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A NOÇÃO DE PARTILHA

Rancière e os laços entre politica


e estética
Michelly Alves Teixeira

ISSN 2526-818X
CRÍTICA DO SENSO COMUM MILI-
TANTE
Contra o irrefletido identitarismo

1
VOLUME 1, N.1 Thiago Martins
Maio A OUTUBRO2017

www.revistacampoaberto.com.br

A DISCRETA DESILUSÃO DA BURGUESIA


Notas sobre o filme Aquarius
Alysson Oliveira
SOBRE
A BOMBA ATÔMICA
Luiz Ben Hassanal Machado da Silva

A VOZ DO CONTEMPORÂNEO
sociabilidade e política sob uma
leitura benjaminiana das particula-
ridades
Gilberto Tedeia

A CONTINUIDADE DA INVARIÂNCIA:
A crítica como persistência da modernidade
e a pós-modernidade como ideologia
Carine Gomes Cardin Laser
Pós-apocalipse ou para que uma
revista? SUMÁRIO
Reflexões acerca do tempo presente
p.3-4
D. Barros

A voz do contemporâneo
sociabilidade e política sob uma leitura
benjaminiana das particularidades
p.5-15
Gilberto Tedeia

Mais uma morte


Quando a vida vale
p.16-17
Renato Santiago

A continuidade da invariância
A crítica como persistência da modernidade
e a pós-modernidade como ideologia
p.18-25
Carine Gomes Cardin Laser

A discreta desilusão da burguesia Crítica do senso comum militante


Notas sobre o filme Aquarius contra o irrefletido identitarismo
p.26-28 p.37-40
Alysson Oliveira Thiago Martins

Sobre a bomba atômica A noção de partilha


p.29-36 Rancière e os laços entre estética e política
Luiz Ben Hassanal Machado da Silva p.41-49
Michelly Alves Teixeira

Três poemas de Langston Hughes Volteios do tempo brasileiro


p.50-51 p. 52-56
tradução de Lucas Bertolo Bruno Carvalho

N1
EDITORES RESPONSÁVEIS: Douglas
Rodrigues Barros e Jéssica Quirino

EDITOR VERSÃO IMPRESSA: Douglas


Rodrigues Barros

EDITORA VERSÃO DIGITAL: Jéssica


Quirino

CONSELHO EDITORIAL:

BRUNO CARVALHO RODRIGUES DE


FREITAS
COLABORADORES REVISTA CAMPO ABERTO NÚ-
BRUNO HENRIQUE DE SOUZA-SOARES MERO 1
DOUGLAS RODRIGUES BARROS
ALLYSON OLIVEIRA
GABRIEL RAMPONI é doutorando em Letras pela Universidade de São
Paulo (USP)
GILBERTO TEDEIA
BRUNO CARVALHO
JULIANA SIQUEIRA CAMPOS é doutorando em filosofia pela Universidade de São
Paulo (USP)
LEANDRO NASCIMENTO PEREIRA
CARINE GOMES CARDIN LASER
MICHELLY ALVES TEIXEIRA
é mestranda da faculdade de educação da Universi-
SILVIO ROSA FILHO dade de São Paulo (USP)

THIAGO CALHEIROS DOUGLAS RODRIGUES BARROS


é doutorando em filosofia pela Universidade Federal
THIAGO MARTINS de São Paulo

GILBERTO TEDEIA
é professor na Universidade de Brasilia (UnB)

LUCAS BERTOLO
é graduado em filosofia pela Universidade Federal de
São Paulo e tradutor

LUIZ BEN HASSANAL MACHADO DA SILVA


A Revista Campo Aberto é um publicação
semestral de estudantes e professores de é doutorando em filosofia pela Universidade Fe-
Filosofia deral de São Paulo

A Campo Aberto não se responsabiliza MICHELLY ALVES TEIXEIRA


pelas ideias e conceitos expressos nos é graduanda em filosofia pela Universidade de Brasí-
artigos assinados, estes não representam lia (UnB)
necessariamente a opinião da revista
RENATO SANTIAGO
REVISTA CAMPO ABERTO é bacharel em direito pela Universidade Federal de
e-mail: revistacampoaberto@gmail.com
Alagoas

THIAGO MARTINS
é graduando em filosofia pela Universidade Federal
ISSN: 2526-818X Número: 1 de São Paulo
Maio de 2017 VOLUME 1
Ilustração da capa: Cleiton Custódio
Pós-apocalipse ou para
que uma revista?
As revoluções são as locomotivas da história
(Marx)

EDITORIAL
A polícia arrasta uma mulher negra sente. Pensar em um outro mundo possível
pela via asfaltada; um jovem negro é con- é o modo mais conformista de não instituir
denado a onze anos de prisão pelo crime de novas formas de vida e sociabilidade. Por
portar um Pinho Sol; uma travesti é espan- tudo, percebemos que o Império ganhou a
cada e seus algozes sorridentes filmam sua gramatica de nossa revolta. A denúncia disso
agonia, garantindo o tenebroso espetáculo; é doravante pressuposto de toda a crítica.
policiais em Pernambuco abrem fogo contra Sendo assim, não nos cabe disputar
um jovem manifestante e o lançam em cima espaços de poder senão destituir todo sis-
de um carro após arrastá-lo pelas ruas en- tema de visibilidade imperante e de novo a
sanguentado. Como se vê, a barbárie é con- experimentação, a criação e o poder do ne-
dição de existência nos trópicos. Entretanto, gativo guiam nossa práxis teórica. De novo
enquanto isso ocorre diante de nossa costu- a democracia “realmente existente” é ques-
meira insensibilidade, há aqueles para quem tionada em nome de uma democracia direta,
tais acontecimentos são só o prenúncio de cuja ação direta, o enfrentamento sem me-
uma catástrofe ainda por vir. E aqui o poema diações, o escândalo de dizer o óbvio são as
de Bertolt Brecht ganha sentido “não sou ne- iconoclastias necessárias para instituir um
gro, não sou gay, não sou imigrante!”. novo corpo político. Um novo corpo imagi-
Acreditar que o pior está por vir é nário que vibra no martelo de um menino ao
uma forma tranquila de não ver a desgraça ser lançado contra um caixa eletrônico e nas
imperante. Lutar por um saudoso futuro no- letras gritadas pelos poetas que se multipli-
bre tornou-se a forma mais tranquila de se cam nas periferias da grande babilônia.
abster da transformação necessária ao pre- A “violência é a parteira de toda so-
s

3
ciedade velha que está prenhe de uma so- incandescência histórica nos entrega em
ciedade nova” já havia nos dito Karl Marx. mãos o privilégio de aumentar a legibilida-
Mas, nós, os cornudos de esquerda dos de teórico-crítica de nossa época. São sob
tristes trópicos, fomos alheados a partir do as linhas de fogo no Campo Aberto que atu-
sistema de representatividade criado por aremos em três barricadas: 1) um projeto de
um Estado policialesco que manteve um revista acadêmica que, no silêncio noturno
regime sanguinário por vinte anos. Alguns da meditação e paciência do conceito, não
intelectuais confirmaram a sentença da tem intuito de sobrepor à elaboração teórica
farsa e como Dick, o louco personagem de a prática, mas vê na própria teoria sua prá-
David Copperfield, enviavam sinais através xis e na forma artística sua realização; 2) A
de uma pipa lançada aos céus sem endereço elaboração da Ordem do Dia, espaço criado
certo. Mas nós ignoramos tais sinais até que para artigos de intervenção direta no deba-
tudo se acabou. Tudo ruiu e não há um ho- te público e nos temas candentes de nossa
rizonte crescente possível. O progresso fora época; 3) projeto audiovisual que se vale das
substituído pela gestão da crise. E o discur- formas do cinema como plano difuso para
so da crise tornou-se forma de contenção e organizar um imaginário, assim como um
manipulação programática. corpo político imaginário.
Destituir uma sociabilidade que ade- Esta tríade de atuação não é vã, mas
riu organicamente a causa do Império é reflete o praticismo irresponsável e o filis-
uma premissa urgente. Seu ponto de partida teísmo agourento que infelizmente grassou
é a identificação da alteração operada e a re- em grande parte da esquerda e que consti-
estruturação ofensiva do modo de produção tuiu seu dialeto padrão, reforçando a derro-
capitalista que sobreveio justamente quan- ta. Da putrefação de seu legado nada mais
do a modernização fracassava em todos os empesteia o ambiente do que a busca pela
sentidos. O toyotismo, o just-in-time, a au- afirmação de identidades que reforçam os
tomação, flexibilização, descentralização e nichos de mercado. Do mesmo modo, toda
precarização são alguns dos aspectos da vi- a profissão de fé e o culto ao trabalho se-
rada sistemática e da criação de uma psique guem uma cantinela dissonante em relação
que viveu entre o triunfalismo com o nada ao tempo presente e, assim, o naufrágio no
e a melancolia com tudo. A crise e o revo- oceano de contradição conceitual fomenta
lucionamento do sistema se tornariam per- o riso inimigo.
manentes e desde os anos 1970 tal forma de Sob a égide do espetáculo, os obre-
vida vive de ecos nostálgicos e destrutivos ristas se acotovelam em cima dos carros de
soluços violentos. sons tentando canalizar a revolta para falar
Existe, portanto, toda uma mobili- em seu nome. Da Grécia à Tunisia milhares
zação da “vigilância”, toda uma busca pelo invadem os parlamentos e descobrem que o
autocontrole que vende centenas de livro poder não está lá. Como o Grande Irmão de
de auto-ajuda numa era de violência impla- George Orwell, a coesão do capital é garan-
cável. Todos querem se curar. E do Oriente tida pelo simulacro imagético da propagan-
ao Ocidente a extrema direita triunfa sob da estampada nos outdoors e repetida in-
a suspeita milenar e alucinatória frente ao cansavelmente do nascimento até a morte
Outro negativo, agora encarnado na figura do consumidor. Agir e agir torna-se aí a for-
do forçado exílio imigrante. Enquanto isso, ma de não fazer nada e, ao mesmo tempo,
a esquerda é atropelada e recolhe silencio- uma ótima desculpa para ocultar das vistas
sa seus cacos conceituais em sua busca do o apocalipse já vivenciado. Afirmar esse va-
tempo perdido. zio, essa “ruptura-em-relação-a”, um sujei-
Nossa revista nasce em meio a este to negativo, só podem ser tarefa da crítica
cenário apocalíptico e, como regra geral, a e, nesse ponto, a revista ganha sua razão de
existência.

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A VOZ DO CONTEMPORÂNEO
SOCIABILIDADE E POLÍTICA SOB UMA LEITURA BENJAMI-
NIANA DAS PARTICULARIDADES

Por isso o processo de desapropriação da vida, como último bem que lhe resta-
va, implica também o seu extermínio, uma vez que não é um indivíduo singular
e insubstituível que é assassinado, mas apenas um exemplar fungível cuja ne-
cessidade de extermínio é nenhuma em si mesmo, mas reside apenas no grupo
a que ele pertencia.
Bruno Carvalho Rodrigues de Freitas*

por Gilberto Tedeia

C omo se pode fundar um espaço, prática e


pensamento político que não seja prisioneiro da
H ow can be found a space, practical and po-
litical thought that is not prisoner of description
mera descrição de particularidades? A resposta a of particular means? The answer to this question
essa pergunta percorre dois caminhos, o primei- runs through two paths: the abstraction thinking,
ro, o do pensamento abstrato, no qual o artigo under benjaminian horizon in “Zur Kritik der
tem como horizonte o texto de Benjamin “Para Gewalt”, a way to build a point of totality view,
uma crítica da violência”, a fim de construir uma beyond particularities in politic. An another way,
plataforma que fale da totalidade e se coloque having as contents the sociability emerging in “re-
para além de pautas particulares. O segundo ality shows” second Silvia Viana, we meet, beyond
caminho toma como matéria, tema, assunto, a the limits imposed by organized sociability in
sociabilidade que emerge nos reality shows se- competition, new ways to think right, power and
gundo recorte trabalhado por Silvia Viana, em politics.
Rituais de Sofrimento, a fim de tecer, para além
dos limites impostos pela sociabilidade organi- Keywords: sociability - pure violence - Benjamin
zada pela concorrência, o paradigma do neoli- - right - policy
beralismo hoje, apenas para tecer na conclusão
novas formas de se pensar o direito, o poder e a
política. Em suma, trata-se de articular sociabi-
lidade e violência pura segundo Benjamin com
nexos entre o direito e a política na contempo-
raneidade.
s
Palavras-Chave: sociabilidade – violência pura –
Benjamin – direito – política In: Psicanálise e crítica social em Adorno. Dissertação
de Mestrado em Filosofia, Universidade de São Paulo,
2016, p.209.

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A cena política hoje é atravessada por políticas que se recusem a captura pelo brilho
um desengano não todo intencional e que apa- jurídico e administrativo da máquina de gestão
rece aos diretamente concernidos como para- dos fundos públicos. Essa captura, caso mereça
doxo involuntário: a defesa de identidades em algo mais do que recriminação e censura, exige
luta pelo reconhecimento jurídico-institucional tatearmos em busca de alternativas à mesa que
tem como apogeu a gestão do Estado visando está posta. Por ora, o que temos é que sequer o
implantar políticas públicas que garantam e problema está sendo formulado em sua magni-
consolidem conquistas, e a instauração da polí- tude.
tica como mera gestão é tida na conta de grande
fruto de lutas antissistêmicas em geral. *
O que chamaremos aqui de “voz do con-
temporâneo” busca expressar a dimensão da Comecemos com o que pode parecer
instauração desse sujeito. Não são poucos os uma questão metodológica: dentre as exigên-
que dedicam uma militância de vida inteira em cias para o tratamento de um tema, de saída
luta contra a exploração do homem pelo ho- uma bifurcação se coloca: assumimos ser possí-
mem, no campo como na cidade. Não são raros vel tratar do tema “voz do contemporâneo” vi-
os que, por conta dessa militância, são vítimas sando percorrer algo como a totalidade de suas
de “forças a serviço da manutenção da lei e da dimensões? Ou, ao invés de uma “totalidade”,
ordem” – e quanto mais intensa a militância, teríamos em vez disso de escavar as zonas som-
maiores são as chances de serem perseguidos. brias, miúdas, aquelas às quais não se dá muita
Soma-se, a esses grupos aguerridos unidos por importância, para alcançar algo como um mo-
uma pauta universalizante anticapitalista, ou- mento de verdade que lance luz sobre a totali-
tros tantos grupos igualmente militantes, e até dade do primeiro recorte a fim de fazer falar o
mais virulentos, em luta pelo reconhecimento objeto, a voz política contemporânea. Mas aqui
de suas particularidades de gênero, sexual, ét- se levanta uma suspeita. E se a segunda confi-
nicas e quantas mais sejam possíveis de serem guração do recorte possível, a que se volta para
postas. Esse segundo grupo também é forma- as zonas miúdas, nos enganar e entregar um sa-
do por sujeitos políticos que, por conta de suas ber que mascararia ou, pior ainda, um “saber”
particularidades, são perseguidos, silenciados, sobre a voz que nem voz nem saber o seria?
criminalizados, presos ou mortos. Percorrer algo com a amplitude posta pelo títu-
A “voz do contemporâneo” busca falar lo do artigo, “a voz do contemporâneo”, dada a
desses sujeitos que, por um motivo ou por ou- sua magnitude, beiraria o indeterminado, o que
tro, são silenciados em nome da lei. Aqui e ali o facilitaria abrir, por sua desmedida, o modo de
texto recorre a exemplos concretos, pois não se percorrer a questão nas dimensões que propos-
pode ignorar a quadra histórica golpista instau- tas.
rada como fundo objetivo em que essa leitura se Por ora, afirmemos que a via da totali-
inscreve. Porém o leitor se defrontará aqui an- dade é aberta a abstrações, já a via alternativa,
tes com um experimento conceitual tendo por algo empírica aliás, teria de se contentar com a
meta mostrar o alcance e limites da instauração, leitura de restos e farelos normalmente aban-
enunciação, escuta dessa voz, a fim de destacar donados, esquecidos, com o possível ônus de
um cenário conceitual que supere esses limites. nos perdermos de vez por essa via.
Para tanto, após algumas idas e vindas, a meta
é pensar uma dimensão para a política que se
coloque para além do direito, da lei e das for-
mas de violência usadas para a sua manuten-
ção. O fato de isso poder ser pensado, para falar
como Benjamin, mostra que ao menos não é
impossível de ser posto como horizonte teóri-
co e prático a busca de um lugar para as lutas

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*
De saída, vamos percorrer o caminho que busca falar do todo 1 - Cf. HORKHEIMER, Max. “Te-
por abstrações. Sabemos que as abstrações sempre tornam a tarefa oria Tradicional e Teoria Crítica”.
In: ____, Adorno, Benjamin, Ha-
mais fácil, não à toa é um ardiloso caminho com mais de dois milênios
bermas. Obras Escolhidas. São
e meio de história conceitual. Paulo: Abril, 198- [Coleção Os
Após a invenção da disjuntiva entre “teoria tradicional e teoria Pensadores].
crítica” pensada lá nos anos 30 e sistematizada no ensaio homônimo
de Horkheimer(1) , sabemos que o pressuposto que organiza disjuntivas
como essa, abstrações ou a empiria em suas particularidades?, é um
pressuposto epistemológico que se assenta sobre a sociabilidade posta
em movimento pelo capitalismo.
Postas as coisas sob esse ângulo, não há como fugir desse re-
corte. E ele, o capitalismo, é alçado à condição de questão a ser tratada
preliminar e cientificamente sob um recorte que, se valendo da obra de
Marx, mostra como a captura do valor produzido pelo trabalho sub-
sumido pelo capital é o fundo da grande contradição que organiza o
conjunto das formas da vida social: a captura do valor produzido pelo
trabalho assalariado dá a conhecer leis e tendências que organizam a
reprodução material da sociedade, e, com ela, a política, a justiça, a ci-
ência, as artes e tudo o mais que seja resultado da intervenção humana.
2 - Cf., mais precisamente,
Porém, apenas citando dois registros distintos, desde Marramao MARRAMAO, G. O político e as
até Laval & Dardot(2) , não faltam alertas sobre limites a tais projetos de transformações. Belo Horizonte:
interpretação que subsumem uma dada dimensão social à lei geral do Oficina de Livros, 1990; LAVAL,
C., DARDOT, P. A nova razão
valor, alertas que, dito de modo resumido, destacam o desconhecimen-
do mundo - ensaio sobre a so-
to estrutural do saber que, limitado a esse recorte economicista, ignora ciedade neoliberal. São Paulo:
a dinâmica política que opera e organiza a “voz do contemporâneo”. Se Boitempo, 2006.
o tempo é o contemporâneo, então é dele que estamos falando malgra-
do ignorarmos tanto o que seja o fluxo contemporâneo da gestão do
capital, quanto as dimensões, e não apenas as políticas mas sobretudo
essas, que organizam a trama das contradições da vida social em sua
concretude. Ou seja, somam-se a falta de dados e a falta de categorias
conceituais que saibam lidar com as muitas alterações nos mecanismos
de acumulação, reprodução e gestão organizada da riqueza e relações
socialmente produzidas.
Malgrado esses alertas, é algo presente a todos os que se debru-
çam sobre tais limites a necessidade de se buscar um horizonte à teoria
e ação políticas que sirva de patamar que conecte as diferentes experi-
ências de lutas contemporâneas.
Uma das propostas é a que se apoia nas artes como via de acesso a um
ponto de encontro das duas dimensões desenhadas como disjuntivas
no começo do texto. Temos o exemplo de Rancière, em Partilha do sen-
sível (3) . Ou ainda, Badiou a repropor a pauta emancipatória radical 3 - Cf. RANCIÈRE, Jacques. A
partilha do sensível: estética e
que organizou as lutas comunistas de outrora e que hoje parece muda, política. São Paulo: Editora 34,
silenciada, esterilizada. 2005.
Tal é também a demanda que esse texto assume: mantenhamos
a pauta radical como axioma político.
E de saída, é necessário assumir que ela existe. É um axioma
prático nos recusarmos o abandono desse viés, sob pena de trairmos os
tantos combatentes que tombaram no passado.

