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Texto & Contexto Enferm., Florianópolis, v.10, n.1, p.32-49, jan./abr. 2001.

LEOPARDI, M.T.; GLEBCKE, F. L.; RAMOS, F. R. S.

CUIDADO: OBJETO DE TRABALHO OU OBJETO


EPISTEMOLÓGICO DA ENFERMAGEM?

Maria Tereza Leopardi1


Francine Lima Gelbcke2
Flávia Regina Souza Ramos3
RESUMO
Este artigo trata de uma introdução ao debate sobre o cuidado como objeto epistemológico
da enfermagem. Articula este conteúdo com características do processo de trabalho da
enfermagem, no sentido de diferenciar o objeto de trabalho e objeto epistemológico.

PALAVRAS CHAVE: objeto de trabalho; objeto epistemológico; cuidado terapêutico.

ABRINDO O DEBATE
Muito se tem falado sobre cuidado, essência do trabalho da enfermagem para alguns,
objeto de trabalho para outros, mas, sem dúvida, sempre como característica básica da profissão.
Estas interpretações variam, de acordo com o referencial teórico adotado, e nos levam a
questionar o real significado do cuidado e como esta ação está implicada com as necessidades
humanas.
A primeira noção fundamental é que cuidar traduz uma ação de tratar alguém, atender
alguém, e cuidado é o tratamento e a atenção dispensada. Este alguém será o recebedor do
cuidado, em qualquer de suas dimensões, seja física, psicológica, espiritual.

REFLEXÃO
Na teoria sobre o trabalho, em Marx (1984) o objeto de trabalho é aquilo sobre o que se
realiza uma ação, que, sendo modificado neste processo, se torna diferente do que era,
transformação esta projetada pelo trabalhador. Em outras palavras, ao olhar para seu
mundo próximo, um ser humano encontra na natureza, ou já manufaturado, alguma coisa que
tem possibilidade de satisfazer alguma necessidade do momento ou futura. Em termos de
produtos materiais esta constatação é relativamente simples, porém, quando as necessidades são
supridas por coisas imateriais, tais como amor, cuidado, atenção, interação, bem-estar, todo o
processo parece mais complexo, como é o caso do trabalho da enfermagem.
O objeto sobre o qual os profissionais de enfermagem se debruçam para executar seu
trabalho (e de algum modo imprimir alguma transformação) não é um objeto comum, que o
próprio trabalhador procura. A assistência à saúde, de um modo geral, é um serviço, em que o
trabalho não se concretiza em coisas materiais, como seu produto, mas em mudanças que
resultam em bem-estar e saúde, os quais, embora concretos e evidentes ao olhar observador, são
experimentados pela própria pessoa que vai em busca desta assistência e cuidado. Ë nela que se
realizam as transformações, ou seja, passa de alguém com corpo, mente, espírito, sofrido e
doente, a alguém com um corpo, mente e espírito menos sofrido. Então, é esta pessoa o “objeto”
transformado e é pelo ato do cuidado que isto ocorre, no caso do trabalho da enfermagem.

1 Professora Titular aposentada pela UFSC (professora voluntária do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da
UFSC) e professora visitante da Universidade Franciscana de Santa Maria, membro do Grupo Práxis.
2 Professora Assistente IV da UFSC e discente do Curso de Doutorado em Enfermagem da UFSC, membro do Grupo

Práxis.
3 Professora Adjunta da UFSC, diretora de Assuntos Profissionais da ABEn- Nacional e Coordenadora do Grupo

Práxis.
Mas, um dos elementos de maior discussão na enfermagem atualmente é a amplitude
deste cuidado. Assim, para buscar uma sustentação filosófica ao entendimento do que seja
cuidado, que encontramos na visão judaica do início da era cristã, na sabedoria dos Terapeutas,
descritos por Filón de Alexandria, um referencial que agrega corpo/mente, já apresentado
anteriormente por Leopardi (1998).
Os Terapeutas consideram o ser humano como uma totalidade corpo/alma/espírito,
sendo a condição humana desvelada em quatro dimensões: a corporal (basar, soma); a alma,
enquanto dimensão psíquica (nephesh); a consciência, a dimensão noética da psique em busca
da paz (nous) e a dimensão espiritual (rouah, pneuma). Para os Terapeutas, a saúde plena
compreende todas estas dimensões (Crema, 1998).
