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Amanda Cristina Simões da Cunha – RA 99446

Resenha – O Alienista (Machado de Assis)

O Alienista é um conto de Machado de Assis, publicado em 1882. Narra a história do


dr. Simão Bacamarte, um médico formado na Europa, muito estudioso e profundamente
interessado nas ciências. Ele regressa ao Brasil, mais precisamente a Itaguaí, aonde se casa
com dona Evarista da Costa e Mascarenhas, uma senhora aparentemente sem atributos de
beleza física - o que, para o médico, era uma vantagem, já que ela não ofereceria distrações ao
seu verdadeiro interesse, o científico. Seu único objetivo, com o casamento, era gerar
descendentes, o que, para infortúnio de Simão, não aconteceu.
Agora mais uma vez totalmente voltado para a medicina, seu interesse maior se deu no
âmbito psicológico. Bacamarte observara que os “loucos” da cidade ficavam trancados em
suas casas. Os menos problemáticos circulavam livremente pelas ruas. O médico, então,
propõe à Câmara a criação de uma casa que reuniria todos os doentes mentais para estudo e
tratamento. A proposta foi aprovada posteriormente, sendo inaugurada a chamada Casa
Verde.
Após a inauguração da Casa, surpreendeu a quantidade de pessoas que passaram a
habitá-la. O alienista compartilhava com Crispim Soares a sua vontade de catalogar os
diversos níveis de loucura que lhe estavam sendo apresentados, e encontrar para elas uma cura
universal. Esse trabalho passou a ocupar totalmente os seus dias, tendo ele feito uma
classificação inicial entre mansos e furiosos, e definindo, a seguir, características mais
detalhadas de cada enfermo.
Dona Evarista passou a se considerar abandonada pelo marido, por conta do seu
trabalho. O alienista sugeriu a ela uma viagem para o Rio de Janeiro, ideia que a agradara.
Porém, ela não sabia de onde tiraria dinheiro para tal. Neste momento, Simão revela a fortuna
que já havia acumulado por conta da Casa Verde – e a partir daí, as reclamações iniciais de
Evarista, então, tornaram-se agradecimento.
Com a questão dos pacientes se tornando verdadeira obsessão, o alienista convida
Crispim Soares a conhecer sua mais nova teoria formulada, a qual afirmava que a loucura é
muito mais abrangente do que se pensava, sendo poucos os que podem ser considerados sãos
– em suma, apenas aqueles que não apresentarem absolutamente nenhum desvio de
comportamento. Embora achasse um pouco extremista a teoria, Soares não deixou de apoiar
Bacamarte.
Seguindo essa lógica, o doutor começa a internar, pouco a pouco, a maioria dos
habitantes da cidade. A internação de Costa, por exemplo, se deu por ele ter herdado uma
grande fortuna e emprestado para as pessoas sem cobrar juros, terminando na miséria. O
descuido com seus bens foi visto por Bacamarte como prova de seu desequilíbrio mental.
Uma prima de Costa, ao tentar defende-lo, também foi encarcerada. Casos como esses
levaram os habitantes da cidade a acreditar que a Casa Verde era uma prisão, e que as pessoas
eram internadas arbitrariamente.
Os boatos cresciam e uma verdadeira rebelião foi instaurada na cidade, com a
liderança do barbeiro Porfírio. Após ter petição para que a Casa fosse encerrada ignorada na
Câmara, o líder dirigiu a manifestação até o próprio local. O alienista tenta defender seu
estabelecimento, mas não convence a multidão. Um ataque direto só foi impedido por conta
da chegada dos guardas.
Apenas parte dos manifestantes se intimidou e dispersou. Os guardas passaram a usar
as armas, e a rebelião parecia contida, até que parte deles passou a defender os rebeldes.
Logo, todos os guardas haviam mudado de lado, recusando-se a atacar seus semelhantes.
Porfírio se aproveita dessa nova força para invadir a Câmara e tomar o poder.
Simão não ofereceu resistência para receber Porfírio. Foi surpreendido ao saber que a nova
autoridade só exigia a libertação de alguns loucos, atendendo ao apelo popular. A Casa em si
não precisaria deixar de existir. Enquanto isso, Bacamarte observou, neste diálogo, “dois
lindos casos” de insanidade: no barbeiro, por mudar tão facilmente suas convicções. E na
população de rebeldes, que levou algumas dezenas à morte. Porfírio saiu da Casa Verde
afirmando que a situação se resolveria, porém, dentro da ordem.
Pelo contrário, em poucos dias, várias pessoas apoiadoras do governo haviam sido
internadas. Porfírio foi rapidamente considerado um traidor, e o barbeiro rival se elegeu o
novo governante. Ciente da confusão instaurada na cidade, o vice-Rei enviou tropas com a
função de restaurar o regime original, com a reabertura da Câmara, e ainda mais poder cedido
ao alienista. Com o tempo, praticamente toda a população estava encarcerada, pois qualquer
caso de mentira, vício ou fofoca era argumento para internação. O ápice da situação ocorreu
quando a própria esposa do médico fora internada, sob o pretexto de ter se tornado consumista
e narcisista.
Após um momento de reflexão, com a maior parte da população presa, Simão pondera
que a loucura real, em contrapartida à sua primeira teoria, seria apresentar um equilíbrio
psicológico absoluto. Estes, sim, deveriam ser internados na Casa Verde. Com isso,
Bacamarte redigiu um ofício à Câmara, comunicando que soltaria todos os loucos. A sua
liberdade foi amplamente comemorada.
O novo conceito de loucura, estabelecido no quarto parágrafo do ofício, a ser tratado
na Casa Verde, era apresentar faculdades mentais perfeitas. A Câmara, a fim de evitar novos
extremismos, legislou que os vereadores não poderiam ser aprisionados. Um único vereador,
Galvão, foi contrário a essa medida. E, devido aos seus argumentos extremamente
equilibrados, ele foi o primeiro a ser internado. Outros foram aprisionados por razões
semelhantes – extrema sensatez, sinceridade, tolerância... os familiares dos ‘novos loucos’
novamente se revoltaram, pedindo auxílio a Porfírio, o qual recusou-se a participar de um
novo conflito. Sua atitude sensata, inclusive, levou-o a ser confinado novamente no hospício.
Apoiado pela Câmara para continuar os tratamentos por mais seis meses, Bacamarte
submeteu seus internos a desequilíbrios psíquicos. A Casa Verde se via vazia novamente,
quando o médico deu vazão aos seus pensamentos mais profundos. Concluiu que seus
tratamentos propiciaram apenas um desequilíbrio latente à mente dos seus pacientes –
portanto, não havia nenhum louco em Itaguaí. Ao refletir uma última vez, entendeu que o seu
próprio cérebro, sim, era completamente consertado. E, desta forma, internou a si próprio na
Casa Verde, morrendo dezessete meses depois, e sendo considerado “o único louco de
Itaguaí”.