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Porém, será que, com isso, não estaría- a um beco sem saída e sucumbe, sem sequer um
mos apenas reciclando formas autoritárias pos- gemido resignado, às forças e pautas políticas
tas pelos desvios da ideia comunista quando retrógradas e fundamentalistas que o Golpe de
entraram em cena na história? Abril impôs goela abaixo (5) .
O que o axioma prático da pauta radical Mas fiquemos nas dimensões em que
recusa, contudo, é abandonar um saber sobre o essa voz positiva algo. Eis que emerge uma “voz
todo das formas da vida social, por mais tênue, do contemporâneo” atravessada, à esquerda (6)
fragmentado ou tíbio que seja. , por algo como um fundamentalismo da dife-
Isso nos leva ao campo de abstrações rença que se funde num curto-circuito: a defesa
que marca a produção discursiva sobre uma da enunciação política de uma “reserva de mer-
configuração da “voz do contemporâneo” na cado” discursivo-teórica ao portador de par-
política que vamos tomar como ponto de parti- ticularidades, quando vai ao encontro de sua
da: o relativismo do festival das singularidades práxis social, mostra-se como tirania de uma
em rede, horizontais e em festa que se recusam identidade.
a aceitar que o Outro, a diferença, possa produ- O desafio aqui é distinguir um campo
zir um discurso sobre suas singularidades en- em que a política possível é a experiência po-
quanto parte de algo que as atravesse. lítica de um saber e uma luta e um discurso e
Importa destacar nesse discurso crítico uma narrativa que opera por justaposições e
crítico (4) a transformação da defesa da dife- oposições. O desafio é: como se apropriar poli-
rença em tirania da identidade que se recusa ticamente de uma experiência atravessada pela
a se relacionar com qualquer outra identidade recusa de percorrer, lidar, superar, absorver,
que não seja ela mesma e, nesse compasso, nega partilhar as possibilidades abertas pelo embate
o Outro como mera diferença. político do encontro com o que lhe é diferen-
Esse discurso, ao negar o que lhe é dife- te, na medida em que o que “permanece”, o que
rente, instaura-se como tirania da identidade se instaura, é o reino das particularidades em
da diferença satisfeita consigo mesma. Aqui, o negação mútua, todas e cada uma se tendo na
mais libertário dos discursos desconstrutivistas conta de prenhes de determinações políticas,
encontra o seu oposto, o batido solo fascista da consciência, valores e pautas ademais instituí-
defesa de uma identidade primordial. das em oposição antissistêmica?
O que há de comum a ambos? Para complicar o campo posto por tais
Em ambos, o discurso identitário vira as negações, chegamos ao patamar em que vozes
costas para as tentativas de universalizar lutas particularizantes visam à destruição das polí-
antissistêmicas. ticas emancipatórias que se pretendam unidas
Se, nos nacionalismos vários, do século por um fio comum anticapitalista.
XIX ao XXI, o discurso identitário serve para A meta das enunciações assim formula-
amalgamar lutas fratricidas entre povos e geno- das é a afirmação da particularidade que se ins-
cídios intranacionais, sua contrapartida “liber- taura como voz política, e que apresenta uma
tária rizomática policêntrica antilogocêntrica a condição: ela é apresentada como inalcançável
bater tambor em diálogo com a Lua” serve para pelo “Outro de suas diferenças”, mediante pro-
esfacelar a unidade política das lutas que se cedimento análogo à recusa, de extração tan-
propõem antissistêmicas. to romântica quanto heideggeriana, de acesso,
Pela via instaurada por essa voz, a escu- porque interditado, a uma verdade que por isso
ta que ela propõe aparece fincada em embates é inefável e não-partilhável.
contra um inimigo comum, o qual nunca se sabe Chegados a esse ponto, poderíamos nos
quem seja, a enunciar “pluriformes horizontali- contrapor a esse carnaval das particularidades
zantes redes de multifacetadas vozes das parti- em fúria remetendo o leitor ao Rancière que,
cularidades em revolta”. Mas é uma via que leva em A Partilha do sensível , propõe a abertura a

4 - Uma remissão à fórmula empregada por Marx para 6 -Não custa explicitar: à direita inexiste o “contempo-
se referir a certa esquerda pós-hegeliana. râneo”, apenas reposições de esquemas de exploração
do homem pelo homem em busca da maximização da
lucratividade sob o regime do mata-esfola, variando
sempre as configurações ideológicas que os instaura e
5 - Golpe que, sem deixar margens a dúvidas, soma os legitima, mas é para além deles todos que o texto ace-
fundamentalismos de mercado e cristão. nará na sua parte final.
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todos do campo de experiências que caminho apontado no começo dessa
acabamos de ver sendo fechado ao exposição, a fim de essas coisas miú-
Outro, tendo por chave que abre a re- das fazerem falar essa voz do contem-
lação, que pode sim ser universaliza- porâneo perdido em fragmentos sem
da, a relação entre a arte e a produção valor, e que esses fragmentos façam
do saber, mediante a prática emanci- falar o todo da vida social.
patória na sua relação com o mundo Para tanto, no que se segue a
graças ao modo como são produzidos exposição se valerá da pesquisa publi-
os sentidos, como obra coletiva e não- cada no livro Rituais do Sofrimento, 7 - Cf. VIANA, Silvia.
-travada por sujeito que se arrogue na qual Silvia Viana (7) mira os reali- Rituais de Sofrimento.
o posto de exclusivo produtor das ties shows para destacar, da sociabi- São Paulo: Boitempo,
enunciações e significados. lidade que os organizam, destacar o 2012.
Por essa via, o que para a sensi- andamento do mundo do trabalho
bilidade política pós-moderna é mera nos dias que correm.
descrição de zonas de sombra à po- A leitura de seu texto permite-
lítica, pode agora então se instaurar -nos acompanhar a efetivação de um
como compreensão de zonas de polí- movimento do pensamento pelo qual
tica para além da placidez resignada o fragmento de uma situação particu-
das sombras que a mera descrição lar anódina – qual seja, a exposição de
identitária desenha. um recorte de vidas vividas sob cer-
Enfim, o que propomos aqui, ta edição de imagens seguindo certo
como alternativa ao teatro de som- roteiro de atividades – faça falar para
bras de particularidades em que se nós algo do tempo em que vivemos,
perde a “voz do contemporâneo”, é a mais precisamente, fale algo desse ri-
possibilidade de um saber transfor- tual tresloucado e insano que é o mun-
mador, conflitual e coletivamente for- do do trabalho. Nos realities, como no
mulado poder levar à transformação mundo do trabalho, vidas voluntaria-
da noção mesma de política aqui teci- mente se colocam nos moedores de
da, uma tarefa levada a cabo de modo carne em uma disputa por um lugar
interdisciplinar e materialista. na assadeira da empregabilidade pre-
De saída, remete-se o leitor à cária e esvaziada de sentido. Ou an-
chave proposta por Horkheimer no tes, tem um sentido: o de participar e
texto citado: se quisermos ir além de permanecer na corrida pelo “posto”,
demandas postas por trustes do sis- pouco importa seu conteúdo – quem
tema industrial, irmos para além do já fez trabalho voluntário em ONG ou
bloqueio ao saber crítico, temos então “bate metas” em prestação de serviço
de dar novo passo, dessa vez em dire- sabe muito bem o que é esse sem-sen- 8 - Tortuosos tempos
ção ao sujeito da produção do saber e tido insanamente perseguido de que de produtivismos vá-
em direção às tarefas que se abrem ao se trata aqui (8). rios, quando currículos
olhar teórico que varre o mundo ma- O que nos interessa nessa lei- latem e não mordem.
terial em busca das engrenagens que o tura é destacar que pouco importa
movem, a serem desenhadas segundo o como e o que é o conteúdo de tais
o repertório completo de diferentes práticas da máquina de moer social:
ciências particulares. o que vemos emergir em Rituais é o
Não há narrativas prontas: o edificante lugar discursivo das iden-
saber que é objeto da consciência crí- tidades satisfeitas com suas particu-
tica é também a prática crítica que laridades mostrar-se, esse lugar, no
coloca à consciência teórica um novo ato mesmo da concorrência feroz que
saber. se entregam os participantes dos re-
alities, o seu avesso e fundo falso do
discurso identitário. Quando? Quan-
* do a meta dos farelos de vidas moídas
é o encontro de uma etiqueta que as
É necessário agora atraves- preserve da desaparição, do massacre
sarmos o registro das coisas miúdas ou, no caso dos realities, os preservem
tingidas de empiria, aquele segundo
9
de serem sempre lembrados sob a rubrica de “você se lembra do ex-BBB X?”,
quando tenta escapar da negação completa da identidade que se realiza como
afirmação da identidade do para-sempre-esquecido.
O que temos agora?
Por um lado, o paradoxo da busca da “voz do contemporâneo” é não
podermos descurar da dimensão positiva de lutas particulares que conferem
valor de verdade às defesas radicais da identidade como diferença. Sob esse
recorte, (1) a meta é se opor ao projeto político massacrante que esvazia a
pretensão do “posto” pelas identidades em luta sob categorias ou recortes
universais, totalizantes, e (2) a meta é se opor aos recortes abstratos e vazios
destituídos da concretude da experiência, do embate, da vivência geralmente
fundada na vida ou memória ou fragmentos do indivíduo em sua via sacra
pelo mundo.
Ao mesmo tempo, porém, por outro lado, trata-se de dar conta dos
pilares que sustentam essa via, a sua condição de possibilidade, as suas condi-
ções materiais ou históricas, e é aí que a justa demanda da identidade política
interverte-se em seu oposto, e se transforma no inofensivo registro de par-
ticularidades em diálogo de surdos, desencontro cujo ápice é se colocarem,
como histórias de vida em disputa por um lugar ao sol (9), em concorrência 9 - Mas podia ser também
trancadas na casinha, gravadas e mandadas ao ar 24 horas por dia mediante a disputa por um espaço
pay per view. na próxima edição da re-
Pode-se finalmente formular a pergunta: o que poderia trazer um pa- vista A1, ou pelo maior
tamar que fosse, a um só tempo, comum, universal, mas não fosse abstrato, número de orientandos
vazio? o possível, ou pelo maior
caixa 2 de campanha
A resposta a essa pergunta permite trazer à cena uma ideia e hipótese,
eleitoral.
encontradas como legado entre pilhas de derrotas políticas espalhadas pela
história do homem como história da luta de classes, e que abre nova disjunti-
va: ou condenamos as vítimas dessa história ao mesmo esquecimento denun-
ciado pelos que defendem a primazia do particular de suas identidades, ou
nos colocamos como herdeiros dessas vozes silenciadas, que se somarão às
nossas vozes, protestos, gestos, ao nosso saber-fazer sem que isso seja apenas
um querer-poder (10) . (10 - Esse dilema é mais
premente ainda quando,
Isso implica mudar o mundo esvaziando os lugares do poder, lugares
no rescaldo do Golpe de
a serem esvaziados sim, pois, de outro modo, acabaria reposta a dinâmica Abril, uma das alternati-
política contemporânea, a hoje rebaixada ao mau-infinito da mera governa- vas, a única no cenário
bilidade. das forças políticas com
Implica recusar repetir os colapsos das correntes de esquerda grega ou algo mais na manga que
brasileira que chegaram ao poder, reconhecer em ambos os casos não haver fantasias raciocinantes
a suposta reconciliação possível sem que sucumba em traições ao seu ponto ensandecidas ou gueti-
de partida e à própria identidade política que os leva ao “poder”, que de fato zadas, seria voltarmos
jamais tiveram nem terão nesse jogo de cartas marcadas. o relógio e reestabele-
O que se propõe aqui é o surgimento de um salto emancipatório que cermos o andamento da
política como gestão que
reúna as certezas daqueles que se sabem portadores de alguma particularida-
vigorou no período que
de. ora se encerra com o pi-
O que se propõe é um olhar para a verdade que move os portadores parote desfechado contra
de alguma particularidade, mas sem se restringir à repetição tautológica do o lulismo de resultados
si-mesmo. pela aliança togada-par-
Porque o trazido pela memória de lutas políticas é história e diálo- lamentar-policial-midiáti-
go com o conjunto de saberes e práticas, sobretudo as relegadas ao segundo ca.
plano pelo status quo em suas várias dimensões, que vão do acadêmico, do
institucional, do jurídico ao moral, ao midiático e ao senso comum, a lista va-
riando conforme a plataforma, lugar, dimensão dos embates travados.
O silenciamento da memória da história dessas lutas impõe à prosa
política, no seu encontro com o real, a pauta desenhada apenas pelo momen-
to de verdade em chave realista dos confrontos travados, e a transformação

10
em verdade única do que seja imposto como a fio agora é saber como discernir, superar, tecer e
dimensão do consentido, permitido, possível suportar contextos em que a liberdade de ação
pela ordem instituída. e a consciência que conhece performaticamen-
Eis o ponto em que a voz do discurso do te instaurariam dinâmicas supraindividuais que
realismo político pretende fazer valer como o afetem tanto a vida na comunidade dos homens
chão da concretude: quando esse realismo ape- como a sua relação com o passado e o futuro (14).
nas aceita caminhar por essa via, acaba por im- Para além do trabalho invisível da toupei-
por como possível apenas o que é posto sob o re- ra da história, passemos à exposição de uma rota
corte da situação mesma, e, assim, acaba-se por alternativa, a desenhada em “Para uma crítica da
se firmar, como voz política, o oposto do reino violência” , de Walter Benjamin (15).
da liberdade, da democracia, da política (11). Há ali um procedimento que elimina
Pois bem: “estado de exceção tornado re- qualquer mediação posta pela ordem instituída
gra”, para citar a proposição de Agamben, é um mediante um experimento conceitual pelo qual
dos nomes desse real consentido, permitido e re- se supera as determinações impostas pelos pro-
produzido como o único possível. jetos de direito, lei e poder – voltados seja para a
Em nome da governabilidade e do cam- reforma, seja para a mera reprodução da ordem
po da correlação de forças, o estado das coisas existente – com a violência nomeada divina, a
realmente existente acaba levando as esquerdas, violência do ato fundador de nova des-ordem.
do norte ao sul do planeta, a implementarem Ali, a violência revolucionária é situada como o
medidas que jamais subscreveriam se estives- grau zero da violência ao se instaurar como o li-
sem fora dos dispositivos de poder – basta-nos, miar anterior tanto à violência como à não-vio-
como exemplo, a aberrante Lei Antiterrorismo lência.
aprovada a toque de caixa pela “ex-esquerda” Retome-se aqui como ambas as noções
brasileira, lei que foi (12) e será usada para cri- são atravessadas pelo sentido fundado em um
minalizar coletivos ou ações ou mobilizações ou cenário desenhado como cancelado, suprimido,
mesmo postagens na rede que se assumam an- destruído, e, junto com ele, os dualismos da re-
tissistêmicas (13) . lação entre meios e fins, entre o justo e ajustado,
entre o instituído e o fora-da-lei.
De saída, destaque-se o paradoxo apon-
* tado pelo autor de um limite à linguagem, quan-
do o nomeado é ao mesmo tempo algo, não-vio-
Instaurar a escuta da “voz do contem- lência, e seu contrário, violência, sendo o direito
porâneo” é ir para além de oposições em pares de greve a manifestação histórica, jurídica e em-
diversos eu-mundo, trabalho-arte, “certeza sub- pírica desse paradoxo.
jetiva x partido político”, “vida cotidiana x mili- Há algo de irresistibilidade pura que olha
tância política”. por cima do poder soberano do Leviatã, das leis
Se, nessas dimensões, todas as práticas e da soberania que ele funda e das diferentes
levam à construção de saberes, e se os saberes manifestações de exceção que organiza.
consolidam as interações com o mundo, o desa-
11 - Tal ideia também organiza o Quando as ruas quei- 14 - Pelo pouco que se sabe a respeito, contudo, a tarefa
mam: manifesto pela emergência, de Vladimir Safatle, parece outra: voltarmos a estudar, porque, por um lado,
que me chegou às mãos após a conclusão desse texto. com o que sabemos, apenas mais do mesmo está ga-
12 - Já foi invocada (contra militância de movimentos de rantido, enquanto, por outro lado, no campo das práticas,
ocupação de imóveis que não cumprem a função social a única certeza é que no fundo do poço mora uma pá
da propriedade) após o Golpe de Abril jurídico-midiá- – basta o regozijo no olhar dos Trumps e Serras e inte-
tico encenado pelas forças da direita local derrotadas lectuais orgânicos a serviço do colapso para lembrarmos
quatro vezes nas urnas por esse mesmo grupo, acima que o padecimento de uma história de derrotas impostas
identificado como “lulismo de resultados”, e agora como por toupeiras nunca garantiu que a pá no fundo do poço
ex-esquerda, em referência ao neologismo que surge estivesse sendo usada pela toupeira da história, e nunca
na resposta do Mães de Maio quando recusou convite são poucos os insepultos largados na terceira margem
da editora Boitempo para participar de um evento em do rio. Em suma: nada garante um movimento pendular
2015 com a participação do então prefeito petista de na história, a regressão não é seguida por reversão em
São Paulo. proporções análogas, o que só piora quando as derrotas
das forças contra-hegemônicas vão se empilhando.
13 - Lei que já começou a ser usada pelos golpistas que
deram o piparote na descartável ex-esquerda no poder, 15 - BENJAMIN, W. Escritos sobre mito e linguagem
descartável porque tornada irrelevante ao bom anda- (1915-1921). (trad. Susana Kampff LAGES e Ernani
mento dos negócios aos mesmos de sempre. CHAVES). São Paulo: Duas Cidades, 2011.
11
Quando nos depararmos com o salto Como lidar com o que é a maneira de co-
revolucionário na violência pura, apresentada locar a totalidade das relações possíveis, e pen-
como não-violência, pode-se dizer que o ver- sar as particularidades da “voz do contemporâ-
dadeiro estado de exceção estaria então por se neo” sob o recorte que superará, em Benjamin,
realizar, em contraposição à regra que é a da vio- o embate entre as particularidades jurídicas do
lência instaurada e mantida pela força que assim justo e do legal?
se funda como direito. O salto posto pela pergunta é: como ar-
Enquanto não se realiza, o que se tem é o regimentar apoios à ruptura que não fossem
teatro de operações de uma trama tecida com o apenas manifestações isoladas de ativismos
fio do dualismo da oposição “direito natural ver- voluntariosos em arremedo de um espírito re-
sus direito positivo”, face a face um ao outro, em volucionário que faria vistas grossas à maioria
que ambos imbricam-se com limites tornados passiva que apanha calada, bem como consiga
complementares, o jurídico em sua concretude fazer frente à capacidade de reação de um sis-
dogmática e o metafísico do direito natural em tema jurídico-administrativo portador de admi-
sua racionalidade abstrata, respectivamente. rável capacidade de adquirir mais forças ainda
Nos termos dessa oposição, o que temos nutrindo-se das pressões que sofre, ante as quais
é um jogo de fragmentos que se negam mutu- se dobra para retornar com ímpeto redobrado?
amente, por afirmarem cada um o que o outro Reformule-se o salto que estamos a buscar sob
ignora. A saída desse impasse é a demarcação de a forma de três perguntas formuladas tendo-se
uma segunda ordem de considerações que aban- por ponto de decolagem o balanço tecido em Ri-
dona as representações, tanto do direito positi- tuais do Sofrimento, de Silvia Viana:
vo, quanto as das teorias do direito natural, as do 1 - Como agir fazendo vistas grossas à
legal e as do justo, rumo ao além-fronteiras do história de nossas derrotas, sobretudo quando
direito que se limite à mera reprodução da or- o que está à mesa é a mera sobrevivência catas-
dem instituída. trófica de uma civilização planetária regida por
O verdadeiro estado de exceção, sob o urgências em ritmo de exceções já sob a rota de
mote da greve revolucionária, é o salto à nova or- colapsos vários, do ambiental ao das pautas que
dem para além das determinações fundadas no mantinham aceso um sentido ao viver sob infor-
dualismo entre o legal e o justo: é o modo de dila- túnios, graças à luz da promessa, agora apagada
cerar, por dentro, as certezas trazidas por ambas de vez, a de que valeria suportar os tormentos,
as demarcações, a positiva e a natural, quando porque transitórios, uma vez que agora que não
entra em cena o cenário de violência nem legal mais se fala/deseja/acena/propõe qualquer ou-
nem ilegal, pois para além da mera ordem cons- tra ordem como “horizonte de expectativas” (16)
tituinte, da mera ordem que apenas reporá o le- que não seja a experiência sem horizontes de um
gal e o ilegal em nova chave. presente catastrófico em regressão ao pior rumo
ao infinito?
2 - O que se torna então a voz políti-
* ca quando a única habilidade exigida a todos
é completa adaptação submissa aos diktats do
Revisemos nossos passos. Será que a mercado, tanto do ponto de vista social quanto
complementariedade dos antagonistas desenha- individualmente, tanto pela maioria passiva nua
dos no começo desse nosso texto, em suas ló- de direitos quanto dos que cobrem com pactos
gicas de particularidades que se negam mutua- em andrajos os seus esqueletos políticos da go-
mente em suas particularidades, podem ser lidas vernabilidade?
sob essa chave benjaminiana? 3 - O que é nos dado pensar quando se
Se sim, qual o salto que se pode dar para vive sob nova ordem mundial regida pela propo-
além da ordem instituída por tais particularida- sição da única habilidade permitida e exigida a
des? todos, qual seja, a da mera adaptação heterôno-
Como retomar as maneiras opostas que ma à concorrência sem-fim pelo que não se sabe
formam, juntas, o todo da relação entre meios e o que seja, já que se trata não de um saber,
fins em cada uma delas?

16 - A disjuntiva horizonte de experiências e horizonte de


expectativas no sentido proposto por Koselleck.

12
mas do agir sem pausas e para além de todos os Benjamin.
limites? Como avançar para além da ação como As características que buscamos destacar
mero ritual sem dogmas, pouco importam as como via para lidar com esse imbróglio são:
qualidades, padrões de medida, quantidades, 1) em camadas, cada momento particular
valores, expectativas em jogo? Como sair desse do direito é captado, como fosse uma abstração,
operar cego que reduz a todos à condição de rati- e o que pretendia ser a diferença específica de
nho que corre-corre-corre para tentar preservar cada uma dessas formas de se apresentar o di-
seu lugar da gaiola? reito, quando posto como particularidade que
A resposta a essas questões exigiria algu- caracteriza seja o direito natural, seja o positivo,
ma ruptura que, fosse um terremoto, ultrapas- cada uma a seu modo, o que atravessa a todas
saria o dez na escala Richter. Como não se trata é o Gewalt, o poder/violência que abre espaço
aqui de futurologia então voltemos ao ponto de para um recorte que instaura o dentro e o fora
partida do começo do nosso texto. Do ponto de do direito, seja pela via do direito natural, seja do
vista da sociabilidade em geral, o que tivemos? positivo, seja ações sob o direito de greve legal,
Primeiro, uma série de determinações no plano seja o seu alargamento com a greve política.
da abstração que tece nexos entre identidade e Estamos no que chamamos de primeiro
diferença, e o fizemos em busca de um saber que patamar dessa relação. Nesse patamar, o recorte
fosse, a um só tempo, crítico, mas não dominado que se apresenta é o da somatória geral das di-
por exigências sistêmicas. mensões particulares em jogo, um recorte que é
Em seguida, num segundo momento o da cacofonia política que temos hoje.
apontamos outro recorte a fim deixar aberta Nesse carnaval das particularidades em
uma via à sociabilidade em geral que tenha por busca de um lugar ao sol, nos valemos da pes-
base certa conexão entre arte e saber. quisa da Silvia Viana para mostrar que o ápice
Por esse portal, contudo, vimos passar desse recorte é o “pega para capar” da viração
também, ao lado das propostas emancipatórias, para a sobrevivência (17) .
as práxis atoladas em rituais de sofrimentos au-
toimpostos e geridos em realities shows. *
Foi quando se fez presente para nós o
modo de funcionamento de subjetividades que Voltemos ao texto benjaminiano, agora
é o novo modo de fazer política, qual seja, para para propor uma segunda instância, um outro
além de pautas e como mera entrega plena ao ri- lugar para a Gewalt.
tual da sociabilidade esgarçada pela concorrên- Por essa via, resta por diferenciar as ma-
cia em busca de um lugar ao sol. E descobrimos nifestações particulares da noção de direito que
que essa concorrência do cada um por si é o “fa- o autor apresenta quando, ao aportar o paradoxo
zer política realmente existente” que atravessa da pretensão da linguagem trata esse lugar como
os cotidianos vividos como apenas isso, o que se se tivesse existência real.
repete porque é o que realmente existe e por isso Aqui nos defrontamos com objeções
deve se repetir em intensidade redobrada senão que acusam a reflexão que propõe a superação
deixa de existir. da disjunção entre as violências instauradora
Eis aí a “voz do contemporâneo” que de e mantenedora do direito de não nos mostrar
fato se manifesta na corrida maluca imposta aos o caminho que levaria até esse ponto de supe-
que dependem do trabalho para viver. Fazer po- ração, uma objeção que assume a configuração
lítica é assumir como Navalha de Ockham das histórica do presente como padrão de medida,
ações que o que interessa é a sobrevivência a pouco se importando com o fato de ser um pre-
qualquer custo na viração, no concurso, na car- sente marcado pelo figurino travado, congelado,
reira, no ilícito, no ilegal, no precário. degradado, cortado por movimentos de lutas
Pergunta-se agora: como lidar com camadas de que resultaram em derrotas a fagocitarem nas
realidade que parecem se completar no que se últimas décadas o pouco que o estado de direito
negam? acenou como possível de ser um dia universali-
Foi aí que trouxemos o argumento de zado.