“Para o Terapeuta, o corpo não pode ser visto somente como um objeto, uma coisa ou
uma máquina funcionando com defeito, que seria mister „consertar‟.
Não; o corpo é um corpo „animado‟. Não há corpo sem alma; um corpo sem alma, não
sendo mais „animado‟, não merece o nome de corpo, mas de cadáver” (Leloup, 1998, p. 70).
Desta forma, o Terapeuta deve estar atento aos “nós” da alma, que impedem a vida e a
inteligência do ser humano, para tornar pleno e saudável.
Muito do que foi abordado por Filón, ao destacar a atuação dos Terapeutas de
Alexandria, e principalmente sua concepção de ser humano, é também encontrado na concepção
marxista de homem, embora nesta visão, a perspectiva seja a construção de um ser humano
concreto, vivente e socialmente justiçado.
Marx aborda o ser humano enquanto natural, único, social, individual, histórico, com
corpo e mente integrados, sendo esta concepção encontrada principalmente em: Manuscritos
Econômicos e Filosóficos (Marx, 1975), Ideologia Alemã(Marx & Engels, 1981) e O Capital
(Marx,1984). Esta concepção vem auxiliar a nossa reflexão acerca do objeto de trabalho da
enfermagem, pois traduz uma visão integral do homem.
De forma sintética, podemos descrever o ser humano na concepção marxista, como
natural, por viver da natureza e transformá-la, mantendo com ela uma relação de
interdependência, pois é parte dela. É social e humano, por estar em relação com outros seres
humanos, tanto que Marx nos diz que “a significação humana da natureza só existe para o
homem social, porque só neste caso a natureza é um laço com outros homens, a base de sua
existência para outros e da existência destes para ele” (Marx, 1975, p. 118). Mas mesmo sendo
um ser social, é único, particularidade que o torna individual, um ser que vive em sociedade,
mas mantém sua identidade como pessoa. É também histórico, pois sua própria consciência,
natureza e conduta são determinantes de sua história, o que para Marx implica na necessidade
de ter condições de viver para fazer a sua história (Marx & Engels, 1981).
Ao abordar a necessidade de viver para construir a história, suprindo necessidades
físicas, mas também construindo e transformando a história, Marx alia corpo e mente,
principalmente ao tratar da consciência e alienação. Tanto quanto para os Terapeutas, também
para Marx o processo de alienação afasta o ser humano de sua liberdade, de sua vida, do
conhecimento de si e dos outros, decorrente principalmente do processo de produção, do
trabalho não livre, quando o trabalho não é a satisfação de uma necessidade, mas um meio de
satisfazer outras necessidades. Se o trabalho é algo externo ao trabalhador, passa a não fazer
parte de sua natureza, de modo que ele não encontra realização nele, negando-se a si mesmo,
alienando-se.
A partir do entendimento de ser humano da concepção marxista, e do significado de
cuidado para os Terapeutas, discutiremos o nosso entendimento sobre o que caracteriza o objeto
de trabalho e o objeto epistemológico para a enfermagem.
O OBJETO DE TRABALHO DA ENFERMAGEM
O trabalho da enfermagem tem sua conformação atual como resultado de um processo
histórico, que incorpora elementos da evolução geral do trabalho na sociedade capitalista e
especificidades da área de saúde. Não sendo objetivo deste texto, porém, analizar o trabalho
desde esta perspectiva histórico-social, optamos por uma reflexão sobre seus aspectos
filosóficos, para promover uma discussão sobre a profissão no campo científico.
Todavia, podemos estabelecer, como elementos determinantes do próprio processo de
análise, algumas de suas características neste campo social, ou seja, a enfermagem é um
trabalho complexo, combinando três ações básicas não dissociadas, ou seja, a educação em
saúde, o cuidado e a gerência dos sistemas de enfermagem, já posto à reflexão no 410 CEBEn
(Castellanos et al., 1990, p.151).

