) geraram insatisfações, pois houve críticas ao chama- e) todos são considerados iguais e têm os mesmos di-
do American way of life. reitos.

ANOTA‚ÍES
HISTÓRIA MÓDULO 5

228
Multidão diante da
Bolsa de Valores de
Nova York, Estados
Unidos, em 24 de
outubro de 1929.
LO
DU
Ó
M

Granger/Fotoarena

6 A crise de 1929 e seus


desdobramentos
A fim de tornar as habilidades da BNCC mais acessíveis para os estudantes, optou-se
por apresentá-las de forma resumida no Caderno do Aluno.

OBJETOS DO CONHECIMENTO 3 Refletir e entender os impactos econômicos e sociais


da crise nos Estados Unidos.
3 O mundo em conflito: a Primeira Guerra Mundial.
3 Entender o papel do Estado nesse contexto de crise e
3 A crise capitalista de 1929.
identificar as principais medidas do New Deal.
HABILIDADES 3 Identificar os efeitos da crise na Alemanha e no Brasil.
3 Compreender os fatores que contribuíram para a crise 3 Entender os motivos de a União Soviética não ter sido
de 1929. atingida pela crise.
3 Analisar a crise capitalista de 1929 e seus desdobramentos 3 Analisar como esse episódio contribuiu para a falência
em relação à economia global. dos ideais liberais.

229
PARA COME‚AR

Quando estudamos História, percebemos momentos de rupturas e de permanências. Os de rupturas


são aqueles em que mudanças drásticas acontecem, como a Revolução Francesa, que derrubou o ab-
solutismo de Luís XVI e inaugurou uma república iluminista; porém, também na Revolução Francesa,
houve a permanência das desigualdades sociais. Já os momentos de permanências são percebidos
quando certas características se mantêm, mesmo com a passagem do tempo. O cristianismo, por
exemplo, com todas as transformações ocorridas desde a Idade Média, pode ser considerado uma
permanência cultural relevante que durou até os dias atuais. Apesar de menos enfatizadas nas análi-
ses históricas, as permanências são úteis para a compreensão de determinados processos históricos.
É importante ressaltar que a História não é feita por processos somente de permanências ou de rup-
turas, como poderemos analisar na crise de 1929.
Na economia, o caráter cíclico de crises e apogeus pode ser considerado uma permanência. Afinal,
a crise de 1929 não foi a única do mundo contemporâneo. Se analisarmos os gráficos da economia
capitalista, perceberemos que dez anos antes, em 1919, a Bolsa de Valores de Nova York havia passado
Fila de desempregados por importantes variações. E, se avançarmos na linha do tempo em direção a 2008, perceberemos
em Nova York, Estados outra grande crise, mais intensa do que a de 1929: ações despencaram, a economia dos Estados Uni-
Unidos, 1930.
dos ficou mais uma vez estagnada e esse cenário tornou inevitáveis as comparações com a crise do
início do século XX.
CSU Archives/Everett/Fotoarena
O que ocorreu nos Estados Unidos em 2008 pode
ser explicado da seguinte forma: um banco tem parte
de seus lucros originários do dinheiro que empresta,
porque são acrescidos juros a esse empréstimo. Em
uma economia estável, as pessoas se sentem seguras
para fazer empréstimos bancários, porque podem se
planejar e prever quando terão quitado suas dívidas.
Por isso, estar endividado em um ambiente de cal-
maria econômica não é algo necessariamente ruim
e pode servir como estratégia de investimentos, para
acelerar a capacidade de ganhar dinheiro mais rápido
e, com isso, pagar sua dívida sem grandes sacrifícios.
Nesse caso, os bancos estadunidenses, atuando
em uma economia relativamente estável, já tinham
emprestado dinheiro para todos os bons pagadores
possíveis, ou seja, aqueles que podiam oferecer ga-
rantias (como um automóvel ou bens imóveis) em
Nicholas Kamm/Agência France-Presse

troca dos empréstimos já o tinham feito. A possibili-


dade de os bancos aumentarem os lucros estagnou,
uma vez que ninguém mais estava pegando dinheiro
emprestado. Assim, os bancos começaram a empres-
tar dinheiro para aqueles que não eram considerados
devedores seguros, os chamados NINJA (No INcome,
no Job, no Assets, que em português significa “pes-
soas sem renda, sem emprego e sem bens”).
HISTÓRIA

Reflexo da crise de 2008 nos Estados Unidos: pessoas com


dificuldade para pagar as hipotecas aguardam para receber
gratuitamente aconselhamento financeiro.

230
Normalmente, essa não seria considerada uma boa ideia, porém a economia mundial parecia
estável. Por isso, os NINJA, mesmo em empregos informais e sem garantias, tornaram-se alvo dos
banqueiros, ansiosos por expandir seus lucros.
O entendimento era o de que, enquanto houvesse crescimento mundial, empregos e renda
seriam ampliados; assim, os NINJA teriam capacidade de pagar suas dívidas e garantir grandes
lucros. Mas, se considerarmos o conceito de movimentos cíclicos da economia, em algum mo-
mento essa situação se reverteria. Um importante aspecto dificultou a percepção da crise que se
aproximava em 2008: a euforia associada à ambição dos bancos, que não consideraram os sinais
de que a capacidade de crescimento econômico dos Estados Unidos havia chegado ao seu limite.
Quando a economia do mundo e a dos Estados Unidos desaceleraram em 2008, muitas
empresas demitiram funcionários, formais ou não, fechando postos de trabalho. Muitos dos
NINJA foram atingidos e pararam de pagar a hipoteca de suas casas, tendo de devolvê-las aos
bancos, que passaram a ter milhares de imóveis em suas mãos e precisavam vendê-los para
recuperar o dinheiro emprestado, já que os devedores não teriam condições de fazê-lo. Nesse
momento, a crise foi, de fato, sentida. Mark Wilson/Getty Images

Pela lei da oferta e da procura, quando a oferta de determinado pro-


duto aumenta muito sem o equivalente aumento da procura, quem quer
vender normalmente tem de baixar o preço para tornar sua proposta
atraente. Foi isso o que aconteceu com milhares de casas nos Estados
Unidos: ao serem ofertadas ao mesmo tempo, o valor de todas caiu,
ficando abaixo do valor emprestado a seus antigos donos NINJA. Desse
modo, mesmo que as casas fossem vendidas, os bancos não recupera-
riam o dinheiro emprestado, já que a única garantia exigida pelos bancos
para esses empréstimos era o próprio imóvel comprado.
O resultado disso foi que bancos quebraram, a oferta de créditos
ficou comprometida e o mundo inteiro vivenciou a paralisação dos
créditos estadunidenses. A dependência econômica mundial em rela-
ção aos Estados Unidos foi comprovada mais uma vez, e o governo e
o mercado dos Estados Unidos usaram a experiência da crise de 1929
para buscar estratégias de superação para a crise de 2008. Vamos
estudar um pouco mais sobre esse assunto. Casa à venda em Maryland, Estados Unidos, 2007.

PARA RELEMBRAR

A euforia da década de 1920 foi motivada por um cenário pós-guerra favorável aos Estados Unidos.
A Europa, arrasada pelo conflito mundial, precisava do capital e dos produtos estadunidenses, já que
o país participou do conflito sem que seu território fosse atingido.
A economia estadunidense cresceu impulsionada por um mercado europeu cativo e um mercado
interno em ascensão. Perceber a crise que estava por vir seria uma tarefa complicada, já que o país
estava entretido com aquele momento de crescente prosperidade.
Entretanto, o liberalismo – que ganhou o mundo após a divulgação das ideias de Adam Smith
(1723-1790) no século XVIII, baseadas em princípios como o de um Estado não interventor e o de
HISTÓRIA MÓDULO 6

uma economia regida pela livre concorrência – tinha seus dias contados. Todos esses conceitos que
pareciam ser tão importantes para a lógica capitalista foram desconstruídos em 1929 e foi necessário
buscar uma nova forma de pensar a economia para assegurar a sobrevivência do sistema capitalista.

231
PARA APRENDER

A crise de 1929 Índice de produção industrial


Dow Jones (1915-1942)
Depois de quase uma década de eufo- 400
ria, em 1929 os Estados Unidos vivencia- Outubro 1929
350
ram a maior crise econômica capitalista do
300
século XX. Após se transformar no principal
250
credor internacional e fornecedor de pro-
dutos industrializados para o mundo todo, 200

em especial para o mercado europeu, a 150

economia estadunidense não parava de 100

crescer (veja os dados no gráfico ao lado). 50


Junho 1932
Além do mercado interno, forte e crescen- 0
1915 1942
te, os Estados Unidos tinham à sua dispo-
sição uma Europa arrasada e dependente Fonte: DOW Jones industrial Average History. Disponível em: <http://www.fedprimerate.
com/dow-jones-industrial-average-history-djia.htm> e <https://www.macrotrends.
de produtos e capital. net/2484/dow-jones-crash-1929-bear-market>. Acesso em: 1º out. 2019.