17 - À qual se acrescenta a outra corrida sob o registro de uma viração, só que de elite, quando a viração na defesa
de seus interesses se cristaliza como Golpes de Estado jurídico-parlamentares e revoluções coloridas que os EUA
plantam mundo afora desde os anos 90, um desses golpes bastante íntimo nosso e ao qual o texto já fez diversas
referências antes, sempre visando destacar a excepcionalidade de um jogo de cartas marcadas que só pode ter um
ganhador, o mercado.
13
Ao leitor entorpecido com tanta camba- rações sobre a música em oposição à pintura.
lhota, informamos que o tema e tese tratados Encontramos em ato o que significa o
aqui são, com essa segunda instância do poder, sentido mesmo de caminhar do abstrato ao con-
difícil até de nomear, são (atenção para sujeito/ creto. Parte-se da diferença específica para len-
verbo/predicado): a busca da apresentação de tamente introduzir as determinações particula-
um modo de falar da síntese de particularidades res da concretude em um recorte social global.
pelo pensamento visando a superação do direito Seguindo as indicações de Benjamin, a impor-
é um experimento conceitual voltado também tância desse constructo é discernível quando
às particularidades do cenário da luta política. (1) nos voltamos às formas como o parlamento
Ou seja: a meta é pensar o direito e a política re- de fato lida com a violência que lhe deu origem,
almente existentes como um modo particular pelo esquecimento, (2) quando o autor desdobra
perfilado dentre muitas outras manifestações uma leitura da série de interditos que trancafia
possíveis, portanto, passíveis de serem supera- a dimensão constituinte do sujeito político no
dos. mesmo espaço reservado às condutas ilegais, ilí-
Temos um modo de lidar com a política, citas ou ilegítimas, a diferença sendo o fato de es-
que é fundado pela lei e o direito, posto agora ao sas últimas serem ações que não se instauraram,
lado de modos outros repertoriados que buscam pela força, como direito, (3) quando mostra como
ser a superação que totaliza e efetiva o que é ig- o Estado, de fato, lida com a greve: concedendo
norado por cada um dos modos “realmente exis- ao mundo do trabalho, no máximo, que possa
tentes” de direito, lei, poder e política. apresentar reivindicações que em nada alterem
É quando então se pode afirmar: sim, es- o estatuto da relação entre capital e trabalho, (4)
tamos falando de direito e poder e política em quando mostra como a polícia, de fato, lida com
sua totalidade. a lei quando se arvora ações pela manutenção da
No caso do direito em Benjamin, trata-se lei em situações onde paire o indecisão ou vazio
de ir para além das cisões meio/fim, justo/legal, jurídicos ou mesmo a quebra da lei pela própria
a fim de superar cada uma delas como manifes- polícia sob pretexto de manter a lei (18).
tações apresentadas como partes que, somados Chegados ao ponto de tantas demarca-
os limites que todas ignoram, comporiam a no- ções apresentadas, o direito aparece em sua rea-
ção de violência pura nesse novo patamar do di- lidade autônoma, que chamaremos aqui de “di-
reito. reito em situação”, desenhadas ali no texto como
É intencional em Benjamin esse afastar- pluralidade de ações em que o direito está posto
-se das relações jurídicas concretas. e em cujo nome ações são tecidas.
O autor se limita a acenar a campos, mais Eis que se abre outro terreno de “particu-
precisamente, ao da greve geral revolucionária, laridades que se querem autônomas”, só que esse
mas não a casos singulares, a fim de fazer desdo- terreno é o único que se impõe: o direito como
brar as contradições do direito em busca dos li- um todo, e seu repertório de dimensões que co-
mites dos casos particulares nas bifurcações que existem, e, ao mesmo tempo, essas diferentes
desenhou. dimensões do direito distribuem-se em diversos
Destaque-se que o desenho do confronto momentos da vida dos diferentes indivíduos,
com as particularidades do direito proposto por embora contraditórias entre si, mas em confor-
ele não é mera abstração. Assim como não é abs- midade à situação enfrentada. E mais uma vez
tração quando, por exemplo, falamos em uma encontramos a abertura da linguagem, median-
sociedade do trabalho assalariado a subsumi-lo, te a exposição do diacrônico e do sincrônico, ao
o trabalho, ao capital. Ou quando comparamos paradoxo de algo ser afirmado bem como o seu
a massa dos direitos garantidos ou presumidos contrário.
nessa sociedade com o conjunto dos direitos e Estranha a companhia que agora se colo-
deveres de uma dada sociedade tribal isolada. ca lado a lado das particularidades esquerdistas
Não é abstração porque estamos a considerar o em festa satisfeitas consigo mesmas: o direito,
direito em patamar para além de suas particula- também satisfeito e em festa com o princípio
ridades, assim como quando se tecem conside- que o organiza, a força, faz coincidir como dados

18 - Por exemplo, quando a polícia mata alguém em uma intervenção policial para evitar esse alguém de se suicidar
porque é crime suicidar, ou interditou a avenida Paulista para evitar que manifestantes interditassem a avenida Pau-
lista.

14
o justo e o legal, respectivamente como meio e Quais alternativas se abrem ante o pata-
como fim, uma festa na qual se pode afirmar o mar das identidades políticas ou legais já consti-
direito e seu contrario como direito também. tuídas?
Porém, as presentificações dos limites de um e Ou nos diluímos no esquecimento da
do outro, do direito natural e positivo, e no ter- violência que lhes deu origem, como é hoje, se-
mo desse percurso, a experiência de submeter a gundo Benjamin, o caso do Parlamento, ou assu-
justiça ao conhecimento de suas determinações mimos uma teoria crítica que se recusa a perma-
pela polícia, pela lei, ou pelo Estado, são dimen- necer de costas para a contradição fundamental
sões que nos mostram um direito que oscila afir- que organiza a sociedade.
mando-se a si e à sua negação. E qual seria o modo de fazer falar essas
Podemos enfim propor a reunião dessas contradições? Mediante a partilha do sensível,
várias dimensões como percurso refletido, em pela qual os sem-voz conquistam voz política?
busca de sua superação: todas as dimensões da Pela ideia, que pode e deve ser retomada, pela
lei serão superadas pelo autor mediante o can- ideia da hipótese comunista e seu legado de tan-
celamento mesmo da noção de violência com a tas lutas cujos massacrados exigem de nós que
noção de violência pura trazida pelo verdadeiro sigamos em frente? Pelo regime da exceção fun-
estado de exceção, nomeada no texto como vio- dado pela greve geral revolucionária? Sabemos
lência divina e que aparece em diversas partes só que é uma resposta ainda por ser escrita.
do texto como a violência da greve geral revolu- Temos sim uma pauta para pensarmos
cionária, portanto, da revolução. qual o saber exigido para a luta política que dê
A violência da revolução será não-violên- voz aos que tecem as bases materiais produtivas
cia, na medida em que se confronta com aquela da sociedade, uma voz que controle o jogo de
que é o máximo de violência, a violência da regra interesses que forma a política. A instauração e
instituída como ordem que se mantém pela vio- escuta dessa voz esvazia o espaço das fantasias
lência mantenedora, o que inclui, frise-se, supe- e ilusões que a mera reforma do que podemos
rar inclusive a violência que institui a renovação chamar de “estado de direito realmente existen-
da lei, superar portanto a dimensão constituinte te” impõe como dogma. A instauração dessa voz
de um novo sistema de leis, porque, ao fim e ao é a resposta ao comando local que diz: “não cor-
cabo, todo sistema legal é reduzido à dimensão reu, permanece vivo” (19) . Talvez agora seja mais
da violência meramente mantenedora do insti- fácil saber o que se pode escutar como resposta
tuído. à antiga pergunta formulada pela voz que não
cala: o que fazer?
*
Nesse percurso algo especulativo que
percorremos aqui, a ordem das particularidades
políticas em festa satisfeitas com sua identidade
apareceu no mesmo patamar do parlamento e
das polícias.
Qual? O do encontro de todas as parti-
cularidades postas como descrição de si mes-
mas na dimensão da ordem instituída, felizes
em suas particularidades, ou, caso não tenham
entrado para o âmbito da lei, como território ju-
rídico em disputa mediante a possibilidade da
sua dimensão constituinte como lei, instituinte
do reconhecimento de sua identidade. E por se
tratar de um conflito, estão todos interessados
na manutenção das particularidades descritas e
em oposições mútuas.

19 - Frase proferida por um quase eterno governador paulista após massacre de “suspeitos” em emboscada policial
na rodovia que leva o nome de um genocida caçador de índios tido como herói local.

15
MAIS UMA MORTE

por Renato Santiago

Sucumbi mais uma vez. Meu corpo


que o que eu planto e corto deve dá pra pelo me-
já não aguenta, minha mente sofre com tudo
nos 40 pessoas, imagina se juntar tudo isso aqui,
aquilo que não me ensinaram. Uma dor que
deve dar comida pra pelo menos uma vida inteira.
estremece cada nervo de um corpo mais velho
O patrão deve ficar bem feliz. Acordei da minha
que minha própria idade. Morri mais uma vez
primeira morte sem sentir dor, só uma exaustam
aquele dia. Sugaram minha última gota, o resti-
do tamanho de um mundo, nem o café com ma-
nho de vida que não me pertence, talvez nunca
caxeira me animou. Falaram que eu tinha traba-
tivesse me pertencido. Espere. Sou meu. Nasci
lhado demais, só fiz gargalhar, pagam quase nada
meu, nasci livre, nasci cru, nasci sem pressa e
pra que a gente trabalhe até não aguentar mais, e
sem essência, essas merdas não existem. Fui
vêm dizer que eu trabalho demais, trabalho o que
criado aqui, ou poderia ser em qualquer outro
posso e o que os meus precisam. Ouvi na cama do
lugar, minha história é nordestina e brasileira,
posto de saúde a história de um cara que gastava
minhas mãos levantaram esse país dependen-
quase o salário todo com cachaça e os dele passa-
te, sou caboclo, candango, negro e índio, tenho
vam fome. Nunca gostei de culpar ninguém, cada
mais calos e histórias do que uma vida poderia
um tem mais azar do que culpa na vida, queria
medir. Fui sim açoitado, ferido, e explorado,
ver se tivesse família ou uma doutora pra conver-
assim como todos aqueles que produzem tan-
sar com ele, provavelmente é mais um dos meus,
to e nada tem. Não gostaria de precisar morrer
daqueles que a terra criou e que o álcool só deixa
mais vez para chegar à essa conclusão, rouba-
tonto porque precisa. Cada um que trace seus ca-
ram minha vida pouco a pouco, fingiram me
minhos e que pague suas contas com seu Deus.
dar segurança e conforto, ‘‘sou um sujeito hoje,
O meu na certa me ajudou quando eu morri pela
esse contrato me faz ser uma parte igual’’. Só
primeira vez, achei até que ele tinha falado comi-
se for ser igual aos bilhões, porque jamais se-
go, na verdade era só o rádio tocando. Esse meu
rei igual às dezenas, e nem o quero. Eita! morte
trabalho nunca me deu dignidade, isso só se fala
que me incomoda, achava que teria algum des-
por falar, pra que a gente ache que tá cumprin-
canso, mas pelo visto nem na minha própria
do nosso papel no mundo. Eu sempre soube que
morte, só faço pensar nos meus. Não vou cho-
a miséria era necessária pras essas dezenas, mas
rar dessa vez, essa morte é diferente da ultima.
não tinha pensado que ela era tão lucrativa. Tal-
Na minha primeira morte não senti dor, senti
vez tenha sido até bom morrer essa segunda vez,
apenas uma agonia intensa que me fazia cho-
meus olhos pretos se abriram mais dessa vez, só
rar que nem criança, só me lembrava daquela
que doeu demais. Qual o nome dessa doença? É
história do pai que matou os filhos para que
o mesmo daquele que pula feito uma rã. Cangu-
eles não passassem mais fome. O engraçado é s
16
ru! Pronto, foi essa minha segunda morte, mas se as minhas próximas forem iguais a essa eu não
quero mais morrer desse jeito, é melhor ficar aqui no chão de uma vez pra ver se essa morte me
leva de verdade dessa vez. Dor. Uma dor que sobe pelas canelas e vai te esmagando até não con-
seguir mais respirar, senti até meu cabelo doer. Acho engraçado que dizem que temos escolhas,
que trabalhamos nesse lugar miserável porque queremos, só fala isso quem nunca se esforçou em
nada na vida, a dor sentida na pele é diferente da sentida no outro, é dor de verdade, que rasga
cada pedaço de homem e de ternura, nenhum homem quer essa dor, nenhum homem quer essa
desgraça. Talvez até queiram, mas não pra eles mesmos. De vez em quando acontece o “canguru”
por aqui, cai um no chão se debatendo, fica um alvoroço danado, acho que isso pode até matar,
não igual a minha morte, uma morte de verdade mesmo. Tem uns que até voltam pro trabalho no
mesmo dia depois disso. Eu não consegui, voltei pra casa, tenho os meus pra cuidar. O meu mais
novo já se foi, falava que queria ser doutor de bicho, tinha um negócio de sopro no coração. Sopro.
Engraçado esse nome, queria assoprar mais uma vez seu olho que nem fazia toda noite antes de ir
dormir. Quem sabe na minha próxima morte�

17
I N VA R I Â N C I A :
C O N T I N U I DA DE DA
A
A crítica como persistência da modernidade e a pós-mo-
dernidade como ideologia

por Carine Gomes Cardin Laser

O presente artigo aborda a reflexão so- This paper approaches the reflection
bre a relação moderno/pós-moderno que pre- about the modern/postmodern relationship
domina na ensaística de Jameson, sem perder that is prominent in Jameson’s essayistic, wi-
de vista a tradição, para tentar compreender thout losing sight of tradition, trying to com-
de forma apropriada seu pensamento sobre o prehend properly his thoughts and questioning
pós-moderno e colocá-lo em questionamento. it. We search support on the reference of criti-
Procuramos apoio na referência à teoria crítica cal theory to reflect about the possibility of an
para realizar uma reflexão sobre a possibilidade involvement with the “modern” concept that
de um envolvimento com o moderno que não is neither a total exclusion of its purposes nor
seja nem de exclusão total de seus pressupostos its unreflected retake. Based on that, we appe-
nem de sua retomada irrefletida. A partir disso al primarily to Adorno’s Aesthetic Theory as
recorremos principalmente à Teoria Estética foundation to think the idea of modernism, not
de Adorno como base para se pensar a ideia de simply as a spirit of the time, but as something
modernismo não simplesmente como um espí- that keeps itself as resistance against the social
rito do tempo, mas como algo que se mantém repressive display of each time. If, therefore,
enquanto resistência contra o aparato social modern art does not fit in social standards, and,
repressor de cada época. Se, portanto, a arte in its autonomy, expresses itself as critic of rea-
moderna não se encaixa nos padrões sociais, lity, the idea of postmodern, in opposition, does
e, em sua autonomia, se expressa como crítica not represent an actual transformation of the
da realidade, a ideia de pós-modernidade, em artistic field, but an instrument of legitimiza-
oposição, não representa uma transformação tion of the social appearance.
de fato no plano artístico, mas um instrumento
de legitimação da aparência social. Keywords: Adorno; Modernism; Postmoder-
Palavras-chave: Adorno; Modernismo; nism; Aesthetic.
Pós-modernismo; Estética.

18
MODERNIDADE E HISTÓRIA

Na Teoria Estética, obra póstuma de 1970, Adorno


elabora a sua teoria da arte e caracteriza sua concepção
de moderno, o que não deve ser tomado como uma defi-
nição estática do moderno. Pois, quando se pensa no mo- na troca” (ADORNO, 1995, p.186). A iden-
derno como algo fechado acaba-se incorrendo na impos- tidade entre sujeito e objeto, eliminando a
sibilidade de se lidar de fato com a questão, expressando possibilidade de conhecer o objeto em si,
algo que Adorno mostra de forma clara dentro de sua possível apenas pela experiência, elimina
própria metodologia: “as definições são tabus” (ADOR- o vínculo do sujeito com a sociedade. A
NO, 2008, p. 26). Nesse sentido, fica claro que o objetivo identidade na arte é, pelo contrário, a ex-
de Adorno na Teoria Estética não é impor ideias pron- pressão do não-idêntico, pois forma-se a
tas acerca da arte, mas antes realizar uma análise mer- partir da relação de diferenciação com o
gulhando na própria historicidade dela. Considerando, mundo empírico:
antes de qualquer coisa, a arte introduzida em um movi- Enquanto a linha de demarcação entre
mento constante, conclui que ela mesma não se sujeita à a arte e a empiria não deve ser ofusca-
definição: “A arte tem o seu conceito na constelação de da de nenhum modo, nem sequer pela
momentos que se transformam historicamente; fecha-se heroicização do artista, as obras de arte
assim à definição” (ADORNO, 2008, p. 13). Esta afirma- possuem no entanto uma vida sui ge-
ção leva a um modelo de pensar a arte que não a imobili- neris,que não se reduz simplesmente ao
ze na invariância. seu destino exterior. As obras importan-
Portanto, a definição de arte é aberta, “é sempre tes fazem surgir constantemente novos
dada previamente pelo que foi outrora, mas apenas é estratos, envelhecem, resfriam, morrem.
legitimada por aquilo em que se tornou, aberta ao que Afirmar que enquanto artefatos, pro-
pretende ser e àquilo em que poderá talvez tornar-se” dutos humanos, elas não vivem direta-
(ADORNO, 2008, p. 14). É nessa configuração da arte mente como homens, é uma tautologia.
que Adorno percebe a sua crítica à sociedade. Em seu de- (ADORNO, 2008, p. 16)
vir, ela relaciona-se com a teoria do conhecimento; a re-
lação de diferença entre arte e a empiria pode iluminar o A arte respeita o objeto através do
que na relação de identidade entre sujeito e objeto impõe distanciamento em relação a ele, permite
o sufocamento do não-idêntico na sociedade. Não é à toa que exista a cisão entre a obra de arte e
que Adorno usa a mesma citação de Nietzsche para rom- seu elemento da realidade empírica para
per com a teoria do conhecimento do idealismo e para conservar-se enquanto identidade em si;
explicitar a verdade da arte: “a verdade só existe como o assim, ela precisa da autonomia com re-
que esteve em devir” (2008, p. 14); pois o contrário disso lação à sociedade para ser um elemento
é o que a tradição impõe ao processo do conhecimento vivo, social. Assim, essa cisão não significa
pela razão transcendental, que expressava a própria rea- que a arte é totalmente autônoma em re-
lidade da sociedade: “não se pode desconhecer a função lação à sociedade. “Os antagonismos não
ideológica dessa tese”(ADORNO, 1995, p.185). resolvidos da realidade retornam às obras
No devir, a relação da arte com a empiria deve de arte como os problemas imanentes da
romper com a ideia de identidade que determina a im- sua forma.” (ADORNO, 2008, p. 18). A arte
posição da ideologia do sistema econômico sobre o in- tem nos desafios de sua forma a própria
divíduo vivente: “na doutrina do sujeito transcendental, realidade social que lhe é necessária, e é
expressa-se fielmente a primazia das relações abstrata-
mente racionais, desligada dos seus indivíduos particula-
res e seus laços concretos, relações que tem o seu modelo

19
o moderno, para Adorno, não se encai-
xa nessa definição, pelo contrário, uma
vez que é antítese dessa realidade.
Antes, o moderno é o “salto sob o livre
céu da história” (Idem), livre da racio-
justamente nesse sentido que se reafirma a impossibili- nalidade hipostasiada que objetifica-
dade de sua definição. -se em mito. Se Habermas se prende
De facto, nenhuma categoria privilegiada particular, à definição de moderno como a noção
nem sequer a categoria estética central da lei formal, progressista de história, acaba tentan-
define a essência da arte e é suficiente para o juízo do imprimir na tradição filosófica um
acerca dos seus produtos. A arte possui determinações conceito predicativo de modernidade
essenciais que contradizem o carácter definitivo do seu e não recuperando o movimento da
conceito estabelecido pela filosofia da arte (ADORNO, arte, em sua relação com as tensões so-
2008, p. 20). ciais. A sua proposta entra em contra-
dição com a ideia anti-predicativa de
Em sua constante transformação histórica, que pensar os conceitos, e a concepção de
já é uma resistência à integração totalizante na socieda- história, diferente daquela tradicional
de que insiste na conservação do status quo, a arte está progressista, que Adorno tem como
sempre sujeita a rupturas. Essa questão torna o “novo” base de seu pensamento sobre a arte e
central para seu desenvolvimento. Por isso, há a relação o moderno. Segundo Adorno,
entre o novo e o moderno, enquanto o que se contrapõe Os sinais da desorganização são o
ao antigo em um determinado período histórico. selo de autenticidade do modernis-
Para Habermas, é mo; aquilo pelo qual ele nega de-
apenas com os ideais de perfeição do Iluminismo fran- sesperadamente o encerramento da
cês, apenas com a idéia, inspirada pela ciência moder- invariância. A explosão é um de seus
na, de um progresso infinito do conhecimento e de um invariantes. Nesta medida o Moderno
avanço rumo ao aprimoramento social e moral é que, é um mito voltado contra si mesmo;
aos poucos, vai-se quebrando o fascínio exercido pe- a sua intemporalidade torna-se catás-
las obras clássicas do mundo antigo sobre o espírito de trofe do instante que rompe a con-
cada modernidade. (HABERMAS, 1992, 101) tinuidade temporal. O conceito de
Benjamin de ‘imagem dialética’ en-
Com essa afirmação, Habermas ressalta a ideia de cerra este momento (ADORNO, 2008,
transformação e novidade que surge com o iluminismo e p. 44).
mostra que a modernidade passa a pensar o novo como
algo que impele ao progresso. Mas, baseando a sua teoria Mesmo Habermas faz refe-
em um retorno ao pensamento iluminista, rompe com a rência a esta citação e à concepção de
teoria da arte elaborada por Adorno. Ele tenta identifi- história de Benjamin que ela suscita.
car o Iluminismo como um momento imóvel na história, O conceito de história em Benjamin
um passado morto para o presente, como se não tives- apoia-se na crítica da história pro-
se tomado proporções de “arena comandada pela classe gressista: “a ideia de um progresso da
dominante” (BENJAMIN, 1985, p.230). O moderno não humanidade na história é inseparável
pode ser definido simplesmente pelo pensamento histó- da ideia de sua marcha no interior de
rico do iluminismo, sem que esse pensamento passe pela um tempo vazio e homogêneo. A crí-
crítica que o identificou ao mito: pela dialética do escla- tica da idéia de progresso tem como
recimento. pressuposto a crítica dessa marcha”
O Esclarecimento se tornou a ideologia vigente, e (BENJAMIN, 1985, p. 229). Assim, sua
concepção de história se baseia na
ideia de que o “tempo passado é vivi-
do na rememoração: nem como vazio,

20
nem como homogêneo” (Idem, p. 232), concepção que transborda da obra de
Proust.
O modernismo quebra o continuum da história como invariância, co-
loca-se contra o terrível anjo do progresso que destrói tudo por onde pas-
sa. Mas em sua explosão estão os estilhaços do passado que torna-se mais
intenso e vivo. O moderno não é apenas a ruptura de um tempo específi-
co com relação a outro no linear da história, é o grito da própria história se
despendendo dos grilhões de sua dominação. Em um presente que é o agora
impregnado de passado e da perspectiva que este passado dá do futuro, o
moderno não pode se apresentar como “expressão objetiva a uma atualidade
do espírito do tempo que espontaneamente se renova” (HABERMAS, 1992
, p.101). O moderno não pode ser enclausurado no espírito do tempo, pois é
intemporal, a sua “negação do encerramento da invariância” dá prova disso.
Por isso, somente como invariância, como permanência do que não se curva
ao espírito do tempo, é que a modernidade encontra-se em devir.