Além desta complexidade, este se situa no contexto do setor saúde, sendo, portanto, um
trabalho coletivo, agregado ao trabalho dos demais profissionais da saúde. Desta forma, em seu
conjunto, estes trabalhos da enfermagem não respondem por toda a assistência prestada às
pessoas, no setor saúde.
A explicação para esta característica é a própria estrutura do processo assistencial que
congrega diferentes trabalhadores, diferentes instrumentos, diferentes finalidades específicas,
sem que necessariamente tenham diferentes objetos. Melhor dito, a busca de saúde e bem-estar
reflete necessidades de pessoas que procuram num sistema determinado a resolução de seus
problemas concretos ou potenciais, problemas estes que podemos denominar de necessidades.
Estas pessoas, com seu corpo, sua consciencia e suas relações são os objetos finais das ações
dos profissionais de saúde, (Leopardi et al., 1990).
Estas necessidades básicas, quando não satisfeitas adequadamente, no dizer de Doyal &
Gough apud Pereira (2000), implicam na ocorrência de sérios prejuízos à vida material dos
homens e sua atuação como sujeitos. Estes autores consideram que estas necessidades englobam
a saúde física e a autonomia, sobre as quais a enfermagem atuará em seu processo de trabalho,
uma vez que sua práxis não se dirija para o corpo enquanto natureza, mas para uma pessoa
humana, considerando sua vida subjetiva e social.
Ao nos determos a olhar o trabalho na enfermagem, como já expresso, podemos ver três
trabalhos, que se consolidam num serviço destinado a prover os meios e as técnicas para o
“cuidado e o auto-cuidado”, reconhecidamente ações que indicam a identidade da enfermagem.
Ao dizermos que temos três trabalhos, que se orientam para uma mesma finalidade, o
atendimento às necessidades das pessoas, através da ação de cuidar, não queremos dizer que tais
trabalhos têm a mesma composição em termos de processo, já que tem objetos e instrumentos
diferenciados para sua execução, assim como finalidades específicas (Castellanos et al., 1990,
p.154). Em outras palavras, temos um processo de trabalho geral, que compreende todas as
ações da enfermagem na produção de assistência, embora operem, efetivamente, de três
diferentes formas: cuidar, educar, gerenciar.
Esta diferenciação determina-se a partir do modo próprio como o trabalhador apreende
seu objeto (aquilo que efetivamente se transforma com o trabalho), escolhe instrumentos e
métodos de atuação adequados às especificidades da dimensão a ser trabalhada.
Esta questão merece análise e a formulação de teorias sobre seus conteúdos específicos,
de forma que esperamos contribuir, de forma sintética, com este debate, a partir da apresentação
de alguns elementos básicos destes três diferentes trabalhos.
Processo de trabalho “cuidar”- este é o trabalho identificador da profissão, uma vez
que se realiza a partir de necessidades de saúde concretas ou potenciais, caracterizado pela
sua especialização profissional, como conseqüência analítica da ciência, pela capacidade de
formulação de problemas, pela sua comunicabilidade como objeto epistemológico,
preditibilidade na intervenção de cuidado terapêutico, por ter técnica e arte em sua realização.
Aqui a atuação da enfermagem tem como finalidade atender as necessidades
relacionadas à manutenção da saúde como condição de sua natureza como ser vivo. Os seres
humanos, porém, diferentemente dos animais, requerem, para satisfazê-las, de provisões de
conteúdo humano-social (interação, acolhimento, apoio, compreensão, e assim por diante) e não
apenas material, ainda que o cuidado realizado tenha como objeto o corpo da pessoa, concreta
manifestação de sua sociabilidade e natureza, produzindo transformações imediatas (limpeza de
feridas, p.e.) e mediatas (favorecimento da cura).
Quando falamos de corpo, remetemo-nos primeiramente ao “corpo apreendido”, nunca
puro ou essencial, mas possuído, transformado e produzido como verdade fora de si mesmo,
produzido como objeto de conhecimento e intervenção, e não mais vivido e experimentado
como realidade intensa e complexa. Corpo apreendido, segundo certos modelos próprios de
compreensão e de certas pautas e padrões de normalidade e discrepância, em que, apesar das
variações entre os modelos, a doença se colocou como invariante decisivo e central de toda
busca de saber e intervenção, tanto no nível individual ou coletivo; da célula ao social, em
abstrações do “corpo real”, que nunca conseguiram ser radicalmente diferentes do “corpo
doente” (Ramos, 1998).