Porém, aos poucos, as economias europeias reconstruíram sua capacidade produtiva, rural e
industrial, com o apoio econômico dos Estados Unidos. Com as indústrias refeitas e as lavouras
recuperadas, ainda em meados da década de 1920, a necessidade de consumo de produtos
estadunidenses diminuía.
O primeiro efeito sentido pela indústria estadunidense, ainda que não fosse uma crise de fato,
foi a demora cada vez maior para se livrar de seus estoques. Aos poucos, a produção parecia não
ter mais mercado que a absorvesse e, em 1928, os comerciantes nos Estados Unidos já faziam pro-
moções, abrindo mão de parte do lucro como estratégia para esvaziar os estoques.
Em um primeiro momento, quando os empresários reconhece-
NY Daily News/Getty Images

ram a queda em seus lucros, trataram de cortar gastos. E, nesse caso,


os trabalhadores representavam as peças mais fáceis de dispensar e
de repor. Por isso, demissões aconteceram em 1929, como alternativa
para conter gastos, devido ao recuo do consumo europeu.
Além da diminuição das compras europeias, houve redução do con-
sumo interno estadunidense em razão do aumento do desemprego,
gerando assim uma nova queda dos lucros e mais uma vez a necessi-
dade de fazer demissões. Começava o círculo vicioso da crise de 1929.
A quebra da Bolsa de Nova York foi o aviso ao mundo de que os
Estados Unidos saíam de um momento de desaquecimento em dire-
ção à desaceleração econômica, em que cada vez menos se produzia,
se consumia e se empregava. O episódio do “Crash da Bolsa de Nova
York”, como ficou conhecido, aconteceu em razão do enorme volume
de pessoas que tentava vender suas ações antes que o valor delas
caísse mais. A oferta exagerada desvalorizou vertiginosamente as
HISTÓRIA MÓDULO 6

ações da Bolsa de Valores, que quebrou com a ausência de negocia-


ções. Veja, a seguir, o esquema sobre o encadeamento das causas e
consequências da quebra da Bolsa de Nova York.
Manchete de jornal noticia a quebra da Bolsa de
Valores de Nova York, em 25 de outubro de 1929.

232
1929

Houve falências, hipotecas executadas, bancos quebrados, desemprego e até suicídios. Durante
a crise, gastos considerados supérfluos foram radicalmente diminuídos. Foi por isso que os efeitos
dessa crise ultrapassaram as fronteiras da América do Norte. O mundo capitalista havia dado aos
Estados Unidos desde o fim da Primeira Grande Guerra em 1918 uma posição de extrema centra-
lidade na dinâmica econômica. Tratava-se de uma relação tão próxima e dependente do capital
estadunidense que qualquer tropeço daquele que assumira a função de coração do capital inter-
nacional provocaria distúrbios no funcionamento do restante do mundo.
No Brasil, por exemplo, a crise provocou desaceleração econômica e impactos políticos. Os Esta-
dos Unidos eram o maior comprador do café brasileiro. As oligarquias rurais se desentenderam em
busca de alternativas e acabaram por romper sua política do Café com Leite: as elites de São Paulo e
de Minas Gerais não conseguiram chegar a um acordo político e econômico sobre os rumos do país e,
por isso, lançaram candidaturas diferentes para a presidência da República, desfazendo o que era um
duradouro acordo entre oligarquias no controle do poder.
Na Alemanha, o Plano Dawes, política de auxílio adotada pelos países europeus e pelos Estados
Unidos para o país, derrotado na Primeira Guerra Mundial, foi interrompido. Isso afastou a Alemanha
ainda mais da estabilidade, o que contribuiu para a ascensão do nazismo, que chegaria rapidamente
ao poder a partir daquela conjuntura.
HISTÓRIA MÓDULO 6

Um dos poucos países que não foram fortemente afetados pela crise (enquanto o mundo capitalista
liberal desmoronava) foi a União Soviética. Como já estudado no módulo 4, com o fim da NEP, o Estado
socialista, forte e interventor, não sofreu com a mesma intensidade a crise que outros tantos países,
dependentes dos Estados Unidos, estavam sofrendo. Isso encheu Stalin de orgulho e argumentos em
sua contraposição ao capitalismo.

233
Soluções econômicas e consequências políticas da crise
O mundo teve de buscar soluções para a crise econômica do início do século XX e cada país des-
cobriu o próprio caminho. Durante os processos de reconstrução econômica foi possível constatar
a falência das práticas liberais, que até aquele momento eram consideradas fundamentais para o
capitalismo. Isso permitiu aos governos maior aproximação nas questões econômicas.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a ausência de resposta do governo de Herbert Hoover
(1874-1964) à crise foi o principal impulso para a vitória da oposição, representada pela can-
didatura de Franklin Delano Roosevelt (1882-1945). A diferença do candidato eleito para seu
antecessor foi que Roosevelt propôs uma saída econômica para a crise que rompia com o
liberalismo sem abrir mão dos princípios capitalistas. Como referência para o governo dos
Estados Unidos, saía de cena Adam Smith e entrava John Maynard Keynes, que passou a ser a
inspiração das ideias do novo governo estadunidense.
O conceito de keynesianismo naquele momento envolvia mudar o papel que era atribuído ao
Estado. Apesar de entender que a economia era provida das próprias regras de funcionamento,
Roosevelt em seu
gabinete, assinando o Keynes defendia que o Estado deveria intervir com o objetivo de acelerar a superação das crises
Ato de Seguridade Social, cíclicas da economia, ou, se possível, atuar para evitá-las. Foi com base nessas ideias que Roosevelt
em 1935.
lançou, em 1933, o New Deal.
Essa nova política econômica rompia
Granger/Fotoarena

com o liberalismo clássico de Adam Smith


e transformava o Estado em agente eco-
nômico ativo a fim de interromper o ciclo
de crise e estimular a retomada do cres-
cimento econômico.
Grandes obras públicas foram financia-
das pelo governo com o objetivo de gerar
empregos e salários que reativassem o
consumo. Foram estabelecidas estratégias
de estímulo à recuperação industrial e de
controle da produção agrícola do país, com
pagamentos feitos a título de indenização
pelas terras que ficariam ociosas enquanto
o mercado voltava a se equilibrar (Ato de
Ajustamento Agrícola – AAA). Além disso, foi
criado o Estado de bem-estar social, com
leis trabalhistas, como o seguro-desempre-
OSCILAÇÃO DA PRODUÇÃO INDUSTRIAL EM
DIFERENTES PAÍSES (1930-1938) go e a diminuição da jornada de trabalho. O
MÉDIA ANUAL (BASE 1929 5 100%) sindicalismo, que na década anterior havia
País/Ano 1930 1931 1932 1933 1934 1935 1936 1937 1938 sido criminalizado, foi estimulado a fim de
garantir força aos trabalhadores para lutar
Estados Unidos 81 68 54 64 66 76 88 92 72
por melhores salários e, consequentemen-
Alemanha 88 72 58 65 83 95 106 116 124 te, obter maior capacidade de consumo.
Tudo foi feito para que os estadunidenses
HIST”RIA M”DULO 6

França 100 89 77 83 78 76 80 83 79
voltassem a comprar, criando um círculo
Itália 92 78 67 74 80 94 87 100 98 virtuoso de crescimento. Observe a tabela
Reino Unido 92 84 83 88 99 106 116 124 116 ao lado e veja o desempenho da produção
industrial estadunidense e de outros países.
Fonte: GAZIER, Bernard. A Crise de 1929. Porto Alegre: L&PM, 2009. p. 11-12.

234
Mas como era possível ao governo sustentar tama- Curva de desemprego
nhos investimentos se havia uma crise generalizada? New Deal
12
A crise não atingiu diretamente os cofres governamen-
Recessão
tais, uma vez que o Estado não produzia bens e, por 10

isso, não sofria diretamente com a superprodução. Em 8 Segunda


Guerra

Milh›es
outras palavras, o governo ainda dispunha de dinhei- 6 Mundial
ro para estimular o crescimento. Mais adiante, com a
4
queda da arrecadação de impostos em um cenário de
desaceleração econômica, a crise atingiria o governo, 2
Quebra da Bolsa
mas, até que isso ocorresse, houve tempo e dinheiro
1929 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 1942
para evitar o colapso econômico.
Fonte: FRANCO JR; Hilário; ANDRADE FILHO, Ruy de Oliveira.
Atlas de Hist—ria geral. São Paulo: Scipione, 1993. p. 70.

GOTAS DE SABER
O marinheiro Popeye surgiu nos quadrinhos em 1929 como personagem secun-

Photo12/Alamy/Fotoarena
dário, ganhando posteriormente o protagonismo no papel e nos programas de TV.
No início, sua força descomunal era explicada por uma galinha mágica, cuja crista,
quando esfregada, proporcionava “superpoderes”. Seus hábitos alimentares também
transpareciam desde o início, mostrando preferência exclusiva por carne.
Ainda na década de 1930, a galinha desapareceu de cena e a alimentação de
Popeye sofreu uma súbita reviravolta. Sua superforça passou a ser justificada pelo consumo
de espinafre. Isso aconteceu por que o governo dos Estados Unidos precisou encontrar
um substituto para a carne como fonte de ferro. Em meio a uma crise econômica sem
precedentes, era preciso encontrar uma alternativa barata. A estratégia deu certo com
o personagem, e o consumo de espinafre cresceu avassaladoramente e as crianças
estadunidenses passaram a imitar seu herói, divertindo-se e, ao mesmo tempo,
protegendo-se da anemia.

No restante do mundo Popeye e sua


lata de espinafre.

Outros modelos sociais, econômicos e políticos surgiram ao redor do mundo. Nesse momento
de crise, o socialismo já estava disseminado entre as classes trabalhadoras soviéticas. A forma como
a União Soviética foi capaz de se proteger da crise econômica e ao mesmo tempo estabelecer a di-
tadura do proletariado seduziu as classes mais pobres e assustou a burguesia mundial, que também
passou a buscar soluções capazes de superar esse exemplo, cada vez mais admirado e desejado por
seus trabalhadores.
Enquanto isso, no Brasil, a crise econômica teve desdobramentos políticos. Os dois grupos oli-
gárquicos rurais que dominavam o país se desentenderam quanto às soluções a serem adotadas
para a crise. O resultado foi uma disputa presidencial acirrada que terminou com o golpe de Estado
HISTÓRIA MÓDULO 6

que levou Getúlio Vargas ao poder em 1930.