O FIM DA MODERNIDADE
Apesar da leitura de Habermas não condizer com o sentido de mo-
derno dado por Adorno, é de se concordar com ele que este mesmo moderno
parece mais distante se tomado do interior da máquina ideológica do capita-
lismo pós-industrial. O impacto dos anos 60, a expectativa não correspondi-
da do Maio de 68, as discussões sobre o ‘fim da arte’ de Hegel, preenchem o
ar com o “narcisismo da esquerda pela Causa perdida” (�ZIZEK, 2003, p. 70):
aquela tendência da esquerda a se conformar com o fato de sua empreitada
ser sempre a que se sairá perdedora. Com os manifestos de 68, movimento
que tomou maior proporção crítica na França, com o movimento estudantil e
trabalhista, foi derramada mais uma gota do suor revolucionário da história.
Seus manifestos possuíam reivindicações que quase despontaram em uma
real crítica da sociedade capitalista, porém eles foram integrados ao que cri-
ticavam pela superficialidade de seu conteúdo, e, por conseguinte, o motivo
de sua derrocada:
O que pela última vez esteve em cartaz no Maio parisiense foi o eterno fil-
me dos movimentos revolucionários “socialistas” e “proletários” do Ocidente:
um breve avanço rumo a um horizonte desconhecido, para então ser com-
pelido pela massa inerte da consciência monetária a regressar à forma de
circulação burguesa, cuja incessante reforma resta como o único e exclusi-
vo objetivo lastimavelmente imanente (KURZ, 1996, p. 41).

Kurz defende que a “derrota” do movimento de 68 foi devida à ve-


leidade dos argumentos de seus líderes, e de maneira geral, do movimento
em si. O principal problema identificado por Kurz é a falta da crítica da for-
ma-mercadoria, o que teria levado os manifestantes a buscarem alternativas
dentro do sistema capitalista, e não a ele.

21
Que o “burguês” se esconde como tal na for- previsto Hegel? Segundo Adorno, essa ideia de
ma-mercadoria totalizada pelo capitalismo é superação da arte em Hegel é a identificação de
algo de que os combatentes das barricadas seu movimento: a arte necessariamente morre
de 68 não quiseram tomar conhecimento. de um período para outro, ganha novos signi-
Isso não era apenas ignorância ou desco- ficados em cada período histórico. Através da
nhecimento, mas uma recusa consciente da leitura de Adorno, Jameson percebe que o fim
possibilidade de fazer declarações concretas anunciado por Hegel não é necessariamente a
sobre a superação das relações fundadas na supressão de algo, e que pode ser o final como
mercadoria e propor os meios práticos e pal- transformação. Ainda, Adorno faz um alerta
páveis para alcançá-la (KURZ, 1996, 44). acerca da postura da estética sobre esse tema:
“a estética (...) não tem em geral que constatar o
Essa ideia de Kurz pode ser observada fim, reconfortar-se com o passado e, indepen-
em The dreamers (Os sonhadores), filme de dentemente de seja a que título for, transitar
2003 de Bernardo Bertolucci. Nele, Matthew, para a barbárie, que não é melhor que a cultura,
um estudante americano encontra-se em Pa- a qual mereceu a barbárie como represália pelos
ris em plena ebulição dos protestos de 68, e seus excessos bárbaros.” (ADORNO, 2008, p.
conhece dois irmãos, Isabelle e Theo. O filme 15). Então podemos perceber que para Adorno o
navega entre as referências cinematográficas problema do fim da arte tem duas perspectivas:
do trio, cenas de sexo e discussões políticas, a necessidade de transformação histórica, que
tanto entre gerações (Theo e o pai – um inte- pressupõe o nascimento de algo novo perante a
lectual conformado), tanto no choque entre a morte de um momento histórico; e a disposição
resistência pacifista de Matthew e a explosão da estética a lidar com o material histórico do
revolucionária dos irmãos. Entretanto, o filme presente, opondo-se a uma concepção nostálgi-
diz pouco do pensamento político por trás das ca e derrotista da história da arte.
manifestações. Se há uma cena que represen- Porém, essa posição não se refere à eter-
ta a frustração com que se olha para a posição nidade da arte, ela perece pois na necessidade
dos jovens com relação à reflexão acerca da so- de autonomia já está pressuposto o peso do que
ciedade é a em que Matthew e Isabelle têm sua se opõe a ela: a sociedade. A necessidade da au-
primeira relação sexual: Matthew assustado tonomia da obra de arte para Adorno não deixa
com a volúpia da jovem parisiense (e provavel- de expor as marcas da divisão essencial da so-
mente tomado pelo puritanismo americano) ciedade capitalista, se a arte precisa se manter
evita ao máximo a relação, mesmo sendo algo autônoma para a sua sobrevivência, também
que desejava; quando finalmente cede, Theo contém em si as garras da dominação social. Eis
revela-lhe o fato de que sua irmã era virgem. a necessidade da arte autônoma de perecer, de
Sabendo disso, Matthew fica mais envolvido ser inconstante pela permanência de sua auto-
com Isabelle e tenta fazer com que ela se adap- nomia:
te a um relacionamento tradicional. A geração Mas a arte e as obras de arte estão voltadas ao
que cresceu em frente à tela do cinema lidaria seu declínio, porque são não só heteronoma-
muito bem com o choque, a ruptura, preten- mente dependentes, mas porque na própria
deria dominar seu destino, mas seu invólucro constituição de sua autonomia, que ratifica a
revolucionário teria se revelado vazio como a posição social do espírito cindido segundo as
sua pretensa liberdade sexual. regras da divisão do trabalho, não são apenas
Além da decepção que gerou o Maio de arte; surgem como algo que se lhe é estranho
68, a ideia do fim da arte plantada pela estética e se lhe opõe. Ao seu próprio conceito está
hegeliana entra em questão. Teria a arte che- mesclado ao fermento que a suprime (ADOR-
gado à sua superação necessária como havia NO, 2008, p. 16).

22
Assim, é possível dizer que a identificação do pós-
-moderno poderia ser uma tentativa de chacoalhar os es-
combros e encontrar a vida na arte. Se sua transformação
é necessária, é preciso identificar sua nova face, algo que
tenha permanecido de sua possível superação. Porém,
essa tentativa tenta decretar o fim da arte moderna, afir- capitalista, o que tenta se diferenciar
mando uma diferença marcante com relação ao moder- de fato está tentando se desvencilhar
nismo. Jameson caracteriza o pós-moderno dentro dessa de suas garras, e é necessariamente
linha, numa totalização das obras de arte, girando em tor- compelido à crítica do que lhe de-
no de características que se opõem ao modernismo. Em termina. Mas essa característica não
seu ensaio de 1981, Pós-modernidade e sociedade de con- está presa à sociedade capitalista
sumo, identifica uma verdadeira decadência das obras monopolista em que Adorno a des-
modernistas e mostra como o pós-moderno se apoia na creve, ao contrário, enquanto hou-
renúncia da característica crítica da arte morta: ver a necessidade desse confronto, o
Estes estilos, que no passado foram agressivos e sub- moderno permanece vivo:
versivos, (...) são agora, para a geração que entrou em Que uma tal arte moderna seja
cena nos anos 60, precisamente o sistema e o inimigo: mais do que um vago ‘espírito do
mortos, constrangedores, consagrados, são monumen- tempo’ ou um versado up-to-date
tos reificados que precisam ser destruídos para que algo deve-se ao desencadeamento das
novo possa surgir (JAMESON, 1985, p. 17). forças produtivas. (...) A modernida-
de opor-se-á antes a todo o espíri-
Apesar do movimento observado por Jameson to do tempo que domina em cada
parecer coerente dentro da realidade que se configura época e hoje mesmo o deve fazer.
com a integração de Maio de 68, que decepcionou quem (ADORNO, 2008, p. 60).
acreditava na possibilidade de transformação social, ele
entra em contradição com o moderno em seu sentido Lembremos que Adorno es-
mais abrangente. Para Adorno, a característica crítica da creve estas palavras pouco antes
modernidade não é parte do espírito do tempo vigente, de sua morte, no final da década de
como parece fazer referência Jameson. O elemento críti- 1960.
co do moderno não pode ser superado, pois é justamente Se assim é, como é possível
a posição necessária da arte frente às transformações que a superação da arte moderna com
predominam em cada período histórico, enquanto ainda o simples descarte cronológico de
prevalece a dominação. obras que faziam referência ao perí-
Sem dúvida, a noção de Moderno remonta cronologi- odo histórico em que estavam inseri-
camente muito atrás do Moderno enquanto categoria das, e obviamente, perdem muito do
filosófico-histórica: mas esta não é cronológica. É antes sentido no contexto pós-industrial?
o postulado rimbaudiano da consciência mais pro-gres- Não é à toa que Jameson percebe que
sista, na qual os procedimentos técnicos mais avançados a arte à qual faz referência está in-
e mais diferenciados se interpenetram com as experi- trinsecamente ligada ao sistema eco-
ências mais avançadas e mais diferenciadas. Mas estas, nômico do período e nos dá, através
enquanto sociais, são críticas (ADORNO, 2008, p.59). da sua interpretação, uma boa leitu-
ra da cultura do momento histórico:
O moderno não pode ser simplesmente o que se revela a determinação exponencial
distancia do antigo, mas busca em seu próprio tempo a que as obras de arte estão sujeitas
forma e conteúdo avançados, dentro de sua necessidade dentro do sistema econômico. Atra-
de se diferenciar do que já foi feito. É a própria arte, que vés do conceito de pastiche mostra
tentando se diferenciar do outro que lhe domina, tende que, em consequência da sociedade
necessariamente ao choque contra este. Na sociedade capitalista consumista, não se pode

23
mais “focar o nosso próprio presente, como se nos social, porém, essa necessidade já é falsa,
tivéssemos tornado incapazes de alcançar represen- pois corresponde ao que se reproduz na
tações estéticas de nossa própria experiência atual” própria sociedade falsa. “Sem dúvida, tal
(JAMESON, 2001, p. 29). Esta ideia remete à dificul- como foi prognosticado, as necessidades
dade da experiência que se eleva com a globalização, encontram ainda a sua satisfação, mas
em um capitalismo agressivo e totalizador. Assim, a esta é falsa e ilude os homens acerca de
arte a que Jameson faz referência é aquela integrada seu direito de homens” (ADORNO, 2008,
ao sistema econômico, que tem como objetivo justa- p. 37). Essa transformação da indústria
mente manter o status quo. Não há como não per- cultural pode ser mais ainda realçada no
ceber aqui a relação de Jameson com o conceito de capitalismo pós-industrial, a percepção
indústria cultural de Adorno. da falsidade das necessidades que a cultu-
Para Adorno, a cultura deixa-se englobar pelo ra demanda pode ser percebida em obras
sistema capitalista e se assume como indústria, tendo que se conjecturam dentro delas mesmas.
como objetivo mascarar a realidade social e manter Assim, a reflexão acerca das obras da in-
os indivíduos determinados pela totalização do inte- dústria cultural pode arrebentar o seu
resse pelo lucro. As obras de arte passam a ser pro- próprio intento, ao invés de velar, mos-
duzidas a partir de necessidades comerciais e quem trar a realidade da sociedade: “a reflexão
se beneficia são os produtores culturais, que ditam pode começar pelo facto de que, na rea-
a regra do jogo. É no ensaio Indústria cultural: o es- lidade, algo aspira objetivamente à arte,
clarecimento como mistificação das massas, lançado para além do véu que tece a interacção
em 1944 na Dialética do esclarecimento, que Adorno das instituições e da falsa necessidade; a
e Horkheimer dão contorno ao conceito e realizam uma arte que dá testemunho do que o véu
a crítica dessa realidade. Porém, na Teoria Estética, oculta” (ADORNO, 2008, p. 37). Há uma
Adorno percebe já uma transformação dessa ques- promessa de transformação nas obras da
tão. Segundo ele, com relação às obras de arte, indústria cultural, pois elas se deixam cri-
e mais “focar o nosso pró ticar enquanto peças de xadrez da mani-
Quanto mais livres se tornam dos fins exteriores, pulação social. A crítica da cultura trans-
tanto mais perfeitamente se definiram enquanto forma seus elementos em manifestações
organizadas, por sua vez na dominação. Mas por- de seu oposto, denunciam o seu próprio
que as obras de arte voltam sempre um dos seus caráter ideológico.
lados para a sociedade, a dominação interiorizada
irradiava igualmente para o exterior. É impossível, CONSIDERAÇÕES FINAIS
com a consciência desse contexto, exercer a crítica A arte que revela o que está por
da indústria cultural, que emudeceu perante a arte baixo do véu, que é o que a sociedade está
(ADORNO, 2008, p. 36). disposta a manter oculto, não correspon-
de exatamente à ideia de arte moderna,
As obras de arte que Jameson critica são ao necessariamente crítica, que, ao encon-
mesmo tempo o motivo da crítica, elas revelam algo trar-se como o que há de mais apurado
da sociedade em sua exaustiva tentativa de velar. Por enquanto forma e conteúdo contradiz a
isso a crítica da indústria cultural parece desfalecer- sociedade e se coloca contra o espírito do
-se na própria ineficiência desta. Adorno também tempo? Nesse sentido, o pós-moderno so-
identifica a decadência da indústria cultural através mente pode existir enquanto tudo o que
de sua necessidade. Para o filósofo, a arte é necessária colabora para a manutenção da sociedade
em um mundo sem imagens, é “o reflexo do encanta-
mento como consolação do desencanto” (ADORNO,
2008, p.36). Como um véu sobre a realidade, a arte
é modificada pela sociedade para cumprir um papel

24
capitalista e se opõe ao que é moderno.
Há, portanto, moderno no cinema contemporâneo, como em Mulholland Dr. (Cidade dos Sonhos),
de David Lynch, de 2001. Nesse filme, o diretor usa elementos da montagem cinematográfica
para colocar em questão o que é real e o que não é, tirando o espectador de sua zona de conforto,
suspendendo peremptoriamente as certezas da narrativa. Lynch usa as técnicas cinematográficas
para questionar a indústria do cinema a partir da autonomia do filme – isto é, sem fazer referên-
cias diretas à crítica social ou colocar a sua produção sob a demanda da indústria. Assim, confron-
ta a ilusão do drama com a alinearidade e ruptura, demonstrando a artificialidade do universo
idealizado das celebridades e expondo as entranhas da indústria do entretenimento.
Também podemos encontrar traços críticos No Der Stand der Dinge (O Estado das coisas), filme
de Win Wenders, lançado em 1982. O filme trata da realização de um filme, da necessidade do
cineasta em relação ao produtor do filme, que desaparece e deixa toda a equipe sem condição de
trabalhar. A partir do ponto particular, o drama do cineasta sem dinheiro para terminar seu pro-
jeto, o filme lança um olhar fulminante à determinação econômica da arte. Ele coloca em questão
a necessidade da autonomia artística e a sua inevitável dependência das condições econômicas da
sociedade, que não deixam de influenciar a criação artística. Essa tensão que se desenrola tende a
mostrar a falsidade da aparência de isolamento do cinema, revelando o fetichismo dos produtos
da indústria cinematográfica, que aparecem como entidades isoladas e não dependentes do públi-
co que vai ao cinema e consequentemente dos produtores dos filmes.
Essa ideia pode ser verificada também na conclusão de O marxismo tardio: Adorno, ou a
persistência da dialética, livro de 1990, em que Jameson se dedica à análise da filosofia adorniana.
Nessa conclusão, o autor faz uma importante exposição sobre a relevância da teoria de Adorno na
atualidade, contrapondo-a a concepção de pós-modernidade e tentando justificar esta terminolo-
gia, que parece um tanto inconsistente:
o que Adorno chamava positivismo é precisamente o que hoje chamamos pós-modernismo,
apenas num estágio mais primitivo. A mudança terminológica é, com certeza, importante: uma
tacanha filosofia da ciência pequeno-burguesa, republicana, do século XIX, surgindo do casulo
de sua cápsula de tempo com o esplendor iridescente da vida consumista cotidiana no verani-
co do super-Estado e do capitalismo multinacional (JAMESON, 1997, p. 319).
Como positivismo, o pós-modernismo, em seu momento artístico, não resiste ao pensa-
mento estético. Ele se dissolve na dialética da negação que é necessariamente realizada pela re-
flexão frente a todo pensamento positivo. Assim, o moderno é mais do que uma referência, num
passado sepultado pelas asas do tempo contínuo. A negação do que é dado é a marca imóvel da
história em pleno devir. “Se hoje mais do que nunca a ideologia incita o pensamento à positivida-
de, ela registra astutamente o fato de que justamente essa positividade é contrária ao pensamento
e de que se carece da autoridade social para habituá-lo a positividade” (ADORNO, 2009, p.25).
Referências bibliográficas
ADORNO, Theodor. Dialética Negativa. Tradução de Marco Antonio Casanova. São Paulo: Jorge Zahar Editor,
2009.
_________, Sobre sujeito e objeto. In Palavras e Sinais: Modelos Críticos 2. Petrópolis: Vozes, 1995.
_________, Teoria Estética. Tradução de Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2008.
ADORNO, T., & HORKHEIMER, M. Dialética do Esclarecimento: Fragmentos Filosóficos. Tradução de Guido Anto-
nio de Almeida. São Paulo: Jorge Zahar Editor, 1985.
BENJAMIN, W. Obras Escolhidas: Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.
HABERMAS, Jürgen, Modernidade – um projeto inacabado & Arquitetura Moderna Pós-Moderna. In ARANTES,
Otília Beatriz Fiori & Paulo Eduardo, Um Ponto Cego no Projeto Estético de Jürgen Habermas: Arquitetura e
Dimensão Estética depois das vanguardas, São Paulo, Brasiliense, 1992.
JAMESON, Fredric, A cultura do dinheiro: ensaio sobre a globalização, Petrópolis: Vozes, 2001.
_________, O marxismo tardio: Adorno, ou a persistência da dialética, São Paulo: Editora Boitempo, 1997.
_________, Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio, São Paulo: Ática, 1996.
_________, Pós-Modernidade e Sociedade de Consumo. In São Paulo, “Novos Estudos CEBRAP” no. 12, junho de
1985.
KURZ, Robert. Os últimos combates. In São Paulo, “Novos Estudos CEBRAP” N.° 46, novembro de 1996, pp. 39-
75. s
ZIZEK, Slavoj. Bem-vindo ao deserto do real!, São Paulo: Boitempo Editorial, 2003.

25
A DISCRETA DESILUSÃO DA
BURGUESIA
The future is the imaginary space that utopia
tries to colonize.
(Franco “Bifo” Berardi)
Harmony and understanding
Sympathy and trust abounding
No more falsehoods or derisions
Golden living dreams of visions
Mystic crystal revalation
And the mind’s true liberation
Aquarius!
Aquarius!
Do musical “Hair”

por Alysson Oliveira


Ao longo das mais de 2 horas de Aqua- bravamente, infantilmente, egoisticamente,
rius, não toca, em nenhum momento, a famosa dependo do angulo pelo qual se olha.
canção homônima do musical Hair, mas não é Clara é o que Fredric Jameson chama
preciso. O filme todo é permeado, de uma for- de veterana da década de 60 que “viu tantas
ma ou de outra, pelos ideais perdidos daquela coisas mudarem dramaticamente de um ano
geração dos anos de 1960. Pode ser uma feliz para outro e pensa mais historicamente do que
coincidência, ou algo de caso pensado, mas o seus antecessores” . A trama situada no século
diretor e roteirista do longa brasileiro, Kléber XXI, a suposta Era de Aquarius, aliás, dá à pro-
Mendonça Filho, convidou Sonia Braga para tagonista uma vantagem histórica - expressão
viver a personagem principal, Clara. Ela, por meio trapaceira essa, se é que se tem alguma
sua vez, participou da montagem brasileira do vantagem em olhar para traz e ver que as coi-
musical em 1969. sas mudaram para continuar as mesmas.
A década mal é mencionada no filme –
se o é, é de forma discreta –, por isso, entram
praticamente nas entrelinhas. Mas Aquarius é
um filme sobre essa década e sobre como suas s
utopias se transformaram em desilusões e lu-
tas virtualmente pessoais. Clara, intelectual na
faixa dos 60 anos, vive num prédio pequeno
e antigo, que leve o nome do filme, de frente 1 - JAMESON, Fredric. “Periodizing the 60s”.
para o mar, em Recife. Uma construtora com- In.______. The Ideologies of Theory – Essays 1971-
prou todos os apartamentos, mas ela resiste, 1986 - Volume 2: The Syntax of History. Minnea-
polis: University of Minnesota Press, 1988, p. 178.