Esta objetivação do corpo real, tirado do obscuro e misterioso universo do vivido e
trazido à luz e visibilidade do pensamento científico fica, portanto, passível de ser destrinchado
e especulado, tornado patrimônio do saber biomédico e, por conta do modelo médico-
curativista, sempre separado de sua “alma”. A ruptura moderna do individualismo, marcando a
fronteira de um indivíduo e outro, marca também a ruptura com o pertencimento coletivo, onde
o sujeito é seu corpo, em relação com os demais e com a natureza. Esta participação com a
totalidade do mundo vivente é substituída pela atomização do sujeito, cristalizado em torno do
eu individual, estruturante do sentido da vida.
As transformações das concepções sobre o corpo e seus usos - corpo integrado a uma
cosmogonia, corpo sacralizado, corpo individualizado e anatomizado, corpo máquina –
reafirmam a noção antropológica, como a apresentada por Le Breton (1995), de corpo como
construção simbólica, que antes de ser realidade em si mesmo é realidade produzida social e
culturalmente.
Talvez a importância desta discussão sobre o corpo como objeto mais concreto do
cuidado se faça por esta constatação histórica: as ciências e práticas de saúde se edificaram
exatamente a partir desta possibilidade de exploração do corpo. Desta falta de “unidade” sobre o
corpo, amplificado em sua complexidade por diversas e controversas formas de apreensão, a
enfermagem ainda hoje se situa num campo de dificuldades epistemológicas, éticas e
técnicas. Como formar um conhecimento relativamente unitário e integrador sobre um corpo tão
múltiplo (porque não apenas biológico, mas vivido, consciente)? Ou seja, como trabalhar sobre
um corpo que não se quer ver partido, mas inteiro e humano, quando ele só parece se tornar
objeto viável de saber e intervenção, quando se mostra “corpo habitado pela doença”. Talvez,
neste camino de busca do “corpo inteiro e real”, possamos iniciar, não negando o corpo doente
ou tentando superá-lo, mas compreendendo-o, principalmente em sua vulnerabilidade ante
nosso saber e nossas instituições assistenciais, numa aguda consciência deste poder e da
possibilidade de um cuidado terapêutico e, ao mesmo tempo, ético. (Ramos, 1998)
Estas considerações fazem-nos retomar um dado fundamental, ou seja, que este “corpo
possuído”, pelo espírito, mas também pela doença, é um objeto sui generis, pois, ao contrário
dos objetos no sistema de produção material, ele não se transforma em um produto separado do
trabalho ao final do processo de trabalho, mas agrega, ao mesmo tempo, sua condição de
consumidor, objeto e produto. Como objeto, além de tudo, pode ter consciência de que se expõe
à manipulação do trabalhador e consome o trabalho, durante o próprio processo. Assim, o
cuidado, é de fato uma ação com finalidade de transformar um estado percebido de desconforto
ou dor em um outro estado de mais conforto e menos dor, portanto tem uma perspectiva
terapéutica sobre um objeto animado, que tem uma natureza física e social.
Processo de trabalho “gerenciar” - é o trabalho preferencialmente proposto para o
profissional enfermeiro no sistema de saúde, caracterizado por ter uma finalidade genérica
de organizar o espaço terapêutico, desenvolvendo condições para a realização do cuidado, e
uma finalidade específica de distribuição e controle do trabalho da equipe de enfermagem. Seu
objeto é a organização em si, produzindo uma combinação de condições para a assistência
multi-profissional e a realização do cuidado terapêutico. Além da organização da assistência, o
enfermeiro atua também sobre a equipe de enfermagem, no sentido da
educação continuada, sendo este outro objeto de trabalho no processo “gerenciar”.
No discurso informal dos enfermeiros, é comum que se refiram a este processo como
cuidado indireto, figura semântica, analógica, para dizer, na verdade, que com este trabalho se
produzem condições para a realização do cuidado “direto”. Há, inclusive, proposições para que
este trabalho possa ser considerado “cuidando do cuidado”, uma metáfora para indicar que o
trabalhador se envolve numa ação para depois produzir o cuidado.