Uma vez no comando, Vargas adotou um conjunto de medidas intervencionistas que colocou o Estado
como agente do estímulo econômico e social. Ele também comprou os excedentes de café e os queimou,
diminuindo a oferta do produto e mantendo seu valor rentável no mercado externo. Além disso, Vargas
criou leis trabalhistas, levando a uma relativa e duradoura paz social e capacidade de consumo.

235
Na Alemanha, a República de Weimar estava enfrentando dificuldades para recuperar a economia,
ainda mais sem o auxílio externo, que havia sido interrompido por causa da crise. Um quadro de
convulsão social começou a se instalar no país. Ideias socialistas cresciam entre os trabalhadores, e a
burguesia, com medo de que o socialismo se expandisse, encontrou no discurso nazista a promessa
de um Estado forte e fundamentalmente protetor da propriedade privada.
O modelo liberal parecia falido naquele momento e uma característica ficava mais evidente:
o mundo se polarizava cada vez mais. Além disso, a divisão em direita e esquerda teria profunda
relação com as guerras que estavam por vir.

SITUAÇÃO-PROBLEMA

Leia o trecho de reportagem a seguir.


Europa: especialistas relacionam ascensão da extrema direita à crise econômica
Maior conquista dos ultradireitistas foi com a vitória da Frente Nacional francesa para o Parlamento
As eleições parlamentares europeias, encerradas no dia 25 de maio de 2014, foram palco da vitória do
conservador Partido Popular Europeu (PPE), que totalizou 212 das 751 cadeiras, e da ascensão de partidos
de extrema direita. O resultado mais impressionante foi na França, com a vitória da ultradireitista Frente
Nacional. A legenda conquistou cerca de 25% dos votos e 24 cadeiras no Parlamento Europeu, um terço das
74 que o país possui. Em 2009, o partido havia alcançado 6% dos votos.
“A ascensão da extrema direita está relacionada ao contexto da crise econômica na Europa”, es-
clarece o cientista político Valeriano Costa, docente da Unicamp. “A extrema direita perdeu espaço
depois da Segunda Guerra Mundial, mas reapareceu com a formação da União Europeia. A unificação
foi provocando crise de identidade dos países europeus, migração e desemprego, e foi trazendo de volta
estes temas que a extrema direita havia perdido o foco. Com a crise, tudo isso se agravou. O de-
semprego se tornou violento, alguns países com mais de 25%, e a temática da migração
muito mais forte”, explica.
es
ag
m
“A Europa está no auge da ressaca da crise. Não está mais no fundo do
I
ty
et
/G

poço, mas ainda está em uma situação ruim e a população percebe que isso se
3
/IP
ard

manterá por anos. Alguns países têm crescimento negativo, inclusive. Por isso,
riss
Mo

começam a aumentar as críticas a tudo que se relaciona com a União Europeia,


n
Aurelie

já que ela é o foco aparente e virou bode expiatório. A população acredita que
ela é responsável pelas mazelas, até porque o Parlamento vem ganhando im-
portância e tem mais força nas definições de política, se tornando realmente
um poder”, aponta o especialista [...].
[…] O professor da Unicamp expõe que os impactos dessa transformação
ainda são pouco visíveis. “A população está sofrendo muito, porque sempre foi
acostumada com bons serviços e agora passa por uma desmontagem do sistema
de proteção social. É normal que as pessoas fiquem muito céticas.” […] Por outro
lado, Costa garante que o crescimento da extrema direita é um sinal para a União Eu-
Marine Le Pen, ropeia mudar suas atitudes. “É uma sinalização clara para as elites do grupo que eles têm
presidente da então que mudar. Os impactos duros na população, com as políticas de austeridade, trouxeram essa extrema
HIST”RIA M”DULO 6

Frente Nacional francesa direita de volta. Apenas o líder ganha com a União Europeia, os países do norte, enquanto os dependentes
(atualmente o partido
se chama Reunião das políticas do grupo se sentem perdedores”, finaliza.
Nacional), discursa A cientista política Roseli Coelho, docente da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo
em evento na cidade
de Lyon, França, em (FESPSP), acrescenta que, em momentos de crise, o extremismo ganha espaço. “É esperado que na crise
fevereiro de 2017. as pessoas se voltem ao extremismo, principalmente de direita, porque a esquerda de um modo geral,

236
devido à tradição, tem uma vocação internacionalista. Um país de centro-esquerda propor barreira de
entrada para imigrantes, por exemplo, soa muito estranho, mas para um programa de direita é muito na-
tural. Como o desemprego é alto na Europa, em função da crise, cresceu uma certa disposição xenófoba,
com o medo de que os estrangeiros roubem os empregos”, assegura. […]
ALBUQUERQUE, Ana Luiza. Europa: especialistas relacionam ascensão da extrema direita à crise econômica. Jornal do Brasil, 4 jun. 2014.
Disponível em: <https://www.coisasjudaicas.com/2014/06/especialistas-associam-avanco-da.html>. Acesso em: 27 ago. 2019.

A reportagem mostra como questões econômicas influenciam os rumos políticos dos países.
O cenário entreguerras, por exemplo, foi desfavorável a muitos países que se envolveram no conflito
diretamente, e, a partir da crise de 1929, o problema se agravou.
Atualmente, as crises também fazem parte da realidade econômica. Desde 2008, o mundo con-
vive com os efeitos de mais uma crise da economia estadunidense. E novamente os efeitos políticos
se fazem perceber.
● Nos dias atuais, essa crise ajuda no aumento de quais radicalismos? Será que corremos os mes-
mos riscos que nas décadas de 1920 e 1930? Quais são os desdobramentos políticos dessa crise
no Brasil? Converse com o professor e os colegas sobre as diferenças e semelhanças desses dois
cenários político-econômicos.

ATIVIDADE PRÁTICA

Durante a Primeira República no Brasil, a política


Estoque de café com políticas de valorização –
era comandada pelas elites cafeicultoras, a serviço valores simulados e observados
dos interesses econômicos. Entre as diversas práticas
do período, destaca-se o Convênio de Taubaté (1906), 50

um acordo que previa a compra, pelo governo, do


café não absorvido pelo mercado externo. Em tese,
Milh›es de sacas

esse produto seria estocado e revendido no mercado


quando a oferta se equilibrasse. 25

Analise o gráfico ao lado e discuta as seguintes


questões com os colegas:
● Qual foi o período de maior estoque do café
0
brasileiro? 1852 1866 1880 1894 1908 1922 1936 1950
● Qual é a relação desse período com o cenário Ano

econômico dos Estados Unidos? Estoque de café simulado Estoque de café real
● Quais foram as consequências desse período Fonte: BACHA, E.; GREENHILL, R. O século XIX. In: MARTINS, Marcellino (Org.).
para a economia brasileira? 150 anos de cafŽ. São Paulo: Lis, 1992. p. 18.

PARA CONCLUIR

A crise da Bolsa de Nova York foi decisiva para os rumos econômicos e políticos do mundo. Seus
desdobramentos levaram os líderes de diversos países a repensar as estratégias do capitalismo e a rever
conceitos que por muito tempo pareciam cristalizados. O liberalismo deu lugar a uma lógica econômica
HIST”RIA M”DULO 6

em que a participação do Estado tornou-se importante para a manutenção do capitalismo no mundo


ocidental sem que isso afetasse o livre mercado, permanecendo assim por boa parte do século XX.
Politicamente, 1929 contribuiu para a ascensão e o fortalecimento de doutrinas políticas que pro-
punham governos rígidos, sejam eles de direita, sejam, de esquerda, mas que tinham como premissa
fundamental regimes capazes de encaminhar seus países para longe da crise.

237
PRATICANDO O APRENDIZADO

1 De que maneira a Europa contribuiu para que a crise 3 Cite quatro efeitos da crise de 1929 para a sociedade
de 1929 acontecesse? estadunidense e sua economia.
O agente impulsionador da crise foi justamente a recuperação Desemprego, falências, suicídios, quebra de bancos.
produtiva europeia nos anos 1920. Isso fez os estoques
estadunidenses crescerem, e o que pareceria a solução, como as
demissões enquanto estratégia de corte de gastos, se mostrou o
início de um ciclo de degradação econômica.

2 Relacione a quebra da Bolsa de Valores de Nova York à


crise de 1929.
A quebra da Bolsa de Valores de Nova York foi o símbolo de uma
crise já estabelecida, que não mostrava sinais de poder ser freada.
A desaceleração econômica enfrentada pelos Estados Unidos por 4 Explique a internacionalização da crise de 1929.
conta da recuperação europeia fez com que as vendas das empresas Como boa parte dos países capitalistas dependia dos empréstimos

estadunidenses diminuíssem; consequentemente, o valor de ou do mercado dos Estados Unidos, quando esse país entrou em

mercado dessas empresas caiu e as ações que as representavam crise, o fluxo de capital para eles cessou. Como resultado, suas

perderam valor. Uma tendência de queda tomou conta da Bolsa, que economias também entraram em colapso.

viveu uma corrida de investidores que tentavam se livrar dos papéis


dessas empresas antes que o prejuízo fosse maior. Quando,
em uma terça-feira, as negociações ficaram congeladas, pois não
havia compradores, dizemos que ocorreu a quebra da Bolsa, símbolo
de uma crise que já vinha se instalando ao longo da década de 1920.