26
Clara é a típica liberal à brasileira, confortável
em seu apartamento herdado, junto com ou-
tros cinco que lhe garante o sustento, fazendo
de suas paredes e estantes uma galeria de bom
uma mulher da elite, é rica, esclarecida, tem até
gosto, alta cultura (e também cultura de massas
empenho social – sua luta apresenta de forma
bem aceita pela elite), e bom gosto. Sua relação
simbólica num plano micro o movimento que
com sua empregada (Zoraide Coleto) de algu-
acontece em Recife desde 2014 em defesa do
mas décadas é bastante boa e próxima – chega
Cais José Estelita, contra um empreendimen-
a ir ao aniversário da mulher na parte pobre da
to imobiliário que iria ocupar o lugar. Morasse
cidade, como ela mesma explica à namorada
Clara numa favela na periferia de São Paulo, já
carioca do sobrinho.
teria sido arrancada a força de sua casa. Mas
O que nos fascina em Clara é sua clareza
será que o filme tem consciência dessa posi-
(com o perdão do trocadilho) para ter, ao mes-
ção?
mo tempo, empenho social, bom gosto e bom
Flávio Moura coloca isso muito bem em
senso. Não é difícil imaginar a personagem
seu texto sobre o filme quando diz que:
numa passeata gritando Fora Temer, nem que
ela tenha feito um voto útil no PT nas últimas
Há nobreza na resistência de Clara, mas há
eleições presidências. O que talvez nos fascine
também arrogância. E essa é uma arrogância
e seduza é que, no fundo, todos queremos ser
intelectual, de quem preza finos LPs, romances
Clara. Morar bem, ser culto e lutar por causas
literários e filmes de Kubrick, mas também – e
sociais – desde que essa não interrompa nos-
sobretudo – uma arrogância de classe.
sa alegria. Uma ilustração precisa disso se dá
num momento em que toda a família da pro-
Não se trata, pois, de um confronto de
tagonista está vendo antigos álbuns de fotogra-
uma intelectual bem intencionada e uma elite
fia. A boa nostalgia corre solta, até que essa é
financeira inescrupulosa, mas de um embate
interrompida pela emprega/amiga que mostra
entre duas modalidades da elite pernambuca-
a foto de seu filho, morto há pouco tempo num
na que encarnam as contradições da classe alta
acidente de moto causado por um sujeito rico
brasileira.
e bêbado. É um corte abrupto e seco na felici-
Em Clara coexistiriam, então, o arcaico
dade memorialística da burguesia esclarecida.
e o moderno – combinação ilustrada por sua
Clara já foi relacionada ao tripé Tradi-
vasta coleção de vinis, mas ela também ouve
ção, Família e Propriedade, por Marcelo Coe-
mp3, deixa claro numa entrevista – o que é
lho, em sua coluna na Folha de S. Paulo. E o
um fato geral no mundo capitalista. Mas como
escritor que explica porque, na visão dele, a
personagem resiste “em nome de suas memó-
2 - COELHO, Marcelo. “‘Aquarius’ oferece versão de es-
rias familiares, e porque, viúva, tendo sofrido querda para ‘Tradição, Família e Propriedade”. Folha
uma cirurgia de extração da mama, e sentin- de S. Paulo, 14 de setembro de 2016. Acessado em
do-se distanciada dos filhos, não se conforma 15/09/2016.
Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/
com mais nenhuma perda em sua vida.” É marcelocoelho/2016/09/1813017-aquarius-oferece-
claro que o autor não relaciona a protagonista -versao-de-esquerda-para-tradicao-familia-e-proprie-
àquela organização fundada nos anos de 1960. dade.shtml. Acessado em 15/09/2016.
Mas, vê nela algo de conservador. E isso traz
bastante complexidade à figura. 3 - MOURA, Flavio. “Cavalcantis e Cavalgados”. Nexo
Jornal, 10 de setembro de 2016. Disponível em ht-
tps://www.nexojornal.com.br/ensaio/2016/09/10/Ca-
O que permite à Clara ter a posição valcantis-e-cavalgados#.V9aU5rU_XI0. Acessado em
de resistência é sua vantagem de classe. Ela é 15/09/206.

27
aponta Roberto Schwarz, nos países que foram uma questão política:
colonizados, essa simultaneidade
“é central e tem força de emblema. Isto porque “A relação entre Utopia e o político assim
estes países foram incorporados ao mercado como as questões sobre o valor prático-polí-
mundial – ao mundo moderno – na qualidade tico do pensamento Utópico e a identificação
de econômica e socialmente atrasados, de for- entre Socialismo e Utopia, continuam como
necedores de matéria-prima e trabalho barato. tópicos não-resolvidos hoje quando a Utopia
A sua ligação ao novo se faz através, estrutu- parece ter recoberto sua vitalidade como um
ralmente através de seu atraso social que se re- slogan político e uma perspectiva politicamen-
produz em lugar de se extinguir”. te estimulante” .
A disputa de narrativa entre o arcaico O autor sempre viu Utopia como si-
e o moderno, sem que haja qualquer juízo de nônimo de socialismo. Mas qual é a utopia de
valor nos dois (que possuem pontos positivis- Clara? Manter seu apartamento a todo custo,
mo e negativos), é o que impulsiona a narrativa pois ali está a sua história. Alguns viram em sua
de Aquarius. O prédio a ser erguido se cha- resistência um paralelo com a ex-presidenta
mará “Novo Aquarius”, diz o engenheiro, neto Dilma Roussef durante o processo de impea-
do dono da empreiteira, para confortar Clara, chment. O filme estreou em 1o de setembro,
num de seus embates. exatamente um dia após ser cassada. Relatos,
Ao contrário dos revolucionários anos especialmente na internet, deram conta de que
de 1960 quando, em boa parte do mundo, ha- várias sessões do longa de Kléber Mendonça
via uma chama da mudança sendo alimentada, Filho contaram com manifestações da plateia,
e possibilidades de outras narrativas até mes- particularmente com gritos de “Fora Temer”.
mo utópicas, o presente agoniza numa dispu- Catártico? Pode até ser, mas o que vem mesmo
ta em que nenhuma das opções parecem ser à mente é o comentário de Roberto Schwarz,
muito boas. Jameson caracteriza aquela década em “Cultura e Política, 1964-1967” sobre o
como um “período importante transformacio- comportamento efusivo da esquerda em espe-
nal quando a reestruturação sistêmica aconte- táculos do Opinião e de Boal : “a esquerda der-
ce numa escala global” . Enquanto os anos de rotada triunfava sem crítica, numa sala repleta,
1980 “serão caracterizados por um esforço, na como se a derrota não fosse um defeito” .
escala global, de proletarizar todas as forças Aquarius não é bem um filme nostálgi-
sociais libertas que deram força aos anos de co, as personagens não sentem saudade sobre
1960 sua energia” . um tempo que passou e não volta mais, mas
O longa começa exatamente em 1980, também não parecem olhar para um futu-
quando Clara, ainda jovem acaba de sobrevi- ro. Teriam elas – tantos as personagens ricas
ver a um câncer para o qual perdeu um seio, e quanto as pobres – uma opção de um outro
comemora o aniversário de uma tia (Thaia Pe- futuro que não um prolongamento sem fim
rez). Enquanto os filhos da protagonista decla- desse presente? Se uma das funções da utopia
mam uma homenagem à aniversariante, a mu- é impulsionar o futuro, onde ela foi parar nes-
lher relembra sua juventude libertária quando se presente monocórdico no qual não há uma
o sexo era até mais livre do que no presente. brisa de mudança (nem opções) no horizonte?
Jameson afirma que Utopia sempre foi

4 - SCHWARZ, Roberto. “Cultura e Política, 1964-1967”.


In.______. O Pai de Família e Outros Estudos. São Paulo: Cia
das Letras, 2008 [1978], p. 91.

5 - Jameson, “Periodizing the 60s”, p. 207.

6 - JAMESON, Fredric. Archaeologies of the Future. s


London & New York: Verso, xi-xii.

28
SOBRE
A BOMBA ATÔMICA
“Os cientistas conheceram o pecado”
(Robert Oppenheimer, Físico)

por Luiz Ben Hassanal Machado da Silva

Carecemos, é fato, de análises mais dos editoriais que sucederam a tragédia.


profundas do ataque nuclear que os Estados Comentar sobre a bomba deve ser investigar a
Unidos lançaram sobre o Japão. A parca lite- relação entre Ciência, Política e Ética e encon-
ratura, à parte de brilhantes obras jornalísti- trar nessa relação os resquícios da barbárie
cas como a de Harvey, é pouco conhecida e sempre presente nas potencialidades do po-
estudada. O evento que marcou a vitória dos der e da organização social.
aliados, no entanto, pode ser considerado
como a consolidação, senão de uma nova or- O Combate
dem política, de uma nova organização dessa
ordem. Pensemos, aqui, quais foram as conse- Albert Camus é bem enfático em seu
quências dessa tragédia? O que ela nos revela L’Enfer et la Raison, publicado dia 8 de agosto
sobre nós mesmos e sobre nossa racionali- de 1945, dois dias após o ataque à Hiroshima
dade? São essas questões que, tememos, têm e um dia antes ao de Nagasaki. Nesse curto
pouco espaço nas prateleiras de bibliotecas e editorial, o filósofo condena os jornais que
livrarias. noticiaram o ataque com entusiasmo, saldan-
Ao lado da tão justamente profícua li- do a nova arma em “dissertações elegantes”
teratura sobre o Holocausto judeu, há um es- a respeito do futuro, do passado, da vocação
paço vazio, a literatura sobre a bomba. Gran- pacífica e do “caráter independente da bom-
des nomes se silenciaram, felizmente outros ba” (CAMUS, 1945). A bomba fora vista como
poucos se manifestaram a respeito. É o caso um avanço científico de “valor incalculável”
do filósofo argelino Albert Camus, que em um (Le Croix – 8/9/1945), no L’Aurore (7/9/1945),
curto editorial em seu Le Combat, L’Enfer et como uma “Revolução Científica”. No Brasil,
la Raison (O Inferno e a Razão, em uma tradu- o jornal Folha da Manhã (Revelada nos EUA e
ção livre), inaugurou as manifestações críticas Inglaterra a invenção da arma de maior poder
ao entusiasmo que tomou conta dos jornais e destruidor de toda a guerra, 1945), edição de 7

29
de agosto de 1945, transcreveu o pronunciamento
do então presidente dos Estados Unidos, Truman,
no qual aparece a tal “vocação pacífica” ironizada
por Camus em seu editorial.
Certamente, estávamos diante de um fato
inédito. Segundo o discurso de Truman, foram gas-
tos dois bilhões de dólares “na maior campanha
científica da História”. O presidente ainda afirma
que eles ganharam a “batalha dos laboratórios”.
Essa passagem explica a maneira como os jorna- Feynmann e apoiado por Enrico Fermi
listas entusiastas viram o empreendimento e como e Albert Einstein – detém a justificação
essa empresa se distanciou do desinteresse caracte- da barbárie. Mostrou-se que a ciência
rístico da ciência. Vista como a busca desinteressa- não é isenta de participação em geno-
da pela Verdade ou por algo do gênero – associado cídios.
ao desenvolvimento civilizacional do homem – a ci- Mas, a Ciência é isenta da am-
ência se desenvolveu, nessa campanha, não guiada bição política, e mesmo da mais atroz
pela liberdade de troca de informações e envolvi- característica desta?
mento internacional, mas pela busca dos meios de
derrotar o inimigo nessa área. Na ocasião, a pró- O Manifesto
pria ciência foi subjugada pelo interesse político
de ganhar no campo científico, fazendo prevalecer Há uma questão derivada e,
o poder que dessa tecnologia se poderia adquirir. mesmo aqueles que se encorajaram a
Mencionando o redator diplomático da agência respondê-la negativamente, se alinha-
Reuteurs, que anunciou que “essa invenção tornou ram ao pensamento tradicional que
caducos os tratados ou sem valor as próprias deci- impuseram ao cientista quase o título
sões de Potsdam” (CAMUS, 1945), Camus afirma de rei-filósofo. A questão derivada é:
que é inevitável supor nesse belo acordo “intenções Se as Ciências não são isentas de am-
muito alheias ao desinteresse científico” (CAMUS, bição política, seriam isentas da atroz
1945). política do genocídio? A resposta, dada
O fato assustador é que, sob o pretexto da pelo manifesto A Concepção Semânti-
“maior campanha científica da História”, , estão ca- ca da Verdade, de 1929, é sim.
dáveres de ao menos 140 mil pessoas, mortas em Já no início do manifesto, os au-
decorrência do ataque à Hiroshima somente até o tores cravam posição na história da Fi-
final de 1945. A partir do dia 6 de agosto de 1945, losofia, opondo-se ao pensamento me-
surgiu a sensação de que “não importa qual cida- tafísico. Resistem, dizem, a esse atraso
de mediana, pode ser totalmente arrasada por uma que “volta a crescer”, fortificando-se
bomba do tamanho de uma bola de futebol”, em sob a tradição iluminista e “de pesqui-
nome de algo que realmente se trata, ou se trans- sa antimetafísica dos fatos”. Afirmam
veste, de progresso científico. Viu-se que mesmo ainda que a linha cientificista de pen-
um empreendimento científico - desenvolvido samento também estava se desenvol-
por cientistas como Oppenheimer, Van Neumann, vendo e encontrando espaço em todo

30
posição filosófica por elas guiada, mora o esforço que leva
a um mundo melhor, sobretudo, do ponto de vista político
e social.
A ligação entre a Concepção Científica de Mundo
e tais esforços iluminados é estabelecida no fato de que
todos aqueles que partilham da “atitude fundamental” da
concepção científica de mundo buscam “um sistema de
fórmulas neutro, um simbolismo liberto das impurezas
das linguagens históricas”; sobretudo, constata-se que, se-
o mundo ocidental, da “nova Rus- gundo essa concepção, “não há ‘profundezas’, a superfície
sia” aos Estados Unidos, passan- está em toda parte”. É tentador relacionar, segundo esse
do pela Alemanha e, obviamente, ponto de vista, as justificações do genocídio de Hiroshima
por Viena. O que, na visão desses à profundeza metafísica que se impõe às atitudes dos ho-
pensadores, une os progressistas mens. Nesse caso, foi o próprio progresso inequívoco da
de todos esses lugares é a aversão ciência – nas palavras de Truman, “o domínio sobre a mais
à especulação pura, à metafísica fundamental força da natureza” – que se fez profundeza. A
e, como Ernst Mach, a busca pela própria Ciência, aparentemente refratária às profundezas
explicação mais empirista possí- obscuras, não teria, ela mesma, se transformado em pro-
vel. Citam do marxismo à escola fundeza? Não seria, então, possível que o progresso cientí-
econômica da utilidade marginal fico justificasse a morte?
como forças iluministas contra a Não, a morte não, pois a ciência não poderia se
obscuridade do pensamento me- prestar a isto! Diriam os autores do manifesto positivista.
tafísico. Afinal, afirmam que a concepção científica admite, como
A posição defendida por os sofistas, que “tudo é acessível aos homens e o homem é
eles se faz mais clara quando de- a medida de todas as coisas”. Mas, esse homem fim, sobre
claram que, a despeito de toda di- o qual tudo converge e a quem tudo serve, certamente não
ferença que poderia ser encontra- eram os habitantes de Hiroshima. Esses foram, inequivo-
da entre esses pensadores, o que camente, meio. Não ao “nobre” fim utilitarista de salvarem
os unem é a Concepção Científica a vida de 500 mil soldados norteamericanos através de
de Mundo e, como consequência, seu sacrifício imposto, mas meio para um fim cujas con-
“os esforços pela reorganização sequências são mais duradouras, e menos éticas, de evi-
das relações econômicas e sociais, tar a entrada da União Soviética na guerra contra o Japão
pela unificação da humanidade, (GOLDSCHMIDT, 1980, p. 32). Nesse sentido, Magalhães
pela renovação da escola e da edu- (MAGALHÃES, 2005), historiadora brasileira residente
cação”. É claro que o manifesto em Hiroshima, sugere que a decisão dos Estados Unidos
apresenta uma ligação inequívo- de lançarem o ataque nuclear se deu em decorrência às
ca entre a concepção científica de discussões da conferência de Yalta, na qual Stalin decidiu
mundo e a direção progressista da que no dia 8 de agosto de 1945 a União Soviética declararia
humanidade. Que no empirismo e guerra contra o Japão, o que custaria, nos cálculos estra-
na metodologia própria e exclusi- tégicos norteamericanos, a influência dos Estados Unidos
va das ciências, imbuídas de uma na península da Coreia. Mesmo o Conselheiro de Segu-
rança Nacional norteamericano, McGeorge Bundy, disse

31
em 1990 que a destruição de Hiroshima foi “totalmente desnecessária” do
ponto de vista militar (p. 13).
Ao apresentarem os desenvolvimentos positivos nas ciências so-
ciais, os autores do manifesto afirmaram que essa área sempre gozou de
mais autonomia com respeito à metafísica, talvez, por que termos como
“guerra e paz, importação e exportação, estejam mais próximos à experi-
ência imediata do que conceitos como átomo e éter”. Condenam, no entan-
to, o termo “espírito do povo” como metafísico e que, consequentemente,
deve ser eliminado das análises políticas e sociais. Ora, seria tão diferen-
te o termo “espírito do povo”, daquele usado pelo jornal Le Croix, “avan-
ço científico de valor inestimável” (CAMUS, 1945)? Não seriam, como já
salientamos, a justificação do uso da bomba o aprofundamento indevido
de uma superfície incômoda e claramente atroz? Mas, de novo, não foram
exatamente aqueles cujos esforços deveriam levar necessariamente a “uma
reorganização da ordem econômica e social e a unificação da humanidade”
que possibilitaram, desenvolveram e executaram um dos maiores ataques
à vida e a dignidade humana, na enorme maioria civil, já realizados?

O Físico

Werner Heisenberg, físico alemão preso no dia 4 de maio de 1945,


fora levado a uma prisão nos arredores de Cambridge, juntamente com ou-
tros dez físicos. Heisenberg era um dos principais nomes da nova física, a
física quântica. Ele desenvolveu a mecânica matricial e o princípio de in-
certeza e, juntamente com Niels Bohr, ajudou a construir a Interpretação de
Copenhague, visão que se tornou hegemônica a partir da década de trinta e
teve vida longeva. Heisenberg, muito por influência de Bohr, interessara-se
pela Filosofia e a ontologia por detrás da física e partilhava, até então, da tal
concepção científica de mundo, desenhada no manifesto de 1929.
Heisenberg foi um dos físicos que permaneceram na Alemanha na-
zista. O motivo para tal é ambíguo, pois, de um lado, a sua visão conserva-
dora e nacionalista era inegável, o que não o opunha ao regime, mas por
outro, o antissemitismo o incomodara a ponto de ser visto com suspeitas
pelos oficiais nazistas, sobretudo com respeito à sua amizade com Bohr (di-
namarquês de origem judaica) e sua admiração por Einstein. Sua perma-
nência na Alemanha lhe rendeu o posto de chefe do esforço de pesquisa
alemã para a energia atômica e uma passagem para uma prisão rural na
Inglaterra após a queda do terceiro reich.