Desta forma, a finalidade deste trabalho é a organização do processo cuidar, tanto em
nível individual, quanto coletivo e, para tanto, o enfermeiro realiza o gerenciamento do espaço,
dos tempos e das pessoas (força de trabalho – equipe de enfermagem e de saúde), cumprindo,
assim, uma dupla determinação, ao organizar o trabalho próprio da enfermagem (cuidar), bem
como quando atua como suporte para o trabalho de outros profissionais da saúde.
De acordo com Capella (1998, p. 129), “a enfermagem organiza a assistência para si,
atua nos corpos e consciências individuais, ao mesmo tempo que organiza o local de trabalho
onde o sujeito hospitalizado está, além de preparar corpos e consciencias individuais para a
intervenção de outras categorias profissionais”.
Salienta, ainda, Capella (1998), que ao organizar tempos, movimentos e objetos, deve a
enfermagem levar em conta as necessidades do sujeito que procura os serviços de saúde,
visando atender as suas demandas nas mais variadas dimensões, buscando, desta forma,
inclusive, possibilitar a sua autonomia, ou seja, ao organizar a assistência, a enfermagem dever
privilegiar o objeto do cuidado – o indivíduo que será cuidado, e não as imposições da
instituição.
Vale salientar ainda a educação continuada, na qual o foco da ação (objeto) é a equipe
de enfermagem, como colocamos anteriormente. Aqui, a ação também se revela como uma
forma de preparação do cuidado, buscando-se uma maior qualidade assistencial, através da
atualização constante da equipe de enfermagem, a qual não deve incidir apenas sobre o
aperfeiçoamento técnico, mas possibilitar ao sujeito trabalhador também resgatar sua
autonomia, sua cidadania, sua capacidade de responder sobre seus atos, bem como resgatar sua
multidimensionalidade, o que seria fundamento para sua desalienação, tornando-se não estranho
aos seus atos, mas seu autor.
Processo de trabalho “educar” - é o trabalho realizado tendo em conta um objeto não
manipulável sempre, embora possa ser conduzido a acreditar que as determinações terapêuticas
sejam as melhores em seu caso. Educar é um processo de trabalho dirigido para a transformação
da consciência individual e coletiva de saúde, de modo a que as pessoas possam fazer escolhas.
É o que Doyal e Gough apud Pereira (2000) denominam de autonomia, que constitui,
juntamente com a saúde física, as necessidades básicas objetivas e universais. Para estes autores
“ter autonomia não é só ser livre para agir como bem se entender, mas, acima de tudo, é ser
capaz de eleger objetivos e crenças, valorá-los e sentir-seresponsável por suas decisões e por
seus atos” (Doyal & Gough, apud Pereira, 2000, p. 71), o que vem ao encontro do conceito de
cidadania adotado pelo Grupo Práxis4 , ou seja, de que “cidadania se define pela existência de
um indivíduo que compartilha intereses coletivos e trabalha no sentido de sua consolidação,
para romper com a relação de anomia, quando expressar sua identidade particular não o coloca
nem acima, nem abaixo, da identidade dos outros, supondo-se que o livre desenvolvimento de
cada um é condição para a convivência e desenvolvimento de todos” (Leopardi et el.,1995).
Marx já salientava a importância da consciência da liberdade como parte da natureza
humana, a qual não poderia ser limitada à dimensão biológica ou mesmo econômica e material.
Isto porque, da essência humana constam, além da sobrevivência (saúde física/ biológica),
também qualidades como “o trabalho (objetivação), a sociabilidade, a universalidade, a
autoconsciência e a liberdade.
Estas qualidades essenciais já estão dadas na própria hominização, enquanto meras
possibilidades; tornam-se realidade no proceso indefinido da evolução humana” (Heller, 1985,
p.78).
O processo de educar é diferenciado, pois lida com crenças, hábitos e valores, além de
conhecimento, todos conceitos abstratos, não identificáveis senão pela expressão da pessoa que
os carrega.