APLICANDO O CONHECIMENTO

1 Compare o tratamento dado aos trabalhadores antes 2 Compare a visão de Adam Smith com a de John M.
e depois do New Deal (1933) nos Estados Unidos. Keynes sobre a participação do Estado na economia
O New Deal significou uma mudança no tratamento dado aos capitalista.
trabalhadores. Antes de 1933, os movimentos operários eram A teoria desses dois pensadores do capitalismo, desenvolvida
criminalizados em sua luta por direitos. A partir do New Deal, o em tempos diferentes, diverge sobre a participação do Estado na
sindicalismo passou a ser estimulado pelo governo, interessado economia. Adam Smith defende a capacidade de autorregulação da
em aumentar a renda média do trabalhador e sua consequente economia. Diz haver um conjunto de regras econômicas que regem o
capacidade de consumo. mercado e que funcionam com muito mais eficiência quando não
HISTÓRIA MÓDULO 6

estão sob a ingerência de governos. Keynes acredita que as crises


cíclicas do capitalismo podem ser superadas, até mesmo evitadas,
por meio da intervenção estatal na economia, sem que isso signifique
o fim de uma economia de livre mercado.

238
3 Explique como a criação de um Estado de bem-estar 4 Quais foram os desdobramentos da conjuntura econô-
social teria efeito no auxílio à resolução da crise do mica de 1929 no Brasil?
capitalismo liberal de 1929. Sendo os Estados Unidos os maiores compradores de café do Brasil,
Com os direitos trabalhistas, foram criadas condições para que os com a redução da exportação, o país teve uma superprodução
cidadãos continuassem a consumir mesmo quando não estivessem histórica. A crise do café se desdobrou em um conflito político entre
no mercado de trabalho (seguro-desemprego). Além disso, os as oligarquias dominantes de Minas e de São Paulo e acabou
sindicatos tendiam a representar um grupo de trabalhadores mais culminando na ruptura política marcada pelo golpe de 1930.
combativos, capazes de pleitear condições salariais mais dignas,
aumentando a capacidade de consumo de quem estava empregado.

DESENVOLVENDO HABILIDADES Veja, no Manual do Professor, o gabarito comentado das alternativas


sinalizadas com asterisco.

1 Quando, em 1929, surgiu o personagem Popeye, que d) a economia primário-exportadora sul-americana fez
com sua latinha de espinafre se livrava das maiores com que a quebra da Bolsa não trouxesse desdobra-
enrascadas, ele também ajudou os Estados Unidos a mentos para o restante do continente.
contornar uma questão relativa à crise de 1929, pois: e) a crise simbolizou a vitória final do socialismo sobre
a) Popeye mostrava que havia esperança na opção o capitalismo após anos de disputas, conhecidos
política pelo liberalismo em oposição ao ascen- como período da Guerra Fria, que tem seu fim com
dente socialismo. a instauração do New Deal.
b) sua relação com Olívia Palito mostrava a importância 3 Uma das vezes em que os acontecimentos nos Esta-
da mulher na vida de todo homem bem-sucedido. dos Unidos abalaram o mundo foi em 1929, quando
c) mostrava a força que o homem comum americano a Bolsa de Valores de Nova York quebrou, desesta-
podia encontrar para lutar contra o autoritarismo e bilizando o país e o planeta. Uma das causas dessa
pela liberdade. crise econômica foi:
d) valorizava as Forças Armadas, em especial a Ma- a) a superprodução do café brasileiro em 1929, que
rinha, desmoralizadas depois da participação dos provocou reflexos no mundo inteiro, incluindo os
Estados Unidos na Primeira Grande Guerra. Estados Unidos.
e) estimulava as crianças a consumir espinafre, rico b) a ascensão nazista ao poder, que levou os países
em ferro e substituto da carne em tempos de crise, europeus a interromper o consumo de produtos
combatendo o risco de subnutrição e anemia. importados e voltar seu capital para a indústria
2 Com relação à quebra da Bolsa de Nova York (1929), é bélica.
correto afirmar que: c) a mão de obra escrava dos estados do sul dos Esta-
a) a interrupção dos investimentos dos Estados Uni- dos Unidos, que provocou um cenário de profundo
dos fora do país atingiu rapidamente a Alemanha, subconsumo, uma vez que os trabalhadores cativos
dependente do capital estadunidense desde o fim não recebiam salários.
da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). d) a superprodução agrícola e industrial somada à di-
b) a falta de matéria-prima foi uma das principais ra- minuição dos níveis de exportação diante de uma
zões para a escassez de produtos industrializados Europa em franca recuperação econômica após a
HISTÓRIA MÓDULO 6

que impulsionou a crise de 1929, responsável pela Primeira Grande Guerra.


grande carestia dos anos 1930. e) a falta de atitude do governo republicano de Franklin
c) o socialismo soviético tornou aquele país mais susce- D. Roosevelt, que apostava na “mão invisível” da eco-
tível à crise de 1929, a qual abalou a economia russa e nomia como solução para os solavancos econômicos
quase provocou a queda de Lenin, líder da revolução. em andamento.

239
4 Formulada pelo francês Jean-Baptiste Say, a “Lei de Say” afirmava que toda oferta cria sua demanda, e vice-versa, de
tal modo que excluía a possibilidade de crise de superprodução no capitalismo.
Em qual dos momentos históricos abaixo a “Lei de Say” é refutada?
a) Revolução Russa de 1917.
b) Crise de 1929.
c) Movimento de independência da América Latina.
d) Unificação da Alemanha.
e) Ascensão dos Estados Unidos depois da Segunda Grande Guerra.

ANOTAÇÕES
HISTÓRIA MÓDULO 6

240
O líder nazista
Adolf Hitler saúda
membros da força
aérea alemã que
lutaram ao lado das
tropas nacionalistas
da Espanha durante
a Guerra Civil
Espanhola, em 1939.
LO
DU
Ó
M

Hugo Jaeger/Timepix/The LIFE Picture Collection/Getty Images

7
Os processos de
consolidação política do
fascismo e do nazismo
A fim de tornar as habilidades da BNCC mais acessíveis para os estudantes, optou-se por apresentá-las de forma
resumida no Caderno do Aluno.

OBJETOS DO CONHECIMENTO 3 Relacionar a crise econômica com a ascensão de


regimes autoritários.
3 A emergência do fascismo e do nazismo.
3 Compreender o cenário cultural e artístico da República
3 A Segunda Guerra Mundial.
de Weimar (1919-1933).
3 Judeus e outras vítimas do Holocausto.
3 Conhecer as principais características do fascismo e
HABILIDADES do nazismo.
3 Compreender as consequências políticas do Tratado 3 Analisar o apoio da sociedade aos regimes autoritários.
de Versalhes. 3 Compreender o papel da educação e da propaganda
3 Descrever e contextualizar os processos da emergência em regimes autoritários.
do fascismo e do nazismo, a consolidação dos estados
totalitários e as práticas de extermínio (como o Holocausto).

241
PARA COMEÇAR

Leia a notícia a seguir.

Polícia de SP vê aumento de movimentação neonazista e identifica grupos


A Polícia Civil vem detectando uma maior movimentação de grupos de caráter neonazista em São Paulo
nos últimos meses. Entre as possíveis causas para essa tendência estão o cenário político no Brasil, o
fortalecimento de partidos conservadores e de extrema direita no exterior e a situação de desemprego e
instabilidade econômica, segundo policiais e especialistas ouvidos pela BBC Brasil.
[…]
Propaganda antissemita
Segundo a antropóloga Adriana Dias, doutoranda da Unicamp e especialista em estudos sobre neonazis-
mo, os grupos neonazistas brasileiros se reúnem para praticar três tipos principais de atividades: propaganda
e ciberativismo (produção de sites, revistas, colagem de cartazes), atividades “de rua”, que incluem pichações e
brigas contra grupos rivais e também reuniões (que vão de concertos musicais a treinamentos paramilitares).
No caso mais recente investigado pelo Decradi, um rabino de São Paulo descobriu cartazes de caráter
antissemita colados em locais públicos do centro da cidade. O religioso publicou no Facebook um vídeo
no qual retirava de um poste um cartaz onde era possível ler: “Com judeus você perde”. Ele em seguida
desafiava os autores a se mostrarem.
A resposta veio dias depois: integrantes do grupo Kombat Rac fizeram outro vídeo, com mais con-
teúdo antissemita.
“Em resposta ao rabino que veio até a (rua) Augusta e disse pra gente vir às ruas e fazer isso […] nós
estamos aqui e viva São Paulo”, disse um dos integrantes do grupo na gravação.
O vídeo neonazista foi divulgado inicialmente em grupos fechados de WhatsApp, mas acabou se
tornando viral na internet e chegou às mãos da polícia. […]
KAWAGUTI, Luis. Polícia de SP vê aumento de movimentação neonazista e identifica grupos. BBC, 18 jan. 2017.
Disponível em: <www.bbc.com/portuguese/brasil-38603560>. Acesso em: 28 ago. 2019.

Os grupos neonazistas têm como inspiração uma


Hulton-Deutsch Collection/Corbis/Getty Images

ideologia autoritária que surgiu na Alemanha, no pós-


-Primeira Guerra Mundial (1914-1918), e ganhou grande
projeção nesse país. Essa ideologia, denominada nazis-
mo, defendia ações violentas, como a perseguição aos
opositores políticos e o antissemitismo.
Entre 1920 e 1930, ideologias autoritárias seme-
lhantes ao nazismo disseminaram-se por diversos paí-
ses europeus: na Itália, surgiu o fascismo; em Portugal,
o salazarismo; e na Espanha, o franquismo. A difusão
de ideologias autoritárias na Europa nesse período es-
tava ligada aos acontecimentos do pós-Primeira Guerra
Mundial.
Neste módulo, vamos estudar as características
HISTÓRIA MÓDULO 7

do fascismo e do nazismo e a relação entre sociedade


e Estado durante o período em que essas ideologias
foram predominantes, respectivamente, na Itália e na
Alemanha no período entreguerras (1918-1939).
Material de propaganda nazista exposto em loja da cidade de Innsbruck, Áustria. Foto de 1938.