32
No cativeiro, descobriu por meio de correto, de que tinha consequências proveito-
Wirtz, físico alemão, colega de cárcere, que sas e, acima de tudo, era o sinal de um novo
havia ocorrido o ataque nuclear à Hiroshima. passo rumo ao progresso inequívoco trazido
Otto Hahn –físico que, juntamente com Lise pela ciência.
Meithner, desenvolveu a fissão do urânio em Também era evidente que o ataque so-
laboratório – ficou em estado de choque, segun- mente foi possível através das pesquisas das
do testemunho de Heisenberg. Friedrich e Hei- décadas que antecederam o genocídio. O co-
senberg, com receio de que Hahn se suicidasse, nhecimento, movido pela curiosidade ineren-
ficaram à porta do quarto do colega e na ma- te ao homem, estabeleceu as bases da bomba.
nhã seguinte, discutiram durante um passeio Mas, certamente não foi uma relação direta de
pela prisão rural a respeito da responsabilidade causa e efeito, afinal, a pesquisa que envolveu
que eles, e principalmente Hahn, poderia ter no um desenvolvimento caro e secreto nada seria
genocídio. Heisenberg duvidava até então que se aqueles homens houvessem dito “Não!”. É à
houvesse possibilidade de manipular a fissão essa pergunta que Heisenberg deseja respon-
a ponto de conseguir uma bomba e, principal- der, por que eles, pois claro que ele também
mente, que os cientistas se prestassem à essa estava incluído, não disseram: “não”? Se havia
empreitada (HEISENBERG, 1996, p. 226). Para necessariamente tão forte sentimento huma-
ele, uma empreitada tão tenebrosa e tão clara- nitário nos homens de ciência, o que poderia
mente dedicada ao extermínio seria exatamen- ter se sobressaído à essa força?
te o oposto da ciência. Sua surpresa tocava aos Lembrando a máxima tão conhecida
físicos envolvidos, não à sanha de conquista “saber é poder”, Friedrich afirmou que en-
militar e política que motivou o ataque. quanto não houvesse um governo mundial,
Heisenberg reconhece, agora sem som- ou algo similar, o desenvolvimento científico
bra de dúvidas, que ser um cientista não bas- permaneceria atrelado à “luta pelo poder na
ta para trazer a razão e direcionar os esforços terra” (HEISENBERG, 1996, p. 228) e o desen-
para a unificação da humanidade e a busca de volvimento de conhecimento potencialmente
um mundo melhor. Aceitando que o cientista úteis para fins bélicos continuaria de maneira
precisa se posicionar, que sua atividade não frenética. Ressaltando a relação entre o desen-
implica, como pensavam os positivistas, uma volvimento científico e as possibilidades bé-
posição política pacífica, qual foi a responsabi- licas de seu uso, Friedrich manteve-se firme,
lidade dos cientistas envolvidos? Uma respon- afirmando que “nossa tarefa é guiar esse de-
sabilidade salta aos olhos, a justificação segun- senvolvimento para fins corretos, não impe-
do os textos jornalísticos dos periódicos pelo dir o desenvolvimento em si” (HEISENBERG,
mundo. A morte foi encoberta pela magnífica 1996, p. 228). Friedrich aponta a questão in-
luz de 12 megatons do controle da natureza e dividual, se questionando: “o que pode fazer
suas possibilidades. Houve o anúncio injusti- cada cientista para ajudar nessa tarefa e quais
ficável de uma relação de implicação entre os são as responsabilidades do pesquisador?”
eventos trágicos de 6 e 9 de agosto e as mara- O indivíduo e seu papel na história,
vilhosas possibilidades daquele domínio. Os essa é a questão crucial, advertiu Heisenberg.
cientistas emprestaram o seu nome e prestígio Para o físico, o papel individual é menor, visto
à essa justificação. A autoridade sobre o conhe- que “todo indivíduo é substituível”. Se o papel
cimento de que gozavam Oppenheimer, Fermi, lhe é atribuído pelos eventos históricos, ao se
van Neumann, Einstein e Feynman ofereceu a negar, outro estaria em condições de realizá-
segurança para os incautos de que aquilo estava -los com mais, ou menos, tempo. A responsa-

33
bilidade é restrita às declarações e campanhas os desdobramentos de tal invenção eram im-
contra o que acha errado nos diversos usos de previsíveis, mesmo se esse tivesse sido este o
sua descoberta. De outro lado, o inventor é o motivo, o que claramente não foi. A invenção e
responsável direto pelo artefato e seu uso nem a disposição mostrada pelos Estados Unidos de
sempre lhe foge à previsão. Tal cisão é aparen- usá-la causou, profetizaram, um desequilíbrio
tada, pensamos, com a cisão entre ciência e tec- irremediável entre os países. As catastróficas
nologia. A aplicação prática de uma teoria para possibilidades já eram, para esses físicos, mo-
o desenvolvimento de um artefato é, muitas ve- tivos suficientes para dissuadir os Estados Uni-
zes, alheia ao interesse do inventor, que inventa dos do uso da bomba atômica. Sobretudo, com
sob ordens de um grupo (HEISENBERG, 1996, a guerra já ganha.
p. 229-30). Contudo, mesmo dependendo de Não por coincidência, os cinco países
interesses alheios para desenvolver seu projeto, que conseguiram obter a bomba atômica, cujo
há a possibilidade de enquadrá-lo em um con- poder “ameaça todas as conquistas da civili-
texto mais amplo, propriamente progressista, e zação” (GOLDSCHMIDT, 1980, pp. i-ii) são
comprometer-se com princípios mais nobres exatamente aqueles que formam o conselho de
ou humanitários. segurança da ONU, que têm a responsabilida-
Friedrich insistiu na responsabilização de de manter a paz e aos quais são atribuídos
dos pesquisadores envolvidos por não terem se o poder de veto. Após Estados Unidos e Reino
comprometido com uma atuação política mais Unido, a União Soviética, em 1952, a França, em
progressista. Agora, diversamente do pensa- 1960 e a China, em 1964 passaram a compor o
mento do manifesto positivista, a pesquisa conselho de segurança da ONU ao passo que
científica somente converge com uma política conseguiam desenvolver a Bomba Atômica (p.
progressista se houver um comprometimento 13-4). Este poder decide as linhas gerais das
do pesquisador. O cientista não é um político, decisões mundiais, eliminando as questões - a
comprometido com a “unificação da humani- esses - indesejáveis. São os países que exercem
dade”, se não se posicionar e por isso lutar. Hei- sua influência em todo o globo e decidem o que
senberg menciona que, talvez, ele e Friedrich é pela paz e o que é contra ela. Os verdadei-
houvessem tido mais sorte do que aqueles que ros Leviatãs que decidem o certo e o errado na
estavam do outro lado do Atlântico. Essa afir- maior e mais importante organização política
mação é importante, seriam aqueles que par- internacional já criada. Friedrich estava certo,
ticiparam, de certa forma reféns? Estariam em saber é poder. Nesse caso, ter em mãos o maior
condições de imporem sua visão? É possível poder de destruição já imaginado.
que a ordem de construírem uma bomba não
estava suficientemente clara a respeito dos fins O Iluminista
dessa campanha?
Na visão dos físicos, seriam esses even- Já no período iluminista, havia uma voz
tos, sobretudo o genocídio de Hiroshima, ine- destoante do entusiasmo a respeito de suas
vitáveis. A força continuaria sendo a primeira possibilidades, de seu uso e, mesmo, de suas
opção para alcançar um fim. Respondem, mes- motivações, Rousseau. O filósofo advertiu, em
mo sem contato com o argumento de Truman, 1750, à Academia de Ciências que nem tudo são
à manca versão oficial de que ao apressarem o luzes na razão e, mais do que isso, que a escu-
fim da guerra, as bombas salvaram vidas. Ora, ridão lhe é inerente e irremediável. A razão se-
riam

34
as “guirlandas de flores” (ROUSSEAU, 1999, p. 190)
sobre as correntes que nos aprisionam. A submissão
inescapável ao poder da bomba atômica, aos vetos
dos pioneiros nas importantes discussões da ONU
e garantir o maior poder de destruição
e ao poder constituído nos países que podem des-
possível. Essas questões científicas fo-
truir cidades em poucos minutos é adornada, como
ram tratadas da forma racional, de ma-
Camus deixou claro, pelas possibilidades do contro-
neira que é impossível negar o caráter de
le das forças nucleares, do conhecimento constante
Ciência à pesquisa como um todo, nem o
e ininterrupto, custe as vidas que custar. Mas, claro
caráter político à atividade desenvolvida,
que isso são somente guirlandas, o essencial conti-
definido desde suas motivações. A inser-
nua sendo o jogo de interesses e de poder. A influên-
ção social à qual toda atividade humana
cia no leste da Ásia, a exibição de seu poderio e o po-
se desenvolve marca a direção ética e po-
der que veio de todo esse esforço são o que há, aquilo
lítica que tal atividade irá seguir. Dado o
que aprisiona o acorrentado. As guirlandas enfeitam,
objetivo a mãos competentes daqueles
mas também foram elas que possibilitaram essa pri-
cientistas, seu fim estava traçado e, dada
são.
a importância política desse fim, que de-
O iluminista apresenta uma visão crítica aos
terminou os rumos da política mundial
desenvolvimentos científicos, evocando o saber dos
ulterior, suas consequências estavam de-
antigos, cita os mitos gregos e egípcios para alertar
terminadas. Todo aquele esforço racio-
que “não se encontrará no conhecimento humano
nal de destruição ganhou vida própria, a
uma origem que satisfaça a ideia que se gosta de for-
bomba passou a ser um fim em si mes-
mar” (p. 230). As ciências são desenvolvidas no seio
mo, ou quase.
da sociedade e, com essa, partilha os anseios e, so-
A especificidade do projeto da
bretudo, as ambições. Desde suas origens históricas,
bomba se dá pelo caráter de arma der-
a Ciência é marcada pelos direcionamentos polí-
radeira. Se Rousseau viu nos desenvolvi-
ticos que a permite e motiva. O projeto Manhattan
mentos civilizacionais o enfraquecimen-
somente ocorreu pela sanha de dominação daque-
to do caráter do homem grego, outrora
les que o patrocinaram e, a serviço destes, a Ciência
duas vezes vencedores contra a Ásia (p.
compartilha das responsabilidades das consequên-
193), a ponto de leva-los à derrota contra
cias. O poder é o que antecede a ciência, sua origem
os macedônios, tal raciocínio já não se
primordial. Isso não a despe de desinteresse, mas
aplica aos desenvolvimentos científicos
esse terá lugar somente quando esse espaço não for
atuais. A mudança se deu por duas ra-
essencial para os rumos políticos do poder dominan-
zões: a força inigualável de destruição e a
te. Isso significa que a Ciência nunca pode ser neutra
desumanização do ataque, do agressor e
politicamente.
da vítima. A partir daquele momento, di-
Em sua atividade o cientista não é mais, nem
ferentemente do discurso oficial de Tru-
menos, político do que qualquer outro em sua pró-
man, não foi o homem que subjugou a
pria atividade. No isolamento de Los Álamos, os físi-
natureza, mas a guerra que se tornou de-
cos se debruçaram sobre problemas de alta comple-
finitivamente autônoma do homem. Os
xidade para a viabilização do projeto. Vários testes
interesses que movimentavam os bata-
foram realizados para decidirem sobre qual o isóto-
lhões e tinha suas limitações e possíveis
po de Urânio deveria ser utilizado, qual o processo
fracassos delineados pelas característi-
ideal para enriquecê-lo, qual formato da bomba ide-
al para atingir a massa crítica no momento correto

35
cas humanas, agora se delineia pela força destruidora das conquistas
tecnológicas e limita-se somente pela posse do meio de desenvolvê-
-las
O cientista se vê em uma disputa de interesses econômicos que, ao
mesmo tempo que subjuga a atividade científica, possibilita material-
mente a pesquisa, mesmo a mais remota e abstrata pesquisa teórica.
Para fazer valer os princípios progressistas supostamente intrínsecos
à atividade científica e, como fantasiou Heisenberg, dizer “não!”, o
cientista deve negar a si próprio enquanto cientista. Entrevê-se nesse
episódio que o cientista é uma entidade social que ultrapassa as deli-
berações e anseios da razão e da moral humana e, por isso, a Ciência
nunca estivera, de fato, sob o domínio dos homens. No entanto, os
caminhos da Ciência – que nunca foram apartados do poder político
e dos vícios das sociedades – desde de o teste em Trinity Site no dia
seis de julho de 1945, passaram a possibilitar aos detentores da bom-
ba o poder absoluto.

Bibliografia

CAMUS. (8 de agosto de 1945). L’Enfer et la Raison. L’Combat, 1.


GOLDSCHMIDT, B. (1980). Le Complexe Atomique. Paris: Libraire Àrtheme
Fayard.
HEISENBERG, W. (1996). A Parte e o Todo. Rio de Janeiro: Contraponto.
MAGALHÃES, F. T. (2005) – 6 de Agosto de 1945; Rio de Janeiro: Contraponto
ROUSSEAU, J. (1999). “Discurso sobre as Ciências e as Artes”. Em ROUSSEAU,
Rousseau 2 (pp. 181-215). São Paulo: Abril Cultural.

Fonte:
Revelada nos EUA e Inglaterra a invenção da arma de maior poder destruidor
de toda a guerra. (7 de agosto de 1945). Folha da Manhã, 1-2.

36
CRÍTICA
DO SENSO COMUM MILITANTE
Vai-se desde uma teoria do reconhecimento até um Heidegger filtra-
do por autores franceses do fim do século passado… Essa não organi-
cidade é um dos aspectos crucias do senso comum militante

por Thiago Martins

Não é de hoje que a importação de ideias é leira, continua-se a seguir a moda intelectual
tema no Brasil. Há toda uma tradição crítica que internacional, por vezes tão banal e pouco in-
podemos remontar a Antonio Candido, Rober- ventiva?
to Schwarz, Paulo Arantes e outros que fizeram Essas duas questões são muito impor-
desse problema tema de suas reflexões. Entre- tantes e o desejo de respondê-las muito salu-
tanto, parece ainda fazer sentido desvelar a gene- tar. No entanto, faremos o caminho contrário:
alogia das ideias que aportam aqui no Brasil, no mostrar que função desempenham aqui estas
qual, exceto em alguns pensamentos já bastante ideias. Dizendo de outro modo, qual o arranjo
desprovincianizados, insiste-se na submissão que tomam aqui estas ideias e a que interesses
tradicional do que se pensa no país ao que está servem. No mar de opções que ilustrariam esse
na moda no centro do mundo. fenômeno, escolheremos somente alguns que
O centro do mundo, porém, está sempre se apresentam hoje como a moda mais visível:
mudando. Ontem foram as culturas da Europa a política de identidades.
rica: França, Inglaterra, as vezes até Alemanha�
hoje, o império dos Estados Unidos. Naqueles ou I. Privilégios e opressões
nestes o processo é muito similar: a voga das te- Todos aqueles que participam de alguma dis-
orias do momento abafam e mesmo obstruem o cussão a respeito das questões identitárias
desenvolvimento de tradições que a muito custo ouve por todo lugar o mesmo vocabulário: visi-
se esforçam por desenvolver aqui. Mas, como é bilidade, legitimidade, lugar de fala, privilégio,
que se dá essa importação? Porque afinal de con- sofrimento etc. Se não fosse a ocorrência cons-
tas, se possuímos essa tal tradição crítica brasi- tante, esse rol de palavras seria simplesmente

37
II. Ele está no meio de nós
O que primeiro descobri é que se trata
o resultado comum de um debate, noções que se de um senso comum. Há vários pensadores
mostraram as mais capazes de expressar as con- que sistematizaram e pensaram isso que se
clusões teóricas a que esses grupos chegaram, ou fala a torto e a direito, mas não somente são
a síntese de pensamento de um movimento. Não raramente citados, o que por si só não é um
cremos que seja assim. problema, afinal movimentos sociais não são
Certa vez, ao participar de uma roda de grupos de estudo; mas também trata-se sem-
conversa sobre sexualidade, ouvi de uma parti- pre das mesmas palavras, ditas do mesmo
cipante: “Os gays, por serem cis, detêm privilé- modo, com o mesmo sentido e não é possí-
gio em relação aos bissexuais, estes não-binários. vel que uma corrente de pensamento tenha
Uma família aceita melhor um parente gay por tamanha coesão, ou limitação, que obrigue a
que ele é só isso, gay, algo facilmente identifica- repetição ipis literis de um vocabulário.
do, já os bissexuais aparecem para a sociedade Já pela leitura dos termos, podemos
como pervertidos, por oscilar entre homens e observar a salada conceitual que está diante
mulheres. Os gays oprimem os bissexuais.” de nós: vai-se desde uma teoria do reconheci-
Obviamente me espantei com a declara- mento até um Heidegger filtrado por autores
ção. Não somente era uma novidade que os gays franceses do fim do século passado� Essa não
fossem melhor “aceitos” socialmente por serem organicidade é um dos aspectos crucias do
“simples”, mas também que eles fossem opresso- que estou chamando aqui de senso comum
res e como tais seria preciso “desconstruir” seus militante.
“privilégios” tomando-lhes a fala. Porém, se ob- Como acontece às várias espécies de
servada a lei de visibilidade do sofrimento bisse- senso comum, o todo é mais importante que a
xual, isto é, a adesão silenciosa ao discurso teste- articulação entre as partes: é preciso torná-lo
munhal, os gays seriam admitidos como aliados. um credo em que as passagens e mediações
Saí logo depois. Com a exceção de uma são frágeis, inclusive para a sua adaptação e
fala, de um gay, todos as outras faziam coro a pequenas alterações que não afetem o todo.
essa profissão de princípios: “desconstrua seus Que os pobres não gostem de trabalhar e por
privilégios ou senão fora!”. Como ainda era um isso são pobres o senso comum preconceitu-
mistério para mim o sentido de “desconstruir oso sabe, mas se perguntarmos a ele os moti-
privilégios”, peguei minhas coisas e fui embora vos históricos, sócias e políticos desse “fato”
com uma questão: como fomos parar aqui? não haverá resposta que não seja um círculo
Esse pequeno relato serve de amostra do vicioso e reposição da mesma tese. No senso
que impera nas discussões desse gênero. Partici- comum que apontamos aqui há um complica-
pei de várias outras, em algumas delas com pes- dor, entre muitos: a ação política. Fim último
soas bastante estudiosas e militantes, e sempre de tais formulações, a todo tempo a ação polí-
me deparava com aquelas mesmas palavras e tica flagra a inadequação dos usos e prejuízos
lema: desconstrói-te ou fora. Até que decidi afi- dos resultados. Mas o círculo não se quebra e
nal, agora me haviam revelado que nós gays opri- a tese ressurge intacta reiniciando o percurso
míamos e invisibilizávamos, o que é inadmissível argumentativo.
para aqueles dentre nós que lutam pela emanci- Vejamos um exemplo, do que chamo
pação social e política, decidi estudar como esta-
va a situação desse vocabulário, seus usos e suas
consequências.

38
coeficiente de sofrimento, operação pela qual se
estabelecem os valores e contra-valores das falas
políticas e de seus locutores.
Se houver um debate em que estão pre-
sentes mulheres e homens, as mulheres detêm o
“lugar de fala” principal. Havendo mulheres ne-
gras, este lugar passa para elas. Se houver ainda
mulheres negras habitantes da periferia, o bastão
está nas mãos delas, até que se chegue até a fala
detentora do maior coeficiente de sofrimentos e
a infinita modulação de sua identidade.
Ora, ninguém negará que a opressão so-
cial nestas mulheres apresenta a sua face mais
cruel, violenta e inumana; que as mulheres de
classe média e da elite estão submetidas a opres-
sões de tipo aparentemente mais brando e que
estas últimas pertencem, em geral no Brasil, as
mulheres brancas. Até aqui, nada que não seja
em que o existente é o necessário.
admitido por qualquer um com sensibilidade e
Ocorreu-me outra história. Um co-
posição política progressista.
nhecido me contava a sua mais recente
Os objetivos porém não são aqueles fami-
aflição. A relação que mantinha com sua
liares a esquerda. Primeiramente, trata-se, antes
companheira estava muito mal e ele busca-
de tudo, de uma questão de autoestima. As pesso-
va uma solução. Pelo seu relato ela recusava
as com o maior coeficiente de sofrimento sofrem
manter uma conversa decisiva sobre isso
com a sua imagem discriminada pela sociedade,
lhe causando bastante confusão. Depois de
discriminação que chega aos níveis mais íntimos
me pedir um conselho, eu lhe sugeri que
como o da beleza e dos relacionamentos amoro-
dissesse a ela seus sentimentos, expectati-
sos. Depois, espera-se que estas pessoas deem
vas e frustrações. Ao que ele me respondeu:
testemunho de sua vida, seguido de um empieda-
Mas isso seria machista!
mento mudo. De outro modo, será invisibilização
Ouve uma palavra de ordem usada
de sofrimento. Não estamos longe do sublime da
por feministas no século passado que dizia
imitação de Cristo prescrita por certas vertentes
“tudo é político”. Com isso se quis dizer que
cristãs: quem carrega consigo todos os sofrimen-
as questões privadas, como a violência do-
tos do mundo?
méstica, são politizáveis. O ganho foi enor-
me, já que com isso o que antes era con-
III. O privado, o íntimo e o público
siderado privado, assunto a ser resolvido
O outro aspecto que me chamou a aten-
unicamente pelos envolvidos era agora as-
ção quando investigava esse admirável mundo
sunto público e legal. Tudo o que é privado
novo contemporâneo foi como são tratadas as
é politizável. Mas a modernidade inaugurou
relações eróticas por esse senso comum. O lado
também um outro espaço: o da intimidade.
mais francamente fascista dessa política. Digo
Esta herança rousseauista se tornou para
fascista apesar do desgaste que esta palavra vem
muitos um dos poucos lugares que resta-
sofrendo, o nosso tempo é um tempo sombrio!
vam da privatização da vida operada pela
Mas que ainda tem o que dizer. Utilizo-a signifi-
sociedade burguesa.
cando uma socialização completa dos indivíduos
Se as feministas hoje separam dois

39
tipos de feminismo, aquele primeiro moralista e essencialista e o contem-
porâneo revisionado, a atuação militante tem se mostrado bem aquém das
mudanças teóricas. Os aspectos mais profundos das relações estão sob o
policiamento paranoico de uma moral puritana na qual as relações livres
são aquelas do contrato. Toda a sutileza do erótico deve sumir e assumir
uma roupagem limpa, translúcida. Somente consciências sabedoras de
seus interesses e dispostas a aceitar os termos do contrato são admitidas
como capazes de relações amorosas.
Vemos esse policiamento, não exclusivo a algumas feministas é cla-
ro, expresso em lugares insólitos: desde a disposição mais “democrática”
das cadeiras em uma sala, até a horizontalidade comunitária de todos fa-
larem sentados. Há um rito para tudo aquilo que se considera importante:
em mundo habitado por fantasmas é preciso mesmo munir-se de ritos de
conciliação com o outro lado. A paranoia se trasveste em fé e o político
esvanece�

Desconstrução ou morte!
Como o lugar de fala do escritor deslegitima o seu texto e ele não
tratou de se desconstruir, foi-lhe tirada a expressão. O autor então decidiu
enviar como resposta algo satírica este pequeno trecho de uma comédia
de ideias chamada “Desconstrução ou morte!”. Segue abaixo o texto assim
como nos foi enviado.
Os editores

— Este texto claramente foi escrito por um homem cis. A ironia com que
trata assuntos de delicadeza indizível é o sinal derradeiro de sua insensibi-
lidade e expressão acabada de seus privilégios ainda não desconstruídos.
— Mas o texto, na verdade, busca questionar o caráter autoritário de fixar
um vocabulário com expressão suficiente da verdade. Porque visibilidade
seria o melhor conceito?
— Visibilidade só parece inadequado aqueles que de tanto invisibilizar so-
frimentos já não percebe a violência disso�
— Mas por que esta palavra?
— Você não pode entender por que é homem cis.
— Sim, mas não sou capaz de pensamento?
— O pensamento racional falocêntrico eurocêntrico branco não nos ex-
prime!
— Pois então, recuso esta seita exotérica de fascismo light que insiste um
separar porque não entende a união. Que divide aquilo mesmo que a re-
produção das opressões exige que permaneçam divididos: os oprimidos!
A esse autoritarismo dizemos não! Não é a emancipação que buscam mas
poder, poder das paixões tristes que imperam nesta terra arrasada despro-
vida de crítica e radicalidade autêntica.