Assim, a comunicação se torna uma ferramenta extremamente importante, inclusive
determinando a diferença entre manipulação e ensino, e entre relações mais ou menos simétricas
entre os sujeitos.
Ramos (1999) elabora uma critica sobre o modo como a “consciência” foi tomada como
objeto de ações educativas em saúde, como um desvio ou atalho para se alcançar o corpo, a
doença, o sintoma, ou o mau hábito e o comportamento desfavorável à saúde.
4Práxis – núcleo de estudos sobre o trabalho, saúde e cidadania, do Programa de
Pós-graduação em Enfermagem da UFSC.
Deste modo, a finalidade continuou contida no corpo e o objeto não se diferenciou dele,
apenas dotou-o de uma mente e de pensamentos manipuláveis. Por esta via, são evidentes os
riscos de práticas manipuladoras, autoritárias, limitantes e não autonomizantes, portanto, não
verdadeiramente educativas.
Opondo-se a este tipo de prática, propõe a práxis como objeto e finalidade do processo
de trabalho “educar”, compreendendo praxis como ação humana concreta e transformadora,
articulação da ação e reflexão, ou seja, atividade teórico-prática, consciente e objetivante, que se
dirige, pela ação educativa, para níveis cada vez mais críticos e criativos.
Assim, temos que considerar estes três processos particulares de trabalho, executados
sobre diferentes objetos, com finalidades específicas diferentes e finalidade genérica igual, que
se realiza como “processo de trabalho da enfermagem”.
O OBJETO EPISTEMOLÓGICO DA ENFERMAGEM
Temos aqui como premissa a necessidade de focalizar o cuidado sob outro ponto de
vista, correspondente aos criterios científicos para a definição de uma profissão, ou seja, dentre
os quais a definição clara de seu objeto de estudo, ou epistemológico.
Tendo em vista a complexidade do processo de trabalho da enfermagem, bem como a
complexidade que envolve o ser humano, é difícil apontar-se um objeto epistemológico da
enfermagem, porém tem sido uma necessidade fundamental para a consolidação da enfermagem
como profissão, o que não seria, necessariamente, um corte em relação à reflexão sobre o objeto
de trabalho, uma vez que aqui a intenção reflexiva abrange outro campo de análise.
Numa tentativa de abrir um debate, podemos iniciar dizendo que entendemos ser o
cuidado do ser humano, em sua complexidade, o objeto epistemológico da enfermagem. Uma
das evidências para esta afirmação ser considerada admissível é de que a produção do
conhecimento se dá sobre o cuidado, cuidado do corpo, mas também “de um corpo que vive de
modo inteiro” ou é vivido como inteiro, pessoa e experiência inteira, independente de quantas
partes foi dividido pelos saberes e práticas que sobre ele se voltam. O que vale dizer é que esta
tentativa funciona como ponto de busca de inteireza ou compreensão deste corpo, além dos
limites meramente físicos ou biológicos. E aqui resgatamos Leloup e os Terapeutas de
Alexandria, para pensarmos um pouco neste complexo que é o ser humano, nesta conjunção
corpo/mente e na própria atuação do cuidador, a partir do que ele precisa saber sobre o cuidado,
para que se torne eficiente e eficaz em seu ato de cuidar. Conhecer o cuidado, sua natureza e seu
domínio, tem sido o foco epistemológico da profissão, em sua auto-construção como disciplina
diferenciada da prática médica.
Os Terapeutas de Alexandria cuidavam do corpo do ser humano, mas também da alma e
da ética, sendo que este cuidado ético “pode fazer dele um ser feliz, „são‟ e simples (não dois,
não dividido em si mesmo), isto é, um sábio” (Leloup, 1998, p. 25), atuando como coadjuvante
junto à pessoa que precisa de cuidado e, ao sinalizar para a necessidade de auto-cuidar-se, atua
em sua própria cura.
Os Terapeutas, para Filón, são filósofos, não se limitando apenas a especular sobre a
sabedoria, o conhecimento, mas acima de tudo para empreender um processo de auto-
transformação, da mesma forma que o ser humano, na concepção marxista, é um ser em
transformação (Leloup, 1998, p. 25).