242
PARA RELEMBRAR

A Primeira Guerra Mundial trouxe graves consequências para a Europa. Nesse contexto, marcado
por grande destruição material e elevado número de mortos, o liberalismo foi questionado ampla-
mente pela população. Além disso, a crise de 1929, nos Estados Unidos, gerou muitos impactos
nas economias europeias, sobretudo na Alemanha, que passava por um processo de reconstrução
econômica baseado principalmente no capital estadunidense.
O cenário de grave crise social, política e econômica do pós-guerra provocou a falência do sistema
liberal e contribuiu para o surgimento de ideologias autoritárias, que tiveram grande base social e
ascenderam ao poder na Itália e na Alemanha.

PARA APRENDER

A Itália e a Alemanha no pós-guerra


Após a Primeira Guerra Mundial, os países europeus enfrentaram graves problemas sociais,
econômicos e políticos em decorrência dos anos de conflito – especialmente a Itália e a Alemanha
viveram momentos muito difíceis.
A Itália aliou-se à Tríplice Entente no decorrer da guerra e esperava receber compensações
territoriais prometidas pela França e pela Inglaterra após o conflito. O grande objetivo italiano era
anexar a seu território algumas cidades que haviam pertencido ao Império Austro-Húngaro, porém
a Inglaterra e a França preferiram anexar essa região ao território que deu origem à Iugoslávia.
Essa decisão causou grande insatisfação na população italiana, principalmente entre os ex-comba-
tentes da guerra. Para eles, o sacrifício de muitos soldados e os traumas vividos haviam sido em vão.
Foi nesse contexto de grande descontentamento que surgiu o fascismo, um movimento liderado
por Benito Mussolini, ex-combatente e ex-jornalista que criticava tanto o governo italiano por ter
cedido aos interesses de outros países quanto o socialismo. Em 1921, Mussolini fundou o Partido
Nacional Fascista (PNF).
Na Alemanha, houve grande insatisfação

Universal History Archive/Universal Images Group/Getty Images


social em virtude das cláusulas do Tratado de
Versalhes, que, além de culpar os alemães
pela guerra, estabeleceu uma série de puni-
ções, como o pagamento de indenizações
aos países vencedores do conflito. Esse con-
texto favoreceu o surgimento do Partido Na-
cional Socialista dos Trabalhadores Alemães
(NSDAP), em 1920, cujo principal líder era Adolf
Hitler, um ex-soldado austríaco.
O programa do partido caracterizava-se pelo
nacionalismo extremado e pelo ódio aos judeus,
HISTÓRIA MÓDULO 7

sob a alegação de que eles teriam “entregado”


a Alemanha na Primeira Guerra Mundial.

Líder fascista italiano, Benito Mussolini,


ao centro. Foto de 1922.

243
GOTAS DE SABER

A simbologia das ideologias autoritárias: o fascismo e o nazismo


O fascismo buscou referências na Roma antiga para construir e legitimar seu ideal de nação. A simbologia e as
conquistas dos romanos foram utilizadas pelos fascistas para fortalecer o ideal de Estado e a nação italiana perante
a população. Essa influência pode ser percebida no nome do movimento: “fascismo” vem de fascio, expressão em
latim que significa “feixe”. Na Roma antiga, o feixe simbolizava a ordem do Senado depois do imperador. Além disso,
representava a união entre o povo e o Estado para fortalecer a nação.
O nazismo utilizou como símbolo a suástica, ou cruz gamada, um elemento

Getty Images
ri/
encontrado em várias culturas e religiões ao longo da História. No nazismo, a

nale Luce/Alina
suástica simbolizava a valorização da raça ariana. Esse elemento foi amplamen-
te propagado pelos nazistas, que usaram o símbolo em bandeiras, emblemas

Istituto Nazio
militares, braçadeiras, medalhões e cartazes.
Hoje a suástica é um símbolo extremamente associado ao nazismo. Ela
representa uma ideologia que defende atrocidades contra determinados gru-
pos étnicos. Por isso, o uso da suástica e sua propagação são condenados por
diversas sociedades.

À esquerda, bandeira da Itália fascista com a representação do fascio, e, à direita, bandeira da Alemanha
nazista com a suástica, ambas empunhadas por soldados durante visita de Mussolini à Alemanha, em 1937.

A ascensão e a consolidação do fascismo na Itália


Diferentemente da situação de países como Inglaterra, Alemanha e França, desde o século XIX a
Itália enfrentava grandes dificuldades para ampliar seu processo de industrialização e crescimento
econômico, principalmente em decorrência de sua tardia unificação territorial, que teve início em
1848 e foi seguida por um longo processo de disputas políticas e territoriais. Esses conflitos internos
dificultaram a estabilização política do país, que estava em construção, e causaram impactos em
sua política imperialista.
Então, enquanto várias nações europeias possuíam colônias na África e na Ásia que lhes
garantiam o desenvolvimento econômico, no início do século XX a Itália vivia uma condição
econômica menos favorável, marcada por problemas no crescimento econômico do país. Além
disso, embora a Itália tenha se aliado à Tríplice Entente em 1915, a guerra gerou grandes gas-
tos ao país e custou a vida de muitos soldados. Por essa razão, muitos italianos julgavam que
a guerra havia sido em vão.
Foi nesse contexto que surgiu o fascismo, um movimento composto de ex-soldados, sindicalistas
e intelectuais que não só estavam insatisfeitos com o resultado da guerra, como também pretendiam
conter o avanço do socialismo na Itália. Com o crescimento do fascismo no país, em 1921 foi fun-
HISTÓRIA MÓDULO 7

dado o Partido Nacional Fascista (PNF), que, no ano seguinte, já era uma organização política forte,
com aproximadamente 200 mil membros, milícia própria, sindicatos e organizações juvenis. Nesse
mesmo ano, o Partido Fascista reprimiu de forma violenta uma greve organizada por trabalhadores
antifascistas. Esse episódio fez o movimento ganhar mais espaço na política italiana, pois, a partir
desse momento, os fascistas resolveram, de fato, exigir o poder.

244
Albert Harlingue/Roger Viollet Collection/Getty Images
No dia 28 de outubro de 1922, milhares de militantes
do Partido Fascista, vestidos com suas camisas negras,
partiram de diversas regiões da Itália em direção a Roma,
tomando cidades e edifícios públicos. O objetivo desses
grupos era pressionar para que os fascistas alcançassem
a liderança do governo. Diante desse cenário, o rei Vitor
Emanuel III nomeou Benito Mussolini como primeiro-mi-
nistro da Itália. Esse evento foi o marco da chegada dos
fascistas ao poder.

Benito Mussolini (no centro, de terno e gravata) liderou os


militantes fascistas, conhecidos como camisas-negras,
na Marcha sobre Roma, em 1922.

GOTAS DE SABER

O acordo com a Igreja cat—lica


A relação entre a Igreja católica de Roma e o Estado estava abalada desde o início do processo político de uni-
ficação da Itália, que foi finalizado em 1871.
Na região central da península Itálica, em Roma, estavam localizados os chamados Estados Pontifícios, territórios
que pertenciam à Igreja católica desde a Idade Média. Com os avanços da unificação italiana, havia a pretensão de
anexar Roma ao país recém-formado, porém a Igreja católica não aceitou se submeter ao Estado laico e perder o
controle de seu território. Essa disputa, que ocorreu entre 1861 e 1929, ficou conhecida como Questão Romana.
Como os fascistas desejavam obter o apoio da Igreja católica, o governo fascista encerrou a disputa ter-
ritorial. Desse modo, em 1929 foi firmada entre o papa Pio XI e Benito Mussolini a chamada Concordata de
Latrão, acordo no qual o Estado italiano reconheceu a soberania da Igreja católica sobre o território ocupado
pelas propriedades eclesiásticas. Essa medida deu origem ao Estado do Vaticano, território controlado pela
Igreja e independente do Estado italiano, embora esteja localizado na cidade de Roma.
O acordo ainda previu a inclusão do

Massimo Sestini/Italian National Police/Getty Images


catolicismo no ensino das escolas públi-
cas, o uso de símbolos religiosos nesses
locais e em repartições públicas, além
de privilégios econômicos e políticos
que foram concedidos à Igreja católica.
A solução da disputa territorial possibi-
litou a definição de Roma como capital
do país e o reconhecimento do Estado
italiano pela Igreja.
HISTÓRIA MÓDULO 7

Vista aérea do Estado do


Vaticano.

245
A implementação dos ideais fascistas
Ao assumir o poder em 1922, os fascistas, gradativamente, estabeleceram seu projeto ideoló-
gico na Itália. Nos primeiros anos, destituíram os governos locais de orientação socialista ou liberal
e prenderam os principais opositores do regime. O movimento operário antifascista também foi
reprimido e a imprensa passou a ser censurada.
A partir de 1926, foram criadas várias leis e instituições com base nos ideais fascistas. Todos
os partidos políticos foram extintos, exceto o Partido Fascista, e a repressão ampliou-se, atingindo
parlamentares que se opunham ao projeto do governo.
Durante o processo de consolidação política do fascismo, a violência foi largamente empregada.
Contudo, outras estratégias foram adotadas para garantir o apoio social ao regime, principalmente
dos grupos que não eram vistos como uma ameaça.
O fascismo criou uma visão de mundo baseada na ideia de uma “nova Itália”, que superou as
disputas políticas, os problemas sociais, as tradições e o conservadorismo. Essa idealização também
defendia uma noção chamada de “novo homem”, ou seja, de que a população deveria ter novas
atitudes e uma nova mentalidade.
Assim, o regime fascista iniciou um processo de reeducação para homens e mulheres com o
objetivo de determinar o papel que cada grupo deveria realizar na “nova Itália”. Eram valores con-
servadores: caberia aos homens ocuparem-se do trabalho e da guerra; as mulheres deveriam gerar
filhos, cuidar da família e do lar para garantir a reprodução e a manutenção da população.
As crianças e os jovens ocupavam um papel de destaque no projeto ideológico do fascismo, pois
eram considerados o “futuro da nova Itália”. Por isso, o governo criou uma organização exclusiva
para essas categorias sociais, a Opera Nazionale Balilla (ONB), cuja função era ensinar e doutrinar
crianças e jovens com base nos valores fascistas.
Em 1927, o regime fascista promulgou a Carta del Lavoro, um conjunto de leis que regulou
as relações trabalhistas com base na doutrina corporativista. De acordo com a legislação, a con-
ciliação entre os interesses dos trabalhadores e os dos patrões seria tutelada pelo Estado, pois
todas as divergências relacionadas
Farabola/Leemage/Agência France-Presse

ao trabalho deveriam ser superadas


pelo bem da população italiana.
Nessa concepção, o Estado,
portanto, poderia intervir nos as-
suntos relacionados ao trabalho e
à sociedade sempre que fosse ne-
cessário para defender os interes-
ses da nação. Mussolini definiu o
corporativismo italiano da seguinte
forma: “Tudo no Estado, tudo pelo
Estado, nada contra o Estado, nada
fora do Estado”.
HIST”RIA M”DULO 7

Durante o governo fascista, crianças e jovens foram


iniciados no manejo de armas. Na foto, jovens
participam de cerimônia oficial fascista na praça de
São Pedro, em Roma, na década de 1930.