40
A NOÇÃO DE PARTILHA
RANCIÈRE E OS LAÇOS ENTRE ESTÉTICA E POLÍTICA

por Michelly Alves Teixeira


A partir da obra A partilha do sensí- From Jacques Rancière’s work The
vel, demarcamos com Jacques Rancière um distribution of sensible, we try to clarify
fio condutor que leva do filosófico ao polí- the thread that leads the philosophical to
tico, e mostramos as passagens propostas the political, and show the passages pro-
pelo autor que levam da arte à política. Para posed by the author to take art to politics.
isso, o artigo começa retomando suas teses The paper begins summarizing the theses
na obra O desentendimento, para mostrar in the work Disagreement: Politics and
a existência de um “comum” fundamenta- Philosophy, to show the existence of a
do em uma partilha dos espaços, tempos e “community” based on a sharing of spaces,
tipos de atividade que determina a maneira times and types of activity that determines
como um “comum” se presta à participação how this “community” lends itself to po-
e como uns e outros tomam parte nessa par- litical participation. At last, we search the
tilha. Após repor a questão tal como exposta same kind of questions in the book Ha-
nessas obras, o artigo volta-se a sua obra O tred of Democracy , trying to understand
ódio à democracia, e seu conceito de comu- his concept of political community as a
nidade política como um grupo de indiví- group of individuals governed by a power
duos governados por um poder e apresenta and their implications, possible limits and
algumas implicações, limites e superações overruns put by the author to representa-
possíveis postas pelo autor à democracia re- tive democracy in the contemporary social
presentativa no âmbito social contemporâ-
context.
neo.
Palavras-chave: Política – Democracia –
Key-Words: Politics – Democracy – Re-
Representação – Comunidade – Partilha –
presentation – Community – Distribution
Sensível – Comum
- Sensible
41
INTRODUÇÃO
A pesquisa tem como objeto alguns
textos de Jacques Rancière, e esse texto é
o Relatório Final da pesquisa proposta
para o Pibic-2015/2016 . Tem por objeti-
sição de espectador, agimos sobretudo como es-
vo mostrar como o autor problematiza a
pectadores do mundo e é por essa linha de pensa-
democracia desenhando certo bloqueio à
mento que retomamos sua crítica à democracia e
política, tendo-se por base bibliográfica
nexos desenhados por ele entre política e estética.
o seu Ódio à democracia. Em seguida, o
A proposta do artigo é mostrar como a partilha do
texto retoma suas teses em A partilha do
sensível delineia a estrutura da comunidade políti-
Sensível, para mostrar a existência de um
ca com base no encontro discordante das percep-
“comum” fundamentado em uma partilha
ções individuais, tendo-se por ponto de chegada
dos espaços, tempos e tipos de atividade.
que é mediante o encontro da estética com a polí-
Nos termos de sua leitura, trata-se de uma
tica que organizamos o sensível, é nesse encontro
partilha que determina a maneira como
que nos damos a entender, vemos e construímos
um “comum” se presta à participação
visibilidade e inteligibilidade dos acontecimentos
e como uns e outros tomam parte nessa
políticos. O regime estético da política revela-se
partilha. Desse modo, mediante a partilha
comprometido com o regime da política, regime
que constitui o comum, demarcamos um
de indeterminação das identidades, deslegitima-
fio condutor que leva do filosófico ao po-
ção das posições, desregulação das partilhas do es-
lítico, e mostramos as passagens propos-
paço e do tempo que é a própria democracia.
tas pelo autor que levam da arte à política.
Por fim, mostraremos como seu debate atravessa o
A formação da comunidade no período
campo da estética, da história da filosofia e da po-
antigo, segundo a leitura do autor em O
lítica, mesmo quando o assunto principal pareça
desentendimento, nos mostra como em
ser arte, imagem ou comunicação.
seu percurso o povo [demos] recupera o
reconhecimento de seu papel dentro da
1. AS RAÍZES DO CONFLITO POLÍTICO: DOMI-
comunidade. Ao recuperarmos o papel da
NAÇÃO DESIGUALDADE E DANO
democracia e o conceito de comunidade
política como um grupo de indivíduos go-
Com Jacques Rancière, podemos observar desde
vernados por um poder, uma minoria de
os tempos mais remotos da pólis grega aos nossos
oligarcas e algumas implicações da de-
dias, o quanto a política é a parte constitutiva da
mocracia representativa no âmbito social
formação do povo. Com os objetivos que a faz ser
contemporâneo, e valendo-nos do tex-
o que é atualmente, a política mantém o seu prin-
to O ódio à democracia, acompanhamos
cípio de igualdade e já foi fonte de confiança para
como a comunidade política passa por
o povo enquanto é possível acreditar que se reali-
oscilações, tendo-se a passagem para a
ze em âmbito social, mediante manifestações em
democracia como representação por nos-
multiplicidade de modos, buscando lugares ade-
so fio condutor. Como proposta de uma
quados para a deliberação e para a decisão sobre o
conclusão criticacrítica, traçaremos um
bem comum, da rua à fábrica. Conforme a chegada
esboço da passagem da política à estética
da modernidade, contudo, perdemos o caráter
posta pelo autor em A Partilha do Sensí-
vel, a fim de descortinarmos visibilidades
que estruturem nexos entre o papel da
arte nesse cenário político que apontam
horizontes para futuros desdobramentos
de nossa pesquisa.
Do autor tomamos sua tese de que, na po-

42
principal da política e hoje aceitamos com
desdém a opinião que se propaga de uma a causa fundamental do dano que não cessam
política incapaz de deliberar com o apoio de lhes causar. É em nome desse dano, que
da população, adaptada antes às exigências lhe é causado pelas outras partes, que o povo
do mercado mundial e preocupada com a – os pobres da antiguidade ou o proletariado
distribuição de lucros e custos a serem pa- moderno – torna-se a classe que causa dano
gos para se manter essas exigências. à comunidade. Nos termos de nossa leitura,
Aristóteles enumera os títulos de comuni- propomos a seguir definir os três campos
dade (axiai) na Grécia Antiga: a oligarquia que, segundo o autor, configuram as raízes
dos ricos, a aristocracia das pessoas de de um conflito no discurso político, da pólis
bem e a democracia do povo, e apresenta Grega à contemporaneidade, e apresentam
um desequilíbrio político que perturba a os riscos à política e a representatividade no
ordem hierárquica dessas partes da comu- contexto democrático: a dominação, a desi-
nidade e que se encontra nos degraus no gualdade e o dano.
qual a política constrói os seus princípios:
na igualdade e na liberdade. Ao nos deter- 1.1
mos no povo ateniense fadado a ser escra- Desde o período grego, Aristóteles nos
vizado pelo endividamento ou a qualquer apresenta o caráter político do animal huma-
um desses corpos falantes que trabalham no que é parte fundamental na pólis. O ho-
incessantemente, fadados ao anonimato do mem é o único entre todos os animais que
trabalho e da reprodução, comprovamos o possui a palavra e que possui o sentimento
papel dessa liberdade, reconhecida a todos do bem e do mal, do justo e injusto, de modo
e construída a fim de se impedir que a ri- a fazer desses sentimentos a constituição da
queza seja idêntica à dominação: ela per- comunidade. O que a palavra ou a capacidade
mite ao povo (demos) identificar-se com o de falar (logos) torna evidente para uma co-
todo da comunidade – assim, o nome da munidade é a sua capacidade de deliberação.
massa indistinta dos homens sem quali- A justiça, enquanto princípio de comunidade,
dade vê na liberdade a qualidade que lhes cuida das repartições e da maneira como são
falta, como virtude comum. dadas as formas de exercício de um poder co-
A liberdade vista pelo povo como uma mum presente nos cidadãos, essa justiça, en-
qualidade não “pertence” a eles. Sob a li- quanto virtude, não é o equilíbrio de interes-
berdade ilusória encontra-se o litígio que é ses ou reparação de danos , é a distribuição
igualitária de parcelas buscando a ordem que
determina essa divisão no comum.
Seguindo a leitura de Racière da obra Políti-
1 - “Dano. No original, tort. Indica o dano
causado a alguém, como sentido não apenas ca de Aristóteles, o autor enumera os títulos
físico, mas, sobretudo, jurídico” (n. do revisor de comunidade (axiai) como a riqueza dos
técnico, in RANCIÈRE, J. O desentendimen- poucos (os oligoi), a virtude (areté) que dá seu
to: Política e filosofia. São Paulo: Editora 34, nome aos melhores (aos aristoi) e a liberda-
1996, p. 20). de (a eleutéria) que pertence ao povo (demos)
. As axiai fornecem regimes particulares que
2 - “Parcela. No original, part (o termo fran- proporcionam a ordem e o bem comum den-
cês partie foi traduzido como parte). Designa tro da comunidade: a oligarquia, a aristocra-
a parte que cabe a alguém numa divisão ou cia e a democracia. A questão proposta por
distribuição, o quinhão que é dado a uma
Rancière nos ajuda-nos a identificar o que é
pessoa ou que legitimamente deveria ser
seu”. (idem, p.11).

43
a liberdade trazida pelas pessoas do povo à comunidade: existe um desequilíbrio que
perturba a estrutura da ordem enumerada por Aristóteles, porque, na capacidade polí-
tica detida apenas pelos homens de mérito, a distribuição igualitária das parcelas falha
e a liberdade da maioria dos homens comuns é revelada como um erro na divisão.
O problema na distribuição dessa parcela igualitária promovida pela justiça é que ne-
nhuma ordem política encontra-se definida. Para o autor, a política só começa quando
não se mantém equilíbrios de lucros e perdas e onde as parcelas do comum estão igua-
litariamente repartidas,
Para que a pólis seja ordenada conforme o bem, é preciso que as parcelas da comuni-
dade estejam em estrita proporção com a axia de cada parte da comunidade: ao valor
que ela traz para a comunidade e ao direito que esse valor lhe dá de deter uma parte do
poder comum.
Existe um erro na contagem das partes.
Hoje, a justiça existe com o intuito de im-
pedir que os indivíduos causem danos
recíprocos e em garantir lucros e perdas
no interior de comunidades que mantêm
relações entre os indivíduos e os bens, e
sacrifica o princípio real da justiça, que
é propor uma comunidade igualitária.
Quando a escravidão por dívidas foi abo-
lida, o povo considerava-se livre, mesmo
diante de inúmeros danos que o faz ser
parte dessa comunidade. Ao portar a pa-
lavra (logos), essa gente, fadada ao ano-
nimato, identifica-se como parte e como
força deliberativa do todo da comuni-
dade, buscando nessa liberdade ilusória
promovida pela divisão igualitária da po-
lítica, a liberdade como virtude.
Para Rancière, o nosso encontro com a
política se deve graças a esse partido dos
pobres, essa parcela de pessoas destitu-
ídas de igualdade. A política interrompe
esse efeito de dominação dos ricos e faz
com que os pobres existam enquanto entidade, provocando o desdobramento de um dano
ou do litígio no interior da comunidade. Para o autor, o dano não é somente a dissenção a
ser corrigida através da luta de classes. Mesmo que a solução seja dar a cada um a parcela de
terra igual, a constituição do dano tem raízes mais profundas, encontradas ainda no período
antigo, quando deixam de ser apenas pobres e passam a ser “o reino da ausência de qualida-
de, a efetividade da disjunção primeira que porta o nome vazio de liberdade, a propriedade
imprópria, o título do litígio” .

44
A guerra dos pobres e dos ricos no inte-
rior da comunidade se deve à negação
da política, pois, ao afirmar que não há
parcela dos sem parcela, ou seja, que não
há pobres no interior da comunidade,
também se coloca em risco a existência
da própria política, na medida em que “o
litígio em torno da contagem dos pobres
como povo, e do povo como comunidade,
é o litígio em torno da existência da polí- “a torção pela qual existe política é também a que
tica, devido ao qual há política” . institui as classes como diferentes de si mesmas”,
Ao observar os danos que essa classe de com isso, a formação da política é a mesma da luta
pessoas de mérito ocasiona ao povo atra- de classes, afinal o proletariado não é uma classe,
vés da dominação, conclui o autor que mas a dissolução de todas elas, e nisso é dada a
são inúmeros os exemplos que compro- sua universalidade, lembra o autor se reportando
vam que, seja o proletariado moderno a Marx .
ou os povos da Antiguidade, vive-se me-
diante a ilusão de liberdade, que seria an- 2. CONFLITO E REPRESENTATIVIDADE
tes a qualidade dos que não tem nenhu- Vivemos em Estados oligárquicos modera-
ma outra (nem mérito e nem riqueza). É dos fundados entre o poder das “elites” e o poder
com essa liberdade que o amontoado de de todos. Torna-se uma ameaça a ligação cada vez
“pessoas de nada”, na fórmula de Ran- mais forte entre o poder econômico e o poder es-
cière, torna-se o povo, a comunidade que tatal, consequência do confisco da democracia por
decide e que é maioria no lugar da assem- oligarquias. Com isso, hoje assistimos ao fortaleci-
bleia. Uma vez posta a minoria de mérito mento e à formação de um pântano fascista, capaz
e a maioria sem qualidade que delibera, de impulsionar um ódio à democracia.
mantém-se uma sociedade composta por Para Rancière, a democracia não é uma questão
duas partes: ricos e pobres. Para o autor, de instituições, mas de atividade. É o que aconte-
ce nas ruas, nas fábricas ou nas universidades, é o
que acontece hoje na internet, nas ocupações, na
sua transformação em espaço político e a tarefa do
povo é enxergar que a democracia confere auto-
nomia à forma de pensar e agir. Para isso, é exigido
que o povo destituído de liberdade note a impor-
tância de defendê-la como organização social ca-
paz de promover direitos a todos os que nasceram
sem títulos para exercer o poder.
Relevante ao momento político atual e por meio da
crítica à democracia no período antigo, Rancière
tece sua crítica à democracia representativa em
contraponto à democracia direta: a representação
não é resultado do crescimento populacional, mas
uma estratégia de manutenção do poder na mão
de poucos. Na obra O ódio à democracia, aprofun-
dando crítica posta em O desentendimento, o au-
tor problematiza a democracia desenhando certo

45
bloqueio à política, e nossa tarefa agora é acompanharmos como
a comunidade política passa por oscilações, tendo-se a passagem
para a democracia como representação por fio condutor.

2.1
O cenário explicitado por Rancière com o princípio da
voz e representatividade popular nos remete a novo percurso, à
ideia de representatividade parlamentar e ao problema da ade-
quação do exercício político, das forças presentes nesse âmbito e
ao paradoxo em torno de instituições representativas.
O paradoxo em torno da democracia e seu inicioinício se dá na
época em que a representatividade parlamentar torna-se alvo
de protestos e objeto de vigilância militante. Se, por um lado,
acompanhamos no decorrer da história gerações de militantes
socialistas e comunistas lutarem por uma Constituição, direitos
e funcionamentos institucionais, por outro lado, hoje a situação
encontra-se invertida, e os tempos presentes nos dão respostas
quanto a esse paradoxo: democracia aparece como a adequação
das formas de exercício do político dentro da sociedade às forças
que a movem e os interesses que a tecem, e não é mais de garantia
do poder do povo por meio de instituições representativas que se
trata.
Como saída desse impasse, o autor propõe que o sucesso da
democracia consistiria em encontrar nas sociedades uma coin-
cidência entre sua forma e seu ser sensível e em identificar a
manifestação sob forma de representação desse ser-sensível. O
problema é que essa ausência está sempre preenchida e o para-
doxo corresponde, nas nossas sociedades, à volta do povo, que
sempre aparece onde é declarado extinto.
Para uma analiseanálise aprofundada, o filósofo nos remete às
primeiras questões da ideia de democracia no âmbito da filosofia
política. A democracia provocou a filosofia política porque ela
não é um conjunto de instituições ou um tipo de regime, e sim
uma maneira de ser do político. Ela não é um regime parlamen-
tar ou o Estado de direito, ela deixou de ser um estado do social,
reino do individualismo ou das massas. A democracia torna-se o
modo de subjetivação da política – entende-se por política coisa
diferente da organização dos corpos em comunidade e da gestão
dos lugares, poderes e funções. Um dispositivo resumido em três
aspectos, primeiro, a democracia é o tipo de comunidade defini-
do pela existência de uma esfera de aparência especifica do povo
, aparência aqui como a introdução no campo da experiência de
um visível que modifica o regime do visível.
Segundo, os ocupantes dessa esfera de aparência possuem um
particular, um povo que não consiste em nenhum grupo social,

46
mas sobre-impõe à dedução das parcelas da sociedade a efetividade
de uma parcela dos sem-parcela. Em que o povo tem um duplo corpo
e essa dualidade é a do corpo social e de um corpo que vem remover
toda identificação social .
Terceiro aspecto da democracia, esse lugar de aparência predomi-
nante no povo é o lugar de condução do conflito/litigio. O litígio polí-
tico diferencia-se de conflitos de interesses entre partes constituídas
da população, já que é um conflito sobre a contagem das partes.

2.2
A democracia nasce em Atenas. Lá, a participação dos cida-
dãos na política, mediante distribuição de cargos por meio do sorteio
aleatório, é um governo de qualquer um. A vinculação do demos – o
poder ou o governo do demos – desenvolve um sintoma negativo em
torno da pólis. O resultado desse desagrado gira em torno de uma
minoria oligárquica e o essencial é fundamentar essa separação en-
tre democracia direta e representativa e a sua implicância no social.
Temos uma primeira manifestação de ódio ao conceito de democra-
cia lá na Antiguidade, graças aos que viam a ruína de toda ordem
legítima no inominável governo da multidão. Continuou sendo razão
de ódio aos que acreditam que o poder pertencia somente aos que já
eram beneficiados por ele desde o nascimento ou eleito por compe-
tências. Ainda hoje é odiada para aqueles que fazem da lei divina a
única forma de poder e legitimidade fundante de comunidades.
Sendo assim, afirma Rancière, a palavra democracia não designa for-
mas de sociedade de governo. A “sociedade democrática” é apenas
uma fantasia com a função de sustentar um principioprincípio do
bom governo . Não existe governo democrático propriamente dito.
Os governos se exercem sempre da minoria para a maioria e aqui o
3 - Rancière, J. O “poder do povo” é necessariamente o que separa o exercício do go-
ódio à democracia. verno da representação da sociedade.
São Paulo: Boitem- Assim a representação aparece assim, de pleno direito, como forma
po, 2014, p. 68. oligárquica, por ser representação das minorias com título para se
ocupar dos negócios comuns. É a partir desse percurso do governo
da maioria ao da minoria que se exige uma separação importante
entre questões postas sob democracia direta e sob democracia repre-
sentativa, a última sendo a marca registrada na sociedade moderna.
A evidência que assimila a democracia à forma do governo repre-
sentativo resultante de eleição é recente na história, mas esse modo
representativo é o exato oposto da democracia lá entre os gregos. O
autor declara que, mesmo onde é reconhecida a igualdade dos “ho-
mens” e dos “cidadãos”, tal igualdade é reconhecida na relação destes
com a esfera jurídico-política constituída e mesmo onde a soberania
é popular só o é na ação de seus governantes e representantes. Tal
igualdade faz distinção entre o público, que pertence a todos, e o pri-
vado, em que reina a liberdade de cada um, o que levaria à domina-
ção dos que detêm de poderes na sociedade.
Nesse compasso, a democracia caminha para além do âmbito dos

47
indivíduos empenhados em sua felici- tição de partes e lugares tem por fundamento uma
dade privada, ela é o processo de luta partilha de espaços, tempos e tipos de atividades
contra a privatização e o processo de que delineiam a participação desse comum e dessa
ampliação dessa esfera. Ampliar a es- partilha . Desse modo, mediante a partilha que cons-
fera pública não significa exigir a inter- titui o comum, demarcamos a seguir um fio condu-
venção do Estado na sociedade e sim tor que leva do filosófico ao político, e mostramos
lutar contra a divisão entre o público e as passagens propostas pelo autor que levam da arte
o privado. à política.
O processo democrático, portanto, O fio condutor é mostrar como a partilha do sen-
aponta o autor, implica: a ação de sujei- sível delineia a estrutura da comunidade política
tos que reconfiguram as distribuições com base no encontro discordante das percepções
do privado e do público, do universal e individuais, tendo-se por ponto de chegada como,
do particular. Esse processo deve trazer mediante o encontro da estética com a política, or-
de volta o significado da palavra de- ganizamos o sensível, nesse encontro nos damos a
mocracia, a rejeição da pretensão dos entender, vemos e construímos visibilidade e inteli-
governos de tornar/encarnar um prin- gibilidade dos acontecimentos políticos.
cípio uno da vida pública, circunscre-
vendo a compreensão e extensão dessa 3.1
vida pública. Se existe uma limitação Para Rancièrea o autor, a política tem sempre
para a democracia, ela reside no movi- uma dimensão estética, na medida em que ambass,
mento que desloca os limites do públi- estética e política, organizam o sensível. Afinal, toda
co e do privado, do político e do social. atividade comporta uma visão de espectador do
mundo e toda posição de espectador já nos deixa a
3. A ESTÉTICA COMO PARTILHA DOS possibilidade de interpretar com um olhar que des-
HOMENS FADADOS AO ANONIMATO via o sentido do espetáculo. Em A partilha do Sen-
Para responder questões sobre sível são delimitados os campos em que, na política,
atos estéticos que configuram na expe- com existência de um comum, e, na estética, dando
riência novos modos de sentir e induzir forma à comunidade, em ambas temos a repartição,
formas de subjetividade política, Ran- das partes e dos lugares, que se fundamenta em uma
cière traz, na obra O desentendimento, partilha dos espaços, tempos e tipos de atividades
análises dedicadas à “partilha do sensí- que determinam a maneira como um comum se
vel”, enquanto cerne da política . Nessa presta à participação e como uns e outros tomam
terceira parte de nosso relatório final , parte nessa partilha.
fecharemos nossa pesquisa com as ar- Nesse cenário macroestrutral, Rancière nos apre-
ticulações do regime estético das artes senta a partilha democrática do sensível, napela
e seus modos de transformação. Para qual se tira o homem, o trabalhador de seu espaço
isso, vejamos como o autor pensa o re- doméstico do trabalho e lhe oferece o “tempo” pre-
gime de identificação e pensamento das ciso para fazer parte das discussões públicas e man-
artes em seus modos de articulação e de ter a identidade de cidadão deliberante.
visibilidade, a fim de propor por essa A partilha do sensível é, portanto, o modo como se
via a ideia da efetividade do pensamen- determina no sensível a relação entre um conjunto
to. comum partilhado e a divisão de partes exclusivas.
Para Rancière, a partilha do sensível é Antes de ser o sistema de formas constitucionais ou
um sistema que revela a existência de de relações de poder, a ordem política é certa divi-
um comum e recortes que partilham são das ocupações, a qual se inscreve, por sua vez,
partes e definem lugares. Essa repar- em dada configuração do sensível, qual seja, na rela-
ção entre os modos do fazer, os modos do ser e os do
4 - Rancière. A partilha do sensível. São Paulo:
EXO experimental org. Editora 34, 2009, p. 11.
dizer, que efetiva a distribuição dos corpos políticos