Vimos, anteriormente, que o ser humano é o objeto de trabalho da enfermagem, tanto no
processo de trabalho cuidar, quanto no educar. Que o cuidado, no nosso entender, deve ainda
resgatar os princípios colocados pelos Terapeutas de Alexandria, em que se rompe com as
usuais fragmentações corpo/mente, normal/patológico e com o privilegiamento do corpo como
local do pecado, da doença e, portanto do tratamento, mas que propõe um cuidado mais
integrador, humanizado e propiciador da cura e da vida mais plena, portanto “cuidado
terapêutico”.
Assim, o cuidado não pode ser entendido como objeto de trabalho, mas pode ser o
objeto epistemológico da enfermagem, sobre o qual desenvolvemos o conhecimento. Ressalte-
se que, enquanto objeto epistemológico, todo o desenvolvimento teórico e tecnológico sobre o
cuidar deve privilegiar a lógica da necessidade da clientela, e não apenas a lógica institucional.
Ao cuidar, muitas vezes, reproduzimos somente o que é definido institucionalmente,
porém, há que se ressaltar o papel da enfermagem na reflexão sobre o cuidado, visando a
mediação das relações humanas entre a lógica externa e interna da profissão (cuidado
institucionalizado versus reais necessidades da população – manifestas ou não).
Para Bunge (1985), um campo de conhecimento caracteriza “um setor da atividade
humana dirigido a obter, difundir ou utilizar conhecimento de algum tipo, seja verdadeiro ou
falso”, tendo características, tais como as aventadas abaixo e adaptadas à enfermagem,
constituindo-se em regras epistemológicas para e existência de um campo disciplinar.
- Comunidade de sujeitos que cultivam o campo – profissionais de enfermagem;
- Domínio ou universo do discurso – objetos de estudo, que no caso da enfermagem é
o cuidado humano, e implicados com ele, o ensino da saúde e a gerência de serviços de saúde;
- Concepção geral – como filosofia inerente ao objeto de estudo (ou ao cuidado);
- Fundo formal – conjunto de instrumentos lógicos ou materiais, utilizado para
produzir o campo cientificamente e tecnicamente (procedimentos e técnicas de enfermagem
para a execução do cuidado);
- Fundo específico – conjunto de premissas que o campo específico toma de outros
campos e o interpreta e utiliza de acordó com sua concepção ou conhecimento próprio
produzido (teorías biológicas, químicas, físicas, sociais, etc. e teorias sobre o cuidado);
- Problemática própria – ou conjunto de problemas abordáveis em seu campo
(necessidades de saúde e bem-estar);
- Objetivos – metas ou finalidade a serem atingidas com ações específicas (bem-estar e
saúde através do cuidado terapêutico);
- Metodologia – conjunto de métodos próprios utilizáveis nas situações específicas de
enfermagem (a partir de teorias de enfermagem).
A partir da análise da enfermagem em relação a estas características de um campo de
conhecimento, ou epistêmico, de acordo com Bachelard (1971), é “indispensável examinar
setores particulares da experiência científica e procurar em que condições esses setores recebem
não somente uma autonomia, mas também uma autopolêmica, ou seja, um valor de crítica sobre
as experiências antigas e um valor de ação sobre as experiências novas”. De toda maneira, as
“regiões epistemológicas”, para ele, são determinadas pela reflexão, não podendo ser afetadas
pelo subjetivismo, ainda que definidas pelo interesse de sujeitos sobre um campo, e sua
persistência nele.
Não podemos desconhecer, também, que em torno desta polêmica posição ou
significado do cuidado para a enfermagem, têm se afirmado diferentes modos de conceber,
alguns destes apresentando-se em teorias do cuidado que, ao mesmo tempo em que representam
o necessário desenvolvimento de uma problemática própria da profissão, estimulam o
imprescindível aprofundamento crítico.