246
AMPLIANDO HORIZONTES

Itália debate projeto que criminaliza apologia ao fascismo


ROMA, 10 JUL (ANSA) – A Câmara dos Deputados da Itália começou a discutir nesta segunda-feira (10) um
projeto de lei que criminaliza a apologia ao nazifascismo e vem sendo bastante criticado por partidos populistas e
conservadores.
A iniciativa é do deputado Emanuele Fiano, do governista Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, e prevê penas
de seis meses a dois anos de prisão para quem divulgar “imagens ou conteúdos próprios do Partido Nacional Fascista, do
Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães [Partido Nazista] ou de suas relativas ideologias”.
Além disso, o período de reclusão será aumentado em um terço caso o eventual crime seja cometido por meio de
“instrumentos de telecomunicações ou informática”. O projeto puniria, por exemplo, a “saudação romana”, gesto de le-
vantar o braço direito com a palma da mão aberta e incorporado por nazistas e fascistas.
Atualmente, a legislação italiana já possui normas sobre o tema, mas que têm como objetivo apenas barrar tentativas
de reorganizar o Partido Nacional Fascista, fundado em 1921, por Benito Mussolini, e dissolvido em 1943.
Na semana passada, o populista e antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S), principal sigla de oposição na Itália,
havia depositado na Comissão de Assuntos Constitucionais da Câmara um parecer chamando o projeto de “liberticida”,
por supostamente restringir a liberdade de expressão.
A resposta do PD chegou nesta segunda-feira, por meio de seu líder, o ex-primeiro-ministro Matteo Renzi. “Liberticida
era o fascismo, não a lei contra a apologia ao fascismo. Precisamos dizê-lo ao M5S: o fascismo era liberticida”, escreveu
o ex-premier no Twitter.
Mas o Movimento 5 Estrelas não é o único partido a se opor ao projeto. O líder do conservador Força Itália (FI) na
Câmara, Renato Brunetta, afirmou que a iniciativa deveria equiparar o fascismo ao comunismo, vetando também a
propaganda deste regime – o FI é presidido por Silvio Berlusconi, que sempre usou a “ameaça comunista” para angariar
votos.
Já Matteo Salvini, secretário da ultranacionalista Liga Norte, declarou que “uma coisa são as ameaças e a instigação ao
terrorismo, e outra coisa são as ideias, feias ou belas, que podem ser refutadas, mas não levar à cadeia”.
O debate em torno da lei também

Stefano Montesi/Corbis/Getty Images


ganhou destaque por conta de um
episódio ocorrido no último fim de se-
mana, quando o dono de um bar em
uma praia de Chioggia, nos arredores
de Veneza, espalhou vários cartazes
com frases e símbolos fascistas em seu
estabelecimento.
Os banners acabaram removidos
por ordem da Província de Veneza,
órgão vinculado ao Ministério do In-
terior, mas o responsável não pôde ser
processado. Caso o novo projeto de lei
HIST”RIA M”DULO 7

estivesse em vigor, ele correria o risco


de pegar até dois anos de prisão.
ITÁLIA debate projeto que criminaliza apologia ao fascismo. IstoÉ, 10 jan. 2017. Disponível em: <http://istoe.com.br/italia-debate-projeto-quecriminaliza-apologia-ao-fascismo/>.
O objetivo é incentivar os alunos a refletir sobre o uso da simbologia ligada ao fascismo e ao nazismo e sobre a apologia ao ódio e Acesso em: 22 out. 2019.
a esses regimes políticos. É importante que os alunos compreendam o significado do uso desses símbolos após as experiências
traumatizantes que esses regimes provocaram.
A proposta dessa seção também pode dar margem para que os alunos problematizem outros exemplos de discursos de ódio que
ainda existem no Brasil, como o racismo e a homofobia.
247
A República de Weimar (1918-1933)
Em 1918, a situação da Alemanha era bastante delicada: além do elevado número de soldados
que foram mortos nas batalhas, havia escassez de mão de obra e de alimentos. E ainda que as mu-
lheres tivessem ocupado postos de trabalho para manter os níveis de produção agrícola e industrial,
a diminuição da mão de obra, sobretudo no campo, contribuiu para aumentar a fome.
O sofrimento da população diante dos efeitos da guerra levou vários grupos políticos a pressionar
o governo para que a Alemanha saísse do conflito. O processo de rendição foi liderado pelo chanceler
Friedrich Ebert, que buscou realizar medidas sociais para diminuir o descontentamento da população.
Em novembro de 1918, a Liga Espartaquista (organização socialista e marxista liderada por
Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht) convocou os trabalhadores para tomar o poder em Berlim.
Havia um grande receio por parte de outros grupos políticos de que ocorresse uma revolução de
caráter socialista na Alemanha, por isso o Partido Social Democrata exigiu a abdicação do Kaiser
Guilherme II, o que possibilitou a proclamação de uma república na Alemanha e deu início ao
processo político chamado Revolução Alemã (1918-1919).

Ullstein bild/Getty Images

Rosa Luxemburgo discursa


na cidade alemã de
Stuttgart, em 1907.

O regime republicano foi instaurado em um momento de intensa disputa política e incertezas.


Nesse cenário, o socialismo era uma ideologia expressiva no meio político, principalmente em vir-
tude da atuação da Liga Espartaquista, que continuou a mobilizar trabalhadores e outros grupos.
Em janeiro de 1919, a Liga Espartaquista promoveu várias manifestações contra o novo governo e
pretendia realizar uma revolução socialista na Alemanha. Com o apoio do chanceler Friedrich Ebert,
os freikorps, grupos paramilitares criados em 1918 e compostos de ex-soldados, reprimiram violenta-
mente a Liga Espartaquista e assassinaram Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht.
Nos meses seguintes, foi elaborada uma nova constituição de caráter liberal e democrático, que
garantia direitos civis, políticos e sociais à população, estabelecendo a República de Weimar. Apesar
disso, o cenário político era de grande instabilidade: a rendição alemã na guerra, os distintos projetos
HIST”RIA M”DULO 7

políticos e a ameaça socialista contribuíram com esse quadro. A situação agravou-se em 1919 com
a elaboração do Tratado de Versalhes, que penalizou enormemente a Alemanha.
Foi nesse contexto que surgiu o nazismo, por meio do Partido Nacional Socialista dos Trabalha-
dores Alemães (NSDAP), fundado no estado da Baviera. No início da década de 1920, o alcance das
ideias nazistas ainda era bem restrito, comparado aos ideais socialistas.

248
Em novembro de 1923, houve uma tentativa de golpe de Estado por parte do Partido Nazista
contra o governo da Baviera. Inspirados na Marcha sobre Roma, Hitler e outros membros do partido
reuniram-se em uma cervejaria em Munique, capital da Baviera, com a intenção de marchar até o
palácio do governo para tomar o poder.
O movimento, porém, foi rapidamente desmobilizado por tropas militares que eram leais ao
governo. Esse episódio, chamado de Putsch de Munique, resultou na morte de vários nazistas e na
prisão de Adolf Hitler, acusado de alta traição. A fracassada tentativa de golpe demonstrou que as
ideias nazistas ainda não tinham grande apoio popular e político.
Apesar de ter sido condenado a cinco anos de prisão pelos crimes de conspiração e traição, Hitler
ficou preso apenas nove meses, pois houve grande pressão política para que ele fosse libertado.
Durante sua permanência na prisão, escreveu um livro intitulado Mein kampf (Minha luta), no qual
reuniu suas ideias, fundamentadas na crença da superioridade alemã e no antissemitismo, que se
tornaram as bases da ideologia nazista.

AMPLIANDO HORIZONTES

Movimentos artísticos e culturais da Alemanha na década de 1920


Embora o Expressionismo tenha surgido antes da Primeira Guerra Mundial, esse movimento artístico ganhou
profunda dimensão na Alemanha após 1918. Os artistas buscavam ressaltar as ações dos indivíduos em relação ao
meio em que eles viviam; ou seja, a ideia do Expressionismo era demonstrar a vontade e a ação humanas.
As formas distorcidas e as cores fortes eram usadas para expressar a melancolia e a tristeza, sentimentos comuns
dos seres humanos que viviam em um cenário marcado pela guerra e por grande sofrimento. Desse modo, a arte
expressionista buscava denunciar a crueldade e o impacto da guerra sobre os indivíduos.
Museu de Arte Hamburger Kunsthalle, Hamburgo, Alemanha/© Heckel, Erich/AUTVIS, Brasil, 2019.