48
de acordo com as atribuições e finalidades e a
circulação do sentido.
Para o autor, as ocupações definem compe-
tências, visibilidade e voz para participação na esfera pública com base em lutas histó-
no comum. Existe, portanto na política, uma ricas de inclusão entre eleitores e elegíveis,
“estética” que se define por exercer aquilo que temos reconhecida a qualidade de iguais e
é visto, o que é dito, competências para ver e de sujeitos políticos que conquistam o es-
qualidades para dizer. É a partir dessa visibi- paço público e deixam de ser parte excluída
lidade que a questão das “práticas estéticas” da sociedade dedicada à prática doméstica e
e de seu papel no comum firma-se e é com reprodutora.
Platão, por exemplo, que o autor destaca duas Para isso, o autor nos deixa como proposta
formas de efetividade do sensível: o teatro e a a partilha democrática do sensível, que tira
escrita. O regime estético da política revela- o trabalhador de seu espaço doméstico do
-se comprometido com o regime da política, trabalho e lhe oferece oportunidades para
regime de indeterminação das identidades e fazer parte das discussões públicas, manter
a deslegitimação das posições. Essa desregu- a identidade de cidadão deliberante e es-
lação das partilhas do espaço e do tempo é a quecer completamente que um dia esteve
própria democracia. fadado ao anonimato do trabalho, a fim de
definir competências, visibilidade e voz para
Considerações finais participação no comum. Existe, portanto na
Em companhia das críticas de Jacques política, uma “estética” que se define por
Rancière, podemos concluir que a palavra de- exercer aquilo que é visto, o que é dito, com-
mocracia não é capaz de designar nem uma petências para ver e qualidades para dizer.
forma de sociedade e nem uma forma de go- Com isso, fechamos nosso artigo acrescen-
verno. A sociedade democrática que conhece- tando que os desdobramentos no teatro e
mos é a fantasia que sustenta tal princípio do na escrita são formas de partilha do sensível
bom governo que, ao dispor de títulos, exerce que estruturariam as maneiras pelas quais
a autoridade. E, tanto no presente quanto no as artes podem ser pensadas e percebidas; o
passado, mediante essa mesma autoridade, problema agora é saber como se dariam sua
ainda somos sociedades organizadas por oli- inserção na comunidade, como se poderia
garquias. definir que obras ou performances “fazem
Para definir a democracia no seu sentindo lite- política” e como essas formas artísticas re-
ral, no seu sentido direto, a forma de vida dos fletiriam movimentos sociais, aportariam a
indivíduos passa longe da felicidade privada igualdade em todos os temas e destruiriam
apresentada como necessária para o convívio hierarquias, questões que abrem novos ho-
social. Ela tem a obrigação de ser parte de um rizontes e que, embora extrapolem nosso
processo de luta que caminha contra esse am- recorte proposto, precisam ser apontados
biente privado para assim garantir também como indicação de avanços e desdobramen-
que a dominação da oligarquia não predomi- tos de nosso artigo proposto aqui.
ne na esfera pública.
Quando há o reconhecimento da ampliação

Referências Bibliográficas
RANCIÈRE, J. O desentendimento: Política e filosofia. São Paulo: Editora 34, 1996.
__________. O ódio à democracia. São Paulo: Boitempo, 2014.
__________. A partilha do sensível, 2ª ed. São Paulo: EXO experimental org;. Editora 34, 2009.

49
TRÊS POEMAS DE LANGSTON HUGHES

Traduzido por Lucas Bertolo

O NEGRO FALA SOBRE OS RIOS THE NEGRO SPEAK OF RIVERS

Conheci rios: I’ve known rivers:


Conheci rios antigos como o mundo, mais I’ve known rivers ancient as the world and
velhos que older than
o correr do sangue nas veias dos homens. the flow of human blood in human veins.

Minha alma cresceu profunda como os rios. My soul has grown deep like the rivers.

Banhei-me no Eufrates quando a aurora era I bathed in the Euphrates when dawns were
jovem. young.
Construí minha cabana no Congo, e ali o I built my hut near the Congo and it lulled
sono me alentou. me to sleep.
Olhei para o Nilo, e levantei as pirâmides ao I looked upon the Nile and raised the pyra-
seu redor. mids above it.
Ouvi o cantar do Mississippi quando Abe I heard the singing of the Mississippi when
Lincoln desceu para Nova Orleans; e vi a sua Abe Lincoln went down to New Orleans, and
taciturna alma dourar-se ao pôr-do-sol. I’ve seen its muddy bosom turn all golden in
the sunset.
Conheci rios:
Rios antigos, escuros. I’ve known rivers:
Ancient, dusky rivers.
Minha alma cresceu profunda como os rios.
My soul has grown deep like the rivers.
.

50
FANTASIA EM PÚRPURA FANTASY IN PURPLE

Bata os tambores da tragédia para mim. Beat the drums of tragedy for me.
Bata os tambores da tragédia e da morte. Beat the drums of tragedy and death.
E deixe o coro cantar uma canção tempestu- And let the choir sing a stormy song
osa To drown the rattle of my dying breath.
Para afogar os ruídos do meu último suspiro.
Beat the drums of tragedy for me,
Bata os tambores da tragédia para mim, And let the white violins whir thin and slow,
E deixe os violinos brancos chiarem, finos e But blow one blaring trumpet note of sun
lentos, To go with me
Mas sopre no trompete uma estridente nota to the darkness
de sol where I go.
Para ir comigo
à escuridão
aonde eu vou. .

EU, TAMBÉM I, TOO

Eu, também, canto América. I, too, sing America.

Eu sou o mais negro irmão. I am the darker brother.


Eles me mandam comer na cozinha
Quando vem a visita, They send me to eat in the kitchen
Mas eu rio, When company comes,
E como bem, But I laugh,
E cresço forte. And eat well,
And grow strong.
Amanhã,
Estarei à mesa Tomorrow,
Quando a visita vier, I’ll be at the table
Ninguém ousará When company comes.
Dizer a mim, Nobody’ll dare
“Coma na cozinha”, Say to me,
Então. “Eat in the kitchen,”
Then.
Além disso,
Eles verão quão belo eu sou Besides,
E terão vergonha — They’ll see how beautiful I am
And be ashamed —
Eu, também, sou América.
I, too, am America.

Bibliografia
In: Hughes, Langston. The Collected Poems of Langston Hughes. New York: Vintage
Books, 1995
51
Volteios do tempo brasileiro1

por Bruno Carvalho

Na sessão da Câmara dos deputados de dependente de como esta seja qualificada. Fato
meados de abril de 2016, em que se deu o espe- é que também à esquerda essa ideia faz pensar,
táculo midiático-político do impedimento de a “obra” petista há muito distanciou-se das ex-
Dilma Rousseff, foi proferida uma declaração pectativas de setores significativos da esquerda.
de voto a favor de cujo autor não me lembro, É igualmente pelo não-cumprimento (para di-
mas à qual penso ser fundamental dar desta- zer o mínimo) de expectativas depositadas nos
que, pois talvez fale muito mais do que aquilo governos do PT em sua totalidade que muitos
deixaram de apoiá-lo.
que foi dito e acaba sendo uma espécie de sín-
Parece ser já um truísmo, mas insisto,
tese. Às vezes, basta uma frase para explicar as
não temos no jogo institucional, isto é, no pro-
razões latentes de certa ações.
cesso eleitoral, quase nenhuma expectativa.
Pelo conjunto da obra.
E isso em ambos os polos do espectro políti-
Deslocada do seu contexto de premia-
co: a descrença na política (2) nas instituições
ções e comendas, essa frase expressa o quanto
como maneira de construir uma nação (como
tudo que se pôde elencar de justificativa para
se isso ainda fosse possível num mundo como
o impeachment não passa de uma prestidigita-
o nosso, que outros já chamaram de “mundo
ção. Não foram pelos crimes de responsabili-
em rede”) está presente tanto nas falas daquilo
dade que podem constitucionalmente afastar
que se chamou de nova direita (veja-se o MBL,
um presidente, não foram pelas alegações for-
por ex. é uma expressão clara disso ou ainda
mais alegadas, nem foi pela crise econômica
um de seus Messias – o Jair –, que não titubeou
(que para alguns, em um reducionismo econo-
em afirmar que “através do voto você não vai
micista, foi o elemento detonador da instabili-
mudar nada nesse país, só quando partirmos
dade política), mas sim por tudo que o governo
para uma guerra civil”(3)) quanto na certeza
de Dilma tinha significado. Essa ideia expressa
de parcelas significativas de atores políticos à
sobretudo uma rejeição em abstrato e de forma
esquerda de que não se pode esperar nada (de
totalizante àquilo que os governos petistas rea-
bom) das instituições (a tática das ocupações de
lizaram, isto é, certa ojeriza à “obra” petista, in-

52
terras, prédios, reitorias e escolas, bem como os black- 1 - O texto a seguir é de uma nota men-
-blocs talvez possam ser compreendidas nessa chave.) tal, algo entre uma crônica política e um
Essa ausência de alternativa que represente os in- mero registro histórico. Foi escrito no
dia 12 de maio de 2016, quase um mês
teresses dos brasileiros não se dá porque “o país está divi-
depois dos dias da votação, 15 a 17 de
dido”, como tanto se alardeava logo após as eleições. Uma abril e agora revisado a ampliado para a
descoberta deveras inusitada, antes de tudo pela obvie- publicação na Revista Campo Aberto.
dade ancestral quando temos em mente a desigualdade
social, mas também porque abriria espaço para a ques-
tão: o que propiciou a percepção social da divisão apenas
depois da vitória apertada da Dilma? A quem interessava
apenas depois do resultado das eleições de 2016 colocar
na mesa qualquer sentido de divisão nacional? É bem
verdade que o sentido primeiro aqui concerne ao âmbito
político, trata-se de reclamar uma suposta ilegitimidade
para o governo, uma vez que até as urnas registraram que 2 - Segundo pesquisa realizada pelo
Ibope em 2015, há um Índice de
a falta de unanimidade. Mas isso poderia levar a crer que
Confiança Social que registra o des-
a caracterização do Brasil como dividido seria apenas crédito generalizado em relação às
de interesse daqueles que perderam as eleições, como instituições políticas ( https://noticias.
quem ameaça: nós perdemos, mas precisarão governar uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-
para nós também, não fomos derrotados. Por outro lado, -estado/2015/07/31/confianca-na-poli-
é inegável que o resultado das eleições expressou uma ci- tica-desaba-em-2015.htm ), mas, con-
são real, tanto assim que as tensões políticas conduziram venhamos, não é raro ouvir nos mais
até o impeachment. Nesse sentido, não haveria também diferentes espaços a ideia de que “todo
o período do dito lulismo contribuído para a construção político é corrupto”, o que expressa uma
da ilusão de que um consenso de classe fosse possível no sensação generalizada de que, por mais
políticas sociais que houvessem, “cada
país? Ao que parece, parcela significativa da população
um se vira como pode”.
brasileira (num cálculo aproximado, não se exageraria ao
afirmar que mais de uma geração já não tem memória de
vida do que seja esse país antes do governo petista) não
consegue dimensionar realmente o que seja uma socie-
dade cindida; podem até viver na pele experiências de
humilhação, saber muito bem o que seja desigualdade,
mas viveram num contexto cultural e econômico no qual
se disseminava a compreensão de que o Brasil entrava
finalmente entrando nos trilhos, que sairia da condição
3 - Essa afirmação é literal, consta em
de subdesenvolvido e ingressaria como um país amadu-
uma entrevista televisiva concedida ao
recido no cenário internacional. Em poucas palavras, a programa da entrevista à TV Câmara
desigualdade social aparecia escamoteada sob discursos do Rio de Janeiro, que creio não ser de
de conciliação, e agora a cisão política do país expõe, de difícil acesso pela internet. Para uma
maneira mais direta, essa cisão social primordial. análise minuciosa de trechos dessa
Não é preciso, todavia, muito esforço para lem- entrevista, conferir o texto de Priscila
brarmos que o Brasil é, na verdade, fruto de uma cisão; e Figueiredo: Ouvir Bolsonaro? Disponível
isso em inúmeros sentidos. Pensemos, antes de qualquer em: http://outraspalavras.net/brasil/ouvir-
outro, no sentido territorial, naquela partilha da América -bolsonaro/
feita pelos colonizadores (traçado de Tordesilhas) e dos
inúmeros matizes de divisões sociais que o constituíram:
aqui era propriedade formalmente dos portugueses e
território dos nativos. Com a enorme extensão de terras
que os portugueses abocanharam se impôs o problema,

53
4 - https://www.nexojornal.com.
br/expresso/2016/05/03/O-que-%-
C3%A9-o-Nuit-Debout-movimento-
-de-rua-que-pretende-revolucionar-a-pol%-
que aliás permaneceu durante toda a história do país, de C3%ADtica-na-Fran%C3%A7a
como expandir a colonização para além das zonas litorâ-
neas, interiorizando então a posse real das terras. 5 - https://dicionarioegramatica.
E esperneiem o quanto quiserem, mas só o lulis- com.br/2016/05/02/presidenta-
mo deu alguns passos em direção a outra realidade de -e-mais-antigo-e-tradicional-em-
superação real da miséria e passos para atenuar as de- -portugues-do-que-a-presidente/
sigualdades e todos sabem que vem muito disso a pro-
jeção internacional que o país teve com a figura do Lula.
É certo, porém, que se que o lulismo não foi o primeiro
projeto desenvolvimentista de país (se o mais relevante nado neste país. Não há mais uma cren-
pela dimensão nacionalista e pela amplitude do projeto ça profunda nas possibilidades de repre-
foi o governo Vargas, o governo JK talvez seja o momento sentação política e isso no mundo inteiro,
com marcas as mais simbólicas, como a construção de seus limites foram gritados pelas ruas nas
uma nova capital), talvez não se exagere em apresentá-lo diversas manifestações da mais recente
como último herdeiro de uma ambição desse jaez. Mas primavera política. Mas, num país como
um governo que colocasse como prioridade a erradica- o nosso, essa crise não é vivida como tal,
ção da miséria e conseguisse de fato algum arranjo com isto é, com todas as contradições e dile-
as forças sociais que permitisse a execução das políticas mas políticos que comportaria no cená-
sociais, isso me parece algo novo, sobretudo, realizado rio político, com discussões para a deci-
com processos políticos muito mais participativos em são democrática das formas de lidar com
comparação com qualquer outro na história do país. Sem a crise; na verdade, as consequências da
deixar de dar seguimento a vários elementos de políti- crise, o óbvio arrocho, são impostas pela
cas neoliberais, as políticas sociais do lulismo se torna- violência.
ram paradigma internacional de gestão da pobreza, bem Isso retoma um projeto de socie-
como das ditas vulnerabilidades sociais e das bancárias. dade bem tupiniquim, no qual, em última
A descrença e o enorme distanciamento da po- instância, “tudo bem morrer alguns ino-
pulação em relação à política também não são novidade centes”, como declarou em 2009 o depu-
se lembrarmos que um traço constante dessa tradição tado Messias, que recentemente declarou
desenvolvimentista é o autoritarismo. Eis aqui um cur- voto pelo afastamento da presidenta de-
to-circuito assustador que precisa ser sublinhado, pois dicando-o àquele que a fez sofrer sob tor-
a história do PT não deveria se acomodar muito bem tura. É devido a essa imagem de país que
a essa herança – mas ao que parece, o leito de Procus- não faz questão nenhuma de integrar sua
to foi construído e a democracia participativa desposa sociedade que a mídia internacional (6)
elementos autoritários de outras linhagens da formação vem insistindo em retomar termos como
nacional. De sorte que a mencionada cisão social no Bra- “república das bananas” para descrever o
sil não se funda também na suposta crise econômica da Brasil. Portanto, é em nome desse “con-
crise política: se há uma crise, ela é mundial. Como de- junto da obra” que muitos votos pelo im-
monstra inequivocamente as primaveras de 2013, e mais pedimento foram proferidos.
recentemente o “Nuit-Debout (4)” parisiense.
O que me parece se explicitar-se – ressalvas feitas
ao fato de que o afastamento da presidentA (5) (pra quem
não aprendeu nos seis anos de governo dela, há, sim, essa
flexão de gênero que os jornais fazem questão de não
adotar para lhe mostrar resistência; se alguma crítica é
possível, é a de pedantismo, pois se trata de um arcaísmo)
não deixa de ter certa carga simbólica de rompimento 6 - http://www.dw.com/pt-br/imprensa-
com tudo que o PT representou de bom (ou não) –, é a -alem%C3%A3-v%C3%AA-derrota-e-de-
falência da expectativa de que o fosso inevitável entre as clara%C3%A7%C3%A3o-de-fal%C3%A-
instituições e os indivíduos possa ser realmente gover- Ancia-de-um-pa%C3%ADs/a-19251950

54
É por todo esse passado que insiste em se fa-
zer presente que pretendi registrar sobretu-
do o oximoro de experiência de tempo que
este país há tempos oferece. A sensação de
volta ao passado, de repetição ou, pelo me-
nos, certo déjà vu, é generalizada. Chamou-
-me a atenção, em primeiro lugar, o resgate,
nas redes sociais, nas semanas seguintes à
decisão na Câmara a obra de Wesley Duke
Lee (7), artista brasileiro cuja obra produzida
durante a ditadura não deixa de registrar os
volteios temporais em tela aqui neste texto.
Na época do lema “Brasil – Ame-o ou deixe-
-o”, o artista se vale do design da propaganda
oficial para sobrepor os dizeres “Brasil: hoje
é sempre ontem” e, com isso, registrar, inclu-
sive formalmente, as sinuosidades e máculas
da história brasileira.

Destaco, em seguida, charge atribuída a Millôr, mais uma figuração dessas inversões
temporais. Um homem de meia-idade, com um relógio que se destaca no pulso, brinca
com a areia que lhe escorre das mãos, remetendo a uma ampulheta. Abaixo os dizeres:
“O Brasil tem um enorme passado pela frente”. Uma missão? Um obstáculo a ser supe-
rado? Certamente não uma reiteração da ideia de que o Brasil se realiza no futuro.

7 - A imagem foi reti-


rada desse blog: http://
artesemlei.blogspot.com.
br/2010/10/hoje-e-sem-
pre-ontem-wesley-duke-
-lee.html

8 -Para algumas infor-


mações, conferir: http://
www.dw.com/pt-br/revi-
vendo-o-pa%C3%ADs-do-
-futuro-de-stefan-zwei-
g/a-4210755

A propósito desses rodopios temporais, não custa lembrar que se trata do país
sobre o qual tanto pesa o fardo de ser aquele que, desde seu “descobrimento”, se imagi-
nava ser um paraíso na Terra, conforme já explicita o título do interessantíssimo livro
do pai do Chico Visão do Paraíso. Expectativa que é reformulada infinitamente... desde
o lema imemorial “Brasil, país do futuro”(8) (que chegou a figurar como título de livro
de um austríaco que morou no Rio na década de 30, Stefan Zweig), até os slogans de JK,
que não conseguem realizar o ufanismo progressista pretendido na compressão tempo-
ral “Cinquenta anos em cinco”. (Não posso, porém, deixar de registrar que a experiência
de tempo que o “novo tempo do mundo” propicia – conforme análise de Paulo Arantes
propõe em âmbito mundial –, isto é, a de uma perenidade indefinida do presente, tem
alguma proximidade com o que o Brasil oferece... Estamos na vãguarda?)

55
Àqueles que acreditaram na possibilidade de que a
geração de jovens, sobretudo negros (para os quais
9- Ver a matéria do Valor Econômi-
o sonho de ascensão social se limitava ao futebol e à co: http://www.valor.com.br/politi-
carreira daquilo que nas TV’s se chama de “artistas”) ca/4558727/alexandre-de-moraes-o-
que ingressaram na universidade, pública e particular, -pit-bull-de-temer
por meio das políticas sociais do lulismo, pudesse,
com um olhar retrospectivo, rever a história do país,
o fim violento do governo lulista pode soar como
um golpe no sonho utópico sempre adiado de um
país integrado socialmente. Aos que até gostariam de
acreditar na possibilidade de que esses jovens vies-
sem a resistir e a demandar a consolidação do pouco
a que tiveram acesso, mas também não conseguiam
10 - http://m.folha.uol.com.br/
fechar os olhos para os desastres sociais das políticas
colunas/monicabergamo/2016/05/
que reabilitaram (ao menos o imaginário) desenvolvi- 1770509-slogan-do-governo-temer-
mentista e, como tal o individualismo empreendedor, -sera-ordem-e-progresso.shtml
nem se furtaram a denunciar as contradições que
marcaram inclusive as políticas sociais mais elogiadas
do lulismo, para esses, o Brasil do PT talvez não traga
saudades, mas certamente vão, junto com os primei-
ros, sofrer nas costas as bordoadas das políticas do
ministro da Justiça (com ascensão meteórica para
o STF), já apelidado muito adequadamente de pit-
-bull(9), bem como padecer da temerária verve refor- 11 - Aqui aludo a um funcionário do
mista agora inevitável. senado que desenha com o aspi-
Por aí se pode compreender que o slogan de rador de pó a bandeira nacional e,
governo pensado durante o período de conspiração, como que numa revolta, resolve não
“ponte para o futuro”, se conduz para algum lugar mais decalcar o lema nacional. Ver
é para o passado. Tanto assim é que, com alguma a notícia: https://noticias.uol.com.
coerência sugerida pelo marqueteiro(10) , foi mudado br/ultimas-noticias/agencia-esta-
do/2015/12/21/no-senado-a-bandei-
para “Ordem e Progresso”, lema positivista de nossa
ra-sem-ordem-e-progresso.htm
bandeira que retoma a frase de Comte: “O amor por
princípio, a ordem por base, e o progresso por fim” e,
como alguns(11) já bem notaram e outros quiseram
quixotescamente(12) recuperar: o amor ficou p’ra
trás. Com isso tudo, em mais um sentido se configura
um aborto – do que exatamente também não sabere-
mos. 12 - Aqui a referência é a nosso eter-
no Quixote, o senador Suplicy que já
propôs incorporar o “amor” no lema
de nossa bandeira.

56

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