Assim é, que podemos concordar com Meyer (2000), ao apontar a urgência de
refletirmos sobre o modo ou o próprio processo de produção das concepções e discursos hoje
apresentados sobre a enfermagem e o cuidado, além de não perdermos de vista o movimento da
enfermagem nas conflitantes relações de subordinação e insubordinação à ciência e às práticas
dominantes na área da saúde. Estes movimentos até podem atribuir a si um papel de distinção
ou diferenciação no saber e prática da enfermagem, porém não podemos deixar de reconhecer a
necessidade de retomada de certos pressupostos destas teorias, que acabam sendo tomados
como verdades a priori, sem que osefeitos e o poder vinculados a tais verdades sejam
questionados, inclusive o poder de produzir identidades profissionais.
A autora delimita alguns destes pressupostos, como o que estabelece uma relação
unívoca, naturalizada e, portanto, essencializada, entre enfermagem, mulher e cuidado
(legitimando “essências” de mulher, cuidado e enfermagem) ou o atributo feminino da
enfermagem como argumento para um modo diverso da enfermagem conhecer, ou seja,
produzir conhecimento. Se devemos ampliar nosso conhecimento sobre o cuidado, posto que é
ação fundamental de nosso trabalho e objeto de nossa escuta e olhar, devemos buscar a
superação das noções parciais, contingentes, arbitrárias sobre o mesmo, negando-o como ação
política e neutralizando-o no projeto político profissional, que tão árdua e comprometidamente
vem sendo defendido e elaborado no desenvolvimento histórico da profissão.
Assim, a enfermagem, ao aderir a um objeto tal como o cuidado terapêutico como seu
objeto científico ou epistemológico, o assimila como valor (exatamente por seu conteúdo ético e
estético), como um bem necessário às pessoas, tornando-se um programa de estudo para o
conjunto dos sujeitos que o produzem.
Evidencia-se como a problemática constituída, de acordo com Bachelard(1971), cujas
respostas serão necesariamente produzidas de acordo com premissas específicas, mesmo que
não sejam exclusivas da enfermagem.
O cuidado, neste caso, vem sendo abordado como a ação básica para a resolução da
problemática constituída (carencias humanas de saúde, mal-estar ou sofrimento, por exemplo),
como objeto epistemológico, mas aparece como inacabado, uma objetivação que não se
completou, daí tornar-se objeto de estudo.
Torna-se o objeto a ser conhecido, decifrado, objetivado, reclamando, como bem o diz o
autor, “uma solidariedade entre método e experiência” (Bachelard, 1971), o que nos incentiva a
buscar também uma solidariedade entre o que é do sujeito particular e o que é de sua
sociabilidade, numa síntese que estamos chamando de “cuidado integral” à pessoa como um
todo.
Assim é que a ação de enfermagem propriamente dita é o nosso objeto de estudo, seja
em sua construção a priori, como conhecimento, seja em sua materialização, como técnica, seja
ainda em sua complexidade, como ato humano sobre “um objeto de trabalho humano”. Nosso
objeto epistemológico é, pois, uma ação (cuidar), não o seu produto, pois que estamos
comprometidos com o processo de produzi-lo até suas conseqüências e não somente com o
resultado. O cuidar começa, se desenvolve e termina na e com a pessoa, que se torna
momentaneamente objeto desta ação, mas também a transcende, para assegurar sua ampliação à
coletividade. É para pessoas e em pessoas que trabalhamos (nosso objeto de trabalho
privilegiado), e, para isto, esta ação deve ser plenamente conhecida, desde suas razões morais e
sociais até suas resultantes objetivas em termos terapêuticos, ou seja, em suaepistemologia.
Como profissão, a enfermagem pode e deve comprometerse com a elucidação de
aspectos inaparentes ou essenciais desta ação, de modo a tornar-se cada vez mais como uma
região epistemológica no conjunto da ciência, mas também pode e debe propor-se a afirmar a
complexidade da vida, sem deformá-la, superando a fragmentação imposta pela ciência,
produzindo conhecimentos e técnicas mais integradas e mais próximas desta visão de totalidade,
sem perda da identidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BACHELARD, G. A epistemologia. Rio de Janeiro: Edições 70, 1971.
BUNGE, M. Seudociencia e ideología. Madri: Alianza Editorial, 1985.
CAPELLA, B. B. Uma abordagem sócio-humanista para um “modo de fazer” o trabalho de
enfermagem. Pelotas: Ed. Universitária/UFPEL; Florianópolis: Programa de Pós-Graduação em
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