Reprodução/Museu Brücke, Berlim, Alemanha.

HIST”RIA M”DULO 7

Os dois homens. Óleo sobre tela de Erich Heckel, 1912. Marcella. Óleo sobre tela de Ernst Ludwig Kirchner, 1910.

O cinema alemão do pós-guerra também foi extremamente influenciado pelo Expressionismo. Os filmes
O gabinete do dr. Caligari, de Robert Wiene, Metrópolis, de Fritz Lang, e Nosferatu, de Friedrich Wilhelm Murnau, são
exemplos de obras cinematográficas produzidas nessa época que representavam as perspectivas desse movimento.

249
Os filmes apresentam histórias fantasiosas e cenas que exploram a distorção expressiva da realidade por meio do
uso de luz e sombra e de personagens com características marcantes e exageradas. Esses elementos refletiam as
tensões políticas e sociais da Alemanha e objetivavam levar a arte expressionista a um público mais amplo, pois o
cinema tinha mais alcance popular que a pintura e o teatro expressionistas.
Reprodução/<https://www.doctormacro.com>

Reprodução/Coleção particular
Cena do filme O gabinete do dr. Caligari, de Robert Wiene, 1920. Cena do filme Nosferatu, de Friedrich Wilhelm Murnau, 1922.

O Modernismo também foi um movimento artístico de grande dimensão na Alemanha. Em 1919, foi criada
a Bauhaus, uma escola de arquitetura e design que pretendia levar a arte aos cidadãos alemães. A Bauhaus
incentivava a funcionalidade de edifícios, móveis e objetos utilizados nas casas sem desvalorizar a estética e
a beleza.
Os artistas que faziam parte desse movimento desejavam promover a arte moderna na Alemanha e garantir que
suas obras não ficassem restritas aos museus e galerias de arte.
akg-images/Album/Fotoarena

John Macdougall/Agência France-Presse


Cadeiras Wassily
e mesa Laccio
desenhadas por
Marcel Breuer
entre 1925 e 1927.

Chaleira desenhada
por Marianne
Brandt, 1924.

Embora durante o pós-guerra a Alemanha enfrentasse uma situação política, econômica e social difícil, a
década de 1920 foi de florescimento no campo artístico. A existência desses movimentos artísticos demonstra
que intelectuais e artistas pretendiam realizar um movimento vanguardista com o objetivo de romper padrões de
comportamentos e promover transformações na sociedade alemã.
HIST”RIA M”DULO 7

Contudo, com a chegada do nazismo ao poder na década de 1930, o Expressionismo e o Modernismo passa-
ram a ser considerados “arte degenerada”. Consequentemente, a escola Bauhaus foi fechada e vários artistas e
intelectuais ligados a esses movimentos artísticos foram perseguidos pelo regime nazista.

250
A ascensão e a consolidação do nazismo na Alemanha Adolf Hitler acena
para uma multidão
Após o fim da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha enfrentou graves problemas econômicos. entusiasmada em Berlim,
Os altos custos para manter as tropas nos campos de batalha, a devastação humana e material após se tornar chanceler
da Alemanha, em 1933.
provocada pelo conflito, assim como as punições impostas pelo Tratado de Versalhes, causaram um
grande desequilíbrio econômico.

ullstein bild/Getty Images


Desse modo, a população foi fortemente afetada pelo desemprego e
pela inflação. Em 1923 a inflação atingiu índices alarmantes, o que provo-
cou o aumento no custo de vida. Contudo, medidas tomadas pelo governo
e a ajuda financeira de alguns países, como os Estados Unidos e a Ingla-
terra, contribuíram para que a inflação fosse controlada nesse período.
No entanto, a crise de 1929 também atingiu a Alemanha. O país,
que passava por um processo de reconstrução econômica, sobretudo
com o apoio de capitais estrangeiros, sofreu um forte abalo com a
quebra da Bolsa de Nova York e a consequente repatriação do capital
estrangeiro. Diante disso, a economia alemã entrou em um quadro
de hiperinflação e recessão, o que ocasionou um elevado índice de
desemprego.
Essa conjuntura econômica causou grande descontentamento social e
contribuiu para que o discurso nazista ganhasse maior dimensão na Ale-
manha. Os nazistas alegavam que os problemas sociais e econômicos eram
decorrentes da “desordem” do Estado liberal e propunham um governo
forte e centralizador para solucionar essa situação.
Na eleição presidencial da Alemanha, em 1932, Hitler tornou-se candidato pelo Partido Nazista (antigo
NSDAP – Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães) e conseguiu um expressivo número de
votos, mas o vencedor foi Paul von Hindenburg, militar veterano da Primeira Guerra Mundial. Embora
não tenha sido eleito, Hitler tornou-se uma figura proeminente e, diante da grande pressão política,
Hindenburg o nomeou chanceler da Alemanha em janeiro de 1933.
Em fevereiro do mesmo ano, houve um incêndio no Reichstag (Parlamento, em alemão). Esse
episódio foi utilizado estrategicamente pelo Partido Nazista para propagar a ideia de que a Alemanha
enfrentava uma grave ameaça comunista e para disseminar o medo por todo o país.
Além de ações violentas realizadas pelas organizações paramilitares nazistas – a SA Sturmabteilung
(Divisões de Assalto) e a SS Schutzstaffel (Tropa de Proteção) – contra os opositores políticos, a intensa
propaganda nazista difundiu a ideia de que Hitler seria o salvador da nação alemã.
Em março de 1933 foram marcadas eleições no Parlamento, em meio a um Estado de exceção
Estado de exceção:
no país. Todos esses fatores contribuíram para que o Partido Nazista conseguisse eleger muitos de mecanismo
seus candidatos para deputado e se tornasse o partido majoritário no Parlamento alemão. A no- constitucional
meação de Hitler como chanceler e a grande vitória do Partido Nazista nas eleições foram episódios que suspende
as garantias
fundamentais para o início do governo nazista na Alemanha. individuais em
Com a conquista do poder, teve início a repressão aos grupos considerados inimigos do nazismo. períodos de grande
Gradativamente, comunistas, judeus, opositores políticos do regime, homossexuais, ciganos, teste- ameaça à ordem
HIST”RIA M”DULO 7

de um país.
munhas de Jeová e pessoas com deficiências foram perseguidos e enviados a campos de trabalho
forçado, também chamados de campos de concentração, criados a partir de 1933.
Entre 1933 e 1935, o regime nazista proibiu os judeus de ocupar cargos públicos, restringiu o
número de alunos judeus nas escolas e nas universidades e também os impediu de exercer suas

251
profissões e de atuar no cinema e no teatro. O aprofundamento da exclusão política e social dos
judeus foi determinado pelas Leis de Nuremberg, promulgadas em 1935.
Esse conjunto de leis pôs em prática os ideais nazistas de exaltação da raça ariana e do antisse-
mitismo ao determinar que só seriam considerados cidadãos aqueles que tivessem ascendência
alemã. Os judeus, segundo os nazistas, pertenciam a uma raça definida pelo nascimento, e não por
questões religiosas ou culturais. Desse modo, todo indivíduo que nascesse na Alemanha e tivesse
avós judias em seu histórico familiar não seria considerado cidadão.
Scherl/Süddeutsche Zeitung Photo

Oponentes políticos dos


nazistas são presos pelas
tropas da SA um dia após as
eleições, em 1933.

Outra determinação das Leis de Nuremberg foi a proibição dos casamentos e de relações afetivas entre
judeus e não judeus sob a justificativa de que a união inter-racial promoveria a “poluição da raça” alemã.
No entanto, foi a partir de 1938 que o antissemitismo se radicalizou na Alemanha. Em novembro desse
ano, um funcionário da embaixada alemã em Paris foi morto por um jovem judeu polonês, e os nazistas,
em retaliação a esse acontecimento, massacraram milhares de judeus. Esse episódio ficou conhecido
como a Noite dos Cristais. Além de milhares de judeus que foram presos e deportados para campos de
concentração, houve grande número de mortos e a destruição de casas, lojas, empresas e sinagogas.
Após a Noite dos Cristais, novas leis antissemitas foram criadas. Muitos judeus perderam suas
propriedades, que foram confiscadas pelo governo nazista. Além disso, foram proibidos de frequen-
tar escolas alemãs e perderam o direito de possuir automóvel e de frequentar teatros e cinemas.

Semelhanças entre o fascismo e o nazismo


Agora que você já estudou um pouco esses dois regimes, é possível identificar semelhanças entre o fascis-
mo e o nazismo, embora sejam ideologias diferentes. Esses movimentos surgiram e disseminaram-se em
um contexto de crise econômica e política, bem como de descrença de grupos sociais em relação ao libe-
ralismo. Consequentemente, seus discursos foram marcados por severas críticas aos ideais liberais e pela
defesa da instauração de práticas autoritárias. Por isso, as duas ideologias são consideradas antiliberais.
HIST”RIA M”DULO 7

O fascismo e o nazismo não aceitavam a existência de uma sociedade plural e democrática. Para
ambos, era preciso acabar com as diferenças entre os indivíduos e os grupos sociais, pois elas divi-
diam a sociedade e enfraqueciam a nação. Dessa forma, essas ideologias preconizavam a ideia de um
padrão comportamental: todos os indivíduos deveriam pensar e agir da mesma forma, e aqueles
que não se adequassem deveriam ser eliminados.

252
Para alcançar essa meta na política, o nazifascismo defendia a implantação do unipartidarismo,
ou seja, só poderia existir um único partido político no país. Nesse caso, o Partido Fascista, na
Itália, e o Partido Nazista, na Alemanha. Outra semelhança era o culto ao líder: para os fascistas
e os nazistas, respectivamente, Mussolini e Hitler tinham papel fundamental no progresso, pois
guiavam a nação.
Em defesa de seus ideais, fascistas e nazistas legitimavam a violência sob a alegação de que essa prá-
tica era necessária para fortalecer e proteger a nação. Para ambos, a nação estava acima das divergências
e das particularidades sociais. Portanto, outra semelhança entre eles era o nacionalismo extremado.

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Mussolini e Hitler obtiveram apoio de grande parte da população; eram chamados de duce e führer, respectivamente, que
significam “líder” em italiano e alemão. Mussolini discursa na praça da Catedral de Milão, na Itália, por volta de 1930.
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HIST”RIA M”DULO 7

Hitler desfila pelas


ruas de Berlim, na
Alemanha, após um
discurso, em 1934.

253
A intensa valorização da nação foi um fator que contribuiu para que ambos os movimentos de-
fendessem os ideais de militarismo e expansionismo. A sociedade, portanto, deveria estar sempre
preparada para a guerra, pois era necessário garantir os interesses da nação.
O enaltecimento da pátria também estimulou a realização de ações militares com o objetivo
de expandir territórios, dominando povos e áreas para assegurar o desenvolvimento da nação.
Desse modo, tanto os fascistas quanto os nazistas não respeitavam outros povos e nações.
Além disso, eles eram ideologicamente anticomunistas, pois, ao defender o nacionalismo,
opunham-se fortemente ao comunismo, argumentando que esse movimento desejava a in-
ternacionalização da classe operária, prevendo a união de todos os operários do mundo para
lutar contra o capitalismo. Essa proposta era totalmente rejeitada pelos fascistas e nazistas
porque era vista como uma negação do nacionalismo.

Diferenças entre o fascismo e o nazismo


Embora apresentassem várias semelhanças, o fascismo e o nazismo eram diferentes, pois ti-
nham características específicas. Uma particularidade do fascismo era o corporativismo, doutrina
que buscava o equilíbrio entre as classes sociais por meio do controle do Estado. Assim, caberia ao
Estado regulamentar as relações e os conflitos entre trabalhadores e patrões, como uma espécie de
árbitro das divergências sociais. Essa visão da luta de classes era diferente da do comunismo, que
reconhecia a impossibilidade de que essas divergências fossem superadas e propunha como solução
a tomada do governo pelos trabalhadores.
O corporativismo foi adotado em vários regimes políticos autoritários, como o salazarismo, em
Oficiais nazistas Portugal, e a Era Vargas, no Brasil.
pregam cartazes
em estabelecimento Já o nazismo defendia a superioridade do povo alemão com base na teoria da raça ariana, que
comercial judeu em havia surgido no século XIX. De acordo com essa crença, os povos nórdicos e germânicos seriam
Berlim, em 1o de abril superiores aos demais porque descendiam dessa raça considerada pura.
de 1933. No cartaz maior,
lê-se: “Alemães, Os nazistas incorporaram essa ideia e passaram a divulgá-la entre a população alemã, o que
defendam-se! Não contribuiu para justificar a política expansionista adotada por Hitler, pois, como os nazistas consi-
comprem em lojas
de judeus!”. O boicote
deravam os alemães superiores aos demais povos, acreditavam ter direito a um espaço vital para
estendeu-se por toda seu desenvolvimento. A crença na raça ariana também serviu para legitimar a subjugação dos povos
a Alemanha. considerados inferiores pelos nazistas, como os ciganos e os judeus.
O antissemitismo, ou seja, a aversão e o ódio aos
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judeus, foi outra característica marcante do nazismo.


Ao longo da História, os judeus haviam sido persegui-
dos por diversos povos. Durante a peste bubônica que
assolou a Europa no século XIV, inúmeros judeus foram
torturados e mortos porque muitos cristãos atribuíam a
eles a culpa pela epidemia, que seria um castigo divino
pela responsabilidade dos judeus na morte de Cristo.
O antissemitismo, portanto, não foi criado pelos
nazistas, pois esse preconceito já existia na Europa há
centenas de anos. O nazismo potencializou o ódio aos
HIST”RIA M”DULO 7

judeus ao afirmar de inúmeras formas que eles seriam


os responsáveis pelas péssimas condições de vida que
a maioria dos alemães enfrentava no pós-guerra. Dessa
forma, a ascensão do nazismo representou o aumento
do antissemitismo na Alemanha.

254
Leia, a seguir, um trecho do discurso de Joseph Goebbels, então ministro da Propaganda Nazista,
feito em 1935.
Enquanto o Nacional-Socialismo [nazismo] trouxe uma nova versão e uma nova formulação da cultura
europeia, o bolchevismo é a declaração de guerra dos sub-humanos liderados pelos judeus do mundo
inteiro contra a própria cultura. Ele não é apenas antiburguês, ele é anticultural. Na verdade, ele significa
a destruição absoluta de todos os avanços econômicos, sociais, políticos, culturais e civilizacionais de-
senvolvidos pelos cidadãos ocidentais, [o bolchevismo veio] para beneficiar um grupo internacional de
conspiradores nômades e sem raízes, que encontraram sua representação nos judeus.
Disponível em: <https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/film/goebbels-claims-jews-will-destroy-culture>. Acesso em: 30 ago. 2019.

O apoio social ao fascismo e ao nazismo


Na década de 1940, especialistas da área de Ciências Humanas criaram o conceito de totali-
tarismo para definir regimes autoritários, como o fascismo e o nazismo, em que o Estado buscava
controlar ao máximo a sociedade. De acordo com essa teoria, nesses regimes políticos as sociedades
são manipuladas pela propaganda, além de serem altamente reprimidas pelo Estado, ou seja, não
têm escolha nem atuação nas decisões políticas, pois estão submetidas a um regime autoritário.
Essa perspectiva foi utilizada nas décadas seguintes para analisar outros regimes políticos que pra-
ticaram métodos semelhantes aos do fascismo e do nazismo. Consequentemente, muitas análises
históricas adotaram a ideia de que as sociedades tiveram pouca ou nenhuma participação nos
chamados regimes totalitários.
No entanto, estudos mais recentes têm questionado o uso do conceito de totalitarismo porque,
cada vez mais, os historiadores procuram analisar o papel das sociedades em regimes autoritários.
Essa perspectiva não nega o uso da propaganda e da violência como formas de controle social, porém
tenta compreender até que ponto as sociedades aceitaram essas práticas por meio da formação de
um consenso e consentimento.
Desse modo, tanto o fascismo quanto o nazismo atenderam aos anseios de grandes parcelas
sociais ao promover práticas que correspondiam aos interesses materiais e simbólicos das socie-
dades italiana e alemã na década de 1920, como a garantia de emprego e a valorização da nação.
Com base nesse acordo, a maioria das

Album/Fotoarena
pessoas nessas sociedades não questio-
nou as atrocidades praticadas pelos regi-
mes fascista e nazista e, em muitos casos,
apoiou a perseguição e a repressão aos
grupos sociais e políticos que eram vistos
como indesejáveis. Por isso, ao procurar
compreender regimes como o fascismo
e o nazismo, é necessário atentar para o
uso do conceito de totalitarismo, porque
ele apresenta limites e dificuldades para
a análise histórica, sobretudo porque não
destaca o papel das sociedades em regi-
mes autoritários.
HIST”RIA M”DULO 7

Cena do documentário O triunfo da vontade, de 1935,


dirigido por Leni Riefenstahl, sobre o congresso do NSDAP
de 1933 em Nuremberg, Alemanha. A participação da
sociedade no congresso chama a atenção para a aceitação
das práticas do nazismo.

255
A propaganda e a educação nos regimes autoritários
Apesar de fazerem uso de métodos violentos, os regimes fascistas conseguiram estabelecer um
consenso com grandes parcelas da população, que concordaram, muitas vezes, com essas ações.
A violência do Estado não era dirigida a toda a população, mas a grupos específicos, considerados
“inimigos” da nação por terem ideias, comportamentos ou origens étnicas diferentes da maioria. Por
essa razão, o fascismo e o nazismo obtiveram grande apoio social.
A propaganda foi empregada amplamente nesses regimes autoritários, pois tinha múltiplas
funções: além de promover os ideais do fascismo e do nazismo entre a população, censurava
notícias e ideias contrárias ao projeto ideológico defendido pelo governo. A propaganda também
servia para divulgar as ações governamentais.
Os principais métodos utilizados pela propaganda eram
Reprodução/Biblioteca Di Vittorio di Bergamo, Itália

Peter Newark Historical Pictures/Bridgeman Images/Easypix Brasil/Coleção particular

cartazes com imagens e mensagens de efeito, fotografias ofi-


ciais de eventos considerados importantes, notícias de jornais,
cartilhas que eram distribuídas nas escolas e filmes produzidos
por diretores contratados pelo Estado. Havia, portanto, uma
máquina de propaganda patrocinada pelo Estado, que difundia,
diariamente, o fascismo e o nazismo para a população.
Assim como no fascismo, as crianças e os jovens ocu-
pavam um papel de destaque na propaganda nazista, pois
eram considerados os grupos que garantiriam a manutenção
das ideias no futuro, além de serem categorias sociais em
formação, pois o caráter e o comportamento poderiam ser
mais facilmente moldados de acordo com os interesses do
regime.
À esquerda, página de
um livro didático italiano
de 1935: na ilustração
SITUAÇÃO-PROBLEMA
uma criança no colo de
Mussolini faz a saudação O nazismo era um movimento de esquerda ou de direita?
fascista; no texto no topo
da página, lê-se: “Benito #SalaSocial: Polarização da discussão política cria confusão sobre origens de movimentos nacionalistas
Mussolini ama muito as
crianças. As crianças
e fascistas na Europa.
italianas amam muito o
“Cara, cai na real! Ser de esquerda é ser a favor de milhares de mortes causadas pelo c